5º prêmio

Construindo
a Igualdade
de Gênero
Programa
Mulher e
Ciência
Redações, Artigos Científicos
e Projetos Pedagógicos
Premiados
Promoção
Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM/PR
Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT
Ministério da Educação – MEC
Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico – CNPq
Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – UNIFEM
www.igualdadedegenero.cnpq.br
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Secretaria de Políticas
para as Mulheres
5° Prêmio
Construindo
a Igualdade
de Gênero
Programa
Mulher e
Ciência
5° Prêmio
Construindo
a Igualdade
de Gênero
Redações,
Artigos Científicos e
Projetos Pedagógicos
Premiados
www.igualdadedegenero.cnpq.br
Brasília 2010
Programa Mulher e Ciência • 5ª Edição
5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Promoção
Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM/PR
Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT
Ministério da Educação – MEC
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científco e Tecnológico – CNPq
Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – UNIFEM
Co-promoção
Assessoria de Comunicação Social do CNPq /Serviços de Prêmios
Secretaria de Educação Básica – SEB/MEC
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – SECAD/MEC
Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República
Nilcéa Freire
Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres
©2010. Presidência da República
Secretaria de Políticas para as Mulheres
Elaboração, distribuição e informações
Secretaria de Políticas para as Mulheres – Presidência da República
Via N1 Leste s/nº, Pavilhão das Metas, Praça dos Três Poderes –
Zona Cívico-Administrativa
70150-908 – Brasília-DF
Fone: (61) 3411-4330
Fax: (61) 3327-7464
spmulheres@spmulheres.gov.br
www.spmulheres.gov.br
Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
Projeto Gráfco
Aldo Ricchiero
Revisão
Luana Nery Moraes
É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte.
Biblioteca/SPM/PR
Brasil. Presidência da República. Secretaria de Políticas para as Mulheres.
5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero – Redações, artigos
científcos e projetos pedagógicos vencedores – 2010. Brasília: Presidência da
República, Secretaria de Políticas para as Mulheres, 2010.
200 páginas
1. Igualdade de gênero. 2. Estudos de gênero. I. Título.
CDU 396.1
Sumário
Apresentação, 11
Introdução geral, 14
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
Artigos científcos premiados
Introdução, 17
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres... chinesas!, 18
(Representações sociais, alteridade e Gênero)
João Gilberto da Silva Carvalho
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
O que queres tu mulher? Manifestações de gênero no debate, 39
de constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”.
Luciana Santos Silva
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)
Categoria Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado
Artigos científcos premiados
Introdução, 61
Discursos femininos – um estudo sobre a relação entre mulheres e corrupção, 62
Ana Luiza Melo Aranha
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
As personagens femininas em Macunaíma, 83
Sexualidade e Gênero no modernismo pós-1922
André Luiz Ferreira Cozzi
Universidade Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (UFPA)
Relação dos artigos científcos premiados com Menção Honrosa, 102
Categoria Estudante de Graduação
Artigos científcos premiados
Introdução, 104
As Aparências e Os Gêneros: uma análise da indumentária das Drag Queens, 105
Emerson Roberto de Araujo Pessoa
Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Gênero e sexualidade na escola de surdos, 117
Pedro Henrique Witchs
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)
Relação dos artigos científcos premiados com Menção Honrosa, 127
Categoria Estudante de Ensino Médio
Introdução, 129
Categoria Estudante de Ensino Médio
Redações premiadas na Etapa Nacional
Goias – Goiânia, 132
O diário de um transexual
Nathalia Gomes Mialichi – Colégio Dinâmico
Rio Grande Do Sul – Novo Hamburgo, 136
Seguindo a menina da manutenção
Felipe dos Santos Machado – Fundação Escola Técnica
Liberato Salzano Vieira da Cunha
Santa Catarina – Canoinhas, 138
Imortalidade desmedida
Tamiris Grossl Bade – Escola de Educação Básica Almirante Barroso
Categoria Estudante de Ensino Médio
Redações premiadas na Etapa por Unidade da Federação
Bahia – Guanambi, 142
Escrevendo um diário
Mauro Marcelo Queiroz de Arruda Sobrinho – Colégio Nóbrega
Maranhão – Dom Pedro, 144
Maria da Mulher
Rodrigo Humberto Otávio dos Santos – Associação Educacional
Professora Noronha
Minas Gerais – Viçosa, 148
Memórias de uma mulher na condução da vida
Adnilson Brás da Silva Santana – Colégio de Aplicação da
Universidade Federal de Viçosa
Paraíba – João Pessoa, 151
Procura-se mulher! Favor retornar este aviso com urgência
Maria Tamara de Lacerda Souza – Centro Federal de
Educação Tecnológica da Paraíba
Pernambuco – Carnaúba, 154
Mulher, virtudes e preconceitos
José Anchieta de Siqueira – Escola de Referência Joaquim Mendes da Silva
Rio De Janeiro – Magé, 159
Choram Marias e Clarisses
Tamires Trianon Rodrigues dos Santos –
Centro Educacional Renato Cozzolino
Rio Grande Do Norte – Natal, 162
O dia M
Lucas Marcelino dos Santos – Centro Federal de Educação Tecnológica do RN
São Paulo – São Paulo, 165
Mulher: de Inspiração a Inspirada
Stephanie Gaspar – Colégio Cristóvão Colombo
Relação das redações premiadas com Menção Honrosa, 168
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
Projetos pedagógicos premiados
Introdução, 170
Região Centro-Oeste – Goiás – Aparecida de Goiânia, 171
Saúde e prevenção: pensando as relações de gênero e sexualidade
no espaço escolar
Colégio Estadual Dom Pedro I
Região Nordeste – Pernambuco – São José do Egito, 172
Discutindo Gênero na Escola: Por uma abordagem científca e interdisciplinar
Escola de Referência em Ensino Médio Oliveira Lima
Região Sudeste – São Paulo – Osasco, 173
Discutindo a igualdade: mulher, mãe e cidadã
Escola Estadual Professor Armando Gaban
Região Sul – Paraná – Apucarana, 175
Projeto Raízes: diversidades étnico-raciais e de gênero
Colégio Estadual Osmar Guaracy Freire
Em seus cinco anos de
existência,o Prêmio se constituiu
como relevante indicador sobre o
crescimento da cultura de direitos
humanos nas escolas brasileiras.
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
11
Apresentação
Apresentação
A promoção da igualdade de gênero é uma dimensão estratégica a ser
considerada no processo de construção das políticas públicas.
No campo educacional, marcos normativos constitucionais e infraconstitu-
cionais brasileiros - como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, o III Programa
Nacional de Direitos Humanos, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos,
o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres - sinalizam para a construção de
uma educação inclusiva, não sexista, não racista, não homofóbica e não lesbofóbica.
Neste contexto, resta-nos a tarefa de dar efetividade às normas que garantem os di-
versos direitos e viabilizar, por meio da educação e da formação de valores, atitudes
não discriminatórias e libertárias. A cada dia aprofunda-se a valorização da cultura
de direitos humanos por parte do Estado brasileiro, o que está expresso, por exem-
plo, na adoção de medidas e compromissos no campo educacional, de forma a redu-
zir a desigualdade de gênero e enfrentar o preconceito e a discriminação de gênero,
étnico-racial, religiosa, geracional e por orientação sexual. Por tudo isso, buscamos
consolidar essas perspectivas no âmbito da formulação das políticas educacionais,
assim como na do respeito à diversidade em todas as suas formas, de modo a garantir
uma educação igualitária.
Nesse contexto, como parte do Programa Mulher e Ciência, a Secretaria de
Políticas para a Mulher (SPM/PR), em parceria com o Ministério da Educação (MEC),
Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científco e Tecnológico (CNPq) e com o Fundo de Desenvolvimento das Nações
Unidas para a Mulher (UNIFEM), desenvolveu o Prêmio Construindo a Igualdade de
Gênero. O Prêmio, que se encontra agora em sua quinta edição, é direcionado a um
público vasto: estudantes de Ensino Médio, graduandos, especialistas, mestrandos,
doutorandos e a escolas que gerem ações de promoção da igualdade de gênero em
seu cotidiano. Cabe ressaltar que a modalidade Escola Promotora da Igualdade de
Gênero é uma iniciativa que provavelmente ampliará e replicará as boas experiências
que existem nas escolas brasileiras, além de fomentar o envolvimento da comunidade
escolar em torna do debate sobre a igualdade.
Em seus cinco anos de existência, o Prêmio se constituiu como relevante
indicador sobre o crescimento da cultura de direitos humanos nas escolas brasileiras.
De 2005 a 2009, a participação das/os estudantes aumentou signifcativamente
em todas as categorias premiadas, o que demonstra o crescente interesse das/os
estudantes, professoras(es) e outros profssionais da educação na temática. Exemplo
desse interesse pode ser percebido nos resultados da quinta edição: o Prêmio recebeu
3703 inscrições, sendo 2976 redações do Ensino Médio; 271 trabalhos de estudantes
de Ensino Superior; 283 artigos de graduados, especialistas e mestrandos; 156
artigos de mestres e doutorandos; e 17 trabalhos oriundos das Escolas Promotoras
da Igualdade de Gênero.
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
12
Agradecemos com especial atenção a todas as pessoas e instituições que
participaram em todas as etapas da 5º Edição do Prêmio Construindo a Igualdade
de Gênero: às professoras e professores que orientaram suas alunas e alunos; às/aos
dirigentes de escolas que divulgaram e sensibilizaram o público para a temática;
às comissões julgadoras que prontamente participaram do processo de análise e
seleção; à equipe da SPM e dos demais parceiros que trabalharam cotidianamente
para viabilizar o Prêmio: MEC, CNPq e UNIFEM.
Desejamos que esta publicação, que apresenta os bons resultados sobre a
refexão direcionada para a promoção da igualdade de gênero em nossas salas de
aula, sensibilize a cada um e a cada uma que se debruçar sobre ela. Nosso desejo e
nossa esperança é que ela seja mais um instrumento para a ampliação da igualdade
entre brasileiras e brasileiros.
Nilcéa Freire
Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres
Apresentação
O 5º Prêmio Construindo
a Igualdade de Gênero
recebeu a inscrição
de 3.703 trabalhos
8%
Graduado, Especialista e
Estudante de Mestrado
81%
7%
Estudante de Graduação
Estudante de
Ensino Médio
0%
Escola Promotora da
Igualdade de Gênero
4%
Mestre e Estudante
de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
14
Introdução geral
A primeira constatação é que o número de participantes da 5ª Edição do
Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero mais que dobrou quando se compara
ao ano de 2005, da primeira edição: das 1.587 inscrições de 2005, estas alcançaram
o número de 3.703 em 2009. Provavelmente, este crescimento signifca uma maior
divulgação da temática de gênero na comunidade acadêmica, como também
no sistema educacional brasileiro. Este impacto ainda é tímido diante da massa
estudantil brasileira, mas seguramente no âmbito do Ensino Médio, este prêmio
signifca um dos grandes certames vivenciados pelas instituições de ensino.
Fonte: CNPq/SPM, 2009.
O 5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero recebeu a inscrição de 3703
trabalhos. Deste total, 156 foram inscritos para concorrer nas categorias “Mestre e
Estudante de Doutorado”, 283 para “Graduado Especialista e Estudante de Mestrado”
e 271 para “Estudante de Graduação”.
A Comissão que julgou os artigos científcos pré-selecionados nas categorias
do ensino superior – Mestre e Estudante de Doutorado; Graduado, Especialista e
Estudante de Mestrado; e Estudante de Graduação – foi composta pelos seguintes
membros: Mirian Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (presidenta
da Comissão); Anita Brumer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Deis
Siqueira, da Universidade de Brasília; Durval Muniz de Albuquerque Junior, da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Mary Rangel, da Universidade Federal
Fluminense; e Reinaldo Matias Fleuri, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Introdução
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
15
Reunida em 18 de março de 2010, a Comissão Julgadora selecionou as
ganhadoras e os ganhadores das categorias “Mestre e Estudante de Doutorado” (1
mulher e 1 homem), “Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado” (1 mulher e 1
homem) e “Estudante de Graduação” (2 homens).
Os artigos científcos foram selecionados obedecendo aos critérios de
qualidade do texto quanto ao conteúdo e à forma de apresentação; originalidade da
abordagem; contribuição ao conhecimento sobre o assunto; e adequação teórica e
metodológica.
As premiadas e os premiados na categoria “Mestre e Estudante de
Doutorado” receberam R$ 10.000,00 (dez mil reais). Na categoria “Graduado,
Especialista e Estudante de Mestrado”, receberam R$ 8.000,00 (oito mil reais) e na
categoria “Estudante de Graduação”, R$ 5.000,00 (cinco mil reais). As premiadas e os
premiados, se adequados aos critérios do CNPq, podem receber bolsas de estudo do
CNPq para desenvolvimento de projeto na área/tema do Prêmio.
Os departamentos a que pertencem as(os) premiadas(os) de todas as
categorias receberam uma assinatura anual da Revista Estudos Feministas e do
Cadernos PAGU. As duas publicações também foram ofertadas às professoras e aos
professores orientadores.
Introdução
Categoria
Mestre e
Estudante de Doutorado
Artigos Científcos Premiados
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
17
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
Introdução
Nesta categoria, foram inscritos 156 artigos, sendo que 79% dos artigos
concorrentes foram de autoria feminina. No processo de pré-seleção, foram
selecionados 123 artigos científcos, correspondendo a 79% do total.
5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero – Categoria Mestre e
Estudantes de Doutorado Artigos inscritos, segundo sexo
Sexo Quantidade %
Masculino 33 21%
Feminino 123 79%
Total 156 100%
Fonte: CNPq/SPM, 2009.
Fonte: CNPq/SPM, 2009
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
18
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres... chinesas!
(Representações sociais, alteridade e Gênero)
João Gilberto da Silva Carvalho
1
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Orientadora: Angela Arruda
1. Introdução
As sociedades em que as mulheres são subordinadas aos homens são
chamadas de patriarcais. O patriarcado existe como forma de dominação familiar,
no qual a hegemonia é masculina e “tem duas dimensões intrínsecas básicas: a
dominação do pai e a dominação do marido, nessa ordem” (Terborn, 2006, p. 29).
Mas a desigualdade entre gêneros está ligada ao sistema social num sentido amplo. O
patriarcado atravessa o tempo e se ajusta ao espaço, o que explica sua permanência,
não obstante as variações contextuais na condição feminina. Um bom exemplo para
ilustrar o contraditório imaginário ocidental acerca das mulheres é o estudo clássico
de Junito Brandão (1989) sobre o mito de Helena.
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas
(Chico Buarque – Mulheres de Atenas)
O arquétipo da Grande Mãe minóica – ou a deusa da vegetação espartana
– transformou-se na mera traidora dos tempos pós-homéricos. Assim, na Guerra
do Peloponeso, a imagem de Helena oscilou de acordo com os contendores,
Esparta e Atenas; a degradação do mito expressa não só a hegemonia masculina e
a predominância do poder patrilinear, como as transformações sociais e históricas
da própria Grécia antiga. A Grande Mãe é incorporada como sombra e pesadelo dos
ideais masculinos característicos da ocidentalidade.
A origem do patriarcado é estabelecida pela consciência da paternidade e a
conseqüente proibição do incesto, marco da civilização para a escola de Durkheim
(Horkheimer & Adorno, 1973, p. 135). As sociedades machistas em geral são
caracterizadas pela repetição de estruturas presentes nos mitos: “[...] a problemática
sombria dos arquétipos do masculino, a constante competição, característica
da cultura machista, a incapacidade de criatividade e originalidade” (Boechat,
p. 1995, p.33). A antropologia do século XIX criou a hipótese dos três estágios do
desenvolvimento da instituição familiar: promiscuidade, matriarcado e patriarcado.
Com base em Morgan e Bachofen e na esteira do evolucionismo predominante em sua
época, Engels (1978, p.51) afrma que entre “todos os selvagens e em todas as tribos
1 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Bolsista da CAPES.
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
19
que se encontram nas fases inferior, média e até (em parte) superior da barbárie, a
mulher não só é livre, como também, muito considerada”. O mito de que sociedades
matriarcais eram isentas de confitos permeia igualmente o discurso daqueles que
defendem as vantagens de um mundo governado por mulheres. Mas o século XIX
também é o período áureo das idéias evolucionistas, segundo as quais existe apenas
um desenvolvimento possível para as sociedades, numa escala que vai do bárbaro ao
civilizado. Paradoxalmente,
tudo que a civilização produz é também dúbio, ambíguo, equívoco,
contraditório: de um lado o heterismo, incluída sua forma extrema, a
prostituição. O heterismo é uma instituição social como outra qualquer,
e mantém a antiga liberdade sexual em proveito dos homens (Engels,
ibid. p. 72).
Então, o que se admite como princípios ou conceitos de natureza universal
são projeções ou afrmações da identidade Ocidental. O eurocentrismo é a marca
registrada da modernidade, esse conceito que parece expressar tudo e não dizer
nada. É possível equiparar civilização, ocidentalidade, modernidade e Europa,
pois Ocidente não signifca apenas um espaço geográfco, mas corresponde
principalmente a uma geografa imaginária (Said, 2007) – um espaço geopolítico,
portanto. E civilização, nas palavras de Domingues (2003, p.237), “é uma palavra
grande e dura, da qual o Ocidente em geral gostava demais, sobretudo de modo a
afrmar sua hegemonia ideológica”.
A modernidade expressa um conjunto de transformações que tem início,
não obstante a controvérsia quanto aos marcos, entre os séculos XV-XVI. Moderno
em termos literais é o que não é antigo, o que é transformado pelo tempo, um passo
adiante. Novo é o humanismo renascentista, a acumulação primitiva, a escalada
da ciência – sem falar de um Novo Mundo, base para a consolidação da hegemonia
européia. Por outro lado, tantas novidades convivem com os pesadelos medievais:
“Não apenas o homem é mau, mas sua inteligência também, a despeito de certas
aparências, é afnal impotente. Esta segunda afrmação, tão extremista quanto a
primeira, foi proferida ela também, em plena Renascença” (Delumeau, 2003, I, p. 273).
Deus pode ter sido expulso do laboratório (Latour, 1997) e do paraíso reinventado
pelo homem (Rodrigues, 2000), mas está presente nos navios das descobertas e
conquistas, nos sermões dominicais e nas alcovas. A mulher é a responsável pelo
pecado do qual todos nós somos flhos e o “casamento é ´perigoso´ porque a mulher,
mesmo casada, é perversa” (Delumeau, ibid., II, p. 202). Assim,
a atração pelo macabro, o sentimento de que o mundo é frágil foram
vivenciados por uma parte ampla da elite e marcaram profundamente
a cultura da época. No centro dessa melancolia, descobre-se a amarga
certeza de que o homem é um grande pecador (Delumeau, 2003, I, p. 357).
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
20
A engenharia simbólica característica da modernidade implica na criação
de termos (mandarim, fetiche, por exemplo) e áreas especializadas de conhecimento:
“O movimento do saber irá, a partir de agora, do exterior para o interior, ao passo
que o novo olhar se constitui e entrega um corpo fnalmente dessacralizado a uma
observação externa” (Diehl, 2004, p.266). Interessante contrapor o movimento de
dessacralização do corpo num mundo que se cria no laboratório (Foucault, 1980;
Latour, 1997) e a permanência de estruturas religiosas medievais (Delumeau, 2003).
Em relação à questão de gênero, a modernidade se reveste de importância,
pois cria e consolida os dispositivos de controle dos papéis definidos pela
sociedade, chamados tradicionalmente de “moral burguesa”. A modernidade,
portanto, criou dentro do patriarcado modalidades de subordinação feminina
consoante à lógica geral do sistema – da fábrica à rainha do lar, assim, os papéis
femininos são estabelecidos por um conjunto de representações sociais que se
articulam ao sistema moral, científico e biológico e o naturalizam. Desta forma,
a representação masculina está associada ao conservadorismo do sistema que
lhe sustentava.
Ao analisar as instituições da ordem pós-tradicional (pós-modernidade),
Nolasco (2001) afrma que o deslocamento da noção de tempo e espaço, bem como a
impessoalidade, são marcas registradas da subjetividade moderna, ancorada sob um
referencial individualista. Em obra anterior, a propósito, o autor destaca:
A emancipação do indivíduo na ordem político-social, essa conquista
da modernidade do fnal do século XVIII e das primeiras décadas do
século XIX, emparelhava-se com a afrmação confante e orgulhosa da
individualidade nos domínios da ética e da estética (Nolasco, 1995, p.16).
Parafraseando o título de sua obra – de Tarzan a Homer Simpson – isto é,
da modernidade à pós-modernidade, muita coisa mudou. A mulher continua a
rainha nos lares da periferia, mas há estratos da sociedade em que as “novidades”
desafam os pensadores da questão de gênero. O garboso Tarzan se transforma no
ridículo e politicamente incorreto Homer. Enquanto os processos de controle social
inaugurados pela modernidade estão cada vez mais sofsticados, o número de
variáveis a controlar parece fora de controle. A ciência “amolece” e ramifca-se em
possibilidades e combinações surpreendentes, a despeito da luta contra os ritos e
fetiches (Latour, 2002) das academias.
A emergência da cultura subalterna é outro dado da pós-modernidade. O
esfacelamento do Estado-Nação dá voz ao outro, ao bárbaro, àquele que foi excluído
por conta de sua cultura exótica – exótica aos olhos dos ocidentais europeus, diga-se.
E não se trata de uma concessão ou de um salto qualitativo interno, produzido tão
somente por refexões intelectuais. A presença dos orientais é um fato. Na economia,
nas prateleiras das livrarias, nos cinemas, enfm, o “outro” está na moda. Entretanto,
os parâmetros tradicionais de desenvolvimento e hegemonia social continuam
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
21
vigentes. O que torna possível um adendo às refexões de Latour (1997): (se) “jamais
fomos modernos”, não seremos pós-modernos. “A noção de um masculino defnido
como ação e centro de um sistema de relações (patriarcado) está hoje à mercê de
processos de transformações sociais cujos critérios são tecnológicos e não somente
humanistas-liberais” (Nolasco, 1995, p.27). O que signifca dizer que Tarzan pode ter
sido reduzido a Homer Simpson, mas os dispositivos de repressão e poder (Foucault,
1980) continuam ativos, mesmo que às avessas.
As mulheres trabalham em postos de gasolina, tornam-se comentaristas de
futebol e recolhem lixo. Nada demais, afnal as mulheres sempre trabalharam muito
no campo, até o dia em que foram transformadas pela cultura em criaturas frágeis
à mercê de seus cavalheiros. Não seriam heroínas e sim mocinhas que no cinema
tropeçavam ou eram sempre capturadas no momento da fuga. Agora é o tempo de
Lara Croft, das mulheres tão poderosas quanto impiedosas; da gata à loba, os papéis
mudaram visivelmente, mas as conseqüências sociais estão muito longe da euforia
dos livros que celebram a emergência feminina. As formas de subordinação ou
emancipação da mulher estão associadas a formações sociais complexas, o que pode
signifcar um grau de relativização de suas conquistas e mesmo de perdas. Será que
a contrapartida à emancipação feminina é sua masculinização? Talvez seja possível
enxergar um pouco mais a partir do atrito, da refexão sobre os processos análogos
em outros povos – os excluídos que a pós-modernidade trouxe à tona (Mignolo, 2003).
Não como na busca de maravilhas que conduziu o olhar “ingênuo” do navegante ou
pelas mãos de uma ciência que tão somente referendava os preconceitos sociais.
Então, aproveitando os novos ares, de quebra de paradigmas, e já que nossa busca é
pela compreensão da alteridade, talvez seja possível realizar uma inversão

consciente.
Miremos, pois, não mais as mulheres de Atenas, mas as mulheres da China.
2. Objetivos
A intenção do presente artigo é ousada: refetir sobre a questão de
gênero a partir do olhar construído historicamente em torno da mulher chinesa.
Objetivamente, signifca analisar o imaginário que emerge de um corpus literário e
flosófco: a imagem de mulher chinesa criada por representações que circulam no
Ocidente e consolidaram-se nas demandas cotidianas. O pressuposto básico é de
que seja possível confrontar não apenas o que se fala sobre chinesas, mas também
apoiar-se em textos de autores chineses, nos quais um perfl, ou melhor, uma
imagem pode ser delineada. Há outros objetivos específcos em termos da estrutura
do artigo. Refetir sobre a modernidade ocidental e a criação de imaginários que
permeiam as representações sociais é certamente um deles, bem como o trabalho de
desconstrução que temos diante de nossos olhos em que as certezas e as verdades
se tornaram apenas expressões de alteridade social. Pretendemos articular teoria
e domínios das ciências sociais e assim contribuir para o alargamento de campo e
aplicação das representações sociais enquanto modalidade de psicologia social.
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
22
A identidade, essa certeza de que pertencemos a um determinado grupo ou
comunidade, afrma-se no contato com aqueles em quem percebemos a diferença,
o outro. Um bom exemplo é o turista, aquela fgura excêntrica que de imediato é
percebido como alguém de fora, um forasteiro. No passado distante os navegantes
experimentaram o maravilhamento face à exuberância do Novo Mundo e registraram
seu encantamento ou aversão em epístolas e crônicas, isto é, num tipo específco
de literatura que até hoje recebe a atenção de estudiosos de diversos segmentos
(Greenblatt, 1996). A curiosidade nos incita a conhecer, a conseqüência pode ser a
perplexidade inicial, seguida por identifcação ou aversão ao outro.
A contrapartida da identidade, a alteridade, é fonte de grande parte dos
confitos entre as sociedades. O reconhecimento das diferenças nasce de uma
marca ontológica fundamental em que se opõem sujeitos e objetos. Vigotski (2000)
procurou mostrar em obra clássica como a presença do outro acarreta no indivíduo
a interiorização da fala exterior. A subjetividade emerge, portanto, da relação com
o outro, mesmo que numa condição infernal - parafraseando Sartre – e condição
básica da existência social. O outro é tudo aquilo que agride, interessa, deseja, odeia,
ama – o outro é a própria sociedade e suas representações simbólicas. Giddens
(1991), ao analisar as conseqüências da modernidade, relaciona os processos
geradores de confança na infância e a busca de confança na sociedade: se o outro
é de início a mãe, cuja relação de presença e ausência é fundamental à segurança
ontológica, desdobra-se nos muitos outros balizadores da vida social, sejam eles
peritos ou instituições. Segurança e risco são categorias básicas presentes na análise
do sociólogo que conclui: a modernidade tardia (pós-modernidade) tem acentuado
a sensação de risco.
Se a modernidade foi o tempo da exclusão, da supressão e aniquilamento
do outro, seja pela invasão física e simbólica de povos considerados atrasados e
selvagens, a pós-modernidade incita e implica na incorporação do outro, o excluído –
daqueles que nunca tiveram voz ou tornaram-se invisíveis em sua própria sociedade
(Mignolo, 2003). A emergência da mulher e a questão de gênero têm como base um
contexto histórico caracterizado pela mudança de valores. A minoria, o exótico e o
alternativo estão na moda. Mas como nos mostra Bruno Latour (1997), o discurso da
modernidade é ardiloso, criticá-lo muitas vezes signifca repeti-lo. A “reabilitação”
de um oriente exótico e sábio ou a suposta emergência feminina pode signifcar
a consolidação de estigmas e a manutenção de processos de dominação sob novas
rubricas. Conhecer o “outro” é uma oportunidade e um exercício de autoconhecimento,
o que nos remete à sabedoria de Laozi, o pensador taoísta: “Quem conhece os outros é
inteligente. Quem conhece a si mesmo é sábio” (1978, p. 69).
3. Metodologia
A utilização de elementos da teoria das representações sociais (Moscovici,
2003), articulada aos conceitos de imaginário (Banchs, 2007; Mignolo, 2003) e
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orientalismo (Said, 2007) formaram os parâmetros de nossas análises. Do ponto
de vista metodológico é uma busca de vestígios, pistas – não exatamente como no
paradigma indiciário de Ginzburg (2007), pois essa “mulher chinesa” simplesmente
não existe, materializa-se como construção discursiva, de uma intenção criativa e
um desejo de compreensão. É a mulher que queremos ver e admiramos por aquilo
que desejamos. O suporte desta representação é o que Edward Said (2007) chama
de orientalismo, um conjunto de informações e preconceitos construídos ao longo
dos séculos, a contrapartida cultural e sofsticada da política colonial. A imagem é
construída e reiterada em romances, contos, documentários, conceitos flosófcos,
comentários de jornalistas, blogueiros e visitantes em geral – sobre chineses ou
de chineses, dirigidos ao leitor ocidental e facilmente encontrados nos meios de
comunicação que circulam no Ocidente. Mas não se trata de uma invenção pura
e simples, de uma criação arbitrária. Sem nunca termos visto um chinês, há idéias
e informações a seu respeito. Portanto, sob uma base de contatos reais foram
construídos símbolos para caracterizá-lo; representações forjadas ao longo do
tempo a partir desta massa de informações. É um repertório que empresta sentido
à sua “insólita” cultura – ou ainda, a possibilidade de com eles lidarmos quando
necessário, nos momentos em que o contato existe, face a face. Trata-se de um chinês
imaginado, mas não inventado.
As representações sociais sobre chineses são erguidas sob o princípio
da alteridade e tendo como base um imaginário construído historicamente. Mas
é possível decompor este imaginário amplo em seus elementos básicos – e nos
interessou a mulher chinesa. A imagem que emerge deste amálgama de informações
é contraditória, como pode ser percebida na análise de discurso aqui empreendida.
O consenso (Moscovici & Doise, 1991) obtido ao longo de anos se choca com as
demandas da realidade: o tempo faz e o tempo leva as criações imaginárias. O
século XIX consolidou o “orientalismo”, enquanto o século XX o transformou em
etnocentrismo, racismo ou, no mínimo, alteridade. Em termos sociais é um trabalho
lento, pois a representação só se torna social a partir do instante em que é requisitada
e atualizada nos espaços públicos. O que signifca dizer que ao pensarmos no chinês
ainda utilizamos as mesmas categorias de pensamento tradicionais.
A teoria das representações sociais tem abarcado diferentes campos da
atividade humana (Jodelet, 2001), apesar dos enfoques distintos que derivam
não apenas das vertentes disponíveis na atualidade, ou ainda pela evolução do
pensamento de Moscovici (Castro, 2002), como pela própria natureza complexa da
atividade de representação. Há pontos de contato entre as teorias moscoviciana e de
gênero, como demonstrou em artigo Arruda (2002), emergentes no contexto atual
de mudança de paradigma. Mas os trabalhos voltados à articulação entre gênero e
representações, apesar dos anos que separam, por exemplo, as pesquisas de Arruda
(1998) e Cyrino (2009), não foram sufcientes para consolidar uma tradição. A nossa
premissa básica é de que a “realidade do mundo humano é, em sua totalidade, feita
de representação e não faz sentido falar de realidade em nosso mundo humano
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sem o trabalho da representação” (Jovchelovitch, 2008, p.33). Não nos ocupamos
da representação em sua natureza estruturada e sim com os processos sociais e
históricos que a tornam estruturante, etapas distintas e complementares. Vale
dizer, o imaginário e a memória social que tornam a representação possível. Como
frisaram Moscovici & Doise (1991), a utilização de símbolos por grupos não é um ato
de racionalidade no sentido estrito. A criação e a consolidação de representações
sociais é um processo subordinado aos contextos que as originam e não possui
determinação exata – expressam a complexidade da vida humana.
O conceito de representações sociais acompanhou a evolução do pensamento
de Moscovici, que as desdobrou em representações hegemônicas, emancipadas e
polêmicas (Castro, 2002, p. 965). Outros aprofundamentos foram teorizados, como
a associação entre as representações sociais e as metáforas, realizada por Wagner
(2005); ou as ligações com os estereótipos em Jofe & Staerklé, (2007). Guareschi faz
um apanhado da relação entre as representações sociais e o que chama de “seus
parentes” (Guareschi, 1995, p. 192). No caso de imagens de chineses(as) não podemos
falar de ideologia em sentido estrito ou de metáfora, e mesmo estereótipo nos parece
insufciente. Por confná-los numa situação de alteridade imutável, espécie de
marca indelével de sua raça, trata-se de um estigma (Bauman, 1999), presente em
pensamentos do tipo “a mulher chinesa não é bonita”, “a China não conseguiu atingir
o capitalismo apesar de suas condições”, “os chineses são industriosos, mas pouco
criativos”, como veremos a seguir.

4. Mulher chinesa: entre representações sociais e imaginários ocidentais
Os chineses receberam adjetivos variados ao longo da história e os
estudiosos, mesmo os mais recentes, não se cansam de afrmar: “A China é a mais
antiga civilização viva do nosso planeta” (Leys, 2005, p.11). Para seus defensores,
tal ancestralidade indica uma posição venerável, de força e resistência ao tempo,
espécie de sabedoria depositada ao longo dos milênios; para seus detratores, signifca
imobilismo, ausência de dinamismo. A China dorme e, quando acordar, “salve-se
quem puder”, teria nos advertido Napoleão Bonaparte. O Ocidente criou “o” chinês
– um ser imerso numa história que se acumula ou quando há rompimentos já estão
previstos ou são cópias precárias de modelos europeus. Em obra recente, Fairbank e
Goldman (2006) discutem, no capítulo intitulado “O paradoxo do crescimento sem
desenvolvimento”, o motivo pelo qual a China manchu não conseguiu se industrializar
no século XIX, apesar de seu grande comércio e população. É bem verdade que já no
início da obra os autores nos advertem quanto ao uso indevido de comparações com
a Europa. Não é o caso aqui de evidenciar as inúmeras comparações que realizaram
de fato, mas frisar que somente numa perspectiva única e linear de história os povos
devem passar por estágios idênticos de desenvolvimento. Mas para que não se recaia
numa modalidade de “orientalismo”, será preciso examinar as bases da flosofa
chinesa associadas ao princípio feminino.
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4.1. Taichi: a dança do feminino e do masculino
Masculino e feminino estão associados às rubricas mestras que permeiam
não apenas a flosofa como a praticamente todas as manifestações culturais do povo
chinês: o yin e o yang. Princípios, forças ou emblemas (Granet, 1997) são comparáveis
aos opostos da dialética ocidental. Ao yang corresponde o yin e vice-versa, como se
vê na conhecida fgura e alguns exemplos aqui destacados:


Assim, os fenômenos estão divididos em pares antagônicos. Os pólos escuro
(yin) e claro (yang) indicam substâncias, princípios, forças, enfm, coisas que podem
ser classifcadas e agregadas por identidade; são complementares, um não existe sem
o outro. Na fgura do taichi ( fgura acima) observa-se que cada um deles contém a
semente do outro. Em termos flosófcos, signifca a inexistência de princípios absolutos
e a base da mudança. O predomínio de um pólo acarreta desequilíbrio, indesejável na
natureza e na vida humana. Portanto, yang e yin se revezam infnitamente de acordo
com os ciclos da natureza (hsing). Há parábolas e contos que expressam a sabedoria
que deriva desta compreensão: nada é defnitivo, como no ideograma chinês para
crise, que é composto de duas parte, perigo e oportunidade. Nada é eterno a não ser
a própria eternidade, quer se trate da felicidade humana, dos ciclos da natureza ou
das possibilidades de uma boa safra. O pensamento chinês enfatiza que o equilíbrio
entre o yin e o yang é a receita para a saúde física, social e mental. Nesse sentido, o
predomínio absoluto do masculino ou do feminino pode ser ruinoso; se ao taoísmo se
trata de uma questão de harmonia energética, para o confucionismo é de adequação
aos ritos. Assim, o mundo dos homens é subordinado a princípios mais gerais ou, em
termos simbólicos, à relação entre yin e yang. Na representação de Fuxi e Nügua – o rei
fundador e sua esposa –, o casal se apresenta entrelaçado por caudas; ele portando um
esquadro, ela um compasso e independentemente das muitas interpretações sobre a
gravura, há o notório equilíbrio de yin e yang (Gall, 1980, p. 27).
O equilíbrio yin-yang é o comportamento do sábio e o caminho (tao) da
acupuntura e da medicina tradicional chinesa para a regularização do fuxo de
energia nos meridianos, ou seja, para a obtenção de cura para as doenças. O macro e
o microcosmo se correspondem, pois:
[...] o yin e o yang aplicam-se a todas as circunstâncias e a tudo o que
existe. Esse princípio foi integrado como sistema de correspondência
Yang: claro homem  ativo
céu forte duro
Yin:  escuro mulher  passivo 
terra fraco macio
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simultâneo no macrocosmo e no microcosmo, no plano humano e no
plano das coisas (Kierce, 1984, p.42).
No pensamento do homem chinês, do erudito ao homem do povo, destacam-
se três fontes principais de inspiração: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. O
taoísmo que se perde no tempo, nas práticas alquímicas e crenças do povo, que
produziu grandes pensadores como Laozi e Chuangzi, magos como Ko Hung, a
linhagem dos Mestres Celestiais (Blofeld, 1979), entre outros tantos alquimistas
desconhecidos no Ocidente, e a seita Mao Shan, fundada por uma mulher que viveu
em 251-334 d.C. (Palmer, 1993, p. 96).
Um sistema moral é uma defnição razoável para o confucionismo,
estreitamente ligado ao caráter burocratizado da sociedade chinesa. Confúcio
perambulou entre os reinos de seu tempo, durante o chamado período “feudal”,
oferecendo seus conselhos e sabedoria aos príncipes, entre os séculos V e VI a.C.
Pensador mais conhecido da China, Confúcio esboçou um sistema moral que
privilegiava a virtude, a moral e a tradição. Em geral, os imperadores chineses
detinham um mandato celestial que os tornava responsáveis pelo equilíbrio entre o
céu (macrocosmo) e a terra (microcosmo). Assim, se o reino fosse mal, o imperador
era responsabilizado por não estar honrando adequadamente seu mandato. A
sociedade chinesa e, em especial, o confucionismo desenvolveram uma série de
complicados rituais no sentido de promover a harmonia e a continuidade do império.
Confúcio não encontrou nenhum príncipe disposto a lhe oferecer um posto no qual
pudesse pôr em prática suas idéias e regressou ao estado de Lu (atual Shantung)
amargurado, mas seu sistema não apenas persistiu até a revolução maoísta, como
ainda é uma chave importante para se entender a mentalidade chinesa. Não logrou
êxito na política, nem no casamento, pois segundo Lin Yutang, a senhora Confúcio o
deixou livre para buscar uma esposa que pudesse seguir suas complicadas normas:
“O arroz não está bem branco...”, “O guisado não está bem picadinho...” (apud Lin
Yutang, s/d, p. 71).
O budismo, proveniente da Índia, difundiu-se na Ásia em meio ao comércio
e se adaptou à mentalidade das regiões por onde passava (Ebrey, 1996, p. 98). Na
versão chinesa, por exemplo, ganhou novas roupagens, sendo uma delas o zen, que
foi muito badalado no Ocidente entre intelectuais e movimentos de contracultura.
Enquanto no Tibete predomina uma linha mais exotérica, em associação com o
lamaísmo, o zen budismo é mais flosófco, expressão da linha mahayana (grande
veículo). Na prática, o budismo ofereceu aos chineses uma religião organizada, com
uma doutrina que parecia melhor atender aos anseios de espiritualidade a partir
de uma vida monástica. A partir do século XVI foram incrementadas as tentativas
de conversão dos orientais ao cristianismo, pela ação de missionários franciscanos,
jesuítas e dominicanos. Já os protestantes tiveram ação incisiva; no século XIX,
a rebelião Taiping foi animada por uma estranha forma de cristianismo – no
movimento messiânico promovido pelo “flho chinês de Deus” (Spence, 1998). Assim
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como no cristianismo, o budismo, principalmente em sua versão hinayana (pequeno
veículo/popular), insiste na noção de pecado como via de ingresso ao “inferno”.
O povo chinês se apropriou e transformou essas concepções ao longo de
sua história milenar. Em relação ao que nos interessa, a mulher para o taoísmo é
yin, receptora de energia e vida; no confucionismo, a mulher deve ocupar o lugar
que lhe cabe na organização moral da sociedade, sendo soberana nesses domínios;
fnalmente, o budismo acrescenta fatalismo, e noções de pureza e recompensa
transcendentais. A mulher é o cadinho onde se realiza a alquimia taoísta, mas aquela
que deve seguir cegamente seu marido ou ainda a fonte do pecado, da luxúria, o
desvio do caminho perfeito (tao-te).
A chamada “civilização chinesa” é considerada culta e refnada por seus
admiradores, contrária à belicosidade e amante da paz, como se observa nas
palavras de Giles (2000, p.27): “Te chinese people reverence above all things
literature and learning; they hate war [...]”. É chinês o ditado: não se faz prego com
bom ferro, nem soldados com bons homens. A delicadeza dos rituais é mesmo dos
homens. Tais características já eram percebidas pelos cronistas do século XVI,
como Matteo Ricci:
Para lhe dizer a verdade, por mais que eu escrevesse à Vossa Excelência
sobre os chineses, eu não diria que são homens de guerra, pois tanto na
aparência exterior como no íntimo do coração, são como mulheres: se
alguém lhes mostra os dentes fazem-se humildes, e qualquer um que os
sujeite pode pôr-lhes o pé no pescoço. (Apud Spence, s/d, p. 55).
Matteo Ricci, Frei Gaspar da Cruz entre outros da época, como os holandeses,
desdenharam dos cuidados com a aparência dispensada pelos homens chineses, seu
apreço pelos cabelos e outros hábitos considerados muito “femininos”.
O contato entre povos diferentes é regido pelo princípio da alteridade, capaz
de desencadear ancoragens e objetivações no cotidiano, componentes básicos
dos processos que envolvem as representações sociais (Moscovici, 2003, p. 60). Há
um estranhamento de algo novo – no caso o chinês – e sua inserção a um quadro
preconcebido de idéias e conhecimentos que estabilizam a situação. Para o europeu
da modernidade, cuidados com aparência são coisas de mulher e característicos de
um povo que não sabe defender-se como homens. Como demonstrou Hartog (1999)
em seus estudos sobre a Grécia, a divisão de funções entre homens e mulheres decorre
de operadores lógicos: aos homens a guerra, às mulheres a procriação. Efeminados,
os chineses não gostariam de combates ou violência. Sua suposta docilidade será
alegada freqüentemente nas experiências de imigração realizadas no século XIX,
quando os coolies foram requisitados em substituição ao trabalhador escravo. A
passividade como elemento de representação sobre chineses deixa de fora elementos
contraditórios, como o fato de terem criado as artes marciais, os métodos sofsticados
de tortura e que as grandes rebeliões camponesas da humanidade ocorreram na
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China. Em termos simbólicos, duas características podem ser destacadas: docilidade
e exotismo. A China é tão delicada ou estranha quanto suas mulheres.
Assim são compostas as representações sobre os chineses, emergem da
flosofa e dos tratados que circulam no Ocidente. É o que sabemos pelos cronistas e
viajantes, aos quais se juntam flósofos e sinólogos do século XIX, e mais recentemente
ainda pelos departamentos especializados de historiadores da academia. A literatura
e o cinema popularizaram os chineses no mundo e cristalizaram a alteridade que
ganhou corpo ao longo de tantos séculos. Ao serem estruturados em situações
específcas, isto é, a partir das demandas de cada grupo social, tais símbolos criam
representações sociais sobre os chineses, sempre que a tensão das antigas as torne
insufcientes para dar conta do contexto.
4.2. A literatura: entre O-lan e a Mulher Imperial
A obra de Edward Said (2007) – Orientalismo – marcou os estudos sobre
o Oriente ao desmascarar os preconceitos que desde o século XIX foram criados
em nome da ciência. Por outro lado, o colapso do paradigma cientifcista tornou
problemático se falar de leis universais em ciências humanas. Mas o orientalismo
se nutre de generalidades e imprecisões, é difícil não perceber essas características
nas metanarrativas do Ocidente, nas flosofas da história, enfm, nos sistemas que
desconsideram o real, o vivido que tem nome e forma cotidiana. Paradoxalmente,
em nome do conhecimento da realidade foi justamente a realidade a ser alienada.
Onde a ciência dos dezenove afrmava neutralidade e universalidade, agora se diz
alteridade e etnocentrismo.
Em Lin Yutang e Pearl S. Buck há muitas menções às mulheres chinesas,
de camponesas, concubinas, esposas e imperatrizes. Nascidos em fns do século
XIX e falecidos nos estertores da Revolução Cultural, eram provenientes ambos de
uma base familiar conservadora e escreveram copiosamente sobre a China e seu
povo. Ele, chinês que estudou no estrangeiro e viveu a partir de 1928 nos Estados
Unidos; ela, americana que viveu na China, flha de missionários presbiterianos. São
autores publicados no Brasil aos quais se une hoje em dia uma nova safra de autores.
Neles o recato e a graciosidade são características marcantes da mulher chinesa.
Flexibilidade – o atributo yin por excelência – que se traduz na prática numa
subordinação ao homem. Em Vento Leste, Vento Oeste (Pearl Buck, 1960) observa-se
o seguinte diálogo:
– Apesar de tudo, minha flha, só existe um caminho que uma mulher
neste mundo deve seguir, custe o que custar. É preciso que você agrade
ao seu marido. Ver destruir os resultados de meus esforços é demasiado
para minhas forças. Mas você não pertence a minha família: você
pertence a seu marido. Só lhe resta fazer uma coisa: fazer o que ele
deseja (...) (p. 63).
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O princípio flosófco apregoa que a terra segue o céu, enquanto o ditado
popular enfatiza: o homem é o vaso e a mulher, a água, ou seja, ela se ajusta ao
recipiente que a abriga. Mas na China populosa e miserável dos campos a condição
feminina não assegurava a continuidade da família. De acordo com o costume, ela
vai morar na casa do marido e assim priva a sua própria família de seu trabalho. A
lógica cruel da sobrevivência é a seguinte: não há sentido em manter aquela que irá
ser escrava de outra família. O nascimento de meninas era encarado com desgosto
e o infanticídio feminino foi praticado até recentemente (Giles, op. cit.). A mulher
virtuosa era aquela que gerava meninos saudáveis para o orgulho dos familiares. Entre
as concubinas do imperador, este era um acontecimento importante, um menino
seria um potencial herdeiro. No século XVII, Kangxi, segundo imperador da dinastia
manchu, teve centenas de concubinas que disputavam sua atenção, contando com a
ajuda de eunucos que as produziam de acordo com as preferências do soberano. Era
mais uma oportunidade de ascensão àqueles que haviam renunciado à sua virilidade
para sair da pobreza.
O infanticídio feminino e as concubinas são evidências para o Ocidente
de violência contra a mulher. Numa obra em que traduz textos clássicos da prosa
chinesa, Lin Yutang (1985) apresenta o seguinte trecho ocorrido numa casa de
“cavalo magro”:
“Kuniang (senhorita), cumprimente!” A moça fazia uma vênia. A seguir
era dito: “Kuninang, caminhe!” Ela caminhava. “Kuniang, volte-se!”
Ela se voltava, fcando de frente para a luz e seu rosto era mostrado.
“Desculpe, podemos ver sua mão?” A mulher enrolava-lhe a manga e
expunha o braço inteiro. Sua pele era mostrada. “Kuniang, olhe para
o cavalheiro.” Ela olhava, com o canto dos olhos. Seus olhos eram
mostrados. “Qual é a idade da Kuniang.” Ela respondia. Sua voz era
mostrada. “Caminhe mais um pouco, por favor.” Dessa vez a mulher
erguia-lhe as saias [...] (p. 211-212).

Não era um pedido para mostrar as pernas, como pensaríamos a partir de
nossa literatura erótica, e sim para serem exibidos os pés. A casa de “cavalo magro”
era o local em que se negociavam concubinas. Segundo Lin Yutang, esse excerto do
século XVII é “o modo menos romântico de conseguir uma amante; só comerciantes
grosseiros comprariam uma concubina por esse processo” (ibid., p. 111). E aqui
temos outro dado que alimenta a alteridade: o costume de atrofamento dos pés. Não
era praticado por todas as mulheres, como entre as etnias hakka e miao. Também as
mulheres manchus e mongóis não enfaixavam os pés e mesmo entre a etnia han –
maioria na China – não era um costume geral. As camponesas pobres, muitas vezes,
não podiam dar-se ao luxo deste “requinte”, que era um impedimento para o trabalho
pesado do campo. Mas desde a dinastia Song (960 – 1279) os pés pequenos, os “lírios
dourados” tornaram-se um atrativo sexual e requisito de beleza feminina. Acreditava-
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se também que a prática favorecia a geração de flhos saudáveis (Giles, op. cit, p. 26).
Então, para conseguir um bom casamento, desde os cinco anos a menina tinha os
pés enfaixados pela mãe. As ataduras eram trocadas periodicamente e apertadas,
com intenção de impedir o crescimento dos pés. Os dedos eram comprimidos ao
antepé e este inclinado à força em direção ao calcanhar O peso do corpo sobre os
dedos difcultava o caminhar normal, realçando a idéia de fragilidade feminina.
Com o tempo, o arco se quebrava e na planta do pé era formada uma corcova (o
“talo do lírio”). A dor insuportável e os riscos de infecções e morte por gangrena não
impediram que nas dinastias seguintes – yuan e ming - o costume se tornasse popular
e objeto de fetiche masculino. O ritual de transmissão da técnica e dos cuidados, bem
como a confecção de sapatilhas bordadas em seda, eram passados de mãe a flha, e
só foi proibido com a instauração da república, em 1912.
– Se os pés da menina não forem atados, como conseguirá ela um bom
marido? – disse a velha mãe, estupefata. Seus próprios pontudos e
pequeninos pés estavam cruzados diante dela [...] (Pearl Buck, s/d, p. 52).
Estranho fetiche aos nossos olhos ocidentais, principalmente se
desconsiderarmos a origem do termo fetiche (Latour, 2002). Do espartilho ao split
tongue (língua de bifurcada ou língua de serpente), dos anéis para o crescimento
do pescoço ao silicone, as culturas criam formas de expressar a beleza que
é sempre estranha para aquele que dela não compartilha. Neste sentido, é
simplista afirmar que se trata apenas de uma manifestação de submissão ao
gênero masculino. Com relação aos “lírios”, os pés deveriam ficar escondidos por
conta das inflamações e aspecto repugnante. Para O-lan, a personagem de A Boa
Terra (Pearl Buck, 1974) não tinha tempo para a beleza e assim foi apresentada
ao seu futuro marido, Wang Lung:
– [...] Você verá que ela tem o corpo forte e as faces largas de sua raça.
Trabalhará bem para você, no campo, carregará água e tudo o mais que
você desejar. Ela não é bonita, mas disso você não precisa. Só os homens
ociosos precisam de mulheres bonitas para diverti-los [...] (p. 40-41)
A vida de O-lan em nada se parece com a das concubinas e esposas
residentes em palácios, ocupadas em fuxicos e disputas sem fm. A sua existência era
dirigida integralmente ao trabalho e ajudar seu marido a adquirir terras, garantia de
sobrevivência no campo. Wang Lung enriquece, e sua ingratidão com a esposa nos
provoca revolta, ainda que a autora procure mostrar com sutileza não haver outra
alternativa, no contexto e lógica daquela sociedade, a não ser a ingratidão:
– Trabalhei e tornei-me rico. Gostaria que minha mulher não se
parecesse tanto com uma pobretona. E esses teus pés... (p. 203-204)
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Não teria acumulado terras e flhos não fosse o trabalho duro da esposa. Mas
as mulheres da corte chinesa freqüentemente burlavam as normas de submissão,
fato que merece registro dos historiadores e romancistas do Ocidente. A senhora
Ren, ao tempo da dinastia Ming, não apenas deixou de seguir o costume de
cometer o suicídio após a morte do amante, como se passou por imperatriz e
tentou enganar os saqueadores do palácio (Clements, 2005, p. 108). Madame
Wu ao completar quarenta anos decide arrumar uma concubina para o marido,
farta de suas obrigações matrimoniais. Ela é o guia de fato daquela família
aristocrática e seus dilemas existenciais fizeram-na aproximar-se perigosamente
do irmão André – um dos tantos missionários cristãos que pregavam na China
(Pearl Buck, 1948).
A vida palaciana era de tédio para as concubinas e esposas. A posição
de cada uma delas era rigidamente estabelecida pela tradição e nem mesmo os
homens podiam se furtar ao devido respeito pela taitai, a matriarca da família – a
primeira mãe, avó. Em tempo de império, república ou comunismo, os romances
estão repletos de tramas e intrigas, que destacam muitas vezes o caráter ardiloso
da mulher chinesa. Como no caso de Peônia que trama contra Lia, por conta de sua
descendência judia; seu diálogo com Wang Ma é revelador da condição feminina:
– Não podemos esperar a felicidade? – perguntou Peônia,
pensativamente.
– Claro que não, – disse Wang Ma com frmeza.
– A senhora diz isso tão alegremente! – queixou-se Peônia. E começou
a chorar docemente.
– Só podemos ser felizes quando compreendemos que a vida é triste.
(Pearl Buck, 1949, p. 79).
A imperatriz Cixi (1835 – 1908) se achava (e com certa razão) a mais poderosa
entre as mulheres do planeta e se viu em confronto com as grandes potências
imperialistas, assistindo a queda não apenas do orgulho chinês como o de sua
própria dinastia (manchu). Louca ou ardilosa, tal como a concubina Yang Guifei, que
se envolveu com um general e levou à ruína a dinastia Tang (Fairbank & Goldman, op.
cit., p. 91). Sem contar Jiang Qing, a mulher de Maozedong, que enganou o Ocidente
por tanto tempo – cínica, cruel e vingativa, nas palavras do especialista Simon Leys
(2005), e também odiada por tantas outras mulheres pelos males da Revolução
Cultural. Na saga Os Cisnes Selvagens, consagrado livro de Jung Chang (2006), três
gerações de mulheres chinesas experimentam as transformações que em cinqüenta
anos do século XX sacudiram a velha China. Mulheres de pés atrofados convivendo
com jovens revolucionárias do partido comunista e das guardas vermelhas, que na
retórica comunista são iguais para o combate à burguesia e ao capitalismo. Mas não
é possível extinguir o passado pela força, como é possível perceber nesse trecho de
uma obra que antecipa em algumas décadas a temática de Os Cisnes Selvagens:
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A minha mãe faz-me pensar, simultaneamente, no passado e no
presente. E ela própria, pertence ao passado, mas vive no presente e
aceita o que é novo com fé, porque o passado foi tão digno dessa fé
(Pearl Buck, 1969, p. 96).

O povo chinês gosta de aventuras e dramas como constata- se nos contos
desde o período áureo da dinastia Tang – histórias de amor e sofrimento, traições
e virtudes. Não há nada de espantoso ou maravilhoso nisso. De igual modo, as
mulheres chinesas são senhoras imperiais, entre taitais e meimeis, concubinas,
camponesas, revolucionárias idealistas, fores de Xangai (prostitutas), mulheres de
conforto ou sapatos rasgados. Sapatos rasgados cabem em qualquer pé, grande ou
pequeno, mulheres à toa:
– Está bem! Eu posso ser uma mulher impura, mas nenhuma de vocês
é uma for de pureza! Podem esperar que um dia desses eu vou botar a
boca no mundo (Yuan-Tsung Chen, 1981, p. 78).
Ainda sabemos pouco das mulheres Taiping envolvidas em seu estranho
cristianismo – talvez, o derradeiro capítulo das imposições cometidas em nome de
Cristo. Mas a brutalidade contra as mulheres chinesas ainda pode ser ouvida, como
se observa no seguinte relato:
Chen Jinyu tinha apenas 16 anos em 1941, quando os japoneses
invadiram a China durante a Segunda Guerra Mundial [...] Foram
quatro penosos anos que Chen atravessou trabalhando apenas por
subsistência como uma “mulher de conforto”. Assim eram chamadas
na época as mulheres que serviram sexualmente aos japoneses durante
os oito anos de ocupação (Scofeld Jr., 2007, p. 151).
O cartunista Henfl declarou, num livro (1981, p. 121) cheio de otimismo
quanto aos rumos da sociedade chinesa, que o padrão de beleza atual privilegia os
ombros das mulheres. Muito estranho aos nossos olhos, certamente. Os chineses
por muito tempo continuarão provocando esse sobressalto típico das relações entre
povos de cultura diferente e tal alteridade ainda causará muitos desentendimentos,
entre risos, ofensas e preconceitos. Os chineses são um enigma, mas seus produtos
estão em todas as prateleiras do mundo. Agora a oferta não é mais de coolies,
trabalhadores braçais – tratados como boçais e reduzidos a um sistema de semi-
escravidão e sim manufaturados sofsticados e toneladas de bugigangas de R$ 1,99.
Neste sentido, a mulher chinesa não existe, ou apenas existe nos moldes
da representação forjada pelo orientalismo. A criatura submissa e exótica é tão
somente uma generalização colonialista. Não é a materialização pura do princípio
yin e nem tampouco esconde sua vileza sob a capa da fragilidade. A mulher chinesa
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33
é a expressão da riqueza da cultura e da sociedade ao longo dos tempos e que
somente em sua vida cotidiana pode ser entendida. Os autores que aqui utilizamos
como fontes escrevem para um público ocidental, mesmo quando são chineses ou
lá viveram. E, neste sentido, contribuem para consagrar as representações sociais
que temos sobre seu povo. Mas a própria diversidade de personagens e situações da
literatura nos permite desconstruir tal imaginário, sem contar que na atualidade o
cotidiano chinês é relatado numa perspectiva feminina por autoras nativas, como
Xinran e suas “boas mulheres da China” (2007), Anchee Min (1998), Bao Lord (1990),
entre outras, embora todas com algum tipo de relação com a sociedade ocidental.
Percebe-se que as transformações que caracterizam o mundo da globalização
também estão presentes na China, principalmente nos grandes centros urbanos.
A mulher chinesa tem sido registrada em situações que contrariam a imagem
de submissão, mesmo em tempos recuados da história. Assim é que a imperatriz
Ma esteve ombro a ombro com o fundador da dinastia Ming, Zhu Di, no combate
aos mongóis, mostrando-se tão intrépida quanto os demais insurgentes (Henri
Tsai, 2001, p. 22). Ou então como bem sucedida pirata, é o caso da ex-prostituta Shi
Yang (Spence, 1998, p. 102); ou ainda, Akeu (id., p. 104), rica comerciante de gêneros
alimentícios e de ópio; ambas viveram o conturbado século XIX, das agressões
imperialistas .
No site da pesquisadora Anne Kinney
2
é possível mapear diferentes temas
com envolvimento de mulheres em extensos períodos, o que evidencia haver registro
de sua atuação ao longo da história – chega a ser surpreendente, considerando as
características de uma sociedade patriarcal, sem espaço para “feitos” de mulheres.
A partir do século XX, sacudido por guerras e transformações sociais, despontam
lideranças na vida política chinesa e nomes como os de Song Qingling (1893-1981),
Cai Chang (1900–1990), Deng Yingchao (1904–1992), Shi Liang (1900 – 1985) e Wu
Yi (1938-) se destacam em termos de liderança revolucionária e atividade feminista.
Entretanto, as revolucionárias comunistas teriam se masculinizado em nome da luta
contra os “velhos costumes burgueses”, como diz Gilberto Scofeld, que esteve na
China e lançou recentemente um livro sobre a experiência. Em seu blog na Internet,
afrma: “[...] a luta comunista signifcou também um projeto de Nação onde a
mulher era primeiro camarada, um peão no jogo de xadrez para a construção da
nova República Popular, e só depois mulher.”
3
O jornalista constatou (2007, p. 205) o
grande número de cirurgias para aumentar o tamanho dos olhos e como a estética
ocidental está infuenciando as mulheres chinesas. Mas talvez ainda seja possível
ouvir as palavras do velho Wang ecoarem entre os milhões que vivem nos campos:
“[...] a beleza numa mulher é inútil. Não cozinha o arroz, nem tece a seda, nem acende
a lâmpada” (Pearl Buck, 1966, p. 91).
As versões modernas do aventureiro Marco Polo continuam assombrando
2 http://jeferson.village.virginia.edu/xwomen/intro.html
3 http://oglobo.globo.com/blogs/gilberto/post.asp?t=a_mulher_chinesa_tambem_
emerge&cod_Post=70279&a=25
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o mundo com suas “maravilhas”. Por não terem as amarras dos cientistas, os
jornalistas saíram na frente nesta nova onda de interesse pela China, aos quais se
juntam jornalistas orientais, como a já citada Xinran, que declarou sobre seu livro
mais conhecido:
Quando comecei a escrever “As Boas Mulheres da China”, em 1998,
já morava na Inglaterra. Decidi escrever o livro porque meus alunos,
quando eu dava aulas na Universidade de Londres, conversavam
comigo sobre as mulheres chinesas e diziam que elas eram fsicamente
distantes, emocionalmente frias, e isso me deixava brava. Ao mesmo
tempo, eu estava ferida pela ignorância das pessoas no Ocidente,
por como era limitado o conhecimento delas sobre o meu país, um
país enorme, com 1,3 bilhão de habitantes, 5.000 anos de civilização,
e ninguém sabia disso. Então escrevi o livro. E quando meus alunos
perguntavam sobre as mulheres chinesas, por que elas não se
preocupavam com os relacionamentos, com sexo, com beleza, ou gosto,
eu fcava muito irritada. Eu tinha entrevistado mulheres chinesas, cara
a cara, mais de duzentas mulheres. Eu sabia como elas são fantásticas,
sabia quão ricos são os seus sentimentos.
4
Em sua obra mais recente publicada no Brasil (2009), a autora continua com
seu projeto de dar voz aos chineses anônimos. Mas voltando ao que nos interessa,
e parodiando o poeta, a beleza feminina é uma marca importante de alteridade. No
blog do jornalista Felipe Machado
5
há uma seleção das “mulheres mais bonitas da
China”; e aqui transcrevemos na íntegra os comentários de dois leitores:
18.08.08 @ 11:31
Com certeza já fzeram plásticas para os olhos, boca, peitos, bumbum, etc..
18.08.08 @ 13:58
Os rostos são lindos mesmos, mas quando vemos o corpo, que não tem
nada a ver com o padrão ocidental, dá um ‘glup’... :D
Imagens são manifestações ou tentativas de conhecimento e comunicação,
mas podem servir igualmente de marcas de desvalorização ou de exclusão. Assim, as
fantasias inspiradas pela mulher chinesa não estão associadas à beleza, já que não a
possuem aos olhos ocidentais. Neste caso, a representação se torna um estigma de
raça e acompanha não uma pessoa, mas todo um povo. Para os ocidentais a China
se embeleza ou se transforma pela infuência exterior. Uma cópia que se obtém no
4 http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u585792.shtml
5 http://blog.estadao.com.br/blog/pingpong/?title=as_mulheres_mais_bonitas_da_
china&more=1&c=1&tb=1&pb=
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bisturi ou pela força das idéias – como no flme Balzac e a Costureirinha Chinesa
(2002) em que os livros do escritor francês transformaram subversivamente dois
rapazes enviados para reeducação no campo e uma jovem da pequena localidade.
Na atualidade, a dócil e exótica criatura de pés diminutos se transformou na
consumidora voraz dos tempos de globalização. E assim mais uma vez a imagem da
mulher chinesa e a de seu país estão intrinsecamente associadas.
5. Considerações Finais
A modernidade nos trouxe fnalmente os antípodas. Diferentes, estranhos,
fascinantes e sedutores, misteriosos e perigosos – os chineses. Ao longo deste período
foi criado um imaginário acerca de sua cultura e do seu próprio ser, expresso em
palavras de uso comum, tais como China, kung fu, coolies, junco, entre outras. Mas a
presença de chineses em nosso cotidiano por conta de seu avassalador crescimento
econômico nos obriga a repensar as velhas noções e preconceitos, criados num
passado que ainda se mantém vivo. O imaginário presente na literatura e conceitos
flosófcos tradicionais agora se mistura à nova safra de produções literárias, flmes,
documentários e artigos de especialistas, elaborados para serem consumidos no
Ocidente. A alteridade contida na base tradicional é assim tensionada por novos
conhecimentos e informações, criando um ambiente propício ao surgimento de
novas representações sociais.
As generalizações - que no caso da mulher chinesa se baseiam em estigmas
no estilo “mulher exótica”, “submissa e misteriosa”, de passos tão curtinhos quanto
os seus pés – são componentes de um imaginário caricatural, sedutor e redutor,
subproduto dos interesses de expansão econômica e de afrmação identitária
ocidental. A mulher que ocupa o espaço territorial da China pode pertencer a etnias
e tradições distintas e mesmo que não seja da etnia han recebe os respingos de um
passado longo e construído imaginariamente, combinando a tradicional lógica
patriarcal e o processo histórico conhecido por modernidade.
Nossa análise evidenciou uma situação ambígua. A imagem da mulher se
confunde com a do país: fno, dócil, delicado, passivo e misterioso. Aos olhos das
sociedades patriarcais do Ocidente é uma nação feminina. Mas entre o feminino
contido nos princípios flosófcos e a realidade interna da China há uma distância
considerável. As mulheres no campo trabalhavam pela sobrevivência, subordinadas à
lógica da subsistência e ao patriarcado na sua versão oriental; as da corte obedeciam
à etiqueta estabelecida pelo cânone confucionista, mas estiveram também presentes
em conspirações palacianas, rebeliões e, eventualmente, dirigiram a nação. São as
princesas e imperatrizes que fornecem o modelo da mulher chinesa ao exterior.
O artigo demonstrou, portanto, que a mulher chinesa não é tão exótica quanto
o imaginário ocidental a representa, o que não signifca negar as especifcidades de
sua cultura e de suas demandas contra o patriarcado. Na atualidade, menos que
conhecê-las de fato, a globalização se apressa em traçar seu perfl de consumidora,
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de olho nas potencialidades do mercado chinês. Como parte de nossos estudos sobre
chineses e representações sociais, inserimos o gênero para mapear os símbolos que
criaram historicamente a mulher chinesa, dentro do processo de alteridade que
caracteriza a relação Oriente-Ocidente.
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O que queres tu mulher? Manifestações de gênero no
debate de constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”
Luciana Santos Silva
1
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP)
Orientadora: Profa. Dra. Eliane Hojaij Gouveia
1. Introdução
O presente artigo visa analisar as manifestações de Gênero nas
argumentações jurídicas, coletadas em artigos e peças processuais
2
, que contêm
manifestações acerca do debate sobre a constitucionalidade da lei 11340/2006,
conhecida como “Lei Maria Penha”. A referida norma foi sancionada no ano de
2006, com o objetivo de prevenir e combater a violência contra a mulher no âmbito
doméstico e intrafamiliar.
A “Lei Maria da Penha” é um microsistema legislativo que alberga normas dos
diversos ramos do Direito, tais quais: Direito Penal, Direito Trabalhista, Direito Civil
e Direito Administrativo, percebendo a violência contra a mulher e sua superação
como fenômeno multidisciplinar, regulando a criação de juizados específcos para
julgamento das causas e a intervenção de equipe formada por profssionais de
diversas especialidades com vistas à superação da violência.
A entrada em vigor da lei 11.340/2006 cindiu o campo jurídico no que diz
respeito a sua adequação aos preceitos da Constituição Federal. Uma corrente de
juristas entende que a “Lei Maria da Penha” ao afastar da sua tutela o homem vítima
de violência doméstica
3
tem o objetivo de promover a igualdade de Gênero na medida
em que historicamente são as mulheres que vêm sofrendo com a violência familiar.
Por outro lado, foi identifcado um grupo do campo jurídico que advoga que
a lei fere o princípio constitucional da igualdade
4
, visto que cria um desequilíbrio nas
relações de Gênero quando protege apenas as pessoas do sexo feminino, culminando,
segundo entendimento do grupo, em uma indesejada discriminação em razão do sexo.
1 Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Graduada
em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Professora de Direito Penal da Universidade Estadual
do Sudoeste da Bahia. Coordenadora do curso de Direito da Faculdade de Tecnologia e Ciências – Vitória da
Conquista - BA. Diretora da União de Mulheres de Vitória da Conquista - BA.
2 No jargão jurídico, são manifestações escritas em um processo: decisões, petições e
pareceres.
3 A “Lei Maria da Penha” delimita, de forma expressa, sua aplicação apenas às mulheres
em situação de violência doméstica, excluindo os homens de sua tutela, mesmo que vitimas de violência.
4 O principal foco de discussão sobre a adequação ou não da “Lei Maria da Penha” à Carta
Maior parte do princípio constitucional inserto no art. 5º da CF, o qual inscreve que: Todos são iguais perante
a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito á vida, á liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos seguintes termos:
I - Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição.
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
40
A partir desse debate que se instaura no campo jurídico, o presente
trabalho com foco nas Ciências Sociais pretende, através da interseção entre Direito
e Gênero, analisar as manifestações de Gênero a partir do debate jurídico sobre a
constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”.
Para tanto foi utilizada a defnição de campo jurídico apresentada por
BOURDIEU (2006) para delimitar o campo a ser pesquisado. Para o citado autor, o
campo jurídico é composto pela atividade da prática jurídica e da academia, servindo
como ponto intermediário entre o mundo social e a técnica do Direito.
Desse modo, o material selecionado para pesquisa, tornado fonte
documental, é formado por peças processuais, artigos e livros produzidos por
bacharéis em Direito. O mapeamento foi feito a partir da divulgação pela imprensa e
na internet de notícias sobre processos judiciais que versavam sobre a “Lei Maria da
Penha”, dos quais foram obtidas cópias de seus principais excertos por intermédio
de colegas de trabalho ou contato por telefone com o órgão responsável.
A busca dos artigos acadêmicos e livros se deu também a partir de citações
encontradas nas referidas decisões judiciais ou em outros artigos e livros examinados,
bem como por consulta na internet e em publicações de periódicos jurídicos. As
peças processuais, artigos e livros levados em consideração compreendem o período
de agosto de 2006, quando a lei foi sancionada, a dezembro de 2008.
Assim, o material pesquisado conta com cento e dois documentos
entre sentenças de primeiro grau, acórdãos, petição inicial de Ação Direta de
Constitucionalidade, pareceres, livros e artigos jurídicos, com representação de
todas as regiões que compõem a República Federativa do Brasil. Para análise dos
mesmos foi desenvolvido um instrumento de pesquisa semi-estruturado (anexo 1), o
qual foi preenchido a partir da leitura dos documentos selecionados.
Essa técnica de pesquisa prática documental foi utilizada por GROSNER
(2008), que aplicou instrumento de pesquisa em acórdãos do Superior Tribunal
de Justiça – STJ, a fm de investigar a seletividade do sistema penal a partir das
manifestações jurídicas daquele Tribunal. Assim como GROSNER (2008), IZUMINO
(2004) também fez uso dessa técnica para investigar, a partir de decisões judiciais,
a percepção que as mulheres em situação de violência doméstica têm do Poder
Judiciário. A pertinência da técnica nesta pesquisa se dá pelo fato do campo
jurídico ser também aqui delimitado a partir de documentos jurídicos, o que guarda
semelhança com os trabalhos citados.
A interpretação dos dados e mesmo a elaboração do instrumento de
pesquisa teve por base a categoria analítica de Gênero, entendida como construção
de identidade sexual, tendo por base relações de poder calcadas no patriarcalismo
que reifca a mulher e institui o padrão heterossexual como norma.
A pesquisa identifcou três grupos no campo jurídico que tratam do
debate sobre a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”: a) um que reputa a lei
inconstitucional e propõe sua retirada do sistema jurídico (grupo I); b) um que tem
a lei como inconstitucional, apontando como solução a aplicação da lei aos homens
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41
(grupo IR); e c) o grupo que percebe que a “Lei Maria da Penha” está em perfeita
sintonia com a Constituição Federal (grupo C), conforme apontam as discussões
seguintes.
2. Resultados e discussão da pesquisa
2.1. Percepção do Grupo que Advoga a Inconstitucionalidade da “Lei
Maria da Penha”
O primeiro aspecto analisado sobre as manifestações jurídicas de
inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” diz respeito ao reconhecimento da
assimetria social entre mulheres e homens. As considerações aqui expostas resultam
da aplicação do instrumento de pesquisa (anexo 1) ao grupo de documentos (I) que
percebem a lei 11.340/2006 como inconstitucional.
Assim, a pesquisa procurou averiguar se o campo jurídico, ao julgar a “Lei
Maria da Penha” inconstitucional (grupo I), levou em consideração os debates
voltados para a construção teórica da categoria analítica de Gênero. No instrumento
de pesquisa (anexo1), os itens sete a dez serviram para basilar as conclusões aqui
apresentadas acerca da interface entre Gênero e campo jurídico.
Neste aspecto, a pesquisa constatou que ao reputar a “Lei Maria da Penha”
inconstitucional, o campo jurídico não incorpora a categoria analítica de Gênero.
A partir daí percebemos que há uma cisão entre campo jurídico e campo social, na
medida em que de forma generalizada há a percepção de diferenças entre as pessoas,
sendo vedado ao campo jurídico seu reconhecimento.
Como ilustração desse resultado, podemos citar trecho do documento I- 01
que sustenta a inadequação da “Lei Maria da Penha” à Carta Constitucional:
“A lei contém diversos problemas que merecem uma análise mais
aprofundada da doutrina e da jurisprudência. Em primeiro lugar,
está a sua duvidosa constitucionalidade. A Constituição de 1988 é
peremptória ao determinar que ‘homens e mulheres são iguais em
direitos e obrigações’ (art. 5, I). Obviamente, a própria Constituição
prevê exceções a favor da mulher, como a licença-maternidade
gozada em tempo superior à licença-paternidade (art. 7º, XVIII e XIX).
Exatamente por serem excepcionais essas normas, incide o princípio de
hermenêutica (‘as exceções devem ser interpretadas restritivamente’),
que proíbe a utilização da analogia para criar novas discriminações a
favor da mulher ou de quem quer que seja.”

Aqui notamos que a disposição argumentativa das manifestações de
inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” tenta apresentar-se alijada do campo
social, quando entende que qualquer lei, a exceção da Constituição Federal, não
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42
pode trazer tratamento diferenciado em favor da mulher, vedando ao Direito, fora do
âmbito constitucional, qualquer interferência para equilibrar as disparidades sociais
entre homens e mulheres.
Também expressando o isolamento do campo social no debate sobre a
constitucionalidade da “Lei Maria da Penha” segue excerto do documento I-06:
“Nesse diapasão quando a Carta Magna, dentre o rol dos direitos
fundamentais, consagrou igualdade entre homem e mulher estabeleceu
uma isonomia plena entre os gêneros masculino e feminino, de modo
que legislador infraconstitucional não pode – sob qualquer pretexto-
promover discriminação entre os sexos em se tratando de direitos
fundamentais, visto que estes já lhe são igualmente assegurados.”
Bem explica o assunto Rosemiro Pereira Leal: Não há direito à diferença
no plano dos direitos fundamentais já acertados constitucionalmente para todos, sob
pena de romper o princípio da igualdade jurídica. A possível existência de direitos
diferentes só ocorre no sobrenível da normatividade fundamental. Enfatiza o
autor que “direitos diferentes, na teoria da democracia, não geram diferenças
jurídico-fundamentais entre pessoas a suplicarem tratamento discriminatório”.
As desigualdades possíveis seriam apenas físicas, psíquicas, culturais, estéticas,
ideológicas ou econômicas. Portanto, o negro, o índio, o homossexual, a lésbica,
o defciente não são desiguais a ninguém quanto aos direitos fundamentais na
teoria da constitucionalidade democrática. Tanto eles quanto os brancos, os
amarelos, as mulheres, os heterossexuais: ‘homem ou mulher’ são iguais em direitos
fundamentais e titulares de igualdade processual (simétrica paridade-isonomia) no
direito democrático.
A Lei n.º 11.340/2006 tem como fm específco combater a violência contra
a mulher e assegurar o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à
alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao
lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e á convivência
familiar e comunitária (art.3º), ou seja, visa assegurar direitos fundamentais única e
exclusivamente às mulheres.
Destarte, a denominada “Lei Maria da Penha” viola o direito fundamental à
igualdade entre homens e mulheres e, como já exposto, não existe direito à diferença
entre direitos fundamentais, razão pela qual não há outro caminho a seguir senão de
reconhecer a inconstitucionalidade da lei em análise. (Grifos do original).
O excerto citado, representativo do grupo I, invisibilisa no plano do Direito
qualquer assimetria de poder entre mulheres e homens, quando utiliza como
premissa argumentativa o fundamento de que possíveis disparidades são criadas
pela “Lei Maria da Penha”, na medida em que esta protege a mulher e não estende
aos homens o mesmo tratamento jurídico.
Aqui há uma inversão no sentido de que é o campo jurídico, ao aplicar e
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43
reconhecer a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”, que cria desigualdades
entre mulheres e homens. As disparidades de Gênero são totalmente invisibilizadas
como construção cultural, como realidade do campo social para galgarem o status
de criação, leia-se fcção, jurídica.
Destacamos, ainda, o documento I-09 que traz para construção da
argumentação de inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” a seguinte
premissa:
“[...] O mundo é e deve continuar sendo masculino, ou de prevalência
masculina, afnal. Pois se os direitos são iguais - porque são -, cada
um, contudo, em seu ser, pois as funções são também naturalmente
diferentes. Se se prostitui a essência, os frutos também o serão. Se o
ser for conspurcado, suas funções também o serão. (...).” (Grifos do
Original).
Além de pregar expressamente a manutenção do status quo nas relações de
opressão de Gênero, o excerto trabalha com a naturalização desse processo histórico
quando prescreve que a prevalência masculina é característica imutável do mundo
(“o mundo é e deve continuar sendo masculino”). Esse argumento é construído através
da segregação de funções afetas ao masculino e feminino, biologizando as relações de
Gênero, o que pode ser observado quando o documento afrma que embora homens
e mulheres sejam iguais em direitos, “suas funções são naturalmente diferentes”.
Para BOURDIEU (2007) um dos mecanismos da opressão de Gênero se
dá pelo discurso de naturalização, que consiste em imputar as diferenças entre
mulheres e homens a fatores biológicos. Desse modo, as assimetrias de Gênero
perdem seu caráter cultural, histórico e contingente, sendo internalizadas como
natural e imutável.
Outro ponto que merece destaque é o apelo à ordem divina como meio de
invisibilizar o processo sócio-cultural de hierarquização das relações de Gênero.
Senão vejamos a transcrição de parte do documento I-09 sobre o tema:
“Esta ‘Lei Maria da Penha’ - como posta ou editada - é, portanto, de
uma heresia manifesta. Herética porque é antiética; herética porque
fere a lógica de Deus; herética porque é inconstitucional e por tudo
isso fagrantemente injusta.
Ora! A desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher -
todos nós sabemos -, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice
e da fragilidade emocional do homem.
Deus então, irado, vaticinou, para ambos. E para a mulher disse: [...] o
teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará [...].
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44
Já está lei diz que aos homens não é dado ‘controlar as ações (e)
comportamentos [...] de sua mulher (art. 7º, inc. II). Ora! Que o ‘dominar’
não seja um ‘você deixa?’, mas ao menos um ‘o que você acha?’ Isto
porque o que parece ser não é e o que efetivamente é não parecia ser.
Por causa da maldade do ‘bicho’ Homem, a Verdade foi então por ele
interpretada segundo as suas maldades e sobreveio o caos, culminando
na relação entre homem e mulher, que domina o mundo nesta
preconceituosa lei.
Mas à parte dela, e como inclusive já ressaltado, o direito natural, e
próprio em cada um destes seres, nos conduz a conclusão bem diversa.
Por isso - e na esteira destes raciocínios – dou-me o direito de ir mais
longe, e em defnitivo! O mundo é masculino!
5
A idéia que temos de
Deus é masculina! Jesus foi Homem! À própria Maria - inobstante
a sua santidade, o respeito ao seu sofrimento (que lhe credenciou
como ‘Advogada’ nossa diante o Tribunal Divino) - Jesus ainda assim a
advertiu, para que também as coisas fossem postas, cada uma em seu
devido lugar: “que tenho contigo, mulher!?”
Quando o documento I-09 afrma “que a desgraça humana começou no
Éden” lança mão, assim como a sociedade Cabila (BOURDIEU: 2007), do recurso
ao mito original de criação como forma de lastrear o predomínio masculino posto
como ordem suprema e inquestionável, uma vez que transcende aos humanos e à
sociedade (categoria ahistórica), fazendo parte do desejo e do mistério divino.
Argumentação utilizada no citado documento para defender a
inconstitucionalidade da Lei 11.340/2006, além de recorrer à fundamentação divina,
forja a neutralidade do campo jurídico através da naturalização das assimetrias de
poder entre mulheres e homens. Ao recorrer à sustentação religiosa e biologizante o
documento I-09 retira a legitimidade do campo jurídico ou de qualquer outra força
social para modifcar as relações de Gênero.
A “Lei Maria da Penha”, que o documento I-09 adjetiva de herética, é tida
como criadora de descriminação injusta ao determinar dispositivos de proteção
apenas para as mulheres. Aqui não há invisibilização das disparidades sociais entre
mulheres e homens, há, sim, o reconhecimento que a “Lei Maria da Penha” inverte
5 O autor (juiz da comarca mineira de Sete Lagoas, que sofreu representação no conselho
Nacional de Justiça acusado de posicionamentos machistas em decisões judiciais) do documento citado em
nota de esclarecimento sobre suas sentenças afrma que: “Mas, afnal, o que quis dizer eu com ‘prevalência
masculina’? Ora! O que quisemos dizer foi o seguinte: suponhamos uma situação de absoluto e intransponível
impasse entre o marido e a esposa sobre determinada e relevante questão doméstica -- um e outro não abrem
mão de sua posição e não se entendem. Qual das posições deverá prevalecer até que, civilizadamente, a Justiça
decida? De minha parte não tenho dúvida alguma que deverá prevalecer a decisão do marido. E vou mais longe:
creio que não será do agrado da esposa que fosse o inverso, porque, repito, a mulher não suporta o homem
emocionalmente frágil, pois é exatamente por ele que ela quer se sentir protegida -- e o deve ser -- e não se
sentiria assim se fosse o inverso”. (FOLHA DE SÃO PAULO: 24 DE OUTUBRO de 2007)
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a ordem tida como natural e original das relações patriarcais de Gênero, em que a
hegemonia masculina deve prevalecer.
Outro ponto de constatação da pesquisa quanto ao grupo que entende ser
a “Lei Maria da Penha” inconstitucional foi a privatização do confito de Gênero,
especifcamente no que diz respeito à violência doméstica contra a mulher. A
partir da análise qualitativa dos quesitos onze e doze do instrumento de pesquisa
foi possível perceber que o grupo I ao afastar o campo jurídico, solução pública de
confitos, como meio legítimo de intervenção nos casos de violência doméstica contra
a mulher, remete a celeuma à esfera privada do lar e das relações íntimas. Isto pode
ser observado no documento I-06 ao apresentar razões para a inconstitucionalidade
da “Lei Maria da Penha”, senão vejamos:
“Frise-se, ao fnal, a propósito do que foi dito acima, que não deixamos
de estar sensibilizados com a tragédia que vitimou a Sra. Maria da
Penha, que, por um horrível drama familiar, emprestou o nome à lei em
comento. O que não podemos aceitar é uma lei travestida de vingança
social com sérias conseqüências no cotidiano de milhares de outras
pessoas, como soe acontecer com esta e outras que “respondem” ao
apelo momentâneo e emporcalham o sistema por vários anos”.
O documento citado, representativo do grupo I, privatiza as relações de
Gênero, negando a violência doméstica enquanto confito social. A reivindicação
individual e coletiva por igualdade entre os sexos é invisibilizada quando o caso da
Sra. Maria da Penha, que serviu de bandeira para a criação da lei 11.340/2006, é visto
como mero confito familiar. As instâncias públicas e o Direito, em especial, não
são reconhecidos como instância de intervenção legítima nesta seara específca. A
violência doméstica contra a mulher é remetida ao predomínio do espaço privado
como limite para discussão.
6

No mesmo sentido, a idéia de privatização da violência doméstica é refetida
no documento I-0, o qual traz que:
“O Estado, com suas costumeiras pretensões totalitárias, entra na vida
familiar e disciplina o que é ou não permitido. De repente, pequenos
atritos diários podem ser considerados crimes ou dar ensejo a
indenizações por dano moral”.
Do mesmo modo, a violência doméstica é privatizada, sendo a “Lei Maria da
Penha” vista como invasão totalitária na vida familiar. Os crimes praticados contra a
mulher no âmbito do lar são minimizados e referidos como pequenos atritos diários.
6 Aqui há um movimento inverso do pleiteado pelo movimento feminista na década de 60
e 70, que seria de tornar pública a violência doméstica contra a mulher.
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46
Alguns documentos analisados que compõem o grupo I, a exemplo do I-01,
assumem de forma direta a hegemonia do masculino, senão vejamos:
“A pretexto de proteger a mulher, a lei considera-a como incapaz de
cuidar de sua higidez mental, podendo ser ‘ferida em sua auto-estima’ por
qualquer palavra ou atitude dissonante do companheiro. [...] Assim, ser
punido por atos que inevitavelmente ocorrem no cotidiano de um casal
signifca penalizar o homem como tal e não os fatos em si. Enfm, nos
dias de hoje, ser homem pode ser um crime, exceto se pertencer a alguma
minoria legalmente protegida, como negros, índios, idosos, crianças,
adolescentes e, em um futuro próximo, homossexuais. Nesses casos, a
‘condição moralmente inferior’ do homem pode ser ‘compensada’ pelo
fato de que a lei o considera também como uma vítima!”
Os valores das relações patriarcais de Gênero são reafrmados diante da
desqualifcação da violência contra a mulher, chamada eufemisticamente de “atitude
dissonante”, inferiorizando a mulher ao rotulá-la de incapaz e frágil por sentir sua
autoestima ferida quando vítima de violência.
Ao apresentar os atos que a Lei coíbe e pune como atos inevitáveis no
cotidiano de um casal, ao lado da afrmativa de que ser homem pode ser um
crime, equipara-se homem e violência, sinalizando que a violência em uma relação
doméstica é algo natural, sendo a “Lei Maria da Penha” a violadora da ordem do lar.
A partir dessas premissas, durante a pesquisa foram sendo observadas
algumas constatações que inicialmente não estavam em nossos objetivos. Desse
modo, a partir da análise do grupo I que se manifesta pela inconstitucionalidade da
“Lei Maria da Penha”, além da percepção de Gênero nos documentos e da relação
público/privado, verifcaram-se as representações de Gênero que se constroem
tendo por base a heterossexualidade como padrão de relacionamento íntimo.
Assim, outro aspecto representativo do Sujeito Constitucional, característico
da dualidade do pensamento patriarcal que surge do binômio: homem/mulher é a
assunção da heterossexualidade como padrão de orientação sexual. Observamos
também que a representação social da heterossexualidade como norma de
comportamento é reforçada por parte do grupo I, quando, por exemplo, o citado
documento I-01 destaca que ser homem pode ser crime, salvo, se homossexual,
categoria adjetivada como “moralmente inferior”.
Esse padrão se repete no documento I-09 nos seguintes termos:
“Enfm! Todas as razões históricas, flosófcas e psicossociais, ao invés
de nos conduzir ao equilíbrio, ao contrário vêm para culminar nesta
lei absurda, que mais se assemelha a uma bomba. Aquele que ama a
mentira, a dissimulação, a perfídia e a confusão certamente está rindo
à toa! Porque a vingar este conjunto normativo de regras diabólicas, a
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família estará em perigo, como inclusive já está: desfacelada, os flhos
sem regras - porque sem pais; o homem subjugado, sem preconceito,
como nós vimos, não signifca sem ética; a adoção por homossexuais
e o ‘casamento’ deles, como mais um exemplo. Tudo em nome de
uma igualdade cujo conceito tem sido prostituído em nome de uma
sociedade igualitária”.
Como representação social do excerto citado, a vigência da “Lei Maria da
Penha”, à semelhança da caixa de pandora, trouxe à tona o desequilíbrio, a mentira,
a dissimulação, a perfídia, a confusão e a quebra da isonomia social entre mulheres e
homens, corrompendo a ética, assim como o casamento e a adoção por homossexuais.
Como base nesta idéia, além da subjugação da mulher no espaço privado do lar, a
heterossexualidade é reforçada como única forma de orientação sexual legítima.
Enfm, o estudo do campo jurídico que se manifesta pela inconstitucionalidade
da “Lei Maria da Penha” constatou nessas manifestações a produção e reprodução
das relações patriarcais de Gênero, construídas a partir da uma argumentação
jurídica que se apresenta como neutra, imparcial e sem qualquer relação dialógica
com o campo social.
2.1.2. Resultados do Grupo que Defende a Aplicação da “Lei Maria da
Penha” aos Homens
Durante a aplicação do instrumento de pesquisa foi identifcada uma
fração do campo jurídico, inicialmente alocada no grupo que se manifesta pela
constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”, com a ressalva de que a mesma pode
ser aplicada aos homens. Após análise qualitativa do instrumento de pesquisa
percebemos que esse grupo, embora repute a Lei constitucional, traz uma estratégia
jurídica que o equipara ao grupo que manifesta a inconstitucionalidade. O ponto
convergente entre ambos é o entendimento que a Lei 11.340/2006 viola o princípio
constitucional da igualdade.
Diante disto, o campo jurídico que foi inicialmente divido em dois grupos
(manifestação de inconstitucionalidade e manifestação de constitucionalidade) foi
acrescido por um intermediário (manifestação de constitucionalidade com aplicação
da “Lei Maria da Penha” aos homens), demandando um novo rearranjo.
Enquanto que o grupo I que advoga a inconstitucionalidade da lei
11.340/2006 por entender que o princípio da igualdade foi violado propõe a retirada
da Lei do ordenamento jurídico, o grupo que defende a constitucionalidade, desde
que a Lei seja aplicada a qualquer pessoa, também parte da premissa da violação
do princípio da igualdade, contudo, em lugar da retirada da Lei do sistema jurídico,
apregoa a sua extensão a qualquer pessoa que sofra violência doméstica.
Embora o grupo que defende a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos
homens aponte como conclusão a constitucionalidade da Lei, desde que não restrita
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às mulheres, sua fundamentação tem por base o argumento da inconstitucionalidade
relativa, por violação ao principio constitucional da isonomia. Diante disto, optamos
por deslocar esses documentos do grupo que defende a constitucionalidade da Lei,
alocando-o no grupo que advoga sua inconstitucionalidade.
Em consonância com o grupo I, anteriormente analisado, o grupo
denominado de IR que defende a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens tem
por característica a não utilização da categoria analítica de Gênero, negando, em
geral, assimetria no exercício de poder entre mulheres e homens na sociedade.
O documento IR- 01, representativo do grupo, traz o seguinte argumento:
“A inconstitucionalidade por discriminação propiciada pela Lei Federal
11.340/06 (Lei Maria da Penha) suscita a outorga de benefício legítimo
de medidas assecuratórias apenas às mulheres em situação de violência
doméstica, quando o art. 5º, II, c/c art. 226, §8º, da Constituição Federal,
não possibilitaria discriminação aos homens em igual situação, de
modo a incidir em inconstitucionalidade relativa, em face do princípio
da isonomia. Tal inconstitucionalidade, no entanto, não autoriza a
conclusão de afastamento da lei do ordenamento jurídico, mas tão
somente a extensão dos seus efeitos aos discriminados que a solicitarem
perante o Poder Judiciário, caso por caso, não sendo, portanto, possível
a simples eliminação da norma produzida como elemento para
afastar a análise do pedido de quaisquer das medidas nela previstas,
porque o art. 5º, II, c/c art. 21, I e art. 226, §8º, todos da Constituição
Federal, compatibilizam-se e harmonizam-se, propiciando a aplicação
indistinta da lei em comento tanto para mulheres como para homens
em situação de risco ou de violência decorrentes da relação familiar”.
Aqui notamos um traço característico do grupo IR, semelhante ao grupo
I, que é a disposição da argumentação jurídica sem qualquer relação dialógica com
o campo social, como se a “Lei Maria da Penha” fosse tão só um fenômeno jurídico,
sem qualquer intervenção do e no campo social.
Interessante registrar que o excerto do documento citado, representativo do
grupo IR, trata a violência que a “Lei Maria da Penha” regula não como decorrente de
um contexto social em que os papéis femininos e masculinos são delimitados pelo
modelo patriarcal, mas como fruto da relação familiar, assim a Lei não é vista como
uma forma de intervenção na sociedade, mas apenas na pequena célula familiar,
formada pelo simples fato das pessoas viverem juntas.
Quando o excerto afrma que a Constituição não permite discriminação aos
homens no tratamento jurídico da violência doméstica, evidencia o traço observado
no grupo IR e pelo grupo I de perceber que a disparidade entre mulheres e homens
foi criada pela “Lei Maria da Penha” e não na e pela sociedade. Neste mesmo sentido
o documento IR-04:
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“O tratamento desigual tampouco se justifca por não haver adequação
ao princípio da razoabilidade pelo argumento de que as mulheres
sofrem violência doméstica em maior quantidade. As estatísticas
não tornam menos gravosa a conduta quando atinge vítima do sexo
masculino, precipuamente, repita-se, porque a vítima pode ser criança
ou idoso. É inequívoco, por exemplo, que homens sofrem homicídio por
emprego de arma de fogo em escala muito maior do que as mulheres,
mas isso, em hipótese alguma, justifcaria, devido ao princípio da
igualdade entre os sexos, a existência de lei estabelecendo pena menor
para os casos em que a vítima fosse do sexo feminino. [...] Para tanto,
bastaria que a Lei n. 11.340/2006 fosse alterada, trocando-se a expressão
‘violência doméstica ou familiar contra a mulher’ por ‘violência
doméstica e familiar contra a pessoa’, de modo a cessar o tratamento
desigual e garantir a legislação que visa coibir a violência doméstica
contra qualquer integrante da família, conforme, aliás, expressamente
exige o §8º do art. 226 da Constituição Federal.”
Assim, quando o grupo IR estabelece que a Lei 11.340/2006 cria o
desequilíbrio nos papéis sociais de mulheres e homens, está negando a existência
de qualquer assimetria social de Gênero, invisibilizando e, portando, excluindo as
peculiaridades da violência contra as mulheres e a identidade feminina desenhada
no e pelo modelo de sociedade patriarcal.
Desse modo, como no grupo I, anteriormente analisado, aqui é possível, na
perspectiva social, identifcar o movimento que SABADELL (2005:25), ao analisar
os mecanismos de perpetuação do controle patriarcal, denomina de “negação da
realidade”, que ocorre quando a violência doméstica é invisibilizada.
Ao estender a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens, como
condição de sua adequação à Carta Maior, o grupo IR passa a tratar as relações entre
os membros da família de forma massifcada, retirando de pauta a problemática
patriarcal de Gênero introduzida pelo legislador. Com essa estratégia legal, absolve-
se o patriarcalismo através da suposta neutralidade e imparcialidade do Direito que
inadmite qualquer diferenciação entre as pessoas, a fm de preservar uma suposta
igualdade constitucional.
Embora a violência doméstica seja aparentemente publicizada, com a
possibilidade de intervenção do Poder Judiciário, essa estratégia acaba por referendar
as relações patriarcais de Gênero no seio da família e da sociedade, na medida em
que o grupo IR propõe a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens.
Assim, a invisibilidade da violência contra a mulher e suas imbricações com
o patriarcalismo acaba confnando essa espécie de violência ao âmbito privado,
possibilitando que o homem continue a exercer de fato o “pátrio poder”, em
detrimento da inferiorização e submissão da mulher no lar e na sociedade, diante da
negação da realidade das relações patriarcais de Gênero.
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50
A extensão da aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens é uma estratégia
adotada pelo campo jurídico, a qual nega a realidade do campo social, referendando,
em última análise a manutenção do status quo das relações patriarcais de Gênero.
Com base no delineamento de campo jurídico apresentado por ENGELMANN
(2006), constatamos que o Direito aqui apresenta-se como neutro, conservador e
prático, assim como no grupo I que defende a inconstitucionalidade da “Lei Maria da
Penha”, atuando como pólo conservador e constituindo-se como fator real de poder
em prol da ordem patriarcal nas relações sociais de Gênero.
2.2. As Manifestações de Constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”
O grupo denominado de “C”, que analisaremos neste tópico, entende que
a “Lei Maria da Penha” não apresenta nenhuma macula legal, devendo ser aplicada
pelo campo jurídico na forma em que foi promulgada. A pesquisa constatou que o
grupo C tem como premissa o reconhecimento da categoria analítica de Gênero, a
publicização do confito e a percepção da Lei como meio de desequiparação legal e
legítimo para promover o combate e a prevenção da violência contra a mulher no
campo social.
A categoria analítica de Gênero é utilizada constantemente pelo grupo C,
estabelecendo o diálogo entre o campo jurídico e o campo social, ou, é percebida
através do reconhecimento das assimetrias de poder no seio social entre mulheres
e homens. O documento C-21 que trabalha com a constitucionalidade da Lei “Maria
da Penha” traz o seguinte registro:
“A política de repressão à violência contra a mulher, efetivada pela
‘Lei Maria da Penha’, está intimamente ligada à necessidade de
concretização do princípio constitucional de isonomia, procurando
diminuir a desigualdade de condições entre homens e mulheres na
busca da dignidade da pessoa humana, diante do fato público e notório
da quantidade de agressões sofridas pelas mulheres na intimidade
doméstica [...].”
Portanto, o princípio que consagra a igualdade do homem e da mulher
perante a lei não poderá desprezar os aspectos históricos e sociais que envolvem
cada um deles na família brasileira. Tais aspectos apontam a notória predominância
do homem na condução dos assuntos familiares, relegando-se à mulher uma posição
secundária, circunstâncias essas que confguram uma ineludível desigualdade entre
ambos, a refetir, de conseqüência, na exegese do aludido princípio. Assim, para
se alcançar uma possível igualdade entre o homem e a mulher brasileiros na esfera
familiar, conclui-se que o sentido do princípio da isonomia aproxima-se da idéia
aristotélica de justiça: “aos desiguais dispensa-se tratamento desigual, conforme
assinalado corretamente pelo apelante.” (Grifos do Original)
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51
Destarte, o documento mencionado sintetiza a percepção do grupo C
sobre o desenho assimétrico dos papéis sociais de mulheres e homens na sociedade
brasileira, denunciando a vigência de fato da hegemonia masculina na condução dos
assuntos familiares, sinalizando que a realidade de assimetria de Gênero no campo
social ainda não foi vencida.
A “Lei Maria da Penha” para o grupo C, então, é tida como instrumento
legítimo de intervenção no campo social em favor da superação da dominação
masculina. A relação dialógica entre o campo jurídico e o campo social é acentuada
pela classifcação da Lei 11.340/2006 como política pública de repressão à violência
doméstica contra a mulher.
O documento C-19 também expõe, na mesma linha, a percepção do grupo
C, senão vejamos:
“Com efeito, a alegação de que o homem estaria sendo excluído do
núcleo familiar, ferindo o artigo 226, §8º, da Constituição Federal, e que
apenas estaria protegendo a mulher não tem respaldo, pois o mesmo
diploma legal prevê que ‘O Estado assegurará a assistência à família na
pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para
coibir a violência no âmbito de suas relações”.
A partir, então, de tal dispositivo é que a “Lei Maria da Penha” foi publicada,
ainda que quase vinte anos depois da promulgação da Constituição Federal. Com
efeito, o artigo 226, §8º, já dispunha que seriam criados mecanismos para coibir a
violência no âmbito familiar, onde a mulher é, efetivamente, a parte hipossufciente
da relação. Daí porque foi editada a Lei 11.340/06, para dar cumprimento ao
dispositivo constitucional.
Diante disso, não há falar em inconstitucionalidade da Lei 11.340/2006, pois
a própria Constituição Federal previu a criação de uma Lei para coibir a violência
doméstica, bem como está presente na Constituição Federal a diferença entre a
igualdade formal e material, a qual dá suporte à Lei 11340/2006, sem ferir o princípio
da isonomia, como alegado pelo apelante.
Frise-se, que em sendo declarada a inconstitucionalidade da Lei 11340/2006,
também ter-se-ia que declarar inconstitucional o Estatuto do Idoso, o Código de
Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente, pois estes também
estariam ferindo o princípio da isonomia. Assim, estas Leis, bem como a “Lei Maria
da Penha”, estão voltadas às pessoas mais vulneráveis e merecedoras de especial
proteção, procurando igualar quem é desigual. (Grifos do Original).
Assim como no excerto do documento C-21, citado anteriormente, a
violência familiar não é tratada de forma genérica, o recorte dado á mulher em
situação de vítima desta espécie de violência, problematiza, denunciando e dando
visibilidade á submissão da mulher forjada pela cultura patriarcal.
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Nos documentos citados, representativos do grupo C, a intimidade
doméstica é tida como o espaço privilegiado de ocorrência da violência contra a
mulher, o que aliado à nota de que a “Lei Maria da Penha” faz parte de uma política
de repressão, conduz a celeuma do privado ao público.
Na medida em que há assunção pelo grupo C de que é: “fato público e notório
a quantidade de agressões sofridas pelas mulheres na intimidade doméstica” e que “a
mulher é, efetivamente, a parte hipossufciente da relação”, o ato de agressão contra
a mulher na esfera intrafamiliar é reconhecido como oriundo da desigualdade
material entre homens e mulheres, sendo o lar e a relação íntima apenas o locus de
acontecimento, afastando com ênfase a privatização desta espécie de violência.
Embora PIERROT
7
(1997) destaque que a divisão entre público e privado
tenha tomado evidência no século XIX, ARENDET (2008) acentua que no século XX
os planos público e privado, mesclam-se, neste ínterim que o movimento feminista
8

teve grande contribuição na dissolução da barreira entre essas duas esferas,
sobretudo com a reivindicação de visibilidade da violência doméstica.
A partir daí, observamos que o grupo C ao reconhecer a constitucionalidade
da “Lei Maria da Penha”, legitima a pauta do movimento feminista de dar à
violência intrafamiliar contra a mulher uma conotação política. Esse argumento é
utilizado pelo grupo C como sustentáculo do posicionamento da adequação da Lei
11.340/2006 à Carta Maior, denotando a superação do dualismo patriarcal apontado
por WILSHIRE (1997) e BOURDIEU (2007): público/privado e masculino/feminino.
A superação do dualismo que caracteriza as relações de Gênero na sociedade
patriarcal equivale ao rompimento com esse padrão, ao qual o campo jurídico tem
sua legitimidade de atuação resguardada. Senão vejamos o documento C-01:
“[...] Diante dessa realidade, é patente a necessidade de adoção de
medidas afrmativas em defesa das mulheres, a fm de corrigir a
distorção social existente na sociedade brasileira, ainda patriarcal,
uma vez que o número de mulheres vítimas de violência doméstica ou
familiar, não obstante a falta de dados comparativos, é notoriamente
superior ao dos homens.”
Como sabido, não basta afrmar a igualdade formal, ignorando as
disparidades sociais existentes, visto que militaria contra a concretização da
7 Para a autora, o público é o único domínio direto da intervenção, do poder e campo tido
como dos verdadeiros valores, sendo reservado aos homens. (PIERROT: 1997 )
8 COSTA (2007) sobre o tema indica que: “A concepção do caráter privado da violência
doméstica impede que sua dimensão política seja evidenciada e que tenha o mesmo tratamento dos que outros
tipos de crimes. A sociedade enfrenta o enorme desafo de tornar as estratégias que visam à liberdade das
mulheres que sofrem violência um ato político, público e coletivo, capaz de reforçar iniciativas particulares,
mas não menos relevantes. Assim, para que essas iniciativas sejam implementadas, faz-se necessário não
apenas renomear a violência doméstica, para que não permaneçam dúvidas quanto ao seu caráter político,
mas, também, reforçar a luta para que a concepção de que ‘o pessoal é político’ permeie as práticas individuais
e coletivas, privadas e públicas”.
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
53
desejada igualdade material, negando-se, assim, o objetivo a que a Carta Política
buscou atingir.
Com efeito, a distinção de tratamento revela-se, assim, plenamente
justifcada, tendo em conta situação social a que continuam sujeitas as mulheres,
inexistindo, portanto, afronta ao princípio da igualdade.
É indubitável que, não obstante a igualdade substancial entre homens e
mulheres (essência humana), remanesce a disparidade social (....) (Grifos do original).
A superação do dualismo público/privado e a relação dialógica entre campo
jurídico e campo social passam pelo reconhecimento do grupo C do caráter histórico
e cultural das relações patriarcais de Gênero. Desse modo, as assimetrias sociais entre
mulheres e homens estão no plano da contingencialidade, do transitório e do dinâmico.
O trecho citado é representativo do grupo C, evidenciando a legitimidade do
campo jurídico em atuar de modo a interferir no campo social e, portanto, nos rumos
da história no que toca às relações de Gênero. Destarte, a partir da categoria de
ENGELMANN (2006), conforme dito anteriormente, o campo jurídico é constituído
de dois pólos concorrentes
9
, sendo que o grupo C ao defender a constitucionalidade
da “Lei Maria da Penha” é classifcado como pólo diversifcado pelas seguintes
características: politizado e crítico, em oposição ao pólo conservador.
3. Considerações fnais
ENGELMANN (2006) destaca que o campo jurídico divide-se em dois pólos,
um tradicional e outro diversifcado, os quais a pesquisa identifcou de um lado o
grupo I e o grupo IR, que defendem a inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha”
e, de outro, o grupo C que advoga a adequação da Lei à Carta Maior.
Contudo, como assevera o citado autor, “essa grande oposição signifca
apenas um ponto de partida para a apreensão de lógicas mais complexas que defnem
as oposições e alinhamento no interior desse espaço” ENGELMANN (2006). Dessa
forma, os dois pólos encontrados na presente pesquisa representam a luta simbólica
de Gênero travada no espaço do campo jurídico, em que se digladiam duas forças:
uma no sentindo de manutenção do status quo das relações patriarcais de Gênero e
outra no sentido de superação dessas estruturas.
A pesquisa constatou ainda que os dois pólos representam fatores reais de
poder no campo jurídico, uma vez que tanto uma tese como outra tem amparo da
academia e da prática jurídica. Contudo, vem predominando no campo jurídico a tese
da constitucionalidade da Lei 11.340/2006, o que demonstra que o campo jurídico
vem rompendo com a exclusão social da mulher, através da abertura à modifcação
das relações patriarcais de Gênero.
Dos cento e dois documentos analisados, setenta pertencem ao grupo C
que tem a “Lei Maria da Penha” como constitucional e trinta e dois ao grupo I que
9 Um desses pólos, já analisado, foi o segmento tradicional, representado na pesquisa
pelos adeptos da inconstitucionalidade da Lei 11.340/2006.
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
54
advoga a inconstitucionalidade da mesma, sendo que desses, dezessete defendem
a retirada da Lei 11.340/2006 do ordenamento jurídico por ofensa à Carta Maior e
quinze sustentam a tese da extensão da mesma aos homens.
A aplicação do instrumento de pesquisa, através das questões dois e três,
trouxe a informação que os cento e dois documentos analisados
10
representam a
manifestação de pensamento de cento e trinta e oito pessoas, das quais noventa e
três são homens e quarenta e cinco são mulheres. Assim, observou-se que cinqüenta
e um homens e trinta mulheres defendem a constitucionalidade da “Lei Maria
da Penha”, enquanto, os que advogam relatando que a mesma viola o princípio
constitucional da igualdade, trinta e dois são homens e quinze são mulheres. Dentre
esse último grupo, vinte homens e nove mulheres se posicionam pela retirada da Lei
11.340/2006 da ordem jurídica e doze homens e seis mulheres defendem a extensão
de sua aplicação aos homens.
O maior número de homens nos grupos sinaliza o predomínio deles no
campo jurídico, que é representado historicamente como um espaço público de
poder, masculino por excelência. Destarte, através da própria estrutura do Poder
Judiciário, enquanto fração do campo jurídico, é possível perceber as expressões
simbólicas de Gênero vigentes no campo social em determinada época.
Então, a fm de interpretar os dados coletados a partir do instrumento de
pesquisa aplicado às manifestações jurídicas sobre a constitucionalidade da “Lei Maria
da Penha”, pesquisamos
11
a composição das instâncias dos Superiores Tribunais, como
cúpula do Judiciário, constatando que no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no total
de trinta membros, apenas cinco (cinco) são mulheres, enquanto vinte e cinco são
homens
12
. Já no Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Poder Judiciário,
conta com onze membros, sendo apenas duas mulheres
13
e nove homens
14
.
Essas informações sinalizam que o campo jurídico ainda é um espaço
predominantemente masculino, contudo, apontam também para a mudança desse
paradigma, com o rompimento da barreira sexista através da entrada de mulheres
em postos privilegiados do campo, como os Supremos Tribunais.
O diálogo entre as constatações da pesquisa, de que o campo jurídico
tende a atuar como identidade de resistência frente às questões de Gênero, e que o
mesmo, apesar da mudança de sua formação, ainda é um espaço de homens, leva à
conclusão de que embora o campo jurídico seja predominantemente masculino, não
é necessariamente reprodutor das relações patriarcais de Gênero.
10 Esclareço que alguns documentos, como os acórdãos que são decisões coletivas dos
tribunais, contaram com autoria coletiva, por isso a pesquisa contou com o número maior de pessoas que se
manifestaram, quando comparado à quantidade de documentos.
11 Pesquisa realizada em 24 de julho de 2008.
12 Dados do site: www.stj.gov.br, em 24 de julho de 2008.
13 Também constatamos na pesquisa que a ministra Ellen Gracie Northfeet foi a primeira
mulher a ocupar esse posto no recente ano de 2000, galgando a presidência do STF e do conselho Nacional de
Justiça- CNJ- entre os anos de 2006 e 2008.
14 Dados do site: www.stf.gov.br, em 24 de julho de 2008
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
55
A participação de mulheres e homens nos grupos que defendem a
constitucionalidade e a inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” aponta
no sentido de que tanto a superação das relações patriarcais de Gênero, como a
manutenção da dominação masculina transcendem a barreira sexista. Não se pode
relacionar a identidade legitimadora do patriarcado com homem, nem a identidade
de resistência e de projeto nas questões de Gênero com a mulher
15
.
A observação de dois pólos divergentes no campo jurídico só foi possível a
partir da superação do modelo de história linear, em que os fatos históricos e, portanto,
sociais, são percebidos em blocos. Ao contrário, foi utilizado para a leitura dos
dados coletados pelo instrumento de pesquisa aplicado às manifestações jurídicas
sobre o debate de constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”, a temporalidade
múltipla, que possibilita a interpretação da história, através do reconhecimento de
coexistência dos fatos sociais.
Assim, o campo jurídico refete dois pólos, um tradicional e outro diversifcado,
representando o entrecruzamento de dois modelos de relação de Gênero, um que
preserva os valores patriarcais e outro que visa superá-lo, prevalecendo este último
no campo jurídico, o que favorece o reconhecimento da mulher enquanto sujeito de
direitos em igualdade com o homem.
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15 BOURDIEU (2007) chama a atenção para o fato de que o movimento feminista não
foi feito apenas por mulheres, que a colaboração, participação e apoio dos homens foram fundamentais
para o êxito das pautas feministas, bem que a produção e reprodução dos valores patriarcais são levadas à
cabo também pelas próprias vítimas desse sistema: as mulheres. Neste último caso, o citado autor adjetiva
esse comportamento como um dos resultados mais cruéis do sistema de exclusão, que é fazer suas vítimas
internalizar e referendar a dominação masculina.
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www.stj.jus.br
Categoria Mestre e Estudante de Doutorado
Categoria
Graduado
Especialista e
Estudante de mestrado
Artigos Científcos Premiados
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
61
Categoria Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado
Introdução
Nesta categoria, houve 283 inscrições, com uma elevada participação de
mulheres, de 75%, e 25% de inscrições masculinas.
5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Categoria Graduados, Especialistas e Estudantes de Mestrado
Inscrições por sexo
Sexo Quantidade %
Masculino 70 25%
Feminino 213 75%
Total 283 100%
Fonte: CNPq/SPM, 2009.

Fonte: CNPq/SPM, 2009.
No processo de pré-seleção, foram selecionados 147 artigos, correspondendo
a 52% dos trabalhos enviados.
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
62
Discursos femininos – um estudo sobre a
relação entre mulheres e corrupção
Ana Luiza Melo Aranha
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Orientadora: Profa. Dra. Marlise Matos
Introdução
Este artigo surgiu da participação enquanto bolsista de iniciação científca
na pesquisa “A Política na Ausência das Mulheres”, realizada no âmbito do
Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais, sob
a coordenação da professora Marlise Matos. Essa pesquisa problematiza a sub-
representação das mulheres na política, tendo como foco principal os legislativos
nacional e mineiro. Como parte da pesquisa, foram feitas entrevistas com 50
candidatas a deputada estadual, 8 deputadas estaduais eleitas para a 15ª legislatura
da Assembléia Legislativa de Minas Gerais e 22 deputadas federais eleitas para a 52ª
legislatura da Câmara Federal.
O foco principal desta pesquisa está na busca de elementos que nos permitam
apontar pistas da causa do problema da ausência das mulheres na política e entender
como elas, mesmo se deparando com obstáculos os mais diversos, conseguem se
fazer representar num espaço ainda extremamente masculinizado. Porém, a partir
das entrevistas realizadas, pudemos perceber que era possível estabelecer novos
rumos e temas para a análise. Percebemos a utilização, por parte das entrevistadas,
do argumento de que a entrada de mais mulheres nos cargos legislativos moralizaria
a política. À primeira vista, existiria então uma tendência nas entrevistas em afrmar
que as mulheres são menos corruptas do que os homens. Dessa maneira, escolhemos
como foco de análise deste artigo a relação estabelecida pelas entrevistadas entre
mulheres e corrupção. Partimos, assim, para a análise dos discursos construídos
pelas mulheres que já têm uma carreira política sobre a relação entre mulheres e
corrupção.
Essas entrevistas nos estimularam a questionar se realmente existiria uma
“essência” feminina menos corrupta. A partir dessa idéia, revisamos o que já foi
escrito sobre corrupção e gênero e pensamos até que ponto essa bibliografa nos
ajudaria a combater a idéia de uma “essência” feminina mais moral.
Na Ciência Política atual esses dois temas (corrupção e gênero) quase não
são tratados conjuntamente, a não ser em alguns estudos internacionais. Por isso,
veremos primeiro o que a Ciência Política do século XX entende por corrupção,
seguido pela discussão propriamente de gênero e o comportamento moral das
mulheres, se estas teriam (ou não) uma moralidade específca que as levaria a se
comportar de maneira menos corrupta, para então visualizarmos como, no cenário
Categoria Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
63
internacional, esses dois temas têm sido estudados e pesquisados juntos. A partir
dessa literatura, passamos para a análise empírica, na qual utilizamos os dados da
referida pesquisa para estabelecer as possíveis relações entre gênero e corrupção no
cenário da política brasileira.
Objetivos
O presente artigo é uma tentativa de discutir a relação entre corrupção e
mulheres, questionando se realmente existe algo que possamos classifcar como
uma “essência” feminina “menos corrupta”. O ponto de partida é a maneira como
a Ciência Política, principalmente no campo internacional, tem tratado a relação
entre corrupção e gênero. Tendo em vista essa discussão teórica, investigamos
a percepção que as mulheres – candidatas e eleitas – têm sobre a relação entre
mulheres e corrupção.
Corrupção
O tema da corrupção no século XX foi principalmente analisado tendo-
se por foco duas abordagens. De acordo com Filgueiras (2006), a primeira dessas
abordagens situa as décadas de 50 e 70 e trata a corrupção através de uma perspectiva
estrutural-funcionalista, relacionando-a ao problema da modernização. A segunda,
que predomina da década de 90 até os nossos dias, enfatiza uma perspectiva
econômica e está preocupada com os custos e externalidades geradas em contextos
de corrupção alargada.
Nas décadas de 50 a 70, a corrupção foi pensada pela sociologia norte-
americana no contexto da teoria da modernização, que pensava na maneira como a
corrupção poderia contribuir ou emperrar o desenvolvimento econômico e político
dos países. Do ponto de vista dessa abordagem, o sistema normativo pode motivar
ou inibir a corrupção. Essa inibição vai depender da institucionalização política
na sociedade, ou seja, da aceitação de normas. Huntington (1975) estabelece uma
relação necessária entre essa institucionalização e a corrupção: a primeira é baixa
e a segunda é grande. E ele diz que mesmo em sociedades com algum grau de
modernização, se estas tiverem baixa institucionalização, estarão sujeitas às práticas
de corrupção.
Na visão de Nye (1967), também situado dentro dessa abordagem, a
corrupção pode resultar em ganhos agregados ao sistema, na medida em que ela
contribui para a formação de um capital privado, para a superação das barreiras
burocráticas e para a integração das elites políticas. E sendo assim, a corrupção
contribui para o desenvolvimento, pois ela força a modernização. Contudo, ela tem
sempre que estar sob o controle das instituições políticas modernas.
Nesta abordagem a corrupção tem a possibilidade de ser “positiva”. Ela
pode ajudar a se alcançar o desenvolvimento, na medida em que possibilita a
Categoria Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
64
transformação de atitudes e de instituições, forçando, assim, padrões de mudança
social. O centro dessa abordagem é como as instituições podem fazer com que as
conseqüências da corrupção sejam positivas para a construção da ordem política.
De acordo com Filgueiras (2006), o contexto da década de 90 (reformas
liberalizantes na economia e na política) mantém e aprofunda a hegemonia
norte-americana no estudo da corrupção. Todavia, é importante salientar uma
mudança metodológica: a incorporação de uma abordagem econômica para
tratar um problema político. Passa-se a analisar a corrupção em termos dos seus
custos para a economia de mercado, a partir de premissas da escolha racional e
do novo institucionalismo. Essa perspectiva tornou-se hegemônica nas Ciências
Sociais.
Segundo Filgueiras (2006), o objeto de estudo desta vertente interpretativa
são os fatores que incidem sobre os resultados políticos. E esse objeto é estudado
com base em duas premissas. A primeira diz que os atores políticos são racionais,
buscam maximizar a utilidade esperada em contextos de decisão, conforme uma
estrutura de preferências (Downs, 1957). A idéia é que o agente político é um
indivíduo egoísta que age para maximizar seus interesses e cujo comportamento é
resultado de uma escolha consciente e racional. A segunda premissa afrma que os
contextos de decisão infuenciam as preferências e são determinados pela estrutura
organizacional da política (March e Olsen, 1989). A idéia contida nessa segunda
premissa é a de que o arranjo institucional pode modifcar o comportamento das
pessoas, pois ele determina as estratégias empregadas pelos atores (Hall e Taylor,
1996), criando motivações e constrangimentos para a ação deles. É com base
nessa última premissa que essa abordagem afrma ser preciso coibir os incentivos
institucionais para práticas de corrupção.
A corrupção ocorre, para a abordagem econômica, na interface dos setores
público e privado. Ela depende do modo como as instituições permitem a ação
discricionária dos atores políticos, ou seja, permitem o uso de recursos públicos para
a satisfação de interesses privados (Rose-Ackerman, 1999).
Assim, esses autores insistem que a corrupção não seria coibida através de um
reforço do poder burocrático, pois isso resultaria em maior discricionariedade e maior
incentivo para o pagamento de propina e suborno – aumento das práticas de corrupção –,
e sim pelo fomento do mercado (North, 1990). Esse mercado seria uma arena constante de
negociação e catalização dos interesses dos agentes econômicos e políticos. A corrupção
é percebida como um fenômeno derivado de um mercado coibido. A causa estável da
corrupção seria a existência de monopólios e privilégios no setor público, ou seja, ausência
de mercado, que criaria incentivos para que os agentes buscassem maximizar sua renda
privada através do suborno e da propina. Dessa maneira, a abordagem econômica da
corrupção, seguindo o pensamento de Filgueiras (2006), enuncia como instrumento de
combate à corrupção o fomento do mercado e a contenção do poder burocrático do
Estado, feitos a partir de reformas mais liberalizantes.
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No contexto do século XXI surgem novas propostas de abordagem do tema
da corrupção que fogem à análise pura e simplesmente econômica – hegemônica em
nossos dias.
Newton Bignotto (2006) é um autor que pode ser enquadrado em uma nova
proposta para o estudo da corrupção. Este autor olha a corrupção na sua acepção
mais larga, não só como um problema institucional. O autor critica a defnição do
fenômeno nas sociedades atuais, feita por muitos cientistas políticos, e afrma ser o
comportamento corrupto quando há comportamento ilegal de quem desempenha
um papel na estrutura estatal. Esse tipo de abordagem ressalta que o remédio
para corrupção deve ser de natureza legal, pois ela é um ato de ilegalidade – aqui
encontramos a visão institucionalista e a sua conseqüente defesa da modifcação
nas regras vigentes. Por esse ponto de vista, temos que reconhecer que o aparato
legal brasileiro não é omisso em relação aos funcionários que transgridem a lei. A
pergunta que Bignotto se faz então é se a análise por esse viés institucional abarca
todos os aspectos do problema. Para ele, o mal-estar que domina a sociedade
brasileira, em relação ao funcionamento do Estado, não se esgota na queixa contra a
inefciência dos mecanismos legais de punição.
Para Bignotto, a corrupção é um problema para a sociedade brasileira
porque é percebida como parte de nossa vida política em toda a sua extensão.
A corrupção afeta a relação dos cidadãos de um Estado com a vida política em
geral e não apenas com uma de suas instâncias. Temos que fugir da interpretação
corriqueira sobre o problema da corrupção e encarar as relações complexas
que aqui no Brasil se estabeleceram entre órgãos estatais e grupos privados.
A separação do público e do privado nem sempre é percebida como um fato
derivado das leis fundamentais. No nosso país, os grupos que chegam ao poder
costumam desconhecer que o aparato constitucional é um limite intransponível
para suas ações. Vários atores políticos se comportam como se a vitória nas
eleições signifcasse a posse da totalidade dos poderes do Estado. Para o estudo da
corrupção no Brasil, temos que retomar o debate sobre as defnições entre público
e privado e pensar em uma reforma da legislação que contemple o conjunto das
forças políticas. Sem uma clara defnição das fronteiras público/privado e sem a
extensão da punição a todos os agentes corruptores, a corrupção no Brasil será
uma constante ameaça ao Estado de direito.
A partir dessa nova abordagem é que podemos perceber a importância de
olharmos para os fatores sociais e culturais que promovem a corrupção, para além
dos fatores institucionais. Entendemos a corrupção como um fenômeno com pelo
menos três dimensões: percepção dos indivíduos sobre o que é o público, práticas no
interior da economia e maneira como o sistema político concilia suas estratégias de
fnanciamento com a preservação do interesse público. Nosso enfoque neste artigo
é nesta primeira dimensão das percepções dos cidadãos: como as mulheres que já
possuem uma carreira política fazem a articulação entre mulheres e o comportamento
político corrupto.
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Gênero e Corrupção
Para discutirmos a conexão entre gênero e corrupção, é preciso de início
postular que, na história da teoria política, homens e mulheres são associados a
modos diferentes de pensamento e sentimento. Essa distinção teve como causa,
segundo Kymlicka (2006), a distinção entre os domínios público e privado, na
qual os homens são vistos como participantes da esfera pública e as mulheres da
esfera privada. A partir dessa separação, as disposições particularistas, emocionais
e intuitivas foram vistas como pertencentes à vida doméstica das mulheres, e o
pensamento imparcial, desapaixonado e racional como fazendo parte da vida
pública dos homens. De acordo com Friedman (1987):
as tarefas de governar, regulamentar a ordem social e administrar
outras instituições ‘públicas’ foram monopolizadas pelos homens como
seu domínio privilegiado e as tarefas de sustentar as relações sociais
privatizadas foram impostas ou deixadas às mulheres. Os gêneros,
portanto, foram concebidos em termos de projetos morais especiais e
distintos. (Friedman, 1987, p. 94)

É assim que, para uma corrente signifcativa do feminismo contemporâneo,
nós deveríamos analisar seriamente a moralidade diferente das mulheres. Na origem
da relevância dada à moralidade feminina encontramos a argumentação construída
por Carol Gilligan (1982), a qual deu parte da contribuição para sustentar a defesa da
idéia de que as mulheres seriam “menos corruptas” do que os homens.
Gilligan (1982) através de três estudos – sobre o desenvolvimento identitário
e moral na vida adulta, sobre a decisão a respeito do aborto e sobre o direito e a
responsabilidade – encontra diferentes construções dos problemas morais
comparando os dois sexos. Seus estudos mostrariam que as mulheres têm uma
concepção moral diferente. Para estas, o problema moral surgiria de responsabilidades
confitantes (não de direitos confitantes) e exigiriam um modo de pensar contextual
e narrativo (não formal e abstrato). A moralidade para as mulheres estaria envolvida
com a atividade do cuidado.
Gilligan afrma ter encontrado, através dos seus estudos, duas moralidades
diferentes: uma masculina e outra feminina. A primeira ligada aos direitos e a segunda
ligada à responsabilidade. A primeira enfatizaria a separação dos outros, o indivíduo,
centrando-se na idéia do exercício dos próprios direitos sem interferência no direito
dos outros e busca uma solução universal, na qual todos estariam de acordo. Por
outro lado, a moralidade da responsabilidade enfatizaria a conexão com os outros, os
relacionamentos e defenderia que a vida inclui obrigações para com as pessoas em
geral, ser responsável para com o mundo, ajudar os outros. As mulheres, para a autora,
trazem um ponto de vista moral diferente, pois organizam as suas experiências sob
outras prioridades, que, por sua vez, seriam diferentes das dos homens.
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Assim, os homens seriam guiados por uma lógica da justiça, na qual a
responsabilidade é uma limitação à ação, a obrigação é respeitar os direitos dos
outros, as regras existiriam para limitar a interferência dos outros, o ponto de partida
seria a separação do eu com o mundo e na qual o ideal é que todos sejam tratados
como possuindo igual valor. As mulheres, por sua vez, teriam uma ética do cuidado
na qual a responsabilidade é pensar nos outros, a obrigação seria a de cuidar, as
respostas seriam contextuais, sempre tentando ser o mais abrangente possível, o
ponto de partida sendo, assim, a conexão do eu com o mundo, na qual o ideal é que
todos sejam correspondidos e incluídos, ninguém fcando de fora. Para essa ética do
cuidado, é central a idéia de que o eu e o outro são interdependentes.
Essa teoria de Gilligan, segundo Miguel (2001), recusa o essencialismo. Para
ela, essa nova moral não é uma singularidade constitutiva das mulheres. Mas suas
idéias foram apropriadas por posturas essencialistas, que construíram em cima
delas a idéia da “política do desvelo”, que naturaliza a diferença feminina.
Essa “política do desvelo” afrma que as mulheres trazem aportes diferentes
para a esfera política, pois elas estão acostumadas, diferentemente dos homens, a
cuidar dos outros e a velar pelos indefesos. Uma maior presença feminina nas esferas
de poder abrandaria o caráter agressivo – masculino – da atividade política e traria
uma maior valorização da solidariedade, da compaixão, uma maior busca pela paz.
Nesta direção, as áreas sociais seriam mais valorizadas, e teríamos a superação da
política pura de interesses, considerada egoísta e masculina. Ocorreria também, com
a presença das mulheres na política, a revalorização da esfera familiar, com o papel
da mãe ganhando destaque: cuidar dos flhos e proteger os fracos. Assim, a prática
política se transformaria, tornando-se uma prática mais ética, generosa e altruísta,
com atenção voltada às necessidades do outro. A idéia da “política do desvelo” é que
a paridade dos sexos na política levará naturalmente a alteração dos padrões de
comportamento na mesma.
Porém, Miguel (2001) argumenta que a relação entre gênero e “política do
desvelo” não é automática. Para ele, homens e mulheres podem exercer o poder
da mesma maneira. A crítica do autor também sublinha que o fato das mulheres
que estão nos governos hoje se ocuparem mais dos temas sociais não seria devido
ao seu imperativo moral mais altruísta, mas sim porque este seria o único nicho
disponível para elas no campo político. Com uma maior entrada de mulheres na
política, o que teríamos seria uma disputa mais intensa e com maior possibilidade
de êxito das mulheres pelos cargos monopolizados hoje pelos homens (áreas de
administração pública, política econômica, relações internacionais). Esse discurso
da “política maternal” procura alterar a hierarquia de prestígio das atividades
políticas, valorizando aquelas exercidas pelas mulheres, no entanto, isso pareceria
eternizar a divisão do trabalho político, insulando as mulheres no seu nicho próprio e
destinando aos homens as tarefas que, ao menos por enquanto, são as mais valorizadas
socialmente (Miguel, 2001, p. 261).
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Miguel (2001) continua sua crítica pontuando o componente essencialista
dessa abordagem: a naturalização da atribuição às mulheres das tarefas de cuidar
dos outros na sua abordagem da política e nos papéis sexuais. Por essa abordagem,
a tarefa do cuidado seria “naturalmente” feminina, o que tiraria dos homens a
responsabilidade pelo cuidado, fcando eles livres da necessidade da preocupação
social, como se as duas formas de exercer a política fossem exclusivas a cada sexo,
sendo que não haveria espaço de troca.
Outra crítica importante que Miguel faz à “política do desvelo” tem como
foco a exaltação que esta faz da atividade política desinteressada. Essa visão
pretende, com a entrada das mulheres nos espaços de poder, esterilizar estes
espaços da contaminação por uma “política de interesses”. Contudo, para o autor, o
problema central para as democracias representativas não é o de uma política “sem
interesses”, mas justamente permitir a expressão de interesses sociais excluídos
ou marginalizados, inclusive os interesses das próprias mulheres. Essa “política do
desvelo” vê como característica feminina a maior preocupação com aqueles que a
cercam do que consigo mesma. Só que está subjacente a essa visão a negação do
direito da mulher a possuir interesses próprios. Essa corrente da teoria política
feminista acabaria, dessa forma, mantendo a subordinação feminina sob um véu de
“superioridade moral”.
Portanto, para Miguel (2001), a afrmação da diferença moral como base
para reivindicar a representação política paritária entre homens e mulheres não se
sustenta, posto que acaba escorregando para a naturalização das diferenças entre
os sexos.
Tendo como referência toda essa discussão sobre a “ética do cuidado” e
a “política do desvelo”, quando procuramos unir gênero e corrupção é no cenário
internacional que encontramos os principais referenciais teóricos. São diversos os
estudos nesse cenário que apontam para a convergência desses dois temas. E são
esses estudos que nos mostram que há um debate muito intenso sobre até onde vai
a conexão entre corrupção e o papel das mulheres.
Swamy et al. (2001), por exemplo, estão preocupados com a relação entre
gênero e corrupção. Eles mostram que as mulheres estão menos envolvidas com
esquemas de propina e suborno. Também demonstram que a corrupção é menor
onde as mulheres possuem uma larga parcela dos assentos parlamentares, têm
posições-chave na burocracia governamental e são uma parcela grande da força de
trabalho.
Os autores constroem três hipóteses para testar se o aumento da presença
das mulheres na vida pública reduziria os níveis de corrupção: em situações
hipotéticas, mulheres são menos propensas a perdoar a corrupção; as empresárias
envolvem-se menos com subornos; e países que têm uma maior representação de
mulheres no governo ou no mercado de trabalho têm menores níveis de corrupção.
Todas as hipóteses são confrmadas.
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Os autores colocam ainda que essas afrmações sobre diferenças de
gênero podem facilmente ser mal interpretadas. Eles reconhecem que existiria um
diferencial de gênero. Porém, com isso, eles não estão afrmando terem encontrado
diferenças essenciais, permanentes ou biologicamente determinadas entre homens e
mulheres. O que eles querem fazer é mostrar relações estatisticamente signifcantes,
que apontam para um diferencial de gênero na incidência da corrupção.
A conclusão do texto é que o diferencial de gênero, no que diz respeito à
corrupção, deve persistir nos próximos anos. Os autores concluem ainda que as
iniciativas políticas de aumentar a participação feminina no governo irão ajudar a
reduzir a corrupção.
Sung (2006) trata da relação entre gênero e corrupção. Seu texto tem como
base a afrmação de que o aumento da participação feminina na vida pública é um
fnal bom e justo, mas isso, por si só, não oferece maneiras efetivas para alcançar
um governo não-corrupto. Por aqui já percebemos que este artigo vai em direção
contrária do primeiro.
Essa visão de que as mulheres são menos corruptas é reforçada por um
documento do Banco Mundial (2001), segundo o qual os negócios e os governos
seriam mais limpos e, ainda, a economia se mostraria mais produtiva, justamente,
nas sociedades em que mulheres têm mais direitos e participam mais da vida
pública. Foi assim, com base nesses argumentos, que as mulheres, de vítimas da
opressão sexista, tornaram-se as “salvadoras” dos países afigidos pela corrupção. O
documento termina clamando por mais mulheres na política e na força de trabalho,
pois isto poderia levar a um bom governo.
Sung concorda com a existência de um diferencial de gênero em se tratando
de comportamentos morais – esse seria um dado inquestionável. Porém, esse
dado não deveria remeter automaticamente à idéia de que um sexo é moralmente
superior ao outro. Para ele, antes de nos preocuparmos com a percentagem ideal
de mulheres no governo, deveríamos perguntar se gênero realmente importa. Esse
autor critica o documento do Banco e defende a hipótese de que um sistema mais
justo ajudaria na diminuição da corrupção, ao invés da hipótese da existência de um
sexo mais justo. As oportunidades para as mulheres tendem a aparecer juntamente
com uma estrutura social e política que é geralmente mais aberta e atinge melhor
os ideais democráticos de participação, justiça e responsabilidade. A democracia
seria melhor do que os outros sistemas políticos quando o que se trata é expandir
o papel político das mulheres. Como resultado disso, segundo o autor, a robusta
associação estatística entre gênero e corrupção no nível internacional poderia ser
mal-interpretada. Ambos, participação feminina no governo e menores níveis de
corrupção, dependeriam de um sistema político mais justo. Assim, para o autor,
são os mecanismos da democracia que diminuem a corrupção e não o sexo do
representante.
Kaufmann (1998) tem uma percepção parecida com a de Sung. O primeiro
autor constata que, recentemente, no mundo inteiro cresceu o envolvimento da
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sociedade civil e das ONGs na luta contra a corrupção. As pesquisas mostram que
esse envolvimento está diretamente relacionado com as liberdades civis: é mais
fácil para a sociedade civil de um país envolver-se no combate à corrupção se neste
as liberdades civis estão salvaguardadas. Assim, um maior alcance de liberdades
civis e de direitos de cidadania está associado ao aumento do controle possível da
corrupção. O autor defende, então, a importância de uma sociedade civil ativa no
combate à corrupção e, para que isto ocorra, a garantia das liberdades civis.
Existe, segundo Kaufmann (1998), uma relação importante que se
estabelece entre mulheres e a sociedade civil: o empoderamento das primeiras
mobiliza a segunda, principalmente contra a corrupção. Os dados que o autor
analisa mostram que os países onde os direitos das mulheres estão mais restringidos
têm maior prevalência de corrupção. As perguntas que o autor se coloca a seguir
são se a ausência dos direitos das mulheres é uma importante variável proxy da
ausência das outras liberdades civis em uma sociedade, ou se a relação é outra, a
saber: se a participação feminina tem um efeito particular de inibição da tolerância
da sociedade para com a corrupção.
Esse tipo de discussão, segundo Matos (2008), descola dos gêneros a (i)
responsabilidade sobre comportamentos mais ou menos éticos e coloca a questão
em outros patamares. Por essa visão, podemos entender que o combate às práticas
de corrupção poderia ser melhor realizado em um ambiente no qual direitos e
liberdades são exercidos em maior plenitude.
Matos defende que há hoje uma convergência na afrmação de que as
mulheres teriam, mais do que os homens, um conjunto de comportamentos sociais
e eticamente orientados, assim como demonstrariam maior preocupação com o
bem público, derivando daí que elas seriam menos corruptas. Inclusive as pesquisas
internacionais destacam a existência de diferenças no envolvimento de mulheres e
homens nos esquemas de corrupção. O que não está claro, para Matos, em função
das desigualdades que perpassam os sexos (especialmente às relativas ao acesso e
permanência desiguais das mulheres nos espaços da política e da economia), é se
essas evidências empíricas podem ser atribuídas a diferenças de oportunidades ou a
diferenças de gênero.
Assim como a grande parte dos autores tratados até aqui, Matos (2008)
coloca que não é possível identifcarmos “essências” fundamentais no que diz
respeito à construção de diferenças nas identidades de gênero. Para essa autora,
...identidades de mulheres e homens são muito mais pontos provisórios
de chegada de trajetórias social e politicamente construídas a partir de
percepções, sentimentos, experiências e vivências específcas de gênero
do que um depósito de atitudes moralmente orientadas e consolidadas
que se fundariam nas diferenças de sexo. (Matos, 2008, p. 422)
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De acordo com a autora, como conseqüência da afrmação da maior
eticidade das mulheres na condução da coisa pública, da menor propensão delas às
atividades corruptas, tivemos a defesa de que as democracias modernas deveriam
incrementar a participação feminina nos espaços institucionalizados da política a
fm de reduzir a corrupção. É preciso, todavia, ir devagar com esse argumento, como
bem nos demonstrou Miguel (2001).
A defesa da entrada de mais mulheres na política não deveria ser feita com
base em uma visão essencialista, que afrme que as mulheres fazem uma política
mais desinteressada e altruísta – “política do desvelo”. É mais interessante fazer essa
defesa tendo como base a idéia de Young (2000) de ‘perspectiva’. Uma idéia forte desta
autora é que nos sistemas representativos existem três modos das pessoas serem
representadas: interesses, opiniões ou perspectivas. Os interesses têm a ver com o que
precisamos para alcançar os fns que queremos (ênfase nos meios), as opiniões são
os princípios, valores e prioridades que fundamentam o nosso juízo acerca de qual
política deve ser seguida (ênfase nos fns), e as perspectivas estão conectadas ao tipo
de experiência social que temos. Essa última idéia afrma que conforme a sua posição
social, a pessoa se encontra sintonizada com certos signifcados e relacionamentos
sociais. Cada posição produz experiências e compreensões particulares que deveriam
ser representadas politicamente. As diferentes perspectivas seriam diferentes pontos
de partida para o debate político, diferentes pontos de vista que membros de um
grupo têm sobre os processos sociais.
Para esta autora, o acesso das mulheres, como de outros grupos
politicamente excluídos, às esferas de deliberação pública é necessário não porque
elas compartilham os mesmos interesses ou opiniões, mas porque elas partem de
uma mesma perspectiva social, vinculada a certos padrões de experiência de vida.
É dessa forma que entendemos como as mulheres podem ser menos corruptas: a
participação delas na arena política seria diferente da masculina porque os dois
lados ocupam posições diferentes na formação social.
Sendo assim, representar perspectivas contribui para a inclusão dos grupos
marginalizados na tomada de decisão. O pressuposto de Young é o de que é incorreta a
exclusão política de grupos e indivíduos subordinados. Para ela todas as perspectivas
dos grupos sociais deveriam estar representadas nas tomadas de decisão política.
A partir dessa discussão teórica, vimos que existe uma associação forte
entre mulheres no poder e menores índices de corrupção, assim como uma grande
discussão sobre se existem ou não comportamentos morais distintos entre os sexos.
Voltamo-nos então para as mulheres brasileiras conectadas com o espaço político a
fm de perceber como elas associam o sexo do representante com comportamentos
mais ou menos corruptos.
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Metodologia
O banco de dados aqui discutido faz parte da pesquisa “A Política na Ausência
das Mulheres” e aborda as percepções que as mulheres ligadas à política (candidatas a
deputada estadual, deputadas estaduais eleitas e deputadas federais eleitas) têm sobre
os comportamentos políticos de homens e mulheres. Essa pesquisa abordou temas
como a existência de diferenças entre homens e mulheres no geral, no comportamento
legislativo e nos motivos para se candidatar. Buscamos aqui entender como essas
mulheres percebem as diferenças entre os sexos, principalmente no comportamento
político de ambos, e qual a conexão que elas estabelecem entre gênero e corrupção.
Queremos entender como elas localizam as diferenças entre os comportamentos
políticos dos sexos, se a vêem como uma diferença natural (“essência”), e como elas
articulam a defesa da presença das mulheres no espaço de poder.
Nossa hipótese, seguindo Matos (2008), é que não existe uma “essência”
feminina mais moral. Esperamos encontrar nessas entrevistas pouca associação entre
as características femininas e uma menor tolerância com a corrupção. Apostamos na
defesa da entrada de mais mulheres na arena política não pela via de uma “essência”
feminina menos corrupta, e sim porque as mulheres têm uma perspectiva social
diferente da masculina. Veremos se isso procede nas entrevistas realizadas.
Resultados e discussões
Nosso objeto de estudo são as entrevistas realizadas pela pesquisa “A Política na
Ausência das Mulheres: um estudo sobre recrutamento político, trajetórias/carreiras
e comportamento legislativos de mulheres” realizada pelo DCP (Departamento de
Ciência Política) e pelo NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher),
ambos da UFMG. O objetivo dessa pesquisa foi compreender a estrutura geral do (i)
recrutamento e rotas de acesso a cargos legislativos de mulheres; das (ii) estratégias
de carreiras/trajetórias políticas femininas; (iii) do comportamento legislativo de
mulheres, com vistas a subsidiar um melhor entendimento dos determinantes que
operam para defnir o lento crescimento da representação de mulheres em cargos
do poder legislativo, no Brasil e em Minas Gerais. A pesquisa realizou um estudo
detalhado, em uma primeira etapa, da Assembléia Legislativa de Minas Gerais e
depois da Câmara dos Deputados em Brasília. Foram entrevistadas, no ano de 2006,
50 candidatas à deputada estadual em Minas Gerais, 8 deputadas estaduais eleitas
nesse mesmo estado e 22 deputadas federais eleitas. Para a nossa análise, utilizamos
as respostas das seguintes perguntas:
• Como a senhora percebe a situação das mulheres na política brasileira
hoje?
• A senhora acredita que ser mulher faz alguma diferença no jogo
político? Qual diferença faria e por quê.
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• A senhora acha que existem motivos diferentes para homens e mulheres
se candidatarem a cargos no legislativo? Por quê?
• Na opinião da senhora, há diferença de comportamento parlamentar
entre os homens e mulheres, independentemente dos alinhamentos
político-partidários?
• A senhora acha que existem comportamentos legislativos distintos
entre homens e mulheres? Por quê?
Nosso foco é a percepção de que as mulheres envolvidas com a política,
sejam elas candidatas ou eleitas, têm sobre a relação entre mulheres e corrupção,
se elas fazem uma ligação entre as características femininas e a “ética do cuidado”,
se percebem diferenças entre os comportamentos parlamentares de homens e
mulheres e como defendem a presença das mulheres nos espaços de decisão política.
Queremos perceber, através da análise das entrevistas, se há ou não no
discurso das mulheres a percepção de uma “essência” feminina menos corrupta,
se há ou não uma associação entre as características pessoais femininas e o
comportamento político das mulheres, se existe a defesa de que ser mulher faz
diferença na política, e também se as entrevistadas percebem ou não que existem
diferenças dentro do próprio grupo das mulheres.
Em primeiro lugar, existe uma forte percepção das entrevistadas em afrmar
que as mulheres possuem alguma característica a mais do que os homens, sempre
características positivas, que estariam fazendo falta na política atual. 82% das
candidatas citaram pelo menos uma característica feminina diferente e melhor do
que as masculinas; nas eleitas, essa porcentagem também foi alta, 70%. Dentre essas
características a mais que as mulheres teriam, encontramos nas entrevistas que a
mulher é mais: direta, compromissada, autêntica, sensitiva, responsável, preocupada
com o outro e com o lado social, sensível, sentimental, detalhista, carinhosa,
humanizada, solidária, envolvidas com o cuidado, dedicada, coração, capaz,
visão panorâmica e de longo prazo, emotiva, piedosa, diálogo, religiosa, envolvida
com projetos, boa ouvinte, audaciosa, franca, intuitiva, minuciosa, conciliadora,
dedicada, doce, complacente, corajosa, moral, respeitosa, carismática, jeitosa,
caridosa, amorosa, bondosa, sincera, tolerante, forte, paciente, compreensiva,
compromissada, ativa, inovadora, preocupada com mudança e justiça social, fel,
presente, carinhosa, persistente, sensata, generosa, conscientes, pacifcadora,
afetiva... Essas características aparecem repetidas vezes nos discursos das mulheres.
A defesa central aqui é que as mulheres têm um olhar diferente do masculino.
Em alguns casos (28% das entrevistas), essas características estão ligadas ao papel
da mãe, da cuidadora do lar, dos flhos, da casa, ao instinto materno do cuidado.
Entre as candidatas que apontaram alguma característica feminina superior às
masculinas, encontramos 66% delas conectadas à ética do cuidado – mulheres são
seres mais voltados para o cuidado com o outro, para o lado social, têm uma visão
de mundo mais coletiva.
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A tendência seria corroborar a tese de que as mulheres possuem realmente
uma outra percepção do mundo, calcada em características “naturalmente”
femininas. Ao falar dessas características, as entrevistadas nos passam a idéia de que
todas as mulheres são assim e de que todos os homens são exatamente o contrário.
Entendemos isso, numa primeira tentativa de explicação, como uma necessidade
das mulheres se afrmarem em um espaço tão masculinizado como a política. Talvez
elas exaltem as suas características “essenciais” para mostrar que a mulher é tão
importante quanto o homem nesse espaço.
Em segundo lugar, tentamos estabelecer como as entrevistadas percebem
a relação entre mulheres e corrupção. Vale destacar que não existia uma pergunta
sobre corrupção no questionário, quando esse tema aparece nas respostas, está
dentro de alguma outra questão sobre diferenças entre homens e mulheres na
política. É preciso colocar também que em TODAS as vezes que o tema da corrupção
aparece, a ligação é estabelecida quase que imediatamente: as mulheres são menos
corruptas do que os homens.
Entre as candidatas, apareceu em 46% das entrevistas a associação que
mulheres são menos corruptas do que os homens. Entre as eleitas a porcentagem é
um pouco menor, 33% delas afrmou que as mulheres são menos corruptas. O fato
das eleitas afrmarem menos do que as candidatas a conexão entre ser mulher e ter
comportamentos políticos menos corruptos, pode ser devido à evidência de que
as deputadas eleitas já estão dentro do jogo político e, portanto, podem perceber
que nem todas as mulheres perseguem o bem-comum quando chegam às casas
legislativas e nem todas as mulheres têm um comportamento pouco ou nada
corrupto.
Nas entrevistas em que aparece o tema da corrupção, as entrevistadas falam
em uníssono que as mulheres são mais éticas, não gostam de corrupção:
A mulher, tudo dela ela volta para a responsabilidade que ela tem. Ela não
tem dinheiro, porque ela não tem tempo e nem tem interesse mental para fcar
articulando, uma trapaça uma outra dali, outra dali, pega uma verba dali, outra verba
de um ciclano, salta de um fulano para outro... A mulher detesta esse tipo de jogo,
então não dá para a mulher. (Entrevistada A, 2006).
Por esse trecho, percebemos que a entrevistada adota a idéia de Gilligan
(1982) de que as mulheres estão mais voltadas para a responsabilidade. E esse
senso de responsabilidade das mulheres impediria que estas se envolvessem com
esquemas corruptos.
Outra explicação para o fato das mulheres se envolverem muito menos do
que os homens nos esquemas de corrupção estaria no comprometimento destes com
os interesses privados: Trace um perfl das parlamentares, mulheres nesse Congresso
Nacional, você vai ver diferenças gritantes entre homens e mulheres. Menos corrupção,
mais metodologia, mais seriedade no tratamento da coisa pública, envolvidas nas
questões sociais. (Entrevistada B, 2006).
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O homem joga o jogo da corrupção, a mulher se recusa: O homem tem o jogo,
o homem joga. De qualquer forma, de qualquer posição, tanto fnanceiro, te compra
com a palavra... a mulher não. A mulher, eu acho que ela acredita muito nas palavras
(...). Elas acreditam, elas entram com o coração. Ou então: ele (o homem) participa de
certos jogos que a mulher não seria capaz de participar, é onde a política, hoje em dia,
está, eu diria, um pouco deteriorizada. (Entrevistada C, 2006).
E o homem é mais esperto nesse jogo porque já está contaminado pelas
estruturas do poder, já está no poder há muito tempo: O homem já tem as articulações,
já tem a maldade, ta impregnada no homem. Já tem ali a malícia, eles sabem jogar.
(Entrevistada D). Ou então: Porque como os homens estão mais acostumados ao poder
eles também têm vícios que nós não temos. Nas disputas, nas puxadas de tapetes, é são
diferentes, porque tem vícios que se constroem ao longo do tempo das disputas pelo
poder. (Entrevistada E, 2006). Sendo assim, por estar afastada do poder, a mulher
estaria isenta da contaminação pelos jogos corruptos.
O comportamento político dos homens é visto como fortemente ligado à
corrupção: Pela corrupção os homens lá no parlamento, a maioria deles, eles vendem
emendas, eles entram, agora nos Sanguessugas, nos super faturamentos, eles compram
os projetos, eles decretam leis e as mulheres não. Você pode ver que só vê homens na
corrupção. (Entrevistada G, 2006).
Quando não citam diretamente a corrupção, as entrevistadas citam
características femininas opostas àquelas ligadas a comportamentos corruptos: Eu
acredito, eu acho a mulher mais honesta, mais transparente. (Entrevistada I, 2006).
As mulheres aparecem, assim, como a “saída” para o país abandonar a crise de
corrupção em que se encontra:
A crise do nosso país é crise de caráter e não intelectual e não tão
somente fnanceira. Nós mulheres, como eu já disse, somos mais
difíceis de nos corrompermos. Nós somos mais frágeis, agimos não
somente com a razão, ouvimos o nosso coração. Não nos corrompemos,
não nos deixamos levar facilmente por idéias, pelo corporativismo.
(Entrevistada I, 2006).
Ou então: Acho necessário e acredito que a mudança na política passa
pela mulher sim. Ela tem todos os princípios, é o princípio ético, de transparência.
(Entrevistada J, 2006).
Algumas colocam, ainda, que pelo fato da política estar tornando-se algo
muito sujo, muito corrupto, isso tem afastado as mulheres da política:
*O que a senhora acha da argumentação que as mulheres teriam uma
baixa ambição política?
*Olha, eu não sei que relação eu posso fazer, mas, ela tem uma baixa
ambição política. Eu coloco isso com a seriedade que ela tem e pela
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política estar se tornando uma coisa muito suja, talvez seja isso
que tanto a mulher como o cristão ta querendo afastar da política.
(Entrevistada K, 2006).
A mulher teria um “compromisso inabalável” com a luta contra a corrupção,
por mais transparência: E é esse padrão (de comportamento) que eu vejo dela (a mulher),
o compromisso com a ética, com a verdade, com a responsabilidade. (Entrevistada L,
2006). Apesar dessa ligação praticamente direta entre menos corrupção e mulheres,
a maioria das entrevistadas destaca saber que nem todas as mulheres são assim
(menos corruptas, mais honestas), abrindo espaço para o questionamento de se essa
relação é mesmo inevitável: Porque só porque subiu a mulher (para a política) não
precisa ser santa. Você vai ter a santa, vai ter a prostituta, vai ter a honesta, vai ter a
capeta... entendeu? (Entrevistada M, 2006).
É preciso também ressaltar que existem aquelas entrevistadas que percebem
haver diferenças entre as próprias mulheres. Entre as candidatas, essa percepção
foi de 30% e entre as eleitas de 40%. O que elas dizem aqui é que nem todas as
mulheres são iguais no que diz respeito àquelas características mais “especiais” ou
menos corruptas. Sobre essas diferenças dentro do próprio grupo de mulheres, as
entrevistadas colocam que “existem mulheres e mulheres”, nem todas as mulheres
aceitam menos os esquemas corruptos. E ressaltam também que existem sim
mulheres eleitas que estão comprometidas com os interesses privados, que são
aquelas que levam sobrenome de famílias políticas importantes – cuja trajetória
política é baseada na rota familiar, tradicional. Elas estariam na política para “se dar
bem”, “participar do poder” e não com projeto de transformação da sociedade.
Quando as candidatas falam sobre os comportamentos parlamentares de
homens e mulheres, é pequena a tendência para a essencialização, tanto entre as
candidatas quanto entre as eleitas. Entre as primeiras, em 48% das suas entrevistas
apareceu a defesa de que homens e mulheres possuem comportamentos políticos
diferentes e em 32% dos casos elas não perceberam diferenças entre os sexos nesse
quesito. Entre as eleitas, as porcentagens também são parecidas, 50% falam de
comportamentos parlamentares diferentes por sexo e 30% falam que não existe essa
diferença por sexo no comportamento político.
Para as entrevistadas que acreditam que mulheres têm comportamento
parlamentar diferente do masculino, este fato é explicado pelas características
positivas femininas:
A mulher... envolve muito o lado sentimental da mulher. Eu acho que ela é
mais carinhosa. Eu acho que ela é mais objetivada. Ela coloca uma coisa
na cabeça, ela quer fazer aquilo. Vai até o fm. O homem não. O homem
não tem muito isso. (Entrevistada B, 2006).
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Além disso, elas buscam ressaltar a enorme predominância da mulher nas
áreas sociais:
Mas eu acho que ocupar esses espaços dá, de temas e áreas mais sociais,
eu não acho que seja machismo, eu acho que é porque a mulher tem uma
sensibilidade muito grande pelo social. Então isso aí eu vejo como positivo,
é a mulher aonde eu vejo que ela pode dar uma contribuição de avanço
dá, para que haja direitos iguais e igualdade social e tudo. (Entrevistada
J, 2006).
Para as que defendem que ambos os sexos têm o mesmo comportamento,
a ética profssional é igual para homens e mulheres: Agora, dentro da política, a
ética profssional, o direito, a responsabilidade é igual para o homem e para a mulher.
(Entrevistada N, 2006). Para essas entrevistadas, ambos os sexos atuam nas mesmas
áreas, ambos podem atuar em qualquer área, isso é muito mais uma questão de
aptidão: Eu acho que a mulher é capaz de atuar em qualquer setor, porque eu acho que
isso não diferencia por ser mulher, ter que atuar em um setor ou outro, isso depende da
aptidão de cada uma. (Entrevistada E, 2006).
Mesmo entre essas existe a percepção do comportamento feminino
mais voltado para as áreas sociais, porém a justifcativa aqui não é pelo lado de
características essencialmente femininas, tendo mais a ver com a experiência e o
trabalho.
Nessa questão, quando as respostas são negativas, o que há de marcante em
todas elas é a negação de que sexo é o determinante último dos comportamentos
de homens e mulheres na política. Existem outros fatores - pessoais, de aptidão,
partidários - que infuenciariam muito mais.
Quando passamos para as respostas sobre os motivos que levam homens e
mulheres a se candidatarem, a proporção de respostas “essencializantes” é menor.
Dentre as candidatas 20% percebeu existir motivos diferentes, enquanto 22%
respondeu não haver esse diferencial de sexo. Entre as eleitas, a diferença entre as
respostas é mais signifcativa ainda, 6% acredita existirem motivos diferentes por
sexo para a candidatura, enquanto 16% não acredita nessa diferença.
As justifcativas para a existência da diferença vão no mesmo sentido da
pergunta anterior: as mulheres possuem características melhores e completamente
diferentes das masculinas, em geral, estas justifcativas estão relacionadas aos
diferentes interesses que homens e mulheres teriam ao entrar para a política:
*A senhora acha que existam motivos diferentes para homens e mulheres
se candidatarem a cargos no legislativo?
*Olha, eu acho que há. Eu acho que pros homens, de um modo geral,
tem muito essa questão do poder, de uma certa vaidade, de construir
possibilidade até econômica através da disputa do voto. Eu acho que, ou
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vincular algum grupo econômico, algum interesse específco (...) eu acho
que no geral é isso. Eu acho que pras mulheres, quando ela chega aí, eu
acho que tem muito essa vontade assim, dessa dedicação, das causas
coletivas. (Entrevistada O, 2006).

Por outro lado, aquelas que dizem não haver diferencial de sexo no que diz
respeito aos motivos da candidatura – dessa vez elas são maioria – se apóiam no
argumento de que essa é uma escolha pessoal, independente de sexo.
*Eu acho que para homens e mulheres se candidatarem não tem
motivos tem motivos assim, existem aqueles políticos que querem
se eleger porque tem um objetivo coletivo, um objetivo macro, de
trabalhar para melhorar a vida da maioria, e tem aqueles que têm uma
visão puramente aproveitadora, de vir pra cá devido seus interesses
particulares para virem defender aqui, (...) então, tem gente, assim, com
essas, esses objetivos diferentes, eu não que seja homem ou mulher, eu
acho que todos nós, dependendo da trajetória que você fez na vida é
que vai, dizer, orientar a sua trajetória política. (Entrevistada P, 2006).
Todas as vezes em que as entrevistadas aparecem negando a existência de
uma diferença de sexo determinante na política, encontramos uma maior disposição
delas em refutar os essencialismos que muitas vezes elas mesmas colocaram em
algum momento da entrevista. É mais forte a negação da diferença quando o assunto
são os motivos que levam homens e mulheres à política, com uma maior tendência das
entrevistadas em responder que esses motivos têm causas pessoais. Essa percepção
abre caminho para o questionamento se realmente é o sexo o determinante principal
das ações e escolhas das pessoas. Algumas das entrevistadas reforçam esse sentido
afrmando que não basta ser mulher para assegurar uma lógica ou um projeto de
igualdade:
*Eu diria que não basta ser mulher pra assegurar uma lógica ou um
projeto de igualdade. Há mulheres que têm pensamento machista,
autoritário e socialmente excludente. Do ponto de vista individual, de
cada mulher, não faz diferença porque algumas reproduzem o modelo
machista, patriarcal. (Entrevistada Q, 2006).
Aqui as entrevistadas defendem que não basta eleger qualquer mulher, só
fará diferença aquelas que forem exercer o poder com competência, que tiverem
projetos sociais que almejem uma sociedade mais igualitária. Algumas chegam
mesmo a formular idéias parecidas com a de “perspectiva social”.
Poucas entrevistadas (8% das candidatas e 10% das eleitas) nos indicam esse
caminho da perspectiva (Young, 2000) como o melhor para explicar as diferenças
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entre homens e mulheres: Nós, mulheres, enxergamos o mundo com uma perspectiva
diferente, a gente vê o mundo redondinho, a gente vê as crianças de uma forma diferente
para completar a forma que os homens vêem. Não que nós sejamos melhores, nós nos
completamos. (Entrevistada N, 2006).
Para estas entrevistadas, foram os anos de silêncio e de afastamento da
mulher da política que a levou a desenvolver todas essas características descritas
acima, principalmente a sua preocupação com o social. As mulheres levantam mais
bandeiras sociais pela vivência delas, pela história de vida delas, sempre ligada à
família, à casa, ao cuidado: Eu penso que as mulheres são mais sensíveis para levantar
essas bandeiras (sociais) por questão de vivência. (Entrevistada T, 2006).
Essa perspectiva feminina é fruto de uma história que sempre nos oprimiu.
(Entrevistada P). A idéia aqui é a de que as mulheres têm a contribuir com o mundo
da política, não por terem características inatas, mas porque a capacidade política
é construída, e a das mulheres foi construída num espaço fora da política formal.
Enfm, as mulheres farão diferença na política se levarem para este campo as
peculiaridades que a vida lhe impôs:
Do ponto de vista coletivo, enquanto parcela da sociedade, faz enorme
diferença (ser mulher), porque essa metade da humanidade leva para o
exercício da política particularidades que a vida lhe impõe. Por exemplo,
sensibilidade social por conviverem com a luta cotidiana da comida, pra
assegurar educação, pra compensar os problemas da assistência à saúde
que o estado debilita. Então, esse exercício dessa parcela da sociedade cria
uma estrutura, uma tendência á uma sensibilidade social maior. E há a
própria pressão da vida, ao serem discriminadas, a sua situação termina
ajudando pra que ela crie uma consciência de igualdade. (Entrevistada
U, 2006).
Enfm, o que os dados nos mostram é uma tendência das mulheres envolvidas
com a política, sejam eleitas ou candidatas, afrmarem a existência de diferenças
entre homens e mulheres, muitas vezes caindo no argumento “essencialista” de que
estas seriam diferenças naturais. As mulheres entrevistadas com muita freqüência se
esforçam para se diferenciarem dos homens, inclusive quando o assunto é corrupção.
Todavia, se existisse mesmo uma “essência” feminina completamente diferente
da masculina, esperar-se-ia que todas as vezes que fossem chamadas a comparar
homens e mulheres, as entrevistadas identifcassem diferenças naturais entre os
sexos. Só que os percentuais variam de pergunta para pergunta. Na pergunta direta
sobre se há ou não diferenças, a enorme maioria responde que sim. Mas quando
vamos para comportamentos e motivos, as respostas já são menos categóricas e
surgem possibilidades maiores de diferenças importantes que não são derivadas
do sexo. Em algumas entrevistas surge mesmo a possibilidade de que essa seja uma
diferença mais de projeto, de trajetória pessoal. E uma minoria chega mesmo a
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defender que a presença das mulheres na política deve ocorrer porque elas possuem
uma perspectiva social diferente da masculina, que não deveria estar ausente dos
espaços de tomada de decisão.
Conclusões
A sociedade brasileira tem se debatido, desde a sua democratização, com o
problema da constituição de uma noção de interesse público capaz de pautar a ação
dos seus representantes políticos. O Brasil democrático tem sido marcado nos últimos
anos por uma maré de denúncias de escândalos de corrupção. Apesar disso, no nosso
país existem poucos estudos sobre esse fenômeno.
O que fca para nós desse artigo é a importância na atualidade de se
desenvolver pesquisas para entender o fenômeno da corrupção no Brasil. O que
demanda olharmos para a estrutura política, mas não só ela, como também olhar
para os aspectos culturais e sociais. Fica também a importância de se estudar a
corrupção por outro viés que não seja só o institucionalista. Para o entendimento
desse fenômeno, importa olhar as regras e instituições, mas é preciso ampliar o
olhar e tentar entender as percepções que a própria sociedade constrói acerca da
corrupção e do interesse público. Como Bignotto (2006) destaca, a corrupção é um
problema no Brasil que é parte da nossa vida política em toda a sua extensão. Ela
afeta a relação dos cidadãos de um Estado com a vida política em geral. Tentamos
buscar como as mulheres próximas do campo da política percebem as diferenças
entre comportamentos políticos de homens e mulheres.
Ao partirmos para a parte empírica, os resultados da análise das entrevistas
das mulheres nos mostraram uma tentativa sempre presente de diferenciar homens
e mulheres no que diz respeito aos seus comportamentos políticos, motivos para se
candidatar e a relação com a corrupção. Poucas foram aquelas que buscaram outros
fatores explicativos que não o sexo para as diferenças percebidas entre homens e
mulheres. Mas, apesar de aparecerem em menor número, o fato de aparecerem
explicações alternativas já sinaliza para a possível existência de outras causas das
diferenças percebidas entre os sexos. Conseguimos visualizar espaços para a defesa
de outras idéias, que desmitifcariam a idéia de uma “essência” feminina.
Entendemos que a “ética do cuidado” deve ser levada para o campo da política
com cuidado, para não cair em uma “essencialização” das posições das mulheres.
Como nos alertou Miguel (2001), levar o argumento da “política do desvelo” para a
política pode reter a atuação política das mulheres nas áreas sociais, obrigando-as
sempre a se preocupar mais com os outros do que com a defesa dos seus próprios
interesses.
Nossa análise empírica nos mostrou que essas mulheres entrevistadas
ainda fazem uma defesa da presença das mulheres no campo político ressaltando as
características morais femininas diferentes das masculinas. Um início de explicação
para isso pode ser que essas mulheres ligadas à política, por estarem em um campo tão
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hostil a elas, dominado imensa e quantitativamente pelos homens, podem acabar por
procurar se destacar de alguma maneira. O ambiente político é muito masculinizado
no nosso país e isso pode fazer com que as mulheres que tentam ingressar nele ou
as que efetivamente conseguem vencer as eleições, para se destacarem na multidão
dos políticos, optem por um discurso mais enfático, ressaltando as características
diferentes entre elas e os homens.
Se as mulheres são ou não a solução para o problema da corrupção no nosso
país, fca a pergunta. E fca também a proposta de se estudar mais a fundo a relação
que ambos os sexos estabelecem com o que é público, para tentar entender por que
essa associação tão forte entre mulheres e comportamento político menos corrupto.
Nossa percepção é a de que se realmente existir um diferencial de gênero no que
diz respeito à corrupção, sua causa não deve ser buscada em uma “essência” natural
feminina ou masculina. Podemos pensar que outros fatores podem infuenciar a
maneira como os dois sexos constroem a relação com o que é público, como por
exemplo, a trajetória de vida da pessoa, sua participação em movimentos sociais, ou
mesmo sua ligação com os setores dominantes da sociedade.
Para nós, é responsabilidade de homens e mulheres construir atitudes positi-
vas e eticamente orientadas para estruturar uma sociedade decente e democrática em
que direitos, oportunidades e liberdades sejam igualmente distribuídos.
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As personagens femininas em Macunaíma:
Sexualidade e Gênero no modernismo pós-1922
André Luiz Ferreira Cozzi
1
Universidade Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (UFPA)
Orientadora: Ana Paula Palheta Santana
2
As mudanças políticas e econômicas ocorridas em fns do século XIX,
bem como as grandes guerras do início do século XX, quando as democracias de
massas abrem espaços sócio-políticos a outros segmentos sociais, promovem várias
discussões e mudanças na percepção das identidades nacionais. A crise da síntese
burguesa
3
, desencadeada a partir da introdução de novas tecnologias na indústria e
da maior concentração demográfca nas cidades, coloca em xeque todo um padrão de
comportamento social. Tais circunstâncias demarcam a ruptura entre dois períodos:
a tradição humanista vinda do renascimento, tão cara ao liberalismo burguês, entra em
colapso por conta das discrepâncias de suas convicções – o respeito pela dignidade e
valor do indivíduo contrastam com a prática da desumanização e despersonalização
das classes trabalhadoras
4
. Esta rebelião das massas
5
faz as perspectivas quanto ao
futuro serem incertas e um tanto pessimistas – especialmente no contexto europeu.
Diante da crise de paradigmas, muitas são as propostas para reordenar a
realidade. A busca por respostas conduz muitos pesquisadores sociais ao encontro
da antropologia e do folclore, numa tentativa de reescrever a história dos povos, de
maneira a incluir e reconhecer o papel dos vários agentes sociais na formação étnica
de uma nação, permitindo a (re) criação de uma noção de pertencimento nacional. A
formação de uma identidade comum envolvia aspectos complexos, por isso os textos
sobre nacionalidade, para além de aspectos puramente políticos ou antropológicos,
acabaram expondo outras particularidades sociais, como as questões de sexualidade
e gênero, estando estes temas direta ou indiretamente diluídos em diversas produções
intelectuais do início do século XX.
No Brasil, Euclides da Cunha expõe a problemática sociológica sobre a crise
da síntese burguesa ao publicar Os Sertões. Daí em diante, a intelligentsia nacional
tenta explicar e propor o ordenamento da vasta e diversifcada sociedade brasileira.
16 Graduado em História pela Universidade Federal do Pará, atualmente é aluno de pós-
graduação no Instituto Federal de Ciência, Tecnologia e Educação do Pará - IFPA.
17 Professora do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Pará, socióloga e doutoranda
do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.
18 Cf. G. Bruun, Nineteenth-Century European civilization, 1815-1914 (Londres, 1959),
Apud. BARRACLOUGH, p. 212.
19 Uma bela exposição deste quadro foi feita no livro Germinal (1885), de Zola. Ver também
Os Tecelões (1892), de Gerhart Hauptmann.
20 Título de livro do historiador espanhol José Ortega y Gasset. Publicado inicialmente em
1926, no jornal madrilheno “El Sol”, retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa,
com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas.
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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O movimento modernista de 1922 é tomado por muitos como o mais contundente
manifesto em prol de uma nova e autêntica sociedade brasileira, na qual a diversidade
social tivesse o reconhecimento e a aceitação política e intelectual. As palavras
proferidas por Menotti Del Picchia dão o tom deste desejo por mudanças:
Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras,
idealismos, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho na nossa
arte. E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante
da poesia o último deus homérico, que fcou anacronicamente a
dormir e a sonhar – na era do jazz band e do cinema – com a frauta dos
pastores da Arcádia e os seios divinos de Helena. (JORGE, 1994, p. 462).

Seguindo os passos da ciência, a arte também procura traduzir as novas
realidades, de forma a compreender, dominar e dar novo sentido à vida humana – “A
arte não reproduz o que se pode ver; ela torna as coisas visíveis”, diria Paul Klee
6
. De fato,
muitas são as tendências artísticas surgidas no fm dos novecentos. De modo geral,
porém, a tendência artística manteve-se em grande medida atrelada aos padrões mais
tradicionais, porque, como disse Gauguim ao comentar a exposição impressionista de
1874, eles “conservaram as algemas da representação”. Seguindo a tendência mundial, a
arte e a literatura brasileira de vanguarda, adotou uma postura libertária em relação a
antigos paradigmas, abria mão de profundas e respaldadas refexões nas mais recentes
descobertas científcas, mas ainda conservava certas posturas tradicionais.
Em Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928), Mário de Andrade faz
jus ao papel que a arte desempenhava naquele momento. Concebe o livro como
resultado do conhecimento das obras de Capistrano de Abreu, Oliveira Vianna, Paulo
Prado, Barbosa Rodrigues, Spengler, Herder, Keyserling, Homero, José de Alencar e
vários outros escritores e pensadores, gregos, alemães e brasileiros, fazendo uma
releitura destes autores de acordo com suas próprias concepções sobre a cultura.
De fato, para a maioria, se não para todos, os que se preocupavam com a questão da
construção de uma identidade nacional, as teorias científcas eram utilizadas por
conveniência: utiliza-se o que há de análogo a seus interesses e descarta-se o que se
contrapõe aos mesmos
7
.
Meu interesse por Macunaíma seria preconcebido hipocritamente por
demais se eu podasse do livro o que é da abundância das nossas lendas
indígenas (Barbosa Rodrigues, Capistrano de Abreu, Koch-Grünberg)
e desse pro meu herói amores católicos e descrições sociais que não
seriam dele pra ninguém.
1 O ensaio de Klee, 1920, do qual são estas as palavras de abertura, está editado em
tradução por W. Grohmann, Paul Klee (Londres, 1958), p. 97; cf. também G. Di San Lázaro, Klee: A Study of his
Life and Work (Londres, 1957), p. 105. Apud BARRACLOUGH, p. 216.
2 Ver ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 5ª ed. São Paulo:
Brasiliense, 1994, p. 32.
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[...] Se somando isso com minha preocupação brasileira, profundamente
pura, temos Macunaíma, livro meu
8
(HOLANDA, 1978, p. 25-30).
Se na década de 1920, o discurso dos modernistas se consolida como
inovador, Macunaíma seria a sua expressão mais aguda. O livro é polêmico, pois
valoriza os aspectos da exacerbada sexualidade brasileira como um traço positivo de
sua natureza
9
, fazendo disso uma das indispensáveis características do verdadeiro
homem nacional, sendo a negação ou ocultação desse erotismo as amarras que
impediam o progresso civilizatório no Brasil. Tal posicionamento é revolucionário,
pois contradiz toda uma lógica sociológica que classifcava a forte sexualidade do
brasileiro como uma de suas defciências para se construir como nação (mestiçagem)
– esta idéia envolvendo erotismo e atraso é largamente debatida no livro do gaúcho
Paulo Prado, Retrato do Brasil, ensaio sobre a tristeza brasileira, publicado em 1928.
Neste artigo, procuro demonstrar que é exatamente naquilo que a obra
andradiana tem de mais inovador, contestador e emancipatório: o reconhecimento
e a valorização da sexualidade do brasileiro como traço de sua afrmação como povo
residem também o discurso patriarcal de manutenção de uma ordem tradicional
e conservadora no que diz respeito às identidades de gênero, em que o controle
e disciplinarização da sexualidade determina a estabilidade social e política;
demarcando, simultaneamente, avanços e permanências no campo social. Avanços,
porque abrem o leque de discussões em torno da cidadania e do pensamento crítico;
e permanências, por não conseguirem abrir mão de uma tradição profundamente
perpetuada pelo uso, numa espécie de reifcação oculta, além da capacidade para
uma refexão questionadora de fato, na qual a idéia de serem as mulheres portadoras
de um estigma ameaçador à civilização é atualizado e ganha nova dimensão.
Para tanto, lanço mão da análise de algumas personagens femininas da rapsódia,
procurando através do embasamento em literatura especializada sobre Mário de
Andrade
10
e noutra específca acerca da história das mulheres
11
, estabelecendo uma
interpretação das tramas que envolvem estas personagens a luz de conceitos sobre
gênero e sexualidade, contribuindo assim (sem a pretensão do ineditismo) para
uma ampliação das fontes e categorias de análise sobre a formação de identidade
nacional brasileira na conturbada década de 20 do século passado.
3 Exceto de prefácio inédito, escrito imediatamente depois de terminada a primeira versão.
4 80 anos após sua publicação, o erotismo de Macunaíma ainda expõe muitos tabus
sexuais de nossa sociedade.
5 SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2ª ed. rev e amp. – Belo Horizonte:
Ed. UFMG, 1999.
SOUZA, Gilda de Mello e. O tupi e o alaúde: uma interpretação de Macunaíma. São Paulo: Duas
Cidades: Ed. 34, 2003.
6 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. tradução Viviane Ribeiro.
–Bauru, SP: EDUSC, 2005.
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A moldura
No contexto das relações políticas e econômicas, é inegável uma ampliação
na participação e no reconhecimento das mulheres como iguais; o próprio discurso
republicano, ainda no século XIX, insistia numa maior participação feminina na
consolidação do novo regime de governo, primariamente restrita ao lar: como flhas,
mães e esposas dedicadas e submissas à ideologia da classe que detém o poder
político. Em 1890, no Programa de Educação Nacional José Veríssimo admoestava:
[...] a mulher brasileira, como a de outra qualquer sociedade da mesma
civilização, tem de ser mãe, esposa, amiga e companheira do homem,
sua aliada na luta da vida, criadora e primeira mestra de seus flhos,
confdente e conselheira natural do seu marido, guia de sua prole, dona
e reguladora da economia de sua casa, com todos os mais deveres
correlativos a cada uma destas funções. (LOURO, 2000, p. 448).
O domínio do homem sobre a mulher, conforme identifcado por Engels,
12

tinha como fnalidade principal à procriação de herdeiros, que um dia tomariam posse
dos bens do pai. Exigia-se que a mulher guardasse castidade, mantivesse fdelidade
conjugal rigorosa e tolerasse a infdelidade do marido; ela era a mãe de seus flhos
legítimos e herdeiros; era aquela que governava a casa e vigiava as escravas, as quais
ele, o homem, podia transformar em concubinas. Mesmo após a Revolução Francesa
– com as propostas de renovação dos costumes e criação de um novo homem em
aparência, linguagem e sentimentos –, a força da tradição patriarcal se mantém. Foi
no século XVIII que as idéias em torno da coisa pública se associaram com o Estado,
enquanto o privado passa a ser identifcado com a vida familiar.
Diferenciaram-se os papéis sexuais, estabelecendo-se a oposição entre
homem (público) e mulher (mundo privado). A partir do século XIX, com a reforma
social, o Estado invadiu a vida familiar, legislando sobre o casamento, regulamentando
o processo de adoção, determinando os direitos dos flhos naturais, instituindo o
divórcio e limitando o poder paterno. Por meio do estado eram garantidos os direitos
individuais, a união familiar e paterna. As mulheres, entretanto, continuavam
restritas a redoma do universo privado. Eram identifcadas pela sua sexualidade e
pelo seu corpo: seu útero era quem defnia seu lugar na sociedade; como símbolos
da fragilidade deveriam ser protegidas, pois eram o centro do lar e da família.
Distanciavam-se das atividades públicas (negócios), convertidas em mães e donas
de casa; conseqüentemente dependentes do homem.
Na maior parte do mundo, o casamento monogâmico continuava sendo
o fundamento de uma família nuclear, cuja afetividade era fortalecida e os flhos
ocupavam lugar de destaque. A família era responsável pelo funcionamento econômico;
7 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. 13ª ed. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.
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87
transmissão de patrimônio; produção de crianças e pela sua socialização, pureza e
saúde; era ainda a transmissora de valores e agia ligada às tradições religiosas e políticas
do meio social: a garantia não mais de uma genealogia, mas do bom nascimento e do
bom sangue, um legado para o futuro – hereditariedade.
Às mulheres, dados os discursos científcos sobre sua natureza, seu papel
como mães e administradoras do lar, cabia uma função social especial (e bastante
tradicional) na sociedade no início do século XX: assegurar o destino da espécie
humana, garantido por meio de seu poder de vida e por sua atuação social como
mães e esposas. Gozarem elas de maiores direitos sociais seria útil à medida que
estes fossem utilizados à maneira de quem os prescrevia: a pátria e a perpetuação
do patriarcalismo que a funda e mantém, mesmo que agora esteja travestido com o
nome de república e democracia. A preocupação em limitar e canalizar os poderes das
mulheres esconde conceitos profundamente arraigados. Caracterizada pela longa
duração, a misoginia (aversão à mulher) persiste no imaginário masculino, sendo re-
signifcado para as novas circunstancias em que as relações de gênero se redefniam.
Nesta perspectiva, as mulheres e os homens não podem ser colocados no mesmo
plano, estando eles ligados à humanidade em geral, enquanto as mulheres eram uma
espécie de “entidade mística, sem equivalente masculino”
13
, singularizado: “Bastava
analisar uma delas para conhecer o grupo, e todas as nuances físicas, psicológicas,
sociais eram, tão somente, ilusão de ótica: nelas tudo era natureza, e apenas isso”
14
.
O perigo representado pela intelectualização feminina acabou sendo
objeto de estudos científcos, dos quais um dos mais conhecidos foi o do médico
e criminalista italiano Cesare Lombroso, para quem as mulheres teriam uma
inclinação natural para o crime (SOIHET, 2004). As mulheres eram, por estes termos,
portadoras de uma ambigüidade cativante para as mais variadas especulações sobre
sua natureza e comportamento. Num tempo marcado pelo interesse da ciência, da
literatura e da arte em geral em assuntos que envolvessem o cotidiano das pessoas
que viviam nas cidades, ocorre uma verdadeira obsessão pelo feminino.
Eles viam mulheres em toda parte. [...] Tornando-se vocabulário
comum, o corpo da mulher servia para quase tudo e seu antônimo:
Natureza e Cultura, Luxúria e Castidade, Verdade e Mentira. [...]
A literatura da segunda metade do século XIX mostra claramente que a
mulher mete medo, que é cruel, que pode matar. Com efeito, não se fala
mais de anjo, Musa ou Madona, imagens freqüentemente lembradas
como as únicas representações da mulher no século XIX.
De qualquer maneira, no fnal do século [XIX], a musa sofre estranhas
metamorfoses. Vulgar para os naturalistas, ela bate nas coxas, tem
8 DOTTIN-ORSINI. 1996, p. 26.
9 Idem. Sobre isso ver também PERROT, Michelle. 2005, p. 268-278.
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88
suas regras (ou cólicas) e, se acontece dar à luz, é no horror e na sânie;
hierática para os simbolistas, assassina com um sorriso, arrasta a saia
no sangue, possui impassíveis olhos de pedra preciosa. Seja como for, é
perigosa. (DOTTIN-ORSINI, 1996, p. 11-14).
A recepção dos novos papéis sociais desempenhados por mulheres é
abundantemente explorada nos meios artísticos – “No século 19, a mulher está no
centro de um discurso abundante, repetitivo, obsessivo, amplamente fantasioso, que toma
emprestado aos elementos as suas dimensões” (PERROT, 2005). A presença feminina é
redefnida em muitas produções artísticas da Europa: Flaubert, Huysmans, os irmãos
Goncourt, Zola, Maupassant, Baudelaire, Teófle Gautier, Octave Mirbeau, entre
outros, na literatura; e pintores como Gustav Monreau, Gustav-Adolf Mossa, fzeram
dela seus objetos de pesquisa e especulação. Mas neste caso, a leitura artística refete
mais o medo que o reconhecimento ou a aceitação.
No Brasil, que no século XIX adota o modelo europeu de civilização entre
seus intelectuais, encontramos vasto material artístico e científco destinado à
propagação de estereótipos do feminino, sendo estes bastante explorados por jornais
e revistas da época. Em artigo publicado na revista “Nossa História” sob o tema
“Pisando no ‘sexo frágil’”, a historiadora Raquel Soihet revela a existência de todo
um aparato voltado à desmoralização das mulheres que trabalhavam fora e como
isso poderia afetar o equilíbrio da vida familiar em conseqüência de uma inversão
de papéis: diversas eram as charges publicadas em revistas e outros periódicos
retratando as mulheres que trabalhavam fora com um aspecto embrutecido e rude,
além de masculinizadas; paralelamente com caricaturas de homens desleixados
e mal arrumados, com aparência cansada e descontente enquanto cuidam das
crianças e dos afazeres domésticos. “O recurso da ironia e da comédia foi um poderoso
instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da
inferioridade e passividade da mulher.” (SOIHET, 2004, p. 15)
15
.
A Tela
Dividida em 17 capítulos e um epílogo, Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter é concebida como rapsódia, gênero artístico tomado da música, caracterizado
pela reunião e justaposição de várias melodias populares, sem a pretensão de unidade,
utilizando para isso a técnica da bricolagem, que valoriza os aspectos lúdicos e jogo
de formas. Segundo Gilda Mello e Souza (2003), a escrita da obra se deu durante seis
dias ininterruptos, durante as férias do autor – daí sua aparente despretenciosidade
quanto ao eruditismo.
15 Só recentemente as pesquisas históricas têm abordado o tema de forma contundente;
como no interessante trabalho da historiadora Mary Del Priore: “História do amor no Brasil” (2ª ed. São Paulo:
ed. Contexto, 2006).
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
89
Tendo como fonte privilegiada da informação um papagaio, a história
nos é apresentada como uma narrativa de segunda ordem. Conta a trajetória
de Macunaíma, o herói de nossa gente
16
(que tem como principal característica
a preguiça), para recuperar a Muiraquitã, amuleto símbolo da possibilidade de
formação de uma civilização autentica no Brasil, que fora perdido pelo herói, indo
parar nas mãos do gigante Paimã, um monstro antropófago, que também assume a
identidade de um regateiro e industrial italiano, chamado Venceslau Pietro Pietra,
que vive na cidade de São Paulo. Nas aventuras e desventuras do herói para encontrar
o amuleto perdido, entrecortam-se várias outras narrativas tomadas do folclore
e tradição oral indígena e luso-brasileira, essenciais para compreensão do enredo
principal – o encontro e embate com o antagonista, Venceslau Pietro Pietra,
As personagens incluem: o protagonista, Macunaíma; sua mãe, uma índia
Tapanhuma; seus irmãos, Jigue e Maanape; suas cunhadas, Sofará, Suzi e Iriqui
(que são em momentos distintos, companheiras de seu irmão Jiguê); uma princesa
lindíssima que havia sido transformada em caramboleiro; a Iara; o antagonista,
Venceslau Pietro Pietra, sua esposa, uma velha caapora chamada Ceiuci e uma de
suas flhas; a macumbeira, Tia Ciata; a deusa-sol, Vei e suas três flhas; a varina,
designação portuguesa dada às mulheres vendedoras ambulantes de peixe; a
empregada e o chofer de Venceslau; a dona da pensão onde Macunaíma se hospeda;
a polaca (possivelmente uma prostituta, já que este termo geralmente era atribuído
às mulheres brancas de origem européia que viviam na zona de meretrício) que
incorpora Exu durante a visita de Macunaíma a um terreiro de macumba.
Para esta pesquisa, destacamos algumas passagens, tomadas para discutir
as questões de sexualidade e gênero implícitas na obra. As personagens privilegiadas
serão: a índia Tapanhuma, mãe do herói; Ci, que é simultaneamente a mãe do mato,
a rainha do mato-virgem e uma amazona ou icamiaba; Sofará, Suzi e Iriqui, as
cunhadas de Macunaíma; a flha de Ceiuci; e por último a Iara.
Os frisos
Publicado a mais de oitenta anos (1928), a rapsódia Macunaíma inscreve-se
no cânone literário brasileiro como obra de referência do nacionalismo modernista
brasileiro. Escrito a partir da combinação de vários outros textos, constitui uma
inteligente interpretação do que deveria ser a mais original identidade nacional
brasileira. A trama talvez seja o exemplo mais conhecido do imbricamento entre
ciência, folclore e literatura.
Andrade vê a relação entre erudito e popular como algo problemático, pois
para ele não há uma relação de continuidade do primitivo para o moderno em nossa
cultura; antes ocorre uma ruptura, causada pela infuência exterior (européia). Isso
impediria a formação de uma cultura genuinamente nacional, pois haveria sempre
16 Personagem mítico do imaginário indígena amazônico, catalogado pelo naturalista
alemão Koch-Grünberg.
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
90
traços de uma cultura estranha, gerando crises de identidade. Sua produção literária é
sempre marcada por uma espécie de apelo contra o estrangeirismo em nossa cultura.
Essa civilização construída por outros povos, com outras necessidades
e outros climas, passou pela nossa alfândega, como um aerólito
fulgurante. (...) a imagem de Cristo do tope do Corcovado, se representa
uma felicidade da nossa tradição, se representa uma das medidas do
nosso ser rotulado, representa ainda o aerólito a que nos escravizamos.
Que falseamos. E que nos falseia ainda mais. A imagem será chamada
de Cristo-Deus enquanto símbolo do nosso passado colonial. A
imagem será chamada de Cristo-Redentor, pelo que poderá valer em
nossa contemporaneidade. Mas como índice da civilização brasileira,
é apenas Cristo-Rei. A imagem será chamada de Cristo-Rei enquanto
símbolo de uma civilização que nos falseia demais (ANDRADE, Jornal
Diário de Notícias, 18/10/1931)
17
.
Atualmente, Macunaíma tem sido ponto de partida e referência a muitos
trabalhos que versam sobre a identidade e o nacionalismo brasileiro no século XX.
Sua originalidade e ineditismo, além de estar inserido num momento histórico de
signifcativas mudanças sociais e políticas, imprimem em suas linhas a idéia de
unifcação do variado identitário que é o Brasil.
Cabe aqui, entretanto, uma refexão sobre o posicionamento da escritura
de Macunaíma quanto às já referidas questões sobre sexualidade e gênero, também
presentes nas discussões vanguardistas do início do século, que envolviam
igualmente ciência, política e literatura. Apesar de não haver uma referência explicita
a esta temática no texto, é possível percebê-la em suas entrelinhas. Isto acaba sendo
fundamental aos objetivos deste trabalho, pois expõe o discurso ainda reacionário e
tradicional (para não usar o termo machista) de como as mulheres interferem e se
inserem na sociedade brasileira idealizada pelos modernistas de 1922.
Numa breve análise do texto, é possível identifcar as personagens femininas
e suas participações na trama de Andrade. Dentre elas, chama a atenção o desfecho
daquelas que ao entrarem em contato com Macunaíma acabam sendo obliteradas
e metaforseadas, nem tanto por terem travado relações com o protagonista, mas
principalmente por serem portadoras de alguma defciência moral ou estarem
cumprindo um destino mítico. Esse é o caso da mãe do herói, a índia Tapanhuma.
No capítulo “Maioridade”, após retornar da foresta, onde passa por várias provas de
iniciação, revela a sua mãe ter sonhado que lhe caíra um dente, o que é imediatamente
interpretado pela mulher como premonição de morte na família, ocorrendo logo
depois sua própria morte, sendo transformada em uma veada parida. Segundo a
interpretação de Eneida Maria de Souza
18
, a morte da índia Tapanhuma refete o mito
17 In CHALHOUB, Sidney e PEREIRA, Leonardo Afonso de Miranda. A História contada:
capítulos de história social da literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998, p. 268.
18 SOUZA, 1999, p. 84, 85. Sobre isso, ver também HURLEY, 1934, p. 53.
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91
de Jurupari (entidade mítica dos indígenas, flho de Tupã com a bela Cêucy, e que segundo
Jorge Hurley exerce entre os índios a mesma função profética de Moises entre os judeus).
Segundo a leitura da época sobre a história, ao perceber a presença da mãe
numa reunião exclusiva para homens, Jurupari decreta a morte da mesma, obtendo
com isso o poder materno. Ou seja, a morte desta mulher é decorrência direta de
uma interdição socialmente imposta que foi transgredida: a entrada no recinto
exclusivo dos homens. Considerando as circunstâncias sociais do início do século
XX, o relato serve também como um alerta contra a presença de mulheres nos meios
tradicionalmente destinados aos homens, sendo isso um sacrilégio passível de morte.
Michele Perrot, retomando os estudos de Focault sobre Pierre Rivière
– condenado pela morte da própria mãe –, analisa os motivos do ato parricida
sob a ótica dos confitos sexuais daquela época, quando a maior autonomia das
mulheres perturba a ordem do mundo masculino. Ao explicar os motivos que
levaram Rivière a matar sua mãe, Focault lembra: “São as mulheres que comandam
agora, a força foi aviltada, diz ele para explicar seu crime” (PERROT, 2005, p. 494).
Agindo como vingador de seu pai, que segundo ele sofria as mais variadas formas
de repressão impostas por sua esposa, não podendo mais “sem sua permissão,
nem mesmo beber uma quarta no domingo com seus amigos” (PERROT, 2005, p.
424). A leitura sobre a identidade nacional, preconizada pelo modernismo de 22,
parece condescender com estas tradições, presentes tanto no velho mundo como no
primitivismo brasileiro
19
.
Outra passagem emblemática da rapsódia diz respeito a Ci, personagem
feminina que assume identidades variadas: é a mãe do mato e também uma icamiaba
ou amazona. Gilda de Mello e Souza, tomando como referencia Cavalcanti Proença,
diz que Ci não foi simplesmente transportada para o texto, como ocorre com outras
personagens (inclusive o próprio Macunaíma), ela é criada por Mário de Andrade
como a junção de várias mulheres lendárias, e conclui: “Ora, como cada uma dessas
designações, Imperatriz do Mato-Virgem, Icamiaba, amazona, implica série distinta
de atributos, a fgura de Ci acaba se esfumando numa névoa imprecisa que cabe ao
leitor dissipar.” (SOUZA, 2003, p. 34).
Ci personifca a própria natureza brasileira, a qual Mário de Andrade atribuiu
características híbridas, pois semelhante à personagem Iracema, de José de Alencar
(um autor também infuenciado por Herder e considerado por muitos como o precursor
do naturalismo no Brasil), ela é o espírito protetor da natureza e ao mesmo tempo a
própria geografa brasileira. O texto deixa isso claro quando fala das “muitas jandaias,
muitas araras vermelhas toins coricas periquitos, muitos papagaios” que vêm saudar
Macunaíma como o “novo Imperador do Mato-virgem.” (ANDRADE, 2001, p. 26).
19 A busca de uma relação entre a mítica européia e o primitivismo americano era um
dos ambiciosos projetos da intelligentsia, brasileira, manifestada principalmente na atuação dos etnólogos e
outros simpatizantes da causa, como Jorge Hurley, Barbosa Rodrigues, Câmara Cascudo e Silvio Romero, entre
outros.
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92
Vemos também aqui, neste pormenor sobre Ci, uma alegorização muito
comum entre os contemporâneos de Mário de Andrade: a relação das mulheres com
a natureza indomada, sendo isto um importante indício da perpetuação da misoginia
nas esferas do pensamento intelectual – uma formulação antiga que remonta
aos primórdios do pensamento humanista, quando Maquiavel, um dos grandes
formuladores da política moderna, compara o sucesso político de um governante à
conquista de uma mulher.
[...] pois a sorte é uma mulher, sendo necessário, para dominá-la,
empregar a força; pode-se ver que ela se deixa vencer pelos que ousam.
E não pelos que agem friamente. Como mulher, é sempre amiga dos
jovens – mais bravos, menos cuidadosos, prontos a dominá-la com
maior audácia (MAQUIAVEL, 2004, p. 149).
Em A Mandrágora, peça teatral também escrita por Maquiavel, encenada pela
primeira vez em 1522, o feminino é novamente abordado como algo a ser dominado
– tomado à força. Percebemos, assim, que o comportamento feminino há muito
era tomado como parte do mundo natural, em oposição ao pensamento racional,
mas necessário ao processo civilizador. Precisando ser conquistado, submetido pela
astúcia, força e subjugação sexual. Há, por isso, uma similaridade entre Andrade e
Maquiavel – no que pese a diversidade de gênero literário, visto que adotam para
seus personagens o mesmo método e os mesmos pressupostos. Macunaíma seria um
Calímaco
20
às avessas, pois no encontro deste com Ci há um violento confronto e o
protagonista necessita da ajuda de seus dois irmãos para subjugar e conquistar sua
mulher através do coito sexual.
Foi um pega tremendo, e por debaixo da copada reboavam os berros
dos briguentos [...]. O herói apanhava. Recebera já um murro de fazer
sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo. A icamiaba não
tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue
no corpo do herói soltando berros [...]. Afnal se vendo nas amarelas
porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo
chamando pelos manos:— Me acudam que sinão eu mato! me acudam
que sinão eu mato!
[...] Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape trançou os braços dela
por detrás enquanto Jiguê com a murucu lhe dava uma porrada no
coco. E a icamiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira.
Quando fcou bem imóvel, Macunaíma se aproximou e brincou com a
Mãe do Mato (ANDRADE, 2001, p. 16).
20 Protagonista de A Mandrágora.
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93
O fato de Ci também ser uma icamiaba é igualmente emblemático. Dottin-
Orsini, num instigante trabalho sobre a construção das representações misóginas
em fns do século XIX, dedica em seus estudos sobre a mulher fatal um subtítulo
que trata das amazonas a partir dos estudos feitos pelo arqueólogo e historiador da
Basiléia, J. J. Bachofen
21
, publicados em francês por feministas em 1903. Afcionado
por mitologia, este autor utiliza narrativas míticas e arqueológicas para respaldar
a tese sobre um período no qual a humanidade viveu sob o domínio das mulheres
(ginecocracia), que foi ocultada pela historiografa patriarcal, que via nesse período
um motivo de humilhação. O próprio Bachofen, ao falar sobre a ginecocracia, lhe
confere características negativas, em que imperava o heterismo, o materialismo, a
obsessão pela noite e pela morte.
Além disso, toda uma parte da obra trata do amazonismo, em que
ele vê uma degradação do matriarcado, um “imperialismo feminino”
mais próximo do heterismo que da ginecocracia verdadeira, mas que
seus comentários confundiriam com o reinado da Mãe, de que parece
encarnar os aspectos negativos. [...] inspirariam impressionantes
pinturas. [...] Serviram, principalmente, para alimentar o terror de
um primeiro poder feminino, o prefácio secreto do patriarcado e o
princípio inicial de toda a civilização – em suma, de todo ser humano.
[...] Tais devaneios sobre um feminino primordial tão formidável como
assassino mostram que poderia ter permanecido algo no inconsciente
coletivo das mulheres modernas, secretas amazonas à espera da hora
da vingança... (DOTTIN-ORSINI, 1996, p. 260).
Seriam, assim, as amazonas o modelo arcaico da personalidade feminina,
estando isso latente em todas elas. E Mário de Andrade faz questão de explorar
na prática o natural comportamento feminino: violento, assassino, dissimulado
e sexualmente insaciável. Sugando vampirescamente as energias de seus
companheiros. Enfatizava dessa maneira os perigos representados pelo gênero
feminino ao progresso civilizador.
Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras de três pontas.
[...] De noite Ci chegava recendendo resina de pau, sangrando das
brigas e trepava na rede que ela mesmo tecera com fos de cabelo. Os
dois brincavam e depois fcavam rindo um pro outro.
Ci aromava tanto que Macunaíma tinha tonteiras de moleza. — Puxa
21 BACHOFEN, J. J. (1815-1887) Du Règne de la Mère au Patriarcat, páginas escolhidas
por Adrien Turel, Paris, Alcan, 1938. Citado em DOTTIN-ORSINI, Mireille. A mulher que eles chamavam fatal:
textos e imagens da misoginia fn-de-siècle. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.
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como você cheira, benzinho! [...] Vinha uma tonteira tão macota que o
sono principiava pingando das pálpebras dele. Porém a Mãe do Mato
inda não estava satisfeita não e com um jeito de rede que enlaçava os
dois convidava o companheiro para mais brinquedo. Morto de soneira,
infernizado, Macunaíma brincava para não desmentir a fama. [...] Mas
Ci queria brincar inda mais... Convidava, convidava... O herói ferrado no
sono. Então a Mãe do Mato pegava na txara e cotucava o companheiro.
Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando de
cócegas. [...] E brincavam mais outra vez.
[...] Então pra animá-lo, Ci empregava o estratagema sublime. Buscava
no mato a folhagem de fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça
coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma fcava
que fcava um lião querendo. Ci também. E os dois brincavam que mais
brincavam num deboche de ardor prodigioso (ANDRADE, 2001, p. 17).
A amazona é por certo um tema repleto de signifcações ambíguas, ligadas
invariavelmente à origem de todos os povos e à moderna concepção da hierarquia
dos sexos. A identidade de Ci permite o entrecruzamento de Andrade com a
obra do naturalista Barbosa Rodrigues, não apenas pelo viés do primitivismo
subjacente à fgura da mulher guerreira, mas também por serem as icamiabas as
guardiãs do muiraquitã – amuleto esculpido com barro do leito de determinada
lagoa e que era dado pelas icamiabas aos homens de outras tribos por ocasião do
nascimento de um flho do sexo feminino, fruto da ligação provisória entre os dois,
já que as amazonas não podiam manter relações permanentes com os homens. O
muiraquitã é símbolo dessa relação temporária, porém intensa, que culminava no
nascimento de um flho e conseqüentemente na separação do casal. O muiraquitã,
como acontece no livro de Rodrigues, desempenha um papel central na trama de
Mário de Andrade.
Apesar dos problemas que as mulheres representam ao progresso
civilizador, elas são imprescindíveis na construção de uma civilização, pois são as
que geram e perpetuam a vida. Macunaíma recebe um muiraquitã de presente de Ci
quando seu flho com a amazona morre e a Mãe do Mato vai para o campo vasto do
céu virar tradição, transformada na estrela Beta do Centauro. Este flho que acaba
morrendo é o fruto da união entre raça e meio. Seria a própria civilização brasileira
que agora passa a ser representada pelo amuleto que Ci dá de presente ao herói;
ou seja, o muiraquitã representa em Macunaíma a possibilidade da formação de
uma civilização genuinamente brasileira. É a aliança eterna entre o herói e o mato,
entre o povo brasileiro e a natureza tropical. Perder essa aliança signifca perder a
possibilidade de construção de uma civilização.
A morte de Ci suscita ainda outras refexões sobre texto e gênero, pois mais
uma vez, como ocorre na morte da mãe, ao cumprir seu destino junto à sociedade, a
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95
mulher é descartada da vida. O fato de Ci transmutar-se na estrela “Beta do Centauro”
revela como estando morta pode contribuir para o sucesso de seu companheiro.
Segundo o pesquisador Koch-Grünberg (cuja obra serve de ponto de partida para o
Macunaíma de Andrade), Beta do centauro – kunawá, segundo a mitologia indígena
– é uma planta com poderes mágicos: seu leite quando ingerido pelos homens
garante sucesso nas caçadas. A garantia do sucesso é representada pelo Muiraquitã,
o talismã entregue por Ci a Macunaíma por ocasião de sua morte.
[...] Ci deixa como herança a pedra muiraquitã, uma variante do leite
mágico. O talismã, representante da falta deixada por Ci, torna-se o
seu substituto, ao mesmo tempo em que será a partir da perda que a
narrativa ganha em força e motivação (SOUZA, 2004, p. 149).
A perda do muiraquitã é descrita no quarto capítulo: Boiúna Luna, um
monstro da mitologia indígena, que também evoca o universo feminino, é desafado
por Macunaíma. Na luta contra a cobra, o herói acaba decepando-lhe a cabeça.
Esta cabeça decepada – representando a genuína tradição brasileira – fca escrava
do herói e o persegue para servi-lo, porém este com medo foge. Nesta luta e fuga
é que o muiraquitã se perde. Em outras palavras: é na luta contra a tradição, e
depois fugindo dela, que Macunaíma perde a possibilidade da construção de uma
civilização e cultura autênticas. A cabeça (tradição) da cobra sem ter mais o que
fazer nesta terra vai para o vasto campo do céu e vira a Lua. Com o amuleto perdido,
Macunaíma é obrigado a empreender uma busca que o leva à cidade de São Paulo,
a cidade representante do progresso e da modernidade do país (cidade locomotiva),
para onde convergem as idéias sobre civilização. A pedra, depois de engolida por
um tracajá (quelônio típico dos rios amazônicos) é vendida a um regatão peruano
chamado Venceslau Pietro Pietra.
Outras personagens femininas: as flhas de Piaimã - Sofará, Suzi e Iriqui -
também seguem o mesmo destino de peripécia, morte e metamorfose. Enfatiza-se,
desta forma, o papel singular das mulheres na vida: contribuir para o sucesso de seus
companheiros, amantes e flhos, mesmo que isso implique na sua morte (simbólica
ou não), sem a necessidade de maiores explicações, pois conforme entendimento
fornecido por Eneida Maria de Souza, fazendo uso dos conceitos de Lévi-Strauss e J.
Braudrillard, a morte no contexto ritualístico serve para demarcar o lugar do sujeito
no discurso, estabelecendo uma causalidade inerente (o destino) a tais personagens.
O que nos permite concluir, por analogia, que o mesmo se dá com os conceitos sobre
gênero destas personagens.
Em Macunaíma, o espetáculo da morte é encenado de forma a repetir,
fragmentariamente, enunciados míticos e ritualísticos pertencentes ao
repertório popular e ao imaginário indígena. [...] Em várias situações,
Mário de Andrade se safa de uma explicação mais convincente sobre a
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transformação de Macunaíma em constelação da Ursa Maior, afrmando
ser este o destino mítico da personagem (SOUZA, 2004, p. 149).
O destino de sacrifcar-se a uma causa maior é vocação natural da mulher
imaginada pelo discurso modernista de Macunaíma. Mas o que dizer sobre aquelas
que fogem a esta regra? Sabemos que o desfecho da trama andradiana culmina com a
morte do herói e sua transmutação em constelação da Ursa Maior, e está é provocada
por um minucioso plano elaborado e executado por entidades femininas.
Em sua busca pelo amuleto, Macunaíma acaba sendo seduzido pela cultura
européia, representada pela varina,
22
e não aceita a oferta de Vei (a sol) de casar-se
com uma de suas flhas (países de clima tropical, semelhante ao Brasil), perdendo
com isso a possibilidade de gerar uma civilização genuína. De volta ao Mato-Virgem,
não é mais o mesmo que saiu, está descaracterizado, não se enquadra mais naquele
espaço, naquela natureza onde um dia havia sido imperador. A proposta feita por Vei
(a sol) permitiria a entrada de Macunaíma, obter a limpeza ou purifcação civilizadora,
que se contrastava com a sujeira do primitivismo local (Susi, a flha de Ceiuci) ou
das relações com a Europa (representada pela varina portuguesa). Desqualifcado da
possibilidade de construção de uma cultura genuinamente brasileira, representada
pelo muiraquitã, o herói, por fm, entrega-se à morte: seduzido por uma Uiara (iara),
atira-se numa lagoa e é quase todo devorado.
Comparando os comportamentos femininos nos dois casos: as mulheres que
são sacrifcadas em prol da causa de seu companheiro ou flho (índia Tapanhuma e
Ci) e aquelas que promovem intrigas e planejam a morte (Vei e Iara), encontramos
a explicação para as ressalvas machistas em relação às mulheres no início do
século XX. Eneida Maria de Souza explora a idéia de Lévi-Strauss, segundo a qual o
comportamento ambíguo de alguns seres pode ser classifcado como “cromatismo”,
pois atuam de maneira a provocar interrupções no desenrolar dos acontecimentos,
podendo, assim, causar sérios danos à ordem cultural. Além disso, a função sexual
e ao mesmo tempo alimentar (mulher-peixe, mulher-fogo, mulher-mandioca) das
personagens instaura a idéia desta dualidade contida no gênero feminino, que deve
ser combatido e reprimido. Neste ponto, Souza remete-se à obra e lembra a fala
de Maanape que justifca essa preocupação: “Cabloco de Taubaté, cavalo pangaré,
mulher que mija em pé, libera nos Dominé” (ANDRADE, 2001, p. 106). Seria esta,
portanto, uma clara referencia no livro sobre o receio daquela sociedade da década
de 1920 sobre a presença de mulheres no espaço público – mulher que mija em pé
(como homem).
Como típica representante do cromatismo feminino, a Iara reúne os atributos
do encantamento sexual. Sua ligação ao meio aquático, fonte de vida e morte, de onde
tudo nasce e para onde tudo converge. Associado com a luminosidade e o calor de Vei,
a sol, cria-se um cenário de delírio sedutor e mortal, que já havia sido apresentado
17 Na cultura portuguesa, varina refere-se às vendedoras ambulantes de peixe, muitas vezes
tais mulheres são associadas ao trabalho viril e também à sujeira que esta ocupação implica.
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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anteriormente na trama, quando Macunaíma observa o encontro entre o chofer
e a criada, dentro de uma igarité que, como a boiúna, também se constitui numa
representação da Iara. (ANDRADE, 2001, p. 112). Todo este imbricamento simbólico
visa demonstrar o estreito vínculo entre as mulheres e a sedução aquática, que na
sua verdadeira manifestação é destrutiva, “representada pela natureza ambígua da
mulher, símbolo materno e sexual, instrumento de prazer e de destruição”. (SOUZA,
2004, p. 91).
O próprio Mario de Andrade, em outros momentos de sua produção literária,
faz referencias a mulheres cromáticas. No romance “Amar, verbo intransitivo”
de 1927 (obra infuenciada pelo expressionismo alemão, segundo Telê Ancona
Lopez
23
), a protagonista Fräulein Elza, professora de Alemão contratada por um rico
industrial e fazendeiro paulista para ensinar seus flhos, vive o dilema de também ter
de seduzir e iniciar sexualmente o flho mais velho do fazendeiro, Carlos. Na trama,
os comportamentos antagônicos (cromáticos) apresentados a Elza - ser professora
e prostituta - são assimilados pela mesma, que encontra uma explicação no amor
para assumir tais papéis. Em Macunaíma, havia o capítulo “As três normalistas”
(suprimido pelo próprio autor em 1944), que também explorava a sexualidade de
jovens professoras, sendo isso um tabu sexual de sua época
24
.
Concluindo
O contexto histórico que envolve todas as particularidades apresentadas na
obra de Mário de Andrade e outros escritos da época demonstra ser o folclore um
tema chave para diversas e variadas especulações sobre a identidade e as relações
sociais do povo brasileiro. Tudo isso acaba por problematizar as formas de percepção
da arte, fazendo surgir (mesmo que à margem do discurso ofcial) um ponto de vista
sobre o gênero que subverte os olhares canônicos sobre arte, tornando visível uma
polissemia discursiva, muito além da linguagem formal, que somente nos dias atuais,
com os avanços propiciados pela ampliação das fontes, podem ser historicizados.
Percebemos que há, na construção das relações entre os sexos, uma pedagogia que
reforça e amplia as interdições sexuais e a aversão ao feminino.
A aprendizagem e o ensino, neste caso, estão para além da intencionalidade
imediata do discurso, pois o livro não é concebido como um manual de comportamento
e sim como manifesto de libertação das amarras do modelo civilizador europeu e
da possibilidade de reconhecimento de um autêntico ethos nacional, que garantiria
a modernização e progresso da sociedade brasileira. O erotismo é explorado para
discutir e reforçar os papéis sexuais e de gênero, determinados pelos mitos acerca
do masculino e do feminino, questionando, dessa forma, uma pretensa autonomia
18 LOPEZ, Telê Ancona. Mariodeandradiando. São Paulo: Huicitec, 1996.
19 Temos o caso de “Miss Ciclone”, normalista morta aos 19 anos em conseqüência de um
aborto desastroso patrocinado por Oswald de Andrade, conhecido também por outros relacionamentos com
normalistas. Ver ALMEIDA, Tereza Virgínia de. A ausência lilás da Semana de Arte Moderna: o olhar pós-
moderno. Florianópolis: Letras Contemporâneas: 1998.
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das mulheres na sociedade, estando estas fatalmente destinadas a cumprir os papéis
destinados a sua natureza, sendo impossível fugir a isso.
Na desconstrução dos discursos, podemos questionar aquelas imagens
aparentemente neutras (normais) em relação a comportamentos típicos de homens
e mulheres, e de como são visualizados nas pinturas e textos ocidentais que
confguram a chamada grande arte ou arte universal. Também podemos questionar
o nosso olhar naturalizado para essas imagens sobre o gênero. Tais imagens, e o
olhar que as endereçamos, estão mais conectadas com relações de poder e política
do que comumente presumimos, das quais, como vimos, Mário de Andrade não
consegue fugir. A retomada dos estudos focaultianos, sugeridos por Michelle Perrot,
talvez sejam de grande ajuda para a compreensão destas relações entre poder e sexo
e, conseqüentemente, para as identidades de sexuais e de gênero.
A década de 1920 no Brasil, por toda instabilidade política e social que
comporta, é um tempo de redefnições das fronteiras sexuais. O maior espaço
reivindicado pelos movimentos feministas fomenta reações em contrário, que
nem sempre tentam discutir as questões no nível da eqüidade. Lançando mão
da propaganda difamatória e misógina, aqueles que se sentem prejudicados
desencadeiam uma verdadeira cruzada contra aquilo que classifcam de anarquia
sexual
25
. Macunaíma é flho de seu tempo, e como tal, assume seu posicionamento
diante das circunstancias: elegendo a mitologia e a tradição folclórica, indica o
lugar dos gêneros no plano mítico e social. As mulheres precisam apoiar o mundo
dos homens, sua maior liberdade e maior autonomia na sociedade brasileira não
podem lhes garantir uma trajetória melhor no mundo, pois há um determinismo
em sua natureza, que não pode ser negado ou rejeitado. Assim, o melhor a fazer
para adequar-se aos novos tempos, em que as transformações técnicas e políticas
imprimiam uma nova dinâmica social, é buscar maneiras de adaptar aquilo que lhes
é peculiar: complementar os homens e promover seu progresso. Isto é o que faz Elza,
em “Amor, verbo intransitivo”, é o que deveria ter sido feito por todas as personagens
femininas em Macunaíma, para seu próprio bem.
Portanto, temos em Macunaíma uma vasta alegorização do feminino
ameaçador. A crítica e as estatísticas atestam o sucesso e aceitação da obra pela
sociedade e intelectualidade de sua época, bem como nas que a sucederam. Seria
o seu discurso antifeminista parte deste sucesso? E hoje, tendo em vista ser o texto
ainda muito requisitado, estaríamos ainda nos servindo de sua mensagem para
construir e reforçar nossas atuais fronteiras de gênero e sexualidade? As respostas
para estas perguntas extrapolam os objetivos deste artigo, mas nos instigam pela
busca de uma sensibilidade que nos permita perceber como e até que ponto estes
antigos, mas persistentes estereótipos sobre gênero e sexualidade, ainda moldam as
representações e o simbolismo de nossas relações sociais.
20 Tema cabalmente explorado no livro Anarquia Sexual: sexo e cultura no fn de siècle, de
Elaine Showalter.
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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Categoria Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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Relação dos artigos científicos que receberam Menção Honrosa
A íntegra do artigo pode ser acessada em www.igualdadedegenero.cnpq.br
Por que o trabalho doméstico não é considerado trabalho?
Questionamentos feministas no Brasil e na Argentina
Soraia Carolina de Mello
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Orientadora: Profa. Dra. Cristina Scheibe Wolf
Categoria Graduado, Especialista e Estudante de Mestrado
Categoria
Estudante de Graduação
Artigos Científcos Premiados
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Introdução
Os artigos enviados pelos estudantes de graduação foram totalizaram
271, comparando com a primeira edição do Prêmio, em 2005, no qual houve 141
inscrições, esta edição quase duplicou o número de concorrentes, o que signifca
que houve maior divulgação, como também uma elevação dos estudos de gênero na
universidade. E este crescimento foi observado também em relação à edição de 2008.
A maioria dos artigos inscritos foi de mulheres (69%) e 31% de homens. Na etapa de
pré-seleção, o CNPq selecionou, nesta categoria, 176 artigos científcos que foram
classifcados, o que corresponde a 65% do total de trabalhos inscritos.
5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Categoria Estudante de Graduação Artigos inscritos, segundo sexo
Sexo Quantidade %
Masculino 83 31%
Feminino 188 69%
Total 271 100%
Fonte: CNPq/SPM, 2009.

Fonte: CNPq/SPM, 2009.
Categoria Estudante de Graduação
104
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação
As Aparências e Os Gêneros: uma análise da
indumentária das Drag Queens
Emerson Roberto de Araujo Pessoa
Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Orientadora: Ivana Guilherme Simili
Introdução
O universo social é formado por várias personagens que intrigam, incomodam,
inquietam. Uma delas são as drag. Personagens insólitas, as drag queens podem ser
defnidas como homens que usam a indumentária - roupas, acessórios e maquiagem -
que culturalmente é defnida como pertencente e condizente ao sexo feminino, para se
apresentarem em bares e casas de espetáculo, geralmente freqüentados por pessoas do
meio LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais.
O papel desempenhado pela indumentária na transformação e caracterização
do corpo masculino em feminino, ao ocultar traços e vestígios e produzir novos sentidos
para a aparência, permite entender as articulações entre corpo e gênero. Nesse sentido,
vale lembrar o que escreveu Berenice Bento (2006, p. 04): “o gênero adquire vida
através das roupas que compõem o corpo, dos gestos, dos olhares que o acompanham,
as quais constituem uma estilística defnida como apropriada” aos sexos masculino e
feminino.
No entanto, ao vestir-se como mulher a drag usa os artefatos das roupas e seus
acompanhamentos (acessórios, maquiagem, cabelos) de um modo muito particular.
Conforme Guacira Louro (2003, [f.7]), ao exagerar os traços femininos, não o faz
no intuito de passar por uma mulher, mas de exercer uma paródia de gênero,
ela “repete e exagera, se aproxima, legitima e, ao mesmo tempo, subverte o
sujeito que copia”.
Entender a articulação entre corpo e gênero por meio das narrativas orais e
visuais dos sujeitos que vivenciam a transformação do corpo com a indumentária,
criando versões e visões de feminino e conformando aparências de drag queens é o
objetivo deste texto.
Os caminhos da pesquisa
Para entender os sentidos percebidos pelas drag no ato da transformação do
corpo masculino em feminino, os signifcados construídos para a aparência por meio
da indumentária, os sentimentos de masculinidade e feminilidade que acompanham os
procedimentos estéticos na produção de visuais femininos, empregamos a história oral
como recurso metodológico.
106
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Entre as defnições e as orientações metodológicas para a prática da história
oral, está a de Verena Alberti (2005, p. 155-157), segundo a qual, a história oral defne-
se em uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes que têm na entrevista
o principal recurso para a captação das informações. Três momentos devem orientar a
produção das fontes orais: a preparação das entrevistas, sua realização e o tratamento
das informações coletadas.
Os encaminhamentos sugeridos por Alberti foram transformados em guia para
a coleta, transcrição e análise do material. Quanto ao primeiro aspecto, a preparação das
entrevistas, a opção foi por elaborar perguntas que permitissem aos sujeitos respondê-
las de forma que o diálogo entre pesquisador e informantes fosse estabelecido.
Podemos dizer que o questionário foi organizado com perguntas do tipo “semi-
diretiva”, que segundo Rosália Duarte (2002, p. 08), defne-se como “uma técnica de
coleta de dados que supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador
e que deve ser dirigida por este de acordo com seus objetivos”. Portanto, na preparação
das perguntas para as entrevistas foram estabelecidas questões que fornecessem
informações sobre as relações e as articulações entre corpo, indumentária e os gêneros.
As perguntas versaram sobre: a idade; a sensação de ser drag; os procedimentos
adotados para ocultar os detalhes do seu corpo masculino na montagem; o papel da
roupa e maquiagem que acompanham a montagem e a transformação; as sensações e
sentimentos que defnem as drag.
Se a preparação do questionário é uma etapa importante numa pesquisa de
campo, o contato e a realização das entrevistas exigem muito do pesquisador. É o
momento do estabelecimento de relações com os sujeitos reais, de imiscuir em seus
cotidianos e vidas, para criar um diálogo entre pesquisador e sujeitos, o qual quase
sempre é difícil de ser concretizado.
No caso das drag, conseguir adentrar o mundo de sujeitos e conseguir
estabelecer o diálogo foi uma tarefa difícil e complicada. Muitas vezes os sujeitos
respondiam aos contatos feitos, outras vezes, não. Em algumas ocasiões, os contatos
até resultaram na marcação da entrevista, mas, na hora de serem entrevistados,
os sujeitos recuavam. Podemos dizer que o resultado da pesquisa refete os
comportamentos e as atitudes dos sujeitos quando confrontados com a situação de
entrevista proposta pela investigação.
Duarte (2002) afrma que uma das formas de adentrar o universo pesquisado
é “integrar estratégias de investigação qualitativa como conversas informais em
eventos dos quais participam pessoas ligadas ao universo investigado”. Este foi o
mecanismo acionado para romper barreiras. As conversas informais travadas com
pessoas que freqüentam os mesmos espaços das drag e os vínculos de amizade
estabelecidos com estas pessoas foram fundamentais para a abertura das portas para
chegarmos até as personagens, objeto deste estudo. Aprendemos, nesta pesquisa,
que o estabelecimento de redes de amizade é um mecanismo importante para a
criação de algo chamado confança.
Categoria Estudante de Graduação
107
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Podemos afrmar que, com base no sentimento de confança, conseguimos
dialogar com quatro drag. São elas: Dafny, Hadja, Roberta Star, Jenny Possible. Os
nomes usados neste trabalho foram autorizados pelas personagens. É importante
registrar que são os nomes com os quais se apresentam nos bares e casas de show de
Maringá e região.
Estabelecidos os contatos, o próximo passo da pesquisa foi a realização das
entrevistas. Segundo Duarte (2002), a entrevista fui muito mais tranqüilamente
quando realizada na residência da pessoa entrevistada. Se esta orientação aplica-se
em muitas situações de entrevistas, com as drag foi diferente. Os sujeitos optaram
por serem entrevistados em locais que não faziam parte naquele momento da sua
vida privada. As escolhas dos lugares podem ser tomadas como narrativas por
meio das quais elas contam um pouco de si e de suas vidas. Dafny, uma de nossas
personagens, por ser de outra cidade, Cascavel – PR, optou por ser entrevistada no
quarto de hotel, local onde estava hospedada naquele fm de semana para conhecer
as boates da cidade; Hadja fez a mesma escolha, no entanto, o hotel era sua própria
casa, espaço de grande fuxo no centro de Maringá e utilizado pelas prostitutas. A
opção dela foi por ser entrevistada num dos cômodos do hotel: uma sala reservada
às refeições. Roberta escolheu a Universidade Estadual de Maringá (UEM), como
local da entrevista, espaço por “ele” frequentado, como aluno. Jenny, sua amiga de
república, fez a mesma opção.
De certa forma, todas essas personagens revelam as múltiplas faces e
performances dos sujeitos. Na vida cotidiana e pública - no trabalho, na universidade
-, os personagens são homens, com nomes correspondentes, vestindo-se e
comportando-se como sujeitos pertencentes ao sexo masculino. São homens que
têm suas trajetórias pessoais e visuais marcadas pelo masculino, são pessoas que se
relacionam conosco na condição de homens. Os nomes femininos ora mencionados
– Dafnny, Hadja, Roberta e Jenny - referem-se à outra face dos mesmos sujeitos. São
nomes que designam os procedimentos de transformação dos sujeitos em drag.
Quanto aos diálogos com as drag, duraram em média 30 minutos. Se a
confança foi um ingrediente importante para chegarmos até os sujeitos, os refexos dela
também foram percebidos durante a realização das entrevistas. Calma, descontração e
cordialidade se fzeram notar durante os diálogos. No entanto, em alguns momentos,
alguns desconfortos puderam ser observados. Durante a entrevista com Hadja, quando
a indagamos sobre como ocultava os detalhes do seu corpo masculino, percebemos
certo tipo de desconforto, visto ter entendido que perguntávamos sobre o que ela fazia
com o seu pênis. O sentimento de desconforto foi expresso com uma frase em tom
de voz baixo, indagando se o pesquisador referia-se ao seu órgão sexual. Podemos
relacionar tal acontecimento com as difculdades de tratar das intimidades do corpo,
assunto normalmente delicado para os indivíduos.
O uso do gravador nas pesquisas de campo tem uma longa história. Segundo
Voldman (1996, p35), no desenvolvimento da pesquisa oral chegou um momento
em que “já não bastava que essa testemunha fosse digna de fé. Era preciso que sua
Categoria Estudante de Graduação
108
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
mensagem fosse acessível a todos e que a comunidade científca pudesse utilizá-la
como prova. A invenção do gravador permitiu atender a essas exigências”.
No entanto, se a pesquisa, por um lado, pode ganhar (e muito) com o uso
do gravador para o registro das informações, por outro, na prática, os sujeitos não
se sentem à vontade em ter um gravador sobre a mesa, como testemunha e como
artefato que guarda o que foi “dito” durante o diálogo.
O desconforto gerado pela presença do gravador foi identifcado no trabalho
de coleta e registro das informações. Contudo, em que pese o mal-estar provocado
dos quatro entrevistados, apenas um deles não aceitou que sua voz fosse gravada. A
recusa de Dafny foi justifcada “por não gostar de sua voz”.
No caso, a negativa do sujeito foi contornada pelo registro das informações
no caderno de campo, artefato que acompanhou todo o trabalho de produção das
fontes, narrando os locais, os gestos, os olhares, o tom de voz, os desconfortos, as
risadas e, enfm, tudo o que pudesse ser utilizado de forma a complementar os dados
da pesquisa e dar um novo sentido às frases registradas.
Para Chantal Tourtier-Bonazzi (1996, p. 239), “toda transcrição, mesmo
bem feita, é uma interpretação, uma recriação, pois nenhum sistema de escrita é
capaz de reproduzir o discurso com absoluta fdelidade”. Esta premissa orientou a
transcrição das ftas e das informações prestadas pelos entrevistados, as quais foram
anotadas no caderno de campo. Alguns critérios teórico-metodológicos orientaram
a transcrição dos materiais verbais das entrevistas. Na reprodução do material
gravado, as anotações feitas no caderno de campo possibilitaram avivar a memória
dos fatos e relembrar gestos e posturas. Após este processo, houve o cuidado de
verifcar a compatibilidade entre nossas transcrições e o conteúdo das ftas. Um
cuidado para preservar o conteúdo das informações dos áudios de entrevistas
foi a manutenção dos vícios de linguagem no produto da pesquisa, mantivemos
o vocabulário dos personagens como modo de conservar os universos culturais e
representações detidas pelos sujeitos.
Os vícios de linguagem foram interpretados como recursos estilísticos usados
pelos sujeitos na relação dialógica e como mecanismo de aproximação estabelecida
pelo depoente com o pesquisador, de maneira a obter a nossa concordância com
o que diziam e a aceitação de suas idéias. Exemplar, neste sentido, foi a repetição
dos termos “né” e “tal”. Nestas expressões, encontramos evidências das estratégias
narrativas usadas pelos sujeitos para aferir se o narrado está sendo compreendido e
se o “outro”, quem ouve, está atento e acompanhando o que está sendo dito.
Os procedimentos envolvidos na produção das fontes de consulta podem
ser sintetizados à guisa desta refexão de Eclea Bosi (1994): “nesta pesquisa fomos, ao
mesmo tempo sujeito e objeto. Sujeito enquanto indagávamos, procurávamos saber.
Objeto enquanto ouvíamos, registrávamos...”. Objeto, também, nos cuidados e zelos
com os materiais obtidos e na transcrição das informações.
Categoria Estudante de Graduação
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
O corpo, as roupas e os sexos

Para Berenice Bento (2004), todos nós somos operados pelos gêneros desde
que nascemos. Segundo a autora, a notícia do sexo do bebê pela mãe é acompanhada
pela criação de expectativas e imagens de gênero. Por exemplo, se o sexo do bebê é
masculino, pressupõe-se que será um menino e vai gostar de carrinhos, de bolas e
que a cor preferida será o azul; se for menina, gostará de bonecas, de brincar de ser
dona-de-casa, de mamãe e de professora e que a cor preferida será rosa. Em suma, o
que Bento pretende dizer com esses exemplos, é que quando o corpo da criança sair
do ventre materno:
[...] já carregará um conjunto de expectativas sobre seus gostos, seu
comportamento e sua sexualidade,  antecipando um efeito que se julga
causa. A cada ato do bebê a/o mãe/pai interpretará como se fosse
a  ‘natureza falando’. Então, pode-se afrmar que todos já nascemos
operados pelos gêneros, que todos os corpos nascem ‘maculados’ pela
cultura. (BENTO, 2004, p.125).
Se o corpo pode ser concebido como portador de uma linguagem não verbal,
ditada pela cultura, a roupa assume o papel de instrumento de controle na formação
das identidades sexuais e de gênero. O que se nota é a vinculação das roupas à
ideologia cultural do que signifca ser homem e ser mulher, de maneira dual.
Nesse sentido, Martins e Hofmann (2007), ao enfocarem as roupas infantis
apresentadas pelos livros didáticos, mostram que na sociedade e cultura as roupas
usadas pelas crianças contribuem para a construção de signifcados masculinos e
femininos sobre o corpo. Afrmam que enquanto as meninas são bem arrumadas e
vaidosas, vestindo rosa, ou seja, um vermelho despido de sua raiva e erotismo, com
ilustrações de fores, os meninos são mais “largados”, vestindo azul, com ilustrações
de pequenos animais selvagens. As roupas e suas tonalidades deixam claro como a
cultura inscreve-se sobre os corpos das meninas e dos meninos e que aspectos tidos
como naturais são marcas culturais. Nesse aspecto, o que é concebido como “natural”
na mulher e no homem são desenvolvidos nas crianças por diferentes mecanismos.
No caso, a concepção de que a mulher é “naturalmente” vaidosa e frágil, enquanto
que o menino deve ser corajoso e agressivo também é transmitida às crianças pelas
roupas com as quais as vestimos.
Em linhas gerais, as refexões sobre roupas e sexo mostram que as roupas
produzem padrões de masculinidade e feminilidade, “as roupas apresentam o corpo
dos sujeitos sociais como corpos de homens e mulheres. A roupa comunica o ser
social e o defne, constituindo uma dimensão do trabalho de modelação, adequação
e ajuste da construção de gênero” (MOTA; AGUIAR, 2008). Assim, as roupas não só
vestiriam os sujeitos, mas, de certa forma, os diferenciariam como sendo homens ou
mulheres, desencadeando o que Louro (2008, p. 8) afrma: “nada há de puramente
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110
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
‘natural’ e ‘dado’ em tudo isso: ser homem e ser mulher constituem-se em processos
que acontecem no âmbito da cultura.”
Assim, as masculinidades e as feminilidades seriam construídas levando-
se em consideração o que a sociedade defne como sendo aspectos masculinos
ou femininos, ou seja, um padrão construído que envolve determinados tipos de
comportamentos, de sentimentos, de interesses, padrões estes que são modelados
e transformados no decorrer do tempo, construindo novos tipos de masculino
e feminino, sempre levando em consideração a masculinidade como oposto à
feminilidade. (SABAT, 2001).
Na diferenciação dos homens e das mulheres, a indumentária cumpre um
papel fundamental. A diferença na indumentária dos homens e das mulheres é um
dos motes dos estudos da história da moda. A tese de Hollander (1996, p. 21) é a de
que a diferença entre ambos denotaria uma história de permanências com relação à
alfaiataria masculina (calças, camisas e casacos), mostrando a força, a autoridade e
o vigor simbólico de uma forma visual marcada pela permanência. Desde o século
XVIII a alfaiataria masculina teria sido aperfeiçoada e, embora tenha passado por
mudanças internas constantes, seria possível vislumbrar a força de um sentido
de permanência e de continuidade em sua forma. Na tese da autora, “o vestuário
masculino foi sempre mais avançado que o feminino e inclinado a fazer proposições
estéticas, as quais a moda feminina respondeu” (Hollander, 1996, p. 17). Uma das
conseqüências apontadas pela autora é a de que “mulheres elegantes podiam parecer
ridículas; homens elegantes, nunca” (HOLLANDER, p. 151), aspecto que, de certo
modo, remete ao papel da moda no seu relacionamento com as mulheres, tornando-
as mais frágeis e suscetíveis aos seus apelos e infuências estéticas.
John Harvey (2004) permite estender a contribuição da alfaiataria na
construção de representações para o poder dos homens ao recuperar a trajetória do
uso da cor preta na sociedade ocidental, mostrando como esta cor, relacionada ao
luto, passou por transformações no mundo contemporâneo que vieram constituí-la
em representativa, e por que não dizer, designativa do poder masculino.
Os ternos em suas múltiplas versões de calças, camisas, paletós e gravatas
e com foco principal na cor preta podem ser tomados, portanto, como reveladores
do que é afrmado por Alison Lurie (1997, p. 328) numa frase: “O vestuário masculino
sempre foi desenhado para sugerir o domínio físico e/ou social”.
Assim, Hollander (1996, p. 17), ao estudar as diferenças que as roupas
produzem nos sexos, notou que a “excitação popular atual com o transexualismo
no vestir mostra apenas quão profundamente acreditamos ainda em separar
simbolicamente as roupas dos homens e das mulheres, mesmo que em muitas
ocasiões ambos se vistam da mesma forma”.
Desta forma, o processo de “montaria” permite dimensionar a equação
posta na história da indumentária e da moda, a qual relaciona o sexo às roupas e aos
artefatos de beleza apropriados às mulheres, como cabelo e maquiagem.
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111
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Mas qual é a indumentária usada por uma drag na transformação? Que moda
produzem na montagem do feminino? Para responder a esta pergunta, a defnição
acerca do que é a moda, conforme formulada por Kathia Castilho (2004), pode se
constituir em nosso fo condutor. Para a autora, a moda é uma instância sociocultural
que desempenha um papel signifcativo na modelagem de comportamentos, das
ideologias, dos gostos, dos estilos de vida e das interações sociais. As aparências dos
sujeitos se constituiriam em fragmentos daquela instância sociocultural, permitindo
entrever os limites da liberdade sob a qual elas se constroem e, também, os
movimentos da moda e vestimentas do corpo, a qual é concebida como o conjunto
formado pelos trajes, adornos e acessórios, os quais são sinônimos de indumentária.
A moda, como produto sociocultural, se materializaria e atualizaria no processo
desencadeado pelas escolhas realizadas pelo sujeito, que num movimento único,
absorveria suas regras e por meio delas também se constituiriam.
Castilho afrma que a moda pode ser concebida como “modelagem” realizada
por um sujeito, por meio da indumentária. Nesta concepção de moda, o sujeito, como
situado no tempo e no espaço, ao mesmo tempo em que absorve as “regras da moda”,
também as constitui na medida em que transforma os produtos e artefatos da moda
em objetos de uso. É este modo de conceber a moda que permite entender a drag
como sujeito produtor de aparências, que se apropria das roupas e dos artefatos da
moda preconizados para as mulheres, do que é, portanto, socialmente e culturalmente
concebido como moda apropriada para o feminino, para produzir versões para o
feminino, com os conteúdos de feminilidades atribuídos por esses sujeitos.
O que as drag comunicam de diferentes formas são os signifcados atribuídos
para a indumentária no ato da transformação. Elas não tratam da roupa em si,
como objeto de moda, mas da maneira como as empregam para transformar e criar
signifcados para a personagem drag. Segundo Daffny, as roupas são usadas para
causar impacto, e são, ainda, descritas como o clímax do show, utilizando de roupas
coloridas e luxuosas.
As peças de roupas ou acessórios coloridos fazem parte dos shows das drag.
Eles são elementos que compõem visuais chamativos e enaltecedores do modo de
ser e de se vestir destas personagens. Uma drag é uma representação performática da
moda; e a única moda possível de ser conhecida por meio delas é a moda dos coloridos
infnitos, produzida pelas roupas, pelos acessórios e pela maquiagem.
Ao tratar da indumentária, Roberta comentou: “é uma fantasia, igual à de
alguém que se veste de palhaço para animar uma festa de criança”. Uma personagem
que cria para si uma fantasia de feminino. É deste modo que podemos interpretar o ato
de vestir e apresentar-se publicamente destas personagens. É através da personagem
criada pela drag que a imagem existente do feminino do sujeito em seu íntimo é
transformada em algo concreto e real. As roupas e os acessórios são a concretização
do feminino.
Podemos afrmar que a drag ao se montar deixa visível que o corpo é uma
instancia histórica, o qual é transformado diariamente, e que o ato de transformação
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
pode ser vivenciado de forma distinta pelos sujeitos. A drag demonstra através do seu
corpo e de sua indumentária que todo corpo é uma construção social e cultural e que o
feminino e o masculino podem ser pares de experimentações realizadas sobre o corpo.
Experimentando e vivenciando as roupas e acessórios, a drag se transforma em vetor
de leituras e interpretações dos gêneros ao desconstruir e transformar os conceitos de
masculinidade e feminilidade.
A maquiagem pode ser concebida como um componente da moda e, como
tal, como artefato de comunicação e de representação dos gêneros. Entre as drag, a
maquiagem é mencionada nos discursos dos sujeitos como aspecto diferenciador entre
este segmento e os demais crossdrasing (individuo que se utiliza de roupa do sexo
oposto ao seu).
O sentido adquirido pela maquiagem no universo drag pode ser aquilatado na
narrativa de Jenny, segundo a qual a maquiagem “é fundamental, né? A maquiagem
ela.... Fala.... Ela é a identidade da drag queen”. Os produtos de beleza oferecidos pela
cosmética transformam-se, assim, num dos recursos para a produção visual drag, para
que a personagem idealizada pelo sujeito ganhe a identidade feminina.
Conforme constatado por Vencato (2005), o processo de maquiagem de uma
drag queen deve ser muito bem dominado pelos sujeitos que fazem uso dela. Fazem
parte do processo de aprendizado das técnicas de maquiagem, exercícios feitos sobre
o próprio rosto para a ampliação do conhecimento. As drag aprendem as artes da
maquiagem, buscando por estes tipos de informações e compartilhando as técnicas
assimiladas com os demais sujeitos drag do seu círculo social. Um aspecto a ser
destacado e que é exemplar neste sentido é a maneira como os conhecimentos sobre
procedimentos de maquiagem são aprendidos, os quais se assemelham àqueles que
organizam os aprendizados femininos. Da mesma forma que as meninas aprendem as
artes da maquiagem por meio da mídia, das revistas e com as mães; do mesmo modo
que as garotas trocam as informações entre as amigas; estes modelos de aprendizados
estão presentes entre as drag porque é por meio da convivência entre elas ou com as
transformistas “mais experientes“ que assimilam os conhecimentos sobre os produtos
e seus empregos.
A maquiagem usada pelas drag é diferente da utilizada pelas mulheres, uma
beleza plástica é o resultado da maquiagem, realçando e exagerando os traços. Uma
beleza feminina no superlativo. Lábios e olhos são realçados de forma a produzir um
tipo de beleza e feminilidade exorbitantes.
É possível vislumbrar na maquiagem (nos cuidados com os contornos, na
aplicação dos cosméticos – sombra nos olhos, delineador, lápis, batom, bases e pó)
que a concretização de uma aparência demanda muito tempo e dedicação ao ato de
maquiar-se, levando normalmente uma hora e meia para a sua realização e metade do
tempo total da transformação.
Assim como a indumentária se constitui para a drag como algo transformador
do seu corpo, a maquiagem também o é, completando a mudança de uma aparência
masculina em feminina. Tal como a indumentária, o que a maquiagem proporciona é
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113
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
a fabricação de um novo corpo baseado na representação do feminino. Deste modo,
estes sujeitos revelam uma nova confguração para o corpo mediante a contraposição
de idéias, imagens e representações relacionadas à fxidez dos sexos e dos gêneros. Eles
trazem na maneira como se vestem e se maquiam as possibilidades proporcionadas
pela vivência do corpo, demonstrando a dualidade presente nos pares sexo e gênero.
Através da montagem do personagem drag queen, o sujeito masculino
desaparece de cena para dar lugar ao sujeito feminino. Neste “desaparecimento” de
um personagem e “surgimento” de um novo, a mudança na aparência é acompanhada
de outro aspecto: a transformação na voz. Esta questão foi abordada por Vencato
(2005), que afrma que: “os gestos antes comedidos iam tornando-se mais expansivos
e performáticos, a voz e o vocabulário também se modifcavam (2005, p. 246)”. Dessa
forma, a impressão é a de que outra pessoa materializa-se no corpo do indivíduo, a
drag passa a ocupar o lugar do homem.
O aspecto mencionado pela autora pôde ser observado na convivência com
os sujeitos. Durante uma visita a uma casa noturna onde encontrei pela primeira vez
Hadja, sua aparência logo me chamou a atenção, sua voz era caracteristicamente
feminina, no entanto, quando a entrevistei, a mesma estava “desmontada” e o seu
falar já não era o mesmo, ouvia uma voz grossa, masculina em todos os seus detalhes.
Para as drag, os processos e procedimentos envolvidos na transformação
– roupas, maquiagem e voz - são acompanhados pelo sentimento de realização,
conforme mencionado por Dafny, “é a gratifcação de um trabalho realizado”. Tal
sentimento é justifcado devido às difculdades e técnicas necessárias para estar tudo
completamente perfeito, seja a composição da roupa, o processo de maquiagem ou
a dança.
As sensações vivenciadas pelos sujeitos nas transformações em drag também
foram mencionadas por nossos entrevistados. Sobre isso, Hadja comentou: “as noites
que eu não me monto, eu fco com aquela coisa assim, parece que ta (tsc) faltando algo
em mim, eu adoro andar de salto, claro, eu adoro me vestir de mulher, adoro que as
pessoas me encontram na rua e não me conheçam, elas falam assim: Nossa! Será que
é a mesma pessoa?”.
Hadja é clara: ela sente prazer na transformação, ela gosta do sujeito feminino
ao qual dá origem, ela sente falta da personagem que ela consegue criar. Portanto, a
transformação é produtora de sensações prazerosas e das quais os sujeitos sentem falta
quando distantes das personagens criadas.
As refexões de Hadja podem ser interpretadas à guisa do que diz Helio Silva
(1993, p. 109): [referindo-se a um individuo praticante de crossdressing] “Vestindo-
se com as roupas da irmã, R. faz mais do que simplesmente romper os limites das
classifcações que o defnem como homem. Ao deixar entrever por sob as vestes
femininas suas pernas inconfundivelmente másculas, ele representa, na verdade, a
própria representação.” Em outro momento, afrma: “A singela pergunta com que
roupa? Adensa-se e torna-se dramática quando traduzida para seu aprofundamento
lógico: com que corpo?” (SILVA, 1993, p. 115 ).
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
É da mistura de corpos e das sensações por ele proporcionadas, nas quais o
masculino e o feminino (ou vice-versa) se fundem e se confundem, que Hadja e Silva
falam. Nesta fusão, a indumentária ocupa papel de experimentação, pois, através dela,
corpos masculinos tornam-se femininos, deslumbrando o mundo vasto das identidades
sexuais, a tal ponto de revelar a inexistência de tal identidade, mas várias e múltiplas,
as quais são performáticas de gênero.
Através da indumentária e dos artefatos que a acompanham, a drag produz
um novo corpo social e cultural sobre o corpo biológico. A drag concretiza este corpo
por meio de inúmeras técnicas: a depilação do corpo, o ocultamento dos atributos
masculinos por meio de roupas e maquiagem, utilizando-se de artefatos e produtos da
moda feminina para dotar o corpo de contornos femininos, como por exemplo, os seios
e quadris. Assim, o processo de montaria transforma-se em “exercício de criatividade
e paciência, mas, sobretudo, é um trabalho de arte” (Vencato, 2005, p. 237) que faz
emergir um corpo artístico e uma representação para o feminino.
Conforme procuramos mostrar no decorrer deste texto, o processo de
transformação é acompanhado pelo desligamento do sujeito masculino ou do
religamento deste sujeito a outro, arquitetado pelo primeiro. A retirada das vestes
masculinas e a colocação da feminina e os diversos processos que fazem parte da
transformação dão origem a outro sujeito: o homem que está na origem de tudo não
deixa de existir, mas passa a existir, ainda que tão somente por algumas horas, sob
outro formato visual.
O que a drag produz, sem dúvida alguma, é um caleidoscópio para a aparência.
Considerações fnais
O artigo teve por objetivo analisar o papel desempenhado pela
indumentária na transformação e caracterização do corpo masculino em feminino
das drag. Buscamos entender os modos pelos quais as drag, ao usarem os produtos
e procedimentos estéticos da moda, concebidos socialmente e culturalmente como
pertencentes ao feminino, ocultam traços e vestígios corporais do sexo masculino e
produzem novos sentidos para a aparência e para os gêneros. Através das narrativas
orais e visuais dos sujeitos, foi possível entender as versões e visões que estes sujeitos
constroem para o feminino.
Foi possível, ainda, captar e identifcar a maneira pela qual o ato de
travestimento do corpo é gerador de questionamentos acerca da matriz heterossexual
que associa o sexo às roupas. Mostramos que a indumentária constitui-se em vetor
crítico usado pelas drag para colocar em questão a originalidade e a autenticidade
da sexualidade e dos gêneros.
Ao analisarmos a percepção dos sujeitos acerca do papel desempenhado pela
indumentária e pela maquiagem na transformação do corpo masculino em feminino
e na criação de uma aparência baseada no feminino, o que esses sujeitos evidenciam
são os processos de educação do corpo, realizados mediante a associação entre
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115
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
as roupas e os sexos e a necessidade da educação e da moda contribuírem para a
transformação dos conceitos e das representações sociais. Romper com a associação
entre sexo feminino e masculino e roupas respectivamente apropriadas, pode ser um
caminho para a construção de novos princípios sociais e culturais, diminuindo as
fronteiras que separam os gêneros, as quais criam os preconceitos e as desigualdades
de gênero.
O que as drag mostram nas suas narrativas visuais e orais é que podemos
ser sujeitos múltiplos, que o masculino e o feminino estão dentro de nós. Enfm, que
podemos ser masculino e feminino. Por isso, elas intrigam, inquietam e incomodam.
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Categoria Estudante de Graduação
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Gênero e sexualidade na escola de surdos
Pedro Henrique Witchs
1
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)
Orientadora: Profa. Dra. Maura Corcini Lopes
2
Introdução
Durante o meu estágio supervisionado no Ensino Fundamental, ministrando
a disciplina Ciências para uma turma da 7ª série em uma escola especializada na
educação de surdos, deparo-me com uma infnidade de questões que envolvem
os sexos, os gêneros e, principalmente, as sexualidades. Tendo em vista que essas
questões tornaram-se explícitas quando começo a trabalhar com os conteúdos
relacionados aos sistemas genitais (masculino e feminino) e à fecundação humana,
questiono como abordar os assuntos que envolvem gênero e sexualidade sem cair na
redução biologista ofcializada no currículo escolar.
A partir dessas experiências em uma escola de surdos, objetivo problematizar,
neste artigo, a normalização de gênero e sexualidade presente no currículo da escola,
bem como a necessidade de construção de espaços de formação pedagógica para que
temas como os da diversidade de gênero e sexualidade possam ser abordados sem
polêmica. Nesse sentido, direciono este artigo a todos os professores e professoras
que, como eu, se veem agindo sob práticas de silenciamento das diferenças – em
destaque as de gênero e sexualidade – que são conduzidas pelos padrões de
normalidade.
O artigo está organizado como segue: esta pequena introdução dada acima,
onde apresento minhas justifcativas e os meus objetivos, é seguida pela descrição
da metodologia utilizada, bem como pelo meu posicionamento em relação à
especifcidade do artigo, de modo a evidenciar que olho para os surdos como sujeitos
de uma diferença linguística e cultural; na seção Sexos, gêneros e sexualidades,
apresento uma situação ocorrida durante o estágio que contribui para desencadear
a discussão sobre como as concepções de gênero e sexualidade estão condicionadas
pelo discurso biológico; na seção Representações de gênero e sexualidade, trago outra
situação desencadeadora de discussões e propícia para apresentar os resultados
dos textos-imagéticos produzidos pela turma; e, para fnalizar este artigo, concluo:
a escola de surdos, como qualquer outra instituição social, é um espaço em que as
identidades de gênero e as sexualidades são conduzidas a um padrão de normalidade.
19 Graduando em Ciências Biológicas – Licenciatura pela Universidade do Vale do Rio dos
Sinos (UNISINOS), bolsista de Iniciação Científca do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científca
(PIBIC/CNPq), integrante do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES/CNPq).
20 Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
especialista e graduada em Educação Especial pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), professora do
Programa de Pós-Graduação em Educação e do curso de Graduação em Pedagogia da Universidade do Vale do
Rio dos Sinos (UNISINOS).
Categoria Estudante de Graduação
118
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Os sujeitos surdos e suas múltiplas diferenças
Devido a minha integração ao Grupo Interinstitucional de Pesquisa em
Educação de Surdos (GIPES), optei por cumprir a atividade acadêmica da grade
curricular do meu curso de Graduação em Biologia, o Estágio Supervisionado no
Ensino Fundamental – Ciências, em uma escola de surdos. Desta forma, eu estaria
inserido no contexto da pesquisa realizada pelo GIPES
3
; adquirindo experiência e
aumentando meu vocabulário na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) ao conviver
com a comunidade surda escolar.
A instituição escolhida para a realização do estágio foi uma escola pública
estadual que conta com o trabalho de um corpo docente composto por dezessete
professoras e um professor
4
. Depois de feita a escolha da instituição, foi preciso
selecionar a série com a qual trabalharia; meu interesse pelos conteúdos abordados
no ensino de Ciências para a 7ª série guiou a minha decisão. Afnal de contas:
Por que incluímos a temática sexualidade em nossas aulas somente a
partir da 7ª série? Será por que é nessa idade que a voz encorpa, o corpo
muda, a menstruação chega, os hormônios estão em ebulição, enfm
os jovens estão “descobrindo” a sexualidade? (ALVARENGA; DAL’IGNA,
2004, p. 65)
No caso específco da turma de Ciências da 7ª série em que realizei o
estágio, não posso negar que muitos desses fatores citados acima já estavam
em desenvolvimento, pois a faixa etária da turma encontra-se entre 15 a 25 anos.
Composta por cinco alunos e uma única aluna, esta turma apresenta signifcativas
características para se discutir gênero e sexualidade. Esse número bastante reduzido
de alunos é explicado por se tratar de uma escola de surdos. Geralmente, o número
de dez alunos por turma não é ultrapassado, facilitando a comunicação em uma
língua de modalidade viso-gestual na sala de aula.
Penso ser necessário explicitar sobre qual referencial teórico fundamento
meus entendimentos sobre a surdez. Para tanto, posso dizer que compartilho com
os autores e as autoras dos Estudos Surdos
5
que, articulados ao campo teórico dos
Estudos Culturais, numa perspectiva pós-estruturalista, entendem a surdez como
uma diferença linguística e cultural. Ou seja, o fator defciência, nesse referencial, é
1 “A Educação dos Surdos no Rio Grande do Sul”, título da pesquisa desenvolvida pelo
GIPES e fnanciada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científco e Tecnológico (CNPq), permitiu
mapear a situação escolar e linguística dos surdos no Estado do Rio Grande do Sul.
2 Carvalho (2008, p. 90) constata “que a grande maioria dos professores na educação
básica no Brasil é de mulheres, numa proporção que aumenta conforme diminui a idade dos alunos atendidos,
a chamada “feminilização” do magistério”. No entanto, como a própria autora também menciona, não tenho a
intenção de focalizar a discussão sobre gênero na temática da profssão generalizada.
3 Estudos Surdos é o termo utilizado para nomear as pesquisas na área da surdez que
buscam ver os surdos como sujeitos políticos e culturais.
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
considerado oriundo de uma visão clínica, patológica e terapêutica. Ao não reduzir
a surdez a uma condição defcitária, tenho a oportunidade de entender que existem
inúmeras possibilidades de se constituir surdo. Fazendo uso de palavras que em
nenhum momento atribuem a ausência de um sentido em um corpo, comungo com
Quadros (2004, p. 10) na apresentação do sujeito surdo como alguém
[...] que apreende o mundo por meio de experiências visuais e tem
direito e possibilidade de apropriar-se da língua brasileira de sinais e
da língua portuguesa, de modo a propiciar seu pleno desenvolvimento
e garantir o trânsito em diferentes contextos sociais e culturais. [...]
As formas de organizar o pensamento e a linguagem transcendem as
formas ouvintes.
Nesse sentido, esclareço que não quero negar a defciência auditiva, mas
também não tenho intuito de torná-la o foco da discussão. Sendo assim, afasto-me
do conceito de corpo danifcado, que necessita ser tratado, reabilitado, normalizado,
e aproximo-me de um conceito sócio-cultural.
No entanto, é justo e necessário informar que também não tenho a intenção
de restringir os surdos a uma única identidade, construída de forma isolada, estável
e homogênea, pois acredito na construção multicultural de inúmeras identidades
surdas (Perlin, 2001) que podem ser expressas em diferentes instâncias. Lopes
(2001, p. 112) afrma que “jamais encontraremos sujeitos iguais por serem surdos.
Eles possuem história, meio familiar, sexo, raça, cor, religião, língua, situação
econômica, identidade, etc. diferentes”. Contudo, essas e outras diferenças tentam
ser amenizadas a partir de relações de poder exercidas em todas as instituições
sociais, dentre elas, a escola.
A escola, de surdos ou não, é um espaço onde o ensino se exerce de
forma intencional, a partir de um conjunto de princípios selecionados
que guiarão professores e alunos, bem como todos aqueles que, direta
ou indiretamente, se relacionam com ela. Toda e qualquer proposta
da escola de surdos, quando em operação, cria perfs aceitos para um
determinado grupo em um determinado tempo, considerando um
conjunto de exigências sociais, políticas e econômicas de diferentes
grupos culturais. (LOPES, 2007, p. 85)
Baseado nisso, afrmo que não encontrei questões de gênero e sexualidade
diferentes das questões de gênero e sexualidade que se constituem dentro de uma
escola regular. A escola de surdos, neste artigo, compõe a especifcidade do contexto
no qual estou inserido como professor. Sendo assim, posso dizer que a escola
(regular ou especial), ao tentar amenizar as diferenças, trabalhando em prol de
uma normalização dos sujeitos, acaba traçando divisões na sociedade. Tais divisões
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120
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
proporcionam uma série de condições de desigualdade àqueles que são constituídos
por uma identidade de status comprometido no grupo e no tempo em que se
estabelecem.
Sexos, gêneros e sexualidades
O aluno Vitor
6
(17 anos de idade) pergunta-me
7
- deixando bem claro
que sua questão refere-se a uma situação hipotética - se é possível que
dois homens, apaixonados um pelo outro, pratiquem sexo anal. O aluno
demonstra-se espantado e desgostoso com a resposta dada por mim,
“sim, é possível”, e rapidamente a relata ao colega Silvio (da mesma
idade) que reage incrédulo: “mentira”. Vitor se justifca, “é verdade, o
professor disse”, e ambos retornam para mim com a esperança de que
eu repita a minha resposta, “sim, é possível”.
A epígrafe desta seção trata-se de uma situação ocorrida no meu estágio
com a 7ª série durante uma atividade de reconhecimento dos órgãos que compõem
o sistema genital masculino. Como posso interpretar essa situação sem distanciar-
me das implicações pedagógicas que ela pode propiciar? Passo a tentar entendê-la,
nesta seção, trazendo à tona conceitos de gênero e sexualidade que possam suprir
a necessidade dos professores e das professoras em conhecê-los e compreendê-los.
Considerando as atividades que estávamos desenvolvendo naquele momento,
sou levado a pensar que Vitor e Silvio entenderam e sabiam da possibilidade do ato
sexual entre duas pessoas do sexo masculino. Contudo, não posso negar a força “das
tradicionais explicações dos chamados “fatos” da vida, que biologizam a sexualidade e
o desejo” (LOPES, 2008, p. 133). Essas explicações tradicionais defnem que o ato sexual
existe com a fnalidade de que os indivíduos se reproduzam. Duas pessoas do mesmo
sexo não podem se reproduzir – isso é um fundamento biológico. Seguindo o mesmo
raciocínio, duas pessoas do mesmo sexo, portanto, não desejariam praticar atos sexuais
entre si. Quero dar ênfase à necessidade de Vitor mencionar que as pessoas envolvidas
naquele relacionamento hipotético estavam apaixonadas, ou seja, desejavam-se.
Contrastando com os sexos, “uma palavra até então usada principalmente
para nomear as formas masculinas e femininas na linguagem” (CARVALHO, 2008,
p. 91) começa a ser utilizada por feministas no fnal dos anos 60 para combater as
implicações sociais advindas da biologia. O gênero, agora sendo um termo utilizado
“para referir-se a toda construção social relacionada à distinção e hierarquia
masculino/feminino, incluindo aquelas construções que separam os corpos em
machos e fêmeas” (CARVALHO, 2008, p. 91), emerge à situação e, junto a ele,
fnalizando a trinca biologizada: a sexualidade.
4 Por razões éticas, os nomes utilizados no decorrer deste artigo são fctícios.
5 Todos os diálogos descritos neste artigo ocorreram originalmente na LIBRAS e foram
livremente traduzidos por mim para a língua portuguesa.
Categoria Estudante de Graduação
121
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
A escola tece uma “complexa trama normativa que estabelece uma linha
de continuidade entre o sexo (macho e fêmea), o gênero (masculino e feminino) e a
orientação sexual que se direciona “naturalmente” para o sexo oposto” (DINIS, 2008,
p. 484). Em suas práticas curriculares, a escola norteia suas ações pelo padrão de
existência de “uma única forma sadia e normal de sexualidade, a heterossexualidade;
afastar-se desse padrão signifca buscar o desvio, sair do centro, tornar-se excêntrico”
(LOURO, 2003, p. 42).
Portanto, talvez, as reações de espanto expressadas pelos dois alunos
sejam representações da ideia de que o sexo, quando praticado em uma relação
homossexual, não possa estar atrelado ao desejo natural. A imagem do sujeito
homossexual fortalecida pelo discurso de que a homossexualidade seja um distúrbio,
uma patologia, uma perversão, futua por aquele momento. Então, novamente
pergunto: que implicações pedagógicas estão sendo propiciadas com essa situação?
Qual o papel do professor nesse contexto?
Não quero que a possibilidade de resposta a essas perguntas reduza as
refexões que quero proporcionar aos leitores e às leitoras do artigo. Entretanto, não
posso negar que a situação discutida acima possibilitou a presença do mito de que
“qualquer pessoa que ofereça representações gays e lésbicas em termos simpáticos
será provavelmente acusada de ser gay ou de promover uma sexualidade fora-da-
lei” (BRITZMAN, 1996, p. 79-80 apud DINIS, 2008, p. 483). Digo isso em função da
outra situação-chave – “situação-chave” no sentido de que também desencadeia
discussões propícias ao artigo – ocorrida durante o estágio e que passo a narrar na
seção a seguir.
Representações de gênero e sexualidade
Enquanto escrevia no quadro-negro, os alunos riam entre eles, mas
eu desconhecia o motivo, pois não estava enxergando sobre o que eles
conversavam. Alguns minutos depois, viro-me para informá-los de
que, por ouvir suas risadas, eu também sentia vontade de rir. A aluna
Nádia (15 anos, líder da turma) aproveitou o momento de contato
visual e comentou para mim: “sua letra é muito bonitinha, parece letra
de mulher”. Agradeci à Nádia por considerar minha letra bonita e, em
seguida, lhe informei que não acredito na existência de um tipo de letra
que possa ser associado exclusivamente às mulheres, nem um tipo
de letra que pode ser associado exclusivamente aos homens. A aluna,
percebendo que eu não havia demonstrado em nenhum momento
estar constrangido ou ofendido com seu comentário, perguntou-
me: “professor, você é bi?”. Devolvo a pergunta questionando-a o que
signifca bi, e ela responde perguntando-me novamente: “namora
homens e mulheres?”.
Categoria Estudante de Graduação
122
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
A epígrafe desta seção retrata o momento em que me pergunto o que teria
levado Nádia a ter o interesse sobre a minha sexualidade. Seria a lógica da sequência
sexo-gênero-sexualidade agindo de modo que Nádia tentasse encaixar-me em
alguma identidade sexual? Uma vez que eu seja homem e a minha letra represente
para Nádia o gênero feminino, em qual identidade sexual eu precisaria ser encaixado?
A bissexualidade seria o que Nádia melhor encontrou como alternativa de resposta?
Estaria eu livre para exercer o meu sexo (macho) – portanto, a minha biologia sendo
utilizada como referência para a constituição da minha sexualidade – e o meu
gênero – representado no imaginário de Nádia pela minha letra feminina manuscrita
no quadro-negro?
Desconfo que tal questionamento possa ter sido produzido no momento
em que considerei como possível, sem fazer uso de algum juízo de valor, o ato sexual
entre duas pessoas do mesmo sexo que estão apaixonadas uma pela outra. No
entanto, quando a minha sexualidade vem a ser questionada, passo a pensar ainda
mais nas situações em que eu e a turma nos encontramos, pois
[...] pensar a questão da homossexualidade, pode ser um convite para
que o/a educador/a possa olhar para sua própria sexualidade e pensar
a construção histórico-cultural de conceitos como heterossexualidade,
homossexualidade, questionando a heteronormatividade que toma
como norma universal a sexualidade branca, de classe média e
heterossexual. (DINIS, 2008, p. 484)
Portanto, é nesse momento que sinto-me instigado a refetir com a turma
sobre as concepções de gênero e sexualidade que circulam pela escola. Deste modo,
trago agora o meu olhar sobre quatro textos e quatro ilustrações produzidos pelos
alunos e pela aluna da turma de Ciências da 7ª série. A forma como o texto seria
produzido foi declarada como livre; levando em consideração a importância do canal
visual nas maneiras de se comunicar e se expressar dos surdos, também foi dada a
oportunidade de os alunos ilustrarem o texto, tornado-o, assim, como o chamarei de
agora em diante, um texto imagético.
É justo esclarecer que o olhar depositado nos textos imagéticos, para analisá-
los, é o olhar de professor buscando pensar sobre sua prática, articulando leituras
feitas em dois campos de saber – o dos Estudos Surdos em Educação e o dos Estudos
de Gênero e Sexualidade. Ou seja, olho para os textos imagéticos como artefatos
culturais, representações do que o currículo escolar ensina a ser reproduzido. Então,
para ter a chance de retratar aqui as representações de meus alunos e de minha aluna
sobre as identidades de gênero e sexualidade que se constituem pela e na escola, o
tema proposto para a elaboração do texto imagético foi “O que é ser homem? O que
é ser mulher?”.
Em um primeiro instante, com um olhar superfcial, é possível perceber
que todos os quatro textos imagéticos focam o relacionamento entre duas pessoas,
Categoria Estudante de Graduação
123
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
um relacionamento guiado pelos princípios da heteronormatividade. Logo, nessas
representações, ser homem e ser mulher implica relacionar-se com o sexo oposto.
Em um segundo instante, dividindo os quatro textos imagéticos em duas categorias:
relacionamento romântico e relacionamento sexual. Evidentemente, não quero negar
a possível presença do sexo no que chamo aqui de “relacionamento romântico”, mas
nomeio essas categorias de acordo com a intencionalidade focada em cada um dos
textos imagéticos. E essas duas categorias são facilmente identifcadas nas duas
ilustrações retiradas dos textos imagéticos que apresento abaixo:
Relacionamento romântico: ilustração do texto imagético da aluna Nádia.
Relacionamento sexual: ilustração do texto imagético do aluno Marcos.
Categoria Estudante de Graduação
124
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
O texto imagético de Nádia, bem como o do aluno André (18 anos de
idade), apresenta a expressão “relação de carinho”. Além disso, ambos os textos
foram representados por uma ilustração muito parecida: a imagem de um
casal heterossexual de mãos dadas em um ambiente ao ar livre, na presença de
árvores, fores e animais. Associo essa representação do ambiente ao que discuti
anteriormente sobre o desejo natural, como também à ideia da relação pura e
saudável. Outra característica interessante nos dois textos imagéticos é que eles
foram produzidos como se fossem um planejamento. Uma organização para o
“futuro”, palavra esta que está presente no corpo dos dois textos, como trago nos
fragmentos a seguir:
[...] eu sou feliz e esposa eu sou feliz familiar eu surdo amigo combinar
festa não agora só futuro.
Fragmento do texto imagético da aluna Nádia, grifo meu.
Eu como faz futuro que é ser homem, humano com é mulher mas dos
fazer organizo que eu.
Fragmento do texto imagético do aluno André, grifo meu.
Em seu texto imagético, Nádia estabelece uma série de etapas pelas quais
ela, mulher, ordenadamente expressa realizar. A primeira etapa, de acordo com o
texto imagético de Nádia, é a provação da família em relação ao seu novo namorado.
Dentre as qualidades que ela lista para esse novo namorado ser aprovado, estão as
palavras “homem”, “lindo”, “fel”, “educar” (que pode ser entendido como “educado”).
As etapas seguintes são expressas nesta sequência: dedicação aos estudos, obtenção
de um emprego, conclusão de um curso superior, aquisição da casa própria, casar-
se, aquisição do carro próprio e, por último, ter um(a) “flho(a)”. Destaco aqui a
importância que Nádia dá ao gênero do flho planejado quando adiciona em seu
texto a letra A, entre parênteses, após a palavra “flho”.
Tendo essas referências do texto imagético de Nádia e André, convoco os
leitores e as leitoras a pensar como as concepções de gênero e sexualidade se exercem
sob uma lógica de normalização. Essa lógica de normalização não enxerga, ou pelo
menos não quer enxergar – e talvez “expor” seria uma melhor forma de se dizer – a
diversidade sexual.
Quanto aos textos imagéticos que atribuo à categoria relacionamento
sexual, inicio expondo algumas situações do texto do aluno Elias (25 anos, casado
e pai). Nesse texto, as expressões “vontade”, “sorriso perfeito”, “corpo esbelto”,
“gostosa”, “muito bonita”, “bem mulher” e “atraente” descrevem a pessoa com quem
Categoria Estudante de Graduação
125
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
o relacionamento, seja ele sexual ou de afeto, seria o ideal. Essas características são
ilustradas na imagem do mesmo texto, onde há a presença de duas fguras: uma
feminina sorridente e de costas para a fgura masculina, que expõe a língua salivante,
expressando o desejo pela primeira fgura.
O outro texto imagético da mesma categoria é o do aluno Marcos (17 anos
de idade), que teve sua ilustração exposta anteriormente neste artigo. Ao contrário
dos textos imagéticos descritos até agora, o texto de Marcos aborda explicitamente
as questões que envolvem o ato sexual realizado entre um homem e uma mulher.
Como, por exemplo:
[...] com sexo corpo viver é o esta Homem pênis ejacular já mulher posso
faz só camisinha boa usa.
Fragmento do texto imagético do aluno Marcos.
Além disso, a ilustração produzida por Marcos refete como assuntos
polêmicos, tais como sexo, são silenciados no interior da escola. A imagem do quadro,
que indica a presença de mais pessoas – familiares, por exemplo – na situação que
representa, é complementada pela janela fechada, que reproduz o tratamento do
sexo como algo sigiloso.
Até onde vai o meu direito em fazer meus alunos pensarem sobre essas
questões? Até onde vai o direito dos meus alunos expressarem suas vontades de
discutir sobre essa temática em sala de aula? Acredito que compartilho estas e
outras dúvidas com todos os professores e professoras que já tenham se deparado
com situações-desencadeadoras como as que trago neste artigo.
Conclusões
Considerando as situações descritas neste artigo, suas representações nos
textos imagéticos produzidos pela turma de Ciências da 7ª série e a infnidade de
argumentos que surgem com os estudos nas temáticas focadas, penso que para se
abordar temas de interesse dos alunos jovens, como a sexualidade, sem fazer disso
uma polêmica, a necessidade de construção de espaços de formação pedagógica
dentro da escola é fundamental; considerando o contexto da educação de surdos
nessas mesmas temáticas, posso dizer que o pouco domínio na LIBRAS por parte
dos professores ouvintes pode vir a difcultar o desenvolvimento de assuntos que
ultrapassam os conteúdos formais da escola.
Sendo assim, concluo: a escola de surdos não difere de qualquer outra
instituição social na tentativa de normalizar as identidades de gênero e as sexualidades;
e, para fnalizar este artigo, expresso aqui a minha intenção de permanecer atento às
questões de gênero e sexualidade que circulam o espaço escolar de forma a permitir
Categoria Estudante de Graduação
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
que a diversidade de gênero e a diversidade sexual possam ser vistas e reconhecidas
com o direito às possibilidades de coexistência.
Referências
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as possibilidades estão esgotadas? In: MEYER, Dagmar E.; SOARES, Rosângela de F.
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DINIS, Nilson Fernandes. Educação, relações de gênero e diversidade sexual.In: Educ.
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LOPES, Luiz Paulo Moita. Sexualidades em sala de aula: discurso, desejo e teoria queer.
In: MOREIRA, Antonio Flávio; CANDAU, Vera Maria (Orgs.). Multiculturalismo:
diferenças culturais e práticas pedagógicas. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 125-148.
LOPES, Maura Corcini. Relações de poderes no espaço multicultural da escola para
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LOURO, Guacira Lopes. Currículo, gênero e sexualidade – o “normal”, “o diferente” e
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In: SKLIAR, Carlos (Org.). A Surdez: um olhar sobre as diferenças. 2ª. ed. Porto Alegre:
Mediação, 2001, p. 7-32.
Categoria Estudante de Graduação
127
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Relação dos artigos científicos que receberam Menção Honrosa
A íntegra do artigo pode ser acessada em www.igualdadedegenero.cnpq.br
Ser mulher nas revistas: um estudo sobre cultura jovem, gênero, mídia e
educação
Pâmela Caroline Stocker
Centro Universitário Feevale (FEEVALE)
Orientadora: Profa. Dra. Sarai Patrícia Schmidt
Categoria Estudante de Graduação
Categoria
Estudante de
Ensino Médio
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Categoria Estudante de Ensino Médio
Introdução
A categoria Estudante de Ensino Médio recebeu a inscrição de 2.976 redações
vindas de todas as unidades da federação brasileira. Deste total, 65% foram inscritas
por pessoas do sexo feminino e 35% do sexo masculino.
5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
Categoria Estudante de Ensino Médio
Inscrições por sexo
Sexo Quantidade %
Masculino 1036 35%
Feminino 1940 65%
Total 2976 100%
Fonte: CNPq/SPM, 2009.
Fonte: CNPq/SPM, 2009.
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
130
A distribuição das inscrições por Unidade da Federação mostra uma grande
concentração nos estados de Minas Gerais e São Paulo. Estes tiveram uma participação
de 48% do total. O grande campeão das inscrições foi o estado mineiro com 27,7%, seguido
do paulista com 20,3%, em terceiro lugar está o Rio Grande do Sul (9,1%) e em quarto a
Bahia (7,3%). Estes estados agregados respondem por 64,4% das inscrições totais.
A pré-seleção das redações foi feita por um Comitê composto pelas
instituições parceiras: SPM/PR, MEC, CNPq e Unifem. Durante três dias, cerca
de vinte pessoas fzeram uma leitura das redações inscritas e selecionaram 290
redações que foram encaminhadas para a Comissão Julgadora. Assim, a pré-seleção
resultou em que 11% do total de redações inscritas passassem para etapa fnal. O
Estado de São Paulo teve 20,3% das redações selecionadas para a etapa fnal, seguido
da Bahia com 11,4% e de Minas Gerais com 11%; estes estados respondem por 42,7%
das redações pré-selecionadas.
A Comissão Julgadora das categorias Estudante do Ensino Médio e Escola
Promotora da Igualdade de Gênero foi composta pelos seguintes membros: Ângela
Maria de Lima Nascimento (Conselho Nacional dos Direitos da Mulher); Denise
Maria Botelho (Universidade de Brasília); Keila Deslandes (Universidade Federal de
Ouro Preto); Marcos Elias Moreira (Superintendente do Ensino Médio do Estado de
Goiás); Marcos Nascimento (Instituto Promundo); Nilce Rosa da Costa (Conselho
Nacional de Secretários da Educação); e Maria Lúcia de Santana Braga (Secretaria de
Políticas para as Mulheres), que presidiu a comissão.
A Comissão Julgadora reuniu-se no dia 17 de março de 2010, na sede do
CNPq.
Os vencedores da categoria Estudante de Ensino Médio (Etapa Nacional e
Etapa Unidade da Federação) foram premiados com computadores.
Categoria Estudante de Ensino Médio
Categoria
Estudante de Ensino Médio
Redações Premiadas
na Etapa Nacional
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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Goias – Goiânia
O diário de um transexual
Nathalia Gomes Mialichi
Colégio Dinâmico
Dia 11 de outubro de 2009
Bom dia diário,
Finalmente este dia chegou, depois de tantos rabiscos no meu calendário,
depois de tantas consultas médicas e psiquiátricas, depois de vinte e um anos de um
transtorno biológico e de um desencaixe social, hoje eu irei fazer a minha cirurgia
de mudança de sexo e, tornar o meu corpo um verdadeiro refexo do meu estado de
espírito, do meu real eu.
Estou escrevendo de um quarto de hospital, onde acabo de fazer os últimos
exames para que seja possível a realização da cirurgia daqui a algumas horas. Minha
mãe saiu a pouco, ela veio sem o acompanhamento de meu pai, o que eu já esperava,
já que faz alguns anos que ele me rejeita como flha, a minha mãe me entende,
pelo menos ela tenta me entender, eu sei que não é fácil, talvez se não acontecesse
comigo, eu também não entenderia. Enfm, minha mãe me trouxe um buquê de rosas
brancas, para me dar boa sorte, e um álbum de fotografas que ela estava montando
para esse momento.
Eu não sabia o que esperar deste presente, não tive muitas boas lembranças
a fotografar quando eu era criança, muito menos quando eu era adolescente.
Sempre fui alvo de chacotas e humilhação, sempre estive presa nessa realidade, e
fquei receosa de folhear aquelas páginas decoradas e me deparar com o meu triste
sofrimento, sofrimento este que eu sei que não é apenas meu. Mas resolvi adentrar
em minhas lembranças para quem sabe, encontrar momentos felizes e até aprender
com o que eu sofri.
As primeiras páginas cor-de-rosa mostram um bebê que contrasta em um
quarto azul ao lado de seu pai machista e sorridente, ao menos posso dizer que alguma
vez ele se sentiu feliz com a minha presença. Passei adiante e não consegui evitar
derramar umas gotículas de água de meus olhos, estou na escada da vizinhança,
com todas as crianças da rua para tirarmos fotos para o Natal, meninos apontavam
o dedo para mim e riam e eu, acuada em meu canto, desejava fugir para um lugar em
que meus sonhos pudessem se tornar realidade, e por incrível que pareça diário, esse
lugar não estava presente na encantadora infância, e sim numa cama de hospital.
Agora me lembro dessa época, que não era de todo infeliz, me apeguei não
mais à realidade e sim aos meus doces sonhos de princesa. Quando pequena, eu
não achava graça em brincar com os meninos da minha rua e muito menos em me
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
133
juntar aos clubes do Bolinha, eu não queria me machucar jogando futebol e nem
passar a tarde toda jogando bolinha de gude. Então, ao entardecer, a hora em que o
clube da Luluzinha se reunia na casa de minha vizinha, eu subia para o meu quarto
e observava as meninas em seu quarto rosa e todo forido, com seus longos cabelos
trançados, brincando de salão de beleza, de desfles e de bonecas, com as mais
variadas possíveis, e assim eu fcava, sabe. Às vezes, eu adormecia observando-as e
muitas vezes invejando-as, e me afundava nos meus sonhos. Meus únicos pesadelos
eram constantes e ocorriam ao acordar-me: deparar-me com meu quarto azul,
decorado com carrinhos e soldadinhos de chumbo e tropeçar na imensa quantidade
de bolas velhas e nunca usadas que eu ganhara de meu pai insistente. Esse passado
triste foi acentuado pela não-aceitação dos vizinhos e das crianças, principalmente
as quais eu me identifcava.
O tempo foi passando ao decorrer das páginas, já estava adolescente e me via
isolado na escola e tentando inventar um sorriso para que a minha mãe acreditasse
que nessa escola tudo ia ser diferente. Fotos sucessivas com o mesmo sorriso, mas
com fachadas de escolas diferentes e com pessoas com o mesmo olhar de preconceito.
Percebo que a adolescência foi a fase mais difícil para mim, foi quando começaram os
apelidos e eu comecei a considerar que eu realmente não deveria existir, que eu era uma
aberração e que, como eu não me encaixava, eu deveria ser descartada dessa sociedade.
Muitas dessas lembranças eu já te relatei diário, mas agora eu não tenho mais medo de
meu pai te achar, de mais alguém me rotular, é por isso que agora escrevo com mais
sinceridade sobre momentos que eu mesma tentei tirar de minha memória, só que são
essenciais para que eu mude e refita sobre a raiva que senti durante tantos anos.
Tem uma foto aqui que apareço em um almoço familiar de meu aniversário,
toda cheia de tomate e ovos, eu tinha dito no episódio à minha mãe que foi
comemoração de meus amigos e que graça que eles fzeram para me sacanearem
em meu dia especial. Realmente foi uma sacanagem, mas não porque era o dia de
meu aniversário, eu não tinha amigos e meus colegas de escola não se importavam
realmente com isso, levei ovadas porque confessei à única pessoa que eu achava que
se importava comigo que eu era diferente, e o resto da história você já sabe. Esse
dia foi meio irônico, a escola havia dado uma palestra sobre igualdade, inclusive
de gênero, e fui erradamente chamada de gay, anormal, drag queen, fui ameaçada,
machucada e humilhada por ser diferente, essa situação desencadeou em uma outra
fotografa com uma fachada de escola diferente.
Até o momento, a única foto que vi e realmente me senti parte de algo é a que
estou abraçada com um monte de índios da tribo Yuman, cujo pajé me considerou
especial e me aceitou, pois lá, há o respeito em relação às diferenças e esses índios
encaravam a transexualidade não como o conceito que muitos veem hoje, os
transexuais não eram vistos como imorais e que colocam o seu prazer à frente, mas
sim como ela realmente é, em que uma alma está aprisionada em um corpo que não
lhe corresponde fsicamente e os outros indígenas ajudavam o que se encontrava
nessa situação, para que seu sofrimento se amenizasse, é nessa foto que seguro agora
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
134
e vejo que ainda há esperança, quem sabe se retrocedêssemos um pouco na evolução
as pessoas pudessem me entender, como os índios me entenderam.
As últimas fotos do álbum de minha vida são mais animadoras, estou
cercada de pessoas iguais a mim no centro de psiquiatria e na faculdade de direito
que eu estou frequentando, me vejo novamente com ovos na cabeça, mas dessa vez
meu novo grupo estava me parabenizando por ter passado na melhor universidade
de direito do país. Se eu voltasse em suas páginas, a 4 anos atrás, eu veria que o direito
era algo que se afastava completamente de minha perspectiva de futuro, mas nesse
ano eu vi que eu posso ser muito útil na legislação, ela, muitas vezes, me renega como
membro social, porém, há casos - como nos Estados Unidos - nos quais alguns países
nos recebem e nos protegem, ao passo que outros nos discriminam legalmente e
até nos perseguem. Eu posso ajudar aqui no Brasil, eu sei que posso e eu vou ajudar,
não só a mim, mas a todos a quem seu direitos de igualdade não são respeitados, só
que vamos deixar isso para quando eu me formar, né? Por enquanto eu continuo a
ver minhas lembranças que se passam como um flme em minha cabeça ao invés de
pequenas fotografas. A última foto do álbum foi tirada quando eu estava na passeata
de gays, lésbicas e simpatizantes nos Estados Unidos, não que eu seja gay, lógico,
muita gente confunde esses termos, mas pensa comigo, diário, eu me sinto como
mulher, certo? Então é normal que eu me interesse por homens, diferentemente
dos gays, que se atraem por pessoas do mesmo sexo, e das drag queen, que só se
vestem como o sexo oposto para obter prazer. Eu acho que é essa confusão que acaba
acentuando a discriminação, é a ignorância que gera o preconceito, infelizmente.
Engraçado, o álbum ainda possui uma imensa quantidade de folhas em
branco que agora folheio para que eu encontre alguma dica, e muitas folhas passam
até que percebo que minha mãe escreveu um bilhete na última folha, não consigo me
conter ao lê-lo, nele minha mãe me diz que as folhas brancas representam o que eu
ainda viverei pela frente e que eu mesma colocarei lembranças felizes nessas páginas,
lembranças de uma futura igualdade, de um futuro respeito, lembranças de que eu
fnalmente poderei ser eu mesma. Ela termina dizendo que estará comigo sempre
que eu precisar e, quem sabe, um dia, meu pai também poderá estar.
Fechei o álbum tendo a certeza de que o que farei daqui a algumas horas
será o certo para mim e que ainda há esperança das pessoas entenderem e me
respeitarem. Neste momento em que escrevo, olho através da janela e vejo que muito
ainda há por vir e refetida em seu vidro há o buquê de rosas brancas que ganhei,
não sei se é porque estou emocionada demais pela mudança em minha vida, mas
acredito que hoje tudo mudará, não digo que eu mudarei, só fsicamente, claro, mas
eu não mudarei, tenho esperança de que o que mudará a partir de hoje será a visão
das pessoas em relação a mim. Continuo não esperando muito da sociedade em
si, só o básico: respeito. Por enquanto o básico já tem sido demais para as pessoas
suportarem, mas amanhã pode ser diferente, eu sei que pode. E essa diferença vai ser
muito além da mudança de meu nome e sexo no registro civil, será uma mudança no
conceito de igualdade.
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
135
Eu tenho que me despedir de você, meu querido diário, a enfermeira está me
chamando para fazer mais alguns exames para que eu possa ser anestesiada. Dessa
vez, ao acordar, eu não terei pesadelos, só o meu grande sonho se tornará realidade. E
você vai me acompanhar nesse novo trajeto, não vai? Não será fácil, né? Mas vai valer
a pena, porque eu serei eu mesma, é assim que eu vou me encontrar, eu prometo que
valerá a pena.
Deseje-me sorte,
Pâmela
Categoria Estudante de Ensino Médio
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136
Rio Grande Do Sul – Novo Hamburgo
Seguindo a menina da manutenção
Felipe dos Santos Machado
Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha
Orientadora: Íris Vitória Pires Lisboa
Não foi uma nem duas vezes que eu, Monique, ouvi críticas, deboches,
piadinhas e até mesmo fui humilhada por correr atrás dos meus sonhos e fazer o que
realmente gosto. Preconceito é a palavra mais apropriada pra descrever o que sofri
por prestar uma prova de seleção e ser classifcada pra fazer um curso. Na verdade,
pra mim não era apenas um curso, e sim uma realização, uma conquista que foi
apedrejada e que desde o início não teve apoio das pessoas que me viram entrar
pelas portas da escola técnica e me matricular no curso técnico de Mecânica.
- O quê? Menina mexendo com máquinas, parafusos, porcas, ferramentas e
sujando a mão de graxa? Que nojo! E além de nojento é ridículo esse tipo de trabalho
pra uma mulher! Isso é serviço de homem!
Palavras cruéis como essas eram proferidas a meu respeito com frequência.
Eram como bofetadas em meu rosto. Feriam minha alma e meus sentimentos, porém
a vontade de vencer, de alcançar o alvo, de tornar real o meu sonho era muito maior
e, sem dúvida, a convicção que eu tinha de que estava no caminho certo era um
excelente motivo pra que eu tivesse forças sufcientes para prosseguir.
E esse problema não era único e exclusivamente meu. Todas as outras
meninas do curso eram descriminadas por fazerem parte de um curso classifcado
como “curso pra rapazes”. Como se as mulheres não tivessem capacidade de efetuar
um serviço de qualidade e apenas os homens o fzessem, o que em boa parte dos
casos acontece justamente o contrário, visto que as mulheres, geralmente, são
mais minuciosas do que os homens e conseguem dedicar maior atenção a uma
determinada atividade.
Mas o fato é: qual é o fundamento pra tal conceito (errôneo) de que mulheres
não podem trabalhar na área metal-mecânica e que somente homens teriam capacidade
para trabalhar? Está escrito no artigo 113, inciso 1, da Constituição Federal, que: “todos
são iguais perante a lei”. Na teoria a lei funciona, mas na prática a coisa não é bem assim.
Já vem de muito tempo o preconceito quanto à colocação da mulher no mercado
de trabalho. Por volta do século XVII, quem era responsável por prover o alimento e a
segurança da família eram os homens, enquanto as mulheres deviam cumprir suas
responsabilidades com os afazeres domésticos. Com o estouro das Grandes Guerras
Mundiais as mulheres tiveram que, entretanto, ser inseridas no mercado de trabalho,
assumindo o papel que, na época, cabia ao homem, de trazer o sustento aos flhos
enquanto os homens eram enviados aos campos de batalha para lutar por seus países.
Após o término da guerra terminavam-se também a vida de muitos
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
137
combatentes, o que impunha à mulher uma dupla jornada de trabalho dividida entre
cuidar da casa e dos flhos e trabalhar fora para obter o mantimento.
Mecânica é a minha vida! Qual é o problema em eu querer fazer o que gosto
e viver minha vida da maneira mais agradável possível? Mecânica é o movimento.
Está em toda parte! Por onde olho, vejo a Mecânica de forma explícita ou implícita.
No que diz respeito à receptividade do mercado de trabalho com relação
a nós, mulheres mecânicas, guerreiras e batalhadoras, que matamos um leão por
dia, podemos observar claramente um preconceito enorme. Estamos em um
“campeonato masculino”¹, onde disputamos uma vaga com vários homens, que na
maioria das vezes têm a preferência.
Na terça-feira passada minha turma teve prova da disciplina de Tecnologia
Mecânica dos materiais e ontem recebemos o resultado. Minha nota foi a segunda
maior nota da sala e meu desempenho nas aulas práticas foi superior ao da maioria
dos meninos da minha classe, visto que a turma possui 32 alunos, dentre os quais há
apenas duas meninas.
Sinceramente, sinto-me orgulhosa da escolha que fz e não me arrependo.
Não estou aqui reclamando da minha opção, estou sim reivindicando o direito à
igualdade de gênero, desrespeitada pela sociedade e que agora, no auge dos meus
17 anos, tem me atacado diretamente, fazendo-me refetir sobre o verdadeiro e
fundamental papel da mulher no meio em que vive.
Ah, antes que eu esqueça, a minha colega, a quem chamo carinhosamente
de Fabi, está comigo nessa peleja e também está revoltada com a opressão que a
mulher técnica em mecânica tem tolerado até agora. Está mais do que na hora de
dar um basta nisso.
É, acho que consegui falar tudo o que estava entalado em minha garganta
e que me angustiava já de longa data. Sinto como se milhares de quilos fossem
desprendidos das minhas costas, mas esse alívio pode se tornar ainda maior se
cada pessoa que tiver acesso a essa carta fzer a sua parte. E começar (ou continuar)
a respeitar as mulheres técnicas em mecânicas, bem como todas as mulheres
batalhadoras que dão seus rostos à tapa pra conseguir uma boa colocação no
mercado de trabalho, é o primeiro passo.
Pois é! Como ninguém é bobo de ninguém, vou aproveitar que essa carta
vai circular por todo o país, começando do Rio Grande do Sul e daí por diante, pra
vender meu peixe, né??!!
Faço qualquer serviço de torneamento, fresamento, acabamento de peças
metálicas, tratamentos térmicos pra melhorar propriedades das ligas Ferro-Carbono
e programação de CNC. Quanto mais engraxado for o serviço, melhor é pra mim. Sou
determinada, competente, perfeccionista e sem-frescura, pra você que é um consumidor
exigente e quer a melhor qualidade em suas máquinas, ferramentas e peças.
Meu numero é 555-55 55. Como sou uma mulher muito versátil e moderna,
você pode fazer contato comigo através do orkut, MSN, Gazzag, Facebook... É só
lançar no Google. E não esqueça de me seguir no Twitter: A mulher da manutenção.
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Santa Catarina – Canoinhas
Imortalidade desmedida
Tamiris Grossl Bade
Escola de Educação Básica Almirante Barroso
Sou Capitu. Aquela, dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Provavel-
mente, muitos estranharão este fato, já que morri na Suíça, lá pelo centésimo quin-
quagésimo capítulo. Realmente, Machado gostava de dividir suas obras em muitos
capítulos. Porém, os mais entendidos sabem que, personagem que sou, não hei de
morrer tão facilmente.
Personagens fcam imortalizadas, diria algum intelectual. O que digo é que
os leitores adoram fofocas e mal-dizeres, e este é o motivo pelo qual sou lembrada. E
é claro, também por causa de Machado, mas aí já estão incluídas as lembranças que
ele próprio deixou.
Todas nós, personagens, somos de algum modo lembradas, independente-
mente do fm que tomamos, seja por muitos, ou por apenas um (neste caso, o autor).
E em meio a tantas imortais, confesso que desconheço a origem e procedência
de maior parte delas. Mas conheço algumas, além dos que fazem parte da minha história.
Riobaldo continua divagando por entre as veredas do sertão, o Sr. Quaresma guarda até
hoje seu extremo nacionalismo, o cortiço ainda vive seus inúmeros escândalos e Iracema
continua sendo a virgem dos lábios de mel. Até mesmo o cego da beira da estrada, de
Moacyr Scliar, ainda não reconheceu corretamente um carro pelo som do motor.
É claro, estes são apenas alguns, dos muitos que foram imortalizados ao
redor do mundo. Mas aquelas em que estive realmente pensando, nesta minha
imortalidade desmedida, somos nós, as personagens femininas.
Carolina, que esperou a vida inteira pelo seu amor de infância, e quando
fnalmente o encontrou, eles não se reconheceram. Se não te lembras dela leitor, não
te preocupes: poucos se lembram de seu nome, já que fcou imortalizada como “a
moreninha.”
E Luisinha, que foi alvo dos amores de Leonardo que, malandro como era,
trocou-a logo pelos mistérios de Vidinha. À namorada esquecida restou o casamento
com o agregado de sua tia, uns bons anos mais velho do que ela. Sim, casaram-se
depois que Leonardo tornou-se sargento de Milícias e Luisinha viúva, e imagino que
esse tenha sido seu fnal feliz.
Mas a que mais me impressiona é Aurélia. Inteligente, sem deixar de ser bela,
conseguiu conquistar o que queria. Sei que o seu casamento não começou de uma
forma considerada apropriada, mas se não fosse assim, Seixas não teria percebido
o quanto a amava. Ouso dizer que, se esse casamento acontecesse normalmente,
estaria condenado à monotonia, como grande parte dos casamentos; ou a um fm
vergonhoso, como aconteceu com o meu.
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139
O leitor talvez pense que invejo Aurélia, eu não lho negarei. Não me entendam
mal, eu amava Bentinho. Desde os nossos tempos de criança, dos nomes abertos a
prego no muro, de ter os meus cabelos escovados por ele, e o primeiro beijo em frente
à penteadeira. Pela pureza da paixão nestes gestos, e por todos os meus esforços para
que ele não se tornasse padre, qualquer pessoa dotada de sentimentos e emoções
pode perceber o quanto eu o amava.
Mas então, nós nos casamos. Cuidei que este casamento fora a nossa vitória,
o nosso fnal feliz. Porém, tudo o que tive com ele foi um fm. Se te lembras bem, o
apelido de meu marido era “Dom Casmurro”, o que fazia jus à sua personalidade.
Acho podes imaginar como é conviver durante anos, dia após dia, com um homem
assim, ciumento e nostálgico. Ciumento, que chegou a desconfar de seu melhor
amigo, e nostálgico, visto que reconstruiu a casa que vivia quando criança.
Às vezes, me ponho a pensar: o que eu me tornaria, caso fosse uma
personagem do século XXI? Não se esqueça leitor, eu era uma menina esperta;
esperteza de mocidade que não me abandonou na fase adulta. O que eu faria se tivesse
um ofício, com o qual eu poderia me entreter e me dedicar? Talvez, até as atividades
corriqueiras e meu relacionamento com Bentinho seriam menos maçantes.
Mas não foi assim. Tudo o que tive foi um marido e um flho. Um marido que
por ciúmes me exilou na Suíça; e um flho, a pessoa mais importante de minha vida,
que estudava para torna-se doutor. Foi assim que acabei sozinha, e morri sem data
defnida, sem nenhum sofrimento descrito. Morta e enterrada na Suíça, apenas isto.
Apesar de disso, não tive descanso. Tão logo Machado pôs um ponto fnal
em seu manuscrito, Carolina corrigiu-o de cabo a rabo. E então, editores leram-no,
publicaram-no, e desde então milhares de leitores folhearam suas páginas. A cada
nova leitura das memórias de meu marido, eu revivo-as mais uma vez. E a cada novo
leitor, surge uma nova discussão sobre as evidências que o ciúme de Bentinho deixou
expostas, tentando concluir se Escobar era realmente meu amante.
A meu ver, só há uma paixão vergonhosa nesta história: a que os leitores
têm pela infâmia alheia. Sinceramente, não sei se traí meu marido. Machado não me
deixou pista alguma, assim como não deixou para mais ninguém. E é por isso que
possuo uma imortalidade bastante sólida, já que histórias como essa, envolvendo
paixões inféis em meio a um casamento sólido, não são esquecidas facilmente.
Se em algum momento, meu amigo leitor, chegaste a invejar a minha eterna
personalidade, espero que tenhas mudado de idéia a essa altura. Pessoas, as de verdade,
não sabem o poder que têm ao poder escolher seu caminho. Ah, o poder da escolha…
quem me dera tê-lo, e usá-lo nos tempos de hoje, onde cada mulher pode escolher que
vida levar, sem precisar ter homem ao seu lado durante todos os anos de sua vida. Sei que
o machismo ainda existe, mas isso pode acabar. Isto é, se as mulheres assim quiserem.
Sim, essa mudança depende das mulheres, e não da boa vontade dos homens.
Homens tornam-se machistas quando crianças, enquanto assistiam e aprendiam
com as atitudes de seus pais. E para que houvesse um pai machista, houve uma mãe
que se submeteu a ele.
Categoria Estudante de Ensino Médio
O que aconteceria se todas as mulheres, sem exceção, soubessem o valor
que têm? Se soubessem que merecem ter vez e voz, seja profssionalmente, ou na
intimidade de seus lares? Sim, elas não mais aceitariam o segundo plano, no qual
foram deixadas por tanto tempo ao longo da história.
O poder da escolha, o que pode ser melhor do que isso? Poder escolher que
vida levar, em que mundo viver, sem ter que obedecer a tudo o que o seu autor escreve.
É por isso que eu sempre me perguntei por que, com tanto poder, as mulheres de
“carne e osso” ainda se permitem ser subjugadas. Recentemente cheguei à conclusão
de que muitas delas ainda não sabem o que podem fazer com tamanha liberdade.
É por isso que resolvi escrever estas minhas conclusões: pedir que vocês,
detentores de uma vida não escrita, abram os olhos. É tempo de enterrar os preconceitos
e permitir que cada pessoa tenha o valor que merece, independentemente de ter
nascido homem ou mulher.
Baseado na obra de Machado de Assis: Dom Casmurro, citando as seguintes
obras da literatura brasileira:
O grande sertão: veredas, João Guimarães Rosa.
Triste fm de Policarpo Quaresma, Lima Barreto.
O cortiço, Aluísio Azevedo.
Iracema, José de Alencar.
Cego e amigo gedeão à beira da estrada, Moacyr Scliar (conto).
A moreninha, Joaquim Manoel de Macedo.
Memórias de um Sargento de Milícias, Manoel Antonio de Almeida.
Senhora, José de Alencar.
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Categoria
Estudante de Ensino Médio
Redações Premiadas
na Etapa por
Unidade da Federação
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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Bahia – Guanambi
Escrevendo um diário
Mauro Marcelo Queiroz de Arruda Sobrinho
Colégio Nóbrega
2 de março de 1857 – Meu diário, meu amigo, és o único que assim posso
chamar. Acordei cansada, pois ontem foi deveras um dia difícil. Um dia como todos
os outros dias. Porém, isso eu já registrei na página anterior, então vou falar de hoje.
Amamentei o meu caçula e percebi que minhas mamas falharam, como posso produzir
leite se nem tenho me alimentado? Deixei-os - os oito, o primogênito como responsável
- e fui ao trabalho. No fm do dia, ao retornar para casa, passei em alguns casarões para
pedir comida. Consegui uma xícara de café com água. Bebi depressa, e depois senti o
pesar de não tê-la guardado para meus meninos.
3 de março de 1857 – Acho bom ter aprendido a ler e escrever quando criança.
Assim, posso ter companhia mesmo quando não tenho ninguém com quem conversar.
Sinto falta do meu marido. Ainda me lembro do dia de sua morte: não respirava
mais, por causa de todo aquele carvão que ele respirou durante todos os anos em que
trabalhou naquela mina. Pelo menos, se ele estivesse vivo, poderíamos ter uma vida
um pouco melhor. O salário dele era o triplo do meu e a carga horária dele era menor,
ele até podia ter dois empregos. Poderíamos sair da miséria, poderíamos ser felizes,
mas agora tudo acabou.
4 de março de 1857 – Mais um dia e a vida continua a mesma. O medo de
voltar para casa à noite. Os homens que se esfregam nojentos no caminho de ida e
volta. Às vezes, tenho de ceder para ganhar alguns trocados. Outras vezes, me entrego,
e não ganho trocado nenhum. Não tenho como reclamar dos ratos e baratas dentro de
casa. Tenho é de agradecer, pois às vezes preciso comê-los. Ouvi dizer na fábrica hoje,
enquanto tecia, que o diretor havia largado sua esposa e se casado com uma menina de
dezenove anos. A esposa antiga se tornou operária da fábrica.
5 de março de 1857 – Querido diário, já nem lhe chamo mais assim, pois
considero-te tão próximo de modo a dispensar formalidades. E tendo eu já os meus
trinta e nove anos de idade... Não sei como tenho tempo e disposição para escrever. São
tantos os problemas. Acho que é porque, após os meus flhos, esse é o meu momento
de alegria. Não posso dizer que sou feliz, mas eu tento ser. E só para deixar registrado:
hoje uma menina perdeu uma de suas mãos, pois, de tão cansada que estava, dormiu
em cima da máquina de cortar tecidos. Ela só tem doze anos de idade.
6 de março de 1857 – O que mais se fala aqui em Nova York é de um tal
Destino Manifesto. Estão marchando rumo ao oeste, matando os índios, abusando
das índias e conquistando todas aquelas terras. Dizem que este nosso país é o “país
do futuro”. Falam da Revolução Francesa, que aconteceu no século passado. O lema
dessa revolução eu não me lembro. Só me lembro da seguinte palavra: igualdade.
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
143
Quando eu era criança, minha mãe havia me ensinado isso. Eu sabia de cor esse lema.
Agora só me lembro da “igualdade”. Igualdade... Mas e a violência e a injustiça que
existem contra todas as meninas e mulheres?
7 de março de 1857 – Hoje, trabalhamos muito mais que o costumeiro. As
encomendas aumentaram. Uma nova moda surgiu na alta sociedade, e nós é que temos
de trabalhar para vestir todos aqueles diplomatas. Mas hoje foi um dia bom, pois
as meninas estão planejando uma greve para amanhã. Vamos pedir um aumento de
salário, para que o nosso salário se equipare ao dos homens. Também vamos pedir
redução da jornada de trabalho, para que tenhamos a mesma carga horária dos homens.
Queremos ter direitos iguais aos dos homens.
8 de março de 1857 – Estou bastante otimista, e por isso estou escrevendo
agora de manhã, antes de ir para a fábrica. Tenho certeza de que tudo vai dar certo. Eu
vou conseguir consertar a minha vida e dar um futuro melhor para os meus flhos. Eu
só quero ser feliz.
Naquele mesmo dia, esta e mais cento e vinte e oito operárias entraram em
greve. A polícia foi chamada. Os policiais trancaram as operárias nas fábricas e
incendiaram o local. Cento e vinte e nove mulheres morreram queimadas.
8 de março de 2057 – Duzentos anos se passaram desde que morremos
queimadas. Houve uma comoção geral. As pessoas se impressionaram com o
acontecido. Foi preciso um ato de exacerbada barbárie para que as pessoas pudessem
notar a injustiça que existe. Fizeram um dia especial para nos homenagear. As mulheres
conquistaram vários direitos. Mas ainda há muita violência e muita injustiça contra as
mulheres. Falam de igualdade entre os sexos, mas ainda não sabem o que é, realmente,
essa igualdade. Igualdade de gêneros não signifca que ambos os sexos têm que exercer
as mesmas funções, ter hábitos iguais. Não signifca que homens e mulheres vão ser
idênticos em todos os aspectos. Igualdade de gêneros implica que ambos os sexos
devam ter oportunidades iguais e ser tratados igualmente. Isso signifca que não se
deve julgar uma mulher ou um homem usando como quesito o sexo da pessoa.
É impossível que eu esteja escrevendo esta página, pois estou morta há dois
séculos. Essa página ainda está em branco. E cabe às pessoas que ainda vivem escrevê-
la. O dia das mulheres não deve ser só mais uma data para preencher o calendário,
deve ser uma realidade. O objetivo de todo ser humano é ser feliz. Será que algum
dia todas as pessoas, homens e mulheres, poderão escrever em seus diários que são
felizes? Se a resposta a essa pergunta for sim, então teremos alcançado a igualdade.
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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Maranhão – Dom Pedro
Maria da Mulher
Rodrigo Humberto Otávio dos Santos
Associação Educacional Professora Noronha
Professor Orientador: David da Silva de Morais
Eu tinha muita raiva. Toda Maria que eu conhecia tinha um segundo nome.
Só eu que era simplesmente “Maria”...
Minha mãe, a dona Maria das Graças, tinha uma vida difícil: trabalhava
de lavadeira e tinha que sustentar a casa sozinha. Como eu era flha única, não
aumentava muito as despesas, mas ainda sim passávamos necessidades. O dinheiro
que meu pai - acho que nem deveria ser chamado de pai – ganhava fazendo bicos era
gasto em bares, aposta no bilhar e em tudo que não presta. Além disso, vivia batendo
em minha mãe.
Eu sempre saía de manhã cedo com minha mãe para a casa da mulher para
quem ela trabalhava como lavadeira. Minha mãe não confava em me deixar sozinha
em casa com meu pai... Depois eu viria saber o porquê.
As aulas estavam prestes a começar, e eu sabia que teríamos uma nova
professora. Com o pouco dinheiro que a mãe ganhava semanalmente, ela comprou
um caderninho e um lápis com borracha. Ai, eu achava um luxo aqueles cadernos
com capas da Amazônia!
Numa segunda-feira, minha mãe me acordou cedo, disse que teria que me
arrumar logo para ir à escola porque ela já iria para o serviço. Levantei, escovei os
dentes, arrumei-me, tomamos o café e saímos para a escola. Quando cheguei lá, vi
aquela professora alta, negra - a primeira professora negra que tinha visto - e com a
cara mais feliz do mundo, cara essa que poucas vezes vi em outras pessoas. Ela se
apresentou, dizendo que seu nome era Maria dos Anjos (Que inveja de “Maria” com
segundo nome!). A primeira aula foi muito legal, conheci meus novos colegas... A
partir das outras aulas, a professora levava livros de literatura para lermos... Os que
eu mais gostava eram os de histórias de princesa.
Passou o tempo, eu estava aprendendo a importância do estudo e da leitura;
estava aprendendo a ver o quão mágico é esse novo mundo da leitura; e, assim, estava
aprendendo a sonhar. Mas meu primeiro sonho era muito simples, comparado com
os sonhos de princesas dos livros que lia: arrumar um emprego digno pra minha
mãe. A professora nos mostrava que com a educação aquilo era possível.
Um dia, eu toda feliz, voltei da escola. Chegando em casa, abri a porta e vi
que minha mãe não havia chegado, havia com certeza se atrasado por algo. Sentei-
me numa cadeira para esperá-la, quando meu pai chegou. Estava muito bêbado,
como sempre, mas notei que estava estranho, olhava-me diferente. De repente, ele
me abraçou de forma desrespeitosa, estranhei, senti medo. Ele me derrubou no chão
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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e começou a me violentar. Fiquei desesperada... A única coisa que me lembro depois
disso é de minha mãe ter chegado e batido bem forte na cabeça do meu “pai”, ou
melhor, daquele monstro!
Fiquei tão traumatizada com aquilo, que não quis ir mais à escola, não quis
fazer mais nada, queria morrer... Isso, eu queria morrer!
Dias depois, minha professora apareceu em casa, preocupada comigo, pois
não estava mais frequentando a escola. “Nada, só não quero mais estudar...” – disse
eu. Mas ela parecia que já havia lidado muito com essas situações, e falou:
- Aconteceu algo com você que não queira falar? Que lhe motivou a se
ausentar da escola?
Eu respondi que não, que estava tudo certo, mas com a maior vontade de
dizer o que sentia...
Minha mãe notou tudo isso, e para não me prejudicar, decidiu que eu iria
para a capital morar com minha tia, a tia Maria Jesus.
Cheguei lá e cumprimentei a todos. Era uma casinha muito simples, pequena,
mas minha tia disse que lá tinha espaço para todos. Lá, eu ajudava limpando a casa,
lavando as louças... Meu tio, entretanto, não era um homem nada bom, ajudava
pouco em casa, agredia a tia às vezes e vivia apostando, algo que me lembrava muito
a meu “ex-pai”, pois o único pai que eu tinha agora era o Pai do Céu.
Aí vi que se eu continuasse daquele jeito, sem fazer nada para mudar aquela
situação contra as mulheres, nada ia mudar, pois muitas delas não sabiam quem
poderiam defendê-las e nem poderiam defender a si próprias, já que não tinham
estudos e oportunidade de crescer. Então decidi ir estudar novamente e lutar pelos
os direitos das mulheres, aquela realidade teria de ser mudada.
Eu falei para minha tia que iria procurar um emprego, para ganhar algum
dinheiro para melhorar nossa vida e estudar. Então, ela me recomendou a uma dona
Maria Virgínia que esta precisava de uma ajudante em sua casa. E lá fui para aquela
casa, para ver se poderia fcar com o emprego, desde que trabalhasse pela manhã
e estudasse à noite. Ela concordou, comecei a trabalhar e a estudar. Sentia-me um
pouco feliz porque acreditava que meu sonho iria se concretizar.
Os anos se passaram, terminei o Ensino Fundamental e o Médio. Era hora
de prestar vestibular. Estudei com muito sacrifício, fz minha inscrição e fquei
aguardando ansiosa o grande dia.
Finalmente chegou o dia de fazer o vestibular. Por ser negra, quando estava
na fla, perguntaram-me, com um ar de preconceito, se eu faria pelo sistema de
cotas. Fiquei muito triste, pois dava pra ver que eles me tratavam como uma aluna
de segunda. Mas sabia que o que contaria era minha inteligência, não “privilégios”
concedidos. Passei no vestibular. Fiquei muito, mais muitíssimo feliz! Agora iria fazer
a faculdade de Direito.
Entretanto, ao longo do meu curso, sofri muitos preconceitos por ser negra.
Vivia rodeada de piadinhas sem graça e outras coisas do tipo. Dentro da faculdade
eu fz amigos, contei-lhes por que estava ali: porque eu queria lutar pelos direitos
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
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das mulheres.Uns me diziam: “Direitos de mulher? Que besteira!”. Enquanto outros
abraçaram a minha idéia e deram-me apoio.
Havia uma professora minha da faculdade que era também uma lutadora
dos direitos da mulher, ela emprestou-me vários materiais e livros sobre o assunto e
me ajudou muito a conhecer os problemas que as mulheres vivem atualmente.
O tempo foi passando, eu consegui me formar, e tinha agora um ideal a
seguir. Agradeci muito a minha patroa pelas chances que ela havia me dado. Agora
iria para minha terra natal. Agradeci também a minha tia Maria Jesus. A despedida
foi muito triste. “Que Deus abençoe essas duas Marias!” – era meu agradecimento.
Entrei no ônibus, quando vi de longe a entrada da minha pequena cidade,
como um fash, uma parte do meu passado assombroso passou por minha cabeça,
mas, agora, eu tinha armas para lutar contra aquilo e, se Deus quisesse, aquilo
nunca iria acontecer com mais ninguém. Saí do ônibus, e fui andando pelas ruas. As
pessoas me olhavam, como se eu fosse uma estranha. Poucas coisas tinham mudado
em relação à cidade, mas parecia que estava prestes a ter uma eleição, e pelo rápido
que vi, uma mulher estava se candidatando contra um homem. Não veio à tona
aprofundar-me nisso no momento, pois o que eu mais queria era ver minha velha
mãezinha.
Cheguei em casa, nada diferente, os velhos móveis no mesmo lugar, a
pintura a mesma, tudo o mesmo em relação à casa; minha mãe estava no quintal
quebrando coco babaçu. Pela idade, claro, não trabalhava mais como lavadeira.
Quando ela me viu, fcou espantada. Como uma criança, ela se levantou indo ao
meu encontro, gritando: “Maria, Maria, Maria!” Abraçou-me, beijou-me, e choramos
juntas. Perguntei a ela como estava se sustentando agora. Respondeu-me que estava
aposentada e que ganhava alguns trocados quebrando coco babaçu para fazer sabão
e azeite. Também perguntei sobre o traste do meu “ex-pai”, ela disse que ele havia
morrido devido a uma cirrose. Ficamos conversando um bom tempo para matar
a saudade e depois eu comecei a fazer o que realmente deveria fazer ali: ajudar as
mulheres.
Fui à capital novamente, dirigi-me à Secretaria de Estado de Apoio à Mulher.
Consegui que mandassem fazer uma delegacia da mulher na minha cidade natal.
Fiz o concurso e consegui o cargo de delegada nessa nova delegacia. Fui atrás das
minhas amigas que fz na faculdade, uma estava formada em Pedagogia e outra em
direito também, para lutarmos juntas como defensoras dos direitos das mulheres.
E com um trio desses, fomos para a minha cidade. O Estado agora estava
apoiando muito nosso ideal.
Assumi a delegacia. A candidata a prefeita havia ganhado, agora seria mais
um caminho dado aos direitos das mulheres. Com o apoio da Prefeita Maria das
Cruzes, com uma delegacia da mulher, com a ajuda das minhas amigas e com o apoio
do Estado, só restava trabalhar duro.
Depois de um ano de trabalho, eu vi que as coisas estavam dando certo
e que a situação da mulher estava mudando. A violência contra a mulher estava
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diminuindo, porém não só a vida das mulheres mudou, mas também a vida de todos,
inclusive homens e crianças.
Agora, a “só-Maria” tinha o orgulho de passar na rua e ver o povo dizendo:
“-Olha a Maria da Mulher!”. Finalmente consegui meu segundo nome, e vou fazer jus
a isso.
Com ajuda da prefeita, fundamos uma escola, minha amiga formada
em Pedagogia virou diretora dela, nós promovemos várias ações em incentivo à
educação, visto que ela é a porta de abertura para muitos caminhos em nossa vida:
só a educação pode transformar as pessoas.
Eu, você, todos nós devemos sonhar e sustentar esse sonho. Cada dia
devemos lutar contra a situação de violência não somente contra a mulher, mas
contra a todos. Violência gera violência. Lutar contra ela, contra todas as injustiças e
contra a falta de oportunidade é um dever de cada um de nós.
Categoria Estudante de Ensino Médio
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Minas Gerais – Viçosa
Memórias de uma mulher na condução da vida
Adnilson Brás da Silva Santana
Colégio de Aplicação – Universidade Federal de Viçosa
Orientadora: Renata Rena Rodrigues
Há muito tempo tenho esperado a ocasião de pensar sobre o que tenho
feito da vida. No corre-corre do cotidiano quase não sobra tempo para inspirar
profundamente e olhar para dentro de mim; é como se eu me alienasse de vez em
quando. É de tal modo particular o que pretendo dizer, mas não é isso o que se espera
de uma mulher afoita, que não teme dar a face ao vento?
Tendo trabalhado orgulhosamente como taxista por mais de uma década,
sinto que o ar da metrópole carioca já inundou com seu dinamismo minha atmosfera
interior. Os bulícios a cada manhã, as passadas sobre o concreto, o deslizar dos pneus
no asfalto, tudo isso passou a me integrar. Vejo nisso o prenúncio da hora de tornar-
me amazona e com o volante trilhar ao encontro dos horizontes que se descortinam.
Hei de ser poética e enfática, de modo a demarcar meu caráter de mulher explícita e
trovadora, que ousa falar daquilo que muitos parecem ignorar.
Ser taxista foi desafador. Precisava de dinheiro para pagar minha faculdade
de jornalismo, que eu fazia à noite. A profssão de taxista e o jornalismo seriam duas
atividades que me fariam entrar em dissonância com minha família. Tipicamente
tradicionais, meus pais ambicionavam que eu obtivesse um bom casamento, no
qual eu pudesse me realizar enquanto mulher (já repararam em como o homem
surge feito meio de aperfeiçoamento da mulher?), e para isso trabalhar como taxista
constituía um empecilho. Concomitantemente, fazer faculdade de jornalismo não
parecia digno a uma moça; isto me levaria a assumir uma vida pública que minha
família não via com bons olhos. Estudar à noite, então, era problemático: o que
se diria de uma mulher voltando para casa no momento em que as boas famílias
retiram-se aos lares?
Essas limitações acabaram fazendo com que eu buscasse meus anseios só
mais tarde, por volta dos trinta anos. Enquanto essa idade não vinha, permaneci
junto a meus pais, no interior do Rio, trabalhando numa escolinha. Completados
meus vinte e oito anos, minha família aventurou-se na capital, abrigando-se no
subúrbio. Na capital, ajudada por um amigo com quem eu aprendera a dirigir, tornei-
me taxista, o que só foi aceito por minha família quando ela acreditou em minha
maturidade. Ao mesmo tempo, vislumbrei a oportunidade de estudar jornalismo,
algo que correspondia à vontade pulsante em mim de abrir-me ao mundo, sorvê-lo,
marcá-lo.
Pensando no trabalho que abracei, orgulho-me de dizer que sou independente
e singular. Identifcar-me como motorista de táxi foi a razão para perseverar na
Categoria Estudante de Ensino Médio
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profssão. Através do táxi pude viajar por diversos lugares e apreender realidades
ímpares, dotando-me de imensa sensibilidade, que eu haveria de lapidar como
jornalista. Tendo nas mãos o volante, à frente as ruas, sinto meu olhar reconstruído a
cada dia, trabalhando intimamente os retratos e as vozes que capto.
Vivo na prática a resistência que as pessoas direcionam às motoristas.
Olhares silenciosos investem estrondosamente contra mim, proferindo palavras
inquietantes, ofensivas. Parecem chamar-me de alienígena, mulher-macho, dizer
que meu lugar é na cozinha, cuidando da minha vida, como se ao dirigir eu estivesse
me negando enquanto mulher. O que vejo nesse comportamento? É a idéia de que
um homem permanece no seu direito agindo como homem (como se houvesse o
agir feito homem); a mulher é que é a invasora, a estranha, que ousa fazer o que não
deveria. Talvez ignorem que faço aquilo por sinto prazer, por minha própria vontade,
e assim não estou agindo fora de mim. Ficar impassível diante de vozes tão ríspidas
é difícil, elas vêm contra mim para derrubar-me do volante, não só do que pertence
ao carro, mas do volante com que orienta minha vida.
Cabe dizer que fui casada, mas está enganado quem pensa que me casei
cedendo às pressões da família. Casei-me porque assim escolhi. O casamento foi
breve, durou quatro anos somente, pois meu marido faleceu num acidente de carro.
Conheci-o na capital, era também um taxista sonhador. Era um homem excepcional,
que me reconhecia independente e de cujos afetos fazia-me depender. Verifca-se
que muitos homens ignoram que viver em família é um ato de reciprocidade; muitos
veem na mulher um patrimônio. Meu esposo, felizmente, não tinha essa mentalidade.
Ele sempre me instigou a buscar por meus anseios. Sendo um homem com tais
qualidades, esperar-se-ia que eu me traumatizasse ao perdê-lo tão tragicamente e
não mais ousasse tocar num carro. Mas eu devia enfrentar meus pesadelos e torná-
los impulso para que se concretizassem os sonhos. Às vezes chego a especular sobre o
que seria de meu marido se ele tivesse me perdido. Teria ele já superado a perda? Pois
parece haver nas mulheres uma força descomunal a guiá-las contra o sofrimento,
por maior que este seja.
Acrescento a essa página da minha vida que eu e meu marido não tivéramos
flhos, dado que sou estéril, tendo descoberto isso somente após meus trinta anos,
já estando casada. Doeu-me muito saber disso; estava eu privada, pela natureza, do
direito à maternidade. Isso me tornaria menos mulher? Acontece que germinou em
mim um sentimento maternal a alastrar-se por todo o meu peito, de forma que meu
marido e eu, trocando confdências, resolvemos adotar uma criança. Pude reinventar
meu amor maternal no olhar daquela pequena criatura que me penetrava os olhos
com tamanha veneração. Mas o destino armava-me uma cilada; perdido meu marido,
teria eu de sozinha fazer da minha garotinha uma mulher. Redobraram-se as horas
em que eu dirigia pelas ruas com o taxímetro ligado, mas não desisti do sonho de
concluir o jornalismo. Era uma realidade que reclamava minha participação ativa e
que eu não haveria de negar.
Categoria Estudante de Ensino Médio
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Hoje, o sorriso de minha flha, então com doze anos, é meu troféu. Sei que
essa conquista, com a qual poucos contavam (afnal, o que seria de uma mulher
frágil abandonada ao tempo, sem ter um braço forte no qual se ancorar?), adveio do
meu esforço ao assumir uma postura que muitos diriam ser de um macho: a força, a
perseverança, o olhar frontal e audaz diante do futuro. Mas não sou um macho. Sou
uma mulher, isso choca as pessoas. E o que se nota no termo “macho”? Um homem
se exalta com tal título. É sinônimo de potência, de poder, nele o homem se enxerga
senhor, não só das “fêmeas”, como também, e principalmente, de seu destino e de si
mesmo. Já as fêmeas, o outro lado, constituem o sexo imperfeito, incompleto.
Lembro-me então, num devaneio, de uma mulher de meia-idade que certa
vez entrou em meu táxi pedindo-me que a levasse até onde ela daria uma palestra
sobre feminismo. Perguntou-me há quanto tempo eu trabalhava como taxista.
Dada a resposta, ela voltou-se a mim com um brilho no olhar. Transparecia naquele
gesto que a mulher se liberta daquilo que dela se espera, frmando-se como um ser
diferente num mundo que requer cada vez mais que homens e mulheres vejam-se
como seres sexuados, independentes e complementares. O problema é que muitas
vezes o diferente é visto como mal a ser eliminado.
Penso nisso todos os dias em que olho para minha flha e contemplo-a a
exprimir-se com seus olhos tão profundos e meigos. Hoje veio ela até mim; num salto
pulou no meu colo e falou-me docemente: “Mamãe, promete que vou sempre ter
você aqui?”. Que magia operava-se no meu interior! Quem era eu? Uma mulher com
sua flha adotiva... Uma mulher que lutara pelo que queria. Ser uma taxista aspirante
a repórter era o emblema de uma verdade maior, era apenas a parte visível de um
espírito dentro de mim que queria ocupar espaço e que, não cabendo mais na minha
cabeça, transbordou.
“Filha, você sempre me terá a seu lado...”, respondi à menina. Ela adormeceu,
então a levei até a cama. Voltei e olhei através da janela, vi por ela o mundo lá fora.
O carro dormia silenciosamente; o taxímetro se desligara enfm. Eu, pela manhã,
teria de ir para a redação do jornal editar as notícias. Olhei-me no espelho. Quem
era aquela que me olhava tão fxamente, perscrutando meu íntimo? Era eu, a mesma
mulher, vaidosa, sonhadora, festeira, risonha, que se sente bela e bem consigo
mesma, que não teme ser dona de si. Aguardava ali o nascer de mais um dia no qual
eu tivesse o orgulho de não ser só mais uma e sim uma entre milhões de mulheres,
num mundo plural, dispostas a escrever sua história.
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Paraíba – João Pessoa
Procura-se mulher! Favor retornar este aviso com urgência
Maria Tamara de Lacerda Souza
Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba
Professora Orientadora: Márcia Viana da Silva
Dia desses ia passando pela rua distraída com a música nos fones de ouvido,
imaginando a rotina diária que enfrentaria a partir dali. Se você está no centro da
cidade, distração signifca automaticamente levantar a mão para cada um dos cem
panfetos que parecem se materializar em sua direção a cada passo. Isso é meio
comum, sabe? Eu os recebo para que os entregadores não tenham de jogar fora o
dinheiro de quem mandou imprimi-los. O incomum mesmo é guardá-los, como
sempre faço, para jogar em uma lixeira mais tarde.
Eis que mais tarde voltei para casa e me preparei para o despejo. No meio
daquela coleção de formas e cores, palavras escritas em um papel alaranjado me
chamaram a atenção: “PROCURA-SE MULHER. URGENTE!”. Tirando-o do meio da
pilha, não pude deixar de rir da imagem ao fundo que supostamente representava
uma mulher. Aquilo me pareceu mais com uma cobra que acabou de comer um
animal grande e ainda o está digerindo lá pelo quadril, mas ainda assim resolvi
prosseguir.
“ESPECIFICAÇÕES: Bonita. Alta, mas não uma girafa. Baixinha só se for
‘gostosa’, mas prefro alta e ‘gostosa’ mesmo. Um e setenta fca bom pra mim, mas
o corpo tem de estar perfeito para a altura. Cabelo longo, liso ou ondulado. Cabelo
enrolado não tem vez, dá trabalho demais para arrumar e vai me atrasar para
o trabalho. Loira ou morena, que seja natural. Se for tingido, não venha me pedir
dinheiro para retocar a cor a cada semana. Tem que saber cozinhar de tudo, feijoada
no fm de semana é o básico, mas um bom jantar também serve. Precisa gostar de
futebol, de trazer cerveja para a turma lá no terraço e de limpar tudo depois, junto
com os banheiros. Já falei de trabalho? Bom, então, não quero mulher trabalhadora
que nunca está em casa para lavar as minhas cuecas. Vai ter que se tornar do lar e
gostar disso. Nada de flhos, isso é coisa de homem que não tem o que fazer e gosta
de limpar sujeira dos outros. Mas, no caso de haver algum flho, quem limpa a sujeira
é você. Cartão de crédito, anel de noivado e fores não estão no pacote, mas saiba que
ainda sou bonzinho por oferecer uma casa, coisa que nenhum homem anda fazendo
hoje em dia. Não gosto de grito, chilique, fofoca com as amigas na hora de fazer a
comida, assistir novela no intervalo do jogo ou sair para comprar roupa. Prefro que
fque em casa e nem socialize com o mundo externo para não ser infuenciada. Se
for loira, pior ainda, não quero mulher chorando porque sofreu preconceito na rua.”
Parei nessa parte, busquei um pouco de ar antes de ler o próximo parágrafo.
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“Se não estiver interessada, jogue o papel fora e nem tente me ligar para
defender as mulheres e dizer que elas são pobrezinhas. Minha mãe era uma mulher e
de pobre não tinha nada, apanhei dela até fugir de casa, porque ela dizia que eu estava
errado em beber. Descobri dessa forma que podia muito bem bater em qualquer uma
que aparecesse. Garanto que vou tentar não bater em você*.
*Exceto se o café não estiver na cama quando eu acordar, o almoço na mesa
quando chegar do trabalho e o controle remoto sobre o sofá durante o resto do dia.
E problema seu se é o último capítulo da novela, vá ler uma revista que é melhor**.
**Se for uma daquelas revistas que te ensinam a fcar ‘gostosa’, tudo bem.
Mas não venha gastando o meu dinheiro com aquelas que te ensinam a lutar contra
o marido no tribunal. Essas só vão te render alguns murros, principalmente se você
tentar me colocar na justiça.”
Certo, já tinha lido o sufciente e achei que devia tomar logo um banho e me
preparar para dormir. Mas a ponta de curiosidade que me bateu ganhou do chuveiro
e peguei novamente o papel...
“OBSERVAÇÕES: Mulher minha tem de ser esperta, falar três línguas e gostar
de História. Nada de me fazer passar vergonha na frente dos amigos ou de errar
português. Quero mesmo é que todo mundo morra de inveja. Precisa ser graduada
e pós-graduada, de preferência em uma faculdade boa. O currículo deve conter pelo
menos um emprego em uma grande empresa, só aceito se tiver muita experiência
profssional e não se preocupar em trabalhar dobrado para mim. Vale ressaltar que
nenhum pagamento é oferecido, só a comida que você mesma vai fazer.”
Tudo bem, já era o bastante. Resolvi carregar toda a pilha de papel comigo até
o banheiro e me livrar daquele pesadelo logo! Mas que maravilha, já não são escritos
anúncios como antigamente. Durante todo o banho, discuti em silêncio sobre cada
ponto de extremo mau gosto que havia lido e o quão estúpidas algumas pessoas
ainda são (e, veja bem, estamos no século vinte e um) sobre diferenças sexuais. Quer
dizer, ser homem te dá o direito de escrever uma coisa daquelas? Ou ser homem
é apenas a classifcação biológica de cada pessoa existente, independente de qual
cromossomo ela possua?
Terminado o banho, deitei-me e pensei um pouco sobre o dia seguinte:
Acordar e parecer bonita o sufciente para a sociedade (Certo!), aulas em uma
faculdade boa (Certo!), trabalho cansativo com um salário que defnitivamente não
compensa em uma empresa que poderia me pagar mais (Certo!), curso noturno do
meu terceiro idioma (Certo!). Mas que droga, descobri que preencho alguns dos
requisitos do maluco do panfeto. Descobri também que ele talvez não seja tão
maluco assim, afnal boa parte do que ele disse está sendo cobrada atualmente para
que as mulheres façam parte da sociedade de forma efetiva. Assim, pulei da cama e
escrevi o meu próprio panfeto, que poderá cair em suas mãos quando você estiver
distraidamente andando pela cidade com os seus fones de ouvido.
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“PROCURA-SE SOCIEDADE NOVA! URGENTE.
ESPECIFICAÇÕES: Não deve se importar em classifcar seres humanos pelo
sexo ou sexualidade e, se o fzer, deve nos poupar de tanto preconceito. Nada de
julgamentos pela cor do cabelo, forma do corpo, classe social, carro que dirige, local
onde estudou; somos pessoas, temos direitos, independente do tamanho do salto que
temos de usar ou da necessidade de uma gravata nova. Um mínimo de bom senso
é requerido, além de força de vontade para quebrar barreiras sem sentido há tantos
séculos impostas. Deve saber compreender e esquecer qualquer tipo de apelido
discriminatório que usou algum dia. Por ser um caso extremamente necessário,
sugiro que comece logo a se manifestar e a abandonar velhas crenças.
OBSERVAÇÕES: Mulher não tem dono, não usa coleira, não é amarrada ao
portão. Nem animal deve sofrer tal coisa, quanto mais alguém que vai colocar o flho de
outro alguém no mundo. Mulher bonita não precisa ser fruta, ter formato de cobra de
quadril cheio ou parecer com aquela que vai sair na revista semana que vem. Mulher
foi feita para completar, aplicar, melhorar e homem foi feito para respeitar antes de
exigir respeito. Ser humano é tudo um só: essa mistura confusa de desejo e razão,
uma bagunça gigante na cabeça e no coração, com uma necessidade permanente
de encontrar um alguém ou um local para se encaixar. Então, considerando que não
há encaixe sem esforço, sugiro que você, é, você mesmo que pegou este papel sem
querer, se levante agora e descubra o seu potencial para unir todas as peças soltas.
É essa sociedade de pessoas determinadas e livres de estereótipos que estou
tentando encontrar, se você esbarrar com ela por aí, por favor, me liga!”.

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Pernambuco – Carnaúba
Mulher, virtudes e preconceitos
José Anchieta de Siqueira
Escola de Referência Joaquim Mendes da Silva
Mulher, seiva de vida, jardim de fores, rosas e margaridas, que alegram nosso
espírito, fonte de graças divina, fé e esperança para humanidade. Deusa do amor e
da justiça, ser de luz, pois carrega a vida em seu ventre, garantindo a reprodução e
perpetuação da espécie durante milhões de anos. Sustentáculo de confança que a
natureza criou, esboçando do interior de sua alma a meiguice de um jasmim que
desabrocha para preencher a lacuna existente no mundo exterior. És primordial
abelha rainha que une teus descendentes, independente de cor, raça ou classe social,
fazendo da nossa gente um só povo: o brasileiro; e uma só raça: a humana. É essencial
lembrar que sem o perfume dessas fores, o doce do teu mel, as carícias e afagos que
nos oferece, seria impossível a concretização do amor e da união em meio a uma
sociedade tão complexa e desumana como a nossa.
Ao longo da nossa história, podemos testemunhar vários relatos onde a alma
feminina aparece protagonizando deferentes papéis, que nos ajudam a compreender
a sua importante participação e contribuição na formação de nossa sociedade até
os dias de hoje. Da colonização à atualidade uma grande luta pela igualdade dos
direitos humanos - entre homens, mulheres, raças, etnias e classes sociais - tem
sido travada, muito se evoluiu no campo do trabalho e da cultura, porém ainda há
conquistas a serem alcançadas. No relacionamento familiar também não é muito
diferente, pois muito abuso e violência ainda são praticados, desde agressões verbais
e exclusão social, até agressões físicas graves. O feminismo no meio popular, ainda
é uma problemática pouco discutida na sociedade brasileira, porém precisa ser
abordado de forma bastante cautelosa e crítica.
Para termos uma melhor visão dos problemas e conquistas alcançadas,
analisemos um pouco o contexto social cultural e histórico brasileiro. Durante a
fase colonial do nosso país, a mulher foi excluída da sociedade, fcando totalmente
submissa a seus maridos, sem poder de decisão nos negócios, no trabalho e no
seio familiar, era mais explorada como companheira doméstica. Com a invasão
portuguesa e a implantação do modelo agro extrativista exportador, até mesmo as
escravas eram mais importantes para gerar e criar novos fortes escravos, também
realizavam tarefas domésticas, apenas onde havia cultura de subsistência as
mulheres participavam ativamente da lida na roça. Com o fm da escravidão, a
força do trabalho feminino foi convocada para as lavouras em todo o país, visto que
recebiam remunerações menores - diferenciação de remuneração que permanece
até hoje, já que as mulheres chegam a ganhar em média 30% menos que os homens
para realizar os mesmos serviços.
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A participação das mulheres no folclore e na cultura popular está bastante
presente em nossa história, na fabricação de utensílios domésticos, artesanatos,
roupas, bordados, rendas e outros. São elas que com suas mãos habilidosas e singelas
transformam a rusticidade das matérias primas e da vida em artes, suprindo boa
parte das necessidades do nosso cotidiano, gerando fonte de renda para suas famílias
e movendo parte da economia. No entanto, não devem ser vistas apenas como
máquinas humanas de trabalho e sim como fonte inspiradora e criadora de arte
que nos aquece, envolve e engrandece. O reconhecimento e a valorização dos seus
esforços são fundamentais para o fortalecimento de seus egos para a continuidade
de suas manifestações e igualdade de valores na sociedade, neste ponto de vista
artístico cultural existe a certeza de que elas têm muito mais a oferecer, precisão
apenas de mais espaço e incentivo para crescerem.
No folclore nordestino, destaca-se a rendeira Maria Gomes de Oliveira
(MARIA BONITA), baiana que rompeu com o preconceito social da sua época para
tornar-se rainha do cangaço, ao lado do seu grande amor, Virgulino Ferreira da silva
(LAMPIÃO). Ao deixar sua casa e seu marido para viver ao lado do rei do cangaço,
serviu de inspiração para a poesia e a música que acompanharia o bando até o fnal
de sua existência. Mulher rendeira era a canção que ritmava a dança dos cangaceiros
para levantar o astral do bando.

Olê mulher rendeira
Olê mulher rendar
Tu me ensina a fazer renda
Que te ensino a namorar.

É esta a canção que conhecemos até hoje como hino de guerra dos
cangaceiros, eternizados na maior epopéia nordestina.
A sensualidade feminina brasileira e miscigenação das raças foram
valorizadas nas obras literárias do escritor José de Alencar (Iracema e A escrava
Isaura), que destaca a admiração e o encantamento de homens brancos para com
as indígenas e negras, na tentativa de quebrar preconceitos e tabus existentes na
sociedade da época, fazendo transparecer uma realidade de exclusão social que vivia
as etnias no país; pois índias e negras eram capturadas ou compradas para serem
violentadas sexualmente e depois serem descartadas como objetos. Atualmente no
Brasil, constantes lutas agrárias são travadas entre índios e fazendeiros latifundiários,
mesmo existindo leis de proteção aos povos indígenas e quilombolas e o governo
federal desenvolvendo uma política de agricultura familiar sustentável em todo o
território nacional. As mulheres continuam sendo exploradas e injustiçadas, além de
participarem ativamente da lida no campo para melhorar a renda familiar, têm que
dar conta de afazeres domésticos, prolongando suas jornadas de trabalhos.
Nos dias de hoje, mulheres de todas as raças são constantemente exploradas
por redes de prostituição nacionais e internacionais. A prostituição infantil é
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uma problemática de propulsão gigantesca em nosso país, em muitos casos a
violência inicia no seio da própria família, para depois estender-se ao restante da
sociedade. A exploração sexual feminina gera fonte de renda para muitos, porém, na
clandestinidade, submetendo as exploradas ao regime de semi-escravidão, muitas
são enganadas com vantajosas ofertas de emprego em outros países, ou em outros
estados da federação, quando acordam para realidade é tarde, são empurradas para
a prostituição pelas condições sociais e fnanceiras que se encontram, acostumam-
se a vida antes mesmo de terem oportunidade para denunciar os abusos para as
autoridades competentes, isto quando as autoridades também não são participantes
ou coniventes com os crimes - no Brasil é constante a participação de autoridades no
mundo do crime, o que difculta ainda mais a punição dos culpados.
É constante também a violência doméstica contra as mulheres, seja da
parte dos maridos, padrastos ou parentes próximos, que muitas vezes violentam
e espancam as que fazem parte do seu convívio. É engano pensar que este tipo de
violência só acontece nas camadas inferiores da sociedade, também existem casos
semelhantes na classe media e alta, vejamos um exemplo, a cearense Maria da penha
Maia, casada com o professor universitário, Marcos Antônio, durante anos ela sofreu
violência doméstica, inclusive duas tentativas de assassinato. Foram precisos vários
anos de luta para ver o seu agressor pagar pelos seus crimes, a partir daí ela tornou-
se símbolo da luta contra a violência doméstica no país, por isso a lei de proteção
às mulheres foi batizada de (MARIA DA PENHA). Mas não basta apenas existir uma
lei de repressão aos crimes, muitas mulheres têm seus direitos violentados e não
denunciam os agressores com medo de uma represália mais violenta. É preciso
investimentos na educação familiar para melhorar o quadro do país, pois até mesmo
entre os magistrados existe uma resistência contra os direitos femininos. Em outubro
de 2007, um juiz de Sete Lagoas, Minas Gerais, considerou a referida lei um absurdo,
chamando-a de monstrengo tinhoso, servindo de mau exemplo para a sociedade.
Famílias desestruturadas social e culturalmente, ou com desvio de conduta
educacional, geram flhos preconceituosos, dando continuidade à discriminação e
desvalorização da mulher. Recentemente no estado do Pará, uma jovem de apenas
14 anos foi presa na mesma sela com vários prisioneiros do sexo masculino, ela
foi estuprada, fcando bem claros a arbitrariedade, o descumprimento da lei, a
má conduta e o despreparo de parte das autoridades brasileiras para exercerem
seus cargos. Deve haver uma seleção mais rigorosa nos exames psicotécnicos
para detectar desvios de conduta em candidatos a altos cargos ou continuaremos
sofrendo agressões aos direitos das mulheres e da sociedade de uma forma geral.
Algumas mulheres reagem a esta sociedade machista desequilibrada com
atitudes feministas, fazendo transparecer uma sensação de revolta em seu meio,
desvalorizando inclusive, a fgura humana do homem, neste caso, o feminismo
torna-se um sentimento tão ignorante e abominável quanto o machismo. É essencial
o entendimento entre homens e mulheres para a evolução e continuidade da vida
humana na biosfera, é preciso que andemos juntos, amando-se e respeitando-se
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mutuamente, de forma que o homem complete a mulher e vice-versa, somente os
princípios e valores do amor e da igualdade vencerão as barreiras impostas por este
sistema injusto e preconceituoso implantado em nosso país.
No meio sócio econômico, as mulheres do semi-árido nordestino são
verdadeiras heroínas, em períodos de longas estiagens são elas que movem grande
parte da economia local, os homens, maridos e flhos mais velhos viajam para
as diversas regiões do país, principalmente sul e sudeste, em busca de trabalho
remunerado, durante este período são elas que sustentam quase toda mão de obra
braçal, seja na lida do campo, pecuária ou trabalhos domésticos, como carregar água
em latas na cabeça a longa distância, até que a chuva venha e seus maridos retornem
ao lar para migrarem novamente na próxima estiagem.
Existe a tentativa do governo para minimizar este sofrimento com programas
sociais, como Fome Zero, Bolsa Família e Salário Maternidade. É lamentável saber
que, muitas vezes, os recursos não chegam até as mãos necessitadas, indo para mãos
de outros. Políticas do governo federal lutam contra a falta de água no sertão, tentando
melhorar este quadro, vejamos: o projeto transposição de águas do são Francisco é
um exemplo, porém nada adianta transpor o São Francisco para favorecer a criação
de camarão e deixar o rio assoreado ao longo do seu leito ou manter os seus afuentes
poluídos, sendo totalmente inútil a pouca água que ainda corre em seus leitos, se ao
invés de desprezados, fossem revitalizados, suas águas seriam bastante úteis para as
populações ribeirinhas e diminuiria o sofrimento das mulheres que dependem de
suas águas para a limpeza doméstica.
As cisternas de placa ou calçadão, que são usadas para captar água da chuva
durante o inverno, são outra tentativa do governo e ONGs de minimizar o sofrimento
destas mulheres, porém, algumas vezes, os empreiteiros responsáveis pela construção
das obras realizam um trabalho de baixa qualidade, para sobrarem recursos ou
matérias que são desviados para outros fns, e estas obras mal construídas em pouco
tempo fcam incapazes de armazenar água, não solucionando esta problemática
histórica de sofrimento e desigualdade social que vivem as mulheres do sertão
nordestino.
Na luta pelos direitos humanos e igualdade social, algumas mulheres
merecem destaque. Quilombolas como Francisca Ferreira e Medecha Ferreira, irmãs
que formaram a comunidade quilombola Conceição das Crioulas em Salgueiro/ PE;
Azirene, índia que atualmente luta pela preservação da biodiversidade nas terras dos
povos indígenas; Margarida Alves, agricultora assassinada por defender os interesses
das famílias trabalhadoras e contra os latifúndios; Zeverina, escrava que participou
da revolta dos escravos em salvador/ BA, em 1826; Aqualtume, princesa negra do
congo, escrava que mesmo grávida foi vendida e trazida para o porto do Recife, onde
organizou a fuga de escravos do porto para o Quilombo dos Palmares/AL; Ana Maria
de Jesus Ribeiro (ANITA), catarinense que lutou ao lado de seu marido, Garibaldi, na
guerra dos farrapos; as parteiras e benzedeiras do sertão que, ainda hoje na ausência
da medicina especializada, realizam partos nos locais mais distantes da caatinga
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e usam as ervas curativas para tratar enfermidades, estas são apenas algumas de
um todo, que merecem ser exaltadas pela sua grandeza e sensibilidade para com as
causas humanas.
As mulheres modernas conquistam um grande espaço na mídia, ajudando
a quebrar preconceitos e divulgar valores, apesar de existir resistência no meio
popular, esta nova forma de vida valoriza a liberdade de expressão há muito tempo
buscada por elas. Já está mais do que na hora das rosas desabrocharem para o mundo,
expressando a beleza e exalando o perfume que a natureza lhes concebeu, o conceito
de ser submisso e frágil tem que acabar, o amor deve vencer o preconceito, que
viva a democracia, a igualdade e o respeito entre homens e mulheres nas gerações
vindouras.
Mesmo com todos os esforços, lutas e conquistas, as diferenças são enormes,
o preconceito e a descriminação contra a mulher são constantes. No campo político
brasileiro isto fca claro, pois sendo elas maioria na sociedade, ocupam um pequeno
número de cadeiras em cargos públicos, na assembléia legislativa de Pernambuco, por
exemplo, entre os 49 deputados no exercício do mandato, apenas cinco são mulheres,
uma média de 10% do total. Na assembléia legislativa federal a proporção em relação
ao número de cargos é quase a mesma. Dos 513 deputados no exercício do mandato
apenas 45 são do sexo feminino. Número esse correspondente a menos de 9% do
total. No senado não é diferente: há nove mulheres no universo de 81 senadores. É
preciso acreditar mais na sabedoria, sensibilidade e capacidade feminina; por serem
seres mais sensíveis, administrariam melhor os recursos da nação. É exatamente
esta sensibilidade que nos irmana no seio de nossa pátria, mãe gentil que nos acolhe
como flhos de suas raças etnias e religiões.
É preciso trilhar novos, longos e desafadores caminhos em busca da
igualdade de gêneros, ainda há uma distancia enorme para alcançarmos a meta
desejada, e somente com o reconhecimento das proezas e qualidades femininas que
iremos atingi-la.
Que a doçura, a meiguice e a beleza feminina nos sirvam de inspiração na
luta contra o preconceito e a discriminação de gêneros e classe social, o próprio
ecossistema depende da mulher para sua existência - a terra, a natureza e a própria
vida são femininas.
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
159
Rio De Janeiro – Magé
Choram Marias e Clarisses
Tamires Trianon Rodrigues dos Santos
Centro Educacional Renato Cozzolino
Professora Orientadora: Jaqueline de Andrade Coutinho
Outro dia eu estava mudando a estação de rádio quando parei em uma
emissora diferente da usual e dei atenção a uma música de tom forte em que Elis
Regina sentenciava, entre outras coisas, que “apesar de tudo que fzemos, ainda
somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como se essa canção fosse uma
novidade, gravei e ouvi mais quantas vezes eu pude até fnalmente poder tirar várias
conclusões sobre o que ela realmente queria dizer.
Notei que após vários anos depois da morte de Elis, talvez um dos maiores
ícones femininos da música brasileira, sua ousadia em termos de comportamento
e interpretação ainda está sobrevivendo de maneira bastante atual. O trecho
mencionado, de especial maneira, me remeteu à luta não só feminina como de
muitos outros movimentos de igualdade e liberdade que se fzeram mundo a fora
durante grande parte do século XX, tempo em que viveu a cantora.
De maneira sucinta, se observarmos os hábitos atuais da sociedade em
geral, podemos perceber com facilidade que as conquistas dos ditos “rebeldes” no
passado parecem ser desimportantes para nossa geração. Estamos deixando de lado
ou mesmo ignorando certas regalias como se elas nunca tivessem sido conquistadas.
Por exemplo, claramente eu vejo a grande ascensão da mulher brasileira no
mercado de trabalho. No entanto, uma contradição que persiste é a conformação
e abdicação de alguns direitos, como uma simples igualdade salarial entre um
funcionário e uma funcionária. Por que, depois de toda a luta pra chegar aonde
chegamos, permitimos que detalhes como esse ainda sejam comuns?
A resposta é porque mais uma vez nos resignamos. Continuamos aceitando
facilmente as condições impostas pela nossa sociedade mascarada de liberal, mas
ainda muito preconceituosa. O caminho para a igualdade necessita de mais alguns
calços para chegar a um nível considerável e aceitável de fato. Distinções por raça,
religião e gênero são ditos problemas quase inexistentes no Brasil. Errado é quem
acredita nisso. Nem tão frequentemente acontece conosco, contudo, existe sempre
alguém que era amigo de fulano que sofreu algum tipo de agressão ou preconceito.
Estamos presenciando um verdadeiro esquecimento das lutas do passado.
Pois ainda vemos mulheres sendo estereotipadas pela aparência física e não pela
competência, vemos as chefes de família que sofrem diversos tipos de violência,
mas que se permitem calar por amor e/ou medo, observamos jovens capacitadas
chorando por perder um emprego porque não aceitaram um salário menor, vemos
meninas desvalorizadas - e as que se desvalorizam também -, muitas vezes, se
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
160
esquecendo de usufruir dos seus próprios direitos ou mantendo o velho hábito de
submissão à masculinidade.
Voltando aos termos cantados por Elis Regina, “Choram Marias/ E Clarisses/
No solo do Brasil...”. Esse trecho faz parte da música “O Bêbado e A Equilibrista”
que esconde críticas à ditadura militar. Uma diferença sutil entre essa época e a atual é
que antes a repressão era explícita e muito mais violenta e hoje ela vem disfarçada de
muitas formas, podendo citar a moda, o culto ao corpo ou mesmo os velhos programas
televisivos femininos que ensinam a cozinhar, costurar, decorar e que falam de fofocas
dos artistas.
Foi-se o tempo que nós representávamos isso. Entretanto, poucas vezes vemos
um programa que situa a mulher numa posição inteligente, crítica, como dona de si
e chefe de família, entendida de negócios ou de economia. Sinceramente esse é um
exemplo clássico de como nós, mulheres, continuamos presas aos velhos rótulos.
Estamos aí, entrando em cena e tomando espaços onde era bastante incomum
vermos seres “delicados” como nós. Abrimos algumas trilhas, que apesar de pequenas
signifcam muito. O que não podemos deixar acontecer são a comodidade e a
conformação com a nossa posição.
Talvez apostar nas novas gerações, em que poderíamos criar nossos flhos
com a mentalidade adequada à igualdade. Sem mais aquela história que meninos não
choram e que só meninas podem brincar de boneca, sem mais o prevalecimento dos
garotos em relacionamentos e resignação das garotas pela dita “boa reputação”. O
sonho de igualdade é antigo e os argumentos para que ele se realize renovam-se cada
vez mais para alertar o mundo de que ainda não somos totalmente iguais perante a
sociedade.
Devemos de uma vez por todas abandonar os antigos conceitos e parar de
viver “como nossos pais”, esquecer as falsas aparências para dar atenção ao talento
e a força das mulheres que lutam por igualdade, liberdade, solidariedade, justiça e
paz em todo o planeta. Juntamente com essa idéia, seria necessária maior vontade,
mobilização e consciência de que para alcançarmos uma real igualdade é preciso
que haja uma aceitação e busca dos mesmos deveres que o sexo masculino e vice-
versa.
Denunciar a violência sexual e doméstica, respeitar as diferenças e os direitos
humanos, igualar salários de homens e mulheres em funções equivalentes são algumas
entre inúmeras ações, nas quais podemos concentrar nossos esforços para um mundo
mais justo. Desta forma, poderemos talvez viver de maneira menos confituosa e mais
favorável ao desenvolvimento mundial e até mesmo à cooperação internacional.
Então, para que deixar que as Marias e Clarisses chorem e sofram com a
repressão invisível ou com as falsas aparências do mundo contemporâneo? Podemos
investir em nossas próprias consciências e na mudança não mais revolucionária,
como as do século XX, mas sim educativa e familiar.
Experimentar ser mulher contém uma beleza apaixonante. Amamos,
desejamos, nos entregamos e sonhamos com tamanha intensidade que pouquíssimas
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
161
mentes entenderiam. E como pessoas dignas de respeito e direitos morais, vivemos
em busca de nos realizarmos como seres humanos. A verdade é esta: todos nós
somos seres humanos e esse é o clímax das nossas semelhanças. Homens e mulheres,
de todas as idades, credos, aparências, opções sexuais, com os mais diversos tipos de
caráter e objetivo compartilham a existência humana. E isso deveria nos fazer muito
mais iguais do que achamos que somos hoje.
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Rio Grande Do Norte – Natal
O dia M
Lucas Marcelino dos Santos
Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte
O dia amanheceu, o despertador cantou seu canto infnitamente chato
e Pedro não acordava, esperava que a mãe o fosse chamar, não foi e nem iria, por
sinal, nenhuma mãe acostumada a chamar os flhos às 06h30min iria fazê-lo naquela
manhã e quem sabe, nunca mais. Sumiram todas. De um fenômeno irreversível
- era como chamavam o determinado acontecimento -, de repente, de uma causa
misteriosa todas as mulheres sumiram do planeta terra.
Cabe-se explicar que não foi assim, todas de uma só vez, ou que não se notou
de imediato, imaginem em que circunstâncias fcaram aqueles que, abraçados às
esposas, amantes, namoradas e derivações, encontraram-se sozinhos no meio da
noite, ou da madrugada, ou na hora do amor. Foi como se uma nuvem de esquecimento
maldita roubasse-as, restando senão a incoerência, desordem e confusão de uma
tormenta que se iniciara bruscamente. Em virtude ao acontecimento declararam
que aquele seria o dia M em homenagem a todas as mulheres que haviam sumido;
juntos, os homens pensavam no que poderia ter ocorrido para explicar o fato.
Vale salientar que o número de enfermos mentais subiu assustadoramente
naquele dia, as lojas de artigos femininos declararam falência imediatamente, mais
tarde saberiam que deveriam ter feito exatamente o oposto, e outras tentaram
uma readaptação repentina, mas intimamente conservavam todas as coisas que
lembrassem as mulheres, de perfumes a roupas íntimas e todas aquelas bijuterias,
maquiagens que elas bem conheciam e, em outrora, eram ignorados por grande
parte dos homens, esses mesmos que apunhalados pelo longo punhal da saudade
choravam desesperados e vestiam-se como elas na esperança de reviver memórias
que tentavam não julgar verossímeis. As buscas iniciais não foram poucas, junto a
tais, estavam várias teorias sobre o que poderia ter ocorrido: abdução? Sim, porque
a ameaça ou a idéia de uma repopulação mundial de uma raça mais evoluída era até
aceita por alguns, que conformados deitavam-se nas calçadas ou nos tetos das casas
a esperarem os seres extraterrenos devolverem suas respectivas esposas e, assim,
cuidarem do novo bebê concebido misteriosamente.
Outra teoria era a da revolta das amazonas, cansadas e humilhadas por
muito tempo, as mulheres teriam planejado esse dia por séculos, com organizações
subterrâneas super secretas estavam todas se preparando para escravizarem os
homens e tornarem o mundo um lugar mais digno, limpo e organizado. Perdoe se
ofendem, mas era o que se passava na cabeça de homens desesperados em busca de
respostas. E em meio a esse caos de teorias conspiratórias e místicas, havia ainda
aqueles que se preocupavam em não parar, porque o progresso tem de continuar,
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163
mesmo sem as mulheres, algo que não durou muito. Não durou muito e não duraria
nunca, quando os homens perceberam que estavam estagnados, sem a chance de
uma geração futura para cuidar dos negócios ou que levasse à frente a destruição
que se empenharam desde o dia em que se formou o que se chama humanidade,
ou melhor, como costumam chamar, e agora, até por uma questão de estética: o
homem. Enfm, pararam de se importar com o trabalho e viviam como num cenário
de um flme apocalíptico. Filhos que se revoltavam contra os pais apontavam-lhes
as falhas e diziam as temidas frases: A mãe não era assim... Ela teria feito melhor...
Eu preferia a mamãe... Isso quando os flhos menores não faziam, com lágrimas nos
olhos, a inquietante pergunta: Quando a mãe vai voltar? Não sabiam. E, assim, os
avós, pais, tios, irmãos aprendiam a ser mãe e a buscar qualquer consolo que estavam
habituados a encontrar em pessoas que não existem mais. Dizem que a falta explicita
a importância da presença, outros já acrescentam que explica e tortura, fazendo-nos
perceber a importância que há o que se já não existe mais ou, por diferentes razões,
é ausente. Tudo sintetizado numa frase que dizia: nada melhor do que a ausência
para demonstrar o real valor do que se perde. E tal dito aplicou-se perfeitamente ao
contexto desses homens de um tempo não tão distante, bem atual por sinal.
A mãe de Pedro, por exemplo, acordava todos os dias bem cedo e preparava-
lhe tudo antes que percebesse. Casada duas vezes, essa mulher buscava o que
acreditara ser dela, não apenas por direito, mas também por uma questão de dívida.
Foi através dessa refexão que Pedro percebeu que as grandes mulheres não estão
apenas nos livros de história, seja em fguras com um dos seios de fora ou em
emblemas e páginas destinadas unicamente aos seus respectivos feitos. Foi então
que uma saudade imensa invadiu-lhe o peito e o paralisou lentamente e uma bola
imensa de arame farpado atravessava-lhe a garganta. É o enigma da simplicidade.
Pedro chorou, e outros Pedros choraram, a lembrança da ingratidão é
dolorosa, afnal, uma mãe é algo extremamente chato e inconveniente às vezes,
assim como são, costumavam ser, as mulheres em geral. O pai de Pedro, por exemplo,
vivia a ensinar-lhe que mulheres são fáceis de conseguir e que a idade estava para
arrumar-lhe algumas, aconselhava-o dizendo que nunca deixasse ser dominado
pelas fêmeas e que, como alfa, deveria mostrar quem manda no terreno: se um dia
precisar bater, bata! Mas não com muita força pra não ser processado... Fica fácil saber
o motivo da separação. Esse mesmo pai até fcou com medo ao saber da teoria das
amazonas, temeu que a secretária voltasse montada num cavalo com uma tocha e
lhe tocasse fogo inteirinho, porque achava que ela, já sendo sua quinta secretária
em apenas um ano, agüentara muitas mãos sobre suas partes, muitas insinuações
bobas e humilhações públicas, como aquela que descuidadamente esquecera-se de
colocar os papéis na pasta dele, acreditem que burra foi o menor insulto de uma lista
de exatamente trinta e três insultos. Nomes que ela guardou bem por aprofundarem
as feridas abertas pelas mãos dos chefes, afnal, ela tinha que trabalhar, mesmo que
a exploração e assédios substituíssem os bônus e benefícios que não tinha direito, os
olhos e risos maliciosos dos colegas diziam: Agüenta Elisa! Agüenta! É isso que tem
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
164
pra você! Os pais de Pedro nunca se perguntaram como era ser um objeto, porque se
supunham donos, os donos não precisam se sentir como os possuídos, mas apenas
usufruí-los como bem entendem, não faz sentido render-se às vontades do objeto,
ao contrário, deve-se fazer justamente o oposto, mesmo que não seja racional, tudo
na tentativa de mostrar que o possuidor é quem controla o objeto. Esse conselho
maquiavélico parecia embutido na mente dos pais de Pedro, de fato, não se analisava
o pensamento hereditário, não pensava, agia-se, que era o melhor jeito de mostrar
que se havia compreendido.
E agora? E agora não era a única pergunta que aparecia na cabeça dos
homens, havia também os complementos: E agora, com quem vamos transar?
Travestis não nos satisfazem... E agora, quem vai tomar conta das crianças?Já não
temos mais paciência. E agora, quem vai
nos servir de escrava? Não agüentamos mais... Os pais começavam a aprender
o quão difícil era ser o que nunca foram e arrependiam-se de ter dito com tanta
autoridade várias vezes: Sou
o único que trabalha enquanto você fca em casa! Ou ainda a máxima: Essa
mulher só me dá dor de cabeça... Ah! Quão bom é ter ainda a velha propaganda de
mulheres e cervejas, mulheres atraentes e carros bonitos, a felicidade trazida por um
simples objeto de desejo! Essa era a ilusão que ainda sustentavam alguns homens,
enquanto a vida parecia tão vazia e sem cores, sem alegria ou composição sequer, num
desequilíbrio, numa desarmonia total. Onde estariam? O que faziam? Retornariam?!
Esperavam que sim, os homens esperavam tanto que se uniam a admirar as coisas
que julgavam de mulherzinha, muitos se transformaram em feministas repentinos,
uma supervalorização instantânea da mulher e tão falsa quanto o desejo de uma
sociedade mais igualitária que hipocritamente acreditavam.
De repente, um ato institucional assegurou severas leis às empresas que não
respeitassem as necessidades femininas. Também nunca se viu tantos homens de
avental e vassouras a limpar, a passar, a cozinhar, a escrever poemas e leis sobre as
mulheres. Outros se reuniam em fóruns e debates sobre a importância da mulher
e colaboração na sociedade, cartas lançadas ao mar em garrafas feitas de vidro da
esperança, sondas espaciais investigando o paradeiro, ou esconderijo, mas no fundo
do freezer do cérebro, sempre a mesma idéia de que eu sou mais forte, era como
se dissessem: Veja! Estamos arrependidos! Voltem, por favor! Voltem! Um mundo mais
igual, prometemos, tem de ser assim! Nada mais de repressão ou violência, voltem! Por
favor, mas nos tragam uma cerveja! Faça o que eu mando e não questionem, assim é
melhor, mas voltem! E onde estariam? Talvez num mundo ou numa dimensão onde
as pessoas fossem consideradas pessoas e não objetos, onde não houvesse mais
violência ou explorações, mas em algum lugar, simplesmente, livre.
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São Paulo – São Paulo
Mulher: de Inspiração a Inspirada
Stephanie Gaspar
Colégio Cristóvão Colombo
- Voz, apenas um recurso sonoro? Então o que diferenciaria o canto do
Homem do canto de um pássaro, por exemplo? A beleza do canto melódico de um
sabiá nos oferece fruição, o desfrute de um elemento que encontramos tão livre na
natureza, e que nos transmite uma sensação de liberdade e nos inspira. O Homem
sempre procurou imitar o Belo, mas junto à estética ele usa o poder da voz para “dizer”.
Necessária para o alcance de objetivos, defesa de julgamentos e peça-chave
para a evolução da espécie, a voz sempre foi inata aos dois gêneros, mas o direito de
exercer “o dizer” seguiu caminhos diferentes em se tratando de homens e mulheres. Em
meados do ano 100 d.C. mulheres eram expressamente proibidas de cantar na frente
do público nas igrejas - estava escrito em lei - e os homens que estavam à frente da
Igreja alegavam que tal atitude não era bíblica. Se todas as mulheres que tiveram um
indício de cantoria, foram exceções assim consideradas por eles, então porque não
poderiam partir de algumas exceções e concretizarem esta idéia. A música sacra, nessa
época, era cantada por levitas, homens. Mulher não era autorizada a ensinar, cantar
ou ao menos falar em público, pois isso colocaria a reputação de seu homem em risco.
Como vassalos, as mulheres serviam discretamente aos suseranos, sem
fnalidade de reconhecimento por isso. Elas cantavam em casa, ensinavam crianças
na sinagoga e davam conselhos a seus maridos; tudo o que era julgado ser incapaz
para a mulher elas já faziam e eles não se davam conta isso.
Na era medieval, a mulher e a voz ainda eram consideradas opostas.
Mulheres não existiam para serem ouvidas, existiam apenas para completar o pano de
fundo da vida masculina e para saciar seus desejos e suprir suas necessidades.
Os sentimentos femininos fcavam por conta da imaginação de jograis,
trovadores e segréis – vozes masculinas que interpretavam pretensamente emoções
e anseios femininos com as comuns cantigas de amigo. Desse canto emergia um eu
lírico feminino saudoso e apaixonado por seu amado distante. A mulher era fgura.
Figura que bailava ao som de uma voz, que não era dela. E nesta condição as mulheres
foram vivendo, vontades em excesso, repressões também. As belas fguras não estavam
preparadas para “dizer” ou o mundo não estava preparado para um vendaval de vozes,
versos espalhados pelo ar constituindo a mais bela e extasiante canção?
Séculos mais tarde, a Voz feminina começara a delinear seu timbre e tal qual
mito do canto das sereias se tornaria irresistível. Homens, cientes dessa “fatalidade”,
chegaram à conclusão de que seria justo e inovador se eles expusessem o que de fato
já acontecia, “clandestinamente”. Não tinham a consciência ainda de que com essa
oportunidade só as tornariam mais insaciáveis, alimentariam o desejo de expressão,
de iluminar o que esteve por anos enclausurado na escuridão.
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5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
166
Desbravadoras, irreverentes, ousadas e mulheres, Carmen Miranda, a estrela
internacional, e Chiquinha Gonzaga, a primeira mulher a reger uma orquestra no
Brasil, romperam com esta regra convencional na história da música. Conseguiram o
reconhecimento, buscaram inspiração e força para continuar essa batalha tão árdua,
de suas antepassadas; procuraram colocar em prática e expor o que, tempos atrás, as
outras não tinham conseguido, ou não lhes fora permitido conseguir.
Mas, ainda assim, essas mulheres, mesmo tendo conquistado esse posto, só
passaram a ser aceitas como revolucionárias por um homem após anos de insistência,
pois antes eram classifcadas e reconhecidas apenas como destaques de um pequeno
setor feminino da arte, sem nenhuma espécie de comparação com a ala masculina.
Após esses nomes, muitos outros foram surgindo em diversos tipos de
gêneros musicais. Década de 60, tempo das famosas “músicas de fossa”, cantada
por diversas vozes femininas, procurando inspirações em suas vidas, difculdades
e, principalmente, amores. Chega então a aversão ao momento feudal, das cantigas
daquela época, mulheres agora começavam a dizer por si próprias, ainda com alguns
dogmas e restrições sociais.
Intensa e complexa, Maysa foi a tradução exata daquele momento da
música. Em um trecho de suas músicas, declarava convictamente “ninguém pode
calar dentro em mim, essa chama que não vai passar”, e absolutamente, ninguém
poderia retê-la ou reter essa necessidade de algo que lhe faltava e a possuía de modo
a transparecer em suas letras poéticas. A cantora infuenciou mais uma tendência
da época, a chamada Bossa Nova. Foi uma das precursoras, juntamente com Elis
Regina, a “Grande”. O Brasil e o mundo tiveram a honra de ter a presença ilustre de
uma das maiores intérpretes musicais de todos os tempos, Elis, essa mulher, essa
hélice cantante, nos encantou e enfeitiçou. O som que ecoava da música “O Bêbado
e a Equilibrista”, um verdadeiro hino da anistia, era a sua voz e seu apelo à ditadura.
Coragem era o que não lhe faltava para dizer o que dizia em meio à um governo
militarista e reservado.
Pouco tempo depois, homens trazem um novo estilo, o Rock n’ Roll,
completamente masculino aos olhares da época, a começar pelo nome, era forte,
diferente do som que se ouvia saindo de uma mulher com voz doce, serena e delicada
na maior parte delas.
Celly Campelo havia, há algum tempo atrás, tentado implantar este estilo,
e também Wanderléa, como mera coadjuvante em um grupo masculino, mas não
houve tamanha repercussão como aconteceu com Rita Lee, a Ovelha Negra. Mulher
inovadora e extremamente polêmica, uma certa carência brasileira desse tipo de
mulher pairava nesse tempo. Ela seguia dizendo em suas músicas, “Nós, os malucos,
vamos lutar para nesse estado continuar nunca sensatos e nem condizentes”,
revolucionando e protestando, sem sensatez ou coerência. Rita cria uma nova era de
mulheres propriamente ditas, as absolutas e completas, certas de si, donas de uma
segurança invejável. Fazendo releituras de “Beatles” e “Rolling Stones”, enfm o tal
estilo tão másculo adquiriu uma feminilidade única.
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167
Suas seguidoras, dando continuidade a esse “rock-girl”, Zélia Duncan,
de voz grave e músicas melódicas, gravou ao lado de Rita Lee “Pagu”, “a indignada
no palanque”, retratando a escritora musa do movimento modernista e que tanto
lutou para o avanço da mulher. Também fala de uma aversão à suposta perfeição
feminina e à fantasiosa mulher-modelo, idealizada e criada pela sociedade. A letra
retrata também transformação da mulher, deixa o superfcial de lado e mostra uma
mulher exatamente contrária à padronizada. Surgem, então, mulheres com essa
mesma característica de Zélia Duncan, as de voz vigorante, grave, comparadas até
ao tom masculino. Era uma maneira de imposição, de aproximação à tão esperada
igualdade dos gêneros.
Cássia Eller, marco dos anos 90, vem para reafrmar esse novo estilo
de mulher, de voz. Ela que é considerada a intérprete das emoções mais vastas e
aforadas, versos simples que, quando pronunciados por sua boca, faziam poesias,
romances. “Mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa
aconteceu, está tudo assim tão diferente.” E ela estava certa, as estações mudaram,
os tempos mudaram, mas o mundo, o cenário continua o mesmo, nada mudou
aparentemente, mas uma coisa tinha acontecido, isso sim era inegável: a mulher,
as suas delicadas palavras que oscilavam pelas tímidas, seguras, fortes, polêmicas,
estavam causando um intrigante questionamento na sociedade sobre o poder do
sexo frágil, agora não tão frágil assim. Pessoas de todo o Brasil se chocaram quando
foi anunciada a perda dessa nossa mulher, mas eis que chega nosso novo milênio,
século XXI, um maremoto de descobertas, de novos nomes da música, e, em meio
a tantas opções, algumas mulheres, inegavelmente, destacam-se e conseguem
prestígio como Ana Carolina, que ainda assim canta “Mas é que o meu desejo não
deseja se calar”. Esse desejo ainda permeia seus pensamentos mesmo em uma época
livre, em que as mulheres já conquistaram a maior parte dos seus direitos, há muito
tempo estão inseridas no mercado de trabalho, têm o direito de voto, libertaram-se
com a criação da pílula anticoncepcional, queimaram sutiãs em praça pública e na
música fzeram uma enorme mudança e revolução.
Mas o desejo de Ana Carolina ainda teme se calar, a sua voz anseia a
compreensão de todos e as suas palavras buscam atingir o ponto máximo de
concordância e clareza nas pessoas. Com sua voz grave, sua total presença de palco,
com suas canções críticas e questionadoras, ela é hoje não só uma simples cantora,
intérprete, compositora e instrumentista, mas, principalmente, uma formadora de
opiniões em uma sociedade atual perdida entre um leque de opções, de flosofas e
idéias soltas.
Igualdade de gêneros, praticamente total, em se tratando de poder
“Dizer”, mulheres e homens em busca de espaço e reconhecimento no mundo da
música. Mulher hoje é a inspirada, é criadora, faz parte de um mundo real, descrito
especialmente por ela, em formato de poesia, música e encanto para nossos ouvidos,
olhares e alma.
Categoria Estudante de Ensino Médio
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
168
Relação das redações que receberam Menção Honrosa
A íntegra das redações pode ser acessada em www.igualdadedegenero.cnpq.br
GOIÁS – Goiânia
Eu tenho um sonho
Luiza Tomaz Araújo – Colégio Dinâmico
SANTA CATARINA – Itajaí
Do martelo das feiticeiras aos corredores da UNIBAN: A hipocrisia
midiática
Pedro Guilherme Ramos – Escola de Ensino Médio Professor Henrique da
Silva Fontes
Categoria Estudante de Ensino Médio
Categoria
Escola Promotora da Igualdade de Gênero
Projetos Pedagógicos Premiados
24%
Sudeste
34%
Sul
18%
Centro–Oeste
12%
Nordeste
12%
Norte
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
170
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
Introdução
Uma das novidades desta edição do prêmio 2009 foi a introdução da
categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero. Nesta categoria, as escolas
de Ensino Médio inscreviam os projetos para a promoção da igualdade de
gênero que desenvolveram entre os anos 2008/2009 ou que estivessem em fase de
desenvolvimento. Houve a inscrição de 17 escolas. A região Sul foi a que mais enviou
projetos, seguida da região Sudeste.
As Escolas Promotoras da Igualdade de Gênero vencedoras receberam o
prêmio no valor de R$ 10.000,00 cada.
5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria
Escola Promotora da Igualdade de Gênero Inscrições por Região
Região Quantidade %
Norte 2 12%
Nordeste 2 12%
Sul 6 35%
Sudeste 4 24%
Centro-Oeste 3 18%
Total 17 100%

Fonte: CNPq/SPM, 2009.
Fonte: CNPq/SPM, 2009.
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
171
Região Centro-Oeste – Goiás – Aparecida De Goiânia
Colégio Estadual Dom Pedro I
Título do Projeto: Saúde e Prevenção: pensando
as relações de gênero e sexualidade
Coordenação
Vanilda Aparecida de Oliveira Martins
Histórico
O projeto apresentado tem como justifcativa a necessidade cotidiana
de formação crítica para os(as) estudantes. A ausência de discussões sobre temas
como gênero, sexualidade, orientação sexual e raça levou a coordenação da escola
a estruturar o projeto. O objetivo principal é, assim, discutir as temáticas relações
de gênero e sexualidade, com o fm de conscientizar os(as) alunos(as) sobre os
elementos histórico-culturais que estruturam as relações sociais. Pretendeu-se
ainda a refetir sobre a gravidez na adolescência, a educação corporal, os direitos
sexuais e reprodutivos.
Metodologia
O projeto levou em conta a participação de alunos e alunas na defnição
de suas atividades, em uma perspectiva do processo de aprendizagem dinâmico
e cumulativo, no qual conhecimentos e práticas cotidianas sobre sexualidade e
gênero são aproveitados. Assim, foram realizadas ofcinas participativas, palestras
orientadas, teatro e flmes-debates. Houve o apoio de várias entidades parceiras,
como grupos da sociedade civil que trabalham na área de gênero e sexualidade, a
Secretaria Estadual de Educação, a Universidade Federal de Goiás e a Universidade
Católica de Goiás.
Impacto e Resultados
O reconhecimento da diversidade sexual, das relações sociais baseadas no
sexismo e no machismo, com o predomínio de uma escola heteronormativa, foi um
dos principais resultados do projeto. Nas peças teatrais e ofcinas, os(as) estudantes
puderam explicitar o processo de estigmatização vivenciado pelos diferentes grupos
no espaço escolar e tiveram acesso aos instrumentos necessários para identifcar e
reconhecer os diferentes estereótipos construídos.
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
172
Região Nordeste – Pernambuco – São José Do Egito
Escola de Referência em Ensino Médio Oliveira Lima
Título do Projeto: Discutindo Gênero
na Escola: por uma abordagem científica e interdisciplinar
Coordenação do Projeto
João Renato Nunes
Karla Cibélia Lira Gomes
Histórico
A partir da constatação do grande número de casos de violência contra a
mulher no Estado de Pernambuco, dos preconceitos e discriminação relacionados
ao gênero presentes no sertão pernambucano e da falta de capacitação pedagógica
da escola para tratar dessas temáticas, o projeto foi constituído com o intuito de
abordar de forma científca e interdisciplinar o debate sobre o gênero. Desenvolvido
por grupo de alunos(as) do 1º ano do Ensino Médio, no ano letivo de 2009, o projeto
representou a escola em feiras de ciências.
Metodologia
O projeto tomou como referência o método didático da prática social de
Dermeval Saviani e a experiência pedagógica intitulada “A Violência Doméstica e
Sexista em jogo” de João Renato Nunes. O método didático pressupõe cinco passos:
a prática social como ponto de partida, a problematização, a instrumentalização, a
catarse e o retorno à prática social.
Impacto e Resultados
Houve a aproximação dos(as) alunos(as) com a discussão de gênero; a
mobilização de professores(as), gestores(as) e comunidade para o debate, formulação
e aplicação de ações para o combate à violência doméstica e sexista em suas raízes;
visibilidade na escola para a discussão crítica das desigualdades de gênero; e a
demonstração de que a partir de uma experiência é possível discutir a temática de
gênero e transversalizar em todas as disciplinas. Além disso, o projeto propiciou
aos(as) alunos(as) o domínio do conhecimento básico sobre instrumentos de coleta
e análise de dados; a organização de grupo de estudos sobre a temática de gênero
na escola; o reconhecimento da comunidade escolar e geral sobre a importância do
projeto desenvolvido na escola; o reconhecimento da necessidade de desenvolver
outras práticas pedagógicas de mobilização da comunidade para o enfrentamento
da violência de gênero; e o início de mobilização da comunidade escolar e geral para
a criação de uma coordenadoria especial de políticas de igualdade de gênero no
município de São José do Egito.
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
173
Região Sudeste – São Paulo – Osasco
Escola Estadual Professor Armando Gaban
Título do Projeto: Discutindo a Igualdade: “Mulher, Mãe e Cidadã”
Coordenação do Projeto
José Sebastião Rodrigues
Histórico
A unidade escolar era conhecida como sendo uma escola violenta, refexo
do contexto social, da falta de infra-estrutura e da ausência do Poder Público numa
região densamente povoada. Com fm de mudar essa situação, a Coordenação da
Escola passou a desenvolver vários projetos e ações pedagógicas e sociais, como
o Dia Nacional de Ação Solidária em parceria com a Fundação Bradesco, Natal
da Solidariedade, Banda Marcial, Grupo de Dança Italiana e participação nos
Parlamento Jovem Paulista e Brasileiro (cinco deputados mirins eleitos: dois alunos
e duas alunas). Pretendeu-se melhorar a qualidade de ensino, a auto-estima dos(as)
alunos(as), a imagem da escola e promover a inclusão.
Metodologia
No segundo semestre de 2008, a deputada mirim Tamara Leite Lopes
apresentou projeto de lei no Parlamento Jovem Paulista, no qual expressava
preocupação com as adolescentes e suas mães. Propôs a criação de um Programa
Estadual de Orientação Sexual, Planejamento e Orientação Familiar nas Escolas
Públicas do Estado de São Paulo. Procurando viabilizar sua proposta e levar efetiva
orientação para as mulheres da comunidade escolar, a Coordenação da Escola
organizou no mês de março o Dia Nacional de Ação Solidária, voltado para o
atendimento das mulheres, com serviços de apoio jurídico, orientação sobre doenças
e prevenção, violência doméstica, pátrio poder, sexualidade, crianças e adolescentes
em situação de risco. Houve também o segundo evento no fnal do ano, com ampliação
do atendimento às mulheres, com debate sobre o papel da mulher na comunidade.
Os(as) alunos(as) do Ensino Médio e do Ensino Fundamental realizaram amplo
trabalho de pesquisa sobre saúde, prevenção, legislação, necessidades educacionais
especiais, violência doméstica e intolerância, com a montagem de várias exposições,
fcando responsáveis pela transmissão das informações e orientação aos(às)
visitantes. O Centro de Referência das Mulheres Vítimas de Violência da Cidade
de Osasco, um dos parceiros que ajudou na organização desse evento, promoveu
palestra sobre a violência doméstica e as formas de combatê-la. Os(as) alunos(as)
organizaram ainda um kit com materiais informativos sobre doenças, prevenção,
além de um exemplar do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei Maria da
Penha.
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
174
Impacto e Resultados
O projeto abriu espaço para um maior aprendizado dos(as) alunos(as), pois
foram responsáveis pela realização do trabalho, dedicaram-se às pesquisas de campo
e entraram em contato com diferentes instituições. A deputada mirim Tamara Leite
Lopes apresentou Projeto de Lei no Parlamento Jovem Paulista 2009, propondo a
criação de Centro de Atendimento para Jovens Dependentes Químicos oriundos de
famílias de baixa renda. Essa proposta nasceu do consenso de vários participantes,
com o objetivo de atender mães da comunidade escolar que lutam para conseguir
um tratamento para os(as) seus(suas) flhos(as). Assim, esse trabalho revela que
os(as) alunos (as) estão adquirindo consciência do seu papel social, de que podem
colaborar na solução de problemas que afetam a comunidade, o Estado e o País. Esse
será, indiscutivelmente, o legado mais signifcativo do projeto, visto que somente
com uma escola participativa é possível melhorar os indicadores educacionais e
sociais.
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero
Região Sul – Paraná – Apucarana
Colégio Estadual Osmar Guaracy Freire
Título do Projeto: Raízes: diversidades
étnico-raciais e de gênero
Coordenação do Projeto
Milene Mayumi Makita
Nair Pagliari
Salete Zanlorenzi
Histórico
Criado há cinco anos, o Projeto Raízes esteve inicialmente centrado no
combate ao preconceito étnico-racial. A partir da constatação de uma série de
situações de preconceito, discriminação e desrespeito à diversidade presentes no
espaço escolar, o Colégio decidiu pela ampliação do Projeto Raízes, voltado para
a promoção da paz, da superação dos processos discriminatórios étnico-raciais
e de gênero. Considerando que os temas de gênero, raça e etnia estão imbricados
na defnição das relações sociais, os(as) professores da áreas de artes, história e
língua portuguesa entenderam que o debate sobre as práticas discriminatórias no
ambiente escolar é fundamental.
Metodologia
Desenvolvido de forma interdisciplinar, o projeto é intercalado nas aulas de
arte, história e língua portuguesa. A partir de parceria com a Secretaria da Mulher
e Assuntos da Família, foram desenvolvidas atividades como exposições, cursos,
palestras, vídeos, debates, seminários e ofcinas, com a discussão dos temas como
direitos humanos, Lei Maria da Penha, discriminação das mulheres, saúde da mulher,
sexualidade, direitos sexuais e reprodutivos, preconceito étnico-racial, comunidades
de remanescentes de quilombos e bulling. Houve também a distribuição e debate da
revista Menina pode jogar bola? Menino pode lavar louça, editada pela Secretaria da
Mulher.
Impacto e Resultados
A escola tem a grande responsabilidade no processo de formação dos futuros
cidadãos e cidadãs. Com o Projeto Raízes, a escola exerce de forma ampliada o papel
de promotora da cultura de respeito à pessoa, de garantia dos direitos humanos, da
promoção da equidade racial e de gênero, da valorização da diversidade no espaço
escolar e na sociedade. Os trabalhos produzidos pelos(as) alunos(as), bem como as
relações interpessoais e sociais, indicam a mudança de valores e atitudes e a presença
de uma cultura voltada para os direitos humanos.
5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero
175
5º prêmio
Construindo
a Igualdade
de Gênero
Programa
Mulher e
Ciência
Redações, Artigos Científicos
e Projetos Pedagógicos
Premiados
Promoção
Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM/PR
Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT
Ministério da Educação – MEC
Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientíco e Tecnológico – CNPq
Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – UNIFEM
www.igualdadedegenero.cnpq.br
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Secretaria de Políticas
para as Mulheres

5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero

Programa Mulher e Ciência
5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Redações, Artigos Científicos e Projetos Pedagógicos Premiados
www.igualdadedegenero.cnpq.br Brasília 2010

Alfabetização e Diversidade – SECAD/MEC Conselho Nacional dos Direitos da Mulher – CNDM .Programa Mulher e Ciência • 5ª Edição 5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Promoção Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM/PR Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT Ministério da Educação – MEC Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – UNIFEM Co-promoção Assessoria de Comunicação Social do CNPq /Serviços de Prêmios Secretaria de Educação Básica – SEB/MEC Secretaria de Educação Continuada.

Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República Nilcéa Freire Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres .

br Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 Projeto Gráfico Aldo Ricchiero Revisão Luana Nery Moraes É permitida a reprodução parcial ou total desta obra. Estudos de gênero. Presidência da República. 5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero – Redações. Título.spmulheres. Biblioteca/SPM/PR Brasil.©2010. Pavilhão das Metas. Igualdade de gênero. distribuição e informações Secretaria de Políticas para as Mulheres – Presidência da República Via N1 Leste s/nº. artigos científicos e projetos pedagógicos vencedores – 2010. CDU 396. Presidência da República Secretaria de Políticas para as Mulheres Elaboração.br www. Secretaria de Políticas para as Mulheres. 200 páginas 1. Secretaria de Políticas para as Mulheres. I. 2.1 . Brasília: Presidência da República.gov. Praça dos Três Poderes – Zona Cívico-Administrativa 70150-908 – Brasília-DF Fone: (61) 3411-4330 Fax: (61) 3327-7464 spmulheres@spmulheres. 2010. desde que citada a fonte.gov.

.. Ciência e Tecnologia do Pará (UFPA) Relação dos artigos científicos premiados com Menção Honrosa. 83 Sexualidade e Gênero no modernismo pós-1922 André Luiz Ferreira Cozzi Universidade Federal de Educação. 14 Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Artigos científicos premiados Introdução. 61 Discursos femininos – um estudo sobre a relação entre mulheres e corrupção. alteridade e Gênero) João Gilberto da Silva Carvalho Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ O que queres tu mulher? Manifestações de gênero no debate. 62 Ana Luiza Melo Aranha Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) As personagens femininas em Macunaíma. chinesas!. 11 Introdução geral.Sumário Apresentação. 17 Mirem-se no exemplo daquelas mulheres. 39 de constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. Especialista e Estudante de Mestrado Artigos científicos premiados Introdução. 18 (Representações sociais. 102 . Luciana Santos Silva Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) Categoria Graduado.

132 O diário de um transexual Nathalia Gomes Mialichi – Colégio Dinâmico Rio Grande Do Sul – Novo Hamburgo. 136 Seguindo a menina da manutenção Felipe dos Santos Machado – Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha Santa Catarina – Canoinhas.Categoria Estudante de Graduação Artigos científicos premiados Introdução. 117 Pedro Henrique Witchs Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) Relação dos artigos científicos premiados com Menção Honrosa. 127 Categoria Estudante de Ensino Médio Introdução. 129 Categoria Estudante de Ensino Médio Redações premiadas na Etapa Nacional Goias – Goiânia. 138 Imortalidade desmedida Tamiris Grossl Bade – Escola de Educação Básica Almirante Barroso . 105 Emerson Roberto de Araujo Pessoa Universidade Estadual de Maringá (UEM) Gênero e sexualidade na escola de surdos. 104 As Aparências e Os Gêneros: uma análise da indumentária das Drag Queens.

154 Mulher.Categoria Estudante de Ensino Médio Redações premiadas na Etapa por Unidade da Federação Bahia – Guanambi. 151 Procura-se mulher! Favor retornar este aviso com urgência Maria Thamara de Lacerda Souza – Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba Pernambuco – Carnaúba. virtudes e preconceitos José Anchieta de Siqueira – Escola de Referência Joaquim Mendes da Silva Rio De Janeiro – Magé. 162 O dia M Lucas Marcelino dos Santos – Centro Federal de Educação Tecnológica do RN . 142 Escrevendo um diário Mauro Marcelo Queiroz de Arruda Sobrinho – Colégio Nóbrega Maranhão – Dom Pedro. 148 Memórias de uma mulher na condução da vida Adnilson Brás da Silva Santana – Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa Paraíba – João Pessoa. 159 Choram Marias e Clarisses Thamires Trianon Rodrigues dos Santos – Centro Educacional Renato Cozzolino Rio Grande Do Norte – Natal. 144 Maria da Mulher Rodrigo Humberto Otávio dos Santos – Associação Educacional Professora Noronha Minas Gerais – Viçosa.

168 Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Projetos pedagógicos premiados Introdução. 172 Discutindo Gênero na Escola: Por uma abordagem científica e interdisciplinar Escola de Referência em Ensino Médio Oliveira Lima Região Sudeste – São Paulo – Osasco. 173 Discutindo a igualdade: mulher. 175 Projeto Raízes: diversidades étnico-raciais e de gênero Colégio Estadual Osmar Guaracy Freire . 170 Região Centro-Oeste – Goiás – Aparecida de Goiânia.São Paulo – São Paulo. 171 Saúde e prevenção: pensando as relações de gênero e sexualidade no espaço escolar Colégio Estadual Dom Pedro I Região Nordeste – Pernambuco – São José do Egito. 165 Mulher: de Inspiração a Inspirada Stephanie Gaspar – Colégio Cristóvão Colombo Relação das redações premiadas com Menção Honrosa. mãe e cidadã Escola Estadual Professor Armando Gaban Região Sul – Paraná – Apucarana.

o Prêmio se constituiu como relevante indicador sobre o crescimento da cultura de direitos humanos nas escolas brasileiras. .Em seus cinco anos de existência.

em parceria com o Ministério da Educação (MEC). graduandos. por exemplo. além de fomentar o envolvimento da comunidade escolar em torna do debate sobre a igualdade. Em seus cinco anos de existência. o que está expresso. O Prêmio. professoras(es) e outros profissionais da educação na temática. como parte do Programa Mulher e Ciência. sendo 2976 redações do Ensino Médio. o Prêmio se constituiu como relevante indicador sobre o crescimento da cultura de direitos humanos nas escolas brasileiras.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Apresentação Apresentação A promoção da igualdade de gênero é uma dimensão estratégica a ser considerada no processo de construção das políticas públicas. resta-nos a tarefa de dar efetividade às normas que garantem os diversos direitos e viabilizar. 283 artigos de graduados. o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. que se encontra agora em sua quinta edição. geracional e por orientação sexual. buscamos consolidar essas perspectivas no âmbito da formulação das políticas educacionais. Neste contexto. de modo a garantir uma educação igualitária. Por tudo isso. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e com o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM). especialistas. atitudes não discriminatórias e libertárias. de forma a reduzir a desigualdade de gênero e enfrentar o preconceito e a discriminação de gênero. especialistas e mestrandos. é direcionado a um público vasto: estudantes de Ensino Médio. étnico-racial. religiosa. na adoção de medidas e compromissos no campo educacional. desenvolveu o Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero. não sexista. assim como na do respeito à diversidade em todas as suas formas. marcos normativos constitucionais e infraconstitucionais brasileiros . por meio da educação e da formação de valores. o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres . 156 artigos de mestres e doutorandos.sinalizam para a construção de uma educação inclusiva. 11 . Cabe ressaltar que a modalidade Escola Promotora da Igualdade de Gênero é uma iniciativa que provavelmente ampliará e replicará as boas experiências que existem nas escolas brasileiras. De 2005 a 2009. não homofóbica e não lesbofóbica. No campo educacional. a participação das/os estudantes aumentou significativamente em todas as categorias premiadas. 271 trabalhos de estudantes de Ensino Superior. e 17 trabalhos oriundos das Escolas Promotoras da Igualdade de Gênero. mestrandos. o que demonstra o crescente interesse das/os estudantes. doutorandos e a escolas que gerem ações de promoção da igualdade de gênero em seu cotidiano. não racista. a Secretaria de Políticas para a Mulher (SPM/PR).como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Exemplo desse interesse pode ser percebido nos resultados da quinta edição: o Prêmio recebeu 3703 inscrições. Nesse contexto. A cada dia aprofunda-se a valorização da cultura de direitos humanos por parte do Estado brasileiro. o III Programa Nacional de Direitos Humanos. Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).

5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Apresentação Agradecemos com especial atenção a todas as pessoas e instituições que participaram em todas as etapas da 5º Edição do Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero: às professoras e professores que orientaram suas alunas e alunos. à equipe da SPM e dos demais parceiros que trabalharam cotidianamente para viabilizar o Prêmio: MEC. às comissões julgadoras que prontamente participaram do processo de análise e seleção. às/aos dirigentes de escolas que divulgaram e sensibilizaram o público para a temática. CNPq e UNIFEM. Nosso desejo e nossa esperança é que ela seja mais um instrumento para a ampliação da igualdade entre brasileiras e brasileiros. que apresenta os bons resultados sobre a reflexão direcionada para a promoção da igualdade de gênero em nossas salas de aula. Desejamos que esta publicação. sensibilize a cada um e a cada uma que se debruçar sobre ela. Nilcéa Freire Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres 12 .

703 trabalhos .O 5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero recebeu a inscrição de 3.

como também no sistema educacional brasileiro.703 em 2009. estas alcançaram o número de 3. mas seguramente no âmbito do Ensino Médio. da Universidade Federal do Rio de Janeiro (presidenta da Comissão). 14 .587 inscrições de 2005. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Graduado. A Comissão que julgou os artigos científicos pré-selecionados nas categorias do ensino superior – Mestre e Estudante de Doutorado. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. e Reinaldo Matias Fleuri.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Introdução Introdução geral A primeira constatação é que o número de participantes da 5ª Edição do Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero mais que dobrou quando se compara ao ano de 2005. e Estudante de Graduação – foi composta pelos seguintes membros: Mirian Goldenberg. 156 foram inscritos para concorrer nas categorias “Mestre e Estudante de Doutorado”. Deste total. 0% Escola Promotora da Igualdade de Gênero 81% Estudante de Ensino Médio 4% Mestre e Estudante de Doutorado 8% Graduado. Anita Brumer. da Universidade Federal de Santa Catarina. Deis Siqueira. Mary Rangel. este prêmio significa um dos grandes certames vivenciados pelas instituições de ensino. 2009. da Universidade Federal Fluminense. 283 para “Graduado Especialista e Estudante de Mestrado” e 271 para “Estudante de Graduação”. O 5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero recebeu a inscrição de 3703 trabalhos. Provavelmente. Especialista e Estudante de Mestrado 7% Estudante de Graduação Fonte: CNPq/SPM. Este impacto ainda é tímido diante da massa estudantil brasileira. este crescimento significa uma maior divulgação da temática de gênero na comunidade acadêmica. Especialista e Estudante de Mestrado. da primeira edição: das 1. da Universidade de Brasília. Durval Muniz de Albuquerque Junior.

00 (dez mil reais). receberam R$ 8. Especialista e Estudante de Mestrado”. originalidade da abordagem. As duas publicações também foram ofertadas às professoras e aos professores orientadores.00 (oito mil reais) e na categoria “Estudante de Graduação”. R$ 5.000.00 (cinco mil reais). Os artigos científicos foram selecionados obedecendo aos critérios de qualidade do texto quanto ao conteúdo e à forma de apresentação.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Introdução Reunida em 18 de março de 2010. podem receber bolsas de estudo do CNPq para desenvolvimento de projeto na área/tema do Prêmio. contribuição ao conhecimento sobre o assunto. “Graduado. Especialista e Estudante de Mestrado” (1 mulher e 1 homem) e “Estudante de Graduação” (2 homens). 15 . Os departamentos a que pertencem as(os) premiadas(os) de todas as categorias receberam uma assinatura anual da Revista Estudos Feministas e do Cadernos PAGU. a Comissão Julgadora selecionou as ganhadoras e os ganhadores das categorias “Mestre e Estudante de Doutorado” (1 mulher e 1 homem). As premiadas e os premiados na categoria “Mestre e Estudante de Doutorado” receberam R$ 10. Na categoria “Graduado.000. e adequação teórica e metodológica.000. As premiadas e os premiados. se adequados aos critérios do CNPq.

Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Artigos Científicos Premiados .

foram inscritos 156 artigos. 2009. sendo que 79% dos artigos concorrentes foram de autoria feminina.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Introdução Nesta categoria. No processo de pré-seleção. foram selecionados 123 artigos científicos. 5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero – Categoria Mestre e Estudantes de Doutorado Artigos inscritos. 100% 80% 60% 40% 21% 20% 0% M F Fonte: CNPq/SPM. correspondendo a 79% do total. 2009 17 . segundo sexo Sexo Masculino Feminino Total Quantidade 33 123 156 % 21% 79% 100% Fonte: CNPq/SPM.

.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Mirem-se no exemplo daquelas mulheres. característica da cultura machista. As sociedades machistas em geral são caracterizadas pela repetição de estruturas presentes nos mitos: “[. O patriarcado atravessa o tempo e se ajusta ao espaço.] a problemática sombria dos arquétipos do masculino.. Com base em Morgan e Bachofen e na esteira do evolucionismo predominante em sua época. como as transformações sociais e históricas da própria Grécia antiga. Introdução As sociedades em que as mulheres são subordinadas aos homens são chamadas de patriarcais. Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas Vivem pros seu maridos. a degradação do mito expressa não só a hegemonia masculina e a predominância do poder patrilinear. na Guerra do Peloponeso. 1973. Engels (1978.. chinesas! (Representações sociais. p. a constante competição. matriarcado e patriarcado. 2006. p. o que explica sua permanência. O patriarcado existe como forma de dominação familiar. Mas a desigualdade entre gêneros está ligada ao sistema social num sentido amplo. A antropologia do século XIX criou a hipótese dos três estágios do desenvolvimento da instituição familiar: promiscuidade. A Grande Mãe é incorporada como sombra e pesadelo dos ideais masculinos característicos da ocidentalidade. orgulho e raça de Atenas (Chico Buarque – Mulheres de Atenas) O arquétipo da Grande Mãe minóica – ou a deusa da vegetação espartana – transformou-se na mera traidora dos tempos pós-homéricos. p. alteridade e Gênero) João Gilberto da Silva Carvalho1 Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ Orientadora: Angela Arruda 1. 29). Assim. A origem do patriarcado é estabelecida pela consciência da paternidade e a conseqüente proibição do incesto.33). a incapacidade de criatividade e originalidade” (Boechat. Bolsista da CAPES. 135).. a imagem de Helena oscilou de acordo com os contendores. nessa ordem” (Therborn. marco da civilização para a escola de Durkheim (Horkheimer & Adorno. no qual a hegemonia é masculina e “tem duas dimensões intrínsecas básicas: a dominação do pai e a dominação do marido. Esparta e Atenas. p. 1995. Um bom exemplo para ilustrar o contraditório imaginário ocidental acerca das mulheres é o estudo clássico de Junito Brandão (1989) sobre o mito de Helena.51) afirma que entre “todos os selvagens e em todas as tribos 1 18 Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia. p. não obstante as variações contextuais na condição feminina..

p. 72). Moderno em termos literais é o que não é antigo. tantas novidades convivem com os pesadelos medievais: “Não apenas o homem é mau. não obstante a controvérsia quanto aos marcos. o que se admite como princípios ou conceitos de natureza universal são projeções ou afirmações da identidade Ocidental. mas sua inteligência também. Mas o século XIX também é o período áureo das idéias evolucionistas. O mito de que sociedades matriarcais eram isentas de conflitos permeia igualmente o discurso daqueles que defendem as vantagens de um mundo governado por mulheres. é perversa” (Delumeau. I. esse conceito que parece expressar tudo e não dizer nada. II. mesmo casada. É possível equiparar civilização. descobre-se a amarga certeza de que o homem é um grande pecador (Delumeau. tão extremista quanto a primeira. ibid. como também. Paradoxalmente. média e até (em parte) superior da barbárie. E civilização. ocidentalidade. mas corresponde principalmente a uma geografia imaginária (Said. Assim. a atração pelo macabro. segundo as quais existe apenas um desenvolvimento possível para as sociedades. O heterismo é uma instituição social como outra qualquer. 1997) e do paraíso reinventado pelo homem (Rodrigues. 2003. 357). tudo que a civilização produz é também dúbio. p. p. No centro dessa melancolia. base para a consolidação da hegemonia européia. portanto. da qual o Ocidente em geral gostava demais. A mulher é a responsável pelo pecado do qual todos nós somos filhos e o “casamento é ´perigoso´ porque a mulher. foi proferida ela também. I. mas está presente nos navios das descobertas e conquistas. p. 2003. Então. nos sermões dominicais e nas alcovas. o sentimento de que o mundo é frágil foram vivenciados por uma parte ampla da elite e marcaram profundamente a cultura da época. 2007) – um espaço geopolítico. numa escala que vai do bárbaro ao civilizado. Novo é o humanismo renascentista. a prostituição. modernidade e Europa. Por outro lado.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado que se encontram nas fases inferior. entre os séculos XV-XVI. Esta segunda afirmação. contraditório: de um lado o heterismo. um passo adiante. ibid. a mulher não só é livre. ambíguo. em plena Renascença” (Delumeau. a despeito de certas aparências. equívoco. 202). p. 19 . O eurocentrismo é a marca registrada da modernidade. A modernidade expressa um conjunto de transformações que tem início.237). sobretudo de modo a afirmar sua hegemonia ideológica”. a escalada da ciência – sem falar de um Novo Mundo. 2000). e mantém a antiga liberdade sexual em proveito dos homens (Engels. “é uma palavra grande e dura. nas palavras de Domingues (2003. 273). pois Ocidente não significa apenas um espaço geográfico. incluída sua forma extrema. é afinal impotente.. o que é transformado pelo tempo. muito considerada”. Deus pode ter sido expulso do laboratório (Latour. a acumulação primitiva.

ancorada sob um referencial individualista. Nolasco (2001) afirma que o deslocamento da noção de tempo e espaço. a representação masculina está associada ao conservadorismo do sistema que lhe sustentava. E não se trata de uma concessão ou de um salto qualitativo interno. O esfacelamento do Estado-Nação dá voz ao outro. são marcas registradas da subjetividade moderna. Na economia. 1997) e a permanência de estruturas religiosas medievais (Delumeau. portanto. 2003). nas prateleiras das livrarias. científico e biológico e o naturalizam. O garboso Tarzan se transforma no ridículo e politicamente incorreto Homer. enfim.266). fetiche. a propósito. do exterior para o interior. Desta forma. A ciência “amolece” e ramifica-se em possibilidades e combinações surpreendentes. assim. 2002) das academias. A presença dos orientais é um fato. A mulher continua a rainha nos lares da periferia. nos cinemas. a modernidade se reveste de importância. 1995. àquele que foi excluído por conta de sua cultura exótica – exótica aos olhos dos ocidentais europeus. Em relação à questão de gênero. criou dentro do patriarcado modalidades de subordinação feminina consoante à lógica geral do sistema – da fábrica à rainha do lar. produzido tão somente por reflexões intelectuais. os parâmetros tradicionais de desenvolvimento e hegemonia social continuam 20 . p. Latour. bem como a impessoalidade. da modernidade à pós-modernidade. os papéis femininos são estabelecidos por um conjunto de representações sociais que se articulam ao sistema moral. Interessante contrapor o movimento de dessacralização do corpo num mundo que se cria no laboratório (Foucault.16). por exemplo) e áreas especializadas de conhecimento: “O movimento do saber irá. ao bárbaro. Ao analisar as instituições da ordem pós-tradicional (pós-modernidade). o “outro” está na moda. ao passo que o novo olhar se constitui e entrega um corpo finalmente dessacralizado a uma observação externa” (Diehl. emparelhava-se com a afirmação confiante e orgulhosa da individualidade nos domínios da ética e da estética (Nolasco. p. pois cria e consolida os dispositivos de controle dos papéis definidos pela sociedade. A emergência da cultura subalterna é outro dado da pós-modernidade. essa conquista da modernidade do final do século XVIII e das primeiras décadas do século XIX. Em obra anterior. a despeito da luta contra os ritos e fetiches (Latour. o autor destaca: A emancipação do indivíduo na ordem político-social. diga-se. Parafraseando o título de sua obra – de Tarzan a Homer Simpson – isto é. Enquanto os processos de controle social inaugurados pela modernidade estão cada vez mais sofisticados. mas há estratos da sociedade em que as “novidades” desafiam os pensadores da questão de gênero. 2004. a partir de agora. 1980.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado A engenharia simbólica característica da modernidade implica na criação de termos (mandarim. Entretanto. muita coisa mudou. A modernidade. o número de variáveis a controlar parece fora de controle. chamados tradicionalmente de “moral burguesa”.

talvez seja possível realizar uma inversão consciente. p. 1995. não seremos pós-modernos. não mais as mulheres de Atenas. Pretendemos articular teoria e domínios das ciências sociais e assim contribuir para o alargamento de campo e aplicação das representações sociais enquanto modalidade de psicologia social. 1980) continuam ativos. O que torna possível um adendo às reflexões de Latour (1997): (se) “jamais fomos modernos”. Nada demais. 21 . uma imagem pode ser delineada. o que pode significar um grau de relativização de suas conquistas e mesmo de perdas. Objetivos A intenção do presente artigo é ousada: refletir sobre a questão de gênero a partir do olhar construído historicamente em torno da mulher chinesa. 2003). As mulheres trabalham em postos de gasolina. bem como o trabalho de desconstrução que temos diante de nossos olhos em que as certezas e as verdades se tornaram apenas expressões de alteridade social.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado vigentes. mas também apoiar-se em textos de autores chineses. As formas de subordinação ou emancipação da mulher estão associadas a formações sociais complexas. mas as mulheres da China. Há outros objetivos específicos em termos da estrutura do artigo. os papéis mudaram visivelmente. pois. Será que a contrapartida à emancipação feminina é sua masculinização? Talvez seja possível enxergar um pouco mais a partir do atrito.27). Então. significa analisar o imaginário que emerge de um corpus literário e filosófico: a imagem de mulher chinesa criada por representações que circulam no Ocidente e consolidaram-se nas demandas cotidianas. Refletir sobre a modernidade ocidental e a criação de imaginários que permeiam as representações sociais é certamente um deles. mas os dispositivos de repressão e poder (Foucault. Objetivamente. Agora é o tempo de Lara Croft. aproveitando os novos ares. e já que nossa busca é pela compreensão da alteridade. O que significa dizer que Tarzan pode ter sido reduzido a Homer Simpson. da reflexão sobre os processos análogos em outros povos – os excluídos que a pós-modernidade trouxe à tona (Mignolo. ou melhor. da gata à loba. tornam-se comentaristas de futebol e recolhem lixo. até o dia em que foram transformadas pela cultura em criaturas frágeis à mercê de seus cavalheiros. das mulheres tão poderosas quanto impiedosas. “A noção de um masculino definido como ação e centro de um sistema de relações (patriarcado) está hoje à mercê de processos de transformações sociais cujos critérios são tecnológicos e não somente humanistas-liberais” (Nolasco. afinal as mulheres sempre trabalharam muito no campo. Miremos. mas as conseqüências sociais estão muito longe da euforia dos livros que celebram a emergência feminina. 2. Não como na busca de maravilhas que conduziu o olhar “ingênuo” do navegante ou pelas mãos de uma ciência que tão somente referendava os preconceitos sociais. mesmo que às avessas. nos quais um perfil. O pressuposto básico é de que seja possível confrontar não apenas o que se fala sobre chinesas. Não seriam heroínas e sim mocinhas que no cinema tropeçavam ou eram sempre capturadas no momento da fuga. de quebra de paradigmas.

relaciona os processos geradores de confiança na infância e a busca de confiança na sociedade: se o outro é de início a mãe. o discurso da modernidade é ardiloso. 2003). o que nos remete à sabedoria de Laozi. 2003) e 22 . p. isto é. portanto. essa certeza de que pertencemos a um determinado grupo ou comunidade. da relação com o outro. 2007. 2003). Um bom exemplo é o turista. A emergência da mulher e a questão de gênero têm como base um contexto histórico caracterizado pela mudança de valores. deseja. afirma-se no contato com aqueles em quem percebemos a diferença. A “reabilitação” de um oriente exótico e sábio ou a suposta emergência feminina pode significar a consolidação de estigmas e a manutenção de processos de dominação sob novas rubricas. 3. A subjetividade emerge. ao analisar as conseqüências da modernidade. odeia. num tipo específico de literatura que até hoje recebe a atenção de estudiosos de diversos segmentos (Greenblatt. criticá-lo muitas vezes significa repeti-lo. Mignolo. o exótico e o alternativo estão na moda. a alteridade. Giddens (1991). ama – o outro é a própria sociedade e suas representações simbólicas. articulada aos conceitos de imaginário (Banchs. 1996). 69). é fonte de grande parte dos conflitos entre as sociedades. O reconhecimento das diferenças nasce de uma marca ontológica fundamental em que se opõem sujeitos e objetos. A minoria. interessa. A contrapartida da identidade. desdobra-se nos muitos outros balizadores da vida social. No passado distante os navegantes experimentaram o maravilhamento face à exuberância do Novo Mundo e registraram seu encantamento ou aversão em epístolas e crônicas. seja pela invasão física e simbólica de povos considerados atrasados e selvagens. a conseqüência pode ser a perplexidade inicial. a pós-modernidade incita e implica na incorporação do outro. Metodologia A utilização de elementos da teoria das representações sociais (Moscovici. mesmo que numa condição infernal . Quem conhece a si mesmo é sábio” (1978. Conhecer o “outro” é uma oportunidade e um exercício de autoconhecimento. Vigotski (2000) procurou mostrar em obra clássica como a presença do outro acarreta no indivíduo a interiorização da fala exterior. o pensador taoísta: “Quem conhece os outros é inteligente. sejam eles peritos ou instituições. o outro. seguida por identificação ou aversão ao outro. o excluído – daqueles que nunca tiveram voz ou tornaram-se invisíveis em sua própria sociedade (Mignolo. cuja relação de presença e ausência é fundamental à segurança ontológica. aquela figura excêntrica que de imediato é percebido como alguém de fora. da supressão e aniquilamento do outro. A curiosidade nos incita a conhecer. Se a modernidade foi o tempo da exclusão.parafraseando Sartre – e condição básica da existência social. um forasteiro.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado A identidade. Segurança e risco são categorias básicas presentes na análise do sociólogo que conclui: a modernidade tardia (pós-modernidade) tem acentuado a sensação de risco. Mas como nos mostra Bruno Latour (1997). O outro é tudo aquilo que agride.

A imagem que emerge deste amálgama de informações é contraditória. sob uma base de contatos reais foram construídos símbolos para caracterizá-lo. O que significa dizer que ao pensarmos no chinês ainda utilizamos as mesmas categorias de pensamento tradicionais. blogueiros e visitantes em geral – sobre chineses ou de chineses. pois essa “mulher chinesa” simplesmente não existe. representações forjadas ao longo do tempo a partir desta massa de informações. ou ainda pela evolução do pensamento de Moscovici (Castro. As representações sociais sobre chineses são erguidas sob o princípio da alteridade e tendo como base um imaginário construído historicamente. Portanto. Em termos sociais é um trabalho lento. as pesquisas de Arruda (1998) e Cyrino (2009). 2002). no mínimo. racismo ou. Do ponto de vista metodológico é uma busca de vestígios. como pode ser percebida na análise de discurso aqui empreendida. comentários de jornalistas. materializa-se como construção discursiva. de uma intenção criativa e um desejo de compreensão. 1991) obtido ao longo de anos se choca com as demandas da realidade: o tempo faz e o tempo leva as criações imaginárias. em sua totalidade. Mas não se trata de uma invenção pura e simples. A teoria das representações sociais tem abarcado diferentes campos da atividade humana (Jodelet. um conjunto de informações e preconceitos construídos ao longo dos séculos. por exemplo. pois a representação só se torna social a partir do instante em que é requisitada e atualizada nos espaços públicos. Mas os trabalhos voltados à articulação entre gênero e representações. enquanto o século XX o transformou em etnocentrismo. há idéias e informações a seu respeito. A nossa premissa básica é de que a “realidade do mundo humano é. emergentes no contexto atual de mudança de paradigma. Há pontos de contato entre as teorias moscoviciana e de gênero. contos. não foram suficientes para consolidar uma tradição. 2001). documentários. a contrapartida cultural e sofisticada da política colonial. Mas é possível decompor este imaginário amplo em seus elementos básicos – e nos interessou a mulher chinesa. O século XIX consolidou o “orientalismo”. como pela própria natureza complexa da atividade de representação. Sem nunca termos visto um chinês. mas não inventado. É a mulher que queremos ver e admiramos por aquilo que desejamos. Trata-se de um chinês imaginado. a possibilidade de com eles lidarmos quando necessário. 2007) formaram os parâmetros de nossas análises. É um repertório que empresta sentido à sua “insólita” cultura – ou ainda. face a face. apesar dos anos que separam. conceitos filosóficos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado orientalismo (Said. feita de representação e não faz sentido falar de realidade em nosso mundo humano 23 . O suporte desta representação é o que Edward Said (2007) chama de orientalismo. de uma criação arbitrária. A imagem é construída e reiterada em romances. alteridade. O consenso (Moscovici & Doise. nos momentos em que o contato existe. como demonstrou em artigo Arruda (2002). dirigidos ao leitor ocidental e facilmente encontrados nos meios de comunicação que circulam no Ocidente. pistas – não exatamente como no paradigma indiciário de Ginzburg (2007). apesar dos enfoques distintos que derivam não apenas das vertentes disponíveis na atualidade.

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sem o trabalho da representação” (Jovchelovitch, 2008, p.33). Não nos ocupamos da representação em sua natureza estruturada e sim com os processos sociais e históricos que a tornam estruturante, etapas distintas e complementares. Vale dizer, o imaginário e a memória social que tornam a representação possível. Como frisaram Moscovici & Doise (1991), a utilização de símbolos por grupos não é um ato de racionalidade no sentido estrito. A criação e a consolidação de representações sociais é um processo subordinado aos contextos que as originam e não possui determinação exata – expressam a complexidade da vida humana. O conceito de representações sociais acompanhou a evolução do pensamento de Moscovici, que as desdobrou em representações hegemônicas, emancipadas e polêmicas (Castro, 2002, p. 965). Outros aprofundamentos foram teorizados, como a associação entre as representações sociais e as metáforas, realizada por Wagner (2005); ou as ligações com os estereótipos em Joffe & Staerklé, (2007). Guareschi faz um apanhado da relação entre as representações sociais e o que chama de “seus parentes” (Guareschi, 1995, p. 192). No caso de imagens de chineses(as) não podemos falar de ideologia em sentido estrito ou de metáfora, e mesmo estereótipo nos parece insuficiente. Por confiná-los numa situação de alteridade imutável, espécie de marca indelével de sua raça, trata-se de um estigma (Bauman, 1999), presente em pensamentos do tipo “a mulher chinesa não é bonita”, “a China não conseguiu atingir o capitalismo apesar de suas condições”, “os chineses são industriosos, mas pouco criativos”, como veremos a seguir. 4. Mulher chinesa: entre representações sociais e imaginários ocidentais Os chineses receberam adjetivos variados ao longo da história e os estudiosos, mesmo os mais recentes, não se cansam de afirmar: “A China é a mais antiga civilização viva do nosso planeta” (Leys, 2005, p.11). Para seus defensores, tal ancestralidade indica uma posição venerável, de força e resistência ao tempo, espécie de sabedoria depositada ao longo dos milênios; para seus detratores, significa imobilismo, ausência de dinamismo. A China dorme e, quando acordar, “salve-se quem puder”, teria nos advertido Napoleão Bonaparte. O Ocidente criou “o” chinês – um ser imerso numa história que se acumula ou quando há rompimentos já estão previstos ou são cópias precárias de modelos europeus. Em obra recente, Fairbank e Goldman (2006) discutem, no capítulo intitulado “O paradoxo do crescimento sem desenvolvimento”, o motivo pelo qual a China manchu não conseguiu se industrializar no século XIX, apesar de seu grande comércio e população. É bem verdade que já no início da obra os autores nos advertem quanto ao uso indevido de comparações com a Europa. Não é o caso aqui de evidenciar as inúmeras comparações que realizaram de fato, mas frisar que somente numa perspectiva única e linear de história os povos devem passar por estágios idênticos de desenvolvimento. Mas para que não se recaia numa modalidade de “orientalismo”, será preciso examinar as bases da filosofia chinesa associadas ao princípio feminino.
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4.1. Taichi: a dança do feminino e do masculino Masculino e feminino estão associados às rubricas mestras que permeiam não apenas a filosofia como a praticamente todas as manifestações culturais do povo chinês: o yin e o yang. Princípios, forças ou emblemas (Granet, 1997) são comparáveis aos opostos da dialética ocidental. Ao yang corresponde o yin e vice-versa, como se vê na conhecida figura e alguns exemplos aqui destacados: Yang: Yin:  claro céu homem  ativo forte duro

escuro mulher  passivo  terra fraco macio

Assim, os fenômenos estão divididos em pares antagônicos. Os pólos escuro (yin) e claro (yang) indicam substâncias, princípios, forças, enfim, coisas que podem ser classificadas e agregadas por identidade; são complementares, um não existe sem o outro. Na figura do taichi ( figura acima) observa-se que cada um deles contém a semente do outro. Em termos filosóficos, significa a inexistência de princípios absolutos e a base da mudança. O predomínio de um pólo acarreta desequilíbrio, indesejável na natureza e na vida humana. Portanto, yang e yin se revezam infinitamente de acordo com os ciclos da natureza (hsing). Há parábolas e contos que expressam a sabedoria que deriva desta compreensão: nada é definitivo, como no ideograma chinês para crise, que é composto de duas parte, perigo e oportunidade. Nada é eterno a não ser a própria eternidade, quer se trate da felicidade humana, dos ciclos da natureza ou das possibilidades de uma boa safra. O pensamento chinês enfatiza que o equilíbrio entre o yin e o yang é a receita para a saúde física, social e mental. Nesse sentido, o predomínio absoluto do masculino ou do feminino pode ser ruinoso; se ao taoísmo se trata de uma questão de harmonia energética, para o confucionismo é de adequação aos ritos. Assim, o mundo dos homens é subordinado a princípios mais gerais ou, em termos simbólicos, à relação entre yin e yang. Na representação de Fuxi e Nügua – o rei fundador e sua esposa –, o casal se apresenta entrelaçado por caudas; ele portando um esquadro, ela um compasso e independentemente das muitas interpretações sobre a gravura, há o notório equilíbrio de yin e yang (Gall, 1980, p. 27). O equilíbrio yin-yang é o comportamento do sábio e o caminho (tao) da acupuntura e da medicina tradicional chinesa para a regularização do fluxo de energia nos meridianos, ou seja, para a obtenção de cura para as doenças. O macro e o microcosmo se correspondem, pois: [...] o yin e o yang aplicam-se a todas as circunstâncias e a tudo o que existe. Esse princípio foi integrado como sistema de correspondência
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simultâneo no macrocosmo e no microcosmo, no plano humano e no plano das coisas (Kierce, 1984, p.42). No pensamento do homem chinês, do erudito ao homem do povo, destacamse três fontes principais de inspiração: o taoísmo, o confucionismo e o budismo. O taoísmo que se perde no tempo, nas práticas alquímicas e crenças do povo, que produziu grandes pensadores como Laozi e Chuangzi, magos como Ko Hung, a linhagem dos Mestres Celestiais (Blofeld, 1979), entre outros tantos alquimistas desconhecidos no Ocidente, e a seita Mao Shan, fundada por uma mulher que viveu em 251-334 d.C. (Palmer, 1993, p. 96). Um sistema moral é uma definição razoável para o confucionismo, estreitamente ligado ao caráter burocratizado da sociedade chinesa. Confúcio perambulou entre os reinos de seu tempo, durante o chamado período “feudal”, oferecendo seus conselhos e sabedoria aos príncipes, entre os séculos V e VI a.C. Pensador mais conhecido da China, Confúcio esboçou um sistema moral que privilegiava a virtude, a moral e a tradição. Em geral, os imperadores chineses detinham um mandato celestial que os tornava responsáveis pelo equilíbrio entre o céu (macrocosmo) e a terra (microcosmo). Assim, se o reino fosse mal, o imperador era responsabilizado por não estar honrando adequadamente seu mandato. A sociedade chinesa e, em especial, o confucionismo desenvolveram uma série de complicados rituais no sentido de promover a harmonia e a continuidade do império. Confúcio não encontrou nenhum príncipe disposto a lhe oferecer um posto no qual pudesse pôr em prática suas idéias e regressou ao estado de Lu (atual Shantung) amargurado, mas seu sistema não apenas persistiu até a revolução maoísta, como ainda é uma chave importante para se entender a mentalidade chinesa. Não logrou êxito na política, nem no casamento, pois segundo Lin Yutang, a senhora Confúcio o deixou livre para buscar uma esposa que pudesse seguir suas complicadas normas: “O arroz não está bem branco...”, “O guisado não está bem picadinho...” (apud Lin Yutang, s/d, p. 71). O budismo, proveniente da Índia, difundiu-se na Ásia em meio ao comércio e se adaptou à mentalidade das regiões por onde passava (Ebrey, 1996, p. 98). Na versão chinesa, por exemplo, ganhou novas roupagens, sendo uma delas o zen, que foi muito badalado no Ocidente entre intelectuais e movimentos de contracultura. Enquanto no Tibete predomina uma linha mais exotérica, em associação com o lamaísmo, o zen budismo é mais filosófico, expressão da linha mahayana (grande veículo). Na prática, o budismo ofereceu aos chineses uma religião organizada, com uma doutrina que parecia melhor atender aos anseios de espiritualidade a partir de uma vida monástica. A partir do século XVI foram incrementadas as tentativas de conversão dos orientais ao cristianismo, pela ação de missionários franciscanos, jesuítas e dominicanos. Já os protestantes tiveram ação incisiva; no século XIX, a rebelião Taiping foi animada por uma estranha forma de cristianismo – no movimento messiânico promovido pelo “filho chinês de Deus” (Spence, 1998). Assim
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contrária à belicosidade e amante da paz. receptora de energia e vida. A chamada “civilização chinesa” é considerada culta e refinada por seus admiradores. Em relação ao que nos interessa. como o fato de terem criado as artes marciais.. a mulher para o taoísmo é yin.. Matteo Ricci. A mulher é o cadinho onde se realiza a alquimia taoísta. no confucionismo. o budismo acrescenta fatalismo. p. mas aquela que deve seguir cegamente seu marido ou ainda a fonte do pecado. sendo soberana nesses domínios. they hate war [. O contato entre povos diferentes é regido pelo princípio da alteridade. quando os coolies foram requisitados em substituição ao trabalhador escravo. O povo chinês se apropriou e transformou essas concepções ao longo de sua história milenar. Para o europeu da modernidade. a mulher deve ocupar o lugar que lhe cabe na organização moral da sociedade.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado como no cristianismo. p. finalmente. os chineses não gostariam de combates ou violência. o desvio do caminho perfeito (tao-te). (Apud Spence. eu não diria que são homens de guerra. A passividade como elemento de representação sobre chineses deixa de fora elementos contraditórios. e qualquer um que os sujeite pode pôr-lhes o pé no pescoço. são como mulheres: se alguém lhes mostra os dentes fazem-se humildes. A delicadeza dos rituais é mesmo dos homens. como se observa nas palavras de Giles (2000. e noções de pureza e recompensa transcendentais. pois tanto na aparência exterior como no íntimo do coração. Sua suposta docilidade será alegada freqüentemente nas experiências de imigração realizadas no século XIX. o budismo. 60). p. cuidados com aparência são coisas de mulher e característicos de um povo que não sabe defender-se como homens. s/d. Como demonstrou Hartog (1999) em seus estudos sobre a Grécia. às mulheres a procriação. como os holandeses. Efeminados. desdenharam dos cuidados com a aparência dispensada pelos homens chineses. capaz de desencadear ancoragens e objetivações no cotidiano. principalmente em sua versão hinayana (pequeno veículo/popular). Frei Gaspar da Cruz entre outros da época. 55). os métodos sofisticados de tortura e que as grandes rebeliões camponesas da humanidade ocorreram na 27 . como Matteo Ricci: Para lhe dizer a verdade. Tais características já eram percebidas pelos cronistas do século XVI. nem soldados com bons homens. a divisão de funções entre homens e mulheres decorre de operadores lógicos: aos homens a guerra. seu apreço pelos cabelos e outros hábitos considerados muito “femininos”. componentes básicos dos processos que envolvem as representações sociais (Moscovici. Há um estranhamento de algo novo – no caso o chinês – e sua inserção a um quadro preconcebido de idéias e conhecimentos que estabilizam a situação.27): “The chinese people reverence above all things literature and learning. insiste na noção de pecado como via de ingresso ao “inferno”. 2003. da luxúria. É chinês o ditado: não se faz prego com bom ferro.]”. por mais que eu escrevesse à Vossa Excelência sobre os chineses.

ela. Flexibilidade – o atributo yin por excelência – que se traduz na prática numa subordinação ao homem. São autores publicados no Brasil aos quais se une hoje em dia uma nova safra de autores. agora se diz alteridade e etnocentrismo. americana que viveu na China.2.. de camponesas. Nascidos em fins do século XIX e falecidos nos estertores da Revolução Cultural. tais símbolos criam representações sociais sobre os chineses. 1960) observa-se o seguinte diálogo: – Apesar de tudo. concubinas. o vivido que tem nome e forma cotidiana. minha filha. É preciso que você agrade ao seu marido. Ver destruir os resultados de meus esforços é demasiado para minhas forças.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado China. em nome do conhecimento da realidade foi justamente a realidade a ser alienada. e mais recentemente ainda pelos departamentos especializados de historiadores da academia. a partir das demandas de cada grupo social. Vento Oeste (Pearl Buck. esposas e imperatrizes. Ao serem estruturados em situações específicas. A China é tão delicada ou estranha quanto suas mulheres. filha de missionários presbiterianos. custe o que custar. Só lhe resta fazer uma coisa: fazer o que ele deseja (. Ele. Mas o orientalismo se nutre de generalidades e imprecisões. emergem da filosofia e dos tratados que circulam no Ocidente. Onde a ciência dos dezenove afirmava neutralidade e universalidade.) (p. Paradoxalmente. nos sistemas que desconsideram o real. Neles o recato e a graciosidade são características marcantes da mulher chinesa. Buck há muitas menções às mulheres chinesas. aos quais se juntam filósofos e sinólogos do século XIX. Em Vento Leste. É o que sabemos pelos cronistas e viajantes. sempre que a tensão das antigas as torne insuficientes para dar conta do contexto. eram provenientes ambos de uma base familiar conservadora e escreveram copiosamente sobre a China e seu povo. só existe um caminho que uma mulher neste mundo deve seguir. Mas você não pertence a minha família: você pertence a seu marido. Assim são compostas as representações sobre os chineses. A literatura e o cinema popularizaram os chineses no mundo e cristalizaram a alteridade que ganhou corpo ao longo de tantos séculos. Em termos simbólicos. Em Lin Yutang e Pearl S. chinês que estudou no estrangeiro e viveu a partir de 1928 nos Estados Unidos. enfim. isto é. 28 . 4. A literatura: entre O-lan e a Mulher Imperial A obra de Edward Said (2007) – Orientalismo – marcou os estudos sobre o Oriente ao desmascarar os preconceitos que desde o século XIX foram criados em nome da ciência. nas filosofias da história. é difícil não perceber essas características nas metanarrativas do Ocidente. Por outro lado. o colapso do paradigma cientificista tornou problemático se falar de leis universais em ciências humanas.. duas características podem ser destacadas: docilidade e exotismo. 63).

esse excerto do século XVII é “o modo menos romântico de conseguir uma amante. enquanto o ditado popular enfatiza: o homem é o vaso e a mulher. olhe para o cavalheiro.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado O princípio filosófico apregoa que a terra segue o céu. No século XVII. E aqui temos outro dado que alimenta a alteridade: o costume de atrofiamento dos pés. Sua voz era mostrada. por favor.. muitas vezes. Lin Yutang (1985) apresenta o seguinte trecho ocorrido numa casa de “cavalo magro”: “Kuniang (senhorita). A mulher virtuosa era aquela que gerava meninos saudáveis para o orgulho dos familiares. ela vai morar na casa do marido e assim priva a sua própria família de seu trabalho. “Kuniang. A seguir era dito: “Kuninang. De acordo com o costume. 111). ela se ajusta ao recipiente que a abriga. Segundo Lin Yutang. ou seja.). 211-212).. este era um acontecimento importante. Mas desde a dinastia Song (960 – 1279) os pés pequenos.” Dessa vez a mulher erguia-lhe as saias [. um menino seria um potencial herdeiro. caminhe!” Ela caminhava. Seus olhos eram mostrados. Numa obra em que traduz textos clássicos da prosa chinesa. Kangxi. ficando de frente para a luz e seu rosto era mostrado. contando com a ajuda de eunucos que as produziam de acordo com as preferências do soberano. Também as mulheres manchus e mongóis não enfaixavam os pés e mesmo entre a etnia han – maioria na China – não era um costume geral. O infanticídio feminino e as concubinas são evidências para o Ocidente de violência contra a mulher. op. “Desculpe. segundo imperador da dinastia manchu.” Ela olhava. a água.” Ela respondia. As camponesas pobres. volte-se!” Ela se voltava. “Qual é a idade da Kuniang. cumprimente!” A moça fazia uma vênia. Não era praticado por todas as mulheres. os “lírios dourados” tornaram-se um atrativo sexual e requisito de beleza feminina. como entre as etnias hakka e miao. A lógica cruel da sobrevivência é a seguinte: não há sentido em manter aquela que irá ser escrava de outra família. Acreditava29 . “Kuniang. O nascimento de meninas era encarado com desgosto e o infanticídio feminino foi praticado até recentemente (Giles. como pensaríamos a partir de nossa literatura erótica. que era um impedimento para o trabalho pesado do campo. e sim para serem exibidos os pés. podemos ver sua mão?” A mulher enrolava-lhe a manga e expunha o braço inteiro. não podiam dar-se ao luxo deste “requinte”.] (p. com o canto dos olhos. “Caminhe mais um pouco. A casa de “cavalo magro” era o local em que se negociavam concubinas. p.. Entre as concubinas do imperador. Não era um pedido para mostrar as pernas. cit. só comerciantes grosseiros comprariam uma concubina por esse processo” (ibid. Mas na China populosa e miserável dos campos a condição feminina não assegurava a continuidade da família. Sua pele era mostrada. teve centenas de concubinas que disputavam sua atenção. Era mais uma oportunidade de ascensão àqueles que haviam renunciado à sua virilidade para sair da pobreza.

as culturas criam formas de expressar a beleza que é sempre estranha para aquele que dela não compartilha. dos anéis para o crescimento do pescoço ao silicone. mas disso você não precisa. Com relação aos “lírios”.. desde os cinco anos a menina tinha os pés enfaixados pela mãe. (p. garantia de sobrevivência no campo. no contexto e lógica daquela sociedade.] (p. a personagem de A Boa Terra (Pearl Buck.] (Pearl Buck. estupefata. A dor insuportável e os riscos de infecções e morte por gangrena não impediram que nas dinastias seguintes – yuan e ming . s/d.o costume se tornasse popular e objeto de fetiche masculino. Só os homens ociosos precisam de mulheres bonitas para diverti-los [. é simplista afirmar que se trata apenas de uma manifestação de submissão ao gênero masculino. como conseguirá ela um bom marido? – disse a velha mãe. com intenção de impedir o crescimento dos pés. e só foi proibido com a instauração da república. para conseguir um bom casamento. Para O-lan. realçando a idéia de fragilidade feminina. Do espartilho ao split tongue (língua de bifurcada ou língua de serpente). em 1912. principalmente se desconsiderarmos a origem do termo fetiche (Latour. p. – Se os pés da menina não forem atados. Neste sentido. Wang Lung: – [. os pés deveriam ficar escondidos por conta das inflamações e aspecto repugnante.. Gostaria que minha mulher não se parecesse tanto com uma pobretona.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado se também que a prática favorecia a geração de filhos saudáveis (Giles. Estranho fetiche aos nossos olhos ocidentais. carregará água e tudo o mais que você desejar.. As ataduras eram trocadas periodicamente e apertadas. O ritual de transmissão da técnica e dos cuidados. ainda que a autora procure mostrar com sutileza não haver outra alternativa.] Você verá que ela tem o corpo forte e as faces largas de sua raça. Com o tempo. 203-204) 30 . a não ser a ingratidão: – Trabalhei e tornei-me rico.. p. 1974) não tinha tempo para a beleza e assim foi apresentada ao seu futuro marido. op. eram passados de mãe a filha. 40-41) A vida de O-lan em nada se parece com a das concubinas e esposas residentes em palácios. no campo. bem como a confecção de sapatilhas bordadas em seda. 26).. Ela não é bonita. ocupadas em fuxicos e disputas sem fim. cit. Wang Lung enriquece. Trabalhará bem para você. e sua ingratidão com a esposa nos provoca revolta. 52). Os dedos eram comprimidos ao antepé e este inclinado à força em direção ao calcanhar O peso do corpo sobre os dedos dificultava o caminhar normal.. Então. E esses teus pés. 2002). Seus próprios pontudos e pequeninos pés estavam cruzados diante dela [.. o arco se quebrava e na planta do pé era formada uma corcova (o “talo do lírio”). A sua existência era dirigida integralmente ao trabalho e ajudar seu marido a adquirir terras..

ao tempo da dinastia Ming. A vida palaciana era de tédio para as concubinas e esposas. 91). 79). fato que merece registro dos historiadores e romancistas do Ocidente. Madame Wu ao completar quarenta anos decide arrumar uma concubina para o marido. consagrado livro de Jung Chang (2006). – A senhora diz isso tão alegremente! – queixou-se Peônia. como se passou por imperatriz e tentou enganar os saqueadores do palácio (Clements. 108). cit. 1948). a matriarca da família – a primeira mãe. por conta de sua descendência judia. Como no caso de Peônia que trama contra Lia. cruel e vingativa. que se envolveu com um general e levou à ruína a dinastia Tang (Fairbank & Goldman. Ela é o guia de fato daquela família aristocrática e seus dilemas existenciais fizeram-na aproximar-se perigosamente do irmão André – um dos tantos missionários cristãos que pregavam na China (Pearl Buck. (Pearl Buck. como é possível perceber nesse trecho de uma obra que antecipa em algumas décadas a temática de Os Cisnes Selvagens: 31 . tal como a concubina Yang Guifei. Louca ou ardilosa. Mas não é possível extinguir o passado pela força. pensativamente. p. três gerações de mulheres chinesas experimentam as transformações que em cinqüenta anos do século XX sacudiram a velha China. – Claro que não. avó. seu diálogo com Wang Ma é revelador da condição feminina: – Não podemos esperar a felicidade? – perguntou Peônia. p. a mulher de Maozedong. que na retórica comunista são iguais para o combate à burguesia e ao capitalismo. que destacam muitas vezes o caráter ardiloso da mulher chinesa.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Não teria acumulado terras e filhos não fosse o trabalho duro da esposa.. Mas as mulheres da corte chinesa freqüentemente burlavam as normas de submissão. assistindo a queda não apenas do orgulho chinês como o de sua própria dinastia (manchu). Mulheres de pés atrofiados convivendo com jovens revolucionárias do partido comunista e das guardas vermelhas. 1949. e também odiada por tantas outras mulheres pelos males da Revolução Cultural. república ou comunismo. que enganou o Ocidente por tanto tempo – cínica. E começou a chorar docemente. op. Sem contar Jiang Qing. não apenas deixou de seguir o costume de cometer o suicídio após a morte do amante. 2005. A senhora Ren. os romances estão repletos de tramas e intrigas. nas palavras do especialista Simon Leys (2005). Na saga Os Cisnes Selvagens. A imperatriz Cixi (1835 – 1908) se achava (e com certa razão) a mais poderosa entre as mulheres do planeta e se viu em confronto com as grandes potências imperialistas. A posição de cada uma delas era rigidamente estabelecida pela tradição e nem mesmo os homens podiam se furtar ao devido respeito pela taitai. p. – Só podemos ser felizes quando compreendemos que a vida é triste. Em tempo de império. farta de suas obrigações matrimoniais. – disse Wang Ma com firmeza.

] Foram quatro penosos anos que Chen atravessou trabalhando apenas por subsistência como uma “mulher de conforto”. concubinas. Não há nada de espantoso ou maravilhoso nisso. De igual modo. flores de Xangai (prostitutas). 2007. traições e virtudes. E ela própria. Ainda sabemos pouco das mulheres Taiping envolvidas em seu estranho cristianismo – talvez. p.. A mulher chinesa 32 ...se nos contos desde o período áureo da dinastia Tang – histórias de amor e sofrimento. num livro (1981. ofensas e preconceitos. certamente. ou apenas existe nos moldes da representação forjada pelo orientalismo. pertence ao passado. mas vive no presente e aceita o que é novo com fé.99. Neste sentido. quando os japoneses invadiram a China durante a Segunda Guerra Mundial [. mas nenhuma de vocês é uma flor de pureza! Podem esperar que um dia desses eu vou botar a boca no mundo (Yuan-Tsung Chen. trabalhadores braçais – tratados como boçais e reduzidos a um sistema de semiescravidão e sim manufaturados sofisticados e toneladas de bugigangas de R$ 1. como se observa no seguinte relato: Chen Jinyu tinha apenas 16 anos em 1941. 151). 1969. no passado e no presente. simultaneamente.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado A minha mãe faz-me pensar. Os chineses são um enigma. 121) cheio de otimismo quanto aos rumos da sociedade chinesa. Muito estranho aos nossos olhos. a mulher chinesa não existe. mulheres à toa: – Está bem! Eu posso ser uma mulher impura. o derradeiro capítulo das imposições cometidas em nome de Cristo. O povo chinês gosta de aventuras e dramas como constata. entre risos. porque o passado foi tão digno dessa fé (Pearl Buck. Sapatos rasgados cabem em qualquer pé. 78). p. que o padrão de beleza atual privilegia os ombros das mulheres. A criatura submissa e exótica é tão somente uma generalização colonialista. Agora a oferta não é mais de coolies. Os chineses por muito tempo continuarão provocando esse sobressalto típico das relações entre povos de cultura diferente e tal alteridade ainda causará muitos desentendimentos. Mas a brutalidade contra as mulheres chinesas ainda pode ser ouvida. entre taitais e meimeis. Não é a materialização pura do princípio yin e nem tampouco esconde sua vileza sob a capa da fragilidade. revolucionárias idealistas. as mulheres chinesas são senhoras imperiais. 1981. Assim eram chamadas na época as mulheres que serviram sexualmente aos japoneses durante os oito anos de ocupação (Scofield Jr. O cartunista Henfil declarou. mas seus produtos estão em todas as prateleiras do mundo. grande ou pequeno. mulheres de conforto ou sapatos rasgados. camponesas. 96). p. p.

neste sentido.com/blogs/gilberto/post. A mulher chinesa tem sido registrada em situações que contrariam a imagem de submissão. Em seu blog na Internet. p. 102). que esteve na China e lançou recentemente um livro sobre a experiência.edu/xwomen/intro. Cai Chang (1900–1990). um peão no jogo de xadrez para a construção da nova República Popular. as revolucionárias comunistas teriam se masculinizado em nome da luta contra os “velhos costumes burgueses”. Percebe-se que as transformações que caracterizam o mundo da globalização também estão presentes na China. é o caso da ex-prostituta Shi Yang (Spence. afirma: “[. As versões modernas do aventureiro Marco Polo continuam assombrando 2 http://jefferson. nem tece a seda. como Xinran e suas “boas mulheres da China” (2007).. p. Entretanto. das agressões imperialistas .] a beleza numa mulher é inútil..asp?t=a_mulher_chinesa_tambem_ emerge&cod_Post=70279&a=25 33 . No site da pesquisadora Anne Kinney2 é possível mapear diferentes temas com envolvimento de mulheres em extensos períodos. entre outras. 1998. rica comerciante de gêneros alimentícios e de ópio. mesmo quando são chineses ou lá viveram. Os autores que aqui utilizamos como fontes escrevem para um público ocidental. Anchee Min (1998). 1966. 205) o grande número de cirurgias para aumentar o tamanho dos olhos e como a estética ocidental está influenciando as mulheres chinesas. sacudido por guerras e transformações sociais. 91). como diz Gilberto Scofield. ou ainda. Ou então como bem sucedida pirata. Mas talvez ainda seja possível ouvir as palavras do velho Wang ecoarem entre os milhões que vivem nos campos: “[. e só depois mulher. A partir do século XX. nem acende a lâmpada” (Pearl Buck.”3 O jornalista constatou (2007. 2001.globo. Akeu (id. Deng Yingchao (1904–1992). E.. Bao Lord (1990). sem contar que na atualidade o cotidiano chinês é relatado numa perspectiva feminina por autoras nativas.. mostrando-se tão intrépida quanto os demais insurgentes (Henri Tsai. p. Zhu Di. sem espaço para “feitos” de mulheres.virginia.] a luta comunista significou também um projeto de Nação onde a mulher era primeiro camarada. embora todas com algum tipo de relação com a sociedade ocidental. p. 22). Não cozinha o arroz. mesmo em tempos recuados da história. considerando as características de uma sociedade patriarcal.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado é a expressão da riqueza da cultura e da sociedade ao longo dos tempos e que somente em sua vida cotidiana pode ser entendida. o que evidencia haver registro de sua atuação ao longo da história – chega a ser surpreendente. despontam lideranças na vida política chinesa e nomes como os de Song Qingling (1893-1981). Shi Liang (1900 – 1985) e Wu Yi (1938-) se destacam em termos de liderança revolucionária e atividade feminista.. contribuem para consagrar as representações sociais que temos sobre seu povo.html 3 http://oglobo. Assim é que a imperatriz Ma esteve ombro a ombro com o fundador da dinastia Ming.village. p. ambas viveram o conturbado século XIX. Mas a própria diversidade de personagens e situações da literatura nos permite desconstruir tal imaginário. 104). no combate aos mongóis. principalmente nos grandes centros urbanos.

conversavam comigo sobre as mulheres chinesas e diziam que elas eram fisicamente distantes. aos quais se juntam jornalistas orientais. sabia quão ricos são os seus sentimentos. dá um ‘glup’. ou gosto. e ninguém sabia disso. E quando meus alunos perguntavam sobre as mulheres chinesas. a autora continua com seu projeto de dar voz aos chineses anônimos. as fantasias inspiradas pela mulher chinesa não estão associadas à beleza. um país enorme. boca.. e parodiando o poeta. bumbum. cara a cara. Por não terem as amarras dos cientistas.estadao. com sexo. e isso me deixava brava. como a já citada Xinran. 4 Em sua obra mais recente publicada no Brasil (2009). Mas voltando ao que nos interessa. Eu tinha entrevistado mulheres chinesas. mais de duzentas mulheres..08 @ 11:31 Com certeza já fizeram plásticas para os olhos. com 1.000 anos de civilização. em 1998. mas podem servir igualmente de marcas de desvalorização ou de exclusão. peitos. por como era limitado o conhecimento delas sobre o meu país. emocionalmente frias.uol.com.08.08. Então escrevi o livro. 18. que não tem nada a ver com o padrão ocidental.shtml 5 http://blog. Uma cópia que se obtém no 4 http://www1. Assim. Para os ocidentais a China se embeleza ou se transforma pela influência exterior. os jornalistas saíram na frente nesta nova onda de interesse pela China. e aqui transcrevemos na íntegra os comentários de dois leitores: 18.3 bilhão de habitantes. mas quando vemos o corpo. que declarou sobre seu livro mais conhecido: Quando comecei a escrever “As Boas Mulheres da China”. já morava na Inglaterra. 5. por que elas não se preocupavam com os relacionamentos. Decidi escrever o livro porque meus alunos. eu estava ferida pela ignorância das pessoas no Ocidente. a representação se torna um estigma de raça e acompanha não uma pessoa.br/folha/ilustrada/ult90u585792..folha. com beleza. eu ficava muito irritada. já que não a possuem aos olhos ocidentais. No blog do jornalista Felipe Machado5 há uma seleção das “mulheres mais bonitas da China”. Neste caso.08 @ 13:58 Os rostos são lindos mesmos. Eu sabia como elas são fantásticas. Ao mesmo tempo. :D Imagens são manifestações ou tentativas de conhecimento e comunicação. etc. a beleza feminina é uma marca importante de alteridade.com.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado o mundo com suas “maravilhas”. quando eu dava aulas na Universidade de Londres. mas todo um povo.br/blog/pingpong/?title=as_mulheres_mais_bonitas_da_ china&more=1&c=1&tb=1&pb= 34 .

documentários e artigos de especialistas. mas estiveram também presentes em conspirações palacianas. subordinadas à lógica da subsistência e ao patriarcado na sua versão oriental. coolies. E assim mais uma vez a imagem da mulher chinesa e a de seu país estão intrinsecamente associadas. A imagem da mulher se confunde com a do país: fino. de passos tão curtinhos quanto os seus pés – são componentes de um imaginário caricatural. junco. sedutor e redutor. delicado. misteriosos e perigosos – os chineses. criados num passado que ainda se mantém vivo. portanto.que no caso da mulher chinesa se baseiam em estigmas no estilo “mulher exótica”. O artigo demonstrou. rebeliões e. dirigiram a nação. tais como China. As mulheres no campo trabalhavam pela sobrevivência. as da corte obedeciam à etiqueta estabelecida pelo cânone confucionista. Mas a presença de chineses em nosso cotidiano por conta de seu avassalador crescimento econômico nos obriga a repensar as velhas noções e preconceitos. As generalizações . Aos olhos das sociedades patriarcais do Ocidente é uma nação feminina. Diferentes. combinando a tradicional lógica patriarcal e o processo histórico conhecido por modernidade.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado bisturi ou pela força das idéias – como no filme Balzac e a Costureirinha Chinesa (2002) em que os livros do escritor francês transformaram subversivamente dois rapazes enviados para reeducação no campo e uma jovem da pequena localidade. subproduto dos interesses de expansão econômica e de afirmação identitária ocidental. 5. Mas entre o feminino contido nos princípios filosóficos e a realidade interna da China há uma distância considerável. Na atualidade. elaborados para serem consumidos no Ocidente. expresso em palavras de uso comum. A alteridade contida na base tradicional é assim tensionada por novos conhecimentos e informações. a dócil e exótica criatura de pés diminutos se transformou na consumidora voraz dos tempos de globalização. Na atualidade. dócil. eventualmente. o que não significa negar as especificidades de sua cultura e de suas demandas contra o patriarcado. A mulher que ocupa o espaço territorial da China pode pertencer a etnias e tradições distintas e mesmo que não seja da etnia han recebe os respingos de um passado longo e construído imaginariamente. que a mulher chinesa não é tão exótica quanto o imaginário ocidental a representa. Ao longo deste período foi criado um imaginário acerca de sua cultura e do seu próprio ser. O imaginário presente na literatura e conceitos filosóficos tradicionais agora se mistura à nova safra de produções literárias. Nossa análise evidenciou uma situação ambígua. kung fu. passivo e misterioso. “submissa e misteriosa”. São as princesas e imperatrizes que fornecem o modelo da mulher chinesa ao exterior. criando um ambiente propício ao surgimento de novas representações sociais. filmes. 35 . a globalização se apressa em traçar seu perfil de consumidora. fascinantes e sedutores. Considerações Finais A modernidade nos trouxe finalmente os antípodas. menos que conhecê-las de fato. entre outras. estranhos.

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O que queres tu mulher? Manifestações de gênero no debate de constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”
Luciana Santos Silva1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) Orientadora: Profa. Dra. Eliane Hojaij Gouveia 1. Introdução O presente artigo visa analisar as manifestações de Gênero nas argumentações jurídicas, coletadas em artigos e peças processuais2, que contêm manifestações acerca do debate sobre a constitucionalidade da lei 11340/2006, conhecida como “Lei Maria Penha”. A referida norma foi sancionada no ano de 2006, com o objetivo de prevenir e combater a violência contra a mulher no âmbito doméstico e intrafamiliar. A “Lei Maria da Penha” é um microsistema legislativo que alberga normas dos diversos ramos do Direito, tais quais: Direito Penal, Direito Trabalhista, Direito Civil e Direito Administrativo, percebendo a violência contra a mulher e sua superação como fenômeno multidisciplinar, regulando a criação de juizados específicos para julgamento das causas e a intervenção de equipe formada por profissionais de diversas especialidades com vistas à superação da violência. A entrada em vigor da lei 11.340/2006 cindiu o campo jurídico no que diz respeito a sua adequação aos preceitos da Constituição Federal. Uma corrente de juristas entende que a “Lei Maria da Penha” ao afastar da sua tutela o homem vítima de violência doméstica3 tem o objetivo de promover a igualdade de Gênero na medida em que historicamente são as mulheres que vêm sofrendo com a violência familiar. Por outro lado, foi identificado um grupo do campo jurídico que advoga que a lei fere o princípio constitucional da igualdade4, visto que cria um desequilíbrio nas relações de Gênero quando protege apenas as pessoas do sexo feminino, culminando, segundo entendimento do grupo, em uma indesejada discriminação em razão do sexo.
1 Mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Graduada em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Professora de Direito Penal da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Coordenadora do curso de Direito da Faculdade de Tecnologia e Ciências – Vitória da Conquista - BA. Diretora da União de Mulheres de Vitória da Conquista - BA. 2 No jargão jurídico, são manifestações escritas em um processo: decisões, petições e pareceres. 3 A “Lei Maria da Penha” delimita, de forma expressa, sua aplicação apenas às mulheres em situação de violência doméstica, excluindo os homens de sua tutela, mesmo que vitimas de violência. 4 O principal foco de discussão sobre a adequação ou não da “Lei Maria da Penha” à Carta Maior parte do princípio constitucional inserto no art. 5º da CF, o qual inscreve que: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito á vida, á liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos seguintes termos: I - Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição. 39

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A partir desse debate que se instaura no campo jurídico, o presente trabalho com foco nas Ciências Sociais pretende, através da interseção entre Direito e Gênero, analisar as manifestações de Gênero a partir do debate jurídico sobre a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. Para tanto foi utilizada a definição de campo jurídico apresentada por BOURDIEU (2006) para delimitar o campo a ser pesquisado. Para o citado autor, o campo jurídico é composto pela atividade da prática jurídica e da academia, servindo como ponto intermediário entre o mundo social e a técnica do Direito. Desse modo, o material selecionado para pesquisa, tornado fonte documental, é formado por peças processuais, artigos e livros produzidos por bacharéis em Direito. O mapeamento foi feito a partir da divulgação pela imprensa e na internet de notícias sobre processos judiciais que versavam sobre a “Lei Maria da Penha”, dos quais foram obtidas cópias de seus principais excertos por intermédio de colegas de trabalho ou contato por telefone com o órgão responsável. A busca dos artigos acadêmicos e livros se deu também a partir de citações encontradas nas referidas decisões judiciais ou em outros artigos e livros examinados, bem como por consulta na internet e em publicações de periódicos jurídicos. As peças processuais, artigos e livros levados em consideração compreendem o período de agosto de 2006, quando a lei foi sancionada, a dezembro de 2008. Assim, o material pesquisado conta com cento e dois documentos entre sentenças de primeiro grau, acórdãos, petição inicial de Ação Direta de Constitucionalidade, pareceres, livros e artigos jurídicos, com representação de todas as regiões que compõem a República Federativa do Brasil. Para análise dos mesmos foi desenvolvido um instrumento de pesquisa semi-estruturado (anexo 1), o qual foi preenchido a partir da leitura dos documentos selecionados. Essa técnica de pesquisa prática documental foi utilizada por GROSNER (2008), que aplicou instrumento de pesquisa em acórdãos do Superior Tribunal de Justiça – STJ, a fim de investigar a seletividade do sistema penal a partir das manifestações jurídicas daquele Tribunal. Assim como GROSNER (2008), IZUMINO (2004) também fez uso dessa técnica para investigar, a partir de decisões judiciais, a percepção que as mulheres em situação de violência doméstica têm do Poder Judiciário. A pertinência da técnica nesta pesquisa se dá pelo fato do campo jurídico ser também aqui delimitado a partir de documentos jurídicos, o que guarda semelhança com os trabalhos citados. A interpretação dos dados e mesmo a elaboração do instrumento de pesquisa teve por base a categoria analítica de Gênero, entendida como construção de identidade sexual, tendo por base relações de poder calcadas no patriarcalismo que reifica a mulher e institui o padrão heterossexual como norma. A pesquisa identificou três grupos no campo jurídico que tratam do debate sobre a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”: a) um que reputa a lei inconstitucional e propõe sua retirada do sistema jurídico (grupo I); b) um que tem a lei como inconstitucional, apontando como solução a aplicação da lei aos homens
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(grupo IR); e c) o grupo que percebe que a “Lei Maria da Penha” está em perfeita sintonia com a Constituição Federal (grupo C), conforme apontam as discussões seguintes. 2. Resultados e discussão da pesquisa 2.1. Percepção do Grupo que Advoga a Inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” O primeiro aspecto analisado sobre as manifestações jurídicas de inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” diz respeito ao reconhecimento da assimetria social entre mulheres e homens. As considerações aqui expostas resultam da aplicação do instrumento de pesquisa (anexo 1) ao grupo de documentos (I) que percebem a lei 11.340/2006 como inconstitucional. Assim, a pesquisa procurou averiguar se o campo jurídico, ao julgar a “Lei Maria da Penha” inconstitucional (grupo I), levou em consideração os debates voltados para a construção teórica da categoria analítica de Gênero. No instrumento de pesquisa (anexo1), os itens sete a dez serviram para basilar as conclusões aqui apresentadas acerca da interface entre Gênero e campo jurídico. Neste aspecto, a pesquisa constatou que ao reputar a “Lei Maria da Penha” inconstitucional, o campo jurídico não incorpora a categoria analítica de Gênero. A partir daí percebemos que há uma cisão entre campo jurídico e campo social, na medida em que de forma generalizada há a percepção de diferenças entre as pessoas, sendo vedado ao campo jurídico seu reconhecimento. Como ilustração desse resultado, podemos citar trecho do documento I- 01 que sustenta a inadequação da “Lei Maria da Penha” à Carta Constitucional: “A lei contém diversos problemas que merecem uma análise mais aprofundada da doutrina e da jurisprudência. Em primeiro lugar, está a sua duvidosa constitucionalidade. A Constituição de 1988 é peremptória ao determinar que ‘homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações’ (art. 5, I). Obviamente, a própria Constituição prevê exceções a favor da mulher, como a licença-maternidade gozada em tempo superior à licença-paternidade (art. 7º, XVIII e XIX). Exatamente por serem excepcionais essas normas, incide o princípio de hermenêutica (‘as exceções devem ser interpretadas restritivamente’), que proíbe a utilização da analogia para criar novas discriminações a favor da mulher ou de quem quer que seja.” Aqui notamos que a disposição argumentativa das manifestações de inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” tenta apresentar-se alijada do campo social, quando entende que qualquer lei, a exceção da Constituição Federal, não
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razão pela qual não há outro caminho a seguir senão de reconhecer a inconstitucionalidade da lei em análise. invisibilisa no plano do Direito qualquer assimetria de poder entre mulheres e homens. não geram diferenças jurídico-fundamentais entre pessoas a suplicarem tratamento discriminatório”. à liberdade. os heterossexuais: ‘homem ou mulher’ são iguais em direitos fundamentais e titulares de igualdade processual (simétrica paridade-isonomia) no direito democrático. como já exposto. Portanto. culturais. ao aplicar e 42 . de modo que legislador infraconstitucional não pode – sob qualquer pretextopromover discriminação entre os sexos em se tratando de direitos fundamentais. vedando ao Direito. à moradia. dentre o rol dos direitos fundamentais. Destarte. estéticas. representativo do grupo I. os amarelos. a denominada “Lei Maria da Penha” viola o direito fundamental à igualdade entre homens e mulheres e. na teoria da democracia. as mulheres. As desigualdades possíveis seriam apenas físicas. O excerto citado. Também expressando o isolamento do campo social no debate sobre a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha” segue excerto do documento I-06: “Nesse diapasão quando a Carta Magna. o negro. ao respeito e á convivência familiar e comunitária (art. na medida em que esta protege a mulher e não estende aos homens o mesmo tratamento jurídico. (Grifos do original). ao acesso à justiça. consagrou igualdade entre homem e mulher estabeleceu uma isonomia plena entre os gêneros masculino e feminino.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado pode trazer tratamento diferenciado em favor da mulher. ou seja. o índio. a lésbica. fora do âmbito constitucional. ao trabalho. não existe direito à diferença entre direitos fundamentais. visto que estes já lhe são igualmente assegurados.” Bem explica o assunto Rosemiro Pereira Leal: Não há direito à diferença no plano dos direitos fundamentais já acertados constitucionalmente para todos. à cultura. à alimentação. à cidadania. à segurança. sob pena de romper o princípio da igualdade jurídica. à dignidade. quando utiliza como premissa argumentativa o fundamento de que possíveis disparidades são criadas pela “Lei Maria da Penha”. à saúde. ao lazer. o deficiente não são desiguais a ninguém quanto aos direitos fundamentais na teoria da constitucionalidade democrática. Aqui há uma inversão no sentido de que é o campo jurídico.º 11.3º). ideológicas ou econômicas. Enfatiza o autor que “direitos diferentes.340/2006 tem como fim específico combater a violência contra a mulher e assegurar o exercício efetivo dos direitos à vida. visa assegurar direitos fundamentais única e exclusivamente às mulheres. A Lei n. Tanto eles quanto os brancos. A possível existência de direitos diferentes só ocorre no sobrenível da normatividade fundamental. à educação. ao esporte. o homossexual. psíquicas. qualquer interferência para equilibrar as disparidades sociais entre homens e mulheres.

o documento I-09 que traz para construção da argumentação de inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” a seguinte premissa: “[. o que pode ser observado quando o documento afirma que embora homens e mulheres sejam iguais em direitos. da tolice e da fragilidade emocional do homem. Para BOURDIEU (2007) um dos mecanismos da opressão de Gênero se dá pelo discurso de naturalização.” (Grifos do Original). as assimetrias de Gênero perdem seu caráter cultural. herética porque fere a lógica de Deus.. mas também em virtude da ingenuidade. suas funções também o serão. os frutos também o serão.... As disparidades de Gênero são totalmente invisibilizadas como construção cultural. vaticinou. Pois se os direitos são iguais .].. ou de prevalência masculina. biologizando as relações de Gênero.] o teu desejo será para o teu marido. em seu ser. o excerto trabalha com a naturalização desse processo histórico quando prescreve que a prevalência masculina é característica imutável do mundo (“o mundo é e deve continuar sendo masculino”). irado. contudo. 43 . portanto. herética porque é inconstitucional e por tudo isso flagrantemente injusta.como posta ou editada . jurídica. sendo internalizadas como natural e imutável. Deus então. E para a mulher disse: [.. cada um. e ele te dominará [. Herética porque é antiética. Se se prostitui a essência.] O mundo é e deve continuar sendo masculino. como realidade do campo social para galgarem o status de criação. histórico e contingente. de uma heresia manifesta. ainda. Se o ser for conspurcado. Esse argumento é construído através da segregação de funções afetas ao masculino e feminino. Além de pregar expressamente a manutenção do status quo nas relações de opressão de Gênero. leia-se ficção. Senão vejamos a transcrição de parte do documento I-09 sobre o tema: “Esta ‘Lei Maria da Penha’ .porque são -. afinal. (..é. Outro ponto que merece destaque é o apelo à ordem divina como meio de invisibilizar o processo sócio-cultural de hierarquização das relações de Gênero. que consiste em imputar as diferenças entre mulheres e homens a fatores biológicos. Destacamos.).5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado reconhecer a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”.. pois as funções são também naturalmente diferentes. “suas funções são naturalmente diferentes”. Ora! A desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher todos nós sabemos -. Desse modo. para ambos. que cria desigualdades entre mulheres e homens.

que domina o mundo nesta preconceituosa lei. mas ao menos um ‘o que você acha?’ Isto porque o que parece ser não é e o que efetivamente é não parecia ser. que o documento I-09 adjetiva de herética. assim como a sociedade Cabila (BOURDIEU: 2007).e na esteira destes raciocínios – dou-me o direito de ir mais longe. para que também as coisas fossem postas.Jesus ainda assim a advertiu. que sofreu representação no conselho Nacional de Justiça acusado de posicionamentos machistas em decisões judiciais) do documento citado em nota de esclarecimento sobre suas sentenças afirma que: “Mas. uma vez que transcende aos humanos e à sociedade (categoria ahistórica). forja a neutralidade do campo jurídico através da naturalização das assimetrias de poder entre mulheres e homens. repito. Qual das posições deverá prevalecer até que. cada uma em seu devido lugar: “que tenho contigo. (FOLHA DE SÃO PAULO: 24 DE OUTUBRO de 2007) 44 . mulher!?” Quando o documento I-09 afirma “que a desgraça humana começou no Éden” lança mão. nos conduz a conclusão bem diversa. e em definitivo! O mundo é masculino!5 A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi Homem! À própria Maria .. II). o direito natural. Por isso . inc. e próprio em cada um destes seres.340/2006. do recurso ao mito original de criação como forma de lastrear o predomínio masculino posto como ordem suprema e inquestionável. o reconhecimento que a “Lei Maria da Penha” inverte 5 O autor (juiz da comarca mineira de Sete Lagoas. Por causa da maldade do ‘bicho’ Homem. pois é exatamente por ele que ela quer se sentir protegida -.e não se sentiria assim se fosse o inverso”. e como inclusive já ressaltado. há. Aqui não há invisibilização das disparidades sociais entre mulheres e homens. a Verdade foi então por ele interpretada segundo as suas maldades e sobreveio o caos. porque. o respeito ao seu sofrimento (que lhe credenciou como ‘Advogada’ nossa diante o Tribunal Divino) ..] de sua mulher (art.um e outro não abrem mão de sua posição e não se entendem. o que quis dizer eu com ‘prevalência masculina’? Ora! O que quisemos dizer foi o seguinte: suponhamos uma situação de absoluto e intransponível impasse entre o marido e a esposa sobre determinada e relevante questão doméstica -.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Já está lei diz que aos homens não é dado ‘controlar as ações (e) comportamentos [. Mas à parte dela. Argumentação utilizada no citado documento para defender a inconstitucionalidade da Lei 11. sim. é tida como criadora de descriminação injusta ao determinar dispositivos de proteção apenas para as mulheres.e o deve ser -. a mulher não suporta o homem emocionalmente frágil. a Justiça decida? De minha parte não tenho dúvida alguma que deverá prevalecer a decisão do marido. culminando na relação entre homem e mulher. fazendo parte do desejo e do mistério divino. E vou mais longe: creio que não será do agrado da esposa que fosse o inverso. Ora! Que o ‘dominar’ não seja um ‘você deixa?’. 7º. Ao recorrer à sustentação religiosa e biologizante o documento I-09 retira a legitimidade do campo jurídico ou de qualquer outra força social para modificar as relações de Gênero. afinal.inobstante a sua santidade. A “Lei Maria da Penha”. civilizadamente. além de recorrer à fundamentação divina.

ao final. que serviu de bandeira para a criação da lei 11. O documento citado. em que a hegemonia masculina deve prevalecer. As instâncias públicas e o Direito. por um horrível drama familiar. com suas costumeiras pretensões totalitárias. o qual traz que: “O Estado. 45 . O que não podemos aceitar é uma lei travestida de vingança social com sérias conseqüências no cotidiano de milhares de outras pessoas.340/2006. senão vejamos: “Frise-se. entra na vida familiar e disciplina o que é ou não permitido. Os crimes praticados contra a mulher no âmbito do lar são minimizados e referidos como pequenos atritos diários. Isto pode ser observado no documento I-06 ao apresentar razões para a inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. remete a celeuma à esfera privada do lar e das relações íntimas. pequenos atritos diários podem ser considerados crimes ou dar ensejo a indenizações por dano moral”. como meio legítimo de intervenção nos casos de violência doméstica contra a mulher. que não deixamos de estar sensibilizados com a tragédia que vitimou a Sra. A partir da análise qualitativa dos quesitos onze e doze do instrumento de pesquisa foi possível perceber que o grupo I ao afastar o campo jurídico. privatiza as relações de Gênero. Do mesmo modo.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado a ordem tida como natural e original das relações patriarcais de Gênero. é visto como mero conflito familiar. representativo do grupo I. a idéia de privatização da violência doméstica é refletida no documento I-0. De repente. emprestou o nome à lei em comento. Maria da Penha. em especial. sendo a “Lei Maria da Penha” vista como invasão totalitária na vida familiar. Maria da Penha. especificamente no que diz respeito à violência doméstica contra a mulher. que. solução pública de conflitos. que seria de tornar pública a violência doméstica contra a mulher. não são reconhecidos como instância de intervenção legítima nesta seara específica. como soe acontecer com esta e outras que “respondem” ao apelo momentâneo e emporcalham o sistema por vários anos”. Outro ponto de constatação da pesquisa quanto ao grupo que entende ser a “Lei Maria da Penha” inconstitucional foi a privatização do conflito de Gênero.6 No mesmo sentido. a propósito do que foi dito acima. A violência doméstica contra a mulher é remetida ao predomínio do espaço privado como limite para discussão. A reivindicação individual e coletiva por igualdade entre os sexos é invisibilizada quando o caso da Sra. a violência doméstica é privatizada. negando a violência doméstica enquanto conflito social. 6 Aqui há um movimento inverso do pleiteado pelo movimento feminista na década de 60 e 70.

crianças. salvo. quando. Assim. além da percepção de Gênero nos documentos e da relação público/privado. a exemplo do I-01. verificaram-se as representações de Gênero que se constroem tendo por base a heterossexualidade como padrão de relacionamento íntimo. o citado documento I-01 destaca que ser homem pode ser crime. ser homem pode ser um crime. idosos. inferiorizando a mulher ao rotulá-la de incapaz e frágil por sentir sua autoestima ferida quando vítima de violência. assumem de forma direta a hegemonia do masculino. A partir dessas premissas. nos dias de hoje.. exceto se pertencer a alguma minoria legalmente protegida. ao contrário vêm para culminar nesta lei absurda. adolescentes e. podendo ser ‘ferida em sua auto-estima’ por qualquer palavra ou atitude dissonante do companheiro.. Esse padrão se repete no documento I-09 nos seguintes termos: “Enfim! Todas as razões históricas. a partir da análise do grupo I que se manifesta pela inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. filosóficas e psicossociais. sendo a “Lei Maria da Penha” a violadora da ordem do lar. Aquele que ama a mentira. Enfim. Observamos também que a representação social da heterossexualidade como norma de comportamento é reforçada por parte do grupo I. outro aspecto representativo do Sujeito Constitucional. Ao apresentar os atos que a Lei coíbe e pune como atos inevitáveis no cotidiano de um casal. durante a pesquisa foram sendo observadas algumas constatações que inicialmente não estavam em nossos objetivos. sinalizando que a violência em uma relação doméstica é algo natural. a perfídia e a confusão certamente está rindo à toa! Porque a vingar este conjunto normativo de regras diabólicas.] Assim. homossexuais. a lei considera-a como incapaz de cuidar de sua higidez mental. a dissimulação. chamada eufemisticamente de “atitude dissonante”. categoria adjetivada como “moralmente inferior”. a 46 . índios. em um futuro próximo. ao invés de nos conduzir ao equilíbrio. por exemplo. ao lado da afirmativa de que ser homem pode ser um crime. Nesses casos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Alguns documentos analisados que compõem o grupo I. Desse modo. senão vejamos: “A pretexto de proteger a mulher. se homossexual. como negros. que mais se assemelha a uma bomba. ser punido por atos que inevitavelmente ocorrem no cotidiano de um casal significa penalizar o homem como tal e não os fatos em si. a ‘condição moralmente inferior’ do homem pode ser ‘compensada’ pelo fato de que a lei o considera também como uma vítima!” Os valores das relações patriarcais de Gênero são reafirmados diante da desqualificação da violência contra a mulher. característico da dualidade do pensamento patriarcal que surge do binômio: homem/mulher é a assunção da heterossexualidade como padrão de orientação sexual. [. equipara-se homem e violência.

como nós vimos. com a ressalva de que a mesma pode ser aplicada aos homens. a perfídia. em lugar da retirada da Lei do sistema jurídico. a heterossexualidade é reforçada como única forma de orientação sexual legítima.porque sem pais. os filhos sem regras . O ponto convergente entre ambos é o entendimento que a Lei 11.2. imparcial e sem qualquer relação dialógica com o campo social. o campo jurídico que foi inicialmente divido em dois grupos (manifestação de inconstitucionalidade e manifestação de constitucionalidade) foi acrescido por um intermediário (manifestação de constitucionalidade com aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens). Diante disto. o grupo que defende a constitucionalidade. à semelhança da caixa de pandora. construídas a partir da uma argumentação jurídica que se apresenta como neutra. apregoa a sua extensão a qualquer pessoa que sofra violência doméstica. como mais um exemplo. a mentira. como inclusive já está: desfacelada. corrompendo a ética. Resultados do Grupo que Defende a Aplicação da “Lei Maria da Penha” aos Homens Durante a aplicação do instrumento de pesquisa foi identificada uma fração do campo jurídico. desde que a Lei seja aplicada a qualquer pessoa. 2. demandando um novo rearranjo.1. a confusão e a quebra da isonomia social entre mulheres e homens. além da subjugação da mulher no espaço privado do lar. Enquanto que o grupo I que advoga a inconstitucionalidade da lei 11. também parte da premissa da violação do princípio da igualdade. assim como o casamento e a adoção por homossexuais. a dissimulação. a adoção por homossexuais e o ‘casamento’ deles.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado família estará em perigo. desde que não restrita 47 . o estudo do campo jurídico que se manifesta pela inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” constatou nessas manifestações a produção e reprodução das relações patriarcais de Gênero. embora repute a Lei constitucional. Tudo em nome de uma igualdade cujo conceito tem sido prostituído em nome de uma sociedade igualitária”.340/2006 viola o princípio constitucional da igualdade. inicialmente alocada no grupo que se manifesta pela constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. trouxe à tona o desequilíbrio. Como base nesta idéia. Enfim. não significa sem ética. Após análise qualitativa do instrumento de pesquisa percebemos que esse grupo. a vigência da “Lei Maria da Penha”. traz uma estratégia jurídica que o equipara ao grupo que manifesta a inconstitucionalidade. Como representação social do excerto citado. Embora o grupo que defende a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens aponte como conclusão a constitucionalidade da Lei. o homem subjugado. sem preconceito. contudo.340/2006 por entender que o princípio da igualdade foi violado propõe a retirada da Lei do ordenamento jurídico.

em face do princípio da isonomia. em geral. como se a “Lei Maria da Penha” fosse tão só um fenômeno jurídico.01. porque o art. 21. por violação ao principio constitucional da isonomia. alocando-o no grupo que advoga sua inconstitucionalidade. negando. que é a disposição da argumentação jurídica sem qualquer relação dialógica com o campo social. Interessante registrar que o excerto do documento citado. Neste mesmo sentido o documento IR-04: 48 . II. mas como fruto da relação familiar. 226. da Constituição Federal. Diante disto. c/c art. no entanto. mas apenas na pequena célula familiar. trata a violência que a “Lei Maria da Penha” regula não como decorrente de um contexto social em que os papéis femininos e masculinos são delimitados pelo modelo patriarcal. compatibilizam-se e harmonizam-se. o grupo denominado de IR que defende a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens tem por característica a não utilização da categoria analítica de Gênero. portanto. 226. possível a simples eliminação da norma produzida como elemento para afastar a análise do pedido de quaisquer das medidas nela previstas. mas tão somente a extensão dos seus efeitos aos discriminados que a solicitarem perante o Poder Judiciário. representativo do grupo. I e art. não possibilitaria discriminação aos homens em igual situação. Aqui notamos um traço característico do grupo IR. assim a Lei não é vista como uma forma de intervenção na sociedade. 5º. sem qualquer intervenção do e no campo social. não autoriza a conclusão de afastamento da lei do ordenamento jurídico. 5º. propiciando a aplicação indistinta da lei em comento tanto para mulheres como para homens em situação de risco ou de violência decorrentes da relação familiar”. II. §8º. §8º. todos da Constituição Federal. representativo do grupo IR. evidencia o traço observado no grupo IR e pelo grupo I de perceber que a disparidade entre mulheres e homens foi criada pela “Lei Maria da Penha” e não na e pela sociedade. não sendo. formada pelo simples fato das pessoas viverem juntas. assimetria no exercício de poder entre mulheres e homens na sociedade. O documento IR. optamos por deslocar esses documentos do grupo que defende a constitucionalidade da Lei. Em consonância com o grupo I. quando o art.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado às mulheres. caso por caso. Quando o excerto afirma que a Constituição não permite discriminação aos homens no tratamento jurídico da violência doméstica. traz o seguinte argumento: “A inconstitucionalidade por discriminação propiciada pela Lei Federal 11. sua fundamentação tem por base o argumento da inconstitucionalidade relativa. semelhante ao grupo I. de modo a incidir em inconstitucionalidade relativa. Tal inconstitucionalidade. c/c art. anteriormente analisado.340/06 (Lei Maria da Penha) suscita a outorga de benefício legítimo de medidas assecuratórias apenas às mulheres em situação de violência doméstica.

absolvese o patriarcalismo através da suposta neutralidade e imparcialidade do Direito que inadmite qualquer diferenciação entre as pessoas.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado “O tratamento desigual tampouco se justifica por não haver adequação ao princípio da razoabilidade pelo argumento de que as mulheres sofrem violência doméstica em maior quantidade. devido ao princípio da igualdade entre os sexos. Desse modo. essa estratégia acaba por referendar as relações patriarcais de Gênero no seio da família e da sociedade. diante da negação da realidade das relações patriarcais de Gênero. portando. quando o grupo IR estabelece que a Lei 11. em hipótese alguma. que homens sofrem homicídio por emprego de arma de fogo em escala muito maior do que as mulheres. de modo a cessar o tratamento desigual e garantir a legislação que visa coibir a violência doméstica contra qualquer integrante da família. que ocorre quando a violência doméstica é invisibilizada. ao analisar os mecanismos de perpetuação do controle patriarcal. retirando de pauta a problemática patriarcal de Gênero introduzida pelo legislador. aqui é possível. denomina de “negação da realidade”.340/2006 cria o desequilíbrio nos papéis sociais de mulheres e homens. expressamente exige o §8º do art. As estatísticas não tornam menos gravosa a conduta quando atinge vítima do sexo masculino. mas isso. Assim. na perspectiva social. conforme. trocando-se a expressão ‘violência doméstica ou familiar contra a mulher’ por ‘violência doméstica e familiar contra a pessoa’.. a fim de preservar uma suposta igualdade constitucional. a invisibilidade da violência contra a mulher e suas imbricações com o patriarcalismo acaba confinando essa espécie de violência ao âmbito privado. por exemplo.340/2006 fosse alterada.” Assim. precipuamente. [. com a possibilidade de intervenção do Poder Judiciário. na medida em que o grupo IR propõe a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens. a existência de lei estabelecendo pena menor para os casos em que a vítima fosse do sexo feminino. anteriormente analisado. Com essa estratégia legal. o grupo IR passa a tratar as relações entre os membros da família de forma massificada. porque a vítima pode ser criança ou idoso. repita-se.. 11. excluindo as peculiaridades da violência contra as mulheres e a identidade feminina desenhada no e pelo modelo de sociedade patriarcal. justificaria. 226 da Constituição Federal.] Para tanto. invisibilizando e. possibilitando que o homem continue a exercer de fato o “pátrio poder”. em detrimento da inferiorização e submissão da mulher no lar e na sociedade. Ao estender a aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens. Embora a violência doméstica seja aparentemente publicizada. está negando a existência de qualquer assimetria social de Gênero. É inequívoco. identificar o movimento que SABADELL (2005:25). bastaria que a Lei n. como condição de sua adequação à Carta Maior. aliás. como no grupo I. 49 .

referendando. A categoria analítica de Gênero é utilizada constantemente pelo grupo C. a refletir. As Manifestações de Constitucionalidade da “Lei Maria da Penha” O grupo denominado de “C”. a publicização do conflito e a percepção da Lei como meio de desequiparação legal e legítimo para promover o combate e a prevenção da violência contra a mulher no campo social. conclui-se que o sentido do princípio da isonomia aproxima-se da idéia aristotélica de justiça: “aos desiguais dispensa-se tratamento desigual. Com base no delineamento de campo jurídico apresentado por ENGELMANN (2006).2. relegando-se à mulher uma posição secundária. A pesquisa constatou que o grupo C tem como premissa o reconhecimento da categoria analítica de Gênero. entende que a “Lei Maria da Penha” não apresenta nenhuma macula legal. Assim. em última análise a manutenção do status quo das relações patriarcais de Gênero.” (Grifos do Original) 50 .5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado A extensão da aplicação da “Lei Maria da Penha” aos homens é uma estratégia adotada pelo campo jurídico.]. diante do fato público e notório da quantidade de agressões sofridas pelas mulheres na intimidade doméstica [. O documento C-21 que trabalha com a constitucionalidade da Lei “Maria da Penha” traz o seguinte registro: “A política de repressão à violência contra a mulher. é percebida através do reconhecimento das assimetrias de poder no seio social entre mulheres e homens. 2. estabelecendo o diálogo entre o campo jurídico e o campo social. na exegese do aludido princípio. está intimamente ligada à necessidade de concretização do princípio constitucional de isonomia. conforme assinalado corretamente pelo apelante.. atuando como pólo conservador e constituindo-se como fator real de poder em prol da ordem patriarcal nas relações sociais de Gênero. de conseqüência.” Portanto. Tais aspectos apontam a notória predominância do homem na condução dos assuntos familiares. assim como no grupo I que defende a inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. constatamos que o Direito aqui apresenta-se como neutro. ou. a qual nega a realidade do campo social.. circunstâncias essas que configuram uma ineludível desigualdade entre ambos. para se alcançar uma possível igualdade entre o homem e a mulher brasileiros na esfera familiar. efetivada pela ‘Lei Maria da Penha’. o princípio que consagra a igualdade do homem e da mulher perante a lei não poderá desprezar os aspectos históricos e sociais que envolvem cada um deles na família brasileira. que analisaremos neste tópico. procurando diminuir a desigualdade de condições entre homens e mulheres na busca da dignidade da pessoa humana. conservador e prático. devendo ser aplicada pelo campo jurídico na forma em que foi promulgada.

pois a própria Constituição Federal previu a criação de uma Lei para coibir a violência doméstica.340/2006. bem como a “Lei Maria da Penha”.340/06. o recorte dado á mulher em situação de vítima desta espécie de violência. (Grifos do Original). onde a mulher é.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado Destarte. então. a parte hipossuficiente da relação. na mesma linha.340/2006 como política pública de repressão à violência doméstica contra a mulher. §8º. O documento C-19 também expõe. Assim. o documento mencionado sintetiza a percepção do grupo C sobre o desenho assimétrico dos papéis sociais de mulheres e homens na sociedade brasileira. o Estatuto da Criança e do Adolescente. Frise-se. a percepção do grupo C. pois estes também estariam ferindo o princípio da isonomia. o Código de Defesa do Consumidor. a violência familiar não é tratada de forma genérica. estão voltadas às pessoas mais vulneráveis e merecedoras de especial proteção. o artigo 226. denunciando a vigência de fato da hegemonia masculina na condução dos assuntos familiares. já dispunha que seriam criados mecanismos para coibir a violência no âmbito familiar. denunciando e dando visibilidade á submissão da mulher forjada pela cultura patriarcal. pois o mesmo diploma legal prevê que ‘O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram. problematiza. da Constituição Federal. §8º. a qual dá suporte à Lei 11340/2006. A partir. para dar cumprimento ao dispositivo constitucional. também ter-se-ia que declarar inconstitucional o Estatuto do Idoso. sem ferir o princípio da isonomia. Assim como no excerto do documento C-21. senão vejamos: “Com efeito. citado anteriormente. que em sendo declarada a inconstitucionalidade da Lei 11340/2006. bem como está presente na Constituição Federal a diferença entre a igualdade formal e material. Com efeito. não há falar em inconstitucionalidade da Lei 11. efetivamente. então. e que apenas estaria protegendo a mulher não tem respaldo. ferindo o artigo 226. como alegado pelo apelante. sinalizando que a realidade de assimetria de Gênero no campo social ainda não foi vencida. estas Leis. a alegação de que o homem estaria sendo excluído do núcleo familiar. 51 . Daí porque foi editada a Lei 11. é tida como instrumento legítimo de intervenção no campo social em favor da superação da dominação masculina. procurando igualar quem é desigual. ainda que quase vinte anos depois da promulgação da Constituição Federal. de tal dispositivo é que a “Lei Maria da Penha” foi publicada. A relação dialógica entre o campo jurídico e o campo social é acentuada pela classificação da Lei 11. A “Lei Maria da Penha” para o grupo C. Diante disso. criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações”.

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Nos documentos citados, representativos do grupo C, a intimidade doméstica é tida como o espaço privilegiado de ocorrência da violência contra a mulher, o que aliado à nota de que a “Lei Maria da Penha” faz parte de uma política de repressão, conduz a celeuma do privado ao público. Na medida em que há assunção pelo grupo C de que é: “fato público e notório a quantidade de agressões sofridas pelas mulheres na intimidade doméstica” e que “a mulher é, efetivamente, a parte hipossuficiente da relação”, o ato de agressão contra a mulher na esfera intrafamiliar é reconhecido como oriundo da desigualdade material entre homens e mulheres, sendo o lar e a relação íntima apenas o locus de acontecimento, afastando com ênfase a privatização desta espécie de violência. Embora PIERROT7 (1997) destaque que a divisão entre público e privado tenha tomado evidência no século XIX, ARENDET (2008) acentua que no século XX os planos público e privado, mesclam-se, neste ínterim que o movimento feminista8 teve grande contribuição na dissolução da barreira entre essas duas esferas, sobretudo com a reivindicação de visibilidade da violência doméstica. A partir daí, observamos que o grupo C ao reconhecer a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”, legitima a pauta do movimento feminista de dar à violência intrafamiliar contra a mulher uma conotação política. Esse argumento é utilizado pelo grupo C como sustentáculo do posicionamento da adequação da Lei 11.340/2006 à Carta Maior, denotando a superação do dualismo patriarcal apontado por WILSHIRE (1997) e BOURDIEU (2007): público/privado e masculino/feminino. A superação do dualismo que caracteriza as relações de Gênero na sociedade patriarcal equivale ao rompimento com esse padrão, ao qual o campo jurídico tem sua legitimidade de atuação resguardada. Senão vejamos o documento C-01: “[...] Diante dessa realidade, é patente a necessidade de adoção de medidas afirmativas em defesa das mulheres, a fim de corrigir a distorção social existente na sociedade brasileira, ainda patriarcal, uma vez que o número de mulheres vítimas de violência doméstica ou familiar, não obstante a falta de dados comparativos, é notoriamente superior ao dos homens.” Como sabido, não basta afirmar a igualdade formal, ignorando as disparidades sociais existentes, visto que militaria contra a concretização da
7 Para a autora, o público é o único domínio direto da intervenção, do poder e campo tido como dos verdadeiros valores, sendo reservado aos homens. (PIERROT: 1997 ) 8 COSTA (2007) sobre o tema indica que: “A concepção do caráter privado da violência doméstica impede que sua dimensão política seja evidenciada e que tenha o mesmo tratamento dos que outros tipos de crimes. A sociedade enfrenta o enorme desafio de tornar as estratégias que visam à liberdade das mulheres que sofrem violência um ato político, público e coletivo, capaz de reforçar iniciativas particulares, mas não menos relevantes. Assim, para que essas iniciativas sejam implementadas, faz-se necessário não apenas renomear a violência doméstica, para que não permaneçam dúvidas quanto ao seu caráter político, mas, também, reforçar a luta para que a concepção de que ‘o pessoal é político’ permeie as práticas individuais e coletivas, privadas e públicas”. 52

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desejada igualdade material, negando-se, assim, o objetivo a que a Carta Política buscou atingir. Com efeito, a distinção de tratamento revela-se, assim, plenamente justificada, tendo em conta situação social a que continuam sujeitas as mulheres, inexistindo, portanto, afronta ao princípio da igualdade. É indubitável que, não obstante a igualdade substancial entre homens e mulheres (essência humana), remanesce a disparidade social (....) (Grifos do original). A superação do dualismo público/privado e a relação dialógica entre campo jurídico e campo social passam pelo reconhecimento do grupo C do caráter histórico e cultural das relações patriarcais de Gênero. Desse modo, as assimetrias sociais entre mulheres e homens estão no plano da contingencialidade, do transitório e do dinâmico. O trecho citado é representativo do grupo C, evidenciando a legitimidade do campo jurídico em atuar de modo a interferir no campo social e, portanto, nos rumos da história no que toca às relações de Gênero. Destarte, a partir da categoria de ENGELMANN (2006), conforme dito anteriormente, o campo jurídico é constituído de dois pólos concorrentes9, sendo que o grupo C ao defender a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha” é classificado como pólo diversificado pelas seguintes características: politizado e crítico, em oposição ao pólo conservador. 3. Considerações finais ENGELMANN (2006) destaca que o campo jurídico divide-se em dois pólos, um tradicional e outro diversificado, os quais a pesquisa identificou de um lado o grupo I e o grupo IR, que defendem a inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” e, de outro, o grupo C que advoga a adequação da Lei à Carta Maior. Contudo, como assevera o citado autor, “essa grande oposição significa apenas um ponto de partida para a apreensão de lógicas mais complexas que definem as oposições e alinhamento no interior desse espaço” ENGELMANN (2006). Dessa forma, os dois pólos encontrados na presente pesquisa representam a luta simbólica de Gênero travada no espaço do campo jurídico, em que se digladiam duas forças: uma no sentindo de manutenção do status quo das relações patriarcais de Gênero e outra no sentido de superação dessas estruturas. A pesquisa constatou ainda que os dois pólos representam fatores reais de poder no campo jurídico, uma vez que tanto uma tese como outra tem amparo da academia e da prática jurídica. Contudo, vem predominando no campo jurídico a tese da constitucionalidade da Lei 11.340/2006, o que demonstra que o campo jurídico vem rompendo com a exclusão social da mulher, através da abertura à modificação das relações patriarcais de Gênero. Dos cento e dois documentos analisados, setenta pertencem ao grupo C que tem a “Lei Maria da Penha” como constitucional e trinta e dois ao grupo I que
9 Um desses pólos, já analisado, foi o segmento tradicional, representado na pesquisa pelos adeptos da inconstitucionalidade da Lei 11.340/2006. 53

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advoga a inconstitucionalidade da mesma, sendo que desses, dezessete defendem a retirada da Lei 11.340/2006 do ordenamento jurídico por ofensa à Carta Maior e quinze sustentam a tese da extensão da mesma aos homens. A aplicação do instrumento de pesquisa, através das questões dois e três, trouxe a informação que os cento e dois documentos analisados10 representam a manifestação de pensamento de cento e trinta e oito pessoas, das quais noventa e três são homens e quarenta e cinco são mulheres. Assim, observou-se que cinqüenta e um homens e trinta mulheres defendem a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”, enquanto, os que advogam relatando que a mesma viola o princípio constitucional da igualdade, trinta e dois são homens e quinze são mulheres. Dentre esse último grupo, vinte homens e nove mulheres se posicionam pela retirada da Lei 11.340/2006 da ordem jurídica e doze homens e seis mulheres defendem a extensão de sua aplicação aos homens. O maior número de homens nos grupos sinaliza o predomínio deles no campo jurídico, que é representado historicamente como um espaço público de poder, masculino por excelência. Destarte, através da própria estrutura do Poder Judiciário, enquanto fração do campo jurídico, é possível perceber as expressões simbólicas de Gênero vigentes no campo social em determinada época. Então, a fim de interpretar os dados coletados a partir do instrumento de pesquisa aplicado às manifestações jurídicas sobre a constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”, pesquisamos11 a composição das instâncias dos Superiores Tribunais, como cúpula do Judiciário, constatando que no Superior Tribunal de Justiça (STJ), no total de trinta membros, apenas cinco (cinco) são mulheres, enquanto vinte e cinco são homens12. Já no Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Poder Judiciário, conta com onze membros, sendo apenas duas mulheres13 e nove homens 14. Essas informações sinalizam que o campo jurídico ainda é um espaço predominantemente masculino, contudo, apontam também para a mudança desse paradigma, com o rompimento da barreira sexista através da entrada de mulheres em postos privilegiados do campo, como os Supremos Tribunais. O diálogo entre as constatações da pesquisa, de que o campo jurídico tende a atuar como identidade de resistência frente às questões de Gênero, e que o mesmo, apesar da mudança de sua formação, ainda é um espaço de homens, leva à conclusão de que embora o campo jurídico seja predominantemente masculino, não é necessariamente reprodutor das relações patriarcais de Gênero.
10 Esclareço que alguns documentos, como os acórdãos que são decisões coletivas dos tribunais, contaram com autoria coletiva, por isso a pesquisa contou com o número maior de pessoas que se manifestaram, quando comparado à quantidade de documentos. 11 Pesquisa realizada em 24 de julho de 2008. 12 Dados do site: www.stj.gov.br, em 24 de julho de 2008. 13 Também constatamos na pesquisa que a ministra Ellen Gracie Northfleet foi a primeira mulher a ocupar esse posto no recente ano de 2000, galgando a presidência do STF e do conselho Nacional de Justiça- CNJ- entre os anos de 2006 e 2008. 14 54 Dados do site: www.stf.gov.br, em 24 de julho de 2008

prevalecendo este último no campo jurídico. 1140/2006. Karla Galvão et TONELI. Ao contrário. Maria. em que os fatos históricos e. São Paulo: PAGU. In: A Condição Humana. portanto. Sexualidades Masculinas: Perspectivas Teórico.. participação e apoio dos homens foram fundamentais para o êxito das pautas feministas. A observação de dois pólos divergentes no campo jurídico só foi possível a partir da superação do modelo de história linear. Rio de Janeiro: Garamond. 2008. bem que a produção e reprodução dos valores patriarcais são levadas à cabo também pelas próprias vítimas desse sistema: as mulheres. masculinidades.Metodológica. Trajetórias do gênero. Neste último caso. Violência de Gênero. Rio de Janeiro: Garamond. Marcos. Robrigo Ghiringhelli et CELMER. Educação e Sexualidades. são percebidos em blocos. que a colaboração. que possibilita a interpretação da história. como a manutenção da dominação masculina transcendem a barreira sexista. que é fazer suas vítimas internalizar e referendar a dominação masculina. representando o entrecruzamento de dois modelos de relação de Gênero. As Esferas Públicas e Privadas. o campo jurídico reflete dois pólos.. “Flores do Colonialismo” Masculinidades Numa Perspectiva Antropológica.).170 – Janeiro. Toda Feita: o Corpo e o Gênero das Travestis. AZEVEDO. através do reconhecimento de coexistência dos fatos sociais. In: Miriam Grossi Pilar et al (orgs. BENEDITTI.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Mestre e Estudante de Doutorado A participação de mulheres e homens nos grupos que defendem a constitucionalidade e a inconstitucionalidade da “Lei Maria da Penha” aponta no sentido de que tanto a superação das relações patriarcais de Gênero. Elisa Girotti. São Paulo: Forense. 1998. Não se pode relacionar a identidade legitimadora do patriarcado com homem. 55 . um que preserva os valores patriarcais e outro que visa superá-lo. a temporalidade múltipla. Referências bibliográficas e fontes ADRIÃO. In: Cadernos Pagu. 2005. Miguel Vale de. Produção Legislativa e Discurso Punitivo – Uma Análise da Lei n. Boletim IBCCRIM. Ano 14 – n. sociais. PISCITELLI. Maria Juracy Figueiras. 2007. Adriana et CORRÊA. foi utilizado para a leitura dos dados coletados pelo instrumento de pesquisa aplicado às manifestações jurídicas sobre o debate de constitucionalidade da “Lei Maria da Penha”. Hanna. nem a identidade de resistência e de projeto nas questões de Gênero com a mulher15. um tradicional e outro diversificado. Assim. 15 BOURDIEU (2007) chama a atenção para o fato de que o movimento feminista não foi feito apenas por mulheres. 2005. o que favorece o reconhecimento da mulher enquanto sujeito de direitos em igualdade com o homem. Movimentos Sociais. ARENDT. ALMEIDA. o citado autor adjetiva esse comportamento como um dos resultados mais cruéis do sistema de exclusão.

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Categoria Graduado Especialista e Estudante de mestrado Artigos Científicos Premiados .

de 75%. 2009. foram selecionados 147 artigos. No processo de pré-seleção. 61 . correspondendo a 52% dos trabalhos enviados. com uma elevada participação de mulheres. houve 283 inscrições.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. 2009. Especialistas e Estudantes de Mestrado Inscrições por sexo Sexo Masculino Feminino Total Fonte: CNPq/SPM. 5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduados. e 25% de inscrições masculinas. Especialista e Estudante de Mestrado Introdução Nesta categoria. Quantidade 70 213 283 % 25% 75% 100% 100% 80% 60% 40% 20% 0% M F Fonte: CNPq/SPM.

Dessa maneira. À primeira vista. Dra. assim. revisamos o que já foi escrito sobre corrupção e gênero e pensamos até que ponto essa bibliografia nos ajudaria a combater a idéia de uma “essência” feminina mais moral. Essas entrevistas nos estimularam a questionar se realmente existiria uma “essência” feminina menos corrupta. foram feitas entrevistas com 50 candidatas a deputada estadual. por parte das entrevistadas. mesmo se deparando com obstáculos os mais diversos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. se estas teriam (ou não) uma moralidade específica que as levaria a se comportar de maneira menos corrupta. sob a coordenação da professora Marlise Matos. Na Ciência Política atual esses dois temas (corrupção e gênero) quase não são tratados conjuntamente. Marlise Matos Introdução Este artigo surgiu da participação enquanto bolsista de iniciação científica na pesquisa “A Política na Ausência das Mulheres”. Porém. realizada no âmbito do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais. 8 deputadas estaduais eleitas para a 15ª legislatura da Assembléia Legislativa de Minas Gerais e 22 deputadas federais eleitas para a 52ª legislatura da Câmara Federal. a partir das entrevistas realizadas. Percebemos a utilização. Partimos. tendo como foco principal os legislativos nacional e mineiro. Como parte da pesquisa. pudemos perceber que era possível estabelecer novos rumos e temas para a análise. O foco principal desta pesquisa está na busca de elementos que nos permitam apontar pistas da causa do problema da ausência das mulheres na política e entender como elas. Por isso. a não ser em alguns estudos internacionais. Especialista e Estudante de Mestrado Discursos femininos – um estudo sobre a relação entre mulheres e corrupção Ana Luiza Melo Aranha Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Orientadora: Profa. para a análise dos discursos construídos pelas mulheres que já têm uma carreira política sobre a relação entre mulheres e corrupção. do argumento de que a entrada de mais mulheres nos cargos legislativos moralizaria a política. existiria então uma tendência nas entrevistas em afirmar que as mulheres são menos corruptas do que os homens. escolhemos como foco de análise deste artigo a relação estabelecida pelas entrevistadas entre mulheres e corrupção. A partir dessa idéia. seguido pela discussão propriamente de gênero e o comportamento moral das mulheres. conseguem se fazer representar num espaço ainda extremamente masculinizado. para então visualizarmos como. Essa pesquisa problematiza a subrepresentação das mulheres na política. veremos primeiro o que a Ciência Política do século XX entende por corrupção. no cenário 62 .

A segunda.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. tem tratado a relação entre corrupção e gênero. na qual utilizamos os dados da referida pesquisa para estabelecer as possíveis relações entre gênero e corrupção no cenário da política brasileira. que pensava na maneira como a corrupção poderia contribuir ou emperrar o desenvolvimento econômico e político dos países. a primeira dessas abordagens situa as décadas de 50 e 70 e trata a corrupção através de uma perspectiva estrutural-funcionalista. ela tem sempre que estar sob o controle das instituições políticas modernas. Ela pode ajudar a se alcançar o desenvolvimento. estarão sujeitas às práticas de corrupção. esses dois temas têm sido estudados e pesquisados juntos. Especialista e Estudante de Mestrado internacional. a corrupção foi pensada pela sociologia norteamericana no contexto da teoria da modernização. De acordo com Filgueiras (2006). E ele diz que mesmo em sociedades com algum grau de modernização. o sistema normativo pode motivar ou inibir a corrupção. E sendo assim. Huntington (1975) estabelece uma relação necessária entre essa institucionalização e a corrupção: a primeira é baixa e a segunda é grande. Tendo em vista essa discussão teórica. para a superação das barreiras burocráticas e para a integração das elites políticas. na medida em que possibilita a 63 . Contudo. se estas tiverem baixa institucionalização. também situado dentro dessa abordagem. questionando se realmente existe algo que possamos classificar como uma “essência” feminina “menos corrupta”. Na visão de Nye (1967). na medida em que ela contribui para a formação de um capital privado. A partir dessa literatura. da aceitação de normas. a corrupção pode resultar em ganhos agregados ao sistema. Nas décadas de 50 a 70. relacionando-a ao problema da modernização. principalmente no campo internacional. pois ela força a modernização. que predomina da década de 90 até os nossos dias. O ponto de partida é a maneira como a Ciência Política. enfatiza uma perspectiva econômica e está preocupada com os custos e externalidades geradas em contextos de corrupção alargada. Corrupção O tema da corrupção no século XX foi principalmente analisado tendose por foco duas abordagens. passamos para a análise empírica. Do ponto de vista dessa abordagem. ou seja. Essa inibição vai depender da institucionalização política na sociedade. investigamos a percepção que as mulheres – candidatas e eleitas – têm sobre a relação entre mulheres e corrupção. Objetivos O presente artigo é uma tentativa de discutir a relação entre corrupção e mulheres. a corrupção contribui para o desenvolvimento. Nesta abordagem a corrupção tem a possibilidade de ser “positiva”.

que criaria incentivos para que os agentes buscassem maximizar sua renda privada através do suborno e da propina. A primeira diz que os atores políticos são racionais. 1996). é importante salientar uma mudança metodológica: a incorporação de uma abordagem econômica para tratar um problema político. A idéia é que o agente político é um indivíduo egoísta que age para maximizar seus interesses e cujo comportamento é resultado de uma escolha consciente e racional. É com base nessa última premissa que essa abordagem afirma ser preciso coibir os incentivos institucionais para práticas de corrupção. pois isso resultaria em maior discricionariedade e maior incentivo para o pagamento de propina e suborno – aumento das práticas de corrupção –. A corrupção é percebida como um fenômeno derivado de um mercado coibido. 1957). A causa estável da corrupção seria a existência de monopólios e privilégios no setor público. ou seja. a abordagem econômica da corrupção. conforme uma estrutura de preferências (Downs. Esse mercado seria uma arena constante de negociação e catalização dos interesses dos agentes econômicos e políticos. a partir de premissas da escolha racional e do novo institucionalismo. 1999). pois ele determina as estratégias empregadas pelos atores (Hall e Taylor. criando motivações e constrangimentos para a ação deles. De acordo com Filgueiras (2006). Todavia.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. para a abordagem econômica. ou seja. padrões de mudança social. 64 . forçando. Assim. o objeto de estudo desta vertente interpretativa são os fatores que incidem sobre os resultados políticos. esses autores insistem que a corrupção não seria coibida através de um reforço do poder burocrático. 1989). A segunda premissa afirma que os contextos de decisão influenciam as preferências e são determinados pela estrutura organizacional da política (March e Olsen. O centro dessa abordagem é como as instituições podem fazer com que as conseqüências da corrupção sejam positivas para a construção da ordem política. buscam maximizar a utilidade esperada em contextos de decisão. E esse objeto é estudado com base em duas premissas. ausência de mercado. o contexto da década de 90 (reformas liberalizantes na economia e na política) mantém e aprofunda a hegemonia norte-americana no estudo da corrupção. feitos a partir de reformas mais liberalizantes. Dessa maneira. seguindo o pensamento de Filgueiras (2006). A corrupção ocorre. 1990). permitem o uso de recursos públicos para a satisfação de interesses privados (Rose-Ackerman. Segundo Filgueiras (2006). Especialista e Estudante de Mestrado transformação de atitudes e de instituições. A idéia contida nessa segunda premissa é a de que o arranjo institucional pode modificar o comportamento das pessoas. Passa-se a analisar a corrupção em termos dos seus custos para a economia de mercado. Essa perspectiva tornou-se hegemônica nas Ciências Sociais. Ela depende do modo como as instituições permitem a ação discricionária dos atores políticos. enuncia como instrumento de combate à corrupção o fomento do mercado e a contenção do poder burocrático do Estado. e sim pelo fomento do mercado (North. assim. na interface dos setores público e privado.

em relação ao funcionamento do Estado. A pergunta que Bignotto se faz então é se a análise por esse viés institucional abarca todos os aspectos do problema.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Sem uma clara definição das fronteiras público/privado e sem a extensão da punição a todos os agentes corruptores. a corrupção é um problema para a sociedade brasileira porque é percebida como parte de nossa vida política em toda a sua extensão. No nosso país. A partir dessa nova abordagem é que podemos perceber a importância de olharmos para os fatores sociais e culturais que promovem a corrupção. Esse tipo de abordagem ressalta que o remédio para corrupção deve ser de natureza legal. pois ela é um ato de ilegalidade – aqui encontramos a visão institucionalista e a sua conseqüente defesa da modificação nas regras vigentes. Nosso enfoque neste artigo é nesta primeira dimensão das percepções dos cidadãos: como as mulheres que já possuem uma carreira política fazem a articulação entre mulheres e o comportamento político corrupto. A separação do público e do privado nem sempre é percebida como um fato derivado das leis fundamentais. 65 . Para Bignotto. Este autor olha a corrupção na sua acepção mais larga. feita por muitos cientistas políticos. temos que reconhecer que o aparato legal brasileiro não é omisso em relação aos funcionários que transgridem a lei. não se esgota na queixa contra a ineficiência dos mecanismos legais de punição. e afirma ser o comportamento corrupto quando há comportamento ilegal de quem desempenha um papel na estrutura estatal. não só como um problema institucional. temos que retomar o debate sobre as definições entre público e privado e pensar em uma reforma da legislação que contemple o conjunto das forças políticas. a corrupção no Brasil será uma constante ameaça ao Estado de direito. os grupos que chegam ao poder costumam desconhecer que o aparato constitucional é um limite intransponível para suas ações. o mal-estar que domina a sociedade brasileira. práticas no interior da economia e maneira como o sistema político concilia suas estratégias de financiamento com a preservação do interesse público. Para o estudo da corrupção no Brasil. Para ele. Por esse ponto de vista. Newton Bignotto (2006) é um autor que pode ser enquadrado em uma nova proposta para o estudo da corrupção. Vários atores políticos se comportam como se a vitória nas eleições significasse a posse da totalidade dos poderes do Estado. A corrupção afeta a relação dos cidadãos de um Estado com a vida política em geral e não apenas com uma de suas instâncias. O autor critica a definição do fenômeno nas sociedades atuais. Temos que fugir da interpretação corriqueira sobre o problema da corrupção e encarar as relações complexas que aqui no Brasil se estabeleceram entre órgãos estatais e grupos privados. para além dos fatores institucionais. Entendemos a corrupção como um fenômeno com pelo menos três dimensões: percepção dos indivíduos sobre o que é o público. Especialista e Estudante de Mestrado No contexto do século XXI surgem novas propostas de abordagem do tema da corrupção que fogem à análise pura e simplesmente econômica – hegemônica em nossos dias.

o indivíduo. ajudar os outros. A moralidade para as mulheres estaria envolvida com a atividade do cuidado. para uma corrente significativa do feminismo contemporâneo. portanto. seriam diferentes das dos homens. A primeira enfatizaria a separação dos outros. 94) É assim que. Por outro lado. na qual os homens são vistos como participantes da esfera pública e as mulheres da esfera privada. através dos seus estudos. Os gêneros. e o pensamento imparcial. na história da teoria política. Especialista e Estudante de Mestrado Gênero e Corrupção Para discutirmos a conexão entre gênero e corrupção. centrando-se na idéia do exercício dos próprios direitos sem interferência no direito dos outros e busca uma solução universal. homens e mulheres são associados a modos diferentes de pensamento e sentimento. Seus estudos mostrariam que as mulheres têm uma concepção moral diferente. Para estas. as disposições particularistas. trazem um ponto de vista moral diferente. nós deveríamos analisar seriamente a moralidade diferente das mulheres. sobre a decisão a respeito do aborto e sobre o direito e a responsabilidade – encontra diferentes construções dos problemas morais comparando os dois sexos. é preciso de início postular que. (Friedman. A partir dessa separação. 1987. Essa distinção teve como causa. ser responsável para com o mundo. segundo Kymlicka (2006). a moralidade da responsabilidade enfatizaria a conexão com os outros. duas moralidades diferentes: uma masculina e outra feminina. a distinção entre os domínios público e privado. por sua vez. para a autora. que. o problema moral surgiria de responsabilidades conflitantes (não de direitos conflitantes) e exigiriam um modo de pensar contextual e narrativo (não formal e abstrato). regulamentar a ordem social e administrar outras instituições ‘públicas’ foram monopolizadas pelos homens como seu domínio privilegiado e as tarefas de sustentar as relações sociais privatizadas foram impostas ou deixadas às mulheres.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. pois organizam as suas experiências sob outras prioridades. A primeira ligada aos direitos e a segunda ligada à responsabilidade. desapaixonado e racional como fazendo parte da vida pública dos homens. Na origem da relevância dada à moralidade feminina encontramos a argumentação construída por Carol Gilligan (1982). foram concebidos em termos de projetos morais especiais e distintos. emocionais e intuitivas foram vistas como pertencentes à vida doméstica das mulheres. na qual todos estariam de acordo. As mulheres. p. 66 . De acordo com Friedman (1987): as tarefas de governar. Gilligan (1982) através de três estudos – sobre o desenvolvimento identitário e moral na vida adulta. os relacionamentos e defenderia que a vida inclui obrigações para com as pessoas em geral. a qual deu parte da contribuição para sustentar a defesa da idéia de que as mulheres seriam “menos corruptas” do que os homens. Gilligan afirma ter encontrado.

por sua vez. da compaixão. com a presença das mulheres na política. a conexão do eu com o mundo. assim. segundo Miguel (2001). Porém. Assim. Uma maior presença feminina nas esferas de poder abrandaria o caráter agressivo – masculino – da atividade política e traria uma maior valorização da solidariedade. generosa e altruísta. o ponto de partida sendo. insulando as mulheres no seu nicho próprio e destinando aos homens as tarefas que. recusa o essencialismo. a revalorização da esfera familiar. essa nova moral não é uma singularidade constitutiva das mulheres. com o papel da mãe ganhando destaque: cuidar dos filhos e proteger os fracos. as respostas seriam contextuais. política econômica. as áreas sociais seriam mais valorizadas. as regras existiriam para limitar a interferência dos outros. a obrigação é respeitar os direitos dos outros. ao menos por enquanto. é central a idéia de que o eu e o outro são interdependentes. Para essa ética do cuidado. na qual a responsabilidade é uma limitação à ação. na qual o ideal é que todos sejam correspondidos e incluídos. com atenção voltada às necessidades do outro. tornando-se uma prática mais ética. o ponto de partida seria a separação do eu com o mundo e na qual o ideal é que todos sejam tratados como possuindo igual valor. Esse discurso da “política maternal” procura alterar a hierarquia de prestígio das atividades políticas. isso pareceria eternizar a divisão do trabalho político. As mulheres. homens e mulheres podem exercer o poder da mesma maneira. Miguel (2001) argumenta que a relação entre gênero e “política do desvelo” não é automática. e teríamos a superação da política pura de interesses. Com uma maior entrada de mulheres na política. a obrigação seria a de cuidar. relações internacionais). Para ele. Mas suas idéias foram apropriadas por posturas essencialistas. 2001. que construíram em cima delas a idéia da “política do desvelo”. Essa teoria de Gilligan. Ocorreria também. p. valorizando aquelas exercidas pelas mulheres. sempre tentando ser o mais abrangente possível. 261). Nesta direção. teriam uma ética do cuidado na qual a responsabilidade é pensar nos outros. considerada egoísta e masculina. diferentemente dos homens. os homens seriam guiados por uma lógica da justiça. uma maior busca pela paz. Para ela. a cuidar dos outros e a velar pelos indefesos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. 67 . no entanto. A idéia da “política do desvelo” é que a paridade dos sexos na política levará naturalmente a alteração dos padrões de comportamento na mesma. A crítica do autor também sublinha que o fato das mulheres que estão nos governos hoje se ocuparem mais dos temas sociais não seria devido ao seu imperativo moral mais altruísta. mas sim porque este seria o único nicho disponível para elas no campo político. ninguém ficando de fora. Especialista e Estudante de Mestrado Assim. que naturaliza a diferença feminina. Essa “política do desvelo” afirma que as mulheres trazem aportes diferentes para a esfera política. são as mais valorizadas socialmente (Miguel. pois elas estão acostumadas. o que teríamos seria uma disputa mais intensa e com maior possibilidade de êxito das mulheres pelos cargos monopolizados hoje pelos homens (áreas de administração pública. a prática política se transformaria.

esterilizar estes espaços da contaminação por uma “política de interesses”. São diversos os estudos nesse cenário que apontam para a convergência desses dois temas. ficando eles livres da necessidade da preocupação social. mulheres são menos propensas a perdoar a corrupção. Swamy et al. mantendo a subordinação feminina sob um véu de “superioridade moral”. Todas as hipóteses são confirmadas. para Miguel (2001). e países que têm uma maior representação de mulheres no governo ou no mercado de trabalho têm menores níveis de corrupção.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Por essa abordagem. a tarefa do cuidado seria “naturalmente” feminina. a afirmação da diferença moral como base para reivindicar a representação política paritária entre homens e mulheres não se sustenta. Tendo como referência toda essa discussão sobre a “ética do cuidado” e a “política do desvelo”. com a entrada das mulheres nos espaços de poder. quando procuramos unir gênero e corrupção é no cenário internacional que encontramos os principais referenciais teóricos. Essa “política do desvelo” vê como característica feminina a maior preocupação com aqueles que a cercam do que consigo mesma. mas justamente permitir a expressão de interesses sociais excluídos ou marginalizados. E são esses estudos que nos mostram que há um debate muito intenso sobre até onde vai a conexão entre corrupção e o papel das mulheres. Contudo. (2001). Especialista e Estudante de Mestrado Miguel (2001) continua sua crítica pontuando o componente essencialista dessa abordagem: a naturalização da atribuição às mulheres das tarefas de cuidar dos outros na sua abordagem da política e nos papéis sexuais. Também demonstram que a corrupção é menor onde as mulheres possuem uma larga parcela dos assentos parlamentares. estão preocupados com a relação entre gênero e corrupção. as empresárias envolvem-se menos com subornos. inclusive os interesses das próprias mulheres. como se as duas formas de exercer a política fossem exclusivas a cada sexo. Só que está subjacente a essa visão a negação do direito da mulher a possuir interesses próprios. Eles mostram que as mulheres estão menos envolvidas com esquemas de propina e suborno. Essa visão pretende. o problema central para as democracias representativas não é o de uma política “sem interesses”. Outra crítica importante que Miguel faz à “política do desvelo” tem como foco a exaltação que esta faz da atividade política desinteressada. Portanto. dessa forma. o que tiraria dos homens a responsabilidade pelo cuidado. Os autores constroem três hipóteses para testar se o aumento da presença das mulheres na vida pública reduziria os níveis de corrupção: em situações hipotéticas. sendo que não haveria espaço de troca. para o autor. 68 . Essa corrente da teoria política feminista acabaria. posto que acaba escorregando para a naturalização das diferenças entre os sexos. têm posições-chave na burocracia governamental e são uma parcela grande da força de trabalho. por exemplo.

Seu texto tem como base a afirmação de que o aumento da participação feminina na vida pública é um final bom e justo. que apontam para um diferencial de gênero na incidência da corrupção. nas sociedades em que mulheres têm mais direitos e participam mais da vida pública. Como resultado disso. não oferece maneiras efetivas para alcançar um governo não-corrupto. Ambos. O que eles querem fazer é mostrar relações estatisticamente significantes. tornaram-se as “salvadoras” dos países afligidos pela corrupção. a economia se mostraria mais produtiva. Para ele. participação feminina no governo e menores níveis de corrupção. por si só. Eles reconhecem que existiria um diferencial de gênero. Esse autor critica o documento do Banco e defende a hipótese de que um sistema mais justo ajudaria na diminuição da corrupção. ao invés da hipótese da existência de um sexo mais justo. segundo o autor. com base nesses argumentos. Por aqui já percebemos que este artigo vai em direção contrária do primeiro. O primeiro autor constata que. Foi assim. segundo o qual os negócios e os governos seriam mais limpos e. Especialista e Estudante de Mestrado Os autores colocam ainda que essas afirmações sobre diferenças de gênero podem facilmente ser mal interpretadas. A conclusão do texto é que o diferencial de gênero. com isso. Porém. são os mecanismos da democracia que diminuem a corrupção e não o sexo do representante. antes de nos preocuparmos com a percentagem ideal de mulheres no governo. que as mulheres. O documento termina clamando por mais mulheres na política e na força de trabalho. mas isso. permanentes ou biologicamente determinadas entre homens e mulheres. para o autor.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Essa visão de que as mulheres são menos corruptas é reforçada por um documento do Banco Mundial (2001). ainda. deve persistir nos próximos anos. a robusta associação estatística entre gênero e corrupção no nível internacional poderia ser mal-interpretada. no mundo inteiro cresceu o envolvimento da 69 . eles não estão afirmando terem encontrado diferenças essenciais. Porém. justiça e responsabilidade. As oportunidades para as mulheres tendem a aparecer juntamente com uma estrutura social e política que é geralmente mais aberta e atinge melhor os ideais democráticos de participação. de vítimas da opressão sexista. Kaufmann (1998) tem uma percepção parecida com a de Sung. esse dado não deveria remeter automaticamente à idéia de que um sexo é moralmente superior ao outro. Sung concorda com a existência de um diferencial de gênero em se tratando de comportamentos morais – esse seria um dado inquestionável. no que diz respeito à corrupção. deveríamos perguntar se gênero realmente importa. pois isto poderia levar a um bom governo. recentemente. Assim. Sung (2006) trata da relação entre gênero e corrupção. dependeriam de um sistema político mais justo. Os autores concluem ainda que as iniciativas políticas de aumentar a participação feminina no governo irão ajudar a reduzir a corrupção. A democracia seria melhor do que os outros sistemas políticos quando o que se trata é expandir o papel político das mulheres. justamente.

é se essas evidências empíricas podem ser atribuídas a diferenças de oportunidades ou a diferenças de gênero. Por essa visão.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. a garantia das liberdades civis. para que isto ocorra. ou se a relação é outra. O autor defende. sentimentos. O que não está claro.identidades de mulheres e homens são muito mais pontos provisórios de chegada de trajetórias social e politicamente construídas a partir de percepções. experiências e vivências específicas de gênero do que um depósito de atitudes moralmente orientadas e consolidadas que se fundariam nas diferenças de sexo. Inclusive as pesquisas internacionais destacam a existência de diferenças no envolvimento de mulheres e homens nos esquemas de corrupção. mais do que os homens. Assim como a grande parte dos autores tratados até aqui. Os dados que o autor analisa mostram que os países onde os direitos das mulheres estão mais restringidos têm maior prevalência de corrupção. 422) 70 . segundo Matos (2008). . As pesquisas mostram que esse envolvimento está diretamente relacionado com as liberdades civis: é mais fácil para a sociedade civil de um país envolver-se no combate à corrupção se neste as liberdades civis estão salvaguardadas. principalmente contra a corrupção. em função das desigualdades que perpassam os sexos (especialmente às relativas ao acesso e permanência desiguais das mulheres nos espaços da política e da economia). (Matos. para Matos. então. um conjunto de comportamentos sociais e eticamente orientados. Esse tipo de discussão. 2008.. Matos defende que há hoje uma convergência na afirmação de que as mulheres teriam. a importância de uma sociedade civil ativa no combate à corrupção e. um maior alcance de liberdades civis e de direitos de cidadania está associado ao aumento do controle possível da corrupção.. Matos (2008) coloca que não é possível identificarmos “essências” fundamentais no que diz respeito à construção de diferenças nas identidades de gênero. As perguntas que o autor se coloca a seguir são se a ausência dos direitos das mulheres é uma importante variável proxy da ausência das outras liberdades civis em uma sociedade. Especialista e Estudante de Mestrado sociedade civil e das ONGs na luta contra a corrupção. Existe. Para essa autora. assim como demonstrariam maior preocupação com o bem público. a saber: se a participação feminina tem um efeito particular de inibição da tolerância da sociedade para com a corrupção. segundo Kaufmann (1998). p. derivando daí que elas seriam menos corruptas. podemos entender que o combate às práticas de corrupção poderia ser melhor realizado em um ambiente no qual direitos e liberdades são exercidos em maior plenitude. Assim. descola dos gêneros a (i) responsabilidade sobre comportamentos mais ou menos éticos e coloca a questão em outros patamares. uma relação importante que se estabelece entre mulheres e a sociedade civil: o empoderamento das primeiras mobiliza a segunda.

como conseqüência da afirmação da maior eticidade das mulheres na condução da coisa pública. A partir dessa discussão teórica. e as perspectivas estão conectadas ao tipo de experiência social que temos. como bem nos demonstrou Miguel (2001). A defesa da entrada de mais mulheres na política não deveria ser feita com base em uma visão essencialista. da menor propensão delas às atividades corruptas. É dessa forma que entendemos como as mulheres podem ser menos corruptas: a participação delas na arena política seria diferente da masculina porque os dois lados ocupam posições diferentes na formação social. Para esta autora. às esferas de deliberação pública é necessário não porque elas compartilham os mesmos interesses ou opiniões. tivemos a defesa de que as democracias modernas deveriam incrementar a participação feminina nos espaços institucionalizados da política a fim de reduzir a corrupção. As diferentes perspectivas seriam diferentes pontos de partida para o debate político. todavia. como de outros grupos politicamente excluídos. É preciso. Sendo assim. valores e prioridades que fundamentam o nosso juízo acerca de qual política deve ser seguida (ênfase nos fins). vimos que existe uma associação forte entre mulheres no poder e menores índices de corrupção. Os interesses têm a ver com o que precisamos para alcançar os fins que queremos (ênfase nos meios). representar perspectivas contribui para a inclusão dos grupos marginalizados na tomada de decisão. Para ela todas as perspectivas dos grupos sociais deveriam estar representadas nas tomadas de decisão política. o acesso das mulheres. que afirme que as mulheres fazem uma política mais desinteressada e altruísta – “política do desvelo”. O pressuposto de Young é o de que é incorreta a exclusão política de grupos e indivíduos subordinados. Essa última idéia afirma que conforme a sua posição social. Voltamo-nos então para as mulheres brasileiras conectadas com o espaço político a fim de perceber como elas associam o sexo do representante com comportamentos mais ou menos corruptos. ir devagar com esse argumento. É mais interessante fazer essa defesa tendo como base a idéia de Young (2000) de ‘perspectiva’.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. mas porque elas partem de uma mesma perspectiva social. a pessoa se encontra sintonizada com certos significados e relacionamentos sociais. 71 . assim como uma grande discussão sobre se existem ou não comportamentos morais distintos entre os sexos. vinculada a certos padrões de experiência de vida. Cada posição produz experiências e compreensões particulares que deveriam ser representadas politicamente. Uma idéia forte desta autora é que nos sistemas representativos existem três modos das pessoas serem representadas: interesses. diferentes pontos de vista que membros de um grupo têm sobre os processos sociais. Especialista e Estudante de Mestrado De acordo com a autora. as opiniões são os princípios. opiniões ou perspectivas.

Foram entrevistadas. ambos da UFMG. Para a nossa análise. A pesquisa realizou um estudo detalhado. principalmente no comportamento político de ambos. deputadas estaduais eleitas e deputadas federais eleitas) têm sobre os comportamentos políticos de homens e mulheres. Resultados e discussões Nosso objeto de estudo são as entrevistas realizadas pela pesquisa “A Política na Ausência das Mulheres: um estudo sobre recrutamento político. Esperamos encontrar nessas entrevistas pouca associação entre as características femininas e uma menor tolerância com a corrupção. da Assembléia Legislativa de Minas Gerais e depois da Câmara dos Deputados em Brasília. se a vêem como uma diferença natural (“essência”). Especialista e Estudante de Mestrado Metodologia O banco de dados aqui discutido faz parte da pesquisa “A Política na Ausência das Mulheres” e aborda as percepções que as mulheres ligadas à política (candidatas a deputada estadual.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. 50 candidatas à deputada estadual em Minas Gerais. Apostamos na defesa da entrada de mais mulheres na arena política não pela via de uma “essência” feminina menos corrupta. com vistas a subsidiar um melhor entendimento dos determinantes que operam para definir o lento crescimento da representação de mulheres em cargos do poder legislativo. e sim porque as mulheres têm uma perspectiva social diferente da masculina. (iii) do comportamento legislativo de mulheres. é que não existe uma “essência” feminina mais moral. Veremos se isso procede nas entrevistas realizadas. Queremos entender como elas localizam as diferenças entre os comportamentos políticos dos sexos. no ano de 2006. utilizamos as respostas das seguintes perguntas: • • Como a senhora percebe a situação das mulheres na política brasileira hoje? A senhora acredita que ser mulher faz alguma diferença no jogo político? Qual diferença faria e por quê. trajetórias/carreiras e comportamento legislativos de mulheres” realizada pelo DCP (Departamento de Ciência Política) e pelo NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher). seguindo Matos (2008). Buscamos aqui entender como essas mulheres percebem as diferenças entre os sexos. no Brasil e em Minas Gerais. no comportamento legislativo e nos motivos para se candidatar. e como elas articulam a defesa da presença das mulheres no espaço de poder. Essa pesquisa abordou temas como a existência de diferenças entre homens e mulheres no geral. em uma primeira etapa. O objetivo dessa pesquisa foi compreender a estrutura geral do (i) recrutamento e rotas de acesso a cargos legislativos de mulheres. e qual a conexão que elas estabelecem entre gênero e corrupção. Nossa hipótese. das (ii) estratégias de carreiras/trajetórias políticas femininas. 8 deputadas estaduais eleitas nesse mesmo estado e 22 deputadas federais eleitas. 72 .

boa ouvinte. têm uma visão de mundo mais coletiva. afetiva. Especialista e Estudante de Mestrado • • • A senhora acha que existem motivos diferentes para homens e mulheres se candidatarem a cargos no legislativo? Por quê? Na opinião da senhora. audaciosa. se há ou não no discurso das mulheres a percepção de uma “essência” feminina menos corrupta. coração. generosa. Essas características aparecem repetidas vezes nos discursos das mulheres. A defesa central aqui é que as mulheres têm um olhar diferente do masculino. ativa. Entre as candidatas que apontaram alguma característica feminina superior às masculinas. autêntica. piedosa. dos filhos. franca. há diferença de comportamento parlamentar entre os homens e mulheres. e também se as entrevistadas percebem ou não que existem diferenças dentro do próprio grupo das mulheres. da casa. emotiva. se percebem diferenças entre os comportamentos parlamentares de homens e mulheres e como defendem a presença das mulheres nos espaços de decisão política.. conscientes. Em alguns casos (28% das entrevistas). sincera. sensitiva. complacente. capaz. Queremos perceber. envolvida com projetos. compreensiva. visão panorâmica e de longo prazo. Dentre essas características a mais que as mulheres teriam. sentimental. conciliadora. preocupada com mudança e justiça social. persistente. intuitiva. 70%. Em primeiro lugar.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. tolerante. ao instinto materno do cuidado. amorosa. independentemente dos alinhamentos político-partidários? A senhora acha que existem comportamentos legislativos distintos entre homens e mulheres? Por quê? Nosso foco é a percepção de que as mulheres envolvidas com a política. fiel. forte. minuciosa. carismática. para o lado social. religiosa. sempre características positivas.. detalhista. encontramos 66% delas conectadas à ética do cuidado – mulheres são seres mais voltados para o cuidado com o outro. que estariam fazendo falta na política atual. essas características estão ligadas ao papel da mãe. da cuidadora do lar. têm sobre a relação entre mulheres e corrupção. compromissada. solidária. paciente. diálogo. responsável. nas eleitas. caridosa. se existe a defesa de que ser mulher faz diferença na política. 82% das candidatas citaram pelo menos uma característica feminina diferente e melhor do que as masculinas. dedicada. inovadora. existe uma forte percepção das entrevistadas em afirmar que as mulheres possuem alguma característica a mais do que os homens. dedicada. sensível. bondosa. envolvidas com o cuidado. 73 . respeitosa. sensata. corajosa. carinhosa. através da análise das entrevistas. sejam elas candidatas ou eleitas. humanizada. preocupada com o outro e com o lado social. encontramos nas entrevistas que a mulher é mais: direta. se há ou não uma associação entre as características pessoais femininas e o comportamento político das mulheres. essa porcentagem também foi alta. pacificadora. carinhosa. doce. compromissada. moral. se elas fazem uma ligação entre as características femininas e a “ética do cuidado”. presente. jeitosa.

você vai ver diferenças gritantes entre homens e mulheres. Ela não tem dinheiro. as entrevistadas falam em uníssono que as mulheres são mais éticas. então não dá para a mulher.. portanto. as entrevistadas nos passam a idéia de que todas as mulheres são assim e de que todos os homens são exatamente o contrário. É preciso colocar também que em TODAS as vezes que o tema da corrupção aparece. envolvidas nas questões sociais. (Entrevistada B. Em segundo lugar. está dentro de alguma outra questão sobre diferenças entre homens e mulheres na política. 2006). Menos corrupção. 2006). tudo dela ela volta para a responsabilidade que ela tem. a ligação é estabelecida quase que imediatamente: as mulheres são menos corruptas do que os homens. E esse senso de responsabilidade das mulheres impediria que estas se envolvessem com esquemas corruptos. salta de um fulano para outro.. Entre as candidatas. porque ela não tem tempo e nem tem interesse mental para ficar articulando. uma trapaça uma outra dali. mais metodologia. podem perceber que nem todas as mulheres perseguem o bem-comum quando chegam às casas legislativas e nem todas as mulheres têm um comportamento pouco ou nada corrupto. Vale destacar que não existia uma pergunta sobre corrupção no questionário. mais seriedade no tratamento da coisa pública. pega uma verba dali. outra dali. Entre as eleitas a porcentagem é um pouco menor. (Entrevistada A. Talvez elas exaltem as suas características “essenciais” para mostrar que a mulher é tão importante quanto o homem nesse espaço. numa primeira tentativa de explicação. Especialista e Estudante de Mestrado A tendência seria corroborar a tese de que as mulheres possuem realmente uma outra percepção do mundo. pode ser devido à evidência de que as deputadas eleitas já estão dentro do jogo político e. tentamos estabelecer como as entrevistadas percebem a relação entre mulheres e corrupção.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Outra explicação para o fato das mulheres se envolverem muito menos do que os homens nos esquemas de corrupção estaria no comprometimento destes com os interesses privados: Trace um perfil das parlamentares. não gostam de corrupção: A mulher. O fato das eleitas afirmarem menos do que as candidatas a conexão entre ser mulher e ter comportamentos políticos menos corruptos. Por esse trecho. quando esse tema aparece nas respostas. A mulher detesta esse tipo de jogo. Nas entrevistas em que aparece o tema da corrupção. apareceu em 46% das entrevistas a associação que mulheres são menos corruptas do que os homens. mulheres nesse Congresso Nacional. 74 . calcada em características “naturalmente” femininas. outra verba de um ciclano. como uma necessidade das mulheres se afirmarem em um espaço tão masculinizado como a política. 33% delas afirmou que as mulheres são menos corruptas. Entendemos isso. percebemos que a entrevistada adota a idéia de Gilligan (1982) de que as mulheres estão mais voltadas para a responsabilidade. Ao falar dessas características.

2006). 2006). (Entrevistada C. Já tem ali a malícia. ainda. E o homem é mais esperto nesse jogo porque já está contaminado pelas estruturas do poder. isso tem afastado as mulheres da política: *O que a senhora acha da argumentação que as mulheres teriam uma baixa ambição política? *Olha. Especialista e Estudante de Mestrado O homem joga o jogo da corrupção. eu acho a mulher mais honesta. mas. Você pode ver que só vê homens na corrupção. Ou então: ele (o homem) participa de certos jogos que a mulher não seria capaz de participar. já está no poder há muito tempo: O homem já tem as articulações. ouvimos o nosso coração. (Entrevistada D). a mulher não. Sendo assim. Ou então: Acho necessário e acredito que a mudança na política passa pela mulher sim. eles vendem emendas. 2006). Quando não citam diretamente a corrupção. de qualquer posição. a mulher se recusa: O homem tem o jogo. (Entrevistada I. eles compram os projetos. Ou então: Porque como os homens estão mais acostumados ao poder eles também têm vícios que nós não temos. Elas acreditam. eles entram. te compra com a palavra. de transparência. eles sabem jogar. (Entrevistada E. Ela tem todos os princípios. (Entrevistada I. tanto financeiro. eu diria. é o princípio ético. muito corrupto.. somos mais difíceis de nos corrompermos. nos super faturamentos.). como a “saída” para o país abandonar a crise de corrupção em que se encontra: A crise do nosso país é crise de caráter e não intelectual e não tão somente financeira. como eu já disse. a mulher estaria isenta da contaminação pelos jogos corruptos. (Entrevistada J. é são diferentes. já tem a maldade. a maioria deles. Nós somos mais frágeis.. está. ela tem uma baixa ambição política. De qualquer forma. (Entrevistada G. eu acho que ela acredita muito nas palavras (. eu não sei que relação eu posso fazer. Algumas colocam. agimos não somente com a razão. porque tem vícios que se constroem ao longo do tempo das disputas pelo poder. nas puxadas de tapetes. um pouco deteriorizada. assim. O comportamento político dos homens é visto como fortemente ligado à corrupção: Pela corrupção os homens lá no parlamento. eles decretam leis e as mulheres não. mais transparente. ta impregnada no homem. A mulher. Eu coloco isso com a seriedade que ela tem e pela 75 . o homem joga. por estar afastada do poder... 2006). Não nos corrompemos. é onde a política. agora nos Sanguessugas. hoje em dia. pelo corporativismo. que pelo fato da política estar tornando-se algo muito sujo. Nas disputas. As mulheres aparecem. não nos deixamos levar facilmente por idéias. Nós mulheres.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. as entrevistadas citam características femininas opostas àquelas ligadas a comportamentos corruptos: Eu acredito. 2006). 2006). elas entram com o coração.

vai ter a prostituta. 2006).5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado.. a maioria das entrevistadas destaca saber que nem todas as mulheres são assim (menos corruptas. as porcentagens também são parecidas. é pequena a tendência para a essencialização. essa percepção foi de 30% e entre as eleitas de 40%. tradicional. 2006). 76 . Eu acho que ela é mais carinhosa. Especialista e Estudante de Mestrado política estar se tornando uma coisa muito suja. Sobre essas diferenças dentro do próprio grupo de mulheres. com a verdade. Entre as candidatas. o compromisso com a ética. Entre as primeiras. 50% falam de comportamentos parlamentares diferentes por sexo e 30% falam que não existe essa diferença por sexo no comportamento político. Quando as candidatas falam sobre os comportamentos parlamentares de homens e mulheres. Você vai ter a santa. em 48% das suas entrevistas apareceu a defesa de que homens e mulheres possuem comportamentos políticos diferentes e em 32% dos casos elas não perceberam diferenças entre os sexos nesse quesito. com a responsabilidade. ela quer fazer aquilo. Ela coloca uma coisa na cabeça. talvez seja isso que tanto a mulher como o cristão ta querendo afastar da política. vai ter a honesta. este fato é explicado pelas características positivas femininas: A mulher. (Entrevistada K.. Vai até o fim. O homem não. Apesar dessa ligação praticamente direta entre menos corrupção e mulheres. Para as entrevistadas que acreditam que mulheres têm comportamento parlamentar diferente do masculino. entendeu? (Entrevistada M. as entrevistadas colocam que “existem mulheres e mulheres”. O que elas dizem aqui é que nem todas as mulheres são iguais no que diz respeito àquelas características mais “especiais” ou menos corruptas. nem todas as mulheres aceitam menos os esquemas corruptos. mais honestas). que são aquelas que levam sobrenome de famílias políticas importantes – cuja trajetória política é baseada na rota familiar. “participar do poder” e não com projeto de transformação da sociedade. 2006). Entre as eleitas. 2006). Elas estariam na política para “se dar bem”. É preciso também ressaltar que existem aquelas entrevistadas que percebem haver diferenças entre as próprias mulheres. O homem não tem muito isso. envolve muito o lado sentimental da mulher. abrindo espaço para o questionamento de se essa relação é mesmo inevitável: Porque só porque subiu a mulher (para a política) não precisa ser santa.. por mais transparência: E é esse padrão (de comportamento) que eu vejo dela (a mulher). A mulher teria um “compromisso inabalável” com a luta contra a corrupção. E ressaltam também que existem sim mulheres eleitas que estão comprometidas com os interesses privados. (Entrevistada L. (Entrevistada B. tanto entre as candidatas quanto entre as eleitas.. Eu acho que ela é mais objetivada. vai ter a capeta.

Então isso aí eu vejo como positivo. porém a justificativa aqui não é pelo lado de características essencialmente femininas. Quando passamos para as respostas sobre os motivos que levam homens e mulheres a se candidatarem. ambos podem atuar em qualquer área. dentro da política. Dentre as candidatas 20% percebeu existir motivos diferentes. 2006). Especialista e Estudante de Mestrado Além disso. Entre as eleitas. de um modo geral. de aptidão. quando as respostas são negativas.pessoais. Para as que defendem que ambos os sexos têm o mesmo comportamento. (Entrevistada J. enquanto 22% respondeu não haver esse diferencial de sexo. partidários . eu acho que há. (Entrevistada N. estas justificativas estão relacionadas aos diferentes interesses que homens e mulheres teriam ao entrar para a política: *A senhora acha que existam motivos diferentes para homens e mulheres se candidatarem a cargos no legislativo? *Olha. a responsabilidade é igual para o homem e para a mulher. isso é muito mais uma questão de aptidão: Eu acho que a mulher é capaz de atuar em qualquer setor. 6% acredita existirem motivos diferentes por sexo para a candidatura. de construir possibilidade até econômica através da disputa do voto. tem muito essa questão do poder. Nessa questão. para que haja direitos iguais e igualdade social e tudo. Existem outros fatores . a ética profissional é igual para homens e mulheres: Agora. enquanto 16% não acredita nessa diferença. As justificativas para a existência da diferença vão no mesmo sentido da pergunta anterior: as mulheres possuem características melhores e completamente diferentes das masculinas. (Entrevistada E. eu acho que é porque a mulher tem uma sensibilidade muito grande pelo social. Para essas entrevistadas.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. ou 77 . 2006).que influenciariam muito mais. é a mulher aonde eu vejo que ela pode dar uma contribuição de avanço dá. porque eu acho que isso não diferencia por ser mulher. Eu acho que pros homens. de uma certa vaidade. Eu acho que. eu não acho que seja machismo. a diferença entre as respostas é mais significativa ainda. isso depende da aptidão de cada uma. em geral. o direito. o que há de marcante em todas elas é a negação de que sexo é o determinante último dos comportamentos de homens e mulheres na política. elas buscam ressaltar a enorme predominância da mulher nas áreas sociais: Mas eu acho que ocupar esses espaços dá. a proporção de respostas “essencializantes” é menor. ter que atuar em um setor ou outro. tendo mais a ver com a experiência e o trabalho. a ética profissional. 2006). Mesmo entre essas existe a percepção do comportamento feminino mais voltado para as áreas sociais. de temas e áreas mais sociais. ambos os sexos atuam nas mesmas áreas.

e tem aqueles que têm uma visão puramente aproveitadora. Há mulheres que têm pensamento machista. Todas as vezes em que as entrevistadas aparecem negando a existência de uma diferença de sexo determinante na política.) eu acho que no geral é isso. Poucas entrevistadas (8% das candidatas e 10% das eleitas) nos indicam esse caminho da perspectiva (Young. (.. um objetivo macro. *Eu acho que para homens e mulheres se candidatarem não tem motivos tem motivos assim. com essas.) então. eu não que seja homem ou mulher. das causas coletivas. Essa percepção abre caminho para o questionamento se realmente é o sexo o determinante principal das ações e escolhas das pessoas. É mais forte a negação da diferença quando o assunto são os motivos que levam homens e mulheres à política... quando ela chega aí. encontramos uma maior disposição delas em refutar os essencialismos que muitas vezes elas mesmas colocaram em algum momento da entrevista. eu acho que todos nós. orientar a sua trajetória política. dependendo da trajetória que você fez na vida é que vai. dessa dedicação. 2000) como o melhor para explicar as diferenças 78 . com uma maior tendência das entrevistadas em responder que esses motivos têm causas pessoais. esses objetivos diferentes. só fará diferença aquelas que forem exercer o poder com competência. algum interesse específico (. autoritário e socialmente excludente. existem aqueles políticos que querem se eleger porque tem um objetivo coletivo. assim.. Especialista e Estudante de Mestrado vincular algum grupo econômico. Do ponto de vista individual. aquelas que dizem não haver diferencial de sexo no que diz respeito aos motivos da candidatura – dessa vez elas são maioria – se apóiam no argumento de que essa é uma escolha pessoal. independente de sexo. de cada mulher. (Entrevistada O. (Entrevistada P. tem gente. 2006). Aqui as entrevistadas defendem que não basta eleger qualquer mulher. Algumas das entrevistadas reforçam esse sentido afirmando que não basta ser mulher para assegurar uma lógica ou um projeto de igualdade: *Eu diria que não basta ser mulher pra assegurar uma lógica ou um projeto de igualdade. não faz diferença porque algumas reproduzem o modelo machista. (Entrevistada Q.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Algumas chegam mesmo a formular idéias parecidas com a de “perspectiva social”. 2006). de trabalhar para melhorar a vida da maioria. dizer. eu acho que tem muito essa vontade assim. patriarcal. que tiverem projetos sociais que almejem uma sociedade mais igualitária. 2006). Eu acho que pras mulheres. Por outro lado. de vir pra cá devido seus interesses particulares para virem defender aqui.

Em algumas entrevistas surge mesmo a possibilidade de que essa seja uma diferença mais de projeto. esse exercício dessa parcela da sociedade cria uma estrutura. Essa perspectiva feminina é fruto de uma história que sempre nos oprimiu. mas porque a capacidade política é construída. sempre ligada à família. muitas vezes caindo no argumento “essencialista” de que estas seriam diferenças naturais. (Entrevistada P). (Entrevistada N. enxergamos o mundo com uma perspectiva diferente. enquanto parcela da sociedade. Especialista e Estudante de Mestrado entre homens e mulheres: Nós. de trajetória pessoal. Todavia. a sua situação termina ajudando pra que ela crie uma consciência de igualdade. esperar-se-ia que todas as vezes que fossem chamadas a comparar homens e mulheres. a gente vê as crianças de uma forma diferente para completar a forma que os homens vêem. sensibilidade social por conviverem com a luta cotidiana da comida. Enfim. Mas quando vamos para comportamentos e motivos. o que os dados nos mostram é uma tendência das mulheres envolvidas com a política. e a das mulheres foi construída num espaço fora da política formal. se existisse mesmo uma “essência” feminina completamente diferente da masculina. 2006). as mulheres farão diferença na política se levarem para este campo as peculiaridades que a vida lhe impôs: Do ponto de vista coletivo. foram os anos de silêncio e de afastamento da mulher da política que a levou a desenvolver todas essas características descritas acima. a enorme maioria responde que sim. (Entrevistada T. Para estas entrevistadas. a gente vê o mundo redondinho. E uma minoria chega mesmo a 79 . ao cuidado: Eu penso que as mulheres são mais sensíveis para levantar essas bandeiras (sociais) por questão de vivência. 2006). 2006). pela história de vida delas. principalmente a sua preocupação com o social. Na pergunta direta sobre se há ou não diferenças. uma tendência á uma sensibilidade social maior. pra assegurar educação. Não que nós sejamos melhores. inclusive quando o assunto é corrupção. pra compensar os problemas da assistência à saúde que o estado debilita. as entrevistadas identificassem diferenças naturais entre os sexos. ao serem discriminadas. sejam eleitas ou candidatas. porque essa metade da humanidade leva para o exercício da política particularidades que a vida lhe impõe. nós nos completamos. Por exemplo. mulheres. As mulheres entrevistadas com muita freqüência se esforçam para se diferenciarem dos homens.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. as respostas já são menos categóricas e surgem possibilidades maiores de diferenças importantes que não são derivadas do sexo. A idéia aqui é a de que as mulheres têm a contribuir com o mundo da política. à casa. Só que os percentuais variam de pergunta para pergunta. afirmarem a existência de diferenças entre homens e mulheres. faz enorme diferença (ser mulher). (Entrevistada U. Enfim. não por terem características inatas. As mulheres levantam mais bandeiras sociais pela vivência delas. Então. E há a própria pressão da vida.

Fica também a importância de se estudar a corrupção por outro viés que não seja só o institucionalista. Nossa análise empírica nos mostrou que essas mulheres entrevistadas ainda fazem uma defesa da presença das mulheres no campo político ressaltando as características morais femininas diferentes das masculinas. que não deveria estar ausente dos espaços de tomada de decisão. a corrupção é um problema no Brasil que é parte da nossa vida política em toda a sua extensão. Como Bignotto (2006) destaca. no nosso país existem poucos estudos sobre esse fenômeno. os resultados da análise das entrevistas das mulheres nos mostraram uma tentativa sempre presente de diferenciar homens e mulheres no que diz respeito aos seus comportamentos políticos. Apesar disso. como também olhar para os aspectos culturais e sociais. Um início de explicação para isso pode ser que essas mulheres ligadas à política. levar o argumento da “política do desvelo” para a política pode reter a atuação política das mulheres nas áreas sociais.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Entendemos que a “ética do cuidado” deve ser levada para o campo da política com cuidado. que desmitificariam a idéia de uma “essência” feminina. com o problema da constituição de uma noção de interesse público capaz de pautar a ação dos seus representantes políticos. Conclusões A sociedade brasileira tem se debatido. O Brasil democrático tem sido marcado nos últimos anos por uma maré de denúncias de escândalos de corrupção. para não cair em uma “essencialização” das posições das mulheres. Como nos alertou Miguel (2001). importa olhar as regras e instituições. O que fica para nós desse artigo é a importância na atualidade de se desenvolver pesquisas para entender o fenômeno da corrupção no Brasil. Conseguimos visualizar espaços para a defesa de outras idéias. O que demanda olharmos para a estrutura política. apesar de aparecerem em menor número. Especialista e Estudante de Mestrado defender que a presença das mulheres na política deve ocorrer porque elas possuem uma perspectiva social diferente da masculina. Poucas foram aquelas que buscaram outros fatores explicativos que não o sexo para as diferenças percebidas entre homens e mulheres. Ao partirmos para a parte empírica. obrigando-as sempre a se preocupar mais com os outros do que com a defesa dos seus próprios interesses. mas não só ela. Tentamos buscar como as mulheres próximas do campo da política percebem as diferenças entre comportamentos políticos de homens e mulheres. Mas. mas é preciso ampliar o olhar e tentar entender as percepções que a própria sociedade constrói acerca da corrupção e do interesse público. o fato de aparecerem explicações alternativas já sinaliza para a possível existência de outras causas das diferenças percebidas entre os sexos. desde a sua democratização. Ela afeta a relação dos cidadãos de um Estado com a vida política em geral. motivos para se candidatar e a relação com a corrupção. Para o entendimento desse fenômeno. por estarem em um campo tão 80 .

FRIEDMAN.IUPER. Anthony. KAUFMANN. Referências bibliográficas BIGNOTTO. 1957. para tentar entender por que essa associação tão forte entre mulheres e comportamento político menos corrupto. D. & TAYLOR. Especialista e Estudante de Mestrado hostil a elas. Para nós. oportunidades e liberdades sejam igualmente distribuídos. 1987. Corrupção e Estado de Direito. Belo Horizonte: Editora UFMG/PNUD. FILGUEIRAS. sua causa não deve ser buscada em uma “essência” natural feminina ou masculina. 2006. O ambiente político é muito masculinizado no nosso país e isso pode fazer com que as mulheres que tentam ingressar nele ou as que efetivamente conseguem vencer as eleições. Samuel P. Leonardo & ANASTASIA. como por exemplo. In: Canadian Journal of Philosophy. An Economic Theory of Democracy. Carol.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. A Ordem Política nas Sociedades em Mudança. Political Science and the Three New Institutionalism. Rosemary. nº 44. fica a pergunta. 2006. podem acabar por procurar se destacar de alguma maneira. Fernando . Uma Voz Diferente. GILLIGAN. Se as mulheres são ou não a solução para o problema da corrupção no nosso país. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos.13. HALL.). 1975. sua participação em movimentos sociais. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. E fica também a proposta de se estudar mais a fundo a relação que ambos os sexos estabelecem com o que é público. Nossa percepção é a de que se realmente existir um diferencial de gênero no que diz respeito à corrupção. 1996. Beyond caring: the De-moralization of gender. Corruption: the Facts Foreing Policy. para se destacarem na multidão dos políticos. In: Political Studies. v. optem por um discurso mais enfático. a trajetória de vida da pessoa. HUNTIGTON. A Corrupção na Política: Perspectivas Teóricas e Metodológicas. v. 1982. ressaltando as características diferentes entre elas e os homens. São Paulo: EDUSP. 5. é responsabilidade de homens e mulheres construir atitudes positivas e eticamente orientadas para estruturar uma sociedade decente e democrática em que direitos. Newton. DOWNS. New York: Harper & Row. 81 . dominado imensa e quantitativamente pelos homens. In: AVRITZER. 1997. M. Reforma Política no Brasil. ou mesmo sua ligação com os setores dominantes da sociedade. Fátima (org. Cadernos Cedes . Podemos pensar que outros fatores podem influenciar a maneira como os dois sexos constroem a relação com o que é público. Peter A.

A. In: Revista Estudos Feministas. March. Belo Horizonte: Editora da UFMG. 1999. 2001. SUNG. Y. MATOS. GUIMARÃES. Política de interesses.In: Current History. SERAGELDIN. Rediscovering Institutions: The Organizational Basis of Politics. Johan P. Shluger. James G. Susan.). MIGUEL. LEE. In: American Political Science Review. and Reform. Juarez. Ismail. Corruption and Political Development: A Cost-Benefit Analysis. Marlise. Joan Martin. BIGNOTTO. 82 . 2006. Institutional Change. Brown. (Org. and Economic Performance. Florianópolis. Hung-En. NYE. In: AVRITZER. 1. Especialista e Estudante de Mestrado KIMLICKA. & OLSEN. power and corruption. Will. n. 1990. 61. 1967. Consequences. Joseph Nye. NORTH. 2000. O Feminismo. ROSE-ACKERMAN. Iris M. v. Cambridge: Cambridge University Press. New York: Free Press.. Banco Mundial. Luis Felipe. In: Journal of Development Economics. São Paulo: Martins Fontes. Inclusion and Democracy. 2006.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Newton. From victims to saviors? Women.. In: Filosofia Política Contemporânea. 2001. 1989. Gênero. Institutions. Ephim. O. MARCH. STARLING. 2001. vol. Douglass C. Corruption and Government. Cambridge: Cambridge University press. Corrupção: ensaios e crítica. política do desvelo: representação política e singularidade feminina. 9. Heloísa. YOUNG. Leonardo.. Gender and Corruption. 2008. KNACK S. AZFAR. nº 4. Causes. SWAMY. Oxford: Oxford University Press.

A busca por respostas conduz muitos pesquisadores sociais ao encontro da antropologia e do folclore. desencadeada a partir da introdução de novas tecnologias na indústria e da maior concentração demográfica nas cidades. entra em colapso por conta das discrepâncias de suas convicções – o respeito pela dignidade e valor do indivíduo contrastam com a prática da desumanização e despersonalização das classes trabalhadoras4. No Brasil. 1815-1914 (Londres. de maneira a incluir e reconhecer o papel dos vários agentes sociais na formação étnica de uma nação. muitas são as propostas para reordenar a realidade. Apud. 20 Título de livro do historiador espanhol José Ortega y Gasset. com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. 18 Cf. 17 Professora do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Pará. BARRACLOUGH. Esta rebelião das massas5 faz as perspectivas quanto ao futuro serem incertas e um tanto pessimistas – especialmente no contexto europeu. 1959). Tecnologia e Educação do Pará . Diante da crise de paradigmas. tão cara ao liberalismo burguês. G. no jornal madrilheno “El Sol”. Daí em diante. especialmente na Europa. Nineteenth-Century European civilization. atualmente é aluno de pósgraduação no Instituto Federal de Ciência. 16 Graduado em História pela Universidade Federal do Pará. a intelligentsia nacional tenta explicar e propor o ordenamento da vasta e diversificada sociedade brasileira. estando estes temas direta ou indiretamente diluídos em diversas produções intelectuais do início do século XX. Tais circunstâncias demarcam a ruptura entre dois períodos: a tradição humanista vinda do renascimento. promovem várias discussões e mudanças na percepção das identidades nacionais. acabaram expondo outras particularidades sociais. como as questões de sexualidade e gênero. Publicado inicialmente em 1926.IFPA. para além de aspectos puramente políticos ou antropológicos. de Zola. 212. socióloga e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Euclides da Cunha expõe a problemática sociológica sobre a crise da síntese burguesa ao publicar Os Sertões. A formação de uma identidade comum envolvia aspectos complexos. bem como as grandes guerras do início do século XX. de Gerhart Hauptmann. Ciência e Tecnologia do Pará (UFPA) Orientadora: Ana Paula Palheta Santana2 As mudanças políticas e econômicas ocorridas em fins do século XIX. retrata as grandes transformações do século XX. Bruun. 19 Uma bela exposição deste quadro foi feita no livro Germinal (1885). p. A crise da síntese burguesa3. permitindo a (re) criação de uma noção de pertencimento nacional. numa tentativa de reescrever a história dos povos. por isso os textos sobre nacionalidade. coloca em xeque todo um padrão de comportamento social. quando as democracias de massas abrem espaços sócio-políticos a outros segmentos sociais. Ver também Os Tecelões (1892). Especialista e Estudante de Mestrado As personagens femininas em Macunaíma: Sexualidade e Gênero no modernismo pós-1922 André Luiz Ferreira Cozzi 1 Universidade Federal de Educação. 83 .

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O movimento modernista de 1922 é tomado por muitos como o mais contundente manifesto em prol de uma nova e autêntica sociedade brasileira, na qual a diversidade social tivesse o reconhecimento e a aceitação política e intelectual. As palavras proferidas por Menotti Del Picchia dão o tom deste desejo por mudanças: Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho na nossa arte. E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último deus homérico, que ficou anacronicamente a dormir e a sonhar – na era do jazz band e do cinema – com a frauta dos pastores da Arcádia e os seios divinos de Helena. (JORGE, 1994, p. 462). Seguindo os passos da ciência, a arte também procura traduzir as novas realidades, de forma a compreender, dominar e dar novo sentido à vida humana – “A arte não reproduz o que se pode ver; ela torna as coisas visíveis”, diria Paul Klee6. De fato, muitas são as tendências artísticas surgidas no fim dos novecentos. De modo geral, porém, a tendência artística manteve-se em grande medida atrelada aos padrões mais tradicionais, porque, como disse Gauguim ao comentar a exposição impressionista de 1874, eles “conservaram as algemas da representação”. Seguindo a tendência mundial, a arte e a literatura brasileira de vanguarda, adotou uma postura libertária em relação a antigos paradigmas, abria mão de profundas e respaldadas reflexões nas mais recentes descobertas científicas, mas ainda conservava certas posturas tradicionais. Em Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928), Mário de Andrade faz jus ao papel que a arte desempenhava naquele momento. Concebe o livro como resultado do conhecimento das obras de Capistrano de Abreu, Oliveira Vianna, Paulo Prado, Barbosa Rodrigues, Spengler, Herder, Keyserling, Homero, José de Alencar e vários outros escritores e pensadores, gregos, alemães e brasileiros, fazendo uma releitura destes autores de acordo com suas próprias concepções sobre a cultura. De fato, para a maioria, se não para todos, os que se preocupavam com a questão da construção de uma identidade nacional, as teorias científicas eram utilizadas por conveniência: utiliza-se o que há de análogo a seus interesses e descarta-se o que se contrapõe aos mesmos7. Meu interesse por Macunaíma seria preconcebido hipocritamente por demais se eu podasse do livro o que é da abundância das nossas lendas indígenas (Barbosa Rodrigues, Capistrano de Abreu, Koch-Grünberg) e desse pro meu herói amores católicos e descrições sociais que não seriam dele pra ninguém.
1 O ensaio de Klee, 1920, do qual são estas as palavras de abertura, está editado em tradução por W. Grohmann, Paul Klee (Londres, 1958), p. 97; cf. também G. Di San Lázaro, Klee: A Study of his Life and Work (Londres, 1957), p. 105. Apud BARRACLOUGH, p. 216. 2 Ver ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 5ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 32. 84

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[...] Se somando isso com minha preocupação brasileira, profundamente pura, temos Macunaíma, livro meu8 (HOLANDA, 1978, p. 25-30). Se na década de 1920, o discurso dos modernistas se consolida como inovador, Macunaíma seria a sua expressão mais aguda. O livro é polêmico, pois valoriza os aspectos da exacerbada sexualidade brasileira como um traço positivo de sua natureza9, fazendo disso uma das indispensáveis características do verdadeiro homem nacional, sendo a negação ou ocultação desse erotismo as amarras que impediam o progresso civilizatório no Brasil. Tal posicionamento é revolucionário, pois contradiz toda uma lógica sociológica que classificava a forte sexualidade do brasileiro como uma de suas deficiências para se construir como nação (mestiçagem) – esta idéia envolvendo erotismo e atraso é largamente debatida no livro do gaúcho Paulo Prado, Retrato do Brasil, ensaio sobre a tristeza brasileira, publicado em 1928. Neste artigo, procuro demonstrar que é exatamente naquilo que a obra andradiana tem de mais inovador, contestador e emancipatório: o reconhecimento e a valorização da sexualidade do brasileiro como traço de sua afirmação como povo residem também o discurso patriarcal de manutenção de uma ordem tradicional e conservadora no que diz respeito às identidades de gênero, em que o controle e disciplinarização da sexualidade determina a estabilidade social e política; demarcando, simultaneamente, avanços e permanências no campo social. Avanços, porque abrem o leque de discussões em torno da cidadania e do pensamento crítico; e permanências, por não conseguirem abrir mão de uma tradição profundamente perpetuada pelo uso, numa espécie de reificação oculta, além da capacidade para uma reflexão questionadora de fato, na qual a idéia de serem as mulheres portadoras de um estigma ameaçador à civilização é atualizado e ganha nova dimensão. Para tanto, lanço mão da análise de algumas personagens femininas da rapsódia, procurando através do embasamento em literatura especializada sobre Mário de Andrade10 e noutra específica acerca da história das mulheres11, estabelecendo uma interpretação das tramas que envolvem estas personagens a luz de conceitos sobre gênero e sexualidade, contribuindo assim (sem a pretensão do ineditismo) para uma ampliação das fontes e categorias de análise sobre a formação de identidade nacional brasileira na conturbada década de 20 do século passado.

3 Exceto de prefácio inédito, escrito imediatamente depois de terminada a primeira versão. 4 80 anos após sua publicação, o erotismo de Macunaíma ainda expõe muitos tabus sexuais de nossa sociedade. 5 SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2ª ed. rev e amp. – Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. SOUZA, Gilda de Mello e. O tupi e o alaúde: uma interpretação de Macunaíma. São Paulo: Duas Cidades: Ed. 34, 2003. 6 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. tradução Viviane Ribeiro. –Bauru, SP: EDUSC, 2005. 85

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A moldura No contexto das relações políticas e econômicas, é inegável uma ampliação na participação e no reconhecimento das mulheres como iguais; o próprio discurso republicano, ainda no século XIX, insistia numa maior participação feminina na consolidação do novo regime de governo, primariamente restrita ao lar: como filhas, mães e esposas dedicadas e submissas à ideologia da classe que detém o poder político. Em 1890, no Programa de Educação Nacional José Veríssimo admoestava: [...] a mulher brasileira, como a de outra qualquer sociedade da mesma civilização, tem de ser mãe, esposa, amiga e companheira do homem, sua aliada na luta da vida, criadora e primeira mestra de seus filhos, confidente e conselheira natural do seu marido, guia de sua prole, dona e reguladora da economia de sua casa, com todos os mais deveres correlativos a cada uma destas funções. (LOURO, 2000, p. 448). O domínio do homem sobre a mulher, conforme identificado por Engels,12 tinha como finalidade principal à procriação de herdeiros, que um dia tomariam posse dos bens do pai. Exigia-se que a mulher guardasse castidade, mantivesse fidelidade conjugal rigorosa e tolerasse a infidelidade do marido; ela era a mãe de seus filhos legítimos e herdeiros; era aquela que governava a casa e vigiava as escravas, as quais ele, o homem, podia transformar em concubinas. Mesmo após a Revolução Francesa – com as propostas de renovação dos costumes e criação de um novo homem em aparência, linguagem e sentimentos –, a força da tradição patriarcal se mantém. Foi no século XVIII que as idéias em torno da coisa pública se associaram com o Estado, enquanto o privado passa a ser identificado com a vida familiar. Diferenciaram-se os papéis sexuais, estabelecendo-se a oposição entre homem (público) e mulher (mundo privado). A partir do século XIX, com a reforma social, o Estado invadiu a vida familiar, legislando sobre o casamento, regulamentando o processo de adoção, determinando os direitos dos filhos naturais, instituindo o divórcio e limitando o poder paterno. Por meio do estado eram garantidos os direitos individuais, a união familiar e paterna. As mulheres, entretanto, continuavam restritas a redoma do universo privado. Eram identificadas pela sua sexualidade e pelo seu corpo: seu útero era quem definia seu lugar na sociedade; como símbolos da fragilidade deveriam ser protegidas, pois eram o centro do lar e da família. Distanciavam-se das atividades públicas (negócios), convertidas em mães e donas de casa; conseqüentemente dependentes do homem. Na maior parte do mundo, o casamento monogâmico continuava sendo o fundamento de uma família nuclear, cuja afetividade era fortalecida e os filhos ocupavam lugar de destaque. A família era responsável pelo funcionamento econômico;
7 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. 13ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. 86

[. Num tempo marcado pelo interesse da ciência. Michelle. imagens freqüentemente lembradas como as únicas representações da mulher no século XIX. 2004).. sociais eram. Caracterizada pela longa duração. psicológicas. tão somente. ilusão de ótica: nelas tudo era natureza. . 26. era ainda a transmissora de valores e agia ligada às tradições religiosas e políticas do meio social: a garantia não mais de uma genealogia. As mulheres eram. para quem as mulheres teriam uma inclinação natural para o crime (SOIHET.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. o corpo da mulher servia para quase tudo e seu antônimo: Natureza e Cultura. A preocupação em limitar e canalizar os poderes das mulheres esconde conceitos profundamente arraigados. pureza e saúde.] A literatura da segunda metade do século XIX mostra claramente que a mulher mete medo. tem 8 9 87 DOTTIN-ORSINI. Luxúria e Castidade. Gozarem elas de maiores direitos sociais seria útil à medida que estes fossem utilizados à maneira de quem os prescrevia: a pátria e a perpetuação do patriarcalismo que a funda e mantém. Às mulheres. no final do século [XIX]. sendo resignificado para as novas circunstancias em que as relações de gênero se redefiniam. e todas as nuances físicas. 1996. mas do bom nascimento e do bom sangue. garantido por meio de seu poder de vida e por sua atuação social como mães e esposas. Nesta perspectiva. Especialista e Estudante de Mestrado transmissão de patrimônio.. 268-278. a musa sofre estranhas metamorfoses.] Tornando-se vocabulário comum. estando eles ligados à humanidade em geral. 2005. cabia uma função social especial (e bastante tradicional) na sociedade no início do século XX: assegurar o destino da espécie humana.. a misoginia (aversão à mulher) persiste no imaginário masculino.. Eles viam mulheres em toda parte. por estes termos. enquanto as mulheres eram uma espécie de “entidade mística. Sobre isso ver também PERROT. não se fala mais de anjo. De qualquer maneira. O perigo representado pela intelectualização feminina acabou sendo objeto de estudos científicos. mesmo que agora esteja travestido com o nome de república e democracia. p. sem equivalente masculino”13. Vulgar para os naturalistas. singularizado: “Bastava analisar uma delas para conhecer o grupo. p. ela bate nas coxas. Com efeito. as mulheres e os homens não podem ser colocados no mesmo plano. um legado para o futuro – hereditariedade. Musa ou Madona. [. portadoras de uma ambigüidade cativante para as mais variadas especulações sobre sua natureza e comportamento. seu papel como mães e administradoras do lar. Idem. da literatura e da arte em geral em assuntos que envolvessem o cotidiano das pessoas que viviam nas cidades. que é cruel. Verdade e Mentira. ocorre uma verdadeira obsessão pelo feminino. dos quais um dos mais conhecidos foi o do médico e criminalista italiano Cesare Lombroso. dados os discursos científicos sobre sua natureza. que pode matar. e apenas isso”14. produção de crianças e pela sua socialização.

amplamente fantasioso. que toma emprestado aos elementos as suas dimensões” (PERROT. Gustav-Adolf Mossa. é no horror e na sânie. com aparência cansada e descontente enquanto cuidam das crianças e dos afazeres domésticos. entre outros. que no século XIX adota o modelo europeu de civilização entre seus intelectuais. como no interessante trabalho da historiadora Mary Del Priore: “História do amor no Brasil” (2ª ed. sem a pretensão de unidade. p. 2006). fizeram dela seus objetos de pesquisa e especulação. A recepção dos novos papéis sociais desempenhados por mulheres é abundantemente explorada nos meios artísticos – “No século 19. arrasta a saia no sangue. caracterizado pela reunião e justaposição de várias melodias populares. Especialista e Estudante de Mestrado suas regras (ou cólicas) e. 1996. assassina com um sorriso. A presença feminina é redefinida em muitas produções artísticas da Europa: Flaubert. possui impassíveis olhos de pedra preciosa. os irmãos Goncourt. 88 . Mas neste caso. paralelamente com caricaturas de homens desleixados e mal arrumados. obsessivo. 2004.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Huysmans. “O recurso da ironia e da comédia foi um poderoso instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da inferioridade e passividade da mulher. utilizando para isso a técnica da bricolagem. a mulher está no centro de um discurso abundante. hierática para os simbolistas. Maupassant. Macunaíma. é perigosa. o herói sem nenhum caráter é concebida como rapsódia. Contexto. 11-14). sendo estes bastante explorados por jornais e revistas da época. além de masculinizadas. Seja como for. Theófile Gautier. a leitura artística reflete mais o medo que o reconhecimento ou a aceitação. a escrita da obra se deu durante seis dias ininterruptos. Segundo Gilda Mello e Souza (2003). a historiadora Raquel Soihet revela a existência de todo um aparato voltado à desmoralização das mulheres que trabalhavam fora e como isso poderia afetar o equilíbrio da vida familiar em conseqüência de uma inversão de papéis: diversas eram as charges publicadas em revistas e outros periódicos retratando as mulheres que trabalhavam fora com um aspecto embrutecido e rude. 2005). repetitivo.” (SOIHET. 15)15. p. 15 Só recentemente as pesquisas históricas têm abordado o tema de forma contundente. durante as férias do autor – daí sua aparente despretenciosidade quanto ao eruditismo. Em artigo publicado na revista “Nossa História” sob o tema “Pisando no ‘sexo frágil’”. Zola. na literatura. que valoriza os aspectos lúdicos e jogo de formas. encontramos vasto material artístico e científico destinado à propagação de estereótipos do feminino. Baudelaire. No Brasil. A Tela Dividida em 17 capítulos e um epílogo. São Paulo: ed. e pintores como Gustav Monreau. gênero artístico tomado da música. Octave Mirbeau. se acontece dar à luz. (DOTTIN-ORSINI.

Escrito a partir da combinação de vários outros textos. As personagens privilegiadas serão: a índia Tapanhuma. e por último a Iara. Tia Ciata. mãe do herói. Os frisos Publicado a mais de oitenta anos (1928). uma velha caapora chamada Ceiuci e uma de suas filhas. Vei e suas três filhas. a deusa-sol. a Iara. indo parar nas mãos do gigante Paimã. sua esposa. folclore e literatura. destacamos algumas passagens. uma princesa lindíssima que havia sido transformada em caramboleiro. As personagens incluem: o protagonista. entrecortam-se várias outras narrativas tomadas do folclore e tradição oral indígena e luso-brasileira. A trama talvez seja o exemplo mais conhecido do imbricamento entre ciência. causada pela influência exterior (européia). Suzi e Iriqui (que são em momentos distintos. sua mãe. que fora perdido pelo herói. Sofará. pois haveria sempre 16 Personagem mítico do imaginário indígena amazônico. já que este termo geralmente era atribuído às mulheres brancas de origem européia que viviam na zona de meretrício) que incorpora Exu durante a visita de Macunaíma a um terreiro de macumba. a empregada e o chofer de Venceslau. um monstro antropófago. suas cunhadas. Nas aventuras e desventuras do herói para encontrar o amuleto perdido. Ci. o herói de nossa gente16 (que tem como principal característica a preguiça). seus irmãos. Para esta pesquisa. para recuperar a Muiraquitã. que vive na cidade de São Paulo. Sofará. 89 . Jigue e Maanape. que é simultaneamente a mãe do mato. a polaca (possivelmente uma prostituta. a dona da pensão onde Macunaíma se hospeda. que também assume a identidade de um regateiro e industrial italiano. a filha de Ceiuci. o antagonista. constitui uma inteligente interpretação do que deveria ser a mais original identidade nacional brasileira. amuleto símbolo da possibilidade de formação de uma civilização autentica no Brasil. pois para ele não há uma relação de continuidade do primitivo para o moderno em nossa cultura. as cunhadas de Macunaíma. catalogado pelo naturalista alemão Koch-Grünberg. Conta a trajetória de Macunaíma. a história nos é apresentada como uma narrativa de segunda ordem. companheiras de seu irmão Jiguê). a macumbeira. uma índia Tapanhuma. Isso impediria a formação de uma cultura genuinamente nacional. Macunaíma. a varina. Especialista e Estudante de Mestrado Tendo como fonte privilegiada da informação um papagaio. essenciais para compreensão do enredo principal – o encontro e embate com o antagonista. a rapsódia Macunaíma inscreve-se no cânone literário brasileiro como obra de referência do nacionalismo modernista brasileiro. antes ocorre uma ruptura. Andrade vê a relação entre erudito e popular como algo problemático.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. chamado Venceslau Pietro Pietra. Suzi e Iriqui. Venceslau Pietro Pietra. tomadas para discutir as questões de sexualidade e gênero implícitas na obra. a rainha do mato-virgem e uma amazona ou icamiaba. designação portuguesa dada às mulheres vendedoras ambulantes de peixe. Venceslau Pietro Pietra.

Essa civilização construída por outros povos. gerando crises de identidade. passou pela nossa alfândega. imprimem em suas linhas a idéia de unificação do variado identitário que é o Brasil. pelo que poderá valer em nossa contemporaneidade. Numa breve análise do texto. Jornal Diário de Notícias. se representa uma felicidade da nossa tradição. Esse é o caso da mãe do herói. Atualmente. pois expõe o discurso ainda reacionário e tradicional (para não usar o termo machista) de como as mulheres interferem e se inserem na sociedade brasileira idealizada pelos modernistas de 1922. A imagem será chamada de Cristo-Rei enquanto símbolo de uma civilização que nos falseia demais (ANDRADE. com outras necessidades e outros climas. ver também HURLEY.. a morte da índia Tapanhuma reflete o mito 17 In CHALHOUB. A História contada: capítulos de história social da literatura no Brasil.) a imagem de Cristo do tope do Corcovado. 84. nem tanto por terem travado relações com o protagonista. representa ainda o aerólito a que nos escravizamos. uma reflexão sobre o posicionamento da escritura de Macunaíma quanto às já referidas questões sobre sexualidade e gênero. Sua originalidade e ineditismo. após retornar da floresta. p. Segundo a interpretação de Eneida Maria de Souza18. Dentre elas. o que é imediatamente interpretado pela mulher como premonição de morte na família. A imagem será chamada de Cristo-Deus enquanto símbolo do nosso passado colonial. sendo transformada em uma veada parida.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Sobre isso. Macunaíma tem sido ponto de partida e referência a muitos trabalhos que versam sobre a identidade e o nacionalismo brasileiro no século XX. 85. 18 SOUZA. No capítulo “Maioridade”. 1934. além de estar inserido num momento histórico de significativas mudanças sociais e políticas. revela a sua mãe ter sonhado que lhe caíra um dente. 268. Especialista e Estudante de Mestrado traços de uma cultura estranha. Isto acaba sendo fundamental aos objetivos deste trabalho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. é possível identificar as personagens femininas e suas participações na trama de Andrade. ocorrendo logo depois sua própria morte. Leonardo Afonso de Miranda. também presentes nas discussões vanguardistas do início do século. se representa uma das medidas do nosso ser rotulado. entretanto. Sua produção literária é sempre marcada por uma espécie de apelo contra o estrangeirismo em nossa cultura. é possível percebê-la em suas entrelinhas. 1999.. (. política e literatura. Que falseamos. como um aerólito fulgurante. 90 . 18/10/1931)17. a índia Tapanhuma. chama a atenção o desfecho daquelas que ao entrarem em contato com Macunaíma acabam sendo obliteradas e metaforseadas. p. Mas como índice da civilização brasileira. 53. p. onde passa por várias provas de iniciação. mas principalmente por serem portadoras de alguma deficiência moral ou estarem cumprindo um destino mítico. Sidney e PEREIRA. E que nos falseia ainda mais. é apenas Cristo-Rei. A imagem será chamada de Cristo-Redentor. que envolviam igualmente ciência. 1998. Apesar de não haver uma referência explicita a esta temática no texto. Cabe aqui.

2005. como Jorge Hurley. Ci personifica a própria natureza brasileira. brasileira. Icamiaba. Barbosa Rodrigues. Outra passagem emblemática da rapsódia diz respeito a Ci. amazona. 26). Ao explicar os motivos que levaram Rivière a matar sua mãe. 424). Michele Perrot. ela é criada por Mário de Andrade como a junção de várias mulheres lendárias. personagem feminina que assume identidades variadas: é a mãe do mato e também uma icamiaba ou amazona. ao perceber a presença da mãe numa reunião exclusiva para homens. Segundo a leitura da época sobre a história. Câmara Cascudo e Silvio Romero. Imperatriz do Mato-Virgem. Especialista e Estudante de Mestrado de Jurupari (entidade mítica dos indígenas. e que segundo Jorge Hurley exerce entre os índios a mesma função profética de Moises entre os judeus). diz que Ci não foi simplesmente transportada para o texto. 2001. Focault lembra: “São as mulheres que comandam agora. de José de Alencar (um autor também influenciado por Herder e considerado por muitos como o precursor do naturalismo no Brasil). o relato serve também como um alerta contra a presença de mulheres nos meios tradicionalmente destinados aos homens. 494). Ou seja.” (SOUZA. filho de Tupã com a bela Cêucy. nem mesmo beber uma quarta no domingo com seus amigos” (PERROT. quando a maior autonomia das mulheres perturba a ordem do mundo masculino. Agindo como vingador de seu pai. A leitura sobre a identidade nacional. retomando os estudos de Focault sobre Pierre Rivière – condenado pela morte da própria mãe –. p. 2005. e conclui: “Ora. tomando como referencia Cavalcanti Proença. ela é o espírito protetor da natureza e ao mesmo tempo a própria geografia brasileira. pois semelhante à personagem Iracema. muitas araras vermelhas toins coricas periquitos. parece condescender com estas tradições. presentes tanto no velho mundo como no primitivismo brasileiro19. a qual Mário de Andrade atribuiu características híbridas. analisa os motivos do ato parricida sob a ótica dos conflitos sexuais daquela época. 19 A busca de uma relação entre a mítica européia e o primitivismo americano era um dos ambiciosos projetos da intelligentsia. Gilda de Mello e Souza. a força foi aviltada. p. como cada uma dessas designações. que segundo ele sofria as mais variadas formas de repressão impostas por sua esposa. 91 . implica série distinta de atributos. sendo isso um sacrilégio passível de morte. não podendo mais “sem sua permissão. manifestada principalmente na atuação dos etnólogos e outros simpatizantes da causa. entre outros. diz ele para explicar seu crime” (PERROT. 2003. p. p. preconizada pelo modernismo de 22. obtendo com isso o poder materno. a figura de Ci acaba se esfumando numa névoa imprecisa que cabe ao leitor dissipar. Jurupari decreta a morte da mesma. como ocorre com outras personagens (inclusive o próprio Macunaíma). muitos papagaios” que vêm saudar Macunaíma como o “novo Imperador do Mato-virgem. Considerando as circunstâncias sociais do início do século XX. a morte desta mulher é decorrência direta de uma interdição socialmente imposta que foi transgredida: a entrada no recinto exclusivo dos homens.” (ANDRADE. O texto deixa isso claro quando fala das “muitas jandaias.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. 34).

Precisando ser conquistado. . força e subjugação sexual. uma alegorização muito comum entre os contemporâneos de Mário de Andrade: a relação das mulheres com a natureza indomada. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando berros [. E não pelos que agem friamente. 149). mas necessário ao processo civilizador. Em A Mandrágora. sendo necessário. Percebemos. o herói deitou fugindo chamando pelos manos:— Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato! [. para dominá-la. em oposição ao pensamento racional.] pois a sorte é uma mulher. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba. Maanape trançou os braços dela por detrás enquanto Jiguê com a murucu lhe dava uma porrada no coco. assim. 2004.. 16). Especialista e Estudante de Mestrado Vemos também aqui. é sempre amiga dos jovens – mais bravos. uma similaridade entre Andrade e Maquiavel – no que pese a diversidade de gênero literário.. Macunaíma se aproximou e brincou com a Mãe do Mato (ANDRADE. pode-se ver que ela se deixa vencer pelos que ousam. prontos a dominá-la com maior audácia (MAQUIAVEL.. compara o sucesso político de um governante à conquista de uma mulher. empregar a força. Como mulher.. [. visto que adotam para seus personagens o mesmo método e os mesmos pressupostos. sendo isto um importante indício da perpetuação da misoginia nas esferas do pensamento intelectual – uma formulação antiga que remonta aos primórdios do pensamento humanista.] Os manos vieram e agarraram Ci.. o feminino é novamente abordado como algo a ser dominado – tomado à força. 20 92 Protagonista de A Mandrágora. quando Maquiavel.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo.]. Quando ficou bem imóvel. por isso. neste pormenor sobre Ci... encenada pela primeira vez em 1522. Há. p. pois no encontro deste com Ci há um violento confronto e o protagonista necessita da ajuda de seus dois irmãos para subjugar e conquistar sua mulher através do coito sexual. submetido pela astúcia. 2001. E a icamiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira. Foi um pega tremendo. Macunaíma seria um Calímaco20 às avessas. p. peça teatral também escrita por Maquiavel. O herói apanhava. e por debaixo da copada reboavam os berros dos briguentos [.]. que o comportamento feminino há muito era tomado como parte do mundo natural. menos cuidadosos.. um dos grandes formuladores da política moderna.

A mulher que eles chamavam fatal: textos e imagens da misoginia fin-de-siècle. 1938. p. secretas amazonas à espera da hora da vingança.. Seriam. de que parece encarnar os aspectos negativos. este autor utiliza narrativas míticas e arqueológicas para respaldar a tese sobre um período no qual a humanidade viveu sob o domínio das mulheres (ginecocracia).. 93 . (DOTTIN-ORSINI. de todo ser humano. estando isso latente em todas elas. sangrando das brigas e trepava na rede que ela mesmo tecera com fios de cabelo... Bachofen21. mas que seus comentários confundiriam com o reinado da Mãe. DottinOrsini. Paris... um “imperialismo feminino” mais próximo do heterismo que da ginecocracia verdadeira. Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras de três pontas. E Mário de Andrade faz questão de explorar na prática o natural comportamento feminino: violento. J. 1996. 260). ao falar sobre a ginecocracia. J. [. assassino. lhe confere características negativas. Rio de Janeiro: Rocco.. o materialismo. J. num instigante trabalho sobre a construção das representações misóginas em fins do século XIX. [. principalmente. Aficionado por mitologia. O próprio Bachofen.] De noite Ci chegava recendendo resina de pau. publicados em francês por feministas em 1903. Mireille. assim. Os dois brincavam e depois ficavam rindo um pro outro. Alcan. toda uma parte da obra trata do amazonismo. para alimentar o terror de um primeiro poder feminino. as amazonas o modelo arcaico da personalidade feminina. 1996. Ci aromava tanto que Macunaíma tinha tonteiras de moleza. Sugando vampirescamente as energias de seus companheiros.] Tais devaneios sobre um feminino primordial tão formidável como assassino mostram que poderia ter permanecido algo no inconsciente coletivo das mulheres modernas.. Além disso. dedica em seus estudos sobre a mulher fatal um subtítulo que trata das amazonas a partir dos estudos feitos pelo arqueólogo e historiador da Basiléia. que via nesse período um motivo de humilhação.. [. dissimulado e sexualmente insaciável.. páginas escolhidas por Adrien Turel. Especialista e Estudante de Mestrado O fato de Ci também ser uma icamiaba é igualmente emblemático. em que ele vê uma degradação do matriarcado. o prefácio secreto do patriarcado e o princípio inicial de toda a civilização – em suma. (1815-1887) Du Règne de la Mère au Patriarcat.] Serviram. [.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Enfatizava dessa maneira os perigos representados pelo gênero feminino ao progresso civilizador. que foi ocultada pela historiografia patriarcal. em que imperava o heterismo. — Puxa 21 BACHOFEN.] inspirariam impressionantes pinturas. J. Citado em DOTTIN-ORSINI. a obsessão pela noite e pela morte.

a 94 .. O herói ferrado no sono.. A amazona é por certo um tema repleto de significações ambíguas. pois são as que geram e perpetuam a vida.. A morte de Ci suscita ainda outras reflexões sobre texto e gênero. Então a Mãe do Mato pegava na txara e cotucava o companheiro. O muiraquitã. Ci também.. transformada na estrela Beta do Centauro. Apesar dos problemas que as mulheres representam ao progresso civilizador. Especialista e Estudante de Mestrado como você cheira. Convidava. ao cumprir seu destino junto à sociedade. O muiraquitã é símbolo dessa relação temporária. o muiraquitã representa em Macunaíma a possibilidade da formação de uma civilização genuinamente brasileira.] Vinha uma tonteira tão macota que o sono principiava pingando das pálpebras dele. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso (ANDRADE.. Perder essa aliança significa perder a possibilidade de construção de uma civilização..] E brincavam mais outra vez.. 2001. [. convidava. Seria a própria civilização brasileira que agora passa a ser representada pelo amuleto que Ci dá de presente ao herói. fruto da ligação provisória entre os dois. que culminava no nascimento de um filho e conseqüentemente na separação do casal. porém intensa. Macunaíma recebe um muiraquitã de presente de Ci quando seu filho com a amazona morre e a Mãe do Mato vai para o campo vasto do céu virar tradição. Morto de soneira. Isso Macunaíma ficava que ficava um lião querendo. desempenha um papel central na trama de Mário de Andrade. ou seja. p. Este filho que acaba morrendo é o fruto da união entre raça e meio.. como acontece no livro de Rodrigues. É a aliança eterna entre o herói e o mato.. Buscava no mato a folhagem de fogo da urtiga e sapecava com ela uma coça coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Porém a Mãe do Mato inda não estava satisfeita não e com um jeito de rede que enlaçava os dois convidava o companheiro para mais brinquedo.] Mas Ci queria brincar inda mais. já que as amazonas não podiam manter relações permanentes com os homens.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. ligadas invariavelmente à origem de todos os povos e à moderna concepção da hierarquia dos sexos. mas também por serem as icamiabas as guardiãs do muiraquitã – amuleto esculpido com barro do leito de determinada lagoa e que era dado pelas icamiabas aos homens de outras tribos por ocasião do nascimento de um filho do sexo feminino. Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando de cócegas. [. Ci empregava o estratagema sublime..] Então pra animá-lo. não apenas pelo viés do primitivismo subjacente à figura da mulher guerreira. pois mais uma vez. elas são imprescindíveis na construção de uma civilização. entre o povo brasileiro e a natureza tropical. benzinho! [. [. A identidade de Ci permite o entrecruzamento de Andrade com a obra do naturalista Barbosa Rodrigues... infernizado. Macunaíma brincava para não desmentir a fama. como ocorre na morte da mãe. 17).

pois conforme entendimento fornecido por Eneida Maria de Souza. Braudrillard. p. Esta cabeça decepada – representando a genuína tradição brasileira – fica escrava do herói e o persegue para servi-lo. torna-se o seu substituto. uma variante do leite mágico. depois de engolida por um tracajá (quelônio típico dos rios amazônicos) é vendida a um regatão peruano chamado Venceslau Pietro Pietra. Segundo o pesquisador Koch-Grünberg (cuja obra serve de ponto de partida para o Macunaíma de Andrade). enunciados míticos e ritualísticos pertencentes ao repertório popular e ao imaginário indígena. fragmentariamente. segundo a mitologia indígena – é uma planta com poderes mágicos: seu leite quando ingerido pelos homens garante sucesso nas caçadas. um monstro da mitologia indígena. Macunaíma é obrigado a empreender uma busca que o leva à cidade de São Paulo. sem a necessidade de maiores explicações.. A perda do muiraquitã é descrita no quarto capítulo: Boiúna Luna. [.Sofará. ao mesmo tempo em que será a partir da perda que a narrativa ganha em força e motivação (SOUZA. por analogia. desta forma. fazendo uso dos conceitos de Lévi-Strauss e J. para onde convergem as idéias sobre civilização. Especialista e Estudante de Mestrado mulher é descartada da vida. porém este com medo foge.. O fato de Ci transmutar-se na estrela “Beta do Centauro” revela como estando morta pode contribuir para o sucesso de seu companheiro. Suzi e Iriqui também seguem o mesmo destino de peripécia. o papel singular das mulheres na vida: contribuir para o sucesso de seus companheiros. e depois fugindo dela. é desafiado por Macunaíma.. Com o amuleto perdido.] Ci deixa como herança a pedra muiraquitã. que o mesmo se dá com os conceitos sobre gênero destas personagens. A garantia do sucesso é representada pelo Muiraquitã. 2004. que Macunaíma perde a possibilidade da construção de uma civilização e cultura autênticas. a morte no contexto ritualístico serve para demarcar o lugar do sujeito no discurso. A pedra. o espetáculo da morte é encenado de forma a repetir. Beta do centauro – kunawá. [. o herói acaba decepando-lhe a cabeça. Nesta luta e fuga é que o muiraquitã se perde. 149).5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. mesmo que isso implique na sua morte (simbólica ou não). O que nos permite concluir. Em outras palavras: é na luta contra a tradição. Outras personagens femininas: as filhas de Piaimã . A cabeça (tradição) da cobra sem ter mais o que fazer nesta terra vai para o vasto campo do céu e vira a Lua. Mário de Andrade se safa de uma explicação mais convincente sobre a 95 . Em Macunaíma. O talismã. o talismã entregue por Ci a Macunaíma por ocasião de sua morte. amantes e filhos. que também evoca o universo feminino. Enfatiza-se. a cidade representante do progresso e da modernidade do país (cidade locomotiva). representante da falta deixada por Ci. morte e metamorfose.. estabelecendo uma causalidade inerente (o destino) a tais personagens. Na luta contra a cobra.] Em várias situações.

varina refere-se às vendedoras ambulantes de peixe. Comparando os comportamentos femininos nos dois casos: as mulheres que são sacrificadas em prol da causa de seu companheiro ou filho (índia Tapanhuma e Ci) e aquelas que promovem intrigas e planejam a morte (Vei e Iara). Sua ligação ao meio aquático. o herói. Associado com a luminosidade e o calor de Vei. segundo a qual o comportamento ambíguo de alguns seres pode ser classificado como “cromatismo”. e está é provocada por um minucioso plano elaborado e executado por entidades femininas. a filha de Ceiuci) ou das relações com a Europa (representada pela varina portuguesa). 96 . cavalo pangaré. libera nos Dominé” (ANDRADE. Em sua busca pelo amuleto. pois atuam de maneira a provocar interrupções no desenrolar dos acontecimentos. a sol. O destino de sacrificar-se a uma causa maior é vocação natural da mulher imaginada pelo discurso modernista de Macunaíma. Souza remete-se à obra e lembra a fala de Maanape que justifica essa preocupação: “Cabloco de Taubaté. Macunaíma acaba sendo seduzido pela cultura européia. a função sexual e ao mesmo tempo alimentar (mulher-peixe. p. Além disso. encontramos a explicação para as ressalvas machistas em relação às mulheres no início do século XX. portanto. não é mais o mesmo que saiu. obter a limpeza ou purificação civilizadora. Mas o que dizer sobre aquelas que fogem a esta regra? Sabemos que o desfecho da trama andradiana culmina com a morte do herói e sua transmutação em constelação da Ursa Maior. muitas vezes tais mulheres são associadas ao trabalho viril e também à sujeira que esta ocupação implica. uma clara referencia no livro sobre o receio daquela sociedade da década de 1920 sobre a presença de mulheres no espaço público – mulher que mija em pé (como homem). afirmando ser este o destino mítico da personagem (SOUZA. que se contrastava com a sujeira do primitivismo local (Susi. representada pelo muiraquitã. semelhante ao Brasil). não se enquadra mais naquele espaço. assim.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Especialista e Estudante de Mestrado transformação de Macunaíma em constelação da Ursa Maior. que já havia sido apresentado 17 Na cultura portuguesa. de onde tudo nasce e para onde tudo converge. representada pela varina. a Iara reúne os atributos do encantamento sexual.22 e não aceita a oferta de Vei (a sol) de casar-se com uma de suas filhas (países de clima tropical. está descaracterizado. Como típica representante do cromatismo feminino. fonte de vida e morte. 2004. Neste ponto. cria-se um cenário de delírio sedutor e mortal. 149). Desqualificado da possibilidade de construção de uma cultura genuinamente brasileira. Seria esta. entrega-se à morte: seduzido por uma Uiara (iara). mulher-mandioca) das personagens instaura a idéia desta dualidade contida no gênero feminino. De volta ao Mato-Virgem. 2001. 106). mulher-fogo. por fim. p. causar sérios danos à ordem cultural. que deve ser combatido e reprimido. Eneida Maria de Souza explora a idéia de Lévi-Strauss. podendo. naquela natureza onde um dia havia sido imperador. mulher que mija em pé. A proposta feita por Vei (a sol) permitiria a entrada de Macunaíma. perdendo com isso a possibilidade de gerar uma civilização genuína. atira-se numa lagoa e é quase todo devorado.

A ausência lilás da Semana de Arte Moderna: o olhar pósmoderno. estão para além da intencionalidade imediata do discurso. sendo isso um tabu sexual de sua época24. neste caso. uma pedagogia que reforça e amplia as interdições sexuais e a aversão ao feminino. 2001. também se constitui numa representação da Iara. determinados pelos mitos acerca do masculino e do feminino. os comportamentos antagônicos (cromáticos) apresentados a Elza . p. normalista morta aos 19 anos em conseqüência de um aborto desastroso patrocinado por Oswald de Andrade. que na sua verdadeira manifestação é destrutiva. que também explorava a sexualidade de jovens professoras. com os avanços propiciados pela ampliação das fontes. que encontra uma explicação no amor para assumir tais papéis. Ver ALMEIDA. Tereza Virgínia de. muito além da linguagem formal. em outros momentos de sua produção literária. Carlos. segundo Telê Ancona Lopez23). O erotismo é explorado para discutir e reforçar os papéis sexuais e de gênero. tornando visível uma polissemia discursiva. 91). pois o livro não é concebido como um manual de comportamento e sim como manifesto de libertação das amarras do modelo civilizador europeu e da possibilidade de reconhecimento de um autêntico ethos nacional. Todo este imbricamento simbólico visa demonstrar o estreito vínculo entre as mulheres e a sedução aquática. fazendo surgir (mesmo que à margem do discurso oficial) um ponto de vista sobre o gênero que subverte os olhares canônicos sobre arte. Tudo isso acaba por problematizar as formas de percepção da arte. Concluindo O contexto histórico que envolve todas as particularidades apresentadas na obra de Mário de Andrade e outros escritos da época demonstra ser o folclore um tema chave para diversas e variadas especulações sobre a identidade e as relações sociais do povo brasileiro. Percebemos que há. conhecido também por outros relacionamentos com normalistas. uma pretensa autonomia 18 LOPEZ. na construção das relações entre os sexos. havia o capítulo “As três normalistas” (suprimido pelo próprio autor em 1944). (SOUZA. verbo intransitivo” de 1927 (obra influenciada pelo expressionismo alemão. instrumento de prazer e de destruição”. vive o dilema de também ter de seduzir e iniciar sexualmente o filho mais velho do fazendeiro. a protagonista Fräulein Elza. Florianópolis: Letras Contemporâneas: 1998. faz referencias a mulheres cromáticas. que somente nos dias atuais. (ANDRADE. como a boiúna. p. Em Macunaíma. dentro de uma igarité que.são assimilados pela mesma. 112). Na trama. “representada pela natureza ambígua da mulher. podem ser historicizados. que garantiria a modernização e progresso da sociedade brasileira. 97 . Telê Ancona. A aprendizagem e o ensino. símbolo materno e sexual. 1996. 19 Temos o caso de “Miss Ciclone”. Mariodeandradiando.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Especialista e Estudante de Mestrado anteriormente na trama. São Paulo: Huicitec. No romance “Amar.ser professora e prostituta . professora de Alemão contratada por um rico industrial e fazendeiro paulista para ensinar seus filhos. questionando. O próprio Mario de Andrade. 2004. quando Macunaíma observa o encontro entre o chofer e a criada. dessa forma.

que nem sempre tentam discutir as questões no nível da eqüidade. A década de 1920 no Brasil. podemos questionar aquelas imagens aparentemente neutras (normais) em relação a comportamentos típicos de homens e mulheres. para as identidades de sexuais e de gênero. sugeridos por Michelle Perrot. é um tempo de redefinições das fronteiras sexuais. por toda instabilidade política e social que comporta. de . e o olhar que as endereçamos. tendo em vista ser o texto ainda muito requisitado. Especialista e Estudante de Mestrado das mulheres na sociedade. 98 Tema cabalmente explorado no livro Anarquia Sexual: sexo e cultura no fin de siècle. Seria o seu discurso antifeminista parte deste sucesso? E hoje. Lançando mão da propaganda difamatória e misógina. estando estas fatalmente destinadas a cumprir os papéis destinados a sua natureza. verbo intransitivo”. para seu próprio bem. que não pode ser negado ou rejeitado. é o que deveria ter sido feito por todas as personagens femininas em Macunaíma. estaríamos ainda nos servindo de sua mensagem para construir e reforçar nossas atuais fronteiras de gênero e sexualidade? As respostas para estas perguntas extrapolam os objetivos deste artigo. pois há um determinismo em sua natureza. como vimos. Macunaíma é filho de seu tempo. Assim. estão mais conectadas com relações de poder e política do que comumente presumimos. o melhor a fazer para adequar-se aos novos tempos. A retomada dos estudos focaultianos. das quais. O maior espaço reivindicado pelos movimentos feministas fomenta reações em contrário. sua maior liberdade e maior autonomia na sociedade brasileira não podem lhes garantir uma trajetória melhor no mundo. 20 Elaine Showalter. Tais imagens. A crítica e as estatísticas atestam o sucesso e aceitação da obra pela sociedade e intelectualidade de sua época. é buscar maneiras de adaptar aquilo que lhes é peculiar: complementar os homens e promover seu progresso. bem como nas que a sucederam.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Mário de Andrade não consegue fugir. Portanto. em que as transformações técnicas e políticas imprimiam uma nova dinâmica social. Isto é o que faz Elza. conseqüentemente. aqueles que se sentem prejudicados desencadeiam uma verdadeira cruzada contra aquilo que classificam de anarquia sexual25. sendo impossível fugir a isso. indica o lugar dos gêneros no plano mítico e social. Na desconstrução dos discursos. Também podemos questionar o nosso olhar naturalizado para essas imagens sobre o gênero. As mulheres precisam apoiar o mundo dos homens. mas nos instigam pela busca de uma sensibilidade que nos permita perceber como e até que ponto estes antigos. em “Amor. temos em Macunaíma uma vasta alegorização do feminino ameaçador. e como tal. talvez sejam de grande ajuda para a compreensão destas relações entre poder e sexo e. mas persistentes estereótipos sobre gênero e sexualidade. ainda moldam as representações e o simbolismo de nossas relações sociais. e de como são visualizados nas pinturas e textos ocidentais que configuram a chamada grande arte ou arte universal. assume seu posicionamento diante das circunstancias: elegendo a mitologia e a tradição folclórica.

Virgílio Cardoso de. São Paulo: Circulo do Livro S. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora. Tradução de Álvaro Cabral. educação e influencia na sociedade.A. Dissertação de Mestrado defendida junto ao programa de Pós-graduação Em Teoria Literária.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado. Mulheres da época. In: O romance como guia de conduta: A moreninha e Os Dois Amores. Muyraquitã e os índios symbólicos: estudo da origem asiática da civilização do Amazonas nos tempos prehistóricos. Os mitos ameríndios. Luis da. Macunaíma. apontamentos históricos e notícia sobre a Constituição Federal destinado às Escolas Públicas. Lendas Brasileiras. Romances e Literatura Prescritiva: Caminhos para Moralizar e Civilizar o Leitor. SANCHES DE FRIAS. Pará: 1934. ____________. Rio de Janeiro: s. Belém. Belém. 2001. 1927. CÂMARA CASCUDO. 93). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. Editados anteriormente em separado. Retratos do Brasil. Pará: Tavares Cardoso. Mitos ameríndios e crendices amazônicas. Geoffrey. João Barboza. 1997. Mário de. pedra falsa. ROMERO. Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia. 1975. Texto revisto por Telê Porto Ancona Lopez. 1998. LAGE. Leitura Cívica. Cattleya Alba. AZEVEDO. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Jorge. OLIVEIRA. (?) 99 . Valéria. Ed. Osvaldo. Introdução à História Contemporânea. Coleção Documentos Brasileiros. 1954. INL. v. o herói sem nenhum caráter. 1899. 1945. 1900. Itaranã. A mulher: sua infância. David Correa. 1879 (?). Ed. RODRIGUES. ed.– Belo Horizonte / Rio de Janeiro: Livraria Garnier. Antônio. dirigida por Octávio Tarquino de Souza. Sobrevivências na tradição e na literatura brasileira. Edição numerada e personalizada com 21 desenhos a carvão feitos por Martha Pawlowna Schidrowitz. Anotada por Luís da Câmara Cascudo e ilustrada por Santa Rosa. Pará: Oficinas Gráficas d’ “O Estado do Pará”. Silvio. Belém. TAVERNARD. Belém. Brasília. ORICO. Belém. Carmen Lúcia de. Especialista e Estudante de Mestrado Fontes ANDRADE. Contos Populares do Brasil. do Instituto de Estudos da Linguagem.. HURLEY. Sandoval. Fêmea. São Paulo: Editora SENAC São Paulo. BARRACLOUGH. Pará: 1930 Bibliografia AUGUSTI.. Pará: Secção de Obras de “A Província do Pará”. 1929. UNICAMP. (Col.

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br Por que o trabalho doméstico não é considerado trabalho? Questionamentos feministas no Brasil e na Argentina Soraia Carolina de Mello Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Orientadora: Profa. Especialista e Estudante de Mestrado Relação dos artigos científicos que receberam Menção Honrosa A íntegra do artigo pode ser acessada em www. Cristina Scheibe Wolff 102 . Dra.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Graduado.igualdadedegenero.cnpq.

Categoria Estudante de Graduação Artigos Científicos Premiados .

A maioria dos artigos inscritos foi de mulheres (69%) e 31% de homens. 2009.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Introdução Os artigos enviados pelos estudantes de graduação foram totalizaram 271. 176 artigos científicos que foram classificados. o que corresponde a 65% do total de trabalhos inscritos. nesta categoria. E este crescimento foi observado também em relação à edição de 2008. 104 . como também uma elevação dos estudos de gênero na universidade. 5º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Artigos inscritos. no qual houve 141 inscrições. Na etapa de pré-seleção. comparando com a primeira edição do Prêmio. o CNPq selecionou. em 2005. segundo sexo Sexo Masculino Feminino Total Fonte: CNPq/SPM. o que significa que houve maior divulgação. Quantidade 83 188 271 % 31% 69% 100% 100% 80% 60% 40% 20% 0% M F Fonte: CNPq/SPM. 2009. esta edição quase duplicou o número de concorrentes.

criando versões e visões de feminino e conformando aparências de drag queens é o objetivo deste texto. Uma delas são as drag. Gays. dos olhares que o acompanham. incomodam. No entanto. Nesse sentido. dos gestos. os sentimentos de masculinidade e feminilidade que acompanham os procedimentos estéticos na produção de visuais femininos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação As Aparências e Os Gêneros: uma análise da indumentária das Drag Queens Emerson Roberto de Araujo Pessoa Universidade Estadual de Maringá (UEM) Orientadora: Ivana Guilherme Simili Introdução O universo social é formado por várias personagens que intrigam. acessórios e maquiagem que culturalmente é definida como pertencente e condizente ao sexo feminino. Personagens insólitas. legitima e. 04): “o gênero adquire vida através das roupas que compõem o corpo. 105 . [f. ao mesmo tempo. mas de exercer uma paródia de gênero. O papel desempenhado pela indumentária na transformação e caracterização do corpo masculino em feminino. ao ocultar traços e vestígios e produzir novos sentidos para a aparência.roupas. cabelos) de um modo muito particular. os significados construídos para a aparência por meio da indumentária. ela “repete e exagera. vale lembrar o que escreveu Berenice Bento (2006. maquiagem. empregamos a história oral como recurso metodológico. se aproxima. ao vestir-se como mulher a drag usa os artefatos das roupas e seus acompanhamentos (acessórios. Entender a articulação entre corpo e gênero por meio das narrativas orais e visuais dos sujeitos que vivenciam a transformação do corpo com a indumentária. Bissexuais. as drag queens podem ser definidas como homens que usam a indumentária . Os caminhos da pesquisa Para entender os sentidos percebidos pelas drag no ato da transformação do corpo masculino em feminino. inquietam. permite entender as articulações entre corpo e gênero. p. ao exagerar os traços femininos. Conforme Guacira Louro (2003. as quais constituem uma estilística definida como apropriada” aos sexos masculino e feminino. subverte o sujeito que copia”. geralmente freqüentados por pessoas do meio LGBT – Lésbicas.7]). Travestis e Transexuais. para se apresentarem em bares e casas de espetáculo. não o faz no intuito de passar por uma mulher.

de imiscuir em seus cotidianos e vidas. mas. que o estabelecimento de redes de amizade é um mecanismo importante para a criação de algo chamado confiança. que segundo Rosália Duarte (2002. indumentária e os gêneros. As conversas informais travadas com pessoas que freqüentam os mesmos espaços das drag e os vínculos de amizade estabelecidos com estas pessoas foram fundamentais para a abertura das portas para chegarmos até as personagens. os procedimentos adotados para ocultar os detalhes do seu corpo masculino na montagem. Se a preparação do questionário é uma etapa importante numa pesquisa de campo. a preparação das entrevistas. As perguntas versaram sobre: a idade. Muitas vezes os sujeitos respondiam aos contatos feitos. o papel da roupa e maquiagem que acompanham a montagem e a transformação. os contatos até resultaram na marcação da entrevista. as sensações e sentimentos que definem as drag. o contato e a realização das entrevistas exigem muito do pesquisador. p. a história oral definese em uma metodologia de pesquisa e de constituição de fontes que têm na entrevista o principal recurso para a captação das informações.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Entre as definições e as orientações metodológicas para a prática da história oral. 155-157). Podemos dizer que o resultado da pesquisa reflete os comportamentos e as atitudes dos sujeitos quando confrontados com a situação de entrevista proposta pela investigação. Quanto ao primeiro aspecto. na hora de serem entrevistados. está a de Verena Alberti (2005. Este foi o mecanismo acionado para romper barreiras. nesta pesquisa. 106 . Os encaminhamentos sugeridos por Alberti foram transformados em guia para a coleta. Podemos dizer que o questionário foi organizado com perguntas do tipo “semidiretiva”. conseguir adentrar o mundo de sujeitos e conseguir estabelecer o diálogo foi uma tarefa difícil e complicada. não. a sensação de ser drag. para criar um diálogo entre pesquisador e sujeitos. É o momento do estabelecimento de relações com os sujeitos reais. p. na preparação das perguntas para as entrevistas foram estabelecidas questões que fornecessem informações sobre as relações e as articulações entre corpo. outras vezes. Portanto. No caso das drag. os sujeitos recuavam. Aprendemos. 08). Três momentos devem orientar a produção das fontes orais: a preparação das entrevistas. objeto deste estudo. sua realização e o tratamento das informações coletadas. a opção foi por elaborar perguntas que permitissem aos sujeitos respondêlas de forma que o diálogo entre pesquisador e informantes fosse estabelecido. transcrição e análise do material. o qual quase sempre é difícil de ser concretizado. segundo a qual. define-se como “uma técnica de coleta de dados que supõe uma conversação continuada entre informante e pesquisador e que deve ser dirigida por este de acordo com seus objetivos”. Em algumas ocasiões. Duarte (2002) afirma que uma das formas de adentrar o universo pesquisado é “integrar estratégias de investigação qualitativa como conversas informais em eventos dos quais participam pessoas ligadas ao universo investigado”.

Hadja fez a mesma escolha. indagando se o pesquisador referia-se ao seu órgão sexual. Roberta Star. Quanto aos diálogos com as drag. A opção dela foi por ser entrevistada num dos cômodos do hotel: uma sala reservada às refeições. Hadja. Segundo Duarte (2002). Jenny Possible. os reflexos dela também foram percebidos durante a realização das entrevistas. O uso do gravador nas pesquisas de campo tem uma longa história. os personagens são homens. no desenvolvimento da pesquisa oral chegou um momento em que “já não bastava que essa testemunha fosse digna de fé. como local da entrevista. quando a indagamos sobre como ocultava os detalhes do seu corpo masculino. descontração e cordialidade se fizeram notar durante os diálogos. São homens que têm suas trajetórias pessoais e visuais marcadas pelo masculino. Os nomes femininos ora mencionados – Dafnny. com base no sentimento de confiança. Calma. Era preciso que sua 107 . com as drag foi diferente. p35). espaço por “ele” frequentado. Hadja. Daffny. assunto normalmente delicado para os indivíduos. Se esta orientação aplica-se em muitas situações de entrevistas. o próximo passo da pesquisa foi a realização das entrevistas. Os nomes usados neste trabalho foram autorizados pelas personagens. No entanto. vestindo-se e comportando-se como sujeitos pertencentes ao sexo masculino. fez a mesma opção. visto ter entendido que perguntávamos sobre o que ela fazia com o seu pênis. optou por ser entrevistada no quarto de hotel. É importante registrar que são os nomes com os quais se apresentam nos bares e casas de show de Maringá e região. todas essas personagens revelam as múltiplas faces e performances dos sujeitos. Estabelecidos os contatos. a entrevista flui muito mais tranqüilamente quando realizada na residência da pessoa entrevistada. sua amiga de república. As escolhas dos lugares podem ser tomadas como narrativas por meio das quais elas contam um pouco de si e de suas vidas. espaço de grande fluxo no centro de Maringá e utilizado pelas prostitutas.referem-se à outra face dos mesmos sujeitos. Segundo Voldman (1996. uma de nossas personagens. O sentimento de desconforto foi expresso com uma frase em tom de voz baixo. alguns desconfortos puderam ser observados. conseguimos dialogar com quatro drag. Roberta e Jenny . Os sujeitos optaram por serem entrevistados em locais que não faziam parte naquele momento da sua vida privada. Durante a entrevista com Hadja. De certa forma. o hotel era sua própria casa. por ser de outra cidade. percebemos certo tipo de desconforto. local onde estava hospedada naquele fim de semana para conhecer as boates da cidade. como aluno.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Podemos afirmar que. em alguns momentos. no entanto. Roberta escolheu a Universidade Estadual de Maringá (UEM). Cascavel – PR. Se a confiança foi um ingrediente importante para chegarmos até os sujeitos. Podemos relacionar tal acontecimento com as dificuldades de tratar das intimidades do corpo. são pessoas que se relacionam conosco na condição de homens. São nomes que designam os procedimentos de transformação dos sujeitos em drag. São elas: Daffny. Na vida cotidiana e pública . com nomes correspondentes. duraram em média 30 minutos. na universidade -.no trabalho. Jenny.

é uma interpretação. os olhares. Os vícios de linguagem foram interpretados como recursos estilísticos usados pelos sujeitos na relação dialógica e como mecanismo de aproximação estabelecida pelo depoente com o pesquisador.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação mensagem fosse acessível a todos e que a comunidade científica pudesse utilizá-la como prova. A invenção do gravador permitiu atender a essas exigências”. de maneira a obter a nossa concordância com o que diziam e a aceitação de suas idéias. p. está atento e acompanhando o que está sendo dito. procurávamos saber. O desconforto gerado pela presença do gravador foi identificado no trabalho de coleta e registro das informações. pois nenhum sistema de escrita é capaz de reproduzir o discurso com absoluta fidelidade”. mantivemos o vocabulário dos personagens como modo de conservar os universos culturais e representações detidas pelos sujeitos. 239). enfim. as anotações feitas no caderno de campo possibilitaram avivar a memória dos fatos e relembrar gestos e posturas. “toda transcrição. as quais foram anotadas no caderno de campo.. neste sentido. ao mesmo tempo sujeito e objeto. foi a repetição dos termos “né” e “tal”. os gestos. em que pese o mal-estar provocado dos quatro entrevistados. Exemplar. a negativa do sujeito foi contornada pelo registro das informações no caderno de campo. pode ganhar (e muito) com o uso do gravador para o registro das informações. tudo o que pudesse ser utilizado de forma a complementar os dados da pesquisa e dar um novo sentido às frases registradas. houve o cuidado de verificar a compatibilidade entre nossas transcrições e o conteúdo das fitas. registrávamos. Sujeito enquanto indagávamos. o tom de voz. Um cuidado para preservar o conteúdo das informações dos áudios de entrevistas foi a manutenção dos vícios de linguagem no produto da pesquisa. os sujeitos não se sentem à vontade em ter um gravador sobre a mesa. encontramos evidências das estratégias narrativas usadas pelos sujeitos para aferir se o narrado está sendo compreendido e se o “outro”. se a pesquisa. Na reprodução do material gravado.”. narrando os locais. No entanto. Objeto enquanto ouvíamos. Alguns critérios teórico-metodológicos orientaram a transcrição dos materiais verbais das entrevistas. uma recriação. Após este processo. também. na prática. os desconfortos. Objeto. A recusa de Daffny foi justificada “por não gostar de sua voz”. nos cuidados e zelos com os materiais obtidos e na transcrição das informações. artefato que acompanhou todo o trabalho de produção das fontes. No caso. quem ouve. Nestas expressões. 108 . Esta premissa orientou a transcrição das fitas e das informações prestadas pelos entrevistados. apenas um deles não aceitou que sua voz fosse gravada.. Para Chantal Tourtier-Bonazzi (1996. Contudo. como testemunha e como artefato que guarda o que foi “dito” durante o diálogo. por um lado. Os procedimentos envolvidos na produção das fontes de consulta podem ser sintetizados à guisa desta reflexão de Eclea Bosi (1994): “nesta pesquisa fomos. mesmo bem feita. as risadas e. por outro.

Em suma. a notícia do sexo do bebê pela mãe é acompanhada pela criação de expectativas e imagens de gênero. 8) afirma: “nada há de puramente 109 .. ditada pela cultura. 2008). pode-se afirmar que todos já nascemos operados pelos gêneros. Afirmam que enquanto as meninas são bem arrumadas e vaidosas. Em linhas gerais. o que é concebido como “natural” na mulher e no homem são desenvolvidos nas crianças por diferentes mecanismos. se for menina. “as roupas apresentam o corpo dos sujeitos sociais como corpos de homens e mulheres. mostram que na sociedade e cultura as roupas usadas pelas crianças contribuem para a construção de significados masculinos e femininos sobre o corpo. com ilustrações de pequenos animais selvagens. Segundo a autora. ao enfocarem as roupas infantis apresentadas pelos livros didáticos. mas. a roupa assume o papel de instrumento de controle na formação das identidades sexuais e de gênero.125). o que Bento pretende dizer com esses exemplos. As roupas e suas tonalidades deixam claro como a cultura inscreve-se sobre os corpos das meninas e dos meninos e que aspectos tidos como naturais são marcas culturais. vestindo rosa. A roupa comunica o ser social e o define. Nesse sentido. as roupas e os sexos Para Berenice Bento (2004). p. a concepção de que a mulher é “naturalmente” vaidosa e frágil. Nesse aspecto. de maneira dual.] já carregará um conjunto de expectativas sobre seus gostos.  antecipando um efeito que se julga causa. Então. O que se nota é a vinculação das roupas à ideologia cultural do que significa ser homem e ser mulher. AGUIAR. de certa forma. de mamãe e de professora e que a cor preferida será rosa. A cada ato do bebê a/o mãe/pai interpretará como se fosse a  ‘natureza falando’. seu comportamento e sua sexualidade. é que quando o corpo da criança sair do ventre materno: [. Por exemplo. 2004. de brincar de ser dona-de-casa. todos nós somos operados pelos gêneros desde que nascemos. Martins e Hoffmann (2007). (BENTO. de bolas e que a cor preferida será o azul. Assim. No caso.. gostará de bonecas. adequação e ajuste da construção de gênero” (MOTA. pressupõe-se que será um menino e vai gostar de carrinhos. vestindo azul. os meninos são mais “largados”. as reflexões sobre roupas e sexo mostram que as roupas produzem padrões de masculinidade e feminilidade. os diferenciariam como sendo homens ou mulheres. desencadeando o que Louro (2008. enquanto que o menino deve ser corajoso e agressivo também é transmitida às crianças pelas roupas com as quais as vestimos. p. que todos os corpos nascem ‘maculados’ pela cultura. constituindo uma dimensão do trabalho de modelação. com ilustrações de flores. se o sexo do bebê é masculino. um vermelho despido de sua raiva e erotismo.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação O corpo. ou seja. as roupas não só vestiriam os sujeitos. Se o corpo pode ser concebido como portador de uma linguagem não verbal.

portanto. Desde o século XVIII a alfaiataria masculina teria sido aperfeiçoada e. Na diferenciação dos homens e das mulheres. um padrão construído que envolve determinados tipos de comportamentos. embora tenha passado por mudanças internas constantes. A tese de Hollander (1996. 110 . de interesses. homens elegantes. seria possível vislumbrar a força de um sentido de permanência e de continuidade em sua forma. relacionada ao luto. A diferença na indumentária dos homens e das mulheres é um dos motes dos estudos da história da moda. Assim. mostrando a força. 1996. p. como cabelo e maquiagem. ou seja. 2001). (SABAT. remete ao papel da moda no seu relacionamento com as mulheres. mostrando como esta cor. a indumentária cumpre um papel fundamental. 328) numa frase: “O vestuário masculino sempre foi desenhado para sugerir o domínio físico e/ou social”. o processo de “montaria” permite dimensionar a equação posta na história da indumentária e da moda.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação ‘natural’ e ‘dado’ em tudo isso: ser homem e ser mulher constituem-se em processos que acontecem no âmbito da cultura. designativa do poder masculino. 151). tornandoas mais frágeis e suscetíveis aos seus apelos e influências estéticas. Uma das conseqüências apontadas pela autora é a de que “mulheres elegantes podiam parecer ridículas. “o vestuário masculino foi sempre mais avançado que o feminino e inclinado a fazer proposições estéticas. aspecto que. John Harvey (2004) permite estender a contribuição da alfaiataria na construção de representações para o poder dos homens ao recuperar a trajetória do uso da cor preta na sociedade ocidental. 17). sempre levando em consideração a masculinidade como oposto à feminilidade. a autoridade e o vigor simbólico de uma forma visual marcada pela permanência. as quais a moda feminina respondeu” (Hollander. 21) é a de que a diferença entre ambos denotaria uma história de permanências com relação à alfaiataria masculina (calças. mesmo que em muitas ocasiões ambos se vistam da mesma forma”. passou por transformações no mundo contemporâneo que vieram constituí-la em representativa. paletós e gravatas e com foco principal na cor preta podem ser tomados. 17). padrões estes que são modelados e transformados no decorrer do tempo. notou que a “excitação popular atual com o transexualismo no vestir mostra apenas quão profundamente acreditamos ainda em separar simbolicamente as roupas dos homens e das mulheres. Na tese da autora. de sentimentos. nunca” (HOLLANDER. p. as masculinidades e as feminilidades seriam construídas levandose em consideração o que a sociedade define como sendo aspectos masculinos ou femininos. p.” Assim. Desta forma. Os ternos em suas múltiplas versões de calças. e por que não dizer. p. como reveladores do que é afirmado por Alison Lurie (1997. camisas e casacos). de certo modo. camisas. ao estudar as diferenças que as roupas produzem nos sexos. construindo novos tipos de masculino e feminino. a qual relaciona o sexo às roupas e aos artefatos de beleza apropriados às mulheres. Hollander (1996. p.

conforme formulada por Kathia Castilho (2004). e são. e que o ato de transformação 111 . como situado no tempo e no espaço. Ao tratar da indumentária. descritas como o clímax do show. Uma drag é uma representação performática da moda. adornos e acessórios. É deste modo que podemos interpretar o ato de vestir e apresentar-se publicamente destas personagens. Roberta comentou: “é uma fantasia. ainda. por meio da indumentária. As roupas e os acessórios são a concretização do feminino. Para a autora. também. para produzir versões para o feminino. portanto. Eles são elementos que compõem visuais chamativos e enaltecedores do modo de ser e de se vestir destas personagens. das ideologias. As aparências dos sujeitos se constituiriam em fragmentos daquela instância sociocultural. que num movimento único. o qual é transformado diariamente. também as constitui na medida em que transforma os produtos e artefatos da moda em objetos de uso. que se apropria das roupas e dos artefatos da moda preconizados para as mulheres. Uma personagem que cria para si uma fantasia de feminino. com os conteúdos de feminilidades atribuídos por esses sujeitos. A moda. do que é. utilizando de roupas coloridas e luxuosas. a definição acerca do que é a moda. como produto sociocultural. Nesta concepção de moda. É através da personagem criada pela drag que a imagem existente do feminino do sujeito em seu íntimo é transformada em algo concreto e real. os movimentos da moda e vestimentas do corpo. dos estilos de vida e das interações sociais. igual à de alguém que se veste de palhaço para animar uma festa de criança”. pode se constituir em nosso fio condutor. ao mesmo tempo em que absorve as “regras da moda”. mas da maneira como as empregam para transformar e criar significados para a personagem drag. Elas não tratam da roupa em si.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Mas qual é a indumentária usada por uma drag na transformação? Que moda produzem na montagem do feminino? Para responder a esta pergunta. os quais são sinônimos de indumentária. Castilho afirma que a moda pode ser concebida como “modelagem” realizada por um sujeito. Podemos afirmar que a drag ao se montar deixa visível que o corpo é uma instancia histórica. socialmente e culturalmente concebido como moda apropriada para o feminino. produzida pelas roupas. o sujeito. pelos acessórios e pela maquiagem. as roupas são usadas para causar impacto. As peças de roupas ou acessórios coloridos fazem parte dos shows das drag. a qual é concebida como o conjunto formado pelos trajes. Segundo Daffny. como objeto de moda. e a única moda possível de ser conhecida por meio delas é a moda dos coloridos infinitos. permitindo entrever os limites da liberdade sob a qual elas se constroem e. É este modo de conceber a moda que permite entender a drag como sujeito produtor de aparências. absorveria suas regras e por meio delas também se constituiriam. a moda é uma instância sociocultural que desempenha um papel significativo na modelagem de comportamentos. se materializaria e atualizaria no processo desencadeado pelas escolhas realizadas pelo sujeito. O que as drag comunicam de diferentes formas são os significados atribuídos para a indumentária no ato da transformação. dos gostos.

do mesmo modo que as garotas trocam as informações entre as amigas. Da mesma forma que as meninas aprendem as artes da maquiagem por meio da mídia. O sentido adquirido pela maquiagem no universo drag pode ser aquilatado na narrativa de Jenny.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação pode ser vivenciado de forma distinta pelos sujeitos.. o processo de maquiagem de uma drag queen deve ser muito bem dominado pelos sujeitos que fazem uso dela.. para que a personagem idealizada pelo sujeito ganhe a identidade feminina. segundo a qual a maquiagem “é fundamental. os quais se assemelham àqueles que organizam os aprendizados femininos. como tal. o que a maquiagem proporciona é 112 . bases e pó) que a concretização de uma aparência demanda muito tempo e dedicação ao ato de maquiar-se. delineador. Conforme constatado por Vencato (2005). exercícios feitos sobre o próprio rosto para a ampliação do conhecimento. Lábios e olhos são realçados de forma a produzir um tipo de beleza e feminilidade exorbitantes. a maquiagem é mencionada nos discursos dos sujeitos como aspecto diferenciador entre este segmento e os demais crossdrasing (individuo que se utiliza de roupa do sexo oposto ao seu). estes modelos de aprendizados estão presentes entre as drag porque é por meio da convivência entre elas ou com as transformistas “mais experientes“ que assimilam os conhecimentos sobre os produtos e seus empregos. A drag demonstra através do seu corpo e de sua indumentária que todo corpo é uma construção social e cultural e que o feminino e o masculino podem ser pares de experimentações realizadas sobre o corpo. A maquiagem usada pelas drag é diferente da utilizada pelas mulheres. completando a mudança de uma aparência masculina em feminina. Ela é a identidade da drag queen”. A maquiagem pode ser concebida como um componente da moda e. Fala.. como artefato de comunicação e de representação dos gêneros. lápis. batom. a drag se transforma em vetor de leituras e interpretações dos gêneros ao desconstruir e transformar os conceitos de masculinidade e feminilidade.. uma beleza plástica é o resultado da maquiagem. Um aspecto a ser destacado e que é exemplar neste sentido é a maneira como os conhecimentos sobre procedimentos de maquiagem são aprendidos. Entre as drag. Experimentando e vivenciando as roupas e acessórios. das revistas e com as mães. né? A maquiagem ela. Os produtos de beleza oferecidos pela cosmética transformam-se.. buscando por estes tipos de informações e compartilhando as técnicas assimiladas com os demais sujeitos drag do seu círculo social. Fazem parte do processo de aprendizado das técnicas de maquiagem. As drag aprendem as artes da maquiagem. na aplicação dos cosméticos – sombra nos olhos. Tal como a indumentária. Uma beleza feminina no superlativo. realçando e exagerando os traços.. assim. Assim como a indumentária se constitui para a drag como algo transformador do seu corpo. a maquiagem também o é. É possível vislumbrar na maquiagem (nos cuidados com os contornos. num dos recursos para a produção visual drag. levando normalmente uma hora e meia para a sua realização e metade do tempo total da transformação.

Dessa forma. ele representa. elas falam assim: Nossa! Será que é a mesma pessoa?”. os processos e procedimentos envolvidos na transformação – roupas. sua voz era caracteristicamente feminina. eu fico com aquela coisa assim. Deste modo. Hadja comentou: “as noites que eu não me monto. a própria representação. a impressão é a de que outra pessoa materializa-se no corpo do indivíduo. As reflexões de Hadja podem ser interpretadas à guisa do que diz Helio Silva (1993. eu adoro andar de salto. a transformação é produtora de sensações prazerosas e das quais os sujeitos sentem falta quando distantes das personagens criadas. Para as drag. Através da montagem do personagem drag queen. ela sente falta da personagem que ela consegue criar. p. p. p. a drag passa a ocupar o lugar do homem. seja a composição da roupa. que afirma que: “os gestos antes comedidos iam tornando-se mais expansivos e performáticos. “é a gratificação de um trabalho realizado”. 109): [referindo-se a um individuo praticante de crossdressing] “Vestindose com as roupas da irmã. imagens e representações relacionadas à fixidez dos sexos e dos gêneros. Durante uma visita a uma casa noturna onde encontrei pela primeira vez Hadja. estes sujeitos revelam uma nova configuração para o corpo mediante a contraposição de idéias. R. quando a entrevistei. a mesma estava “desmontada” e o seu falar já não era o mesmo. afirma: “A singela pergunta com que roupa? Adensa-se e torna-se dramática quando traduzida para seu aprofundamento lógico: com que corpo?” (SILVA. faz mais do que simplesmente romper os limites das classificações que o definem como homem. demonstrando a dualidade presente nos pares sexo e gênero. conforme mencionado por Daffny. parece que ta (tsc) faltando algo em mim. O aspecto mencionado pela autora pôde ser observado na convivência com os sujeitos. claro. no entanto. Portanto. na verdade. sua aparência logo me chamou a atenção. 246)”. 1993. adoro que as pessoas me encontram na rua e não me conheçam. o processo de maquiagem ou a dança. Neste “desaparecimento” de um personagem e “surgimento” de um novo. Tal sentimento é justificado devido às dificuldades e técnicas necessárias para estar tudo completamente perfeito. Eles trazem na maneira como se vestem e se maquiam as possibilidades proporcionadas pela vivência do corpo.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação a fabricação de um novo corpo baseado na representação do feminino. 115 ).” Em outro momento. a mudança na aparência é acompanhada de outro aspecto: a transformação na voz. ela gosta do sujeito feminino ao qual dá origem. Hadja é clara: ela sente prazer na transformação. Esta questão foi abordada por Vencato (2005). masculina em todos os seus detalhes. o sujeito masculino desaparece de cena para dar lugar ao sujeito feminino. eu adoro me vestir de mulher. maquiagem e voz .são acompanhados pelo sentimento de realização. Ao deixar entrever por sob as vestes femininas suas pernas inconfundivelmente másculas. 113 . Sobre isso. As sensações vivenciadas pelos sujeitos nas transformações em drag também foram mencionadas por nossos entrevistados. a voz e o vocabulário também se modificavam (2005. ouvia uma voz grossa.

a tal ponto de revelar a inexistência de tal identidade. A drag concretiza este corpo por meio de inúmeras técnicas: a depilação do corpo. pois. A retirada das vestes masculinas e a colocação da feminina e os diversos processos que fazem parte da transformação dão origem a outro sujeito: o homem que está na origem de tudo não deixa de existir. Nesta fusão. realizados mediante a associação entre 114 . Buscamos entender os modos pelos quais as drag. sem dúvida alguma. Ao analisarmos a percepção dos sujeitos acerca do papel desempenhado pela indumentária e pela maquiagem na transformação do corpo masculino em feminino e na criação de uma aparência baseada no feminino. as quais são performáticas de gênero. corpos masculinos tornam-se femininos. é um trabalho de arte” (Vencato. deslumbrando o mundo vasto das identidades sexuais. mas várias e múltiplas. Através da indumentária e dos artefatos que a acompanham. mas. Através das narrativas orais e visuais dos sujeitos. sobretudo. o que esses sujeitos evidenciam são os processos de educação do corpo. concebidos socialmente e culturalmente como pertencentes ao feminino. Conforme procuramos mostrar no decorrer deste texto. nas quais o masculino e o feminino (ou vice-versa) se fundem e se confundem. através dela.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação É da mistura de corpos e das sensações por ele proporcionadas. é um caleidoscópio para a aparência. que Hadja e Silva falam. o processo de transformação é acompanhado pelo desligamento do sujeito masculino ou do religamento deste sujeito a outro. Foi possível. 2005. mas passa a existir. Mostramos que a indumentária constitui-se em vetor crítico usado pelas drag para colocar em questão a originalidade e a autenticidade da sexualidade e dos gêneros. p. 237) que faz emergir um corpo artístico e uma representação para o feminino. a indumentária ocupa papel de experimentação. arquitetado pelo primeiro. o processo de montaria transforma-se em “exercício de criatividade e paciência. utilizando-se de artefatos e produtos da moda feminina para dotar o corpo de contornos femininos. como por exemplo. Assim. a drag produz um novo corpo social e cultural sobre o corpo biológico. ainda. sob outro formato visual. o ocultamento dos atributos masculinos por meio de roupas e maquiagem. foi possível entender as versões e visões que estes sujeitos constroem para o feminino. O que a drag produz. ao usarem os produtos e procedimentos estéticos da moda. Considerações finais O artigo teve por objetivo analisar o papel desempenhado pela indumentária na transformação e caracterização do corpo masculino em feminino das drag. captar e identificar a maneira pela qual o ato de travestimento do corpo é gerador de questionamentos acerca da matriz heterossexual que associa o sexo às roupas. ocultam traços e vestígios corporais do sexo masculino e produzem novos sentidos para a aparência e para os gêneros. os seios e quadris. ainda que tão somente por algumas horas.

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as sexualidades. concluo: a escola de surdos. deparo-me com uma infinidade de questões que envolvem os sexos. na seção Sexos. gêneros e sexualidades. bolsista de Iniciação Científica do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/CNPq). a normalização de gênero e sexualidade presente no currículo da escola. professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e do curso de Graduação em Pedagogia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). bem como a necessidade de construção de espaços de formação pedagógica para que temas como os da diversidade de gênero e sexualidade possam ser abordados sem polêmica. ministrando a disciplina Ciências para uma turma da 7ª série em uma escola especializada na educação de surdos. onde apresento minhas justificativas e os meus objetivos. é seguida pela descrição da metodologia utilizada. de modo a evidenciar que olho para os surdos como sujeitos de uma diferença linguística e cultural. Nesse sentido. 117 . questiono como abordar os assuntos que envolvem gênero e sexualidade sem cair na redução biologista oficializada no currículo escolar.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Gênero e sexualidade na escola de surdos Pedro Henrique Witchs 1 Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) Orientadora: Profa. e. como qualquer outra instituição social. A partir dessas experiências em uma escola de surdos. 19 Graduando em Ciências Biológicas – Licenciatura pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Tendo em vista que essas questões tornaram-se explícitas quando começo a trabalhar com os conteúdos relacionados aos sistemas genitais (masculino e feminino) e à fecundação humana. principalmente. como eu. bem como pelo meu posicionamento em relação à especificidade do artigo. 20 Doutora e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). é um espaço em que as identidades de gênero e as sexualidades são conduzidas a um padrão de normalidade. apresento uma situação ocorrida durante o estágio que contribui para desencadear a discussão sobre como as concepções de gênero e sexualidade estão condicionadas pelo discurso biológico. direciono este artigo a todos os professores e professoras que. Maura Corcini Lopes2 Introdução Durante o meu estágio supervisionado no Ensino Fundamental. para finalizar este artigo. se veem agindo sob práticas de silenciamento das diferenças – em destaque as de gênero e sexualidade – que são conduzidas pelos padrões de normalidade. na seção Representações de gênero e sexualidade. especialista e graduada em Educação Especial pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). os gêneros e. O artigo está organizado como segue: esta pequena introdução dada acima. neste artigo. integrante do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES/CNPq). Dra. objetivo problematizar. trago outra situação desencadeadora de discussões e propícia para apresentar os resultados dos textos-imagéticos produzidos pela turma.

o Estágio Supervisionado no Ensino Fundamental – Ciências. adquirindo experiência e aumentando meu vocabulário na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) ao conviver com a comunidade surda escolar. posso dizer que compartilho com os autores e as autoras dos Estudos Surdos5 que. pois a faixa etária da turma encontra-se entre 15 a 25 anos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Os sujeitos surdos e suas múltiplas diferenças Devido a minha integração ao Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES). meu interesse pelos conteúdos abordados no ensino de Ciências para a 7ª série guiou a minha decisão. a chamada “feminilização” do magistério”. em uma escola de surdos. o corpo muda. 118 . facilitando a comunicação em uma língua de modalidade viso-gestual na sala de aula. Penso ser necessário explicitar sobre qual referencial teórico fundamento meus entendimentos sobre a surdez. optei por cumprir a atividade acadêmica da grade curricular do meu curso de Graduação em Biologia. 65) No caso específico da turma de Ciências da 7ª série em que realizei o estágio. enfim os jovens estão “descobrindo” a sexualidade? (ALVARENGA. p. 90) constata “que a grande maioria dos professores na educação básica no Brasil é de mulheres. Ou seja. 3 Estudos Surdos é o termo utilizado para nomear as pesquisas na área da surdez que buscam ver os surdos como sujeitos políticos e culturais. p. 2004. Esse número bastante reduzido de alunos é explicado por se tratar de uma escola de surdos. eu estaria inserido no contexto da pesquisa realizada pelo GIPES3. Afinal de contas: Por que incluímos a temática sexualidade em nossas aulas somente a partir da 7ª série? Será por que é nessa idade que a voz encorpa. não tenho a intenção de focalizar a discussão sobre gênero na temática da profissão generalizada. A instituição escolhida para a realização do estágio foi uma escola pública estadual que conta com o trabalho de um corpo docente composto por dezessete professoras e um professor4. DAL’IGNA. é 1 “A Educação dos Surdos no Rio Grande do Sul”. título da pesquisa desenvolvida pelo GIPES e financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Geralmente. Para tanto. Desta forma. a menstruação chega. o número de dez alunos por turma não é ultrapassado. foi preciso selecionar a série com a qual trabalharia. nesse referencial. permitiu mapear a situação escolar e linguística dos surdos no Estado do Rio Grande do Sul. os hormônios estão em ebulição. entendem a surdez como uma diferença linguística e cultural. Composta por cinco alunos e uma única aluna. 2 Carvalho (2008. não posso negar que muitos desses fatores citados acima já estavam em desenvolvimento. como a própria autora também menciona. No entanto. articulados ao campo teórico dos Estudos Culturais. numa proporção que aumenta conforme diminui a idade dos alunos atendidos. esta turma apresenta significativas características para se discutir gênero e sexualidade. o fator deficiência. numa perspectiva pós-estruturalista. Depois de feita a escolha da instituição.

quando em operação. direta ou indiretamente. cor. Tais divisões 119 . a partir de um conjunto de princípios selecionados que guiarão professores e alunos. (LOPES. A escola. raça.. compõe a especificidade do contexto no qual estou inserido como professor. etc. Toda e qualquer proposta da escola de surdos. A escola de surdos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação considerado oriundo de uma visão clínica. 85) Baseado nisso. bem como todos aqueles que. mas também não tenho intuito de torná-la o foco da discussão.] As formas de organizar o pensamento e a linguagem transcendem as formas ouvintes. 112) afirma que “jamais encontraremos sujeitos iguais por serem surdos. se relacionam com ela. normalizado. p. Eles possuem história. é justo e necessário informar que também não tenho a intenção de restringir os surdos a uma única identidade. afasto-me do conceito de corpo danificado. dentre elas.. Sendo assim. Nesse sentido. tenho a oportunidade de entender que existem inúmeras possibilidades de se constituir surdo. trabalhando em prol de uma normalização dos sujeitos. esclareço que não quero negar a deficiência auditiva. construída de forma isolada. Fazendo uso de palavras que em nenhum momento atribuem a ausência de um sentido em um corpo. [. afirmo que não encontrei questões de gênero e sexualidade diferentes das questões de gênero e sexualidade que se constituem dentro de uma escola regular. ao tentar amenizar as diferenças. que necessita ser tratado. de modo a propiciar seu pleno desenvolvimento e garantir o trânsito em diferentes contextos sociais e culturais. pois acredito na construção multicultural de inúmeras identidades surdas (Perlin. considerando um conjunto de exigências sociais. religião. estável e homogênea. 10) na apresentação do sujeito surdo como alguém [. língua. p. 2001) que podem ser expressas em diferentes instâncias. No entanto. é um espaço onde o ensino se exerce de forma intencional. Contudo. sexo. e aproximo-me de um conceito sócio-cultural. políticas e econômicas de diferentes grupos culturais.. p. 2007. diferentes”. situação econômica. patológica e terapêutica. essas e outras diferenças tentam ser amenizadas a partir de relações de poder exercidas em todas as instituições sociais. posso dizer que a escola (regular ou especial). comungo com Quadros (2004. identidade. a escola. Sendo assim.. meio familiar.] que apreende o mundo por meio de experiências visuais e tem direito e possibilidade de apropriar-se da língua brasileira de sinais e da língua portuguesa. neste artigo. Lopes (2001. acaba traçando divisões na sociedade. Ao não reduzir a surdez a uma condição deficitária. cria perfis aceitos para um determinado grupo em um determinado tempo. reabilitado. de surdos ou não.

agora sendo um termo utilizado “para referir-se a toda construção social relacionada à distinção e hierarquia masculino/feminino. emerge à situação e. Contudo. pratiquem sexo anal. A epígrafe desta seção trata-se de uma situação ocorrida no meu estágio com a 7ª série durante uma atividade de reconhecimento dos órgãos que compõem o sistema genital masculino. p. Como posso interpretar essa situação sem distanciarme das implicações pedagógicas que ela pode propiciar? Passo a tentar entendê-la. que biologizam a sexualidade e o desejo” (LOPES. os nomes utilizados no decorrer deste artigo são fictícios. junto a ele. é possível”. e ambos retornam para mim com a esperança de que eu repita a minha resposta. incluindo aquelas construções que separam os corpos em machos e fêmeas” (CARVALHO. 2008. 91) começa a ser utilizada por feministas no final dos anos 60 para combater as implicações sociais advindas da biologia. é possível”. “sim.deixando bem claro que sua questão refere-se a uma situação hipotética . nesta seção. 120 . o professor disse”. não desejariam praticar atos sexuais entre si. 2008. Considerando as atividades que estávamos desenvolvendo naquele momento. “é verdade. apaixonados um pelo outro. finalizando a trinca biologizada: a sexualidade. Seguindo o mesmo raciocínio. Vitor se justifica. “sim. não posso negar a força “das tradicionais explicações dos chamados “fatos” da vida. 91). duas pessoas do mesmo sexo. e rapidamente a relata ao colega Silvio (da mesma idade) que reage incrédulo: “mentira”. 5 Todos os diálogos descritos neste artigo ocorreram originalmente na LIBRAS e foram livremente traduzidos por mim para a língua portuguesa. 2008. desejavam-se. 4 Por razões éticas. portanto. Essas explicações tradicionais definem que o ato sexual existe com a finalidade de que os indivíduos se reproduzam. sou levado a pensar que Vitor e Silvio entenderam e sabiam da possibilidade do ato sexual entre duas pessoas do sexo masculino. gêneros e sexualidades O aluno Vitor6 (17 anos de idade) pergunta-me7 . “uma palavra até então usada principalmente para nomear as formas masculinas e femininas na linguagem” (CARVALHO. O aluno demonstra-se espantado e desgostoso com a resposta dada por mim. p.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação proporcionam uma série de condições de desigualdade àqueles que são constituídos por uma identidade de status comprometido no grupo e no tempo em que se estabelecem. Duas pessoas do mesmo sexo não podem se reproduzir – isso é um fundamento biológico. Sexos. 133).se é possível que dois homens. trazendo à tona conceitos de gênero e sexualidade que possam suprir a necessidade dos professores e das professoras em conhecê-los e compreendê-los. p. Quero dar ênfase à necessidade de Vitor mencionar que as pessoas envolvidas naquele relacionamento hipotético estavam apaixonadas. Contrastando com os sexos. ou seja. O gênero.

líder da turma) aproveitou o momento de contato visual e comentou para mim: “sua letra é muito bonitinha. 1996. Entretanto. você é bi?”. não posso negar que a situação discutida acima possibilitou a presença do mito de que “qualquer pessoa que ofereça representações gays e lésbicas em termos simpáticos será provavelmente acusada de ser gay ou de promover uma sexualidade fora-dalei” (BRITZMAN. Digo isso em função da outra situação-chave – “situação-chave” no sentido de que também desencadeia discussões propícias ao artigo – ocorrida durante o estágio e que passo a narrar na seção a seguir. 42). parece letra de mulher”. p. flutua por aquele momento. perguntoume: “professor. 2008. mas eu desconhecia o motivo. viro-me para informá-los de que. uma perversão. uma patologia. nem um tipo de letra que pode ser associado exclusivamente aos homens. não possa estar atrelado ao desejo natural. p. Portanto. 483). 2008. pois não estava enxergando sobre o que eles conversavam.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação A escola tece uma “complexa trama normativa que estabelece uma linha de continuidade entre o sexo (macho e fêmea). as reações de espanto expressadas pelos dois alunos sejam representações da ideia de que o sexo. a heterossexualidade. p. A aluna Nádia (15 anos. 79-80 apud DINIS. 2003. sair do centro. quando praticado em uma relação homossexual. percebendo que eu não havia demonstrado em nenhum momento estar constrangido ou ofendido com seu comentário. Alguns minutos depois. Agradeci à Nádia por considerar minha letra bonita e. e ela responde perguntando-me novamente: “namora homens e mulheres?”. afastar-se desse padrão significa buscar o desvio. p. A aluna. Em suas práticas curriculares. em seguida. eu também sentia vontade de rir. Representações de gênero e sexualidade Enquanto escrevia no quadro-negro. a escola norteia suas ações pelo padrão de existência de “uma única forma sadia e normal de sexualidade. A imagem do sujeito homossexual fortalecida pelo discurso de que a homossexualidade seja um distúrbio. Devolvo a pergunta questionando-a o que significa bi. talvez. 121 . os alunos riam entre eles. tornar-se excêntrico” (LOURO. Então. 484). o gênero (masculino e feminino) e a orientação sexual que se direciona “naturalmente” para o sexo oposto” (DINIS. novamente pergunto: que implicações pedagógicas estão sendo propiciadas com essa situação? Qual o papel do professor nesse contexto? Não quero que a possibilidade de resposta a essas perguntas reduza as reflexões que quero proporcionar aos leitores e às leitoras do artigo. por ouvir suas risadas. lhe informei que não acredito na existência de um tipo de letra que possa ser associado exclusivamente às mulheres.

Seria a lógica da sequência sexo-gênero-sexualidade agindo de modo que Nádia tentasse encaixar-me em alguma identidade sexual? Uma vez que eu seja homem e a minha letra represente para Nádia o gênero feminino. tornado-o. (DINIS. trago agora o meu olhar sobre quatro textos e quatro ilustrações produzidos pelos alunos e pela aluna da turma de Ciências da 7ª série. é o olhar de professor buscando pensar sobre sua prática. No entanto. assim. Em um primeiro instante. Deste modo. homossexualidade. representações do que o currículo escolar ensina a ser reproduzido. com um olhar superficial.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação A epígrafe desta seção retrata o momento em que me pergunto o que teria levado Nádia a ter o interesse sobre a minha sexualidade. pois [. articulando leituras feitas em dois campos de saber – o dos Estudos Surdos em Educação e o dos Estudos de Gênero e Sexualidade. o ato sexual entre duas pessoas do mesmo sexo que estão apaixonadas uma pela outra. é possível perceber que todos os quatro textos imagéticos focam o relacionamento entre duas pessoas. questionando a heteronormatividade que toma como norma universal a sexualidade branca. a minha biologia sendo utilizada como referência para a constituição da minha sexualidade – e o meu gênero – representado no imaginário de Nádia pela minha letra feminina manuscrita no quadro-negro? Desconfio que tal questionamento possa ter sido produzido no momento em que considerei como possível. de classe média e heterossexual. 2008. como o chamarei de agora em diante. pode ser um convite para que o/a educador/a possa olhar para sua própria sexualidade e pensar a construção histórico-cultural de conceitos como heterossexualidade. Ou seja. Então.] pensar a questão da homossexualidade. em qual identidade sexual eu precisaria ser encaixado? A bissexualidade seria o que Nádia melhor encontrou como alternativa de resposta? Estaria eu livre para exercer o meu sexo (macho) – portanto. passo a pensar ainda mais nas situações em que eu e a turma nos encontramos.. A forma como o texto seria produzido foi declarada como livre. 484) Portanto. é nesse momento que sinto-me instigado a refletir com a turma sobre as concepções de gênero e sexualidade que circulam pela escola. 122 . p. levando em consideração a importância do canal visual nas maneiras de se comunicar e se expressar dos surdos. o tema proposto para a elaboração do texto imagético foi “O que é ser homem? O que é ser mulher?”. É justo esclarecer que o olhar depositado nos textos imagéticos. um texto imagético. olho para os textos imagéticos como artefatos culturais. para analisálos. também foi dada a oportunidade de os alunos ilustrarem o texto. quando a minha sexualidade vem a ser questionada. para ter a chance de retratar aqui as representações de meus alunos e de minha aluna sobre as identidades de gênero e sexualidade que se constituem pela e na escola. sem fazer uso de algum juízo de valor..

não quero negar a possível presença do sexo no que chamo aqui de “relacionamento romântico”. Relacionamento sexual: ilustração do texto imagético do aluno Marcos. E essas duas categorias são facilmente identificadas nas duas ilustrações retiradas dos textos imagéticos que apresento abaixo: Relacionamento romântico: ilustração do texto imagético da aluna Nádia. mas nomeio essas categorias de acordo com a intencionalidade focada em cada um dos textos imagéticos. 123 . Logo. dividindo os quatro textos imagéticos em duas categorias: relacionamento romântico e relacionamento sexual.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação um relacionamento guiado pelos princípios da heteronormatividade. nessas representações. Em um segundo instante. ser homem e ser mulher implica relacionar-se com o sexo oposto. Evidentemente.

] eu sou feliz e esposa eu sou feliz familiar eu surdo amigo combinar festa não agora só futuro. estão as palavras “homem”. Associo essa representação do ambiente ao que discuti anteriormente sobre o desejo natural. palavra esta que está presente no corpo dos dois textos. Fragmento do texto imagético da aluna Nádia. Além disso. “bem mulher” e “atraente” descrevem a pessoa com quem 124 . apresenta a expressão “relação de carinho”. de acordo com o texto imagético de Nádia. Outra característica interessante nos dois textos imagéticos é que eles foram produzidos como se fossem um planejamento. “fiel”. bem como o do aluno André (18 anos de idade). aquisição do carro próprio e. é a provação da família em relação ao seu novo namorado. “corpo esbelto”. casarse. obtenção de um emprego. flores e animais. As etapas seguintes são expressas nesta sequência: dedicação aos estudos. por último. “lindo”. Uma organização para o “futuro”. Dentre as qualidades que ela lista para esse novo namorado ser aprovado. Fragmento do texto imagético do aluno André. “educar” (que pode ser entendido como “educado”). Tendo essas referências do texto imagético de Nádia e André. Essa lógica de normalização não enxerga. como trago nos fragmentos a seguir: [. Eu como faz futuro que é ser homem. casado e pai). inicio expondo algumas situações do texto do aluno Elias (25 anos. grifo meu. A primeira etapa. “muito bonita”. ordenadamente expressa realizar. convoco os leitores e as leitoras a pensar como as concepções de gênero e sexualidade se exercem sob uma lógica de normalização.. após a palavra “filho”. na presença de árvores.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação O texto imagético de Nádia. Nádia estabelece uma série de etapas pelas quais ela. “gostosa”. humano com é mulher mas dos fazer organizo que eu. mulher. Nesse texto. “sorriso perfeito”. ter um(a) “filho(a)”.. grifo meu. ou pelo menos não quer enxergar – e talvez “expor” seria uma melhor forma de se dizer – a diversidade sexual. as expressões “vontade”. ambos os textos foram representados por uma ilustração muito parecida: a imagem de um casal heterossexual de mãos dadas em um ambiente ao ar livre. como também à ideia da relação pura e saudável. entre parênteses. Em seu texto imagético. Destaco aqui a importância que Nádia dá ao gênero do filho planejado quando adiciona em seu texto a letra A. Quanto aos textos imagéticos que atribuo à categoria relacionamento sexual. aquisição da casa própria. conclusão de um curso superior.

são silenciados no interior da escola. Até onde vai o meu direito em fazer meus alunos pensarem sobre essas questões? Até onde vai o direito dos meus alunos expressarem suas vontades de discutir sobre essa temática em sala de aula? Acredito que compartilho estas e outras dúvidas com todos os professores e professoras que já tenham se deparado com situações-desencadeadoras como as que trago neste artigo. Fragmento do texto imagético do aluno Marcos.. O outro texto imagético da mesma categoria é o do aluno Marcos (17 anos de idade). que reproduz o tratamento do sexo como algo sigiloso. a ilustração produzida por Marcos reflete como assuntos polêmicos. concluo: a escola de surdos não difere de qualquer outra instituição social na tentativa de normalizar as identidades de gênero e as sexualidades.] com sexo corpo viver é o esta Homem pênis ejacular já mulher posso faz só camisinha boa usa. Conclusões Considerando as situações descritas neste artigo. expresso aqui a minha intenção de permanecer atento às questões de gênero e sexualidade que circulam o espaço escolar de forma a permitir 125 . Além disso. onde há a presença de duas figuras: uma feminina sorridente e de costas para a figura masculina. que teve sua ilustração exposta anteriormente neste artigo. penso que para se abordar temas de interesse dos alunos jovens. sem fazer disso uma polêmica. suas representações nos textos imagéticos produzidos pela turma de Ciências da 7ª série e a infinidade de argumentos que surgem com os estudos nas temáticas focadas.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação o relacionamento. que expõe a língua salivante. Como. por exemplo – na situação que representa. Sendo assim. Essas características são ilustradas na imagem do mesmo texto. que indica a presença de mais pessoas – familiares. é complementada pela janela fechada. A imagem do quadro. o texto de Marcos aborda explicitamente as questões que envolvem o ato sexual realizado entre um homem e uma mulher. por exemplo: [. considerando o contexto da educação de surdos nessas mesmas temáticas. seja ele sexual ou de afeto. como a sexualidade.. seria o ideal. para finalizar este artigo. tais como sexo. expressando o desejo pela primeira figura. posso dizer que o pouco domínio na LIBRAS por parte dos professores ouvintes pode vir a dificultar o desenvolvimento de assuntos que ultrapassam os conteúdos formais da escola. e. a necessidade de construção de espaços de formação pedagógica dentro da escola é fundamental. Ao contrário dos textos imagéticos descritos até agora.

2003. 105-121. A Surdez: um olhar sobre as diferenças. Petrópolis: Vozes. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Sexualidades em sala de aula: discurso. CARVALHO. 2001. (Orgs. Petrópolis: Vozes. gênero e sexualidade – o “normal”. Antonio Flávio.). n. Guacira Lopes. In: MOREIRA. ed. Petrópolis: Vozes. maio/ago.). SOARES. LOPES. 41-52. Silvana (Orgs. 2004. 2008. Guacira Lopes. Acessado em 8 de setembro de 2009. p. Brasília: MEC – Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos.). 2ª. gênero e sexualidade. Soc. _____. Campinas. Corpo. ed. Petrópolis: Vozes. 2ª. Antonio Flávio. 2001. Gênero. 4ª. SKLIAR. Educação. 2004. Os Estudos Surdos em Educação: problematizando a normalidade. 2007. Vera Maria (Orgs. 2008. 126 . Surdez & Educação. 125-148. Porto Alegre: Mediação. LOPES. In: LOURO. _____. Dagmar E.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação que a diversidade de gênero e a diversidade sexual possam ser vistas e reconhecidas com o direito às possibilidades de coexistência. Marília Pinto de. Porto Alegre: Mediação. Luiz Paulo Moita. C. Vera Maria (Orgs. sexualidade e educação: Uma perspectiva pósestruturalista. “o diferente” e o “excêntrico”..). CANDAU. Belo Horizonte: Autêntica. ed.mec. Identidades surdas. LOURO. Carlos. ed. p. Luiz F. desejo e teoria queer. A Surdez: um olhar sobre as diferenças. p.br/seesp/arquivos/pdf/ tradutorlibras. DINIS. Currículo. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. 2ª. Porto Alegre: Mediação. In: MOREIRA. relações de gênero e diversidade sexual. Gênero na sala de aula: a questão do desempenho escolar.. GOELLNER. Relações de poderes no espaço multicultural da escola para surdos. Carlos (Org. In: SKLIAR.gov. O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa.). 2008.. 2ª.In: Educ. 2001. p. Carlos (Org. p. Rosângela de F. Ronice Müller de. In: SKLIAR. 62-72. vol. gênero e sexualidade: um debate contemporâneo. p. 29. NECKEL. PERLIN. 2001. Disponível em: <http://portal. Maria Cláudia. Corpo. ed. p. ed. Carlos (Org. In: SKLIAR. QUADROS. Guacira Lopes. Jane Felipe. Gládis Teresinha.).). 103. Maura Corcini. 2ª. Referências ALVARENGA. CANDAU. 90-124. 51-73. p. Maura Corcini. A Surdez: um olhar sobre as diferenças.pdf>. Corpo e sexualidade na escola: as possibilidades estão esgotadas? In: MEYER. Nilson Fernandes. DAL’IGNA. Porto Alegre: Mediação. 477-492. 7-32.

5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Graduação Relação dos artigos científicos que receberam Menção Honrosa A íntegra do artigo pode ser acessada em www.br Ser mulher nas revistas: um estudo sobre cultura jovem. Sarai Patrícia Schmidt 127 . mídia e educação Pâmela Caroline Stocker Centro Universitário Feevale (FEEVALE) Orientadora: Profa.cnpq. Dra. gênero.igualdadedegenero.

Categoria Estudante de Ensino Médio .

5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Introdução A categoria Estudante de Ensino Médio recebeu a inscrição de 2.976 redações vindas de todas as unidades da federação brasileira. 100% 80% 60% 40% 20% 0% M F Fonte: CNPq/SPM. 5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Sexo Masculino Feminino Total Inscrições por sexo Quantidade 1036 1940 2976 % 35% 65% 100% Fonte: CNPq/SPM. 129 . 2009. 2009. 65% foram inscritas por pessoas do sexo feminino e 35% do sexo masculino. Deste total.

A pré-seleção das redações foi feita por um Comitê composto pelas instituições parceiras: SPM/PR.1%) e em quarto a Bahia (7. na sede do CNPq. Os vencedores da categoria Estudante de Ensino Médio (Etapa Nacional e Etapa Unidade da Federação) foram premiados com computadores. Durante três dias.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio A distribuição das inscrições por Unidade da Federação mostra uma grande concentração nos estados de Minas Gerais e São Paulo.3% das redações selecionadas para a etapa final. Assim. O Estado de São Paulo teve 20. Estes estados agregados respondem por 64. Nilce Rosa da Costa (Conselho Nacional de Secretários da Educação). O grande campeão das inscrições foi o estado mineiro com 27.7% das redações pré-selecionadas. estes estados respondem por 42.4% e de Minas Gerais com 11%. A Comissão Julgadora reuniu-se no dia 17 de março de 2010. seguido do paulista com 20. Marcos Elias Moreira (Superintendente do Ensino Médio do Estado de Goiás). seguido da Bahia com 11.3%. Marcos Nascimento (Instituto Promundo). 130 . Estes tiveram uma participação de 48% do total. Keila Deslandes (Universidade Federal de Ouro Preto). a pré-seleção resultou em que 11% do total de redações inscritas passassem para etapa final. A Comissão Julgadora das categorias Estudante do Ensino Médio e Escola Promotora da Igualdade de Gênero foi composta pelos seguintes membros: Ângela Maria de Lima Nascimento (Conselho Nacional dos Direitos da Mulher).4% das inscrições totais.7%. MEC.3%). em terceiro lugar está o Rio Grande do Sul (9. que presidiu a comissão. e Maria Lúcia de Santana Braga (Secretaria de Políticas para as Mulheres). cerca de vinte pessoas fizeram uma leitura das redações inscritas e selecionaram 290 redações que foram encaminhadas para a Comissão Julgadora. Denise Maria Botelho (Universidade de Brasília). CNPq e Unifem.

Categoria Estudante de Ensino Médio Redações Premiadas na Etapa Nacional .

para me dar boa sorte. Passei adiante e não consegui evitar derramar umas gotículas de água de meus olhos. Minha mãe saiu a pouco. já que faz alguns anos que ele me rejeita como filha. do meu real eu. me apeguei não mais à realidade e sim aos meus doces sonhos de princesa. e um álbum de fotografias que ela estava montando para esse momento. esse lugar não estava presente na encantadora infância. eu não achava graça em brincar com os meninos da minha rua e muito menos em me 132 . eu também não entenderia. que não era de todo infeliz. Eu não sabia o que esperar deste presente. meninos apontavam o dedo para mim e riam e eu. Finalmente este dia chegou. talvez se não acontecesse comigo. e fiquei receosa de folhear aquelas páginas decoradas e me deparar com o meu triste sofrimento. não tive muitas boas lembranças a fotografar quando eu era criança. muito menos quando eu era adolescente. Agora me lembro dessa época. Enfim. o que eu já esperava. depois de tantas consultas médicas e psiquiátricas. eu sei que não é fácil. ela veio sem o acompanhamento de meu pai. pelo menos ela tenta me entender. com todas as crianças da rua para tirarmos fotos para o Natal. Quando pequena. estou na escada da vizinhança. Sempre fui alvo de chacotas e humilhação. a minha mãe me entende. minha mãe me trouxe um buquê de rosas brancas. Mas resolvi adentrar em minhas lembranças para quem sabe. e sim numa cama de hospital. depois de vinte e um anos de um transtorno biológico e de um desencaixe social. sempre estive presa nessa realidade. onde acabo de fazer os últimos exames para que seja possível a realização da cirurgia daqui a algumas horas. ao menos posso dizer que alguma vez ele se sentiu feliz com a minha presença. e por incrível que pareça diário. Estou escrevendo de um quarto de hospital. acuada em meu canto. hoje eu irei fazer a minha cirurgia de mudança de sexo e. encontrar momentos felizes e até aprender com o que eu sofri. depois de tantos rabiscos no meu calendário.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Goias – Goiânia O diário de um transexual Nathalia Gomes Mialichi Colégio Dinâmico Dia 11 de outubro de 2009 Bom dia diário. As primeiras páginas cor-de-rosa mostram um bebê que contrasta em um quarto azul ao lado de seu pai machista e sorridente. sofrimento este que eu sei que não é apenas meu. tornar o meu corpo um verdadeiro reflexo do meu estado de espírito. desejava fugir para um lugar em que meus sonhos pudessem se tornar realidade.

em que uma alma está aprisionada em um corpo que não lhe corresponde fisicamente e os outros indígenas ajudavam o que se encontrava nessa situação. a única foto que vi e realmente me senti parte de algo é a que estou abraçada com um monte de índios da tribo Yuman. eu deveria ser descartada dessa sociedade. essa situação desencadeou em uma outra fotografia com uma fachada de escola diferente. decorado com carrinhos e soldadinhos de chumbo e tropeçar na imensa quantidade de bolas velhas e nunca usadas que eu ganhara de meu pai insistente. já estava adolescente e me via isolado na escola e tentando inventar um sorriso para que a minha mãe acreditasse que nessa escola tudo ia ser diferente. e fui erradamente chamada de gay. com as mais variadas possíveis. brincando de salão de beleza. de mais alguém me rotular. Fotos sucessivas com o mesmo sorriso. de desfiles e de bonecas. machucada e humilhada por ser diferente. levei ovadas porque confessei à única pessoa que eu achava que se importava comigo que eu era diferente. a hora em que o clube da Luluzinha se reunia na casa de minha vizinha. e assim eu ficava. como eu não me encaixava. e me afundava nos meus sonhos. eu não tinha amigos e meus colegas de escola não se importavam realmente com isso. a escola havia dado uma palestra sobre igualdade. pois lá. cujo pajé me considerou especial e me aceitou. e o resto da história você já sabe. anormal. eu tinha dito no episódio à minha mãe que foi comemoração de meus amigos e que graça que eles fizeram para me sacanearem em meu dia especial. eu subia para o meu quarto e observava as meninas em seu quarto rosa e todo florido. Percebo que a adolescência foi a fase mais difícil para mim. que eu era uma aberração e que. mas com fachadas de escolas diferentes e com pessoas com o mesmo olhar de preconceito. Então. inclusive de gênero. Muitas dessas lembranças eu já te relatei diário. fui ameaçada. ao entardecer. Realmente foi uma sacanagem. é nessa foto que seguro agora 133 . Até o momento. sabe. Meus únicos pesadelos eram constantes e ocorriam ao acordar-me: deparar-me com meu quarto azul. só que são essenciais para que eu mude e reflita sobre a raiva que senti durante tantos anos. Às vezes. foi quando começaram os apelidos e eu comecei a considerar que eu realmente não deveria existir. os transexuais não eram vistos como imorais e que colocam o seu prazer à frente. eu adormecia observando-as e muitas vezes invejando-as. principalmente as quais eu me identificava. mas agora eu não tenho mais medo de meu pai te achar. toda cheia de tomate e ovos. para que seu sofrimento se amenizasse. Esse passado triste foi acentuado pela não-aceitação dos vizinhos e das crianças. Tem uma foto aqui que apareço em um almoço familiar de meu aniversário. há o respeito em relação às diferenças e esses índios encaravam a transexualidade não como o conceito que muitos veem hoje. Esse dia foi meio irônico. eu não queria me machucar jogando futebol e nem passar a tarde toda jogando bolinha de gude. mas não porque era o dia de meu aniversário. mas sim como ela realmente é. com seus longos cabelos trançados. drag queen.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio juntar aos clubes do Bolinha. O tempo foi passando ao decorrer das páginas. é por isso que agora escrevo com mais sinceridade sobre momentos que eu mesma tentei tirar de minha memória.

não consigo me conter ao lê-lo. não que eu seja gay. Neste momento em que escrevo. eu me sinto como mulher. As últimas fotos do álbum de minha vida são mais animadoras. me vejo novamente com ovos na cabeça.nos quais alguns países nos recebem e nos protegem. Continuo não esperando muito da sociedade em si. não digo que eu mudarei. muita gente confunde esses termos. que só se vestem como o sexo oposto para obter prazer. claro. e das drag queen. porém. lógico. diário. mas a todos a quem seu direitos de igualdade não são respeitados. 134 . diferentemente dos gays. só o básico: respeito. Engraçado. e muitas folhas passam até que percebo que minha mãe escreveu um bilhete na última folha. eu sei que posso e eu vou ajudar. mas pensa comigo. mas dessa vez meu novo grupo estava me parabenizando por ter passado na melhor universidade de direito do país.como nos Estados Unidos . ela. um dia. olho através da janela e vejo que muito ainda há por vir e refletida em seu vidro há o buquê de rosas brancas que ganhei. é a ignorância que gera o preconceito. né? Por enquanto eu continuo a ver minhas lembranças que se passam como um filme em minha cabeça ao invés de pequenas fotografias. Ela termina dizendo que estará comigo sempre que eu precisar e. não só a mim. Eu acho que é essa confusão que acaba acentuando a discriminação. Eu posso ajudar aqui no Brasil. tenho esperança de que o que mudará a partir de hoje será a visão das pessoas em relação a mim. de um futuro respeito. que se atraem por pessoas do mesmo sexo. há casos . a 4 anos atrás. só fisicamente. A última foto do álbum foi tirada quando eu estava na passeata de gays. eu veria que o direito era algo que se afastava completamente de minha perspectiva de futuro. mas amanhã pode ser diferente. Por enquanto o básico já tem sido demais para as pessoas suportarem. não sei se é porque estou emocionada demais pela mudança em minha vida. meu pai também poderá estar. me renega como membro social. estou cercada de pessoas iguais a mim no centro de psiquiatria e na faculdade de direito que eu estou frequentando. Se eu voltasse em suas páginas. lésbicas e simpatizantes nos Estados Unidos. mas eu não mudarei. infelizmente.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio e vejo que ainda há esperança. será uma mudança no conceito de igualdade. quem sabe. só que vamos deixar isso para quando eu me formar. mas acredito que hoje tudo mudará. lembranças de que eu finalmente poderei ser eu mesma. eu sei que pode. certo? Então é normal que eu me interesse por homens. lembranças de uma futura igualdade. mas nesse ano eu vi que eu posso ser muito útil na legislação. o álbum ainda possui uma imensa quantidade de folhas em branco que agora folheio para que eu encontre alguma dica. ao passo que outros nos discriminam legalmente e até nos perseguem. Fechei o álbum tendo a certeza de que o que farei daqui a algumas horas será o certo para mim e que ainda há esperança das pessoas entenderem e me respeitarem. E essa diferença vai ser muito além da mudança de meu nome e sexo no registro civil. como os índios me entenderam. muitas vezes. quem sabe se retrocedêssemos um pouco na evolução as pessoas pudessem me entender. nele minha mãe me diz que as folhas brancas representam o que eu ainda viverei pela frente e que eu mesma colocarei lembranças felizes nessas páginas.

eu não terei pesadelos. Pâmela 135 . não vai? Não será fácil. Deseje-me sorte. E você vai me acompanhar nesse novo trajeto. ao acordar. meu querido diário. Dessa vez. a enfermeira está me chamando para fazer mais alguns exames para que eu possa ser anestesiada. eu prometo que valerá a pena. é assim que eu vou me encontrar. porque eu serei eu mesma. só o meu grande sonho se tornará realidade. né? Mas vai valer a pena.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Eu tenho que me despedir de você.

de tornar real o meu sonho era muito maior e. Todas as outras meninas do curso eram descriminadas por fazerem parte de um curso classificado como “curso pra rapazes”. Com o estouro das Grandes Guerras Mundiais as mulheres tiveram que. o que em boa parte dos casos acontece justamente o contrário. enquanto as mulheres deviam cumprir suas responsabilidades com os afazeres domésticos. ouvi críticas. Eram como bofetadas em meu rosto. piadinhas e até mesmo fui humilhada por correr atrás dos meus sonhos e fazer o que realmente gosto. ser inseridas no mercado de trabalho. mas na prática a coisa não é bem assim. entretanto. Já vem de muito tempo o preconceito quanto à colocação da mulher no mercado de trabalho. . cabia ao homem. Feriam minha alma e meus sentimentos. porcas. ferramentas e sujando a mão de graxa? Que nojo! E além de nojento é ridículo esse tipo de trabalho pra uma mulher! Isso é serviço de homem! Palavras cruéis como essas eram proferidas a meu respeito com frequência. Após o término da guerra terminavam-se também a vida de muitos 136 . Na teoria a lei funciona. inciso 1. Como se as mulheres não tivessem capacidade de efetuar um serviço de qualidade e apenas os homens o fizessem. quem era responsável por prover o alimento e a segurança da família eram os homens. de trazer o sustento aos filhos enquanto os homens eram enviados aos campos de batalha para lutar por seus países. de alcançar o alvo. Mas o fato é: qual é o fundamento pra tal conceito (errôneo) de que mulheres não podem trabalhar na área metal-mecânica e que somente homens teriam capacidade para trabalhar? Está escrito no artigo 113. pra mim não era apenas um curso.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Rio Grande Do Sul – Novo Hamburgo Seguindo a menina da manutenção Felipe dos Santos Machado Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha Orientadora: Íris Vitória Pires Lisboa Não foi uma nem duas vezes que eu. Monique. Preconceito é a palavra mais apropriada pra descrever o que sofri por prestar uma prova de seleção e ser classificada pra fazer um curso. na época. porém a vontade de vencer. que: “todos são iguais perante a lei”. visto que as mulheres. sem dúvida.O quê? Menina mexendo com máquinas. deboches. da Constituição Federal. Na verdade. parafusos. Por volta do século XVII. são mais minuciosas do que os homens e conseguem dedicar maior atenção a uma determinada atividade. uma conquista que foi apedrejada e que desde o início não teve apoio das pessoas que me viram entrar pelas portas da escola técnica e me matricular no curso técnico de Mecânica. geralmente. a convicção que eu tinha de que estava no caminho certo era um excelente motivo pra que eu tivesse forças suficientes para prosseguir. e sim uma realização. E esse problema não era único e exclusivamente meu. assumindo o papel que.

Ah. visto que a turma possui 32 alunos. vejo a Mecânica de forma explícita ou implícita. ferramentas e peças. mas esse alívio pode se tornar ainda maior se cada pessoa que tiver acesso a essa carta fizer a sua parte.. a quem chamo carinhosamente de Fabi.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio combatentes. E começar (ou continuar) a respeitar as mulheres técnicas em mecânicas. está comigo nessa peleja e também está revoltada com a opressão que a mulher técnica em mecânica tem tolerado até agora. Minha nota foi a segunda maior nota da sala e meu desempenho nas aulas práticas foi superior ao da maioria dos meninos da minha classe. pra vender meu peixe. estou sim reivindicando o direito à igualdade de gênero. Quanto mais engraxado for o serviço. competente. melhor é pra mim. acabamento de peças metálicas. Como sou uma mulher muito versátil e moderna. Na terça-feira passada minha turma teve prova da disciplina de Tecnologia Mecânica dos materiais e ontem recebemos o resultado. E não esqueça de me seguir no Twitter: A mulher da manutenção. bem como todas as mulheres batalhadoras que dão seus rostos à tapa pra conseguir uma boa colocação no mercado de trabalho. que na maioria das vezes têm a preferência. Gazzag. Sinto como se milhares de quilos fossem desprendidos das minhas costas. é o primeiro passo. guerreiras e batalhadoras.. É só lançar no Google. fresamento. 137 . No que diz respeito à receptividade do mercado de trabalho com relação a nós. perfeccionista e sem-frescura. antes que eu esqueça. É. acho que consegui falar tudo o que estava entalado em minha garganta e que me angustiava já de longa data. onde disputamos uma vaga com vários homens. Estamos em um “campeonato masculino”¹. pra você que é um consumidor exigente e quer a melhor qualidade em suas máquinas. Mecânica é a minha vida! Qual é o problema em eu querer fazer o que gosto e viver minha vida da maneira mais agradável possível? Mecânica é o movimento. Facebook. né??!! Faço qualquer serviço de torneamento. dentre os quais há apenas duas meninas. que matamos um leão por dia. tratamentos térmicos pra melhorar propriedades das ligas Ferro-Carbono e programação de CNC. podemos observar claramente um preconceito enorme. Sinceramente. sinto-me orgulhosa da escolha que fiz e não me arrependo. Não estou aqui reclamando da minha opção. o que impunha à mulher uma dupla jornada de trabalho dividida entre cuidar da casa e dos filhos e trabalhar fora para obter o mantimento. vou aproveitar que essa carta vai circular por todo o país. no auge dos meus 17 anos. começando do Rio Grande do Sul e daí por diante. Pois é! Como ninguém é bobo de ninguém. fazendo-me refletir sobre o verdadeiro e fundamental papel da mulher no meio em que vive. MSN. tem me atacado diretamente. mulheres mecânicas. você pode fazer contato comigo através do orkut. a minha colega. desrespeitada pela sociedade e que agora. Meu numero é 555-55 55. Sou determinada. Está em toda parte! Por onde olho. Está mais do que na hora de dar um basta nisso.

independentemente do fim que tomamos. E em meio a tantas imortais. se esse casamento acontecesse normalmente. Machado gostava de dividir suas obras em muitos capítulos. lá pelo centésimo quinquagésimo capítulo. Mas conheço algumas. também por causa de Machado. somos de algum modo lembradas. de Moacyr Scliar. que esperou a vida inteira pelo seu amor de infância. Provavelmente. somos nós. mas se não fosse assim. os mais entendidos sabem que. conseguiu conquistar o que queria. Porém. Seixas não teria percebido o quanto a amava. malandro como era. Quaresma guarda até hoje seu extremo nacionalismo. Se não te lembras dela leitor. Até mesmo o cego da beira da estrada. ou por apenas um (neste caso. Realmente. já que morri na Suíça. Mas a que mais me impressiona é Aurélia. eles não se reconheceram. muitos estranharão este fato. confesso que desconheço a origem e procedência de maior parte delas. não hei de morrer tão facilmente. À namorada esquecida restou o casamento com o agregado de sua tia. não te preocupes: poucos se lembram de seu nome. É claro. personagem que sou. como aconteceu com o meu. dos muitos que foram imortalizados ao redor do mundo. estaria condenado à monotonia. que foi alvo dos amores de Leonardo que. personagens. trocou-a logo pelos mistérios de Vidinha. E é claro. casaram-se depois que Leonardo tornou-se sargento de Milícias e Luisinha viúva. Sim. sem deixar de ser bela. Todas nós. ainda não reconheceu corretamente um carro pelo som do motor. e este é o motivo pelo qual sou lembrada. o cortiço ainda vive seus inúmeros escândalos e Iracema continua sendo a virgem dos lábios de mel. como grande parte dos casamentos. ou a um fim vergonhoso. Aquela. e imagino que esse tenha sido seu final feliz. estes são apenas alguns. Sei que o seu casamento não começou de uma forma considerada apropriada. e quando finalmente o encontrou. as personagens femininas.” E Luisinha. o Sr. Personagens ficam imortalizadas. uns bons anos mais velho do que ela. além dos que fazem parte da minha história. o autor). mas aí já estão incluídas as lembranças que ele próprio deixou. Inteligente.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Santa Catarina – Canoinhas Imortalidade desmedida Tamiris Grossl Bade Escola de Educação Básica Almirante Barroso Sou Capitu. 138 . Ouso dizer que. O que digo é que os leitores adoram fofocas e mal-dizeres. diria algum intelectual. Mas aquelas em que estive realmente pensando. Riobaldo continua divagando por entre as veredas do sertão. nesta minha imortalidade desmedida. seja por muitos. dos olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Carolina. já que ficou imortalizada como “a moreninha.

sem precisar ter homem ao seu lado durante todos os anos de sua vida. editores leram-no. Tão logo Machado pôs um ponto final em seu manuscrito. Mas não foi assim. dos nomes abertos a prego no muro. A meu ver. mas isso pode acabar. esperteza de mocidade que não me abandonou na fase adulta. E para que houvesse um pai machista. e morri sem data definida. Sei que o machismo ainda existe. Desde os nossos tempos de criança. caso fosse uma personagem do século XXI? Não se esqueça leitor. O que eu faria se tivesse um ofício. E então. já que histórias como essa. e não da boa vontade dos homens. apenas isto. tudo o que tive com ele foi um fim. eu era uma menina esperta. que chegou a desconfiar de seu melhor amigo. as de verdade. houve uma mãe que se submeteu a ele. Pela pureza da paixão nestes gestos. E a cada novo leitor. Sinceramente. surge uma nova discussão sobre as evidências que o ciúme de Bentinho deixou expostas. envolvendo paixões infiéis em meio a um casamento sólido. Morta e enterrada na Suíça. nós nos casamos. com um homem assim. eu revivo-as mais uma vez. Cuidei que este casamento fora a nossa vitória. dia após dia. e usá-lo nos tempos de hoje. Às vezes. Isto é. onde cada mulher pode escolher que vida levar. Homens tornam-se machistas quando crianças. Sim. o apelido de meu marido era “Dom Casmurro”. com o qual eu poderia me entreter e me dedicar? Talvez. Carolina corrigiu-o de cabo a rabo. 139 . Se te lembras bem. até as atividades corriqueiras e meu relacionamento com Bentinho seriam menos maçantes. Ah. não são esquecidas facilmente. Não me entendam mal. não sabem o poder que têm ao poder escolher seu caminho.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio O leitor talvez pense que invejo Aurélia. que estudava para torna-se doutor. espero que tenhas mudado de idéia a essa altura. e o primeiro beijo em frente à penteadeira. Apesar de disso. essa mudança depende das mulheres. de ter os meus cabelos escovados por ele. Um marido que por ciúmes me exilou na Suíça. Acho podes imaginar como é conviver durante anos. me ponho a pensar: o que eu me tornaria. a pessoa mais importante de minha vida. meu amigo leitor. Tudo o que tive foi um marido e um filho. tentando concluir se Escobar era realmente meu amante. Porém. se as mulheres assim quiserem. e nostálgico. sem nenhum sofrimento descrito. não sei se traí meu marido. Foi assim que acabei sozinha. o nosso final feliz. eu amava Bentinho. E é por isso que possuo uma imortalidade bastante sólida. só há uma paixão vergonhosa nesta história: a que os leitores têm pela infâmia alheia. e por todos os meus esforços para que ele não se tornasse padre. enquanto assistiam e aprendiam com as atitudes de seus pais. Se em algum momento. eu não lho negarei. Pessoas. assim como não deixou para mais ninguém. o poder da escolha… quem me dera tê-lo. não tive descanso. publicaram-no. o que fazia jus à sua personalidade. Mas então. e desde então milhares de leitores folhearam suas páginas. e um filho. qualquer pessoa dotada de sentimentos e emoções pode perceber o quanto eu o amava. Machado não me deixou pista alguma. visto que reconstruiu a casa que vivia quando criança. ciumento e nostálgico. A cada nova leitura das memórias de meu marido. chegaste a invejar a minha eterna personalidade. Ciumento.

É por isso que resolvi escrever estas minhas conclusões: pedir que vocês. Cego e amigo gedeão à beira da estrada. sem ter que obedecer a tudo o que o seu autor escreve. detentores de uma vida não escrita. 140 . O poder da escolha. José de Alencar. Senhora. Triste fim de Policarpo Quaresma. ou na intimidade de seus lares? Sim. com tanto poder.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio O que aconteceria se todas as mulheres. Iracema. Recentemente cheguei à conclusão de que muitas delas ainda não sabem o que podem fazer com tamanha liberdade. citando as seguintes obras da literatura brasileira: O grande sertão: veredas. A moreninha. Aluísio Azevedo. Memórias de um Sargento de Milícias. Manoel Antonio de Almeida. É por isso que eu sempre me perguntei por que. O cortiço. o que pode ser melhor do que isso? Poder escolher que vida levar. Baseado na obra de Machado de Assis: Dom Casmurro. É tempo de enterrar os preconceitos e permitir que cada pessoa tenha o valor que merece. soubessem o valor que têm? Se soubessem que merecem ter vez e voz. elas não mais aceitariam o segundo plano. as mulheres de “carne e osso” ainda se permitem ser subjugadas. em que mundo viver. seja profissionalmente. João Guimarães Rosa. Moacyr Scliar (conto). Joaquim Manoel de Macedo. José de Alencar. independentemente de ter nascido homem ou mulher. no qual foram deixadas por tanto tempo ao longo da história. Lima Barreto. sem exceção. abram os olhos.

Categoria Estudante de Ensino Médio Redações Premiadas na Etapa por Unidade da Federação .

já nem lhe chamo mais assim. O medo de voltar para casa à noite. 3 de março de 1857 – Acho bom ter aprendido a ler e escrever quando criança. Dizem que este nosso país é o “país do futuro”. O lema dessa revolução eu não me lembro. 6 de março de 1857 – O que mais se fala aqui em Nova York é de um tal Destino Manifesto. Bebi depressa. pois ontem foi deveras um dia difícil. então vou falar de hoje. me entrego.. e não ganho trocado nenhum.os oito. Não posso dizer que sou feliz. és o único que assim posso chamar. Ainda me lembro do dia de sua morte: não respirava mais. O salário dele era o triplo do meu e a carga horária dele era menor. E só para deixar registrado: hoje uma menina perdeu uma de suas mãos. Pelo menos. de tão cansada que estava. Acordei cansada. Outras vezes. 4 de março de 1857 – Mais um dia e a vida continua a mesma. Assim. abusando das índias e conquistando todas aquelas terras. após os meus filhos. meu amigo.. por causa de todo aquele carvão que ele respirou durante todos os anos em que trabalhou naquela mina. passei em alguns casarões para pedir comida. 142 . esse é o meu momento de alegria. Consegui uma xícara de café com água. E tendo eu já os meus trinta e nove anos de idade. dormiu em cima da máquina de cortar tecidos. o primogênito como responsável . se ele estivesse vivo. Ouvi dizer na fábrica hoje. poderíamos ser felizes. pois às vezes preciso comê-los. Um dia como todos os outros dias. como posso produzir leite se nem tenho me alimentado? Deixei-os . Às vezes. pois considero-te tão próximo de modo a dispensar formalidades. Falam da Revolução Francesa. posso ter companhia mesmo quando não tenho ninguém com quem conversar. Estão marchando rumo ao oeste. São tantos os problemas. que o diretor havia largado sua esposa e se casado com uma menina de dezenove anos. Não tenho como reclamar dos ratos e baratas dentro de casa. mas eu tento ser. 5 de março de 1857 – Querido diário. No fim do dia. que aconteceu no século passado. A esposa antiga se tornou operária da fábrica. Porém. Sinto falta do meu marido. Poderíamos sair da miséria. Amamentei o meu caçula e percebi que minhas mamas falharam. pois.e fui ao trabalho. Ela só tem doze anos de idade. Não sei como tenho tempo e disposição para escrever. Tenho é de agradecer. Os homens que se esfregam nojentos no caminho de ida e volta.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Bahia – Guanambi Escrevendo um diário Mauro Marcelo Queiroz de Arruda Sobrinho Colégio Nóbrega 2 de março de 1857 – Meu diário. e depois senti o pesar de não tê-la guardado para meus meninos. Acho que é porque. ao retornar para casa. isso eu já registrei na página anterior. poderíamos ter uma vida um pouco melhor. mas agora tudo acabou. Só me lembro da seguinte palavra: igualdade. ele até podia ter dois empregos. matando os índios. tenho de ceder para ganhar alguns trocados. enquanto tecia.

As encomendas aumentaram. Também vamos pedir redução da jornada de trabalho. Fizeram um dia especial para nos homenagear. É impossível que eu esteja escrevendo esta página. Eu só quero ser feliz. 8 de março de 2057 – Duzentos anos se passaram desde que morremos queimadas. Não significa que homens e mulheres vão ser idênticos em todos os aspectos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Quando eu era criança. essa igualdade. Mas hoje foi um dia bom. deve ser uma realidade. 8 de março de 1857 – Estou bastante otimista. 143 . ter hábitos iguais. antes de ir para a fábrica. Vamos pedir um aumento de salário. O dia das mulheres não deve ser só mais uma data para preencher o calendário. Igualdade de gêneros não significa que ambos os sexos têm que exercer as mesmas funções. As mulheres conquistaram vários direitos. Será que algum dia todas as pessoas. trabalhamos muito mais que o costumeiro. homens e mulheres. esta e mais cento e vinte e oito operárias entraram em greve. Igualdade de gêneros implica que ambos os sexos devam ter oportunidades iguais e ser tratados igualmente. Cento e vinte e nove mulheres morreram queimadas. e nós é que temos de trabalhar para vestir todos aqueles diplomatas. para que tenhamos a mesma carga horária dos homens. Isso significa que não se deve julgar uma mulher ou um homem usando como quesito o sexo da pessoa. minha mãe havia me ensinado isso.. A polícia foi chamada. Eu vou conseguir consertar a minha vida e dar um futuro melhor para os meus filhos. Igualdade. pois estou morta há dois séculos. O objetivo de todo ser humano é ser feliz. mas ainda não sabem o que é. Mas ainda há muita violência e muita injustiça contra as mulheres. Falam de igualdade entre os sexos. e por isso estou escrevendo agora de manhã. Naquele mesmo dia. Essa página ainda está em branco. Os policiais trancaram as operárias nas fábricas e incendiaram o local. Houve uma comoção geral. Eu sabia de cor esse lema. poderão escrever em seus diários que são felizes? Se a resposta a essa pergunta for sim. Tenho certeza de que tudo vai dar certo. para que o nosso salário se equipare ao dos homens. então teremos alcançado a igualdade. Mas e a violência e a injustiça que existem contra todas as meninas e mulheres? 7 de março de 1857 – Hoje. As pessoas se impressionaram com o acontecido. Uma nova moda surgiu na alta sociedade.. Foi preciso um ato de exacerbada barbárie para que as pessoas pudessem notar a injustiça que existe. Queremos ter direitos iguais aos dos homens. E cabe às pessoas que ainda vivem escrevêla. pois as meninas estão planejando uma greve para amanhã. realmente. Agora só me lembro da “igualdade”.

Minha mãe não confiava em me deixar sozinha em casa com meu pai. arrumei-me. vi aquela professora alta. estranhei. Além disso. Mas meu primeiro sonho era muito simples. aposta no bilhar e em tudo que não presta. senti medo. Toda Maria que eu conhecia tinha um segundo nome.. disse que teria que me arrumar logo para ir à escola porque ela já iria para o serviço. Os que eu mais gostava eram os de histórias de princesa. havia com certeza se atrasado por algo. Ele me derrubou no chão 144 . Como eu era filha única.. ele me abraçou de forma desrespeitosa. dizendo que seu nome era Maria dos Anjos (Que inveja de “Maria” com segundo nome!).. O dinheiro que meu pai .. As aulas estavam prestes a começar.. negra . A primeira aula foi muito legal. Só eu que era simplesmente “Maria”. Senteime numa cadeira para esperá-la.. A partir das outras aulas. Ela se apresentou. eu achava um luxo aqueles cadernos com capas da Amazônia! Numa segunda-feira. A professora nos mostrava que com a educação aquilo era possível. Com o pouco dinheiro que a mãe ganhava semanalmente. e. mas notei que estava estranho.acho que nem deveria ser chamado de pai – ganhava fazendo bicos era gasto em bares. Eu sempre saía de manhã cedo com minha mãe para a casa da mulher para quem ela trabalhava como lavadeira. mas ainda sim passávamos necessidades. tomamos o café e saímos para a escola.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Maranhão – Dom Pedro Maria da Mulher Rodrigo Humberto Otávio dos Santos Associação Educacional Professora Noronha Professor Orientador: David da Silva de Morais Eu tinha muita raiva.e com a cara mais feliz do mundo. Ai. De repente. cara essa que poucas vezes vi em outras pessoas. tinha uma vida difícil: trabalhava de lavadeira e tinha que sustentar a casa sozinha.. Um dia. não aumentava muito as despesas. eu estava aprendendo a importância do estudo e da leitura. voltei da escola. estava aprendendo a ver o quão mágico é esse novo mundo da leitura. a professora levava livros de literatura para lermos. Depois eu viria saber o porquê. Minha mãe. Estava muito bêbado.a primeira professora negra que tinha visto . abri a porta e vi que minha mãe não havia chegado. a dona Maria das Graças. e eu sabia que teríamos uma nova professora. comparado com os sonhos de princesas dos livros que lia: arrumar um emprego digno pra minha mãe. olhava-me diferente. Quando cheguei lá. vivia batendo em minha mãe. como sempre. Levantei.. quando meu pai chegou. minha mãe me acordou cedo. Chegando em casa. ela comprou um caderninho e um lápis com borracha. escovei os dentes. estava aprendendo a sonhar. eu toda feliz. assim. conheci meus novos colegas. Passou o tempo.

comecei a trabalhar e a estudar. decidiu que eu iria para a capital morar com minha tia. desde que trabalhasse pela manhã e estudasse à noite. a tia Maria Jesus. Fiquei muito. nada ia mudar. eu queria morrer! Dias depois. daquele monstro! Fiquei tão traumatizada com aquilo.. A única coisa que me lembro depois disso é de minha mãe ter chegado e batido bem forte na cabeça do meu “pai”. minha professora apareceu em casa. Fiquei desesperada. Mas ela parecia que já havia lidado muito com essas situações. sem fazer nada para mudar aquela situação contra as mulheres. agredia a tia às vezes e vivia apostando. mas com a maior vontade de dizer o que sentia. não “privilégios” concedidos. com um ar de preconceito. Vivia rodeada de piadinhas sem graça e outras coisas do tipo. eu ajudava limpando a casa. Minha mãe notou tudo isso. Cheguei lá e cumprimentei a todos. já que não tinham estudos e oportunidade de crescer. Meu tio. Eu falei para minha tia que iria procurar um emprego. Isso. perguntaram-me. pequena. algo que me lembrava muito a meu “ex-pai”. para ganhar algum dinheiro para melhorar nossa vida e estudar. Sentia-me um pouco feliz porque acreditava que meu sonho iria se concretizar.. E lá fui para aquela casa... que não quis ir mais à escola. Aí vi que se eu continuasse daquele jeito. Então. Estudei com muito sacrifício.Aconteceu algo com você que não queira falar? Que lhe motivou a se ausentar da escola? Eu respondi que não. terminei o Ensino Fundamental e o Médio. quando estava na fila.. Então decidi ir estudar novamente e lutar pelos os direitos das mulheres. Finalmente chegou o dia de fazer o vestibular.. Fiquei muito triste.. aquela realidade teria de ser mudada. para ver se poderia ficar com o emprego. e para não me prejudicar. sofri muitos preconceitos por ser negra. contei-lhes por que estava ali: porque eu queria lutar pelos direitos 145 . Passei no vestibular.. queria morrer. “Nada. se eu faria pelo sistema de cotas. Era hora de prestar vestibular. pois dava pra ver que eles me tratavam como uma aluna de segunda. fiz minha inscrição e fiquei aguardando ansiosa o grande dia. pois muitas delas não sabiam quem poderiam defendê-las e nem poderiam defender a si próprias. entretanto. lavando as louças. que estava tudo certo.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio e começou a me violentar. Era uma casinha muito simples. preocupada comigo. pois o único pai que eu tinha agora era o Pai do Céu. só não quero mais estudar. Dentro da faculdade eu fiz amigos. ajudava pouco em casa.” – disse eu. Por ser negra.. ou melhor. mas minha tia disse que lá tinha espaço para todos. e falou: . não quis fazer mais nada. Lá. mais muitíssimo feliz! Agora iria fazer a faculdade de Direito. pois não estava mais frequentando a escola. Os anos se passaram. não era um homem nada bom.. Ela concordou. ela me recomendou a uma dona Maria Virgínia que esta precisava de uma ajudante em sua casa. ao longo do meu curso. Entretanto. Mas sabia que o que contaria era minha inteligência.

Entrei no ônibus. Com o apoio da Prefeita Maria das Cruzes. nada diferente. Não veio à tona aprofundar-me nisso no momento. Agradeci também a minha tia Maria Jesus. Assumi a delegacia. dirigi-me à Secretaria de Estado de Apoio à Mulher. só restava trabalhar duro. uma estava formada em Pedagogia e outra em direito também. Fui à capital novamente. agora. ela se levantou indo ao meu encontro. Agora iria para minha terra natal. Pela idade. Ficamos conversando um bom tempo para matar a saudade e depois eu comecei a fazer o que realmente deveria fazer ali: ajudar as mulheres. eu consegui me formar. “Que Deus abençoe essas duas Marias!” – era meu agradecimento. O tempo foi passando.Uns me diziam: “Direitos de mulher? Que besteira!”. fomos para a minha cidade. Perguntei a ela como estava se sustentando agora. minha mãe estava no quintal quebrando coco babaçu. Havia uma professora minha da faculdade que era também uma lutadora dos direitos da mulher. quando vi de longe a entrada da minha pequena cidade. ela emprestou-me vários materiais e livros sobre o assunto e me ajudou muito a conhecer os problemas que as mulheres vivem atualmente. uma mulher estava se candidatando contra um homem. como um flash. gritando: “Maria. e fui andando pelas ruas. A violência contra a mulher estava 146 . ficou espantada. claro. Agradeci muito a minha patroa pelas chances que ela havia me dado. As pessoas me olhavam. Maria!” Abraçou-me. Também perguntei sobre o traste do meu “ex-pai”. Depois de um ano de trabalho. a pintura a mesma. e tinha agora um ideal a seguir. para lutarmos juntas como defensoras dos direitos das mulheres. como se eu fosse uma estranha. se Deus quisesse. Respondeu-me que estava aposentada e que ganhava alguns trocados quebrando coco babaçu para fazer sabão e azeite. Fiz o concurso e consegui o cargo de delegada nessa nova delegacia. Cheguei em casa. os velhos móveis no mesmo lugar. tudo o mesmo em relação à casa. com uma delegacia da mulher. Maria. agora seria mais um caminho dado aos direitos das mulheres. pois o que eu mais queria era ver minha velha mãezinha. A candidata a prefeita havia ganhado. e choramos juntas. Fui atrás das minhas amigas que fiz na faculdade. com a ajuda das minhas amigas e com o apoio do Estado. Consegui que mandassem fazer uma delegacia da mulher na minha cidade natal. E com um trio desses. uma parte do meu passado assombroso passou por minha cabeça. mas parecia que estava prestes a ter uma eleição. A despedida foi muito triste. ela disse que ele havia morrido devido a uma cirrose. Quando ela me viu. aquilo nunca iria acontecer com mais ninguém. eu vi que as coisas estavam dando certo e que a situação da mulher estava mudando. Saí do ônibus. beijou-me. e pelo rápido que vi. Enquanto outros abraçaram a minha idéia e deram-me apoio. eu tinha armas para lutar contra aquilo e. Poucas coisas tinham mudado em relação à cidade.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio das mulheres. O Estado agora estava apoiando muito nosso ideal. mas. Como uma criança. não trabalhava mais como lavadeira.

visto que ela é a porta de abertura para muitos caminhos em nossa vida: só a educação pode transformar as pessoas. Com ajuda da prefeita. e vou fazer jus a isso. Finalmente consegui meu segundo nome. inclusive homens e crianças. Cada dia devemos lutar contra a situação de violência não somente contra a mulher. todos nós devemos sonhar e sustentar esse sonho. fundamos uma escola. porém não só a vida das mulheres mudou. mas contra a todos. nós promovemos várias ações em incentivo à educação. contra todas as injustiças e contra a falta de oportunidade é um dever de cada um de nós. 147 . você. minha amiga formada em Pedagogia virou diretora dela. Violência gera violência. mas também a vida de todos. Agora. a “só-Maria” tinha o orgulho de passar na rua e ver o povo dizendo: “-Olha a Maria da Mulher!”.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio diminuindo. Lutar contra ela. Eu.

Hei de ser poética e enfática.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Minas Gerais – Viçosa Memórias de uma mulher na condução da vida Adnilson Brás da Silva Santana Colégio de Aplicação – Universidade Federal de Viçosa Orientadora: Renata Rena Rodrigues Há muito tempo tenho esperado a ocasião de pensar sobre o que tenho feito da vida. que eu fazia à noite. A profissão de taxista e o jornalismo seriam duas atividades que me fariam entrar em dissonância com minha família. ajudada por um amigo com quem eu aprendera a dirigir. Enquanto essa idade não vinha. no qual eu pudesse me realizar enquanto mulher (já repararam em como o homem surge feito meio de aperfeiçoamento da mulher?). Tipicamente tradicionais. tudo isso passou a me integrar. permaneci junto a meus pais. algo que correspondia à vontade pulsante em mim de abrir-me ao mundo. minha família aventurou-se na capital. Vejo nisso o prenúncio da hora de tornarme amazona e com o volante trilhar ao encontro dos horizontes que se descortinam. de modo a demarcar meu caráter de mulher explícita e trovadora. o deslizar dos pneus no asfalto. Na capital. Ao mesmo tempo. sorvê-lo. Os bulícios a cada manhã. Pensando no trabalho que abracei. Precisava de dinheiro para pagar minha faculdade de jornalismo. isto me levaria a assumir uma vida pública que minha família não via com bons olhos. marcá-lo. torneime taxista. meus pais ambicionavam que eu obtivesse um bom casamento. as passadas sobre o concreto. Completados meus vinte e oito anos. Ser taxista foi desafiador. e para isso trabalhar como taxista constituía um empecilho. mas não é isso o que se espera de uma mulher afoita. É de tal modo particular o que pretendo dizer. que ousa falar daquilo que muitos parecem ignorar. que não teme dar a face ao vento? Tendo trabalhado orgulhosamente como taxista por mais de uma década. sinto que o ar da metrópole carioca já inundou com seu dinamismo minha atmosfera interior. no interior do Rio. era problemático: o que se diria de uma mulher voltando para casa no momento em que as boas famílias retiram-se aos lares? Essas limitações acabaram fazendo com que eu buscasse meus anseios só mais tarde. por volta dos trinta anos. fazer faculdade de jornalismo não parecia digno a uma moça. abrigando-se no subúrbio. o que só foi aceito por minha família quando ela acreditou em minha maturidade. Identificar-me como motorista de táxi foi a razão para perseverar na 148 . Estudar à noite. é como se eu me alienasse de vez em quando. No corre-corre do cotidiano quase não sobra tempo para inspirar profundamente e olhar para dentro de mim. Concomitantemente. trabalhando numa escolinha. então. vislumbrei a oportunidade de estudar jornalismo. orgulho-me de dizer que sou independente e singular.

como se ao dirigir eu estivesse me negando enquanto mulher. mas não desisti do sonho de concluir o jornalismo. Acrescento a essa página da minha vida que eu e meu marido não tivéramos filhos. proferindo palavras inquietantes. Sendo um homem com tais qualidades. a mulher é que é a invasora. que eu haveria de lapidar como jornalista. felizmente. teria eu de sozinha fazer da minha garotinha uma mulher. elas vêm contra mim para derrubar-me do volante. que me reconhecia independente e de cujos afetos fazia-me depender. Cabe dizer que fui casada. esperar-se-ia que eu me traumatizasse ao perdê-lo tão tragicamente e não mais ousasse tocar num carro. dizer que meu lugar é na cozinha. Doeu-me muito saber disso. Casei-me porque assim escolhi. não só do que pertence ao carro. perdido meu marido. O que vejo nesse comportamento? É a idéia de que um homem permanece no seu direito agindo como homem (como se houvesse o agir feito homem). por maior que este seja. Mas o destino armava-me uma cilada. do direito à maternidade. Pude reinventar meu amor maternal no olhar daquela pequena criatura que me penetrava os olhos com tamanha veneração. mulher-macho. era também um taxista sonhador. Meu esposo. a estranha. 149 . Era um homem excepcional.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio profissão. que ousa fazer o que não deveria. muitos veem na mulher um patrimônio. por minha própria vontade. ofensivas. já estando casada. Conheci-o na capital. Ficar impassível diante de vozes tão ríspidas é difícil. Às vezes chego a especular sobre o que seria de meu marido se ele tivesse me perdido. durou quatro anos somente. pela natureza. mas está enganado quem pensa que me casei cedendo às pressões da família. Era uma realidade que reclamava minha participação ativa e que eu não haveria de negar. Talvez ignorem que faço aquilo por sinto prazer. mas do volante com que orienta minha vida. Vivo na prática a resistência que as pessoas direcionam às motoristas. Parecem chamar-me de alienígena. resolvemos adotar uma criança. Redobraram-se as horas em que eu dirigia pelas ruas com o taxímetro ligado. Tendo nas mãos o volante. dado que sou estéril. tendo descoberto isso somente após meus trinta anos. trocando confidências. Verifica-se que muitos homens ignoram que viver em família é um ato de reciprocidade. cuidando da minha vida. de forma que meu marido e eu. Através do táxi pude viajar por diversos lugares e apreender realidades ímpares. não tinha essa mentalidade. estava eu privada. e assim não estou agindo fora de mim. dotando-me de imensa sensibilidade. sinto meu olhar reconstruído a cada dia. Ele sempre me instigou a buscar por meus anseios. pois meu marido faleceu num acidente de carro. trabalhando intimamente os retratos e as vozes que capto. O casamento foi breve. Olhares silenciosos investem estrondosamente contra mim. Mas eu devia enfrentar meus pesadelos e tornálos impulso para que se concretizassem os sonhos. Isso me tornaria menos mulher? Acontece que germinou em mim um sentimento maternal a alastrar-se por todo o meu peito. Teria ele já superado a perda? Pois parece haver nas mulheres uma força descomunal a guiá-las contra o sofrimento. à frente as ruas.

teria de ir para a redação do jornal editar as notícias. adveio do meu esforço ao assumir uma postura que muitos diriam ser de um macho: a força. é meu troféu.. então com doze anos. de seu destino e de si mesmo. vaidosa. você sempre me terá a seu lado. como também. vi por ela o mundo lá fora. Voltei e olhei através da janela. o que seria de uma mulher frágil abandonada ao tempo. independentes e complementares. Aguardava ali o nascer de mais um dia no qual eu tivesse o orgulho de não ser só mais uma e sim uma entre milhões de mulheres.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Hoje. festeira. Olhei-me no espelho. Mas não sou um macho. Sei que essa conquista. “Filha. de uma mulher de meia-idade que certa vez entrou em meu táxi pedindo-me que a levasse até onde ela daria uma palestra sobre feminismo. Quem era aquela que me olhava tão fixamente. dispostas a escrever sua história. O problema é que muitas vezes o diferente é visto como mal a ser eliminado. Ela adormeceu. Uma mulher que lutara pelo que queria. o taxímetro se desligara enfim. num mundo plural. Penso nisso todos os dias em que olho para minha filha e contemplo-a a exprimir-se com seus olhos tão profundos e meigos. a mesma mulher. respondi à menina. incompleto.. e principalmente. transbordou. Sou uma mulher. perscrutando meu íntimo? Era eu. Hoje veio ela até mim.. sem ter um braço forte no qual se ancorar?). Que magia operava-se no meu interior! Quem era eu? Uma mulher com sua filha adotiva. sonhadora. isso choca as pessoas. Dada a resposta. Transparecia naquele gesto que a mulher se liberta daquilo que dela se espera. pela manhã. ela voltou-se a mim com um brilho no olhar. E o que se nota no termo “macho”? Um homem se exalta com tal título. É sinônimo de potência. nele o homem se enxerga senhor. O carro dormia silenciosamente. não cabendo mais na minha cabeça. Já as fêmeas. Lembro-me então. era apenas a parte visível de um espírito dentro de mim que queria ocupar espaço e que. 150 . de poder. promete que vou sempre ter você aqui?”. o olhar frontal e audaz diante do futuro. com a qual poucos contavam (afinal. não só das “fêmeas”. que não teme ser dona de si. Eu. num devaneio. num salto pulou no meu colo e falou-me docemente: “Mamãe. o outro lado. então a levei até a cama. que se sente bela e bem consigo mesma.”. firmando-se como um ser diferente num mundo que requer cada vez mais que homens e mulheres vejam-se como seres sexuados. Ser uma taxista aspirante a repórter era o emblema de uma verdade maior. Perguntou-me há quanto tempo eu trabalhava como taxista. o sorriso de minha filha.. risonha. constituem o sexo imperfeito. a perseverança.

dá trabalho demais para arrumar e vai me atrasar para o trabalho. mas o corpo tem de estar perfeito para a altura. não quero mulher trabalhadora que nunca está em casa para lavar as minhas cuecas. coisa que nenhum homem anda fazendo hoje em dia. liso ou ondulado. Não gosto de grito. Cabelo longo. não venha me pedir dinheiro para retocar a cor a cada semana. mas ainda assim resolvi prosseguir. como sempre faço. assistir novela no intervalo do jogo ou sair para comprar roupa.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Paraíba – João Pessoa Procura-se mulher! Favor retornar este aviso com urgência Maria Thamara de Lacerda Souza Centro Federal de Educação Tecnológica da Paraíba Professora Orientadora: Márcia Viana da Silva Dia desses ia passando pela rua distraída com a música nos fones de ouvido. feijoada no fim de semana é o básico. Já falei de trabalho? Bom. Nada de filhos. Isso é meio comum. que seja natural. Mas. busquei um pouco de ar antes de ler o próximo parágrafo. distração significa automaticamente levantar a mão para cada um dos cem panfletos que parecem se materializar em sua direção a cada passo. palavras escritas em um papel alaranjado me chamaram a atenção: “PROCURA-SE MULHER. Se você está no centro da cidade. sabe? Eu os recebo para que os entregadores não tenham de jogar fora o dinheiro de quem mandou imprimi-los. imaginando a rotina diária que enfrentaria a partir dali. Aquilo me pareceu mais com uma cobra que acabou de comer um animal grande e ainda o está digerindo lá pelo quadril. Precisa gostar de futebol. anel de noivado e flores não estão no pacote. mas um bom jantar também serve. Se for tingido. não pude deixar de rir da imagem ao fundo que supostamente representava uma mulher. de trazer cerveja para a turma lá no terraço e de limpar tudo depois. Alta. Vai ter que se tornar do lar e gostar disso. “ESPECIFICAÇÕES: Bonita. Se for loira. para jogar em uma lixeira mais tarde. Cartão de crédito. quem limpa a sujeira é você. no caso de haver algum filho. fofoca com as amigas na hora de fazer a comida. Cabelo enrolado não tem vez. mas não uma girafa. isso é coisa de homem que não tem o que fazer e gosta de limpar sujeira dos outros. pior ainda. mas prefiro alta e ‘gostosa’ mesmo. 151 . então.” Parei nessa parte. Tem que saber cozinhar de tudo. Loira ou morena. Baixinha só se for ‘gostosa’. não quero mulher chorando porque sofreu preconceito na rua. Eis que mais tarde voltei para casa e me preparei para o despejo. chilique. O incomum mesmo é guardá-los. Tirando-o do meio da pilha. Prefiro que fique em casa e nem socialize com o mundo externo para não ser influenciada. No meio daquela coleção de formas e cores. URGENTE!”. Um e setenta fica bom pra mim. junto com os banheiros. mas saiba que ainda sou bonzinho por oferecer uma casa.

Descobri dessa forma que podia muito bem bater em qualquer uma que aparecesse. afinal boa parte do que ele disse está sendo cobrada atualmente para que as mulheres façam parte da sociedade de forma efetiva. já tinha lido o suficiente e achei que devia tomar logo um banho e me preparar para dormir. que poderá cair em suas mãos quando você estiver distraidamente andando pela cidade com os seus fones de ouvido. trabalho cansativo com um salário que definitivamente não compensa em uma empresa que poderia me pagar mais (Certo!). de preferência em uma faculdade boa. estamos no século vinte e um) sobre diferenças sexuais. vá ler uma revista que é melhor**. “OBSERVAÇÕES: Mulher minha tem de ser esperta. Assim. pulei da cama e escrevi o meu próprio panfleto. apanhei dela até fugir de casa. Mas que droga. aulas em uma faculdade boa (Certo!). *Exceto se o café não estiver na cama quando eu acordar. Essas só vão te render alguns murros. veja bem. Quero mesmo é que todo mundo morra de inveja. Nada de me fazer passar vergonha na frente dos amigos ou de errar português. Garanto que vou tentar não bater em você*. Resolvi carregar toda a pilha de papel comigo até o banheiro e me livrar daquele pesadelo logo! Mas que maravilha.” Tudo bem. porque ela dizia que eu estava errado em beber. já era o bastante. descobri que preencho alguns dos requisitos do maluco do panfleto. Mas não venha gastando o meu dinheiro com aquelas que te ensinam a lutar contra o marido no tribunal.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio “Se não estiver interessada. falar três línguas e gostar de História. **Se for uma daquelas revistas que te ensinam a ficar ‘gostosa’. só aceito se tiver muita experiência profissional e não se preocupar em trabalhar dobrado para mim. curso noturno do meu terceiro idioma (Certo!). 152 . só a comida que você mesma vai fazer. Descobri também que ele talvez não seja tão maluco assim. Precisa ser graduada e pós-graduada.. Durante todo o banho.” Certo. discuti em silêncio sobre cada ponto de extremo mau gosto que havia lido e o quão estúpidas algumas pessoas ainda são (e. Vale ressaltar que nenhum pagamento é oferecido. deitei-me e pensei um pouco sobre o dia seguinte: Acordar e parecer bonita o suficiente para a sociedade (Certo!). principalmente se você tentar me colocar na justiça. Quer dizer. Mas a ponta de curiosidade que me bateu ganhou do chuveiro e peguei novamente o papel. independente de qual cromossomo ela possua? Terminado o banho. E problema seu se é o último capítulo da novela. Minha mãe era uma mulher e de pobre não tinha nada.. o almoço na mesa quando chegar do trabalho e o controle remoto sobre o sofá durante o resto do dia. O currículo deve conter pelo menos um emprego em uma grande empresa. ser homem te dá o direito de escrever uma coisa daquelas? Ou ser homem é apenas a classificação biológica de cada pessoa existente. jogue o papel fora e nem tente me ligar para defender as mulheres e dizer que elas são pobrezinhas. tudo bem. já não são escritos anúncios como antigamente.

Nada de julgamentos pela cor do cabelo. se você esbarrar com ela por aí. considerando que não há encaixe sem esforço. local onde estudou. carro que dirige. por favor. ESPECIFICAÇÕES: Não deve se importar em classificar seres humanos pelo sexo ou sexualidade e. temos direitos. Mulher bonita não precisa ser fruta. não é amarrada ao portão. classe social. quanto mais alguém que vai colocar o filho de outro alguém no mundo. uma bagunça gigante na cabeça e no coração. Deve saber compreender e esquecer qualquer tipo de apelido discriminatório que usou algum dia. Ser humano é tudo um só: essa mistura confusa de desejo e razão. não usa coleira. 153 . Então. Mulher foi feita para completar. independente do tamanho do salto que temos de usar ou da necessidade de uma gravata nova. somos pessoas. além de força de vontade para quebrar barreiras sem sentido há tantos séculos impostas. Nem animal deve sofrer tal coisa. você mesmo que pegou este papel sem querer. Um mínimo de bom senso é requerido. se levante agora e descubra o seu potencial para unir todas as peças soltas. melhorar e homem foi feito para respeitar antes de exigir respeito. Por ser um caso extremamente necessário. me liga!”. aplicar. É essa sociedade de pessoas determinadas e livres de estereótipos que estou tentando encontrar. deve nos poupar de tanto preconceito. OBSERVAÇÕES: Mulher não tem dono. se o fizer. forma do corpo. é.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio “PROCURA-SE SOCIEDADE NOVA! URGENTE. sugiro que comece logo a se manifestar e a abandonar velhas crenças. ter formato de cobra de quadril cheio ou parecer com aquela que vai sair na revista semana que vem. sugiro que você. com uma necessidade permanente de encontrar um alguém ou um local para se encaixar.

Durante a fase colonial do nosso país. ser de luz. Deusa do amor e da justiça. já que as mulheres chegam a ganhar em média 30% menos que os homens para realizar os mesmos serviços. até mesmo as escravas eram mais importantes para gerar e criar novos fortes escravos. independente de cor. era mais explorada como companheira doméstica. fonte de graças divina. apenas onde havia cultura de subsistência as mulheres participavam ativamente da lida na roça. podemos testemunhar vários relatos onde a alma feminina aparece protagonizando deferentes papéis. rosas e margaridas. seria impossível a concretização do amor e da união em meio a uma sociedade tão complexa e desumana como a nossa. etnias e classes sociais . Com o fim da escravidão. porém precisa ser abordado de forma bastante cautelosa e crítica. e uma só raça: a humana. pois carrega a vida em seu ventre. até agressões físicas graves. muito se evoluiu no campo do trabalho e da cultura. No relacionamento familiar também não é muito diferente. raça ou classe social.diferenciação de remuneração que permanece até hoje. o doce do teu mel. no trabalho e no seio familiar. És primordial abelha rainha que une teus descendentes. fazendo da nossa gente um só povo: o brasileiro. raças. fé e esperança para humanidade. ficando totalmente submissa a seus maridos. Da colonização à atualidade uma grande luta pela igualdade dos direitos humanos . garantindo a reprodução e perpetuação da espécie durante milhões de anos. Com a invasão portuguesa e a implantação do modelo agro extrativista exportador. seiva de vida. esboçando do interior de sua alma a meiguice de um jasmim que desabrocha para preencher a lacuna existente no mundo exterior. que nos ajudam a compreender a sua importante participação e contribuição na formação de nossa sociedade até os dias de hoje. desde agressões verbais e exclusão social. Para termos uma melhor visão dos problemas e conquistas alcançadas. pois muito abuso e violência ainda são praticados.tem sido travada. É essencial lembrar que sem o perfume dessas flores. virtudes e preconceitos José Anchieta de Siqueira Escola de Referência Joaquim Mendes da Silva Mulher. 154 . O feminismo no meio popular. também realizavam tarefas domésticas. analisemos um pouco o contexto social cultural e histórico brasileiro. Ao longo da nossa história. a força do trabalho feminino foi convocada para as lavouras em todo o país. mulheres. ainda é uma problemática pouco discutida na sociedade brasileira. Sustentáculo de confiança que a natureza criou.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Pernambuco – Carnaúba Mulher. porém ainda há conquistas a serem alcançadas.entre homens. jardim de flores. a mulher foi excluída da sociedade. visto que recebiam remunerações menores . que alegram nosso espírito. sem poder de decisão nos negócios. as carícias e afagos que nos oferece.

rendas e outros. A sensualidade feminina brasileira e miscigenação das raças foram valorizadas nas obras literárias do escritor José de Alencar (Iracema e A escrava Isaura). artesanatos. Virgulino Ferreira da silva (LAMPIÃO). Olê mulher rendeira Olê mulher rendar Tu me ensina a fazer renda Que te ensino a namorar. na tentativa de quebrar preconceitos e tabus existentes na sociedade da época. envolve e engrandece. bordados. São elas que com suas mãos habilidosas e singelas transformam a rusticidade das matérias primas e da vida em artes. No entanto. que destaca a admiração e o encantamento de homens brancos para com as indígenas e negras. além de participarem ativamente da lida no campo para melhorar a renda familiar. baiana que rompeu com o preconceito social da sua época para tornar-se rainha do cangaço.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio A participação das mulheres no folclore e na cultura popular está bastante presente em nossa história. neste ponto de vista artístico cultural existe a certeza de que elas têm muito mais a oferecer. não devem ser vistas apenas como máquinas humanas de trabalho e sim como fonte inspiradora e criadora de arte que nos aquece. Nos dias de hoje. A prostituição infantil é 155 . suprindo boa parte das necessidades do nosso cotidiano. Atualmente no Brasil. têm que dar conta de afazeres domésticos. Ao deixar sua casa e seu marido para viver ao lado do rei do cangaço. na fabricação de utensílios domésticos. mesmo existindo leis de proteção aos povos indígenas e quilombolas e o governo federal desenvolvendo uma política de agricultura familiar sustentável em todo o território nacional. As mulheres continuam sendo exploradas e injustiçadas. precisão apenas de mais espaço e incentivo para crescerem. prolongando suas jornadas de trabalhos. O reconhecimento e a valorização dos seus esforços são fundamentais para o fortalecimento de seus egos para a continuidade de suas manifestações e igualdade de valores na sociedade. constantes lutas agrárias são travadas entre índios e fazendeiros latifundiários. fazendo transparecer uma realidade de exclusão social que vivia as etnias no país. Mulher rendeira era a canção que ritmava a dança dos cangaceiros para levantar o astral do bando. No folclore nordestino. gerando fonte de renda para suas famílias e movendo parte da economia. mulheres de todas as raças são constantemente exploradas por redes de prostituição nacionais e internacionais. destaca-se a rendeira Maria Gomes de Oliveira (MARIA BONITA). roupas. pois índias e negras eram capturadas ou compradas para serem violentadas sexualmente e depois serem descartadas como objetos. serviu de inspiração para a poesia e a música que acompanharia o bando até o final de sua existência. ao lado do seu grande amor. É esta a canção que conhecemos até hoje como hino de guerra dos cangaceiros. eternizados na maior epopéia nordestina.

ela foi estuprada. A exploração sexual feminina gera fonte de renda para muitos. fazendo transparecer uma sensação de revolta em seu meio. geram filhos preconceituosos. É constante também a violência doméstica contra as mulheres. Famílias desestruturadas social e culturalmente. acostumamse a vida antes mesmo de terem oportunidade para denunciar os abusos para as autoridades competentes. a partir daí ela tornouse símbolo da luta contra a violência doméstica no país. chamando-a de monstrengo tinhoso. servindo de mau exemplo para a sociedade. Deve haver uma seleção mais rigorosa nos exames psicotécnicos para detectar desvios de conduta em candidatos a altos cargos ou continuaremos sofrendo agressões aos direitos das mulheres e da sociedade de uma forma geral.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio uma problemática de propulsão gigantesca em nosso país. Minas Gerais. a cearense Maria da penha Maia. são empurradas para a prostituição pelas condições sociais e financeiras que se encontram. por isso a lei de proteção às mulheres foi batizada de (MARIA DA PENHA). padrastos ou parentes próximos. durante anos ela sofreu violência doméstica. porém. inclusive duas tentativas de assassinato. é preciso que andemos juntos. a má conduta e o despreparo de parte das autoridades brasileiras para exercerem seus cargos. isto quando as autoridades também não são participantes ou coniventes com os crimes . amando-se e respeitando-se 156 . Foram precisos vários anos de luta para ver o seu agressor pagar pelos seus crimes. quando acordam para realidade é tarde. considerou a referida lei um absurdo. ficando bem claros a arbitrariedade. dando continuidade à discriminação e desvalorização da mulher. É engano pensar que este tipo de violência só acontece nas camadas inferiores da sociedade. casada com o professor universitário. para depois estender-se ao restante da sociedade. o descumprimento da lei. um juiz de Sete Lagoas. o que dificulta ainda mais a punição dos culpados. pois até mesmo entre os magistrados existe uma resistência contra os direitos femininos. na clandestinidade. É preciso investimentos na educação familiar para melhorar o quadro do país. vejamos um exemplo. seja da parte dos maridos. também existem casos semelhantes na classe media e alta. muitas são enganadas com vantajosas ofertas de emprego em outros países. Em outubro de 2007. a figura humana do homem. neste caso. Marcos Antônio. Recentemente no estado do Pará. submetendo as exploradas ao regime de semi-escravidão.no Brasil é constante a participação de autoridades no mundo do crime. desvalorizando inclusive. ou com desvio de conduta educacional. em muitos casos a violência inicia no seio da própria família. muitas mulheres têm seus direitos violentados e não denunciam os agressores com medo de uma represália mais violenta. o feminismo torna-se um sentimento tão ignorante e abominável quanto o machismo. ou em outros estados da federação. que muitas vezes violentam e espancam as que fazem parte do seu convívio. Algumas mulheres reagem a esta sociedade machista desequilibrada com atitudes feministas. Mas não basta apenas existir uma lei de repressão aos crimes. uma jovem de apenas 14 anos foi presa na mesma sela com vários prisioneiros do sexo masculino. É essencial o entendimento entre homens e mulheres para a evolução e continuidade da vida humana na biosfera.

Existe a tentativa do governo para minimizar este sofrimento com programas sociais. índia que atualmente luta pela preservação da biodiversidade nas terras dos povos indígenas. os recursos não chegam até as mãos necessitadas. até que a chuva venha e seus maridos retornem ao lar para migrarem novamente na próxima estiagem. onde organizou a fuga de escravos do porto para o Quilombo dos Palmares/AL. escrava que mesmo grávida foi vendida e trazida para o porto do Recife. Políticas do governo federal lutam contra a falta de água no sertão. Quilombolas como Francisca Ferreira e Medecha Ferreira. No meio sócio econômico. Bolsa Família e Salário Maternidade. sendo totalmente inútil a pouca água que ainda corre em seus leitos. princesa negra do congo. catarinense que lutou ao lado de seu marido. Azirene. os homens. irmãs que formaram a comunidade quilombola Conceição das Crioulas em Salgueiro/ PE. muitas vezes. e estas obras mal construídas em pouco tempo ficam incapazes de armazenar água. agricultora assassinada por defender os interesses das famílias trabalhadoras e contra os latifúndios. se ao invés de desprezados. somente os princípios e valores do amor e da igualdade vencerão as barreiras impostas por este sistema injusto e preconceituoso implantado em nosso país. para sobrarem recursos ou matérias que são desviados para outros fins. Na luta pelos direitos humanos e igualdade social. principalmente sul e sudeste. As cisternas de placa ou calçadão. Aqualtume. durante este período são elas que sustentam quase toda mão de obra braçal.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio mutuamente. algumas mulheres merecem destaque. realizam partos nos locais mais distantes da caatinga 157 . como Fome Zero. Garibaldi. em busca de trabalho remunerado. seja na lida do campo. em 1826. Zeverina. em períodos de longas estiagens são elas que movem grande parte da economia local. porém nada adianta transpor o São Francisco para favorecer a criação de camarão e deixar o rio assoreado ao longo do seu leito ou manter os seus afluentes poluídos. são outra tentativa do governo e ONGs de minimizar o sofrimento destas mulheres. pecuária ou trabalhos domésticos. na guerra dos farrapos. as parteiras e benzedeiras do sertão que. tentando melhorar este quadro. que são usadas para captar água da chuva durante o inverno. Ana Maria de Jesus Ribeiro (ANITA). suas águas seriam bastante úteis para as populações ribeirinhas e diminuiria o sofrimento das mulheres que dependem de suas águas para a limpeza doméstica. porém. não solucionando esta problemática histórica de sofrimento e desigualdade social que vivem as mulheres do sertão nordestino. escrava que participou da revolta dos escravos em salvador/ BA. É lamentável saber que. de forma que o homem complete a mulher e vice-versa. as mulheres do semi-árido nordestino são verdadeiras heroínas. fossem revitalizados. ainda hoje na ausência da medicina especializada. algumas vezes. como carregar água em latas na cabeça a longa distância. maridos e filhos mais velhos viajam para as diversas regiões do país. os empreiteiros responsáveis pela construção das obras realizam um trabalho de baixa qualidade. vejamos: o projeto transposição de águas do são Francisco é um exemplo. indo para mãos de outros. Margarida Alves.

estas são apenas algumas de um todo. a meiguice e a beleza feminina nos sirvam de inspiração na luta contra o preconceito e a discriminação de gêneros e classe social. Já está mais do que na hora das rosas desabrocharem para o mundo. No senado não é diferente: há nove mulheres no universo de 81 senadores. administrariam melhor os recursos da nação. a natureza e a própria vida são femininas. e somente com o reconhecimento das proezas e qualidades femininas que iremos atingi-la. sensibilidade e capacidade feminina. 158 . É preciso trilhar novos.a terra. o conceito de ser submisso e frágil tem que acabar. É preciso acreditar mais na sabedoria. Dos 513 deputados no exercício do mandato apenas 45 são do sexo feminino. apenas cinco são mulheres. Número esse correspondente a menos de 9% do total. o amor deve vencer o preconceito. uma média de 10% do total. ainda há uma distancia enorme para alcançarmos a meta desejada. lutas e conquistas. Mesmo com todos os esforços. entre os 49 deputados no exercício do mandato. Na assembléia legislativa federal a proporção em relação ao número de cargos é quase a mesma. o preconceito e a descriminação contra a mulher são constantes. o próprio ecossistema depende da mulher para sua existência . a igualdade e o respeito entre homens e mulheres nas gerações vindouras. Que a doçura. apesar de existir resistência no meio popular. por serem seres mais sensíveis.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio e usam as ervas curativas para tratar enfermidades. na assembléia legislativa de Pernambuco. as diferenças são enormes. É exatamente esta sensibilidade que nos irmana no seio de nossa pátria. longos e desafiadores caminhos em busca da igualdade de gêneros. ajudando a quebrar preconceitos e divulgar valores. mãe gentil que nos acolhe como filhos de suas raças etnias e religiões. que viva a democracia. por exemplo. No campo político brasileiro isto fica claro. ocupam um pequeno número de cadeiras em cargos públicos. que merecem ser exaltadas pela sua grandeza e sensibilidade para com as causas humanas. esta nova forma de vida valoriza a liberdade de expressão há muito tempo buscada por elas. As mulheres modernas conquistam um grande espaço na mídia. pois sendo elas maioria na sociedade. expressando a beleza e exalando o perfume que a natureza lhes concebeu.

O caminho para a igualdade necessita de mais alguns calços para chegar a um nível considerável e aceitável de fato. se observarmos os hábitos atuais da sociedade em geral. gravei e ouvi mais quantas vezes eu pude até finalmente poder tirar várias conclusões sobre o que ela realmente queria dizer. Estamos deixando de lado ou mesmo ignorando certas regalias como se elas nunca tivessem sido conquistadas. O trecho mencionado. Estamos presenciando um verdadeiro esquecimento das lutas do passado. contudo. mas ainda muito preconceituosa. tempo em que viveu a cantora. depois de toda a luta pra chegar aonde chegamos. como uma simples igualdade salarial entre um funcionário e uma funcionária. No entanto. sua ousadia em termos de comportamento e interpretação ainda está sobrevivendo de maneira bastante atual. observamos jovens capacitadas chorando por perder um emprego porque não aceitaram um salário menor.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Rio De Janeiro – Magé Choram Marias e Clarisses Thamires Trianon Rodrigues dos Santos Centro Educacional Renato Cozzolino Professora Orientadora: Jaqueline de Andrade Coutinho Outro dia eu estava mudando a estação de rádio quando parei em uma emissora diferente da usual e dei atenção a uma música de tom forte em que Elis Regina sentenciava. que “apesar de tudo que fizemos. Por exemplo. Continuamos aceitando facilmente as condições impostas pela nossa sociedade mascarada de liberal. existe sempre alguém que era amigo de fulano que sofreu algum tipo de agressão ou preconceito. permitimos que detalhes como esse ainda sejam comuns? A resposta é porque mais uma vez nos resignamos. de especial maneira. claramente eu vejo a grande ascensão da mulher brasileira no mercado de trabalho. podemos perceber com facilidade que as conquistas dos ditos “rebeldes” no passado parecem ser desimportantes para nossa geração. Como se essa canção fosse uma novidade. me remeteu à luta não só feminina como de muitos outros movimentos de igualdade e liberdade que se fizeram mundo a fora durante grande parte do século XX. se 159 . uma contradição que persiste é a conformação e abdicação de alguns direitos. Pois ainda vemos mulheres sendo estereotipadas pela aparência física e não pela competência. Notei que após vários anos depois da morte de Elis.e as que se desvalorizam também -. entre outras coisas. Por que. Distinções por raça. vemos as chefes de família que sofrem diversos tipos de violência. talvez um dos maiores ícones femininos da música brasileira. mas que se permitem calar por amor e/ou medo. muitas vezes. religião e gênero são ditos problemas quase inexistentes no Brasil. De maneira sucinta. vemos meninas desvalorizadas . Errado é quem acredita nisso. Nem tão frequentemente acontece conosco. ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Denunciar a violência sexual e doméstica. liberdade. respeitar as diferenças e os direitos humanos. para que deixar que as Marias e Clarisses chorem e sofram com a repressão invisível ou com as falsas aparências do mundo contemporâneo? Podemos investir em nossas próprias consciências e na mudança não mais revolucionária. poderemos talvez viver de maneira menos conflituosa e mais favorável ao desenvolvimento mundial e até mesmo à cooperação internacional. costurar. poucas vezes vemos um programa que situa a mulher numa posição inteligente. nas quais podemos concentrar nossos esforços para um mundo mais justo. desejamos. Então. entendida de negócios ou de economia. nos entregamos e sonhamos com tamanha intensidade que pouquíssimas 160 . Sem mais aquela história que meninos não choram e que só meninas podem brincar de boneca. entrando em cena e tomando espaços onde era bastante incomum vermos seres “delicados” como nós. Devemos de uma vez por todas abandonar os antigos conceitos e parar de viver “como nossos pais”. Experimentar ser mulher contém uma beleza apaixonante. o culto ao corpo ou mesmo os velhos programas televisivos femininos que ensinam a cozinhar. Sinceramente esse é um exemplo clássico de como nós.. continuamos presas aos velhos rótulos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio esquecendo de usufruir dos seus próprios direitos ou mantendo o velho hábito de submissão à masculinidade. mulheres. Desta forma. solidariedade. justiça e paz em todo o planeta. O que não podemos deixar acontecer são a comodidade e a conformação com a nossa posição.. Uma diferença sutil entre essa época e a atual é que antes a repressão era explícita e muito mais violenta e hoje ela vem disfarçada de muitas formas. podendo citar a moda. esquecer as falsas aparências para dar atenção ao talento e a força das mulheres que lutam por igualdade. Talvez apostar nas novas gerações. Esse trecho faz parte da música “O Bêbado e A Equilibrista” que esconde críticas à ditadura militar.”. Amamos. mobilização e consciência de que para alcançarmos uma real igualdade é preciso que haja uma aceitação e busca dos mesmos deveres que o sexo masculino e viceversa. que apesar de pequenas significam muito. crítica. Estamos aí. em que poderíamos criar nossos filhos com a mentalidade adequada à igualdade. Voltando aos termos cantados por Elis Regina. seria necessária maior vontade. como as do século XX. Entretanto. Foi-se o tempo que nós representávamos isso. decorar e que falam de fofocas dos artistas. O sonho de igualdade é antigo e os argumentos para que ele se realize renovam-se cada vez mais para alertar o mundo de que ainda não somos totalmente iguais perante a sociedade. Abrimos algumas trilhas. sem mais o prevalecimento dos garotos em relacionamentos e resignação das garotas pela dita “boa reputação”. “Choram Marias/ E Clarisses/ No solo do Brasil. mas sim educativa e familiar. Juntamente com essa idéia. igualar salários de homens e mulheres em funções equivalentes são algumas entre inúmeras ações. como dona de si e chefe de família.

161 . vivemos em busca de nos realizarmos como seres humanos. aparências. com os mais diversos tipos de caráter e objetivo compartilham a existência humana. E como pessoas dignas de respeito e direitos morais. de todas as idades. Homens e mulheres. E isso deveria nos fazer muito mais iguais do que achamos que somos hoje.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio mentes entenderiam. opções sexuais. A verdade é esta: todos nós somos seres humanos e esse é o clímax das nossas semelhanças. credos.

o despertador cantou seu canto infinitamente chato e Pedro não acordava. As buscas iniciais não foram poucas. limpo e organizado. esperava que a mãe o fosse chamar. juntos. ou da madrugada. de uma causa misteriosa todas as mulheres sumiram do planeta terra. em outrora. junto a tais. mas intimamente conservavam todas as coisas que lembrassem as mulheres. 162 . Foi como se uma nuvem de esquecimento maldita roubasse-as. De um fenômeno irreversível . namoradas e derivações. desordem e confusão de uma tormenta que se iniciara bruscamente. que conformados deitavam-se nas calçadas ou nos tetos das casas a esperarem os seres extraterrenos devolverem suas respectivas esposas e. Perdoe se ofendem. assim. com organizações subterrâneas super secretas estavam todas se preparando para escravizarem os homens e tornarem o mundo um lugar mais digno. Outra teoria era a da revolta das amazonas. nunca mais. todas de uma só vez. nenhuma mãe acostumada a chamar os filhos às 06h30min iria fazê-lo naquela manhã e quem sabe. encontraram-se sozinhos no meio da noite. Sumiram todas. restando senão a incoerência. as lojas de artigos femininos declararam falência imediatamente. ou na hora do amor. mas era o que se passava na cabeça de homens desesperados em busca de respostas. as mulheres teriam planejado esse dia por séculos. os homens pensavam no que poderia ter ocorrido para explicar o fato. abraçados às esposas. eram ignorados por grande parte dos homens. Vale salientar que o número de enfermos mentais subiu assustadoramente naquele dia. E em meio a esse caos de teorias conspiratórias e místicas. estavam várias teorias sobre o que poderia ter ocorrido: abdução? Sim. havia ainda aqueles que se preocupavam em não parar. Em virtude ao acontecimento declararam que aquele seria o dia M em homenagem a todas as mulheres que haviam sumido. amantes. cuidarem do novo bebê concebido misteriosamente. imaginem em que circunstâncias ficaram aqueles que. de repente. de perfumes a roupas íntimas e todas aquelas bijuterias. mais tarde saberiam que deveriam ter feito exatamente o oposto.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Rio Grande Do Norte – Natal O dia M Lucas Marcelino dos Santos Instituto Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte O dia amanheceu. porque a ameaça ou a idéia de uma repopulação mundial de uma raça mais evoluída era até aceita por alguns. por sinal. ou que não se notou de imediato. porque o progresso tem de continuar. e outras tentaram uma readaptação repentina. Cabe-se explicar que não foi assim. cansadas e humilhadas por muito tempo. maquiagens que elas bem conheciam e. esses mesmos que apunhalados pelo longo punhal da saudade choravam desesperados e vestiam-se como elas na esperança de reviver memórias que tentavam não julgar verossímeis. não foi e nem iria.era como chamavam o determinado acontecimento -.

muitas insinuações bobas e humilhações públicas. Isso quando os filhos menores não faziam. como costumam chamar. tios. Enfim. por exemplo. mas também por uma questão de dívida. acreditem que burra foi o menor insulto de uma lista de exatamente trinta e três insultos. Nomes que ela guardou bem por aprofundarem as feridas abertas pelas mãos dos chefes. por exemplo. É o enigma da simplicidade. as mulheres em geral. algo que não durou muito. sem a chance de uma geração futura para cuidar dos negócios ou que levasse à frente a destruição que se empenharam desde o dia em que se formou o que se chama humanidade. irmãos aprendiam a ser mãe e a buscar qualquer consolo que estavam habituados a encontrar em pessoas que não existem mais. costumavam ser. com lágrimas nos olhos. Dizem que a falta explicita a importância da presença. assim. agüentara muitas mãos sobre suas partes. Foi através dessa reflexão que Pedro percebeu que as grandes mulheres não estão apenas nos livros de história. O pai de Pedro. vivia a ensinar-lhe que mulheres são fáceis de conseguir e que a idade estava para arrumar-lhe algumas.. ou melhor.. a inquietante pergunta: Quando a mãe vai voltar? Não sabiam. afinal. a lembrança da ingratidão é dolorosa. essa mulher buscava o que acreditara ser dela.. Pedro chorou. E. como aquela que descuidadamente esquecera-se de colocar os papéis na pasta dele. assim como são. os olhos e risos maliciosos dos colegas diziam: Agüenta Elisa! Agüenta! É isso que tem 163 . mesmo que a exploração e assédios substituíssem os bônus e benefícios que não tinha direito. ela tinha que trabalhar. como alfa. Eu preferia a mamãe. aconselhava-o dizendo que nunca deixasse ser dominado pelas fêmeas e que. A mãe de Pedro. bata! Mas não com muita força pra não ser processado. bem atual por sinal. outros já acrescentam que explica e tortura.. e agora. é ausente. quando os homens perceberam que estavam estagnados. Ela teria feito melhor. até por uma questão de estética: o homem. Fica fácil saber o motivo da separação.. por diferentes razões. não apenas por direito. deveria mostrar quem manda no terreno: se um dia precisar bater.. Tudo sintetizado numa frase que dizia: nada melhor do que a ausência para demonstrar o real valor do que se perde. fazendo-nos perceber a importância que há o que se já não existe mais ou. acordava todos os dias bem cedo e preparavalhe tudo antes que percebesse. e outros Pedros choraram... porque achava que ela. uma mãe é algo extremamente chato e inconveniente às vezes. Esse mesmo pai até ficou com medo ao saber da teoria das amazonas. pais. já sendo sua quinta secretária em apenas um ano. temeu que a secretária voltasse montada num cavalo com uma tocha e lhe tocasse fogo inteirinho. Não durou muito e não duraria nunca. Filhos que se revoltavam contra os pais apontavam-lhes as falhas e diziam as temidas frases: A mãe não era assim. seja em figuras com um dos seios de fora ou em emblemas e páginas destinadas unicamente aos seus respectivos feitos. Casada duas vezes. pararam de se importar com o trabalho e viviam como num cenário de um filme apocalíptico. Foi então que uma saudade imensa invadiu-lhe o peito e o paralisou lentamente e uma bola imensa de arame farpado atravessava-lhe a garganta. os avós. afinal. E tal dito aplicou-se perfeitamente ao contexto desses homens de um tempo não tão distante.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio mesmo sem as mulheres.

que era o melhor jeito de mostrar que se havia compreendido. E agora. porque se supunham donos. prometemos. tem de ser assim! Nada mais de repressão ou violência. não pensava. assim é melhor. mas em algum lugar. não se analisava o pensamento hereditário. mas apenas usufruí-los como bem entendem.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio pra você! Os pais de Pedro nunca se perguntaram como era ser um objeto. numa desarmonia total. com quem vamos transar? Travestis não nos satisfazem. Ah! Quão bom é ter ainda a velha propaganda de mulheres e cervejas. 164 . De repente. ou esconderijo. os donos não precisam se sentir como os possuídos. deve-se fazer justamente o oposto. mas nos tragam uma cerveja! Faça o que eu mando e não questionem. enquanto a vida parecia tão vazia e sem cores. uma supervalorização instantânea da mulher e tão falsa quanto o desejo de uma sociedade mais igualitária que hipocritamente acreditavam. Os pais começavam a aprender o quão difícil era ser o que nunca foram e arrependiam-se de ter dito com tanta autoridade várias vezes: Sou o único que trabalha enquanto você fica em casa! Ou ainda a máxima: Essa mulher só me dá dor de cabeça. mesmo que não seja racional. livre. a passar. não faz sentido render-se às vontades do objeto. agia-se. a cozinhar. sondas espaciais investigando o paradeiro. quem vai nos servir de escrava? Não agüentamos mais.. num desequilíbrio.. por favor! Voltem! Um mundo mais igual. os homens esperavam tanto que se uniam a admirar as coisas que julgavam de mulherzinha. muitos se transformaram em feministas repentinos. mas no fundo do freezer do cérebro. era como se dissessem: Veja! Estamos arrependidos! Voltem. Também nunca se viu tantos homens de avental e vassouras a limpar. havia também os complementos: E agora. voltem! Por favor.. tudo na tentativa de mostrar que o possuidor é quem controla o objeto. a felicidade trazida por um simples objeto de desejo! Essa era a ilusão que ainda sustentavam alguns homens. E agora? E agora não era a única pergunta que aparecia na cabeça dos homens.. sempre a mesma idéia de que eu sou mais forte. E agora. a escrever poemas e leis sobre as mulheres. mas voltem! E onde estariam? Talvez num mundo ou numa dimensão onde as pessoas fossem consideradas pessoas e não objetos. ao contrário. simplesmente.. cartas lançadas ao mar em garrafas feitas de vidro da esperança. quem vai tomar conta das crianças?Já não temos mais paciência. de fato. Esse conselho maquiavélico parecia embutido na mente dos pais de Pedro. um ato institucional assegurou severas leis às empresas que não respeitassem as necessidades femininas. onde não houvesse mais violência ou explorações. Onde estariam? O que faziam? Retornariam?! Esperavam que sim. sem alegria ou composição sequer. Outros se reuniam em fóruns e debates sobre a importância da mulher e colaboração na sociedade. mulheres atraentes e carros bonitos..

E nesta condição as mulheres foram vivendo. era cantada por levitas. ensinavam crianças na sinagoga e davam conselhos a seus maridos. Os sentimentos femininos ficavam por conta da imaginação de jograis. mulheres eram expressamente proibidas de cantar na frente do público nas igrejas . nessa época. Em meados do ano 100 d. Mulher não era autorizada a ensinar. existiam apenas para completar o pano de fundo da vida masculina e para saciar seus desejos e suprir suas necessidades. A música sacra.C. de iluminar o que esteve por anos enclausurado na escuridão. Figura que bailava ao som de uma voz. a Voz feminina começara a delinear seu timbre e tal qual mito do canto das sereias se tornaria irresistível. Se todas as mulheres que tiveram um indício de cantoria. tudo o que era julgado ser incapaz para a mulher elas já faziam e eles não se davam conta isso.Voz. as mulheres serviam discretamente aos suseranos. As belas figuras não estavam preparadas para “dizer” ou o mundo não estava preparado para um vendaval de vozes. O Homem sempre procurou imitar o Belo. cantar ou ao menos falar em público. pois isso colocaria a reputação de seu homem em risco. apenas um recurso sonoro? Então o que diferenciaria o canto do Homem do canto de um pássaro. Como vassalos. Elas cantavam em casa. a voz sempre foi inata aos dois gêneros. cientes dessa “fatalidade”. versos espalhados pelo ar constituindo a mais bela e extasiante canção? Séculos mais tarde. por exemplo? A beleza do canto melódico de um sabiá nos oferece fruição. repressões também. Homens. Desse canto emergia um eu lírico feminino saudoso e apaixonado por seu amado distante. o desfrute de um elemento que encontramos tão livre na natureza. e que nos transmite uma sensação de liberdade e nos inspira.estava escrito em lei .e os homens que estavam à frente da Igreja alegavam que tal atitude não era bíblica. mas junto à estética ele usa o poder da voz para “dizer”. trovadores e segréis – vozes masculinas que interpretavam pretensamente emoções e anseios femininos com as comuns cantigas de amigo. 165 . sem finalidade de reconhecimento por isso.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio São Paulo – São Paulo Mulher: de Inspiração a Inspirada Stephanie Gaspar Colégio Cristóvão Colombo . Na era medieval. alimentariam o desejo de expressão. “clandestinamente”. defesa de julgamentos e peça-chave para a evolução da espécie. A mulher era figura. homens. foram exceções assim consideradas por eles. então porque não poderiam partir de algumas exceções e concretizarem esta idéia. Necessária para o alcance de objetivos. Não tinham a consciência ainda de que com essa oportunidade só as tornariam mais insaciáveis. que não era dela. mas o direito de exercer “o dizer” seguiu caminhos diferentes em se tratando de homens e mulheres. chegaram à conclusão de que seria justo e inovador se eles expusessem o que de fato já acontecia. a mulher e a voz ainda eram consideradas opostas. Mulheres não existiam para serem ouvidas. vontades em excesso.

ou não lhes fora permitido conseguir. essas mulheres. de suas antepassadas. mesmo tendo conquistado esse posto. Rita cria uma nova era de mulheres propriamente ditas. Após esses nomes. Pouco tempo depois. sem nenhuma espécie de comparação com a ala masculina. Elis. tempo das famosas “músicas de fossa”. um verdadeiro hino da anistia. a começar pelo nome. a “Grande”. amores. “Nós. dificuldades e. Década de 60. Mulher inovadora e extremamente polêmica. ainda assim. enfim o tal estilo tão másculo adquiriu uma feminilidade única. muitos outros foram surgindo em diversos tipos de gêneros musicais. certas de si. Ela seguia dizendo em suas músicas. era a sua voz e seu apelo à ditadura. Celly Campelo havia. essa mulher. homens trazem um novo estilo. tempos atrás. Chega então a aversão ao momento feudal. Intensa e complexa. cantada por diversas vozes femininas. era forte. mas não houve tamanha repercussão como aconteceu com Rita Lee. mulheres agora começavam a dizer por si próprias. procuraram colocar em prática e expor o que. há algum tempo atrás. como mera coadjuvante em um grupo masculino. das cantigas daquela época. ainda com alguns dogmas e restrições sociais. a Ovelha Negra. 166 . juntamente com Elis Regina. Conseguiram o reconhecimento. os malucos. sem sensatez ou coerência. nos encantou e enfeitiçou. a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. O som que ecoava da música “O Bêbado e a Equilibrista”. as absolutas e completas. Maysa foi a tradução exata daquele momento da música. irreverentes. diferente do som que se ouvia saindo de uma mulher com voz doce. tentado implantar este estilo. buscaram inspiração e força para continuar essa batalha tão árdua. Foi uma das precursoras. procurando inspirações em suas vidas. o Rock n’ Roll. donas de uma segurança invejável. serena e delicada na maior parte delas. Em um trecho de suas músicas. ousadas e mulheres. a estrela internacional. A cantora influenciou mais uma tendência da época. e absolutamente. vamos lutar para nesse estado continuar nunca sensatos e nem condizentes”. Fazendo releituras de “Beatles” e “Rolling Stones”. Carmen Miranda. romperam com esta regra convencional na história da música. a chamada Bossa Nova. só passaram a ser aceitas como revolucionárias por um homem após anos de insistência. Coragem era o que não lhe faltava para dizer o que dizia em meio à um governo militarista e reservado. Mas. essa hélice cantante. as outras não tinham conseguido. essa chama que não vai passar”. e Chiquinha Gonzaga. completamente masculino aos olhares da época. revolucionando e protestando. pois antes eram classificadas e reconhecidas apenas como destaques de um pequeno setor feminino da arte. O Brasil e o mundo tiveram a honra de ter a presença ilustre de uma das maiores intérpretes musicais de todos os tempos.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Desbravadoras. ninguém poderia retê-la ou reter essa necessidade de algo que lhe faltava e a possuía de modo a transparecer em suas letras poéticas. declarava convictamente “ninguém pode calar dentro em mim. uma certa carência brasileira desse tipo de mulher pairava nesse tempo. principalmente. e também Wanderléa.

uma formadora de opiniões em uma sociedade atual perdida entre um leque de opções.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Suas seguidoras. queimaram sutiãs em praça pública e na música fizeram uma enorme mudança e revolução. de aproximação à tão esperada igualdade dos gêneros. ela é hoje não só uma simples cantora. A letra retrata também transformação da mulher. mas uma coisa tinha acontecido. é criadora. em meio a tantas opções. olhares e alma. mulheres e homens em busca de espaço e reconhecimento no mundo da música. grave. que ainda assim canta “Mas é que o meu desejo não deseja se calar”. a sua voz anseia a compreensão de todos e as suas palavras buscam atingir o ponto máximo de concordância e clareza nas pessoas. Mulher hoje é a inspirada. romances. nada mudou aparentemente. um maremoto de descobertas. retratando a escritora musa do movimento modernista e que tanto lutou para o avanço da mulher. Cássia Eller. século XXI. destacam-se e conseguem prestígio como Ana Carolina. gravou ao lado de Rita Lee “Pagu”. mulheres com essa mesma característica de Zélia Duncan. Ela que é considerada a intérprete das emoções mais vastas e afloradas. Pessoas de todo o Brasil se chocaram quando foi anunciada a perda dessa nossa mulher. quando pronunciados por sua boca. Com sua voz grave. em se tratando de poder “Dizer”. descrito especialmente por ela. comparadas até ao tom masculino. “a indignada no palanque”. há muito tempo estão inseridas no mercado de trabalho.” E ela estava certa. faz parte de um mundo real. estavam causando um intrigante questionamento na sociedade sobre o poder do sexo frágil. os tempos mudaram. de voz. sua total presença de palco. faziam poesias. e. de voz grave e músicas melódicas. Zélia Duncan. dando continuidade a esse “rock-girl”. está tudo assim tão diferente. vem para reafirmar esse novo estilo de mulher. têm o direito de voto. música e encanto para nossos ouvidos. “Mudaram as estações. de filosofias e idéias soltas. as suas delicadas palavras que oscilavam pelas tímidas. versos simples que. marco dos anos 90. deixa o superficial de lado e mostra uma mulher exatamente contrária à padronizada. idealizada e criada pela sociedade. em que as mulheres já conquistaram a maior parte dos seus direitos. algumas mulheres. inegavelmente. Igualdade de gêneros. as de voz vigorante. fortes. as estações mudaram. Surgem. mas eu sei que alguma coisa aconteceu. então. Também fala de uma aversão à suposta perfeição feminina e à fantasiosa mulher-modelo. mas. com suas canções críticas e questionadoras. Mas o desejo de Ana Carolina ainda teme se calar. praticamente total. polêmicas. isso sim era inegável: a mulher. libertaram-se com a criação da pílula anticoncepcional. principalmente. em formato de poesia. compositora e instrumentista. mas eis que chega nosso novo milênio. seguras. intérprete. de novos nomes da música. nada mudou. Era uma maneira de imposição. 167 . agora não tão frágil assim. Esse desejo ainda permeia seus pensamentos mesmo em uma época livre. o cenário continua o mesmo. mas o mundo.

cnpq.igualdadedegenero.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Estudante de Ensino Médio Relação das redações que receberam Menção Honrosa A íntegra das redações pode ser acessada em www.br GOIÁS – Goiânia Eu tenho um sonho Luiza Thomaz Araújo – Colégio Dinâmico SANTA CATARINA – Itajaí Do martelo das feiticeiras aos corredores da UNIBAN: A hipocrisia midiática Pedro Guilherme Ramos – Escola de Ensino Médio Professor Henrique da Silva Fontes 168 .

Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Projetos Pedagógicos Premiados .

170 . Nesta categoria. Houve a inscrição de 17 escolas. A região Sul foi a que mais enviou projetos. seguida da região Sudeste. 2009. 2009. As Escolas Promotoras da Igualdade de Gênero vencedoras receberam o prêmio no valor de R$ 10. as escolas de Ensino Médio inscreviam os projetos para a promoção da igualdade de gênero que desenvolveram entre os anos 2008/2009 ou que estivessem em fase de desenvolvimento.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Introdução Uma das novidades desta edição do prêmio 2009 foi a introdução da categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero. 5° Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Inscrições por Região Região Norte Nordeste Sul Sudeste Centro-Oeste Total Fonte: CNPq/SPM. 12% Norte Quantidade 2 2 6 4 3 17 % 12% 12% 35% 24% 18% 100% 12% Nordeste 18% Centro–Oeste 34% Sul 24% Sudeste Fonte: CNPq/SPM.000.00 cada.

5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Região Centro-Oeste – Goiás – Aparecida De Goiânia Colégio Estadual Dom Pedro I Título do Projeto: Saúde e Prevenção: pensando as relações de gênero e sexualidade Coordenação Vanilda Aparecida de Oliveira Martins Histórico O projeto apresentado tem como justificativa a necessidade cotidiana de formação crítica para os(as) estudantes. foi um dos principais resultados do projeto. no qual conhecimentos e práticas cotidianas sobre sexualidade e gênero são aproveitados. com o predomínio de uma escola heteronormativa. discutir as temáticas relações de gênero e sexualidade. Assim. com o fim de conscientizar os(as) alunos(as) sobre os elementos histórico-culturais que estruturam as relações sociais. Impacto e Resultados O reconhecimento da diversidade sexual. a Universidade Federal de Goiás e a Universidade Católica de Goiás. a educação corporal. palestras orientadas. Houve o apoio de várias entidades parceiras. os direitos sexuais e reprodutivos. teatro e filmes-debates. das relações sociais baseadas no sexismo e no machismo. O objetivo principal é. Metodologia O projeto levou em conta a participação de alunos e alunas na definição de suas atividades. em uma perspectiva do processo de aprendizagem dinâmico e cumulativo. A ausência de discussões sobre temas como gênero. Pretendeu-se ainda a refletir sobre a gravidez na adolescência. orientação sexual e raça levou a coordenação da escola a estruturar o projeto. 171 . a Secretaria Estadual de Educação. como grupos da sociedade civil que trabalham na área de gênero e sexualidade. Nas peças teatrais e oficinas. os(as) estudantes puderam explicitar o processo de estigmatização vivenciado pelos diferentes grupos no espaço escolar e tiveram acesso aos instrumentos necessários para identificar e reconhecer os diferentes estereótipos construídos. sexualidade. assim. foram realizadas oficinas participativas.

o projeto foi constituído com o intuito de abordar de forma científica e interdisciplinar o debate sobre o gênero. Impacto e Resultados Houve a aproximação dos(as) alunos(as) com a discussão de gênero. a organização de grupo de estudos sobre a temática de gênero na escola. o reconhecimento da comunidade escolar e geral sobre a importância do projeto desenvolvido na escola. visibilidade na escola para a discussão crítica das desigualdades de gênero. Metodologia O projeto tomou como referência o método didático da prática social de Dermeval Saviani e a experiência pedagógica intitulada “A Violência Doméstica e Sexista em jogo” de João Renato Nunes. e o início de mobilização da comunidade escolar e geral para a criação de uma coordenadoria especial de políticas de igualdade de gênero no município de São José do Egito. o projeto representou a escola em feiras de ciências. formulação e aplicação de ações para o combate à violência doméstica e sexista em suas raízes. e a demonstração de que a partir de uma experiência é possível discutir a temática de gênero e transversalizar em todas as disciplinas. a instrumentalização. o projeto propiciou aos(as) alunos(as) o domínio do conhecimento básico sobre instrumentos de coleta e análise de dados. a catarse e o retorno à prática social.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Região Nordeste – Pernambuco – São José Do Egito Escola de Referência em Ensino Médio Oliveira Lima Título do Projeto: Discutindo Gênero na Escola: por uma abordagem científica e interdisciplinar Coordenação do Projeto João Renato Nunes Karla Cibélia Lira Gomes Histórico A partir da constatação do grande número de casos de violência contra a mulher no Estado de Pernambuco. a problematização. Além disso. Desenvolvido por grupo de alunos(as) do 1º ano do Ensino Médio. dos preconceitos e discriminação relacionados ao gênero presentes no sertão pernambucano e da falta de capacitação pedagógica da escola para tratar dessas temáticas. o reconhecimento da necessidade de desenvolver outras práticas pedagógicas de mobilização da comunidade para o enfrentamento da violência de gênero. O método didático pressupõe cinco passos: a prática social como ponto de partida. gestores(as) e comunidade para o debate. a mobilização de professores(as). 172 . no ano letivo de 2009.

Natal da Solidariedade. com a montagem de várias exposições. necessidades educacionais especiais. a Coordenação da Escola organizou no mês de março o Dia Nacional de Ação Solidária. pátrio poder. como o Dia Nacional de Ação Solidária em parceria com a Fundação Bradesco. um dos parceiros que ajudou na organização desse evento. Grupo de Dança Italiana e participação nos Parlamento Jovem Paulista e Brasileiro (cinco deputados mirins eleitos: dois alunos e duas alunas). prevenção. da falta de infra-estrutura e da ausência do Poder Público numa região densamente povoada. Houve também o segundo evento no final do ano. Pretendeu-se melhorar a qualidade de ensino. com ampliação do atendimento às mulheres. violência doméstica. Metodologia No segundo semestre de 2008. no qual expressava preocupação com as adolescentes e suas mães. O Centro de Referência das Mulheres Vítimas de Violência da Cidade de Osasco. legislação. voltado para o atendimento das mulheres. orientação sobre doenças e prevenção. violência doméstica e intolerância. ficando responsáveis pela transmissão das informações e orientação aos(às) visitantes. promoveu palestra sobre a violência doméstica e as formas de combatê-la. a auto-estima dos(as) alunos(as). crianças e adolescentes em situação de risco. reflexo do contexto social. Procurando viabilizar sua proposta e levar efetiva orientação para as mulheres da comunidade escolar. Os(as) alunos(as) organizaram ainda um kit com materiais informativos sobre doenças. prevenção. 173 . a deputada mirim Thamara Leite Lopes apresentou projeto de lei no Parlamento Jovem Paulista. Planejamento e Orientação Familiar nas Escolas Públicas do Estado de São Paulo. a Coordenação da Escola passou a desenvolver vários projetos e ações pedagógicas e sociais. Com fim de mudar essa situação. com serviços de apoio jurídico. a imagem da escola e promover a inclusão. além de um exemplar do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei Maria da Penha. Mãe e Cidadã” Coordenação do Projeto José Sebastião Rodrigues Histórico A unidade escolar era conhecida como sendo uma escola violenta. Banda Marcial. com debate sobre o papel da mulher na comunidade.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Região Sudeste – São Paulo – Osasco Escola Estadual Professor Armando Gaban Título do Projeto: Discutindo a Igualdade: “Mulher. Propôs a criação de um Programa Estadual de Orientação Sexual. sexualidade. Os(as) alunos(as) do Ensino Médio e do Ensino Fundamental realizaram amplo trabalho de pesquisa sobre saúde.

com o objetivo de atender mães da comunidade escolar que lutam para conseguir um tratamento para os(as) seus(suas) filhos(as). Esse será. dedicaram-se às pesquisas de campo e entraram em contato com diferentes instituições. pois foram responsáveis pela realização do trabalho. de que podem colaborar na solução de problemas que afetam a comunidade. 174 .5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Impacto e Resultados O projeto abriu espaço para um maior aprendizado dos(as) alunos(as). esse trabalho revela que os(as) alunos (as) estão adquirindo consciência do seu papel social. indiscutivelmente. A deputada mirim Thamara Leite Lopes apresentou Projeto de Lei no Parlamento Jovem Paulista 2009. Essa proposta nasceu do consenso de vários participantes. o legado mais significativo do projeto. propondo a criação de Centro de Atendimento para Jovens Dependentes Químicos oriundos de famílias de baixa renda. Assim. o Estado e o País. visto que somente com uma escola participativa é possível melhorar os indicadores educacionais e sociais.

bem como as relações interpessoais e sociais. Lei Maria da Penha. o Projeto Raízes esteve inicialmente centrado no combate ao preconceito étnico-racial. A partir de parceria com a Secretaria da Mulher e Assuntos da Família. com a discussão dos temas como direitos humanos. os(as) professores da áreas de artes. 175 . Metodologia Desenvolvido de forma interdisciplinar. comunidades de remanescentes de quilombos e bulling. história e língua portuguesa entenderam que o debate sobre as práticas discriminatórias no ambiente escolar é fundamental. Impacto e Resultados A escola tem a grande responsabilidade no processo de formação dos futuros cidadãos e cidadãs. direitos sexuais e reprodutivos. discriminação das mulheres. história e língua portuguesa. o Colégio decidiu pela ampliação do Projeto Raízes. A partir da constatação de uma série de situações de preconceito. o projeto é intercalado nas aulas de arte. discriminação e desrespeito à diversidade presentes no espaço escolar. saúde da mulher. a escola exerce de forma ampliada o papel de promotora da cultura de respeito à pessoa. Os trabalhos produzidos pelos(as) alunos(as). foram desenvolvidas atividades como exposições. cursos. seminários e oficinas. vídeos. raça e etnia estão imbricados na definição das relações sociais. indicam a mudança de valores e atitudes e a presença de uma cultura voltada para os direitos humanos. da superação dos processos discriminatórios étnico-raciais e de gênero. da valorização da diversidade no espaço escolar e na sociedade. Houve também a distribuição e debate da revista Menina pode jogar bola? Menino pode lavar louça. de garantia dos direitos humanos. editada pela Secretaria da Mulher. Considerando que os temas de gênero. preconceito étnico-racial. sexualidade.5˚ Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero Categoria Escola Promotora da Igualdade de Gênero Região Sul – Paraná – Apucarana Colégio Estadual Osmar Guaracy Freire Título do Projeto: Raízes: diversidades étnico-raciais e de gênero Coordenação do Projeto Milene Mayumi Makita Nair Pagliari Salete Zanlorenzi Histórico Criado há cinco anos. da promoção da equidade racial e de gênero. voltado para a promoção da paz. debates. palestras. Com o Projeto Raízes.

igualdadedegenero.Programa Mulher e Ciência Promoção Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM/PR Ministério da Ciência e Tecnologia – MCT Ministério da Educação – MEC Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientí co e Tecnológico – CNPq Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher – UNIFEM www.cnpq.br .