Sincronia e diacronia na Sociolinguística

Cesar Augusto de Oliveira Casella Com base em Sociolingüística – Parte I, de Tânia Maria Alkmin (presente em MUSSALIM, F. & BENTES, A. C. [organizadoras]. Introdução à Lingüística: domínios e fronteiras, v. 1. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2008) pode-se mostrar a relação e a funcionalidade da sincronia e da diacronia na área da Sociolinguística. Antes, cabe lembrar que a Sociolinguística é uma área da Linguística que conjugou preocupações formais, próprias do sistema linguístico (fonologia, morfologia, sintaxe), com preocupações contextuais, próprias do sistema social (classe, idade, sexo). Assim, esta área se propõe a “demonstrar a covariação sistemática das variações linguística e social. Ou seja, relacionar as variações linguísticas observáveis em uma comunidade às diferenciações existentes na estrutura social desta mesma sociedade” (BRIGHT 1974, p. 34 apud ALKMIN, 2008, p. 28). O objeto de estudo da área é a diversidade linguística. Um adendo: a comunidade linguística é o ponto de partida para os estudos sociolinguísticos, já que estes se focam no estudo da língua falada, observando-a e analisando-a em seu contexto social, em situações reais de uso. Por isso é importante conceituá-la: a comunidade linguística é “um conjunto de pessoas que interagem verbalmente e que compartilham um conjunto de normas com respeito aos usos linguísticos. (…) uma comunidade de fala se caracteriza não pelo fato de se constituir por pessoas que falam do mesmo modo, mas por indivíduos que se relacionam, por meio de redes comunicativas diversas, e que orientam seu comportamento verbal por um mesmo conjunto de regras” (ALKMIN, 2008, p. 31). Dentro deste contexto de estudo, vemos que toda língua, utilizada por qualquer comunidade, sempre exibe variações. Língua e variação são inseparáveis e a Sociolinguística encara isto como uma qualidade constitutiva do fenômeno linguístico. Uma língua é um conjunto de variedades (ALKMIN, 2008, p. 33). Mas, como estudar este fenômeno, complexo e ramificado? Como a língua varia? Aqui entra a questão da diacronia e da sincronia, neste contexto. Reservou-se, via de regra, o termo mudança linguística para as alterações que ocorrem ao longo do tempo, na diacronia portanto. É o que faz Tânia Alkmin em seu texto. Estas alterações são mais estudadas pela linguística histórica, de longa tradição que remete aos estudos filológicos présaussurianos. No entanto, vale lembrar que muitos sociolinguistas as levam em conta e as colocam no conceito de variação diacrônica. A autora dá exemplos da mudança histórica na língua portuguesa: a). o vocábulo 'homem', no português arcaico, equivalia a uma indeterminação do sujeito: “E pode homem hyr de Santarem a Beia em quatro dias” (DIAS, 1959, p. 22 apud ALKMIN, 2008, p. 34), que equivaleria a “E pode-se ir de Santarém a Beja em quatro dias”; b). o tratamento “Vossa Senhoria”, no século XV, era reservado à realeza e passou a ser usado para toda uma outra gama de autoridades, já no final do século XVI. As alterações que se dão no plano da sincronia são chamadas de variações linguísticas e são relacionáveis a fatores diversos (geografia, idade, gênero, classe social). Tânia Maria Alkmin trabalha com dois parâmetros básicos na sincronia: a variação geográfica (ou diatópica) e a variação social (ou diastrática). A variação diatópica corresponde às diferenças linguísticas distribuídas no espaço físico, observáveis entre indivíduos de origem geográfica distinta. Ela dá como exemplos, entre outros: a). os portugueses dizem “combóio” e os brasileiros “trem”, no plano lexical; b). os portugueses dizem “prémio”, com o 'e' aberto, e os brasileiros “prêmio”, com o 'e' fechado, no plano fonológico; c). os nordestinos dizem “sei não” e os sudestinos dizem “não sei” ou “não sei, não”, no plano sintático; d). os falantes de origem rural, na Bahia, dizem “de primeiro” em lugar de “antigamente”, no plano lexical (ALKMIN, 2008, p. 34-35). Observe-se que os exemplos vão desde o contraste entre paísses até entre áreas dentro de um mesmo estado.

Assim, falando da comunidade de fala de língua portuguesa, como um todo, pode-se referir às variedades brasileira, portuguesa, nordestina, sudestina, rural, urbana, etc. A variação diastrática corresponde às diferenças linguísticas causadas por fatores que tem a ver com a identidade dos falantes e com a organização sociocultural da comunidade de fala. São exemplos: a). no caso da classe social, identifica-se como usos indicativos de grupos situados abaixo na escala social o uso de dupla negação, como em “ninguém não viu” ou “eu nem num gosto” ou a presença de 'r' no lugar de 'l' nos encontros consonantais, como em “brusa”, “grobo” ou “Craudia”; b). no caso da idade, o uso de um léxico particular para denotar uma faixa etária jovem, como “maneiro” ou “galera”; c). no caso do gênero, a duração das vogais em um recurso expressivo, como em “maaaravilhoso”, e o uso frequente de diminutivos são associados às mulheres (ALKMIN, 2008, p. 35-36). Além destes casos, há as alterações provocadas pela situação, isto é, todo falante varia sua fala segundo a situação em que se encontra. Estes, parecem-me, seriam os eixos de uma pesquisa sociolinguística. Estudar as variações linguísticas na diacronia e na sincronia, em seus aspectos estritamente linguísticos e relacionando-as aos fatores sociais que cercam os usos da língua.

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