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Fxpio Habacuque: um profeta em agonia Habacuque foi um homem de muitas perguntas. Fez muito mais perguntas do que obteve respostas. E mais: ele viveu num tempo no qual questdes eram realidades que floresciam na alma humana como a erva no campo depois de uma noite de chuva. Isso porque no tempo da perplexidade a alma produz mais perguntas do que respostas. Pergun- tz € uma incontrolavel coceira que dé na alma em tempo de agonias sem solugio. A coceira da pergunta € comichao incontrolivel que se nega a parar de cogar enquanto 0 nervo mais sensivel da alma ainda no esté exposto. Habacuque estava com essa comichao existeneiel. O Deus que niio responde as ora- ses. Primeiramente Habacuque que- ria saber 0 “por que” de suas ora- des no estarem sendor respondi- das. Ele orava pelo pais ¢ buscava em Deus uma solugao para a situa- gto de calamidade na qual a nagao se encontrava, mas Deus nao the dizia nada: “Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu nado me escutarés? gritar-te-ci: violéncia! e no salvards?" Poucas coisas sto mais angus- tiantes do que oragdes nfo respon- didas. As vezes a gente chega a pensar que é melhor deixar de orar do que orar correndo 0 risco de nao ser tespondido. Orar & profunda- mente comprometedor pelo simples fato de que coloca em cheque nossa f€ em Deus. Isso porque quando Deus nio responde nos vemos obri- gados a arranjar uma resposta para 0 siléncio de Deus. Dessa forma, para muitos, a0 invés da opeo pela oragio € melhor qualquer outra opcao na qual nem eles nem Deus sejam checados diante do siléncio 14—ultimato Caio Fabio D'Aradjo Filho divino, Assim eles evitam terem que achat uma resposta ao siléncio de Deus ¢ evitam a tentagao de raiva de Deus. Esta € também a razio por que os crist’os que desistem de es- perar em Deus, decidem que eles ‘mesmos so, através de seus atos politicos, as respostas do homem 20 siléncio de Deus na hist6ria, Saber disso deveria nos levar a uma avalia- go do projeto politico da maioria dos cristdos em volta de nds, a fi de sabermos se a resposta politica deles & realidade que os circunda, é um ato de revolta diante da demora © evangelisia Caio Fabio D'Araijo Filho, 35 nos. easado, 3 filhos, presidente da VINDE (Visto Nacional de Evangelizagto), seri um dot regudores do Congresso de Pastores da. Unido Sovlitca, em Mosecu, de 22 a 27 de outubro, @ tunvite do Comité de Lausanne Para 2 Evangel 2za¢80 Mundial. Logo depois, de 25 de novernbro @ 2.de dezembro, Caio Fabio realizark uma grande eruzsda em Caracas, Venezuela, a convite do conhecido evangelists Samus! Oison, pastor de Iglesia Evangel Pentecostal Las Acacias, de Deus ou uma sadia expressio de fé no Deus da histéria. Qualquer das duas situagdes € possivel. Em minha maneira de ver, a maioria dagueles que estimulam a igreja a ago politica como prioridade sobre as outras dimensdes da vida, sao Pessoas que no oram e nfo espe- ram mais em Deus na perspectiva da mais profunda expressio de MARANATA: ora vem Senhor Je- sus. Digo isso porque observo até- nito a morte da f@ no Deus que age a historia independentemente das ‘mediagdes politicas humanas”. Verifico tal realidade através do de- saparecimento quase total do desejo de orar na vida da maioria daque- les que vivem a politica como ex- presséo mdxima do poder humano de fazer historia. Quando a oragio niio estit presente é porque de fato ji no eremos no Dens que intervém; eremos apenas nas intervencdes do homem. Habacuque nao partiu para a ago que prescinde da oragio. Ha- bacuque corren o tisco de ter como resposta A sua orag%o o ensurdece- dor siléncio de Deus. Mas tal situa- ao pode fazer o intercessor cair em profunda agonia de alma caso Deus no responda logo. O Deus que niio intervém. Esse sentimento de se sentir um intercessor mal-sucedido levou Ha- bacuque a perguntar 2 Deus qual era 0 propésito que Ele tinha em mente quando revelava a tremenda contradicao existente entre o Seu carter santo ee pecaminosidade da Sociedade (1,3,4). Isso porque a re- velagio de Deus parecia nfo cor- responder a intervengBo de Deus na historia conereta, Em outras pala- yras: Habacuque diz que havia mi ta Palavra de Deus e pouca acdo de Deus na histéria. ‘Agosto 1990, “Por que me mostras a inigitidade, ‘me fazes ver a opressio? Pois a destrui- fo ea violéncia estado diante de mim; ‘hé contenda, e¢ o litigio se suscita. Por esta causa a lei se afrouxa, e a justica nunca se manifesta; porque o perverso cerca o justo, a justiga é torcida."' (1.3, 4) A pergunta-resposta-acusagao do profeta parece indicar que cle queria um Deus que “revelasse” menos e “agisse” mais. Ou pelo menos que ele queria uma teologia mais horizontal, mais concreta, mais prética em seus resultados, Essa é uma das maiores tenta- ges af. A tentagio de se ter uma teo-LOGIA. Uma teologia com me- nos tea emais LOGTA.Umateologia TERRO-LOGICA. Uma teologia que nos “faga sujeitos de nossa pro- pria historia”. Eu gosto dessa frase, mas quase sempre cla nos coloca numa situagao na qual nem os o- pressores (o que é 6timo), nem Deus (© que é trégico), tem qualquer po- der sobre nossa vida. A tentacio de Habacuque era agit em nome de Deus na certeza de que quando Deus nao fala é a vez do homem falar, e quando Deus nfo age ¢a vez do homem agir. Mas isso parece bastante diferente da afir- magéo de Moisés quando disse que se Deus ni fosse com ele e com 0 povo, que ele preferia niio sair do lugar. Moisés valorizava mais a pre- senga de Deus do que agdes em nome de Deus. Moisés sabia que nao hd agdes de Deus que sejam sempre as mesmas. Dessa forma, a presenca de Deus & que é indispen- sAvel, a fim de evidenciar ao povo de Deus se este conta ou nao com a patceria divina na caminhada, Eu nunca tenho a garantia de que estou falando em nome de Deus apenas porque a causa que eu estou defendendo hoje foi um dia uma causa que Deus defendeu. Uma othada simples no cendrio evangélico que nos cireunda me leva a afirmar que muito do nosso ati- vismo proiético-politico nao tem quase nada de preocupagao relacio- nada ase Deus est junto ou nfo na agio feita por nés ‘em Seu nome, Agosto 1990, Afinal, nem os mais esclarecidos & ilustrados cristdos esido livres do terrivel equivoco de pensar que tudo que eles falam em nome de Deus tem a chancela de Deus. Esse era também 0 equivoco dos falsos profe- tas. Eles falavam em nome de Deus € por isso pensavam que aquela teo: logia que eles tinham “produzido” era a propria Palavra de Deus. Mas Deus nao fala sempre que falamos em nome d’Ele. E nem se revela sempre que produzimos teo-LO- IAS. E nao hd nenhuma causa que seja sempre a causa de Deus, Eu nunca tenho a garantia de que estou falando em nome de Deus apenas porque a causa que eu estou defen- dendo hoje, foi um dia a causa que Deus defendeu. 0 Deus que nem sempre defende as mesmas causas. Deus nem sempre defende as mesmas causas. No Egito Deus esta- va interessado em libertar um povo: Israel. Mas na campanha militar de Josué em Cana nao hi dtivida de que Deus estava agindo na perspec- tiva de eliminar alguns povos: os je- buseus, os herzeus, ete. ... Qualquer leitura despreconceituosa da Biblia nos poe cara a cara com essa terrivel e repugnante yerdade: Deus nem sempre defende as mesmas causas. Nunea vernos Deus a priori compro- metido com uma causa. Deus nem sempre € visto fazendo justiga de acordo com nossos padrdes de direi- to, Ele € sempre visto realizando justiga de acordo com Sua santida- de. E isso € totalmente estranho ao nosso senso de justiga na moderni- dade, porque nosso senso de justica nfo se baseia no caréter do Deus santo, mas fundamenta-se na decla- ragio dos direitos humanos. Para nés, hoje em die, a coisa mais pre- ciosa na existéncia é a vida humana, Téa leitura do Decélogo nos mostra que o teferencial de julgamento di vino tem duas dimensdes: horizon- tale vertical. Na pecspectiva vertical se diz que Deus requer ser visto como o Unico Deus) 0 que implica em que a idolatria nzio 6 admitida e em que Deus tem que ser 0 tnico objeto do nosso culto\(esta ditima ¢ a idéia implicita no mandamento do sibado). Na perspectiva horizontal, Deus estabelece o respeito pelos di- reitos do homem também como ex- presstio do Seu mais profunda dese- jo para a vida: honrar pai e mae, nao matar, nfo adulterar, nao rou- bar, no dar falso testemunho, nzo cobigar o que € do préximo. E por causa dessa dupla dimensao (verti- cal e horizontal) da justicn de Deus que temos que entender que a vida humana nao é um fim em si mesma. O ser humano foi criado para Deus © para ser o reflexo da santidade e da graca do Criador. Assim a fina- lidade do ser humano no é a liber- dade © nem a libertagao. A finali dade humana é ser em e para Deus a medida que vive também em amor € respeito para com seu préximo. Nosso senso de justiga nao se baseia no carater do Deus santo, mas fundamenta-se na declaracao dos direitos humanos. Ora, tudo que estamos dizendo tem ainda relagdo com minha afir- magio de que Deus nem sempre defende as mesmas causas na hist6- tia. E como eu nao estou certo de ter sido compreendido, vou tentar dar mais um exemplo. Quando Jeremias disse aos profetas nacionalistas de Israel que no profetizassem liber- tagdo para o povo (conceito esse am- plamente defendido pelos profetas em outras ocasides) — ele entendia que 0 opressor poderia ser um ins- trumento de Deus para trazer juizo —, 0s falsos profetas consideraram- no um traidor do povo, vendido ao opressor e inimigo do sonho de li- bertagdo de Israel. Mas Jeremias sabia que conquanto Israel estivesse sendo optimido pelos babil6nios, ‘Deus-nao estava apenas preocupado com a realidade de Israel como povo oprimido, Deus também estava preocupado com a tealidade de Is- rael como povo idélatra. E parece, a julgar pela histéria, que Deus estava ‘mais interessado em curar Israel do estado de idolatria, a poupar Israel de ser optimido. Foi 0 exilio que curou a doenca idolitrica de Israel, Tudo isso serve para nos mostrar que nés vivemos num mundo ainda mais ambigiio do que imaginamos. Isso porque além das naturais ambi- Ultimato — 15 gilidades da vida, ainda h4 aquelas relacionadas a vontade de Deus. Deus tem planos e projetos que ex- trapolam todas as nossas certezas politicas e que, muitas vezes, trans- cendem nosso bom senso e normas de conduta, Apenas para tornar 0 que estou dizendo um pouco mais claro, pense o seguinte: se fossemos julgar a situacdo de Jeremias hoje, ‘sem sabermos que Jeremias era Je. temias e os falsos profetas os falsos profetas, quem seriam, em sua opi- niio, os que estariam falando a Pa- layra de Deus? Obviamente que jul- garmos pela nossa tendéncia sempre nacionalista ¢ poética de certas pers- pectivas libertacionistas que se tor- naram sagradamente inquestioné- veis em nosso meio, que Jeremias seria julgado como traidor e os fal- sos profetas seriam os homens de Deus comprometidos com as causas populares daqueles dias. Esse exem- plo, entre inémeros outros na Eseri- tura, serve para nos mostrar que no hi regras ou frmulas teolégi- cas para serem aplicadas ao siléncio de Deus. Quando Deus nao me fa- lou o melhor que faco é estar calado. Ou ent&o ter coragem de falar ape- nas em meu préprio nome, No silén- cio de Deus ¢ melhor falar como ateu sensato do que como um profe- ta devoto que poe na boca de Deus lindas palavras que Ele nao disse, No siléncio de Deus 0 homem tem total direito a palavra. Mas tal direi- to deve ser exercido em nome do homem. Correndo tal pessoa o risco de ser julgada pela histéria como homem. O problema € quando no siléncio de Deus falamos em nome d'Ele, ainda que digamos o melhor das nossas sistematizagdes teolégi- cas. Nossas generalidades de sabe- doria teolégica nzio podem ser apli- cadas em nome de Deus, da Bfblia, da Igreja ou da f6 & especificidades de situagdes totalmente novas. Em tais casos o melhor a fazer é falar apenas como homem que sonha e ousa ter opiniao, deixando de lado todos os posstveis elementos de vin- culagao entre aquilo que digo e Deus. Mesmo as nossas melhores exegeses da Biblia nao nos ajudam quando nos defrontamos com tais situagdes, Como discernir, por e- 16 — Ultimato xemplo, em nome de Deus ¢ da Biblia, em quem votar nas eleigdes presidenciais? Eu realmente nao sei. Sei como fazer isso em nome do homem, mas tenho muita dificulda- de de sugerir qualquer coisa em nome de Deus, da Igreja ou da fé neste particular. Isso porque a Pala- vra de Deus é tio dinfmica como silo as mudangas reais na sociedade em volta de nds. O que Deus disse a um profeta ontem pode nao ser 0 que Deus diria hoje a mim, apesar de as circunstancias parecerem i- dnticas. E por isso que toda agao politica em nomede Deus — seja de direita, esquerda ou centro — corre sempre 0 risco de ser o resultado de agbes proféticas sem a Palavra de Deus. i Como discernir em nome de Deus e da Biblia em quem votar nas eleicdes presidenciais? Eu realmente nao sei. As Incoeréneias de Deus Desse ponto em diante, Habacu- que passa a confrontar as “incoe- réncias de Deus”. E a afligao filo- séfica basica que o assola éa mesma que o leva a perguntar como um Deus santo pode conviver t2o “pa- cientemente” com o pecado: “Nao és tu desde a eternidade, 6 Senhor meu Deus, 6 meu Santo?... Por que... talera as que procedem perfida- mente, e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?” (1.12,13,) Mais uma vez 0 siléncio de Deus conduz Habacuque a exigir de Deus tespostas préticas na histéria. Afi nal, Deus tem que servir para algu- ma coisa. Desde sempre que se tem em mente a idéia de que a fé tem que ter implicagdes préticas na his- ria. Eu creia que 2 Biblia nos autoriza a crer nisto. No entanto, © problema basico é que nem sem- pre nés estamos dispostos a aceitar as imprevisiveis agdes e instrumen- tos de Deus na histéria. Nés estamos quase sempre condicionados ideolo- gicamente quando tentamos ler nos horizontes da histéria os sinais da ago de Deus. Por isso s6 aceitamos um tipo de sinal de Deus. O sinal que tem congruéncia com a ideolo- Habacuque, um dos dae profeeseseulpidos em pedre-sabte wom tasanho natura por Ants i Francis Lisboa, 0 Aliadinho, por vata de 180s, em Congonhas do Campo, MC gia que nds a priori abragamos. E por isso que mesmo Deus é ideolo- gicamente julgado por nés quando Ele responde. Entao, se a resposta diving nao “bate com nossa opao ideolégica nds preferimos continuar pensando que Deus ainda nio res- pondeu. Ele respondeu, mas Sua tesposta foi ideologicamente censu- rada por nés. Este € 0 caso de Ha- bacuque. Ele faz uma pergunta a Deus. Deus responde. Mas a respos- ta de Deus era inaceitével do ponto de vista ideoldgico, Se nao, vejamos: “Pois eis que suscito os caldeus (0 opressor como instrumento de cura e Ubertaciio do pecado e idolatria) nacao amarga e impetuosa, que marcha pela largura da terra, para apoderarse de ‘moradas no suas {imperialism expan. sionista), Ela é pavorosa e terrivel, cria ela mesma o seu direito ¢ a sua digni- dade... (super-poténeia auto-colocada acima da ética), “Eles todos vém para fazer violéncia lagressor e invasor}: os seus rostas sus- pram por seguir avante (expansions. mo}; eles reiinem os cativos coma areia {exploradores), “Eles escarnecem dos reis, os prin: eipes sao objeto do seu riso; riem-se de todas as fortalezas, porque, amontoan- do terra, as tomam."' (1.5-10,) Ora, é verdade que Deus sempre julga 0 opressor como prometera a Habecuque: “Fazem-se culpados esses, cujo poder é seu deus,” (1.11.) Agosto 1990