7371229 Evangelico Robin Jones Gunn Serie Cris 11 Coracao Partido

Série Cris Coração Partido

Título original: Sweet Dreams Tradução de Elizabeth Gomes Editora Betânia, 1998 Digitalizado por deisemat Revisado por deisemat

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Coração Partido 9

Robin Jones Gunn

Para meu irmão, Dr. Kevin Travis Jones, e sua esposa, Drª Carol Pierce Jones. Obrigada por serem provas vivas de que ninguém é velho demais, culto demais ou ocupado demais que não possa parar e passar algumas horas sonhando com Ted e Cris.

O que Mais Poderia Dar Errado? 1

- As capitãs dos times têm de estar na frente! disse Cris Miller às jovens enfileiradas para a fotografia da equipe de vôlei feminino. Era a foto oficial do anuário do Colégio Kelley. Jogando para trás os cabelos castanhos e fechando um olho, Cris examinou o grupo na ocular de sua câmara fotográfica. Essa seria sua última foto para o anuário e ela estava ansiosa para terminar. - Cadê a Katie? E quem é a outra capitã? perguntou ela. - Sou eu, respondeu uma garota alta, apoiada no joelho, bem na frente. - Apertem-se mais à direita, gente. Aí. Está ótimo. Alguém sabe onde foi parar a Katie? - Ela não está no vestiário. Acabo de vir de lá, respondeu uma das garotas. - Provavelmente está com o Michael, observou uma menina na fileira do meio. - É isso mesmo, comentou outra. Se eu fosse me apaixonar, também queria um cara como ele. - Você os viu hoje? Indagou uma garota de cabelos loiros. Estavam com camisetas “Salve as Florestas Tropicais”. E ontem a Katie disse que o Michael estava se inscrevendo para fazer uma viagem pelo Amazonas com um grupo ambientalista. Aposto que ela vai junto.

O coração de Cris bateu mais forte. Estavam falando sobre sua melhor amiga. Katie não sairia pelas selvas sem antes falar com Cris. Pelo menos até seis meses atrás isso não aconteceria. Mas desde que Michael entrara na vida de Katie, ela se afastara um pouco da amiga. Ouvir aquelas colegas demonstrarem maior conhecimento da vida de Katie do que ela própria, feriu Cris como uma punhalada. - Tire a foto logo. Temos de voltar à aula, disse uma das garotas. - Tudo bem, disse Cris, e ajustou o foco. Podem chegar um pouco mais perto, vocês aí da fila de trás? Perfeito. Olhe aí, minha gente! Um sorrisão! Ela bateu a foto, e as meninas imediatamente se dispersaram. Apressando-se para voltar à sua sala, Cris pensou: Esse negócio de silêncio já foi longe demais. Vou falar com a Katie hoje e fazer o que for necessário para que nossa amizade volte ao que era antes. Dentro de poucos meses elas estariam se formando no colegial. Tinham passado juntas tantas experiências boas! Não podiam se afastar desse jeito, friamente. Tudo mudara no dia em que Katie conhecera Michael, e Cris não se esforçara muito para segurar a amizade. Claro, estava ocupada demais com seu próprio namorado, Ted. Ela esperara muito esse namoro. Agora, ela e Ted passavam juntos quase todo final de semana, e ela não sentira necessidade de resolver suas diferenças com Katie até esse momento em que as meninas do time de vôlei demonstraram estar mais a par do que se passava na vida de sua amiga do que ela própria. Acabando a aula, Cris começou a elaborar seu plano. Sabia em que lugar do estacionamento Katie deixava o carro, e resolveu esperar justamente aí. Quando ela aparecesse, Cris diria: “Agi muito mal por não ter apoiado seu relacionamento com o Michael. Sinto falta da sua amizade e quero achar um jeito me aproximar de você de novo." Era isso que diria.

Esperou ao lado do carro quase vinte minutos. Nenhum sinal de Katie. Dúzias de carros arrancaram, passando por ela, e o estacionamento ficou parecendo uma caixa de pizza vazia, com os poucos carros que restavam, espalhados como se fossem pedaços do recheio de pizza. Estava prestes a desistir quando ouviu o rugido do velho carro esporte de Michael chegando ao estacionamento. Vou dizer "Olá, Michael", vou sorrir e ser agradável com ele, disse a si mesma. Mas não teve tempo nem de olhar na cara dele. A porta do lado oposto abriu-se antes que ele parasse por completo. Katie saiu dele, batendo a porta. O carro de Michael partiu em disparada, e uma nuvem de fumaça do escapamento envolveu as duas na primeira vez em que elas se encontravam depois de mais de dois meses de afastamento. - Olá! Como vão as coisas? principiou Cris, sem jeito. Katie fitou-a com olhos vermelhos e inchados. - O que está fazendo aqui? - Bem, hã... você não foi participar da foto do seu time de vôlei para o anuário da escola. - Você esperou aqui só pra me dizer isso? - Não. Na verdade esperei aqui porque queria conversar com você. - Não acredito, replicou Katie sacudindo a cabeça, fazendo seus curtos cabelos cor de cobre balançarem como pingentes de seda. - Não acredita em quê? indagou Cris, dando um passo para trás. Katie não tinha dificuldades em expressar o que sentia, e parecia disposta a arranjar alguém para ouvir o que tinha a dizer. Só que Cris não queria ser esse alguém. - Não consigo acreditar! repetiu ela, vasculhando a mochila para pegar a chave do carro. Acho que não dá pra conversar com você agora. É esquisito demais! - O que é que é esquisito demais?

Katie ficou parada, os olhos verdes semicerrados, atenta à expressão da Cris. - É uma coisa demais de Deus pra mim no momento. Tenho de ir embora. Abriu a porta do carro, entrou e ligou. Cris não sabia se devia bater no vidro e tentar fazer com que Katie prestasse atenção ou se atravessava correndo o estacionamento, entrava em seu próprio carro e saía correndo atrás dela. Antes que tivesse tempo para resolver, a amiga engrenou o carro e largou em disparada. - "É uma coisa demais de Deus" - que será que ela quis dizer com isso? murmurou ao pegar seus pertences e sair andando pelo estacionamento vazio, até o seu carro. Será que escolhi mal a hora ou o quê? Está na cara que ela e Michael brigaram. Talvez depois que ela tiver tempo de se acalmar, eu consiga conversar com ela. Afinal de contas, por que fiquei esperando ao lado do carro dela? Eu devia ter telefonado. É mais fácil falar no telefone. - Cris! Uma voz conhecida ecoou pelo estacionamento. Era Fred, um dos fotógrafos do anuário. Fred era legal como amigo. Mas havia alguma coisa nele que a irritava. - Ainda bem que você está aqui. Conseguiu tirar a foto do time de vôlei? - Consegui. E estou sabendo que preciso entregar amanhã. - Que tal irmos juntos levá-la para aquele lugar que faz revelação em uma hora? A gente pode tomar uma Coca enquanto esperamos. Eu pago. - Não, obrigada, falou Cris destrancando a porta do carro e entrando nele. - Então um sorvete? sugeriu Fred em tom amigo. - Estou precisando ir pra casa. Tenho uma tonelada de trabalhos pra fazer. Eu vou passar num estúdio a caminho de casa e deixar lá. Amanhã pego. - Você está planejando ficar depois da aula amanhã pra terminar o layout, não está? - Claro. Estarei aqui.

- Consegui! exclamou o rapaz com rosto sorridente. Finalmente consegui que você dissesse "sim" a alguma coisa que eu disse. Vamos em frente, Cris! As coisas só podem melhorar. Então, você vai comigo ao baile de formatura? - Não! replicou ela. Era a décima-quinta vez que ele a convidava. Fred parecia não desistir nunca. - Não tem problema. Você ainda tem um mês e meio para mudar de idéia. - Amanhã a gente se vê, Fred. - Vou ficar esperando ansiosamente, respondeu ele, animado. Acenou e sorriu, exibindo o dente torto da frente. Em seguida, correu para seu carro estacionado do outro lado, sempre animado. Cris enfiou a chave na ignição. Nada aconteceu. Mexeu com a chave e tentou de novo. Absolutamente nada aconteceu. Não acredito! O que mais poderia dar errado? Saiu do carro e bateu a porta. Com passos firmes, voltou ao prédio da escola e telefonou para o pai. Uns quinze minutos mais tarde, ele chegou em sua caminhonete branca, metido no uniforme dos Laticínios Hollandale. Era um homem grandalhão, de cabelos arruivados e sobrancelhas grossas. Que vergonha ter de ligar para o pai para dar partida no carro! Ainda bem que não havia mais ninguém por perto. - Você deixou os faróis ligados? perguntou o pai, enquanto mexia nos cabos da bateria. - Acho que não. - Abra o capô. Vamos ter que dar uma recarregada na sua bateria. O pai de Cris acoplou as baterias dos dois carros, deixando a caminhonete ligada uns minutos. Depois disse a Cris: - Entre aí e ligue o carro.

Ela virou a chave e o motor funcionou no giro. Sorriu, aliviada e grata ao pai. Vergonha ou não, era bom ter um pai para salvá-la. - Eu vou atrás de você até em casa, disse ele depois de desligar os cabos e fechar o capô do carro dela. Chegaram em casa sem mais problemas. Ela agradeceu ao pai e foi direto para seu quarto. Jogou-se na cama. No mesmo instante, tocou o telefone. - Cris, gritou a mãe do corredor. É para você. Ela saiu andando devagar pelo corredor e pegou o telefone. Ouviu a voz conhecida do Ted perguntando: - E aí, como vão as coisas? - Nem pergunte. - Dia ruim? - Não começou ruim, mas as últimas horas foram bastante frustrantes. Cris se pôs a descrever os detalhes, eliminando a parte sobre o convite do Fred para o baile. - O pior, explicou, é que não sei o que fazer para acertar as coisas com a Katie. Tudo que eu tento dá errado. Acho que tenho de ligar pra ela ou ir até sua casa. Detesto quando as coisas ficam mal resolvidas desse jeito. - Boa idéia. Me conte depois como foi. - É só isso que você pode dizer? Não vai me ensinar o que eu devo falar? - Não. - Ted, não vai ser assim tão fácil. - Claro que vai. - Ela é capaz de gritar comigo. - E se gritar? Pelo menos vocês duas estarão se comunicando.

- Mas o que é que eu vou dizer? Falo de novo que ela não devia namorar o Michael porque ele não é cristão? Ela nem me escuta. Já tentei me aproximar mais dela e ajudá-la a ver que está errada, mas ela só me empurra pra longe. - Então solte as rédeas. - Soltar as rédeas? Como? - Escute, Cris, disse Ted, num tom firme mas tranqüilo, o que a deixou um pouco mais à vontade. Acho que, às vezes, a prova do verdadeiro amor numa amizade não é tentar segurar mais o outro, mas soltá-lo. Às vezes, quando paramos de tentar controlar tudo, Deus tem espaço para fazer o que ele tinha planejado há muito tempo. É como se ele estivesse esperando que saíssemos do caminho. - Então, você acha que tenho impedido Deus de agir? perguntou Cris, meio na defensiva. Ted fez uma pausa antes de responder. - Ninguém impede Deus, mas acho que a gente tem de abrir mão, soltar as rédeas e deixar que ele faça sua vontade. Cris deixou escapar um suspiro. - Está certo. Vou ligar pra ela e dizer que... não sei o que vou dizer. Mas vou ligar pra ela. Ore por mim, está bem? - Eu sempre oro, replicou ele. E com o seu "Té mais" de sempre, desligou. Cris fechou os olhos e imaginou Ted, seu namorado, alto, de ombros largos e pele bronzeada. E em seu coração via-o apertando o canto dos olhos azul-prateados e erguendo a cabeça como sempre fazia quando dizia "té mais". Ela sabia que era uma sorte ter um namorado como ele. Talvez fosse melhor dizer “uma bênção". Discou depressa o número de Katie antes que tivesse tempo para pensar. A amiga atendeu no segundo toque. - Olá! Sou eu. Pode me dar um minuto?

Após um instante de pausa, Katie quebrou o silêncio: - Por quê? Eu podia ter pensado um pouco e planejado o que ia falar! Pensou Cris. Soltou a primeira coisa que lhe veio à cabeça. - Katie, só quero comunicar que não vou mais tentar dizer-lhe o que deve fazer. Sei que tenho criticado o Michael, mas estou arrependida. Você me perdoa? Não esperava chorar, mas chorou. As lágrimas rolavam pelo rosto de Cris, que fitava as gotas caindo sobre o jeans enquanto esperava a resposta de Katie. - Não posso conversar com você agora, disse Katie em tom solene. Cris queria retrucar e convencer Katie de que precisavam falar agora. Ela se sentiria aliviada. Mas parece que não era disso que Katie precisava. Será que "soltar as rédeas" significava não insistir com ela, nem forçá-la a resolver logo as coisas? - Está certo. Tudo bem. Depois a gente conversa. - Prometo que mais tarde a gente se fala. Pra mim ainda não está na hora. - Tudo bem. Parecia que Katie estava chorando também. Antes de desligar disse um abafado "Muito obrigada". Depois de desligar, Cris permaneceu sentada, de costas contra a parede do corredor, por um bom tempo. Era tudo muito complicado. Todo mundo dizia que o último ano do colégio era o melhor de todos. Verdade, havia muita coisa maravilhosa, como| estar ao lado de Ted, trabalhar no anuário da escola, e o emprego na loja de animais. Mas esse conflito não resolvido sobre o Michael tinha arrancado um pedaço do coração de Cris. Ela perdera a amiga para um irlandês moreno, de intercâmbio estudantil, que nos últimos seis meses ocupara todos os minutos da vida de Katie. Escovou o cabelo para trás e secou os olhos azul-esverdeados com a palma da mão. Sentia que tinha acabado de perder sua melhor amiga. Talvez tivesse mesmo.

O Tomate Orgânico 2

Na manhã seguinte, Cris viu Michael junto ao escaninho dele, na escola. Respirando fundo, ela se aproximou com um sorriso. Se não pudesse fazer as pazes diretamente com a Katie, talvez conseguisse abrir a comunicação com o Michael. - Olá, Michael! - Bom dia. O sotaque irlandês fazia com que ele parecesse alegre, mas o rosto dizia outra coisa. Parecia ter acabado de se levantar, os cabelos escuros retorcidos em cachos despenteados na nuca. Estava de short largo, sandálias de couro e vestia a costumeira camiseta com a legenda "Salve as baleias". - Você viu a Katie hoje? - Não, respondeu ele. Cris hesitou ao ouvir a resposta curta e grossa, mas disse em seguida: - Não sei se é a hora é apropriada para perguntar isto, mas vocês dois estão bem? - O que foi que ela lhe disse? - Nada. Isso é que me perturba. Não tenho conversado com ela e sei que ontem depois da aula ela estava chateada. Eu só queria saber se estava tudo bem. - Escute aqui. Você não tem o direito, disse Michael, erguendo a cabeça numa atitude arrogante; a voz calma, mas o olhar sério. - O direito? arriscou Cris.

- Vou lhe dizer com franqueza. Sei que desde que eu e a Katie começamos a namorar, você tem estado contra mim. Agora ela acredita que de alguma maneira suas orações deram certo contra ela, você não tem o direito de chegar aqui que nem urubu, para catar a carniça. Cris estava abalada. - O quê?! exclamou ela, gaguejando. Tarde demais. Michael já tinha ido embora, abrindo caminho por entre a multidão do corredor. Eu não tenho o direito? O que você quer dizer, não tenho o direito? Sou a melhor amiga dela! A campainha soou alto acima da cabeça de Cris que teve vontade de dar um chute nela. Por que o Michael diria uma coisa dessas pra mim? Por que ele me chamaria de urubu? E o que ele quer dizer com "minhas orações deram certo contra ela"? O que será que está acontecendo? Correndo para o seu armário, Cris jogou os livros lá dentro. Sua vontade era se enfiar lá dentro também. Sua vontade de sumir aumentou quando ouviu uma voz conhecida chamar: - Srt.ª Cris! Tinha de ser o Fred. - O que é que há com a Katie? Ela estava furiosa comigo porque ficou sabendo que tiramos a foto do time de vôlei sem ela. - E o que foi que você lhe disse? - Eu disse que foi você que tirou. Não foi minha culpa ela não ter aparecido. - Maravilha, Fred! Muito obrigada. Agora ela nunca mais fala comigo! Cris bateu a porta do armário e marchou furiosa pelo corredor para sua primeira aula.

- Claro que ela fala! replicou Fred seguindo depressa atrás de Cris. Eu disse a ela que, se quisesse marcar nova foto, conversasse com você pra combinar com o resto do time. - E como é que vou conseguir isso? As fotos são pra hoje, Cris deixou escapar. De repente Cris se lembrou de que o rolo de filme ainda estava dentro de sua bolsa. - Não soube? Temos mais duas semanas. O Prof. Wallace ligou ontem para a gráfica e prometeu ao funcionário uma viagem ao Havaí ou coisa parecida se ele nos desse mais tempo. Você foi a única que conseguiu entregar sua parte dentro do prazo combinado. Todos os outros estão atrasados. - Então você está dizendo que hoje não precisamos ficar depois da aula para conseguirmos entregar o trabalho a tempo, e que só depende de mim reunir o time de vôlei novamente para outra foto? - É isso aí. Só mais uma coisa. O Prof. Wallace descobriu que faltam quatro páginas e perguntou se eu e você podemos fazer uma colagem de fotos. Eu disse que trabalharíamos juntos noite e dia até deixar tudo certinho. - Por que você disse isso pra ele, Fred? Ele parecia estar jogando verde para colher maduro. - Porque eu sou um cara legal e você está morrendo de vontade de passar uns bons momentos comigo. - Espere sentado, Fred! Cris correu para sua sala no momento que deu o último sinal. Sentou-se à carteira, sentindo-se horrível. Não devia ter falado daquele jeito com o Fred. Não iria querer que ninguém a tratasse assim. E hoje cedo Michael a havia tratado dessa maneira. Talvez fosse por isso que fora ríspida com Fred. Vou pedir desculpas antes da aula do anuário, pensou ao olhar para a folha que o professor acabara de distribuir.

Era uma prova. Ela tinha se esquecido completamente e não estudara nem um pouco. O dia não estava nem um pouco melhor, em comparação com a véspera. Só começou a melhorar à tarde. Ela encontrou o Fred na sala do anuário, inclinado sobre uma mesa coberta de fotos. - Fred, quero lhe pedir perdão pelo que eu lhe disse hoje cedo. Fui grosseira. Estou arrependida. Estou com alguns problemas, mas isso não é desculpa, disse Cris, caminhando ao seu lado e tocando gentilmente o braço dele. - Tudo bem, disse ele sem levantar a cabeça. Depois de uma pausa, Cris perguntou: - Então, vamos começar a trabalhar na colagem das fotos? - Claro. Até procurei algumas maiores pra começar com elas. Podemos preencher com fotos menores. O Prof. Wallace chegou perto e mostrou a foto de um bebê usando chapéu e bota de caubói, um coldre e fraldas. - Adivinhem quem é? Fred e Cris olharam a foto e ambos fizeram "não" com a cabeça. - Hal Janssen, anunciou o Prof. Wallace. - Está brincando? Alguém do time de futebol já viu isso? perguntou Cris. - Não, a mãe dele trouxe hoje cedo. Não vai ficar legal ao lado da foto dele como aluno-destaque quando ele marcou o máximo de pontos contra o Colégio Vista? - Perfeito! Agora só precisamos de fotos do Aaron Johnson e Adrian Medina, e nossa “Ala de Bebês Famosos" estará completa. Parecia que toda a tristeza do Fred desaparecera. - É uma idéia muito boa, Fred, reunir as fotos de bebê dos alunos mais destacados, disse o professor.

- Não foi idéia minha, foi da Cris. Eu só concordei com ela, Fred apressou-se a responder. O professor deu um sorriso. - Você tem feito excelente trabalho, Cris. Parece ter talento natural para essas coisas. Cris sentiu o rosto avermelhar-se. Era bom saber que finalmente tinha feito alguma coisa certa. Na semana e meia que se seguiu, Cris se ocupou do anuário, dos deveres de casa e do seu trabalho na loja de animais. No final de semana, Ted veio de San Diego, onde cursava faculdade. Saíram para jogar golfe miniatura com David, o irmão dela, que tinha onze anos. Depois ficaram sentados juntinhos no sofá, à noite, comendo pipoca e assistindo a um filme antigo em preto e branco com os pais de Cris. Tudo estava ótimo. Maravilhoso. Exceto pelo fato de que ela ainda esperava o telefonema de Katie. Uma vez Cris viu Michael e Katie na escola. Estavam de mãos dadas, e tudo entre eles parecia bem. Por que, então, Katie não ligava ou vinha até sua casa dizer que estava tudo bem? O que teria havido entre ela e o rapaz para causar tanta tensão no estacionamento da escola? Quando Cris entrou na sala do anuário, na quinta-feira, o Prof. Wallace lhe disse: - Tomei providências para você tirar outra foto do time de vôlei dentro de dez minutos. Disseram que alguns componentes do time não apareceram na outra foto. O Fred se ofereceu para tirar se você não quiser, mas pensei que gostaria, já que você tem trabalhado nesse projeto desde o início. Cris olhou para Fred, que estava a alguns passos de distância. Ele deu de ombros e disse: - Como queira. Eu não sabia se já tinha consertado as coisas com a Katie ou não. Nem Cris sabia. O que seria melhor para Katie? Será que ela sorriria para a foto se Cris estivesse por trás da objetiva? Ou seria mais fácil se Fred tirasse?

- Você se importa, Fred? - Não tem problema. Eu tiro, e você vem escolher a foto de bebê do Adrian Medina que devemos usar e onde vamos colocá-la. - Então conseguimos as fotos? - A madrasta dele mandou três pelo correio, explicou o Prof. Wallace. Espere só para ver! Uma com macarronada ou coisa parecida na cara! Fred pegou a câmara e estava prestes a correr para o ginásio de esportes, quando Cris conseguiu pará-lo e, olhando nos seus olhos, disse: - Isso é muita bondade da sua parte, Fred. Obrigada. - Quer dizer que você vai comigo ao baile de formatura? - Fred! exclamou ela, sorrindo. - Não custa nada tentar, falou o rapaz retribuindo-lhe o sorriso e deixando à mostra o dente torto. Mas, quando voltar, quero lhe perguntar uma coisa, está bem? C ris sentiu-se colocada contra a parede, o que a deixou um pouco nervosa. - Melhor você correr. Não vai querer juntar aquele time mais uma vez. - Certo, disse Fred transpondo a porta, apressado. Ela começou a trabalhar no layout, remexendo a posição das fotos e o texto como se fosse um quebra-cabeças. Não ouviu ninguém chegar por trás, mas percebeu depois que alguém olhava por cima de seu ombro. Virou-se e deu de cara com Katie. - Esse aí é o Adrian? Katie examinava a foto de Adrian, quando criança, sentado numa piscina de plástico, ao lado da foto dele, já rapaz, segurando a taça de pólo aquático que haviam ganhado esse ano. - Vejo que ele teve um início precoce nos esportes aquáticos. - Bonitinho, não é?

Cris se sentia à vontade e natural com a amiga, como se não houvesse nenhuma crise entre elas. - Você tem alguma coisa a fazer depois da aula? indagou Katie. - Acho que não. Cris sabia que tinha de trabalhar no anuário, pois todo ano era a mesma coisa: trabalhava no anuário até na última hora. Não ia descartar Katie, já que agora parecia que ela estava disposta a conversar. - Me encontre perto do meu carro. A gente come algum, coisa. Eu pago. - É claro, já que é você que está pagando! Deu um sorriso. Parecia que Katie estava bem. Talvez nem tivessem tanto sobre o que conversar. Alguns desentendimentos, alguns sentimentos feridos. Talvez pudessem continuar daí para a frente, e Cris pudesse conhecer melhor o Michael. Talvez ela e Katie pudessem renovar a amizade, aproveitando bem o que ainda restava do último ano do colegial. Encontraram-se ao lado do carro de Katie, após a aula. Katie dirigia em silêncio. As duas então começaram a falar ao mesmo tempo. - Desculpe, fale você, disse Cris. - Não, comece você. - Estava perguntando aonde você quer ir. - Pensei em levá-la ao lugar aonde costumo ir agora. - Claro. E o que você ia dizer? - Eu ia dizer que você está fazendo um excelente trabalho no anuário e parece que se deu muito bem. - Estou gostando muito. Nunca imaginei que seria tão agradável. Sabe, só me inscrevi nessa classe porque faltava apenas uma matéria e achei que se eu estivesse na

equipe poderia evitar que o Fred colocasse mais fotos embaraçosas como ele fez ano passado. - Agora é você que põe as fotos embaraçosas, e aí fica tudo bem, falou Katie, e era evidente a crítica no seu tom de voz. - O que quer dizer? Cris sabia que seu tom de voz era de quem se punha na defensiva. - Nada. Esqueça. Não é por isso que eu queria me encontrar com você. Faça o que tem de ser feito. Não sou seu juiz. Tem gente demais querendo bancar o juiz neste mundo hoje em dia, principalmente entre os cristãos. Dava para adivinhar o que Katie estava insinuando. Em silêncio elas rodaram pela rua principal de Escondido, e continuaram assim quando pararam no sinal fechado. Quando o sinal abriu, foi como se dando ordem para as duas falarem. Começaram de novo a falar ao mesmo tempo. - Parece que hoje nós duas estamos com deficiência de diálogo, disse Katie, o riso voltando à voz. É aqui. Ela entrou no estacionamento de um minishopping e parou na frente de um pequeno restaurante chamado "Tomate Orgânico”. - "Tomate Orgânico"? - Não se preocupe. Eles não servem só tomate, disse Katie, conduzindo a amiga para dentro. Era difícil acreditar que aquela era a mesma Katie, que costumava dizer que os quatro grupos alimentares básicos eram gorduras, açúcares, conservantes e sal. Michael, que era ligado a alimentos naturais e vitaminas, obviamente exercera forte influência sobre ela. O pequeno ambiente era fortemente iluminado. Uma dúzia de mesas redondas, pequenas e cobertas de toalhas estampadas com motivos florais espalhavam-se pela sala,

fazendo Cris sentir como se tivesse entrado dentro de um caleidoscópio. A qualquer instante as mesas poderiam começar a girar, e ela estaria no meio do vira-vira de cores se reposicionando. Não havia mais ninguém no recinto. - Tem certeza de que ainda estão atendendo? - Claro. Eu e Michael vimos aqui todo dia depois da escola. Katie caminhou até os fundos onde havia uma pequena janela que dava para a cozinha. - Olá, Janice! Como vão as coisas? Uma mulher magra, loira, de pele limpíssima e olhos marcantes, apareceu, usando um avental com um enorme mate vermelho bordado na frente. - Tudo ótimo, Katie. E você, Michael, como vai? Ah, não é o Michael! - Esta é minha amiga, Cris. Cris, quero apresentar-lhe Janice. - Muito prazer. - O prazer é meu. - E então? Qual a sugestão do dia? - Hambúrguer de tofu à moda do Sul com salgadinhos de milho, azuis, e suco de cenoura feito na hora. Cris não sabia bem por que, mas os nomes já lhe dava enjôo. Como é que Katie agüentava esse lugar? - Parece ótimo, disse Katie. Vou querer a do dia. Quer mesmo, Cris? Lembre que eu estou pagando. - Bem, eu queria ver o cardápio. - Claro. Está aqui. Tem uma salada de espinafre com moyashi que talvez você goste. A lasanha de berinjela também está uma delícia, disse Janice. Cris pegou o cardápio florido, seguiu a Katie até uma mesa e disse: - Hoje eu almocei muito. Talvez tome apenas um refrigerante.

- Refrigerante? indagou Katie. Cris entendeu que ninguém entraria num lugar chamado "Tomate Orgânico" para pedir uma Coca-Cola. - Aqui tem sucos naturais com água gasosa, explicou Katie. Mas servem mais sucos de frutas, feitos na hora. - Oh! Estou certa de que sim, disse Cris, cautelosamente. Então eu tomo um suco de laranja. - Já ouvi, gritou Janice dos fundos. Um suco de cenoura e um de laranja. É pra já. Cris não se sentia muito à vontade. Não era apenas a atmosfera “orgânica”. Era saber que tudo que falassem seria ouvido. Além do mais, não conhecia nenhum dos pratos no cardápio. Pelo menos ela achava que eram comida. Salada de trigo integral, mexido de tofu, sopa de lentilhas, coalhada de feijão. Parecia que uma criança tinha misturado todos os nomes do cardápio e depois colocara de volta fora de ordem. Janice trouxe-lhe um copo de suco de laranja. Era o menor que Cris já vira desde que era criança e pedira o cardápio infantil no restaurante Denny's uma década atrás. O suco estava tão cheio de polpa, que teve vontade de pedir uma colher e tomá-lo como se fosse sopa. Mas achou que talvez isso ofendesse Katie e tomou o suco em pequenos goles, passando a língua pelos dentes da frente após cada gole, à procura de pedacinhos de polpa. O hambúrguer de tofu da Katie parecia normal. Cris percebeu que o pão era de algum tipo de cereal integral. Estranha a cor dos salgadinhos de milho: azul-marinho. Mas se ela ficasse olhando para o rosto da amiga, em vez de olhar para o prato, poderia fazer de conta que estavam comendo uns hambúrgueres de verdade no McDonald's, como costumavam fazer antes de Katie conhecer o Michael. - Quer provar? ofereceu Katie. - Não, obrigada. Só o suco está bem.

Katie deu mais umas duas mordidas e fez sinal para Cris experimentar um salgadinho de milho azul. Ela pegou um pequeno. Tinha gosto de salgadinho de milho normal. Janice ligou o som numa música de harpa e Cris sentiu-se um pouco mais à vontade. - Deus quer que eu termine com o Michael, disse Katie. - De onde você tirou essa idéia? indagou Cris, sentindo vontade de rir do modo brusco de Katie. - Por favor, não encare isso como brincadeira, Cris. Estou falando sério. Com feição triste, Katie deu mais uma mordida no hambúrguer. - Tenho desobedecido a Deus, falou. Uma dúzia de perguntas correu pela cabeça de Cris, mas ela ficou calada e deixou Katie falar. - Já faz umas duas semanas que estou sabendo, continuou Katie. Tenho orado o tempo todo para que o Michael se entregue ao Senhor. Pensei que talvez fosse por isso que Deus o colocou meu caminho, pra que eu lhe mostrasse como fazer para tornar-se cristão. Bem que eu tentei! Nesses seis meses e meio que estamos namorando tenho conversado com ele, dei-lhe livros para ler, levei-o a estudos bíblicos, apresentei-o a outros cristãos. E você sabe que eu lhe dei uma Bíblia de presente de Natal. Cris fez que sim. Lembrou-se de que saíra com Katie e as duas haviam olhado todas as bíblias existentes até encontrar uma que ela achasse que Michael leria. - Ele simplesmente não quer crer. Não é que ele não consiga acreditar que o cristianismo seja o caminho certo, nem que ele não acredite em Deus. Ele acredita. Mas simplesmente não quer entregar a vida a Cristo. Dava para ver nos olhos de Katie que ela estava sofrendo. - Eu disse a Deus que se ele queria que eu terminasse com Michael, eu terminaria. E Deus me mandou terminar. Não me pergunte como fiquei sabendo. Michael queria saber

como Deus fala comigo. Não sei explicar. É só que no fundo do meu coração sei o que o Espírito Santo está me dizendo. Deu mais uma mordida no hambúrguer e fez sinal para Cris comer outro salgadinho. Cris aceitou. - Então, continuou Katie, duas semanas atrás, quando você nos viu no estacionamento do colégio, eu tinha acabado de conversar com o Michael. Eu lhe disse que tínhamos de terminar o namoro porque ele não estava disposto a ser cristão, e éramos diferentes demais. - Katie, eu não sabia! - Era exatamente isso. É que quando ia para a escola, pedi a Deus um sinal. Sei que a gente não deve brincar com Deus desse jeito, mas eu estava muito aflita. Eu disse que se eu tivesse feito a coisa certo ao terminar com o Michael, que eu me encontrasse com você ao sair da aula. - Está brincando! - Não. Foi uma coisa tão de Deus que eu não acreditava. Quando orei desse jeito, sabia que você estaria trabalhando na loja de animais ou no anuário. E você apareceu, ao lado do meu carro! Depois daquilo, nem sei o que aconteceu. O Michael disse umas grosserias e fiquei muito zangada com Deus por ele me forçar a fazer isso. Katie percebeu a expressão confusa de Cris e fez-lhe um aceno de mão à frente dos olhos. - Sei que é burrice, mas era como se Deus estivesse fazendo exatamente o que eu pedi, colocando você bem ali, e fiquei furiosa. Não consegui nem falar com você. - É, eu sei, disse Cris em voz baixa. - Era como se você estivesse do lado de Deus e vocês dois estivessem contra mim. Não sei, Cris. Durante uns dois dias fiquei muito confusa. Depois disso, eu e o Michael reatamos o namoro. Ele está contente. Eu estou contente. Tudo voltou ao normal, exceto

num aspecto: estou desobedecendo a Deus. Estou deixando o Senhor de lado, comentou Katie e comeu em silêncio durante alguns instantes. - E por que você está falando isso comigo agora? Parece que não estou mais do lado de Deus? - Não, ainda está! apressou-se Katie a responder. É por isso que achei que precisava falar com você cara a cara. Quero que você me mande terminar o namoro com o Michael. - Não posso fazer isso. É um assunto que tem de ser resolvido entre você e Deus, e Michael. - Ah! Muito obrigada, resmungou Katie. - O que você quer dizer? - O tempo inteiro você ficou me avisando que ele não era cristão, e agora que eu quero que você me mande acabar tudo, você não manda? - Não posso, disse Cris, e lembrando as palavras de Michael, continuou: Não tenho esse direito. Não sou seu Espírito Santo pessoal. Você tem de ouvir o que Deus diz e fazer uma opção: Obedece ou não obedece. - Estou desobedecendo, confessou Katie com tristeza na voz. É um negócio que me assusta. - Então por que você não termina de vez com ele? - Só tem um problema. - O quê? - Estou apaixonada por ele.

Bem-Aventurados os Pacificadores 3

- Você está apaixonada por ele. E o que isso quer dizer? - Significa que eu o amo, disse Katie, engolindo o hambúrguer. Sabe como é difícil tirar alguém da vida da gente quando se está apaixonada? É impossível! Cris nunca houve outro rapaz na minha vida. Talvez nunca mais haja! Há seis meses o centro do meu universo vem sendo o Michael, e tem sido maravilhoso. Por que eu abriria mão dele? - Por que Deus mandou? Cris arriscou. - Exato! Mas eu queria que um ser humano me dissesse isso para que eu saiba que estou certa. Você tem de me ajudar nisso, Cris. Cris continuou em silêncio, confusa, sem saber o que dizer. Seria mais fácil se tivesse tempo para pensar em todas as questões envolvidas. Será que poderia dizer: "Sim, Katie. Deus me mandou dizer que você tem de terminar com o Michael"? Ou ela deveria manter-se firme na certeza de que essa decisão tinha de ser tomada pela própria Katie, com ou sem uma torcida para aplaudi-la? - Você não pretende me ajudar nessa, não é mesmo, Cris? - Katie, você já sabe o que penso sobre tudo isso. Acho o Michael um cara bem legal, e ele seria um namorado perfeito pra você. Mas se ele não se converter, as únicas áreas que vocês dois terão em comum serão a emocional e a física. O seu lado espiritual nunca vai ser unido a ele e é essa a parte do seu ser que vai durar pra sempre. - Você não se parece com o Ted quando diz isso. Cris aceitou o comentário como um elogio.

- Então, continue, Cris, termine o discurso. Me diga o que devo fazer. Cris hesitou por um instante, depois disse com firmeza: - Katie, você tem de fazer o que Deus mandou. Você me deixa furiosa! disse Katie, "despejando as palavras” e afastando o prato. Você não tem a menor idéia de como isso é difícil, Cris. - Eu sei, disse a amiga baixinho. - Não sabe, não! gritou Katie. Você nunca passou por uma situação disse tipo. Essa é a coisa mais difícil da minha vida. Eu o amo mas vou terminar com ele porque Deus mandou! É só por isso. Sabe que para o Michael isso parece uma grande besteira? Dei tanto testemunho! Dei os livros. Fomos a estudos bíblicos. E agora vou dizer a ele que Deus é um desmancha-prazeres tão malvado que não nos deixa sair mais juntos! Cris não sabia o que dizer. - Vamos lá, vamos sair daqui, falou Katie colocando dinheiro na mesa para cobrir as despesas, e caminhou até o carro. Cris correu atrás dela e entrou nele no momento em que ela dava marcha à ré para ganhar a rua. - Deus é totalmente injusto! exclamou Katie. Cris agarrou no seu lado da poltrona quando um carro cortou a frente delas. Katie tocou a buzina e gritou: - Por que Deus colocou o Michael na minha vida para depois tomá-lo de mim? Estou com tanta raiva que minha vontade é gritar! disse Katie, e gritou. Cris sempre admirara a capacidade de Katie de expressar o que sentia. Mas nunca tinha visto a amiga tão zangada. Katie entrou voando dentro do estacionamento da escola e parou ao lado do carro de Cris com uma derrapada barulhenta. - Você está bem? perguntou Cris antes de descer. - Claro que não. Que pergunta boba! Estou morrendo por dentro, Cris. Tenha dó!

- Posso ajudar em alguma coisa? indagou Cris sentindo-se aturdida. - Não, não pode. Pedi sua ajuda antes e você não quis dar. Se vou fazer isso, vai ter que ser sozinha, sem apoio humano. Me deixe só. - Quer ligar mais tarde? - Talvez. - Ligue pra mim, insistiu Cris, enquanto descia do carro. Não tinha certeza se Katie ouvira, porque ela saiu em disparada no momento em que Cris fechou a porta. Cris se sentia muito mal ao voltar para casa. O estômago parecia não ter gostado do suco de laranja com bagaço, acompanhado de um montão de acusações. Você é uma péssima amiga, Cris. E tão covarde que não pode nem. dizer à Katie o que seria a decisão certa. Só conseguiu se esconder por trás de Deus e forçar Katie a tomar suas próprias decisões. É essa a atitude amável e cristã que se deve ter? No momento que chegou em casa, pegou o telefone e ligou para o Ted. Ficou aliviada por ele ter atendido ao primeiro toque. Cris despejou os acontecimentos da última hora. - Você fez o que é certo, disse Ted. Não dê atenção a essas dúvidas e acusações. Elas não vêm de Deus. Você empurrou a Katie para mais perto de Deus. Tornou-a responsável por suai decisões. Você acertou, Cris. - Então por que estou me sentindo tão mal? - Talvez porque você queira que tudo seja mais fácil, sem problemas, e não é assim. Você é pacificadora, Cris. É uma das coisas de que eu gosto em você. Deus diz que os pacificadores serão chamados filhos de Deus. Como você se sente quanto a isso? Cris Miller, filha do Rei! Devo começar a chamá-la de princesa a partir de agora? Ela sorriu meigamente. - Só se você quiser que eu o chame de príncipe Ted. - Para mim, está bem.

- Bem, príncipe Ted, muito obrigada por me escutar. Você é o meu pacificador. Sei que sabe disso. Aprecio muito o seu apoio. Obrigada, porque sempre está ao meu lado para me ajudar. - As ordens, princesa. E então, o que é que você quer fazer este final de semana? - Não sei. Será que devo tentar tirar uma folga no sábado e ir à casa do tio Bob e tia Marta? Podíamos ir à praia, quem sabe? A imaginação de Cris começou a fervilhar de sonhos - sempre caminhando de mãos dadas ao pôr-do-sol na praia de Newport. - Parece ótima idéia. Telefone depois que resolver tudo. - Está certo, eu ligo. Mais uma vez, obrigada, Ted. Não sei o que eu faria sem você. - Provavelmente se aproximaria mais de Deus, porque teria que conversar mais com ele. Até mais tarde. O que o Ted queria dizer com isso? Será que ele acha que não converso muito com Deus ou que não estou andando perto dele? Deixe pra lá, não vou me preocupar com isso. Numa coisa o Ted tem razão. Gosto das coisas calmas e pacíficas. E se eu ficar procurando significados ocultos nas palavras dele não ficarei em paz! Cris discou rapidamente o número dos tios. Eles moravam apenas a algumas quadras do pai de Ted em Newport Beach. Nos últimos anos, Ted havia se tornado como um filho para eles. Não haveria problema em que ela "se" convidasse para passar o final de semana na casa dos tios. Mas a secretária eletrônica atendeu no quarto toque do telefone. Ela deixou uma mensagem e ligou para o seu patrão, Jon, na loja de animais. - Olá, Jon! É a Cris. Eu queria saber se poderia tirar folga no próximo sábado. - Sábado, ou seja, depois de amanhã? - Sim. - E agora é que você me pergunta? E acha que eu devo lhe dar o dia todo de folga? - É isso aí.

Cris achava que conhecia Jon o suficiente para saber que ele estava apenas brincando. Pelo menos, ela achava que ele estivesse só mexendo com ela. - Vai sair com o Ted, né? - Mais ou menos. Provavelmente vou pra Newport, ficar na casa dos meus tios. Eu poderia trabalhar outra noite durante a semana, se precisar que eu pague essas horas. - Não, tudo bem. Você não tem tirado folga nos últimos meses. Eu diria que está na hora de uma folga. Mas você vai trabalhar amanhã no horário normal, não vai? - Sim, é claro. Obrigada, Jon. Alguém já lhe disse que é um excelente patrão? - Não, respondeu Jon naturalmente. - Então deixe que eu lhe diga. Você é um chefe muito legal, Jon. - Não precisa mais me bajular, Cris. Já disse que lhe dou o dia de folga. - Eu sei, mas talvez eu tenha que lhe pedir outro favor um dia desses. - Então da próxima vez eu digo não. - Obrigada por ter dito sim dessa vez, Jon. Vejo você amanhã. No momento em que Cris desligou o telefone, ele tocou outra vez. Assustada, ela deu um pulo e atendeu. - Está feito, disse a voz do outro lado. Fiz tudo. Dei ponto final dessa vez. Agora vou enlouquecer. Estou ficando totalmente louca! - Katie, disse Cris, cautelosamente. Me conte o que aconteceu. - Fui à casa do Michael e disse a ele que o amava, mas tinha de terminar o namoro porque sabia que era o que Deus queria de mim. Ele respondeu que me amava e que agora me amava ainda mais porque sou uma das poucas mulheres que ele conhece que tomaria uma decisão dessas por causa de suas convicções. Então ele me beijou no rosto e saí correndo porta afora. Dava para perceber que Katie estava chorando. Cris deixou que ela chorasse um pouco, e depois tentou consolá-la.

- Você fez o que era certo, Katie. - Então por que é que dói tanto? - Certamente os bons sentimentos nem sempre vêm no mesmo envelope que a decisão certa. Katie caiu na risada. - Ouviu o que você disse? O que significa isso? - Foi o que me veio à cabeça. Quero dizer, agora você só sabe que fez o que é certo. Acho que com o tempo os sentimentos vão se ajustar. - Espero que você tenha razão. Nem acredito no que fiz, Amanhã vou me odiar. Ai, não! Amanhã é sexta-feira! O que é que vou fazer? - O que você quer dizer? - Nos últimos seis meses eu e o Michael sempre passamos juntos os finais de semana. Tenho de ter alguma coisa para fazer. Jura que vai passar o fim de semana inteirinho comigo, Cris. Se eu ficar sozinha, vou ficar louca! - Bem, eu... - Sei que você tem de trabalhar, mas não faz mal. Vou com você para o trabalho. Tenho certeza de que o Jon encontra alguma coisa para eu fazer na sala dos fundos. Ele não precisa me pagar nada. Só não quero ficar em casa, sozinha. - Claro, a gente dá um jeito, disse Cris com ousadia. Eu estava planejando em ir à casa do Bob e da Marta. Tenho certeza de que eles não achariam ruim se você fosse junto. - Ah! exclamou Katie, parecendo deprimida. Você provavelmente ia passar com o Ted. Não precisa me levar a tiracolo. - Não, não tem importância. Verdade. Você conhece o Ted. Ele não vai se importar nem um pouco. Adoraria passar o final de semana com você. Faz tanto tempo que não fazemos nada juntas. Vai ser legal. Você vai ver. - Tem certeza?

- Claro. Vou ligar de novo pra minha tia e depois ligo de volta pra você. É melhor arrumar a mala, Katie. Tenho certeza que vai dar tudo certo. - Terminei com o Michael. Verdade. Terminei com ele para sempre, repetiu Katie como que não acreditando no que ela mesma estava dizendo. - Katie, você está bem? - Não, mas vou ficar, respondeu ela em tom melancólico. Algum dia. Não vai ser amanhã. Algum dia ficarei bem. Liga de novo pra mim. Tchau. Cris ouviu o ruído do outro aparelho se desligando e ficou a imaginar se Katie algum dia ficaria bem. Colocou de novo o fone no gancho e procurou repassar os acontecimentos das últimas duas semanas. Havendo ela e Katie passado muitas semanas, ou melhor, muitos meses de tensão e sem falar uma com a outra, de repente tudo mudara nas duas últimas horas. De certo modo, Cris queria que o desfecho de Katie com Michael só tivesse acontecido na segunda-feira, porque assim ela e Ted poderiam passar juntos um final de semana divertido, sem alguém segurando vela. No instante em que pensou isso, sentiu-se mal. Nos últimos meses, ela e Ted haviam passado maravilhosos fins de semana juntos, nos quais haviam conversado sobre o relacionamento de Katie com Michael. E muitas vezes Ted dissera a Cris que esperasse e fosse paciente, que sempre apoiasse a Katie. Ele lhe dissera que havia tempo para tudo. Tudo indicava que era chegado o momento de Cris ficar ao lado de Katie, dar-lhe apoio e chorar com ela. Ted entenderia. E como compreendeu! Quando ela ligou mais tarde para lge dizer que conseguira falar com Bob e Marta e que eles tinham concordado em receber a ela e a Katie, Ted disse: - Vou ver se o Douglas vem passar o final de semana em casa. Podemos ir todos à Disneylândia ou coisa parecida.

- Vai ser divertido. Sabe, nós não vamos à Disneylândia desde aquela nossa primeira saída juntos. Quando foi? Há três anos? - É. 'Tá na hora de ir de novo. O Douglas é ótimo para animar garotas de coração ferido. Vai ser um bom companheiro para a Katie. - Ele ainda não tem namorada? Pensei que a estas alturas eleja tivesse arranjado alguém. - Não. Ele me disse certa vez que achava que sabia com quem Deus queria que ele se casasse, mas estava esperando a garota entender o mesmo. Ele não me disse quem era. - Será que não é a Trícia? Eles namoraram algum tempo, não foi? - Não sei. Ele não deu nenhuma dica. Pelo que eu sei, pode até ser a Katie. Mas não importa. O Douglas tem certeza de que Deus vai fazer tudo se encaixar certinho. - Acho que eu e Katie vamos viajar sexta à noite diretamente do meu trabalho. A gente chega à casa de Bob e Marta depois das dez. Não vai ser muito tarde pra vocês? Vocês vão nos encontrar na sexta à noite, ou esperar que a gente se encontre no sábado? - O que você achar melhor, respondeu Ted em tom amável. A gente vê quando chegar a hora. - Estou ansiosa por ver você, disse Cris em voz baixa. - É. Eu também estou louco para estar com você. - Tchau. - Até mais. Cris falou rapidamente com Katie pelo telefone, dando-lhe conta de todos os planos. Mesmo parecendo cansada, Katie ralhou quando Cris mencionou o Douglas. - Não quero esmolas nem caridade! O Douglas não está interessado em mim, nunca esteve, nunca estará. Não quero que ele vá lá só pra me dar aquele famoso abraço e me reanimar.

- Tudo bem. Pode ser que ele nem vá. Mas de qualquer jeito vamos à Disneylândia e vamos nos divertir, disse Cris procurando parecer animada. - Certo. Eu, você e o Ted. Vai ser muito divertido mesmo! O Ted vai ficar de mãos dadas com nós duas pra eu não me sentir tão por fora? Cris estava começando a se irritar. - Katie, pare com isso! Amanhã vamos pra loja depois da aula, aí vamos de carro até Newport, ficamos na casa dos meus tios. Provavelmente iremos à Disneylândia no sábado e à igreja com o Ted no domingo, e você vai se divertir à beça, entendeu? - Desculpe. Vou tentar não ser uma desmancha-prazeres. Estou feliz porque você me incluiu nos seus planos deste fim de semana. - Vai ser legal, Katie. Você vai ver. Estou animada com os planos. - Eu também, disse Katie com um suspiro. O que será que o Michael vai fazer neste fim de semana? É, não importa, não é mesmo? Cris não respondeu. - Bem, disse Katie, voltando a um tom de voz mais positivo, tenho de terminar meus deveres. A gente se vê amanhã. Mais uma vez, obrigada, Cris. Isso é uma prova de que você é uma verdadeira amiga. Obrigada por estar ao meu lado, me dando uma força. - Você não tem o que agradecer, Katie. Encontro você depois da aula amanhã. Boa noite! Desligou e pensou: Se você soubesse como estou me sentindo egoísta neste momento por saber que o Ted vai ter de dar atenção a você também nesse final de semana! Não estaria me agradecendo...

Deixe-me Sofrer! 4

- Ah, Srtª Cris. Me dê um minuto do seu tempo? Era o Fred no momento em que Cris entrou na sala de aula do anuário na sexta. - O que você quer, Fred? Ela não estava muito disposta a agüentá-lo. - Lembra que ontem, na hora que saí para tirar a foto time de vôlei, eu lhe disse que queria conversar com você sobre uma coisa? Cris não se lembrava, mas queria apressar a conversa, e fez sinal que sim, achando que Fred lhe faria mais uma vez o convite para o baile de formatura. - Eu queria lhe perguntar uma coisa. - O que, Fred? indagou ela com a irritação à flor da pele. - Queria perguntar que igreja você freqüenta. - Por quê? perguntou Cris, surpresa. - É que eu queria ir um dia desses, só pra experimentar. - Por quê? perguntou Cris, percebendo, tarde demais, que o fizera em tom áspero. - Estamos num país livre, né? disse Fred, levantando um pouco o peito. Pelo menos, da última vez que fui verificar, era. Eu nunca fui a uma igreja, e achei que talvez fosse bom ir um dia desses. - Maravilha, Fred, falou Cris mudando de tom. Acho que você vai gostar. É uma igreja bem legal.

Ela lhe deu o endereço e falou sobre o horário da reunião da mocidade e dos cultos. - Obrigadão. Eu encontro você lá no domingo, então. - É por isso que você quer ir à igreja? Só porque eu vou? - Não! replicou ele na defensiva. - Bem, é que não vou estar lá neste domingo. Vou passar o final de semana na casa dos meus tios, explicou e, querendo parecer mais agradável, continuou: Mas tem outras pessoas lá da nossa escola. Tenho certeza de que você vai encontrar algum conhecido. - Como a Katie? - Na verdade, a Katie vai comigo. Mas tem outras pessoas. Acho que você vai gostar; vai mesmo. - Eu vou. E agora, está pronta para trabalharmos nessas duas últimas páginas de colagens? Temos de terminar tudo até quarta que vem. E o prazo final e irrevogável. - Tem certeza? - É claro. Cris não podia deixar de indagar qual o interesse do Fred em ir à igreja. Queria crer que ele estivesse começando a se interessar pelo cristianismo. Talvez, de alguma forma, ela tivesse testemunhado, ainda que não soubesse como ou quando. A maior parte do ano ela fora ríspida com ele e nunca tentara falar-lhe de coisas espirituais. Será que isso não era apenas uma das suas táticas para estar ao lado dela, sobretudo agora que iriam terminar o projeto até quarta-feira? Depois que terminassem de fazer as fotografias do anuário, não teriam mais razões para conversarem. A não ser que Fred começasse a freqüentar sua igreja. A caminho do trabalho, depois da aula na sexta à tarde, ela contou a Katie sobre essa conversa. Fazia três meses que as duas não conversavam assim, e Katie disse que nem sabia que Fred estava interessado em Cris. - Só o ano inteiro, disse Cris.

- Puxa! suspirou Katie. Perdemos muitas notícias este ano, não foi? - O que você quer dizer? - Quero dizer que estamos quase terminando o terceiro colegial e eu e você só conversamos um total de seis horas, nesses últimos seis meses. - Se é que foi tudo isso... - Sinto muito, Cris, e sei que é minha culpa, porque eu estava tão envolvida com Michael. - Mas a culpa não é só sua. Reconheço que eu não facilitei nem pra você, nem pra mim mesma. Eu poderia ter me esforçado bem mais pra termos mais contato uma com a outra e não o fiz. Desculpe! - Vamos prometer nunca mais agir assim, sugeriu Katie com olhar solene. Que nunca mais na vida deixemos que um cara se ponha entre nós. Mesmo quando estivermos velhinhas esclerosadas, seremos grandes amigas. - Prometo. Mas, se eu estiver esclerosada, não posso prometer que todo dia vou me lembrar quem é você. - Então vamos ter de pedir que eles nos coloquem num asilo onde todos os pacientes usem crachá, disse Katie. E as duas amigas caíram na gargalhada - algo que não faziam juntas havia meses. À noite, na loja de animais, o tempo passou depressa. Cris contou para Jon que Michael e Katie haviam terminado o namoro e ele manteve Katie ocupada, ajudando-o a conferir o estoque. Jon também a manteve rindo, com suas histórias sobre fregueses malucos. Na hora em que as duas estavam para ir embora, Cris se aproximou de Jon e disse: - Me lembre de fazer alguma coisa agradável pra você um dia desses. Ele sorriu e sussurrou:

- Ela ainda não passou pelo pior. Vai ser um baque e tanto. Provavelmente neste final de semana. Qualquer um que já sofreu por amor sabe que as coisas pioram muito antes de melhorarem. As palavras e a expressão do Jon fizeram Cris imaginar que ele também, um dia, se apaixonara. Talvez ainda não estivesse recuperado, pois estava na casa dos trinta e ainda não se casara. - Quer um sorvete ou iogurte gelado, ou outra coisa qualquer, antes de viajar pra Newport? perguntou Cris a Katie, ao se dirigirem até o carro. Podemos parar na sorveteria da saída da cidade. Katie não respondeu. Cris destrancou a porta e Katie entrou, apertou o cinto e olhou para a frente, como se realmente não estivesse ali. - Alô, alô, Terra, para Katie! brincou Cris. Quer parar em “31 sabores" ou não? Foi só então que Cris notou o rio de lágrimas escorrendo pelo rosto da amiga. - Foi o primeiro lugar a que fomos juntos, lembra? rememorou Katie. No dia em que eu o conheci. Saímos da aula, e eu disse ao Michael que iria ensinar-lhe tudo sobre as vitaminas numa bola de sorvete de amêndoa com chocolate derretido. Cris engoliu seco. As coisas tinham ido tão bem no trabalho. Não esperava essa espécie de "crise" de tristeza. - Não precisamos parar lá, nem em outro lugar qualquer. Vamos direto para a casa do Bob e da Marta. Esqueça minha sugestão. Péssima idéia. Manobrou o carro pelo estacionamento, olhando para o rosto de Katie a cada vez que passava um sinal luminoso, para ver se as lágrimas estavam diminuindo. - Desde que fomos a San Diego ano passado, mais ou menos nessa época, observou Cris, essa é a primeira vez que eu e você vamos juntas a algum lugar. Já pensou nisso? E

dá pra acreditar que os meus pais me deixaram ficar o final de semana fiteiro com o carro? É o primeiro passo, Katie. Katie encostou a cabeça atrás e fechou os olhos. Com a voz embargada, suplicou: Quero voltar pra casa, Cris. Não vou conseguir fazer isso. - Claro que consegue. Vamos nos divertir bastante este fim de semana. Você vai esquecer o Michael. - Não quero esquecer o Michael! Não tenho lembranças ruins dele, nada que precise esquecer. Tudo foi maravilhoso. Você não entendeu nada! Eu o amava. Ainda o amo! Cris dirigiu em silêncio pela rodovia, pegando a pista do meio. Passaram pela entrada que dava para a casa de Katie e ela nada disse. Cris concluiu que na verdade a amiga não queria ir para casa. Só precisava dar uma saída. Só dependia de si mesma convencê-la de que iam se divertir bastante. Ao tomar a estrada, imprimiu maior velocidade. Quanto mais longe de casa, menos sensato pareceria voltar, e certamente Katie ficaria mais entusiasmada por estar saindo com ela no fim de semana. Continuaram em silêncio. Felizmente o trânsito não estava pesado. Deveriam chegar dentro de uma hora e meia. Será que devia ligar o rádio? Não, poderia estar tocando ou vir a tocar alguma música que fizesse Katie se lembrar do Michael. E Cri nem sabia que canção seria. Percebeu como sabia pouco sobre o namoro deles e as coisas que eram especiais para os dois. Talvez devessem conversar sobre assuntos que não tinham nada a ver com o Michael. - Eu lhe contei que só temos até quarta-feira para terminar o trabalho do anuário? Acho que ficou muito bom. Foi gostoso trabalhar nele. Talvez eu faça alguns cursos de comunicação na faculdade. Ah, e a propósito, não fiquei sabendo o que você resolveu fazer quanto à faculdade ano que vem. Teve notícias de algumas das escolas às quais você contactou?*

Katie apertou os lábios. - Fui aceita na Universidade de Queens, em Belfast. É a que o Michael vai freqüentar ano que vem. - Belfast, na Irlanda? Nem sabia que você tinha se inscrito nela... E ainda vai pra lá? Claro que não! E qual seria a outra opção? - Não sei. Não tinha nenhum outro plano. Dava para ver as lágrimas rolando de novo pelo rosto sardento de Katie. Era melhor Cris começar a falar depressa. _____________________
*Nos Estados Unidos, não se presta vestibular para a universidade. Os alunos se inscrevem, mandando o currículo e suas notas desde o primário até o segundo grau, e as universidades aceitam ou não os alunos com base no mérito, desempenho e possibilidades dos mesmos. As melhores instituições de ensino superior daquele país aceitam os melhores alunos. (N. da T.)

- Acho que vou para o Palomar Community College, pelo menos no primeiro ano. Minha tia quer que eu estude numa universidade estadual*. Sabe que eles começaram uma poupança para os meus estudos há alguns anos? Bem, provavelmente já tem o suficiente para o primeiro ano. Mas os meus pais acham que devo primeiro esperar até ter certeza do que realmente quero estudar, para depois ir para a universidade.* Porque é mais barato fazer o currículo básico num junior college.** Pelo que ouço dizer, o Palomar é uma boa escola. Por que você não vem estudar em Palomar também? Vai ser legal, Katie. Podíamos até fazer algumas matérias juntas. ______________________
* As universidades estaduais também são pagas, e bem mais caras do que as faculdades comunitárias, nos Estados Unidos. (N. da T.) ** Júnior college: instituição de ensino norte-americana, intermediária entre o segundo grau e a universidade. Surgiu no início dos anos 50, para suprir as deficiências da escola média, e, embora funcionando

principalmente como ensino terminal, também prepara o aluno para o ensino superior, onde ingressa a partir do 3º ano, já na área de concentração escolhida {major), (N. do R.)

A essa altura, já iam longe, deixando para trás a Base Naval de Camp Pendleton. Katie olhava pela janela, sem enxergar. - Quem sabe eu me alisto no Exército, resmungou Katie. - Exército? exclamou Cris com uma risada. - Está bem, então, na Força Aérea. - Katie, você me faz rir. Devia fazer arte dramática. - Não estou sendo dramática. A luz tênue do interior do carro, Cris viu que os olhos de Katie estavam inchados. - O que quero dizer é que você seria uma ótima estrela numa peça. É mais fácil pra mim imaginar você fazendo arte dramática na faculdade e tornando-se atriz do que pilotando um avião de guerra. - Atriz, hein? - Acho que você seria ótima. Tem um jeito todo natural. Sempre disse que você será uma espécie de Lucille Ball de "Eu Amo Lucy". Não me sinto Lucille Ball nenhuma. Estou sofrendo tanto, Cris! Você não imagina o quanto tudo isso dói. - É porque você só fica pensando no problema. Tente pensar em outra coisa. Vamos jogar alguma coisa, fazer alguma brincadeira. Eu sei. Estou pensando num animal que começa "g". - É girafa e não estou a fim de brincar. - Como é que você sabia que era girafa? - Você escolhe a girafa toda vez que começamos com esse jogo bobo.

- Está bem, é sua vez, disse Cris, ainda procurando desviar o assunto de Michael. Pense num animal. - Cris, você não entendeu mesmo. Não quero nenhuma brincadeira boba. Estou muito sentida. Simplesmente me deixe sofrer. Cris se retraiu, esforçando-se para não deixar transparecer que ficara magoada. Agora era ela que tinha vontade de levar Katie de volta para sua casa. Se a amiga continuasse sentindo tanta auto-compaixão, ia ser um final de semana para lá de chato. Se a Katie e o Michael não tivessem terminado o namoro... O que é que estou pensando? Orei por isso vários meses e agora desejo que ela ainda estivesse com ele. Estou confusa! O que será que posso dizer para reanimá-la? Não entendo por que ela está sofrendo tanto assim - ela fez o que era certo e sabe muito bem disso. - Katie, começou Cris em voz baixa, você tem razão. Eu não entendo o que você está sentindo. Estou tentando acertar, mas parece que não estou ajudando-a em nada. Talvez você me ajude a entender. Você terminou o namoro porque estava convencida de que era o que Deus queria. E então, por que está tão triste, sofrendo tanto com isso? Katie agitou a cabeça. - Não tem como explicar, disse ela. É como a morte, Cris, perda de algo muito precioso. Por mais preparado que a gente esteja para a morte, ela dói. Dói demais. - Sinto muito. Eu queria poder fazer alguma coisa. - Simplesmente me deixe sofrer. Cris lembrou-se de uma conversa que tivera com Ted, semanas atrás, depois que Katie agira de modo estranho no estacionamento da escola. Ted havia dito para soltar as rédeas e esperar. Qual a outra parte que ele dissera sobre a verdadeira prova de amor? Algo sobre a força que o amor tem quando se consegue soltá-lo, deixá-lo ir.

Katie demonstrara uma força incrível ao soltar as rédeas do Michael. Agora era a vez de Cris soltar as de Katie e deixar de tentar fazê-la ser feliz. Se Katie realmente precisava sentir-se triste por algum tempo, Cris devia então abrir mão do controle, para que ela pudesse sentir, curtir sua tristeza. Mordendo o lábio inferior, Cris resolveu tentar aprender o que seria melhor para a Katie, e não levar para o lado pessoal as palavras iradas da amiga. - Está certo. Estou tentando entender. Quero que saiba que você pode sentir o que quiser e dizer o que quiser quando estiver perto de mim. Sei que nem sempre vou entender tudo, mas quero tentar. Não pense que você tem de agir de determinada forma neste final de semana. Seja você mesma, simplesmente. Prometo que vou parar de tentar reanimá-la. - Obrigada, Cris, disse Katie, deixando escapar um longo suspiro. Não quero estragar seu final de semana com o Ted. - E não vai. Afinal de contas, é também o nosso fim de semana - seu e meu. Você precisa ter liberdade de sentir o que quiser. - Espero que você nunca tenha de passar por isso. Não imagina o quanto as emoções são fortes, Cris. Acho que eu preferia que um exército de tartarugas ferozes me arrancassem as unhas uma por uma. Cris riu-se da expressão da amiga, e Katie respondeu com um sorriso amarelo. - Não sei por que, mas estou me sentindo um pouco melhor. - Ainda bem, disse Cris, lançando para Katie um sorriso de consolo. Quando chegaram à casa de Bob e Marta, viram a velha Kombi do Ted, a "Kombi Nada", estacionada na rampa de entrada para carros. Cris foi invadida por uma onda de calor e vibração, ao saber que ele estava lá, esperando-a. As garotas carregaram as malas até a porta da frente onde foram recebidas com uma rodada de abraços de Ted, Douglas, Bob e Marta. Parecia uma festa de volta ao lar. Katie mostrou-se um pouco desconfiada, como se duvidasse do afeto de todo mundo.

- As senhoritas estariam com fome? Algo para beber, talvez? Tio Bob, um anfitrião sempre atencioso, parecia ter acabado de chegar do campo de golfe. Estava com uma camisa de malha azul clara, short caqui, e sapatos tipo dockside brancos, sem meias. Para um homem na casa dos cinqüenta que nunca tivera filhos, parecia e agia mais como um universitário. - Claro. Eu aceito alguma coisa. E você, Katie? Marta, a tia de Cris, uma mulher graciosa e elegante, pegou no braço de Katie com suas unhas de acrílico e disse: - Ouvi dizer que você ficou vidrada em alimentos naturais. Estou tão contente! Espere só até ver o que comprei para comermos no final de semana. Ela conduziu Katie pela porta até a cozinha. Os outros seguiram atrás. - Olhe aqui! dizia Marta, entusiasmada. Suco de cenoura orgânicas, que acabei de fazer no centrifugador. Ela serviu um copo comprido do suco alaranjado para a Katie. - Obrigada, está uma delícia, disse a garota após um gole. Cris não sabia como sua amiga agüentava tomar o suco sem passar mal. Dava arrepios só de vê-la. Cismou também que havia lágrimas nos olhos inchados de Katie. - Toma, Cris. Você precisa provar um pouco, disse tia Marta, enchendo outro copo. - Acho que agora não consigo, tia. Muito obrigada. Prefiro um copo de água. Marta pareceu decepcionada, mas só por um instante. Logo voltou sua atenção para Katie, que bebia o suco. - Comprei quiche de espinafre para o café da manhã, continuou Marta, e amanhã para o almoço vou fazer um pouco da minha salada de chuchu, broto de alfafa e romã. Você vai adorar. - Não precisa se preocupar comigo, disse Katie.

- Está brincando! Para mim é um sonho que está se tornando realidade. Há anos venho tentando convencer a Cris de alimentar-se assim. E o Robert nem prova a minha comida natural. Estou contentíssima por ter alguém a quem dar minhas receitas. - Se você cansar de comida de coelho, disse Bob com olhar maroto, pode me acompanhar nas minhas rosquinhas doces, patês, costeletas de porco... - E isso no café da manhã, acrescentou Douglas, fazendo todos rirem. Douglas era um rapaz amável, gentil e sempre de bom humor. Alto, cabelo loiroareia e sorriso de menino, era famoso por seus abraços. Cris ria se contente, até que viu Katie depositando o copo meio vazio no balcão, o rosto coberto de lágrimas. Limpou-as com as costas da mão e, cabisbaixa, saiu da cozinha silenciosamente. - Ela está bem? perguntou Marta. Não foi nada que eu disse, foi? - Não, tia. Ela está bem, só que sofrendo. - Então vá lá e vê se lhe dá um chá de ânimo! - Já tentei isso. Acho que ela está precisando ficar um pouco sozinha. Está tudo bem assim. - Que tal eu levar as coisas dela para o quarto? Ofereceu Bob, saindo da cozinha. Os outros entreolharam-se em silêncio. Ninguém parecia saber o que fazer. - Ela vai melhorar, afirmou Cris. Amanhã estará melhor que hoje. Tomara que eu esteja certa, pensou.

O Lugar Mais Feliz da Terra 5

Às 8:45 da manhã seguinte, Ted, Douglas, Cris e Katie entraram na "Kombi Nada" e se despediram de Bob e Marta. - Diga ao Mickey que eu mandei um alô para ele, gritou Bob. - Eu guardo o resto da quiche de espinafre para quando você voltar, Katie, falou Marta. Ted deu partida e a "Kombi Nada" desceu a rua. - Puxa, isso parece uma entrada no túnel do tempo, disse Cris dando um aperto no braço do Ted. Lembra-se da última vez que você me levou à Disney e o Bob e a Marta se despediram de nós? - Ainda me lembro do que o Bob disse: "Divirtam-se. E vou me preocupar com vocês se der meia-noite e não tivera notícias" respondeu Ted, com um sorriso que deixava à mostra sua covinha. Eu tinha certeza de que você iria se transformar numa abóbora, se eu não a trouxesse até meia-noite! - Só me lembro que a Trícia estava sentada bem ali, disse Cris, apontando para o lugar de Katie no banco traseiro. Pensei que você a tivesse convidado para ir conosco, mas você só estava lhe dando carona até o trabalho. - Isso mesmo, disse Ted, como se lhe fora difícil lembrar-se dessa parte. - Eu me senti muito mal, porque lhe tinha dado uma resposta atravessada, e aí, com toda a doçura, ela me entregou um presente de aniversário. - E o que era? perguntou Katie.

- Minha Bíblia. Na verdade foi presente do Ted e da Trícia, mas ela tinha feito uma capa de tecido. - Eu não sabia, disse Katie. Muitos crentes foram bacanas com você antes de você se converter, não foi? Cris sentiu como se lhe dessem uma agulhada, porque não fora tão generosa com Michael. É, Katie tinha razão. Estava prestes a pedir desculpas, quando Ted parou no sinal vermelho. Saltou da kombi e correu até a porta da Cris. - O que é que ele está fazendo? perguntou Katie. Cris não tinha como responder, a não ser com um sorriso. Ali era o cruzamento deles, o lugar onde Ted a tinha beijado pela primeira vez e onde ele lhe tinha dado a pulseira de chapinha de ouro com a expressão "Para Sempre". Ted abriu a porta de Cris, e quase a carregou nos braços, ajudando-a a descer. Correram juntos para a frente do veículo, e em frente de Douglas e Katie e do mundo inteiro, Ted abraçou Cris e deu-lhe um rápido beijo nos lábios. Soltou-a depressa, e cada um correu para seu lado, entraram e sentaram-se no momento exato em que o sinal abriu. Ele engatou a primeira e continuou viagem, como se nada tivesse acontecido. - E então, que é que você acha daqueles corredores? Perguntou Douglas a Katie. - Não estou vendo ninguém na corrida, respondeu ela. Douglas riu-se e fez os outros rirem o tempo todo até Anaheim. Cris percebeu que a pequena cena no cruzamento provavelmente deixara Katie e Douglas sem jeito, mas para ela fora muito importante. Ela significava que Ted valorizava as recordações dos dois tanto quanto ela própria, e que ele não se importava se o mundo inteiro soubesse que estavam namorando. Era um sentimento maravilhoso, cheio de calor, delicioso mesmo, e Cris queria que durasse o dia inteiro.

Estacionaram o veículo e pegaram o trenzinho que os conduziria até a entrada da Disneylândia. Cris levava a máquina fotográfica a tiracolo e vestia uma blusa de malha amarrada na cintura. Pela manhã ela se lembrou da camiseta cor de pêssego que usara na primeira vez que fora à Disneylândia com o Ted, e queria tê-la usado só pela recordação. Mas viera de jeans e camiseta cor de creme. Katie também vestia jeans e uma camisa verde de algodão. Os rapazes estavam de short e todos traziam malhas para quando esfriasse, no cair da tarde. A primeira parada foi nos armários alugados, para guardar os agasalhos. - Aonde vamos primeiro? perguntou Douglas. Eu sou um cara da "Terra do Futuro". É bom que vocês saibam disso desde o começo. - O que você está dizendo é que a "Montanha do Espaço Sideral" está chamando o seu nome, não é mesmo? - Que é que posso dizer? Tenho forte necessidade de velocidade. - E o tipo de rapaz que eu gosto! exclamou Katie, em tom de aprovação, batendo a palma da mão direita na dele num “toque aqui". O estômago de Cris começou a embrulhar-se só de pensar nos passeios de montanha-russa que os três iriam querer. Ela preferia os tranqüilos passeios de barco, tipo "Pequeno Mundo". Da última vez, Ted a havia convencido de andar nos trenós mais altos e foi o passeio mais maluco que ela já fizera em toda a vida. Aparentemente, era fichinha comparado com alguns outros. - Então é rumo à "Terra do Amanhã"! decidiu Ted. Desde que possamos ir à "Terra da Aventura" antes de escurecer, para mim está bom. - O meu predileto é a "Montanha do Trovão", disse Katie. E o seu, qual é, Cris? Katie estava indo muito bem, animada a manhã inteira. Tê-la deixado sozinha, a chorar, na noite de véspera, parecia ter sido a melhor coisa.

Cris não tinha coragem de admitir que "Pequeno Mundo" foi a primeira coisa que lhe veio à mente. Optou pela segunda. - Gosto da casa da árvore da "Família Robinson". Ted parou de andar e olhou surpreso para a Cris, com um jeito todo contente. - Verdade?! Legal. - Então ele tomou a mão dela e lhe deu um apertão carinhoso. - Ela só disse isso porque sabe que é o de que você mais gosta, Ted, disse Douglas, olhando sobre o ombro. Ele e Katie estavam na frente, abrindo caminho pela rua principal em direção à "Terra do Amanhã". Se tivesse pensado no assunto, Cris teria se lembrado de como Ted se.transformara num Tarzã de espírito livre na casa da árvore quando a visitaram pela primeira vez. O sonho do rapaz não era segredo para quem o conhecia bem. Ele queria ser missionário e morar longe da cidade, no meio de uma floresta qualquer. Nunca se desviara desse alvo, e mais de uma vez Cris perguntara a si mesma se ela teria as qualidades necessárias para ser missionária também. Felizmente, a pergunta não precisava ser respondida, pelo menos naquele momento. Por ora, ela e Ted estavam juntos. As coisas nunca tinham estado tão bem entre eles quanto agora. Ela nunca estivera tão feliz quanto estava naquele momento. A fila para a "Montanha Espacial" estava muito grande e tiveram que esperar uns quarenta minutos antes de chegar sua vez. Mas o tempo passou depressa com o bate-papo de Katie e Douglas. Cris estava aliviada por perceber que Katie estava indo muito bem emocionalmente. Douglas era "catedrático" em matéria de incentivo. Se havia alguém capaz de levantar o moral de Katie, era ele. O rapaz sempre estava numa boa, sempre legal, Cris pensou que precisava achar um jeito de lhe dizer o quanto apreciava o que ele estava fazendo.

Daí a pouco ocupavam seus lugares nos carrinhos que os levariam através da escuridão nessa montanha-russa interior. Ao entrar, Cris imediatamente se achegou ao Ted, encostando-se em seu peito. Ele a abraçou e cochichou: - Tá com medo, gatinha? Ela respondeu com um "miau" bem na hora que o carro arrancou. Fechando os olhos, agarrou-se no braço do Ted e cerrou os dentes para não gritar. Ouvia Katie gritando e Douglas dando gargalhadas à frente deles. Ela ficou se perguntando quantas vezes ainda conseguiriam fazê-la embarcar naquelas viagem de pura "adrenalina", até o final da tarde. Embarcou cinco vezes. Velocidade. Emoção. Adrenalina pura. O que realmente a confortava era saber que cada vez podia chegar bem pertinho de Ted, fechar os olhos e sentir-lhe os braços fortes à sua volta. Nunca sentira tanto a proximidade dele. Era como se Ted lhe estivesse propiciando abrigo e proteção, deixando-a encostar-se nele em busca de apoio. Será que ele também sentia essa proximidade? Cada vez que desciam de um desses passeios malucos, Cris continuava com o braço na cintura do Ted. Queria sentir o braço dele em sua volta o dia inteiro. A semana toda. O ano todo. Pelo resto da vida. Era assim que ela se sentia bem. - Alguém está com fome? perguntou Douglas lá pelo meio-dia. - Acho que o seu estômago tem um reloginho, disse Katie. Dispara de hora em hora, não é mesmo? Não faz mais que uma hora que você tomou aquela Coca-Cola com pipoca, não foi não? - Ei, sou um menino em fase de crescimento! - E eu só estou mexendo com você. Também estou com fome. Onde vocês querem comer? Estavam no centro do parque, perto do castelo da Bela adormecida. Ted sugeriu que comessem um hambúrguer na Praça dos Cravos.

- Sabia que eles têm sorvete "Fantasia" aqui? perguntou Douglas enquanto aguardavam na fila para pedir os sanduíches. Acho que este é o único lugar no mundo onde se consegue sorvete "Fantasia". - E o que é? perguntou Katie. - É meio difícil de descrever. Tem cerejas ao marasquino e outras coisas mais. - Vocês sabiam que num vidro de cerejas tem corante vermelho suficiente para matar um rato de laboratório? indagou Katie. No momento em que a garota disse isso, todo mundo olhou para ela, até mesmo estranhos que estavam na fila por perto. - Pelo menos foi o que ouvi dizer, concluiu ela como que pedindo desculpas. Era sua vez de fazer o pedido no guichê. Katie perguntou à moça de avental listrado se tinham pão integral. - Não, sinto muito. - Então me dê um hambúrguer com o dobro de tomate, alface, picles e cebolas, sem a carne. - Sem carne? perguntou a moça. Mas é o mesmo preço. - Não faz mal. - Ei? interferiu Douglas, aproximando-se de Katie. Ponha o hambúrguer dela no meu. Eu como a carne do dela. - Não sei se podemos fazer isso. Talvez vocês dois possam trocar a carne. - Tudo bem, disse Douglas. - Está certo, concordou Katie. E as fritas, vocês preparam em óleo vegetal puro, por acaso? - Preparamos em quê? perguntou a moça. - Deixe pra lá. Nada de fritas. Só o hambúrguer com salada extra.

Assim que pegaram os sanduíches e arranjaram um lugar para sentar, Cris teve a impressão de ter visto uma nuvem se formando no rosto de Katie. Será que o fato de pedir alimentos naturais fizera com que se lembrasse de Michael? - Pode pôr aqui mesmo, disse Douglas, abrindo o pão de seu cheesburguer duplo, esperando que Katie colocasse sua carne nele. Quer meu tomate? - Claro. Aceito sua alface também, se não quiser. Não ligo para o picles. Douglas fez a troca e Katie apalpou seu "hambúrguer vegetal”, parecendo contente com a troca. - Isso não lhe lembra o poema infantil sobre o homem que não comia gordura e sua mulher que era vidrada em carboidratos? indagou Ted. Só que vocês inverteram os papéis. - É que a Katie não sabe o que é bom, falou Douglas, e aproximou seu hambúrguer gigantesco para perto da boca de Katie e continuou: Vamos lá, só uma mordida de nada. Você não pode comer só comida orgânica pelo resto da vida! Katie virou a cabeça e continuou no tom de brincadeira: - Sai pra lá com isso, Michael! No momento em que disse Michael, todo mundo parou. - Quer dizer, Douglas. Seu lábio inferior começou a tremer. - Não faz mal, disse Douglas serenamente. Dava para notar que Katie se esforçava para não chorar, mas parecia-lhe impossível continuar reprimindo as lágrimas. As palavras carinhosas do Douglas eram como uma pequena tampa segurando um dique prestes a romper-se. Talvez ele percebesse isso, porque aproximou sua cadeira de Katie, abraçou-a e ofereceu-lhe o ombro para que ela pudesse chorar. - Vamos lá, disse Douglas, gentilmente, puxando Katie para junto dele. Pode chorar. Está tudo bem. Chore!

Cris pensava que Katie iria se afastar, mas para sua surpresa, ela caiu nos braços do Douglas e desatou a chorar. Na verdade, parecia mais um grito que um choro. Cris nunca vira alguém chorar daquela maneira. Olhou em volta, pensando no "auditório” que havia ali - todos os turistas que estavam por perto nesse pátio a céu aberto. Aquelas dezenas de pessoas que passavam o dia no "Lugar mais feliz da Terra" certamente estavam morrendo de vontade de saber qual era o problema daquela ruivinha que chorava. - Venha cá, disse Douglas, ajudando Katie a pôr-se de pé, o rosto ainda enterrado em seu peito. Temos de entrar no mini consultório. Olhou para Ted e disse: - Espante os pássaros das minhas fritas. Volto dentro de alguns minutos. Cris e Ted, juntamente com os demais turistas que lanchavam por ali, ficaram a olhar o Douglas que conduzia Katie para um lugar afastado da multidão, para umas árvores perto do lago do castelo. Ele sentou-se com ela num banco afastado da via principal. Ainda segurando-a pela cintura, Douglas deixou que Katie chorasse. Ela não estava mais berrando; pelo menos não dava mais para ouvi-la. Cris virou-se para Ted, ciente de que estavam sendo observados, e disse: - Espero que ela esteja bem. Você acha que eu devia ir lá? - Provavelmente, não. Ela está em boas mãos. O Douglas tem o dom da misericórdia. É o que ela precisa no momento. Naquele instante um passarinho marrom saltou atrás da cadeira do Douglas e virou a cabecinha, olhando as fritas sobre a mesa. - Ele não estava brincando quando pediu que protegesse as fritas dos pássaros! Venha cá, passarinho. Deixe as fritas do Douglas em paz. Eu lhe dou um pouco das minhas.

Ela quebrou a ponta de uma batatinha e jogou-a no chão, perto da cadeira da Katie. Daí a um instante, o passarinho guloso tinha a companhia de seus irmãos, irmãs, tios, tias, e primos, todos picando aquele único pedaço de batata frita. Cris sorriu e se pôs a alimentar toda a passarada. Enquanto fazia isso, Ted orou em voz audível, de olhos abertos, agradecendo a comida e pedindo que o Espírito Santo confortasse Katie. Acrescentou então: - Sei que tu nos amas, Pai. Tua Palavra diz que cuidas até do menor passarinho que cai ao chão, e provês às necessidades de todas as tuas criaturas sobre a face da terra. Sei que te interessa pelos sentimentos da Katie e sei também que proverás às suas necessidades emocionais. Obrigado, Papai. Nos anos de convívio com Ted, Cris se acostumara com o jeito franco do rapaz conversar com Deus. Era à vontade e natural, mesmo ali, num restaurante ao ar livre, no meio da Disneylândia. Ela sentiu a presença de Deus, e acreditava que o pior já tinha passado para Katie. Não dava para explicar, mas Cris sentia-se estranhamente reconfortada e confiante de que o Pai celestial sempre cuidaria dela. Ted e Cris tinham acabado de comer e jogavam suas últimas fritas para os passarinhos quando Douglas e Katie voltaram. Ela estava com o rosto vermelho, porém, mais tranqüila, cheia de paz. - Me desculpem por aquilo, gente, disse ela em voz baixa, deslizando de novo na cadeira. - Não tem que pedir desculpas, replicou Ted. - Vocês espantaram os pássaros das minhas fritas? - Não foi fácil. Tivemos de dar-lhes das nossas para eles deixarem de lado as suas. Mas deu certo. - O sanduíche a essa altura certamente está gelado, comentou Katie. Vou comprar outro pra você.

- E desde quando comida fria é problema? Está ótimo para mim, disse Douglas com a boca cheia de carne. Katie mordiscou o vegetalbúrguer. - E agora, aonde vamos? indagou Ted. Vocês acham que agüentam alguma coisa mais tranqüila como o "Safári Pela Selva" ou os "Piratas do Caribe"? Douglas fechou um olho e, no seu melhor sotaque de pirata disse: - Acredito que esse marujo tá querendo ir à "Terra da Aventura". - Podemos também nos separar, sugeriu Cris. Se vocês quiserem subir à casa da árvore e essas coisas. - Não, eu também gosto da casa da árvore, respondeu Katie. E temos de ir à praça de Nova Orleans. - Isso mesmo, concordou Ted. Quero tomar um suco de menta com fritada de maçã. - Mais comida? indagou Douglas. Conte comigo! Katie estava calma. Era como se nada tivesse acontecido. Aparentemente, o fato de soltar a represa de lágrimas tinha ajudado a melhorar a situação. Douglas era o amigão de sempre e parecia nem se dar conta de que tinha salvado a pátria sozinho. Acabaram de comer sem incidentes, e Douglas propôs a Katie: - Se eu lhe comprar uma casquinha de sorvete "Fantasia” você toma? Ou vai querer só uma provinha da minha? - Quem sabe uma provinha da sua. Há tanto tempo que não tomo sorvete de verdade, que pode me fazer mal. - Então espere aí. Volto já. Alguém mais quer? - Eu comi demais, disse Cris. - Claro, eu topo tudo, disse Ted, estendendo a mão para o bolso. Quanto é? - Sou eu que pago esta.

Douglas correu para a fila. Voltou alguns minutos mais tarde com duas enormes bolas de um sorvete esverdeado, coberto com confeitos crocantes e chocolate. - Quer provar primeiro? ofereceu Ted a Cris. - O quê? Acha que sou cobaia? Se eu engasgar, você vai fazer de conta que deixou cair por acidente para os pássaros limparem? - Realmente tem uma aparência um tanto estranha, não acha? - Confie em mim, interveio Douglas. É uma delícia. Palavra de gastrônomo. Este é o único lugar no mundo onde se consegue este sabor. - E desde quando o Douglas é gastrônomo? falou Katie. Ei! Deixa-me experimentar! Douglas ofereceu sua casquinha e ela deu uma mordiscada. Cris e Ted olhavam. - Uuum! Bom. Mais uma, pode ser? Só mordisquei um pedacinho. - Terei prazer em comprar uma só para você. - Não. Só um pedacinho. Katie deu mais uma lambida, mordiscou e acrescentou: - Gente, esse negócio é uma delícia! Ted e Cris se viraram para a casquinha do Ted no mesmo instante e quase se chocaram, nariz contra nariz, ao morderem de cada lado. Os dois caíram na gargalhada e disseram ao mesmo tempo: - Bom mesmo! - Eu não disse? Olhando para Katie, Douglas pediu que ela segurasse o sorvete dele por um momento. Ela pegou a casquinha, e Douglas correu de volta ao guichê da sorveteria, dizendo: - Proteja esse sorvete dos passarinhos, Katie. O único jeito é comer tudo e não deixar uma migalha sequer cair ao chão.

- Que truque! Me forçando de volta ao vício do açúcar! Você devia tler vergonha, Douglas! - Não precisa comprar pra mim, recomendou Cris. Eu tomo junto com o Ted. - Ah é? Nada disso, menina! disse Ted, dando uma bocada no seu lado da casquinha. - Isso aqui é uma delícia! exclamou Katie. Esses pedacinhos são de quê? - Cerejas, disse Ted, tomando mais um pouco. E pedaços de chocolate, acho eu. - Espere aí! exclamou Cris, pegando sua máquina fotográfica. Preciso de uma foto dessas para o anuário. Ninguém vai acreditar que peguei a Katie tomando sorvete no seu último ano de colegial. Sorria! Katie levantou a casquinha e deu um sorriso para a câmara. Naquele momento, chegou o Douglas com mais um sorvete em cada mão. - Eu disse pra não comprar pra mim, disse Cris. - Quem disse que é para você? perguntou Douglas, em tom provocador. - O quê? Vai comer os dois? indagou Katie. - Não, um é para o Ted, já que a Cris acabou com o dele. - Não acabei, não! Douglas entregou a casquinha ao Ted, que passou a Cris o outro sorvete que estava pela metade. - Para mim está ótimo, disse Ted e deu uma bocada de bom tamanho no novo sorvete. - Isso aqui não está uma delícia? perguntou Katie de novo. Adorei! exclamou enquanto lambia a parte de baixo da casquinha onde o sorvete começava a derreter. Gente, mas esse sorvete é uma delícia! É demaaaais! Douglas e Ted se entreolharam como se dizendo: "É gostoso sim, mas não precisa exagerar."

- Você passou muito tempo sem comer açúcar, comentou Cris. Bem-vinda de volta ao nosso mundo, Katie! - Sabe duma coisa? disse Katie, os olhos verdes reluzindo novamente de alegria. Estou gostando de ter voltado.

Se Você Soubesse 6

- Então, você realmente acha que quer viver desse jeito? perguntou Douglas ao Ted quando os quatro invadiram a casa da "Família Robinson" construída na árvore, e passaram a observar a selva a seus pés. - Claro que sim! Não consegue ouvir as aves tropicais e sentir o cheiro das folhas de bananeira lavadas pela chuva? - São aves mecânicas com pequenos gravadores na barriguinha, informou Katie. E não é cheiro de bananeira lavada pela chuva. É cheiro de refresco de menta, que o Douglas tomou. Lembra que ele só tomou três? - Mas eram pequenos, disse Douglas. Além do mais, Katie, não vi você com dificuldade de devorar, sozinha, uma fritada de maçã. - Eu sei, disse ela, rindo-se. Estava uma delícia! Só Cris não debochou do sonho de Ted de viver na selva. Ela via nos olhos dele uma expressão de êxtase e encantamento. O que seria? O chamado de Deus para a vida de Ted? Parecia que algo lá no fundo chamava o Ted e ele não descansaria enquanto não atendesse à missão que havia anos lhe falava ao coração nas profundezas da noite. - É sua vez de escolher o passeio, Ted, falou Katie. “Viagem Pela Selva" ou "Piratas do Caribe"? Ted estava encostado no peitoril da casa de árvore, olhando as pessoas que passavam lá embaixo, por todos os lados. Não parecia ter ouvido a pergunta da Katie.

Cris aproximou-se dele e colocou o braço em seu ombro, curiosa de saber o que ele olhava. Tentou imaginar o que ele estaria pensando. Será que estaria sonhando com a vida na selva? Dormir em rede, ir de canoa, remando, até o vilarejo da tribo vizinha, levando apenas a Bíblia e uma lança para pegar um peixe no caminho? - Sabe de uma coisa, Kilikina? Ela gostava tanto quanto ele a chamava pelo nome havaiano! Encostou a cabeça no seu ombro e escutou de todo o coração. - Hoje há mais gente perdida nas cidades do que nas selvas. Cris afastou-se. De onde ele tirara essa idéia? - Vamos descer, marujos, disse Douglas imitando "voz de pirata". Aguardamos vocês a estibordo, na fila dos piratas. - Vamos embora, disse Ted, sacudindo-se para espantar o devaneio, e tomando Cris pela mão. Ela desejava perguntar o que ele queria dizer com o comentário. Estaria pensando que Deus o estava chamando para outra coisa, e não para ser missionário na selva? Apesar de conhecê-lo havia alguns anos, ela ainda não entendia completamente o Ted. Será que um dia vou entender? O passeio "Piratas do Caribe" foi divertido. Cris se lembrou quando eles tinham feito o passeio da outra vez, e jantado no restaurante Blue Bayou. Quando embarcaram no cruzeiro pela selva, notou que Katie e Douglas andavam bem juntinhos. Pelo menos, estavam sentados juntos. Bem, todo mundo no barco estava sentado juntinho dos outros. Douglas estendera o braço no encosto do banco de Katie, fazendo com que ela se encostasse nele. Ela parecia bastante feliz, já livre da tristeza causada pela ausência de Michael, ou estimulada pela quantidade de açúcar que ingerira. Ou feliz pelas duas coisas.

Em seguida foram para a "Ilha de Tom Sawyer". Katie parecia estar se divertindo mais do que os outros três juntos. Atravessaram correndo a ponte pênsil, esconderam-se nas cavernas, subiram a rocha oscilante e fizeram o passeio de canoa em volta da ilha. Cris tomou seu lugar na canoa e segurou o remo como uma especialista. - Valeu a minha experiência de canoagem no acampamento ano passado, comentou. - Mas tem certeza de que você consegue remar sem estar com o assento coberto de saúva? perguntou Katie alto e bom som para todos ouvirem. - Não me parece o tipo de acampamento de verão que eu quisesse freqüentar, disse um grandalhão à frente de Cris, olhando sobre o ombro. Cris sentiu o rosto avermelhar-se e baixou os olhos, fingindo que ajustava a máquina fotográfica. - Está ficando pesada? perguntou Ted. Eu carrego para você, se quiser. - Na verdade, eu deveria estar tirando algumas fotos. Cris removeu a capa da câmara e tirou umas duas fotos do Douglas e da Katie e mais duas do Ted. - Aqui, disse Douglas, estendendo a mão para a máquina e deixando o remo no colo enquanto todos os outros remavam. Deixe que eu tire uma de vocês dois. Cris encostou-se no peito de Ted e virou-se de lado para olhar o Douglas. Ted e Cris sorriram. Cris já imaginava o tipo de moldura que iria comprar para essa foto: uma moldura em formato de coração, ladeada de flores. Depois do passeio de canoa, os quatro passaram a caminhar num passo mais lento. Chegou a noite e Ted e Cris deixaram Douglas e Katie na fila da "Casa Mal-Assombrada", enquanto iam buscar os agasalhos. Combinaram de se encontrar dentro de uma hora na "Terra dos Ursos". Caminharam de mãos dadas até o guarda-volumes, pegaram as malhas e voltaram para a via principal. Ted parou em frente de uma das lojas e disse: - Quero comprar um presente para você.

- Não precisa, replicou Cris, parecendo surpresa com o que ele disse. - Mas eu quero. Da outra vez que viemos aqui, comprei todas aquelas coisas com o dinheiro da sua tia. Desde aquele dia estou com vontade de comprar alguma coisa com o meu próprio dinheiro. Algo especial, um presente meu para você. Cris sentia muita ternura na atitude dele. Ted passou o braço em volta dela e assim entraram e ficaram a olhar os artigos da loja, entre prateleiras e exposições abarrotadas de apetrechos da Disney. Então, Cris viu o que queria. Perfeito. - Gostaria disto aqui, disse ela, estendendo a mão para uma moldura de porcelana em forma de coração. Era exatamente o que ela imaginara. - Vou colocar nossa foto do passeio de canoa aqui, explicou ela. Sabe, aquela que o Douglas acabou de tirar. - Legal. Vê mais alguma coisa que você deseja muito ter. - Sim, disse ela com um sorriso maroto. Você. Ted parecia surpreso, mas sentiu-se honrado. - Você poderia viver sem mim, Cris. - Mas não gostaria, disse ela baixinho. Antes de ela perceber o que estava acontecendo, Ted pegou seu rosto entre as mãos, levantou-o e deu-lhe um beijo. Quando se afastou, Cris respirou fundo e notou uma lágrima no canto do olho dele. Ele piscou os olhos e deu-lhe um abraço apertado. Cochichou-lhe então no ouvido: - Se você soubesse, Kilikina... Se apenas soubesse. - Soubesse o quê? sussurrou ela. Cris sabia que os outros fregueses estavam olhando para eles, mas depois dos berros de Katie na hora do almoço, isso não era nada.

- Vamos lá! disse Ted, soltando-a e limpando depressa os olhos com o capuz de malha. Vamos pagar a conta e procurar um lugar onde possamos conversar tranqüilamente. Ela colocou a mão na dele e seguiu-o até o caixa onde ele pagou a moldura em formato de coração. A atendente, uma mulher de avental de babados, embrulhou-a num papel de seda e colocou num saquinho, entregando-a a Cris. Então Ted a conduziu pela via principal como se soubesse exatamente aonde queria ir para conversar. Ela estava morrendo de curiosidade. O que será que ele queria dizer quando falara "Se apenas soubesse"? Aquela preocupação exagerada era desagradável. O estômago parecia dar saltos. Será que havia alguma coisa errada? Será que ela dissera ou fizera algo que não devia? Caminhando contra a maré da multidão na "Terra das Fronteiras", Ted conduziu Cris para um enorme barco a vapor, branco, que aguardava a subida dos passageiros. A enorme réplica do "Rio Mississipi" brilhava com fios de luzes brancas, e no convés inferior uma banda de jazz, típica do sul, tocava uma música que fazia saltitar o coração e deixava os pés inquietos. Ted não parecia interessado na música. Subiu a escada e abriu caminho até duas cadeiras vazias que estavam no canto do convés superior, onde havia pouca gente. Assim que se acomodaram, sentados um ao lado do outro, a sirene do navio tocou e partiu para a viagem pela "Ilha de Tom Sawyer" já ao anoitecer. - Ted, qual o problema? Você está tão sério. Foi alguma coisa que eu disse? - Ele abanou a cabeça e respirou fundo, como se fosse dar uma risada. - Não. Depois, mudando de idéia, corrigiu: - Sim, mas não há nada de errado com o que você disse. Foi bom. Bom demais, na verdade.

- Não entendi. Eu só disse que não iria querer viver sem você. Aí você disse que se eu soubesse... Soubesse o quê? A respiração suspensa, o rosto pálido, acrescentou então, com um nó na garganta: - Ted, você não vai morrer ou coisa parecida, vai? Ted tombou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada sonora na direção do céu salpicado de estrelas. Não, Kilikina, não vou morrer. Bem, quer dizer, um dia vou sim. Todos morreremos. Mas não sei quando, e não tenho planos dessa natureza para um futuro próximo. - Então o que você está dizendo? O coração de Cris batucava, e ela se sentia confusa. Sabia o quanto amava o Ted e como sofreria se, por alguma razão, o perdesse. - Não sei se consigo explicar. Mas vou tentar. Escute e veja se faz sentido para você. Ela fitou nele os olhos bem abertos. Aí, comprimindo os lábios, Ted falou lentamente: - Você sabe que sou filho único e meus pais se divorciaram quando eu ainda era bem novo. Ela fez "sim" com a cabeça. - Cresci mais ou menos sozinho e nunca tive ninguém quem eu gostasse, nem que se importasse muito comigo. Sei que minha mãe e meu pai me amam, mas quando era menino eu daria tudo para que eles tivessem resolvido se amar e viver juntos de novo. Sabe? Era bom que me amassem, mas eu queria que eles se amassem também. Cris teve a impressão de que havia outra lágrima prestes a rolar do olho do Ted. Apertou-lhe a mão e apenas com expressão de seus olhos insistiu para que ele continuasse. Ele raramente falava dos pais, e ela queria que soubesse que ele poderia confiar a ela os segredos do seu coração.

- Quando conheci a Cristo, foi como se Deus tivesse me dado todo o amor que me faltou quando eu era menino. Era um amor seguro, de aceitação total. O amor de Deus me transformou. Totalmente. E creio que Deus me chamou para ser missionário. Você sabe, Ele me chamou para ir ao fim do mundo falar a pessoas que nunca ouviram sobre o amor dele. Eu achava que seria muito fácil. Eu não tinha nada a que fosse apegado. Nem família, nada. Aí, você apareceu. Cris ficou em dúvida, sem saber se ele insinuava que ela estava interferindo no plano de Deus para a vida dele, ou se queria dizer outra coisa. - Você está dizendo que eu o impeço de fazer a vontade Deus? - Não, de jeito nenhum! Você me inspira a crescer no relacionamento com Deus. Sempre foi assim. É só que você realmente gosta de mim, me quer bem de verdade. Você quer estar comigo. Você disse lá na loja que não queria viver sem mim. - E isso não é mau, Ted! Falei isso com toda sinceridade. Eu realmente me interesso muito por você, mais do que você pode imaginar. - Eu sei, disse Ted em voz baixa. Você é a primeira pessoa que me ama de fato. Ele não disse como se estivesse querendo sentir pena de si mesmo. Era como se tivesse feito uma descoberta quando percebeu quanto Cris era importante para ele. - Isso devia fazer você sentir-se bem, Ted. Por que está arrasado por saber quanto lhe quero bem? O barco a vapor havia completado a volta e estava atracando. Daí a pouco os passageiros desembarcariam e entraria um novo grupo. Ted e Cris permaneceram sentados, de mãos dadas, trancados dentro do seu mundo particular. - Não estou arrasado. Maravilhado seria um termo melhor. Simplesmente, nunca houve alguém que gostasse de mim como você. Eu até cheguei a me afastar de você, quando fui para o Havaí. Talvez eu estivesse com medo de me aproximar demais ou querê-la bem demais. Sei lá.

O apito soou e o navio partiu, e mais uma vez ele respirou fundo. - Não sei por que isso está me marcando tão fundo agora ou por que suas palavras doeram tanto no meu coração lá na loja. Só sei que eu também não quero viver sem você, Kilikina. Você é a dádiva mais preciosa que Deus já me concedeu. Os olhos de Cris se encheram de lágrimas, e ela sentia tremer o lábio inferior. Ted ficou de pé e aproximou sua cadeira da dela, ficando os dois virados para a frente do barco. Ele passou o braço pelo espaldar da cadeira. Cris encostou a cabeça na curva do ombro dele e sentiu seu rosto viril descansando contra seu cabelo. Juntos, em silêncio, ficaram a olhar na direção do barco, que avançava noite adentro. No andar de baixo, vibrava uma animada música de banda. Acima brilhavam mil estrelas, e Cris escutava o ritmo firme do coração de Ted. Ela nunca se sentira tão próxima de Ted e ao mesmo tempo tão perto de Deus, e certa de que o Senhor cumpriria todas as suas promessas. E pela primeira vez, no relacionamento dos dois, Cris não tinha dúvidas de que Ted se sentia do mesmo jeito que ela.

Bom Domingo! 7

O som estridente do despertador acordou-a às 7:30 no domingo de manhã. Cris virou-se de lado, bateu em cima do despertador e deu um gemido. - Katie, hora de levantar. - Ainda não. Me deixe dormir mais cinco minutos, está bem? pediu ela. E rolou na bicama do quarto de hóspedes, vencida pelo sono. - Eu entro no banho primeiro, disse Cris, levantando-se cambaleante. O culto começa daqui a uma hora. - Acho que as igrejas teriam mais gente presente se o culto fosse à tarde, murmurou Katie, puxando o travesseiro sobre a cabeça. - Estou com dor de cabeça, disse Cris, dirigindo-se ao banheiro da suíte. Meus pés estão doendo de tanto que andamos ontem. Minha vontade também é voltar para a cama. - Então volte. A gente encontra os rapazes hoje à tarde. Cris pensou em voltar para a cama e se enfiar debaixo dos cobertores, mas só por um momento. - Não, hoje é o dia do Senhor. Precisamos honrá-lo e adorá-lo junto com seu povo. - Eu o estou adorando em silencioso louvor, disse Katie com palavras abafadas pelo travesseiro. - Não acredito que exista isso, disse Cris, ligando o chuveiro. Enquanto esperava a água se aquecer, examinou o rosto no espelho.

- Estou parecendo hambúrguer cru, comentou. - Pois eu estou me sentindo um hambúrguer cru, respondeu Katie. - Meus olhos estão parecendo dois peixes que trombaram de frente. Cris abriu bem os olhos e tentou contar as linhas rajadas de sangue. - Cris, murmurou Katie, será que você e seus peixinhos podem tomar seu banho e me deixar dormir mais uns cinco minutinhos? E logo deitou de novo, cobrindo a cabeça. Cris fechou a porta do banheiro, entrou no boxe e cinco minutos depois já tinha terminado. - É sua vez, disse animadamente a Katie, ao abrir a porta e sair uma nuvem de vapor. - Já?! resmungou Katie, rolando para o lado da cama, esforçando-se ao máximo para se levantar. Por que dissemos que queríamos ir ao primeiro culto? - Deixei o xampu e o condicionador lá dentro, disse Cris, desenrolando a toalha do cabelo molhado para secá-lo. E meu modelador de cabelo está em cima do balcão. - Você está animada demais para o meu gosto, senhorita, disse Katie, tateando até o banheiro. Nada pior que ver a melhor amiga apaixonada diante dos olhos da gente. - Eu sei, disse Cris quando Katie fechava a porta do banheiro. Isso já me aconteceu, lembra? Por um segundo, parou, esperando que a referência ao Michael não fizesse Katie disparar numa queda emocional. Mas depois deu um sorriso e começou a aprontar-se. É isso que estou fazendo? Me apaixonando? Ou tenho amado o Ted desde que o conheci, mas nenhum de nós sabia até ontem à noite? Sentiu vontade de cantarolar. Tudo no mundo era maravilhoso. Totalmente perfeito. E só iria ficar melhor. Dentro de uma hora, estaria com o Ted. Colocaria sua mão na dele, ele a apertaria e ficaria de mãos dadas com ela - e juntos cantariam louvores a Deus. Sim, hoje era realmente um dia para cantar.

- Cris? gritou Bob, dando quatro batidas na porta do quarto. - O quê? - Só queria verificar se vocês já tinham se levantado. O café está pronto. Se estiverem interessadas... - Obrigada, tio Bob. Desceremos dentro de alguns minutos, replicou e em seguida foi chamar a amiga. - Katie, disse abrindo a porta do banheiro e abanando a mão para limpar o vapor. Eu já vou descer. Meu tio já fez o café. Depois do café eu volto para me pentear. - Se for donuts* ou waffles, guarde para mim. ___________________
* Donut: rosquinha frita de massa semelhante à do sonho. (N. da T.)

Cris desceu a escada quase dançando, a saia rodada do vestido lembrando asas de borboletas. Encontrou o tio na cozinha servindo suco de laranja e colocando os copos ao lado de uma fruteira cheia de frutas frescas e um cesto de muffins* e croissants. ___________________
* Muffin: bolo pequeno, fofo e redondo. (N. da T.)

- Bom dia "olhos brilhantes", disse ele, oferecendo-lhe um copo de suco. Como foi seu dia ontem no "Reino Encantado”? - Maravilhoso! disse Cris, bebendo um pouco do suco e estendendo a mão para pegar um muffin de uva-do-monte. Totalmente maravilhoso! - Fico contente por saber, disse o tio com um sorriso. Parece que foi bem melhor em relação à última vez que você e o Ted foram lá. - Incomparável!

Seu coração arrebentava de júbilo. Cris teve vontade de deixar que ele espalhasse alegria por toda a cozinha, contando ao tio que estava totalmente apaixonada e não tinha dúvidas de que Ted sentia o mesmo. Mas naquele instante entrou sua tia. Para surpresa dela, Marta não vestia o robe e chinelo costumeiros de domingo. Trajava um vestido de malha preto, muito chique, e o cabelo e a maquiagem estavam perfeitos. Então Cris notou que Bob também se vestia com mais capricho do que de costume. - Você vai se atrasar, disse a tia. Não pode ir para a igreja de cabelo encharcado. Cris engoliu um pedaço de muffin e deixou para lá o comentário da tia. Perguntou: - E vocês, aonde vão? - Com vocês. Para a igreja, respondeu Bob. É uma espécie de favor ao Ted. Ele me ajudou a fazer a limpeza na garagem sábado passado e não deixou que eu lhe pagasse. Disse que o único pagamento que queria era que eu visitasse sua igreja. Parece que hoje é o dia. Cris nem queria acreditar. Ted conseguira o que mais ninguém da família de Cris conseguira. Bob e Marta iam à igreja. - Vou secar o cabelo, disse ela, tomando mais um gole de suco. Subiu as escadas, correndo. Katie acabara de secar o cabelo quando Cris entrou no quarto. - Katie, você nunca vai acreditar no que aconteceu. Bob e Marta vão conosco à igreja! - Isso é bom, disse serenamente a amiga. - Não é não, replicou Cris. - Como não é bom? - É incrível! É fantástico, uma maravilha! É uma coisa totalmente de Deus, Katie. Estou tão contente!

- Deu para notar, disse Katie, sondando o rosto exuberante de Cris. Ótimo! Eles já estão prontos? Naquele momento as garotas ouviram a campainha da porta. - Vai ver que é o Ted. Tenho de ir depressa! Katie afastou-se da pia para deixar Cris terminar sua toalete. Calçou os sapatos e remexeu a mala à procura da Bíblia. - Vou ter de ler com você, disse ela, erguendo a voz por causa do barulho do secador. Esqueci minha Bíblia. - Você pega a minha? Está na mesinha do lado da cama. Pega minha bolsa também, faz favor. - Sim, majestade. Mais alguma coisa? - Sim, vá lá embaixo e faça sala por mim. Fala pra eles que eles que desço daqui a dois segundos. Katie deixou Cris com a escova de dente na boca, bastão de rímel numa mão e modelador na outra. - Vamos lá, cabelo, murmurou Cris com a boca cheia de creme dental. Coopere. Ah, deixe pra lá! Largou o modelador, deu alguns toques de rímel nos cílios, tirou a escova de dente da boca deu umas bochechadas com refrescante bucal. Curvando-se, jogou o cabelo todo para a frente e ergueu-se. Jogou a cabeça para trás e deu mais uma sacudida. - Hoje é o look natural, disse à imagem refletida no espelho. Em seguida desceu correndo a escada. Ted a esperava junto à porta da saída. Assim que os olhos de ambos se encontraram, ela percebeu que havia algo diferente entre eles. Ele sentia o mesmo que ela. Naquele instante ela era Cinderela, com certeza, descendo a escadaria ao encontro de seu "Príncipe Encantado".

- Vamos, disse Marta com certa rispidez, entrando na sala como uma tempestade. A Cris já se aprontou? Ah, você está aí! Quando Cris se aproximou de Ted, ele sorriu e pegou sua mão. Ela notou que ele não tirava os olhos dela enquanto desciam a calçada rumo ao carro. - O Douglas vai nos encontrar lá? perguntou Marta, ao se acomodar no banco da frente do luxuoso carro de Bob. - Vai, respondeu Ted. Quer que eu dirija? - Vocês três podem sentar atrás, ordenou ela. Katie já se sentara ao lado da janela quando Cris entrou e sentou-se ao seu lado, e Ted se espremeu no canto, ao lado de Cris. - Ah! Devia ter deixado você se sentar na frente, Ted, disse Marta enquanto Bob deslizava pela rua. Você senta aqui na volta. Tem muito mais espaço. Ela tagarelou o caminho todo, aparentemente desejosa de provar que se sentia bem à vontade nessa nova experiência. A igreja do Ted era grande e todos se sentiam muito à vontade. As pessoas eram amistosas e informais. Muita gente ia ao culto de short, e isso pareceu deixar Marta meio chocada. Douglas tinha guardado lugares para eles. Marta continuou a tagarelar, mesmo depois que o culto começou, e Cris ficou com pena de Katie, que estava sentada ao lado dela. Ted e Douglas não tiveram dificuldade em participar do culto. Cris estava gostando de ficar entre os dois, de pé, ouvindo-os entoar cânticos de louvor com sua voz profunda. Ela também cantou de todo o coração. No último cântico, Douglas e Ted, um de cada lado, pegaram na mão dela. No início Cris se surpreendeu, mas depois notou que muitas pessoas estavam se dando as mãos nos corredores. Ela olhou para Bob e Marta, que estavam de mãos dadas, mas sem cantar.

Espero que esta igreja não seja moderna demais para o gosto dele, pensou Cris. Ela notou que a congregação era uma mistura de jovens e gente mais idosa. Havia muita gente na faixa de idade de Bob e Marta. Ela adoraria se eles viessem a estabelecer relações na igreja e acabassem conhecendo pessoalmente a Cristo. Era essa sua oração havia já um bom tempo. Agora lá estavam os dois, na igreja, e ela não queria que nada os decepcionassem. Findo o louvor, sentaram-se todos, e o pastor tomou seu lugar na plataforma. Em vez de ficar de pé, junto ao púlpito, ele sentou-se numa banqueta alta e segurou a Bíblia aberta numa mão. Seu modo de falar era vigoroso, mas cheio de compaixão. Escolheu seu tema e sobre ele discorreu com terna autoridade. Cris fechou os olhos por um momento e imaginou Jesus ensinando desse jeito, com insistência e um amoroso fervor, levando os ouvintes a entregarem o coração para Deus. Imaginava o Ted pregando naquele mesmo estilo e seus tios se entregando a Cristo. Na última parte da mensagem, o pastor leu um versículo que dizia que não há maior amor do que o de uma pessoa que entrega a vida por um amigo. Explicou que foi isso que Jesus fez por nós. E nós demonstramos que realmente somos discípulos dele quando obedecemos a Deus a ponto de abrir mão daquilo que nos é mais precioso. Imediatamente pensou na Katie abrindo mão de seu relacionamento com Michael porque sabia que era isso que Deus queria. Esperava que a amiga se sentisse encorajada com a mensagem do pastor, sabendo que tinha decidido fazer o que era certo. Pensou também que a mensagem podia convencer o Bob e a Marta. No final do culto, o pastor orou, dizendo que se alguma pessoa quisesse entregar sua vida a Cristo, poderia orar silenciosamente, confessando seus pecados e convidando Cristo a tomar conta de sua vida. Cris orou por seus tios mais que nunca. Quando mais tarde saíram para almoçar, ela mal podia esperar para perguntar se haviam gostado do culto. Logo que se sentaram, virou-se para Marta e disse:

- Então, tia, gostou da igreja? A mensagem não foi excelente? Marta ficou a olhar o cardápio e deu um grunhido sem compromisso. Bob disse: - Foi diferente do que eu esperava. Ele não é aquele tipo de pastor de toga preta que fica batendo no púlpito. - E que música religiosa era aquela? perguntou Marta ,examinando o cardápio e meneando a cabeça. Com guitarras e bateria! A igreja onde fui criada tinha órgão. Música adequada à igreja. E o pastor nem usava gravata. Como ele espera que as pessoas respeitem sua condição de pastor se ele fica de pé lá em cima - ou melhor, sentado num banquinho – parecendo um dos gatões da praia? Cris e Ted se entreolharam. Aparentemente, Marta não escutara a mensagem. Ficara pensando na música e na aparência do pastor. O coração de Cris afundou. Tinha sido uma oportunidade perfeita para os tios se converterem. Mas parecia difícil que qualquer um deles tomasse uma decisão. Ela sentiu-se deprimida. Correu os olhos no cardápio, mas perdera a fome. - Eles têm uma coluna light aqui, disse Marta, mostrando o verso do cardápio para Katie. Eu recomendo qualquer das saladas que eles servem. Peça o molho à parte, mas não peça o da casa. Soube que é feito com creme de leite. Katie não se interessou pelo cardápio light, mas permaneceu na coluna de hambúrgueres. Quando a garçonete chegou, foi a primeira a fazer o pedido: - Quero um cheesburguer duplo, fritas e um milk-shake de chocolate. Marta começou a rir. - Você tem um senso de humor tão divertido, Katie queridinha. Katie permaneceu séria. - Ela quer a salada havaiana de frutas, disse Marta à garçonete. E eu aceito o mesmo. E nós duas vamos querer molho para acompanhar.

- Eu vou comer é cheesburguer mesmo, disse Katie à garçonete, não dando bolas para o olhar de espanto de Marta. E pode acrescentar umas fatias de bacon. - A Katie está de volta ao mundo de verdade, disse Douglas ao Bob, em voz audível para que Marta ouvisse perfeitamente. Aconteceu ontem. Devo confessar que eu a levei a isso com um sorvete “Fantasia”. - Você devia ter vergonha disso! exclamou Marta, que estava seriamente abalada com a perda da colega de alimentos naturais. Douglas, você sabia que Katie vai levar uma semana para se desintoxicar do que você a induziu a comer ontem? E agora, isso aqui carne de boi e de porco, tudo adoçado e num só prato! Antes que levasse adiante sua bronca, a garçonete perguntou, virando-se para os outros: - Vocês querem fazer o pedido agora ou devo voltar mais tarde? - Não, a gente pede agora mesmo, disse Bob. Ele pediu uma carne com queijo derretido e cebolas extras. Douglas pediu uma à francesa, com rodelas de cebola fritas. Ted pediu sanduíche de peito de peru e salada de batata, e agora era a vez de Cris, que ainda não sabia o que queria. - Qual a sopa do dia? perguntou para ganhar tempo. - Creme de cogumelos ou vegetais com carne e cevada. As duas opções lhe davam arrepios. Agora ela realmente não sabia o que pedir e todo mundo ficou esperando. Principalmente tia Marta, que parecia ter muito mais o que dizer sobre o pedido de Katie. Cris detestava tomar decisões. Essa espécie de situação nunca fora o seu forte. Pior era isso: a única coisa que lhe parecia boa era a salada havaiana. Mas se ela a pedisse, será que iriam pensar que isso tinha algo a ver com a recusa de Katie? - Acho que hã... vou aceitar a... salada de frutas havaianas. - Molho de lado?

- Sim, excelente. Cris fechou o cardápio e entregou-o à garçonete, cônscia do olhar perplexo da tia. A escolha de Cris deve ter surpreendido tanto a tia, que ela resolveu dar por encerrado seu discurso quando a garçonete voltou à cozinha. Douglas começou a contar ao Bob sobre os pontos altos do passeio à Disneylândia. Katie o acompanhou, e logo uma conversa animada se travava em volta da mesa. Ted pegou na mão de Cris por baixo da mesa, apertou-a, e ela correspondeu-lhe ao gesto. Imediatamente, os sentimentos carinhosos da véspera voltaram. Um elo invisível parecia envolvê-los, como se estivessem numa "bolha" só deles. Cris tinha certeza de que nada poderia fazer essa "bolha" estourar.

Coloquem os Cintos Por Favor 8

- Então, até logo, disse Bob, apalpando a lateral do carro da Cris enquanto ela e Katie acenavam. Estavam partindo para casa depois de um final de semana repleto de felicidade. - Telefone quando chegar em casa, acrescentou Marta. E dirija com cuidado. Vocês duas colocaram o cinto de segurança? - Colocamos, gritou Cris pelo vidro aberto. Tá tudo certo. Vamos bem. Cris saiu em direção à estrada. - Você gostaria de ficar mais, não gostaria? perguntou Katie vendo Cris olhar para os tios através do retrovisor. - Acabou depressa demais, suspirou. Queria ter passado mais tempo ao lado de Ted. - Mas ele vai passar o próximo final de semana na sua casa, não vai? Você sobrevive até lá. Cris não sabia se a Katie estava só brincando ou ironizando. Depois do incidente na Disneylândia, ela dera bons sinais de recuperação face aos abalos provocados pela perda do Michael. Ainda assim, será que não havia mais lágrimas dentro de Katie? Cris resolveu dar outra direção à conversa. - Tem umas fitas na caixa embaixo do assento. Quer procurar uma música boa pra viagem? Katie pegou a caixa. - O que você quer escutar?

Então, antes que ela levantasse a tampa, Katie disse: - Espera aí! Tenho uma fita nova na minha mochila. Douglas me deu. - O Douglas deu pra você? - É, hoje cedo no estacionamento da igreja. Ele disse que tinha umas músicas que ele gostava muito e achava que eu também ia gostar. Não foi legal? Ele é bom demais para ser de verdade. Ela soltou o cinto de segurança e ajoelhou-se no banco da frente, virando-se para trás para mexer nas malas. - Cuidado, disse Cris, olhando no espelho retrovisor, que refletia a camiseta de listas rosa e cinza. Anda depressa, está bem? Já estava escuro. Cris acendeu o farol e tomou a estrada da Costa do Pacífico. - Onde está aquela coisa? indagou Katie inclinando-se ainda mais sobre o banco traseiro. Cris queria ralhar com ela, como se Katie fosse uma criança: Desça daí já! Não sabe que isso é perigoso? Mas mordeu o lábio inferior e olhou para o espelho do lado. Para horror dela, viu as luzes azuis de uma viatura policial. - Katie, tem uma patrulha atrás da gente! Katie levantou a cabeça, olhou para a viatura de trânsito que se aproximava, e abanou a mão na direção dela, dizendo: - É mesmo. Parece que ele está querendo chamar sua atenção. Olá, seu guarda! Naquele instante a sirene tocou e Cris sentiu o coração parar. - Que é que eu faço? Que é que eu faço? Katie virou-se e sentou-se de novo. - Relaxe! Você não fez nada de errado. Pare aí à direita. Cadê o registro do carro? Aqui dentro? Ela abriu o porta-luvas e começou a remexer os papéis, à procura do

documento, enquanto Cris, nervosa, parava no acostamento, baixando o vidro do carro antes de desligar o motor. - Agora que é que eu faço? Espere e fique calma. Ele vai vir até aqui. - Será que devo tirar a minha carteira? Cadê minha bolsa? - Calma, está aqui, disse Katie, entregando a bolsa a Cris. E aqui está "seu" guarda. Cris virou-se e viu um homem de semblante severo, que se encostou na janela e olhou para dentro do carro, encarando firme a Katie que disse com um sorriso: - Boa noite, seu guarda. O policial então olhou para Cris e pediu a carteira e os documentos do carro. - Aqui estão, disse ela, passando-lhe sua carteira de documentos e dinheiro. - Só quero a carteira de motorista. Pode retirá-la? - Claro. Desculpe. Cris remexeu a carteira de documentos enquanto Katie examinava os papéis que retirara do porta-luvas. - Aqui o registro, disse Katie, entregando-o ao patrulheiro, antes que Cris conseguisse tirar a carteira de motorista do compartimento apropriado da carteira de documentos. O policial esperou. - Estou quase conseguindo, disse Cris, esboçando um sorriso nervoso. As mãos tremiam tanto, que quase não conseguia segurar os papéis. Entregou-os finalmente ao patrulheiro. Ele examinou os documentos e tirou um bloco de papel do bolso traseiro. Nesse instante chegou uma mensagem pelo rádio da viatura. O patrulheiro avisou que não saíssem do lugar e voltou ao seu carro. Cris fechou os olhos e deu um profundo suspiro.

- Por que você está tão tensa? Provavelmente foi só uma lanterna apagada ou coisa parecida. Não é nada grave. Relaxe. Quando Cris abriu os olhos e viu que os carros passavam por elas velozmente, supôs que estivessem todos na estrada a rir-se dela, zombando do constrangimento da pobre coitada, Que horrível! - Está bem, Senhorita Miller, disse o patrulheiro, parando junto à porta do carro. Deu sorte hoje. Tenho de atender um chamado urgente. Em seguida ele lhe devolveu os documentos e olhou nos olhos de Katie. - Sugiro que a senhorita aperte o cinto e fique sentada direitinho. O próximo policial que encontrarem podem não estar com tanta pressa. Ele voltou correndo para sua viatura, acendeu as luzes e tocou para a frente. Ainda trêmula, Cris enfiou a carteira e os documentos na bolsa e ligou o carro. - O que será que ele quis dizer? perguntou Katie, colocando o cinto. - Você estava sem o cinto. Quase recebi uma multa por isso. - Foi só por um minutinho. Eu ia pôr de volta quando achasse a fita. Cris ligou o carro e esperou um instante para depois entrar de novo na estrada, já então bastante movimentada. - Você tem certeza de que era esse o problema? indagou Katie. - Tenho. - Então por que não me disse que tinha um carro de polícia na estrada? Eu não teria deixado que ele me visse sem cinto! - Não importa se tinha carro de polícia ou não. A gente tem de usar o cinto, retrucou Cris. - Está bem, disse Katie, imprimindo força nos dedos ao ligar o toca-fitas, talvez querendo dar mais gravidade ao gesto. - Puxa! Pelo jeito como você está agindo, até parece que recebeu uma multa!

- Eu podia ter sido multada. - Mas não foi. - Mas quase fui. - Mas, disse Katie, procurando enfatizar cada palavra, você não foi multada. Houve alguns minutos de silêncio, e afinal Cris falou. - Desculpe, Katie. Eu estava nervosa. Realmente fiquei apavorada. - Não; foi culpa minha, disse Katie. Você tem razão. Só porque que não sofremos as conseqüências não quer dizer que eu agi certo quando tirei o cinto de segurança. Como disse o homem, tivemos sorte. Ou dizendo melhor, foi uma coisa de Deus. Cris sorriu para Katie. Era bom ouvi-la dizer sua frase predileta outra vez. Era bom gozar de novo a companhia dela. - Dê uma parada ali, disse Katie, apontando para uma lojinha num posto de gasolina, do lado direito da estrada. Cris virou o carro e estacionou em frente de uma loja intensamente iluminada. - Boa idéia. Vou ligar para os meus pais e lhes dizer onde estamos. - Preciso tomar alguma coisa. E você? - Claro, quero um suco. - Eu compro pra você. Katie desceu, abriu a porta da loja e cumprimentou o funcionário como se o conhecesse. Enquanto isso Cris foi telefonar. Nada disse sobre a parada obrigatória na estrada - o encontro com a patrulha rodoviária - preferindo tratar do assunto pessoalmente, quando chegasse em casa. Só disse à mãe que acabavam de passar pela Praia de Laguna. Sua mãe fez-lhe as recomendações de sempre - tomar cuidado, e tudo o mais - e Cris pediu que ela não se preocupasse; elas se cuidariam.

- Pronta? perguntou Katie, ao sair da loja carregando nas mãos uma garrafa de suco de laranja e um saco de papel. Cris fez que sim e destrancou a porta. Elas entraram e, quando Cris ligou o carro, Katie disse: - Comprei umas coisas pra gente comer durante a volta. Quer um bolinho recheado? - Bolinho recheado?! Sabe há quanto tempo não vejo você com um desses na mão? - Sei, disse Katie, rasgando a embalagem e enterrando os dentes no bolo fofo e cheio de açúcar. Muito tempo. - É bom ver você de novo assim, Katie. Eu quero um desses se tiver mais aí. - Mais? Katie abriu o saco de compras para que Cris visse o conteúdo. Ali havia pelo menos oito pacotes de uma variedade de doces nada naturais e não aprovados pelo Michael. Entregou-lhe um bolinho aberto. Tirou em seguida um pacote de batatas fritas. - Espero que meu próximo namorado, se um dia tiver outro, seja apreciador das melhores coisas da vida. Como Doritos sabor churrasquinho, disse enfiando um salgadinho na boca. - Como você vai se sentir amanhã, quando vir o Michael? perguntou Cris com cautela. Quer dizer, ele está na sua turma de Organização Social e Política, não está? - Acho que sim. Não sei. Nem quero pensar no assunto. Nessa altura não confio nas minhas emoções. Mas quero que saiba que esse final de semana que passei com vocês foi muito legal. Me ajudou muito e me diverti à beça. O Douglas foi além| do dever, me ajudando para que eu me sentisse melhor. Ele é bem legal. Acho que devia ser conselheiro ou psicólogo. - Bem, se você achar que as coisas estão difíceis, estou aqui para ajudá-la. - Obrigada, Cris, falou Katie e, abocanhando mais uma batatinha, continuou: Sabe o que é estranho? Sinto que o tempo que estive com o Michael era como se eu estivesse

num muno paralelo. Agora estou fora dele e me sinto normal. Mas quando estava com ele, parecia normal estar no mundo dele. Faz sentido? - Mais ou menos. - É que não sinto que tenha feito algo errado. Quer dizer, eu sei que não fiz nada moralmente errado. Os padrões do Michael são tão elevados quanto os meus. Não era esse o problema, Mas quem sabe? Poderia ter se tornado um problema se tivéssemos continuado a namorar por mais tempo. Quer uma batatinha? - Não, obrigada. Cris lambeu as últimas migalhas do bolinho e insistiu com Katie para continuar a falar enquanto ela mantinha os olhos grudados na estrada. - Você acha possível que era da vontade de Deus que eu namorasse o Michael só para poder falar de Jesus a ele, embora ele não tenha se convertido? Pelo menos agora ele ouviu a mensagem. Talvez eu fosse a única que Deus ia usar para lhe falar. - Talvez, disse a amiga, cautelosamente. - E talvez em breve ele se torne cristão; aí voltamos a ficar juntos. Virando-se, de modo que pudesse olhar de frente para Cris, Katie ajeitou-se no banco para que o cinto de segurança a deixasse confortável, e continuou: - Talvez a razão de nosso rompimento tenha sido forçá-lo a procurar conhecer ao Senhor sem que eu estivesse por perto, forçando a barra. - Talvez, disse Cris. - Sei lá. Não sei o que pensar. Só sei que quando comecei a sair com ele, no fundo do coração, eu sabia que alguma coisa não estava certo. Mas eu achava que a gente não ia ficar junto por muito tempo, e sabia que eu não ia fazer nada de errado. Que mal faria? Aí um passeio se transformou em dois, e três, e o resto você sabe. Ela amassou o saco vazio de batatinhas e o atirou dentro da sacola de compras, pegando em seguida um tablete de chocolate.

- Agora pergunto: fiz uma coisa errada namorando um cara que não é cristão? Todo mundo fala pra gente não fazer isso, mas quem sabe? Às vezes não faz mal. Como quando é por pouco tempo e ninguém se machuca de verdade. Olhe só, eu saí desse relacionamento sem me ferir. É verdade que ainda dói um pouco, mas acho que vou acabar me saindo bem dessa. Sou uma pessoa melhor, obedeci a Deus quando ele mandou acabar o namoro. Não houve problemas, houve? Cris tinha sua própria opinião sobre namorar só cristãos, e ela e Katie haviam conversado sobre isso antes. É claro, como disse Katie, que era fácil para a Cris dizer isso, porque namorava o Ted. Mas era muito mais difícil dizer o mesmo quando não havia um bom rapaz cristão por perto. - Acho que essa diretriz de Deus existe por alguma razão, disse Cris. - Certo, já sei. Para a gente não casar com quem não é cristão e acabar em "jugo desigual". Mas você não acha que não faz mal quando é por pouco tempo e ninguém sai magoado do namoro? É só uma amizade. Não acha que esse negócio de só namorar rapaz crente é totalmente exagerado? Cris pensou na questão por um instante, procurando palavras que exprimissem sua opinião com toda a intensidade, mas sem ofendê-la. De repente veio-lhe à mente uma boa analogia. - Na verdade, Katie, disse afinal, com o Michael você deu a sorte. E para nós teria sido diferente se o policial não tivesse que sair correndo para atender a outra emergência, ou se tivéssemos sofrido um acidente. - De que você está falando? Está ainda no mesmo assunto? - Sabe, todo esse papo sobre usar o cinto de segurança é exagerado. Ninguém planeja ter um acidente. Vocês dois namoraram por pouco tempo. Mas ainda assim você teve sorte. - Você está falando do meu namoro com Michael ou do cinto de segurança?

- Das duas coisas. Katie parou para pensar e procurar entender todo o signifiado daquela analogia. Depois disse: - Ah, entendi. Cris imediatamente sentiu-se mal. - Desculpe, Katie. Eu não devia ter dito isso. Eu estava julgando. Você tem razão. O tempo todo que você namorou o Michael, eu me orgulhei de minha própria justiça, e isso não estava certo. - Não precisa pedir desculpas. Eu mereço tudo que você disse e mais ainda. Eu me arrisquei muito. Não uso o cinto de segurança e penso que está tudo bem desde que o guarda não me pegue. Fico emocionalmente envolvida com um cara que não é cristão e acho que está tudo bem desde que não façamos nada moralmente errado. Fez uma pausa e respirou fundo. Descansou o saquinho de chocolates sobre o colo. - Mas você está certa, Cris, continuou. Há um nível deu responsabilidade mais profundo do que simplesmente ser pego ou não. Ela amassou o saquinho de chocolates e o enfiou de volta na sacola. Endireitando o corpo, fez uma declaração: - Ouçam todos! Deste dia em diante, a nova e aperfeiçoada Katie vai buscar integridade em tudo. Até mesmo no que comer. E provavelmente isso é a melhor coisa que resultou do meu relacionamento com o Michael, uma apreciação por comidas saudáveis. Vou voltar a comer direito. E vou voltar a fazer exercícios regularmente e ler a Bíblia todos os dias e não vou mexericar nunca mais na minha vida. Estavam se aproximando do cruzamento com a rodovia que seguia para Escondido. Cris deu sinal com bastante tempo, entrou na fila da direita e entrou no trevo para passar à Rodovia 78. Teve de concentrar-se na mudança de pistas e não respondeu a Katie, esperando que chegassem à pista do meio.

- Você é uma boa influência para mim, disse Katie. Só faz as coisas certas. - Não, não faço. - Faz sim. Você é muito mais conscienciosa do que eu. Se preocupa muito mais em agir certo. - Mas não ajo mais certo do que você. - Age sim. Você tem uma qualidade que qualquer um enxerga, só de olhar pra sua cara. Você não tem dolo, Cris. - O que quer dizer isso? Parece uma maldição, disse Cris, rindo-se. - De maneira nenhuma! Katie sacudiu a cabeça. Eu diria que é uma bênção. Olhe só para sua vida. Tudo é perfeito. Você nunca bateu de frente com as coisas de Deus. Quer dizer, o que poderia acontecer de pior com você? - Sei lá. Talvez os meus pais morrerem. - Aí você iria viver com o Bob e a Marta e seria mimada até a morte. Outra coisa terrível que poderia acontecer com você, a única, talvez, além da primeira, seria se o Ted terminasse com você. Por um momento, reinou um silêncio horrível. Depois de alguns instantes, Katie continuou: - Mas isso nunca iria acontecer. Não vê? Você tem a recompensa de viver todas as suas relações de acordo com a norma de Deus e no tempo dele. Eu quero essa espécie de bênção na minha vida também. Cris não tinha certeza de que estava tudo dando tão certo como Katie dizia.

Doces Sonhos 9

Foi a semana mais veloz de que Cris se lembrava e disso ela tinha certeza. Não dava para acreditar que já era sexta-feira. Estava se dirigindo à loja de animais, após a aula, mas o que desejava mesmo, se pudesse, era ir para casa. Bem que podia tirar uma soneca. Toda noite, durante essa semana, Cris ficara acordada, estudando até depois das onze. O pior de tudo é que todo mundo dizia que seriam mais três semanas assim, até acabarem os exames finais. Não estava agüentando manter o pique. Mas não tinha outra escolha. O que a mantinha firme era a certeza de que no dia seguinte Ted viria. - Maravilha! disse ela no silêncio do carro. Não, fabuloso. Não, não e não. Delicioso! Fantástico! Incrivelmente bom! Não, ainda não é a expressão certa. Como posso descrever o que estou sentindo? Como expressar em palavras os meus pensamentos sobre o Ted? É bom demais para ser verdade. Deve ser amor. Mas como descrevê-lo? Ao estacionar e entrar apressada no shopping, ela reconheceu que aquele seu problema era comum a todo mundo. O que foi que o professor de Inglês disse no ano passado? Através dos séculos, os poetas, os compositores e os artistas têm tentado descrever o amor. Mas ninguém conseguiu captá-lo completamente, e por isso o mundo está cheio de poetas, compositores e artistas, que continuam na trilha de seus antecessores, tentando pintar o amor, nas suas cores verdadeiras, contudo jamais tendo pleno sucesso. - Oi Jon! cumprimentou Cris, ocupando a cadeira da caixa registradora.

- Olá! Eu ia lhe perguntar como vai seu coelhinho. Ela ouviu mal e entendeu "queridinho". Estranho que ele se referisse ao Ted desse jeito, - Ele está ótimo. Vou vê-lo amanhã. Jon olhou, confuso, e continuou: - Ele anda comendo bem? Ela riu-se, achando engraçada a pergunta. - Claro. Ele come o tempo todo. Por que você pergunta? - Por nada. Só que quando eles não se sentem bem, param de comer. E quanto tempo você passa com ele? Você ainda o segura bastante no colo, não segura? Sempre lhe dá muito carinho e amor? Agora ela dava gargalhadas, porém constrangida. Olhou em volta para ver se não tinha fregueses ouvindo a conversa. - Sim, eu lhe dou muito carinho. Mas por que você está me fazendo essas perguntas? - Porque eu sei que é fácil acabar negligenciando o bichinho quando não se está junto dele o tempo todo. - O bichinho? - Os seus pais não a obrigam a mantê-lo na garagem? - Na garagem? - E não é na garagem que fica a gaiola do Chocolate? Chocolate, o coelho que eu lhe dei há alguns meses. - Ah, o Chocolate! Sim a jaulinha dele fica na garagem. Cris tentou conter o riso. - Por quê? Sobre o que você pensou que eu estivesse falando? - Deixa pra lá, disse ela.

Ficou aliviada ao ver que uma freguesa tinha entrado e colocara um filtro de aquário no balcão. Ela sorriu para a mulher e a cumprimentou: - Como vai a senhora? - Bem, obrigada. Este está na oferta hoje? - Sim, disse Cris, examinando de novo a etiqueta com o preço, 20% de desconto. - E não é só esse que tem desconto, disse Jon em voz alta para Cris ouvir. Ela relanceou a vista na direção do chefe, e voltou-se para a freguesa, entregandolhe duas moedas. - Aqui está seu troco, quinze centavos. Entregou-lhe o saco e agradeceu: - Muito obrigada. E boa tarde! A freguesa sorriu e foi embora. Aí surgiu outro freguês e Cris repetiu o mesmo processo, vistoriando a mercadoria, registrando-a na caixa e dando o troco. Estava tão habituada a isso, que era até capaz de fazer tudo enquanto dormia - uma boa coisa, diga-se de passagem, pois estava cansada a ponto de cochilar. Seria difícil permanecer alerta até as 21:00, hora de fechar. - Você hoje está com um pouco de pressa, hein? comentou Jon quando Cris começou a baixar a grande porta de metal da loja. Ainda temos dois minutos. - Quer que eu abra de novo? - Não, tudo bem. Pode ir. Parece moída. Eu fecho o restante. - Estudando para as finais, explicou ela. Acostume-se com esse meu jeito de sonâmbula. Provavelmente estarei assim nas próximas semanas. - Quer tirar algumas horas de folga? Temos um novo empregado que começa na quarta-feira e ele estava pedindo uma carga horária maior do que posso oferecer. Assim que você quiser sua carga horária normal... - O dinheiro faz falta, é claro, mas me ajudaria bastante neste momento.

Cris refletiu por um instante, depois continuou: - Sabe, se pudesse eu tiraria folga nos próximos finais de semana. Quem sabe os próximos três? No fundo, ela estava era tentando atinar com a data da festa de formatura. Queria estar preparada, caso ela e o Ted resolvessem ir. Era quase tarde demais para adquirir os ingressos, mas ela queria deixar abertas todas as portas. - Está certo. Jon pegou a lista de horários dos funcionários ao lado da caixa registradora. - Digamos que você trabalha amanhã e depois só volta na sexta-feira, daqui a um mês. É muito tempo de folga? - Parece muito. - Você é que decide. - Está bem. Pode ceder minhas horas ao novo funcionário. Preciso vencer este mês intenso de escola. Obrigada por ser tão compreensivo, Jon. - É parte do meu papel de gerente. Além disso, quem diz que sou velho demais para me lembrar de como era estressante o último ano do colegial? Fique tranqüila. E procure dormir um pouco, está bem? - Está certo. Obrigada. A gente se vê amanhã cedo. Cris quase nem se lembrou de haver, naquela noite, reclinado a cabeça no travesseiro. Sábado de manhã sua mãe a chamou às 10:15. - Cris, está na hora de levantar. Tem de ir para o trabalho dentro de meia hora. - Aaaai, minha cabeça! Está latejando, gemeu Cris. - Você está bem? - Minha garganta está inflamada. Estou péssima! Sua mãe apalpou-lhe o rosto. - Parece que você está com febre. Quando isso começou?

- Ontem eu estava supercansada. Cris tentou engolir. Era como se tivesse um pedaço enorme de chiclete preso na garganta. - Mas ontem a garganta não estava doendo, explicou. E eu não sentia o corpo tão dolorido assim. - Acho melhor você ficar em casa, na cama. Quer que eu ligue para o trabalho? - É melhor. Diga ao Jon que preciso dormir mais um pouco e, se eu melhorar, vou trabalhar à tarde. Assim que a mãe saiu do quarto, Cris rolou de um lado para o outro, chutando os lençóis para fora da cama. Parecia arder de lebre. Dava para ouvir o pulso latejando dentro do ouvido. O que aconteceu comigo? Estou me sentindo horrível. - Tudo certo, disse a mãe de Cris, voltando ao quarto instantes depois. Jon disse que você não precisa ir hora nenhuma. Tem uma pessoa que pode ficar no seu lugar, e não quer que leve o vírus da gripe para contaminar seus bichinhos. - Obrigada, mãe. - O Jon também falou sobre o que vocês combinaram para as próximas semanas. Achei bem sensato de sua parte. Talvez devesse ter parado antes. Você quer tomar um banho? Seria muito bom para aliviar as dores. - Tudo bem, disse ela, numa voz débil. Desde criança, estava acostumada com um tratamento especial quando ficava doente. Sua mãe era enfermeira nata, levava suco para ela, tomava-lhe a temperatura e lia o livro sobre vitaminas, à procura de um tratamento natural para cada distúrbio. Era fácil para Cris se entregar à paparicação de sua mãe. - Vou abrir a torneira da banheira.

Lentamente, Cris sentou-se na cama. Parecia que o quarto estava rodopiando. Lembrou-se de um dos seus maiores temores: um dia seria madura e auto-suficiente. Iria morar num dormitório de faculdade ou no seu próprio apartamento. Se pegasse alguma gripe forte, não teria a mãe para cuidar dela. Mal se firmando nas pernas, atravessou lentamente o chão carpetado até o banheiro, onde sua mãe já tinha colocado uma bandeja com um copo de água gelada e um canudinho, diversas vitaminas e duas aspirinas sobre um guardanapo. Um cheiro estranho subia do vapor da banheira. - Coloquei vinagre de maçã na água do banho, disse sua mãe. O livro disse que ajuda a retirar as toxinas. Fique de molho pelo menos uns vinte minutos, está bem? - Você está começando a falar igual a Katie, disse Cris, sentindo a garganta doer ao falar. Torceu o cabelo em cima da cabeça e o prendeu com três grampos. - Vou trocar os lençóis da sua cama e arejar o quarto. Sua mãe fechou a porta do banheiro. Dava para ouvi-la cantarolando enquanto executava as diversas tarefas. Com movimentos lentos, entrou na água quente e imaginou-se colega de quarto da Katie. Ficou a vê-la enfiando a cabeça em sua porta e dizendo: “Ah, você está doente? Não se preocupe em atender o telefone. Eu ligo a secretária eletrônica. Tem sobras daquela comida chinesa que compramos uns dois dias atrás. Só volto tarde da noite; não precisa ficar me esperando.” Essa imagem da vida independente agora fazia com que Cris se sentisse grata por ter uma mãe para cuidar dela. Nem mesmo a água cheirava tão mal assim, depois que estava totalmente imersa nela e acostumada com o odor.

Ficou ali até a água esfriar e os dedos ficarem enrugados. Mas quando se pôs de pé, viu que não estava muito melhor. Estava tonta. A mãe havia colocado no banheiro um moletom limpo, que ela vestiu. Até os pés doeram quando ela enfiou a calça do conjunto. Olhando no espelho, pensou: É de assustar! Olha as olheiras! Ainda bem que o Ted não está me vendo assim. Aí se lembrou: Ele vem hoje! - Mãe! gritou com voz rouca, abrindo a porta do banheiro e voltando para a cama. Encontrou o quarto arrumado e os lençóis trocados, com o canto dos cobertores virados para baixo, convidando-a a se encasular. Ela havia até guardado as coisas que deixara espalhadas pelo quarto. No criado-mudo havia um copo de água com canudinho e uma caixa de pastilhas para a garganta. Enfiou-se entre os lençóis e parecia que tinha levantado uma tonelada dos ombros quando a cabeça tocou o travesseiro macio. - Como está se sentindo? disse a mãe entrando no quarto com uma xícara de chá e umas torradas numa bandeja. Quer tentar comer alguma coisa? - O Ted, sussurrou, fazendo que não com a cabeça. Liga pra ele e diga pra não vir. - Tomara que ele ainda não tenha saído. Vou ligar já. Cris sentia-se exausta após o banho quente. A cama era limpa, confortável e o quarto tinha um cheiro agradável. O perfume do desinfetante floral era bem melhor que aquele do cheiro de vinagre. Mas ainda restava um cheirinho do vinagre. Caiu num sono profundo. Algum tempo mais tarde, sentiu uma mão reconfortante nu sua testa. Sem abrir os olhos, murmurou: - Ted? Queria saber se a mãe conseguira falar com ele. - Estou aqui, respondeu a voz profunda do Ted. Ele retirou a mão da sua testa e perguntou: - Como está passando?

- Eu, e... mas você... Tentou dizer que estava triste por ele ter feito tão longa viagem só para encontrá-la doente. Mas as palavras ficaram presas na garganta inflamada. - Ei! Não se esforce para falar! Você tem de tomar bastante líquido... Deixe que eu segure esse copo para você. Ele ergueu o copo de água até os seus lábios e ela bebeu do canudinho. O frio da água* deixava na garganta dolorida uma sensação agradável, e ela tomou quase meio copo antes de largar o canudo. _________________
*Nos Estados Unidos, quando alguém tem gripe ou dor de garganta, dão-lhe coisas geladas para tomar. (N.da T.)

- Bom trabalho. A gente faz isso de novo dentro de uns cinco minutos. Sua mãe me pediu expressamente que a fizesse tomar todos os seus comprimidos. Acha que dá conta de engolir esse aí direitinho? Colocou então entre os lábios dela um comprimido de vitamina, segurando para ela o copo d'água. Ela engoliu o comprimido, mesmo sentindo que lhe arranhava a garganta, e virou o copo quase inteiro. - Quer mais? Ela recusou com um gesto de cabeça. - Volte a dormir. Eu fico aqui. Tenho de ler algumas coisas. Você precisa se recuperar. - Sinto muito, respondeu Cris, forçando as palavras. - Está se desculpando de quê? De estar doente? Eu também sinto muito que você esteja doente. Mas isso não muda nada. Eu queria passar algum tempo com você, não

queria? É o que estou fazendo. Então descanse. Não se preocupe comigo. Tenho de estudar para as provas finais e não há lugar que eu preferiria a este agora, aqui ao seu lado. Cris foi aos poucos resvalando num sonho, e, sonhando, ficou a imaginar se não seriam aquelas as palavras mais ternas que já ouvira do Ted. Só dele? Não, de qualquer pessoa, concluiu por fim. Apesar de enferma, sentia o coração pairando nas alturas. Era o fim da tarde quando ela começou a despertar. Lembrou-se do toque da mão de Ted sobre sua testa e pensou que fosse parte do sonho. Já em outra ocasião ele fizera a mesma coisa. Um ano e meio atrás, na praia, cedo de manhã, quando ele preparava sua partida para o Havaí e ela estava de namoro com um rapaz chamado Rick. Como despedida, o Ted havia colocado a mão fria sobre sua testa, abençoando-a com estas palavras: O Senhor te abençoe e te guarde, o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te dê a sua paz. E que você sempre ame primeiramente a Jesus, acima de tudo mais. Certamente a mão do Ted na sua testa tinha sido só uma alucinação. Precisava abrir os olhos para verificar. Hesitou. Se os mantivesse fechados, poderia continuar gozando daquele sonho gostoso, que era melhor do que não ver nada, a não ser o vazio ao lado de sua cama. Mas o som do movimento de alguém numa cadeira fez com que abrisse os olhos. Ele estava lá. De verdade. O sonho se tornara realidade. Ele estava de cabeça baixa, olhando para um livro. Havia um caderno em seu colo e um lápis na boca. Cris tentou ficar quietinha, apenas o observando, sem que ele percebesse que ela tinha acordado. Foi aí que percebeu que a garganta não doía mais e a cabeça não latejava. Na verdade sentia-se muito melhor. Naquele instante a porta do quarto se abriu e Cris fechou os olhos, fingindo dormir. Ouviu a voz da mãe perguntar: - Como vai a nossa paciente? Passos se aproximaram da cama.

- Ainda dormindo. Parece que baixou a febre. - Bom, sussurrou sua mãe. Sabe, Ted, você vai além do dever de amizade, passando o dia todo aqui com ela. - Estou conseguindo estudar bastante, disse Ted, e então, com uma ponta de malícia, acrescentou: Aqui está bem mais tranqüilo do que na biblioteca. Além do mais - sua voz agora ganhava um tom mais grave - o que sinto pela Cris vai além do dever de amizade. Ele estava dizendo a sua mãe o quanto gostava dela! Uma coisa era confessar seus sentimentos por ela na Disneylândia, outra bem mais profunda era revelá-los a sua mãe. Cris nunca imaginara que isso aconteceria. - Você sabe que tem a nossa bênção neste aspecto, disse uma voz profunda. Meu pai também está aqui? O Ted disse isso na frente do meu pai e ele respondeu que o Ted tinha a sua bênção? Tem que ser um sonho! Cris esticou suas pernas compridas debaixo da coberta e fez de conta que estava despertando do sono. Com a fineza de uma atriz, deu um pequeno suspiro e abriu os olhos. Seus pais estavam de pé ao lado da cama e o Ted sentado ao pé da mesma. No momento que ela abriu os olhos, Ted pegou sua mão e apertou-a. - Bem, minha “Bela Adormecida”, teve belos sonhos? Ela sentiu vontade de dizer que a conversa que ouvira fora melhor que qualquer sonho. Seus olhos se encontraram, e ela ficou a imaginar se Ted perceberia que ela tinha ouvido a conversa. - Parece que a febre cedeu, disse a mãe, apalpando-lhe a testa. Parece que as olheiras estão mais suaves. E a garganta, como está? - Bem melhor. - Ótimo, agora você deve tomar uma sopa. Vou buscar. O pai de Cris pousou sua mão grande e rude no rosto vermelho da filha.

- Estou contente por vê-la melhor, minha filha. - Obrigada, pai. Ela sorriu para ele. Era maravilhoso poder estar de repouso ali, de mãos dadas com o namorado, enquanto trocava olhares de ternura com o pai. Tudo parecia tão belo e natural. Seja como for, era um sonho que se tornara realidade.

Esquisitos e Distorcidos 10

- Você veio - que bom! exclamou Katie na segunda-feira de manhã, na escola, ao aproximar-se de Cris por trás, junto ao armário dela. Liguei no final de semana e sua mãe disse que você estava doente. Melhorou? Cris fechou seu escaninho e as duas abriram caminho entre a multidão, no corredor. - Estou melhorando, respondeu Cris. Talvez vá pra casa depois do almoço, mas não quero me atrasar nos estudos. Tenho uma coisa pra lhe contar na hora do almoço. Você me encontra lá na árvore? - Claro. Eu também tenho uma coisa a lhe contar, que você não vai acreditar! Os olhos de Katie brilhavam quando ela, abanando a mão, disse “Ta-tá”, antes de entrar em sua sala. O que será que está pintando? Será que tem a ver com o Michael? Era tortura ficar sentada na sala de aula, esperando até a hora do almoço para saber o segredo da Katie. Finalmente deu o sinal e Cris correu até o lugar de encontro. - Fala você primeiro, disse Katie, sentando-se no chão debaixo da árvore sob cujas sombras geralmente lanchavam. Era também o lugar em que ela conhecera Michael no início do ano letivo. - Não, fala você. Minha curiosidade está me matando. - É sobre o Fred, disse animada.

- Ah, respondeu Cris, baixando o tom de voz, então talvez eu deva falar primeiro. O que vou dizer sobre o Ted é bem mais empolgante do que qualquer coisa que você possa me dizer sobre ele. - Não necessariamente, replicou Katie, meio timidamente. - Está certo. Então fale. O que tem o Fred? - Ontem ele foi à igreja. Sentou-se ao meu lado. Cris não se sentiu muito empolgada. Deu uma dentada em sua maçã e disse: - Ele já tinha me perguntado sobre a igreja. Eu não lhe contei? Que bom que ele foi! Agora, quer ouvir sobre o Ted? - Espera, tem mais. Depois do culto fomos juntos até o estacionamento. Quando chegamos ao meu carro, o Fred perguntou: “E aí, como é que entrego o coração a Deus, como disse o pastor?” Cris perdeu o interesse na maçã. - Verdade? Que legal! O que foi que você disse a ele? Katie parecia prestes a derramar todo o seu empolgamento. - Eu lhe disse que Deus conhecia seu coração. Se ele queria acertar as coisas com Deus, só precisava pedir-lhe perdão por tudo que tinha feito de errado e convidar o Senhor a entrar m sua vida. - E depois? - Eu e ele oramos ali mesmo no estacionamento, ao lado do meu carro. O Fred entregou o coração a Jesus! - Não acredito! - Eu sei. Que coisa de Deus! Foi incrível! Ele estava tão interessado que era como se eu estivesse só ao lado dele assistindo. E pensar que passei todos esses meses tentando convencer o Michael a entregar a vida a Deus. Tive longas discussões com ele, dei

explicações e insisti tanto, e agora o Fred, logo Fred, me segue até o meu carro e se entrega a Jesus. Cris riu de alegria. - Maravilha! Passei mais ou menos o mesmo com a Alissa. Quer dizer, eu e o Ted estávamos orando por ela, mas numa tarde na praia ela me disse “Estou pronta”, e a vida dela mudou para sempre. - Não entendo por que foi tão fácil para o Fred e tão difícil para o Michael, comentou Katie, abrindo seu saquinho de lanche e olhando dentro dele. - Quem sabe? Deus é estranho, esquisito, disse Cris com reverência. Não quero dizer esquisito no sentido de amalucado, mas de inexplicável. - É, Deus é esquisito e nós somos tortos, resumiu Katie. É a filosofia de vida. O modo de Deus agir nunca é igual ao nosso, e nós somos tortos. Distorcidos. Sempre queremos fazer as coisas de modo distorcido, diferente do de Deus. - Gostei dessa. Só você para escolher palavras tão eloqüentes. - Então, quando você vir o Fred na sala do anuário, demonstre que está contente com ele. - Não se preocupe, não preciso fazer de conta. Estou contente mesmo! Como disse, Cris estava verdadeiramente contente com o Fred quando disse: - Estou tão feliz que você tenha se tornado cristão! É a melhor coisa que poderia lhe acontecer! Ele deu um sorriso cheio de dentes e acrescentou: - E a segunda melhor coisa seria se você fosse comigo à festa de formatura. Já comprei os ingressos. Foi um balde de água fria no entusiasmo de Cris. Será que fora por isso que o Fred começou a freqüentar a igreja e disse que tinha se convertido? Seria isso uma trama para

se envolver no mundo dela? E como ela poderia perguntar isso, sem parecer que o estava julgando? - Fred, eu não vou à festa com você. Mesmo sendo você agora um cristão. Fred baixou a cabeça. - Você acha que foi por isso que aceitei Jesus? - Bem, não. Só quero que saiba que eu não poderia ir com você. Tenho namorado, e se eu fosse, seria com ele. Fred se afastou. Estaria ofendido? Zangado? Será que agora desistiria? Será que ela deveria acompanhá-lo até o outro canto da sala? Mas o que iria dizer? Resolveu que não. Sentou-se em sua carteira e deu um suspiro. Pelo menos agora o Fred sabe que eu não vou sair com ele. Sinto muito se feri os sentimentos dele, mas esse negócio da festa já foi longe demais. Ele vai ficar bem. Ele se recupera dessa. Sempre se recupera. Ela e o Ted tinham de resolver essa noite se iriam ou não à festa. De uma vez por todas. Ela tentou concentrar-se na leitura, sabendo que esse período livre a ajudaria a diminuir o horário de estudo em casa. Mas só conseguia pensar no Ted Tinha sido maravilhoso passar com ele o sábado todo. Depois, no domingo, ele ligou para ela e eles conversaram quase duas horas. A conversa estava repleta de planos para as próximas semanas e até mesmo as férias. Mas Cris não mencionara a festa, nem sabia se Ted se interessaria. Ligou aquela noite e começou perguntando o que ele achava da festa de formatura. - É uma imitação barata da verdadeira festa. - O quê? Cris não entendeu o que ele queria dizer. - É como fingir estar numa festa de casamento. É uma imagem falha do verdadeiro evento.

- Quer dizer que você acha que as pessoas que vão à festa estão fazendo de conta que estão se casando? Ele tinha razão, pensou ela. Ouvira algumas meninas falando do quanto iam gastar em roupas. E todo o exagero de flores, aluguel de smoking e limusine. - Sabe, acho que no fundo o que toda alma humana almeja, quer saiba ou não, é estar nas Bodas do Cordeiro, explicou Ted. - Estou boiando. - Cris, você sabe que quando o mundo chegar ao fim, e todos comparecermos diante de Deus, ele vai trazer todos aqueles a quem preparou para ser a Noiva de Cristo - a Igreja - à festa de casamento onde os crentes e Cristo serão unidos para sempre. Vai ser a maior e mais deslumbrante festa de que se tem conhecimento. Embora não estivesse muito por dentro do assunto, Cris imaginou que Ted estava se referindo às profecias do livro de Apocalipse. - No fundo do coração de cada pessoa existe esse desejo de ser convidado, continuou, de se vestir como príncipe e ser tratado como tal e participar dessa celebração. Uma festa de formatura é uma imitação barata da verdadeira festa em que eu e você vamos estar um dia. Agora Cris sentia-se irritada. Uma coisa era ouvir a opinião sobre a festa de formatura, mas ter a bendita esperança de passar a eternidade numa festa em volta do trono de Deus era outra completamente diferente. Uma não tinha nada a ver com a outra. Mas igualar as duas e desvalorizar a da formatura por causa da do céu era ridículo. - Ted, sei que você vê algo espiritual em tudo, e acho isso ótimo. Mas é só uma simples festa de formatura, uma festa humana, terrena. Não tem nada a ver com o céu. Posso reformular a minha pergunta? Você quer ir comigo à festa de formatura? - Se você realmente quer ir.

Cris detestava respostas desse tipo. Na verdade, não era resposta. Ele só lhe devolvia a pergunta. - Não sei o que quero. É por isso que estou lhe perguntando o que você quer. - Então vamos discutir o assunto. Qual o montante das despesas? Já calculou? Você quer ir com mais alguém ou só nós dois? Quer sair para jantar primeiro? Tem um vestido, ou dinheiro para comprar um? Mais importante, você quer ir? Durante uns vinte minutos jogaram os prós e os contras um para o outro como num jogo de pingue-pongue. No final, Cris disse: - Sei lá. Ainda sinto que poderia ir ou não ir. Seria divertido, romântico e maravilhoso ficar do seu lado numa roupa superchique, mas gastaríamos todo o nosso dinheiro, e eu não danço. - Depende de você, disse Ted, deixando com ela de novo a decisão. Se formos, você precisa saber que mesmo que não veja um paralelo entre os dois eventos, enquanto eu estiver lá, estarei pensando no céu e em nossa celebração final com Cristo um dia. Depois que desligou, Cris já não sabia o que pensar dos comentários de Ted. Será que ele não estaria pensando nela naquela noite ou admirando-a, ou tendo prazer em estar com ela porque preferia centralizar os pensamentos em coisas eternas? Por que o Ted tinha de ser assim? Deus era sempre o primeiro em sua vida. Depois reconheceu que isso era uma virtude, não um defeito. Era raro encontrar uma pessoa tão concentrada em Deus. Ted parecia ver tudo sob a perspectiva de Deus. Cris resolveu esquecer a festa da formatura e só pensar nos estudos, para que pudesse dormir. A gripe passara, mas ainda se sentia fraca, e às 5:30 da tarde já estava com vontade de dormir. Resolveu concentrar toda a energia nos estudos da semana. Quando visse o Ted no fim de semana, poderiam chegar a uma conclusão sobre a festa. Ainda teriam duas semanas pela frente, que era o tempo dos preparativos. Ela conseguiria um vestido até lá, não conseguiria?

Mesmo supondo ter colocado de lado a questão da festa, ela aflorava o tempo todo na lembrança. Afinal de contas, estava no último ano. Estava se formando. Tinha um namorado. Era natural que fossem juntos à festa. Bem lá no fundo, estava doida para exibir o Ted para as outras meninas da classe. Mais que isso, estava doida por um pretexto qualquer para usar um traje de festa e estar com o Ted num ambiente de gala. Ele era sempre tão simples! Ela só o vira trajando roupa de passeio umas poucas vezes. Quanto mais pensava no assunto, mais complicado parecia tudo. Tinha quase cento e cinqüenta dólares na poupança, obtidos do seu trabalho, e quase morria só de imaginar que, se fosse à festa, teria de gastar tudo isso e mais ainda por um vestido. E o Ted não tinha muito dinheiro. Quanto esperava que ele gastasse em aluguel de roupa, flores, jantar e os ingressos? Quanto mais pensava, mais frustrada ficava. Dois anos atrás, o Rick a convidara para a festa da formatura dele, e seus pais não tinham deixado que ela fosse. Mas naquela época, ela estava no primeiro ano. Agora estava se formando. Além disso, os pais não gostavam do Rick. E gostavam bastante do Ted. Mas assim mesmo, o que será que eles diriam se ela lhes dissesse que queria ir?

Estarei Aqui 11

- Tem certeza de que não quer ir comigo para Newport este final de semana? perguntou Cris a Katie pelo telefone na quinta-feira à noite. Nós nos divertimos tanto da outra vez. Consegui folga no final de semana e vou levar os livros para estudar com o Ted. Você sabe que pode ir, não é? - Eu sei, mas estou com vontade de ficar em casa. Dá pra acreditar? Acho que preciso de tempo para resolver as coisas. Conversei com o Michael ontem. - Foi a primeira vez? - Sim, e foi horrível. Ele é um doce. Eu o amo, de verdade. Você acha possível amar alguém de verdade mesmo não sendo aquele com quem a gente vai se casar? Cris pensou um pouco. - É possível, Katie. - Será que mesmo separada a gente continua se amarrando no cara pelo resto da vida? - Quem sabe? Eu não sei. Se fosse esse o caso, ficaríamos sofrendo muito tempo. Quem sabe a gente vai deixando de amar essa pessoa à medida que vai se afastando dela? E depois vai aprendendo a amar outra, a ponto de esquecer totalmente esse primeiro amor? - Você acha? - Para falar a verdade, não sei.

- Bem, se vou ter de esquecer o Michael, a única coisa que sei é que vai demorar mais que duas semanas. - Tem certeza de que quer ficar em casa no fim de semana? Parece que você vai ficar triste o tempo todo. - É mais ou menos o que quero. Quero me trancar no quarto e ouvir a fita que o Douglas me deu. Tem uma música lá que me toca muito. Preciso guardar todas as lembrancinhas que o Michael me deu e ter tempo para chorar o que resta das minhas lágrimas num lugar que não seja público como a Disneylândia. Cris pensou no que ia dizer e falou: - Quer que eu fique por aqui com você? Se quiser, eu fico. - Não, você precisa ver o Ted. Vocês só têm o final de semana para se encontrar e na semana passada você estava doente. Verdade, eu estou legal. Vai você. Me liga quando voltar, está certo? - Certo. Mas Katie... - Sim? - Eu acho que você está indo muito bem. Aliás, você me surpreende com seu jeito quando bota uma coisa na cabeça, você se agarra a ela de todo jeito. Com certeza seria muito mais fácil reatar com o Michael e acabar com o sofrimento. Mas vejo você disposta a sofrer e abrir mão do Michael. Você é incrível. Gosto muito de você, Katie. Dava para ouvi-la fungando um pouco, e Cris acabou ficando com pena da amiga. - Obrigada, Cris, disse Katie numa voz hesitante. Eu precisava ouvir isso. Também gosto muito de você, e a aprecio mais do que imagina. - Escute, se quiser conversar a qualquer hora, do dia ou da noite, durante este fim de semana, ligue pra mim na casa de Bob e Marta, certo? Sinceramente. Qualquer hora. Você tem o número deles?

- Tenho sim. E obrigada. Talvez eu ligue. Divirta-se. Dê um abraço no Ted por mim. Se você vir o Douglas, diga-lhe que gostei demais do cartão que ele me mandou semana passada. Me animou bastante. - Certo, tchau. Desligou o telefone e ficou parada alguns minutos, pensando em Katie. Quisera poder fazer alguma coisa para atenuar o sofrimento que ela sentia pelo afastamento de Michael. Pensou nas letras de todas as músicas country que ouvira: o amor dói, e muito. Na sexta-feira depois da aula correu para casa. Precisava juntar as coisas para o fim de semana. Ted viria buscá-la. Provavelmente jantaria com eles, mas ela queria estar pronta para sair na hora que ele quisesse. Pretendia falar sobre a festa de formatura na viagem até a casa de Bob e Marta, que durava noventa minutos. Se realmente fossem à festa era provável que a melhor opção fosse procurar a roupa numa das butiques dos shoppings perto da casa de sua tia, e este seria o fim de semana das compras. Ted chegou pouco depois das seis, e a mãe de Cris já estava com o jantar pronto. O Ted parecia fazer parte da família. A maior parte da conversa à mesa foi entre ele, o irmãozinho de Cris e seu pai. Ao tirar a mesa e servir o doce de maçã que sua mãe fizera, percebeu que a conversa fluíra o tempo todo sem lacuna nem interrupção. Era, agradável. Familiar. Dava senso de segurança. Por um breve instante, Cris ficou a imaginar se a vida seria assim, caso ela e Ted se casassem e convidassem a família dela para jantar no apartamento dos dois. O apartamento que tinha em mente era a casa de árvore da Família Robinson, e seus pais e irmão teriam de ir de canoa para chegar lá. Mesmo assim, Cris não conseguia se imaginar vestida de peles de animais, servindo doce de maçã em cuias. A selva era sonho do Ted. Não seu, necessariamente. E até lá havia muito, muito chão a percorrer. Por ora, sua preocupação era um vestido de festa.

Foi só depois das nove que seguiram caminho. Quando Cris se instalou na "Kombi Nada", teve foi vontade de esticar as pernas no banco traseiro e tirar uma soneca em vez de começar uma conversa sobre a festa. - Posso tirar isso daqui? perguntou ao Ted, levantando um punhado de correspondência espalhada no banco da frente. - Claro, joga aí no chão. - Não tem perigo de perder? São cartas que você tem de colocar no correio? - Não, é correspondência que chegou para mim. Eu não tinha apanhado nenhuma durante quase um mês; por isso acumularam. Despediram-se dos pais de Cris, na varanda da frente, debaixo da treliça em forma de arco, coberta de jasmim perfumado. Cris sorriu ao lembrar-se dessa varanda e do Ted. Ele ligou o carro e desceram a rua calma, ladeada de árvores, em que ela morava, em direção à movimentada rodovia. - Ainda está com vontade de ir à praia amanha cedo? Parecia um pouco cansada depois do jantar. - Estou cansada. Não consigo recuperar as energias. - Por que não tira uma soneca? Tenho uma fita nova que ganhei do Douglas. Vou colocar e você descansa. Ted estava certo. Ela devia dormir. Eles estariam juntos por muito tempo nesse final de semana; teriam tempo para conversar sobre a festa de formatura. Pegou o casaco e o enrolou como travesseiro, depois reclinou a cabeça na janela. Ele colocou a fita e a música chegou suavemente, pé ante pé, sem ligar para o barulho do motor da kombi. - É um barato! disse ela de olhos fechados. Que grupo é esse? - É uma coletânea de diversos cantores cristãos. É a mais recente "paixão" do Douglas.

- Será que é a mesma fita que ele deu pra Katie? Ela disse que gostou demais e ia se trancar no quarto e escutar o fim de semana inteiro. E com um meio sorriso, Cris acrescentou: - Quase levei uma multa quando voltávamos da casa de Bob e Marta. Ela tirou o cinto de segurança, virou-se para o banco de trás e ficou remexendo a mochila, à procura da fita. Durante uma hora ou mais, Cris pegou de leve no sono, sem que a incomodasse a constante trepidação da kombi estrada afora. Só foi acordar quando já estavam chegando. - Kilikina, disse Ted, baixinho, desligando o motor. Chegamos. - Como você está? perguntou ela, remexendo o pescoço que estava dolorido. - Um pouco cansado de dirigir, mas estou bem. Vamos entrar? - Claro. Ela bocejou e vestiu o casaco, receando o frio da beira-mar. Notou algo branco no seu colo. Era uma das cartas que tinha colocado no painel e escorregara durante a viagem. Ele deu a volta e abriu a porta para ela. - Aqui, caiu no meu colo. Ela entregou-lhe a carta, saltou do veículo e fechou o zíper do casaco. - Obrigado, disse ele, colocando a carta no banco de passageiro sem ao menos olhar para ela. Os homens são esquisitos. Não têm o mínimo de curiosidade. Eu jamais deixaria passar um mês sem ver a minha correspondência! - Vamos andar na praia, disse Cris, sentindo-se desperta, com o cheiro de ar salgado. - Legal. Mas é melhor avisar o Bob que chegamos, sugeriu Ted. Ele levou a mala de Cris até a porta da frente e bateu. Depois girou a maçaneta destrancada e entrou. - Chegamos! gritou.

- Entrem! Estou na sala de televisão, respondeu Bob. Ele estava sobre a bicicleta ergométrica, posta em frente à tela gigante da televisão. - Como foi a viagem? indagou o tio, ofegante. - Eu dormi, confessou Cris. - Vamos dar uma caminhada na praia, disse Ted. Só queria avisar que já chegamos. - Excelente. Linda noite. Marta já foi dormir. Eu vou me retirar logo que acabar o noticiário. Vou deixar a porta dos fundos destrancada. - Obrigado. Até amanhã. Ted tomou a mão de Cris, conduzindo-a pela porta dos fundos e atravessando o pátio. Tiraram os sapatos e enfiaram o pé na areia, correndo de mãos dadas até perto da água. Mesmo já sendo tarde, havia mais pessoas na rua, gente andando de bicicleta, caminhando pela praia, ou reunidos em suas varandas, conversando e rindo. Alguns ouviam música alta. Nada estranho para um fim de semana na praia. A única coisa um pouco fora do comum era a lua. Estava cheia mas não tinha a cor azul-gelo do inverno e da primavera. Brilhava com uma tonalidade âmbar, pendurada no meio do céu, deitando lá do alto seus raios no oceano. Sua “cara” parecia jovial, prestes a revelar um segredo escondido na outra face. Cris sabia qual era o segredo. A promessa dourada de verão. Mal podia esperar. Ted e Cris ficaram juntinhos, os pés enfiados na areia fria à beira das ondas espumantes da noite. A água fazia cócegas em seus calcanhares e fugia antes que pudessem agarrá-la no jogo de pega-pega. Ted passou o braço forte em volta do ombro de Cris e descansou seu rosto sobre a cabeça dela. - Ah, Kilikina, sussurrou ele no seu cabelo, é tão gostoso estar ao seu lado e abraçar você. Você está nos meus pensamentos, noite e dia. Eu a tenho no coração.

Não era o jeito que ele costumava falar. Algo no íntimo de Cris deu-lhe vontade de chorar de alegria. Como ela desejara ouvir o Ted dizer essas coisas! Esperara tanto tempo! E agora parecia que se haviam conhecido na véspera mesmo. E estariam juntos para sempre. Ela queria virar o rosto para ele, olhá-lo de frente, e dizer: "Ted, eu te amo." Mas a lembrança de algo que ele dissera certa vez fez com que interrompesse seus pensamentos. Ele havia dito que achava que os homens é que deviam tomar a iniciativa e que as mulheres deveriam apenas reagir ao apelo deles. Cris bem sabia que se a frase "eu te amo" houvesse de ser proferida entre ambos, a ele, Ted, caberia a confissão inicial. Esforçou-se o máximo para pôr um freio no coração. - Adoro estar aqui com você, disse ela, encostando a cabeça no ombro dele. Dava até vontade de orar, do jeito que o Ted sempre fazia. Num gesto raro e ousado, Cris falou com seu Pai celeste. A brisa da noite, mensageira amiga, levou seu recado: - Pai, o Senhor fez os céus e a terra e tudo que neles há. O Senhor é um Deus tão maravilhoso! Obrigada por ter feito essa lua perfeita e essa noite perfeita, e por nos permitir estar juntos. Ela estava prestes a dizer "amém", quando um pensamento forte e claro veio-lhe à cabeça. Sem pestanejar, acrescentou: - Pai, por favor, prepare-nos a ambos para aquilo que o Senhor planejou para nossa vida. Queremos te servir e te honrar em tudo que o Senhor quiser de nós. Amém. - Amém, acrescentou Ted, beijando-lhe o alto da cabeça. Vou levantar cedo para surfar amanhã. Quer vir comigo? Não dava para acreditar que o Ted pudesse mudar tão depressa de assunto. - Claro. A que horas? - Lá pelas seis. Acha que vai dormir o suficiente? Ainda surpresa com a brusca mudança do Ted, Cris aquiesceu: - Seis horas está bem. Onde quer que eu me encontre com você?

- No pátio da casa do Bob. Ele afastou o braço e pegou na mão dela, entrelaçando seus dedos com os dela. - Vamos voltar? indagou. - Tudo bem. Na verdade ela não queria voltar. Podia ter permanecido durante horas nos braços do Ted, olhando a lua, escutando o barulho das ondas, sentindo o frescor da água nos tornozelos e sonhando de olhos abertos. Caminharam de volta ao pátio da casa dos tios, onde Ted parou e plantou os pés na areia. Virou-se para Cris, para que ela ficasse de frente para ele. Tomando seu rosto nas mãos, volveu a cabeça um pouco para cima e olhou nos seus olhos, sem dizer nenhuma palavra. O que ela lia nos olhos azuis dele? Um sentimento forte e intensamente sincero. Algo mais forte do que qualquer coisa que vira antes. O que Ted lia nos olhos dela? Será que ele via dentro dela, como no ela vira na lua, uma promessa de verão, cheia de calor e de esperanças? Com um beijo terno como pétalas de rosa sobre os lábios, Ted disse baixinho: - Me encontre aqui ao nascer do sol. - Estarei aqui, prometeu ela. Bem aqui. Ele a soltou. E isso era muito difícil para ele fazer. Cris abriu a porta dos fundos e em seguida trancou-a. Subiu, bem silenciosa, pela escada até o quarto de hóspedes preparado para ela. Com um sorriso nos lábios recémbeijados, ela ajustou o despertador para as cinco e meia da manhã.

Sal em Seus Lábios 12

O som irritante parecia disparar dentro da cabeça de Cris. Virou-se na cama e, de repente, acordou de todo, percebendo que o barulho era do seu despertador. 5:30? O que me levou a querer acordar a essa hora? Aí se lembrou por quê. Pulou da cama, alegre e determinada, deixando o coração cantar e conduzir seu corpo relutante e cansado até o chuveiro. Quando novamente consultou o relógio, era 6:01, e ela estava pronta. Descendo em silêncio a escada, deixou um bilhete na mesa da entrada, perto da porta. Certa vez, saíra a caminhar pela praia, bem cedinho, sem dizer para onde ia, e seus tios quase ficaram loucos de preocupação. Desta vez isso não aconteceria. Saindo pela porta dos fundos, ela correu a vista pelo pátio, mas não viu sinal do Ted. Seu coração inquietou-se. Talvez o relógio esteja um pouco adiantado. Ou atrasado. Sei que ele não sairia sem mim. Atravessou o pátio, descalça, sentindo nos pés o gelo do piso de concreto. Foi até onde ela e Ted haviam estado na noite anterior, onde ele disse para esperá-lo. Cris procurou o lugar certo e aí se deteve, alta e bem aprumada, imóvel, olhando o horizonte para ver o Ted ou sua prancha de surfe alaranjada. Nada avistou que lhe denunciasse a presença.

Como ele morava perto, ela sabia que viria a pé. Olhou para a esquerda, de onde esperava que ele surgisse. Havia madrugadores espalhados ao longo da praia. Era uma manhã clara, fria, lindíssima, de primavera. Passou por ela um cara conduzindo uma prancha de surfe branca em sua moto de praia de pneus largos. Daí a pouco, deu a volta, e passou de novo por ela, ao percebê-la ali parada, imóvel feito uma estátua, não sem propósito, é claro, apesar da cara de pateta que ela mesma suspeitava estivesse exibindo naquele momento. Cris mudou então de idéia e foi sentar-se na mesa do pátio, onde ficou a esperar de olhos atentos, fitos na direção sul. Seus pés estavam gelados. Pensou em entrar e calçar sapatos e meias. Aí, quando voltasse, quem sabe Ted já estaria esperando. Correu para dentro, pegou os sapatos e as meias, desceu novamente e saiu pela porta dos fundos. Nada do Ted. Agora estava preocupada. O relógio marcava 6:20. Quem sabe entendi mal. Ele deve ter dito 6:30 e eu pensei que ele houvesse dito 6:00. Ele estará aqui a qualquer momento. Brrr! Gostaria de uma xícara de chá quente para esquentar as mãos. Achando que tinha mais dez minutos, voltou para dentro,fez chá para ela e para o Ted, e levou as canecas para fora, uma em cada mão. Ainda nada do Ted. Sentou-se à mesa do pátio e colocou o chá dele em frente da cadeira vazia. Segurando a sua caneca, soprou a fumaça que subia e tomou um pequeno gole. Essa experiência era dolorosamente conhecida. Ela já passara antes por esses altos e baixos com o Ted. Depois da noite anterior, Cris estava segura de que nunca mais ficaria sem saber como andava a relação dos dois. Ela estava no coração dele. Ele mesmo dissera isso. Não se esqueceria e não a deixaria. Não podia. Cris resolveu esperar mais alguns minutos antes de tomar seu chá. Olhou para a caneca e viu o reflexo escuro de seus olhos cheios de dúvida. Havia algo penetrante nesse reflexo. Era como se estivesse enfrentando seus próprios pensamentos.

Solte as rédeas. O pensamento veio tão claro como se o tivesse proferido em voz alta. Seguiu-se imediatamente uma oração em silêncio. Está certo, Senhor. Estou retendo esses temores e dúvidas quando deveria estar segurando no Senhor. Agora estou soltando as rédeas. Quero abraçar a tua verdade. Sorriu em paz e olhou para cima. Lá estava o Ted. - Olá! disse ele. Tinha um aspecto horrível. - Você está bem? indagou ela colocando a caneca na mesinha. - Sim, claro, tudo bem. - Quer um pouco de chá? Ainda está quente. - Obrigado. Ele encostou a prancha na espreguiçadeira e sentou-se na cadeira ao lado de Cris. O calção molhado fez um barulho de coisa escorregadia, borrachenta, quando ele se sentou sobre a almofada de vinil. - Gosto de chá, disse ele. - Eu também, observou ela, bebendo o seu e sondando os olhos dele. Ted ainda não olhara diretamente para ela. - O que foi? perguntou Cris, pondo sua mão na dele. Ele agarrou-a e entrelaçou seus dedos nos dela, apertando-os com força. Erguendo a mão dela até os lábios, ele a beijou então, ternamente, duas vezes, colocando-a depois de novo sobre a mesa. Forçando um sorriso, disse: - Me pergunte isso de novo mais tarde, está bem? Tomou um gole de chá e olhou dentro da caneca como se examinasse seu reflexo do jeito como ela o fizera.

Perguntar mais tarde? Quando? Dentro de cinco minutos? Cinco meses? Qual é o problema, Ted? Quero saber agora. Ela lembrou-se de ter tido a mesma sensação no estacionamento da escola, quando Katie se recusara a dizer-lhe qual era o seu problema. Ted aconselhara Cris a esperar até que Katie estivesse disposta a conversar. Disse-lhe que a prova do verdadeiro amor estava, não em pressionar demais os amigos, mas em buscar forças para abrir mão deles. Agora, tomando uma firme decisão, Cris aplicaria o conselho do Ted à sua própria situação. Não conseguia imaginar o que estava acontecendo. Caminharam até a beira d'água de braços na cintura um do outro. Ela nunca o sentira antes segurando-a tão de perto. Pararam diante de uma duna, antes que a maré a alcançasse, transformando-a num monte informe de areia molhada. Ted olhou para a água e soltou a namorada. Em seguida pegou a correia da prancha e abriu o fecho de velcro. O som parecia de tecido se rasgando. Ele passou a correia no tornozelo e puxou a roupa de surfe até o queixo. Caminhou até a água e pegou a primeira onda, abaixando e se encharcando antes de sacudir o cabelo molhado e montar novamente na prancha. Foi até um ponto onde havia vários outros surfistas e ficou sentado na prancha com as pernas enfiadas na água. É duro, pensou Cris. Quanto tempo vou ter de esperar para que ele me conte o que o está incomodando? Pensei que conhecesse bem o Ted, e agora, neste momento, sinto que estou longe disso. Na meia hora que se seguiu, Cris observou, orou e esperou. Talvez Ted tivesse pegado umas três ondas durante o tempo todo. Nem eram muito grandes, e Cris conhecia o código de ética dos surfistas e sabia que Ted jamais cortaria a frente de outro cara se ele pegasse a onda primeiro. Aliviada e um pouco nervosa, percebeu que ele pegara uma boa onda e vinha deslizando sobre ela em direção à praia.

Ted saiu da água, enfiou a prancha debaixo do braço e correu até o lugar que ela escolhera para sentar-se. Ainda a alguns passos de distância, parou, virou a cabeça e sacudiu seu cabelo tingido de sol. Ela o tinha visto sacudir o cabelo desse jeito dezenas de vezes. Olhando-o, naquele momento, ele lhe pareceu o mesmo Ted de sempre. - Tomei uma decisão, disse Ted, enterrando a prancha na areia e sentando-se ao lado de Cris. Tomou-lhe a mão. Ela correspondeu, colocando a sua mão pequena na mão fria do rapaz e dando-lhe um apertão. O polegar de Ted descansou sobre a pulseira de ouro da Cris, e ela podia senti-lo instintivamente roçando a expressão "Para Sempre", gravada na pulseira. Com o olhar fixo no mar, Ted apertou os olhos contra o azul brilhante. Voltando-se para Cris, olhou-a direto nos olhos. Agora o azul brilhante eram os olhos dele. - Kilikina, toma uma decisão. Sabe aquela carta que você me mostrou ontem à noite no carro? Abri quando cheguei em casa. Era de uma organização missionária. É que eu lhes escrevi no verão passado me candidatando para um cargo missionário de curta duração. Três ou quatro anos. Eles me escreveram dizendo que me aceitam. Querem que eu esteja lá dentro de duas semanas. Para Cris, foi como se o mundo inteiro tivesse parado. Não podia ouvir as ondas ou sentir no rosto a brisa do oceano. Tudo que ouvia eram as palavras do Ted, erguendo uma muralha de gelo entre eles. Não conseguia pensar, nem mesmo respirar. - Fiquei até muito surpreso, continuou Ted. Pareceu tudo tão rápido, continuou Ted. Agora é só passar pelo treinamento e já pego de cara o cargo para o qual me candidatei. É o que eu sempre quis fazer. De repente o efeito anestésico de suas palavras começou a passar. Cris tinha agora a dolorosa sensação de que alguém lhe espetava alfinetes no coração.

Ted respirou fundo. Soltou a mão de Cris e olhou mais frontalmente para ela, aproximando-se mais. - Orei a noite toda. Não dormi nada. Quando pensei em ir para lá e deixar você, era como se eu me dilacerasse por dentro. Então pensei em ficar, e senti paz. Foi assim que eu soube qual seria minha decisão. Vou telefonar para eles na segunda-feira e dizer que não posso aceitar o cargo. - Você vai fazer o quê? Cris não podia acreditar no que ouvia. - Vou recusar. Não posso ir agora. Não posso por causa do nível em que está nosso relacionamento. Um ano atrás eu poderia ter ido. Seis meses atrás, quem sabe? Mas agora, não. É como eu lhe disse na Disneylândia, nunca tive ninguém. Agora tenho você. Não vejo isso com leviandade. Você é uma dádiva de Deus para mim, Kilikina. Não posso deixá-la. Agora, não. Nunca. Cris fechou os olhos e respirou fundo. Seu coração batucava alucinadamente. Toda essa conversa parecia um sonho maluco. Ela tentou entender tudo que Ted estava lhe dizendo. Estava aliviada por ele haver tomado uma decisão baseada no que seria melhor para os dois. Não suportava a idéia de separar-se dele, assim como ele também não suportava a idéia de afastar-se dela. Mas será que no fundo, no fundo, ele sentia isso? - Ted, você tem certeza absoluta? Sempre quis ser missionário. - Também sempre quis... principiou ele e parou, procurando as palavras certas. Bem, prosseguiu, sempre quis outras coisas também. - Ted, você tem certeza de que quer abrir mão dessa oportunidade? indagou ela fitando-o nos olhos. - Sim, tenho certeza. - Você está desistindo por minha causa ou por causa de nós dois?

Um sorriso iluminou-lhe o rosto, fazendo a covinha dele aparecer na bochecha direita. Cris nunca o vira com ar tão vulnerável. - Sim, por sua causa e por nossa causa. Você significa mais que tudo para mim, Kilikina. Inclinou a cabeça e beijou-a. Quando se afastou, Cris sentia o sabor de sal nos lábios. Tinha sentido o sal de suas próprias lágrimas antes, mas não estava preparada para o sabor de água do mar no beijo que ele lhe deu. Era diferente dos outros beijos. Tinha um pouco de ardume. - Vamos lá, disse Ted, pondo-se de pé e oferecendo a mão para erguê-la. Vamos tomar café. Temos o dia inteiro para passar juntos. O que você quer fazer? Cris ergueu-se e limpou a areia das costas. - Não sei. Me dê um minuto. Isso tudo me pegou de surpresa Primeiro, fiquei imaginando todas as coisas possíveis que o pudessem estar incomodando. Depois você me conta que recebeu a proposta de uma missão para passar três ou quatro anos num país estrangeiro e depois me diz que não vai. É muita coisa para eu digerir de uma vez só. - Está certo. Eu passei a noite toda pensando nisso. Não sabe num como estou aliviado por ter lhe contado. Não ia contar, ia fazer de conta que nunca tinha recebido essa carta. Ainda bem que contei. Cris não podia dizer o mesmo. Quando chegaram à casa de Bob e Marta, Ted lavou a prancha de surfe com a mangueira do quintal e as deixou secando no pátio. - Você acha que o Bob se importaria de me emprestar um short e uma camiseta? Ele apontou para um monte de roupas recém-lavadas em cima da secadora na lavanderia. - Tenho certeza de que não há problema; você sabe como o Bob é tranqüilo. Pegando um short caqui e uma camiseta azul, Ted desceu ao banheiro de baixo para tomar um banho e se trocar.

Aparentemente Bob e Marta ainda não tinham se levantado. A casa estava em silêncio. Cris notou que eram quase oito horas. Ted saiu do banheiro e aproximou-se dela na cozinha. - Quer comer aqui ou sair? - Vamos ficar aqui, sugeriu Cris. Quer flocos de milho? Ela tirou duas caixas do armário. - Claro. Podemos comer perto da televisão? Indagou ele abrindo a geladeira e pegando uma caixa de leite. - Sim. - Quando era menina, você também assistia a desenhos animados sábado pela manhã comendo flocos de cereais? - Não. Minha mãe não nos deixava comer na sala - Uma das vantagens de ser filho único criado Poe um pai que nunca estava em casa é isso. Não havia muita coisa que eu não pudesse fazer. Levaram suas tigelas de cereal para a sala de televisão e ligaram o aparelho em baixo volume para não acordar os outros. Cris acabou de comer e colocou a tigela no chão. Em seguida pegou uma manta de crochê da sua avó e esticou-a sobre a poltrona de feltro. Enrolou-se e enfiou um travesseiro debaixo da cabeça. Com as pálpebras pesadas e o coração carregado de emoção, ela tentou prestar atenção no desenho, distraída pelo cranche-cranche rítmico do Ted comendo cereal. Não demorou muito, o barulho cessou e Cris cedeu à nuvenzinha de sono que se acumulara em suas pálpebras. Não era possível manter os olhos abertos com tanto peso. Instantes depois a voz de tia Marta acordava Cris. Ela ergueu a cabeça, ainda sonolenta, e olhou em volta. Marta estava atrás da poltrona de Cris. - Há quanto tempo vocês dois estão dormindo aqui? quis saber Marta. - Não sei, murmurou Cris.

Notou que o Ted também dormia, esticado no sofá. Nem se mexeu quando Marta entrou. - Shh! disse Cris, colocando um dedo nos lábios. Ele não dormiu muito ontem à noite. - Por quê? - É uma longa história. - Será que é porque ele nem foi para casa ontem à noite? - Tia Marta! ralhou Cris. Ele não ficou aqui ontem à noite, não. Nós dois nos levantamos cedo porque ele foi surfar e eu fui lá para ver. Entramos faz pouco tempo e acho que estávamos supercansados e... Marta deu uma risadinha. - Então não vou perturbá-los! Vou desligar a TV para vocês dormirem mais um pouco. No instante em que ela desligou o aparelho, Ted abriu os olhos, e perguntou: - O que foi que aconteceu? Cris achou graça. Já vira seu pai agir do mesmo jeito. Enquanto a TV estava ligada, ele roncava, dormindo na poltrona reclinável. No momento que desligavam a TV, ele acordava. - Volte a dormir, disse Marta. Quer um cobertor? - Obrigado, estou bem, disse Ted, passando os dedos pelo cabelo para "penteá-lo". Puxa, eu desmaiei! - São só 10:30. Por que vocês não dormem um pouco mais? É sábado. - Nós dormimos umas duas horas. Você também dormiu, Cris? - Acho que caí no sono antes de você. Ela bocejou e tirou os pés descalços de sob a manta de crochê.

- Bom, já que vocês dois estão acordados, querem ir comigo e o Bob para um brunch* tranqüilo no restaurante? ___________________
*Brunch: refeição matinal que une o café da manhã com o almoço, muito popular aos sábados, domingos e feriados, quando se levanta tarde. (N. da T.)

Vinte e cinco minutos mais tarde, Cris e Ted estavam atrás de Bob e Marta na fila do bufê de um hotel de luxo perto da casa deles, enchendo os pratos com uma variedade de comidas exóticas. Para ser exato, Ted estava enchendo o prato. Cris escolhia com cuidado, pois não sentia fome, e sim um mal-estar no estômago. Quando sentaram, ela percebeu que o mal-estar era por causa da carta do Ted e de ele ter recusado a oportunidade. Mordeu um morango maduro. Engoliu, lambeu os lábios. Ainda estavam com gosto de sal. Cris deu outra dentada, esperando que o gosto fosse doce. De novo, o gosto salgado. Seria o morango? Ou o ácido do seu estômago que reclamava? A notícia do Ted era desconcertante. Mas quando Cris lembrou-se da outra opção, viu a decisão com satisfação. Ela deveria estar feliz. Aliviada. Contente. Tentou orar em silêncio e pedir a Deus que lhe desse paz do jeito que o Ted disse ter paz. Embora Ted parecesse tranqüilo na sua decisão, ela ficou pensando se um dia ele ficaria chateado com ela por tê-lo impedido de realizar seu sonho. Por outro lado, será que Cris ficaria chateada com Deus se um dia ele levasse embora o Ted?

Solte as Rédeas 13

- Bob disse que vai comigo ao café da manhã de oração dos homens na terça-feira que vem, bradou Ted com entusiasmo. Eu lhe contei? O fim de semana passara voando e Ted e Cris agora voltavam pela rodovia em direção à casa dela. - Acho que a minha tia gostou do culto hoje cedo um pouco mais do que semana passada. Pelo menos não criticou. Tio Bob disse que gostou. A voz de Cris tremeu, pois passavam por uma saliência na pista. A "Kombi Nada" transmitia cada cratera e cada saliência aos seus passageiros. - Sua igreja é legal, continuou ela. Acho que eles se sentiriam bem lá, se resolvessem se envolver. - Espero que não estejam confortáveis demais, disse Ted. Nós quereremos que eles se mexam quando ouvirem falar da realidade do céu e do inferno. Eles precisam de salvação, não apenas sentir-se bem numa igreja. Cris concordou. Andavam pela estrada no velho veículo utilitário, cada um envolvido em seus próprios pensamentos. Tinha sido um fim de semana difícil para ela desde o momento em que o Ted revelara a proposta na praia. Ele parecia normal, calmo, sereno, tranqüilo. Cris ainda não encontrara a mesma paz. Na noite da véspera ela dormiu mal. O pouco que dormiu foi pontuado por sonhos inquietantes. Pior foi um pesadelo que ela tivera antes, e naquele mesmo quarto.

Foi nas férias em que ela entregara o coração ao Senhor, pouco antes de tomar a grande decisão. Ela sonhara que estava no mar, coberta de algas marinhas emaranhadas no cabelo, puxando-a para baixo, para o fundo do mar. Foi aí que o sonho acabou da primeira vez... Na noite anterior, ele continuara. Ela lutara contra as algas aos chutes e safanões, tudo fazendo para desembaraçar-se delas, mas logo perdeu o fôlego. Então ouviu uma voz dizendo: “Solte. Solte as rédeas.” Ela relaxou e logo se viu livre, deixou que seu corpo flutuasse até a superfície, onde respirou o ar puro e doce. Não sabia o que aquilo significava. Talvez o que esteja me incomodando é que não conversamos sobre a festa de formatura. Até amanhã tenho de saber o que vamos fazer, porque só faltam duas semanas. Uma vez resolvida a questão, eu me sentiria mais calma e segura. Cris ficou a pensar de que maneira abordaria o assunto. Podia conversar com Ted sobre tudo. Por que se sentia tão tímida ao falar sobre isso? Ted falou um pouco sobre as aulas, que terminariam na semana seguinte e disse também que precisava de um emprego nas férias. - Talvez eu até faça uma ou duas matérias no curso de verão já que não vou a lugar nenhum. Cris sentiu um toque de tristeza na voz dele. Mas, é claro, um curso de verão nunca seria um negócio muito interessante. Ansiosa por dar uma direção positiva aos planos de ambos para o futuro, Cris disse: - Estou aliviada por ter finalmente decidido. Vou entrar para o Palomar no ano que vem. Ainda estarei em casa, o que vai representar economia. Continuo trabalhando na loja de animas e vamos passar muito tempo juntos. Acho que a Katie também vai para o Palomar.

- Legal! Vai ser muito bom estarmos juntos nessas férias, não acha? Dias de sol na praia... De repente, deixaram a rodovia principal. - Tenho uma idéia. Vamos até a praia ver o pôr-do-sol. Se andarmos depressa, conseguimos chegar a tempo. Ele virou à direita, depois à esquerda e novamente à direita, como se soubesse onde ia. Ted já lhe dissera que ali havia um lugar de que os surfistas gostavam muito. Estacionaram em frente da praia de San Clemente e pararam na pequena guarita onde o funcionário do parque, de uniforme, verificava os carros que entravam e saíam. As tarifas de dia e para camping estavam escritas num cartaz junto à entrada. - Quanto pagamos só para ver o pôr-do-sol? perguntou Ted. O guarda ergueu os óculos de aro de metal e olhou para o Ted , depois sorriu para Cris. - Para vocês dois, que tal de graça? - É um barato! - Tome aqui um passe de meia hora. Coloque no vidro do carro. - Obrigado! Ted fez um sinal havaiano de "tudo tranqüilo". O guarda repetiu o gesto universal, e a kombi tomou a direção da área de camping. - Este lugar é super legal de acampar, observou Ted. Devíamos juntar uma turma durante as férias e alugar um espaço aqui, e passar uma semana. - Parece divertido. - Podíamos fazer um grande acampamento na última semana das férias. Surfar o dia todo. Cantar em volta da fogueira já noite e chamar isso de "grande festa de outono". Cris sorria, entusiasmada, à vista das idéias do Ted. Ele era definitivamente um visionário. Mas ela não podia deixar de notar que ele parecia meio forçado ao falar sobre

o futuro dos dois, e planejar as aventuras que substituiriam as que ele teria em Papua Nova Guiné. Pararam no espaço reservado para estacionamento diurno, e a partir daí seguiram a pé por uma trilha larga, porém íngreme , até a praia. - É longe até lá embaixo, disse Cris. É o único caminho? - É o que está mais à vista. O jeito mais seguro de descer. Passaram diversas pessoas, subindo com a parafernália da praia. Iam botando o pulmão pela boca. Na volta nós é que estaremos assim! Ainda bem que não trouxemos cadeira de praia e pranchas de surfe. Ted continuou segurando a mão de Cris depois que atingiram a base do declive. Subiram um trilho de trem e desceram uma duna antes de chegar à praia propriamente dita. A vista que os esperava pagava o esforço. O sol começava a mergulhar seus raios ardentes no fresco mar azul. O céu, em torno, parecia uma toalha de praia em tom pastel, enrolada carinhosamente em volta do sol para protegê-lo do frio da água. - É maravilhoso! sussurrou ela. Ele a envolveu nos braços. Ficaram juntos, de pé, em reverente silêncio, contemplando o pôr-do-sol. Cris chegou a pensar que aquilo era tudo que ela sempre sonhara: estar nos braços do Ted, como também no seu coração. Será que ele sentia o mesmo? Quando o último raio de sol diluiu-se no mar, Cris fechou os olhos e respirou fundo a maresia. Cheirava a sal. - Você sabia, perguntou Ted, que o sol poente parece tão grande na ilha de Papua Nova Guiné, que é quase como se a gente estivesse em outro planeta? Vi fotos.

Como tinha acontecido com seu reflexo na caneca de chá no pesadelo da noite, Cris ouviu as palavras: "Solte as rédeas”. Sabia o que tinha de fazer. Virando-se para ele, disse: - Não bastam as fotos para você, Ted. Você tem de ir. - Eu vou, um dia, querendo Deus, eu vou, disse ele por dizer. - Você não vê, Ted? O Senhor quer que você vá. Hoje é o dia.. Esta é sua oportunidade de ir para o campo missionário. Tem de ir. Os dois se entreolharam numa silenciosa comunhão. - Deus tem me falado algo, Ted. Ele está me dizendo para abrir mão de você, deixar você ir. Eu não quero, mas preciso obedecer-lhe. Ted parou e disse: - Talvez eu deva dizer ao pessoal da missão que só poderei ir para o período de férias. Assim, fico fora só alguns meses. Na verdade, algumas semanas. Depois volto e quando chegar o outono estaremos juntos. Cris abanou a cabeça. - Não pode ser assim, Ted. Você tem de ir para o período que Deus determinar. Desde que eu o conheço, Deus tem lhe falado para ir. Está na cara, Ted. Você tem de obedecer-lhe. - Kilikina, disse Ted, segurando-a pelos ombros, você sabe o que está me dizendo? Se eu for, talvez nunca volte. - Eu sei, disse ela num quase sussurro. Ela pegou o bracelete, no pulso direito, e soltou o fecho. Tomou a mão do Ted e colocou a jóia "Para Sempre" na sua palma, fechando os dedos dele em torno dela. - Ted, o Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te dê a paz. Que você sempre me a Jesus acima de tudo mais. Até mais do que eu.

Ele caiu deitado na areia como se fora atravessado pelo fio de uma espada. E cobrindo o rosto com as mãos, chorou. Cris, de pé ao lado dele, mal se sustinha nas pernas. O que foi que eu fiz?Ó Deus, por que tenho de deixá-lo ir? Deitando-se também, o corpo trêmulo, Cris chorou até sentir nos lábios apenas o sal das próprias lágrimas. Percorreram o resto do caminho para casa em silêncio. Um manto espesso descera sobre eles, unindo-os até mesmo nessa separação. Para Cris, parecia um sonho mau. Fora outra pessoa que havia aberto mão do Ted. Não ela! Ele não ia embora de verdade. Subiram a entrada da casa de Cris, aí Ted desligou o motor. Sem dizer palavra, desceu e deu a volta, abrindo a porta para ela. Ela desceu e esperou enquanto ele pegava a bagagem no banco traseiro. Entraram pela porta da frente. Ele a fez parar debaixo da treliça de jasmim perfumado. Com lágrimas nos olhos, disse em voz rouca: - Vou ficar com isso, disse e levantando a mão mostrou a pulseira "Para Sempre" entre os dedos. Se Deus nos unir novamente neste mundo, vou colocá-la de volta no seu pulso, e dessa vez, minha Kilikina, vai ser para sempre. Fitou-a por longo instante com os olhos cheios de lágrima, e então, sem um abraço, sem um beijo, nem um adeus, deu-lhe as costas. Foi embora sem olhar para trás. No dia seguinte, Cris não foi à escola. Sua mãe deixou que ela tirasse o dia para chorar sozinha. E foi só o que fez. Quanto mais chorava, mais sofria e mais exausta ela se sentia. Pelas quatro da tarde, uma batidinha na porta do quarto anunciou que Katie tinha chegado. - Olá! Fiquei sabendo. O Douglas me ligou hoje cedo. Sentou-se ao pé da cama de Cris e com todo o carinho disse: - Sinto muito, Cris.

- Não acredito no que fiz, Katie. Por que fiz isso? Tudo fica martelando na minha cabeça; devo estar louca. - Esquisito, lembra? disse Katie, emendando-a. Deus é esquisito. E nós somos distorcidos. Sempre que a gente faz uma coisa esquisita assim, nos aproximamos mais dele. E acredite, o que você fez foi estranho mesmo! Cris pegou um lenço de papel e limpou os olhos inchados. - Douglas me contou que o Ted disse a ele ontem à noite que você o amava o bastante para abrir mão dele, e que você o incentivou a obedecer ao chamado de Deus quando ele já se mostrava disposto a adiar... Incrível, Cris! É como aquele versículo sobre não haver maior amor do que um amigo entregar a vida por outro amigo. Não sabia que você seria capaz disso. Eu não teria coragem. - O que você quer dizer? Você fez isso também. Foi você que terminou o namoro com o Michael, lembra? - O meu caso foi diferente. - Sei não, Katie. Um sofrimento por amor é igual pra todo mundo. - Se eu sofri tanto por causa do Michael, nem imagino o quanto você deve estar sofrendo pelo Ted. O que é que poso fazer? - Nada. Só me diga que eu agi certo. Katie deu uma gargalhada. - Como pode ter dúvidas? Claro que agiu certo! Você é a própria encarnação da nobreza. - O que da nobreza? Cris se apoiou sobre o braço e olhou bem para a expressão da amiga. Katie sorriu. - Posso dizer simplesmente, Cristina Juliet Miller, que você agiu corretamente Você entregou um presente a Deus, o Ted livre e desimpedido. E existe uma coisa da qual tenho

certeza: nunca podemos dar a Deus mais do que ele nos dá. Mal posso esperar para ver o que ele vai lhe dar! i - Queria ser otimista como você, Katie... - Você vai ser. Leva tempo. Qual foi mesmo aquela pérola de sabedoria que você me passou umas semanas atrás? "Os bons sentimentos nem sempre vêm no mesmo envelope que a decisão certa." Vêm uns atrás dos outros. Mas enquanto não chegam, aqui tem a fita do Douglas. Ela ajuda muito. Marquei a música de que mais gostei. É uma boa música para chorar. - Obrigada. Sabe, Katie, fico pensando que o relacionamento que eu tinha com o Ted não era de verdade. Era perfeito demais. Ele era perfeito demais. Era uma espécie de sonho, e agora está na hora de acordar e amadurecer. Hoje, aos dezessete anos, sou uma pessoa bem diferente do que era quando o conheci. Mas ainda sou nova demais para levar a sério o namoro do jeito que estava ficando com ele. Provavelmente, vai ser melhor assim. - Certo. Com Deus, as coisas acabam saindo bem, não acha? E então, acha que estará de volta às aulas amanhã? - Sim. Tenho prova final de Espanhol. Obrigada por ter vindo aqui. Katie lhe deu um abraço, e disse: - É para isso que são as amigas. Agora, escute. Amanhã eu venho lhe dar uma carona para a escola. Vista alguma coisa de que goste bastante para ficar de bem com você mesma. Vou trazer um bolinho especial para o almoço. Katie cumpriu o trato, e no almoço premiou Cris com um bolinho recheado. - Eu lhe contei que ontem encontrei o Fred de novo na igreja? Ele comprou uma Bíblia e hoje o vi trazendo a Bíblia aqui para a escola. Não é incrível? Quem imaginaria? - Katie, perguntou Cris, cautelosa, você realmente já esqueceu o Michael? Está me parecendo tão bem. Acha que as feridas já cicatrizaram?

Katie ficou séria. - Acho que elas nunca se fecham completamente. Ainda é difícil quando o vejo, mesmo estando ciente de que fiz o que devia. Lembra aquela vez que conversamos sobre o que significa amar? Acho que o que concluímos é verdade. A gente pode amar alguém e nunca se casar com ele. Um pedaço daquela pessoa vai ficar sempre escondido num jardim secreto do nosso coração. Enquanto Katie falava, os olhos de Cris enchiam-se de lágrimas. Ainda sofria muito. - O negócio, Cris, é que nunca abaixei meus padrões ou minha moral com o Michael, e pelo menos nisso, não tenho do que me arrepender. Você também não tem do que se arrepender com o Ted. Você o amou. Encare isso: sempre o amará. A vida continua. Deus está perto das pessoas de coração quebrantado, e acontece que eu e você estamos nessa situação. Entre lágrimas e o bolinho recheado, Cris deu um sorriso. - E acontece, acrescentou Katie erguendo a cabeça, que acho que estar perto de Deus é um negócio maravilhosamente seguro! Durante a semana, Cris pensou muitas vezes nas palavras da amiga. Era pior à noite. Ela permanecia acordada, deitada no escuro, esgotando as possibilidades ao esperar que as circunstâncias mudassem, e lutando contra as perguntas sem resposta. Sempre que o telefone tocava, o coração gelava. Cada dia ela verificava a correspondência. Mas o Ted nunca havia escrito para ela e não seria agora que iria escrever. Nem telefonaria. Ele tinha ido embora para sempre.

O Segredo Revelado 14

Conseguiu passar o fim de semana com ajuda da Katie e até foi à igreja no domingo. Fred sentou-se com elas no culto. Depois caminharam juntos até o estacionamento e Fred acompanhou Cris até o seu carro. Na frente dos pais e do irmão dela, ele disse: - Cris, como você sabe, a festa de formatura é nesta sexta-feira. Eu me sentiria honrado se você fosse comigo. Tinha de "tirar o chapéu" para a perseverança desse cara! - Obrigada pelo convite, Fred, fico lisonjeada. Simplesmente não posso ir. Nem com você nem com ninguém. Você precisa procurar alguém que goste de se divertir, com quem você possa passar uns momentos agradáveis. Você merece. - É, eu devia ter desconfiado, disse ele, cabisbaixo, e foi embora. Pouco depois que chegaram em casa, Katie ligou. - Vá nessa. Adivinhe o que aconteceu? - Adivinhar o quê? - Adivinhe o que vou fazer na próxima sexta-feira? - Como? Não tenho a mínima idéia. - Vou à festa com o Fred. O silêncio foi total. - Mas e aí? perguntou Katie, provocando. Cris caiu na gargalhada. Havia mais de uma semana que não ria assim. Riso gostoso, divertido.

- Achei ótimo. Vocês vão se divertir bastante. - Pelo menos ele é cristão. É um passo na direção certa. - Ele vai tratá-la como uma rainha, disse Cris. Estou contente de saber que você vai com ele. O Fred merece o melhor, e é isso que você é. Só à noite Cris começou a sentir o impacto do telefonema de Katie. Enquanto achava que nenhuma das duas iria à festa, tudo estava bem. Poderiam alugar uns vídeos e curti-los na companhia uma da outra. Mas agora Katie tinha com quem sair, alguém que inicialmente havia convidado Cris. Na quinta-feira Douglas telefonou para Cris. - Como você está passando? perguntou ele, solícito e carinhoso. - Às vezes bem, às vezes mal. - Você pode me fazer um favor? Me deixe levá-la para jantar amanhã? É que estava no aeroporto com o Ted e ele acabou de partir. Sinto como se tivesse perdido o meu melhor amigo, e queria que você me animasse. Algo gelou dentro de Cris ao pensar que Ted havia ido embora! Foram-se todas as esperanças de que ele resolvesse ficar. Havia o ferrão amargo da realidade. - Vista uma roupa bem bonita. O restaurante onde quero levar você é muito chique. Então, que tal? Você me faz esse único favor? - Certo, foi só o que ela conseguiu dizer. - Maravilha! Vou buscá-la às 6:30, está bem? - Tudo bem. Tchau. Cris se enfiou na cama, ainda atônita, e chorou até dormir. Na manhã seguinte, acordou quase aliviada. Enquanto Ted ainda estava na Califórnia, ela se agarrara aos seus tênues fios de esperança de que alguma coisa viesse a mudar. Agora ele se fora. À noite seria a festa de formatura. Ela não iria, mas decidira se arrumar e sair para jantar com o Douglas num bom restaurante. Nada mau.

Deixou a escola ao meio-dia e foi à casa de Katie ajudá-la a se preparar para a festa. Katie parecia animadíssima. Mas depois que a Cris acabou de maquiá-la, ficou melancólica. - Sabe, disse ela, examinando a própria imagem no espelho, tenho me perguntado se o Michael estará lá hoje à noite. E queria tanto que fosse ele em lugar do Fred. Passei quase o ano inteiro com ele. Cris sorriu, compreensiva, ao ver o belo reflexo de Katie. - Sei exatamente o que você está sentindo. - Você preferia estar saindo com o Ted hoje em vez de sair com o “Amigão de Todas as Moças de Coração Partido”, não é mesmo? - Sim, mas... - Mas a gente tem de aceitar o que acontece, não é mesmo? Mais ou menos isso. Katie virou-se para Cris, examinando-a com seus olhos verdes Cris sabia que ela procurava algo que estava mais no fundo de seu pensamento. - Você acha que o Ted vai voltar? Ou pensa que ele foi embora pra sempre? Não conseguia desviar a vista do olhar intenso de Katie. Encarou-a e deixou que a amiga lhe visse as lágrimas. - Acho que ele foi embora mesmo. Pra sempre. Katie também ficou com os olhos cheios de lágrimas e disse: - Sinto tanto por você, Cris. Forçando um sorriso, Cris suplicou: - Não vá chorar! Vai borrar a maquiagem perfeita que eu fiz, Katie! Ainda séria, Katie ponderou: - Você agiu certo, Cris. Deus vai enviar alguém pra você. Sei que eu não gostaria de ouvir isso depois que terminei com o Michael, mas agora eu acredito. Pra nós duas. Deus

tem dois tesouros peculiares, como diz aquele versículo bíblico, pra nós. O que você acha? Com uma risada marota, Cris observou: - Se está procurando peculiar, não precisa procurar mais. O Fred se enquadra definitivamente nessa categoria. Katie riu-se e disse com voz de apresentador de show de variedades na televisão: - As qualificações são peculiar e tesouro. Os candidatos que se encaixam apenas numa das categorias serão automaticamente desqualificados. Ao que Cris, rindo também, acrescentou: - Quem sabe o Fred se qualifica? Dez minutos depois, Cris despediu-se sorridente da amiga e foi para casa cuidar da própria toalete. Tinha de admitir, era empolgante e misterioso imaginar quem poderia ser seu tesouro peculiar. Sim, quem seria, se não fora o próprio Ted? Cantarolando entrou para o banho, tomou uma bela ducha. Depois lavou, secou e enrolou o cabelo. Ao fazer a escova, brincou com ele, experimentando novos penteados, buscando um visual diferente, inusitado, e que fosse ao mesmo tempo mais engraçado. Precisava de um novo começo. Dividiu então o cabelo em duas partes, recolhendo as pontas atrás das orelhas e das duas partes fez trancinhas, reunindo-as no alto da cabeça, e as extremidades presas com grampos escondidos, formando o arranjo uma tiara de cabelo. Ficou muito legal. Diferente. Escolher o vestido foi fácil. Tia Marta comprara um para o Natal, pensando que ela teria de ir a muitas festas. Afinal, Cris só o vestira uma vez, no culto de véspera do Natal, a que fora com a família. Era de veludo preto, com detalhes de renda branca. Um lindo vestido. Douglas chegou exatamente na hora marcada, arrasando de terno preto. Entregoulhe um buquezinho.*

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*Nos Estados Unidos, quando convidam para sair em ocasião especial, os homens costumam levar um ramalhete de flores, que a mulher prende na roupa. (N. da T.)

- Se não quiser usar, tudo bem. Pode só segurar na mão, se quiser. Tem um cheiro agradável. Cris retirou a flor, uma gardênia branca, da caixa de plástico e aspirou-lhe a fragrância rica e doce. - Claro que quero usar. Aqui mesmo para sentir o cheiro a noite toda. Ele a prendeu com um alfinete e, sorridente como um menino travesso, elogiou: - Você está absolutamente deslumbrante. Sabia? Cris enrubesceu, não tanto pelo elogio em si, mas pela presença de seus pais, que estavam por perto e o ouviram. Sua mãe resolveu tirar fotos, e ela sentiu-se um pouco sem jeito, pois não sabia o que fazer com as mãos. Acabou segurando a bolsa de festa à frente, com as mãos cruzadas no pulso. Douglas ficou ao seu lado, mas não a tocou. Era estranho. Sentia como se tivesse saindo pela primeira vez com um rapaz. Mas era agradável. Muito melhor que ficar em casa sozinha na noite da festa de formatura. Douglas ajudou Cris a entrar na cabina de sua caminhonete amarela e pediu desculpas por não ter alugado uma limusine. Cris riu-se e disse que se sentia mais à vontade na velha caminhonete. A caminho do restaurante, em San Diego, Douglas e Cris acordaram as coisas que tinham feito juntos nos últimos três anos. Douglas estava com o Ted no dia em que se conheceram na praia de Newport. Uma onda forte tinha derrubado aquela garota de pernas compridas, na época com quatorze anos, empurrando-a até a praia. Ela estava coberta de algas, e foi parar aos pés do Douglas e do Ted.

- Nunca vou me esquecer da fogueira que fizemos na praia, disse Douglas. Havíamos formado um círculo de oração e você estava sentada ao meu lado. Na sua oração, você agradeceu a Deus por ter entrado em sua vida. Foi aí que soubemos que você tinha se convertido. - Foi a primeira vez que você quase me derrubou com um de seus abraços! Ah, lembra aquela vez que você foi à casa dos meus tios e eu abri a porta carregando uma cesta de roupa suja, aí tropecei e eu e você acabamos no chão, no meio da roupa? Douglas riu-se. - Lembra quando você e a Katie foram a San Diego e estávamos lavando a louça no apartamento da Stephanie? Jogávamos uma coisa no teto. - Era aquele boneco que veio numa caixa de flocos de cereais. - Só lembro que caiu no seu cabelo, falou ele. - Passamos uns momentos bem divertidos. E lembra a viagem de barco quando você foi andar de jet ski com aquela garota, Natalie? Aí, umas duas semanas depois Katie e Michael tentaram "pegar" você na loja de animais. Michael disse que fora ali defender a honra da irmãzinha dele, supostamente a Natalie. Douglas concordou com um aceno de cabeça, enquanto conduzia o carro para dentro da área da Baía da Missão, em San Diego. - É, mas essa recordação não foi tão boa. Sem querer eu quase nocauteei você. - Não foi culpa sua. Agora é engraçado. Conversaram e riram durante o trajeto todo. Ela se sentia de coração leve. - E a vez que fomos todos patinar no gelo, lembrou Douglas, e você patinou comigo para deixar o Ted enciumado, e o Ted acabou patinando com aquelas duas garotas do primeiro grau? - Espere aí! Você sabia que eu estava tentando provocar ciúmes no Ted?

- Sabia, é claro, disse Douglas, lançando para ela um olhar confirmativo. E você sabia que quando enfiei a cara no seu cabelo, para sentir o cheiro de maçã verde, bem na hora que o Ted passou de carro, era porque estava querendo deixá-lo com ciúmes? - Você fez aquilo de propósito? indagou ela, chocada. - Não de início. No começo eu só ia dar uma cheiradinha no seu cabelo. Aí, quando ouvi a kombi barulhenta chegando, resolvi demorar mais um pouquinho. - Animal! exclamou Cris e deu-lhe um tapa de brincadeira. - Ah, isso não é nada! O melhor foi quando fui trabalhar de manobrista, quando aquele cara, o Rick, levou você ao Vila Nova. Adorei a cara dele quando abracei você. - Eu tinha me esquecido daquela noite. Você sabia que o Rick roubou mesmo a pulseira que o Ted me havia dado, e penhorou no joalheiro? Eu pagava uma quantia toda semana para tê-la de volta. Isto é, até que um cara misterioso foi ao joalheiro e pagou mais de cem dólares para que eu pudesse reavê-la. - É, eu sabia, disse Douglas, baixando a voz. O coração de Cris deu um salto. - Foi você! disse ela. Douglas olhou para a frente e continuou dirigindo. - O joalheiro só me disse que foi um cara. Foi você, não foi, Douglas? - É, eu mesmo. Não era para você descobrir. - Por quê? perguntou ela, maravilhada com tamanha bondade. Ele fora bondoso não só no caso da pulseira, como também nas outras situações referidas. Douglas fora tão gentil e compreensivo com a Katie na Disneylândia! Sem falar nessa noite, em que ele estava sendo tão legal com ela! Douglas deixou a rodovia, entrou numa outra rua e parou num sinal fechado. - Cris, lembra quando fomos ao Desfile das Rosas e você me perguntou se eu só estava sendo gentil porque o Ted pediu que eu ficasse de olho em você?

Ela se lembrava vagamente. Douglas parecia estudar-lhe a expressão facial antes de dar uma explicação. - Acho que sim, disse ela. Douglas estendeu para longe a vista, deixando escapar um suspiro profundo. - Bem, disse ele, jeitão alegre, dissipando as momentâneas nuvens negras da confissão, digamos apenas que eu sabia o quanto aquela pulseira era importante para você. - Obrigada, Douglas! foi tudo que ela conseguiu dizer. Naquele momento entravam no estacionamento de um restaurante de luxo na forma de um velho veleiro. - Aprecio você sobretudo por estar aqui hoje, me dando essa força toda, continuou ela. Você é um amigo muito querido. - Um amigo querido, murmurou ele. Apenas amigos. - O quê? perguntou Cris pois não tinha ouvido direito. Ele desligou o motor. - Nada. Chega de falar de coisas sérias. Vamos nos divertir. Douglas abriu a porta para ela. Estendeu-lhe a mão e ajudou-a a descer da caminhonete. - Pense que hoje é sua festa particular de formatura com um amigo muito querido. E curta cada instante, está bem? - Está certo, Douglas. Vou curtir. Quando entravam de braços dados no restaurante, um sorriso surgiu devagarinho, pé ante pé, nos lábios de Cris. Ela sentia uma felicidade toda especial, mas não sabia bem por quê.

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