Teorias da Comunicação

Professora Helena Ribeiro

Patrícia Cadete Curso de Jornalismo - 2º Semestre Ano Lectivo – 2010/2011

1. Comunicação e Linguagem
Julia Kristeva:  Os verbos falar, escrever e ler são conjugados em todas as pessoas e em todos os tempos, de manha à noite e em todos os países do mundo, a um ritmo nunca antes conhecido;  Estas linguagens sobrepõem-se às outras todas (gesto e imagem);  O homem moderno está mergulhado na linguagem, vive na fala, é assaltado por milhares de signos, a ponto de já quase só ter uma existência de emissor e receptor.
sinal a partir do qual tiramos sentido

signos

elemento base que constitui a linguagem

representação

Em cada som que enuncio, em cada palavra que escrevo, em cada signo que faço, essa coisa é realmente ‘eu’, ou um outro eu que existe em mim, ou ainda um não sei quê de exterior a mim que se exprime através da minha boca? Daí a necessidade de desmontar o mecanismo linguístico como via para entendê-lo.

Questão: o pensamento é independente da linguagem ou a linguagem é ela própria pensamento?   A linguagem é uma prática dominada pelo homem e está intimamente ligada ao homem e à sociedade em que este habita. A linguagem e isolada e colocada à distância para ser captada enquanto objecto de conhecimento particular, de modo a percebermos o seu funcionamento e os seus efeitos na ordem do social.

Perspectivas do surgimento da linguagem:  Ontogenético (ponto de vista do indivíduo)  Filogenético (ponto de vista da espécie humana) Como ocorre o processo de simbolização? A emergência da linguagem coloca-nos perante a questão de saber como é que podemos simbolizar, representar, tornar presente, a nós e aos outros, o mundo, as coisas, os acontecimentos na sua ausência. A relação do sujeito falante com a linguagem conheceu duas etapas:  1ª: pretendeu-se conhecer aquilo que já se sabia praticar (a linguagem);  2ª: projectar o conhecimento científico da linguagem sobre o conjunto da prática social

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1º Movimento: acto de considerar a linguagem como objecto específico de conhecimento – implica que ela deixe de ser um exercício que se ignora a si próprio para se por a « falar as suas próprias leis»  «uma fala se põe a falar o falado»:  Descola o sujeito falante daquilo que o constitui (a linguagem), e obriga-o a dizer o modo como diz.  Se o renascimento substitui o culto do Deus pelo homem, a nossa época substitui o homem por um sistema analisável cientificamente: a linguagem. O homem como a linguagem, a linguagem no lugar do homem será o gesto desmistificador por excelência, que introduz a ciência na zona completa e imprecisa do humano, no ponto onde se instalam as ideologias e as religiões  é a linguística que parece ser a alavanca dessa desmistificação.  Quem diz linguagem diz demarcação, significação e comunicação. Neste sentido, todas as práticas humanas são tipos de linguagem visto que têm a função de demarcar, significar e comunicar. 2º movimento: conhecer os sistemas (sujeitos, sentidos, significação), estudar as suas particularidades enquanto tipos de linguagem. Peirce faz a aproximação aos signos. Diz que um signo, uma palavra representa outra na ausência dessa outra coisa. «Todos conseguimos conceptualizar sobre aquilo que estou a falar»  Só posso comunicar sobre coisas, nomeando-as por palavras. O homem é o único ser vivo que, sendo um ser de linguagem, tem a capacidade/faculdade de nomear mediante processos de abstracção. Capacidade humana de elaborar por abstracção uma imagem mental universal que tem como especificidade a capacidade de ser aplicado a uma pluralidade de objectos particularidades. Aquilo que não consigo conceptualizar através de uma representação mental é-me desconhecido, logo não consigo nomeá-la por palavras. Exemplo: mesa = signo universal. Todos concebemos, de forma abstracta, esse objecto   Se não tivermos a faculdade de abstracção, não há linguagem enquanto sistema de representação simbólica. A ideia de que a língua tem que ver com a capacidade de significar e representar mediante convenções sociais. Por isso, a língua é um objecto sociocultural, uma instituição inventada pelo homem. Não é da ordem da natureza (os homens não falam da mesma forma que os pássaros chilreiam).

«…ao contrário dos outros seres vivos, que estabelecem relações de transacção com o meio ambiente, respondendo mecânica e imediatamente aos estímulos que recebem, o homem comunica, no sentido próprio deste termo, ao inventar mediações simbólicas, de natureza cultural» ADR. 3

1.1 A Linguagem, a língua, a fala e o discurso
O que é a linguagem? Cada época ou cada civilização, em conformidade com o conjunto do seu saber, das suas crenças, da sua ideologia, responde de modo diferente e vê a linguagem em função dos moldes que a constituem a si própria.  Até ao século XVIII – época cristã –, existia uma visão teológica da linguagem, pondo-se o problema da sua origem, as regras universais da sua lógica;  No século XIX – dominado pelo historicismo –, considerava-se uma evolução através dos tempos.  Hoje, as visões da linguagem como um sistema e os problemas que predominam. É a linguagem que mediatiza a nossa relação com o mundo. Não existe comunicação sem a existência de um médium – a linguagem. Os signos não só representam o meio ambiente, mas também intervêm na sua elaboração, convertendo-o numa realidade especificamente cultural, naquilo que designamos pelo nosso mundo. O mundo é aquilo que podemos pensar. Aquilo que não sabemos dizer não existe realmente para nós, não integra o nosso saber, o nosso mundo. Só aquilo que podemos pensar e representar mentalmente é que existe para nós e integra de absoluto o nosso saber. Seja qual for o momento em que tomemos a linguagem, ela apresenta-se como um sistema extremamente complexo em que se misturam problemas de diferentes ordens. 

A linguagem reveste-se de um carácter material diversificado:

é uma cadeia de sons articulados

é uma rede de marcas escritas

é um jogo de gestos

Produz e exprime um pensamento O pensamento é expresso através da voz, da escrita e de gestos. Falar, escrever e gesticular vem do pensamento. Falar é um processo de abstracção individual que é, no entanto, partilhado colectivamente. A linguagem é 4

simultaneamente o único modo de ser do pensamento. Logo. em princípio. antes de emitir para o receptor. destinada em primeiro lugar a mesmo que fala. Só falamos do que conhecemos. Processo de comunicação linguístico mensagem destinador =destinatário destinatário =destinador mensagem   O sujeito falante é simultaneamente o destinador da sua própria mensagem. descodifica a sua própria mensagem (nível intrapessoal): « falar é falar-se». 5 . Crítica à concepção instrumentalista da linguagem Qual é a função primeira da linguagem: a de produzir um pensamento ou a de comunicar? Esta questão não tem nenhum fundamento objectivo. e não pode existe uma destas funções sem a outra. não emite nada que não possa decifrar. O emissor.  Falar de si próprio  patamar interpessoal (colectivo)  Falar a si próprio  patamar intrapessoal (individual) mensagem «Todo o pensamento é diálogo na sua forma». A linguagem é tudo isso simultaneamente. tentando saber se existia uma origem ou uma essência que fosse comum a todas as outras línguas. A linguagem é um processo comunicativo de uma mensagem entre dois sujeitos falantes pelo menos. num certo sentido. fazem uma espécie de filtragem dos seus pensamentos através da garganta. FALAR É FALAR-SE. visto que é capaz de ao mesmo tempo emitir uma mensagem decifrando-a e. sendo um o emissor/destinador e o outro receptor/destinatário. a sua realidade e a sua realização. Nem o discurso mudo dispensa o pensamento mudo. Peirce  A linguagem pode ser vista de duas maneiras:  Diacronia: estuda a língua através dos tempos – eixo temporal -. A mensagem destinada ao outro é. Será que existe linguagem sem pensamento e vice-versa? Dificilmente. dai que descodificamos a mensagem que emitimos a outra pessoa antes disso sequer acontecer. Defende-se a existência de um mundo de ideias separado do prático. Os gagos falam como se a fala viesse da garganta e não do pensamento.

simultaneamente físico. mas num aspecto particular. Acreditava-se na existência de uma língua-mãe indo-europeu. Saussure: linguagem. 1857-1913  Estudou o sânscrito (abordagens tradicionais)  Deu 3 cursos entre 1906 e 1911  Inaugura uma nova forma de estudar a linguagem e cria uma nova disciplina – a linguística (estudo da língua e do signo verbal linguístico. a linguagem é multiforme e heteróclita. fisiológico e psíquico.  A forma como esses elementos funcionam é um mecanismo formal que Saussure diz que se constitui num circuito de fonação-audição (funcionam em qualquer língua de igual modo). Pertence ainda ao domínio individual e social (aquilo que cada um pratica e todos 6 . universal a todas as línguas alfabéticas. mas a forma como delimita o objecto é diferente da filologia. Ciências que Saussure confronta: a) Filologia: aparece nos finais do século XVIII com Wolf e surge como um estudo da linguagem verbal. independentemente das suas diferenças gramaticais. conseguimos perceber que existe algo em comum. uma estrutura determinada e transformações estruturais que obedecem a leis estritas. procurando a ordem etimológica. Ele não estuda o objecto escrito – tem uma perspectiva histórica ou diacrónica. Sincronia: congela-se no tempo a língua. pretende-se encontrar um sistema inalterado. O que é que Saussure vai trabalhar?  Universais linguísticos comuns às diversas línguas  A linguística pensa/trabalha a língua de um ponto de vista formal. b) Gramática: tem como realidade de estudo a linguagem verbal. língua e fala  Segundo Saussure. a língua tem regras precisas de funcionamento. Esse mecanismo é igual para as diferentes línguas do mundo (mecanismo linguístico e universal)  A língua é um sistema de elementos.  Propõe uma nova disciplina – Semiologia.  Se conseguirmos ter uma perspectiva formal no estudo da língua. estuda a evolução semântica das palavras da língua. suíça.  Conseguir conceber uma ideia comum a todos os falantes dessa língua (universal a essa comunidade). O que importa estudar é um mecanismo linguístico que preside ao facto de o homem ser um ser dotado de linguagem. falamos em regras que determinam cada língua em particular. quando falamos na norma. abrangendo vários domínios. Ferdinand de Saussure:  Nasceu em Genebra. c) Área da gramática comparada: surge no início do século XIX com Bopp. Estuda o sânscrito (língua sagrada na Índia Antiga) e vai procurar parentescos entre o sânscrito e as línguas ocidentais.

A língua só existe na massa (existe na minha cabeça e na de todos que a falam). Não há língua sem fala. A língua é a «a parte social da linguagem». segundo S. existem duas linguísticas inseparáveis:  A da fala  A da língua. mas vai substituir a dicotomia língua/fala por língua/discurso. e como tal não se pode realizar na fala de nenhum sujeito. Portanto. língua fala Enquanto a língua é um sistema anónimo constituído por signos que se combinam segundo leis específicas. não pode ser modificada pelo sujeito falante e parece obedecer às leis do contrato social que é reconhecido por todos os membros da comunidade. a fala é «um acto individual de vontade e inteligência». não se deixa classificar em nenhuma categoria de factos humanos porque não sabemos como destacar a sua unidade. A definição de língua de Benveniste é próxima da de Saussure. Língua: conjunto de signos formais. Ao mesmo tempo. a) As combinações pelas quais o sujeito falante utiliza o código da língua (inteligência – escolhas individuais) b) O mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações (vontade ou não de falar em oposição a estar calado – acto de fonação) A fala é.  Actos de fonação necessários à execução dessas combinações. Para Saussure. 7 . estratificados em escalões sucessivos que formam sistemas e estruturas. A fala é individual e é a realização do desejo da língua. Saussure opera uma distinção entre a língua e a fala.  os outros também). A disciplina da linguística tem que construir. em suma:  Combinações individuais pessoais introduzidos pelos sujeitos falantes. isolar e situar o seu objecto de estudo. a fala é «sempre individual e o indivíduo é sempre o senhor dela». a língua/fala são inseparáveis uma da outra. Na realidade. a língua é isolada do conjunto heterogéneo da linguagem: deste universo retém apenas um sistema de signos em que o essencial é só a união do sentido e da imagem acústica. exterior ao indivíduo. a língua é-lhe necessariamente anterior. Para que a fala se possa produzir. Benveniste: Língua/discurso   Não se opõe a Saussure.. mas «só existe perfeitamente na massa». Assim. se existir é uma língua morta (como o latim).

 O discurso é a manifestação da língua na comunicação viva. além de ser um elemento próprio da comunicação social para a construção de sociedade. designa qualquer enunciação que integre o locutor e o ouvinte tendo o primeiro desejo de influenciar o 2º. não sendo estática. constitui um acto individual de vontade e inteligência. nas suas estruturas. possibilitando a nossa organização. Implica a participação do sujeito na linguagem através da fala do indivíduo. A língua comum a todos torna-se o veiculo de uma mensagem única. marcas escritas e gestos) como uma realização de pensamento e da experiencia humana. com o desejo por parte do primeiro de influenciar o outro (dizer com objectivos).Discurso: designa de um modo rigoroso e sem ambiguidades. Designa qualquer enunciação que integre. pessoal. própria de uma estrutura particular de um determinado sujeito que imprime sobre a estrutura obrigatória da língua uma marca específica. Ela possibilita a organização do pensamento. na sua totalidade. da experiencia e elemento próprio da comunicação. a manifestação da língua na comunidade viva. que não é comum a todos os membros de uma sociedade. implica a participação do sujeito na sua linguagem.  A linguagem organiza e exercita o pensamento. através do qual o Homem designa o mundo. expressa as experiencias e constrói a história por meio da conversa. integração e conhecimento no espaço social. não é modificável pelo falante e parece obedecer às leis (código linguístico) de um contrato social reconhecido por todos os membros de uma comunidade (as mudanças são introduzidas através da fala). mediante a fala do indivíduo.  A linguagem é o meio no qual ocorrem as relações humanas.  A língua é a parte social da linguagem. através de épocas e civilizações. XX. No geral:  A linguagem é matéria do pensamento. ela transforma-se durante várias épocas e toma diferentes formas entre os diversos povos.  A linguagem mediatiza a nossa relação com o mundo. realização da língua. um locutor e um ouvinte. exterior ao indivíduo (ser humano não pode fazer linguagem sozinho). 8 .  A fala é a parte individual da linguagem. sendo o individuo sempre senhor dela. favorecendo o conhecimento e o autoconhecimento de homens e mulheres. Concluindo:  Podemos delimitar a noção de linguagem (conjunto de sons articulados. autonomizada pela linguística no séc.

segundo Peirce. mas apenas uma ideia dele – o conceito de objecto. isto é. Está em lugar deste objecto. mas por referencia a uma espécie de ideia algumas vezes.1. Objecto (ideia associada ao representante) [paz] Representante (imagem do objecto físico) [pomba branca] Interpretante (medeia a relação entre objecto e representante) [conceito de paz] « Um signo ou representamen é qualquer coisa que está para alguém em lugar de qualquer coisa sob uma relação ou a um título qualquer. não sob todos os aspectos. é aquilo que substitui qualquer coisa para alguém. O interpretante (não interprete). um representamen e um interpretante. do seu objecto. a fundamento do representamen. O signo parece estabelecer uma relação de convenção ou de contrato entre o objecto material representado e a forma fónica representante. Exemplo:  Os bebés só tomam conhecimento da existência da mãe na sua ausência. Dirige-se a alguém. para Peirce. O signo dirige-se a alguém e evoca para ele um objecto ou um facto na ausência desse objecto e desse facto. é uma espécie de base sobre a qual se instaura a relação objecto-signo. Esse signo está em lugar de alguma coisa. o signo é uma relação triádica que se estabelece entre um objecto. O conceito de signo Segundo Saussure signo Segundo Peirce interpretante signo significante significado representamen objecto Na teoria de Peirce. quando são obrigados a representá-la mentalmente.2 O signo em Saussure e Peirce Proposta de Peirce O signo ou «representamen». ou seja.» 9 . cria no espírito dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. e corresponde à ideia no sentido platónico do termo. Pois o signo não representa todo o objecto. A proposta de Peirce é mais abrangente: não está unicamente preocupada com os signos – enquadra todos os sinais comunicativos.

Um signo é «uma entidade psíquica de duas faces de uma mesma folha». o interpretante (que não existe na definição de signo elaborada por Saussure) é. Apesar disto. O conceito é a ideia que o signo evoca em nós. como sendo de fato não uma coisa em si.  O símbolo. surgindo na mente do intérprete no momento em que ele percebe aquela primeira coisa. entidade psíquica. A língua encontra-se quando no circuito de audição fonação existe um momento em que o signo estabelece uma ligação entre um conceito e uma imagem acústica. É por isso que se fala da língua como uma herança de um património passado de geração em geração. uma terceira coisa que. por intermédio da ideia. é enriquecida. o objecto é a coisa que é representada. não remetendo para o objecto de uma forma directa. representa algo que nos aponta para o mesmo (fumo como índice de fogo). faz com que ele a interprete desta maneira. O signo 10 . devido à arbitrariedade e à convencionalidade (a língua não é uma convenção). a representação que dele nos é dada pelo testemunho dos nossos sentidos». por sua vez. Herança  não se degrada. independentemente das transformações sofridas ao longo do tempo. refere-se ao objecto por uma semelhança com ele [fotografia].Na visão de Peirce o signo é qualquer coisa que representa alguma outra coisa para alguém: o representamem é a coisa que representa.  O índice. mas a « marca psíquica desse som. estando relacionado com a cultura do indivíduo [pomba branca representa paz/ coração representa amor]. é da ordem do social de uma instituição nãoformal e tem um carácter de lei (obedece às regras dos contratos sociais das comunidades). Consoante a relação entre o representamen e o objecto representado. tem um carácter imutável. Peirce classificou os signos em três categorias:  O ícone. refere-se a um objecto que ele designa por uma espécie de lei. A imagem acústica não é o som em si mesmo. de convenção. Proposta de Saussure     Saussure cria a dicotomia língua-fala A fala não leva a um estudo eficaz sobre a língua (não é suficiente analisar as falas de cada um) A ciência que cria dedica-se ao estudo da língua apenas Língua  sistema de signos. Saussure diz que seria ilusório acreditar que o signo linguístico associa uma coisa a um nome. mas uma coisa que representa uma outra coisa.

absoluto.  Não existe nenhuma necessidade natural ou real que ligue o significado ao significante. por isso. inconscientemente utilizada. logo é uma relação imotivada (no sentido em que não há nenhuma relação de motivação que nos leve a dizer que o conceito abstracto de mesa tem de corresponder à sonoridade de mesa e não poderia. esta é obrigatoriamente a todos os que querem falar determinada língua (ninguém foge às regras da língua). mas a marca psíquica desse som. Se não tiver significado numa determinada língua não se representa um signo – não há relação de significação (o som não constitui o signo).  O arbitrário do signo é por assim dizer normativo. ideia que o signo evoca em nós Significante: imagem acústica que temos da sequência fónica – não é o som em si. pois não nos dá liberdade. a representação que dele nos é dada pelo testemunho dos nossos sentidos [imagem mental. Ex: /mesa/  significante (imagem acústica) “mesa”  significado (conceito): representado por um desenho Qual é a relação entre significante e significado?  O signo é arbitrário. logo quando quero designar o conceito e a imagem acústica uso a mesma palavra.  Trata-se de uma convenção colectiva. é uma entidade psíquica. válido e obrigatório. não se constitui como signo. caso contrário. por isso. Significado: palavra que define o conceito. este som só se constitui como uma imagem acústica se conseguirmos de imediato associar a um conceito. possam ser alterados de modo igualmente arbitrário. quer dizer que não há uma relação necessária entre o significante e o significado (tem de existir alguma relação para haver signo.São as duas faces inseparáveis do signo: a imagem acústica (significante) e o conceito deste (significado).  A arbitrariedade do signo não quer dizer que os significantes possam ser escolhidos arbitrariamente por um acto involuntário individual e que. Deste modo. é fascista.  É imposto: a partir do momento em que se estabelece a convenção. corresponder à sonoridade de cadeira). Se uma sequência fónica não tiver significado (conceito) em determinado língua. trata-se de uma convenção e por isso é imposto a todos. por exemplo. abstracta que realizamos ao ouvir uma palavra associada a um conceito  pensar numa música e ouvi-la mentalmente].  Arbitrário é uma relação imotivada e. 11 . O signo é uma unidade psíquica com duas faces.

e no entanto o objecto (referente) é totalmente diferente. O que é arbitrário é a relação referencial. Benveniste vem dizer que a relação de significação é absolutamente necessária. e um ser daqueles sem pêlo e o outro ser completamente cheio de pêlo. Põe em causa a ideia da arbitrariedade O problema incide na excepção à arbitrariedade. Benveniste distingue a relação do signo com aquilo a que ele se refere (referente).SIGNO arbitrário relação imotivada convenção imposto a todos A ideia de carácter arbitrário do signo em Saussure permite reforçar a ideia de que a língua não é uma nomenclatura. da relação entre significante e significado. Por isso. no caso das onomatopeias: elas são a excepção à relação de representação e não de significação (Saussure considera o oposto). A língua constrói-se independentemente da realidade real. a imagem sonora também. Só existe o discurso pela participação do sujeito na sua linguagem. até porque a relação não se faz com objectos concretos mas com referentes construídos pela própria linguagem. não sendo arbitrária mas obrigatória. sereias  signos com referente claro. mas não são reais. a língua não nasce da relação entre as coisas e as palavras. através da fala. O conceito (significado) é o mesmo. A relação de representação é arbitrária. há signos que tem referente mas não se referem a objectos ou a coisas reais (ex: unicórnios. Eu posso chamar gato a dois gatos. Crítica de Benveniste à proposta de Saussure         Benveniste vem aperfeiçoar a ideia de Saussure. Opõe-se ao termo língua e é a favor do termo discurso. ou seja.  12 . Não existe qualquer relação entre o signo e o referente. se não teríamos um inventário. pois sem ela não há signo.

manifestadora.  É da ordem do sistema da língua. Dimensão designadora ou referencial:  Relação de representação  o signo está a representar a coisa ausente.  A significação é.  Saber se determinado conceito existe ou não no sistema da língua.  Estabelece-se a relação de signos linguísticos aos conceitos universais e gerais e suas ligações sintácticas.  Critério de validade: verdadeiro / falso. dar-lhes nome e esta concepção ser aceite por todos. independentemente dos valores referenciais e da força expressa da enunciação.) Dimensão sígnica/simbólica:  Capacidade da linguagem de abstracção e de construção de conceitos gerais.  O valor desta dimensão consiste na sua força relatia em função da sua estratégia enunciativa. convicção.  Consiste na relação da linguagem com as coisas e o estado das coisas exteriores.  Relação de significação: Significante → imagem acústica Significado → conceito  Critério de validade: condição de possibilidade no sistema da língua. o que se diz são as significações. o que pode ser nem verdadeiro nem falso. A linguagem relaciona três pólos: sujeito (o que fala). crença.  Critério de validade: dizer verdade/mentira (sinceridade. Existe ou não no sistema da língua.1.  Discurso – existe sempre um sujeito de enunciação (estratégias discursivas/de enunciação).  “Condição de verdade”/absurdo: o que não tem significação.  Trata-se da ligação da linguagem ao sujeito que fala e se exprime: o que é dito. cada signo remete sempre para outro signo: é por isso que um dicionário é um repositório fechado de signos que reenviam para outros indefinidamente – é a convencionalidade e a clausura do sistema de signos que define a sua significação. A linguagem refere-se ao que é.3 As dimensões da linguagem: referencial/designadora. daí ter como critério de validade o verdadeiro ou falso. referente (de quem se fala) e a língua (o que se diz). desejo. Aquele que fala é manifestante.  Relaciona-se com o pôr etiquetas nas coisas.  Estabelece-se no acto do funcionamento da língua. circular. etc. falsidade. é dito por alguém (há sempre um sujeito que fala o discurso). por definição. aquilo de quem se fala é o designado. 13 . Dimensão manifestadora/expressiva:  Relaciona-se com a capacidade de exprimir de diferentes maneiras a nossa relação com o mundo (crenças. convições…). A questão que se coloca é saber se a linguagem se adequa ou não aquilo que designa. sígnica e os seus critérios de validade discursiva.

o que lhe confere uma existência real mas distinta da realidade extra-linguística. só que enquanto objecto de linguagem parece eternamente condenada a ser moldada pela linguagem que dela fala (“a linguagem é um mapa.  A concepção simbólica está relacionada com as dimensões sígnica e manifestadora. em função da sua relação com o mundo. 14 . «aquilo que se fala» é a designação e «o que se diz» são as significações.As dimensões precedem-se umas às outras num princípio de circularidade:  A dimensão sígnica apela sempre à dimensão designadora. mas a sua realidade cultural. Estes signos têm um referente mas não designam coisas existentes. não é a realidade natural e física que determina a referencialidade e a natureza dos signos. Entre as coisas e os estados das coisa que envolvem a experiência do mundo e dos signos que a referenciam. as palavras e as coisas existem uma distancia incontrolável (está sempre lá). representar e definir o mundo. Estes são exemplos possíveis. ou seja. não um decalque”) porque o referente é ele próprio construído pela acção do discurso. o sujeito e a língua – «aquele que fala» é o manifestante. mas uma relativa autonomia a parte de poderem até contradizerem-se. não existe coincidência. O poder da linguagem de construir os seus próprios referentes abriga a evidencia que é a própria linguagem. A linguagem é um conjunto de nomes que utilizamos para referir. se não for objecto de linguagem. como até podemos designar coisas inexistentes (sereias). a construída pelo homem. A linguagem é um mapa. A realidade é muda. como referenciar com o mesmo signo realidades diferentes. tanto podemos designar de maneiras diferentes a mesma realidade. não um decalque [representa a realidade mas é autónoma desta]. Tudo o que fazemos envolve as 3 dimensões. que ao falar do real estrutura e a possibilidade da existência de diversos discursos sobre a mesma realidade levante a questão «porque é que a realidade é real?» A linguagem relaciona 3 entidades – o referente.

tanto podendo demonstrar de maneiras diferentes a sua relação com uma mesma realidade. A plurivocidade não é um problema. mas o modo normal do uso da linguagem. a linguagem como um sistema de correspondência entre as palavras e o mundo. uma vez que as palavras não são simples etiquetas que colam a uma realidade singular. A dimensão interlocutiva Concepção referencial Segundo a concepção referencial. a fala desempenharia uma função predominantemente instrumental.4 Concepções referencial e simbólica da linguagem. a significar e a manifestar a sua relação com um mundo preexistente. pelo facto de designarmos o mundo. os eventuais problemas da linguagem e da comunicação. mas mediatizada pela linguagem. Esta concepção consideraria. das pessoas e dos factos. as dificuldades de entendimento entre os interlocutores resultariam. como expressar de uma mesma maneira a sua relação com realidades diferentes. Não são os objectos da realidade que são designados pela linguagem. quer do facto de utilizarmos um mesmo nome para designar objectos diferentes [plurivocidade]. pessoas. Para esta concepção. falamos de forma diferente a mesma coisa. constrói também sentidos novos para o mundo. visto ser a manifestação da diversidade das relações que o homem estabelece com o mundo.1. nesta concepção. o facto de ao falar o homem não utilizar signos unívocos não é uma deficiência. A plurivocidade seria. por isso. é por isso que podemos aplicar a plurivocidade. acentuando a autonomia desta dimensão em relação à função referencial por considerar que a presença do homem ao mundo não é imediata. quer do facto de empregarmos vários nomes para designar um mesmo objecto. a linguagem desempenha funções de significação e de expressão. portanto. e está na origem da elaboração do sentido do mundo para o homem. de construirmos sentidos diferentes para o mundo que nos rodeia. mas a maneira normal de significarmos. quando falarmos designarmos coisas. a linguagem teria sentido pelo facto de. Ao contrário da concepção referencial da linguagem. porque nos relacionamos com ela de formas diversas. factos. estados das coisas. o que as tornaria impróprias para a formulação das proposições unívocas do conhecimento científico. objectos. numa palavra. uma deficiência das linguagens naturais. seria o meio pelo qual o homem designa o mundo. mas os conceitos que a eles se referem. Para esta perspectiva. antes de poder desempenhar uma função referencial. Há. o pressuposto implícito de que as palavras são como etiquetas que colocamos nas coisas a que nos referimos. Concepção Simbólica Sublinha a sua natureza predominantemente simbólica. mas construções mentais de natureza cultural destinadas a 15 . O homem ao falar não se limita a designar. A linguagem desempenha funções expressivas.

Dimensão interlocutiva da linguagem. 16 . um espaço de batalha discursiva. implica que consideremos também a dimensão interlocutiva. ou seja. Quando falamos trocamos linguagens diversas com homens diferentes. Os signos significam de forma autónoma à sua representação. O mundo é um constructum. de exprimirmos. A dimensão interlocutiva pode ser definida como a relação de troca de discursos entre homens situados num espaço específico de interlocução. Diz que nem o mundo. a que pertencemos e em que vivemos.mediatizar a relação do homem com o mundo. A plurivocidade não é. para esta concepção. É ao estudo da dimensão interlocutiva da linguagem e da sua relação com as outras dimensões da linguagem que a pragmática se dedica. acerca de uma multiplicidade de mundos diferentes. nem a linguagem são entidades singulares. como uma logomaquia. que tomemos em consideração a multiplicidade de linguagens. Ter uma relação não redutora da linguagem. a pluralidade de significações e a diversidade de sentidos apresenta como característica notável o facto de ser um confronto entre linguagens. Deste ponto de vista. de elaborarmos. nem o homem. uma insuficiência. de construirmos sentidos para o mundo que nos rodeia. mas a maneira normal de significarmos. apresentando-se o espaço de interlocução como um espaço agonístico. o resultado da própria elaboração linguística do mundo. interlocutores e de mundos.

portanto. na medida em que não pertence propriamente ao mundo humanamente experienciado. dos objectos e das pessoas que os locutores designam ou a que se referem quando falam. a relação entre a linguagem e a experiencia do mundo é de natureza circular (só se pode designar aquilo que a natureza permite) e daí dependendo dos sujeitos podemos reconhecer a existência de uma pluralidade de diferentes discursos sobre um mesmo referente. cantar  Designantes sem designados existentes na realidade. como pelos estados das coisas. Objecto da pragmática indexical: o estudo dos processos referenciais da linguagem. O processo de referencia é bem mais complexo do que um mero processo de codificação e descodificação. Por “mundo” entendemos o conjunto formado tanto pelas coisas. pensamento e linguagem e. As questões da subjectivação do discurso e da intersubjectividade da linguagem. É uma realidade do discurso. Ex: “canto” canto de sala. escapa a qualquer possibilidade de referencia existente.1. 2. Quando falamos. Sabemos que existe uma relação intrínseca entre o mundo.5 A pragmática indexical: a referencia e a enunciação. sereia REFERENTE Aquilo a que nos referimos quando falamos. pelos objectos e pelas pessoas. quer exista num mundo imaginário REALIDADE ≠ É aquilo que pressupomos como existente mas que. Ex: centauro. a maneira como nos referimos às coisas não é independente em relação à maneira como imaginamos que o nosso interlocutor a vai entender (a forma como falamos não tem só que ver com aquilo que imaginamos): 17 . Pragmática indexical é o estudo dos processos utilizados pelos falantes para se referirem ao “mundo”. Só podemos designar aquilo que a linguagem nos permite referir quer exista como objecto singular. é como se a experiencia designada por referente fosse independente dos signos disponíveis para a designar  não é assim – 2 boas razões: 1.  Usamos vários referentes para nos referirmos a um mesmo designado. Ex: Vénus  “estrela da manhã”. em si mesmo. linguagem. uma construção da linguagem. “ estrela d’alva”  Vários designados com o mesmo designante. Processo de referência: a forma como nós nos referimos às coisas no discurso e implica a noção de sujeito implicado no discurso. Referente e linguagem são de alguma forma exteriores ao sujeito. unicórnio. canto coral. uma construção do discurso.

Estas expressões são indicadores que organizam as relações espaciais e temporais à volta do sujeito da enunciação tomado como ponto de referencia. nem com a situação enunciativa para identificarmos aquilo a que se refere. a referência é uma realidade e dá conta da subjectividade singular de cada sujeito que fala. dizemos que estamos perante modalidades de referência relativa quando a determinação daquilo a que o locutor se refere varia em função da relação que o enunciado estabelece com a situação. “agora”. “aqui”. 18 . É a essa orientação discursiva que chamamos referência. com outra unidade presente no discurso. e de um processo de descodificação realizado pelo alocutário. Se o referente é uma construção da linguagem. no momento em que ouve o enunciado do locutor. “eu”. em que lugar e em que momento os enuncia. nem de os relacionar com outras unidades verbais presentes no discurso em que se insere. Também dita a referência relativa díctica:  São unidades verbais que ancoram os enunciados à situação enunciativa como. significado referente significante As diferentes modalidades de referência Referência absoluta: um enunciado possui uma referencia absoluta quando não precisamos de o relacionar com o contexto extra-linguístico. Não é preciso ter mais nenhum outro saber para se identificar aquilo a que eles se referem para além daquilo que dizem.  Quando a nossa matéria é o discurso devemos falar de interlocutores quando existe uma troca  O processo de referência dá conta da forma como os interlocutores se referem do mundo nos seus discursos. “hoje em dia”. “Lisboa é a capital de Portugal” Para podemos identificar aquilo a que um locutor se refere quando produz enunciados não precisamos de saber quem os enuncia. É como a relação de um duplo processo. A referência é a maneira como nós nos referimos às coisas nos discursos que produzimos. de um processo de codificação realizado pelo locutor no momento em que fala. Modalidade de referência relativa – dícticos: ao contrário dos enunciados de referencia absoluta que valem por si. O processo de referência não ocorre entre sujeitos que se constituem neste processo como sujeitos de uma relação de interlocução. “a terra é redonda”. por exemplo. “tu”. Exemplos: “uma mulher alta”.

o locutor não pode deixar de referir a natureza da sua relação com as pessoas que designa. ou seja. mas à pessoa que os enuncia. Quando são utilizados indexicalmente. a unidade lexical refere-se à própria palavra. no momento em que está a ser utilizado. isto é.  A referencia varia apesar de a significação ser invariante. A natureza referencial das unidades da linguagem depende da maneira como nós a usamos. Menção: este termo é utilizado num sentido técnico oposto ao de “uso”. Referência social: quando faz referencia a pessoas. “esta é um pronome demonstrativo feminino. do ponto de vista referencial. Um díctico é um signo vazio que só se preenche. 19 . a apropriação do uso da linguagem por parte dos falantes. dizemos que são opacas e adquirem valor de menção. Possui uma referencia relativa. A referencia é relativa ao processo de enunciação como um todo ou a alguém das suas instancias: o locutor. como as inserimos no discurso.  Desta modalidade de referencia depende de uma das manifestações mais notáveis da subjectividade da linguagem. e portanto. as unidades linguísticas apontam para um determinado objecto do mundo e dizem que são utilizadas de forma transparente. “Eu moro em Lisboa”  o “eu” não se refere a nenhum individuo fixo e determinado uma vez por todas. singular” “Helena escreve-se com seis letras” “eu é a primeira pessoa do pronome pessoal sujeito” Nestes casos. Por menção entende-se a modalidade auto-reflexiva de ocorrência de uma unidade lexical. Referência metalinguística [auto-reflexiva]: quando utilizamos a linguagem para se representar a si mesma. A referência metalinguística torna opaca a utilização destas unidades verbais e o locutor não as utiliza como termos transparentes que remetem para referentes. ao empregarem as unidades verbais com uma determinada intencionalidade lhes conferem uma determinada função indexical. a identificação do referente varia de cada vez em que alguém os enuncia. São os falantes que. Estes processos de apropriação estão ligados à construção de uma identidade. o alocutário. o lugar e o momento em que a enunciação ocorre. com valor referencial. “Tu gostas de ler romances”  grau de proximidade ou de familiaridade com o alocutário “O senhor gosta de ler romances”  distância social ou cerimoniosa com o alocutário. ao passo que dizemos que é empregada como uso quando a modalidade de ocorrência de uma unidade lexical é referencial. quando são usadas para se designarem a si próprias de maneira reflexiva. Ao passo que.

mas às regras de natureza causal. também valores dícticos e auto-reflexivos. A enunciação é um acontecimento ou um dispositivo que faz existir ou realiza um enunciado o enunciado. A solução deste paradoxo só é solucionável se admitirmos que se tratam de duas instâncias de natureza diferente. sem se contradizer.  O locutor não pode. Não esta sujeito às condições de verdade. A enunciação A relação enunciado/enunciação: o dictum e o modus   Perceber a coexistência no mesmo acto enunciativo de duas instancias de natureza diferentes e a sua relação de autonomia entre enunciado e enunciação.  Estas funções não são necessariamente exclusivas. afirmar ou pensar algo e afirmar que não afirma aquilo que. Sendo intrínseca ao enunciado.  A linguagem aplicada num discurso também implica uma dimensão manifestadora ou expressiva. as funções referencial díctica coexistem numa relação paradoxal porque sendo verdade o que o enunciado diz então nem sequer deveria ter existido a possibilidade de se produzir a sua enunciação – não posso dizer que não estou aqui estando aqui. mas se referirem também a si próprios e ao acto de enunciação que as produz. alocutário. Tem uma função paradoxal – as funções podem coexistir em qualquer acto enunciativo. ou seja. Entre aquilo que o enunciado afirma e aquilo que a enunciação mostra existe uma espécie de relação de diferimento ou de deslocação. de possuírem.  É devido a esta natureza particular da relação enunciados com os actos da sua enunciação que decorre um dos tipos de paradoxos da linguagem que encontramos neste tipo de enunciado – ex: “eu não falo português”. incluindo as instâncias discursivas: locutor.  enunciação [causa] enunciado [efeito] 20 . tem também a capacidade de representar o próprio processo de enunciação. ou seja. A linguagem. Estabelece com o enunciado e produz uma relação de causa-efeito (enunciado é o resultado ou efeito da enunciação). tempo e espaço. não se confunde com ele. além das funções referencial e reflexiva.Conclusão:  A linguagem quando articulada no discurso tem a capacidade de conciliar a função de representar coisas no mundo (referencial). de os enunciados não estarem apenas voltados para coisas exteriores.  Nestes enunciados. mostra que afirma ou pensa pelo facto de o dizer.  A linguagem tem a possibilidade de se representar a si própria  capacidade auto-reflexiva. para além de um valor referencial. no entanto.

então não tem sentido insistirmos na averiguação no que respeita às suas condições que incidem sobre o sucesso da própria ocorrência do acto de dizer (valores dícticos) tem que ver com a sua aceitabilidade. as condições de verdade do dictum são autónomas em relação às condições de aceitabilidade ou do sucesso do acto da sua enunciação. razoabilidade. razoabilidade e sucesso. Apesar de o sujeito da enunciação não deixar de estar presente no enunciado como condição da sua existência. razoabilidade. Para se converter em dictum. Os quadros de sentido permitem-nos avaliar a razoabilidade e a aceitabilidade dos actos da enunciação. Só o dictum é que se pode referir à sua verdade ou falsidade. discursos que venham ocorrer. Este contrato referencial define a aceitabilidade. Amanhã vai chover – aquilo que o enunciado diz (enunciado) Uma das formas de reflexo de enunciação é através dos chamados marcadores performativos (ou do modus): “digo que”. ele deixa de funcionar para surgir um outro contracto referencial que enquadre a partir dai o sentido dos enunciados. a não ser sob a forma de modus e nunca de dictum. sendo por isso o 21 . Contrato referencial: aquilo que nos permite considerar razoável e aceitável o que os outros dizem. Para puderem ser aceites como razoáveis. Se a linguagem permite a realidade desta enunciação. então quem o disse estava a mentir. a enunciação tem de ser integrada numa nova enunciação que fala dela. A enunciação não esta sujeita a regras de verdade mas a regras naturais. “Eu não falo português”  se esta enunciação ocorreu. “penso que”. ou seja. “creio que”. As condições de verdade do dictum são autónomas em relação às condições de aceitabilidade ou de sucesso do acto da sua enunciação. O processo de referencia tem a importante função de definir as fronteiras que delimitam o mundo próprio do discurso a que alguns actores chamam de quadros de sentido (Goffman) Os quadros de sentido são fronteiras que delimitam um espaço dentro do qual determinadas realidades são razoáveis e plausíveis e fora das quais seriam consideradas absurdas. A enunciação é o acontecimento que faz existir ou existe num enunciado. mas a partir do momento em que alguém explicita o contracto para o reformular ou até mesmo para o rejeitar. a sua ocorrência enquanto facto incontornável. A transformação do sujeito de enunciação em sujeito do enunciado não pode operar-se no interior do próprio enunciado que se produz. sucesso da sua enunciação. os interlocutores estabelecem uma espécie de contrato referencial. Enunciado: “Eu penso que amanhã vai chover” Penso que – reflecte a modalidade da sua enunciação (modus).         A referencia é parte integrante da enunciação mas são realidades autónomas pois não podemos confundir as condições de verdade do enunciado com as condições de aceitabilidade.

“Eu disse que tinha dito que estava um lindo dia”. pelo facto de dizer. afirmar ou pensar algo e afirmar que não afirma ou não pensa aquilo que. A consciência de si só é possível se se tornar conhecimento de si por contraste. sem se contradizer. porque é na e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito porque só na linguagem funda realmente a sua realidade que é a do ser o conceito de “ego”. A subjectividade de que tratamos aqui é a capacidade do locutor se colocar como sujeito. pois implica que reciprocamente “eu” me torne “tu” na alocução daqueles que. É nesta condição de diálogo que é constitutiva de pessoa. “Eu disse que está um lindo dia”. Eu só utilizo “eu” ao dirigir-me a alguém que na minha alocução será um “tu”. Subjectividade do discurso e intersubjectividade da linguagem Nunca encontraremos o homem separado da linguagem e nunca o veremos separado da linguagem e nunca o veremos inventando-a. por sua vez. Esta relação de diferimento ou deslocação entre enunciação e enunciado é uma relação de abismo. A subjectividade de que tratamos aqui é a capacidade do locutor se colocar como sujeito. esta subjectividade não é senão a emergência no ser de uma propriedade fundamental da linguagem (é ego quem diz ego) e encontramos aqui o fundamento da subjectividade que se determina pelo estatuto linguístico da pessoa. se designa “eu”. Assim um locutor não pode. no entanto. “Está um lindo dia”. Ora. 22 . mostra que afirma ou pensa.processo de relação entre a enunciação e o enunciado uma relação de diferimento ou deslocação interminável.

Nas sociedades tradicionais. XVIII A Revolução Francesa (1789) foi um marco político que possibilitou e desencadeou uma série de transformações que permitiram sair da Idade Média e entrar na Idade Moderna. 23 . sociedades tradicionais fechadas reguladas por quadros de sentidos estáveis Sociedades complexas abertas. Essa instância transcendente pode ser a tradição ou uma entidade divina (um Deus).1 A emergência da questão comunicacional na modernidade a partir do séc. modernas regulados pela autoridade da tradição ou por entidades divinas definidos dentro de comunidades de pertença Nas sociedades tradicionais. A legitimidade tem que ver com aquilo que avaliamos daquilo que os outros dizem e fazem. legitimidade e opinião pública 2. relativamente estáveis. definidos dentro das fronteiras das comunidades de pertença. também designadas de sociedades fechadas. A legitimidade para dizer ou para agir era tradicionalmente regulada pelo respeito indiscutível da autoridade da tradição. Os quadros de sentido das sociedades tradicionais assentam na tradição ou num locutor que se nos apresenta como absolutamente inquestionável e que surge como uma instância transcendente. A comunidade não era uma questão central porque só a utilizo quando estou perante pessoas com outros quadros de sentido. XIV Sociedades tradicionais fechadas Revolução Francesa Séc.2. Espaço público. a legitimidade está ausente na autoridade do locutor. A comunicação surge como um suporte de diferentes visões do mundo sobre uma mesma realidade. As regras e as normas que pautam as nossas decisões estão fundamentadas nesses quadros de sentido. caracterizadas pela comunicação estar regulada por quadros de sentido. mas é exactamente isso que leva a que se considere esta instância praticamente inquestionável.

político e económico. e esse locutor é absolutamente seguro e inquestionável. Pelo contrário. O saber moderno visa a explicação dos fenómenos e a formulação das regras do funcionamento em vez das explicações herdadas da tradição e o 24 . Existem nas sociedades tradicionais 3 campos:  Religioso. Cada um destes campos procura compor um lugar central. fragmentação do tecido social fim do domínio do campo religioso A fundamentação racional da experiência moderna [são exemplos/contributos para esta racionalização da experiência moderna do mundo] está intimamente associada a novas modalidades do saber. jurídica de modo a que alguns autores as chamam de “sociedades fragmentadas”. distintas do saber tradicional. Só passou a sê-lo com a viragem para as sociedades modernas. tradição ≠ antigo e modernidade ≠ recente Podemos reconhecer/observar representações do mundo mais tradicionais em estilos e modos de vida actuais e encontrar traços de modernidade na Grécia Antiga. Tradição Inovação Modernidade Representações do Mundo Não podemos confundir tradição com antigo e modernidade com recente. a inovação é um processo acelerado e as posições contraditórias coexistem no seio da mesma sociedade sem que nenhuma acabe por se impor ou substituir definitivamente. no mundo moderno. política. pensar e fazer. ou seja.A comunicação não surgia como uma questão central na sociedade. Apesar da modernidade estar presente ainda que de forma embrionária nas sociedades mais antigas é a partir do século XIV nas sociedades ocidentais que assistimos à aceleração e à intensificação do processo de fragmentação do tecido social numa multiplicidade de esferas de legitimidade que ditam o fim do domínio do campo religioso sobre as esferas económica. Estes campos autonomizam-se e proliferam numa série de campos sociais com autonomia. A acção e o discurso são legitimados de maneira relativamente estável. os comportamentos e os modos de pensar. ninguém ousa por em causa a autoridade de deus ou da tradição. Quem tem legitimidade para ditar as regras na vida social? Nas sociedades tradicionais. deixando em aberto pelo religioso. as regras são impostas pela autoridades divina ou pela força da tradição e elas apresentam-se como um locutor que dita as regras do dizer. ditados por uma ordem transcendente na medida em que se trata de evocar a vontade divina. Portanto. medica. cientifica. pois a tradição não é necessariamente uma realidade antiga nem a modernidade uma realidade recente.

gerir e sancionar uma ordem axiológica própria (conjunto de valores que se impõe a todos com força vinculativa). Nenhuma esfera projectava uma ordem axiológica própria com força suficiente para se autonomizar da ingerência do religioso.resultado disso é o surgimento da figura do especialista que substitui a do sábio das sociedades tradicionais. o aparecimento das Universidades está intimamente relacionada com este processo. Tem que ver com a fragmentação da experiência em diferentes esferas que pretendem o reconhecimento público como esfera de experiência com legitimidade própria para criar. Sabemos que na Europa no fim da Idade Média. comporta centros médicos. A especificidade de um campo social consiste na averiguação do domínio da experiência sobre o qual é competente e sobre o qual exerce uma competência legítima publicamente reconhecida e respeitada pelo conjunto da sociedade. Reconhecemos um campo social pelo facto dele ocupar um lugar de enunciação. controlo das águas – organizações que permitem o funcionamento da instituição médica. É impossível compreender a autonomização dos campos sociais sem o desenvolvimento das ciências modernas e o aparecimento das especializações científicas. autonomização dos campos sociais desenvolvimento das ciências modernas A autonomia dos campos sociais está também relacionada com a modernidade. O campo religioso exerceu nas sociedades tradicionais a função aglutinadora do conjunto da experiencia humana. + visibilidade + formalidade 25 . O campo social é visto como instituição e como tal pode abarcar uma ou várias organizações. Os campos sociais constituem esferas de legitimidade que impõem com autoridade indiscutível actos de linguagem discursos e práticas dentro de um domínio específico de competência e dentro desse domínio cada campo social impõe uma ordem axiológica própria. A autonomização dos corpos sociais na modernidade está assim intimamente relacionada com a ruptura na relação à ordem totalizante do religioso. direcções gerais de saúde. A visibilidade do corpo social é tanto maior quanto mais formal for a organização do respectivo campo. Exemplo: o campo médico não se esgota na organização hospitalar. Corpo e simbólica dos campos sociais É pela imposição de uma simbólica própria que os campos sociais asseguram a sua visibilidade pública. Não podemos confundir instituição com organização.

Um campo é tanto mais forte quanto mais conseguir impor aos outros a sua axiologia (conjunto de valores e princípios inerentes a cada campo) e quanto maior for o número de campos em que conseguir projectá-lo. Garantem e vigiam a normalidade do funcionamento do tecido social no que diz respeito às suas ordens expressiva e pragmática. e funções pragmáticas no domínio do fazer. Funções dos campos sociais Um campo social desempenha 2 tipos de funções dentro do seu campo de competência: funções expressivas ou discursivas no domínio do dizer. qualquer campo social que não preserve um determinado ritmo de aceleração tende a diluir-se e a enfraquecer a sua força coerciva.Existem duas formas de visibilidade a um grupo social: a manifesta (vestir fardas. As instituições que regulam o espaço público age de maneira informal à imagem da própria instituição da linguagem. Os processos e as funções dos diferentes campos resultam de reflexos ou interferências que designamos por dimensões públicas que se projectam nos outros campos. Regimes de funcionamento Um campo social possui um regime de funcionamento consoante os lugares e os momentos. a sexualidade. A dimensão pública corresponde à noção de interface entre os diferentes campos sociais. por exemplo) e de pertença (a linguagem. dentro dos momentos e locais apropriados podemos dizer que um campo social funciona em regime acelerado. Modalidades estratégicas dos campos (forma como os diferentes campos sociais tentam projectar a sua influencia uns nos outros): 26 . Fora desses momentos e locais simbolicamente apropriados. Cada campo dita assim as regras de conformidade e conveniência do dizer e do fazer nos domínios da competência. De uma maneira geral. gestos próprios que de um determinado grupo). o vestuário. a gestualidade são tanto mais poderosos e legítimos quanto menos visível e consciente é a força vinculativa da sua intervenção. Assim. É no decorrer da aceleração de ritmo que um campo social se formaliza e aumenta a sua visibilidade simbólica. os campos sociais funcionam em regime lento. + aceleração do ritmo = + formalidade = + visibilidade simbólica A autonomização do campo dos media Existem momentos em que pode ocorrer uma aceleração do campo social. Cada um dos campos coexiste com uma multiplicidade de outros campos.

na modernidade. que surge como o campo especializado na regulação dos valores da publicidade dos outros campos sociais. O conflito surge sempre que ocorre um processo de autonomização de uma esfera até então indiscutivelmente subordinada a um ou mais campos instituídos com o surgimento de práticas que rompem os discursos e os comportamentos conformes as regras que tradicionalmente o campo em que se inscreviam ditavam. É este processo que está na origem do surgimento do campo dos media. As funções expressivas predominam sobre as pragmáticas. os campos não deixam por isso de considerar o discurso mediático com suspeição. uma vez que aquilo que caracteriza o campo dos media é ele fazer uma gestão de discursos. Publicidade  processo de tornar público Com a autonomização e com a constituição moderna dos campos sociais institui-se aquilo a que damos o nome de publicidade. A natureza tensional da relação entre os diferentes campos sociais está na origem da progressiva autonomização do campo dos media. estas estratégias tem que ver com a forma como os diferentes campos procuram repartir mas também aumentar a força da sua intervenção. embora não possam prescindir do campo dos media para a imposição da sua visibilidade publica. A publicidade é o processo de tornar público resultante da compatibilização entre a legitimidade dos diferentes campos sociais. A cooperação funciona como uma modalidade dissuasora das diferenças e no fundo pressupõe a anulação das especificidade de cada campo fazendo da neutralidade um valor fundamental. Não nos podemos esquecer de que o discurso assume também uma função pragmática na medida em que consiste num conjunto de actos de linguagem mas que correspondem a um fazer. 27 . Quando se acentua a pretensão de dois ou mais campos de imporem a sua ordem axiológica assistimos ao desenrolar de uma modalidade estratégica conflitual. a uma intervenção dotados de efeitos que se repercutem no conjunto da sociedade. acusando-o muitas vezes de não respeitar a autenticidade e o rigor dos seus discursos especializados e de atraiçoar os seus valores. O campo dos media é um aliado poderoso dos outros campos sociais mas nem sempre essa relação é pacífica porque. O efeito mais notável que o campo dos media exerce sobre a nossa experiencia do mundo é o chamado efeito de realidade. Modalidade de cooperação  Modalidade de conflito Nas sociedades complexas. O campo dos media constitui-se na modernidade como um campo relativamente autónomo associado ao desempenho das funções de regulação indispensáveis à gestão das relações entre os diferentes campos sociais. É assim que não gere propriamente um domínio de experiencia específica mas um domínio constituído por uma parte dos domínios da experiência que os restantes campos sociais delegam. É por isso que dizemos que o campo dos media possui uma legitimidade de natureza delegada ou vicária.

altura em que o planeta fica inteiramente coberto pelos satélites de telecomunicações que estão na origem das actuais redes de informação mediática. O campo dos media é uma instituição fluida e disseminada (transversal) pelo conjunto do tecido social e cuja consumação ocorreu efectivamente apenas na década de 80 do século XX.O termo MEDIA adquire um sentido mais abstracto daquele que supõe a expressão mass media. Consumação dos media  expansão das telecomunicações 28 . Media trata de designar a instituição que se autonomiza na modernidade que é dotada de legitimidade para entender a gestão dos dispositivos de mediação de experiencia e dos restantes campos sociais.

é por isso que a comunicação não pode ser vista apenas como instrumento para transmitir informação. simbólico e transhistórico. Privado “Privatus” Oikos – relações de propriedade e de domínio do senhor esfera privada = oikos Público “Publicus” Pólis – área do domínio público. sendo essa responsável por deitar as normas do dizer e do agir dos actores sociais. Os processos comunicacionais estão intimamente relacionados com a constituição de uma esfera pública. elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade. O conceito de espaço público como um espaço discursivo. a fim de discutir com ela as leis gerais da troca na esfera privada. mas directamente contra a própria autoridade. HABERMAS É a partir da segunda metade do século XVIII que assistimos ao aparecimento da categoria da opinião pública e da sua institucionalização como campo autónomo de legitimidade. A esfera política é entendida como o conjunto de discurso e de acções que interferem na experiência da interacção e da sociabilidade. A comunicação é sobretudo o processo instituinte do espaço público em que se desenrolam as acções e os discursos e que se configura uma logomaquia. palavra e acção esfera pública = pólis Na cidade de estado da democracia grega. Neste sentido. individual inclui o trabalho e a actividade económica (o estado não interfere aqui) 29 . A esfera publica literária não é autoctonemente burguesa.Mudança Estrutural da Esfera Pública. Esfera da Pólis separada comum a todos Esfera da Oikos particular. podemos dizer que a esfera pública é o espaço em que o jogo das interacções sociais ganha visibilidade social. prevalecem as relações de propriedade e de dominação dos senhores da casa sobre as mulheres. mas publicamente relevante. A partir da esfera pública literária assistimos ao aparecimento da esfera pública política. as crianças e os escravos. A opinião pública só pode por definição existir quando um público que faz uso da razão está envolvido. surge separada da esfera privada designada por oikos. A esfera pública burguesa pode ser entendida inicialmente como a esfera das pessoas privadas reunidas em público. A praça pública é o local para debater os assuntos relativos à governação da cidade e desenvolver as artes da retórica. é a opinião pública devidamente fundamentada que promove a força do melhor argumento. ela preserva uma continuidade em relação à representatividade pública da corte. a esfera pública é designada por pólis.

Os cafés. É a partir da 2ª metade do século XVIII que assistimos ao aparecimento da categoria de opinião pública e da sua institucionalização como campo autónomo de legitimidade. os clubes. esfera do poder político Sector privado Sociedade civil Estado Economia/Mercado/Trabalho Administração/Exército Família Aristocracia Esfera íntima Esta experiência do espaço público nasce na arte e na literatura  esfera pública literária. A partir da esfera publica literária assistimos ao aparecimento da esfera pública política. O critério é o uso da razão no âmbito de um espaço comunicacional e por isso o espaço público moderno deve a sua configuração e consagração às primeiras 30 . O senhor feudal representa a ordem colectiva que se torna visível através da ostentação dos seus atributos e símbolos. Com a Modernidade. os salões. cujo objecto é a discussão de ideias. A primeira experiência social de uma esfera pública surge no âmbito da cultura. surgem novas organizações económicas na sociedade devido à autonomização das esferas públicas e privadas  surgimento da classe mercantil  processo de laicização da igreja  consolidação da economia burguesa  parlamentarização da vida política Esta esfera publica vai surgir como um espaço de mediação entre a esfera do poder politico (representado pelo Estado e responsável pelas decisões políticas que dizem respeito à sociedade) e à esfera íntima. são os locais onde as correntes de opinião se formam a partir da discussão de opiniões controversas. a autoridade pública e privada fundem-se numa unidade inseparável já que ambas são a emanação de um único poder que é o poder do senhor feudal.Na idade Média. A experiência no campo das artes estende-se ao campo da política. A opinião pública só pode por definição existir quando o público que faz uso da razão está envolvido. Destas discussões emanam textos que a imprensa depressa divulga.

O conceito de opinião pública é inerente a um processo comunicativo. conhecimento. O uso da razão e o espírito iluminista (liberdade. abertura e democracia. O surgimento da esfera pública burguesa do século XVIII traduz uma mudança da base de legitimação do poder e por isso a tarefa desta esfera é a regulamentação da sociedade civil e enfrenta a autoridade de monarquia estabelecida contestando o seu poder. Prevalece o uso público da razão articulado por indivíduos privados que ao participar em discussões abertas e francas obrigam o poder público (o Estado) a se legitimar perante a opinião pública. emancipação). Esta esfera publica opõem-se às praticas políticas consagradas pelo estado. Os cidadãos entravam na esfera pública com base na autonomia que lhes era conferida pelas suas vidas privadas e relações cívicas. progresso. Princípios de funcionamento da esfera política correspondem a princípios de orientação no sentido de um ideal tipo e não propriamente a uma realidade objectiva:  paridade na argumentação (igualdade de estatuto dos participantes – universalidade de acesso) baseia-se na autoridade dos argumentos  a laicização da cultura que depois se estendeu à política (abertura temática) – a autoridade vai cedendo o lugar à discussão racional  o não fechamento do publico (abertura de participação) A emergência de uma esfera pública politizada no século XVIII que é responsável pela constituição de uma opinião pública enquanto opinião devidamente fundamentada e que reivindica a possibilidade de intervir nos processos de decisão suscitando debates e questionando a legitimidade das decisões políticas exercidas segundo formas absolutistas do exercício da soberania. Esta experiência de tornar comum todo um conjunto de experiências privadas transita posteriormente para a esfera pública política e consagra o espaço público como espaço da racionalidade.esferas públicas burguesas constituídas por pessoas privadas que se reuniam em salões. O surgimento do direito moderno que consagra a diferença entre direito público e direito privado. da igualdade. a crítica (auto-reflexão sobre a própria sociedade). Quais são os critérios de funcionamento da esfera pública política? A esfera pública surge como um espaço de mediação entre o Estado e a sociedade civil da qual emerge uma opinião publica resultado do exercício da racionalidade comunicacional que se exerce fazendo uso das práticas da publicidade e da crítica. realizada a partir da autonomização da uma opinião – a opinião publica – devidamente fundamentada que promove a força do melhor argumento. publicidade ( tornar público) afronta as práticas do segredo do Estado. É a partir do século XVIII que a esfera pública burguesa conquista a sua dimensão política regulamentando a relação entre o Estado e as necessidades da sociedade civil. Traz o conceito rigoroso de lei que assenta na generalidade. cafés para trocar experiências. Com este conceito todos tem direitos e deveres. abstracção e racionalidade. 31 . A opinião pública só pode por definição existir quando um publico fizer uso da razão.

No início o jornalismo é um jornalismo de opinião. perante a comunicação como exercício privilegiado da publicidade. A publicidade começa também a ser utilizada. surge o processo de socialização do Estado  privatização do Estado. os discursos que se ouviam nos cafés. O imperativo supremo destas empresas passa a ser o aumento das tiragens. ou seja. É inevitável falar de esfera pública política sem falarmos de jornalismo. salões. Esta mudança leva ao declínio da esfera pública e um processo de interpenetração entre o estado e a sociedade que acaba por diluir a distinção entre público/privado. Transformações da Esfera Pública As sociedades sofreram transformações na esfera pública – o público como “sujeito” do discurso. porque aquilo que se escrevia era praticamente as frases. passa a “objecto” dos discursos = “massa”. O consumismo cultural surge enquanto dissolução da dicotomia público/privado. …) e portanto o consumo colectivo substitui o consumo público. XIX) que trazem consigo interesses privados de lucro e a orientação da empresa jornalística. na íntegra. A palavra “privado” passa a dominar apenas a esfera íntima. á publicidade como objecto de consumo. Com o surgimento dos audiovisuais assistimos cada vez mais ao solipcismo da recepção. a transferência progressiva de competências do Estado para corpos corporativos da sociedade civil. No sentido inverso. O espaço público é eminentemente um espaço discursivo. Inicialmente quem escrevia nos jornais eram os escritores e não os jornalistas (porque não haviam). Assistimos á passagem do público que pensa a cultura para o público que consome a cultura. A 3º fase da imprensa caracteriza-se pelo surgimento da burguesia jornalística como empresa capitalista (fim do séc. por isso. porque a comunicação surge como o espaço simbólico fundamental da esfera pública. sociedade. á encenação do debate e da discussão. a solidão na recepção. Isto ocorre num processo sucessivo no tempo. estamos.A esfera publica progressivamente assume-se como um sujeito de enunciação e um sujeito de legitimação. A opinião publica sofre uma profunda transformação em duas direcções opostas: uma enorme expansão e um enfraquecimento da sua força política autónoma. A diversão e a distracção enquanto adesão imediata surgem também como forma de inibição do raciocínio crítico. portanto. assistimos á dissolução dos centros convencionais de cultura (cafés. numa estatização da sociedade e é no decorrer deste processo que surge o Estado Social. Tudo isto é sustentável. Ele diz que a expansão do consumo trás consigo também a degradação da qualidade. Cada vez mais a opinião pública surge como objecto de estratégias de manipulação (transposição para o campo da comunicação politica do marketing comercial). 32 . A simplificação dos conteúdos trazem consigo o esvaziamento político da imprensa. A desprivatização da esfera íntima a partir da hegemonia da lógica do lucro.

Esta noção de deliberação é essencial na concepção de Habermas de opinião pública (resultante da troca do uso público da razão. A opinião continua a constituir o suporte principal da legitimação do poder mas passou de estatuto de função crítica ao estatuto de função aclamativa. podemos falar de um esvaziamento politico do conceito. mas que não chega á sua neutralização. A deliberação significa decisão precedida de um processo de discussão. A esfera pública constitui-se como a base institucional de formação da opinião pública. mesmo apresentando-se de forma substancialmente diferente. por um lado uma enorme expansão. A função de legitimação resiste a este processo de mudança e no Estado social das sociedades actuais a opinião pública continua a construir o suporte principal de legitimação do poder. Portanto. Acaba por ser a diluição do público e a convergência da massa. por outro o enfraquecimento da sua força politica autónoma. A utilização da designação “esfera pública” mantém-se por comodidade. Em consequência das transformações em curso. a nova esfera pública (pseudo esfera pública) é conferido um valor cada vez maior em termos do direito moderno. Habermas insiste nos processos de mútuo esclarecimento que precedem a tomada de decisão política. 33 . ela constitui-se como um espaço social gerado pela acção comunicacional. simultaneamente. A questão que surge é: Qual o futuro das democracias? Habermas caracteriza esta transformação como passagem de uma opinião pública enquanto realização da razão prática sistemática de raciocínio crítico e reflexivo a uma opinião pública sujeita a um senso comum intelectualmente pobre. já que a nova esfera social apenas remotamente remete para o modelo da esfera pública moderna (burguesa). pelo contrário. Habermas  Nova teoria crítica LuhmanInspira-se no quadro teórico da teoria dos sistemas A opinião pública e os processos de legitimação. Isto coloca-nos perante as ambivalências do espaço público contemporâneo reflectem em sinais contraditórios: consolidação de uma base de legitimação quantitativamente cada vez é maior. ela também é qualitativamente mais débil.Passamos da opinião pública como forma de constituição da vontade colectiva para uma pseudo opinião pública. implica um processo no fim do qual se chega a uma decisão). Habermas O que interessa nos processos públicos de comunicação é a prática dialogicamente discursiva da deliberação que está na origem da opinião publica enquanto poder comunicativo. Isto traz a ideia que esta esfera pública é um campo de conflito social onde têm lugar importantes debates sobre o futuro das nossas sociedades. O seu exercício é irregular. a opinião pública sofre uma mutação profunda em duas direcções contraditórias. o essencial é o processo discurso racional para se alcançar a verdade É nessa troca de diferentes perspectivas de verdade que se poderia chegar a uma verdade resultante dos processos de discussão.

articulando a proposta do estrutural funcionalismo como a teoria dos sistemas. Luhmann A teoria de Luhmann permite-nos compreender como as coisas funcionam. Cada um deles desempenha funções especificas e cada um pressupõe que outras funções são desempenhadas por outros sub-sistemas. A abordagem de Habermas enquadra-se mais numa visão que podíamos designar de crise do processo de legitimação nas sociedades actuais. Nas sociedades actuais confrontamo-nos com a necessidade de tomar decisões mais incertas devido às inúmeras possibilidade existentes. …). jurídico. A comunicação destina-se a produzir a eficácia simbólica generalizante que torna possível a regularidade da vida social sob a forma de uma organização sistémica. a comunicação é o dispositivo fundamental da dinâmica dos sistemas sociais. Luhmann entende a sociedade como um sistema composto por vários subsistemas sociais (económico.Esta esfera pública filtra e sintetiza os fluxos comunicacionais e opiniões públicas tematicamente específicas. sem comunicação não há sociedade. a comunicação é vista como um processo iminentemente selectivo que se desenvolve em 3 níveis: produção de um conteúdo informativo (nível semântico). propõe uma perspectiva da sociedade enquadrada como um sistema e está centrado em estudar as sociedades complexas. Logo. O seu objectivo é produzir a eficácia que torna possível a regularização da vida social em sociedade cada vez mais complexas. Tal facto gera interdependência e cooperação contribuindo para a integração e funcionamento do sistema social que é a sociedade. e dizer isto quer dizer sociedades com cada vez maior grau de incerteza. À luz desta perspectiva. a sua difusão (nível técnico) e a aceitação desse mesmo conteúdo (nível eficácia). 34 . a visão de Habermas é uma visão preocupada com as sociedades enquanto possibilidade radical de transformação. Este enquadra-se no funcionalismo sistémico. funciona também como um sistema de detecção de problemas sociais e ainda é capaz de problematizar os problemas por si detectados e apresentar possíveis soluções de modo a serem encaradas como temas de discussões públicas [FUNÇÕES DA ESFERA PÚBLICA] A esfera pública supervisiona o tratamento que o sistema político aplica a esses problemas. a comunicação é o dispositivo fundamental da dinâmica evolutiva dos sistemas sociais. porque a comunicação destina-se a produzir a eficácia simbólica generalizante que torna possível a regularização da vida social. A legitimidade das normas e das instituições sociais reside na possibilidade de acordo racional entre todos os potencialmente afectados e reside também num ideal de organização social em que não existe necessidade por parte do poder político de esconder nada aos cidadãos. ou seja. Luhman faz equivaler sociedade a comunicação na medida em que os sistemas sociais só podem existir quando há comunicação.

Assistimos ao surgimento de uma esfera social política que já não pode ser submetida nem à categoria de público. O público (o que produz a opinião pública) passa a ser substituída pelo conceito de massa. perante um paradoxo: ele diz que sem comunicação não há sociedade. As empresas tornam-se muito dependentes dos apoios do Estado. Este processo do Estado Social começa a ocorrer no fim do século XX/inicio do século XX. esse resquício do privado. o que levou a uma extensão da actuação do Estado. partidos e administração pública e o publico só esporadicamente é inserido neste circuito de poder e apenas para acalmar. nem de privado. A família acaba por ser desprivatizada e aquilo que resta da esfera privada acaba por ser reduzido à esfera íntima. velhice e doença passam a ser protegidos pela segurança social) O publico e o privado vão-se tornando indistintos e a família. portanto. portanto. também ela é desprivatizada através das garantia s publicas.Se perguntarmos a Luhmann se a comunicação é fácil a sua resposta é “não”. A sociedade civil perde a autonomia relativamente ao Estado. mas mesmo assim defende que a comunicação é improvável. O privado passa apenas a designar a esfera íntima. Existe uma relação entre a tendência para a concentração capitalista e um crescente intervencionismo do Estado na medida em que as classes mais desfavorecidas exercem pressões no sentido de obterem direitos sociais e políticos que as compensasse das desigualdades económicas. Por pressão das classes mais desfavorecidas. assistimos à passagem do público que pensa a cultura para o publico que consome a cultura. Estamos. No entender de Habermas. A mudança estrutural da família patriarcal burguesa do século XVIII consiste na sua radical separação da esfera do trabalho e nesse processo o rendimento familiar deixa de se fundamentar na propriedade e passa a depender de um trabalho assalariado e deixa de conseguir sustentar-se no caso de uma emergência ou mesmo na velhice. nomeadamente os de protecção dos seus membros. A esfera profissional evolui no sentido de um sector público. A família vai perdendo cada vez mais funções que lhes eram exclusivas. Um processo politicamente relevante de exercício do poder transcorre directamente entre administrações privadas. No lugar da esfera pública literária do século XVIII surge um consumismo cultural e. pois para ele a comunicação é algo improvável. Passa-se do consumo público para um consumo colectivo. o Estado é pressionado a intervir no ponto de vista dos direitos humanos e sociais. Perda de autonomia da sociedade civil perante a esfera pública. de educação e de orientação de condutas e de comportamentos (educação abrangente a todos. Transformações na esfera pública  Degradação do universo cultural: 35 . desemprego. enquanto a família que era a base de sustentação do sector privado recua/perde campo e tende a restringir-se à esfera íntima da vida familiar. este processo contamina também a esfera pública política – “existe a tendência para absorver a esfera pública plebiscitária através da esfera pública do consumismo cultural”.

 Expansão do consumo  degradação da qualidade O alargamento do público traz consigo a inibição da capacidade de participação e a restrição da discussão (limitação temática). existe um grau de incerteza. Improbabilidade: o sentido só se pode compreender em função do contexto e para um ele é o que a memoria lhe faculta. Para além desta. desprivatizaçao da esfera íntima  dissolução dos centros convencionais de cultura  consumo colectivo substitui o consumo publico: a realidade de massa: “passagem do público que pensa para o público que consome a cultura”  a encenação do debate e da discussão: o papel da publicidade na transformação do público em objecto consumidor de produtos discursivos. (eficácia) 36 . o que leva a muitas possibilidades. A esfera pública expande-se numericamente mas retrai-se ao nível da sua função crítica e de participação. Improbabilidade: é a de aceder aos receptores. há uma multiplicidade de contextos. Nem sequer o facto de a comunicação ter sido entendida garante que tenha sido também aceite pelo receptor. Habermas caracteriza esta transformação como a passagem de uma opinião pública enquanto realização da razão. Improbabilidade: é a de obter o resultado desejado. De opinião publica como forma de constituição de vontade colectiva a pseudo-opinião publica enquanto construção estratégica com função de interesses políticos. Por isso. prática sistemática de raciocínio crítico. devido ao isolamento e à individualização da consciência e da experiencia (subjectividade). A improbabilidade da comunicação Luhmann inúmera três níveis de dificuldade/improbabilidade que tem de ser superados para que a comunicação se realize e cuja própria superação Luhmann considera pouco provável: 1. Hoje. de onde resulta a improbabilidade de alguém compreender o que o outro quer dizer. Em sociedades complexas. o exercício de uma racionalidade comunicacional para uma opinião publica sujeita ao senso-comum. devemos escolher entre todas as possibilidades o conteúdo informativo. 2. A improbabilidade da compreensão mútua – é disso que se trata. Por resultado desejado entende o facto de que o receptor adopte o conteúdo selectivo da comunicação (a informação) como premissa de seu próprio comportamento. a atenção só é garantida em situação de interacção. De opinião publica passa de estatuto de opinião publica ao estatuto de função aclamativa. A técnica pode ser elaborada pelos media 3. tal torna improvável a captação de atenção necessária para que a comunicação se produza. quando há a interposição da técnica a atenção varia com os interesses dos indivíduos.

por sua vez. ou seja. Luhmann sustenta que os processos de legitimação nas sociedades complexas não aspiram à recuperação da racionalidade 37 . a legitimidade das decisões não pode ser resolvida no âmbito político geral da democracia ou de consenso conscientemente estabelecido mas reporta antes de mais à questão da aceitação das decisões e ao modo como essa aceitação pode ser constituída. Cada sistema social forma o seu próprio médium simbolicamente generalizado que regula e normaliza as suas relações Dentro desta lógica que Luhmann defende aquilo que vamos chamar a legitimidade pelo procedimento. por meio da participação sem procedimentos. Face à complexidade social e ao imperativo do funcionamento do sistema social. Estes media simbolicamente generalizados operam como verdadeiros substitutos da linguagem de forma a garantir a operatividade e a eficácia na funcionalidade dos sistemas. ambas asseguradas por antecipação. pelos procedimentos que os indivíduos são chamados a desempenhar. definindo padrões de relacionamento e entendimento humano. a sua compreensão torna-se mais difícil e é mais fácil. mas também a sua aceitação. assim. implica que não existe nenhum meio que facilite directamente um progresso constante de entendimento entre os homens.Estas três formas de improbabilidade reforçam-se mutuamente porque quando a comunicação foi correctamente entendida dispõe-se de maior numero de motivos para a rejeitar. Garante a realização das decisões e contruibui para abolir as perturbações”. Os procedimentos constituem-se. a linguagem e os meios de comunicação não resolvem o problema. reduzindo a complexidade e a incerteza. “O procedimento possibilita e realiza a comunicação. são meios de circulação de sentidos legítimos que regulam as relações sociais próprias de cada sub-sistema. A legitimidade é associada á certeza da decisão. e se a comunicação transborda o circulo dos presentes. É neste sentido que ele cria a tese de legitimação pelo procedimento referindo-se a uma sociedade que já não legitima seu direito por meio de uma racionalidade comunicacional. como verdadeiros sistemas de acção na base dos quais não é apenas garantida a tomada de decisão. Legítimos são as decisões nas quais se pode supor que qualquer terceiro espera que os normativamente atingidos se ajustem cognitivamente ás expectativas normativas transmitidas aqueles que decidem. vê a legitimidade como uma função sistema. mas sim ou principalmente. assegurando a aceitação das decisões. Ao contrario de Habermas. ou seja. Esta lei segundo a qual as improbabilidades se reforçam mutuamente e as soluções dos problemas num aspecto reduzem as possibilidades de solução dos outros. Para Luhmann. A sua teoria requer um conceito que designe a totalidade dos mecanismos que servem para transformar a comunicação improvável em provável. e esse conceito é o de meios simbolicamente generalizados. A legitimidade institucional reside na possibilidade de supor a aceitação. No fundo. e constitui nessa medida um principio de eficácia indispensável á viabilização dos sistemas sociais. que se produza a rejeição. A eficácia destes processos é garantida pela participação dos sujeitos.

não tem qualquer validade hoje em dia. Para Habermas. a legitimidade nos nossos dias deve ser entendida como uma função sistémica. sobre o funcionamento da comunicação. Na concepção de Luhmann. SAPERAS 38 . «Da discussão não nasce a luz». e a comunicação destina-se a produzir a eficácia simbólica generalizante que viabiliza a regularidade da vida social. ou seja. A opinião pública manifesta-se como o resultado de uma limitação temática que lhe confere a sua estrutura. A comunicação é um processo eminentemente selectivo. Estamos perante uma concepção que rompe de forma radical com as referências tradicionais sobre os estudos. não se prende com a necessidade de justificação normativa imposta pelas motivações dos sujeitos mas circunscrevese apenas à garantia da regularidade da tomada de decisões. Luhmann parte do pressuposto que o quadro liberal burguês. Luhmann. Efeitos cognitivos da Comunicação de Massas.da estrutura comunicativa. Nesta proposta de Luhman estamos perante uma concepção muito particular de comunicação: não são os indivíduos enquanto tais que são considerados o sujeito da comunicação. É dentro deste contexto teórico que o Luhmann apresenta a opinião pública entendida como processo de comunicação próprio do sistema político e como mecanismo de redução da crescente complexidade do sistema social. por meio do livre estabelecimento da comunicação não se pode alcançar nenhum objectivo. aceitação das decisões. no qual as questões da legitimidade nas sociedades modernas começaram por ser equacionadas e que o Habermas continua a achar pertinente. são os sistemas sociais. a legitimidade circunscreve-se à garantia de regularidade de tomada de decisões e formas elementares de sentido simbolicamente generalizados que crê poder fornecer aos sujeitos a motivação mínima necessária que garante a sua colaboração. destinado a normalizar as relações sistemáticas.

O sistema político utiliza a opinião publica para se observar a si mesmo e manifesta-se como o resultado de uma limitação temática que lhe confere a sua estrutura. Considerando que a atenção é limitada e o meio extremamente complexo. a opinião publica como resultado do processo de tematização permite a comunicação entre os indivíduos. investigações que vieram reformular a teoria de efeitos dos media (EUA. Itália). A opinião publica manifesta-se como uma estrutura formada por temas institucionalizados. apontando soluções possíveis e opiniões que esses temas podem gerar. fundada no facto de que perante um numero ilimitado de temas podem ser veiculadas pela opinião publica mas dada a atenção do publico só se manifestar de forma limitada. a relação entre o sistema político e a opinião pública é bastante próxima na medida em que a opinião publica constitui para o domínio político um dos mais importantes sensores cuja observação substitui a observação directa do ambiente. aquilo que se está interessando em perceber é que influencia. Os media canalizam a nossa atenção para determinados temas em deferimento de outros. Alemanha. A opinião publica surge como uma estrutura temática de comunicação publica – uma estrutura formada pela selecção contingente de temas (tematização). obedecendo a uma valoração de relevância por parte dos meios de comunicação em função das necessidades do sistema político. A opinião publica é o processo de comunicação próprio do sistema político e funciona como o mecanismo de redução da crescente complexidade e da acção que este implica. que tem inicio e fim e ocorre num tempo limitado. entre 1970 e 1986. A opinião publica assume a função de mecanismo – guia do sistema politico . ou que atitude têm os media nas pessoas a nas suas atitudes. Essa reformulação tem a ver com a ideia de que se pratica a ideia da comunicação ser um acto intencional.Luhmann: tematização e opinião publica De acordo com a teoria dos sistemas de Luhmann. reclamando a sua atenção para um numero limitado dos temas existentes no meio complexo. A opinião publica é concebida como uma estrutura temática de comunicação publica. 39 . mas estabelece os contornos daquilo que vai sendo possível. Opinião publica e efeitos cognitivos Estudos sobre os efeitos da comunicação de massas:  Teoria dos efeitos totais ou ilimitados  manipulação  Teoria dos efeitos limitados  persuasão – influencia Desenvolveram-se.que não determina nem o exercício do poder nem a formação de opinião. obedecendo a uma valoração de relevância por parte dos meios de comunicação de massas em função das necessidades do sistema político. é possível compreender o efeito das mensagens veiculadas pelos media.

Isso implica metodologias de âmbito alargado e metodologias de longo prazo. Reconhece-se que os indivíduos e os grupos sociais necessitam de uma grande quantidade de informação que lhes permita reconhecer o seu meio e adoptar-se às suas mudanças para determinarem as suas estratégias de decisão 2. pois só assim se pode explicar e compreender os efeitos da comunicação de massas a partir não só do que ele chama de actividades persuasivas.  Os media não me dizem o que pensar mas têm um efeito fundamenta porque definem temas em que podemos pensar  Necessidade de ser mediatizado/representação da realidade  Sem informação não há possibilidade de ter qualquer tipo de opinião Tipologia dos efeitos cognitivos da comunicação de massas:  Efeitos cognitivos da capacidade simbólica dos meios de comunicação de massas para estruturar a opinião pública  Efeitos cognitivos resultantes do conhecimento social Causas que motivaram a mudança de orientação no estudo dos efeitos (e do poder) dos media Causas contextuais 1. Três premissas interligadas com a opinião e espaço público: 1. saberes) vinculados aos fins e orientações normativos dominantes (cada campo social procura impor as atitudes e valores que devem ser a norma) 3. discussão e atenção. Transformações do sistema comunicativo dos media – consolidação da televisão como meio de comunicação hegemónico 40 . Saperas diz que a partir da década de 70 procurou superar o estudo dos efeitos directo dos mass media nas atitudes e opiniões da audiência.Metodologia de curto prazo e de âmbito restrito. Se quando se tratava de perceber os efeitos persuasivos se procurava perceber a influencia que tinham os media na opinião e na atitude. Trata-se de perceber os efeitos dos media na definição dos temas de reflexão. Reconhece-se que os meio de comunicação actuam precisamente como instituições mediadoras entre a população e a realidade e entre a população e as instituições que protagonizam os processos de decisão pública. tomando em consideração os efeitos indrectos e cumulativos que incidem sobre os conhecimento de uma comunidade possui sobre o seu meio  teoria dos efeitos cognitivos Definimos efeito cognitivo dizendo que se trata do conjunto de consequências que derivam da acção mediadora dos meios de comunicação de massas sobre os conhecimentos públicos partilhados por uma comunidade. Reconhece-se que o sistema social necessita de uma distribuição selectiva de conhecimentos públicos (todo o tipo de informações. quando falamos em efeitos cognitivos falamos numa outra realidade. no sentido em que se isola a mensagem e procura compreender-se logo o seu efeito. mas também de actividades cognitivas.

Transformação na organização da investigação (modificações na investigação da própria comunicação) Causas internas 1. Modificações que ocorrem do próprio sistema político das sociedades – diluição das relações entre as pessoas e os partidos políticos. Alargamento no âmbito restrito dos media 5.2. Efeitos da comunicação de massa na opinião publica 3. Âmbito restrito para um âmbito alargado. Persuasão vs cognição 2. 3. Consideração da influencia indirecta exercida pelos meios de comunicação de massas 7. a transformação do sistema político afecta as suas instituições que passa a ser mediada pela comunicação social e não pela comunicação directa com os indivíduos. Refutação parcial das capacidades selectivas dos membros da audiência 6. Integração no estudo dos efeitos da comunicação de massas da investigação sobre aspectos jornalísticos 41 . passar de efeitos de curto prazo para efeitos de longo prazo e indirecto 4.

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