A CELEBRAÇÃO DOS CICLOS NATURAIS por Jan Duarte Existem inúmeros ritos relacionados com o paganismo, de uma forma

geral, e particularmente com a bruxaria. Muitos deles são bastante pessoais, ou relacionados a tradições específicas mas, de maneira geral, pode-se dizer que toda a ritualística acaba centrando-se na idéia de comemoração dos ciclos naturais. A celebração dos ciclos naturais é certamente uma das formas mais antigas de rito humano. O caráter cíclico da natureza foi reconhecido pela espécie humana há muitos milênios, e a própria sobrevivência da espécie foi relacionada a esses ciclos. Quando dependíamos da caça e da colheita, era vital acompanhar as manadas em seus deslocamentos sazonais, conhecer os momentos propícios para colher os frutos ou armazenar alimento. Depois, com o desenvolvimento da agricultura, o conhecimento desses ciclos passou a ser ainda mais essencial. A idéia de celebrar, de comemorar a passagem dos ciclos naturais, era encarada pelos nossos antepassados como uma verdadeira forma de preservá-los. Na filosofia pagã, o Homem e a Natureza são indissociáveis e, portanto, mutuamente responsáveis pela sua preservação. Celebrar os ciclos, ou os seus vários momentos, era um modo de mostrar à Natureza (e às divindades naturais) a gratidão, de expressar a alegria pelos dons recebidos e, em vários momentos, de devolver à Terra aquilo que por ela era proporcionado. Magicamente, a celebração dos ciclos naturais possuía o caráter retributivo, ou seja: ofertava-se à Natureza o fruto do trabalho, para garantir que este fruto seria sempre colhido. Que o equilíbrio natural se preservaria e o suceder das fases seria contínuo. Cerimônias que reverenciam os ciclos naturais são diversas, e presentes em todas as culturas. Surgem na forma de festivais de plantio e colheita, de festividades de Lua Cheia e de ritos de passagem, que marcam momentos da vida da comunidade e dos seus membros. Mas, seja qual for o caráter específico, a idéia de integração é constante. O indivíduo deve se integrar à comunidade através do rito de passagem, o que garantirá que a última terá sua sobrevivência assegurada pela preservação de seus costumes. E a comunidade se integra à Terra pelo festival sazonal, o que garante a sobrevivência da espécie e da própria Terra. A celebração dos ciclos encerra em si um ciclo. O adulto passa o conhecimento para o jovem, o ancião para o adulto e, no rito final do sepultamento, o conhecimento passa a fazer parte da memória coletiva da tribo, por meio da figura do ancestral. Dentro do neopaganismo, uma das tradições que melhor expressa a idéia do ciclo, mitologicamente, nos foi transmitida pelos povos que habitavam a Europa Ocidental pré-cristã, e está sintetizada na Roda do Ano. Como veremos adiante, embora a Roda do Ano tenha os seus similares em praticamente todo o mundo, foi esse mito em particular que acabou por influenciar toda a ritualística ocidental, ao ser absorvido e sincretizado pela cristandade. A Roda do Ano é basicamente formada por oito celebrações, ou festivais sazonais. Modernamente, esses festivais são chamados de sabás, por influência do trabalho de Gardner e outros, os quais por sua vez se embasaram, na década de 1950, no trabalho de Margaret Murray. Essa, no seu "The Witche's Cult in Western Europe" propôs que os sabás das bruxas, conforme descritos pela Inquisição, eram na realidade os resquícios de uma antiga religião da bruxaria, existente na Europa pré-cristã. Hoje em dia essa teoria é considerada incompleta ou simplesmente errônea, por ter se baseado principalmente em documentos da Inquisição, e assim tomar como verdade fatual confissões obtidas sob tortura. Muitos outros estudos foram feitos, igualmente, que revelaram por Jan Duarte.o real caráter das festividades que constituíam a Roda do Ano, mas o nome "sabá" acabou ganhando notoriedade pra designá-las, por isso continuarei a utilizá-lo, aqui.

Os oito sabás têm duas origens distintas. Quatro deles são celebrações antiquíssimas, que remontam aos tempos em que a humanidade começou a sistematizar suas observações astronômicas, e os outros quatro, se não se pode atribuir a eles a mesma antiguidade, estão diretamente relacionados a antigos ritos celebrados pelos celtas, apesar de aparentemente remontarem ainda a seus antepassados. Paradoxalmente, esses últimos são considerados os Grandes Sabás, ao passo que os outros quatro constituem os Sabás Menores, mas o motivo para isso ficará claro mais adiante. Os quatro Sabás Menores são, portanto, celebrações dos equinócios (os dias do ano em que o dia e a noite têm a mesma duração) e dos solstícios (o dia mais longo e a noite mais longa do ano). Os quatro Grandes Sabás são festas que marcavam a passagem do ano celta, e eram realizadas, aproximadamente, no dia médio entre os equinócios e solstícios. De qualquer forma, a sucessão dos oito sabás e as tradições a eles associadas constituem, em seu conjunto, um mito que passaremos a narrar. Esse mito tem origem européia, e está profundamente ligado às variações sazonais daquele continente (o que discutiremos depois), mas, nesse ponto, o que nos interessa, realmente, é o seu simbolismo, e este é aplicável a qualquer lugar do planeta. O Mito da Roda do Ano O mito da Roda do Ano está centrado nas figuras do Deus e da Deusa. Estes representam os princípios fundamentais da natureza, sendo portanto deuses sem nome, ou deuses com muitos nomes, assumindo, no decorrer da narrativa, diferentes características particulares. Mas, de uma forma geral, Ela é a própria Terra, a mãe dos frutos e das dádivas naturais, enquanto Ele é o Sol, o princípio do qual a vida depende para desenvolver-se. Ela é perene, apesar de mutável, e Ele é antes mutável do que perene. Embora, como o próprio nome diz, a história seja cíclica, não se podendo, portanto, distinguir exatamente um início ou um fim, devemos escolher um ponto de partida. Que este seja, portanto, o final do inverno, quando, segundo o mito, tanto a Deusa quanto o Deus são pueris. A terra começa a livrar-se do peso da longa noite invernal, da estação infrutífera, ao passo que o sol, brilhando timidamente no céu, mal consegue aquecê-la. Nesse momento, tanto a Deusa quanto o Deus são crianças, frágeis como o próprio equilíbrio natural, no início de um novo ciclo. No próximo momento, a primavera instaura-se. O sol começa a ganhar força e calor, permanecendo por mais tempo no céu, ao passo que, na terra, as flores abrem-se, aptas à fecundação e prometendo os frutos que virão. É a estação juvenil e o tempo de fertilidade, onde o Deus e a Deusa são adolescentes, jovens prontos a se conhecerem e cheios do impulso sexual que os atrai e garante a perpetuação da natureza. Tempo de paixões, quando a bela Rainha da Primavera e o fogoso Gamo-Rei se conhecem e se apaixonam. O tempo passa e agora, com a proximidade do verão, as sementes estão plantadas. A terra está prenhe dos filhos do sol, e o casamento entre os dois consumou-se. No ápice do verão temos o sol pleno em sua força, e seu calor nutre e guarda seus filhos, que gestam no ventre da terra. Nesse momento o Deus é o homem maduro, o guerreiro, o provedor e o protetor, enquanto a Deusa é a futura mãe. À plenitude somente pode seguir-se o ocaso e, ao aproximar-se o outono, os dias tornam-se progressivamente mais curtos. As primeiras colheitas acontecem, aquelas que trarão do ventre da Deusa os frutos de consumo imediato, aqueles que alimentarão os homens.nos tempos de bonança. O Deus é o sábio e contido Rei do Azevinho, crescendo em sabedoria conforme sua força física diminui. Estando instalado o outono e aproximando-se o inverno, os dias encurtam-se cada vez mais. O sol brilha, a cada dia, menos tempo no céu, e seu calor diminui. A terra concede aos homens seus últimos frutos, justamente aqueles que possibilitarão a sobrevivência durante a longa noite que se avizinha. No

entanto, o grande mistério revela-se aqui. A criança que gesta no útero da Deusa é o próprio Deus, que conforme perde a sua força à vista dos homens, cresce no ventre da Mãe, assegurando o eterno ciclo de morte e renascimento. E o auge do inverno chega. Debilitada, enfraquecida pela longa gestação, a Deusa recolhe-se às profundezas, preparando-se para parir seu filho divino. A longa noite invernal instaura-se, com a morte do Deus e, quando os dias são os mais curtos do ano, ao ocaso só pode sobrevir um novo início. Assim, a Grande Mãe, recolhida ao seu leito puerperal, dá à luz aquele que virá a ser seu consorte, e o Deus renasce como criação por ele mesmo engendrada. Um novo ciclo começará. O Paralelo Entre o Mito e a Natureza O simbolismo da Roda do Ano, adotado como o mito central da Wicca, mas na realidade encontrável, com variações, em basicamente todas as sociedades agrícolas primitivas, espelha exatamente o que se verifica no decorrer de um ano, observando-se o suceder das estações. No gráfico a seguir, a linha representa a variação da duração do dia, em horas, levando em conta o tempo decorrido do nascer ao pôr do sol, ao longo de um ano, na cidade de Dublin, na Irlanda. Utilizei os dados dessa cidade por dois motivos principais: o mito da Roda do Ano, na forma como o descrevemos, foi desenvolvido pelos povos que habitavam o noroeste da Europa, ou seja, na latitude média dessa cidade. Essa latitude, bastante setentrional, possibilita marcantes diferenças no tempo de duração dos dias e na passagem das estações. O outro motivo é que a Irlanda e a Inglaterra, com seus megalitos e sua mitologia, estão profundamente ligadas ao desenvolvimento e sistematização da bruxaria moderna. As datas consignadas no gráfico são as datas tradicionais de realização dos Sabás, no hemisfério norte, sendo que as datas dos equinócios e solstícios, que são variam ligeiramente de ano para ano, foram consideradas para o ano 2001.

Observando o gráfico, vê-se que a história da Deusa e do Deus está aí claramente espelhada. Enquanto no solstício de inverno, ocasião do renascimento do Deus, temos apenas 7 horas e meia de luz solar durante o dia, no solstício de verão, ápice de sua força e majestade, temos 17 horas! Essa diferença marcante no tempo de duração dos dias ao longo do ano explica sem maiores comentários o motivo do mito ter se desenvolvido naquela região. Na realidade, se olharmos a curva do gráfico, poderíamos igualmente dizer que ela representa o desenvolvimento da força física e da capacidade de trabalho (falamos aqui em trabalho físico) de um homem, ao longo da sua vida. Portanto, o paralelo entre o nascimento, amadurecimento, envelhecimento e decrepitude de um deus solar está convenientemente mostrado. Já em países como o Brasil, situados em latitudes mais baixas, na região tropical, esta diferença na duração do dia não é tão marcante, assim como também não há uma diferenciação profunda entre as estações do ano, embora tanto um como outro fator sejam ainda sensíveis. Vejamos novamente o gráfico, agora considerando os horários de nascer e pôr do sol para Brasília:

Antes de mais nada, é importante reparar que, embora as datas de realização dos sabás tenham se mantido como pontos fixos no gráfico, elas agora representam o inverso do que representavam no gráfico anterior. O motivo disso, é claro, é o fato da inversão das estações no hemisfério sul, em relação ao hemisfério norte. Quando aqui é verão, lá é inverno, e vice-versa. O nosso dia mais longo do ano (solstício de verão) corresponde ao dia mais curto do ano no hemisfério norte (solstício de inverno). Estou frisando esse ponto agora, pois isso será fundamental mais tarde.

No entanto, o que se vê nos gráficos acima é que, independente da localização geográfica, o ciclo de nascimento, crescimento, decadência, morte e renascimento da natureza, repetindo-se a cada ano, segue o mesmo padrão. As datas dos Pequenos Sabás, situadas nos equinócios e solstícios, marcam justamente os momentos de ápice de cada estação do ano, ao passo que as datas dos Grandes Sabás, marcam os momentos iniciais de cada estação. Digo isso pois, apesar do costume ter estabelecido os solstícios e equinócios como o início de cada uma das estações do ano, o que se verifica na prática é diverso. Esses momentos são na realidade o ponto alto de cada estação. Assim, por exemplo, quando chegamos ao solstício de inverno, que é considerado o início dessa estação no calendário usual, atingimos os dias mais frios do ano (teoricamente) e os mais curtos, mas o processo de resfriamento e encurtamento dos dias já se iniciou antes, está apenas se completando. A tendência, dali por diante, é o crescimento da duração dos dias e o progressivo aquecimento, até que os dias e noites tenham a mesma duração, o que será o ápice da próxima estação, a primavera. Colocando datas no que acabei de dizer, para uma compreensão melhor, teríamos o seguinte: observando o primeiro gráfico, veremos que, no hemisfério norte, o período mais quente do ano e com os dias mais longos, estende-se de 1º de maio até 1º de agosto, tendo o seu auge no ponto médio desses dias, o solstício de verão, por volta de 20 de junho. O período temperado a seguir, o outono, vai de 1º de agosto até 31 de outubro. Por ser um período temperado, seu auge é justamente quando os dias e noites têm igual duração, ou seja, no equinócio, por volta de 20 de setembro. A partir de 31 de outubro o esfriamento passa a ser cada vez maior, estendendo-se o período frio (inverno) até o início de fevereiro e tendo seu auge novamente no solstício, por volta de 21 de dezembro. O que acabei de explicar está demonstrado na figura a seguir. Nessa figura, as setas partindo do centro representam a duração dos dias. Vê-se, portanto, que os quatro Grandes Sabás (Imbolc, Beltane, Lammas e Samhain) marcam exatamente o início de cada período do ano, de forma bem mais precisa do que os equinócios e solstícios (Pequenos Sabás), que representam, na realidade, o ápice de cada uma das estações.

Os povos do norte, que desenvolveram esse simbolismo, contavam o ano de forma diversa da atual. Na realidade, para os celtas, o ano novo era comemorado justamente no 31 de outubro (Samhaim). Eis o motivo pelo qual aquelas festividades que não se baseiam nas datas dos equinócios e solstícios (o que parece incoerente segundo o nosso próprio calendário), são consideradas os sabás principais. Mais adiante, voltaremos a tocar nesse aspecto astronômico-sazonal das celebrações. Mas, agora, farei agora uma breve descrição da simbologia dos oito sabás, da sua relação com a história da Roda do Ano e de sua associação com o calendário civil, em especial na forma de datas sincretizadas ou absorvidas pelas festividades cristãs. Yule, o Solstício de Inverno O sabá comemorado na noite mais longa do ano é o sabá do renascimento. É interessante reparar que essa época do ano, para inúmeras religiões, está associada ao nascimento de seu Deus, de alguma forma. A verdade é que a associação do renascimento à noite mais longa do ano é bastante natural, posto que ela é o ápice da estação fria e, a partir daí, os dias começarão a alongarse e a natureza progressivamente se revitalizará. No hemisfério norte, o solstício de inverno ocorre próximo ao Natal cristão. Essa data, em especial, foi uma das mais sincretizadas pela cristandade, podendo mesmo ser afirmado que a "data de nascimento" de Jesus foi convencionada para se

ajustar ao solstício. Basicamente origem pagã e refletem justamente vivos ao longo do inverno, ou que temos o pinheiro, que se conserva nozes e outros alimentos bastante

todos os símbolos associados ao Natal têm aqueles elementos naturais que permanecem mantém os homens durante esse período. Assim, verde durante o inverno, e as frutas secas, as calóricos e de fácil conservação.

A celebração do Yule pode parecer dúbia, por se situar numa época do ano que incita ao recolhimento, principalmente nos lugares de clima mais frio, e ser a alegre celebração do nascimento do Deus. No entanto, deve-se ter em mente que ela é o início de uma fase de recuperação e crescimento, e é justamente isso que se saúda. Um antigo costume reza que as cinzas da fogueira acesa na noite do Yule devem ser espalhadas pelos campos, o que nos traz justamente o espírito desse sabá. O calor, simbolizado pela fogueira, está preste a retornar e, ao espalhar as cinzas dessa fogueira, a idéia é que o sol venha fertilizar a terra, na primavera vindoura. Imbolc Como vimos, os solstícios e equinócios marcam o auge das estações, apesar de serem atualmente considerados como o início destas. Assim, o sabá Imbolc comemora a chegada da primavera e o final do inverno. Temos ainda as noites mais longas que os dias, mas o ciclo de aquecimento, a metade clara do ano, já começou. O Imbolc é o festival do fogo, representando o Deus que começa a crescer e, com o seu calor, prepara a fertilidade da terra. Entre os Celtas, comemorava-se a Deusa Brigid,divindade do fogo, com procissões onde os participantes portavam tochas. Tradicionalmente, também, fazia-se (e faz-se) a limpeza ritual dos locais de culto, simbolizando que as reminiscências negativas do ciclo anterior deviam ser apagadas, para que um novo ciclo de vida instale-se. Em relação a este sabá, várias considerações interessantes podem ser feitas. Da deusa Brigid diz-se que teria nascido exatamente ao nascer do sol, e uma grande torre de chamas teria se elevado aos céus do topo de sua cabeça. Diz-se também que sua respiração traria nova vida para os mortos. Eis aqui claras alusões ao retorno do sol, após o inverno. É interessante também notar que aproximadamente nesta data os Astecas celebravam o seu anonovo, onde vemos mais uma alusão a um período de reinícios. A alegria pelo final do inverno também transparecia nas Lupercalia romanas, que vieram depois dar origem ao Carnaval. Comemorado no hemisfério norte a 2 de fevereiro, essa data ficou marcada para a cristandade como a purificação de Maria - a idéia da limpeza ritual - e como a apresentação.de Jesus no Templo - a idéia do Deus que deixa a infância - em mais uma tradução cristã dos ritos pagãos. Ostara, o Equinócio de Primavera O sabá do equinócio de primavera tem o seu nome derivado da Deusa Eostre, deusa saxônica da fertilidade, cujos símbolos eram o ovo e o coelho. É portanto, um festival de fertilidade, um festival de plantio, onde se pediam as bênçãos para a germinação das sementes recém-plantadas. Pela tradição da Roda do Ano, poderia-se dizer que em Ostara anula-se de vez a imagem da Deusa como mãe e do Deus como filho. A face de mãe ou de anciã da Deusa, que prevalecia até aqui, é substituída pela face da donzela, pronta a assumir seus atributos sexuais, como a própria terra a ser semeada. O Deus por sua vez, encontra-se aqui na figura do jovem vigoroso, apesar de ainda não apresentar a plena força e maturidade. A duração igual de dias e noites, alcançada neste sabá, é mais uma noção a ser levada em conta, visto que pode ser tida como o próprio equilíbrio da natureza se restabelecendo. A partir daqui o

Sol e a Terra caminharão juntos, como casal divino. O simbolismo do ovo e do coelho, citado, foi assimilado pelos cristãos na festa da Páscoa, perdendo parte do seu significado original. Convém lembrar, no entanto, que os cristãos celebram nesta época a ressurreição de Jesus, e que a lebre é um antigo símbolo de ressurreição. Da mesma forma, diz-se que Jesus morreu como Filho, tendo ressuscitado como Deus - o que tem um inegável paralelo com a situação descrita para o Deus pagão, que nesta época deixa de ser o filho divino da Deusa e torna-se seu futuro deus-consorte. Este sabá e o próximo são dos poucos que preservaram, no hemisfério sul, comemorações independentes das datas estabelecidas no hemisfério norte, fora do meio pagão. O equinócio de primavera, aqui, acontece em setembro, e existem inúmeras comemorações no Brasil nessa época que, de uma forma ou de outra, remetem a antigos ritos pagãos, como o próprio costume de eleger-se nas escolas uma Rainha da Primavera. Beltane Beltane representa a transição entre a primavera e o verão e simboliza a consumação da união sexual entre a Deusa e o Deus. Poderia-se mesmo dizer que o verão, estação da frutificação, começa a manifestar-se aqui, para atingir o seu ápice no próximo solstício. Toda a simbologia do Beltane tem, inegavelmente, um cunho sexual. Enquanto em Ostara a fertilidade era apenas palpável e desejada, aqui ela se transforma em ato, representando que o calor do sol penetrou na terra para nela engendrar seus frutos (plantio). Embora diversos costumes da celebração de Beltane tenham subsistido e sido assimilados pelo ocidente cristão, estranhamente as celebrações típicas de Beltane, que ocorrem em 1º de maio no hemisfério norte, foram empurradas pela cristandade para o mês seguinte, dando origem às festas juninas. As fogueiras de Beltane subsistiram nessas festas, bem como o costume de pulá-las. Os Maypoles, em torno dos quais dançava-se, tornaram-se os mastros dos santos católicos. Mesmo a adivinhação, que costumava ser praticada nesse festival, manteve-se na tradição popular, pois é comum acreditar-se que as moças solteiras, nas noites de festa dos santos "casamenteiros", poderão visionar seus "futuros maridos". Talvez esse deslocamento da data para o mês seguinte tenha origem na tradição celta que proibia casamentos no mês de maio, por ser este consagrado unicamente ao casamento da Deusa e do Deus. Dessa forma, nada mais natural que o mês seguinte fosse dedicado aos casamentos e, posteriormente, aos santos casamenteiros. Por outro lado, a celebração do.casamento divino ficou indelevelmente marcado, pois paradoxalmente hoje maio é considerado o Mês das Noivas pelos cristãos, e o mês dedicado a Maria (a esposa-divina). Outro aspecto interessante a ser lembrado é que o 1º de maio é, hoje, comemorado internacionalmente como o Dia do Trabalho. Lembrando-se que o Beltane era um festival de plantio, a associação entre agricultura e trabalho é bastante notável, visto ter sido esta atividade um dos primeiros trabalhos organizados do homem. Litha, o Solstício de Verão O dia mais longo do ano marca o auge do poderio do sol. Em Litha, o Deus atinge a maturidade e prenuncia o seu declínio, ao passo que a Deusa, grávida, assume a face da futura mãe. Como no solstício de inverno, o solstício de verão marca uma pausa, um momento de repouso entre as duas metades da Roda do Ano. Aqui, o período não é o repouso forçado pelo inverno, mas sim o repouso prazeroso do verão, o intervalo entre o plantio e a colheita. É de se notar que até hoje, se considerarmos os calendários escolares, teremos férias justamente nesses dois

períodos (auge do inverno e auge do verão). Segundo uma das tradições ligadas ao solstício de verão, esse seria o momento em que o Rei do Carvalho, aspecto do Deus que reinou durante a primeira metade do ano (a fase de crescimento, ou seja, do nascimento à maturidade), seria derrotado e substituído pelo Rei do Azevinho, que governará a outra metade (da maturidade à morte). Há aqui um interessante sincretismo, apontado por Robert Graves, conforme citado por Stewart Farrar em A Witches' Bible. Ocorrendo sempre em torno de 20 de junho, no hemisfério norte, a data deste sabá praticamente coincide com o Dia de São João Batista. É interessante notar que, segundo a mitologia cristã, João Batista, o feroz pregador, foi substituído em sua missão por "aquele que veio depois dele", ou seja, o sábio e manso Jesus. Eis aqui, portanto, assimilada pelos cristãos a derrota do impetuoso Rei do Carvalho pelo sábio Rei do Azevinho. Lammas O Lammas é o sabá que comemora a chegada das primeiras colheitas, juntamente com o outono. Marca, portanto, a chegada dos primeiros frutos da Mãe-Terra que alimentarão os homens, bem como a transição do Deus-Sol para o papel de protetor e provedor. Convém lembrar que o termo Lammas já é um nome um tanto moderno (e mesmo cristianizado) para esse sabá, motivo pelo qual eu diria que ele foi antes absorvido do que anulado, mantendo-se vivo entre a cristandade na forma de inúmeros festivais de colheita, em todo o mundo ocidental. Na antiguidade pré-cristã, porém, era conhecido e celebrado como Lughnasadh. Este festival era dedicado ao deus Lugh, deus guerreiro associado ao sol, que teria tido importância decisiva na vitória dos Thuatha De Dannan sobre os Fomorianos (duas tribos míticas que haveriam povoado a Irlanda). Uma das lendas associadas a Lugh conta que ele teria poupado a vida do chefe inimigo Bres, em troca do segredo de arar a terra, semear e colher. Eis aqui, portanto, uma referência direta à agricultura neste festival, mesmo em sua forma mais ancestral. Uma outra tradição ligada ao Lammas era o costume de se atear fogo a uma roda de madeira e fazê-la rolar colina abaixo. Essa prática representava a descida do sol, o encurtamento progressivo dos dias, significando que o Deus entrava em sua fase de decadência. Mabon, o Equinócio de Outono O Mabon é o festival da segunda colheita, ou ainda do encerramento da colheita iniciada em Lammas. Aqui se colhiam os alimentos que garantiam o sustento durante o inverno, bem como se sacrificavam aqueles animais domésticos que não resistiriam à próxima estação, consumindo-se ou conservando a sua carne. De uma forma geral, pode-se dizer que, apesar da aproximação do tempo de privação, o Mabon seria o momento de maior fartura de todo o ano, estando as colheitas completas e o alimento estocado. Dessa forma, a celebração do Mabon resulta num agradecimento pelas dádivas proporcionadas pela Deusa e pelo Deus no decorrer do ano. No Mabon, temos novamente o equilíbrio entre o dia e a noite, significando aqui que ambos os aspectos entram em sua fase final. O Deus encaminha-se para a morte próxima, enquanto a Deusa assume seu aspecto de anciã, preparando-se para a jornada no mundo interior, onde passará o inverno aguardando o nascimento de seu filho. Apesar da origem do nome do sabá ser celta, o folclore do Mabon remete à lenda grega de Perséfone, que conta que esta deusa passava metade do ano proporcionando a fertilidade dos campos e outra metade do ano no Hades (mundo interior) em companhia de seu marido. A época do equinócio de outono era justamente o início do período do ano em que ela morava no submundo. Na Grécia, nessa época, eram celebrados os Ritos de Elêusis, talvez o mais importante

festival religioso grego, que perdurou por mais de 2000 anos. Na cristandade, essa data é dedicada ao arcanjo Miguel, considerado pelos cristãos o vencedor de Lúcifer. É interessante notar que uma das lendas celtas associadas ao Mabon contava que, no equinócio de outono, o deus Lugh (o sol, a luz) era derrotado por seu irmão gêmeo, o deus da escuridão Tanist. De uma maneira ou de outra, surge aqui a idéia da noite sobrepondo-se ao dia. Samhain Considerado o sabá mais importante, o Samhain, mais tarde conhecido como Halloween, marcava o final do ano celta. Num aspecto puramente prático, isto significaria que as colheitas estavam encerradas, os animais domésticos guardados em seus abrigos de inverno, e as provisões estocadas. No aspecto místico, no entanto, esta data é carregada de significações. Apesar do Samhain ser celebrado como o final do ano, muitos povos antigos não comemoravam o início de um novo ano até o próximo Yule, considerando esse período entre os dois sabás como sendo um tempo fora do tempo, um período de suspensão da vida, repleto de magia e de perigos. A relação com os perigos do inverno, com o recolhimento exigido nos países de clima frio nessa estação, com a duração das longas noites invernais, é patente. O próprio nome gaélico significa, literalmente, "fim do verão", evocando o final dos dias de calor. O momento de maior fartura relativa, em todo o ano, marcava igualmente o momento de maior comedimento, já que os estoques deveriam durar até a próxima primavera. Na noite de Samhain, considerava-se que o véu entre os mundos estaria em seu momento mais tênue, possibilitando a comunicação com os antepassados. Lanternas eram acesas e colocadas nas janelas, para guiar os que já partiram até suas antigas casas. As mesas eram postas com lugares extras para os antepassados, comida era ofertada. A própria celebração do sabá tem a característica de ser um misto de pesar pela morte e alegria pelo renascimento vindouro - refletindo o que seria o momento da morte do Deus solar e do auto-exílio da Deusa no submundo, aguardando o seu retorno. Essa dualidade do Samhain nos fala justamente do tema central da Roda do Ano, da revelação do mais profundo dos mistérios. O momento da morte do Deus é o momento do.conhecimento que ele gera a si mesmo, pois é ele a criança que gesta no útero da Deusa e nascerá no Yule. O simbolismo da perpetuação da vida, da cadeia circular que se auto-sustenta, da natureza que é inextinguível pois está continuamente gerando a si própria, se expressa aqui tanto no plano divino quanto no plano humano. Somos eternos pois aqueles que partiram continuam vivos em sua descendência, e poder-se-ia dizer que o encontro com nossos antepassados é o próprio encontro com nossos filhos. Ecos desse festival estão ainda bastante presentes no imaginário popular. O Dia das Bruxas, o Halloween, tão tradicional nos países de língua inglesa, mostranos isso na forma de crianças fantasiadas de seres fantásticos - fantasmas - o que seria uma forma distorcida de se interpretar os antepassados mortos e mesmo, como dissemos acima, de representar as crianças como continuadoras da presença dos que se foram. A tradição cristã associou à data tanto o Dia de Todos os Santos (01/10) quanto o Dia de Finados (02/10). Pode se ver nas duas celebrações cristãs o culto aos antepassados, tanto na forma de "santos" quanto na forma direta.

O Espírito dos Sabás - Uma Visão Agrupadora Independentemente das tradições particulares e das lendas associadas a cada um dos sabás, há o costume de dividir-se essas datas em O Tempo do Grande Sol e O

Tempo do Pequeno Sol, referindo-se justamente aos períodos quentes e frios do ano. No entanto pode-se reparar que, mais do que representarem duas fases apenas, os sabás apresentam quatro temáticas dominantes, correspondendo às quatro estações do ano, e aquelas festas que se encontram no início e no ápice de cada estação possuem características comuns. Isso está esquematizado no gráfico a seguir:

Dessa forma, os sabás que marcam o início e o ápice da primavera, na perspectiva sazonal que utilizamos e não na convencional (Imbolc e Ostara), retratam o frescor, a fragilidade e a paixão característicos da infância e da adolescência, sendo ritos dirigidos à fertilidade e à esperança de fartura no ano que se inicia. Beltane e Litha, os sabás do verão, têm, ambos, a temática da sexualidade, do ato de fecundar, do casamento. A força da juventude, a semeadura, a união dos opostos, formam a tônica desses rituais. Os sabás do outono - Lammas e Mabon já têm como temática os aspectos relacionados à maturidade e, por serem festas de colheita, ao agradecimento pelos frutos da terra e, por extensão, aos resultados obtidos pelo trabalho. A idéia de gestação, de perpetuação, é bem vívida em ambos. A temática do Samhain e do Yule, os sabás do inverno, também se aproxima. Ambos tratam da morte e do renascimento e a tônica aqui, é o recolhimento. A alegria é uma espécie de contraponto nos dois sabás, visto que o que aqui se festeja não é a plenitude em si, mas sim a certeza que ela virá após o momento atual. Outra coisa que se torna patente ao observar o suceder dos sabás sob essa ótica, é que conforme o ano caminha, tais celebrações deixam de ser centradas no indivíduo e passam a ser centradas na família, no grupo, ou no clã. Poderíamos aqui traçar um paralelo com o desenvolvimento do ser humano. Crianças novas não são naturalmente gregárias mas, conforme vão crescendo, progressivamente adquirem a noção do outro, se tornam cada vez mais inseridas dentro de relações interpessoais e, finalmente, ao atingir a idade adulta, buscam os relacionamentos de integração que constituem os núcleos familiares. Assim, os quatro primeiros sabás, aqueles da fase de crescimento do sol, são basicamente voltados a sentimentos individuais, ao passo que os quatro últimos, os da fase de declínio do sol, são voltados a sentimentos familiares e coletivos. Fazendo algumas associações místicas, o Imbolc, dessa forma, pela sua característica de início, poderia ser associado ao processo solitário das iniciações, ao simbolismo do arcano I do Tarô (O Mago), ao impulso do ego e do fogo interior relacionado ao signo de Áries. Da mesma forma, o Yule traduz a coletividade, o simbolismo do arcano XXI (O Mundo), o sentido de união ao grupo, da junção de múltiplas gotas em um oceano dos signos de Aquário e Peixes, ou mesmo da dissolução da individualidade, representada pela morte.

Anexo: A Celebração dos Sabás -Hemisfério Norte ou Hemisfério Sul? Ao apresentar o simbolismo de cada um dos sabás, por diversas vezes eu me referi às datas em que estes são celebrados no hemisfério norte. Houve uma razão específica para isso, que foi demonstrar de que forma estas datas foram assimiladas por nossa cultura e como elas se transformaram ou vieram a dar origem a festividades cristãs, já que a cristandade também se desenvolveu no hemisfério norte. No entanto, surge aqui uma polêmica. Quando apresentamos os primeiros gráficos, falamos na inversão das estações do ano entre os dois hemisférios da Terra. Em

termos rituais, isso significa que enquanto no hemisfério sul temos a fase do ano de crescimento e amadurecimento do Deus (conforme os dias se alongam), no hemisfério norte o contrário se dá: os dias se encurtam e temos a fase de decadência e morte do Deus. Exemplificando: enquanto no hemisfério sul temos o solstício de verão, o dia mais longo do ano, no hemisfério norte, na mesma data, é o solstício de inverno e a noite mais longa do ano. Enquanto aqui, segundo o mito, o Deus está na plenitude de suas forças e a Deusa está grávida, lá o Deus acabou de nascer. Seria portanto coerente comemorar o mesmo sabá aqui e lá? As opiniões se dividem. Temos aqueles que pregam a adoção de um calendário único, seguindo o ritmo das estações do hemisfério norte; temos aqueles que defendem a realização de cerimônias mistas, onde ambos os aspectos sejam lembrados; e temos aqueles que afirmam que deverá ser adotada a celebração dos sabás de acordo com o ritmo sazonal da região onde se vive. Os defensores da padronização pelo hemisfério norte alegam que as raízes da bruxaria foram estabelecidas naquele hemisfério, que o simbolismo utilizado nos sabás refere-se à vegetação e aos animais típicos dos países do norte e, ainda, que os sabás vêm sendo comemorados há milhares de anos naqueles lugares, o que fixaria a energia destas datas na forma que elas lá se apresentam. Citam ainda o fato que o ano civil e suas comemorações estão historicamente atrelados, como vimos, às datas do hemisfério norte. Aqueles que defendem a celebração de sabás híbridos, misturando elementos do hemisfério norte e do hemisfério sul para cada data, a meu ver, procuram apenas uma espécie de "acomodação política". Estes normalmente argumentam que, em países como o Brasil, a diferença entre as estações do ano não é nitidamente marcada como na Europa, ocorrendo coisas como dias de sol e calor em pleno inverno. Particularmente, não concordo com uma posição nem com a outra. Atrelar as datas dos sabás ao hemisfério norte me parece contradizer o próprio espírito destas comemorações. Se o que buscamos é a sintonia com a natureza, como poderemos desprezar o que se passa à nossa volta e nos conectarmos com o que ocorre em outra parte do planeta? O argumento que tais cerimônias teriam se originado na Europa me lembra, por exemplo, as missas rezadas em latim. O que é mais importante? A compreensão e a sintonia com os elementos da celebração ou a tradição? O simbolismo típico do hemisfério norte, na forma de árvores, frutos, cereais e animais típicos daquela região me parece apenas falta de imaginação e, mais uma vez, tradicionalismo inócuo. Da mesma forma que lá, temos aqui inúmeras espécies nativas que bem simbolizam cada época do ano, basta querer aproveitá-las. Nunca é demais lembrar que o que celebramos é a natureza e que o Deus e a Deusa não são ilustres cidadãos europeus, mas sim a própria representação da natureza. Logo, olhemos à nossa volta para buscá-los e não para milhares de quilômetros de distância..Argumentos baseados no ano civil caem no mesmo vazio. Dizer que seria estranho, por exemplo, celebrar o nascimento do Deus em junho, como se isso fosse uma espécie de Natal fora de época, apenas me faz pensar num demasiado apego a tradições cristãs. O Yule não é o Natal, e isso deve ficar bem claro. O Natal é uma festa cristã que, no hemisfério norte, ocorre na mesma época do Yule e, por ter sido criada a partir de símbolos pagãos (como explicamos) tem basicamente a mesma simbologia. A adoção de uma religião pagã não significa o combate ou o desrespeito aos preceitos do cristianismo, mas significa, de uma forma ou de outra, a necessidade de rompimento com estes. O mundo cristão comemora o ano-novo em dezembro, por exemplo, mas chineses, judeus e outros povos não o fazem. Além disso, poder-se-ia perguntar aos defensores da egrégora, do estado de espírito característico a cada celebração, se estes se sentem dispostos ao recolhimento em seus lares em pleno verão! Ou se acham interessante comemorar alegremente o calor do verão, a fertilidade, tremendo de frio num Litha numa noite de junho...

Basear-se na pouca diferenciação entre as estações do ano é prender-se a apenas um aspecto da Roda do Ano, justamente aquele que é ligado ao efeito e não à causa. Os efeitos são verificáveis no corpo da Deusa (a terra), mas são causados pelo Deus (o sol). Ou seja: além de tal diferenciação variar grandemente de acordo com a localidade que se leva em conta, ainda há o inegável fato que a variação da duração dos dias, por menor que seja, existe e segue o padrão que expusemos. O dia mais curto do ano, no hemisfério sul, dá-se em junho e não em dezembro. Portanto, não vejo outra alternativa mais correta, quando se opta por seguir as celebrações da Roda do Ano, do que fazê-lo da maneira que ela se apresenta no local onde vivemos. O próprio fundamento do paganismo é o contato, a interação com a natureza. As bases da crença nos dizem que fazemos parte da Natureza e somos responsáveis pela sua manutenção e pela sua eterna recriação. De que forma poderemos nos sentir assim se, logo de princípio, nos apartamos do momento atravessado pela natureza que nos cerca, ignorando as estações do ano em nosso próprio local de moradia? Da mesma forma, entendo que a celebração dos sabás deverá, na medida do possível, utilizar elementos que estejam presentes no nosso cotidiano, que simbolizem o momento da Roda do Ano como ele se apresenta onde vivemos. Por mais eficiente que um símbolo possa ser em sua região de origem, ele não terá necessariamente a mesma eficiência em outras regiões. Que significado poderia ter um pinheiro, como símbolo da permanência da vida durante o inverno, para um nativo de uma ilha do pacífico, que nunca viu um pinheiro?... É preciso ter em mente que a utilização de um determinado símbolo, seja ele um fruto, um grão ou um animal, tem um significado próprio dentro de uma celebração. Cabe a nós representar esse significado de uma forma que seja por nós compreendida, não apenas repetir o que nos foi apresentado por uma tradição, senão estaremos apenas repetindo velhas fórmulas e insistindo em criar dogmas. Retirado de: www.mitoemagia.hpg.com.br

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