A Importância do Questionamento Teórico Na Construção das Poéticas Contemporâneas.

Sarah Santos1

Quando o rubor de um sol nascente caiu pela primeira vez no verde e no dourado do Éden Nosso pai Adão sentou-se sob a Árvore e, com um graveto, riscou na argila; E o primeiro e tosco desenho que o mundo viu foi um júbilo para o coração vigoroso desse homem. Até o diabo cochicar, por trás da folhagem, “É bonito, mas será Arte?”

(Rudyard Kiplin)

Diversas dúvidas se apresentam a todos que se interessam mais demoradamente pela produção contemporânea em arte- mais especificamente em artes visuais - seja por simples curiosidade e deleite da experiência do fruir arte e do colecionar, ou pelo envolvimento profissional com a mesma, que além da produção artística, também abrange a arte/educação, a crítica de arte e a comercialização. Certamente cada uma destas atividades traz em si níveis distintos de questionamentos, bem como diferentes níveis de necessidade em aprofundar-se em uma ou mais especificidades de conhecimento

teórico/prático. De qualquer forma, é uma característica intrínseca à arte contemporânea esta necessidade de se pensar e repensar, este

questionamento que vai com ela a qualquer lugar e a torna o que é, ou o que pretende ser. Em primeiro lugar, é preciso pensar no que é arte contemporânea, onde estão seus limites, suas características básicas, que compõe o roteiro de leitura mental que nos faz olhar uma obra e dizer que o que é visto ali é uma
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Acadêmica do curso de Licenciatura em Artes Visuais da Faculdade de Artes do Paraná

(FAP/UNESPAR) e integrante de grupo de pesquisa NAVIS – UNESPAR/UFPR

Diversidade de temas. tema. Ora. E ele ainda é pequeno. em práticas e técnicas pré-determinadas. Tal diversidade que tornou pequeno demais o termo “artes plásticas” e a este se precisou dar um espaço maior para abranger manifestações nãotáteis. E gera equívocos imensos. Isto significa que lendo este ou aquele autor eu poderei conhecer e entender completamente a arte contemporânea? Certamente a resposta é não. Mas isto não nos autoriza. a body-art . Aí já vemos claramente a necessidade da sustentação teórica que pode então nos ajudar a sair deste embate tautológico. em fórmulas teóricas. E porque haveríamos de reinventar rodas justamente agora. . Produzir nos dias de hoje também não é sair em busca do novo. que assim chamamos por falta de um termo melhor. Certamente isto acaba sendo um conceito deveras simplista e que corre o risco de nos levar à discussão infrutífera do “tudo é arte/nada é arte”. o poeta russo Maiokoviski versava que “nada de novo há no rugir das tempestades”. de conceitos. recoloca o artista no mundo. a arte contemporânea. e num mundo onde a palavra chave é a diversidade. não plásticas. então? Muito além da busca pela autonomia do artista que se via na arte moderna. este ou aquele tema não cabem na arte contemporânea. muito menos apontar dedos inquisidores sobre este ou aquele artista porque em nossas convicções esta ou aquela técnica. o termo “contemporâneo” tem um significado bastante claro. a dizer que a ela qualquer coisa serve. escolas com características delimitadas. a vídeo-arte. que pode nos fazer afirmar sem dificuldade alguma que todo objeto artístico produzido hoje é arte contemporânea.obra de arte contemporânea. como tantas outras questões na contemporaneidade da arte. como a performance. O aprofundamento teórico. especialmente o produzido e debatido coletivamente não nos dará este roteiro de como conhecer e entender arte contemporânea justamente porque uma de suas características principais é que ela não se enquadra em roteiros específicos. suporte. de questionamentos. Não delimita tempo. manifestos. Mas o que é arte atualmente. espaço. Já no início do século XX. por outro lado. Não cabe em regras. de técnicas. os happenings e tantas outras linguagens que foram abraçadas pelo conceito de “artes visuais”.

utilizando-se de um processo considerado bastante moderno em comparação com a tradição milenar de algumas técnicas. passando por cima dos marchands e transformando a comercialização da arte em espetáculo. de feitio artesanal de casas das dinastias Ming e Qing. O historiador de 2 Os artistas aqui citados foram listados pelos críticos e curadores Agnaldo Farias (29 Bienal de São Paulo ). subvertendo toda a lógica do mercando. por acaso. embaixo de grandes pontes.Vejamos alguns exemplos. Olafur Elisson extrapola os limites das galerias trabalhando com intervenções de gigantescas proporções em espaços urbanos. questionando a esfera pública e privada de se pensar a natureza. por exemplo. E sim. enquanto Damien Hirst organiza seu próprio leilão. . questionando a vida moderna que faz com que estejamos alheios até mesmo aos lugares onde passamos diariamente. que levou a catarse ao extremo ao destruir completamente um automóvel modelo Maverick na 25 Bienal de São Paulo? A diversidade de possibilidades não nos exime da possibilidade de gostar ou não gostar de algo. como. A chinesa Ai Wei Wei. em matéria especial para revista BRAVO. na obra “The New York City Waterfalls”. onde o artista inseriu cachoeiras enormes em cima de prédios. buscando fazer com que os cidadãos passassem a perceber de outra maneira o seu entorno. acusar o artista africano Yonamine por usar Basquiat e Warhol como referência para suas pinturas e colagens? Ou o coletivo Assume Vivid Astro Focus por promover festas psicodélicas em lugares como o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles e chamá-las de performance? Ou Takashi Murakami por produzir pinturas e esculturas que chama de Toy Art? Não. considerados pelos críticos2 como os grandes artistas deste começo de século. Inversamente. e outros lugares onde jamais se pensaria uma cachoeira. Não é porque estes citados foram os eleitos da crítica que devem ser os eleitos pessoais de cada um de nós. Fernando Oliva (também editor do Caderno Sesc Vidoebrasil 6) e Rodrigo Moura (Instituto Inhotim – MG). Alguém poderia. critica as construções modernas expondo fotografias de portas e janelas antigas. que é a fotografia. a brasileira Renata Lucas insere um jardim dentro da Tate Modern Galery. E o que dizer da performance do coletivo Chelpa Ferro.

os desafios. Por si só. debater coletivamente e confrontar tais conhecimentos com suas próprias práticas. problemas.arte E. é certamente uma forma de potencializar a própria construção poética. a prática educativa. Conhecer o processo histórico que trouxe o fazer artístico ao patamar onde ele se encontra. Gombrich nos diz que não há motivos certos ou errados para se gostar de uma obra. as definições. . as regras. Nisto também reside a beleza da arte de nossos tempos. que é o questionamento teórico. as características subjetivas. os significados. especificidades estéticas. ou qualquer outra forma de envolvimento que o sujeito possa ter com o fazer artístico. mas há motivos errados para não se gostar desta ou daquela obra. um motivo mais do que justo para utilizar este poderoso instrumento. entender os processos produtivos da atualidade.

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