TESTEMUNHOS HISTÓRICOS DAS PROFECIAS DE DANIEL

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ARACELI S. MELLO ____

TESTEMUNHOS HISTÓRICOS
DAS

PROFECIAS DE DANIEL

RIO DE JANEIRO 1968

PALAVRA DO AUTOR

Em 1959 veio à luz o meu primeiro exaustivo trabalho: — A Verdade Sobre as Profecias do Apocalipse. Como, porém, há certa afinidade entre as profecias do Apocalipse e as de Daniel, meu anélo foi escrever uma segunda obra — A Verdade Sobre as Profecias de Daniel. Tanto as profecias de Daniel como as do Apocalipse — constituem uma síntese profética antecipada de acontecimentos internacionais — civis e eclesiásticos — pelo que ambos os dois livros só poderão ser satisfatoriamente explanados por uma ampla documentação histórica evidente. É grave delito contra o divino Revelador fazer uma diminuta exposição de suas grandes e solenes profecias, deixando assim o leitor e investigador sem o devido esclarecimento. Ninguém acatará e aceitará como vinda de Deus uma mensagem mal esclarecida, mal documentada e portanto mal interpretada. A verdade celestial deve ser apresentada com inconfundível clareza. Quem crerá numa simples epítome sobre os tão importantes livros de Daniel e do Apocalipse? Já o rabujento preconceito dos declarados incrédulos e dos infiéis cristãos — exige que se dê a estes livros uma explanação coerente, ampla e convincente, em vez duma apreciação ridícula para ser recusada com manifesto desinteresse. Foi para salvaguardar a sua responsabilidade diante de Deus de não pôr nas mãos do público uma obra desonesta, mesquinha e ambígua, que desinteressasse em vez de interessar o leitor ou pesquizador da verdade, deixando-o por isso mesmo longe de Deus como antes, — que o autor em sua exposição das profecias de Daniel deu amplitude de explanação fazendo com que a luz das profecias brilhasse com intensidade e o esclarecesse arrebatando-o das trevas da incerteza para o meridiano sol da Revelação de Deus e o abençoasse ricamente. Cada pormenor das profecias de Daniel foi esclarecido à luz dos fatos verídicos que os cumpriram em cheio. Em nenhum caso usou o autor de subterfúgios e mistificações para evadir-se à realidade do verdadeiro significado da Revelação. Sôbre impérios e indivíduos

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alvos das profecias de Deus que no passado existiram e que, portanto, já cumpriram o seu papel no palco da História e da profecia, foi o autor desta obra claro e imparcial. Sôbre os poderes civis e eclesiásticos que atualmente desempenha de igual modo o seu papel histórico-profético no palco da hodierna civilização, foi êle também imparcial, sem rodeios, sem paixão e sem sacrificar a verdade em suas considerações. Certamente haverá aqueles que se oporão a determinadas explanações dadas pelo autor sôbre as profecias de Daniel. A êstes dizemos que têm todo o direito de o fazer. Porém, antes de tomarem uma medida drástica, será prudente examinar bem o ponto de oposição que formularem para estarem seguros ou não do passo que pretendem dar; que sejam ponderados e coerentes; que reflitam somente para poderem apreciar maduramente aquilo que pareça chocar-lhes as velhas idéias próprias e metê-los num imaginário cáos, em face duma interpretação desconhecida e aparentemente controvertida; que não fiquem desrazoavelmente desorientados e a trovejar sôbre o autor, mas que sejam indulgentes para com êle que, como êles, tem também o direito de pensar. Nada melhor e mais acertado do que examinar aquilo que se desconhece. A luz nasce do acurado exame. É êste o meu anélo a todos quantos entrarem em contato com este livro. Confrontem êles detidamente a profecia e a sua explanação dada à luz do comprovante histórico justaposto; se algo estiver comprovadamente incorreto, serei bastante humilde para dar a mão à palmatória e receber a inexorável condenação como justa. Urge, todavia, uma investigação com perícia, desapaixonada e desacompanhada de fatais preconceitos injustos e prejudiciais. Na interpretação das profecias de Daniel como nas do Apocalipse, não empreguei métodos humanos preconcebidos e destituídos de crédito e de senso que se denotam em tantas obras congêneres. A ninguém consultei sôbre como devia ou não interpretar as profecias do grande livro. Tão pouco segui a linha de interpretação de quaisquer intérpretes antigos ou modernos. Nem mesmo levei em conta meus próprios conceitos ao dar o cunho interpretativo que dei. Se em tão magna obra seguisse qualquer orientação humana, mesmo minha, teria sido desleal à Revelação e ao Revelador; teria ofendido a santa verdade e sido por demais imprudente ao tratar com tão grande mensagem inspirada. Tive mêdo de violar a Palavra de Deus que declara: “Sabendo primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular 8

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interpretação.1 Portanto, creio ter seguido o rumo de interpretação orientado pela lógica e pelas Sagradas Escrituras, que é aquela dada pela própria História, dos fatos que sucederam e cumpriram com irrecusável exatidão as profecias. Sim, somente a História que cumpre as profecias é o seu verdadeiro, único e legítimo intérprete. Creio, assim, não ter sido desleal à acertada lógica de interpretação profética — que é a união evidente da profecia e dos fatos históricos seus intérpretes, pois não me arrisquei ao infalível desagrado do Revelador do tão maravilhoso livro de Daniel. Findando, imploro ao Creador, o Grande Autor da Revelação, que derrame suas copiosas bênçãos a todos quantos lerem e estudarem êste livro; que os ilumine ao considerarem as suas grandes profecias, para que eles possam fruir o máximo para a vida vitoriosa do presente; nêle encontrar a senda real que conduz a um futuro glorioso e a uma eternidade feliz. Que os próprios ateus e críticos mais acérrimos possam ser amplamente abençoados ao examinarem este livro.

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II S. Pedro 1:20.

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PREFÁCIO

É com a mais viva emoção que abrimos ao estudo a grande obra sacra inspirada — o livro de Daniel. É verdadeiramente um privilégio todo especial estudar o grande livro e conhecer profundamente o seu maravilhoso conteúdo histórico e profético. Comparamos a notável obra à “sarsa ardente” do deserto do Sinai na experiência de Moisés. Um santo fogo abrazador envolvia a memóravel sarsa sem consumíla. A Moisés, que dela se aproximava curioso pelo inédito espetáculo e para observá-lo de perto, foi incontinentemente ordenado a deter-se e solenemente advertido: “Moisés, Moisés... não te chegues para cá; tira os sapatos de teus pés, porque o lugar em que tú estás é terra santa”.1 Que rigorosa e impressionante advertência! A presença da Majestade celestial em meio à sarsa em chamas emprestava ao local tôda a solenidade e santidade, pelo que o experiente pastor de Midiã devia descalçar-se e demonstrar a mais santa reverência antes de avançar mais um só passo. Assim é o livro de Daniel — uma “sarsa ardente”, abrazadora, em meio a qual faz-Se presente o Todo-poderoso do universo. Seja quem fôr, pois, que deste livro lance mão — quer para estudá-lo ou pregá-lo — deve descalçar-se de todo o preconceito, de tôda a suspeita, de todo o escrúpulo, e manifestar o mais profundo sentimento de respeito e reverência, já pela presença do Revelador no livro, já pela mensagem por Êle revelada. Ê inadmissível que um convicto cristão se aproxime dêste tão santo livro com indiferença ou sem o manifesto espírito de respeito e submissão Aquele que é a pessoa central de sua revelação e sem a firme decisão de acatar e viver a sua poderosa mensagem inspirada. As profecias de Daniel requerem especial atenção, pois destinam-se especialmente ao tempo em que vivemos. Gabriel, o anjo assistente do profeta, declarou enfaticamente que o livro de Daniel estaria selado até “o fim do tempo” — que é a nossa atual geração
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Êxodo 3:1-5.

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— quando então seria aberto à consideração. “Os sábios entenderão” declarou o Santo anjo.1 Assim as profecias de Daniel demandam hoje absoluta atenção e diligente estudo por parte de todos os cristãos. Isto fortificá-los-á e elevá-los-á a uma inapreciável experiência nova com relação à fé e a verdade revelada de Deus. Tôdas as profecias de Daniel ligadas ao nosso tempo findam com o estabelecimento do reino de Deus e a volta de nosso Senhor Jesus Cristo, pelo que devem ser examinadas com todo o interêsse e respeito, vividas para sermos capacitados à categoria de verdadeiros cristãos nêste derradeiro “tempo do fim”, e estarmos prontos para recebermos do supremo Rei as boas vindas ao eterno reino que Êle virá inaugurar. * * * Quando falamos em profecias, um dos principais fatores de importância que surge — é a pessoa do profeta. Mas, um profeta não é profeta porque desejou sê-lo ou porque fez-se profeta por si mesmo. O profeta é o indivíduo a quem Deus chama e o investe no encargo de profeta, para exercer o ofício de profeta. Em nenhum caso um profeta de Deus investira-se nêste honroso encargo por sua conta própria. Não é qualquer homem que está categorizado a ser um profeta de Deus. Qualquer um deles não escolhera Deus para tão alta função de profeta. O homem dá preferência de Deus para ser Seu honrado profeta, deve ser distinto, possuir qualidades que o habilitem a êste tão sagrado ministério. Será um servo leal de Deus — fiel em todos os sentidos aos reclamos de Sua divina vontade como exarada em sua santa lei; um homem humilde, despretencioso, zeloso da honra de Deus, de Sua causa e de Seu povo; um fervoroso porta-voz de Deus desembaraçado deste mundo, de absoluta confiança, de fervente fé e de muita oração. Enfim, um homem que consinta em que Deus o dirija na obra para a qual é chamado e empossado. Assim foram os profetas de Israel na antiguidade — homens de absoluta honradez e elevada consagração. Assim foi de modo particular e glorioso o profeta cujo importante livro estamos considerando — Daniel, o honrado de Deus. Outrossim, o profeta não prevê coisa alguma. Tudo o que êle propala oralmente ou por escrito, em virtude de sua investidura como profeta — lhe é antecipadamente mostrado ou revelado por Deus. Como profeta êle é tão somente um porta-voz de Deus. É um mensageiro de Deus portador de uma mensagem de poder — de
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Daniel 12:4-10.

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aprovação, de repreensão, de conselho ou de previsão do futuro bom ou mau. Uma importante pergunta: Como é transmitida ao profeta a revelação de Deus? Sôbre isto veja-se: 2.ª Parte, título: Uma Visão num Sonho Noturno. Portanto, as profecias das Sagradas Escrituras, procedentes da pena dos profetas de Deus, as únicas inspiradas e verdadeiras, não podem ser interpretadas segundo o molde do pensamento humano. Exclusivamente os eventos históricos delas comprobatórios — são os seus legítimos interpretes. “A profecia” disse Arturo T. Pierson, “representa uma fechadura, para a qual só uma história subsequente pôde proporcionar a chave”. Será uma preterição muito absurda do indivíduo, seja quem ele possa ser, arrogar-se intérprete da revelação profética de Deus. O autor desta dissertação sôbre o livro de Daniel, não interpretou em absoluto nenhuma de suas providenciais profecias. O que êle fez foi tão somente reunir os seus legítimos intérpretes — os testemunhos históricos evidentes, colocando-os lado a lado com elas. Disto resultou êste livro que, injustamente, trás o nome de quem o escreveu — quando o seu legítimo autor é a História que cumpriu rigorosa e gloriosamente todas as profecias de Daniel mesmo em seus mínimos e impressionantes detalhes. O único mérito que o escritor desta obra requereu para si e que recompensou mais que tudo, seu hercúleo esforço, foi o prazer de vê-la sair do prelo para as mãos de milhares de leitores e sinceros pesquizadores da verdade profética de Deus. A profecia nada mais é, segundo a palavra de São Pedro, do que “uma luz que alumia em lugar escuro”.1 Todo o futuro do mundo tem sido iluminado ao povo de Deus pela palavra da profecia. Seu povo que tem marchado através dos séculos em demanda de Seu reino de paz e perfeição, não tem andado às cégas. Todo o futuro lhe tem sido claro, e isto lhe revelou Deus pelas profecias infalíveis, para que se precavesse em face de seus inimigos de emboscadas ao longo do caminho. Todos os movimentos dos grandes impérios e das nações da terra foram e são controlados por Deus e revelados a seu escolhido povo que em meio às tão variadas mutações da História prossegue para o supremo alvo — o glorioso reino do Senhor. Tudo, porém, no que respeita aos marcos principais da História foi traçado por Deus e comunicado aos profetas Seus servos, principalmente a Daniel e São João. Os dois grandes livros, Daniel e Apocalipse, são os que
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II S. Pedro 1:19.

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enfeixam as principais profecias inspiradas, cujo cumprimento histórico tem sido incontestável e irrefutável. Resumindo, dizemos: À luz da palavra profética marcha a História e com ela marcha o Povo de Deus. * * * Há nas Sagradas Escrituras dois livros de suma importância; o de Daniel no Velho Testamento e o do Apocalipse no Novo Testamento. Não queremos dizer que os outros livros dos dois Testamentos não são importantes. O que dizemos é que êstes dois livros salientam-se mais que todos — pelas mensagens proféticas que contêm e pelo tempo em que foram reveladas. Posto que o Apocalipse encerre uma mensagem profética que enche tôda a era cristã — de primeiro ao segundo advento de Cristo — a mensagem do livro de Daniel enche duas eras — antes de Cristo desde Babilônia e depois de Cristo até ao Seu segundo advento. Todavia, a importância do livro de Daniel jaz no fato de ser sua revelação especialmente para a atual geração — pois foi selada até ao presente tempo.1 “Acham-se sôbre nós os perigos dos derradeiros dias, e cumpre-nos vigiar e orar, estudar e dar ouvidos às lições que nos são dadas nos livros de Daniel e do Apocalipse”.2 Que gloriosa luz deu-nos Deus para este final da história humana! Anda na escuridão apenas aquele que o quer! “Há necessidade urgente e premente de uma acurada investigação das profecias de Daniel e do Apocalipse, afim de saberse com precisão o que Deus requer dos homens, mòrmente dos cristãos, que esperam ser súditos do futuro reino de Cristo. Os dois livros podem ser considerados um só. Ambos se interpretam mutuamente. Os detalhes que possam ser obscuros no livro de Daniel são muitas vêzes esclarecidos por comparação no livro do Apocalipse. O livro de Daniel tem seu lugar evidente no livro do Apocalipse e neste aparece êle claramente aberto e descerrada a sua mensagem outrora selada. As profecias do Apocalipse são o complemento das profecias de Daniel. Ambos os livros se autentificam. Se as visões de Daniel houvessem sido estudadas com interesse o povo entenderia melhor as de S. João. Ambos os livros — Daniel e Apocalipse — dizem o que é a verdade que o mundo tanto carece no presente século. Os perigos dêstes finais dias requerem um
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Daniel 12:4. Testemunhos Seletos, ed. mundial, E. G. White, Vol. II página 410.

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eficaz exame de ambos os livros e uma aceitação sincera da mensagem una que encerra. Não há outro meio de escapar aos rigores da iminente crise que se aproxima inexorável. Aqueles que neste solene tempo estudarem as profecias dêstes dois profetas, receberão grande luz de Deus. A cristalina verdade lhes brilhará claramente como o sol de meio dia. “Quando os livros de Daniel e Apocalipse forem bem compreendidos, os crentes terão uma experiência religiosa inteiramente diferente. Ser-lhes-ão dados tais vislumbres das portas abertas do Céu que o coração e mente se impressionarão com o caráter que todos devem desenvolver afim de alcançar a bemaventurança que deve ser a recompensa dos puros de coração”.1 Porém, por culpa dos mestres religiosos em declarar que os livros de Daniel e Apocalipse são livros fechados, obscuros e incompreensíveis mistérios, o povo tem com grande perda espiritual se afastado deles. Êsses falsos líderes de religião estão mais capacitados a receber e abraçar com entusiasmo as suposições dos geólogos ateus modernos que contrariem abertamente o primeiro capítulo do Gênesis, do que as cristalinas verdades proféticas de Daniel e Apocalipse e de outras porções das Sagradas Escrituras. Grandes têem sido os preconceitos dos líderes do cristianismo nominal contra os maravilhosos livros de Daniel e do Apocalipse. A verdadeira razão de tais preconceitos no fato de a mensagem dos aludidos livros não se prestar à ambiciosa política religiosa dêsses pretensos guias espirituais. Já os judeus de ontem e de hoje é por seus malsãos preconceitos, recusaram o livro de Daniel porque as suas profecias apontavam “tão insofismável para o tempo de vinda do Messias, e tão diretamente lhes predizia Sua morte, que eles descoroçoavam o estudo dessa profecia, e finalmente os rabís pronunciaram a maldição sôbre todos os que tentassem uma contagem do tempo. Em sua cegueira e impenitência, o povo de Israel tem permanecido, por mil e novecentos anos, indiferente ao misericordioso oferecimento da salvação, desprecupado das bênçãos do evangelho, como solene e terrível advertência do perigo de rejeitar a luz do Céu”. “Deus confiou estas profecias aos dirigentes judeus; estariam sem desculpas si não soubessem nem declarassem ao povo que a vinda do Messias estava às portas. Sua ignorância era o resultado da pecaminosa negligência”. “Absortos em suas ambiciosas lutas para conseguir posição e poderio entre os homens, perderam de

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Testemunhos para Ministros E. G. White, pág. 114.

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vista as honras divinas que lhes eram oferecidas pelo Rei do céu”. 1 E, êsse cristianismo que por aí vai, despido da justiça de Cristo e da alma da religião cristã, está fadado, por sua absoluta culpabilidade em negligenciar e relegar as profecias de Daniel e do Apocalipse, a receber com aqueles o prêmio que o céu tem reservado aos que menosprezam a inspiração de Deus para o bem e salvação da humanidade. * * * O TEMA DO LIVRO DE DANIEL É um privilégio quasi sobrenatural estudar o grande livro, suas famosas profecias tratam dum conflito multi-secular entre a vontade de Deus e a vontade do homem; entre a verdade do céu revelada e o tradicionalismo doentio dos apóstatas; entre o supremo Governador do universo e os frágeis governadores do mundo. No centro dêste conflito, segundo as profecias de Daniel, está o povo de Deus — alvo de hostilidades das forças do mal; civis e eclesiásticas. Durante o domínio dos quatro grandes impérios e a divisão de Roma até ao presente, a igreja de Deus, de acordo às profecias de Daniel e os fatos comprobatórios, foi visada pelos opressores — tanto no que respeita ao velho como ao novo Israel. Os referidos poderes a oprimiram e a dizimaram; encarceraram seus componentes e os quebraram. Por conseguinte, o tema do livro de Daniel não visou nem visa simplesmente indicar o levantamento e queda de poderosos reinos e nações, mas demonstrar como Deus encerra o orgulho do homem e joga a glória no pó — como Deus lança abaixo o poderoso e despótico governador e estabelece outro em seu lugar; como Êle controla os poderes políticos e eclesiásticos da terra de modo a facilitar a marcha ascendente vitoriosa de Seu povo a despeito de sérios obstáculos, oposições e incontáveis perseguições. É dentro dêste tremendo conflito que devemos estudar o livro de Daniel. Se todos os maus críticos o estudassem e o considerassem dentro dêste escopo, seguramente abjurariam suas oposições e teriam uma nova visão da grande revelação de Deus aos homens através de Seu grande e honrado profeta Daniel. Dêste modo o tema geral do livro de Daniel, em outras palavras, é demonstrar aos poderosos da terra que êles são meros “nadas’’ e que Deus é o verdadeiro Soberano — que os põe no governo do
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 378, 312.

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mundo e das nações e dêle os depõe, afim de que seu escolhido povo possa cumprir livre e desembaraçadamente a sua missão enquanto marcha vitorioso em demanda do reino eterno. * * * A mensagem básica, fundamental do livro de Daniel é a intervenção de Deus no domínio do homem no mundo. O clímax da mensagem do livro é o estabelecimento do reino de Deus na terra. As profecias dos capítulos dois, sete e oito que historiam o domínio do homem, culminam com a futura vinda do glorioso reino. A segunda vinda de Cristo para ajuste com os poderes constituídos é o desfecho anunciado sôbre a má administração do homem nos negócios da terra, que se opõem aos planos e intentos de Deus. A história do mundo revela uma contínua anarquia resultante da dominação do homem e seu desqualificado despotismo arrogante e destruidor. A intervenção de Deus, clara nas profecias de Daniel, porá um dramático fim ao abuso e exterminará totalmente um domínio que se tem demonstrado falho e prejudicial à civilização humana. Fogo, rezam as profecias, será o remédio de Deus para estirpar o mal crônico da arrogância e da desmedida opressão. O dono do mundo virá governar aqui, pois só Êle sabe governar. O homem insiste em governar sem saber governar. E, até agora, êle próprio tem provado por seu govêrno na terra, que na verdade não sabe dirigir os destinos da civilização. Seu govêrno findará para dar lugar ao govêrno de Deus. * * * O Livro de Daniel contém uma mensagem especial para o tempo do profeta. A vida pessoal de Daniel — como primeiro ministro dum império mundial — já constituía uma mensagem de Deus para o seu tempo, mormente para Nabucodonosor, rei de Babilônia, e sua côrte. Os quatro primeiros capítulos de seu livro encerraram uma poderosa mensagem sob vários aspectos dirigida ao rei Nabucodonosor e seu reino. Cada um dêstes capítulos contém uma especial mensagem de Deus a Babilônia e seu soberano. No primeiro capitulo vemos quão estupendo fôra que o próprio monarca tenha proclamado a altas vozes a superioridade intelectual de Daniel e seus três companheiros — servos do Deus de Israel — no exame final da universidade da côrte. Foi uma fenomenal mensagem apelativa ao soberano relativa à supremacia do Deus do céu, o Deus de Israel. 17

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O capítulo dois enfeicha talvez a mais poderosa mensagem de Deus diretamente concedida ao rei Nabucodonosor em um sonho inspirado. A grandeza de seu reino e sua queda ficaram claras na interpretação de Daniel. Foi revelado aquele monarca que Deus é quem empossa e depõe os governantes das nações estabelece e remove os reinos. Exemplo frizante disso temos nas numerosas nações e povos que desapareceram para sempre na história, e isto por determinação do Conselho de Deus segundo profecias muito evidentes de Isaías, Jeremias, Ezequiel e outros profetas de Deus. O capítulo três compreende uma visão do próprio Filho de Deus, em pleno forno de fogo na libertação dos três hebreus injustamente sentenciados. Sua aparição visou convencer o rei Nabucodonosor de Seu poder e certificá-lo da inutilidade em batalhar contra a causa do céu esposada e propagada na vida e obras de Seus representantes em sua corte real. O capítulo quatro relata a mais direta ação de Deus contra Nabucodonosor, visando convertê-lo de uma vez para sempre. O soberano reconheceu afinal a mão de Deus sobre si, sua misericórdia em procurar salvá-lo ainda que dum modo dramático e tremendo. O capitulo cinco refere a mensagem do céu ao último rei de Babilônia — Belshazzar. Foi uma mensagem de juízo e condenação. Na interpretação de Daniel ficou assentado que Deus deu o império de Babilônia aos medos e persas, fato que mais uma vez demonstra que Deus exerce o controle das nações. Assim os cinco primeiros capítulos do livro de Daniel encerram a mensagem especial de Deus para o seu tempo no que respeita a Babilônia e seus monarcas. O capítulo seis contém a mensagem de Deus no que concerne à Medo-Pérsia de Dario, o Medo. Uma mensagem de poder que revelou ao monarca e seus cortesões o pêso do caráter dum homem que representa a Deus na terra. O livramento de Daniel na cova dos leões, como antes o dos três jovens hebreus na fornalha de Nabucodonozor, foi a mais poderosa mensagem de Deus a Dario, sua corte e seu inteiro reino que foi notificado do espetacular livramento. O capítulo dez contém a mensagem de Deus a Ciro, relativa à luta renhida que se travou na Judéia ao tempo da reconstrução do templo pelos cativos judeus libertos. Ciro pôde ver a mão auxiliadora de Deus na proteção de Seu povo, e nada mais teve a resolver senão ceder diante da influência do Excelso Deus. Assim os seis primeiros capítulos e mais o décimo, enfeixam a mensagem do livro de Daniel para o seu tempo — que revelou a 18

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supremacia de Deus sôbre todos os poderes e inclinou os reis a reconhecerem-nO como o Supremo Monarca do universo. * * * O livro de Daniel contém mensagens especiais para os últimos dias. Sete profecias há no referido livro relativas ao povo de Deus do derradeiro final da história do mundo. A primeira é a abertura do livro de Daniel, o estudo de suas profecias, principalmente a do versículo quatorze do capítulo oitavo, que resultaria, como resultou, no grande movimento religioso do século dezenove — tal como anunciado por São João no décimo capítulo do Apocalipse.1 A segunda — é a restauração do evangelho desde o ano de 1844 ou desde o final das duas mil e trezentas tardes e manhãs, segundo o capítulo oito versículo quatorze. Uma gigantesca obra de restauração final do evangelho da graça pela apostasia; um derradeiro convite evangélico da graça antes do fechamento da sua porta; um extraordinário movimento missionário mundial do povo de Deus apontado também nas profecias do Apocalipse, capítulo dez, onze, doze, quatorze e dezoito. A terceira é a purificação do santuário celestial ou o juízo de investigação, desde o ano de 1844 ao término da obra da graça, que envolveria apenas o povo de Deus como o envolve, e cujo objetivo, é perdoá-lo, remover seus pecados do santuário e conceder-lhe “sentença favorável” pelo Supremo Juiz em face da obra meditória de Cristo.2 A quarta — é a proteção do Senhor e Seus escolhidos no tempo da cruel angústia que se seguirá ao encerrar-se a graça redentora e a intercessão de Cristo por êles diante de Seu Pai, o Juiz Supremo.3 Os santos estarão garantidos na tempestade. A quinta — é o segundo advento de Cristo para libertar Seu povo e levá-lo para o glorioso reino, acontecimento futuro também anunciado pelos profetas, por Cristo mesmo pessoalmente e pelos apóstolos, mormente por São João nas profecias do Apocalipse.4 A sexta — são duas ressurreições simultâneas especiais — dos que morreram na fé da terceira mensagem angélica e dos que
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Daniel 12:4. Daniel 8:14; 7:9-10; 13-14, 22. 3 Daniel 12:1. 4 Daniel 12:1.

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crucificaram Jesus, aquela para a vida eterna e esta para vergonha e desprêso eterno.1 A sétima — é a ressurreição dos santos de todos os séculos para o novo e eterno reino, incluso Daniel, que com êles estará na sua “côrte no fim dos dias”.2 Depois dêstes setuplos acontecimentos, a terra estará no seu glorioso período de paz imperturbável e passando ela a ser a morada perpétua da divindade — onde a comunhão com o Pai celeste e o maravilhoso Salvador será gozada pelos remidos através dos infindáveis séculos da eternidade. * * * O livro de Daniel pode ser chamado — um manual de história e profecia. A profecia predita é uma prévia história e a história é a profecia predita passando em revista. As quatro linhas de profecias do livro de Daniel — capítulo dois, sete, oito e dez — são um breve esboço da história do mundo desde Babilônia ao fim do tempo. Cada uma destas linhas alcançará o seu clímax quando o Deus do céu estabelecer o Seu reino que jamais será destruído. As profecias de Daniel constituem uma divina ponte construída sôbre o abismo dos séculos até às iluminadas praias da eternidade. Uma ponte pela qual, aqueles que como Daniel propõem em seus corações amar e servir a Deus, possam transpô-la pela fé — da incerteza e aflição da vida presente à paz e segurança da vida futura. As maiores mensagens do livro de Daniel são o primeiro e o segundo adventos de Cristo e o estabelecimento do reino de Deus. É interessante notarmos o emprego no livro de Daniel, pela Revelação, para representar império, nações e indivíduos, — de símbolos como metais vários, animais diversos, chifres, árvore e um Homem vestido de linho. Foram também assentados quatro períodos proféticos: Um tempo, dois tempos e metade de um tempo; duas mil e trezentas tardes e manhãs; mil duzentos e noventa dias e mil trezentos e trinta e cinco dias. Inúmeros indivíduos tiveram o seu papel marcado pela Revelação do livro de Daniel sem que fôssem simbolizados ou nominalmente citados.

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Daniel 12:2. Daniel 7:27; 12:13.

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* * * O livro de Daniel compreende duas distintas seções: A histórica, capítulos um a seis, e profética, capítulos sete a doze. A seção histórica, que é a primeira do livro, pode ser considerada como um prefácio da sessão profética. Com exceção do sexto capítulo, os cinco primeiros referem a dois exclusivos monarcas babilônios: Nabucodonosor e Belshazzar. Os quatro primeiros capítulos tratam direta e exclusivamente ao rei Nabucodonosor em suas relações com o Deus de Israel através de Daniel e seus três companheiros. O quinto historia o trágico fim do império de Babilônia e de seu último soberano sob o juízo divino. O sexto capítulo menciona um só rei — Dario, o Medo, em suas relações com o Deus de Israel através de Daniel. Cada capítulo desta seção histórica encerra uma lição básica do céu dirigida ao monarca do reino mundial dominante no tempo de sua mensagem, bem como aos governantes das nações de todos os tempos — de que a supremacia pertence a Deus e não ao homem. Revela esta seção ainda, principalmente três dramáticos espetáculos em que estiveram em perigo de vida os servos de Deus Seus representantes na côrte do mundo de então. O céu, porém, estava a postos e interviu nos momentos precisos para livrá-los de perecerem. Entretanto, os reis que correspondem a esta seção foram ricamente abençoados pela presença dos embaixadores de Deus em suas cortes, e os próprios negócios de seus reinos prosperaram pela sabedoria com que cumpriram a missão de que foram incumbidos por Deus. A seção profética do livro salienta-se por tríplice resumo: 1) Despotismo político opressivo; 2) despotismo eclesiástico apóstata; 3) religião verdadeira triunfante. As profecias desta seção subordinamse a três visões de Daniel (caps. 7, 8, 10), e tratam de poderosos impérios, de grandes e influentes nações, dum arrogante poder religioso intolerante e do propósito de Deus com Seu povo. O desfecho da crise da história é assinalado pela intervenção de Cristo no mundo como solução única para os incontáveis e insolúveis problemas da terra que afligem e desesperam as nações e os povos. O quadro geral desta seção é verdadeiramente sensacional no que respeita a seu simbolismo. No que se relaciona aos grandes impérios, dum lado são representados por terríveis feras insaciáveis de sangue, enquanto por outro lado por animais pacíficos atuando como indomáveis e bravios. O poder religioso apóstata, representado 21

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num “chifre pequeno” com olhos e bôca, é o que mais chama a atenção por suas palavras altivas e seu aberto levante e audácia contra, o céu, enquanto reduz a nada o poder dos soberanos da terra sobre os quais se impõe inexorável. Todavia, em meio ao dantesco espetáculo das forças do mal em ação, deparamos as profecias que tratam do plano de Deus de restauração de tudo e da marcha vitoriosa de Seu povo por entre os séculos em meio a um dilúvio de oposições e um inferno de perseguições. Vê-se claramente a mão do Onipotente no leme da nau do mundo conduzindo Seus planos a bons termos e guiando Seu povo ao porto seguro e glorioso da eternidade, a despeito dos tantos recifes do caminho. Damos a seguir um esboço rápido das duas seções do livro de Daniel, em que aparecem os títulos chaves de cada capitulo, tais como expostos em tôda a dissertação. Não afirmamos que estes títulos correspondam à inteira matéria de cada capítulo; porém, como o fizemos, julgamos ter escolhido os que mais se aproximam da essência do mais importante conteúdo histórico ou profético de cada capítulo: Capitulo primeiro: — Embaixadores de Deus na corte de Babilônia. Capitulo segundo: — O impressionante sonho dos impérios. Capítulo terceiro: — Uma poderosa lição de liberdade de consciência. Capítulo quarto: — O seguro resultado na procrastinação. Capítulo quinto: — O banquete fatal de Babilônia. Capítulo sexto: — Vitória na cova dos leões. Capítulo sétimo: — O drama das opressões políticas e religiosas. Capítulo oitavo: — O santuário celestial e o Augusto Tribunal de Deus. Capítulo nono: — O tempo profético do advento do Messias. Capítulo décimo: — A intervenção de Cristo na côrte persa. Capítulo undécimo: — Luta de morte pela supremacia política. Capítulo duodécimo: — O desenlace da crise da História. * * * É importante considerarmos em rápidas pinceladas — o mundo nos dias de Daniel. É interessante atentarmos em primeiro lugar que, 22

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ao atingir Daniel a idade de doze anos (612 a.C.) o império assírio, outróra poderoso no mundo, caíra nas mãos de Nabopolasar, seu forte vassalo governador de Babilônia. O Egito, que antes da Assíria era a potência suprema na África e na Ásia, vira na queda desta potência que o vassalara uma nova chance de reabilitar-se à sua primitiva supremacia. Mas não teve mais forças para erguer-se e todo o seu empenho nêste sentido foi em vão diante do nôvo poder — de Babilônia sob os caldeus — que se levantava para dominar a terra inteira. A êste tempo três novos poderes cresciam e esperavam na fila da História a sua vez de dominação mundial — Medo-Persa, Grécia e Roma. Porém, o que mais importante se nos apresenta quanto à época de Daniel, é o império de Babilônia, no qual êle viveu durante 70 anos, em cuja côrte foi primeiro ministro enquanto embaixador do Rei do universo. É de importância apreciarmos a origem do império de Babilônia, no Capítulo II, titulo: A Origem do Império de Babilônia. Veja-se também, no mesmo Capítulo, o título: Nabucodonosor Rei do Mundo. Estava, pois, o mundo sob um só poderoso soberano e uma só vontade — o rei Nabucodonosor. Uma absoluta vaidade caracterisou o reinado mundial dêste potentado. O povo de Deus jazia fora de sua terra, em cativeiro no Oriente. Dois homens foram especialmente tomados por Deus naquela solene época histórica enquanto o povo do Senhor jazia em cativeiro: Nabucodonosor e Daniel. O primeiro para assegurar a paz na terra e o segundo para influenciar no primeiro toda a simpatia, benevolência e proteção ao cativo povo de Deus. Assim era o mundo nos dias de Daniel e da revelação da extraordinária mensagem de seu livro. * * * Lamentàvelmente há várias adições apócrifas no livro de Daniel. Há em tôda a Bíblia sete livros essencialmente apócrifos. Foram introduzidos pela primeira vez na “Versão dos Setenta”. São êles; Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Profecia de Baruque, I Macabeus, II Macabeus e adições no livro de Ester. Passaram depois a figurar em outras versões incluso a Vulgata ou Católica — donde a versão brasileira do Padre Matos Soares. Êstes livros apresentam-se sem o respectivo autor, pelo que atestam sua origem, apócrifa, o que não sucederia se fôssem inspirados do céu. Além de tudo, falta nêles o elemento profético. Josefo sustém (Ap. 1,8) que o ensino exato, fiel e preciso dos profetas foi interrompido depois do fêcho do Velho 23

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Testamento. Desde Malaquias (cêrca de 400 a.C.) até João Batista, nenhum profeta foi levantado por Deus. O próprio primeiro livro dos Macabeus fala na ausência de profetas.1 Também a leitura de tais livros já indica não terem sido inspirados, havendo até porções que contradizem as mensagens dos livros autênticos e inspirados. É digno de menção que nenhum dos profetas verdadeiros fez qualquer alusão dos livros apócrifos. Cristo jamais se referiu a êles, e mesmo os apóstolos e a igreja apostólica jamais importaram-se com êles. O canon hebreu que é a coletânia dos livros inspirados através os profetas de Israel, não contém os apócrifos citados. Justino, o mártir, Origenes, Jerônimo e S. Agostinho aprovaram o cânon judáico sem os apócrifos. Wiclife afirmou não terem “autoridade de credo” e Lutero declarou: “não serem iguais às Escrituras”. A Assembléia de Teólogos de Westminster em 1643, excluiu os livros apócrifos. Em 1643, o Dr. Lightfoot na Câmara dos Comuns, referiuse aos “desprezíveis apócrifos”, como “remendos de invenção humana”. Para termos uma idéia da falsidade destes apócrifos: Tobias 6:6-8, autoriza o charlatanismo; II Macabeus 12:44-45, recomenda ofertas e orações pelos pecados dos mortos; Judite 9:9-10, especialmente, propugna e justifica o engano; Sabedoria 8:19-20, ensina a reencarnação. E há outras contraditórias declarações. O valor dos apócrifos, portanto, como fonte de verdade e edificação espiritual, é nulo, e devem ser eles rejeitados como nocivos à fé e aos costumes do são cristianismo. O livro de Daniel foi também alvo da injuriosa bagagem de edições apócrifas. Segundo a Bíblia Católica do Padre Matos Soares — tradução da Vulgata Latina — o capítulo três contém duas adições apócrifas: A “oração de Azarias”, na fornalha ardente, e o “cântico dos três jovens”, também na fornalha ardente. O capítulo treze encerra a história de Suzana e dois velhos por ela apaixonados, bastante vergonhosa para que Daniel a inserisse em seu glorioso livro. E o capitulo quatorze e último contém duas ridículas histórias; A de Bel e a do Dragão, em que o impúdico desconhecido autorapócrifo envolveu a Daniel, aquele santo e puro caráter, como também é envolvido na história de Suzana pelo mesmo impúdico autor ignorado que a inventou. Estas adições apócrifas ao livro de Daniel constituem franca contradição da narrativa total e original do livro do profeta. Daniel seria muito insensato para introduzir em sua belíssima obra inspirada
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I Livro dos Macabeus cap. 4 verso 46.

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tamanhas aberrações e tolices. Nelas é bem patente o dedo do inimigo de tôda a justiça que com facilidade extrema serviu-se de apóstatas declarados para macular um santo livro como o de Daniel, do mesmo modo como o fêz com outros das Sagradas Escrituras. A eterna verdade de Cristo foi assim maculada com a presença destes espúrios escritos; foram vituperados os servos de Deus que falam em Seu nome; e foi ofendido o Espírito Santo — o Agente da inspiração de procedência celestial. Os verdadeiros cristãos rejeitarão os apócrifos e darão preferência às Bíblias que são isentas deles — como prejudiciais à fé cristã. Guerra, pois, aos injuriosos apócrifos de origem meramente humana, faltos da inspiração divina e ofensivos a Deus e sua justiça. * * * Seria um milagre se um livro como o de Daniel, cujas profecias são tão exatas e tão evidentemente comprovadas por irrecusáveis testemunhos históricos — fôsse isento dos ataques de Satanás. Deveras nenhum outro livro tem sido tão atacado como êste grande livro inspirado. O inimigo do direito tem estado a postos através dos séculos para opôr-se à autenticidade e inspiração dos livros das Escrituras Sagradas, principalmente o livro de Daniel. Durante dezesseis séculos homens ímpios — filósofos pagãos e incrédulos — têm procurado derribar a sua autenticidade. Mas êle se tem demonstrado como uma bigorna sôbre a qual os martelos dos críticos se têm despedaçado. Os líderes do judaísmo, os próprios compatriotas de Daniel, foram os primeiros a olhar com olhos vesgos ao profeta como profeta e a seu livro como matéria inspirada de crédito. Deram ao referido livro um lugar inferior no Canon. Não o inscreveram na série dos grandes profetas — Isaías, Jeremias e Ezequiel — e nem mesmo entre os chamados “profetas menores”, mas o colocaram entre os “Escritos” (Kethubins ou Hagiógrafos) — ao par com livros poéticos e históricos. Esta atitude equivaleu ao não reconhecimento legal em absoluto de Daniel como um profeta de importância e a seus escritos como de valor real. Outrossim, o colocaram entre os sábios homens que, embora senhores do Dom de Profecia, não são chamados profetas nos livros que trazem os seus nomes. Assim repudiaram os rabinos a Daniel e seu livro dando-lhe apenas um lugar secundário no cânon. Uma das razões do infeliz repúdio judaico ao profeta e conseqüentemente ao teu livro, consiste na alegação de que êle, embora exercesse o dom profético, não exerceu o ofício profético de mediador entre Deus e sua nação, como os demais profetas. Outra 25

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razão do injusto repúdio é o alegado fato de Daniel ter vivido em palácio como primeiro ministro dum reino opressor de seu povo em cativeiro e não entre os seus compatriotas opressos. Esqueceram-se, porém, que, não fôra Daniel ali naquela corte estar como embaixador de Deus, não teriam tido seus antepassados cativos o ameno cativeiro que tiveram e muito menos um regresso seguro, em paz e com alegria, findo os 70 anos de exílio, para reconstruírem o seu lar nacional na Judéia. É, pois, injusta a atitude do judaísmo contra Daniel e seu livro, e aqui fica o protesto contra esta descabida injúria que o céu um dia vingará. * * * Uma outra oposição ao livro de Daniel, mais audaz e inspiradora de maior descrédito ao seu autor e sua mensagem, é a que originou-se no terceiro século com o sofista sírio e filósofo pagão neo-platônico — Porfírio (233-304 A.D ). Os impertinentes ataques de Porfírio e dos que aplaudiram suas objeções temos a seguir: “Até o tempo comparativamente recente, com algumas poucas excessões, a genuinidade e autenticidade do livro de Daniel tem sido consideradas como estabelecidas, e sua autoridade canônica foi tão pouco duvidada como a de qualquer outra porção da Bíblia. Os antigos hebreus jamais duvidaram de sua autenticidade” embora lhe dessem um lugar inferior no cânon — pelo menos o equipararam aos livros históricos e poéticos. “O primeiro aberto e confesso adversário da genuinidade e autenticidade do livro de Daniel, foi Porfírio, um ferrenho adversário da fé cristã no terceiro século. Escreveu êle (aos quarenta anos de idade) quinze livros contra o cristianismo (obra intitulada — Contra os Cristãos), dos quais todos se perderam, exceto alguns fragmentos preservados por Eusébio, Jerônimo e outros. Suas objeções contra Daniel foram feitas em seu décimo-segundo livro, e tudo o que temos de tais objeções foi preservado por Jerônimo em seu comentário sôbre o livro de Daniel. Uma inteira informação, suas objeções contra os cristãos e os livros sagrados do Velho e Nôvo Testamentos, tanto quanto agora se conhece, pode ser encontrado em Lardner — Testemunhos Judaicos e Pagãos, Vol. VII, páginas 390, 470, de suas obras, edição de Londres, 1829. “De acordo a Jerônimo, portanto, Porfírio insinuou “que o livro de Daniel não foi escrito por aquele cujo nome o livro trás, mas por 26

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outro que viveu na Judéia no tempo de Antíoco Epifanes no segundo século a.C.; e que o livro de Daniel não prediz coisas futuras, mas relatos daquilo que já havia sucedido. Numa palavra, seja o que fôr que ele contenha do tempo de Antíoco é história verdadeira; se há alguma coisa relatada para tempos futuros é falsidade; porquanto o escritor não podia ver coisas futuras, se não que quando muito somente podia fazer algumas conjecturas sôbre elas. A êle diversos de nossos autores têm dado respostas de grande trabalho e diligência, em particular Eusébio, bispo de Cesaréia, em três volumes. Apolinarius, também, em um vasto livro, que é o 26.°, e antes deles, em parte, Methodius. Como não é meu objetivo, disse Jerônimo, “refutar as objeções do adversário, que podia requerer uma longa exposição, mas apenas explanar o profeta a nosso próprio povo, isto é os cristãos, observarei que nenhum dos profetas falou tão claramente de Cristo como Daniel, porque êle não somente predisse Sua vinda, como igualmente outros fizeram, mas também anunciou o tempo quando Êle apareceria, e menciona em sua ordem os príncipes do espaço intermediário, o número de anos e os sinais de seu aparecimento. E em virtude de Porfirio vêr que todas estas coisas se cumpriram, e não podia negar que todas elas em seu tempo já tinham passado, foi êle compelido a dizer, como disse; e devido a similitude de algumas circunstâncias, “afirmou que as coisas preditas para serem cumpridas pelo Anticristo no fim do mundo, cumpriram-se no tempo de Antíoco Epifanes. Tal espécie de oposição é um testemunho da verdade; porque tal é o plano de interpretação das palavras, que aos homens incrédulos o profeta parece não predizer coisas futuras, mas descrever coisas já passadas.”1 Porfírio fundou-se em certos extraviados autores gregos pagãos para suster a sua inglória oposição. Suas opiniões, porém, exerceram pouca influência nos séculos subsequentes no Oriente e nenhuma no Ocidente, e o primitivo ponto de vista correto sôbre Daniel e seu livro dominou tôda a Idade Média. Cristãos e judeus, católicos e protestantes, estiveram geralmente unânimes que o livro de Daniel foi escrito durante o exílio do autor em Babilônia no sexto século a.C. * * * A teoria de Porfírio jazeu dormindo a maior parte do tempo até depois da Reforma, quando foi trazida de sua obscuridade por Hugh
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Source Book for Bible Studentes, ed. 1927, pág. 127.

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Broughton (1549-1612) da Inglaterra. Desde então tem sido ela ventilada especialmente por Johann S. Semler (1791), Wilhelm A. Corrodi (1793), Leonhard Bertholdt (1806-1808) e outros que nada fizeram senão repetir as declarações de Porfírio, o assaltante número um do cristianismo no terceiro século. Os que propagam esta deletéria teoria de Porfírio, o fazem sem conhecimento real de sua origem e de seu verdadeiro objetivo, que era simplesmente depreciar o cristianismo. Ninguém, pretendem os maus críticos, exceto um compatriota de Antíoco IV Epifanes, rei da Síria, no segundo século, seria capaz de referir com tal exatidão os eventos daquele tempo. Portanto, o escritor do livro de Daniel, afirmam êles — como Porfírio — deve evidentemente ter sido um erudito, ou um personagem cujo coração encheu-se com o santo desejo por comunicar fôrça e valor a seu povo naquele preciso tempo de guerra e perseguição do período Macabeu. Êle deve, afirmam, ter sido uma figura saliente que tomou o nome de Daniel como seu pseudônimo, para dar maior pêso às suas exortações e predições. Mas, é bastante estranho que o incógnito autor, assim chamado, escrevesse o livro de Daniel como exortação aos heróicos Macabeus perseguidos e em armas contra a Síria e nada se referi-se a essa guerra, ao esforço de seu povo em aflição e jamais referisse no livro o nome Macabeu! Para fortalecer o seu ponto de vista, os críticos lançaram mão do fato de não ser Daniel mencionado entre os profetas, no Cânon judeu, e nem na importante lista de homens do livro de Eclesiásticus (Sirach), escrito cerca de 190-170 a.C. A conclusão a que chegaram é que o livro de Daniel deve ter sido escrito numa data posterior, provàvelmente cerca de 165 a.C. Hoje grande número de expositores aceitam a posterior ridícula data da redação do livro de Daniel. Aliás, não aceitam o sexto século como tempo em que o autor do livro o escreveu em Babilônia, mas sim o segundo século, ao tempo de Antíoco Epifanes. * * * Dois pontos essenciais há levantados pelos discípulos de Porfírio em tôrno de sua teoria sôbre o livro de Daniel: 1. Desde que certas profecias apontam Antíoco IV Epifanes da Síria (175-164), e desde que, de acôrdo às suas concepções, a maioria das profecias — pelo menos as que demonstraram um acurado cumprimento — foram escritas depois dos eventos descritos terem ocorrido, assim as profecias de Daniel, conforme estas suas 28

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preterições, devem ser datadas do tempo seguinte ao reinado de Antíoco Epifanes e não de antes de seu tempo. 2. Desde que, a seção histórica de Daniel lembra certos eventos que discordam dos fatos históricos conhecidos nas fontes em vigor, estas discordâncias — asseveram os críticos — podem ser justificadas simplesmente pelo fato de o autor do livro de Daniel ter estado distante dos eventos, tanto pelo espaço como pelo tempo, e também pelo limitado conhecimento que possuía do que sucedera nos sétimo e oitavo séculos a.C., 400 anos antes. Replicamos: — O primeiro argumento opositor, é destituído de valor para aquêle que crê que o inspirado profeta fêz acuradas e importantes predições concernentes ao curso da História, desde Babilônia aos fins dos tempos. O segundo argumento é verídico no que afirma que Daniel descreveu alguns eventos que mesmo hoje não pedem ser verificados por meio das antigas fontes de material disponível. Um de tais eventos é a enfermidade de Nabucodonosor, que não é mencionada em qualquer antigo relato existente e que os críticos têm-na como objeção ao livro de Daniel. A ausência de relatórios seculares para uma temporária incapacidade do maior rei do império neo-babilônico não é um fenômeno estranho em um tempo quando os relatórios do trôno continham somente narrativas louváveis. Também é enigmático Dario, o Medo, cujo lugar na História não tem sido estabelecido por fatores de confiança não bíblica. Veja-se Capítulo IV, título: “E Dario, o Medo, ocupou o reino”. Outras chamadas dificuldades históricas mencionadas no livro de Daniel foram já solvidas pelo incremento do conhecimento provido pela arqueologia moderna, como damos a seguir: 1. A suposta discrepância cronológica entre Daniel 1:1 e Jeremias 25:1, — o primeiro texto dando conta que Nabucodonosor, como rei de Babilônia, tomou Jerusalém no terceiro ano de Joaquim; e o segundo definindo que o primeiro ano de Nabucodonosor como rei de Babilônia era o quarto ano de Joaquim. Porém, os conhecimentos e as descobertas arqueológicas vieram comprovar em solução a êste problema, — 1) que Nabucodonosor era co-regente com seu pai Nabopolasar, tendo o título de rei sem reinar como soberano oficial único no trono; — 2) que de acordo à cronologia do trono de Babilônia, não era tomada em conta no cômputo do reinado o ano da ascenção oficial de seus monarcas. Daí o ano da ascenção 29

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de Nabucodonosor, que foi o terceiro ano de Joaquim da Judéia, não ter sido computado nos anos de seu reinado oficial como sucessor de seu pai Nabopolasar, sendo o seu primeiro ano, conforme a cronologia do trono e o relato do profeta Jeremias, em verdade o quarto ano de Joaquim. 2. Nabucodonosor é apresentado em Daniel como o grande edificador de Babilônia,1, ao passo que esta honra havia sido dada pelos clássicos gregos à rainha Semírames. Mas a arqueologia nestes últimos 100 anos tem mudado inteiramente o quadro pintado pelos clássicos escritores e tem corroborado com o relato do livro de Daniel que credita a Nabucodonosor a honra de edificador e embelezador da grande cidade da Caldéia. Semírames, chamada Sammu-ramat em inscrições cuneiformes, foi agora descoberta como uma rainha mãe da Assíria, regente de seu filho menor Adad-nirari III, e não como uma soberana de Babilônia como pretendem as fontes clássicas. As inscrições demonstraram que ela jamais estêve ligada com alguma atividade de edificação em Babilônia. De outro lado, numerosas inscrições de Nabucodonosor provam que êle tornou-se o criador de uma nova Babilônia pela reedificação de palácios, templos e de novos edifícios e fortificações. Veja-se a exposição do versículo trinta do quarto capítulo, título: “Nabucodonosor Enche a Medida”. Tal informação de crédito a Nabucodonosor, inserida no livro de Daniel, ninguém senão um escritor do século neo-babilônico podia ter fornecido. A presença de uma tal informação no livro de Daniel confunde completamente os maus críticos que não crêm que seu livro tenha sido escrito no sexto século, mas antes no segundo século a.C. Um típico exemplo do dilema que os envolve, é a seguinte confissão de R. H. Pfeiffer, da universidade de Harvard:”Nós presumivelmente jamais saberemos como o nosso autor tomou conhecimento, que a Nova Babilônia foi a criação de Nabucodonosor..., como as escavações têm provado”.2 BC, 748. 3. Belshazzar, rei de Babilônia, constituiu outra fortaleza dos críticos contra o livro de Daniel. Até não faz muito tempo, Belshazzar era olhado através do livro de Daniel, onde unicamente era referido, como uma figura legendária, em virtude de a história secular não o ter mencionado na lista cronológica dos reis de Babilônia. O silêncio que fizeram sobre Belshazzar os antigos historiadores, levou o mau criticismo a erguer-se contra a historicidade do livro de Daniel e a
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Daniel 4:30. Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 748.

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duvidar mesmo da existência deste rei. A dificuldade era acentuada pelo fato que diversas antigas fontes davam listas dos reis de Babilônia até ao fim da história desta nação, as quais mencionavam Nabonidos, em diferentes períodos, como último rei antes de Ciro, que foi o conquistador de Babilônia. Mas o livro de Daniel coloca os eventos imediatamente precedentes à queda de Babilônia no reinado de Belshazzar. Porém, a alta crítica (ou baixa), inventou numerosas interpretações para esplanar a aparente discrepância ante os relatos bíblicos e as fontes profanas. De acôrdo a Raymond P. Dougherty, em Nabonidos e Belshazzar, páginas 13, 14; “Belshazzar era (1) um outro nome do filho de Nabucodonosor conhecido como EvilMerodach, (2) um irmão de Evil-Merodach, (3) um filho de EvilMerodach, conseqüentemente neto de Nabucodonosor, (4) um outro nome de Nergal-shar-usur, genro de Nabucodonosor, (5) um outro nome de Labashi-Merduch, filho de Nergal-shar-usur, (6) um outro nome dado a Nabonidus, (7) o filho de Nabonidus e uma filha de Nabucodonosor”.1 Uma outra invenção dos críticos refere o nome de Belshazzar como uma invenção do escritor do livro de Daniel que viveu no tempo dos Macabeus no segundo século. Porém, nestes tempos modernos, a pá e a picareta da arqueologia reduziram a frangalhos as pretensões e ataques da chamada “alta crítica” revelando a veracidade do registro de Daniel quanto a Belshazzar como personagem não imaginária ou legendária, não como filho dêste ou daquele, mas como filho de Nabonidos e coregente com êste. Dentre os muitos achados arqueológicos que revelam a existência real de Belshazzar, citaremos uma insuspeita oração de Nabonidos, que julgamos o suficiente para confirmar os relatos de Daniel sôbre Belshazzar. Ei-la abaixo; “Quanto a mim, Nabuna’id rei de Babilônia, livra-me de pecar contra tua grande natureza divina e concede-me longos dias de vida. E concernente a Belshazzar meu primogênito, o rebento de meu corpo, seu coração encha tú também com respeito de tua grande divindade, para que êle jamais possa condescender no pecado. Permita-lhe satisfazer-se na abundância de dias”.2 Isto escreveu Nabonidus dirigindo-se a Sin, deus da Lua. Esta própria declaração dêste rei atestando Belshazzar como seu filho
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Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 806. A Dictionary of the Bible, John D. Davis, art. Belshazar.

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primogênito, que por direito seria o herdeiro do trôno, é suficiente para crermos na veracidade da pessoa histórica, dêste soberano. Verdadeiramente ficam, pelas modernas descobertas da arqueologia, pulverizadas as oposições da “alta crítica” quanto à historicidade do livro de Daniel, e mais que nunca este profeta de Deus e seu livro são reivindicados e exaltados como autênticos. * * * Segundo a teoria do pagão Porfírio, o quarto reino dos capítulos dois e sete de Daniel é aplicado no período helenista: Babilônia é contada como o primeiro império, Média como o segundo, Pérsia como o terceiro, e Alexandre e seus sucessores como o quarto. Todavia a Média e a Pérsia jamais formaram dois impérios mundiais separadas uma da outra ou uma seguindo à outra ou um conquistado pelo outro. Tanto pela profecia como pela História secular constatamos que os dois poderes uniram-se num só para submeterem Babilônia, o primeiro império, e formarem assim o segundo império mundial, da profecia e da História. Mas a teoria de Porfírio do quarto reino helenista, define o “chifre pequeno” dos capítulos sete e oito de Daniel, como aplicável a Antíoco IV Epifane rei da Síria. Porém, no capítulo sete, o “chifre pequeno”, o mesmo do capítulo oito, surge da cabeça do quarto animal, que representa o quarto reino da terra ou Roma, e Antíoco Epifanes, em seu tempo, representou o poder sírio e não o poder romano.1 O “chifre pequeno” surgiu entre os 10 chifres do quarto animal, romano que representam os bárbaros que dividiram Roma Ocidental e formaram a Europa moderna,2 e Antíoco Epifanes não se levantou como rei em meio aos 10 reinos europeus e tão pouco destruiu três deles para sempre — Hérulos, Vândalos e Ostrogodos — como reza à profecia que faria o “chifre pequeno”. Vêr adiante, o título: “Estorvos no Caminho do Papado”. Antíoco reinou 11 anos e o “chifre pequeno” reinaria, como reinou, 1260 anos segundo a profecia. O reino que seguiu o império de Alexandre, não foi o reino de Deus, que, segundo a profecia, seguiria o quarto reino dividido em dez — mas Roma-Pagã foi que o seguiu. O “chifre pequeno” estenderia suas conquistas ao Oriente e ao Sul; mas Antíoco Epifanes foi detido no Sul, no Egito, pela palavra de um mero oficial romano, Caio Pompílio Lena, — veja página 339 — e na Palestina foi derrotado, por fim na guerra dos Macabeus. E
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Daniel 7:23. Daniel 7:24.

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no Oriente, foi êle derrotado em sua última expedição que resultou em sua morte. Vemos assim, uma vez, que a teoria de Porfírio, ainda hoje esposada pelos modernistas e encontrada na maioria dos comentários críticos — de que o livro de Daniel foi fabricado por um desconhecido no período Macabeu depois de ocorridos os fatos por êle descritos, e não no sexto século por seu legitimo autor — tem-se demonstrado ridícula e destituída de fundamento. Nenhuma profecia de Daniel a ela se ajusta, principalmente quanto à sua pretensão do quarto reino helenista e muito menos de Antíoco IV Epifanes como representante do “chifre pequeno”. Inúmeros outros indestrutíveis argumentos poderiam ser aduzidos como evidências da nulidade da teoria de Porfírio ainda hoje aceita pelos declarados inimigos de Deus e da sã verdade revelada do Céu. Veja-se página 419 titulo: “Uma concepção errônea do “Chifre Pequeno”. * * * Há no livro de Daniel duas linguagens distintas. Foi escrito parcialmente em hebráico e parcialmente em aramaico. Do capitulo um versículo um ao capítulo dois versículo três e do capítulo oito versículo um até ao fim do capitulo doze, foi escrito em hebráico, e, do capítulo dois versículo quatro até ao fim do capítulo sete, foi escrito em aramaico. Isto tem levado os críticos a numerosas conjeturas. Suas pretenções de que o livro é de posterior origem e não do sexto século, são baseadas, em parte, nos idiomas empregados no livro. Afirmaram que a seção aramaica corresponde ao aramaico usado no segundo e terceiro séculos a.C., e não ao aramaico usado no sexto século a.C. Entretanto, dizemos que a mera forma de linguagem não é em si mesma suficiente para estabelecer a data de escritos da antigüidade, porque os copistas daquele tempo eram acostumados a “modernizar” o estilo da ortografia ou fraseado, embora o pensamento original permanecesse. Dizemos de nossos dias, que a última revisão ortográfica da Bíblia Almeida em português pela Sociedade Bíblica do Brasil, não pode ser tomada como prova de que a Bíblia Almeida foi originalmente escrita ou traduzida no século XX. Assim com o livro de Daniel. Nada prova que o aramaico do livro, semelhante ao do segundo século, seja a última palavra para atestar que o profeta escreveu seu livro no segundo século. Aqueles que datam, a origem do livro de Daniel do segundo século a. C., têm também o problema da explanação: Por que um autor hebreu do período dos Macabeus escreveria parte do livro em 33

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aramaico e não todo êle em hebraico? Além disso, têm também de explicar a razão do autor introduzir 15 palavras persas e 3 gregas em seu livro, justamente no aludido período Macabeu, em que teve em vista encorajar, como afirmam, os seus compatriotas judeus afligidos por Antíoco IV Epifanes. Outro ponto que deixa perplexos e sem saída os opositores de Daniel e seu livro, é o notável fato que, a parte aramaica do livro é justamente a que trata de Babilônia como dominadora suprema no mundo. A profecia do capítulo oito, onde o autor retoma a escrever em hebraico, revelada exatamente no último ano de Babilônia como Império do orbe, já não trata mais dêsse poder. Daniel seguramente escreveu em aramaico, a língua da diplomacia mundial de então, a parte profética de seu livro que mais poderia interessar aos caldeus e para chamar-lhes a atenção para a derrocada que infalivelmente viria a seu império mundial. Nestes últimos dias o livro de Daniel foi completamente reivindicado. Seus infiéis opositores foram declarados ignorantes e considerados obstinados inimigos gratuitos da Bíblia. A arqueologia vem de dar um golpe de estremecer o ceticismo dos críticos, mormente pela descoberta, em 1947, numa caverna próximo ao Mar Morto, de parte de dois rolos do livro de Daniel — “contendo os nomes de Daniel, Cedrach, Mesach e Abednego, e incluindo o ponto onde a porção aramaica do livro começa”.1 * * * Outro fato interessante do livro de Daniel é que o autor aparece em duas pessoas distintas. Nos primeiros sete capítulos Daniel fala de si na terceira pessoa; e nos capítulos Daniel fala de si na terceira pessoa; e nos capítulos subsequentes apresenta-se na primeira pessoa. E a razão é simples: As circunstâncias da época da história referida nos seis primeiros capítulos e da revelação contida no sétimo capitulo — eram desfavoráveis a si em face de seus não poucos gratuitos adversários, pelo que teve a prudência de não dar um autotestemunho de sua pessoa como suprema em face de todos êles, preferindo escrever sua vitoriosa história e sua primeira grande revelação como se outrem as escrevesse, para não aparecer como superior em talento e caráter diante dos esbirros que o odiavam e assim exasperá-los ainda mais contra si. Assim sendo e ainda por ser considerado um cativo embora um grande homem do reino, preferiu
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The Prophetic Faith of Our Fathers, Vol. II, pág. 58.

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Daniel falar de si na terceira pessoa como se não fôsse o autor da parte em questão do livro, provavelmente escrita até à sua libertação de perecer na cova dos leões. Porém, estava Daniel agora pràticamente livre de inimigos e do cativeiro que expirava, preferindo então escrever suas últimas visões — desde o capitulo oito ao fim de seu livro — aparecendo figurado como autor na primeira pessoa. Foi a prudência, para seu bem e de seu povo e como porta-voz de Deus em duas cortes — de Babilônia e da Medo-Persa — que ditou-lhe dever agir assim com referência à sua pessoa como autor de seu livro. Porém, a atitude de Daniel em preferir aparecer figurado em duas pessoas, como vimos, levou os críticos a descarregarem sôbre êle e seu livro mais uma porção de bombas, e negarem que o livro fôsse escrito por êle no sexto século a.C., mas insistindo que fôra escrito na primeira metade do segundo século a.C., ao tempo da guerra dos Macabeus contra Antíoco Epifanes. Todavia suas bombas eram e ainda são apenas de fumaça, não tendo o poder de destruir o famoso livro que permanece intacto e mais indestrutível do que jamais, como uma fortaleza inespugnável da Revelação em testemunho da verdade. * * * Agora algumas palavras sôbre os críticos modernos que em nosso presente século persistem em defender a insustentável teoria arcáica de Porfírio, e que o fazem por devotado e injustificável ódio contra o cristianismo e a doutrina cristã. Infelizmente não fazem êles diferença entre o são cristianismo e o cristianismo espúrio e barato do tempo atual. Êste foi o grave êrro de Porfírio que redundou numa inglória guerra de sua parte mesmo contra o Filho de Deus — pois ninguém pode guerrear o cristianismo legítimo sem guerrear o seu Autor. Quanto ao livro de Daniel, recusam-se estes maus críticos a depor o orgulho que lhes é próprio ante às acumulativas provas de sua inspiração e sua composição no sexto século a.C., — e o fazem simplesmente por teimosia e falta de humildade e sinceridade em reconhecer o direito e a verdade que o livro encerra. A vesga é sempre repetida declaração porfírica, nestes modernos tempos, de que o livro de Daniel é uma farsa de autor fanático do segundo século a.C., só poderia proceder, realmente, duma mente pagã como a de seu originador, é aceita e propagada por cérebros enuviados como o seu — a serviço do inimigo da justiça — Satanás. Recusar a voz da História por já vinte e cinco séculos exaltando as profecias de Daniel 35

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num testemunho eloquente e indestrutível, deixando em tudo desbaratada a infeliz teoria de Porfírio e desmascarando totalmente a seus modernos propagadores, significa falta de senso e honradez. Quando cérebros que se julgam lúcidos, deixam de reconhecer o cumprimento exato e altamente comprovado daquilo que combatem sem tréguas, é de duvidar da lucidez de tais cérebros. Um após outro império, reinos e nações anunciados no grande livro de Daniel surgiram e caíram segundo os ditames de suas profecias. Cada pormenor encontrou irrecusável cumprimento nos fatos internacionais ocorridos. As predições que dizem respeito ao povo de Deus e ao Messias foram tão exatamente comprovadas pelos acontecimentos, mesmo em suas datas fixas preditas, que não podem deixar de causar, admiração. As que apontam os inimigos de Deus e de Seu povo também foram em todo o sentido perfeitamente cumpridas. Assim o uníssono testemunho da História em cumprir todas as profecias de Daniel atesta a sua divina inspiração. Recusar as profecias de Daniel como autênticas significa recusar e insurgir-se contra a própria História que as cumpriu do modo mais eloqüente e incontestável. Os fiéis cristãos, que prezam a Revelação de Deus, exarada no livro de Daniel e nos demais das Sagradas Escrituras, não serão afetados pelos deletérios ensinos forjados por seus opositores; por homens que à luz chamam trevas e as trevas chamam luz; que consideram o erro como verdade e a verdade como erro; por indivíduos, enfim, que se erguem ousadamente para enfrentar o TodoPoderoso numa guerra ateística desajuizada. Um dia serão êles responsabilizados perante o tribunal do Excelso por seus deboches e seus despreziveis ataques de mentira à Revelação do céu. Tarde demais reconhecerão o ultrage e o sacrilégio que cometeram com toda a arrogância e insolente irreverência. * * * O livro de Daniel é uma cronologia tão perfeita, desde Babilônia aos nossos dias, que seria impossível um plágio do segundo século a.C., ou de qualquer outro. Todos os grandes acontecimentos da História são tão perfeitamente exarados em suas profecias e tão evidentemente cumpridos desde vinte e cinco séculos atrás até ao presente, que em verdade é impossível que o nome do autor do livro aluda apenas a um simples pseudônimo para encobrir uma obra espúria, em vez de aludir ao nome de um legítimo, grande e inspirado profeta como autor. 36

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A parte histórica do livro de Daniel, que trata de acontecimentos internacionais ligados ao início e ao término do império de Babilônia, está em perfeita harmonia com escritos de outros profetas dos sétimo e sexto séculos a.C., e com os de Herôdoto e Xenofonte, clássicos do quinto e quarto séculos a.C. respectivamente, — e portanto antes de Antíoco IV Epifanes, ou do segundo século a.C. — não podendo, portanto, ter sido forjada em primeira mão por um autor anônimo ou um pseudo Daniel da época de Macabeus. Cai assim por terra mais uma vez a expúria e malfadada teoria de que o livro de Daniel é obra inventada no segundo século em vez de original e legítima do sexto século. * * * A data bíblica do livro de Daniel está em primeiro lugar ligada à própria pessoa do escritor como indivíduo histórico e real do sexto século a.C. em Babilônia. O primeiro grande e incontestável testemunho nêste respeito é o de Ezequiel que foi também um dos cativos judeus no cativeiro babilônico, bem como um profeta de Deus entre os seus compatriotas no exílio. Como indiscutível prova de que Ezequiel foi um profeta do período do cativeiro, êle próprio relata quatorze revelações que recebera de Deus, datando cada uma delas com um dos anos do cativeiro, sendo que em dois daqueles anos recebera três visões em cada um dêles. As datas das referidas visões, conforme relatadas em seu livro, são os anos 601, 600, 599, 597, 596, 595, 594, 581, 579, 576. Datando uma dessas visões, a do ano 581, o profeta começa enfaticamente assim: “No ano vinte e cinco do nosso cativeiro”1. Estas datas de suas visões comprovam que êle foi profeta no período do cativeiro pelo menos durante 25 anos, aliás, de 601 a 576 a.C. Repetindo, frisamos: Ficou provado e documentado pelo próprio profeta Ezequiel que êle foi um dos profetas do período do cativeiro, e, portanto, um compatriota-contemporâneo de Daniel. O inolvidável testemunho inspirado de Ezequiel sobre Daniel, seu contemporâneo, que é portanto o próprio testemunho de Deus mesmo, aqui o temos em suas palavras: “Eis que mais sábio és que Daniel...”2 O profeta estava fazendo uma ilustração da sabedoria de Lucifer na pessoa do rei de Tiro.
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Ezequiel 1:2-3; 8:1; 20:1-2; 24:1; 29:1; 26:1; 30:20; 31:1; 32:1-17; 33:21-22; 40:1; 29:17; 1:1. Ezequiel 28:3.

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Havia, então, segundo Ezequiel, no tempo do cativeiro babilônio, um sábio chamado Daniel. E não é discutível a verdade quanto a referir-se êle ao Daniel autor do livro que trás o seu nome. Aquele sábio Daniel, na altura deste testemunho, de Deus através de Ezequiel, cerca do décimo ano de cativeiro, 596 a.C., já era proverbialmente conhecido em Babilônia como principal sábio do reino mundial dos caldeus.1 A solução que Daniel deu aos dois sonhos do rei Nabucodonosor (caps. 2 e 4), e às misteriosas palavras da parede do palácio festal de Belshazzar (cap. 5), o colocaram acima de todos os sábios do mundo de seus dias. A velha rainha, filha do rei Nabucodonosor, declarou ao agoniado rei Belshazzar na última noite de sua vida: “Há no teu reino um homem, que tem o espírito dos deuses santos; e nos dias de teu pai se achou nele luz, e inteligência, e sabedoria, como a sabedoria dos deuses; e teu pai, o rei Nabucodonosor, sim, teu pai, ó rei, o constituiu chefe dos magos, dos astrólogos, dos chaldeus, e dos advinhadores. Porquanto se achou neste Daniel um espírito excelente, e ciência e entendimento, interpretando sonhos, e explicando enigmas, e sólvendo dúvidas, ao qual o rei poz o nome de Belteshazzar; Chame-se pois, agora Daniel, e êle dará a interpretação”.2 Inquestionavelmente, portanto, o sábio Daniel do testemunho inspirado do profeta Ezequiel, seu contemporâneo, era o profeta Daniel, o autor do grande livro que consideramos, e que viveu, diante do testemunho daquele homem de Deus — no sexto século ou no reinado de Nabucodonosor rei de Babilônia. Outro testemunho sôbre Daniel, o Daniel do livro de Daniel como indivíduo do sexto século, é ainda o do próprio Senhor Deus através do mesmo Ezequiel, Seu profeta. Seu novo e indubitável testemunho é comprovante de que Daniel em verdade viveu nos dias do profeta Ezequiel, e, portanto, no sexto século a.C. Ei-lo: “Ainda que estivessem no meio dela êstes três homens, Noé, Daniel e J...” 3. Poderá alguém duvidar do testemunho de Deus? Se o Daniel do livro de Daniel fôsse, como querem os críticos, uma quimera do segundo século, Deus não falaria dêle no sexto século. Só há um grande Daniel em tôda a história bíblica — o Daniel do tempo do profeta Ezequiel e do rei Nabucodonosor, o Daniel do sexto século. É preciso
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Daniel 1:20; 2:48. Daniel 5:11-12. 3 Ezequiel 14:14, 20.

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ser muito cético e desafiante para rejeitar o testemunho do Todopoderoso. Ainda um outro testemunho de valor eterno é o de nosso Senhor Jesus Cristo. Pondo sêlo de autenticidade no livro de Daniel, confirmou a veracidade de suas profecias e aconselhou atendê-las. Aqui estão as Suas palavras; “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda”.1 Êste testemunho de Cristo eqüivale ao do Pai referente ao autor do livro de Daniel como profeta e escritor do sexto século. Daria o Senhor Jesus o Seu testemunho em favor de um autor espúrio, como é acusado o autor do livro de Daniel pelos críticos? Jamais isto faria o Filho de Deus. Assim, a data bíblica do livro de Daniel, testemunhada pelo profeta Ezequiel, por Deus e por nosso Senhor Jesus Cristo, é o sexto século a.C. E nenhum autor poderia escrever um tal livro a não ser que tivesse vivido no sexto século. O tríplice testemunho aqui dado destrói as invenções de má fé de Porfírio e seus seguidores. * * * A historicidade do livro de Daniel ê uma verdade indiscutível. A parte histórica do livro abre-se com um grande acontecimento; a conquista da Judéia por Nabucodonosor, rei de Babilônia, no terceiro ano de Joaquim, rei dos judeus. Êste memorável sucesso, aceito sem qualquer oposição pelos simpatizantes do livro de Daniel, é inegável pelos críticos seus inimigos. O grande acontecimento político internacional de conquista mencionado inicialmente no livro, constitue um marco indestrutível de sua historicidade. Diremos que êle é o pórtico de acesso a uma obra em todo o sentido documentada por evidências que nenhum esforço poderá destruir. Os cinco primeiros capítulos do livro de Daniel encerram parte da história do império de Babilônia do ano 606 ao ano 359 a.C., amplamente comprovada pelas Sagradas Escrituras de vários profetas, pelos antigos historiadores clássicos e pela arqueologia moderna. O quinto capítulo demonstra bem evidente a derrocada final do império mundial caldeu sob o rei Belshazzar — nas mãos dos medos e persas unidos, fato sobejamente atestado pela história secular e os documentos arqueológicos dêstes últimos tempos. O sexto capítulo começa com a presença de Dario o Medo, o nôvo rei do mundo, personagem muito discutida, todavia comprovada afinal como
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S. Mateus 24:15.

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Xiaxares II, tio de Ciro o Grande, conquistador de Babilônia. Êste é o resumo do quadro histórico do livro de Daniel, documentado por fatos históricos ligados ao final do sétimo século e ao sexto século até ao ano 534 a.C. Somente um homem que viveu na época dêstes acontecimentos, que foi testemunha ocular deles e que os acompanhou com interesse, poderia referi-los como os referiu. Dai Daniel, o autor do livro que trás o seu nome ser aquele Daniel que foi profeta de Deus enquanto primeiro ministro de duas cortes mundiais no sexto século a.C. — a de Babilônia e a da Medo-Persa. Outras irrefragáveis provas da historiedade do livro de Daniel são as datas de suas visões que êle não esquecera de justapor às mesmas. O sonho do rei Nabucodonosor revelado a Daniel para que o notificasse e interpretasse, foi dado no segundo ano dêste soberano 604 a.C.1 A visão do capítulo sete está datada do primeiro ano de Belshazzar, 541 a.C.2 A do capítulo oito, do terceiro ano dêste mesmo monarca — 539 a.C.3 A do capítulo dez, do terceiro ano de Ciro — 534 a.C.4 A festa de Belshazzar, do capítulo cinco, foi realizada no noite da queda de Babilônia sob Ciro 539 a.C. Êste é o testemunho do próprio autor do livro, quanto às datas em que recebera de Deus as revelações contidas em sua inspirada obra. Poderão os críticos dizer que os reis aludidos por êle em suas visões não existiram nas referidas datas claramente referidas no seu livro? Poderão dizer que ditos monarcas existiram no segundo século ou que foram inventados par um autor desconhecido? Ê possível duvidar do testemunho de um homem em favor de quem Deus, nosso Senhor Jesus Cristo e Ezequiel, o profeta, atestaram ter vivido no sexto século? Duvida-se de um homem, o mais sábio de seu tempo, um grande estadista, chanceler de duas poderosas cortes, um homem de caráter santo e puro em tôdas as suas revelações com Deus e os seus semelhantes, que provou ter recebido suas visões por direta inspiração de Deus, nos anos em que êle mesmo as referiu? O cumprimento histórico das profecias de Daniel revela eloqüentemente a historicidade de seu livro. Além dos poderes mundiais aludidos pelo profeta, além do poder do Papado; além da divisão do quarto império — Roma, poderosos monarcas foram

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Daniel 2:1. Daniel 7:1. 3 Daniel 8:1. 4 Daniel 10:1.

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também, referidos pelo profeta em suas visões, ainda que não citados por nome. Além de Nabucodonosor, Belshazzar, Dario o Medo e Ciro, citados nominalmente, incógnitamente foram referidos especialmente Xerxes, Grande, como o mais rico rei Persa;1 Alexandre, denominado “rei valente”.2 No capítulo onze são apontados os Tolomeus do Egito, os Seleucidas da Síria, seguindo-se em sua ordem César, Juba II da Numidia, César Augusto e Tibério. Êstes poderosos embora não citados por nomes nas profecias, são claramente evidenciados no cumprimento profético que cada um desempenhou no palco da História. Inúmeros soberanos do grande conflito dos séculos — as conquistas dos impérios, a divisão quádrupla do império de Alexandre, a divisão de Roma, a revolução francesa e outros grandes fatos revelados nas profecias de Daniel, desempenharam o seu papel no grande drama profético da História. A história do cativeiro de Judá no Oriente e seu regresso para reconstruir a Judéia, foi em parte o cumprimento de profecias verdadeiras de Daniel. O ano exato do primeiro advento de Cristo e de Sua morte são as mais fenomenais e impressionantes verdades das profecias de Daniel, que encontraram irrecusável cumprimento no batismo de Jesus e na Sua crucificação. A exposição do livro de Daniel como dada neste volume, é um notável e evidente testemunho histórico que não pode ser jamais contraditado. Revela a autenticidade histórica do profeta e de seu livro de modo maravilhoso, vendo-se nele, uma poderosa mensagem para esta atual geração, e, acima de tudo, divisa-se no livro um Deus Supremo que tudo dirige para o bem de Seus filhos, e um supremo e amante Salvador entregando Sua vida no patíbulo do Calvário para redimir a humanidade. A historicidade do livro de Daniel fica aqui, pois, incontestavelmente comprovada pelos testemunhos da História e pelas evidências do plano da salvação traçado em suas profecias e nelas cumprido a todo o rigor. O livro de Daniel, do princípio ao fim, encerra uma esmagadora evidência da verdade contra a putrefata teoria do pagão filósofo Porfírio, que fica ridicularizada e aniquilada, bem como desmoralizados todos os seus falsários propagadores através dos séculos.

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Daniel 11:2. Daniel 11:3.

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INTRODUÇÃO

O livro que consideramos constitue uma verdadeira maravilha da Inspiração. Certamente e com muita antecedência, determinou Deus, em Seu conselho, prover e revelar aos homens a inédita matéria histórica e profética nele contida. A grandeza de suas duas sessões é de tal natureza que o mundo não poderia ficar privado de tão indispensável revelação que demonstra com clareza a supremacia absoluta de Deus. Um único pensamento, se queremos referí-lo, domina inteiramente tanto a parte Histórica como a Profética do livro: — O contrôle de Deus sôbre os poderes da Terra para o cumprimento de Seu eterno propósito. Diante, pois, da magnitude da obra em apreço, exigiu ela um grande autor humano inspirado, um eminente homem de Deus, um porta-voz digno do Todo-poderoso. E, para tão empolgante missão do Céu êste homem não foi escolhido à revelia. O divino Revelador soube escolher um personagem de caráter, de vida santificada, de princípios fundamentais e nobres, que pudesse revelar com firmeza — em palavras e obras — à antiga Babilônia e ao mundo de todo o futuro, a um Deus supremo e único bem como o Seu grandioso plano de amor para a redenção do gênero humano. Sim, a escolha de Deus recaiu num homem cônscio de seu dever, habilitado a expôr o inédito plano divino e capacitado a apelar ao coração e consciência tanto de reis e cortezões de seus dias como dos homens de todos os séculos por vir, afim de tomarem conhecimento da redentora mensagem, de Deus advinda por seu intermédio e a examinarem com interesse. Daí qualquer homem não servir para o honrado encargo. Em verdade não era simplesmente questão dum homem para que Deus o pudesse usar para tão sublime propósito, mas sim dum caráter santo e puro, sábio e humilde, despretensioso e compreensível, acessível e moldável pela Onipotência. Só um tal homem representaria com plena vantagem e real sucesso os desígnios do Excelso e o Seu amor em comunicar aos homens as resoluções de Seu eterno conselho. E o homem apontado por Deus para tão elevado empreendimento, foi, como não poderia deixar de ser — Daniel, o

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príncipe de Judá. Infalívelmente Deus o escolheu dantemão em Seus desígnios para que desempenhasse o importante papel inspirado que desempenhou nas duas cortes citadas, de Babolônia e da Medo-Persa, tal como se depara-nos na primeira parte de seu notável livro, e legasse à humanidade, em Seu nome, a extraordinária cadeia de revelações que constitue a segunda parte de sua inigualável obra. A história de Daniel é uma história notável. Sua fé e seus santos princípios prevaleceram contra tôda a oposição e corrupção. A pena da Inspiração o apresenta como um caráter brilhante, imaculado e irrepreensível. A luz do céu dele irradiava em torrentes inexauríveis, e em Babilônia sua fé foi compreendida como a virtude que lhe enobrecia a vida c lhe embelezava o caráter. Homem íntegro, complexo, inatacável, teve a seu favor o maior testemunho de seus próprios inimigos; “Nunca acharemos ocasião alguma contra êste Daniel...”1. Sua vida é hoje ainda uma inspirada ilustração do que constitue um caráter santificado. Constituiu Daniel em todo o passado e ainda constitue no presente, um nobre exemplo do que podem tornar-se os homens quando unidos incondicionalmente com Deus. Daniel foi um homem de verdadeira fé, de fervente oração, de profunda consideração para com as coisas de Deus. Moral e espiritualmente corajoso e dedicado ao dever. Intelectualmente era um gigante. Foi reconhecida como o maior sábio de seu tempo e até ao presente nenhum indivíduo humano o igualou em sabedoria. Moralmente era completo — nenhum engano terreno foi capaz de corrompê-lo. Embora colocado onde a tentação em todo o sentido era forte; onde a dissipação imperava em todos os lados; onde a glutonaria, intemperança e imoralidade eram a ordem do dia, propôs não se contaminar mas permanecer firme ao lado da moralidade e da justiça. Levado em sua plena juventude como um cativo à mais corrompida côrte e cidade de seus dias, permaneceu como uma inabalável coluna em meio à tempestade de tôda a espécie de pecados e degradação. Tomou o propósito e o cumpriu à risca de não adotar os perversos costumes de Babilônia. “Daniel possuía a graça de genuína mansidão. Era verdadeiro, firme e nobre. Procurava viver em paz com todos, ao mesmo tempo que era inflexível corno o cedro altaneiro, no que quer que envolvesse princípios. Em tudo que não entrasse em colisão com sua fidelidade de Deus, era respeitoso e obediente para com aqueles que sôbre êle
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Daniel 6:5.

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tinham autoridade; mas tinha tão elevada consciência das exigências de Deus que as de governadores terrenos se lhes subordinavam. Êle não seria induzido por nenhuma consideração egoista a desviar-se de seu dever. “O caráter de Daniel é apresentado ao mundo como um admirável exemplo do que a graça de Deus pode fazer de homens caídos por natureza e corrompidos pelo pecado. O registro de sua vida nobre, e abnegado, é uma animação para a humanidade em geral. Dela podemos reunir forças para resistir nobremente a tentação, e firmemente na graça da mansidão, suster-nos pelo direito sob a mais severa provocação”.1 Em Babilônia Daniel, ainda que um profeta de Deus, galgou o posto de maior estadista de todos os tempos no cargo de primeiro ministro ao lado do rei Nabucodonosor, o monarca mundial. Deus o colocou ao lado do trono do mundo como uma gloriosa luz para todos quantos quizessem aprender do Deus vivo e verdadeiro. “Em nome de Deus, Daniel revelou ao rei a mensagem celeste de instrução, advertência e reprovação, e não foi repelido”.2 “Em Babilônia, Daniel foi pôsto em funções muito probantes, mas ao passo que desempenhava fielmente os seus deveres de estadista, evitou firmemente participar de qualquer coisa que fôsse contrária a Deus. Êsse procedimento provocava discussões, e o Senhor atraiu, assim, a atenção do rei de Babilônia para a fé de Daniel. Deus tinha luz para conceder a Nabucodonosor, e por meio de Daniel foram apresentadas ao rei as coisas preditas nas profecias concernentes a Babilônia e a outros reinos. Por meio da interpretação do sonho de Nabucodonosor, Jeová foi exaltado como sendo mais poderoso que os governantes terrestres. Assim, pela fidelidade de Daniel, Deus foi honrado”.3 A Onipotência, em Sua sabedoria, empregou meios para despertar favoravelmente a atenção do rei Nabucodonosor para Daniel como Seu representante em sua côrte. Isto ilustra a maneira como Deus usa os homens para cumprir o Seu propósito sôbre a terra. O Senhor pôde usá-lo porque êle era um homem de princípios, um homem de genuíno caráter, um homem cujo principal objetivo nesta vida era viver unicamente para Deus.
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A Santificação, E. G. White, pág. 22. Testemunhos Seletos, E. G. White, ed. mundial, Vol. III, pág. 152. 3 Testemunhos Seletos, E. G. White, ed. mundial, Vol. III, pág. 161.

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Daniel “propôs em seu coração” viver em harmonia com tôda a vontade revelada do céu. E com isto pôde Deus exaltá-lo e fazê-lo Seu honrado representante naquele reino. Em primeiro lugar despertou Deus a simpatia e o favor dos oficiais de Babilônia para com êle. Isto preparou o caminho para o segundo passo, — a demonstração da superioridade física de Daniel e seus companheiros. Então seguiu-se a demonstração de superioridade intelectual. Assim, em personalidade, físico e intelecto, Daniel provou ser marcadamente superior aos demais homens de seu tempo, ganhando daí a confiança e o respeito do rei de Babilônia. Êstes eventos prepararam Nabucodonosor para encontrar o Deus de Daniel. Uma série de dramáticas experiências — o sonho do capítulo dois, o espantoso livramento, da fornalha ardente mencionado no capítulo três e o sonho referido no capítulo quatro — evidenciaram ao grande rei o conhecimento, o poder e a autoridade do Deus de Daniel. A inferioridade do conhecimento humano através dos tidos como maiores sábios de Babilônia e do mundo, comprovada na experiência de seu primeiro sonho, levou Nabucodonosor a admitir a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é Deus dos deuses, o Senhor dos reis, e o Revelador dos segredos”.1 O rei reconheceu abertamente que a sabedoria de Deus era superior, não somente quanto ao setor humano, mas também quanto à suposta sabedoria dos deuses. O incidente da imagem de ouro e a fornalha ardente levaram Nabucodonosor a admitir que o Deus do céu “livrou Seus servos”.2 Sua resolução foi que ninguém em todo o reino “pronunciasse alguma blasfêmia contra o Deus dos hebreus, em virtude do fato de que “nenhum outro Deus” podia livrar como Êle.3 Nabucodonosor reconheceu então que o Deus do céu não era unicamente sábio mas poderoso; que Êle não era unicamente Onisciente mas Onipotente. A terceira experiência — os sete anos durante os quais sua própria jatanciosa sabedoria e seu poder foram temporàriamente removidos — ensinou ao rei que o Altíssimo não só era sábio e poderoso mas que exercia tal sabedoria e poder para governar também os negócios dos homens na terra.4 É significativo que o primeiro ato de Nabucodonosor depois do retorno de sua ramo foi louvar, exaltar e glorificar “ao Rei dos céus” e reconhecer que “aos que andam na
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Daniel 2:47. Daniel 3:28. 3 Daniel 3:29. 4 Daniel 4:32.

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soberba” como êle andava por muitos anos, Deus “pode humilhar”.1 Tudo isto, porém, foi possível e demonstrado através dum homem extraordinário usado por Deus; um homem que permaneceu ao lado do direito porque era direito. Daí ter sido Daniel amplamente abençoado por Deus para ser a inapreciável bênção que demonstrou ser, ao mundo de seu tempo. Por seu intermédio transmitiu Deus a duas cortes imperiais luz como conduzirem um govêrno próspero e honrado no mundo. Isto foi conseguido na segunda metade do reinado de Nabucodonosor. Houvessem os seus sucessores seguido o plano de govêrno de que tiveram conhecimento pelo exemplo de Daniel como primeiro ministro, a sorte do reino caldeu teria sido bem diversa. Houvessem os soberanos medo-persas seguido a orientação governativa de Daniel do reinado de Dario o Medo, não teriam sido os bárbaros senhores do mundo que foram e consequentemente não teriam as constantes dificuldades que tiveram em repelir inúmeras rebeliões em todo o vasto reino — e o destino do império Aquemenide teria sido bem outro. Deixassem hoje os governantes das nações instruir-se por Deus, fariam um govêrno brilhante, próspero e coroado de justiça, — em vez do caos em que tornaram a hodierna civilização com tantas ideologias políticas malsãs e ruinosas à por êles opressa e desesperançada família humana. Em Babilônia Daniel não agia a sós. Sua gloriosa obra foi secundada por três companheiros seus, judeus, de cativeiro. Os quatro formavam um quadrado invulnerável que nem fogo nem leões foram capazes de destruir. Nenhuma força, nenhum poder, nenhuma influência, nenhuma circunstância os afastaram dos princípios da justiça que tinham aprendido no limiar da vida mediante o estudo da Revelação e das obras da criação de Deus. A intrepidez e a lealdade de fé em Deus por êles manifestas nos maiores perigos, encheram os séculos de assombro e admiração. E, na putrefata cidade de Babilônia, em meio ao falso culto idolatra, no mais vil antro de imoralidade ante o orgulho, a soberba e a luxúria, permaneceram incólumes. Passaram por todos os testes possíveis e permaneceram inexpugnáveis ao lado do direito de Deus. A enormíssima bênção que foram para a grande metrópole e para todo o reino caldeu não se pode avaliar nesta vida. “Reuniamse, nas cortes de Babilônia, representantes de todas as terras, homens de talentos os mais seletos, os homens os mais ricamente dotados de
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Daniel 5:37.

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dons naturais, e possuidores da mais elevada cultura que êste mundo podia proporcionar; todavia entre êles todos, os cativos hebreus eram inegualáveis. Na resistência física e na beleza, no valor mental e nas consecuções literárias, no poder espiritual e na visão, eram sem rival”.1 Os quatro jovens foram preferidos pelos soberanos de seus dias, Daniel alcançou o segundo pôsto em dois reinos mundiais, “e seus três companheiros foram feitos conselheiros, Juízes e governadores no meio da terra”.2 Deveras a bênção que êles foram quer no govêrno dos homens quer na sociedade humana, não poderá ser apreciada pela linguagem da terra. Deus os usou como embaixadores Seus ao mundo de então porque podia confiar na integridade que caracterizava em sentido geral as suas vidas. Encontraremos, nestes modernos e corrompidos tempos, cristãos da tempera de caráter como a dêles, tão fiéis defensores da justiça que Deus os possa usar com o mesmo êxito com que os usou naquela antigüidade corrupta?

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Testemunhos Seletos, E. G. White, ed. mundial, Vol. II, pág. 478. Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 412.

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PRIMEIRA

PARTE

SEIS CAPÍTULOS DE HISTÓRIA ALUSIVA AOS EMBAIXADORES DE DEUS NA CÔRTE DE BABILÔNIA

CAPÍTULO I
EMBAIXADORES DE DEUS NA CÔRTE DE BABILÔNIA

Introdução Com êste primeiro capítulo começamos a descortinar a história e as profecias do maravilhoso livro de Daniel. A impressionante narrativa começa com a mensão de acontecimentos de grande transcendência. A invasão da Judéia é o primeiro grande relato que se apresenta, o evento chave que assinalou a data inicial exata do cativeiro babilônico conforme predito pelo profeta Jeremias.1 Dois reis se encontram — Nabucodonosor, de Babilônia, e Joaquim, da Judéia — o primeiro para conquistar e o segundo para ser conquistado e reduzido à simples condição de vassalo. Apenas os dois primeiros versículos do capítulo dão conta do início do cativeiro; os demais encerram o glorioso começo da história dos homens aos quais confiou Deus a honrosa missão de embaixadores Seus na côrte mundial de Babilônia. O testemunho que deram e a firmeza com que se desincubiram da missão do Céu, foi um triunfo em honra da causa de Deus até agora não igualado. Coisa alguma os demoveu da senda do direito. Nem mesmo um fôrno de fogo e uma cova de leões tiveram o poder de afastá-los do sagrado dever e da honra de servirem lealmente a Deus. Da grande bênção que caracterizou a vida que naquela côrte e naquele reino viveram, só a eternidade poderá revelar os seus indizíveis resultados. O REINO JUDEU EM DEMANDA DO ABISMO VERSO 1: — “No ano terceiro do reinado de Joaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei de Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”.
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Jeremias 25:11.

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O reino de Judá caminhava a passos largos para desaparecer. A desobediência aberta e desafiante às leis de Deus e a franca rebeldia de seus monarcas à palavra de Seus profetas, levavam à nação a colhêr amargos e desastrosos frutos. A rebelião metódica e deliberada contra Deus e seus inspirados conselhos já vinha de longe. O anélo de Deus era abençoar a nação e fazer dela uma admiração ao mundo para que cumprisse o Seu divino propósito a fim de preparar as nações da terra para o primeiro advento de Cristo. Mas isto estava sendo impedido pela crescente apostasia. O povo escolhido, alvo de incontáveis manifestações do imensurável amor de Deus — em cuidados, dádivas e proteção contra os seus inimigos, não reconhecera isso embora se julgasse povo de Deus e acima de tôdas as demais nações do mundo. Mas nada mais enganoso do que esta pretenção. Abeiravam-se mais e mais do abismo da perdição com a jatância da nação escolhida e privilegiada. Finalmente mais três reis, num curto período que ainda Deus concedia, iriam assentar-se no trono, mas tão somente para afundá-lo mais e apressar os juízos de Deus. O jatancioso orgulho ia ser decepado, a nação inteiramente arrazada, seus monarcas destituídos e mortos e o povo conduzido em cativeiro por longo tempo. JOAQUIM — REI DE JUDÁ Depois da morte do rei Josias, seu filho Joacaz foi elevado ao trono em seu lugar, sendo, porém, deposto três meses depois por Faraó Neco. Como seu sucessor o rei no Egito estabeleceu a Eliakim, seu irmão, mudando-lhe o nome em Joaquim. Êste nôvo soberano ascendeu ao trono aos 25 anos de idade, tendo reinado 11 anos em Jerusalém e seguido os maus passos dos maus reis judeus naquele trono.1 O rei Joaquim fêz transbordar a taça do pecado do trono de Judá e aproximou a nação mais e mais da beira do precipício fatal como realeza independente. O profeta de seu reinado, Jeremias, fêz em nome de Deus tudo o que era possível para salvar o trono e o reino do colapso que se avisinhava. Porém, suas poderosas mensagens de conselhos e apelos, resultaram em nada. Finalmente foi pronunciada a irrevogável sentença como prêmio da abjeta rebelião contra Deus: Deveriam ser levados em cativeiro para Babilônia, por setenta anos, e tôda a nação e suas cidades seriam totalmente arrazadas, incluso o famoso templo. Os caldeus com seu poderoso rei, seriam os
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II Reis 23:31-37.

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instrumentos que Deus usaria para justiçá-los como povo rebelde, sacrílego e irreverente. As mensagens de Jeremias ao rei, aos sacerdotes e ao povo despertaram o antagonismo de muitos, mesmo de falsos profetas que se ergueram contra êle. Assim a mensagem de Deus foi desprezada e Seu mensageiro ameaçado de morte.1 Jeremias, entretanto, com firmeza e destemor, continuou a repreender o pecado e a asseverar a iminência do juízo sob Nabucodonosor e o cativeiro de setenta anos em Babilônia como prêmio da desobediência. No ano 606 a.C., Nabucodonosor, em campanha no sul do ocidente da Ásia, invadiu a Judéia, cercou Jerusalém e aprisionou o rei Joaquim “e o amarrou com cadeias, para o levar a Babilônia”.2 (ver apêndice nota 8). O rei judeu, porém, prestou juramento de fidelidade ao vencedor e foi deixado no trono como vassalo. Três anos depois, todavia, em 604, rebelou-se e “violou sua palavra de honra ao rei de Babilônia”.3 Isto o levou, como também o seu reino, a um caminho de grande apêrto. Jeremias continuou vibrando da parte de Deus tremendas mensagens de censura à quebra da palavra empenhada ao rei Nabucodonosor pelo rei de Judá. A fim de tornar claro o juízo impendente e a destruição total que se apressava, o profeta é ordenado por Deus a levar consigo os anciãos do povo e os sacerdotes ao vale do filho do Hinn, lugar onde muitas vêzes os reis se corromperam com o falso culto de Baal, e, depois de mais uma vez adverti-los da sorte que aguardava tôda a nação, quebrou em muitos pedaços, diante dêles, uma botija que levara por ordem de Deus, e lhes disse: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Dêste modo quebrarei Eu a êste povo, e a esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, que não pode mais refazer-se”.4 Mas não se arrependeram! Possuídos de satânica ira, feriram a Jeremias e o aprisionaram pondo-o no “cepo”. Por cêrca dêsse tempo, no quarto ano de Joaquim, Jeremias, que estava prêso, escreveu em nome de Deus um livro em pergaminho, por intermédio de Baruch filho de Nerias, um escriba seu amigo, contendo tôdas as ameaças do Céu contra o ímpio rei e seus súditos. Baruch devia ler o livro ao povo na casa do Senhor, no dia nacional de jejum no nono mês no seguinte ano — o quinto de Joaquim. E assim o
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Jeremias 26:8-15. II Crônicas 36:6. 3 II Reis 24:1. 4 Jeremias 19:1-15; 20:1-2.

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fêz Baruch no “átrio superior à entrada da porta nova da casa do Senhor, aos ouvidos de todo o povo”.1 A surpreendente nova chegou aos príncipes que estavam reunidos no palácio real. Ordenaram êles a Baruch que lêsse o livro em particular para êles. E, ouvindo-o todos e temerosos de sua mensagem, comunicaram-se com o rei. O monarca pede que um de seus assistentes, Jeudi, lêsse o livro em sua presença. Entretanto, o ímpio rei, à medida que ia sendo lida a mensagem de reprovação e de juízo, cortava o livro com um canivete e o consumia em um brazeiro que havia à sua frente, até que o livro e sua mensagem foram inteiramente consumidos. Êste ato manifestou, em vez de temor e arrependimento, um verdadeiro desafio a Deus. Deu ordem o rei que prendessem a Baruch e Jeremias — mas Deus os tinha em segurança. Um outro livro idêntico foi escrito por Baruch, ditado por Jeremias. A sorte do rei Joaquim e seus cortesões foi terminantemente selada: “Portanto assim diz o Senhor, acêrca de Joaquim, rei de Judá: Não terá quem se assente sôbre o trono de Davi, e será lançado o seu cadáver ao calor do dia, e à geada de noite”. “Não lamentarão por êle, dizendo: Ai, meu irmão, ou ai, minha irmã! nem lamentarão por êle, dizendo: Ai, senhor, ou, ai, majestoso! Em sepultura de jumento o sepultarão, arrastando-o e lançando-o para bem longe, fora das portas de Jerusalém”.2 Êste destino que êle mesmo procurou, seria a recompensa de sua própria rebelião contra o céu, de sua perseguição contra Jeremias e de seu crime de morte contra um dos profetas de Deus — Urias.3 No undécimo ano de seu reinado, 598 a.C., vê Joaquim o seu reino novamente invadido pelo exército de Nabucodonosor — constituído de caldeus, sírios, moabitas, amonitas — cujo fim era tudo destruir.4 Cumpriu-se então em Joaquim o juízo particular de Deus sôbre sua pessoa, como acima descrevemos da predição de Jeremias. Josefo confirma o juízo sôbre o rei de Judá nestas palavras: “Pouco tempo depois, o rei Nabucodonosor veio com um grande exército e o rei Joaquim, que não desconfiava dêle e que estava perturbado pelas predições do profeta, não se tinha preparado para a guerra. Assim, êle o recebeu em Jerusalém, com a certeza que lhe dera de não lhe fazer mal algum. Mas faltou-lhe à palavra, mandou matá-lo, com a fina flôr
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Jeremias 36:10. Jeremias 36:30; 22:18-19. 3 Jeremias 26:20-24. 4 II Reis 24:2.

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da juventude da cidade e ordenou que lhes lançassem os corpos fora de Jerusalém, sem lhes dar sepultura”.1 Mas a grande lição não foi aprendida pelos dois seguintes sucessores de Joaquim, postos no trono da Judéia pelo rei Nabucodonosor. Continuaram firmes na rebelião a Deus e ao rei de Babilônia. E o próprio santo profeta de Deus continuou a ser hostilizado, prêso e ameaçado de morte. Com o último rei, Zedequias, o reino foi definitivamente liquidado pelo rei vencedor, e o povo judeu continuou sendo transportado para o cativeiro babilônico predito, em levas sucessivas. O último ato do drama foi o arrazamento da cidade capital do reino — Jerusalém. (Ver apêndice notas 8 e 11). Estava encerrada a história da realeza judia. Em poucos anos Joaquim “encerrou o seu desastroso reinado em ignomínia, rejeitado do céu, malquisto por seu povo e desprezado pelos senhores de Babilônia cuja confiança traíra — e tudo isto como resultado de seu êrro fatal de virar as costas aos propósitos de Deus como revelados por meio de Seu escolhido mensageiro”. E seus sucessores imediatos não tiveram também senão o destino terrível que escolheram livremente. NABUCODONOSOR — REI DE BABILÔNIA O rei Nabucodonosor é o maior monarca político do mundo antigo e na história bíblica o mais citado de todos os soberanos que se relacionaram com o povo de Deus na antigüidade. É referido nominalmente noventa vêzes em nove livros das Sagradas Escrituras. É Nabucodonosor três vêzes chamamado por Deus — Meu servo.2 Duas vêzes é referido que Deus pôs Sua espada na mão dêste poderoso rei caldeu, para em Seu nome exercer juízo sôbre as nações.3 Tôdas as nações de seus dias seriam entregues por Deus à soberania dêste rei e à de seus sucessores por setenta anos.4 O grande monarca é chamado “leão” e “rei dos reis” na história sagrada.5 Sem contar Nabucodonosor os anos de co-regência com seu pai Nabopolasar, galgou o trono em definitivo, por morte dêste, em 606 a.C., quando em campanha no sul do ocidente da Ásia contra o domínio do Egito que se fazia forte até à Síria e o rio Eufrates.
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Josefo, livro X, cap. VIII. Jeremias 25:9; 27:6; 43:10. 3 Ezequiel 30:24-25. 4 Jeremias 27:6-8; 28:14; 25:11. 5 Jeremias 50:17; Ezequiel 26:7.

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Vitorioso avançou até à Judéia, submetendo o rei judeu Joaquim no terceiro ano do reinado dêste monarca. Um dos pormenores cronológicos de Jeremias coloca o primeiro ano de Nabucodonosor no quarto ano de Joaquim, embora Nabucodonosor já como rei co-regente tenha submetido aquêle soberano judeu no ano anterior. O terceiro ano de Joaquim, 606, foi o ano da ascenção de Nabucodonosor. Conforme o costume babilônico de não incluir o ano da ascenção de seus soberanos no cômputo dos anos oficiais de reinado, verificamos, em verdade, conforme Jeremias, que o primeiro ano oficial de Nabucodonosor foi o ano 606 a.C. ou seja o quarto ano de Joaquim na Judéia.1 Em 605 a.C., no quarto ano de Joaquim, Faraó Neco avançou até ao rio Eufrates na tentativa de reaver seus domínios perdidos no ano anterior ao rei Nabucodonosor. Foi, porém, vencido em Carchemis, tendo Nabucodonosor garantido suas conquistas até à Palestina e assegurado sua posterior vitória sôbre o próprio Egito.2 Nabucodonosor reinou sôbre todo o mundo durante 43 anos, desde 605 a 562 a.C. Era a sua pretenção que seus compatriotas continuariam depois dêle empunhando para sempre o cetro do mundo. O capítulo três encerra uma evidência de seu poder, majestade e glória no trono da terra. O primeiro símbolo do capítulo sete, um leão, demonstra seu invencível poder e suas vitoriosas campanhas sôbre as nações. Porém, o capítulo quatro oferece um panorama de sua conversão e incondicional entrega de sua vida ao Deus de Israel, para honrá-l’O e serví-l’O pelo resto de sua existência. O TERCEIRO ANO DE JOAQUIM Sôbre o terceiro ano do rei Joaquim da Judéia, veja-se o apêndice — nota 5 — sôbre o terceiro ano de Ciro. Tenhamos o cuidado de não confundir Joaquim com o seu filho e sucessor de nome quase idêntico — Joachin — e até, em algumas versões, perfeitamente idêntico. O primeiro reinou 11 anos em Jerusalém, tendo dramática morte predita pelo profeta Jeremias; o segundo reinou apenas três mêses, também em Jerusalém, sendo logo deposto e levado em cativeiro para Babilônia, onde permaneceu no cárcere até ao trigésimo sétimo ano de seu cativeiro, aliás, até ao ano 562 a.C., sendo liberto da prisão neste ano, o primeiro ano de Evil
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Jeremias 25:1. Jeremias 46:1-2.

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Merodach, e por êste rei, filho e sucessor de Nabucodonosor.1 O ESTRANHO REMÉDIO DE DEUS VERSO 2: — “E o Senhor entregou nas suas mãos a Joaquim, rei de Judá, e uma parte dos vasos da casa de Deus, e êle os levou para a terra de Sinar, para a casa do seu deus, e pôs os vasos na casa do tesouro do seu deus”. NABUCODONOSOR — O AÇOITE DE DEUS O rei Joaquim de Judá foi o alvo principal da arremetida do rei de Babilônia na Judéia. Dos vinte monarcas do reino, fôra êle um dos piores dos doze maus monarcas. A despeito de seu pai Josias ter sido um dos melhores e mais consagrados potentados, êle, entretanto, não correspondeu aos reclamos divinos duma liderança dependente exclusivamente de Deus. Orgulhoso, altivo, sempre pronto a regeitar os bons conselhos do profeta de Deus, trouxe afinal a desgraça a êle mesmo e em particular e a tôda a sua nação. Recusando-se definitivamente a reconhecer a Deus como supremo e verdadeiro soberano da nação judaica e a aceitar a orientação do céu para sua felicidade pessoal e de seu povo, o rei Joaquim lavrou sua própria terrível sentença e a de seus súditos que lamentavelmente o apoiaram na rebelião contra Deus. Êle e todo o país encheram a copa da maldade e nada mais se esperava agora senão a intervenção iminente de Deus no reino, conforme já desde muito anunciada. E, Nabucodonosor, rei de Babilônia, como vimos, foi o instrumento escolhido pelo Todo-poderoso para dar-lhe a paga de seu ousado ultraje à majestade do universo. Joaquim reinava como se o reino fôsse seu próprio, recusando-se a reconhecer que estava no trono do reino de Deus na terra.2 E assim contribuiu, como outros maus reis seus antecessores no mesmo trono, para que Deus puzesse termo em definitivo à realeza judia. Deus mesmo entregou êste monarca nas mãos de Nabucodonosor. Por muito tempo o Senhor protelou fazer isto, enviando-lhe poderosas mensagens, mas tôdas foram rejeitadas e até queimadas e o profeta de Deus sèriamente ofendido e hostilizado. O resultado foi cair na mão do conquistador do mundo e tornar-se seu vassalo, cujo rei o matou mais tarde.
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Jeremias 52:31-34. I Crônicas 29:23.

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O TEMPLO É PILHADO POR ORDEM DE DEUS Naqueles antigos tempos os judeus adoravam mais o famoso templo construído por Salomão, em Jerusalém, do que o próprio Senhor do templo. O templo parecia ser tudo para êles. Todo o sistema sacrifical e o ritual do culto do templo que era o plano da salvação de Deus em figuras, não consideravam tão importante como a própria estrutura do edifício. Não há dúvida que aquêle templo era uma obra maravilhosa. Mas cometiam o êrro de considerá-lo mais importante do que o glorioso culto divino simbólico, deixando de lado a substância de todo aquele simbolismo, — o Salvador do mundo morto na cruz. Ao se apresentar aquêle povo no templo com suas ofertas sacrificais, o faziam dum modo formalístico, destituído de fé na realidade oculta nas ofertas típicas. Do famoso templo lhes dissera Jeremias: “Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é êste”.1 Enquanto veneravam a casa, não honravam o seu culto e o que êle significava. O profeta apela para que se convertam em vez de confiarem apenas no magnífico edifício. Nos dias de Jesus entre aquêle povo, Êle lhes diz que aquêle templo — que já não era o original de Salomão — seria arrazado até aos alicerces, pois O rejeitavam sendo Êle a verdadeira substância de todo aquêle sistema de adoração.2 Nabucodonosor invade o templo com seu exército e o pilha. Arrebatou-lhe preciosos “vasos” ou utensílios sagrados do seu ritual. Era o ano 606 a.C. e êstes foram os primeiros vasos sagrados transportados a Babilônia pelo vencedor de Joaquim.3 Nova remessa de vasos são levados à capital do mundo em 598 a.C., quando Joachin foi destituído.4 E, então, em 587 a.C., foram levados os restantes vasos quando o rei Zedequias foi deposto e o templo destruído.5 Ao todo contaram os vasos “cinco mil e quatrocentos”.6 ONDE FORAM PARAR OS VASOS O vitorioso rei Nabucodonosor coloca os sagrados vasos “na casa do tesouro de seu deus”, em Babilônia, provavelmente do deus Marduk, que, desde os tempos da primeira dinastia, mais de mil anos
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Jeremias 7:4. S. Mateus 24:1-2. 3 Daniel 1:1-2. 4 II Reis 24:12-13. 5 II Reis 25:13-17. 6 Esdras 1:11.

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antes, tinha popularmente o nome de “Bel”, o “Senhor”. A Bíblia alude a êste supremo deus babilônio com os nomes de “Bel-Nebo” e “Bel-Merodach”.1 Seu principal templo chamava-se “Esagila”. Documentos cuneiformes babilônicos freqüentemente mencionam “os tesouros de Esagila”, o grande templo de “Marduk”. Neste mais famoso templo de Babilônia, depositara Nabucodonosor os vasos trazidos do templo de Jerusalém. Assim foi pilhado o grande templo da Judéia de tudo quanto tinha e também queimado e arrazado.2 Além de confiarem na estrutura do templo, — o haviam profanado, pela introdução de ídolos pagãos no mesmo. Assim, permitiu Deus que os sagrados vasos fossem profanados por mãos pagãs e deixou serem levados como troféus do vencedor para Babilônia. Ficou demonstrado que o templo, em si mesmo, não tinha valor e sim o culto que nêle era efetuado como simbolismo do plano da redenção de Deus. E, já que êles não prezavam o que era importante, o edifício seria destruído, como o foi, e seus vasos saqueados totalmente, ficando privados dêles até depois do cativeiro de setenta anos, quando reconstruiriam o templo e os receberiam de volta. A UNIVERSIDADE DE BABILÔNIA VERSOS 3-5: — “E disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxessem alguns dos filhos de Israel, e da linhagem real e dos nobres, mancebos em quem não houvesse defeito algum, formosos de parecer, e instruídos em toda a sabedoria, sábios em ciências, e entendidos no conhecimento, e que tivessem habilidade para viverem no palácio do rei, a fim de que fossem ensinados nas letras e na língua dos caldeus. E o rei lhes determinou a ração de cada dia, da porção do manjar do rei, e do vinho que êle bebia, e que assim fossem criados por três anos, para que no fim dêles pudessem estar diante do rei”. MARAVILHOSO PLANO DO REI NABUCODONOSOR Ao galgar o trono de Babilônia o rei Nabucodonosor era ainda jovem. O comêço do seu reinado foi marcado por uma série de conquistas em que numerosos povos da Ásia Ocidental foram levados em cativeiro para o oriente, incluso o povo judeu. Muito dêsse
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Isaías 46:1; Jeremias 50:2. Jeremias 52:13-23.

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material humano, a seu ver, era por demais precioso, e desejou aproveitar o melhor dêle no crescimento e estabilização de seu reino mundial. Daria isto mais confiança ao seu govêrno em meio às províncias de seu grande império, tão variadas em idiomas e costumes. Também haveria mais ordem e mais respeito à sua majestade, pois todos aplaudiriam sua sábia resolução de ter em sua corte pelo menos um representante de cada nação vassala. O sonho do rei mencionado no capítulo quatro, revelou a perfeita unidade mundial de seu império e a dependência de todos os povos da sábia administração de sua côrte. UNIVERSITÁRIOS ESCOLHIDOS O que mais impressionou e até apaixonou o soberano de Babilônia, foi a numerosa juventude cativa, oriunda de tantos países. Teve em grande conta aquela mocidade estrangeira para êle brilhante, e descobriu dentre ela grandes e raros talentos que desejou empregálos em sua nova administração. Pelo que se depreende do sacro relatório, o rei Nabucodonosor anelou substituir aquelas mentes encanecidas da velha administração de seu pai Nabopolasar, por mentes jovens, intactas, capazes de são raciocínio, de grande visão, de elevado idealismo — em contraposição ao arcaico conservadorismo da côrte que herdara e que não era próprio ao novo impulso que pretendia dar ao reino em todo o sentido do crescimento nos ramos das ciências, letras, artes, indústrias, comunicações e em especial na administração real que deveria ser sábia, prudente e corresponder às necessidades duma dominação tão vasta e tão complexa. O grande monarca, entretanto, desejou jovens selecionados para o ajudarem em funções administrativas de grandes responsabilidades. A seu desejo deviam proceder de linhagem nobre e real das cortes de países conquistados, e que fossem formosos de parecer e sem quaisquer defeitos físicos. O rei fêz questão de frisar a Aspenaz, a quem encarregara da seleção, que deviam ser jovens inteligentes e cultos — “em toda a sabedoria, sábios em ciência, e entendidos no conhecimento, e que tivessem idoneidade para viverem no palácio do rei”, ou ali se desincumbirem de altas funções. Esta juventude principesca devia ser, uma espécie de “reféns”, para garantir a perfeita obediência às promessas e tratados dos reis de cujos países procederam, ao govêrno central conquistador. O OBJETIVO DA UNIVERSIDADE DA CÔRTE A fim de serem capacitados para elevados postos no reino deveriam os escolhidos jovens cursar por três anos a universidade da 60

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côrte e serem diplomados “nas ciências e letras dos caldeus”, e estarem assim aptos para honrarem a corte e bem representarem o cêtro caldeu perante seus numerosos vassalos. Segundo a vontade do rei, a juventude universitária não cursava a universidade ùnicamente para ser admitida em palácio, mas para que lhe fôsse facultada a aquisição dum melhor desenvolvimento físico e mental e também gozar do privilégio de participar da mesa real como um grato favor do grande rei do mundo. O CARDÁPIO DA UNIVERSIDADE DA CÔRTE Por determinação do rei Nabucodonosor, os estudantes da universidade deveriam participar da farta mesa real durante todo o curso de três anos. Dita mesa era consagrada aos deuses de Babilônia e parte de suas iguarias era levada aos seus altares para ser por êles especialmente abençoada. Ao participarem os estudantes de sua mesa consagrada aos deuses, pretendeu o rei, sinceramente, vê-los alcançar o máximo desenvolvimento físico e mental pela bênção dos deuses — e serem por isso mesmo bem sucedidos em seus estudos. Além disso, dando-lhes uma mesa considerada sagrada, quis o monarca expressar o seu favor e solicitude pelo bem-estar dêles todos. Foi êste o primeiro passo do rei para levar os universitários estrangeiros a encarar com favoritismo os deuses de Babilônia e esquecer os de sua nação de origem. Os postos oficiais da famosa côrte para os quais ia ser preparada parte daquela nova juventude conquistada, estavam reservados, com possíveis raras excessões, somente a adoradores confessos de seus vitoriosos deuses, pois só a tais poderia ela dispensar, bem como merecer, a absoluta e inteira confiança que carecia como senhora de tão vastos domínios. Assim tudo iria bem no mundo babilônico de então. Êste primeiro passo do monarca, como vimos, era deveras a sua primeira interferência no que respeita à consciência de seus futuros cortesões em matéria de religião. Não ignorava Satanás que agora estava ali no Oriente e mesmo na côrte mundial de Babilônia, um povo cuja consciência exigia a adoração exclusiva de Jeová, o Deus vivo, o Deus de Israel, — que êle bem sabia ser o Único verdadeiro Deus. Portanto, preocupado com a influência que êstes fiéis adoradores de Jeová teriam naquela côrte e seu vasto império, procurou fazer alguma coisa para a todo custo quebrar aquela benéfica influência e manter sua satânica inspiração. E viu o maligno que o método eficaz seria obrigar as consciências a se curvarem em 61

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reverência e adoração aos falsos deuses. E só o soberano do trono teria, a seu ver, o poder de obrigar e exigir com êxito servidão dos deuses protetores do reino. Tudo, porém, começou com a mesa real — ou com o apetite — para depois tornar-se uma questão de rígidos decretos-leis, como deparamos na adoração da estátua imperial de ouro, do capítulo terceiro. Quando Nabucodonosor ordenou a Aspenaz que selecionasse jovens das nações conquistadas, a fim de alguns serem preparados para a sua côrte, fêz questão de apontar em especial os judeus, conforme atestam os versos três e quatro. Demonstrou o rei confiança neste povo e conhecer a sua sabedoria como superior à de outros povos, mesmo a despeito de ter sido tratado por seus três últimos monarcas que por conquista os transformara em vassalos. Contudo, como os demais jovens doutras nações, deviam ser também de linhagem principesca — real e nobre. Como era de seu grande anélo, nesta raça e nesta juventude repousou a esperança do rei concernente à representação e prosperidade de sua côrte no mundo submetido à sua soberania. Em tudo isto vemos as providências de Deus em fazer-se representar naquela grande côrte mundial através de seus escolhidos, e por fim em tôda a terra pela influência dêles ali exercida. “O fato de êsses homens, adoradores de Jeová, estarem cativos em Babilônia, era orgulhosamente citado pelos vencedores como evidência que sua religião e costumes eram superiores à religião e costumes dos hebreus. Embora por intermédio da própria humilhação que Israel chamara sobre si por haver-se afastado de Deus, Êle dera aos babilônios a prova de Sua supremacia, da santidade dos seus reclamos e dos resultados certos da obediência. E êste testemunho Êle deu, como unicamente poderia ser dado, por meio daqueles que Lhe foram leais. “Entre os que se mantiveram obedientes a Deus estavam Daniel e seus três companheiros — nobres exemplos do que os homens podem tornar-se quando unidos com o Deus de sabedoria e poder. Da comparativa simplicidade de seu lar judaico, êsses jovens de linhagem real foram levados à mais magnificente das cidades, e introduzidos na côrte do maior monarca do mundo”.1 Na providência de Deus, Daniel e seus companheiros foram levados ao cativeiro como condutos às nações pagãs das bênçãos que advêm à humanidade pelo conhecimento de Deus. Principalmente através de Daniel, acendeu Deus uma grande luz ao lado do trono do
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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 479, 480.

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maior reino do mundo, para que todos pudessem aprender do Deus vivo e verdadeiro. “Assim como Deus chamou a Daniel para testemunhar d’Êle em Babilônia, também nos chama a nós para sermos Suas testemunhas no mundo hoje em dia. Deseja que revelemos aos homens os princípios do Seu reino, tanto nos menores como nos maiores afazeres da vida”.1 NOVOS NOMES AOS UNIVERSITÁRIOS HEBREUS VERSOS 6-7: — “E entre eles se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias. E o chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel pôs o de Belteshazzar, e a Hananias o de Sadrach, e a Misael o de Mesach, e a Azarias o de Abed-nego”. UMA VÃ ESPERANÇA DO REI Lamentàvelmente foram encontrados apenas quatro jovens hebreus dignos das responsabilidades que o rei tinha em vista aos cativos de Judá. Certamente o soberano ficou decepcionado e apreensivo. Veria êle, porém, que a qualidade e não a quantidade, é que é o importante. Veria, para alegria sua, que aqueles quatro raros caracteres valiam por uma multidão. E a história revelou isto mesmo. Foram êles inestimável bênção naquela côrte e naquele reino. Haverá, hoje, jovens cristãos de caráter puro e santo como aqueles quatro jovens? Naqueles dias só quatro foram achados. Nos dias dos Faraós um apenas fora descoberto — José. É de temer a raridade de tais caracteres em nosso corrompido século e em meio a um cristianismo tão afastado e tão desvirtuado dos fundamentos originais do evangelho de Cristo. Os quatro baluartes do direito e da justiça eram Daniel, Hananias, Misael e Azarias. Josefo diz que êstes quatro jovens eram parentes do rei Zedequias — último rei da Judéia.2 Seus nomes eram simbólicos de suas amistosas relações com Deus e de sua incondicional devoção a Êle. O propósito de Aspenaz, a pedido do rei, trocando-lhes os nomes por outros que os relacionassem com os deuses de Babilônia, era que, ao se adaptarem a êles, abjurariam o Deus de Israel e adorariam os do Império. Os novos nomes eram também u’a marca de autoridade imposta aos escravos. O nome de Jeová, no Egito, foi mudado por

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Parábolas de Jesus, E. G. White, pág. 357. Josefo, livro X, cap. XI, n.° 428.

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ara phnath-Paneah” (Salvador do Mun r ndo); o d Hadassa de Faraó pa “ Zap 1 (Murta), para Est (Estrê , ter êla), na P Pérsia. A signific cação dos primeiro s os e segund nomes dos hebreus, e Babil dos h em lônia, tan quant se pod nto to de saber, é a que dam abaixo. mos

s, odonosor como Aspenaz estava z am Mas tanto o rei Nabuco enganad com v dos vistas àq queles qu uatro jove de Deus. Ver ens D riam o qu ue significa caracte a eres fun ndados e em princípios sólidos e eterno s os. Constata ariam a f fôrça, o poder da fé que vem de ci p v ima e faz baluartes z da justiç Mal sa ça. abiam o rei e Asp r penaz que nem as ameaças do fogo e e s o de leões seriam c capazes de mudar os sãos princípios daquela heróicas d p as nhas de Deus e da verda d ade. Tão pouco podia ter influênc p cia testemun desfavor rável na f daquel moços a simpl mudan de se nome fé les les nça eus es, de simb bólicos da adoraç do ve ção erdadeiro Deus para simb o p bólicos da d adoração de deu o uses falso e pagã os ãos. Êles em sua firme devoção a s, Deus ali em Bab i bilônia, foram um grande luz que inundo tôdas as f ma e e ou numeros prov sas víncias daquele p d poderoso reino mundial e louvo m ou sobrema aneira a Jeová. ÓRIA DE EVE SER GANH R HA A VITÓ VER RSO 8: — “E Daniel assentou no seu coraçã não se u u ão contamin com a porção do manj do rei, nem co o vinh que êle nar o jar om nho ê bebia; po ortanto p pediu ao chefe dos eunucos que lhe concede c s e esse não se contamin nar”. O CORA AÇÃO TEM QU VER COM A VITÓRI T UE C IA A tr radução bíblica de Figueiredo declara que “Danie assento d e el ou firmeme ente no s coraç não se sujar com os comere que lh seu ção r s es he
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Gênesis 41:45; Es 2:7. ster

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viessem da mesa do rei”. A menos que haja firmeza de coração na decisão, haverá seguro fracasso. Mas para Daniel e seus companheiros, o vocábulo fracasso não existia. Não se “contaminar” ou não se “sujar” com a imunda e idólatra mesa real, foi o primeiro passo para a verdadeira grandeza que demonstraram como cristãos perante o mundo babilônico. Esta sublime decisão — não se contaminar, não se sujar — é a grande lição para todo o jovem que anêla a vitória espiritual sôbre o pecado. Todo aquêle que participasse da mesa do rei consagrada à idolatria, “seria considerado como estando a oferecer homenagens aos deuses de Babilônia. A tal homenagem a lealdade de Daniel e seus companheiros a Jeová lhes proibiu de participar. A simples simulação de haver comido o alimento ou bebido o vinho seria uma negação de sua fé. Proceder assim era enfileirar-se ao lado do paganismo e desonrar os princípios da lei de Deus. “Não ousaram êles a se arriscarem ao enervante efeito do luxo e dissipação sôbre o desenvolvimento físico, mental e espiritual. Êles estavam familiarizados com a história de Nadabe e Abiú, de cuja intemperança e seus resultados foi conservado o registro nos pergaminhos do Pentateuco; e sabiam que suas próprias faculdades físicas e mentais seriam danosamente afetadas pelo uso do vinho. “Daniel e seus companheiros tinham sido educados por seus pais nos hábitos da estrita temperança. Tinham sido ensinados que Deus lhes pediria contas de suas faculdades, e que jamais deveriam diminuílas ou enfraquecê-las. Esta educação fôra para Daniel e seus companheiros o meio de sua preservação entre as desmoralizantes influências da côrte de Babilônia. Fortes eram as tentações que os rodeavam nessa corte corrupta e luxuosa, mas êles permaneceram incontaminados. Nenhuma fôrça, nenhuma influência poderia afastálos dos princípios que tinham aprendido no limiar da vida mediante o estudo da Palavra e obras de Deus. “Tivesse Daniel desejado e teria encontrado em tôrno de si escusas plausíveis para afastar-se dos estritos hábitos de temperança. Êle poderia ter argumentado que, dependendo como estava do favor do rei e sujeito ao seu poder, não havia outro caminho a seguir senão comer do alimento do rei e beber do seu vinho; pois se se apegasse ao ensinamento divino, ofenderia o rei, e provàvelmente perderia sua posição e a vida. Se transgredisse o mandamento do Senhor, êle reteria o favor do rei, e asseguraria para si vantagens intelectuais e lisonjeiras perspectivas mundanas. 65

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“Mas Daniel não hesitou. A aprovação de Deus era-lhe mais cara que o favor do mais poderoso potentado da Terra — mais cara mesmo que a própria vida. Êle se determinou permanecer firme em sua integridade, fôssem quais fossem os resultados. Êle assentou no seu coração não se contaminar com a porção do manjar do rei, nem com o vinho que êle bebia. E nesta resolução foi apoiado por seus três companheiros. “Tomando esta decisão, os jovens hebreus não agiram presunçosamente, mas em firme confiança em Deus. Não escolheram ser singulares, mas sê-lo-iam de preferência a desonrar a Deus. Tivessem êles se comprometido com o erro nêste caso rendendo-se à pressão das circunstâncias, e este abandono do princípio ter-lhes-ia enfraquecido o senso do direito e sua capacidade de aborrecer o êrro. O primeiro passo errado tê-los-ia levado a outros, de maneira que, cortada sua ligação com o Céu, êles seriam varridos pela tentação”.1 Aí está o que significa ser um verdadeiro e devotado cristão. Dois fatores importantes e vitais caracterizaram a vida de Daniel e seus companheiros como religiosos e constituem ainda hoje princípios que regem a vida espiritual e material aceitável a Deus: A recusa do falso culto por ser falso e do regimem dietético mau por ser mau. Quem assim procede ganhará a vitória com Deus. O GRANDE EXEMPLO É REJEITADO Lamentàvelmente a nossa geração está em carência de religiosos como Daniel e seus companheiros. O evangelho, base da vida física e espiritual, foi relegado a um canto. Centenas de credos anti-cristãos navegam o século XX no barco das tradições dos apóstatas, que abjuraram todo o fundamento das Sagradas Escrituras de Deus. Eis um mundo religioso nominal que guerreia constante e abertamente a lei moral do Decálogo de Deus e as leis naturais apontadas no evangelho de Cristo para o bem e felicidade de Seus seguidores. Mas de modo algum Deus aceitará como servos Seus aqueles que dÊle pretendem se aproximar fora dos princípios fundamentais da religião que vem do céu e liga o arrependido pecador ao Todo-poderoso e Santo Deus. Daniel e seus companheiros são hoje ainda verdadeiros exemplos. Porém, são inaceitáveis pelos relapsos modernos cristãos como caracteres cristãos dignos de imitação. Muito daqueles quatro hebreus
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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 481-483.

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é falado, escrito e pregado; mas na prática são postos de lado como modêlos antiquados aos moderníssimos e cristianíssimos religiosos do século. Todavia, nenhum cristão está apto para o reino de Cristo a menos que seu caráter se identifique ao de Daniel e seus três companheiros, cujas vidas foram em todo o sentido honrosas a Deus e por Êle aprovadas enquanto êles viverem. Mas o segrêdo da vitória consiste numa positiva decisão como tomada por Daniel e os outros três jovens: Assentar no coração não se contaminar, não se sujar com o falso culto e com o falso apetite. Sem que esta acertada decisão seja sancionada pelo coração, a derrota e a perda da salvação serão inevitáveis. Todo o cristão moderno que desejar vêr aqueles quatro jovens no futuro, deverá imitá-los como verdadeiros cristãos que souberam viver o cristianismo puro em meio à corrupção de Babilônia. A experiência daquêles quatro hebreus cristãos constitue, em todo o tempo, um alto exemplo de genuína temperança ligada à fé cristã. Abstêmios completos de todo o ingrediente sólido ou líquido prejudicial à saúde física, conservaram o corpo como um templo santo, puro e vivo em honra de Deus. Dificilmente encontraremos hoje cristãos similares. A intemperança tem tomado conta dos chamados cristãos de nossa geração, que deviam ser verdadeiros representantes de Deus, de Cristo e de Suas leis moral, sanitária e dietética sábias e justas. O mundo chamado cristão e as nações pretensamente cristãs estão afogados no alcoolismo, chafurdados em tôda classe de degradantes vícios e mergulhados numa glotonaria destruidora da vitalidade do corpo. Viessem Daniel, Hananias, Misael e Azarias ao mundo hoje, ficariam abismados em vêr como os cristãos da hodierna civilização vivem tão afastados das sagradas normas e princípios do cristianismo original estabelecidos por Seu próprio fundador. “MENS SANA IN CORPORE SANO” Aqueles que fazem profissão de fé e se definem pela justiça que procede do céu, serão conhecidos entre os homens como perfeitos templos vivos de Deus, nos quais Êle é adorado através o verdadeiro culto do evangelho e as altas normas inspiradas do viver sadio são exemplificadas. Não se contaminar, era a ordem do dia proclamada por Daniel e seus fiéis companheiros. Esta é a principal lição de tôda a parte histórica de seu livro. É a primária, a vital, a indispensável qualificação para o alto serviço de Deus.1 Os quatro conservaram-se
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Isaías 52:11; II Corintios 6:14-18.

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puros da poluição da carne e da alma em não participar da imunda e idolatra mesa do rei Nabucodonosor. Por se conservarem fisicamente limpos pela não participação duma alimentação impura, embora oriunda do palácio real, os quatro jovens mantiveram pura a mente e o espírito, o que é ainda mais importante. Pois assim preservaram-se da má consciência para com Deus, dos corrompidos princípios da desobediência às leis do céu, de compromissos que seguramente teriam reduzido a fôrça moral e embrutecido a vontade, dissipado a coragem e obscurecido a visão. A pureza do corpo será a medida da pureza da mente e do espírito e o debilitamento do corpo implica em debilitamento de ambas estas faculdades e do coração. A máxima: “Mens sana in corpore sano”, — é evidência indiscutível de que a saúde ao corpo é essencial à saúde da mente, do espírito e do coração. Alguém dirá: “Que tem que vêr religião com dietética?” “O que dissémos acima já contém a resposta clara. Porém, dizemos ainda mais: Ninguém com u’a mente e um espírito envenenadas por um regimem dietético desequilibrado e impuro terá uma visão límpida para discernir corretamente o dever para com Deus e executá-lo com inteira submisão e alegria. Um regimem alimentar constante de elementos impuros, nocivos, estimulantes e deprimentes, afeta e contamina a mente e o espírito amplamente e priva o coração do homem da comunhão voluntária e indispensável com Deus. Daí o regimem da comunhão voluntária e indispensável com Deus. Dai o regimem alimentar original dado pelo Creador a Seus filhos ser o único que os poderá conservar fisicamente limpos para terem clareza de mente e discernimento correto e jamais esquivarem-se ao dever que os liga ao céu. A máxima de Hipócrates, o mais ilustre médico da antiguidade (5.° séc. a.C.), em questões dietéticas, era e ainda é está: “Seja o teu alimento o teu medicamento”. Em outras palavras, ensinou Hipócrates que a alimentação deve ser um remédio salutar ao físico, e então o será também à mente e ao espírito. Alimentar o organismo significa prover-lhe o melhor alimento, o mais racional, sadio, puro, isento de substâncias tóxicas e estimulantes. Um cardápio diário que mantenha límpida a corrente sanguínea e contribua para que a visão intelectual não seja obstruída mas mantida com evidente correção. Daniel conhecia o segredo duma vida saudável e consequentemente longa. Além de tudo, sua fidelidade em manter-se puro dentro das normas do bom viver, — visou enaltecer a Deus e os 68

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divinos princípios ligados à vida. Sàbiamente enfrentou de uma vez o problema dietético da universidade de Babilônia e ganhou a batalha na primeira escaramuça com o inimigo na terra de seu cativeiro. Êle defendeu imediatamente a supremacia do dever sôbre a do interêsse próprio, da obediência sôbre a do perigo, da fé sôbre a do mêdo, do temor a Deus sôbre a dos costumes deturpantes da época, do espírito sôbre a do corpo, da diéta pura sôbre a do apetite pervertido, e, acima de tudo, — da supremacia de Deus sôbre a do homem. Se Daniel e seus três companheiros se esquivassem desta batalha, tê-la-íam perdido incontinente sem nela entrarem, e os séculos futuros jamais teriam lido deles as grandes coisas que têem lido e sabido. Mas êles determinaram firmemente vencer a primeira batalha para não serem vencidos por ela e as demais que se seguiriam. O triunfo sôbre o primeiro obstáculo abriu caminho para o triunfo sôbre os demais. Vitoriosos na terra do cativeiro, cumpriram à risca o grande propósito de Deus que era dar às nações pagãs o conhecimento de Jeová — o Deus vivo. URGE ACATAR O EXEMPLO “A vida de Daniel é uma inspiradora ilustração do que constitue um caráter santificado. Apresenta uma lição para todos, e especialmente para os jovens. Uma estreita submissão aos requerimentos de Deus é benéfica à saúde do corpo e do espírito. Afim de alcançar o mais elevado padrão de moral e conhecimentos intelectuais, é necessário buscar sabedoria e fôrça de Deus, e observar estrita temperança em todos os hábitos da vida. Na experiência de Daniel e seus companheiros temos um exemplo do triunfo do princípio sôbre a tentação para ceder ao apetite. Mostra-nos que através de princípios religiosos os jovens podem triunfar sôbre a concupiscência da carne, e permanecerem leais aos reclamos de Deus, ainda que isto lhes custe um grande sacrifício”.1 “Muitos há entre os professos cristãos hoje que pretendem que Daniel era demasiado particular e declaram-no estreito e fanático. Êles consideram a matéria de comer e beber como de diminuta importância para requerer uma decisiva defesa, — que envolva provável sacrifício de tôda a vantagem terrena. Mas aqueles que assim arrazoam acharão no dia do juízo que se afastaram dos expressos requerimentos de Deus, e exaltaram suas opiniões próprias como padrão de justiça e
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Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 80.

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injustiça. Êles compreenderão que aquilo que lhes pareceu sem importância não era assim estimado por Deus. Seus requerimentos deviam ser inviolàvelmente obedecidos. Aqueles que aceitam e obedecem um de Seus preceitos por ser conveniente fazer, enquanto regeitam a outros porque sua observância requer um sacrifício, abaixam o padrão da justiça e por seu exemplo levam outros a considerar levianamente a santa lei de Deus, “Assim diz o Senhor” deve ser a nossa regra em tôdas as coisas”.1 “Daniel e seus companheiros tinham sido fiélmente instruídos nos princípios da palavra de Deus. Haviam aprendido a sacrificar o terrestre pelo espiritual, a buscar o mais alto bem. E colheram a recompensa. Seus hábitos de temperança e seu senso de responsabilidade como represantentes de Deus, reclamavam o mais nobre desenvolvimento das faculdades do corpo, da mente e da alma”.2 “Para Daniel, o temor do Senhor era o princípio da sabedoria. Êle estava colocado em uma posição onde era forte a tentação. Na côrte do rei, a dissipação imperava em todos os lados; a indulgência própria, a gratificação do apetite, a intemperança e a glotonaria, eram a ordem do dia. Daniel podia comungar nas debilitantes e corrutoras práticas dos cortesões, ou podia resistir a influência que tendia para baixo. Êle escolheu o último procedimento. Propôs em seu coração que não seria corrompido pelas pecadoras indulgências com as quais êle fôra levado em contacto, fossem quais fôssem as conseqüências”.3 Que a juventude cristã do século atual tome em conta o exemplo daqueles quatro jovens, ou então porá em risco sua salvação. Aquêle quarteto da fé ainda constitue o exemplo duma juventude possuída pela devoção; duma juventude honrada pela devoção; duma juventude útil pela devoção. E é isto mesmo que Cristo espera de cada jovem que toma sôbre si o Seu nome e com Êle espera reinar em Seu glorioso reino de eterna felicidade e amor. ASPENAZ EM APUROS VERSOS 9-10: — “Ora deu Deus a Daniel graça e misericórdia diante do chefe dos eunucos. E disse o chefe dos eunucos a Daniel: Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida; porque veria êle os vossos rostos mais tristes do que os
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Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 78. Educação, E. G. White, pág. 55. 3 Fundamentals of Christian Education, E. G. White, pág. 86.

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dos mancebos que são vossos iguais? assim arriscareis a minha cabeça para com o rei”. GRAÇA E MISERICÓRDIA EM AÇÃO No versículo oito vimos que Daniel não só assentou no coração não se contaminar com uma alimentação imprópria, nociva e idólatra, como também se esforçou por não tocá-la. Êle solicitou e Aspenaz o privilégio de não se contaminar e sua solicitação foi recebida com respeito. O desejo sem ação para convertê-lo em evidência, redunda em nada. Todavia aqui está um jovem esforçando-se e fazendo o seu melhor para manter-se leal a Deus e Suas leis. Um jovem cuja fidelidade é ainda hoje admirável e digna de imitação por todo o jovem dêste derradeiro final da civilização. Deus anéla ajudar a juventude que, como Daniel e seus companheiros, se propõe a zelar as coisas sagradas e dispensar-lhes inteira acatação, respeito e obediência. A bênção do Senhor só desce do céu sôbre aqueles que a anélam e a buscam através um decisivo esforço por obtê-la. “Inabalável em sua aliança para com Deus, intransigente no domínio de si próprio, a nobre dignidade e delicada deferência de Daniel ganharam para êle em sua mocidade o “favor e terno amor”, do oficial gentio a cargo do qual êle se achava”.1 Porém, o versículo nove enfatiza que a simpatia de Aspenaz foi devida ao maravilhoso auxílio de Deus em favor de Daniel. O Senhor influênciou Aspenaz para que olhasse com simpatia a Seu fiel servo bem como a seus companheiros. Vê-se que o esforço divino só advém para cooperar com o esforço humano, nunca, porém, para substituí-lo. Só depois que o esfôrço humano se torna evidente, é que o esforço divino surge para fortalecêlo e concretizar-lhe a vitória. Com os dois esforços conjugados, Satanás levou a pior e Deus foi glorificado e honrado por seus servos, sedentos por ser-Lhe leais. A despeito da amabilidade de Aspenaz, hesitou êste não obstante em aquiescer diretamente ao pedido de Daniel. Temeu o desagrado do rei. O monarca, dissera Aspenaz, veria a desfavorável diferença comparando-os com os demais que participavam de sua mesa real, e o culparia pela falta. O cardápio dos universitários era uma determinação do rei, e êle se não o executasse in totum, exporia sua própria cabeça. Verificamos claramente que o rei Nabucodonosor fazia periodicamente um exame físico do corpo estudantil ou pelo menos procurava ver os universitários em conjunto para certificar-se
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Educação, E. G. White, pág 55.

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de como passavam. Com isto revelou Aspenaz o temor que inspirava o rei Nabucodonosor. Uma ordem sua ou seria cumprida ou resultaria fatal se negligenciada. O monarca era absoluto e não admitia desacato às suas ordens e decisões. Qualquer oposição à sua vontade era considerada sabotagem e portanto obra de adversário, urgindo justiçar incontinente o intruso operante. E Aspenaz estremeceu ante o pedido de Daniel, enquanto foi cortez para com êle e seus companheiros. Mas Daniel não desanimou. A fé não baqueia diante dos obstáculos sejam quais forem. Dela dissera mais tarde São João, o apóstolo amado: “E esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé”.1 Assim a fé já é uma vitória. O seu possuidor será infalivelmente vitorioso enquanto sob sua influência. Daniel não temeu; pois não só não era um crente tremente, como já concebera o triunfo à vista — pelo evidente divino auxilio de Deus conjugado com o seu esforço humano. A FÉ NÃO RETROCEDE Daniel não discutiu o caso com Aspenaz procurando persuadi-lo a atendê-lo. O caso carecia de muito tato e êle foi muito prudente. O servo de Deus não foi precipitado, mormente quando procurava pôr as coisas em ordem afim de manter sua lealdade a Êle. Procurou então ao “dispenseiro”, Melzer — oficial a cujo cargo especial estava êle e seus companheiros. Parece vermos aqui algo notável: Os quatro hebreus estavam particularmente a cargo dum homem especializado. O nome “Melzer” era aplicado a alguém encarregado de certas funções especiais, como neste caso a de “tutor”. Revela-se assim o fato de o rei depositar grandes esperanças nos quatro jovens judeus, o que é sumamente importante. Não é dito nada de seu especial interêsse particular por outros jovens estrangeiros também universitários. A jovens raros que eram Daniel e os outros três, deviam ser dispensados cuidados fora do normal, cuidados especializados. Quanto da mocidade cristã poderia, hoje, ser aproveitada com muita vantagem sôbre outros de mais idade em cargos chaves, se aos jovens fossem dispensados cuidados particulares como àqueles quatro moços em Babilônia! Muito dêsse precioso e talentoso material humano se perdeu e se perde por falta de visão e interêsse de desavisados dirigentes de organizações e nações modernas em malhar talentos novos, raros e aproveitáveis com sucesso.
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I S. João 5:4.

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Com muita cautela suplicou Daniel a Melzer fossem eles escusados de participar da mesa do rei. Não temos evidentemente um relatório completo da exposição que Daniel fez a êste oficial e a Aspenaz, como justificativa da deliberação que tomaram em absterem-se da alimentação real. Porém, a informação que possuimos é mais que suficiente para divisarmos o denodado esfôrço daqueles jovens cristãos da antiguidade afim de não violarem a expressa vontade de Deus contida em Suas leis. E isto tudo é mais importante do que simplesmente lermos a história dêstes heróis. Se não os imitarmos seguindo o glorioso exemplo que nos legaram, jamais os veremos no reino de Deus onde êles indubitavelmente estarão por tôda a eternidade. UM PLANO PARA SER FIEL VERSOS 11-16: — “Então disse Daniel ao dispenseiro a quem o chefe dos eunucos havia constituído sôbre Daniel, Hananias, Misael e Azarias: Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias, fazendo que se nos dêem legumes a comer, e água a beber. Então se veja diante de ti o nosso parecer, e o parecer dos mancebos que comem a porção do manjar do rei, e, conforme vires, te hajas com os teus servos. E êle conveio nisto, e os experimentou dez dias. E, ao fim dos dez dias, apareceram os seus semblantes melhores; êles estavam mais gordos do que todos os mancebos que comiam porção do manjar do rei. Desta sorte, o dispenseiro tirou a porção do manjar dêles, e o vinho que deviam beber, e lhes dava legumes”. A Melzer apresentou Daniel um notável plano. Sugeriu-lhe uma prova de dez dias em os quais somente lhes desse “legumes”‘ e “água”, e, no término do pequeno prazo, que os comparasse com os demais que participavam da mesa real. Foi um plano de fé genuína! “A palavra hebráica zeroim, que aqui se traduz por legumes, leva em sua construção a mesma raiz que a palavra ‘semente’ empregada no relato de Gênesis referente à criação, onde se menciona “tôda a herva que dá semente”, e também o “fruto de árvore que dá semente”.1 Isto indica claramente que a petição de Daniel incluía cereais, legumes e frutas. Além disso, se compreendemos corretamente Gênesis 9:3, as “hervas” estavam incluídas também na alimentação pedida. Em outras palavras, o menú que Daniel pediu e obteve se compunha de cereais,

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Gênesis 1:29.

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legumes, frutas, noses, e verduras, quer dizer que era uma alimentação vegetariana variada, acompanhada da bebida universal para os homens e os animais: a água pura. “A Bíblia Anotada de Cambrigde contém a seguinte nota acêrca de zeroim: “Alimentação vegetal em geral; não há motivo para crer que a palavra hebraica usada se limita às leguminosas como os feijões e às ervilhas designadas apropriadamente pela expressão “legumes”. Gesênio dá esta definição: “Sementes, ervas, verduras, vegetais; isto é alimento vegetal, como o que se consome quando se jejua a meias, em oposição às carnes e as viandas mais delicadas”.1 É admirável o esforço daquêles quatro fiéis baluartes da fé em procurar a todo custo manterem-se fiéis ao verdadeiro e saudável regimem dietético indicado por Deus já na aurora do mundo. Mas, quanta violação e descaso aberto destes princípios no mundo cristão moderno pelos mais amantes dum apetite pervertido que das justas leis naturais do Creador! Daí tanto sofrimento como causa direta da recusa das leis divinas. Mas Daniel e seus companheiros não pertenciam a esta casta de apóstatas que, não obstante ostentarem o nome “cristão”, vivem em rebeldia franca e decidida contra os estatutos inspirados de Cristo. A PROVA CONVENCE MELZER Melzer achou interessante o sugestivo plano de Daniel e conveio na experiência de dez dias. “Embora temeroso de que condescendendo com êste pedido pudesse incorrer no desagrado do rei, consentiu não obstante; e Daniel sabia que sua causa estava ganha”.2 E, para surpresa e assombro de Melzer, a prova foi positiva. A diferença entre os quatro e os demais que participavam das iguarias do rei fôra-lhe evidente. Na aparência pessoal os jovens hebreus mostraram marcada superioridade sôbre seus companheiros. Assim, surprêso, admirado e convencido da superioridade do plano de Daniel sôbre o do rei, Melzer afastou-os definitivamente da mesa do soberano e consentiu continuarem com o cardápio simples que preferiram e que se demonstrara superior. A bênção de Deus foi indiscutível em secundar os esforços de seus amados. A vitória estava ganha. O plano dietético do Creador triunfou sôbre o plano dietético de Babilônia. O inimigo foi vencido
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Las Profecias de Daniel y el Apocalipsis, Urias Smith, Tomo I, págs. 15-16. Profetas e Reis, E. G. White, pág. 484.

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por aqueles quatro valentes guerreiros de Deus na primeira batalha e o seria sempre até ao fim. A retumbante vitória daqueles verdadeiros cristãos é uma severa repreensão aos infiéis cristãos glutões do século XX, violadores desrespeitosos das leis naturais inspiradas relativas ao bom viver. Podem, porém, se reabilitarem e serem fiéis como Daniel e seus companheiros. A BÊNÇÃO DE DEUS NOS ESTUDOS VERSO 17: — “Ora, a êstes quatro mancebos Deus deu o conhecimento e a inteligência em tôdas as letras, e sabedoria; mas a Daniel deu entendimento em tôda a visão e sonhos”. O DOM DE PROFECIA NA CÔRTE DO MUNDO “Apegando-se Daniel a Deus com inamovível fé, o espírito de poder profético veio sôbre êle. Enquanto recebia instruções do homem nos deveres diários da côrte, estava sendo ensinado por Deus a ler os mistérios do futuro, e a registrar para as gerações vindouras, mediante figuras e símbolos, eventos que cobrem a história dêste mundo até o fim do tempo”.1 O Dom de Profecia de que fôra Daniel investido, é o terceiro dom da graça concedido ao pecador separado diretamente de Deus. Em sua importância segue imediatamente aos dons do Filho de Deus e do Seu Espírito. Êsse dom é a comunicação entre Deus e o homem através de um instrumento chamado “profeta” dirigido pelo Espírito Santo. É o mais importante dom do Espírito Santo para guiar e edificar a Igreja de Deus na terra.2 À luz dêsse glorioso dom tem o povo de Deus caminhado em tôda a sua história até ao presente. É por êsse precioso dom que o mundo tem, através da Igreja de Deus, recebido a gloriosa mensagem da redenção em Jesus Cristo. A Bíblia foi dada à humanidade mediante êsse divino dom, e é ela, portanto, a mensagem do dom da profecia ou da graça de Deus enviada aos habitantes da terra. Antes de Daniel, e depois dêle, dezenas de outros servos fiéis de Deus, os profetas — receberam o Dom de Profecia, para advertir e
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 485. I Coríntios 13:2; 14:3.

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aconselhar a Igreja e o mundo. Segundo o livro do Apocalipse, capítulo doze versículo dezessete, a igreja de Deus, em pleno século XX, é aquela que guarda os mandamentos de Deus e possue o Dom de Profecia em seu meio. De posse do Dom de Profecia pôde Daniel desvendar grandes mistérios que puzeram em perplexidade o rei de Babilônia, bem como traçar os marcos simbólicos relativos aos principais acontecimentos da história em ligação com a marcha triunfal do povo de Deus até ao fim do tempo do fim. As profecias de seu livro resultantes dêsse dom, são as mais importantes do Velho Testamento, e completadas no Nôvo Testamento pelas profecias do Apocalipse dadas a São João através do mesmo inspirado Dom de Profecia. Os resultados de bem servir e honrar a Deus foram evidentes nos estudos daqueles jovens. As inestimáveis bênçãos de Deus fizeram daqueles moços os melhores alunos da universidade da côrte de Babilônia. A todos surpreenderam pela exuberante inteligência e sabedoria. E não pensem os jovens de hoje que Deus não tem o mesmo anélo em ajudá-los na aquisição de conhecimentos úteis de sabedoria honrosa ao céu. O segrêdo da recepção da bênção consiste na dedicação incondicional da vida a Deus, numa obediência sincera às suas leis — quer morais quer naturais. O GRANDE EXAME FINAL VERSOS 18-20: — “E ao fim dos dias, em que o rei tinha dito que os trouxessem, o chefe dos eunucos os trouxe diante de Nabucodonosor. E o rei falou com êles; e entre todos êles não foram achados outros tais como Daniel, Hananias, Misael e Azarias; por isso permaneceram diante do rei. E em tôda a matéria de sabedoria e de inteligência, sobre que o rei lhes fêz perguntas, os achou dez vêzes mais doutos do que todos os magos ou astrólogos que havia em todo o seu reino”. UM MARCADO TRIUNFO Finalmente chegou o grande dia do exame final após três anos de curso. Um só foi o catedrático examinador — o rei Nabucodonosor. Êste fato evidencia os talentes do rei, seus vastos conhecimentos em ciências e letras daquele tempo. Por outro lado parece que o monarca quis se certificar pessoalmente, em prova oral absoluta, do grau de cultura caldáica adquirido pelos universitários. Todavia o triunfo coube aos quatro fiéis de Deus — Daniel, Hananias, Misael e Azarias. 76

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Êles sobrepujaram dez vêzes mais em sabedoria a tôdas as sumidades do reino. Os chamados sábios da corte se apagaram diante dêles. Nabucodonosor não se enganara com a sabedoria dos judeus — confirmou e solenemente anunciou a distinção dos servos do Deus de Israel. Com a revelação da sabedoria de Deus através dos quatro jovens, foi reduzida a nada a farsa da sabedoria dêste mundo, simplesmente humana e nada mais que humana. “Na côrte de Babilônia estavam reunidos representantes de tôdas as terras, homens do mais alto talento e mais ricamente dotados com dons naturais, e possuidores da cultura mais vasta que o mundo poderia oferecer; não obstante entre todos êles os jovens hebreus não tiveram competidor. Em fôrça e beleza física, em vigor mental e dotes literários, não tinham rival. A forma ereta, o passo firme e elástico, a fisionomia agradável, os sentidos lúcidos, o hálito puro — eram todos certificados mais que suficientes de bons hábitos, insígnia da nobreza com que a natureza honra aos que são obedientes a suas leis.1 “Ràpidamente galgou êle (Daniel) a posição de primeiro ministro do reino. Durante o império de sucessivos monarcas, a queda da nação e o estabelecimento de um reino rival, tal era a sua sabedoria e qualidades de estadista, tão perfeitos eram o seu tato, cortezia e genuína bondade de coração, combinada com a fidelidade aos princípios, que mesmo seus inimigos eram obrigados a confessar que “não podiam achar ocasião ou culpa alguma, porque êle era fiel”.2 A SABEDORIA NAO VEIO POR ACASO “Na aquisição da sabedoria dos babilônios, Daniel e seus companheiros foram muito melhor sucedidos que seus colegas; mas sua ilustração não veio por acaso. Êles obtiveram o conhecimento mediante o fiel uso de suas faculdades, sob a guia do Espírito Santo. Colocaram-se em conexão com a Ponte de tôda sabedoria, tornando o conhecimento de Deus o fundamento de sua educação. Oraram com fé por sabedoria, e viveram as suas orações. Puzeram-se onde Deus poderia abençoá-los. Evitaram o que lhes poderia enfraquecer as faculdades, e aproveitaram tôda oportunidade de se tornarem versados em todo o ramo do saber. Seguiram as regras da vida que não poderiam falhar em dar-lhes fôrça de intelecto. Procuraram adquirir conhecimento para um determinado propósito — para que pudessem
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 485. Educação, E. G. White, pág. 55, 56.

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honrar a Deus. Compreenderam que para poderem permanecer como representantes da verdadeira religião em meio das religiões falsas do paganismo, deviam possuir clareza de intelecto e aperfeiçoar o caráter cristão. E o próprio Deus era o Seu professor. Orando constantemente, estudando conscienciosamente e mantendo-se em contato com o Invisível andavam com Deus como andou Enoque. “O verdadeiro sucesso em cada setor de trabalho não é o resultado do acaso, ou acidente ou destino, É a operação da providência de Deus, a recompensa da fé e discreção, da virtude e perseverança. Finas qualidades mentais e alto trono moral não são o resultado de acidente. Deus dá oportunidades; o sucesso depende do uso que delas se fizer. “Enquanto Deus estava operando em Daniel e seus companheiros “tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade”,1 êles estavam operando a sua própria salvação. Nisto está revelado a operação do divino princípio de cooperação, sem o que nenhum verdadeiro sucesso pode ser alcançado. O esforço humano nada realiza sem o divino poder; e sem o concurso humano o esforço divino é em relação a muitos de nenhum proveito. Para tornar a graça de Deus nossa própria, precisamos desempenhar a nossa parte. Sua graça é dada para operar em nós o querer e o efetuar, mas nunca como substituto de nosso esfôrço”.2 RESPONSABILIDADE NO SÉCULO XX “Assim como o Senhor cooperou com Daniel e seus companheiros Êle cooperará com todos os que se atêm a Sua vontade. E pela concessão do Seu Espírito Êle fortalecerá cada propósito veraz, cada nobre resolução. Os que andam nos caminhos da obediência encontrarão muitos embaraços. Influências fortes e sutis podem ligálos ao mundo; mas o Senhor é capaz de tornar sem efeito cada instrumentalidade que opere para derrotar os Seus escolhidos; em Sua força êles podem vencer cada tentação, triunfar sôbre cada dificuldade. “Deus pôs Daniel e seus companheiros em relação com os grandes homens de Babilônia, para que em meio de uma nação de idólatras pudessem representar Seu caráter. Como se tornaram êles capacitados para uma posição de tão grande confiança e honra? Foi a
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Filipenses 2:13. Profetas e Reis, E. G. White, págs. 486, 487.

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fidelidade nas pequenas coisas que lhes deu capacidade para a vida tôda. Êles honraram a Deus nos mínimos deveres, bem como nas maiores responsabilidades. “Assim como Deus chamou Daniel para testemunhar por Êle em Babilônia, Êle nos chama para sermos testemunhas Suas no mundo hoje. Tanto nos menores como nos maiores negócios da vida. Êle deseja que revelemos aos homens os princípios do Seu reino. Muitos estão esperando que uma grande obra lhes seja levada, ao mesmo tempo que perdem diàriamente oportunidade para revelar fidelidade a Deus. Diàriamente deixam de se desincumbir com inteireza do coração dos pequenos deveres da vida. Enquanto esperam por alguma grande obra em que possam exercitar talentos supostamente grandes, satisfazendo assim a ambiciosos anseios, seus dias passam. “Na vida do verdadeiro cristão nada há que não seja essencial; à vista da Onipotência todo dever é importante. O Senhor mede com exatidão cada possibilidade para serviço. As faculdades não usadas são postas na conta da mesma forma que as utilidades. Seremos julgados por aquilo que devíamos ter feito e não fizemos porque não usamos nossas faculdades para glória de Deus. “Um caráter nobre não é resultado de acidente; não é devido a favores especiais ou dotações da Providência. É o resultado da autodisciplina, da sujeição da natureza mais baixa à mais alta, da entrega do eu ao serviço de Deus e do homem”.1 UMA MENSAGEM A JUVENTUDE HODIERNA “Através da fidelidade aos princípios de temperança mostrados pelos jovens hebreus, Deus está falando à juventude de hoje. Há necessidade de homens que, como Daniel, procedam com ousadia pela causa do direito. Coração puro, mãos fortes, coragem destemerosa, são necessários; pois a luta entre o vício e a virtude reclama incessante vigilância. A cada alma Satanás vem com tentação de formas variadas e sedutoras no ponto da condescendência para com o apetite. “É o corpo um meio muito importante pelo qual a mente e a alma se desenvolvem para a edificação do caráter. Essa é a razão por que o adversário das almas dirige suas tentações no sentido do enfraquecimento e degradação das faculdades físicas. Seu sucesso neste ponto significa muitas vezes a entrega de todo ser ao mal. As

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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 487, 488.

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tendências da natureza fisica, a menos que postas sob o domínio de um poder mais alto, seguramente obrarão ruína e morte. O corpo deve ser pôsto em sujeição às faculdades mais altas do ser. As paixões devem ser controladas pela vontade que, por sua vez, deve ela mesma estar sob o controle de Deus. O régio poder da razão santificada pela graça divina, deve dominar a vida. Poder intelectual, vigor físico e longevidade dependem de leis imutáveis. Mediante a obediência a essas leis, pode o homem ser um conquistador de si mesmo, conquistador de suas próprias inclinações, conquistador de principados e potestades, dos príncipes das trevas dêste século; e das ‘hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais’. “No antigo ritual que é o evangelho em símbolos, nenhuma oferta maculada podia ser levada ao altar de Deus. O sacrifício que iria representar a Cristo devia ser sem mancha. A palavra de Deus aponta para êsse fato como uma ilustração do que Seus filhos devem ser — um ‘sacrifício vivo’, ‘sem mácula, nem ruga’.1 “Os valorosos hebreus eram homens sujeitos às mesmas paixões que nós; mas não obstante as sedutoras influências da côrte de Babilônia, êles permaneceram firmes, porque confiaram num poder infinito. Nêles contemplou uma nação pagã a ilustração da bondade e beneficência de Deus e do amor de Cristo. E na sua experiência temos um exemplo do triunfo do princípio sôbre a tentação, da pureza sôbre a depravação, da devoção e lealdade sôbre o ateísmo e a idolatria. “Os jovens de hoje podem ter o espírito de que estava possuído Daniel; êles podem beber na mesma fonte de fôrça, possuir o mesmo poder de domínio próprio, e revelar a mesma graça em sua vida, mesmo sob circunstâncias igualmente desfavoráveis. Embora assediados por tentações a serem indulgentes consigo mesmos, especialmente em nossas grandes cidades, onde tôda forma de satisfação sensual se mostra fácil e convidativa, os seus propósitos de honrar a Deus permanecem não obstante firmes pela graça divina. Mediante forte resolução e atenta vigilância podem resistir a cada tentação que assalta a alma. Mas a vitória será ganha unicamente por aquêle que se determina fazer o que é direito só porque é direito. “Que carreira foi a dêsses nobres hebreus! Ao dizerem adeus ao lar de sua meninice pouco sonhavam êles com o alto destino que lhes
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Romanos 12:1; Efésios 5:27.

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estava reservado. Fiéis e firmes, renderam-se à divina guia, de maneira que por meio deles Deus pôde cumprir o Seu propósito. “As mesmas poderosas verdades que foram reveladas através dêsses homens, Deus deseja revelar por meio de Seus jovens e de Seus filhos hoje. A vida de Daniel e seus companheiros é uma demonstração do que o Senhor fará pelos que a Êle se rendem, e buscam de todo o coração realizar o Seu propósito”.1 DANIEL DEIXA A CÔRTE MUNDIAL VERSO 21: — “E Daniel esteve até ao primeiro ano do rei Ciro”. Sôbre o primeiro ano de Ciro veja-se apêndice — Terceiro ano de Ciro, nota 5. — Desde o ano 606 a.C. em que fôra Daniel levado para a côrte de Babilônia até ao primeiro ano de Ciro, 536 a.C., decorreram exatamente setenta anos de cativeiro. Durante êste tempo, foi Daniel o maior homem das côrtes de Babilônia e da Medo-Persa, tendo nelas ocupado o honrado e elevado pôsto de primeiro-ministro daqueles dois impérios mundiais. Agora, com o advento de Ciro ao trono e o fim do cativeiro, encerrou-se a missão do céu confiada a Daniel — nas duas côrtes mundiais citadas. “Daniel era apenas de dezoito anos quando levado a uma côrte pagã a serviço do rei de Babilônia”.2 A altura do primeiro ano de Ciro alcançara êle a elevada idade de 88 anos. Até ao terceiro ano dêste monarca, em que teve êle sua última visão, completara a idade de 90 anos. Dai em diante a revelação silencia sôbre a história de Daniel, nada nos informando sôbre o seu destino. Possivelmente não voltou Daniel com os cativos a Jerusalém, favorecidos peto decreto de Ciro que lhes deu a liberdade. A tradição, porém, requer que êle morreu em Susa, onde lhe fôra erigido um suntuoso mausoléu que ainda hoje se conserva, sendo alvo de peregrinação e provàvelmente de turismo.

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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 488-490. Testimonies for the Church, E. G. White, Vol. IV, pág. 570.

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CAPÍTULO II
O IMPRESSIONANTE SONHO DOS IMPÉRIOS

Introdução A matéria inspirada dêste segundo capítulo, uma das mais fascinantes e dramáticas narrativas da revelação, encerra, em apenas quatro símbolos, a história política do mundo relativa a vinte e cinco séculos decorridos e ao estabelecimento duma nova ordem de paz e justiça na terra no futuro. No sétimo capítulo se nos apresenta a mesma matéria profética em símbolos diferentes e com algumas impressivas variantes em detalhes. Esta revelação, como apresentada nos emblemas do segundo capítulo, foi dada a um declarado pagão, ignorante do evangelho de Deus, totalmente leigo em revelações proféticas, símbolos proféticos e interpretação profética, alheio em absoluto às profecias inspiradas de Deus. Aquela do capítulo sete, porém, foi concedida a um dos profetas do Senhor, um homem familiarizado com a revelação do céu. Em ambas as exposições — capítulos dois e sete — Nabucodonosor, soberano do império mundial de Babilônia, estava e está representado por uma cabeça de ouro e por um leão-alado, respectivamente. Há, pois, uma razão lógica que levou Deus a revelar ao rei Nabucodonosor a futura história dos podêres do mundo como apresentada no segundo capítulo e não como apresentada no sétimo capítulo. Naquele capítulo êle é simbolizado no ouro, emblema da riqueza e da glória, e neste num leão, imagem da fôrça, de domínio implacável, de despotismo, de abjeto orgulho. Se Deus lhe houvesse dado a revelação que lhe deu como a temos no capítulo sete, êle teria ficado assombrado com o símbolo do terrível leão destruidor definindo a sua pessoa e a sua política como monarca da terra, e teria imediatamente se insurgido contra a inspiração e manifestado repulsa ao Deus de Israel, do qual Daniel era honrado representante em sua côrte. E isto muito embora fosse o leão representado na arte e na mitologia caldáica como imagem de poder.

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Nabucodonosor pretendia construir um grande império, ser um inigualável estadista real, amar seus súditos e prover- lhes todo o bemestar possível e a felicidade — e o capítulo quatro revela ter alcançado êste seu desejo. Fôsse êle revelado pela inspiração no símbolo de arrogante e destruidor leão, seria provocá-lo e repelir o próprio Deus e despertar-lhe animosidade e ira contra Seu povo, principalmente contra Daniel e seus companheiros que tinham altas funções em seu reino como embaixadores do céu. Eis, pois, a razão primária da revelação em duas séries de símbolos diferentes, sendo a primeira preferentemente dada ao rei Nabucodonosor, e a segunda ao mundo depois dêle. Deus estava procurando fazer de Nabucodonosor um testemunho vivo de Seu poder em todo o orbe. Disse-lhe Deus o sonho e sua interpretação como encontrado no sétimo capítulo, nada seria conseguido. Porém, em dar-lhe o sonho como exposto no capítulo dois, revelou Deus um tato especial para não exasperá-lo, e conseguiu dêle favorável impressão ao interpretá-lo Daniel e assegurar-lhe a honra de estar representado na cabeça de ouro da estátua de seu sonho. Semelhante a seus contemporâneos, Nabucodonosor cria em sonhos como um dos meios pelos quais os deuses revelavam os seus desejos aos homens. E, a divina sabedoria revelou-se ao grande rei no próprio terreno de sua crença dando-lhe um notável sonho inspirado. Deus sempre adata seu modo de operar em pról dos homens segundo a capacidade individual de cada um e as circunstâncias do tempo em que vivem. Assim agiu o Todo-poderoso em relação ao rei de Babilônia para dar-Se-lhe a conhecer bem como ganhar a sua confiança e assegurar a sua cooperação em promover o bem estar da família humana sob seu govêrno mundial invencível. Ao grande rei foi mostrado o curso da história como ordenado pelo Altíssimo e como efeito de Sua vontade. Foi-lhe referido o lugar de sua responsabilidade no grande plano do céu, a fim de que êle tivesse a oportunidade de cooperar efetivamente com o divino programa. Todavia, as lições da história dadas a Nabucodonosor, eram designadas a instruir tôdas as nações e todos os homens em eminência sôbre as massas até o fim do tempo. A tôdas as antigas potências assinalou Deus um lugar especial em Seu glorioso plano. Mas, quando governantes e povos falhavam em sua oportunidade, sua glória era reduzida a pó. E, as nações modernas, inclusas também no divino plano, devem dar ouvidos às lições da passada história e ao trato de 84

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Deus com os antigos povos e reconhecê-l’O como Pilôto-Chefe na marcha milenária das nacionalidades. Por outro lado, os símbolos das revelações em sonhos dos dois capítulos — 2 e 7 — decrescem de valor e evidentemente indicam a crescente estabilidade do poder do homem como governante. Daí a terrível política armada dos quatro impérios no antigo mundo, a fim de manter a autoridade e a submissão. E até os nossos dias a inglória e repelente história se repete, cujos atores são as grandes potências do século! É notável como Deus deu a um pagão a revelação da sucessão dos Impérios do mundo! Não quer isto dizer que o rei Nabucodonosor tenha recebido de Deus o Dom de Profecia — como Daniel — para poder obter a tão extraordinária revelação profética. Antes dêle outros personagens importantes receberam revelações de Deus em sonhos, sem a necessidade da antecipação do Dom de Profecia. Êles não foram chamados para exercerem o encargo de profetas. As revelações a êles dadas, como uma excessão, visaram, principalmente, dar-lhes certa medida de conhecimento de Deus e de seu poder, para que Seu povo não viesse a sofrer demasiadamente em suas mãos. Foram dados sonhos a Faraó1; a Abimelech, rei de Gerar2; a um soldado midianita3; ao copeiro e ao padeiro de Faraó4; a Labão5; aos magos que procuravam Jesus6; à mulher de Pilatos7. Nenhum dêstes personagens, porém, era profeta regularmente chamado por Deus para um tal ofício. Tão somente receberam mensagens ocasionais em virtude de certas circunstâncias reinantes, desfavoráveis aos filhos de Deus no mundo do passado. O capítulo dois de nossa consideração pode dividir-se nas seguintes partes: 1) O providencial esquecimento do sonho do rei por êle mesmo; 2) A derrota dos sábios de Babilônia em revelar o sonho ao rei; 3) O decreto de morte contra os embusteiros sábios; 4) A revelação do sonho numa visão a Daniel; 5) Daniel notifica o sonho ao soberano; 6) Os impérios do mundo no sonho da história; 7) O eterno reino de Deus no símbolo duma esmiuçante pedra.
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Gênesis 4:1-37. Gênesis 20:3-6. 3 Juízes 7:13-15. 4 Gênesis 40:5-22. 5 Gênesis 31:24-29. 6 S. Mateus 2:12. 7 S. Mateus 27:19.

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O rei Nabucodonosor ficou plenamente satisfeito. Como Daniel foi capaz de contar-lhe o sonho com todos os seus detalhes êle creu que sua interpretação era correta e a aceitou. Então o rei exaltou ao Deus de Israel como supremo Deus e engrandeceu o extraordinário jovem hebreu. I — O SONHO DO REI NABUCODONOSOR UMA PERTURBADORA NOITE REAL VERSO 1: — “E no segundo ano do reinado de Nabucodonosor teve Nabucodonosor uns sonhos; e o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o seu sono”. O SEGUNDO ANO DO REI NABUCODONOSOR Antes de empunhar propriamente o cétro real era Nabucodonosor rei co-regente com seu pai Nabopalosor. Porém, o tempo da coregência não era acrescido aos anos de reinado oficial de nenhum monarca oriental. O seu segundo ano como soberano absoluto referido por Daniel e como favorece tôda a revelação dêste capítulo, é o segundo ano de seu assento oficial no trono, ou seja o ano 604 a.C.. Posto que o ano de sua subida ao trono fôsse 606 a.C., não fôra êste incluído no cômputo dos anos oficiais de sua realeza. UM SONHO PERTURBADOR Na côrte do rei Nabucodonosor havia representantes de Deus pelos quais iria Êle comunicar-lhe o conhecimento de Sua pessoa suprema. Contudo, deu-lhe Deus, em Sua providência, duas revelações que o impressionaram sobremaneira, sendo a primeira um notável sonho que consideraremos na exposição dêste capítulo. O objetivo desta revelação ao monarca foi mostrar-lhe o poder de Deus e Seu controle sobre as nações do globo. Porém, ao acordar-se, altas horas da noite, seu espírito abateu-se sobremaneira, já pela magnitude do sonho, já por tê-lo esquecido totalmente. E naquela memorável e angustiante noite o soberano não mais pôde conciliar o sono. Todavia, uma forte impressão tomou conta de seus pensamentos e o perturbou sèriamente. Sua condição psíquica mudou incontinente e o abateu perigosa e sùbitamente. Presságios de graves acontecimentos o envolveram. Em nenhum sentido pôde recobrar, mesmo no mínimo, o que sonhara. Embora lutasse por algum tempo com os seus pensamentos na busca do esquecido sonho, tudo foi em vão. Seu 86

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esquecimento total era-lhe um impenetrável mistério, posto que sabia ter tido um grande sonho. Sem dúvida o seu absoluto esquecimento fôra providencial assim como o próprio sonho o fôra. Deus estava procurando revelar-Se ao rei Nabucodonosor, e em Seu plano sua mente foi fechada para a revelação depois de recebê-la. Oportunamente, um honrado porta-voz de Deus o visitaria em Seu nome e em Seu nome fa-lo-ía lembrar e dar-lhe-ía a sua respectiva e impressionante interpretação. Antes disso, porém, certas circunstâncias deveriam tomar lugar e encarregarem-se de preparar o caminho para tornar mais admirável o advento do mensageiro de Deus, dar um cunho mais solene à revelação esquecida e imprimir importância à sua significação fazendo-a acatável e aceitável por aquêle potentado. E tudo redundou segundo planejado pelo céu. UMA DIFICULDADE ESCLARECIDA Segundo atestado no primeiro capítulo, o curso de estudos na universidade da côrte de Babilônia, promovido pelo rei Nabucodonosor aos cativos de linhagem principesca, constou de três anos. Porém, no segundo ano de seu reinado, como verificamos, Nabucodonosor tivera o seu primeiro sonho e Daniel, que o revelara e interpretara, já era um dos sábios da côrte, tendo concluído os estudos prescritos de três anos naquela universidade. Urge então a pergunta: Uma vez que Daniel, ao comparecer diante do rei — no segundo ano de seu reinado — para revelar-lhe o sonho, já havia concluído o curso universitário de três anos, como harmonizar esses três anos com apenas os dois anos de reinado oficial de Nabucodonosor, sendo que êste rei ordenara a abertura das aulas da universidade imediatamente ao galgar o trono? Podemos esclarecer esta aparente dificuldade e removê-la, com a seguinte exposição: 1. Nabucodonosor subiu ao trono no ano 606 a.C., porém, não contou êste ano de sua ascenção como primeiro ano de reinado oficial, e sim o seguinte ano. Contudo, fora neste ano que êle abrira as aulas da universidade e tomara lugar o início do curso aludido de três anos. O terceiro ano ou conclusão do curso seria o ano 604. Todavia não foram três anos completos de estudos. 2. As antigas côrtes, embora não contassem como ano de seus reis o ano da ascenção, por ser incompleto, contavam, entretanto, como completos, os anos em que tomavam lugar suas façanhas de conquistas guerreiras e empreendimentos oficiais outros. Êste último 87

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mento ve erificamo nas cô os ôrtes de Judá e Israel. No segund I o do procedim livro do Reis, capítulo dezoito versículo nove e dez te os os emos um ma evidente prova. É dito ali que, no quarto ano do rei Ezequia de Jud e i a i as dá, que era o sétimo ano de Hoséias d Israel, Salmana H de azar, rei d Assíri da ia, cercou S Semária tomando depoi de três anos — no sex ano de o-a is s xto d Ezequias que era o nono ano de H s, o Hoséias. Vemos que os tr anos de q rês d cêrco im mposto a Semária foram p partes dos quarto ano de E Ezequias e sétimo a de H ano Hoséias, o quinto e o oita comp avo pletos e partes do os sexto e nono destes dois reis. Ve s erificamo que o aludido cêrco nã os ão rês exatos, ta alvez doi ou me is enos. Mas segund o mod s, do do durou tr anos e de comp putar o t tempo de certos eventos pelas an e ntigas côr rtes, com mo vimos — o cêrco de Semá durou três ano Ilustre o ária u os. emos aba aixo:

tro prende-se ao temp em qu Jesus estêve no sepulcr e po ue o ro. Out caso p O Senho mesmo dissera que per or o a rmanecer três di e três noites na ria ias s n 1 sepultura Mas em realidade Êle não est a. e teve três dias com mpletos no n sepulcro e até p o, parece qu nem m ue mesmo dois dias inteiros ali estêv d ve. Jesus f foi sepu ultado sexta-feir pouc s ra co antes do p s pôr-do-so ol; permane ecendo no sepulcr de Jos d’Arim o ro sé matéia ap penas um pequen ma na fração d tempo da sexta de a-feira, to o dia de Sába e cêrc de doz odo ado ca ze horas do primeir dia da semana. Temos aqui o mesmo cas exposto o ro a m so acima o obedecendo o me esmo co ostume da época como i d ilustrada a seguir.

esus que estaria t três dias e três noites no sepulcr n o ro, Ao dizer Je me oca omputar o tempo em trata ando-se de d seguiu o costum da épo de co aconteci imentos e especiais como de emonstram mos.
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S. M Mateus 12:40.

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O m mesmo princípio de côm p mputo do tempo decor d o rrido foi i em mpregado no caso dos t o três anos de estu s udos na universi idade de e B Babilônia, aliás, pa do a 606, todo o ano de 60 e parte do ano , arte ano a 05 o 60 — o s 04 segundo ano do re Nabuco a ei odonosor Ilustrem como segue: r. mos o

m , curso univ versitário de três a o anos com mpletado, , Assim Daniel, com o c se egundo v vimos no modo d contar o tempo naquela côrte e naquela o de r o a a es scola, pô comp ôde parecer d diante do rei de Babilôni como um dos o ia s re econhecid sábio do rein para revelar o sonho ao monarca dos os no, o a. A URGENTE C CONVOC CAÇÃO DOS SÁ ÁBIOS VERS 2: — “E o rei mandou chamar os magos e os astrólogos, SO o s, , e os encan ntadores, e os cald deus, para que dec a clarassem ao rei qual tinha m q a ido ram e se apresenta aram dian do rei”. nte si o seu sonho; e êles vier QUATRO ORDE Q O ENS DE SÁBIOS BABIL S LÔNIOS Convencido de haver recebido uma revelação de extrao d o ordinária a im mportânc e deci cia idido a av veriguar-lhe a nat tureza; em seu ab m batimento o po tê-la e or esquecido e em s angús por reavê-la novamen o rei o sua stia r nte, i N Nabucodo onosor le embrou-se de seu conse us elheiros — os sá ábios do o re eino. Era êles homens que pre am etendiam possuir sabedoria extrate errena cap de re paz esolver to odos os difíceis problemas mesmo os tidos d p s o s po mais impenetr or ráveis m mistérios pelo hom p mem com mum. Ce ertamente e er ram hom mens que se org e gulhavam da sab m bedoria q que pret tenderam m po ossuir e p certo respeitá por o áveis e co omulados de honr s rarias pel côrte e la pe mund em fo Deviam receb grand honor elo do ora. ber des rárias em face de m e tã elevad posiçã de sáb ão da ão bios que ocupavam No ve m. ersículo de nossa a co onsideraç ção são chamad dos: Ma agos, ast trólogos, encanta adores e ca aldeus: ” gicos” — espertos como s ó eles po odiam ser r 1. Os “magos” ou “mág — são ci itados on vêzes no Velho Testamento c nze s como sá ábios das s cô ôrtes do Egito e Bab o bilônia. Através de ceri A imônias e ritos s su upersticio osos tinh ham o ob bjetivo de fazer parecer que cria d avam ou u pr roduziam certas coisas pa agrad os re os se consu m ara dar eis, eus ulentes e 89 9

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confundir os opositores da côrte, inventando fantasiosas conclusões. No Egito chegaram dois dêles — Jannes e Jambres — a imitarem certos milagres de Moisés.1 No Nôvo Testamento lemos dum deles chamado Simão, tido por grande figura, sendo entretanto um finório espertalhão enganador.2 Um outro chamado Elymas, de Pafos, na ilha de Chipre, opôs-se a S. Paulo e foi severamente castigado por Deus.3 Em todo o tempo existiram êstes ludibriadores, não escapando dêles o próprio século XX — chamado das luzes — no qual proliferaram vastamente e se manifestam como importantes figuras capazes de grandes coisas, — mas trata-se dos mesmos embusteiros da antiguidade e de todo o passado, bastante camuflados com uma sabedoria que não possuem e até desconhecem. No derradeiro final da história da terra chegarão até a imitar a obra de Deus para enganarem as multidões afastando-as, em nome de Satanás, dos caminhos de Deus. 2. Os “astrólogos”, como os “magos” ou “mágicos”, contavam grande número principalmente em todo o antigo oriente. Cada potentado tinha muitos dêsses chamados sábios, bem como magos e outros, a seu serviço, e até mesmo seguiam-nos em suas campanhas. Seus conselhos eram procurados pelos reis em muitas circunstâncias, tais como a rota que deviam seguir em suas campanhas guerreiras ou a data propícia para atacar a seus inimigos. A vida dos reis era amplamente controlada e governada por tais homens. Cresso, o famoso rei da Líbia, consultou a seus astrólogos se seria ou não vitorioso sôbre Ciro. Responderam-lhe que êle destruiria um grande exército. Não definiram, porém, se destruiria o exército de Ciro ou o seu próprio. Dêste modo sempre se cumpriam os seus vaticínios: positiva ou negativamente. Seus conhecimentos de astronomia tinham atingido um surpreendente desenvolvimento. Eram capazes de predizer eclipses solar e lunar por computação, sendo altamente hábeis em matemática. Pràticamente eram os homens da ciência. Porém, eram mais engenhosos na ciência astrológica supersticiosa extensamente cultivada naquele passado pelas nações orientais. Eram especialmente os que hoje são chamados “astrônomos’’, com a diferença de que estudavam os astros, em geral, no sentido da superstição e da busca de predições doentias e escandalosas, enquanto os astrônomos de hoje
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Êxodo 7:11, 22; 5:7; II Timóteo 3:8. Atos 8:9-11. 3 Atos 13:4-12.

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estudam os astros para compreenderem as grandezas de Deus Todopoderoso. 3. Os “encantadores” — eram feiticeiros que, através de encantamentos ou artes mágicas, faziam as suas feitiçarias para encantar e arrebatar seus espectadores. Pretendiam adivinhar, ter comunicação com os mortos, predizer a sorte ou o destino das pessoas e resolver problemas e mistérios. Esta classe de remotos falsários muito desviou Israel de Deus.1 O mundo moderno está cheio destes chantagistas sem consciência que são especialistas em extorquir dinheiro das massas incautas. É o “professor” fulano, a “madame” fulana, que anunciam consultas através vasta propaganda, prometendo grande felicidade a seus consulentes apenas por alguns cruzeiros! Deus anuncia o ajuste em juízo com estes defraudadores que campeiam às soltas sem serem molestados pelos responsáveis zeladores da sociedade humana.2 Também contra os pregadores feiticeiros do cristianismo há uma conta a acertar.3 4. Os “caldeus” — constituíam a classe dos “doutos” de Babilônia, de todos os pretensos sábios, eram os mais togados da sabedoria da época, mestres em linguística e em ciências naturais. Eram eminentes em literatura e filosofia da universidade do reino. Podemos compará-los aos catedráticos de nosso século, os grandes “sapientes”. Conheciam também astronomia, e, a despeito de tôda a erudição de que eram grandes sumidades, davam-se também à magia e à astrologia supersticiosa da época. Em face da pretenção de alta sabedoria manifestada por estas várias classes de indivíduos, chamados sábios, era justo que o rei a elas recorresse, apelasse e confiasse a solução de seu problema. O rei não só apelou mas exigiu que o satisfizessem, em virtude de serem os sábios oficiais da côrte — que desvendavam e explicavam os mistérios e prediziam os acontecimentos — e ali estarem para tudo resolver segundo isto mesmo pretendiam. Todos êles compareceram unânimes perante o rei Nabucodonosor seguros de que dariam solução imediata ao seu problema — o sonho esquecido. O MANIFESTO COMEÇO DA DERROTA VERSOS 3-9: — “E o rei lhes disse: Tive um sonho; e para saber o sonho está perturbado o meu espírito. E os caldeus disseram ao rei em siríaco: O rei vive eternamente! Dize o sonho a teus servos, e

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Isaias 47:9, 12. Malaquias 3:5. 3 Apocalipse 18:23; 21:8.

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daremos a interpretação. Respondeu o rei, e disse aos caldeus: O que foi me tem escapado; se me não fizerdes saber o sonho e a sua interpretação, sereis despedaçados, e as vossas casas serão feitas um monturo; mas se vós me declarardes o sonho e a sua interpretação, recebereis de mim dons, e dádivas, e grandes honras; portanto declarai-me o sonho e a sua interpretação. Responderam segunda vez, e disseram: Diga o rei o sonho a seus servos, e daremos a sua interpretação. Respondeu o rei e disse: Percebo muito bem que vós quereis ganhar tempo; porque vêdes que o que eu sonhei me tem escapado. Por conseqüência, se me não fazeis saber o sonho, uma só sentença será a vossa; pois vós preparastes palavras mentirosas e perversas para as proferirdes na minha presença, até que se mude o tempo; portanto dizei-me o sonho, para que eu entenda que me podeis dar a sua interpretação”. UM ANGUSTIANTE DILEMA O rei Nabucodonosor foi logo expondo sua dificuldade aos sábios. Havia esquecido o seu sonho e os convocara para o ajudarem. O momento foi de temor àqueles homens que pretendiam tudo saber e solucionar. Jamais tiveram um problema semelhante a resolver. Não podiam enganar o rei referindo qualquer coisa em afirmativa do seu sonho, pois êle não aceitaria sinão a insofismável verdade, o monarca fora claro: “Portanto dizei-me o sonho, para que eu entenda que me podeis dar a sua interpretação”. Aliás, só confiaria na interpretação se lhe declarassem o sonho evidentemente exato. O dilema era extremo para aqueles embusteiros. Era a primeira vez que o grande rei os convocava para exigir-lhes a elucidação dum mistério. Fracassassem êles, confessariam incapacidade nas coisas ocultas e importantes, a despeito de se jatarem como únicos capazes de solucioná-las a tôdas. Grave era a situação em que foram envolvidos. O PRIMEIRO SINTOMA CERTO DA DERROTA Os chamados sábios não revelaram sabedoria ao responderem ao rei. Embaraçados com o inesperado caso, ficaram imediatamente transtornados e derrotados ante a exigência do soberano. Êle já lhes dissera ter esquecido o sonho e deles o exigia. Mas os filósofos e catedráticos caldeus, confessando aberta ignorância, assim responderam ao rei: “Dize o sonho a teus servos, e daremos a interpretação”. Aqueles enganadores dominavam a arte de obter suficientes informações em que basear alguns hábeis cálculos que lhes 92

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permitissem forjar respostas ambíguas e aplicáveis a quaisquer instâncias dos reis ou a quaisquer rumos que tomassem os acontecimentos. No caso de nossa consideração, fiéis a seus astutos instintos, pediram ao rei que lhes fizesse conhecer o sonho. Uma vez obtida essa informação, não seria difícil concordarem com alguma engenhosa interpretação que não fizesse perigar a reputação que enganosamente gozavam na côrte. Entre a firmeza do rei em exigir e não ceder a evasiva dêles em obter dêle o sonho, travara-se uma desesperada batalha em palácio. Os “sapientes” buscavam uma via de escape, posto que estavam presos em seu próprio terreno. O rei estava disposto a não capitular — uma coisa só e irrevogável requeria dêles: A revelação e interpretação do sonho. Alguns, ainda hoje, censuram severamente ao rei Nabucodonosor por sua severidade neste assunto e lhe achacam o papel de um cruel tirado e irracional. Porém, não asseveravam aqueles sábios poder revelar as coisas ocultas, predizer acontecimentos, dar a conhecer os mistérios que superavam completamente a previsão e a penetração humanas e fazê-lo com a ajuda de agentes sobrenaturais? Assim, não era, pois, injusto o pedido do monarca para que lhe revelassem o esquecido sonho e o interpretassem. Nabucodonosor ficou com justiça exasperado com a perfídia daqueles em quem tinha confiado. Os que pretendiam saber tudo revelaram não saber nada! Decepcionado o monarca com a impostura duma sabedoria “zero” nas coisas de vulto, agiu com justiça, decisão e firmeza. A AMEAÇA FATAL DO REI Os “caldeus” revelaram absoluta falta de tato ao tratarem com o rei. Arrogando esta erudição filosófica capaz de dar a todos os segrêdos um resultado positivo e satisfatório, agiram como crianças inexperientes e incapazes. Em vez de contornarem o caso levando-o a bom senso — expondo motivos e fazendo ponderações embora inaptos para o solucionarem — imprudentemente exasperaram e enfureceram o soberano que foi levado, ante a evasiva da resposta que deram, a decidir do imediato: Ou revelariam o sonho e sua interpretação ou seriam sumàriamente sentenciados à morte. Um tal ato era comum no mundo antigo. Assírios e babilônios eram notórios pela severidade aplicada a seus ofensores. De Assurbanipal é dito ter cortado em pedaços governadores vassalos rebeldes. Ciro, diz-se, mandou cortar o nariz a um povo inteiro. 93

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Pudessem os sábios, porventura, satisfazer o rei, dissera-lhes êle, seriam grandemente honrados. Nabucodonosor não requereu mais do que êles próprios anunciavam ser capazes. Estavam agora sob um teste decisivo. Ou seriam confirmados como verdadeiros sábios ou como verdadeiros charlatães analfabetos em sabedoria. Ou manteriam a confiança da côrte ou seriam por ela declarados astutos falsários. Ou continuariam merecendo a alta honra de sábios ou seriam destituídos dêste pôsto oficial no reino. Ou prosseguiriam tendo o privilégio da vida ou seriam privados dela pela sentença de morte. Êles deviam decidir que escolha fariam, que destino tomariam. O rei colocou-os entre a faca e a parede, entre a vida e a morte. O DESFÊCHO DA CRISE Novamente insistem os “caldeus” na mesma tecla: “Diga o rei o sonho a seus servos, e daremos a interpretação”. Esta imprudência revelou aberto nervosismo e declarado desespero de causa. Era a aceitação, em definitivo, da derrota, a confirmação da ignorância, a revelação da farça duma sabedoria embusteira, o temor da descoberta do charlatanismo que lhes era próprio, o receio da perda da influência como sumidades em matéria de mistérios e ocultismo, o rei, porém, não se deixou levar pela lábia dos desmascarados hipócritas derrotados. Firme e inflexível em seu requerimento, iria a ponto de justiçá-los se não se revelassem capazes agora, como sempre arrogavam em todos os casos e circunstâncias. O soberano percebera a manha. Abrem-se-lhe os olhos quanto aos limites dêsses parasitas palacianos. Procuravam “ganhar tempo”, até que por fim êle desistisse de seu invulgar pedido, se acalmasse e revogasse a sua ameaça fatal. Mas Nabucodonosor não se deixa ludibriar. É surpreendente que nêste extranho caso parece que só os “caldeus” tinham um pouco de coragem para se aventurarem a falar ao rei! Os demais “sabichões” não se manifestavam dando opinião. Ficaram neutros. O terror imposto pelo descontrole da classe mais alta deixou-os espavoridos e puzeram suas barbas de môlho, — o silêncio lhes era ouro antes de precipitar mais a crise com declarações que bem sabiam não seriam aceitas pelo irado monarca, antes complicariam mais o caso e ratificariam a ignorância e o embuste de que eram mestres. O rei Nabucodonosor permaneceu inflexível em sua ameaça extrema. E isto ainda mais por ter percebido, pela insuficiência dos “sapientes”, que já tinham preparado perversas mentiras para 94

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proferirem como interpretação, caso êle lhes pudesse contar o sonho. Mas o soberano insiste: quer a revelação do sonho e a sua interpretação — ou a vida de todos êles como enganadores evidentes. A CONSUMAÇÃO DA DERROTA VERSOS 10-11: — “Responderam os caldeus na presença do rei, e disseram: Não há ninguém sôbre a terra que possa declarar a palavra ao rei: pois nenhum rei há, senhor ou dominador, que requeira coisa semelhante dalgum mago, ou astrólogo ou caldeu. Porquanto a coisa que o rei requer é difícil e ninguém há que a possa declarar diante do rei, senão os deuses, cuja morada não é com a carne”. O REI É ACUSADO DE INJUSTO Os “caldeus” ainda com a palavra! Temerosos das consequências do seu fracasso, empenharam-se em mostrar ao rei que seu pedido era irrazoável, que o que êle requeria estava além de tôda a possibilidade. Confessaram que nem êles nem ninguém mais na terra era capaz de revelar o sonho ao rei. Fundados na ignorância de que eram peritos — embora nisso não crescem — incluem todos os demais mortais no mesmo ról e no mesmo nível. Êstes “eruditos” são assim: Quando derrotados naquilo que pretendem ser os supremos mestres, então incluem a todos na mesma derrota. Não sabendo êles, ninguém mais na terra ou no universo o saberá! Acusaram a Nabucodonosor de absoluto injusto. Nenhum outro rei, disseram, jamais requereu tal coisa de um sábio seu — mágico, astrólogo, encantador, ou caldeu. Isto foi o fim. Esta injusta acusação ao rei liquidou-os duma vez. Nada sabiam mais, com relação às coisas importantes — naturais ou sobrenaturais — do que todos os mortais da época. Eram pagos pelo reino para mentir e ludibriar. O rei ficou enojado daqueles falsários e espertalhões. Viu que êle e todo o seu povo eram vítimas de constantes enganos bem pagos com o ouro do reino. A repercussão do incidente alcançou, seguramente, os mais distantes rincões do inteiro reino, e deu motivo aos mais variados comentários. Os “sábios” do Egito, da Grécia, e de outras nações certamente puzeram suas barbas de môlho com a atitude do rei Nabucodonosor! Aqueles chamados sábios pretendiam comunicação com os deuses. Todavia, a declaração que a final fizeram, premidos pela inflexibilidade do rei, — que só “os deuses cuja morada não é com a 95

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carne” poderiam satisfazê-lo, era uma tácita confissão de que não tinham nenhuma comunicação com esses deuses, que a idolatria é um sistema vão de culto e que não possuíam mais sabedoria do que a que se poderia adquirir na esfera da terra em que viviam. Fôra abaixo a farsa e a máscara é por fim descerrada; a derrota foi consumada em franca confissão de incapacidade. Cái assim vencida e desmascarada diante da revelação do céu, dada ao Rei Nabucodonosor, a falsa filosofia, a especulativa ciência e as enganosas comunicações com o ocultismo e com o além. Também no Egito foram desmascarados os sábios de Faraó diante da revelação divina.1 E, ainda hoje, estas falcatruas de Satanás que são mais abundantes e mais disfarçadas que na antiguidade, são declaradas obras do demônio e do engano camufladas pela “toga” e pela “vidência”. Nossa civilização, em matéria de superstição, não está aquém daquela de que tratamos. Em tôdas as nações campeiam os ludibriadores do mesmo gênero com ampla propaganda, chegando a darem audições em teatro para difundirem suas falcatruas com entradas bem pagas. E os que governam nada fazem para livrar a civilização dêste charlatanismo estorsivo e vergonhoso. A INEXORÁVEL SENTENÇA FATAL VERSOS 12-13: — “Então o rei muito se irou e enfureceu; e ordenou que matassem a todos os sábios de Babilônia. E saiu o decreto, segundo o qual deviam ser mortos os sábios; e buscarem a Daniel e aos seus companheiros, para que fôssem mortos”. A revelada falsidade de que eram senhores sob o manto de “sábios” e a acusação de injustiça que jogaram contra o rei em requerer dêles o que requereu, enfureceram sobremaneira o soberano. O assunto estava encerrado e a sentença de morte foi incontinentemente decretada. Ainda que não podemos justificar a extrema medida de que se valeu o monarca, incluso a liquidação dos próprios lares daqueles homens ou de seus familiares, não podemos, entretanto, deixar de nos simpatizar com a medida fatal o que recorreu contra aquela classe de miseráveis impostores. A evidente falta de honradez e o mistificado engano — o rei não podia de modo algum tolerar. Diz um corriqueiro ditado: “O cão tanto vai ao moinho que um dia deixa o focinho”. Os chamados sábios de Babilônia tanto se arriscaram a enganar que um dia foram flagrantemente descobertos e punidos.
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Gênesis 41:8.

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O rei Nabucodonosor teve a coragem de dar o golpe naqueles tipos de ladrões legalizados pela própria côrte que recebeu de seu pai. Quão diferente são os fracos governantes do mundo moderno — do século das luzes — que consentem a ludibriadores idênticos a proliferarem livremente por tôda a parte, estorquindo o povo com crassas mentiras semelhantes. Quais piratas legalizados, aí estão ostensivamente exercendo a inglória profissão dos falsários de Babilônia e fazendo ampla propaganda do engano vendido por dinheiro como se fôra virtude. E ninguém os incomoda ou com êles se importa! Não há lei no mundo moderno contra êste tipo de chantagem e franca ladroeira! Entre os que deviam morrer estavam Daniel e seus três companheiros que para tal foram buscados. Isto prova que já haviam concluído os três anos de estudos como dissemos e que eram considerados pelo rei no ról dos sábios da realeza. O rei que declarara Daniel dez vêzes mais sábio que todos os sábios do reino, não notara a sua ausência entre os sábios que convocara à sua presença. Providencialmente êle não se juntou com aquela quadrilha de falsificadores e nem foi sua ausência notada pelo rei, posto que o maior e o verdadeiro único sábio daquela côrte. A verdade não tem parceria com o êrro. Houvesse Daniel comparecido conjuntamente com aqueles dissimuladores, teria passado por um dêles e desonraria ao Deus de Israel do qual êle era ali embaixador. Ficaria assim encoberto o embuste dos pretensos sábios, pois Daniel resolveria o problema e o engano da falsa sabedoria ficaria encoberto no manto da divina sabedoria. Mais adiante veremos razões maiores porque Daniel esteve ausente naquela dramática emergência. DANIEL EM PALÁCIO VERSOS 14-16: — “Então Daniel falou avisada e prudentemente a Arioch, capitão da guarda do rei, que tinha saído para matar os sábios de Babilônia. Respondeu, e disse a Arioch, prefeito do rei: Por que se apressa tanto o mandado da parte do rei? Então Arioch explicou o caso a Daniel. Daniel entrou; e pediu ao rei que lhe desse tempo, para que pudesse dar a interpretação”. PRUDÊNCIA EM FACE DO PERIGO Arioch informou a Daniel que, de acordo ao decreto real êle e seus três companheiros deveriam também morrer. Seus nomes figuravam no macabro decreto. Daniel, porém, que tomou a frente do 97

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grupo dos servos de Deus, não se intimidou. Êle sabia como agir naquele grave momento. Posto que em plena juventude de seus vinte anos, sabia em quem confiava. Com cautela e prudência pôs-se em campo imediatamente e interrogou de frente a Arioch: “Por que se apressa tanto o mandado da parte do rei?” “Arioch contou-lhe a história da perplexidade do rei a respeito do seu notável sonho, e seu fracasso no sentido de conseguir auxílio da parte daqueles que até então tinham desfrutado sua mais plena confiança. Depois de ouvir isto, Daniel, tomando sua vida em suas mãos, aventurou-se a ir à presença do rei, e rogou-lhe tempo, para que pudesse suplicar ao seu Deus que lhe revelasse o sonho e a sua interpretação”.1 Estupendo contraste! Antes de Daniel estiveram diante do rei homens já idosos, de má cara, trementes, revelando o engano e o embuste nos próprios traços fisionômicos. Agora tem o rei diante de si um homem em plena exuberante juventude, revelando destemor, serenidade, coragem e confiança num Rei maior do que o que tinha diante de si. O rei de Babilônia, abatido pela flagrante derrota de seus arrogantes, analfabetos e falsários “sábios”, e pela insultante vergonha que causaram à sua côrte revelando nada saberem, e manifestando ainda o seu furor contra a enganosa impostura de que fôra vítima, ficou entretanto cativo do jovem sábio que agora comparece à sua presença: Era belo e educado, cortez, intrépido e príncipe. E, já que o simpático moço não lhe suplica que conte o seu sonho, mas lhe roga a concessão de um prazo para revelá-lo e interpretá-lo, anuiu ao pedido, creu em sua sinceridade e confiou que o satisfaria plenamente. Nabucodonosor simpatizou-se com Daniel e atendeu porque Deus tocou o seu coração. Dissera Salomão nos seus dias: “Como ribeiro dáguas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina”.2 Houvesse o rei pedido desde o começo a Daniel — por êle próprio considerado como o sábio dos sábios da côrte — que lhe fizesse conhecer o assunto, deveras os sábios de Babilônia não teriam sido provados e continuariam passando por verdadeiros às custas de Daniel. Mas a mão de Deus preferiu que aqueles enganadores pagãos comparecessem primeiro. Queria que confessassem o fracasso, a incompetência e o analfabetismo que lhes era próprio, — em face da legitimidade da divina inspiração — ficando assim preparado o
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 493. Provérbios 21:1.

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caminho para o triunfo de Sua Majestade celestial através da manifestação de Sua suprema sabedoria e poder pelo testemunho de Seu cativo servo, a quem dera o Dom de saber discernir e revelar o sobrenatural. Os sábios derrotados dariam qualquer interpretação na hora caso o rei lhes contasse o sonho. Espavoridos, porém, a intransigência do soberano e sua ameaça de morte, não lhes ocorreu solicitarem-lhe, como o fez Daniel, um prazo para buscarem de seus deuses a solução do problema. Certamente êles mesmos não criam nos seus pretendidos deuses! Transpareciam professá-los e os invocavam simplesmente como base fingida de seus ludíbrios. Não estavam preparados para tratar com o rei Nabucodonosor. A inflexibilidade do monarca no que dêles requeria os desarticulou e tirou-lhes a visão para enfrentarem-no sem irritá-lo. Imprudentes em exigir que o rei lhes contasse o sonho — o qual dissera claramente no início tê-lo esquecido — precipitaram uma fatal crise que, se não houvessem perdido o senso do tato, poderiam tê-la evitado ainda que não dessem a solução exigida pelo rei. Sim, êles não souberam contornar a crise. Daniel, porém, sem precipitação e com fino tato, compareceu em palácio, não para revelar imediatamente o sonho ao rei, mas para solicitar-lhe tempo para o fazer, e foi bem claro em informar ao soberano — que buscaria de seu Deus a solução do mistério. SUPLICANDO A MISERICÓRDIA DE DEUS VERSOS 17-18: — “Então Daniel foi para a sua casa, e fez saber o caso a Hananias, Misael e Azarias, seus companheiros, para que pedissem misericórdia ao Deus do céu, sôbre êste segrêdo, afim de que Daniel e seus companheiros não perecessem, com o resto dos sábios de Babilônia”. UMA REUNIÃO DE ORAÇÃO Do palácio vai Daniel às pressas para a sua casa. Ali o aguardavam seus amados companheiros anciosos pelos resultados de sua entrevista com o rei. Êles já estavam orando fervorosamente em súplica do favor de Deus pelo êxito de seu encontro com o monarca. E o regresso de Daniel os alentou. Êle notificou-os de tudo o que se passava e propõe-lhes uma reunião especial de oração em procura do auxílio de Deus e de Sua misericórdia. Conjuntamente examinaram o problema do rei e a perigosa situação que os envolvia. Por sabedoria humana sabiam que nada poderiam fazer para diminuir a ira de 99

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Nabucodonosor e dissuadí-lo a revogar o decreto de chacina. A única salvaguarda estava em Deus e Sua graça. “Juntos buscaram sabedoria da Fonte de luz e conhecimento. Sua fé era forte na certeza de que Deus tinha-os colocado onde estavam, que êles estavam fazendo a Sua obra e cumprindo os reclamos do dever. Em tempo de perplexidade e perigo tinham-se voltado sempre para Êle em busca de guia e proteção, e Êle Se mostrara um auxílio sempre presente. Agora com coração contrito submetiam-se de novo ao Juiz da Terra, implorando que lhes desse livramento nêste tempo de especial necessidade. E êles não suplicaram em vão”.1 Desconhecemos totalmente os termos das orações de Daniel, Hananias, Misael e Azarias, naquela circunstância. Cremos, todavia, que foram orações permanentes, angustiosas e confiantes. Naquele difícil transe em que suas vidas estavam em risco, atacaram o gigantesco problema com as poderosas armas da fé e da oração, e ganharam a vitória e com ela a vida. Não era a primeira vez que oravam com fervor a Deus e confiança no divino poder. A vida gloriosa que viviam naquela corrupta côrte e naquela ímpia cidade, era resultante de poderosas orações e viva fé. Ser-lhes-ia certamente um vexame terem de sofrer a pena capital também como embusteiros, e o nome de Deus de Israel ser com isso desonrado, pelo que lançaram mão da divina graça e as suas potentes súplicas atingiram o trôno do Onipotente e receberam uma positiva resposta imediata. O SEGRÊDO É REVELADO A DANIEL VERSO 19: — “Então foi revelado o segrêdo a Daniel numa visão de noite: então Daniel louvou o Deus do céu”. “Numa visão de noite”, aliás, num inspirado sonho, “foi revelado o segrêdo a Daniel”. Era a primeira vez que através dêle se manifestava o Dom de Profecia. Estava, pois, ganha a vitória sôbre o problema do rei de Babilônia e debelada a angustiante crise. Estava ganha a vida para os servos de Deus e mesmo para os sábios que, àquela altura, estavam apavorados de terror pelo funesto decreto que, sem que esperassem jamais, iria agora ser revogado. O regozijo dos quatro jovens foi sem limites. O poderoso Deus de Israel que os conduzira àquela côrte como Seus honrados representantes, não os deixaria vitimar por tão grande injustiça.

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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 493, 494.

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AÇÕES DE GRAÇAS ASCENDEM AO CÉU VERSOS 20-23: “Falou Daniel, e disse: Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque dêle é a sabedoria e a fôrça; e Êle muda os tempos e as horas; Êle remove os reis e estabelece os reis; Êle dá sabedoria aos sábios e ciência aos entendidos. Êle revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com Êle mora a luz. Ó Deus de meus pais, eu Te louvo e celebro porque me deste sabedoria e fôrça; e agora me fizeste saber o que te pedimos, porque nós fizeste saber êste assunto do rei”. O primeiro ato de Daniel, antes de comparecer novamente em palácio para informar o rei Nabucodonosor de seu sonho, foi agradecer e louvar a Deus pela revelação recebida. Sua oração de ação de graças foi um reconhecimento da supremacia de Deus. Esta oração deve ser lida e meditada pelos chamados sábios modernos e pelos governantes do mundo atual, que não pensam e não crêem no poder do Altíssimo e Todo-poderoso Deus do universo. Nada sendo ante o único e infinito poder, contudo em seu orgulho e vaidade se insurgem contra os mandos daquele que é o legítimo Senhor do domínio da terra. DANIEL NOVAMENTE COM ARIOCH VERSO 24: — “Por isso Daniel foi ter com Arioch, ao qual o rei tinha constituído para matar os sábios de Babilônia: entrou, e disse assim: Não mates os sábios de Babilônia; introduze-me na presença do rei, e darei ao rei a interpretação”. NÃO MATES OS SÁBIOS DE BABILÔNIA De posse do sonho do rei e sua interpretação, apressou-se Daniel em encontrar-se com Arioch, o carrasco oficial do monarca para a matança dos sábios. Sua primeira preocupação foi salvar os condenados: “Não mates os sábios de Babilônia”, apela a Arioch. Estupendo testemunho preservado pela inspiração de um jovem temente a Deus! O decreto foi imediatamente suspenso até que fôsse constatada a capacidade de Daniel em desvendar o misterioso sonho do rei. Verdadeiramente, “por meio de Daniel salvou Deus a vida de todos os sábios de Babilônia”.1 Fôra Satanás que inspirara o rei
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Atos dos Apóstolos, E. G. White, pág. 13.

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Nabucodonosor a decretar a morte dos sábios do reino para que entre êles fossem mortos também Daniel e seus companheiros. Os jovens hebreus eram um perigo aos planos do inimigo do direito naquela côrte que estava sob o seu controle. Satanás estaria disposto a matar até milhares de seus próprios agentes, contanto que aqueles quatro servos de Deus fossem eliminados entre êles. Êle sabia prover outros tantos falsários que se prestassem bem a seus satânicos fins. Mas tudo saiu ao contrário do que o adversário planejara. Fracasso idêntico verificou-se na trama para eliminar mais tarde Daniel na cova dos leões. Assim o ardil de Satanás não só foi frústrado, como serviu para dar mais realce do propósito de Deus. Todavia aqueles sábios foram salvos porque havia na côrte de Babilônia um corajoso e fiel jovem servo de Deus. A êle deviam êles agora a própria vida. Por causa de Paulo e Silas foram salvos o carcereiro de Felipe e todos os presos, e mais tarde todos quantos navegavam com o grande apóstolo foram também salvos da morte certa, por naufrágio, graças à sua presença entre êles.1 Foi a presença de José com seus bons planos no Egito que, salvou aquele reino da catástrofe da morte por inanição.2 Em todos os tempos têem os ímpios se beneficiado pela presença dos justos. O mesmo dizemos especialmente de nossa atual civilização. Por amor ao povo de Deus ela ainda existe embora seus pecados se tenham acumulado até aos céus. Quão grata devia sê-lhe, pois, pela presença dos poucos justos que permanecem em seu meio! Se nenhum justo em seu meio mais houvesse, já há muito que teria ela sucumbido. Ao separar-se Noé da civilização de seu tempo, entrando na arca que o salvaria com sua família, todos os ímpios pereceram por um dilúvio de águas.3 Ao ser tirado Ló de Sodoma, a cidade foi envolta por dilúvio de fogo e enxofre.4 De igual modo, ao serem tirado logo os justos do mundo atual pelo segundo advento de Cristo, a nossa pecadora e ímpia civilização totalmente perecerá para sempre. Deviam, os ímpios, pois, ter como preciosa a presença dos justos com êles. Tôdas as bênçãos dos céus que ainda desfrutam, incluso a vida, resultam da presença dos servos de Deus no mundo. Por meio dos Seus fiéis amados Deus os abençoa e lhes dá a oportunidade de O conhecerem e O servirem
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Atos 16:27-30; 27:21-25. Gênesis 41:38-57. 3 Gênesis 7:1-24. 4 Gênesis 18:23-33; 19:1-29.

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para que se tornem também justos e sejam salvos. Porém, lamentavelmente os justos sofrem em meio aos ímpios embora entre êles sejam como um salva-vida. Todavia o dia aproxima-se quando o impenitente reconhecerá tardiamente a bênção que fôra o justo em sua presença, mas o regeitou. ARIOCH AGE COM PRESTESA VERSO 25: — “Então Arioch depressa introduziu Daniel na presença do rei, e disse-lhe assim: Achei um dentre os filhos dos cativos de Judá, o qual fará saber ao rei a interpretação. Arioch introduz Daniel a tôda pressa à presença de Nabucodonosor. Uma urgente solução do mistério poderia resultar na imediata revogação do decreto de execução dos sábios, suspenso até à exposição de Daniel. Arioch, porém, para se fazer agradável ao rei e merecer a sua simpatia como alguém sempre interessado por soluções positivas dos problemas do reino, vai dizendo logo ter encontrado um homem capaz de satisfazê-lo. Faltou, porém, êste oficial com a palavra! Êle achara Daniel somente quando o buscara para ser morto. Fôra Daniel que lhe rogara que o introduzisse à presença do rei Nabucodonosor, ao qual pedira um praso para revelar o segrêdo. O próprio rei pôde constatar a premeditada inverdade de Arioch. Mas, êle quiz fazer-se aceitável diante do potentado do mundo e daí ter lançado mão dum inglório expediente para adulá-lo e bajulá-lo. Arioch apresenta Daniel ao rei como se êste não o conhecera antes. Esta apresentação fôra um calculado passo seu em fazer-se passar como o homem que por seus próprios esforços, descobrira um sábio para tornar claro o enigma em foco e tirar o rei de seu aflitivo impasse, — com isso pretendendo assegurar a si, como oficial da côrte, o favor de sua alteza real. Lamentavelmente, todavia, Arioch apresenta a Daniel como “um dentre os filhos dos cativos de Judá”, e não como um grande sábio, — como aquele que fôra declarado “dez vêzes mais” sábio que todos os demais sábios da terra. Também o ímpio Belshazar, mais tarde, só vira em Daniel um “dos cativos de Judá”.1 Daniel, porém, não era um cativo. Cativo é aquele que está prêso, algemado pelo pecado, como o estava Arioch e também Nabucodonosor, Belshazar e todos os cortezões de Babilônia. Ninguém mais livre do que Daniel. Embora fôsse, é bem de ver, fisicamente em cativo político e social, não o era no sentido espiritual,
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Daniel 5:13.

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em que milhões são verdadeiramente cativos. Contudo Arioch, êste verdadeiro cativo, afirma a Nabucodonosor de Daniel: “O qual fará saber ao rei a sua interpretação”. — Sim, eu garanto que êle resolverá o problema de vossa majestade — e lá se foi mais uma bajulação na carga de Daniel! Quão feio e quão ridículo é o vício hipócrita da bajulação! Ela, que como estamos vendo vem de longe, é própria dos deseducados e ridículos do que dos homens de peso e de caráter. DANIEL EM PRESENÇA DO REI VERSOS 26-28: — “Respondeu o rei, e disse a Daniel (cujo nome era Belteshazzar): Podes tú fazer-me saber o sonho que vi e a sua interpretação? Respondeu Daniel na presença do rei, e disse: o segrêdo que o rei requer, nem sábios, nem astrólogos, nem magos, nem adivinhos o podem descobrir ao rei; mas há um Deus nos céus, o qual revela os segredos; êle pois fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser no fim dos dias; o teu sonho e as visões da tua cabeça na tua cama são estas:” NABUCODONOSOR PARECE DUVIDAR Daniel permaneceu calmo e senhor de si na presença do maior monarca do mais poderoso império do mundo. As primeiras palavras que dirigira o rei foram indagatórias de sua capacidade para notificá-lo do sonho e sua interpretação. Daniel já lhe havia solicitado um praso para revelar-lhe o segrêdo e certamente o faria. Pouco tempo antes, havia êle sido declarado pelo próprio soberano um dos hebreus dez vêzes mais sábios que todos os chamados sábios do mundo. Entretanto, pareceu duvidar das suas possibilidades. Uma vez que os tidos como lúcidos e veneráveis sábios anciãos haviam sido derrotados ante aquele mistério, que poderia fazer êste jovem de apenas vinte anos de idade? Teria sabedoria capaz de solver tão grande enigma? Nabucodonosor tinha razão em desconfiar da aptidão de Daniel. A decepção que lhe causara aqueles sábios levou-o a desconfiar de todos quantos porventura se apresentassem com a pretenção de sapiência — mesmo extra-terrena. EXALTANDO A DEUS E SUA SABEDORIA Em resposta ao rei Daniel fôra franco em dizer logo que o seu segrêdo não era para a espécie de sábios da sua côrte. Não devia, pois, 104

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confiar em suas enganosas superstições como revelações de grande sabedoria, e nem irar-se contra tais analfabetos em coisas importantes, pois eram incompetentes confessos diante delas. Esta introdução do servo de Deus — uma indireta bastante clara podia ter do pronto confirmado os pensamentos do monarca também contra si mesmo, visto que começou por dizer que nenhum sábio terreno poderia ajudálo a lembrar o esquecido sonho, e êle era considerado um do ról daqueles sábios. Porém, o que Daniel dissera a seguir, não só confirmou a incapacidade dos sábios do rei como liquidou suas dúvidas e lhe deu esperança. Em suas primeiras palavras Daniel recusou honra para si mesmo, e exaltou a Deus, dizendo: “Há um Deus no céu”. Essa declaração pôs abaixo a crença em mais do que um Deus. Os deuses de Babilônia são assim reduzidos a meras superstições de feitio humano e de nenhum valor. Isto devia ter surpreendido a Nabucodonosor cujo nome enlaçava-se a seu predileto deus supremo do reino. Tôda a desgraça da raça humana repousa no abandono do único Deus verdadeiro para venerar deuses fictícios. Todos os desrespeitos e deboches da civilização de todos os tempos têem como causa a recusa do “Deus do céu”, o Creador de tôdas as coisas. Adorassem os homens em todos os séculos o Supremo e Absoluto Deus, não pensariam jamais em adorar e prestar culto a deuses — imagens — feitos por mãos humanas. Desgraçadamente, a civilização do presente século, chamada “das luzes”, vive em grande parte sumida na mais compacta escuridão em matéria de fé e crença, adorando e curvando-se ante aquilo que não é Deus, mas inferior ao próprio homem que a inventa e o faz. Mas Daniel declarou corajosamente ao idólatra rei de Babilônia, que há um só Deus, e que todos os demais chamados deuses são meras superstições pagãs sem qualquer valor. DEUS — O AUTOR DO SONHO DO REI Solenemente afirma Daniel ao monarca que seu sonho fôra uma revelação do Deus dos céus, o Deus de Israel. O rei julgava que os seus deuses haviam vencido o Deus israelita. Agora, todavia, Êle lhe dá um comunicado pelo qual revela a Sua supremacia, Seu invencível poder no céu e na terra. Não fôra audácia de Daniel em arrazar indiretamente com os deuses de Babilônia e exaltar o Deus de Israel como Deus único, pois o próprio rei, com a interpretação do sonho, seria abalado em suas supersticiosas convicções no poder de seus deuses pagãos. Segundo as declarações iniciais de Daniel ao soberano, 105

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o memorável sonho inspirado continha a anunciação de todos os grandes eventos futuros da história até ao “fim dos dias”. Qual a razão, porém, que levou Deus a notificar antecipadamente a Nabucodonosor o futuro das nacionalidades? Em primeiro lugar, para informá-lo do seu grave êrro e vã pretenção de que a história seria invariável, isto é, que Babilônia continuaria eterna dominadora na terra; em segundo lugar, para demonstrar a todos os futuros governantes do glôbo quão efêmero é o cêtro do poder humano; em terceiro lugar, para comprovar que Deus é quem tem o leme do poder em Suas mãos e que Êle é quem põe e depõe os governantes das nações e as próprias nações. Assim que, o sonho visou mostrar ao monarca de Babilônia e a todos os potentados do mundo de todos os séculos futuros, principalmente aos do “fim dos dias”, — que os reinos terrestres são simplesmente temporais, têem limitada duração e que o reino de Deus é o único que tem estabilidade, e o único que permanece para sempre. A RESPOSTA AOS PENSAMENTOS DO REI VERSOS 29-30: — “Estando tu, ó rei, na tua cama, subiram os teus pensamentos ao que há de ser depois disto. Aquele pois que revela os segredos te fez saber o que há de ser. E a mim me foi revelado êste segrêdo, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e para que entendesses os pensamentos do teu coração”. QUE HAVERÁ DEPOIS DISTO? Ao contrário de outros mandatários da terra-passados e presentes — o rei Nabucodonosor preocupou-se seriamente com o futuro. Depois de elevar sua realeza ao cume do poder e da glória terrenais, de fazer de sua capital a mais notável cidade de todos os tempos, desejou saber do futuro. Como vimos, cria êle sinceramente que Babilônia e os caldeus manteriam o cêtro do poder pelos séculos sem fim. Mas queria saber como os seus compatriotas governariam a realeza que êle fundou e elevou à suprema grandeza política sôbre todas as nações de seu tempo. E, naquela memorável noite, ao adormecer êle com êstes anciosos pensamentos, Deus lhe mostrou o anelado futuro, não só de seu reinado e de seu povo, como de todos os reinos e civilizações por vir. Especialmente notificou-o Deus de que em tôda a terra se implantaria, “no fim dos dias”, o reino de Seu Filho — nosso Senhor Jesus Cristo. 106

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UM SÁBIO REVELA HUMILDADE Através da revelação que lhe déra, Deus ligou o rei Nabucodonosor diretamente com Seu povo. Um de Seus dignos representantes lhe faria conhecer o inspirado sonho e sua impressionante interpretação. O mesmo sucedeu a Faraó ao receber também sonhos inspirados no tempo de José.1 Mas Daniel, embora grandemente honrado como embaixador do céu para revelar aquilo em que todos os sábios da terra falharam, não tomou o elevado mérito como fundamento de exaltação própria. Tão pouco jatou-se de comparecer diante do rei do mundo para declarar-lhe o sonho esquecido — por sua própria sabedoria. Êle esvasiou-se de todo o orgulho e exaltação e deu tôda a honra e sabedoria da revelação a Deus. O mesmo fez José ao ser convocado por Faraó para interpretar seus inspirados sonhos.2 Chegou a dizer Daniel, o humilde homem, — grande, porém, aos olhos de Deus, que nêle não havia mais sabedoria do que em qualquer outro mortal. Contudo, diz êle, o rei devia, pela interpretação do sonho, entender, “os pensamentos” do seu coração — aqueles pensamentos com os quais adormecera e o impressionaram seriamente com o futuro de sua grandiosa realeza. E não deixou Daniel nenhum sinal a que pensasse o rei ter sido êle — como maior potentado da terra — honrado por Deus com aquela revelação, senão sòmente entender os seus pensamentos quanto ao futuro da história política do mundo. O SONHO DO PODEROSO REI VERSOS 31-36: — “Tú, ó rei, estavas vendo, e eis aqui uma grande estátua; esta estátua, que era grande e cujo esplendor era excelente, estava em pé diante de ti; e a sua vista era terrível. A cabeça daquela estátua era de ouro fino; o seu peito e os seus braços de prata; o seu ventre e as suas coxas de cobre; as pernas de ferro; os seus pés em parte de ferro e em parte de barro. Estavam vendo isto, quando uma pedra foi cortada, sem mão, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro, e os esmiuçou. Então foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o cobre, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a pragana das eiras no estio, e o vento os levou, e não se achou lugar algum para êles; mas a pedra, que feriu a estátua, se fêz um grande monte, e
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Gênesis 41 :l-57. Gênesis 41:16.

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encheu toda a terra. Êste é o sonho; também a interpretação dêle diremos na presença do rei”. POR QUE UMA ESTÁTUA SIMBÓLICA? Nada mais que um sonho como tal poderia no momento impressionar ao rei Nabucodonosor e fazê-lo conhecer o futuro de seu império e dos demais que o seguiriam no curso da história. O monarca estava bem familiarizado, em Babilônia, com estátuas de todos os tipos e tamanhos, principalmente representativas dos deuses do reino. Portanto, uma imagem ou estátua atrairia mais sua atenção do que qualquer outro objeto. Depara-se-nos, assim a prudência da inspiração na escolha do símbolo mais próprio para despertar a atenção do monarca e ao mesmo tempo impressioná-lo com a sabedoria daquele que lhe dera a revelação simbólica da futura história da terra. E deveras Nabucodonosor ficaria, pelo menos por algum tempo, satisfeito com o símbolo e seu impressionante significado. UMA ESTÁTUA SUI GENERIS Embora muito familiarizado com estátuas, Nabucodonosor desconhecia uma semelhante à de seu sonho. Não o impressionaria muito se fôsse idêntica às por êle conhecidas. A estátua sonhada era de “excelente” esplendor e “sua vista terrível”. Aí está o luxo e o mal da política das nações, em evidência profética. Só um símbolo de terrível aspecto poderia representar as potências guerreiras conquistadoras do orbe. A variedade de metais de que se compunha impressionou grandemente o rei Nabucodonosor. A disposição dos metais simbólicos, na posição descendente em valor em vez de ascendente — conforme interpretara Daniel — produziu a poderosa impressão e efeito que a inspiração teve em mente. Foi demonstrado ao monarca que o caráter das futuras potências da terra, depois de Babilônia, até ao “fim dos dias”, se degeneraria e que lhes faltariam sabedoria, moral e poder governativos para fomentar a felicidade de seus súditos. Também nas relações internacionais haveria verdadeiro caos entre as futuras nações dominantes — ao ponto de serem figuradas até mesmo pelo ferro bruto e o frágil barro. Foi evidenciado que a pompa governamental terrena de nada valeria em face da necessidade dos governados se a sabedoria diretiva e a moral governativa estivessem ausentes. Em verdade o inspirado sonho mostrou ao rei de Babilônia a decadência do govêrno do homem na terra e evidenciou que êle, em virtude de seu coração e vida corruptos, 108

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não sabe governar os seus semelhantes, o desfecho da história, revelado nos pés da estátua, demonstra falta de unidade entre os poderosos das nações exatamente no término da crise dos séculos, — uma desunião sem remédio humano. O ponto culminante do sonho do rei, foi o esmiuçamento da estátua representativa do inútil e prejudicial mundo político da história, — por uma misteriosa pedra jogada sôbre seus pés. Não ficou sequer sinal algum da gigantesca, esplendorosa e terrível estátua; não houve lugar mais no mundo para os reinos e nações dos homens nela figurados. Depois de reduzir tudo a pó que o vento leva, a pedra, então, encheu a terra. O malsão, orgulhoso e opressor govêrno do homem no mundo de Deus, desapareceria totalmente e para sempre. O trono do Todo-poderoso por tanto tempo usurpado por Satanás nas pessoas dos pretensos poderosos senhores das nações, retornaria afinal ao seu legítimo dono e único Potentado legítimo. Adiante veremos isto mais ao vivo pela interpretação de Daniel, o profeta conclue a narrativa dizendo — “Êste é o sonho”. E, o monarca que ouvira abismado, pôde confirmar como verdade cada ponto como relatado por Daniel. Era o próprio sonho que o rei tivera e esquecera! Todos os detalhes haviam sido perfeitamente traçados. Nada faltava. Seus mais íntimos pensamentos haviam sido lidos por outro miraculoso! Agora, quase sem respirar, Nabucodonosor aguarda a prometida interpretação. O soberano, por certo, estava fascinado com o jovem sábio que tinha diante de si. Nabucodonosor confiou que o servo de Deus saberia dar-lhe também a verdadeira interpretação de seu grande sonho. II — A INTERPRETAÇÃO DO SONHO DO REI NABUCODONOSOR UMA EXTRAORDINÁRIA REVELAÇÃO Em nove curtos versículos que dão conta da interpretarão do sonho do rei Nabucodonosor, a revelação condensou nada menos do que vinte e cinco séculos e meio de história universal, abarcando os grandes impérios do mundo e as nações modernas — desde Babilônia aos nossos dias — e ainda com prosseguimento até ao estabelecimento do reino de Deus na terra. Jamais a humana sabedoria sintetizou tão grande soma de verdade histórica em tão poucas palavras. Fôra necessário ao historiador inúmeros volumes para descrever os eventos decorridos alusivos aos poderes citados, enquanto Daniel o pôde fazer, 109

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guiado pela inspiração de Deus, em apenas 305 palavras — segundo a versão portuguêsa Almeida da Bíblia. Vemos em tudo isto o dedo de Deus e a magia da divina sabedoria em assim proceder na apresentação desta profecia inspirada, cujo propósito é impressionar e convencer os homens de Sua absoluta autoridade no mundo. Atento e maravilhado, pôde o rei Nabucodonosor ouvir a tradução profética dos símbolos mudos da estátua e aceitá-la sem a mínima objeção e recusa. Já que o jovem inspirado profeta se demonstrara capaz de revelar com tão acurada exatidão o esquecido sonho, seria também capaz de interpretá-lo com a mesma indiscutível exatidão. A convicção que se fizera sentir na voz do jovem hebreu, nascida de um conhecimento positivo, agitou o rei. Quase o podemos ver inclinado para diante na ansiedade de apanhar as próximas sentenças. Seu contentamento foi revelado no término da exposição em honrar grandemente o embaixador do céu e em reconhecer o Deus de Israel como “Deus dos deuses” ou supremo Deus. E, nós, hoje, volvendo o olhar ao passado até Babilônia e constatando o fiel cumprimento de tôda a interpretação de Daniel do sonho do rei Nabucodonosor, temos nesta comprovação razões sobejas para reconhecer também a supremacia de Deus e O adorar numa consagração e reverência absolutas. Concretizado isto, daremos mais pêso à mensagem de Deus e asseguraremos diante das massas errantes e fanatizadas — uma forte evidência da necessidade da civilização lançar mão da verdade inspirada como guia infalível. Urge que o cristianismo dê à presente e agonizante civilização aquilo que ela mais carece, que é um testemunho evidente de Deus e Seu imensurável amor. Mas, só através duma aceitação positiva e integral da mensagem do evangelho poderá êle ser dado pelos cristãos. BABILÔNIA — O PRIMEIRO IMPÉRIO DA PROFECIA VERSOS 37-38: — “Tú, ó rei, és rei de reis: pois o Deus do céu te tem dado o reino, o poder, e a fôrça, e a majestade. E onde quer que habitem filhos de homens, animais do campo, e aves do céu, Êle t’os entregou na tua mão, e fêz que dominasses sôbre todos êles; tú és a cabeça de ouro”. A ORIGEM DO IMPÉRIO BABILÔNIO O primitivo território que deu origem ao império babilônio de Nabucodonosor passou por uma longa e mui variada história e estêve sob a liderança de diferentes povos e reinos antes do grande potentado 110

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empunhar o cétro mundial. De conformidade com o livro de Gênesis, as cidades de Babilônia, Erech, Accad e Calah, daquele território na terra de Sinear, na Mesopotânia, foram fundadas por Nimrod, um bisneto de Noé através de seu filho Cam.1 Estas cidades constituíram originalmente naquele primitivo período histórico, depois do dilúvio, vários Estados ou Cidades-Estados, ali na terra de Sinear, no sul da Mesopotâmia. Posteriormente, alguns daqueles Estados agruparam-se em maiores Estados ou reinos. Primitivas inscrições referem a esta área ou país de Sinear, como duas sessões distintas — os reinos de Sumer e de Accad — o primeiro ao sul, próximo ao Gôlfo Pérsico, cêrca da latitude trinta e dois e o segundo ao norte dêste. Ambos os dois reinos ou sessões, foram dotados com maior número de cidades, grandes e pequenas. As mais importantes em Sumer eram: Ur, Erech, Sridu, Nippur, Lagash, Larsa e Isin; e, em Accad: Babilônia, Kish, Outhah, Borsippa e Sippar. Accad é chamada “Sinear”, em alguns textos bíblicos;2 e “terra dos caldeus” em outros.3 De acordo à assim chamada “pequena cronologia”, o primeiro período Aumeriaur foi substituído pela dinastia Accad no vigésimo quarto século a.C., quando os reis semitas venceram aqueles e apossaram-se de todo o país. O grande rei Sargon I, de Accad, criou um império que alcançou desde o Gôlfo Pérsico até o interior da Ásia Menor. Naram-Sin foi outro grande rei de Accad. Mas, por sua vez, depois de um século de domínio a dinastia Accad chegou ao seu fim, vítima de uma invasão do povo montanhês — Guti. Êste povo submeteu e governou então tôda a Mesopotânia, embora algumas cidades continuassem a gozar uma espécie de autonomia, tal como a próspera Lagash sob Judea, seu grande rei. Porém, depois de mais de um século de domínio, os Gutis foram vencidos pelos Sumerianos que experimentaram uma renascença de poder. Estabeleceram a forte terceira dinastia de Ur, que exerceu domínio na Baixa Mesopotâmia de 2070 a 1960 a.C. No décimo nono século o país foi duas vêzes invadido, uma vez pelos elamitas das montanhas orientais e outra vez pelos amoritas do deserto sírio. Êstes últimos tiveram êxito em fundar a forte primeira dinastia de Babilônia, em 1830 a.C., da qual Hammurabi (1728-1686 a.C.) foi o sexto e mais

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Gênesis 9:6-10. Gênesis 10:10; 11:2; Isaías 11:11. 3 Jeremias 24:5; 25:12; Ezequiel 12:13.

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famoso rei. Hammurabi liquidou o último rei de Larsa e reinou pràticamente sôbre todo o vale da Mesopotâmia e expandiu-se à Síria e ao império de Accad de Sargon I. Durante este período a cidade de Babilônia tornou-se a capital do império. Mas, posteriormente, em 1550 a.C., a Mesopotâmia foi mais uma vez invadida, — agora pelos Hititas sob seu rei Mursilis I, e a dinastia de Hammurabi desapareceu. Êstes invasores saquearam Babilônia, capturaram seu rei e carregaram a estátua de ouro de seu principal deus — Marduque. Babilônia tornou-se então menos importante do que os poderosos impérios Hitita e Egípcio. Durante êste mesmo tempo os Kassites do nordeste assolaram o país e reinaram na Baixa Mesopotâmia durante vários séculos. No décimo-terceiro século, ao norte da Mesopotâmia, ergueu-se outro poder mundial, o Império Assírio, o qual uniu outra vez a Mesopotâmia e a Ásia Ocidental ao Mediterrâneo. Por seis séculos Babilônia foi mais ou menos um Estado dependente da Assíria. Nestes séculos Babilônia frequentemente rebelou-se contra o jugo estrangeiro, tendo sido sufocadas essas rebeliões. Tiglath-Pileser III (745-727 a.C.), que introduziu diversas novações políticas e militares, fêz-se rei de Babilônia sob o nome de Pul, tentando assim evitar novas rebeliões desta cidade. Sargon II também fêz-se coroar rei de Babilônia com as mesmas intenções. Todavia os assírios tiveram de conquistar e ocupar Babilônia repetidas vêzes durante os séculos em que mantiveram a posse da Mesopotâmia, mas usualmente trataram o país com respeito, não tendo sido jamais completamente incorporado ao Império Assírio, senão que gozou sempre de um “status” diferente dos de outras nações submetidas. Senaqueribe, porém, fatigado das constantes rebeliões dos babilônios, destruiu Babilônia em 689, a.C., sendo por seus contemporâneos e por muitos assírios considerado o seu ato um sacrilégio e blásfemo crime, tendo seu filho Assaradon reedificado a cidade tão logo que subiu ao trono, após o que a grande cidade experimentou o seu mais áureo e florescente período. Em 626 a.C., Nabopolasar, um oficial caldeu sujeito aos assírios, declarou-se rei de Babilônia. Depois de ter batalhado contra os assírios por vários anos com irregular sucesso, aliou-se êle aos medos, pelo casamento de seu filho Nabucodonosor com uma princesa da côrte de Ciaxares, e, com o auxílio dêstes depois de um cêrco de três mêses, conquistou Nínive em 612 a.C. Quando os conquistadores dividiram o Império Assírio, ao rei de Babilônia tocou tôda a Mesopotâmia, Síria e Palestina. Mas foi necessário a Nabopolasar batalhar por alguns anos ainda contra os remanescentes assírios na 112

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Mesopotâmia Superior, bem como contra os egípcios que auxiliavam os assírios esperando com isso tornarem-se senhores da Síria e Palestina. Em 606, o príncipe Nabucodonosor, seu filho e general, avançou até à Judéia, levando de vencida o exército egípcio que defendia suas pretenções na Ásia até ao rio Eufrates. Durante esta campanha e neste ano, soubera êle da morte súbita de seu pai Nabopolasar, em Babilônia, para onde regressou imediatamente a fim de cingir a corôa como único legítimo herdeiro do trono. NABUCODONOSOR — REI DO MUNDO Senhor absoluto do trono herdado, começa Nabucodonosor a dar evidente expressão ao Império Neo-babilônio, do qual fôra êle o seu verdadeiro fundador, já que a morte arrebatou a seu pai antes de ter podido consolidá-lo e expandí-lo. A partir do ano 605 a.C., o primeiro de seu reinado oficial, começou Nabucodonosor a estender suas conquistas aos quatro ventos. Neste ano, sua primeira e imediata campanha após sua coroação, foi mais uma vez contra o exército egípcio de Faraó Neco que tentava pela segunda vez a recuperação dos territórios perdidos aos babilônios, tendo avançado novamente até ao Eufrates. Mas foram os egípcios mais uma vez vencidos, agora em Carchemis.1 Nos livros das Sagradas Escrituras, os de Jeremias e Ezequiel, principalmente, deparam-se-nos as conquistas de Nabucodonosor no Sul do Ocidente da Ásia, submetendo a todos os países daquela vasta região. Síria, Tiro, Sidom, Galiléia, Samária, Judéia, Filistéia, Adom, Moab, Amem, Arábia, Egito, Etiópia, e outros paises — todos foram reduzidos a satrapias de Babilônia, por conquista armada. As suas mais memoráveis campanhas de que temos conhecimento foram as de Tiro, Judéia e Egito,2 tendo a capital do primeiro poder resistido um cêrco de treze anos. No Oriente, Ocidente, Norte e Sul, o reino de Nabucodonosor estendeu-se a tôdas as nações constituídas. Levando em conta a interpretação de seu primeiro sonho, dominou êle onde quer que no seu tempo haviam filhos de homens, animais ao campo, e aves do céu”.3 O segundo sonho inspirado do monarca é claro em atestar que o seu reino ou domínio se estendeu “até à extremidade da terra”.4
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Jeremias 46:1-2. II Reis 24:7. 3 Daniel 2:38. 4 Daniel 4:22.

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Baseados nestas palavras da inspiração constatamos que não houve potentado cujo império fôsse maior do que o de Nabucodonosor e dentro de cujas fronteiras houve unidade e cuidado especial do grande soberano pelo bem geral de seus numerosos súditos vassalos. Pouco a pouco o mundo caiu prostrado aos pés do grande potentado caldeu, vencido como resultado do juízo divino a uma civilização desequilibrada e irreverente para com Deus. Verdadeiramente êle foi o açoite do céu sôbre as nações de seu tempo, para despertá-las da indiferença e rebeldia e levá-las a reconhecer ao Todo-poderoso como absoluto supremo soberano da terra. Durante todo o seu reinado de quarenta e três anos,— época em que o Império Babilônio alcançou o seu apogeu e a sua idade de ouro — seus súditos foram fiéis a seu comando, pois vimos que Deus deu em suas mãos “todo o domínio” debaixo do céu. James Moffatt, em sua versão da Bíblia, traduz o versículo trinta e sete nestes têrmos: “Tú, ó rei, és rei de reis, a quem o Deus do céu deu todo o domínio, poder, fôrça e glória”. A expressão: “Todo o domínio” — evidencia em verdade o seu absoluto poder no mundo internacional de seus dias como “rei dos reis” — titulo êste que lhe dá a própria inspiração.1 Nabucodonosor, porém, em suas inscrições, atribuiu os sucessos de seu reinado mundial ao seu deus Marduk. Daniel, todavia, com um raro e inspirado tato, corrige esta errônea pretenção, e assevera-lhe solenemente ter êle recebido seu reinado das mãos do “Deus do céu”, o Deus de Israel, assim como seu grande poder, sua fôrça e sua glória como supremo potentado político do mundo. Dissera-lhe o profeta que sua realeza fôra reconhecida do céu como áurea, no símbolo do mais precioso metal — o ouro. Sim, todo este reconhecimento do céu evidencia que fôra o Rei do universo quem o empossara no trono da terra e lhe dera poder sobre tôdas as nações. Através do profeta Jeremias, Deus mesmo chama Nabucodonosor “meu servo”, e declara ter entregue “todo o domínio” das nações à sua soberania.2 A realeza de Nabucodonosor fôra um verdadeiro fenômeno político. Mal completara êle dois anos de mandato sobre a terra, já alcançara majestade, fôrça e glória políticas jamais alcançadas por outro soberano mundial antes ou depois dêle. A história não menciona outro rei que o igualasse no comando das nacionalidades. Ciro,
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Ezequiel 26:7. Jeremias 25:9-11; 27:1-7.

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Alexandre e César, também mencionados nas profecias — ficaram bem longe dêle e tiveram um reinado efêmero bastante acidentado, enquanto Nabucodonosor reinou quase meio século, cujo governo foi marcado por abundantes e evidentes bênçãos do céu. Tudo isto foi devido tê-lo Deus usado bem como sua espada para pôr em ordem as nações e justiçar os altivos reis pela arrogância, desacato e irreverência por êles manifestados para com a Majestade do universo, e pela atrevida recusa do cumprimento do dever conhecido para com Deus que lhes dera poder para em seu nome governarem a família humana em justiça, no setor que lhes coube no plano do Onipotente. Especialmente devia Nabucodonosor sujeitar as nações enquanto o povo de Deus era transportado ao cativeiro e nêle permanecesse — para que tudo corresse segundo o propósito pré-determinado por Êle, e no tempo assinalado pelo vaticínio dos profetas pudessem os cativos serem libertados e retornarem à Judéia para reconstruírem o seu lar nacional. Contudo, o rei Nabucodonosor custou a reconhecer sua inteira dependência do “Deus do céu” ou Deus de Israel como sustentáculo do seu poder governamental. Julgara que, na conquista da Judéia, o Deus dos judeus fôra vencido por seu deus Marduk. Como, pois, reconhecer a Sua supremacia e poder se Marduk O vencera? Foi necessário o “Deus do céu” empregar até mesmo o rigor descrito no quarto capítulo, para que por fim o rei de Babilônia O reconhecesse e O reverenciasse, não só como único Deus, mas também como único Dominador que põe nos seus tronos os monarcas da terra e os depõe quando deixam de preencher os requisitos de Sua Augusta vontade universal. Os soberanos persas eram limitados pelo poder dos grandes nobres. No capítulo seis do livro de Daniel vemos o poder de Dario, o Medo, restringido pelas leis e frustrado pela nobreza — o poder era aristocrático. Uma cena similar sucedeu na Inglaterra quando o rei João Sem Terra foi forçado pelos barões a assinar com êles e a favor dêles um pacto a que se deu o nome bem conhecido de Magna carta, em 1215 a.C. Na Grécia antiga a autoridade era militar, Alexandre Magno foi colocado no trono da nação por ser um grande soldado. O poder de Roma emanava do Senado. Todavia, o poder do rei Nabucodonosor, antes de sua conversão ao Deus de Israel, era autocrático, e a êle estava afeto mesmo a faculdade de tirar ou dar a vida a qualquer de seus súditos, em circunstâncias que assim julgasse necessário.1 Porém, a maravilha de sua entrega a Deus, resolveu êste
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Daniel 5:19.

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grave problema de sua vida como soberano do mundo, e trouxe felicidade a seus súditos. Os acontecimentos do reinado de Nabucodonosor demonstraram ter sido êle um chefe de Estado vigoroso e brilhante. Tanto física como mentalmente era um homem forte e mui digno de ter galgado o trono do mundo em sucessão a seu pai. Chegara a ser o maior homem da história como soldado, estadista e arquiteto. Houvessem seus sucessores sido de sua têmpera em vez de noviços, inexperientes, sem afeição, sem capacidade administrativa, os persas teriam encontrado em Babilônia um mui sério problema a resolver, em vez da facilidade que tiveram na conquista da grande cidade. Depois de consolidar o seu poder mundial, o grande rei Nabucodonosor empregou longo tempo de paz em realizar numerosas obras de vulto, principalmente em sua capital, que, embelezando-a, tornou-a a mais bela, mais fascinante e mais poderosa cidade fortaleza da terra no mundo antigo. Sôbre isto consulte-se o capítulo quatro desta dissertação do livro de Daniel. Seu orgulho manifesto em face de suas realizações não teve limites. Êle procurou fazer de sua realeza um memorável testemunho de seu poder através de todo o futuro e de sua soberba metrópole uma inexcedível glória perdurável de geração em geração. Embora a cidade não mais exista, sua fama perdura nas páginas da história de seus dias como a cidade de ouro e inigualável capital da terra. Fascinado pelas obras grandiosas pelas quais êle tornou Babilônia a mais famosa capital de todos os tempos, chegou a exclamar em sua altivez: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a fôrça do meu poder, e para glória de minha magnificência?”1 Esta declaração de soberba de sua parte custou-lhe caro, conforme vemos no quarto capítulo, mas foi uma expressão de seu contentamento, embora jactancioso e ofensivo ao céu. A famosa realeza mundial de Nabucodonosor e sua formosa metrópole da terra desapareceram para sempre. Profecias evidentes lavraram a ruína completa do grande Império, e isto porque Nabucodonosor não teve sucessores dignos e sim ímpios herdeiros do trono que lançaram indevidamente mão de seu cêtro e não reverenciaram a Deus como por fim êle o fêz e o exaltou sôbre tudo e todos.
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Daniel 4:30.

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“TÚ ÉS A CABEÇA DE OURO” Cremos, sem sombra de dúvida, que a cabeça de ouro é simbólica do Império mundial dos caldeus ou de Babilônia. Como, porém, diz Daniel simbolizar o rei Nabucodonosor? Em primeiro lugar porque êle enfeixava em suas mãos todo o poder do trono. Em segundo lugar, aludindo ao seu sonho duma árvore que enchia tôda a terra, diz-lhe o profeta: “A árvore és tu, ó rei”.1 O grande rei era a personificação de seu Império que êle mesmo fundou e em cujas mãos cresceu e tornouse poderoso no orbe inteiro, sendo considerado o mais rico de todos os reinos terrestres. O Império era êle e êle era o Império. Como supremo e absoluto, sua côrte não era mais que mera fantasia; seus cortesões nada pesavam nas decisões que êle tomava. Êle era o “tudo”, a majestade suprema dum cêtro que cobria vitorioso inteiramente o orbe conhecido e habitado. Além disso, desempenhou Nabucodonosor uma administração que conservou as nações tôdas em harmonia, bem como sob completa segurança e proteção. E, mais ainda, jamais a história registrou um soberano político no trono do mundo maior do que êle. Êle a todos sobrepujou em glória, grandeza e majestade. Assim achou por bem Deus — que lhe dera todo o poder e a glória de que era senhor — honrá-lo no símbolo da cabeça de “ouro fino” da estátua de seu impressionante sonho inspirado, ainda que ela representasse com tôda a evidência o Império Caldeu Neo-Babilônia. E é surpreendente notar que a interpretação de Daniel ignorou por completo não somente os reis que precederam Nabucodonosor no trono de Babilônia como também os que o sucederam. Sim, só êle foi levado em alta conta pelo céu naquele trono do mundo. Todos os demais que ali se assentaram, praticamente nada representavam aos olhos d’Aquele que é a suprema autoridade na terra e no céu. Em tôda a terra e em tôda a História não houve outro potentado que governasse o mundo tão a contento de Deus. É notável que nem Ciro, nem Alexandre e nem os maiores Césares são mencionados na interpretação de Daniel como figurados respectivamente pela prata, o cobre e o ferro da estátua, alusivos à Medo-Persa, Grécia e Roma. Já os símbolos inferiores ao ouro interiorizaram os Impérios que eles fundaram, e, além disso, logo sucumbiram na morte. O pouco tempo que estiveram no trono, permaneceram bastante aquém de Nabucodonosor em glória, poder e
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Daniel 4:22.

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respeito enquanto senhores do poder. O profeta foi claro em sua interpretação: “E depois de ti”, disse, “se levantará outro reino... e um terceiro reino... e o quarto reino”. Não dissera Daniel: “E depois de ti se levantará Ciro da Pérsia, Alexandre da Macedônia e César de Roma. Não, êles todos seriam inferiores ao grande rei de Babilônia — quer em caráter quer em administração. E, além de tudo, não se converteriam a Deus como o fêz êle de todo o coração, reconhecendoO, adorando-O e testemunhando a Sua supremacia e poder perante todo o orbe sob seu áureo cêtro. “E DEPOIS DE TI ...” Indo de encontro às aspirações do rei Nabucodonosor, de que seu domínio mundial continuaria nas mãos de seus compatriotas por séculos infindáveis, Daniel o notificou de que seu Império seria liquidado depois dêle deixar o trono pela morte. Posto que quatro fracos sucessores legais seus empunhassem o cêtro herdado ainda por vinte e três anos, não foram levados em conta pela profecia, dada a incompetência dêles para o govêrno e bem assim para a manutenção da unidade, da estabilidade e da inviolabilidade do reino. Em comprovação da indignidade dos quatro para manterem o Império, êle rapidamente se desmoronou. Pràticamente o Império de Nabucodonosor deixou de existir depois dêle, pois seus pretensos sucessores o precipitaram no abismo duma política incapaz de conservá-lo forte como o receberam do poderoso rei. Desafortunadamente, a grandiosa soberania de Nabucodonosor caiu imediatamente nas mãos de seu indigno filho e sucessor Amelmarduk (O Evil-Merodach da Bíblia — Jeremias 52:31), que, de acordo ao historiador babilônio Berossus, era arbitrário e licencioso. Outros de seus biógrafos o acusam de desenfreado, de deslealdade, de torpezas, de leviandade de intemperança. Além do mais seguiu uma política desfavorável à antiga nobreza militar, o que maior descontentamento causou. O partido sacerdotal cansou-se logo dele e de sua côrte, e uma conspiração o assassinou depois dum desprezível reinado de apenas dois anos (562-560). Nergal-Shar-usur, um poderoso príncipe do exército de Nabucodonosor1 e seu cunhado, foi o cabeça da conspiração que deu-lhe a morte, bem como o seu sucessor por quatro anos (560-556), nada fazendo de importância no govêrno. Seu filho Labashi-Marduk, um rapazola inexperiente, o sucedeu,
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Jeremias 29:3.

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sendo porém assassinado por uma conjuração após um efêmero reinado de menos de dois mêses. Os conjurados empossaram no trono um de seu bando — Nabonidus, genro de Nabucodonosor, que aliou ao trono, como co-regente, a seu filho Belshazzar, um jovem licencioso, libertino, irreverente e ébrio. Temendo, porém, Nabonidus o crescente perigo persa, aliou-se com o Egito, Lídia e Sparta. Entretanto, em 539 cai nas mãos de Ciro Babilônia, o último reduto remanescente do que fôra o áureo e poderoso Império de Nabucodonosor. Êste grande rei, o maior da história política, como vimos, preencheu plenamente o propósito de Deus em promover o engrandecimento de Seu nome entre as nações e em proteger Seu povo cativo no Oriente. Seus fracos e incompetentes sucessores, porém, foram desqualificados para tão altas responsabilidades, embora herdassem a corôa até à derrocada final sob os Medas e Persas coligados. Portanto, Nabucodonosor, o único monarca babilônio reconhecido pela profecia, em verdade não teve sucessores na altura de empunharem o seu glorioso cêtro invencível e poderoso, pois os que pretenderam sucedê-lo e para isso lutaram e se aniquilaram, foram deveras indignos de se assentarem em seu trono. Dêste modo, o “e depois de ti”, referido por Daniel, equivale a que outro reino, não caldeu, tomaria o lugar do seu por conquista armada e destruição. Ainda que um outro reino sucedesse o seu depois dêle, nenhum monarca o igualaria em poder mundial soberano e inconquistável. Indiscutivelmente, nem os Faraós, nem os Aquemenides, nem os Seleucidas, nem os Tolomeus, nem os Césares, nem mesmo o poderoso Alexandre e nem nenhum outro da idade antiga ou moderna chegou a seus pés como majestade real. Basta dizermos que Nabucodonosor fôra tomado nas mãos de Deus para empunhar o seu cêtro, para dizermos tudo de inigualável supremacia em face de todos os potentados que nesta terra viveram e governaram. MEDO-PERSA — O SEGUNDO IMPÉRIO DA PROFECIA VERSO 39: — “E depois de ti se levantará outro reino inferior ao teu ...” “... Se levantará outro reino ...” Aqui está a ênfase do profeta: “... se levantará outro reino...” Sim, outro — não o mesmo reino de Babilônia sob nova plataforma ou nôvo regime caldeu de govêrno. Um “outro reino” implicava em um 119

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nôvo reino sob uma nova liderança internacional e não mais sob o poder dos babilônios. Um “outro reino” que “se levantará” e que, portanto, ainda não se havia levantado. O capítulo sete, que trata dos mesmos reinos do capítulo dois, esclarece que depois do Leão, figurativo do Império de Babilônia, se levantaria um Urso que, pelo símbolo tão diferente, não poderia ser mais Babilônia. O versículo vinte e três é muito enfático ao dizer: “O quarto animal será o quarto reino da terra”. Logo o segundo animal seria evidentemente, o segundo reino da terra — não o mesmo reino deixado por Nabucodonosor, sob um nôvo aspecto político. O ouro da estátua profética não pode ser tomado pela prata que o segue, como do mesmo modo a cabeça de ouro não pode ser tomada pelo peito e braços de prata. A cabeça é que era Babilônia, evidencia o profeta, e não o peito e os braços. Como um urso não pode ser tomado por um leão, o reino babilônio — o primeiro reino — na figura de leão, não pode ser tomado pelo segundo reino na figura de um urso. Portanto, uma nova ordem, um nôvo cêtro se levantaria no campo internacional, para derribar o reino caldeu que seria deixado por Nabucodonosor em mãos incapazes de sustê-lo, e imporia às nações uma nova política. Não temos quaisquer dúvidas em afirmar que os medas e persas, unidos, conquistaram o Império Caldeu e se impuzeram no orbe como o segundo Império do mundo da série de quatro como apontados pela profecia inspirada. “... OUTRO REINO INFERIOR AO TEU” “E depois de ti se levantará outro reino inferior ao teu”. O emprêgo da palavra “reino” é a afirmativa de que os diferentes metais que compunham a estátua representavam reinos e não particularmente “reis”. A declaração do profeta a Nabucodonosor: “Tú és a cabeça de ouro”, designa, ainda que empregassem o pronome pessoal, o reino de Babilônia e não propriamente Nabucodonosor. Ao ouvir Nabucodonosor que seu reino seria conquistado por um outro reino, reino inferior ao seu, lá no seu íntimo opôs-se a esta interpretação de Daniel embora nada lhe tenha referido. Era-lhe deveras difícil compreender como o seu poderoso e bem organizado reino viesse a cair em mãos de aventureiros conquistadores bastante inábeis comparados com êle que demonstrou sábias e talentosas capacidades como soberano administrador. A história do capitulo três enfatiza a sua recusa em aceitar esta para êle inconcebível e 120

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inaceitável exposição do jovem profeta. E, até que por fim entregou o seu coração a Deus, em virtude do ocorrido e registrado no capitulo quatro, não havia entendido e aceito uma tão inexorável e amarga realidade futura, aliás, bastante vexatória e mesmo ousada em face de sua áurea realeza. Porém, depois de sua conversão, como por êle próprio demonstrada e mundialmente anunciada, tudo lhe ficou esclarecido, — aceitou então o propósito de Deus para com seu reino e sua pessoa, e seguiu adiante com fé até à morte, morte que o levou ao túmulo na doce esperança de ainda sobreviver um dia — para ser um dos eternos súditos dum reino diante qual a sua famosa realeza era de nenhum valor e dum Rei diante do qual a sua alteza era totalmente apagada. Segundo o vaticínio interpretativo de Daniel, o Império MedoPersa que no curso da história conquistou e substituiu o de Babilônia, foi em verdade e em muitos sentidos inferior ao do grande rei Nabucodonosor: 1. Já a inferioridade do símbolo da prata Medo-Persa comparado ao do ouro simbólico de Babilônia, indicou a inferioridade de sua realeza em esplendor, luxo e magnificência comparada à de Nabucodonosor. 2. De nenhum de seus treze monarcas — medos ou persas — alguns fortes outros fracos, referiu-se Daniel em sua interpretação ou fora dela, o que referira de Nabucodonosor nestes termos: “Tú és a cabeça de ouro”. 3. Ainda que com o grande Xerxes a Medo-Persa alcançasse a sua maior extensão territorial — 127 províncias desde a Índia à Etiópia1 — contudo seu domínio em território foi ainda inferior ao de Babilônia sob Nabucodonosor, segundo as claras e inspiradas palavras de Daniel no versículo trinta e oito. 4. Os medas e persas jamais conseguiram unidade e estabilidade indispensáveis a um Império. Do princípio ao fim, durante os dois séculos de seu poderio mundial, o reino foi um vulcão de revoltas nunca sufocadas em definitivo a despeito de reprimidas com furor. Eis um dos pontos fatais de sua inferioridade ao império de Nabucodonosor, que era perfeitamente unido e sem problemas internacionais. 5. A côrte Medo-Persa, ao contrário da de Nabucodonosor, era constituída de perversos, perigosos e criminosos cortesões, como comprovado na história do sexto capítulo do livro de Daniel.
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Ester 1:1.

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6. O reino Medo-Persa, ou propriamente a sua côrte, era aristocrática, pelo que seus reis reinavam mas não eram absolutos como o era Nabucodonosor como soberano. 7. No reino Medo-Persa não houve aquêle bem-estar geral em relação aos seus súditos, como Nabucodonosor proporcionou aos seus súditos embora como um autocrata que fôra como governador mundial. 8. Nos dias do império Medo-Persa, o povo de Deus esteve em perigo, pelo que foi necessário o anjo Gabriel montar guarda na sua côrte, vigiando seus monarcas durante dois séculos, como êle próprio se refere.1 No domínio de Nabucodonosor nada disso foi necessário, visto que o povo de Deus estêve bem guardado e protegido por êste rei, mormente depois de sua conversão. 9. O reino Medo-Persa foi inferior ao de Babilônia porque Ciro, seu fundador, morre prematuramente, como soberano, quando o reino dêle mais carecia para a sua consolidação. Depois de Ciro, a não ser Dario Histaspes, os demais monarcas foram incapazes de governar. Mesmo Xerxes, posto que chamado — o grande, não preencheu as qualidades requeridas por um soberano que se assenta no trono do mundo. 10. A maior evidência da inferioridade do império Medo-Persa sôbre o de Babilônia, jaz no fato de que nenhum de seus monarcas se converteu a Deus, como o fêz Nabucodonosor que promoveu o engrandecimento e a honra do nome de Deus em todo o seu reino após a sua miraculosa conversão. A ORIGEM DO IMPÉRIO MEDO-PERSA Êste segundo Império da profecia inspirada é também chamado Império Medo-Persa, porque começou com a junção da Média e da Pérsia num só poder. Incluía o velho Império Medo e as novas aquisições de Ciro, o conquistador Persa. A origem dos medos e persas — raça indo-européia — não é clara, mas crê-se que em tôrno do ano 2000 a.C. um número de tribus arianas, das quais os medos eram os líderes, começou a emergir da região que agora é o sul da Rússia, no sul do Mar Cáspio onde êles primeiro apareceram no cenário da História. Quando as primeiras tribus arianas apareceram com o nome de Medos, eram audazes combatentes. Habitavam uma região que os produziu como forte e robusto povo guerreiro muito acostumado a sofrimentos e privações sem conta. A Média compreendia,
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Daniel 10:20.

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propriamente, o país ao oriente das montanhas zagros e o sul do Mar Cáspio. O povo medo é apresentado como um rígido povo montanhês, descendente de Noé por seu neto “Medai”, filho de Jafet.1 A primeira referência histórica real aos medos data do tempo de Salmanazar III (859-824) e desde aquêle tempo êles apareceram regularmente nas inscrições assírias e são representados como tribus bárbaras contra as quais os reis assírios batalharam repetidamente, mas foram capazes de submeter somente as tribus do Oeste. Sargon II, Senaqueribe e Esarhaddon da Assíria guerrearam sucessivamente contra os medos ou deles receberam tributos. Tabletes cuneiformes recentemente descobertos em Nimrod, a bíblica Calah, recordam tratados entre Esarhaddon e os príncipes medos. Depois da queda de Samária em 722 a.C., alguns dos capturados israelitas foram transportados para as cidades dos medos.2 Chamavam-se os medos a si mesmos Arianu, os “nobres”, e, sua terra “Ariana” ou Iran, palavra que ainda dá nome àquele antigo território. Entre êstes arianos estavam os persas, que se estabeleceram também nas montanhas zagros, com um território compreendendo no Nordeste as costas do Gôlfo Pérsico, limitando no Leste com Carmânia, no Norte com a Média, e no Oeste com a Susiana (Elam). Apareceram nos anais da História no sétimo século, e foi provavelmente lá por 675 que seus governadores se estabeleceram como reis na cidade de Anshan, — mais tarde conhecida com o nome de cidade de Ciro e de Passargadas — onde reinaram em comparativa obscuridade. Entrementes as tribus medas, com Deioces (700-647), diz Herôdoto, tornaram-se uma nação e fundaram Ecbatana por capital do reino. Phraortes, seu filho e sucessor (647-625), subjugou as tribus persas, e, desde aquêle tempo até Ciro, o Grande, a Pérsia formou parte do Reino Medo, ainda que os reis persas continuassem a ostentar o título de “rei de Anshan”. Todavia Phraortes morreu lutando contra a Assíria. Cyazares, seu filho e sucessor, governou a Média quarenta anos (625-588) e continuou subjugando inteiramente a Pérsia. Cyaxares tornou-se aliado de Nabopolasar, rei de Babilônia, contra a Assíria (612), aliança selada com o casamento do filho dêste último, Nabucodonosor, com Amuhea, filha do primeiro. Os dois monarcas coligados capturaram Nínive e derribaram totalmente o poder assírio. Na divisão do Império Assírio recebeu Cyaxares, como recompensa, as possessões do norte e nordeste,
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Gênesis 10:21; I Crônicas 1:5. II Reis 17:6; 18:11.

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enquanto os babilônios ficaram com os territórios restantes. Tornou-se assim Cyaxares o primeiro grande rei dos medos. Segundo Herôdoto, batalhou contra os citas e os venceu na Ásia Menor, cujas possessões caíram em suas mãos. Durante seus últimos anos fêz guerra aos lídios que, sob Alyattes, rei de Sardis, tinham se tornado o terceiro poder da Ásia. Um tratado de paz entre êstes dois reis, deu a Cyaxares todo o território de Anatolian a leste do rio Halys, e foi fortalecido pelo casamento de Astiages, seu filho, com a princesa Aryanis, filha de Alyattes. Astiages, sucessor de Cyaxares, reinou mais de trinta anos (585553) e foi o último monarca real do Império Medo. Coisas bastante duras são conhecidas de seu longo reinado. Por razões que não são muito claras, seu neto, que em 553 ou 550 se tornara rei da Pérsia como vassalo de Astiages, ergueu-se em armas contra êle, e, embora vencido em duas batalhas pelo avô, na primeira das quais morreu seu pai, conseguiu triunfar no terceiro encontro, graças à tradição do Harpagus, comandante medo. Por fim, o próprio Astiages caiu nas mãos de Ciro e com êle todo o Reino Medo. (550). Assim os outróra subordinados persas tornaram-se o poder dominante no que havia sido o Império Medo. Todavia, a conquista dos medos pelos persas não foi mais do que uma transição de poder de uma casa real à outra e da administração pública dos nobres medos à aristrocracia persa, embora a influência daqueles se fizesse sentir do princípio ao fim do período persa em muitos importantes encargos públicos. O que na verdade houve com a conquista da Média pela Pérsia sob Ciro, foi o enlace das duas casas reais ou a união dos dois Impérios num só com êste novo nome — Império Medo-Persa. Em tôrno dêste novo nome dos Impérios unidos, o velho prestígio medo foi refletido sôbre os conquistadores de Babilônia desde os dias de Daniel até aos dias da rainha Ester ao tempo de Xerxes.1 Conquanto os persas assumissem a liderança do novo Império, foram os medos tratados com simpatia e respeito. Ciro deu o Astiages, seu avô, o govêrno da província de Hyrcania, ao sul do Mar Cáspio, e a seu tio Cyaxeres II, de acordo com Xenofonte, o trôno da Média como um rei sombra, enquanto êle era, atrás de tudo isto, o verdadeiro soberano. Mas Ciro rodeou-se da côrte dos reis medos; trocou até traje dos persas — a vestidura de peles de carneiros e as calças de couro pela veste comprida, folgada dos medos.
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Ester 1:19.

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O advento de Ciro na conquista e liderança duma nova ordem política no mundo, foi visto pelos judeus cativos no Oriente com grande júbilo. Êles sabiam que a profecia de Isaías o indicava como aquele que lhes daria a liberdade e autorizaria a sua volta à Judéia e a reconstrução do templo em Jerusalém. O capítulo dez desta dissertação de Daniel deve ser estudado e meditado, pois trata especialmente dum tremendo impasse na côrte de Ciro resultante da oposição dos inimigos do povo de Deus que a todo o custo procuravam paralizar a obra de reconstrução na Judéia. Ciro esteve a ponto de revogar o seu decreto de libertação e de reconstrução em Jerusalém. Não fôra a intervenção poderosa do céu, como apresentada na profecia do capítulo dez, teria êle cedido em favor dos inimigos de Deus e de Seu povo. Todavia a vitória foi concretizada pela intervenção de Gabriel e do próprio Filho de Deus na côrte de Ciro. A história das conquistas da Medo-Persa no campo internacional pode ser apreciada no capítulo sete versículo cinco. GRÉCIA — O TERCEIRO IMPÉRIO DA PROFECIA VERSO 39: — “... e um terceiro reino de metal, o qual terá domínio sôbre tôda a terra”. ORIGEM DO IMPÉRIO GREGO Os antigos gregos criam-se descendentes de Hellen, de quem vem o nome “Hellenes”, que êles aplicavam a si próprios nos tempos antigos, e o nome “Hellás” para a Grécia, que dá nome ao país até hoje. Porém, à verdadeira origem dêste povo em “Javan”, um dos filhos de Jafet, nascido depois do dilúvio e mencionado na genealogia imediatamente depois de “Medai”, o progenitor dos medas. Cêrca do tempo quando os israelitas se estabeleceram em Canaã, tribús Indo-Européias posteriormente chamadas gregas emigraram em sucessivas vagas à região Aegeu (Grécia Continental, ilhas e costas ocidentais da Ásia Menor), conquistando ou lançando fora os primitivos habitantes. Primitivamente compunha-se de quatro principais grupos, que falavam diferentes dialetos de uma linguagem comum e tinham os mesmos aspectos étnicos. Eram os Achaios, Aeólios, Jônios e Dórios. Os Achais representavam a maior parte no período primitivo, e Homero às vêzes alude a todos os gregos como Achaios. Os Jônios e os Dórios eram os mais importantes grupos étnicos dos tempos posteriores, sendo os imperadores, 125

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respectivamente, de Atenas e Sparta, as duas mais importantes cidades da Grécia Continental. Os Jônios também fundaram muitas das importantes cidades litorâneas do Oeste da Ásia Menor. O Velho Testamento chama a Grécia e os gregos pelo termo hebreu Yawan, “Jônia”, provavelmente por terem sido os jônios as mais importantes e as mais representativas de tôdas as tribus gregas.1 Devido à falta de primitivos documentos escritos a história grega começa somente cêrca de oitavo século a.C.. Os períodos mais primitivos estão encobertos em mistérios. Algumas lendas e epopéias tratam com a primitiva idade heróica, à qual podem agora ser acrescentados os resultados das escavações em sítios pre-históricos como Mycenae e Tróia, os quais lançam luz sôbre algumas das epopéias. No tempo quando a Grécia passou para a luz da História a achamos dividida em muitas pequenas Cidades-Estados, cada qual fomentando seus próprios interêsses, embora estivessem tôdas unidas por uma cultura e idioma comuns. Ocasionalmente guerras tomavam lugar entre os Estados, mas os jogos olímpicos que continuavam cada quatro anos, serviam como um élo de unificação. Quando pensamos na antiga Grécia, pensamos principalmente na “idade de ouro” da civilização grega sob a liderança de Atenas, no quinto século a.C.. Esta florescência da cultura seguiu o período do maior esforço unido das divididas Cidades-Estados — a bem sucedida defesa da Grécia contra as guerras pérsicas, quando o fundamento da literatura, arquitetura, arte e filosofia gregas estava sendo colocado. Foi esta cultura que tornou-se a progenitora de tôda a cultura oriental e foi seu modêlo por séculos. O primeiro proeminente papel da Grécia antiga na história do mundo resultou nas guerras greco-pérsicas. Estas começaram com Dario I Histaspes que incorporou ao Império Persa as cidades gregas jônias da Ásia Menor que tinham pertencido ao reino da Lídia. Mas quando os persas penetraram a pátria dos gregos, aquele pequeno povo revelou as suas mais finas qualidades. Os até então invencíveis persas, que haviam subjugado as fôrças de Impérios e reinos poderosos tais como os da Média, Lídia, Babilônia e Egito, assombraram-se ao chocarem-se com uma após outra encarniçada e vitoriosa defesa dos pequenos exércitos gregos. Com o resultado das guerras greco-pérsicas, as Cidades-Estados gregas unem-se por algum tempo sob a liderança de uma cidade — Atenas. Contudo, tão logo passou o perigo outra vez se separaram. De
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Daniel 8:21; 10:20; 11:2; Zacarias 9:13.

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479 a 431 a.C., Atenas foi o centro dos Estados gregos e conheceu sua idade de ouro, particularmente sob Péricles. Então veio a guerra do Peloponese (431-404), que começou com a disputa entre Atenas e suas colônias, mas eventualmente envolveu todos os Estados gregos e suas frotas, e findou com a queda de Atenas e a temporária supremacia de Sparta (404-371 a.C.). A supremacia de Sparta foi substituída por uma passageira supremacia de Thebas (371-362 a.C.). Porém, uns poucos anos mais tarde tôdas as cidades gregas caíram sob o poder de Felipe da Macedônia, uma aparentada nação do norte da Grécia, propriamente dito, e foram pela primeira vez incorporadas a um forte e unido Estado e, logo depois, pela morte de Felipe, assassinado em 336 a.C., tornaram-se parte do Império GregoMacedônio de seu filho Alexandre, o Grande. O congresso da confederação foi convocado em Corinto para eleger Alexandre em lugar de seu pai. Os lacedemônios deixaram de apoiá-lo, alegando que, por um antigo costume de seus antepassados, os lacedemônios não devem obedecer as ordens de um general estrangeiro, mas êles mesmos ter o comando de algum exército formado para uma expedição estrangeira. Os atenienses ficaram também um tanto descontentes com tal inovação; mas apavoraram-se de tal modo com a aproximação de Alexandre, que lhe decretaram mais honras do que antes a seu pai. Êle foi escolhido supremo general dos gregos para a invasão da Ásia; e foi como comandante de Hellas, descendente de Aquiles, antes do que como um rei macedônio, que êle desejou enfrentar a Pérsia e difundir a civilização helênica. Assim foi Alexandre formalmente reconhecido, como supremamente o foi, o representante da Grécia. A própria profecia o declarou como “o rei primeiro” da Grécia.1 Com Alexandre, em verdade, a Grécia constituiu-se, pela primeira vez, num único reino com um único rei, rei que uniu sob um único cêtro tôdas as suas cidades divididas e todo o país. Foi êle também denominado pela profecia como “a grande ponta”, da Grécia.2 Tão grande foi êle ao tomar o poder deixado por seu pai Felipe, que os gregos não tiveram outra alternativa sinão aceitarem-no imediatamente como primeiro mandatário da nação, sem a pretenção de independência política do cêtro macedônio à morte do pai. Agora êle era o “rei primeiro” dos gregos unidos, e nêste êles e êle se honraram e se homenagearam mutuamente. Foi nêste nôvo
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Daniel 8:21. Daniel 8:21.

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papel que os helenos ou gregos, unidos com o povo macedônio, disputaram o poder mundial aos medo-persas. Embora Alexandre fôsse um macedônio e como seu pai houvesse conquistado a Grécia e seu exército fôsse constituído também de macedônios, contudo e em harmonia com a profecia inspirada, a Grécia foi o terceiro império do mundo e não a Macedônia. Os soldados gregos foram admirados por suas armaduras, de bronze. Seus capacetes, escudos e alabardas eram feitos de bronze. Herôdoto diz-nos que Psâmético I do Egito viu nos piratas invasores gregos o cumprimento de um oráculo que anunciava “homens de bronze vindos do mar”.1 Dado o símbolo de cobre ou bronze que lhe conferiu a profecia, foi o império grego inferior ao império Persa representado na prata, como êste o foi ao de Babilônia representado no ouro, — já pela morte prematura de Alexandre em 323; já pelo caráter corrupto de seus sucessores que empreenderam tremendas carnificinas que fizeram correr rios de sangue pela posse do trôno vago; já por terem os sucessores de Alexandre dividido o Império primeiramente em quatro e depois em dois reinos, — cujas lutas continuaram até que o esfacelado e malfadado Império foi tragado pelos romanos em ascenção na política internacional. Veja-se os capítulos sete versículo seis; oito, versículo cinco a oito; e onze, versículos três a quinze, — onde temos êstes fatos claros e onde vê-se que, tendo o Império Grego começado com a heróica e valente Grécia de Alexandre e se imposto no inteiro orbe, transformou-se numa negra história que continuou e terminou em ódio cruel, em hipócritas ambições e em torrentes de sangue. Se o Império de Alexandre não se houvesse esfacelado, mas se tivesse conservado unido e forte, dificilmente os romanos tê-lo-iam vencido. As conquistas de Alexandre na Ásia e sua destruição do Império Persa, podemos apreciar no capítulo sete versículo seis. ROMA — O QUARTO IMPÉRIO DA PROFECIA VERSO 40: — “E o quarto reino será forte como ferro; pois, como o ferro esmiuça e quebra tudo, como o ferro quebra tôdas as coisas, êle esmiuçará e quebrantará”. A ORIGEM DO IMPÉRIO ROMANO A verdadeira origem do Império Romano está ligada estreitamente à cidade de Roma, cuja primitiva história acha-se
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Herôdoto, livro I, págs. 152, 154.

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cercada de extranhas lendas. Sua fundação, diz uma daquelas lendas, é atribuída a dois irmãos gêmeos — Rômulo e Remo — descendentes de Enéias, filho de Venus e de Anchises, os quais depois da destruição de Tróia, abordaram ao Lácio. Êstes irmãos se estabeleceram na colina do Palatino e ali, de acordo à prevalescente lenda, fundaram Roma em 12 de abril do ano 753 a.C. Todavia, lutando ambos os dois irmãos por dar cada qual o seu respectivo nome, a cidade Remo foi eliminado e Rômulo proclamou-se único soberano sôbre os poucos primitivos habitantes da colina. Com o tempo, outros núcleos — latinos, sabinos e etruscos — foram estabelecidos em diversas das sete colinas sôbre as quais Roma posteriormente se estendeu e permaneceu. Os habitantes do Palatino ganharam rápido predomínio sôbre os demais núcleos os quais se uniram àquele numa única cidade à qual chamaram Roma — e levantaram a Rômulo como chefe supremo ou como rei primeiro sôbre todos êles. Entretanto, fontes outras informam que Roma foi estabelecida primitivamente muito antes da tradicional data de 753 a.C., por tribus latinas que tinham vindo à Itália em sucessivas vagas lá pelos tempos em que outras tribus Indoeuropéias se tinham estabelecido na Grécia. Do oitavo ao sexto século a Latina Cidade-Estado foi governada principalmente por Etruscos, sendo a civilização romana fortemente influenciada por êstes, que vieram à Itália no décimo século, e especialmente pelos gregos que chegaram algum tempo mais tarde. Ao estabelecer Roma sua supremacia sôbre as tribos vizinhas, mais e mais povo afluiu à cidade até que ela se estendeu sôbre as sete tradicionais colinas: Palatino, Capitolino, Quirinal, Viminal, Esquilino, Caelio e Aventino. Provàvelmente por diversos séculos a cidade de Roma foi um reino, apenas dentro de suas muralhas, mas disto pouco se sabe com acêrto. São conhecidos sete primitivos reis de Roma: Rômulo (753-716), Numa Pompilho — sábino (715-672), Túlio Hostilho — latino (672-640), Anco Márcio — sábino (640-616), Tarquino Prisco — etrusco (616-578), Servio Tútio — etrusco (578634), Tarquínio o Soberbo — etrusco (534-510). Foi durante o período dos últimos reis etruscos que deve ter Roma estabelecido seu poder sôbre os seus vizinhos latinos. Mas por volta de 510 a.C., como resultado da tirania de Tarquinio o Soberbo, uma revolta da nobreza expulsou êste último rei, e subseqüentemente os etruscos foram compelidos a atravessar o Tibre. Imediatamente uma República foi estabelecida que subsistiu durante cinco séculos. 129

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A república de Roma foi governada por um senado e dois principais magistrados eleitos anualmente — os cônsules. O primeiro período da República (610-300) foi assinalado por lutas entre os “plebeus” e os “patrícios” — respectivamente: a classe inferior e a aristocracia. A princípio os “patrícios” tornaram-se a classe dominante, com os seus ritos, os seus privilégios, o monopólio das funções sacerdotais e políticas, — estando todo o poder de Roma inteiramente em suas mãos. Os “plebeus” que formavam a classe considerada inferior, que não se podia unir à outra pelo casamento, tinham ritos e direitos diferentes e provinham provavelmente dos vencidos das guerras. Desta desigualdade de classe nasceram lutas que ensanguentaram Roma até que a plebe conseguiu arrancar ao patriciado o privilégio exclusivo dos direitos políticos e religiosos. Alguns dos resultados dessas lutas foram a criação de novas funções tais como o Consulado (510), a Ditadura (500), os Tribunos (493), os Desênviros (450), e mais tarde os Imperadores (30). Os cônsules depuzeram a realeza e estabeleceram a República; os ditadores eram nomeados como tais quando necessário para salvar a pátria em perigo; os tribunos eram os defensores dos direitos da plebe; os Decênveros eram os relatores das leis; os imperadores mais tarde, eram, por assim dizer, os únicos administradores do férreo e grande império. O incidente que foi o saque de Roma pelos gaulezes em 390 a.C. e sua parcial destruição, foi um temporário revez sem nenhuma consequência adversa durável sôbre o constante incremento e poder da progressista cidade, que foi rapidamente reconstruída. PRENÚNCIOS DO PODER MUNDIAL DE ROMA Em 265 tôda a Itália estava já sob o controle romano. Solidamente assim constituída no interior da península, pensou então a vitoriosa Roma dilatar o seu território e o seu poder. Determinou firmemente tornar-se senhora suprema de todo o Mediterrâneo. Porém, reconheceu no sul como sua maior competidora e antagonista — Cártago, uma forte Cidade-Estado, fundada pelos colonizadores fenícios no norte da África, um grande poder marítimo dominando todo o Mediterrâneo Central, e Ocidental. Cártago possuía o melhor porto da costa da África; era um porto situado no meio do Mediterrâneo, onde se cruzavam tôdas as rotas comerciais. Nada havia para contrabalançar essa atração do mar, pois o interior do país era árido e montanhoso. Tornava-se por conseguinte inevitável que, a 130

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exemplo de seus antepassados, os cartagineses fundassem um império marítimo. E, desde o século sexto a.C. Cártago havia estabelecido tão solidamente o seu poderio no Mediterrâneo Ocidental, que podia determinar limites precisos além dos quais os romanos não tinham o direito de passar. É assim que se lê, na primeira frase de um tratado de 509 a.C., entre Roma e Cártago: “Entre os romanos, e seus aliados de um lado, e os cartagineses e seus aliados do outro lado, reinará paz com a condição de que nem os romanos, nem seus aliados navegarão além do cabo Bom (promontório ao norte de Cártago), a menos que a isto sejam obrigados por tempestade ou por algum inimigo. E no caso em que sejam assim impelidos pela fôrça para além do cabo Bom, não terão o direito de tomar ou comprar o quer que seja, com exceção do que fôr estritamente necessário para repor os seus navios em condições de navegar ou para fazer sacrifícios aos deuses, e deverão partir dentro do prazo de cinco dias.1 Um segundo, e depois um terceiro tratados afirmaram ainda com maior energia a hegemonia de Cártago no Mediterrâneo. As duas potências — Cártago e Roma — tinham interesses rivais na ilha de Sicília e no Mediterrâneo, e o choque dêstes interesses não se fez esperar muito. Logo os dois poderes se encontravam através de embaixadas vindas de praias opostas do Mediterrâneo: — Aqui vos trago a paz e a guerra, disse o chefe da embaixada romana. Escolhei, cartaginezes, a que preferis. — Dai-nos o que quizerdes, foi a resposta. — Seja a guerra! bradou Fábio, deixando cair a toga. Iniciase então uma das mais cruentas lutas da antiguidade compreendendo três fases e conhecida pelo nome de “Guerras Púnicas”, entre Cártago e Roma. Êsse duelo de morte teve como causa indiscutível a conquista da Sicília e o fechamento do Mediterrâneo Ocidental pela frota cartaginêsa. O conflito estendera-se por mais de um século — 264146. Quando as duas nações pegaram em armas, Cártago possuía a vantagem do prestígio e a marinha de guerra mais forte do mundo. Por outro lado os romanos tinham apenas uma pequena marinha de guerra e nenhuma experiência da guerra no mar; seu poderio residia em suas legiões. Em terra não havia melhor combatente que o soldado romano. No mar, porém, tôdas as vantagens estavam do lado dos cartagineses, e tornava-se evidente que, se os romanos quisessem vencer, teriam que aprender a combater no mar.
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História do Poderio Marítimo, W. O. Stevens e A. Westcott, Págs. 35, 36.

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Durante os três primeiros anos de guerra, as frotas cartaginezas pilharam impunemente as costas da Sicília e da Itália. Afinal, em ato de desespêro, os romanos puzeram-se a criar uma frota de guerra. O primeiro contacto com o adversário não foi animador para os romanos. No encontro seguinte, porém, tudo correu diferente. Antes do fim do dia, em Mylae (260), haviam os cartaginezes perdido 14 navios afundados e 31 capturados; era quase a metade da frota, e o restante fugiu em desordem para Cártago. A vitória estimulou Roma a aumentar sua marinha de guerra e a levar com ela a guerra ao território inimigo. Pouco tempo depois do êxito de Mylae, apoderaram-se os romanos da maior parte da Sicília e em 256 expediram uma frota para uma ofensiva na África. Esta frota romana de 330 navios encontrou-se em frente a Eonomos, na costa sul da Sicília, com uma frota de 350 navios cartaginezes e travaram uma grande batalha, interessante pela importância das forças que nela tomaram parte e pela tática empregada. A esquadra romana, que havia desencadeado primeiro a ação, alcançou uma vitória tão completa que Amilcar (o comandante-chefe cartaginês), se viu obrigado a fugir e o cônsul Manlio poude recuperar os navios que haviam sido capturados. Os cartagineses subitamente cercados de maneira tão inopinada, atacados pela frente e retaguarda, foram obrigados a procurar a salvação em alto mar, tendo perdido 30 navios afundados e 65 capturados. 300.000 homens, remadores e combatentes, tomaram parte nêsse episódio, assim como perto de 700 navios de guerra. Até a batalha de Aecio, travada dois séculos depois, a batalha de Ecnomos ficou sendo a maior batalha naval da história. Esta vitória romana deixou aberta a rota para o avanço até à África. Os romanos nela desembarcaram e tinham chegado até quasi às portas de Cártago quando seu exército foi destruído pela habilidade de um mercenário espartano, Zantipo. No mar, porém, logo depois, os romanos obtiveram mais uma vitória naval, tendo capturado 115 navios com suas equipagens. Todavia, uma violenta tempestade põe a pique 384 navios romanos na costa da Sicília. Uma nova frota de costas africanas, perdendo 150 navios. A seguir os cartagineses obtiveram triunfal vitória no mar, capturando 93 navios romanos. E uma nova frota romana foi destruída por tempestade, nada restando. Criaram agora os romanos uma nova frota de 900 quinquerremes. Ao largo das ilhas Aegates trava-se nova batalha entre os dois terríveis inimigos. E quasi que desde o primeiro ataque os romanos alcançaram 132

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um triunfo esmagador, afundando 50 navios cartaginezes e capturando 70 (241 a.C.). Os cartagineses não mais possuíam frota de guerra, e seus exércitos da Sicília estavam privados de qualquer comunicação com suas bases. Foram então enviados embaixadores a Roma a fim de implorar a paz. E esta grande luta, que durara sem esmorecimento vinte e quatro anos e levara os dois adversários aos limites do esgotamento, terminou com o triunfo de Roma, graças a uma vitória naval. O tratado de paz forçou Cártago a renunciar a quaisquer pretenções na Sicília e pagar avultada indenização de guerra. Quaisquer que sejam as conclusões morais que a história possa retirar da primeira Guerra Púnica, permanecerá, o fato de que uma nação de “terrestres”, havia combatido a maior potência marítima do mundo, e a havia vencido em seu próprio elemento. Com exceção de uma só, tôdas as batalhas navais terminaram em triunfos para os romanos. Roma deu prova de melhor aptidão para vencer. Na primeira guerra púnica, o movel principal da luta foi uma ilha, a Sicília. Por consequência, a luta foi principalmente marítima. A Segunda guerra púnica (218-202) foi essencialmente uma guerra terrestre. Expulsa da Sicília, Cártago voltou-se para a Espanha e transformou em sua colônia a parte meridional dessa península. Utilizando essa colônia como base, Anibal seguiu por terra, atravessando os Alpes e invadindo a Itália pelo norte. Esta segunda guerra compreendeu quasi exclusivamente as campanhas do grande Anibal. Em seguida ao cêrco de Sagunto, tomou Anibal a ofensiva, marchou sôbre a Itália atravessando a Espanha, o sul da Gália e os Alpes. Esmagou os romanos no Tessino e na Trébia. (281. Vitoriou-se Aníbal em Trassimenes (217), e em Cannas (216), e apoderou-se de Capua onde passou o inverno. Porém, enfraquecido o grande general cartaíginês por suas próprias vitórias, viu-se abandonado pela própria fortuna. Foi obrigado a aceitar uma paz humilhante (202). Anibal fugiu então para junto de Antíoco, rei da Efésia, e depois para a côrte de Prússia, rei de Bitínia. Suspeitando que êste projetava entregá-lo aos romanos, suicidou-se com veneno que trazia sempre consigo num anel. A terceira guerra púnica foi curta, decisiva e de nenhum interêsse sob o ponto de vista naval (149-146). Cártago, no impulso de Anibal, recuperara fôrças pouco a pouco, o que inspirava a Catão o seu incessante Delenda Cártago. A voz do velho romano foi ouvida. Depois da vitória de Roma sobre Perseu da Macedônia, empreendeu 133

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ela a destruição sistemática de Cártago, apesar de terem os cartaginezes sido fiéis ao tratado de paz. Marcio Porcio Catão, o Censor, proclamou a necessidade de terminar definitivamente com Cártago. Os cartaginezes, concebendo a verdadeira intensão dos romanos de fazer desaparecer a sua capital com esta nova guerra, empreenderam uma luta de desespero, infligindo aos romanos grandes perdas nos anos 149 e 148. Contudo Cártago foi bloqueada por terra e mar e tomada em 146. A cidade foi totalmente destruída e seus habitantes vendidos como escravos e o território cartaginez foi convertido em província romana na África com a capital em UTICA. Eis, nos dados históricos precedentes, a origem de Roma e de seu poder mundial. Roma, agora vencedora triunfante de Cártago, a maior potência de seu tempo, e poderosamente consolidada na Itália e no Mediterrâneo Ocidental, volta então as suas armas para além de suas fronteiras — para o Oriente e para o Ocidente, para o Norte e para o Sul — e converte-se no quarto grande Império mundial da profecia. A história de suas conquistas nos três continentes nos dias de seu crescente poder, depois da vitória sôbre Cártago, pode ser apreciada no capítulo sete versículo sete desta exposição das profecias do livro de Daniel, no símbolo que ali lhe corresponde — um terrível animal inominável e desconhecido no mundo da zoologia. Nas guerras púnicas Roma foi apertada e constantemente derrotada e mutilada em terra, mas emergiu no final como evidente vencedora de Cártago poderosamente influente em todos os países do Oeste e do Mediterrâneo Ocidental, e mais poderosa do que alguns dos Estados do Oriente. ROMA — UM IMPÉRIO FORTE COMO FERRO A interpretação do profeta sôbre Roma foi dramática: “E o quarto reino será forte como o ferro; pois, como o ferro esmiuça e quebra tudo, como o ferro quebra tôdas as coisas, êle esmiuçará e quebrantará”. Férrea como só Roma podia ser, é indicada no símbolo que lhe coube no drama dos Impérios do sonho da estátua profética do rei Nabucodonosor pelas duas pernas de ferro, emblemas simultâneos de seu domínio no Ocidente e no Oriente, ou sejam das duas Romas unidas numa só: Ocidental e Oriental. O ferro declara ausência de sabedoria na política de seus governantes e imperadores, e evidencia, por isso mesmo, a tirania que caracterizou aquele desalmado cêtro dos descendentes de Rômulo. O terrível símbolo com que Roma é apontada na profecia revela o poder que exerceu sobre as nações, suas 134

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chacinas e destruições em massa de seus declarados oponentes. Basta que a profecia a tenha figurado no “ferro” para que se tenha uma idéia de sua desumanidade quando exerceu o seu poder mundial. “O império dos romanos encheu o mundo, e, quando aquele império caiu nas mãos de uma única pessoa, o mundo se tornou uma prisão certa e medonha para seus inimigos. O escravo do despotismo imperial, quer fosse condenado a arrastar sua cadeia dourada em Roma ou no Senado, ou a levar uma vida de exilado nas rochas estéreis de Seripho, ou nas margens gélidas do Danúbio, esperava sua sorte com silencioso desespero. Resistir era fatal, e impossível era fugir. De todo o lado estava cercado de uma vasta extensão de mar e terra, que êle nunca poderia esperar atravessar sem ser descoberto, apanhado e restituído a seu senhor irritado. Além das fronteiras, sua visão anciosa nada podia divisar, exceto o oceano, desertos inóspitos, tribus hostis de bárbaros, de costumes ferozes e língua desconhecida, ou reis, dependentes que alegremente comprariam a proteção do imperador pelo sacrifício de um fugitivo culpado. “Onde quer que estejais”, disse Cícero, ao exilado Marcelo, “lembrai-vos de que estais igualmente em poder de vencedor”.1 Estrabão, o notável geografo do reinado de Tibério César, disse: “Os romanos ultrapassaram (em poder) todos os reis anteriores dos quais tenhamos notícias”.2 O mártir Hipólito, bispo, que viveu em Roma no terceiro século de nossa era, viu na “monarquia férrea” um cumprimento da profecia de Daniel “ Já domina o ferro; já êle subjuga e quebra tudo em pedaços; já em sujeição todos os renitentes; já vemos por nós mesmos estas coisas”.3 Na parte mais inferior da estátua, simbólica do poderio do mundo, fôra indicado o poder de Roma como prova de sua inferioridade e incapacidade para dirigir os destinos da civilização humana. Bem distante da áurea cabeça na posição dos metais da estátua sonhada, revelaram-se em verdade, os Césares, mais tirânicos do que sábios, mais cruéis que sensatos senhores investidos na liderança de povo de três continentes: Europa, Ásia e África. A despeito de possuir em sua história uma multidão de imperadores (80 de César Augusto a Rômulo), não preencheu o Império Romano a posição que lhe coube e que lhe conferira a profecia no cume das nações, pelo que chegou a
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Source Book for Bible Students, ed. 1927, pág. 460. O Raiar de Um Nôvo Dia, R. F. Cottrell, pág. 103 3 O Raiar de Um Nôvo Dia, R. F. Cottrell, pág. 103

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sua vez, como a dos outros que o precederam, de perder a supremacia e mesmo a existência política no mundo. Expressamente a sua desapreciação ao poder daquele Império de ferro, diz a inspiração que êle foi “queimado pelo fogo”.1 No capítulo sete do livro de Daniel, divisamos Roma ainda, principalmente no emblema dum inominável animal com dentes de ferro e unhas de metal — a esmagar o mundo, a reduzí-lo à mais tirânica escravatura política e social e a convertê-lo no mais lúgubre cárcere em que nenhuma nação ou indivíduo podia jamais escapar de suas inexoráveis barras de ferro. A revelação não se enganara, como não seria possível suceder, em tomar o “ferro” como figura do poder dos Césares romanos. “SERÁ UM REINO DIVIDIDO” VERSOS 41-42: — “E, quanto ao que viste dos pés e dos dedos, em parte de barro de oleiro, e em parte de ferro, isso será um reino dividido; contudo haverá nêle alguma coisa da firmesa do ferro, pois que viste o ferro misturado com barro de lodo. E como os dedos dos pés eram em parte de barro, assim por uma parte o reino será forte, e por outra será frágil”. “SERÁ UM REINO DIVIDIDO” Extraordinária e enfática profecia! “Um reino dividido”. Divisão e não mais união! Incrível! O fenomenal, poderoso, invencível e fortemente unificado Gigante Imperial Romano, se esfacelaria espetacularmente! De acordo ao capítulo sete versículo vinte e quatro, que trata do mesmo poder, o Império Romano se dividiria em dez fragmentos ou dez reinos distintos. O mesmo com vista aos dez dedos da estátua. Não seria o próprio Império que se fragmentaria em dez, como o de Alexandre fragmentara-se em quatro por seus generais após a sua morte imediata a suas conquistas — mas permaneceu ainda Império Grego. O mesmo capítulo sete versículo onze é enfático em afirmar que o quarto animal, simbólico de Roma-pagã, seria queimado — como já dissemos — o que é evidente que o Império dos Césares, estando ainda unido, chegaria a seu fim. Porém, é bastante claro, disto tudo, que o seu fim, como poder político pagão mundial, seria consequência de uma décupla divisão, e que não sobreviveria como Império político após o seu inevitável esfacelamento em dez reinos.
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Daniel 7:11.

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Todavia, perguntamos: Se o próprio Império não se dividiria a si mesmo criando dez reinos absolutamente romanos e governados por romanos, em seu território total, enquanto supremo no mundo, como se dividiria então e causaria assim a sua inexorável queda para sempre? É surpreendente que o Império dos Césares, cuja estrutura de “ferro” esteve de pé empunhando o cêtro da terra por mais de seis séculos, desde a vitória de Pidna na Macedônia em 168 a.C., até à sua derrocada em 476 a.C., — ou por mais de doze longos séculos se quizermos contar o seu poder desde a fundação de Roma em 753 a.C. — viesse a sucumbir de todo e para sempre como poder político dominante no orbe inteiro! Sim, por incrível que pareça, o férreo Império, que esmiuçou e quebrantou impiedosamente a terra — desabaria para jamais se reerguer como poder político civil dominante no mundo. Deveras a Roma de Rômulo e dos Césares, depois de esmagar a justiça, de solapar a independência das nações livres, de tolher a liberdade de consciência aos povos subjugados, de reduzir a nada os direitos humanos, de atingir o cume do poder sôbre três continentes conhecidos e habitados de seu tempo: Europa, Ásia e África, caiu, sim, caiu mortalmente ferida como rainha soberana absoluta da terra, sem esperança de ressurreição. E, agora, insistimos na já formulada pergunta: Como foi derribada e ferida de morte Roma Imperial Pagã? Quem a dividiu em dez fragmentos, em dez reinos? O FULMINANTE GOLPE TEUTÔNICO É certo que dentro ou fora das fronteiras romanas não havia uma única potência capaz de se erguer sozinha contra Roma e exterminála. Para derribar o gigante seria necessário muito poder, muita fôrça reunida, o ímpeto duma avalanche de povos que o invadissem simultâneamente e lhe arrebatassem tôda a chance de se defender com êxito. Seriam impressindíveis pelo menos dez poderes como os dedos da estátua e os dez chifres do quarto animal bem indicam, para levar Roma Imperial ao colápso e à catacumba. E, como os dedos e os chifres pertencem ao seu símbolo, quer na estátua quer no quarto animal, Roma, pois, criaria um estado de coisas, uma situação de fraqueza moral, social, política e belicosa, que a esporia como vulnerável e fácil presa à invasão em massa e fatal de seu território e de seu Império. Quando os imperadores romanos, depois de Constantino o Grande, se tornaram em sua maioria ociosos, fracos, afeminados, 137

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intemperantes, voluptuosos, dissolutos, dados ao luxo, ao circo, ao alcoolismo, e se fizeram por isso mesmo incapazes para o trôno, e seus exércitos passaram a constituir-se em grande parte de mercenários em vez de inteiramente de patriotas, e prepararam assim a desintegração do Império, — viram os vigorosos bárbaros de além fronteiras ter chegado o momento decisivo para a ação almejada e imediata. Abater o monstro de “ferro” já cambaleante e reduzi-lo a pedaços, era o anelo dêles todos. Um dilúvio de povos guerreiros “teutônicos”, sedentos de vingança e de melhores terras, forçam as já enfraquecidas, flutuantes, vulneráveis e quasi desguarnecidas fronteiras do Reno e do Danúbio, num verdadeiro furacão, numa avalanche antes desconhecida e incontrolável, vibrando tremendas batalhas, ocasionando tôda a sorte de destruição, morticínio e pilhagem até então sem registro nos antigos anais da História. Nêste tempo o mapa do Império Romano Ocidental sofreu muitas mudanças repentinas e violentas, enquanto as trajetórias dos invasores hostis violentavam o território e o cruzavam e recruzavam em um confuso labirinto. Dessas insanas correrias destruídoras, todos os historiadores concordam ter surgido finalmente dez reinos distintos, e podemos dizer, de conjunto, que se estabeleceram no território de Roma Ocidental desde os começos do quinto séculos até ao ano 476 de nossa éra. Dez dos invasores, em verdade, e conforme a profecia dos dez dedos e dos dez chifres, investiram com rigor e apressaram a queda de Roma. Deram afinal o golpe de misericórdia e a dividiram dècuplamente no Ocidente Europeu. Como as pernas de “ferro” representam o Império Romano unido e forte, os pés “em parte de ferro e em parte de barro”, representam o continente europeu ou Roma Ocidental dividida; ou melhor ainda, conforme a profecia — os dez dedos e os dez chifres representam as várias nacionalidades invasoras originais que a dividiram e fundaram propriamente a Europa Moderna, que são: Anglo-saxões — inglêses, francos — francêses, alemanes — alemães, lombardos — italianos, visigodos — espanhóes, suevos — portuguêses, borgundos — suíços, e mais os ostrogados, vândalos e hérulos dos quais diremos coisas surpreendentes no capítulo sete versículo oito. Sôbre êstes povos que dividiram Roma, veja-se apêndice nota 6. Assim cumpriram os dez poderes citados acima, inconcientemente, a grande profecia da divisão e queda do outrora poderoso Império. E, desde 476 a.D., o ano fatal de Roma no Ocidente, Europeu, permanece êle dividido e continuará dividido, 138

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porque a voz da divina profecia assim o quiz e assim o determinou no conselho de Deus Todo-poderoso. À medida que o tempo avança, a dividida Roma Ocidental constituída em Continente Europeu, formase mais e mais dividida, quer em território quer em ideologias políticas. Ao deflagrar-se a I Grande Guerra Mundial de 1914-1918, as nações européias viviam quasi tôdas sob o regimem monárquico. Os tratados de 1918-1922 modificaram muito a estrutura do Velho Continente e, com os desmembramentos verificados, os países até então existentes, em número de 26, passaram a somar 33. O período de 1922-1938 trouxe à tona, principalmente, duas extranhas ideologias — autoritarismo e totalitarismo — de cunho marcadamente antidemocrático. Essas transformações foram frutos das violações sucessivas dos tratados de paz, ou em virtude de revoluções internas e de constituições solapadas. E, depois da II Grande Guerra Mundial, resultante da brusca transformação para o autoritarismo e totalitarismo, o malfadado ex-território do antigo Império Romano virou maior confusão e maior cáos, dividido em dois perigosos blocos comandados pelo Leste e Oeste, que constantemente se ameaçam e se desafiam. Roma Cesarina, como dissemos, foi simbolicamente queimada pela palavra da profecia inspirada e reduzida a cinzas, não havendo possibilidade de impor-se jamais de nenhuma forma ainda que todos os romanos e seus Césares ressuscitassem do túmulo e do pó exigissem o cétro do mundo que outrora lhes pertencia. Outrossim, nenhuma potência moderna, por mais poderosa que seja será capaz de unir novamente a Roma dividida e empunhar o seu antigo cétro mundial em suas mãos, sòzinha. Ainda que o dividido reino, de acôrdo com a profecia, se tornasse por uma parte, forte, no que respeita às nações representadas no ferro de sua divisão, contudo êstes fragmentos não conseguiriam jamais fundir todos os fragmentos numa restauração do que fôra outrora Roma Ocidental. A parte frágil — as nações fracas — representadas no “barro de lodo”, parece constituir a causa do fracasso de tôda a possível união, pois ferro e barro não se podem fundir. Fortaleza e fraqueza, pois, caracterizam até a divisão do que fora o grande reino mundial de Roma. A VÃ AMBIÇÃO DE CARLOS MAGNO A inspirada sentença — será um reino dividido — tem desafiado e desesperado um bom número de estadistas e potentados ambiciosos durante dezesseis séculos. Estas quatro palavras — será um reino 139

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dividido — são palavras de destino. Nenhum poderoso da terra conseguiu quebrá-las no passado e nenhum no futuro o conseguirá. Uma vez após outra, desde a queda do Império Romano, homens poderosos têm tentado reaver os domínios deixados pelos descendentes de Rômulo e fundir novamente o ferro romano na Europa em um nôvo império que por fim alcançasse o inteiro orbe, mas sempre fracassaram — e o dividido Império Ocidental continuou dividido e permanecese dividido. Como que pretendendo contrair a profecia da divisão permanente de Roma, Carlos Magno, rei de França, foi o primeiro de que temos notícia a procurar reaver o Cêtro Imperial Romano na Europa Ocidental pelas armas. Pretendeu-se com êle o que depois intentou-se com Otão I em 962, aliás, o restabelecimento do referido Império dos Césares com o nome de “Santo Império Romano”, devendo êste título restaurativo ao fato de estar em harmonia com o Papado romano. Os imperadores eram coroados pelos papas e êstes feitos pelos imperadores, surgindo daí o direito papal à investidura dos soberanos, pretenção que, com Henrique IV e Gregório VII, resultou numa dramática luta em que venceu o segundo, coroado da Sé romana. Carlos Magno subjugara os lombardos, os bávaros, os saxônios, os ávaros. Seu Império foi compreendido entre o Mar do Norte, o Elba, a Boêmia, o Carigliano, o Ébro, os Pirineus e o Atlântico. No Natal do ano 800 chegou a ser coroado Imperador do Ocidente na Basílica de S. Pedro, pelo papa Leão III. Se lá estivéssemos e assistíssemos a coroação sôbre uma tão grande parte do que foram antes os vastos domínios do antigo Império Romano, teríamos sem dúvida sido fortemente tentados a duvidar da estabilidade da profecia de Daniel com respeito à divisão do quarto reino mundial. Porém, poucos anos mais tarde, em 28 de janeiro de 814, Carlos Magno fôra levado ao sepulcro, e o seu Império se desmantelou — ficando de pé admiràvelmente reivindicada a profecia inspirada da divisão conscutiva de Roma. “Diz-se que quando o sepúlcro de Carlos Magno foi aberto em Aix-la-Chapelle, há algum tempo, sua forma descarnada, vestida de vestes reais, estava assentada sôbre o trôno, com a corôa de ouro pendendo da cabeça. Em frente ao trono um grande exemplar das Escrituras, em pergaminho, jazia aberto, enquanto um dedo ósseo apontava a passagem em Isaías, capítulo quarenta versículo oito: “Seca-se a erva, cai a flor; mas a palavra de nosso Deus subsistirá para sempre”.1 Em verdade permaneceu de pé, grandemente vindicada, “a
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Palestra de A Voz da Profecia, n.° 4, pág. 2.

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palavra de nosso Deus” da profecia da divisão de Roma, que Carlos Magno tentou violentar. Êle pereceu — mas ela permaneceu. O FRACASSO DA PRETENÇÃO DE CARLOS V Uma outra tentativa pró unificação da Europa foi feita no século da Reforma — por Carlos V, rei de Espanha e imperador da Alemanha. Tornou-se êle senhor da maior parte da Europa incluso Espanha, Alemanha, Áustria, Itália, Flandres, e acariciava visões de conquistas em todo o continente e por fim o domínio do mundo. Dizse a seu respeito que “nenhum outro monarca até Napoleão, foi tão amplamente visto na Europa e na África”. Mas teve de lutar contra Francisco I da França, contra Solimão — sultão Otomano e contra os luteranos de Alemanha. Não podendo por isso realizar os seus ambiciosos projetos de uma Europa unida e muito menos de um mundo unido, cansado do poder e com a saúde seriamente abalada, abdicou em 1555 e retirou-se ao mosteiro de Yuste (na Espanha), donde ainda muitas vêzes ditou a sua ambiciosa vontade aos seus sucessores. Porém, seus vastos domínios se desintegraram nas mãos destes. Sim, a nova pretensão de unir o ferro e o barro romanos foi mais uma vez malograda, e a profecia divina permaneceu como ditada por Deus ao profeta. O MALOGRO DOS PLANOS DE LUIZ XIV Um século mais tarde, Luiz XIV de França — o homem temido e respeitado no interior e no exterior e que orgulhosamente dissera: “O Estado sou eu” — foi outro aventureiro que também sonhou reunir o ferro e o barro romanos na Europa e aspirou a monarquia universal. Tornou-se figura dominante no continente. Desmedidamente ambicioso, sustentou muitas guerras estendendo seus domínios em tôdas as direções. Seus brilhantes generais embeberam a Europa em sangue. Invadiu os Países Baixos, assolou o Palatinado e exclamou: “Já não existem Pirineus”. Mas êle fracassou. Uma coligação de fôrças oponentes fez desmoronar seus ambiciosos planos a seus pés qual castelo de cartas. Pelo tratado de Utrecht, em 1713, foram seus domínios cortados em todos os lados. Teve de devolver como independentes os Estados por êle submetidos, viu seu próprio país pecuniàriamente esgotado e decadente e foi obrigado a contrair uma paz humilhante para a França. Rei ambicioso e amante do mundo, 141

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desapareceu no horizonte da História, e, como outro rei ambicioso dos tempos antigos, “morreu sem deixar de si saudades”.1 Sua derrota demonstrou que nenhum potentado do mundo terá o poder de fazer caducar aquilo que Deus determinou — como o fez na divisão européia do Império de Roma. A profecia subsistiu e Luiz XIV viu seus orgulhosos planos irrealizados. Ela permaneceu íntegra e o rei de França sumiu-se na morte e no pó. A TRÁGICA AVENTURA DE NAPOLEÃO Um século depois do colápso de Luiz XIV, surge Napoleão o Grande, aquele meteoro humano que brilhou diante dum mundo maravilhado e foi talvez o maior pretendente à soberania da Europa e à conquista do mundo. Foi êle considerado um fruto da Revolução Francêsa, e, de 1795 a 1804 quando proclamado imperador, consolidou seu poder sôbre os francêses. Então, com a espada na mão deixou Paris para consquistar a Europa, e disse: “Não haverá repouso na Europa até que ela esteja sob uma cabeça, sob um imperador, cujos oficiais serão reis”.2 Como que pretendendo capitular a profecia, a audácia de Napoleão foi ao ponto de procurar destruir o poder da Inglaterra no além-mar, inimigo número um na efetivação de suas ambições. Por isso levou a cabo um grande plano de invasão do Egito e da conquista do Oriente Médio bem como da Ásia. Êle embriaga-se com suas ilusões de dominação mesmo do mundo. A 19 de maio de 1798 sua esquadra fêz-se ao mar em Toulon, em demanda da terra dos Faraós. Era uma esquadra como jamais se vira no Mediterrâneo e se compunha de numerosos navios de linha, de guerra e de transportes que conduziam um numeroso exército de terra, artilharia e todo o material bélico necessário para a invasão e prosseguimento imediato da guerra no Egito e em tôda a Ásia Ocidental. A travessia para o Egito foi sem novidade, a despeito de a esquadra inglêsa de Nélson ter por três semanas vasculhado o Mediterrâneo em busca da esquadra francêsa de invasão, e por ela ter passado três vêzes sem que pudesse divisá-la. De sua aventura sôbre o Egito e a Ásia dissera mais tarde Napoleão: “Eu figurei-me ser o criador de uma religião; vi-me a caminho da Ásia montado em um elefante, com um turbante na cabeça e levando na mão um nôvo Korão por mim mesmo redatado. Em
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II Crônicas 21:20. Beacon Lights of Prophecy, W. A. Spicer, pág. 49.

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minhas emprêsas havia reunido a experiência de dois mundos; olhavame como o herdeiro universal da história; destruiria o poder da Inglaterra na Índia e com esta conquista enlaçava novamente minhas comunicações com a antiga Europa”.1 Porém, a campanha de Napoleão no Egito malogrou. A frota francêsa foi derrotada, primeiramente em Abukir a 2 de agosto de 1798 e depois em Trafalgar em 1805. Em 1812 teve lugar a sua ambicionada expedição contra a Rússia. É dito que enquanto sentado em seu cavalo em marcha, em profundos pensamentos e incomunicável, aqueles que o acompanhavam percebiam a profunda matéria de seus pensamentos: “A conquista da Rússia — Europa — o mundo”. Quando o Czar da Rússia lhe lembrou que “o homem propõe, mas Deus dispõe”, Napoleão declarou: “Eu proponho e disponho”, e invadiu a Rússia com meio milhão de homens; era um grande exército para a época. Sua máxima era que “a Providência está do lado de quem tem a mais pesada artilharia”. Porém, a despeito de vitorioso, foi obrigado a retirar-se de Moscou através de Berezina, vendo seu exército ser destruído pelo gêlo, pela neve e pela fome — e isto fêz uma grande reviravolta na História. Êste desastre na Rússia foi causa de uma série de outros desastres. A Europa inteira coligou-se contra êle. Em 1813 sofreu a séria derrota de Leipzig. Os aliados invadiram o território francês e Napoleão teve de abdicar em Fontainebleau em 11 de abril de 1814. Reencetando novamente a luta, foi definitivamente vencido em 18 de junho de 1815 em Waterloo, na Bélgica, pelo exército anglo-prussiano. A mão de Deus fêz cair mansa chuva todo o dia anterior. A artilharia pesada dos francêses não podia mover-se como devia e daí a derrocada daquele que almejou o domínio do mundo. Napoleão entregou-se aos inglêses que o exilaram na ilha de Santa Helena, na costa atlântica da África, onde morreu em 5 de maio de 1821, aos 51 anos de idade. O grande visionário desapareceu do palco da Europa. Como dissera Victor Hugo — “Deus estava enfastiado dêle”. O nome de Napoleão infundira terror em tôda a Europa quando nação após nação era invadida e submetida por seus vitoriosos exércitos. No entanto, chegou por fim o tempo para a sua derrubada. Êle procurava vencer um continente inteiro que estava resguardado, protegido por esta infalível sentença profética de Deus: — Será um reino dividido. Vinte e três séculos entre êles, as suas ambições e a de todos quantos antes e depois dêle pretenderam apossar-se do que fôra
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História Universal, G. Oncken, Vol. 33, ed. em espanhol, pág. 365.

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outrora o antigo Império Romano Ocidental, foram já desbaratadas pela profecia divina. Poderosos e aguerridos exércitos se desmantelaram e se liquidaram ante esta fatal sentença inspirada — “será um reino dividido”. Em 1811, pouco antes da campanha da Rússia, escrevendo a seu irmão José, dissera Napoleão: “Dentro de cinco anos serei senhor do mundo’’. Porém, liquidado absolutamente o seu poder e as suas pretenções de senhorio mundial, foi obrigado a declarar em 1815, no fatal Waterloo: “O Deus Onipotente é demasiado forte para mim”. Trinta anos depois do desastre de seus exércitos na Rússia, vítima do gêlo, da neve e da fome, escreveu o Dr. Thomas Arnold, de Oxford, o seguinte: “Jamais um estado terreno alcançou mais orgulhoso pináculo do que quando Napoleão, em junho de 1812, reuniu seu exército em Dresden, aquela poderosa hoste inigualável em todo o tempo, de 450.000, não meramente homens, mas efetivos soldados, e ali recebera a homenagem de reis vassalos. E qual foi o principal adversário dêste tremendo poder? Por quem foi êle obstado, resistido e derribado? Por ninguém, por nada, senão a direta e manifesta interposição de Deus... Instrumentos humanos sem dúvida foram empregados na efetividade da obra, nem poderia eu negar à Alemanha e à Rússia as glórias daquele grande ano de 1813, nem à Inglaterra a honra de suas vitórias na Espanha, ou da coroa da vitória de Waterloo. Porém, depois de trinta anos, aquêles que viveram no tempo do perigo, e lembram sua magnitude, e agora calmamente revêem o que havia em fôrça humana para evitá-lo, devem conhecer, penso eu, além de tôda a controvérsia, que o livramento da Europa da dominação de Napoleão não foi efetuado nem pela Rússia, nem pela Alemanha, nem pela Inglaterra, mas pela mão de Deus unicamente”.1 E, em seu exílio, na ilha de Santa Helena, na costa da África, fêz Napoleão esta sensacional declaração: “Alexandre, César, Carlos Magno, e eu fundamos impérios. Mas em que baseamos as criações de nosso gênio? Na fôrça. Jesus Cristo foi o único que fundou Seu império no amor; e a esta hora milhões morreriam por êle... Eu estou em Santa Helena... encadeado nesta rocha... Você (general Bertrand) partilha e consola meu exílio... (a voz do imperador treme de emoção). Logo eu estarei no meu sepulcro... Morro antes do meu tempo; e meu corpo morto deverá retornar à terra, para tornar-se alimento dos
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Lectures en Modern History, lecture 3.

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vermes. Vejo o destino próximo daquele a quem o mundo chamou o Grande Napoleão”.1 Deveras o grande homem fôra considerado um ídolo dos francêses e até, quem sabe, um deus. Todavia recebeu a justa recompensa de lutar contra os desígnios de Deus. OS DOIS CASTELOS DE CARTAS DO SÉCULO XX Em pleno século XX, dois homens, seguindo o infeliz exemplo dos poderosos já citados e sem levarem em conta as derrotas que sofreram, na tentativa de unificação da Europa em tôrno de um só cétro, julgaram-se bastante fortes para vibrar seus golpes na espectativa de reunir novamente o ferro e o barro romanos divididos e até então impossíveis duma amálgama política. O primeiro dêles foi Guilherme II, o Kaiser da Alemanha, na terrível I Grande Guerra mundial de 1914-1918. Mas fracassou como um castelo de cartas que se desfaz em nada e deixou o seu país na mais funda bancarrota. O segundo foi Adolfo Hitler, que, a despeito das lições negativas do passado, julgou-se suficientemente forte e capaz do triunfo que os outros não lograram alcançar e tentou vingar assim a derrota alemã de Guilherme II. Daí o tremendo conflito da II Grande Guerra Mundial, cujo estopim foi por êle aceso. E quem diria que Hitler, ao derrubar uma após outra nação da Europa — mais poderoso que Napoleão — não dominaria supremo êste continente e o transformaria em trampolim para a conquista do mundo inteiro? A Inglaterra, entretanto, ainda que fortemente atacada e grandemente destruída pelo ar, ali estava, no outro lado do Canal da Mancha, como um espantalho para Hitler e como um inexpugnável e decisivo baluarte para rechassá-lo e derribá-lo de seus planos de domínio continental e mundial. Em 1939 os exércitos de Hitler invadiram quase tôda a Europa. Desde o Ártico aos Pirineus as nações caíram submetidas. Só a Grã-Bretanha se susteve de pé, interposta entre o sonho de Hitler e sua realização. Urgia, pois, a invasão incontinente da Inglaterra, se o “Führer” quisesse ganhar a guerra. E o dia da almejada invasão — 16 de setembro de 1940 — foi marcado, exatamente quando o mar estaria calmo e haveria maré ideal para a emprêsa. Era esta a época quando alguns arrojados nadadores cruzam o canal, na espectativa dum título

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Source Book for Bible Students, ed. 1927, págs. 288, 289.

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e da fama. Em tal data a lua cheia favorecia a invasão de Hitler. Porém, sucedeu o opôsto da previsão alemã. Naquele ano houve fortes tormentas que se prolongaram desde o dia 17 até 30 de setembro. E os navios de invasão tiveram que refugiar-se nos portos e enseadas, onde foram atormentados pela Fôrça Aérea Britânica. Então o “Führer” transferiu a invasão para novembro ou dezembro, aproveitando os nevoeiros destes mêses. Todavia, pela primeira vez na história, não houve nevoeiros nas zonas escolhidas nêsse inverno. A próxima data de invasão se realizaria então a 15 de fevereiro do seguinte ano segundo se supunha. Mas, no dia 14 se apresentou um maremoto no Atlântico. O maremoto causou altas marés nas costas da Europa. E a dispersa frota alemã de invasão mais uma vez foi obrigada a refugiarse nos portos e novamente foi bombardeada por aviões britânicos. Foi então que Hitler cometeu o seu maior êrro da guerra — a invasão da Rússia. Teve êle a mesma sorte de Napoleão, embora indizivelmente muito mais armado do que aquêle grande gênio. Com a entrada dos Estados Unidos no conflito, começou o colapso da Alemanha e o sonho de Hitler de domínio da Europa e do mundo se desmoronou. A Alemanha ficou alquebrada, ocupada pelos aliados vencedores, e o “Führer” foi jazer no pó da terra vencida, a inabalável profecia da divisão da Europa mais uma vez permaneceu e foi o móvel evidente da derrota, a maior dos séculos naquele continente. O PODEROSO DESÍGNIO DO ETERNO Que fenomenal profecia esta, do Império Romano Ocidental dividido! A impressionante frase profética, várias vêzes já citada: “Será um reino dividido”, tem permanecido como um baluarte do poderoso desígnio do Eterno sôbre a Europa. Esta espetacular sentença tem reduzido a pedaços as planejadas ambições de conquista continental européia dos poderosos ambiciosos do Velho Continente. Empreenderam êles uma emprêsa fadada ao fracasso, — a junção do ferro e do barro daquelas nações. A extraordinária profecia tem permanecido intacta e tem pôsto abaixo a pretenção de unidade da Europa, sob a liderança de um só indivíduo ou duma só nação. Carlos Magno, Carlos V, Luiza XIV, Napoleão, Guilherme II e Adolfo Hitler. — foram vencidos, não por seus inimigos políticos, mas por esta imortal sentença da inspiração: “Será um reino dividido”. Êles procederam em contrário da vontade de Deus envolta nesta mágica sentença, e se esboroaram de perecerem, e com êles pereceu o plano da realização do impossível, pois batalharam contra os aguilhões duma profecia infalível e indestrutível de Deus. 146

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Depois da derrocada de Hitler em 1945, surge um novo plano de unificação da Europa, não pela conquista das armas, mas pela conquista dos tratados, dos tratados de papel. Êsse talvez derradeiro e angustiante plano denominaram-no de “Estados Unidos da Europa”. Não obstante, afirmamos que a inspirada profecia do céu tem até agora conservado a Europa dividida em muitas nações, e cremos que seguramente continuará assim dividida sejam quais forem os planos que formulem os homens por uní-la sob um só cêtro ou sob uma só ideologia dominante. Desde a divisão de Roma pelas mesmas grandes potências que formaram a Europa, o Continente continua dividido não só em nacionalidades como em ideologias que o meteram no caos permanente. UMA CIVILIZAÇÃO DE FERRO E BARRO Os povos que forçaram a queda de Roma e originalmente se estabeleceram em seu território ocidental, fundaram ali, segundo a profecia que lhes diz respeito, uma civilização ou um continente de “ferro e barro”. Eis o caráter político das nações do chamado “Velho Continente”. Do lado do ferro romano vemos as fortes potências, nações materialistas, militaristas, belicosas; nações conservadoras do implacável espírito da férrea Roma dos Césares, — pois são figuradas pelo “ferro” romano. Do lado do “barro de lodo” vemos as frágeis nações em meio ao duro ferro, sem quase nenhuma expressão política, sem poder para se imporem, e, em muitos sentidos, instrumentos da política das fortes. Como o ferro e o barro literais não têm apoio mútuo, assim são as fortes e as frágeis nações naquele ambiente continental, em que vivem. A política das fortes e a política das fracas potências são diametralmente antagônicas. As fortes desempenham uma política forte, dura, rígida, e as fracas uma política fraca, sem influência alguma. E daí não poderem contar com o apoio político recíproco. Esta desigualdade de forças, este estado de caos político, resulta numa completa instabilidade internacional e continental, — tal como a que há entre o ferro e o barro, que não se atraem, não se unem, não se apoiam. A profecia fala com evidência dessa desunidade no dividido território de Roma. Assim, nos símbolos do “ferro” e do “barro”, vemos em verdade o caráter político desarmônico das nações da Europa. O mesmo sucede em todo o continente americano — nas três Américas — cujas nações são de origem européia — são manufatura daquele desequilíbrio continental. São também ferro e 147

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argila em caráter político e social, oriundos dos dedos da estátua profética internacional. Lamentàvelmente a Europa tal como a profecia informa, constitue uma família continental de “ferro” e “barro” simbólicos. Dum lado, a dureza e a inflexibilidade do ferro do outro, a fraqueza e a flexibilidade do barro. Nações do ferro e nações de barro. Política de fôrça e política de fraqueza. Política de ferro e política de barro. A violência do ferro e a temerosidade do barro são a “ordem do dia” na Europa. Nações terrivelmente iradas e nações terrivelmente temerosas. Um continente forte dum lado e frágil do outro — eis o que atesta a inspirada profecia de Daniel, que consideramos. O homem diz do tempo atual: “Civilização das luzes”. Deus, porém, diz: “Civilização de ferro e barro”! A civilização de ouro, representada pela “cabeça de ouro” da estátua do sonho do rei Nabucodonosor, degenerou-se até se converter numa “civilização de ferro e barro”, fundamentalmente de origem “bárbara”. Aí está como a revelação vê o continente chamado — berço da hodierna civilização! E é o que chamam de “Civilização cristã ocidental”! Sim, civilização cristã constituída de nações cujo caráter é figurado pela inspiração como de “ferro” e “barro”! Dum lado o “ferro” cristão bruto, não liquefeito e não moldado nos moldes da justiça de Cristo. Do outro lado, o “barro de lodo” também não moldado nem submetido à ação do forno candente dos direitos do evangelho do Filho de Deus. Está, em verdade, ausente a verdadeira civilização cristã. “Ferro” bruto e “barro de lodo”, eis, sim, como o Céu vê a Civilização européia chamada cristã, bem como a civilização chamada assim de tôdas as nacionalidades que de lá procederam. “Ferro” e barro”, eis a civilização de dois continentes chamados cristãos. Por isso mesmo vemos uma confusão babilônica de seitas denominadas cristãs! Seitas ou religiões de “ferro” e “barro”! Eis a civilização cristã que pretende orgulhosamente pregar e implantar nos demais continentes pagãos o evangelho de Cristo para convertê-los em cristãos!... No livro do Apocalipse Cristo simboliza o puro cristianismo por Êle e Seus apóstolos pregado, num castiçal de fino ouro. E, no livro de Daniel, como estamos considerando, Êle simboliza a civilização cristã ocidental em “pés de ferro” e “barro”. A diferença é como o dia da noite! É evidente que o cristianismo ocidental não é o legítimo e original cristianismo instituído por seu fundador e desseminado por Seus apóstolos no mundo romano de outrora. A hodierna civilização cristã ostenta o cétro de “ferro” e “barro” e não o áureo e poderoso 148

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cêtro do reino do Salvador do mundo. Ela só está interessada no reino da fôrça e do lodo, e não no reino do amor, da pureza, da humildade e da justiça de Cristo. O FRACASSO DO ÚLTIMO RECURSO VERSO 43: — “Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão mediante casamento, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro se não mistura com o barro”. UMA TENTATIVA DESAJUÍZADA A despeito do plano do Criador de coexistência pacífica e independência absoluta de tôdas as nações da terra, em todo o tempo se tem verificado que algumas delas se insurgiram e se levantaram contra outras através de seus déspotas soberanos usurpadores, que procuraram impor a sua supremacia, acarretando assim sérios transtornos políticos, sociais, econômicos e morais à vida normal das nacionalidades. É esta deveras uma velha e malsinada ambição que tem tomado posse, até hoje, da mente de muitos desvairados senhores do poder, sedentos de efêmera glória, não importando, para êles, as destruições e as chacinas que seguramente possam causar pela violência das armas e pela fraude, uma vez que atinjam os seus inglórios objetivos de domínio supremo e ganhem um nome na História. Com grave perda para todo o continente e para suas próprias nações, fizeram loucamente isto mesmo alguns desajuizados potentados da Europa, como já vimos. Na esperança de conquista e domínio de todo o “Velho mundo”, abundante sangue derramaram e indizíveis desgraças causaram àqueles povos. Mas tudo foi em vão. Ambicionando realizar o impossível, fracassaram por completo, pois batalharam contra os decretos do Todo-poderoso e único Dominador, exarados com evidências nas profecias de Sua revelação — que é a separação territorial e política daquelas nações, como de tôdas as demais do globo. O versículo quarenta e três que agora consideramos, alude a um desesperado e derradeiro recurso, predito, aliás, de que lançariam mãos algumas das sempre irrequietas nações da Europa, na esperança de assegurar, por fim, a unidade continental sob a liderança de uma só delas. Outros anteriores expedientes com o mesmo propósito de unificação: Tratados, alianças e guerras de conquistas, resultaram em completo fracasso e decepção. Todavia a vã esperança de solução de 149

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problema, que não era pròpriamente um problema mas uma usurpação de direitos, subsistiu e subsiste até os dias atuais. Em meio, porém, ao infortúnio de mil conflitos armados na louca busca de domínio total da Europa, algumas das principais Casas Governamentais do continente empreenderam, como íamos dizendo, um nôvo recurso, sim, um angustiante e esperançoso recurso pró união do reino dividido. Conceberam a unidade continental sob uma só insígnia através duma nova modalidade política, aliás, — a do matrimônio internacional. Creram ter com isto encontrado a solução impossível, decisiva e positiva para a crise da unidade almejada. A profecia, entretanto, não considera as nações da Europa, politicamente, mais do que simplesmente ferro e barro simbólicos. Como é impossível uma liga, uma fusão entre ferro e barro naturais, em virtude da natureza destas substâncias, é, de igual modo, impossível uma liga, uma união política, seja de que natureza fôr, que transforme a Europa livre novamente em um Império uno, sob um só governo central, à semelhança do Império dos Césares romanos. A profecia relativa ao nôvo recurso daquelas nações é evidente e enfática. Ei-Ia: “Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão “mediante casamento”, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro se não mistura com o barro’’. Misturar “mediante casamento”, é exatamente alusive ao casamento político-internacional. E muitas foram as tentativas no sentido de unificar a Europa num só reino, mediante êste expediente político de consolidação do poder em todos os séculos de sua agitada história. No entanto, todo o esfôrço neste procedimento foi a renovação da tentativa da consecução do impossível, e transformou-se em nôvo fracasso e nova decepção. A história da Europa fornece-nos boa cópia de material referente à ilusão da ambicionada unidade continental promovida pela modalidade do matrimônio-politico entre as realezas européias, que parcialmente daremos a seguir num pequeno quadro: No princípio da grande divisão do Império Romano Ocidental, Teodorico, o Grande, rei dos ostrogodos, uniu-se por laços de família aos mais poderosos caudilhos dos povos da mesma raça, isto é, aos francos, borgundos, visígodos, vândalos e turingios. Carlos Magno, de França, casou-se com Desejada, filha de Dezidério, rei dos Lombardos; repudiou-a, porém, fêz guerra ao sogro, e uniu-se em novas nupcias com Hildegarda, parente do duque da Alemanha. Carlos V, rei de Espanha e imperador da Alemanha, era filho de 150

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Felipe, o Bello, o arquiduque da Áustria, e êste filho do imperador Maximiliano I da Alemanha e de Joana, a Doida, filha de Fernando e Isabel de Espanha. Napoleão divorciou-se de Josefina sua primeira mulher para casar-se com Maria Luíza, filha do imperador da Áustria. Josefina não tinha filho e êle desejava um filho que fôsse coroado rei de Roma. Mas seu próprio sogro declarou-lhe guerra e contribuiu para sua ruína. O mesmo Napoleão, antes de sua queda, estabeleceu seus parentes em vários tronos da Europa: Colocou “seu irmão Luiz no trono da Holanda, e outro irmão, Jerônimo, no nôvo reino da Westfália, por êle criado. Fêz seu cunhado Murat soberano do Grão Ducado de Berg, que êle criara também, e deu a seu irmão José o trono da Espanha. Nenhum outro conquistador fêz jamais tão completas preparações para o estabelecimento e perpetuação de uma Europa unida”.1 Os nove Cristianos do trono da Dinamarca e os seis Fredericos do mesmo trono, eram também reis da Noruega, sendo dois dêles também reis da Suécia. Childerico II e Dagoberto I, eram reis de França bem como da Áustria. Dos cinco Felipes de Espanha, dois também eram reis dos Países Baixos, e outros dois também de Portugal, e um dêles era neto de Luiz XIV de França. Luiz I e Luiz II da Hungria, eram ao mesmo tempo reis da Polônia e da Boêmia. José I da Grécia era filho e herdeiro de Cristiano IX da Dinamarca. José I de Portugal era filho de D. João V e da rainha D. Mariana da Áustria. Carlos IV, imperador da Alemanha, era filho de João de Luxemburgo rei da Boêmia. Napoleão III era filho de Luiz Bonaparte, rei da Holanda. Ao iniciar-se a I Grande Guerra Mundial, todo o ocupante de um trono hereditário de certa importância na Europa, estava aparentado com a família real britânica. Jorge V da Inglaterra, Nicoláu II da Rússia, Constantino I da Grécia e os reis da Noruega e Dinamarca, eram todos primos irmãos em primeiro grau e todos os cinco eram netos de Cristiano IX da Dinamarca. Jorge V da Inglaterra, Guilherme II da Alemanha, a rainha da Grécia, a Czarina da Rússia, e as rainhas de Espanha e da Noruega, eram todos netos de Vitória rainha da Inglaterra. Esta rainha Vitória foi denominada — a vovó da Europa. Porém, o laço de parentesco entre as casas governantes da Europa é muito mais estreito do que demos acima. Referimos apenas a algumas cabeças coroadas dos vários tronos daquele continente. A
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A Marcha da Civilização, A. S. Maxwell, pág. 93.

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união matrimonial do lado príncipesco, dos que herdaram os vários tronos daquelas nações, é muito mais vasta ainda do que a referida acima. Todavia, a despeito de todo o empenho para unir a Europa numa só comunidade, quer pelas armas quer pelo casamento internacional político, ela sempre estêve desunida e dividida. Jorge V e Guilherme II, como vimos, eram primos irmãos, mas durante a Primeira Guerra Mundial foram os mais acérrimos inimigos. Quando a Europa tem estado em guerra, mòrmente nas duas grandes guerras do século, é ela comparada a uma família quando em franca discórdia. As casas reais, especialmente as mais fortemente imbuídas do espírito belicoso, “são pràticamente tôdas do mesmo tronco germânico e quase do mesmo sangue”. Por nenhuma fórmula política será jamais conseguida a união dos povos europeus num único Império como antes o era o de Roma no mesmo continente. A profecia da divisão territorial e política daquelas nações que abateram Roma, é divina e infalível. Em virtude, pois, de sua infalibilidade, todos os ousados planos de todos os pretendentes ao trono unido daquele continente, foram desbaratados e ridicularizados. A profecia zombou dêles. A Europa continua desunida e dividida desde que ali se acantonaram aquelas nações e dividida continuará para sempre. Deus assim o quis e nada poderá o homem contra a Sua augusta vontade. E, agora, perguntamos: Quais as devidas razões da anunciação profética de completo fracasso nas consecuções pró unidade da Europa num Império absoluto e despótico? Respondemos não ser êste o plano de Deus para com as nacionalidades. É, não obstante ,o plano de Satanás, para o seu prazer e pela tirania, subjugar e oprimir a família humana, como vimos na atuação dos quatro Impérios Mundiais do passado — Babilônia, Medo-Persa, Grécia e Roma — que, por isso mesmo, foram liquidados pela vontade de Deus plenamente anunciada em profecias especiais definidas? Tôdas as nações, quer as da Europa quer as de outro continente qualquer, poderão, se quiserem, coexistir pacificamente sem a necessidade da união política dum Império para êsse fim. Nada impede que coexistam em permanente harmonia. Há, todavia, um Império glorioso que de comum acôrdo poderiam e deveriam estabelecer, embora divididas política e territorialmente — O Império do Amor. Eis a única solução para um mundo pacífico — eis as verdadeiras Nações Unidas do orbe se isto assim desejarem os seus governantes. Dessem as nações da Europa crédito às profecias que lhes dizem respeito, e que lhes proíbe a união injusta dum Império opressor, 152

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como foi e é o anélo de alguns de seus ambiciosos estadistas, — saberiam da vontade de Deus contrária a tão repelente e nefasto propósito que já ensanguentou e enlutou aquêle continente desde o sexto século até ao século XX atual. Fiquem tranquilos os modernos ambiciosos, pois jamais conseguirão, por nenhum meio, a unidade continental européia. Se se arriscarem outra vez a tanto, estarão trabalhando contra os tremendos aguilhões das profecias, e seguramente fracassarão e trarão vexame e ruína às suas nações como outros já trouxeram e as arruínaram. EUROPA — CONTINENTE DA GUERRA A Europa tem-se demonstrado um continente sem paz, sem harmonia, desassossegado, em permanente reboliço. Desde que ali aportaram as suas atuais nacionalidades como povos bárbaros e belicosos, e se transformaram em modernas nações, até agora ainda não cessaram as lutas e desavenças entre elas. Em 1936, um professor russo, que vivia na Inglaterra, deu-se ao trabalho de verificar o número exato de guerras provocadas na Europa durante dez séculos. A estatística que organizou mostra um total de 827 conflitos armados. Dêstes, 185 foram provocados pela França, 176 pela Inglaterra, 151 pela Rússia, 75 pela Espanha, 32 pela Itália e 23 pela Alemanha. Isto dá quase uma guerra por ano! Eis o resultado duma política continental catastrófica e orgulhosa. As maiores potências, como apresenta a estatística, se demonstraram até agora as mais belicosas e responsáveis pelo caos do continente. Não cessaram até agora as lutas e o ódio. Quando a guerra cessa nos campos de batalha, continua nos bastidores internacionais! Somos forçados a perguntar se isso é o que consideram civilização?! Comprova-se que os povos bárbaros que fizeram capitular Roma Ocidental e se apossaram de seu território europeu, ali ainda estão com o mesmo espírito barbárico. A Europa tem sido o paiol de pólvora do mundo. As duas últimas grande guerras mundiais foram provocadas por suas maiores e mais ambiciosas nações. Nos dois terríveis conflitos, que de qualquer maneira se estenderam ao mundo inteiro e envolveram tôdas as nações, dum ou doutro modo, direta ou indiretamente, foram assassinadas nos campos de batalha, nos campos de concentração e nos bambardeios aéreos, nada menos do que cêrca do oitenta milhões de creaturas humanas. As nações ficaram econômicamente arrazadas. As perdas materiais foram enormíssimas. 153

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É surpreendente quantos planos têm sido elaborados a fim de deter o espirito belicoso das nações européias e uni-las fraternalmente numa só comunidade. Tratados têem sido feitos pelos quais quase tôdas celebraram um convênio com quasi tôdas as demais potências. Nada adiantou a Sociedade Internacional da Paz com seu suntuoso “templo da paz” em Haya, na Holanda, inaugurada em 1899. É bastante surpreendente a história dessa extinta agremiação internacional política, cujo objetivo real era unir as nações numa comunidade pacífica, mormente as da Europa. Quando foi resolvida a construção de seu famoso Templo da Paz, rompeu a guerra dos Boers (colonos africanos de origem holandeza no Transval e Orange), contra a Inglaterra, e tramava-se já o conflito russo-japonês. Ao por-se a primeira pedra, o Kaiser fez sua viagem a Tanger, resultando no início das complicações marroquinas. Ao ser concluído o primeiro andar, a Áustria anexou a Boêmia e Herzogovins. Pronto o segundo andar, surge o conflito franco-alemão. Ao colocarem o telhado começa a guerra turco-italiana. Ao ser concluído, esperava-se a terceira conferência, mas veio a Grande Guerra Mundial que roubou a vida a 10.000.000 de homens das nações suas filiadas! A Liga das Nações, com sua famosa séde em Gênebra, na Suíça, herdeira legítima da Sociedade Internacional da Paz, foi fundada em 10 de janeiro de 1920, como resultado do tratado de Versailles de 28 de agosto de 1919. Sua primeira sessão reuniu 41 nações. Uma série de importantes pactos foram realizados para dar-lhe estabilidade. Um dos mais importantes foi o Pacto Kellog, em 27 de agosto de 1928, por meio do qual 61 nações declararam a guerra fora da lei. Diziam os jornais da época, após assinado o famoso pacto: “Hoje foi a guerra internacional banida da civilização”. “Pela primeira vez na história do mundo, vai-se ter paz eterna e mundial”. O presidente Wilson, pai da Liga das Nações, foi saudado com ruidosos aplausos em Paris, Londres e na Itália onde os camponêses italianos acenderam velas diante do seu retrato, Wilson chegou a ser chamado: “O salvador do mundo”. Ali, junto do lago Leman, em Gênebra, está ainda o palácio da Liga das Nações, de mármore branco simbólica da paz. Os transportes dos arquivos de Haya para Gênebra pesavam 600 toneladas! Mas a Liga das Nações nunca ligou coisa alguma. De 1920 a 1930, foram a ela submetidos 4.568 tratados, convênios e alianças políticas. Mas tudo era apenas papel! Em sua história, os seus filiados deflagraram 45 guerras e culminaram no mais terrível conflito da História humana, 154

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de 1939 a 1945. Em 8 de abril de 1946, delegados de 41 nações se reuniram em seu palácio para realizarem os seus funerais. O presidente, no discurso de encomendação de seu cadáver, disse entre outros fatos: “Reconhecemos que nos faltou a coragem moral, quando fôra necessário agir, e que muitas vêzes agimos quando teria sido melhor que tivéssemos hesitado”. Entre 25 de abril e 26 de junho de 1945, foi fundada mais uma Liga das Nações — a O.N.U. Veio à sua real existência em 24 de outubro de 1945, quando a maioria das nações que assinaram a carta magna ratificaram-na em seus países. Herdou ela os arquivos da S.D.N. e seus bens avaliados em cêrca de 2.750.000 libras esterlinas. Mas a O.N.U., é uma nova Liga com os mesmos homens e as mesmas ambições internacionais. Até agora essas Nações Unidas não se uniram. Segundo dissera o ex-presidente Harry Truman em 1947, a O.N.U. constitue “a única esperança que agora temos para a paz mundial”. Pobre esperança! Esta nova entidade internacional gerou casos agudos e insolúveis; guerra fria, guerra de nervos, divisão entre Oriente e Ocidente, o caso de Berlim, e outros casos agudos e perigosos para a paz. Nunca os membros de uma Sociedade Internacional de Paz se prepararam tanto para a guerra como os membros da O.N.U.. Atrás dos seus estandartes de paz colocaram os seus canhões e bombas atômicas! O espírito da velha Roma dos Césares domina as nações membros da O.N.U.: “Civis pacem para belum” — se queres a paz prepara a guerra. Mas Roma não preparou a paz preparando a guerra! E o mesmo sucede em nossos dias. Não pode haver maior tolice do que preparar a paz preparando a guerra! É evidente incensatez! Para preparar a guerra na ilusão de preparar a paz, podiam ter ficado na mesma séde internacional em Haya. Não havia razão para mudança para Gênebra nem para Nova York em novos, suntuosos e custosos palácios sédes. A paz não depende de edifícios especiais ou de lugares determinados para ser discutida e estabelecida. Se os estadistas tiverem verdadeiras intenções pacifistas, não precisarão discutir a paz, seja em Haya, Gênebra ou Nova York ou em outro qualquer lugar ou capital do mundo. A paz não pode e não deve ser discutida — mas sim vivida. Todos os planos até agora laborados para unificar o continente europeu na Conferência Internacional da Paz, na liga das Nações ou na O.N.U. resultaram em nada. Tanto a Europa como os demais continentes ainda não se unificaram sob a custódia de nenhuma sociedade internacional — nem mesmo da O.N.U.. 155

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Para infelicidade de seu continente e do mundo, as nações da Europa têm sido até agora o que a profecia de Deus previu o que elas voluntáriamente seriam. Aliás, territorial e ideologicamente — desunidas. Sim, desunidas já por quinze longos séculos. Têm sido o coração das intrigas internacionais e o vulcão das guerras cujas larvas chegaram a cobrir a terra inteira. É lamentável que um tão belo e tão rico continente, com seus 10.000.000 de quilômetros quadrados constantes de lindas planícies e fascinantes montanhas e planaltos: cortados por grandes rios; margeado por dois grandes oceanos e cinco históricos mares; com uma produção minéria, agrícola e industrial abundantes; bêrço da hodierna civilização, e de grandes artistas e cientistas; teria de notáveis navegadores e descobridores que fundaram colônias que se tornaram importantes nações; — seja estigmatizado pela alcunha de: O Continente da Guerra. Sim, esta tem sido a sua real; história: guerra, cáos. As fronteiras da Europa jazem sempre a ferrolhos. Seus exércitos aguerridos estão sempre prontos para a primeira eventualidade. A desconfiança é a ordem do dia naquele infeliz continente. Tremenda profecia de Daniel, cumprida à risca através dos séculos. Nenhuma sombra de unidade territorial, nem por conquista, nem por tratado, nem por laços internacionais de família. Mais de trinta nacionalidades apertadas e agitadas ali vivem. Sim, a Europa é o continente da desunião, da discórdia, da guerra! O REINO DE DEUS EM EVIDÊNCIA VERSO 44: — “Mas, nos dias dêstes reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, e será estabelecido para sempre”. O PONTO CULMINANTE DA HISTÓRIA A história do mundo, dentro de seus quasi já seis mil anos de vigência, registrou inúmeros reinos, alguns territorialmente grandes, outros pequenos, alguns politicamente fortes outros fracos. Registou poderosos impérios que cobriram vasta área da terra e exerceram domínio sôbre numerosas nações e multidões de povos. O Egito, Assíria, Babilônia, Medo-Persa, Grécia e Roma foram os maiores de todos. Mas os reinos dos homens se têm demonstrado reinos da fôrça, 156

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de orgulho, da injustiça — e portanto falhos. Todos os poderes dominantes sôbre outros, que existiam antes da era cristã, sucumbiram, foram destruídos de acordo a claras profecias do consêlho de Deus. Dêles não restam nem siquer sombra da raça ou nacionalidade a que pertenciam. Restam, aliás, apenas destroços, ruínas informes que lembram a altivez e a tirania com que se impuzeram aos povos mais fracos. Em 476 a.D. Roma foi aniquilada; porém, de sua divisão perduram no Ocidente nações modernas, algumas, das quais com um espírito não muito diferente do seu e do de outros poderes opressores do passado. Algumas dessas potências e outras do Oriente, dominam, em pleno século da democracia, sôbre muitos povos politicamente fracos, para demonstrar a indigna democracia de que se orgulham. Mas Daniel chega, afinal, ao ponto culminente da interpretação da estupenda profecia do sonho do rei Nabucodonosor, ao sublime desenlace da História da civilização humana. Após uma solene apresentação profética do desfile dos Impérios e das nações que subverteriam Roma, êle, vivamente emocionado, declara ao estasiado monarca: “Mas, nos dias dêstes reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído, e êste reino não passará a outro povo: esmiuçará e consumirá todos êstes reinos, e será estabelecido para sempre”. Isto devia ter produzido fantástica impressão nas ambições do rei de Babilônia, um tremendo impacto em seus planos de futuras conquistas, em seus pensamentos sobre Babilônia como eterna dominadora. O reino vindouro de Deus infere Daniel, cobrirá inteiramente a terra e será eterno, imperecível, inconquistável. “Não passará a outro povo” ou a outras mãos — pois não haverá no orbe outro reino que porventura possa conquistá-lo. Além disso, todos os habitantes do mundo feito novo serão cidadãos imortais, súditos eternos que terão um eterno e glorioso Rei. Ninguém haverá — e nem poderia haver — dentro ou fora do bem-aventurado reino, que possa subvertê-lo e dêle se apossar arrebatando de seu Todo-poderoso Rei a incomparável corôa. Tão pouco haverá a possibilidade duma invasão extra-cósmica dos mercados (como pensam os desequilibrados que um dia eles se apossarão do mundo), ou habitantes doutros mundos, pois como súditos santos e fiéis do Rei do universo que são, não alimentam ambições políticas de conquistas de nenhum feitio, e mesmo até desconhecem, como seres perfeitos, esses termos de ambição. Os ambiciosos ímpios só existem neste malfadado planeta — mas serão 157

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convertidos em pó. Assim o reino de Deus estará livre da opressão dos ousados caudilhos sedentos de sangue e de efêmera glória. O reino de Deus na terra, eis a solução do céu para um mundo degradado, para os graves problemas que afetam em cheio e esmagam a família humana, cuja culpabilidade recai dalto a abaixo sôbre o govêrno do homem que assolou coro a sua malsã política os altos valores morais e espirituais — principais e imprescindíveis. Só resta, pois, a intervenção do Rei do universo — o verdadeiro Monarca do mundo — para deter o govêrno da ambição, da fôrça, da impiedade e da injustiça, e destituí-lo para todo o sempre. É esta a única coisa que falta cumprir-se do sonho profético da grande estátua — e seguramente logo se cumprirá. “Mas, nós dias dêstes reis” — dos dez reinos que dividiram Roma e formaram a Europa atual, amplamente dividida e politicamente desunida — Deus, enfatiza o profeta, levantará o seu reino. Levantá-lo-á sôbre os escombros duma civilização que arruinou e destruiu a si mesma. Temos estado vivendo “nos dias dêstes reis”, por já cêrca de quinze séculos e todavia ainda “nos dias dêstes reis”‘. Porém, indícios evidentes indicam a iminência do estabelecimento do reino de Deus e, portanto, do término dos “dias dêstes reis”, estando a geração atual destinada a contemplar o grande acontecimento, podendo empreender os preparativos que a habilitarão, sem desejar, a participar de sua indizível e imperecível glória. Será um reino de justiça e equidade, de paz e bem estar permanentes, de união e amor. Reino em que perfeita comunhão haverá entre o divino Rei e Seus súditos. Oh glorioso, maravilhoso reino! Devemos orar com ardor para que êle seja estabelecido sem delongas, afim de livrar a terra da angústia e da tirania dos homens maus. O glorioso e vindouro reino devia ser o tema absorvente de todos os pensamentos, conversações e cogitações na atual geração em que êle será inaugurado na terra. Os preparativos para a vinda do reino deviam tomar o primeiro lugar na vida dos indivíduos, principalmente dos cristãos. Aconselhou Jesus: “Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça”.1 Todos quantos almejam o sublime reino, devem tomar posse dêle agora; devem vivê-lo agora; devem se harmonizar com seus interêsses, seus estatutos, suas leis e sua justiça em tôdas as transações da vida. Entretanto, o que vimos e ouvimos é o contrário disto. Raramente se ouve falar ou pregar sôbre o vindouro reino do
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S. Mateus 6:33.

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Senhor. O próprio “Pai Nosso”, em que a chama do reino se evidencia crepitante para que fôsse conservada de contínuo na mente e no coração dos cristãos, é recitado com irreverência e com a mais fria indiferença. Lamentàvelmente é assim mesmo. A atual civilização jaz na iminência do estabelecimento do reino eterno sem se preocupar com êle ou mesmo desejá-lo. Quando o reino de Deus vier, infere Daniel, “esmiuçará e consumirá todos êstes reinos”, do século II, aliás, estas nações que desprezam o santo reino e o supremo Rei, e acarretam a ruína, como as do passado o fizeram, a esta província terráquea do Creador do universo. A profecia é clara em afirmar que “êstes reinos”, da Europa e do mundo, serão esmiuçados, desaparecerão, serão reduzidos a pó, serão varridos da terra para dar lugar ao imperecível reino de Deus. Estupendo! — Os reinos fundados ou fatores econômicos, — os metais diversos que os representam na estátua profética, — e não na verdadeira justiça, serão esmiuçados pelo reino de Cristo, que encherá a terra inteira. Graças a Deus o mundo estará livre pela eternidade em fora dos reinos dos ambiciosos tiranos, e só assim haverá paz e bem estar permanentes. Finda Daniel a sua exposição, dizendo: “Certo é o sonho e fiel a sua interpretação”. Aí está a certeza desta notável revelação. Dissera São Pedro: “E temos mui firme a palavra dos profetas”.1 A História comprovou solenemente o cumprimento, até agora, de todos os detalhes desta extraordinária profecia. Portanto, só falta agora a vinda do prometido reino de Deus, como desenlace do drama da grande crise dos séculos. Todos os profetas e apóstolos falaram dêste santo reino. E nosso Senhor Jesus Cristo ensinou-nos a orar: “Venha o teu reino”.2 Sim, supliquemos que o reino venha, — que venha presto — e estejamos prontos para dêle participarmos pelos séculos eternos. UMA MISTERIOSA PEDRA ARRAZA AS NAÇÕES VERSO 45: — “Da maneira como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem mãos, e ela esmiuçou o ferro, o cobre, o barro, a prata e o ouro, a Deus grande fez saber ao rei o que há de ser depois disto; certo é o sonho, e fiel a sua interpretação”.
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S. Pedro 1:19. S. Mateus 5:10.

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CRISTO — A MISTERIOSA PEDRA Nos versículos 34 e 35 é referido que “Uma pedra foi cortada sem mão”, aliás, sem intervenção humana, caiu sobre os “pés de ferro e barro” da estátua e esmiuçou-a totalmente dalto abaixo, não se achando mais lugar algum na terra para o ouro, a prata, o cobre, o ferro e o barro que a compunham, os quais, pelo tremendo impacto, se tornaram pó que foi levado pelo vento. Não é natural e mesmo impossível, que uma pedra jogada sôbre metais possa reduzí-los a simples pó. A profecia, porém, demonstrou ao rei Nabucodonosor, que Deus realizaria, e em parte já realizou, aquilo que ao mortal possa parecer impossível o aniquilamento dos poderosos impérios e nações representados pelos fortes metais da estátua simbólica. Quem diria que a poderosa Babilônia, a terrível Medo-Persa, a potente Grécia e a férrea Roma — pudessem ser um dia conquistada por poderes outros, mesmo humanos e representados nos símbolos como mais fracos? E, quem diria que a atual civilzação pujante e incomparável nos séculos que a precederam, possa ser aniquilada totalmente até ao pó, como garante a inspiração? Sim, a pedra fará o impossível ao vêr dos incrédulos mortais. Mesmo sem ainda cair, ela já aniquilou os poderosos reinos mundiais citados acima e grande número de poderes outros da antiguidade. E, escaparia, porventura, a nossa ímpia civilização e suas belicosas nações, ao cair ela com tôda a indizível potência divina que lhe é própria? Os vários metais e o barro que simbolizam os impérios e nações citadas, indiretamente simbolizam também os seus grandes fundadores. O ouro é dito, representar não só Babilônia como o próprio rei Nabucodonosor, seu fundador. Assim, a prata que representa a Medo-Persa, o cobre a Grécia, o ferro a Roma, também representam respectivamente Ciro, Alexandre e os Césares, seus poderosos fundadores. E os dez dedos de ferro e barro que são símbolos das nações modernas da Europa, devem igualmente representar seus primitivos fundadores bem como todos quantos assumem o poder em todo o tempo. De igual modo, a Pedra, que simboliza o reino de Deus, é, nas Sagradas Escrituras, simbólica, como veremos, de seu Todo-poderoso fundador. Daniel deixou isto claro ao rei Nabucodonor nestas palavras: “Mas... o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído”. Aí está o Fundador, do glorioso reino. Porém, o reino de Deus, torna evidente o profeta, — e queremos acentuar 160

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novamente, — é considerado, ou melhor, é figurado numa Pedra, e isto deve estar em correlação com Deus que o estabelecerá na terra. Como a revelação se explana a si mesma, deve apresentar a realidade da figura daquela sublime e poderosa Pedra, que, dum só golpe e numa fração de tempo, aniquilará todo o sistema de govêrno e poder do homem no planeta em todos os séculos de sua história — declarando-os nulos, sem proveito algum para a civilização humana de todos os tempos. Desconhecemos na natureza uma pedra capaz de reduzir metais naturais a pó caindo sôbre êles. Entre os homens, porém, conhecemos uma Pedra simbólica capaz de converter impérios, nações e multidões de povos inteiramente em pó. E esta simbólica Pedra é Cristo, o Poderoso Filho de Deus. Jacó, na bênção de seus filhos, declarou Cristo a “Pedra de Israel”.1 O profeta e rei Davi e o profeta Isaías falaram de Cristo como a Pedra simbólica dos séculos.2 Os apóstolos São Pedro e São Paulo propagaram com ênfase ser Cristo a Pedra da Profecia.3 E Cristo mesmo, quando no mundo, aplicou solenemente a Si próprio as profecias de Davi e Isaías referentes à Pedra, confirmadas mais tarde, como vimos, pelos apóstolos São Pedro e São Paulo. Notemos o Seu Auto-testemunho: “Nunca lestes nas Escrituras: A Pedra, que os edificadores regeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos nossos olhos? E quem cair sôbre esta Pedra despedaçar-se-á; e aquele sôbre quem ela cair ficará reduzido a pó”.4 É deveras impressionante o alcance desta declaração do Senhor Jesus. Êle, pois, a Pedra profética, a Pedra simbólica do sonho do rei Nabucodonosor, reduzirá a pó — assevera Êle — aquele sôbre quem ela cair”: reinos, nações, povos, indivíduos. Aquilo que fôra dito de Nabucodonosor, como supremo rei político e em ligação com o seu reino mundial: “Tú és a cabeça de ouro”, — pode ser dito especialmente de Cristo, o supremo Rei verdadeiro e em ligação com o Seu reino universal: “Tú és a pedra Todo-poderosa”. Nabucodonosor era a “cabeça de ouro”, porque êle era, como já vimos, a personificação de seu reino. O mesmo dizemos

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Gênesis 49:24. Salmos 118:22-23; Isaías 28:16. 3 Atos 4:10.11; I S. Pedro 2:4-8; 1 Coríntios 10:4; Romanos 9:33; Efésios 2:20. 4 S. Mateus 21:42, 44.

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de Cristo: Êle é a Pedra porque Êle é a personificação do reino de Deus, que Êle mesmo, como Deus, fundará na Terra. Aproxima-se rápido o dramático momento em que a Poderosa pedra, o reino de Deus, cairá nos pês da estátua do sonho do rei — a Europa, e dali encherá o mundo. Diz o profeta: “Mas a Pedra... se fez um grande monte, e encheu tôda a terra”. Parece que a Europa — a inquieta Europa, centro nevrálgico do mundo político do planeta — será o primeiro continente a sentir o tremendo impacto da Potente pedra. Pelo menos assim reza a profecia, pois os pés e os dedos, onde viu o rei cair a Pedra, representam o Velho Mundo Europeu. Então tudo será convertido em pó não ficando pedra sôbre pedra do intolerável e orgulhoso domínio do homem no mundo. O reino de Deus estará implantado neste planeta pelos séculos eternos. A terrível crise que o pecado já por quasi seis mil anos faz prosseguir na terra, estará vencida, e uma bonançosa paz cobrirá permanentemente a terra completamente transformada. A SEGUNDA VINDA DE CRISTO EM GLÓRIA E MAJESTADE Para que o reino de Deus seja estabelecido, urge que o Rei do reino desça do céu à terra. E a Segunda Vinda de Cristo terá, em verdade, como primeiro objetivo, o de Êle tomar posse do mundo que o grande inimigo do direito — Satanás — Lhe usurpou e aqui implantou o seu reino entregando nas mãos dos homens que não sabem governar. Satanás mesmo mostrou a Cristo os reinos do mundo dizendo serem seus e que os daria a quem êle bem quizesse.1 E o Senhor precisamente dissera ser Satanás “o príncipe deste mundo”.2 Mas, logo Jesus, a pedra da profecia de Daniel, cairá é tudo reverterá a Êle como Seu legítimo dono — quer pela creação quer pela redenção.3 Há nas Sagradas Escrituras 2500 referências à segunda Vinda de Cristo em glória, majestade e poder, para intervir neste mundo. Sérias; profecias aludem a Seu direto ajuste com as nações. As mais importantes encontram-se no livro do Apocalipse, e assim se expressam: “Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do

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S. Mateus 4:8-9. S. João 14:30. 3 Colossenses 1:15-17; S. Mateus 18:18.

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Seu Cristo, e Êle reinará para todo o sempre”.1 “E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco: e o que estava assentado sôbre êle chama-Se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça. E os Seus olhos eram como chama de fogo; e sôbre a Sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão êle mesmo. E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual Se chama é a Palavra de Deus. E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro. E da sua bôca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e êle as regerá com vara de ferro; e Êle mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-poderoso. E no vestido e na Sua coxa tem escrito êste nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores”.2 “E os reis da terra, e os grandes, e os ricos, e os tribunos, e os poderosos, e todo o servo, e todo o livre, se esconderam nas cavernas e nas rochas das montanhas; e diziam aos montes e aos rochedos: Caí sôbre nós, e escondei-nos do rosto dAquele que está assentado sôbre o trôno, e da ira do Cordeiro; porque vindo é o grande dia da Sua ira; e quem poderá subsistir?”.3 “E olhei, e eis uma nuvem branca, e assentado sôbre a nuvem um semelhante ao Filho do Homem, que tinha sôbre a Sua cabeça uma corôa de ouro, e na Sua mão uma foice aguda. E outro anjo saiu do templo, clamando com grande voz ao que estava assentado sôbre a nuvem: Lança a Tua foice, e sega; é já vinda a hora de segar, porque já a seára da terra está madura. E Aquele que estava assentado sôbre a nuvem meteu a Sua foice à terra, e a terra foi segada”.4 Pelo profeta Ageu faz o Senhor Jesus Cristo esta solene declaração: “E derribarei o trôno dos reinos, e destruirei a a fôrça dos reinos das nações”.5 Através de Isaías, o profeta evangélico, diz ainda do grande Rei: “Uivai, porque o dia do Senhor está perto: vem do Todo-poderoso como assolação”. “Eis que o dia Senhor vem, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação, e destruir os pecadores dela”.6 E pela pena de Jeremias, o corajoso profeta, acrescenta: “E serão os mortos do Senhor, naquele dia, desde uma extremidade da terra até à outra extremidade da terra: não serão
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Apocalipse 11:15. Apocalipse 19:11-16. 3 Apocalipse 6:15-16. 4 Apocalipse 14:14-16. 5 Ageu 2:22. 6 Isaías 13:6, 9.

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pranteados, nem recolhidos, nem sepultados; mas serão como estrume sôbre a face da terra”.1 Será a intervenção de Cristo um ato extranho dÊle, mas não há outra solução para o problema.2 As nações, os governantes e a humanidade em geral, recusam as leis de Deus e as pizam dia e noite ofendendo assim o grande Legislador e grande Rei de quem dependem em todo o sentido da vida. O único remédio para o grande mal, é, sem dúvida, a inexorável intervenção do céu — A Segunda Vinda de Cristo, para liquidar a afrontosa controvérsia contra o Poderoso e único Dominador. Nosso Senhor Jesus Cristo, no entanto, anela salvar a todos quantos sinceramente desejarem ser salvos. Para isso Êle veio ao mundo e deu na cruz do Calvário a Sua vida divina. Suas inúmeras e gloriosas promessas nos dois Testamentos revelam seu indizível anélo de que deseja salvar a todos, embora a maioria dos homens detestem recebê-l’O como único Salvador. A tragédia consiste em a maioria dos indivíduos pensar serem bons demais para necessitarem da salvação do Senhor. Contudo o amante Redentor apela pateticamente aos perdidos. E aqui está a mais comovedora promessa apelativa que Êle faz a todos sem excessão: “Não se turbe o vosso coração; crêdes em Deus, crede também em Mim. Na casa de Meu Pai há muitas moradas. Se assim não fôra, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E quando eu fôr, e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou estejai vós também’’.3 Esta preciosa e poderosa promessa revela a profundeza do amor do Salvador por Seus filhos em aflição neste mundo e ardente desejo por salvá-los a todos. E, todo aquele que por Êle ainda não se dicidiu, não resistirá a seus apelos nela envolvidos se em seu coração houver uma dose de sinceridade por pequenina que seja. Não ocuparemos mais espaço para citar grande número de outras imensuráveis promessas relativas à Sua segunda vinda. Esta, citada, é a mais sublime de tôdas, a corôa de tôdas elas e suficiente como citação nesta obra de interpretação profética. Em face do fim iminente, urge que nos preparemos com apressada urgência. O grande conselho do Senhor é êste: “Prepara-te,

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Jeremias 25:33. Isaías 28:21. 3 S. João 14:1-3.

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ó Israel, para te encontrares com o teu Deus”.1 Alguns pensam que estão preparados mas serão amargamente surpreendidos. Dêles advertiu Jesus: “Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em Teu nome? e em Teu nome não expulsamos demônios? e em Teu nome não fizemos muitas maravilhas. E então lhes direi abertamente: “Nunca vos conheci: apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade”.2 Não brinquemos, pois, com o solene momento. A poderosa Pedra cairá iminente sôbre a civilização ímpia, descuidada e indiferente do século, reduzindo-a a pó. Estejamos preparados. Estejamos prontos. Estejamos alerta. Estejamos aguardando o Salvador. Amém! O FUTURO GLORIOSO REINO DE DEUS Ao sair esta terra das mãos do Criador era um glorioso paraíso. Mas tornou-se um cáos pelo mau governo do homem e sua recusa das leis de Deus. O homem perdeu seu caráter santo e justo; perdeu a sua integridade; comprometeu e interrompeu a sua direta relação pessoal com o seu Criador e até agora segue os passos da desobediência e descaso aos Seus planos. E o pior — perdeu a sua vida. E, à medida que o tempo vem passando, já durante cerca de 6.000 anos, — a crise têm-se tornado mais aguda e mais severa. Nestes finais dias do império do mal a situação é mais caótica que em qualquer época passada. O homem avança de mal para pior.3 Implantou no mundo o direito da fôrça contra a fôrça do direito. Em sua impostura, está de contínuo pensando em novas ordens no Oriente e no Ocidente, nova política mundial, nova sociedade de nações, novos tratados, novos discursos, — e por fim, como resultado um nôvo cáos surge no mundo mais intolerável que o anterior. O arrogante homem abriu no mundo uma chaga que não poderá jamais curar, nada valendo os seus emplastros e remendos hipócritas. Porém, a agudeza da crise, como se revela atualmente, é prenúncio certo do fim da tragédia, da intervenção indiscutível e inadiável do Filho de Deus para deter a onda do mal e restabelecer a justiça e a moral desaparecidas. A nova verdadeira ordem mundial é o reino que Cristo virá estabelecer, fazendo uma limpeza neste malfadado planeta arruinado

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Amós 4:12. S. Mateus 7:22-23. 3 II Timóteo 3:13.

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pelo govêrno do homem. “Eis que faço novas tôdas as coisas”, é a sua segura promessa”.1 “E vi um nôvo céu e uma nova terra”, diz o profeta.2 “Virá o primeiro dominio”, acrescenta “outro vidente de Deus”.3 Tudo será feito nôvo tal como primitivamente saíra das mãos do Creador. Um reino atapetado de justiça e verdade.4 Uma terra nova de perfeita paz.5 Um reino sem parasitas.6 Uma terra feliz sem sofrimentos, lágrimas ou morte.7 Um mundo nôvo sem política e sem políticos e portanto sem bombas atômicas, sem canhões, sem metralhas, sem crimes, sem opressões, sem explorações e sem exploradores, sem extorsões, sem imoralidades. E o Rei do nôvo reino quem será? Porventura O elegerão num pleito político? Não, naquele reino não haverá o câncer da política e dos políticos que não se interessam pele bem-estar do povo, antes o entregam na mão dos ladrões exploradores, assaltantes da bôlsa dos martirizados, desprotegidos e abandonados cidadãos. O Rei do nôvo reino será Aquêle que deu vida para com êste ato de imensurável amor, garantir a Seus súditos que fará um glorioso, grandioso e eterno reinado. Notamos estas maravilhosas profecias: “Louvem-Te a Ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e regozijem-se as nações, pois julgarás os povos com equidade, e governarás as nações sôbre a terra”.8 “E o Senhor será rei sobre tôda a terra: naquele dia um será o Senhor e um será o seu nome”.9 “Tôda a terra Te adorará e Te cantará louvores: êles cantarão o teu nome”.10 É verdadeiramente grandioso e impressionante! Cristo, o futuro Monarca do mundo! Só Êle é quem sabe governar! O homem quer governar sem saber e só faz fiasco! Mas, graças a Deus o Seu Filho será o nosso Rei! Êle é o único Rei que sabe amar os seus súditos. Espetacular — Seus súditos serão todos comprados e remidos por Seu imaculado sangue vertido na cruz do Calvário! Por isso êles
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Apocalipse 21:5. Apocalipse 21:1. 3 Niquéias 4:3. 4 II S. Pedro 3:13. 5 Isaías 32:18; 11:6-9. 6 Isaías 65:21-22. 7 Isaías 33:24; Apocalipse 21:4. 8 Salmos 67:3-4. 9 Zacarias 14:9. 10 Salmos 66:4.

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todos amarão o Seu divino Rei que por êles demonstrou inefável amor antes de reinar sobre êles. Entre êles e o amante Rei, haverá estreitos laços de verdadeira amizade, e juntos viverão enquanto a eternidade durar.1 Nos dois últimos capítulos da Bíblia temos uma fascinante descrição da cidade celestial, a Nova Jerusalém, capital do futuro nôvo reino de Cristo na terra. Um aspecto deslumbrante e imponente tem a gloriosa cidade, também capital do universo. Os remidos do Rei a ela irão sempre com indizível regozijo.2 Amigo leitor, a Pedra logo cairá! O reino do Senhor está iminente. Façamos prestos os preparativos para a vinda do bendito reino. Sim, a fim de abraçarmos logo o glorioso Rei! O REI NABUCODONOSOR FICA SATISFEITO VERSO 46: — “Então o rei Nabucodonosor caiu sobre a sua face e inclinou-se para Daniel e ordenou que lhe oferecessem sacrifícios e incenso”.3 HONRAS ESPECIAIS A DANIEL Concluída a interpretação do sonho, o rei, que a ouviu com reverência e admiração, convenceu-se de sua verdade e a recebeu com profunda humildade e temor. O que segue nos últimos versículos revela o seu contentamento e sua gratidão ao profeta e através dêle ao Deus do céu, cuja sabedoria e poder conhecera agora mais uma vez. Depois das honras prestadas a Daniel e sua posse imediata em cargos os mais altos do reino, o rei Nabucodonosor “revogou o decreto de eliminação dos sábios. A vida dêles fôra poupada em virtude da união de Daniel com o Revelador dos segredos” — o Deus Todo-poderoso.4 O grande monarca do mundo, sumamente impressionado, inclinase respeitosamente para o jovem profeta. Versões há que traduzem “inclinar”, do verbo aramaico “segad”, por “adorar”. Cremos, entretanto, que James Moffatt, em sua versão da Bíblia, traduziu corretamente “segad” por “inclinar”. A dar crédito que
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Isaías 37:17; Apocalipse 22:4. Apocalipse 21:24, 26; Isaías 26:1-2; 35:10; 65:18, 19. 3 Tradução de James Moffatt, Daniel 2:46. 4 Profetas e Reis, E. G. White, pág. 409.

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Nabucodonosor adorou a Daniel, teríamos de admitir que Daniel concordou com o gesto do rei, o que é inadmissível em face dum profeta de Deus. Não há um caso, antes ou depois de Daniel, em que um profeta do Senhor aceitasse adoração de quem quer que fosse. Sabemos que São Pedro recusou peremptòriamente adoração de um homem seu igual.1 Até mesmo o anjo Gabriel não consentiu em ser adorado quando São João, o apóstolo, o quis fazer.2 Aceitaria Daniel a adoração que o próprio poderoso anjo Gabriel recusara? Escreveria êle em seu maravilhoso livro, em que exalta a Deus como suprema autoridade no céu e na terra, que êle fôra adorado por um semelhante seu — embora um monarca? Se êle escreveu tal coisa, então aceitara a adoração. Porém, de um humilde servo de Deus como êle o fôra, não podemos crer que consentisse em receber uma honra que não compete a um mortal receber. Tão pouco podemos crer que Daniel aceitasse os sacrifícios e a queima de incenso em seu louvor, ordenados pelo rei, como se fôra êle um deus. Seu imaculado caráter não admitiria honras divinas só devidas a Deus. São Paulo e Barnabé rejeitaram receber essas mesmas honras, em Listra, quando na primeira viagem missionária pelo mundo gentílico.3 Podemos assim assegurar-nos de que Daniel recusou tôdas as honras que o soberano pretendeu prestar-lhe como se êle fôra uma divindade. Evidentemente como São Pedro e São Paulo e o anjo Gabriel o fizeram, explicou Daniel ao rei porque não podia aceitar as tãs elevadas homenagens e honras que só à divindade celestial são devidas. Além disso tê-lo-ía feito ver, como a princípio o informara, que a revelação e a interpretação do sonho procederam de Deus, e que a êle tão somente foram reveladas para que o notificasse. O versículo seguinte é a garantia de que o rei não adorou a Daniel e que tão pouco êle aceitou qualquer honra que só o seu Deus compete receber. A despeito, porém, como vimos, de que nenhum profeta, apóstolo ou anjo tenham recebido honras devidas somente a Deus, homens há que as pretendem e as exigem como se fossem divinos. Tal ato não só é ofensivo a Deus como também um dos maiores sacrilégios.

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Atos 10:25-26. Apocalipse 22:8-9. 3 Atos 14:8-18.

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O REI ENGRANDECE O DEUS DOS HEBREUS VERSO 47: — “Respondeu o rei a Daniel, e disse: Certamente, o vosso Deus é Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador dos segredos, pois pudeste revelar este segrêdo”. O rei Nabucodonosor cria seguramente que Marduk, o deus nacional de Babilônia e seu deus patrono, era o deus dos deuses e igualmente o senhor dos reis. Anualmente, na festividade de ano nôvo, recebia novamente de Marduk a dignidade real. Mais tarde êle próprio foi denominado “Nebo” — filho de Marduk. Agora, porém, diante da estupenda revelação e interpretação que recebe do céu. Marduk é pôsto de lado e a supremacia do Deus de Daniel, o Deus de Israel, é proclamada solenemente por êle mesmo — “Deus dos deuses, e o Senhor dos reis”. O Deus que Nabucodonosor pensava ter derrotado na Judéia, com o poder de Marduk, a vencer os judeus e conduzi-los em cativeiro, é por êle agora exaltado ao cume como Majestade suprema e única no céu e na terra. Mais tarde, experiências novas que o rei Nabucodonosor fôra obrigado a ter com o Deus de Israel, convenceram-no com respeito a atributos outros adicionais Seus, até que por fim decidiu-se a aceitá1’O, adorá-1’O e proclamá-1’O incondicionalmente, esquecendo Marduk em definitivo e crendo nada representar senão um deus fictício, uma quimera, inventado pela superstição humana e pelo falso sacerdócio do paganismo babilônio. Nêste quadragésimo sétimo versículo, vimos que o rei Nabucodonosor reconheceu também o Deus de Daniel como revelador dos segredos — aliás, como Deus Onisciente, o que equivaleu a dizer que diante dÊle tôdas as coisas estão nuas e patentes. Estes três testemunhos do monarca a respeito de Deus: Como supremo entre os deuses, como Senhor dos reis e como revelador dos segredos, — comprovam, em absoluto, que Nabucodonosor não adorou a Daniel, pois seria isto reconhecê-lo como Deus e atribuir-lhe as mesmas honras. DANIEL — PRIMEIRO MINISTRO DO REINO VERSO 48: — “Então o rei engrandeceu a Daniel, e lhe deu muitos e grandes dons e o pôs por governador de toda a província de Babilônia, como também por principal governador de todos os sábios de Babilônia”. 169

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O rei Nabucodonosor havia feito grandes promessas de custosas dádivas e grandes honras a quem o satisfizesse revelando e interpretando o seu esquecido sonho. Fiel a esse compromisso, cumpriu-o à risca engrandecendo a Daniel e dando-lhe “muitos e grandes dons”. O vocábulo “dons” é vertido por James Moffatt, do original “mattens” — por “presentes”. Embora não saibamos quais os presentes doados a Daniel pelo soberano, podemos crer que foram custosos. James Moffatt traduz “grandes dons” por — “vistosos presentes”. O rei Belshazzar, mais tarde, como recompensa pela leitura e interpretação da fatídica sentença — Mene Tekel Peres — ofereceu-lhe vestes de púrpura, cadeia de ouro ao pescoço e o lugar de terceiro rei do reino. Daniel, porém, não se deixou intoxicar com os “presentes” e “honras” de Nabucodonosor e de Belshazzar. Um embaixador de Deus do seu quilate, não espera dádivas ou favores dos homens pelo desempenho de sua honrosa missão conferida pelo céu. Desprendido de tudo quanto é efêmero, cumpre êle o seu dever visando apenas a recompensa eterna que o seu Deus lhe pode dar bem como a todos os que como êle lhe forem fiéis. A segunda honra prestada a Daniel pelo rei de Babilônia, foi a de empossá-lo no govêrno da província de Babilônia. Era esta a mais alta honra conferida a um governador de província, pois Babilônia era a província-mãe que incluía a própria grande e suntuosa capital do reino e do mundo. Esta honra Daniel aceitou e alegrou-se com ela, não em face do elevado pôsto como uma honra pessoal, mas para poder salientar-se mais como representante do poderoso rei do universo. Além disso Daniel iria mostrar àqueles que no mundo desempenhavam elevadas funções administrativas, o que significa ser um burocrata; sim, demonstraria a essa classe de funcionários públicos o que em verdade significa um burocrata patriota (embora não fôsse um caldeu) e não um parasita que só pensa em salário, aumento de salário e em aposentadoria com o mínimo tempo de serviço possível. E Daniel, como foi José séculos antes no Egito, demonstrou deveras o que é um burocrata de consciência e como devo êle servir o seu país no importante encargo em que está empossado, sem lezar o erário público com um parasitarismo morto que anseia pelo fim do mês para embolsar proventos pelo trabalho que não fêz ou pelo mínimo que produziu. No seu encargo de confiança, exemplificou Daniel ao mundo o que é um homem que serve a Deus e como desempenha a 170

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sua função de responsabilidade, seja perante o Estado seja perante qualquer organização empregadora, (Ver o capítulo VI neste sentido). A terceira honra conferida a Daniel, foi o de “principal governador de todos os sábios de Babilônia”. Ainda que esta destacada honra o colocou em sabedoria acima de todos os pretensos sábios, êle, com tôda a certeza, não se simpatizou com ela. Era a mesma coisa que ser o chefe duma quadrilha de mentirosos e embusteiros! Mas, o rei, é claro, não sabia que esta aparentemente destacada honra não o honrava. Todavia cremos que o sábio Daniel deu ótimas lições de sabedoria àqueles homens tidos como sábios, mas sem qualquer sabedoria. Deu-lhes, certamente, grandes aulas demonstrando-lhes que a verdadeira sabedoria tem sua fonte em Deus e que dÊle ela emana aos que O temem e O servem. A quarta honra do soberano a Daniel e que a temos no versículo seguinte, foi a de primeiro ministro do reino, conjuntamente com a de governador da província de Babilônia — “mas Daniel estava às portas do rei”. Esta, a maior função dum homem de Estado, depois do chefe do executivo — do rei ou do presidente — Daniel desempenhou durante todo o tempo em que existiu o Império de Babilônia, por setenta anos. Vimos aqui um caso inédito — o primeiro encargo de primeiro ministro do mundo, de tôda a terra! Neste pôsto-chave do reino mundial, foi Daniel, mais propriamente, o primeiro ministro do reino universal de Deus no setor da terra. Que grande bênção para as nações não fôra êle! Que exemplar dignidade de alto funcionário não fôra êle para todos quantos ocupavam a mesma função de primeiro ministro entre as nações de seu tempo e de todos os tempos até agora! Cremos que tôda a prosperidade do grande reino de Nabucodonosor deveu-se à influência de Daniel em Palácio como chanceler mundial e o primeiro depois do rei — para não dizer o rei como primeiro depois dêle. Depois da morte de Nabucodonosor, os seus sucessores não deram muita importância a Daniel como chanceler, e o reino foi a pique. Os persas, porém, inicialmente, tiveram grande prosperidade, graças ao fato de terem reconhecido em Daniel um homem indispensável, pondo-o também como primeiro ministro ao tempo de Dario, o Medo, e ao iniciar Ciro o seu reinado. Felizes as nações com burocratas do caráter de Daniel. O que mais se destaca em tôda esta sublime história, é que Daniel foi feito governador de Estado e primeiro ministro dum reino mundial aos vinte anos de idade! Deveras é o único caso — inédito, aliás — na 171

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história da civilização humana. José, no Egito, ascendeu ao pôsto de primeiro ministro aos trinta anos de idade, o que é também notável.1 É de suma importância que êstes fatos envolvam dois jovens tementes a Deus, fiéis em todos os altos princípios que respeitam à vida que um cidadão cristão e filho de Deus deva aqui viver. Que poderá fazer, Deus hoje com jovens do caráter de Daniel e de José, que O honraram ao sumo? E onde estão êstes jovens leais aos princípios do céu no século XX? Fornecerá o cristianismo tais jovens nesta geração? Possui-los á a Igreja de Deus hoje, jovens da têmpera de Daniel e de José? Pode ser que se possa encontrar tais jovens hoje, todavia é necessário procurá-los com a lanterna de Diógenes! DANIEL NÃO ESQUECE A SEUS COMPANHEIROS VERSO 49: — “E pediu Daniel ao rei, e constituiu êle sôbre os negócios da província de Babilônia a Sadrach, Mesach e Abed-nego; mas Daniel estava às portas do rei”. Exaltado aos píncaros da administração dum reino mundial, não se ufanou Daniel com esta honra, sabedor de que ela viera de Deus e para a Sua representação naquela côrte da terra através de sua pessoa. Contudo, seus companheiros, a seu ver, deviam assumir também altas funções de responsabilidades chaves naquele reino, mediante as quais fazer refulgir a luz do céu e de Deus. Êles haviam mantido plena lealdade aos princípios fundamentais do são viver quando do impasse referente ao cardápio da universidade da côrte ao cursarem-na por três anos. Além disso, conjuntamente com êle estiveram em risco de vida na questão da falha dos sábios de Babilônia em revelarem o sonho do rei, e com êle suplicaram a interferência de Deus pela revelação do mesmo sonho. Em face de tudo isto, propôs Daniel ao rei que lhes desse posse nos negócios da província de Babilônia, o que foi atendido imediatamente pelo soberano. Um pedido de Daniel, naquela altura dos acontecimentos, valia como um decreto, tanto mais que sua proposta em favor de seus companheiros viera de Deus. Deus queria tê-los todos juntos e em altas funções administrativas daquela côrte, para que o facho da luz do céu fôsse mais evidente e mais potente, e
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Gênesis 41:46.

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dali se expandisse glorioso pelo reino em fora. Assim, enquanto Daniel fôra empossado em Babilônia como primeiro ministro do reino mundial, seus companheiros o foram como “juízes, governadores e conselheiros”.1 Estupendo! Jovens de Deus, aos vinte anos de idade, galgam os maiores postos no primeiro grande império da Terra.

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Fundamentals of Christian Education, E. G. White.

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CAPÍTULO III
UMA PODEROSA LIÇÃO DE LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA

Introdução O presente capítulo encerra uma dramática história. Diríamos — uma grave crise oriunda da obstinação do rei Nabucodonosor, que, tal como a descrita no capítulo anterior, pôs em cheque a vida dos representantes de Deus em Babilônia. Nabucodonosor, o altivo monarca caldeu e rei de toda a terra, estava sempre pronto a promover a exaltação do seu reino e de si em particular através dêle. Em seu orgulho e exaltação, nada realizava senão para elevar-se e engrandecer-se diante do mundo sôbre o qual reinava e dar a entender às nações a invencibilidade de seu poder e a superioridade dos caldeus sôbre os demais povos da terra. Esta foi a infeliz razão por que muitos — além dêste soberano — reinaram e governaram na antiguidade; porque ambicionaram e se esforçaram ao sumo por galgarem o trono e se sobreporem às massas. Faziam questão de estar acima de todos; de exercer supremacia e domínio sôbre todos; de receberem inauditos aplausos de todos; de serem seguidos por numerosas multidões e nações cegadas pela sêde de glória e de fama que os dominava e os intoxicava. Cativados por falsas ideologias, por falsas grandezas, por falso poder de um só indivíduo absurdamente altivo e que arrogava até honras de divindade, massas humanas o adoravam de boa mente como um semi-deus ou representante dos deuses na terra, e se dispunham em dar a própria vida para conservarem-no em sua exaltada posição de supremo soberano e supremo líder. Aquilo que será a nossa consideração neste terceiro capítulo, é evidência dêste desnaturado espírito que dominou também grandemente o rei Nabucodonosor, que o infelicitou e o pôs em maus

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lençóis com o Deus do céu a quem somente pertence de direito tôda a honra, glória e poder na Terra e no Céu. Esta orgulhosa jactância de superioridade racial e pessoal e com ela o direito de mando e coação sôbre todos os considerados inferiores, levou os monarcas do passado a arrogarem até mesmo o domínio sôbre as consciências de seus súditos. Êste mal, — máximo mal e atrevido mal — fôra a culminante expressão da arrogância a que chegaram aquêles antigos potentados do poder terreno. A morte era o resultado certo e imediato de todos os que se arriscassem a dizer “não”, em matéria de consciência, àqueles tirânicos senhores do mundo de então. O rei Nabucodonosor foi talvez o que no passado mais que todos os outros monarcas julgou-se dono das consciências de seus súditos. Sua audácia em assim proceder, o arrastava a atitudes e medidas absurdas, a extremas violências, à ira sem limites como um desvairado, ao ponto de fulminar os recalcitrantes. Porém, a história que agora iremos considerar neste nôvo capítulo, trata duma corajosa e intrépida oposição e recusa — firmes e abertas — às suas pretenções de senhorio sôbre as consciências alheias de seus concidadãos por êle governados. Um trio de valorosos jovens o enfrentou com decisão e categoria neste malsão direito pretendido. Em nenhum caso entregariam êles as suas consciências para que delas fizesse aquêle rei um joguete como bem lhe parecesse a serviço de seus desqualificados caprichos e de sua desmedida exaltação. O vidente e eloqüente “não” daqueles três jovens hebreus adoradores de Jeová, exasperou terrivelmente o rei Nabucodonosor, que foi levado incontinentemente à vingança fatal, julgando-se desautorado e desacatado publicamente, e ainda por cativos submetidos da Judéia, que eram aquêles moços. Todavia, a execução não tomou lugar ainda que fôra levada a cabo. Um poder infinitamente mais alto do que o de Nabucodonosor, que, embora criasse a consciência e a legasse ao homem como um de seus maiores patrimônios ou faculdades, e que não obstante não forçou direito algum sôbre ela — ainda que seu Criador, senão que deixou ao homem a liberdade de exercê-la segundo bem lhe aprouvesse, intervíu para sustar a absurda e injusta execução de Seus embaixadores naquela côrte do mundo, e demonstrar ao rei de Babilônia a sua nula tutela sôbre as consciências de outrem, que não teve o poder e a sabedoria de criá-las. 176

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Esta triste história do paganismo de outrora repetiu-se profusamente em tôda a era cristã e mesmo em nosso pujante século da ciência. Sempre houve e ainda há pretensos semi-deuses que se alvoram em donos das consciências de seus iguais. Êste descalabro se verifica principalmente nos setores da política e da religião — mormente neste último. É em virtude dêste falso conceito de supremacia sôbre as consciências das massas cívicas e religiosas, que as nações são jogadas constantemente no caos e as religiões jazem em permanente confusão. Surgem indivíduos aqui e ali no mundo — no meio político e eclesiástico — pretendendo serem grandes coisas, uns predestinados — impondo ideologias vãs, opressivas, daninhas à civilização, e lançando mãos de falsos discursos, da fôrça e da violência, para inflamar, impor e coagir as massas e nações a se submeterem a idéias e pretenções. Julgam-se êles, como os déspotas de outrora, donos das consciências humanas. E êste hediondo mal é mais acentuado em questões de religião em que incontáveis eclesiásticos arrogam a posse das consciências livres de seus chamados fiéis, e ameaçam com fogo, perseguições e anátemas a todos quantos se opõem a esta tão vil pretenção. A usurpação dêste sagrado direito que só ao indivíduo em particular pertence — é uma das maiores ofensas ao Criador que deu ao homem uma consciência livre e absoluta. Mas vejamos o que nô-lo informa sobre esta questão o capítulo que nos está em mão. UMA ESTÁTUA SUI GENERIS VERSO 1: — “O rei Nabucodonosor fêz uma estátua de ouro, a altura da qual era de sessenta côvados, e a sua largura de seis côvados; levantou-a no campo de Dura, na província de Babilônia”. UMA IMPRESSÃO QUE SE DESFAZ O primeiro sonho concedido por Deus ao rei Nabucodonosor, como apresentado no segundo capítulo, em o qual lhe fôra dada uma visão, principalmente dos acontecimentos finais da história da terra, — visou fazê-lo entender o papel que deveria desempenhar no palco do mundo e bem assim a verdadeira relação e bem assim a relação que seu famoso reino indubitavelmente tinha para com o reino do céu. Na interpretação daquele sonho instruira-lhe muito bem Daniel quanto ao futuro estabelecimento do eterno reino de Deus na terra. O profeta 177

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enfaticamente declarara ao monarca: “Mas nos dias dêstes reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído”. No final da interpretação do rei, sumamente impressionado, reconheceu o poder de Deus e expressou sua convicção nestas palavras: “Certamente o vosso Deus é Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador dos segredos”. “Durante algum tempo Nabucodonosor sentiu-se influenciado pelo temor de Deus; contudo o seu coração não ficou purificado da ambição mundana e do desejo de exaltação. A prosperidade que acompanhou o seu reinado encheu-o de orgulho. Em dado tempo cessou êle de honrar a Deus, e retomou seu culto idólatra com maior zêlo e fanatismo”.1 A despeito de tão grandes evidências da supremacia de Deus sôbre todo o poder nos céus e na terra, e de ter sido favoràvelmente influenciado por aquela primeira revelação direta que o Senhor lhe dera, contudo o rei Nabucodonosor, embalado pelo crescimento de seu poder como soberano do mundo e conseqüentemente pelo aumento de sua glória real, cedeu ante o orgulho, a exaltação e a ambição e algum tempo depois da interpretação de Daniel deu costas ao temor de Deus pelo qual fôra impressionado, e assim sacrificou a sua consciência pela recusa do culto a Deus preferindo retornar às vilezas da idolatria pagã e da glória efêmera que Satanás oferece aos homens. O grande inimigo do direito sabe como engodar os homens e fazê-los ambiciosos de glórias mundanas para perdê-los irremediavelmente. OS SÁBIOS EM DIABÓLICA AÇÃO “As palavras: “Tú és a cabeça de ouro” (Dan. 2:38), tinham feito profunda impressão no espírito do rei. Os sábios do seu reino, tirando vantagem disto e do seu retorno à idolatria, propuseram-lhe que fizesse uma imagem semelhante àquela vista em sonho, e a erguesse em lugar onde todos, pudessem contemplar a cabeça de ouro, que tinha sido interpretada como representante do seu reino. “Lisonjeado com a aduladora sugestão, êle se determinou levá-la a efeito, indo mesmo além. Em lugar de reproduzir a imagem como a tinha visto, êle excederia o original. Sua imagem não seria desigual em valor da cabeça aos pés, mas seria inteiramente de ouro, símbolo que representaria Babilônia como um reino eterno, indestrutível, todopoderoso, que haveria de quebrar em pedaços todos os outros reinos,
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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 503, 504.

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permanecendo para sempre. “A idéia de estabelecer um império e uma dinastia que perdurassem para sempre apelou fortemente ao poderoso monarca cujas armas as nações da terra tinham sido incapazes de resistir. Com o entusiasmo nascido da ilimitada ambição e orgulho personalístico, êle tomou conselho com seus sábios quanto à maneira de levar avante o projeto. Esquecendo as assinaladas providências relacionadas com o sonho da grande imagem; esquecendo também que o Deus de Israel por intermédio de seu servo Daniel tinha-lhe esclarecido o significado da imagem, e que em conexão com esta interpretação os grandes homens do reino tinham sido salvos de morte ignominiosa; esquecendo tudo, exceto o seu desejo de estabelecer o seu próprio poder e supremacia, o rei e seus conselheiros de Estado decidiram que todos os meios possíveis seriam utilizados para exaltar Babilônia como suprema, e digna de submissão universal. “A simbólica representação pela qual Deus tinha revelado ao rei e ao povo o Seu propósito para com as nações da Terra, ia agora servir para glorificação do poder humano. A interpretação de Daniel ia ser rejeitada e esquecida; a verdade ia ser mistificada e mal utilizada. O símbolo que o Céu designara servisse para desdobrar perante a mente dos homens importantes eventos do futuro, ia ser utilizado para obstar a divulgação do conhecimento que Deus desejava o mundo recebesse. Assim, mediante a imaginação de homens ambiciosos, Satanás estava procurando frustrar o propósito divino em favor da raça humana. O inimigo da humanidade sabia que a verdade isenta de êrro é uma força poderosa para salvar; mas que quando usada para exaltar o eu e favorecer os projetos dos homens, toma-se um poder para o mal”.1 Não há nenhuma dúvida de que o Império de Babilônia fôra originalmente obra de Satanás assim como os anteriores e posteriores — Egito, Assíria, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Mas a todos êstes Impérios dera Deus evidências de Seu poder e supremacia. Os três primeiros, incluso Babilônia receberam conhecimentos especiais de Deus e de Sua soberania sôbre o govêrno dos homens. O Egito teve por algum tempo o sábio José como o seu mais perfeito primeiro ministro e governador de todo o reino. A Assíria foi concedida uma estupenda mensagem através de Jonas. Babilônia

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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 504, 505.

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gozou por muito tempo a extraordinária sabedoria de Daniel e seus companheiros. A Medo-Pérsia desfrutou, a princípio, também da sabedoria de Daniel como seu maior primeiro ministro de Estado. Todos êstes foram grandes luzes do céu nas côrtes aludidas. Por meio dêles procurou Deus dar aos reis com os quais estiveram relacionados, bem como a todos os seus súditos, o conhecimento de Seu glorioso propósito de salvação da família humana. Especialmente desejou Deus usar diretamente os próprios potentados dos referidos reinos, para tornar realidade, em parte, aquele Seu divino propósito. A Nabucodonosor anelou Deus, mais que qualquer outro monarca, usálo com o referido objetivo. Satanás, porém, estava a postos para se opor decididamente. Fez tudo quanto pôde para desviar o rei caldeu da senda que através do testemunho de Daniel e seus companheiros Deus lhe abrira. Chegou ao ponto de procurar eliminar, em Babilônia, os quatro heróis hebreus — três no forno do fogo ardente e um na cova dos leões. No ponto que agora consideramos, vemos a sombra de Satanás, num supremo esforço para impedir a Nabucodonosor de permanecer sob a salutar influência de seu primeiro inspirado sonho e sua interpretação. O adversário do direito insuflou-lhe orgulho, grandeza, exaltação, ambição, fama, — até que, com o concurso de seus próprios sábios conseguiu afastá-lo do temor de Deus que pareceu dominá-lo por algum tempo, após aquele primeiro sonho e a sua interpretação. Foi levado a descrer que Babilônia pudesse ser subvertida por outro poder, e ainda inferior ao seu, e procura demonstrar sua invencibilidade e inconquistabilidade — na fundição de outra estátua que a representasse como eterna dominadora na terra sob o cétro caldeu. UM INÉDITO “ DEUS-PÁTRIA” DE OURO Muitos deuses nacionais ou “deuses-pátria”, havia em: tôda a antiguidade, principalmente no Egito, Assíria, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma. A vitória duma nação sobre outra era considerada como a vitória dos deuses da nação vitoriosa sôbre os deuses da nação vencida, o que o rei Nabucodonosor pretendeu na ereção de sua gigantesca estátua, não era mais nem menos do que isto mesmo: Uma representação de Babilônia, ou melhor, de seus deuses vitoriosos sobre todos os deuses das nações vencidas. Ainda mais, ao fundir o seu “deus-pátria”, o rei já considerou Babilônia e seus deuses, não só 180

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vitoriosos sôbre as nações e seus deuses no passado, como a manutenção dessa vitória em todo o eterno futuro. UMA ESTÁTUA INTEIRAMENTE DE OURO “Das ricas reservas de seu tesouro, Nabucodonosor mandou que se fizesse uma grande imagem de ouro, no seu aspecto geral semelhante a que tinha sido vista em visão, salvo no que respeitava ao material de que ia ser composta. Acostumados como estavam a mangnificentes representações de suas divindades pagãs, os caldeus nunca dantes haviam produzido cousa mais imponente e magestosa que esta resplendente estátua, de sessenta côvados de altura, e seis de largura. E não é de surpreender que numa terra onde a idolatria era culto prevalecentemente universal, a imagem bela e sem preço erguida no campo de Dura, representando a glória de Babilônia e sua magnificência e poder, fôsse consagrada como objeto de adoração”.1 Seria a estátua em consideração de ouro puro, maciço, ou simplesmente de madeira folhada de ouro. Alguns conjeturam que era de madeira com um chapeado ou revestimento de ouro. O termo original, usado por Daniel para adjetivar a estátua é “dehab” — ouro puro. Das vinte e três vêzes em que ocorre êste têrmo no Velho Testamento, conclue-se indicar objetos de puro ouro e não de um chapeado apenas ou revestimento dêsse minério. Ao interpretar o profeta o sonho do rei, como o temos no segundo capítulo, fê-lo conhecer que, a cabeça da estátua era de “ouro fino”, usando para tal definição o mesmo vocábulo “dehab”. Em outros relatos que referem a objetos como “casos de ouro”, “deuses de ouro”, “cadeia de ouro”.2 O ouro concedido pelo rei Artaxerxes aos judeus que regressaram do cativeiro, — encontramos o mesmo vocábulo “dehab”.3 Mas, para indicar a area receptáculo das táboas da lei, o altar do incênso, a mesa dos pães da proposição e as táboas do santuário, o vocábulo hebraico é outro — “zahab”, visto indicar um outro que cobria ou revestia aqueles objetos de madeira do santuário. O mesmo vocábulo “zahab” é empregado para indicar deuses de pau revestidos de ouro.4
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 505. Daniel 5:27. 3 Esdras 5:14; 6:5; 7:15; 16:18. 4 Habacuque 2:19.

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Babilônia era a metrópole do ouro do mundo. Rios deste fino metal eram canalizados das nações para ela, e suas portas estavam sempre abertas para receber, ininterruptamente, embaixadores vassalos das nações carregadas de tributos de imensos tesouros, além da direta e imediata espoliação em suas conquistas. Herôdoto fornece um relatório onde conta da abundância de ouro existente em Babilônia nos seus dias. Escreveu êle: “Há um segundo templo, no qual existe uma imagem assentada de Zeus, tôda de ouro. Diante da imagem acha-se uma grande mesa de ouro, e o trôno sôbre o qual ela se assenta, e a base do trôno, são também de ouro. Os caldeus me contaram que todo o ouro, pesava 800 talentos (mais de trinta toneladas). Fora do templo encontram-se dois altares, um de ouro maciço... No tempo de Ciro havia também nesse templo a estátua de um homem, com dezoito pés de altura, de ouro compacto. Eu mesmo não ví esta estátua, mas estou relatando o que os caldeus me contaram a respeito”.1 Dado ao fato que o monarca desejou emprestar à sua imagem, como vimos, a evidência do Império Babilônio como supremo, eterno e inconquistável, não podemos aceitar, em nenhuma hipótese, que a sua estátua tivesse somente uma aparência de ouro maciço sem o ser inteiramente dêsse metal. Fôsse a imagem totalmente de ouro. Podemos depositar inteira confiança e fé em suas declarações como profeta, de Daniel, que esta história escreveu, ter-nos-ía informado não Deus. Não há, pois, nenhuma dificuldade em entender o testemunho pessoal e ocultar o profeta. AS DIMENSÕES DA GRANDE ESTATUA As dimensões da estátua simbólica são claramente dadas por Daniel, o bem informado primeiro ministro do reino: Sessenta côvados de altura por seis de largura. O côvado era uma antiga medida de comprimento que variava de nação para nação. Em Babilônia, onde a estátua foi confeccionada ou fundida era de 46 cm. Assim sendo, a grande imagem deveria medir 27 m. e 60 cm. de altura por 2 m. e 76 cm. de largura. Diríamos mais precisamente, que “esta estátua era de cêrca de 30 metros de altura por três de largura, e aos olhos daquele povo idólatra ela apresentava aparência mui imponente e majestosa”.2 Foi realmente uma emprêsa gigantesca e imponente do rei
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Persian Wars, Herôdoto, Vol. I, pág. 183. A Santificação, E. G. White, pág. 40.

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Nabucodonosor, digna de suas aspirações ao domínio eterno de Babilônia; porém, contrária à vontade d’Aquele que é o verdadeiro Dominador nos céus e na terra. Pensam alguns que esta altura da estátua inclui o pedestal em que estava assentada para a consagração e adoração. Entretanto, é mais seguro crêr no relatório de Daniel, como testemunha ocular, que não alude à nenhum pedestal, embora possa ter havido e não estar incluso em sua altura segundo a medida por êle dada. Diante dos fatos históricos dando conta da abundância de ouro em Babilônia, não fôra difícil ao rei Nabucodonosor fundir uma estátua de ouro puro do tamanho dado por Daniel. Cremos que ainda lhe sobrara ouro para fundir muitas outras estátuas similares. O “Campo de Dura” onde levantou o rei a sua estátua simbólica não pode ser precisamente localizado hoje. Tudo quanto sabemos, segundo Daniel, é que naquele tempo estava êle situado na província de Babilônia, provavelmente dentro dos muros da metrópole. A DATA DO GRANDE ACONTECIMENTO Nada se sabe ao certo quanto à data exata do memorável acontecimento. A tradução dos Setenta e a de Teodósio, colocam o evento no décimo oitavo ano de Nabucodonosor, ou seja em 587 a.C., por crerem que realizou-se para comemorar a final catura e destruição de Jerusalém. Todavia, a cidade foi destruída não no décimo oitavo ano deste rei, mas no seu décimo nono ano.1 Na margem duma antiga versão — King James — encontra-se a data 580 a.C. para êste sucesso. Alguns comentadores há que colocam o acontecimento para um tempo posterior à enfermidade de Nabucodonosor mencionada no quarto capítulo. Tôdas estas conjeturas, porém, são destituídas de qualquer crédito histórico. Entretanto, há uma pista ainda a considerar, comparando o capítulo três versículos doze e trinta com o capítulo dois versículo quarenta e nove — e o capítulo três versículos vinte e oito e vinte nove com o capítulo quatro versículos trinta e quatro a trinta e sete, concluímos que a grande estátua do rei de Babilônia foi fundida e inaugurada entre o seu primeiro sonho tido no seu segundo ano de reinado (cap. 2), e a sua enfermidade (cap. 4). Por outro lado, a
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II Reis 25:8-10.

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influência do sonho do capítulo dois sôbre os eventos do capítulo três, sugere fortemente que a história do capítulo três não pode ser datada na parte posterior do reinado de Nabucodonosor. Alguns tem sugerido a data 594-593, pela seguinte razão: Esta data coincide com o quarto ano de Zedequias, rei de Judá, que naquele ano fez uma viagem a Babilônia (Jer. 51:9). É possível que a viagem do rei de Judá fôra emprendida em atenção à convocação de todos os governadores das províncias e vassalos, por Nabucodonosor, afim de comparecerem em Babilônia, para prestarem homenagem à estátua que o rei tinha levantado.1 Contudo, a data dêste evento no tempo de Zedequias não é mais do que uma possibilidade. Assim, a data exata do memorável acontecimento não pode ser precisamente estabelecida. Já que a estátua do rei Nabucodonosor foi possivelmente a maior e a mais custosa jamais fundida por um soberano em todo o tempo, e a sua inauguração talvez o maior acontecimento da história dum reino ou nação, não seria demais sabermos sua data precisa. Porém, muitas outras coisas e verdades importantes não poderemos entender perfeitamente enquanto durar o mundo. Só no mundo vindouro teremos a felicidade de entendê-las reveladas por Aquele que em Sua sabedoria todos os segrêdos são esclarecidos. O MUNDO CONVOCADO A CONSAGRAÇÃO DA ESTÁTUA VERSO: 2-3: — “E o rei Nabucodonosor mandou ajuntar os sátrapas, os prefeitos e presidentes, os juízes, os tesoureiros, os Conselheiros, os oficiais, e todos os governadores das províncias, para que viessem à consagração da estátua que o rei Nabucodonosor tinha levantado. Então se ajuntaram os sátrapas, os prefeitos e presidentes, os juízes, os tesoureiros, os conselheiros, os oficiais, e todos os governadores das províncias, para a consagração da estátua que o rei Nabucodonosor tinha levantado, e estavam em pé diante da imagem que Nabucodonosor tinha levantado”. UMA ORDEM ARBITRÁRIA E DESPÓTICA O rei Nabucodonosor não enviou pròpriamente um convite especial e cordial aos seus grandes: presidentes das províncias,
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Daniel 3:2.

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administradores, autoridades judiciárias, financistas, militares, prefeitos e conselheiros. O texto diz enfaticamente que êle mandou ajuntá-los. Compreendemos por “ajuntar” — completa ausência de cordialidade e polidez. Vemos aqui uma ordem de convocação arbitrária, despótica. Entende-se que aquelas sumidades convocadas, para não dizer arrebanhadas, não tinham pràticamente liberdade de ação em suas funções administrativas no reino em fora. O rei era tudo: O reino e sua administração. Aqueles chamados grandes não eram considerados mais do que simples servos que deviam obedecer cega e humildemente qualquer ordem real, não importando a posição e a responsabilidade. Qualquer tentativa de recusa poderia significar destituição e mesmo pena capital. A convocação real fôra evidente: “... para que viessem á consagração da estátua”. Desgraçadamente, como veremos adiante, o monarca não cumpriu com sua palavra. Reuniu-os para uma solenidade cívica e na hora inicial da cerimônia transforma-a em solenidade cívico-religiosa! Isto deveria ter sido muito chocante aos milhares que atenderam sua ordem de comparecimento. Veremos isto no versículo cinco. No dia aprazado para a grande solenidade, todos os já aludidos senhores do reino — compulsòriamente convidados pelo soberano — apresentaram-se ao ato no “campo de Dura”. De pé diante da inédita imagem aguardavam o programa inaugural para o qual lhes fôra ordenado comparecer. Jamais pensaram êles em opôr-se de qualquer modo à imperativa convocação real e esquivarem-se ao comparecimento. Conheciam muito bem o caráter e os nervos do rei Nabucodonosor para cometerem uma imprudência tal e cairem no seu fatal desagrado. Assim, ali estavam todos em angustiante expectativa quanto ao que sucederia — e Nabucodonosor era capaz de tudo — pois ignoravam certamente a programação a ser seguida pelo soberano naquela oportunidade. Como veremos adiante, o monarca havia elaborado um secreto e infeliz programa para revelá-lo no momento que só êle deliberaria. Nenhum discurso especial, nenhuma explicação prévia, — mas uma ordem abrupta, uma imposição dramática e chocante iria ser ouvida por aquela multidão de grandes humilhados senhores. Êles se surprenderiam alarmantemente, porém, sem nenhum gesto em contrário ou em recusa da imposição real, posto que ela divergisse abertamente do motivo claro previamente anunciado porque os convocara em Babilônia. 185

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UM VIL ATENTADO À CONSCIÊNCIA LIVRE VERSOS 4-7: — “E o arauto apregoava em alta voz: Ordena-se a vós, ó povos, nações e gentes de tôdas as línguas; Quando ouvirdes o som da buzina, do pífaro, da harpa, da sambuca, do saltério, da gaita de foles, e de tôda a sorte de música, vos prostrareis, e adorareis a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor tem levantado. E qualquer que se não prostrar e não a adorar, será na mesma hora lançado dentro do forno de fogo ardente. Portanto, no mesmo instante em que todos os povos ouviram o som da buzina, do pífaro, da harpa, da sambuca, do saltério, e de tôda a sorte de música, se prostraram todos os povos, nações e línguas, e adoraram a estátua de ouro que o rei Nabucodonosor tinha levantado” Um porta-voz do rei, o “arauto”, inesperadamente, anuncia a altas vozes — através de um instrumento para ampliar sua voz o tão anunciado e espectante momento, e o tão sigiloso programa inaugural. O rei estava presente, assentado em seu trôno conduzido àquele local do “Campo de Dura”. As primeiras palavras do “arauto”, foram uma aterradora ordem do império: “Ordena-se a vós”! Aqui está revelado o espírito intolerante de Nabucodonosor como mandatário absoluto do mundo. Êle nada pedia, nem mesmo ao maior homem de seu reino, — tão somente ordenava. A ordem compulsória de adoração da estátua ao sonido da música, não só foi descortês para uma solenidade como aquela, como também um atentado à consciência dos presentes. Ali estava um nôvo “deus”, pela primeira vez em evidência num reino mundial, o “deus pátria”, que devia tornar-se “deus-mundo”, ou “deus império”, “babilônio” por excelência, e, muitas daquelas sumidades presentes, não eram babilônias ou caldaicas, e sim destacados personagens de povos conquistados, humilhados, que o rei deixara como administradoras em seus próprios reinos agora vassalos. Êles prefeririam adorar um “deus-pátria”, lá em suas próprias pátrias do que um “deus-pátria”, dum poder opressor de suas nações e povos. Mas, que fazer quando não eram mais senhores de si mesmos no império babilônio, embora empossados em cargos de responsabilidade? Ainda que fôsse contraditório às suas consciências o ajoelhar-se diante duma estátua convertida em um “deus-pátria”, fariam isso como uma mera formalidade, mormente como desconhecedores do verdadeiro Deus a quem unicamente compete aos homens servir e adorar. 186

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Neste ponto o rei Nabucodonosor cometeu uma deslealdade e uma fraude. Convidara os presentes para a “consagração da estátua”, e, no momento que a isto devia proceder, inverte os papéis exigindo adoração: “Vos prostrareis, e adorareis a imagem de ouro”. Adoração de joelhos é bem diferente do que “consagração”. Exigiu-lhes o monarca um “culto”, em honra de Babilônia e do domínio caldeu no mundo. Sem dúvida o rei faltou com a sua palavra exigindo o que antes não pedira em sua ordem de comparecimento ao ato no “Campo de Dura”. Havia uma ameaça de extermínio no forno ardente a todos quantos ousassem recusar adorar o “ídolo-pátria”. Com esta ameaça o rei demonstrou-se indiscutivelmente um intransigente déspota e muito arrogante. Usou de violência e ameaça para coagir a consciência dos presentes e conseguir os seus objetivos de grandeza e de irredutível obediência de todos pelo temor de sua majestade. Negar adoração à imagem, era a seu vêr, equivalente a um crime de lesa-majestade e lesa-pátria, e de aberta oposição ao reino e suas leis. O soberano queria consolidar tôdas as nacionalidades do mundo em uma só nação. Para alcançar tal propósito era essencial que o govêrno fôsse supremo em tudo, tanto no sentido civil como no sentido religioso. E o rei Nabucodonosor era absoluto em seu estado-civil-religioso. Um antigo provérbio diz: “A vida do Estado é a lei do Estado”. E era esta a concepção do rei Nabucodonosor como estadista de tôda a terra. Para êle Estado era tudo: Suas necessidades eram soberanas; suas demandas, imperativas; sua autoridade, uma inquebrantável lei. Para o monarca nenhuma consciência privada era admissível no Estado ou contra o Estado. O indivíduo era uma mera parte do Estado e só existia para o seu progresso ou não podia existir dentro do Estado. Daí não ser aceitável nenhuma religião independente do Estado — mas unicamente uma religião nacional, própria do Estado, e sob as vistas do Estado. A estátua de ouro era um símbolo do Estado e da Igreja fundidos num só poder com uma só cabeça diretiva — o rei. Daí, nada menos do que honras divinas deviam ser tributadas ao Estado através de sua religião oficial única. Ao tempo de Babilônia como poder mundial, o Estado subordinava a religião a seu belo prazer, ao contrário da Idade Média em que a igreja subordinava o Estado para alcançar seus inglórios fins. O rei Nabucodonosor, visava, submeter a Igreja sob o poder e contrôle do Estado, — honras supremas para si, quer como credor do Estado 187

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mundial, quer como gênio inspirador do Estado. Em outros termos, pretendeu adoração e honras divinas a si próprio de todos os seus súditos, como figura absoluta do Estado e representante honrado dos deuses do Estado mundial. Em outras palavras — o rei era a suprema autoridade civil e eclesiástica do Estado, era o cérebro, a razão e a consciência dos súditos do Estado. Em consequência, pois, do escandaloso consórcio entre Igreja e Estado, a religião para Nabucodonosor era um negócio do Estado, enquanto na Idade Média o Estado era um negócio da religião. Para o rei de Babilônia era inadmissível uma religião independente ou fóra da alçada do Estado. Só era aceita uma religião que servisse o Estado, que estivesse sob o controle do Estado. A pena para os inconformados, com a religião do Estado era extrema — a morte — e uma morte no forno de fogo. Dentro do Estado — tudo sob o controle do Estado. A tôdas as províncias conquistadas impunha o rei que abandonassem a religião tradicional e se conformassem com a religião do Estado Babilônio Mundial, ou com o Estado Religioso que os conquistara. Os grandes que compareceram à consagração da estátua simbólica ou Babilônia, deviam promover, pela fôrça, em tôdas as províncias do reino, a religião do Estado-Babilônio e com ela a adoração do rei-soberano como um deus. Todos deviam jurar fidelidade e obediência ao Estado Religioso e ao rei prestar honras como estadista supremo, chefe religioso divinizado. O caráter da religião do Estado Babilônico e decretada por êste Estado, devia confirmar-se aos sete pontos dados abaixo: 1. Externa e visível — como a grande estátua. 2. Magnificente — como a estátua de grande magnitude e esplendor — tôda de ouro. 3. Sedutiva aos sentidos — Havia muita música variada. 4. Impressiva — os adetos seriam numerosos, aparatosos. 5. Unida — todos adorariam em um determinado lugar e tempo. 6. Regulamentada — regulada por decreto real do soberano. 7. Dignificada — o próprio monarca estaria presente como cabeça e promotor do culto ao Estado. 188

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Esta era a religião de Babilônia — imposta por seu soberano. TRÊS CORAJOSAS ABSTENÇÕES Em face da coação do rei, secundada por uma ameaça de morte, todos os convocados presentes renderam suas consciências e se prostraram em uma formal adoração. “Nêsse dia cheio de tantos sucessos os poderes das trevas pareciam haver ganho um assinalado triunfo; a adoração da imagem de ouro prometia tornar-se permanentemente relacionada com as formas estabelecidas da idolatria reconhecidas como religião do Estado no país. Satanás esperava dessa forma derrotar os propósitos de Deus de tornar a presença do cativo Israel em Babilônia um meio de abençoar a tôdas as nações do paganismo. “Mas Deus decidiu de outro modo. Nem todos haviam dobrado os joelhos ante o símbolo do humano poder. Em meio da multidão de adoradores havia três homens que estavam firmemente resolvidos a não desonrar assim ao Deus do Céu. O seu Deus era o Rei dos reis e Senhor dos Senhores; a nenhum outro se curvariam”.1 Três, apenas, servos de Deus presentes, foram os únicos que tiveram a ombridade de protestar contra a abusiva pretenção do exaltado soberano. Somente três revelaram que a consciência é livre, que pertence unicamente a seu legítimo dono e que só deve ouvir e ceder à voz de Deus, ainda que Êle mesmo não obrigue ninguém a ouvi-la, embora seja êste o melhor caminho a seguir para o bem presente e a redenção futura. UMA PERIGOSA ACUSAÇÃO GRATUITA VERSOS: 8-12: — “Ora, no mesmo instante, se chegaram alguns homens caldêus, e acusaram os judeus. E falaram, e disseram ao rei Nabucodonosor: ó rei, vive eternamente! Tú, ó rei, fizeste um decreto, pelo qual todo o homem que ouvisse o som da buzina, do pífaro, da harpa, da sambuca, do saltério, e da gaita de foles, e de tôda a sorte de música, se prostraria e adoraria a estátua de ouro; e, qualquer que se não prostrasse e adorasse, seria lançado dentro do forno de fogo ardente. Há uns homens judeus, que tú constituístes sôbre os negócios da província de Babilônia: Sadrach, Mesach e Abed-nego: êstes homens, ó rei, não fizeram caso de ti; a teus deuses
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não servem, nem a estátua de ouro, que levantaste, adoraram”. Em primeiro lugar, estes versículos parecem fundamentar o pensamento de que o rei Nabucodonosor pôs vigias ou secretas para observar algum possível recalcitrante à sua enfática ordem de adoração de sua estátua de ouro. De preferência, teria êle escolhido “caldeus” para esta emprêsa, conforme atestam os textos acima citados. Pois, só a compatriotas interessados, como êle, no domínio mundial permanente de Babilônia, confiaria um tal encargo de responsabilidade, com o fito de descobrir prováveis opositores à sua política internacional opressiva, ou, quiçá, boicotadores e agitadores. Se porventura os acusadores não eram agentes secretos do rei Nabucodonosor, eram, no mínimo, seus aduladores e tiveram em vista, com a gratuita acusação, se colocarem em situação favorável e privilegiada perante o monarca, na expectativa de exaltação a algum cargo de confiança no reino com possibilidade de apreciáveis honrarias. Nas entrelinhas da acusação, porém, revelaram os acusadores uma camuflada inveja em relação aos acusados, por serem êstes cativos e estrangeiros, e ocuparem, entretanto, em Babilônia, altos encargos de honra e confiança, enquanto êles, como naturais do país e da raça caldéia, não tinham galgado funções tão elevadas. E na verdade fôra isto mesmo o móvel da diabólica inveja. “Deverás alguns dentre os sábios, enciumados pelas honras que tinham sido concedidas aos fiéis companheiros de Daniel, levavam agora ao rei o relato da sua flagrante violação aos desejos do rei”.1 Êles introduziram a imputação com certa manifestação de honraria costumeira dos bajuladores hipócritas, que usavam a exaltante frase — ó rei, vive eternamente! — em geral para se tornarem imediatamente simpáticos dos soberanos e terem a facilidade da concessão de algum favor real ou ser favoravelmente recebida alguma denúncia que, embora falsa e invejosa, parecesse fazer perigar a honra do monarca ou do reino, e assim serem bem quistos e considerados grandes patriotas. E, o caso em apreço, relativo aos três judeus, se ajustava bem às suas pretenções, não importando as consequências — que êles bem as conheciam — pudessem advir aos acusados. Os termos da acusação que apresentaram ao soberano, na verdade parece revelar que eram voluntários agentes secretos e que visavam, por evidente inveja, eliminar da corte os quatro hebreus, incluso Daniel, por se terem
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 506.

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revelado grandes sábios e por terem caído nas graças do rei Nabuco nominalmente perante o rei da Babilônia. Ao rei inflado com o triunfo alcançado na planície de Dura, foi levada a acusação, pelos aludidos agentes, de que três judeus, opondo resistência à sua ordem real de adoração da estátua, ousaram permanecer de pé no momento em que tôda a multidão se ajoelhava em prestação de culto ao Império dominador da terra, desobedecendo deste modo, aberta e publicamente, uma enfática e ameaçadora ordenança do rei soberano. Os três oponentes foram acusados nominalmente perante o rei de Babilônia. Doutro, lado, vemos nos “caldeus” acusadores — êsses togados de Babilônia, catedráticos supremos da filosofia — um aberto e agitado ressentimento pelo fracasso que haviam sofrido quando não puderam revelar e interpretar o sonho do rei relatado no capítulo dois, e pudera fazer Daniel, o jovem cativo hebreu. Desejavam àvidamente aproveitar qualquer pretexto para acusar os judeus ante o rei, afim de atrair-lhes desonra e, se possível, a morte. Depois de aludirem aos termos do decreto real de adoração da estátua, formularam uma tríplice acusação, e fizeram questão de referir, não só os nomes dos acusados, como também a nacionalidade dêles e as importantes funções que desempenhavam na província de Babilônia, a província chave do reino. A acusação, porém, em si mesma, como dissemos, constava de três claros pontos: (1) “Êstes homens, ó rei, não fizeram caso de ti; (2) a teus deuses não servem; (3) nem a estátua de ouro, que levantastes, adoraram”. As duas últimas eram reais, sendo uma falsidade a primeira. Mas esta era mais forte e decisiva na condenação esperada pelos acusadores. Seguramente Satanás lhes inspirava e incitara a formularem-na, na esperança de afastar daquela côrte do mundo as testemunhas de Deus. O desprêso à pessoa do rei Nabucodonosor, embora uma injúria dos acusadores, era quasi certo que resultaria em pena capital, mormente em se tratando de burocratas de alta posição como as de Sadrach, Mesach e Abed-nego. Todavia, aqueles acusados demonstrariam ao rei, a seus acusadores e a todos quantos ali presentes se encontravam a indómita coragem e firmeza de fé nos princípios da justiça do céu que eram uma característica de suas vidas, bem como o invisível poder do Todo-poderoso Creador e Senhor de todas as coisas, sempre manifesto em proteger a seus fiéis filhos quando em perigo e risco de vida por sua fé. Aqueles que confiam em Deus estão seguros em Sua mão. 191

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UMA ATREVIDA OUSADIA DO REI NABUCODONOSOR VERSOS 13-15: — “Então Nabucodonosor, com ira e furor, mandou chamar Sadrach, Mesach e Abed-nego. E trouxeram a êstes homens perante o rei. Falou Nabucodonosor, e lhes disse: É de propósito, ó Sadrach, Mesach e Abed-nego, que vós não servís a meus deuses nem adorais a estátua de ouro que levantei? Agora pois, se estais prontos, quando ouvirdes o som da busina, do pífaro, da guitarra, da harpa, do saltério, da gaita de foles, e de tôda a sorte de música, para vos prostrardes e adorardes a estátua que fiz, bom é: mas, se não a adorardes, sereis lançados, na mesma hora, dentro do forno de fogo ardente: e quem é o Deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” ESCOLTADOS À PRESENÇA DO REI Surpreso com a denúncia da existência de oposição à sagração e culto da estátua simbólica, mandou o rei que imediatamente trouxessem os opositores à sua presença em pleno Campo de Dura. Incontinentemente foram êles conduzidos perante o irado monarca. Êste ato de violência revelou que, embora, homens de posição elevada que eram no reino, não desfrutavam, como vimos atrás, o direito de consciência naquela côrte e naquele reino. Se o rei lhes solicitasse o comparecimento à sua presença para explicarem razões, o caso seria outro. Todavia mandou escoltá-los, e, com isso, revelou que no seu reino seus súditos não eram cidadãos livres, — mas, sim, servos sem consciência. Para Nabucodonosor a consciência de seus súditos era êle próprio. Em primeiro lugar o enfurecido rei fêz aos três valentes uma pergunta coercitiva em matéria de religião. Procura estorquir-lhes uma formal confissão se era ou não intencionalmente que se recusavam servir a seus deuses e adorar a sua estátua de ouro. Aí está uma amostra da realeza babilônica em que o soberano enfeixava em suas mãos os poderes civil e eclesiástico, num indigno e repelente consórcio condenado veementemente pelo céu. A união entre Igreja e Estado, — é uma aliança; a mais corrutora da civilização e a mais abjeta e repulsiva aos olhos de Deus. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, foi a máxima de Cristo no que respeito à Igreja e o Estado; separação absoluta de ambos os poderes — civil e eclesiástico. Mas, quando um absorve o outro para fins políticos ou 192

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eclesiásticos, — os resultados são sempre iguais aos que estamos agora considerando: Trágicos, violentos, odiosos, fatais. UMA NOVA OPORTUNIDADE DO REI Em seguida à sua pergunta, sem dar tempo a que seus três interrogados lhes respondessem, o rei propõe-lhes uma nova oportunidade: Mandaria tocar novamente a música para que desta vez se prostrassem e adorassem a estátua, e então o caso se encerraria. “Apontando para a fornalha ardente, lembrou-lhes a punição que os esperava se persistissem em sua recusa de obedecer a sua vontade”. “Ao estarem os três hebreus em presença do rei, êste compreendeu que êles possuíam alguma coisa que faltava aos outros sábios do seu reino. Êles haviam sido fiéis no cumprimento de cada obrigação. Êle desejava dar-lhes outra oportunidade. Se tão somente demonstrassem sua boa vontade em unir-se com a multidão em adoração à imagem, tudo iria bem com êles: “mas, se a não adorardes”, êle aduziu, “sereis lançados, na mesma hora, dentro do forno de fogo ardente”. Então com a mão estendida em desafio, exclamou: “E quem é o Deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”.1 “A última declaração do rei Nabucodonosor — e quem é o Deus que vos poderá livrar das minhas mãos — foi uma ultrajante ofensa ao Creador em cujas mãos estava a sua própria vida. Revelou um perverso espírito e um arrogante senso de superioridade a Jeová, o Deus dos hebreus. Seu ousado desafio tornou mais humilhante a sua derrota e mais saliente a intervenção vitoriosa do Deus desafiado e ofendido. Que ninguém pense que o rei Nabucodonosor foi o único atrevido desafiante de Deus. Antes dêle, ousara interrogar Faraó a Moisés: “Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não conheço o Senhor, nem tão pouco deixarei ir Israel”.2 E, depois do rei de Babilônia até agora, os séculos estão cheios de ousados desafios ao Onipotente. Por ocasião da Revolução Francêsa, gritava um dos padres da chamada “nova ordem”: “Deus, si existis, vingai Vosso nome injuriado. Eu vos desafio! Conservai-vos em silêncio: não ousais fazer uso de Vossos trovões. Quem depois disso crerá em Vossa existência?”.3 E em pleno pujante século XX, Deus é desafiado
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 507. Êxodo 5:2. 3 O Conflito dos Séculos, E. G. While, pág. 271.

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com todo o descaramento por milhares de milhares, numa repetição ao atrevido e ateístico insulto de Nabucodonosor, de Faraó, dos revolucionários franceses e de incontáveis outros declarados incrédulos e infiéis, dentre os quais boa massa de ousados chamados cristãos. NADA DE PARLAMENTAR COM O REI VERSO 16: — “Responderam Sadrach, Mesach e Abednego, e disseram ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sôbre êste negócio”. O DESTEMOR DA FÉ CORAJOSA Sem manifestar nenhum temor, mas expressando absoluta calma e controle próprio, os três corajosos jovens permaneceram com dignidade diante do colérico potentado. Não vacilaram em responder às ameaças do ensoberbecido rei. A resposta que deram foi sincera, precisa, positiva, decisiva e irrevogável. Não titubearam nem cederam no mínimo. Com inabalável firmeza se recusaram a ceder às instâncias e ameaças do rei. Não discutiram com êle, os porquês da recusa, pois Nabucodonosor já bem os conhecia como religiosos e fiéis adoradores de Jeová, o Deus de Israel. As razões apresentadas pelo orgulhoso monarca e a nova oportunidade que lhes. ofereceu para adorarem sua estátua, não influíram em absoluto na firme decisão já prèviamente tomada por êles. UM INIGUALÁVEL TESTEMUNHO DE FÉ Nunca se viu ou se ouviu antes ou depois de um testemunho tão vibrante e tão corajoso em favor do direito de Deus e da justiça do Céu! Jamais antes a fé foi manifesta de modo tão altaneiro, perfeito e fiél em circunstâncias tão dramáticas e adversas. Foi uma grandiosa amostra do imenso poder que a fé torna possível ter o seu possuidor legítimo. Destemor e intrepidez caracterizaram aqueles heróis da divina virtude da fé. Ficara constatada até que ponto é possível um crente manifestar lealdade aos princípios da justiça do céu quando possuído pela genuína fé dos santos. Lamentàvelmente, todos os séculos, incluso o nosso, têem visto mais traidores do que defensores da pura fé, cujo “Autor e Consumador” é o poderoso Filho de Deus. Milhões de pretensos cristãos têm sucumbido no abismo do medo e da apostasia no momento em que dêles urgia o Salvador um eloqüente 194

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testemunho em Seu favor e em Sua honra; a fé esteve ausente e a derrota fez-se inevitável e fatal. Os três hebreus da nossa consideração, todavia, dão para todos os tempos um vivido e insuperável exemplo do que significa ser um crente em Deus e um genuíno cristão possuidor da “fé de Jesus” seu Salvador. PORQUE NÃO ARRAZOARAM COM O MONARCA Os acusados foram francos ao soberano exaltado: “Não necessitamos de te responder sôbre êste negócio”. Esta foi a resposta inicial decisiva que deram, e que estava em harmonia com a vontade de Deus. Não necessitaram do tempo para se definirem. Como crentes tinham sempre e na hora uma bôa reserva de negativas para tudo quanto contrariava a fiél e perfeita vontade de Deus. A religião é um princípio ativo na vida do religioso; é a própria vida de Deus atuando em Seu verdadeiro servo com todo o poder, fazendo dêle um baluarte que nenhuma fôrça humana será capaz de vencê-lo. Se, porventura, os três hebreus cedessem às instâncias do rei e se curvassem diante da estátua de ouro, perderiam a confiança e a admiração do soberano e da côrte, que até ali desfrutaram. Assim, a decisão imediata que tomaram foi acertada e a única honrosa! O indivíduo cegado pela vaidade do orgulho e da honra mundanos, não aceita justificativas em desabono de suas absurdas e altivas pretenções. O trio de acusados conhecia perfeitamente o neurótico rei Nabucodonosor para tentar parlamentar com êle explicando-lhe da decisão que tomara. A vida que viviam como altos funcionários do reino; a exatidão no desempenho das funções a êles confiada; a impoluta moral pessoal que viviam; a vida religiosa exemplar e gloriosa que manifestavam ao mundo, — já era uma gloriosa e vitoriosa resposta autêntica, cabal, eloquente. UMA RESPOSTA DE FÉ CORAJOSA VERSOS 17-18: — “Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar: Êle nos livrará do forno de fogo ardente, e da tua mão, ó rei. E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantastes”. Embora decididos a não parlamentar com o altivo rei, fizeram questão de deixar bem claro dois pontos: 195

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1) O Deus a quem serviam os livraria do forno de fogo ardente da mão ou poder do rei. 2) Decididamente não serviriam aos deuses do rei e muito menos adorariam a sua estátua de ouro. “Foram baldadas as ameaças do rei. Êle não logrou desviar os homens de sua obediência ao Governador do universo. A história de seus pais lhes ensinara que a desobediência a Deus resulta em desonra, desastre e morte; e que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, o fundamento de tôda verdadeira prosperidade. Sua fé foi fortalecida ao declararem que Deus se glorificaria em libertá-los, e com a triunfante segurança nascida da implícita confiança em Deus, acrescentaram: “E, se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua do ouro que levantaste”. A resposta daqueles destemidos crentes não seria e não será dada por qualquer espécie de cristãos. Êles estavam seguros de que não capitulariam ante as demandas absurdas de extorções de suas consciências pelo rei Nabucodonosor. A inabalável confiança em Deus lhes assegurava antecipadamente a vitória. Quem os livraria, asseguraram, era o Deus a quem serviam. Transbordantes de inquebrantável fé, puzeram sua sorte nas mãos de Deus. Se o livramento dêles redundasse em Sua glória, que os livrasse. A graça de Deus para êles estava infinitamente acima do favor do rei da Babilônia. A breve futura grande vitória da fé confirmaria que em verdade serviam incondicionalmente a Deus como afirmaram. Êles não eram cristãos nominais, mas evidentes, espiritualmente poderosos em tôda a vida religiosa. Constituem ainda um modelo de vida espiritual para todos os modernos cristãos, principalmente para a juventude cristã do século. Nabucodonosor não esperava uma resposta de tão categórica recusa como a que ouvira. Estava certo de que capitulariam incontinente ante sua presença e seu poder. Aquele rei só tivera diante de si, até então, cobardes e tementes, dos quais fazia o que bem entendia. Agora ali estavam homens prontos a enfrentá-lo, não com as armas carnais da hipocrisia, do despotismo e do orgulho, — mas com as armas poderosas e verdadeiras, capazes de aniquilar as fortalezas da impostura e da impiedade. Os três “não” da resposta inabalável dos moços, venceram o arrogante rei de Babilônia: “Não” para o soberano; “não” para os seus deuses: “Não para a sua estátua”. O resultado dos firmes “não” foi a mais espetacular vitória da fé de que se tem notícia e a mais fragorosa 196

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derrota do poder das provas, através de agentes em Deus. São de cristãos desta estirpe e poder que o século XX está em carência. A mais dolorosa bancarrota da atualidade é a da fé! Que se envergonhem êstes cristãos atuais e meditem na estupenda experiência dos três hebreus, para terem uma visão do que significa ser um verdadeiro seguidor do Cristo de Deus. A INCANDESCENTE IRA DO REI VERSO 19: — “Então Nabucodonosor se encheu de furor, e se mudou o aspecto do seu semblante contra Sadrach, Mesach e Abednego: falou, e ordenou que o forno se aquecesse sete vêzes mais do que se costumava aquecer”. À irrevogável recusa de Sadrach, Mesach e Abed-nego, a ira do rei Nabucodonosor não teve limites. Seu tremendo furor transmudou o aspecto de seus semblante e transformou-o num doido capaz de tudo naquela oportunidade. Quando viu que sua vontade não fôra recebida como a vontade de seu deus pelos três judeus, êle encheu-se de furor. Satânicos atributos tornaram a sua fisionomia como a de um demônio. Urgia justificar sem delongas os ousados representantes duma raça cativa desprezada. “Nabucodonosor não estava em verdade, isento das faltas e incensateses nas quais é tão fácil cair um monarca absoluto. Embriagado pelo poder ilimitado, não podia suportar a desobediência nem a contradição. Ainda que fôsse por bons motivos, si alguém resistia à autoridade que expressava, manifestava a debilidade que, em tais circunstâncias, é comum entre a humanidade caída, e se enfurecia grandemente. Ainda que dominava o mundo, não sabia dominar o seu espírito, nem exercia controle sôbre si mesmo. Irado sobremaneira, seu próprio rosto se demudou. Em vez de domínio próprio e a aparência serena e digna que devia haver conservado, deixou ver em sua expressão e seus atos que era escravo de uma paixão ingovernável”.1 Triste realidade! Por ordem real o forno foi aquecido sete vêzes mais do que o costume. Sentiu ser necessário mais do que um simples poder para conseguir a execução daqueles nobres homens. Pareceu revelar sua crença na virtude do poder do número sete. Pareceu crêr nêste número como uma inabalável e segura plenitude, uma expressão de êxito em tudo e sobre tudo que implicasse êsse número.
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Las Profecias de Daniel y el Apocalipsis, Urias Smith, Vol. I, pág. 55.

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Portanto, ordenando que o forno se aquecesse sete vezes mais do que o normal, procurou assegurar-se de pleno êxito na sua inglória empresa. Mas verificaria logo que o número sete é o número de Deus vivo e que, portanto, não o empregaria com êxito, mormente na destruição dos que honram à Deus. O rei caldeu estava de todo enganado com o número sete. Além de tudo, quiz o rei, em aquecer sete vêzes mais o forno, provar que não havia Deus com tanto poder capaz de evitar o extermínio dos três rebelados jovens. Quiz assim prevenir-se contra uma possível intervenção sobrenatural do Deus dos hebreus, que êstes asseguraram que os livraria. “E quem é o Deus que vos poderá livrar das minhas mãos”, fôra o seu ousado desafio. Talves a certeza do rei de que teria absoluto êxito em sustar o poder do Deus de Israel em deter a fôrça séptupla do forno ardente, se fundasse no fato de que, em tempo próximo passado, êle havia destruído naquele forno a dois pretensos adoradores do mesmo Deus.1 Os dois, porém, eram falsos profetas e daí não terem assegurado o livramento de Deus. Mal sabia o descontrolado monarca que, quanto mais intenso o calor de seu forno, tanto maior e mais impressionante constituiria êle mesmo o milagre do livramento dos sentenciados jovens. EMPACOTADOS PARA O FORNO DE FOGO ARDENTE VERSOS 20-22: — “E ordenou aos homens mais fortes, que estavam no seu exército, que atassem a Sadrach, Mesach e Abednego, para os lançarem no forno de fogo ardente. Então aquêles homens foram atados com as suas capas, seus calções, e seus chapéus, e seus vestidos, e foram lançados dentro do forno de fogo ardente. E, porque a palavra do rei apertava, e o forno estava sobremaneira quente, a chama do fogo matou aquêles homens que levantaram a Sadrach, Mesach e Abed-nego. Como preparativos para a execução sumária, ordenou o rei que fortes homens de seu exército atassem com cordas dos pés aos ombros os adoradores do Deus de Israel, em forma de embrulho, de modo que seus braços ficassem amarrados ao corpo, para facilitar serem atirados ao candente forno. Assim fcram êles jogados na fornalha, esperando todos os presentes que num instante fossem reduzidos a simples cinza.

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Jeremias 29:21-23.

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A intensidade do calor era de tal natureza, que só as chamas que emanavam da fornalha fulminaram os homens fortes que jogaram os três sentenciados ao forno, com a morte dos poderosos homens de seu exército, começou a derrota do rei e ficou já patente o desagrado de Deus pelo ato impensado e cruel do monarca em procurar destruir caracteres puros e santos, homens zelosos no seu dever no que respeitava às funções do Estado a êles confiadas. Na morte dos soldados do rei, ficou provada a nulidade do pretenso poder atribuído aos deuses de Babilônia, pois não livraram estes seus adoradores. Todavia, a morte fulminante daqueles fisicamente poderosos soldados, deu mais realce ao livramento dos hebreus e demonstrou o supremo poder do Deus de Israel. O TODO-PODEROSO NA FORNALHA ARDENTE VERSOS 23-25: — “E êstes três homens, Sadrach, Mesach e Abed-nego, caíram atados dentro do forno de fogo ardente. Então o rei Nabudonosor se espantou, e se levantou depressa: falou, e disse aos seus capitães: Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo? E responderam e disseram ao rei: É verdade, ó rei. Respondeu, e disse: Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, e nada há de lesão nêles; e o aspecto do quarto é semelhante ao filho dos deuses”. A FRAGOROSA DERROTA DE SATANÁS A palavra de Nabucodonosor foi cumprida; os sentenciados inocentes caíram atados em meio às chamas. Do seu trono, próximo, o rei olhava esperando ver inteiramente consumidos os homens que se atreveram a desafiá-lo publicamente. “Mas o Senhor não esqueceu os Seus. Sendo Suas testemunhas lançadas na fornalha, o Salvador Se lhes revelou em pessoa, e junto com êles andava no meio do fogo. Na presença do Senhor do calor e do frio, as chamas perderam o seu poder de consumir”.1 Aquêles fidelíssimos cristãos haviam assegurado ao rei de Babilônia que seu Deus os libertaria. E os fatos demonstraram que aquilo que ao rei pareceu mera presunção, revelou-se em glorioso resultado da viva fé daqueles santos. Por outro lado o mundo teve uma
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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 508, 509.

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amostra evidente do valor dos verdadeiros crentes quando em perigo mesmo de extermínio. O notável livramento assentou a bendita e irrecusável verdade da assistência de Deus em favor de seus escolhidos como resultante da inabalável confiança que manifestaram em Seu sempre presente poder em protegê-los. O Nôvo Testamento relembrando o grande feito da fé daqueles heróis cristãos em Babilônia, assim se expressa: “Pela fé... apagaram a fôrça do fogo”.1 O que mais atenção chama a este sobrenatural livramento, é que os três fiéis não foram salvos da fornalha ardente, mas na fornalha ardente, em plenas chamas devoradoras. Não foram libertos do forno destruidor, mas de seu poder consumidor. Hoje, tão bem como naquele tempo, podem os fiéis confiar em seu Salvador com a mesma certeza de fé, pois só assim poderão assegurar a seus modernos algozes a Sua intervenção que garante a vitória. Urge, todavia, aquela indispensável e poderosa fé que não é presunção, mas sim uma inabalável e inconfundível segurança, uma antecipada vitória sôbre todo o perigo não importando o seu feitio. A tentativa de Satanás em incentivar a idolatria nacional — de elevação de Babilônia como eterna dominadora na terra, através do cêtro caldeu — redundou em sua derrota. Seu esforço por intermédio de Nabucodonosor foi fatal e vexatória, em vez de êxito, seus maléficos fins foram derribados e desmoralizados. Aquela massa humana de grandes homens prementes, que após a consagração e adoração da idolátrica estátua devia volver às numerosas províncias e promover o “culto-Pátria” de Babilônia incomparável, inconquistável e imperecível, teve naquela oportunidade a mais estupenda manifestação pessoal do Eterno. Cada um daqueles dignatários levou a seus países de origem a espetacular nova que tiveram o privilégio e mesmo a honra de presenciar — a revelação pessoal do Onipotente. O quadro que se lhes deparou ante os olhos jamais esqueceram; permaneceu vivido em suas memórias e em suas retinas enquanto viveram. Tiveram uma verdadeira visão da fé, do Deus vivo e Único verdadeiro e de Seu eterno e invencível poder. Fôra possivelmente esta a maior derrota evidente do poder das trevas até ali conhecida, ao tentar eliminar por uma morte tão trágica e satânica, as testemunhas de Deus da corte mundial do paganismo. Fôra igualmente a maior vitória
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Hebreus 11:34.

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do direito do céu em preservar a honra de Deus através de seus leais servos, de seus leais embaixadores na terra. NABUCODONOSOR CONTEMPLA O TODO-PODEROSO O levante do rei Nabucodonosor contra Deus na pessoa de Seus servos, não foi uma revelação de ignorância da supremacia do Onipotente. Êle mesmo confessara: “Certamente o vosso Deus é Deus dos deuses”.1 Rebelara-se, pois, mais uma vez, contra uma autoridade e vontade que sabia serem supremas no universo. Atentou contra a vida de homens nobres, santos, cumpridores de seus deveres em suas funções de Estado naquele reino, só por desejarem dispor de suas consciências em matéria de fé religiosa e de civismo. Todavia, julgouos como seus maiores adversários. Com seu pretendido triunfo esmagador sôbre aquêles imaculados caracteres, visou apenas reter uma autoridade orgulhosa, inglória e efêmera. Mas os sentimentos de triunfo do rei Nabucodonosor mudaram. Enquanto olhava atento à fulminante fornalha esperando ver reduzidos a nada aquêles por êle tidos como rebeldes, espantou-se sobremaneira. Havia uma quarta pessoa em meio às chamas, que não fôra jogada conjuntamente com os três. Êle notou-lhe a diferença em relação aos outros: Era Majestoso, revelava Onipotência, manifestava senhorio universal, não aparentava vingança contra os malfeitores de seus escolhidos naquele forno jogados, — mas deixara transparecer em seu adorável semblante um imensurável amor. Como fora de si, o rei Nabucodonosor ergue-se depressa de seu trono. Estava pálido e abismado, e olhava atentamente às fulgurantes chamas. Arranca de seus nobres a confirmação de que lançaram três homens apenas ao forno. Êle, porém, cheio de comoção e temor, logo acrescenta: “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, e nada há de lesão nêles; e o aspecto do quarto é semelhante ao filho dos deuses”. A versão bíblica de King James apresenta “Filho de Deus” em vez de “filho dos deuses”. Cremos que “Filho de Deus” é a expressão correta do rei, pois lhe haviam afirmado os três hebreus que o Deus de Israel os livraria. Mas, “como sabia o rei pagão a que era semelhante o Filho de Deus? Os cativos hebreus que ocupavam posição de
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Daniel 2:47.

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confiança em Babilônia tinham representado a verdade diante dêle na vida e no caráter. Quando perguntados pela razão de sua fé, tinham-na dado sem hesitação. Clara e singelamente tinham apresentado os princípios da justiça, ensinando assim aos que lhes estavam ao redor a respeito do Deus a quem adoravam. Êles tinham falado de Cristo, o Redentor vindouro; e na aparência do quarto no meio do fogo o rei reconheceu o Filho de Deus”.1 A presença de seu Salvador tinha-os guardado de sofrer dano, e unicamente suas amarras tinham-se queimado”. O rei Nabucodonosor, em virtude de sua fragorosa derrota e a grandeza do que via, esqueceu-se de sua própria dignidade e majestade real, e apareceu como um “nada” em presença da Majestade do céu. A estátua de ouro, erguida com tanta pompa e orgulho, foi esquecida como algo obsoleto, tendo sido convertida em coisa nenhuma tôda aquela manifestação a Babilônia como poder eterno. O grande e sobrenatural livramento dos servos de Deus revelou aquela estátua nada significar como símbolo, senão que era um embuste do monarca babilônio na intenção de anular a interpretação de Daniel da próxima queda de sua realeza mundial sob as armas de outros povos conquistadores. O acontecimento que começou com uma aparente manifestação de poder jamais visto de uma côrte mundial em todos os séculos e que por fim foi declarado de nenhum valor pela manifestação do Todopoderoso, foi escrito para advertir aos modernos Nabucodonosores de quanto vale o poder humano ante o divino poder. A VITÓRIA DA FÉ PODEROSA VERSOS 26-27: — “Então se chegou Nabucodonosor à porta do forno de fogo ardente; falou, e disse: Sadrach, Mesach e Abed-nego, servos do Deus Altíssimo, saí e vinde! Então Sadrach, Mesach e Abed-nego saíram do meio do fogo. E ajuntaram-se os sátrapas, os prefeitos, e os presidentes, e os capitães do rei, contemplando êstes homens, e viram que o fogo não tinha tido poder algum sôbre os seus corpos: nem um só cabelo da sua cabeça se tinha queimado, nem as suas capas se mudaram, nem cheiro de fogo tinha passado sôbre êles”.
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 509.

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OS VITORIOSOS SAEM DA FORNALHA ARDENTE Excessivamente emocionado, o rei de Babilônia achegou-se tão perto do forno quanto pôde e ordenou aos três jovens que saíssem dêle. Suas palavras foram agora cheias de bondade e reconhecimento. Expressando temor e respeito os tratou de “servos do Deus Altíssimo”. Êles não saíram do fogo tão logo ao serem libertos, pois o Salvador permanecia com êles e não podiam sair sem Seu consentimento. Antes de saírem os presentes deviam ter uma perfeita visão do grande livramento e contemplar nitidamente a majestade do Céu e seu imenso poder e glória. Além disso, o próprio rei deveria tomar a iniciativa e solicitá-los que saíssem, pois por ordem sua foram sentenciados a morrerem ali. Só depois do pedido do monarca o Salvador consentiu que saíssem. Esta estupenda vitória do poder da luz sôbre o das trevas foi uma mordaz repreensão para a insensatez e loucura do soberano de Babilônia. Um poder superior a qualquer outro da terra havia vindicado a fé dos que permaneceram firmes contra a idolatria e desprezaram o culto nacional pagão do rei. Nenhum dos deuses do paganismo efetuara até ali uma libertação no forno de fogo. Ante as poderosas evidências a seus próprios olhos, o rei Nabucodonosor não endureceu o seu coração como fizera Faraó, embora o grande efeito não fôsse duradouro nem redundasse em conversão. Duas coisas, todavia, ficaram claramente demonstradas: 1) que enquanto as potências terrenas exercerem poder nesta terra, o povo de Deus poderá entrar em conflito mortal, com as exigências de seus soberanos em face dos deveres para com Deus; 2) que enquanto seu povo Lhe fôr fiel Deus os protegerá, até mesmo de modo maravilhoso para livrá-los de perigos e males injustos, se assim achar por bem fazer. Se os três hebreus já houvessem concluído o testemunho que deviam dar em Babilônia e ao mundo através aquela côrte, possivelmente deixaria Deus que selassem sua fé naquela fornalha ardente. Mas deviam ser ainda preservados. UM QUADRO MARAVILHOSO O quadro que se seguiu ao saírem do fogo os três raros jovens, não pode ser precisamente descrito aqui na terra. Os grandes do rei presentes à inauguração da estátua haviam aprovado o seu ato sentenciando-os àquela terrível morte sumária na fornalha. Agora, 203

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depois da vitória dos hebreus cativos, ao passarem incólumes pelas consumidoras chamas, os contemplam admirados e cheios de temor. Tinham diante dos olhos a prova tangível da proteção do Todopoderoso a seus fiéis servos. Olvidando a cerimônia da hora e a própria monumental estátua do rei, todos os seus interesses se concentraram nos três notáveis homens. Representantes de todo o mundo que eram, prestam inconscientemente uma homenagem a Deus e a Seus vitoriosos escolhidos. A fé dos eleitos do Senhor se demonstrou potente e redundou ao menos por um instante em Sua honra e respeito entre as sumidades do reino mundial reunidas em Babilônia naquela oportunidade. A ira que contra os três jovens o rei e seus grandes devotaram conjuntamente, resultou em louvor de Deus e Sua causa na terra até ao presente século. Ao constatarem que nem mesmo um fio de cabelo daqueles heróis se queimara, que suas vestes estavam perfeitamente intactas e que havia completa ausência mesmo de cheiro de fogo sôbre êles, — reconheceram o poder que com aquêles moços estêve em plenas chamas. Tiveram aquêles cortezões a lição de que careciam: Que o poder pertence a Deus e que êles, com todo o orgulho e jactância que lhes era próprio, eram meros “nada” diante da Onipotência sempre presente e sempre vigilante em face de Seus interêsses no mundo. O grande acontecimento foi-lhes uma advertência para que não mais ousassem se erguer contra o vitorioso povo de Deus e Sua triunfante causa na terra. “Pela libertação de Seus fiéis servos, o Senhor declarou que toma posição ao lado do oprimido, e repele todo, poder terreno que se rebela contra a autoridade do Céu. Os três hebreus declaram a tôda a nação babilônica sua fé naquele a quem adoravam. Êles descansaram em Deus. Na hora de sua provação lembraram-se da promessa: “Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, êles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem chama arderá em ti”.1 E de maneira maravilhosa sua fé no Deus vivo tinha sido honrada à vista de todos. A notícia de seu maravilhoso livramento fôra levada a muitos países pelos representantes das diferentes nações que tinham sido convidadas por Nabucodonosor para a dedicação. Mediante a fidelidade de Seus filhos, Deus fôra glorificado em tôda a Terra”.2
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Isaías 43:2. Profetas e Reis, E. G. White, págs. 511, 512.

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O testemunho daqueles valentes hebreus cristãos, é o testemunho que Deus espera de Seus filhos em pleno século atual. EXALTANDO O DEUS QUE INJURIOU VERSO 28: — “E falou Nabucodonosor, e disse: Bendito seja o Deus de Sadrach, Mesach e Abed-nego, que enviou o Seu anjo, e livrou os seus servos, que confiaram nÊle, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar os seus corpos, para que não servissem nem adorassem algum outro deus, senão o seu Deus”. Em meio à admiração de todos, o rei Nabucodonosor tomou a palavra para exaltar o Deus de Israel e louvar a fé de Seus três fiéis servos. Nas palavras do soberano salienta-se o fato de que aquêles homens preferiram antes “entregar seus corpos” do que quebrar sua lealdade a seu Deus. O próprio rei exalta a confiança que depositaram em seu Deus, que foi o móvel pelo qual repudiaram “a palavra do rei” no campo de Dura em homenagem à estátua de ouro. Quão importante é que o ímpio exalte a fé das testemunhas de Deus e com isso ao próprio Deus Onipotente. É isto mesmo que Deus anseia ver neste século final da história do império do mal: Homens que O sirvam com indiscutível fidelidade para que isto resulte em Seu louvor e honra em meio à infidelidade e ao orgulho do mundo atual. Mas, com tristeza, perguntamos: Onde estão os fiéis de Deus hoje, por cuja fidelidade Êle é exaltado na terra? Lamentàvelmente são tão raros êsses fiéis que quase são totalmente despercebidos! UM DECRETO MUNDIAL EM HONRA DE DEUS VERSO 29: — “Por mim pois é feito um decreto, pelo qual todo o povo, nação e língua que disser blasfêmia contra o Deus de Sadrach, Mesach e Abed-nego, seja despedaçado, e as suas casas sejam feitas um monturo; porquanto não há outro deus que possa livrar como êste”. “As experiências dêsse dia levaram Nabucodonosor a baixar um decreto”. “Não há outro Deus”, referira êle, “que possa livrar como êste”. “Com estas palavras e outras semelhantes o rei de Babilônia procurou espalhar entre todos os povos da terra sua convicção de que o poder e autoridade do Deus dos hebreus eram dignos de suprema adoração. E Deus Se sentiu honrado com os esforços do rei para lhe 205

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mostrar reverência e tornar a confissão real de obediência difundida por todo o domínio babilônico. “Era correto fazer o rei confissão pública, e procurar exaltar o Deus do Céu sôbre todos os outros homens; mas procurar forçar seus súditos a igual confissão de fé é mostrar semelhante reverência era exceder os seus direitos como soberano temporal. Não tinha êle maior direito, civil ou moral, de” ameaçar os homens com a morte pela não adoração de Deus, do que tinha para fazer o decreto votando às chamas todos os que recusassem cultuar a imagem de ouro. Deus jamais compele o homem à obediência. A todos deixa livres para que escolham á quem desejam servir”.1 Contudo o decreto mundial do rei Nabucodonosor contribuiu para espalhar pela terra inteira o conhecimento do nome do Deus de Israel e Seus grandes feitas em pról do Seu povo. O Deus dos hebreus foi colocado pelo emocionado monarca acima de todos os deuses das nações. E os cativos hebreus nas províncias orientais foram olhados com respeito e admiração por terem um Deus poderoso e amante de Seus escolhidos mesmo em cativeiro distante. LIÇÕES SUMAMENTE IMPORTANTES “Importantes são as lições a serem aprendidas da experiência dos jovens hebreus na planície de Dura. Nos dias atuais, muitos dos servos de Deus, embora inocentes de qualquer obra má, serão levados ao sofrimento, humilhação e abuso às mãos daqueles que, inspirados por Satanás, estão cheios de inveja e fanatismo religioso. A ira do homem será especialmente despertada contra os que santificam o sábado do quarto mandamento; e por fim um decreto universal denunciará a êstes como dignos de morte. “Os tempos de provação que estão diante do povo de Deus reclamam uma fé que não vacila. Seus filhos devem tornar manifesto que Êle é o único objeto do seu culto, e que nenhuma consideração, nem mesmo o risco da própria vida, pode induzí-los a fazer a mínima concessão a um culto falso. Para o coração leal, as ordenações de homens pecaminosos e finitos se tornam insignificantes ao lado da Palavra do eterno Deus. A verdade será obedecida, embora o resultado seja prisão, exílio ou morte. “Como nos dias de Sadraque, Mesaque e Abed-Nego, no período final da história da Terra o Senhor operará poderosamente em favor
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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 510, 511.

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dos que ficaram firmes pelo direito. Aquêle que andou com os hebreus valorosos na fornalha ardente estará com os Seus seguidores em qualquer lugar. Sua constante presença confortará e sustentará. Em meio do tempo de angústia — angústia como nunca houve desde que houve nação Seus escolhidos ficarão inamovíveis. Satanás com tôdas as hostes do mal não pode destruir o mais fraco dos santos de Deus. Anjos magníficos em poder os protegerão, e em favor dêles Jeová Se levantará como ‘‘Deus dos deuses”, capaz de salvar perfeitamente os que nÊle puseram a sua confiança”.1 Daqui a pouco mais e o ímpio levantará ousadamente mais uma vez a sua mão contra o justo, os servos fiéis de Deus. Todavia, o mundo verá mais uma vez o poderoso braço do Senhor em defesa de Seus amados escolhidos — para os proteger e os salvar. OS VITORIOSOS SÃO EXALTADOS VERSO 30: — “Então o rei fêz prosperar a Sadrach, Mesach e Abed-nego, na província de Babilônia”. “Êste derradeiro versículo de tôda uma história emocionante, revela a recompensa da fé invencível. Não só o rei fê-los retornar a seus altos encargos na província de Babilônia como fê-los prosperar ainda mais, ou lhes incumbira de responsabilidades mais sérias e mais honrosas. Aquilo que Satanás esperou conseguir, — afastar da côrte de Babilônia os embaixadores de Deus por uma mortes impiedosa — redundou em sua fragorosa derrota e maior exaltação de Deus na côrte de Nabucodonosor e em seu reino mundial. O rei convencera-se que em tais homens, que estavam prontos a morrer por sua fé em suas convicções religiosas e que seu próprio Deus descera em socorro de suas vidas em perigo, — podia elê confiar as mais altas funções sem qualquer preocupação, seguro de que êles saberiam desempenhá-las com a maior exatidão e justiça.

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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 512, 513.

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CAPÍTULO IV
O SEGURO RESULTADO DA PROCRASTINAÇÃO

Introdução Diante de nós está agora um capítulo cujo escritor por incrível que pareça — é o próprio rei de Babilônia, Nabucodonosor. Nêle trata o grande monarca do mundo de um decreto seu em o qual evidencia solenemente duas importantes coisas: 1) Ter êle passado pela mais drástica experiência possível às mãos de Deus, o “Rei do céu”, e 2) ter-se entregue incondicional e irrevogàvelmente ao Excelso Criador do universo — para amá-l’O, serví-1’O e adorá-1’O como Deus vivo e único verdadeiro. O decreto do rei Nabucodonosor é inédito por sua natureza. A História desconhece um outro relatório, tornado público pelo próprio autor, em que, como um grande homem, denuncie-se a si mesmo perante o mundo, repudie tèdiamente o seu orgulho e confesse ao mesmo tempo sua dramática humilhação resultante do desagrado do Deus Todo-poderoso. Referiu-se o insígne soberano a um inquietante sonho seu o qual considerou como presságio de juízo divino impendente sôbre sua pessoa. E, em seu público decreto, põe êle tudo ao vivo nas mais impressionantes côres. Quando o rei primeiramente desejou saber o significado de seu sonho — o segundo que Deus lhe dera — apelou imediatamente aos sábios de seu reino, os quais, como sempre, falharam novamente ante um problema de inspiração celestial, ficando mais uma vez comprovada a farsa da sabedoria daqueles pretensos sapientes. O soberano convocou então a Daniel, seu primeiro ministro e profeta de Deus, para que desse a sua opinião. E o servo de Deus, que prèviamente recebera dÊle a interpretação do sonho, salientou ao rei — antes de tudo e em harmonia com a primeira parte da revelação — a sua grandeza inigualável como rei do mundo; a sua majestade sem

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rival como soberano; e a sua brilhante glória real sem paralelo como soberano absoluto do orbe do qual tôda a humanidade dependia. Advertiu-o a seguir, Daniel, duma implacável sentença do céu, contra êle decretada em seu sonho, salientando que podia contorná-la ou evitá-la mudando a sua orgulhosa atitude e conduta em relação a Deus como Senhor e Soberano único e legítimo — em cujas mãos está o controle das nações, de todos os seres viventes e de tôdas as coisas. Mas, o irascível monarca não evitou a catástrofe; antes precipitou-a elevando ainda mais o seu coração já bastante exaltando, lançando-se no abismo. Em resumo, êste quarto capítulo de Daniel demonstra a pedagogia filosófica de Deus que é humilhar o mortal, às vêzes a duras provas — contra a Sua vontade, porém — como recurso único para exaltá-lo à dignidade dum real filho Seu. A menos, pois, que o homem voluntàriamente se humilhe ou seja humilhado pela misericórdia divina, não haverá para êle esperança de recuperação e redenção para o futuro e eterno reino de Cristo. O orgulho é o pecado que oferece menos chance de ser desfeito e perdoado. Só mesmo uma superabundante porção da graça de Deus e a especial interferência direta do céu poderão quebrar e vencer tão deprimente e fatal pecado, e trazer a vitória ao impotente pecador por êle algemado e incapaz de livrar-se por seus próprios esforços. O caso do rei Nabucodonosor, exigiu a imprescindível, intervenção de Deus de um modo “sui gêneris”, para quebrar o encanto da sua altivez e redimir aquêle rei que em verdade foi muito amado ao coração de Deus e de Seu Filho, o Salvador. Depois da dura — porém decisiva e salutar prova, o rei, então renovado e possuidor agora de um caráter nobre e santo segundo a vontade de Deus, desejou fazer notória a sua experiência, como em verdade o fez, a todos os seus súditos mundiais, com todos os impressionantes detalhes mormente a sua irrevogável decisão de entrega, pessoal ao Deus de Daniel, o Deus vivo e absoluto Senhor do universo. O MILAGRE DA PAZ MUNDIAL VERSO 1: “Nabucodonosor rei: a todos os povos, nações, e línguas, que moram em tôda a terra: Paz vos seja multiplicada”. 210

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DECRETOS INÉDITOS DE NABUCODONOSOR Nenhum outro monarca em tôda a História exerceu um domínio tão completo sôbre nações e povos como Nabucodonosor, rei de Babilônia. Foi êle o único soberano mundial que expediu os mais importantes decretos-leis de que temos notícia, a todos os povos da terra. Dois de seus famosos decretos, mencionados nos capítulos três e quatro do livro de Daniel, foram expedidos em honra de Deus — a Majestade do Céu, — o primeiro na pretenção de obrigar a seus súditos a respeitarem-n’O por ter liberto a três hebreus do poder das chamas ardentes e o segundo para comunicar a sua aceitação das diretrizes do Deus Criador e sua conversão a Êle — maravilha de imensurável poder da divina graça em dobrar um tão arrogante pecador. Cremos que êste potente milagre pode repetir-se infinitamente em favor dos homens sejam quais forem as suas condições moral e espiritual, sejam quais forem as côres e tamanhos dos seus pecados. Não há barreira que a graça de Deus não possa derribar, tortuosidades que não possa endireitar, disparidades na vida que não possa aplainar e nivelar. Êste segundo decreto do rei Nabucodonosor que estamos considerando, visou comunicar ao mundo inteiro a maravilhosa operação da graça celestial em sua vida e a miraculosa transformação verificada mesmo em seu trato para com seus governados de tôdas as nações. É desconhecido outro caso até ao presente em que a salvadora graça se demonstrasse tão pujante e poderosa. Mesmo o caso da conversão de Saulo de Tarso não foi tão impressionante como dêste do rei Nabucodonosor. “PAZ VOS SEJA MULTIPLICADA” Nenhum decreto do grande rei era assim introduzido anteriormente como monarca rígido, severo, guerreiro, sedento de dominação e que impunha outrora a sua vontade de ferro com ameaças e mortes. Milhares de milhares de cativos de inúmeros povos conquistados eram por êle transportados para o Oriente e tratados com indizível rigor. Êle estava sempre pronto a dar e tirar a vida a quem quer que fosse e como e quando bem lhe parecesse, o poderoso rei caldeu não era de muita conversa. Contrariá-lo alguém, significava expor-se a perigo fatal. No capítulo sete é êle figurado num leão com azas de águia, símbolo do poder, da crueldade, da ferocidade e da temeridade. Cremos que nenhum antigo rei a êle se equiparou em 211

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poder e majestade na terra. Também em arrogância, orgulho, desafio a todos e ao próprio céu nenhum outro o igualou. Em resumo, o referido monarca babilônio era a personificação da mais descabida agressividade, da mais tirânica impostura e do mais desqualificado despotismo opressor. Todavia, o segundo decreto do grande rei Nabucodonosor o revela completamente diferente. O apresenta como um caráter diametralmente oposto ao delineado acima. A paz multiplicada que o outrora celerado rei anela agora a seus incontáveis súditos vassalos e tributários, revela, fora de toda a dúvida, ter havido, em todos os setores de uma vida, uma completa reviravolta. Pois ninguém poderá jamais almejar essa abundante paz — essa paz multiplicada — a menos que um prodigioso fenômeno sobrenatural tenha ocorrido em sua vida. E não fôra mais nem menos a operação do imensurável poder da graça de Deus que nêle se manifestara e o mudara em outro homem, em outro rei, e o transformara em outro verdadeiro e honrado filho de Deus. Sim, uma gloriosa experiência, indubitavelmente sobrenatural, apresenta agora o rei Nabucodonosor como um homem essencialmente novo segundo o padrão do céu, uma vivida mostra humana do que significa ser um cidadão, um súdito da transformadora e salvadora graça do Deus Todo-poderoso. Na radical mudança verificada na inteira vida daquele antes ímpio rei pagão arrojado e arrogante, estampa-se a evidência daquela transformação que deve operar-se em todos quantos almejam a salvação e o reino de Deus. A “paz multiplicada” do ex-temível rei, enchera o mundo de admiração bem como de alívio, pois nada mais tinham agora a temer de suas leis e de seu despótico govêrno real. O mundo respirou então a maravilhosa paz que ardentemente almejara, — a paz multiplicada, a paz miraculosa — e encheu-se de indizível alegria na transformação de seu soberano em um digno rei do mundo sob a sapiente orientação do Deus do céu. REFLETOR DAS MARAVILHAS DE DEUS VERSO 2: — “Pareceu-me bem divulgar os milagres e maravilhas que o Altíssimo Deus tem feito para comigo”. O TRANSBORDAMENTO DUM CORAÇÃO CONVERTIDO Quando uma alma se converte dando incondicionalmente o seu coração ao Salvador, sua ilimitada satisfação e seu infindável gôzo são 212

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tais que transbordam e inundam a sociedade humana. Ela não se cansa jamais em dar vazão aos deleites da graça que a transformou e a redimiu. Quer que todos, o maior número possível, fiquem cientes de sua nova e gloriosa experiência na vida, de que encontrou-se com seu amante Redentor e propôs-se viver por Êle e para Êle o restante de seus dias. Quanto mais espande êste seu celestial contentamento, mais e mais se apercebe da crescente ventura a lhe saturar a vida. E, seu incontido anelo é, pois, extravasar a sua jubilosa felicidade sôbre as massas que a cercam de perto e de longe. Jamais se detém em anunciar a sua remissão e em apelar a outros para que a sigam conjuntamente pela nova e verdadeira estrada rumo ao reino do Senhor e em Sua aprasível companhia. Foi isto mesmo que manifestou o Rei Nabucodonosor ao converter-se a Deus. Jubiloso, qual um alucinado da graça, quer que até aos confins de seu imenso império, no inteiro orbe, chegue a feliz boa nova, a todos os seus súditos, do milagre celestial da radical mudança operada em sua vida. Incontinentemente à sua entrega ao Rei do Céu, ante incontáveis evidências de Seu amor por êle, toma a sua pena e redige aquilo que foi o seu maior, mais famoso e mais original decreto que jamais saiu de seu punho. Um decreto em honra do Altíssimo Deus por tê-lo salvo! Não era possível conter-se. Uma alma conscia de sua remissão não pode estagnar-se na ingratidão a seu Remissor. Num ímpeto quase sobreumano, esboça o grande rei sua inigualável experiência e envia-a por céleres correios aos quatro cantos da terra, ancioso por que atinja depressa mesmo os mais longínquos rincões do reino, na espectativa de que todos a recebam com júbilo e constitua uma inestimável bênção do Céu a todos os povos de seu vasto e grandioso domínio. O QUE FEZ NOTÓRIO O REI NABUCODONOSOR? O que o rei Nabucodonosor pretendeu divulgar êle mesmo o diz introduzindo o seu glorioso decreto: “Pareceu-me bem divulgar os milagres e maravilhas que o Altíssimo Deus tem feito para comigo”. Aí está. Há tantos que sempre estão dispostos a divulgar o que Deus fez por outrem, — os milagres evidentes da nova vida dos canibais das linhas do Oceano Pacífico; as maravilhas das transformações quasi incríveis lá no Continente Negro; as admiráveis conversões entre os pagãos em tôda a Ásia; enfim, as incontáveis metamorfoses operadas em todo o mundo pelo poder do evangelho de Cristo. Mas 213

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esquecem de divulgar “os milagres e as maravilhas que o Altíssimo Deus tem feito para” com êles! Isto é ingratidão, é deslealdade ao infinito amor! São crentes passivos, inertes, sem expressão, acobardados pelo temor e o respeito humano que êles próprios criaram. Não sentem o sagrado dever de “divulgar” as bênçãos da divina graça abundantemente recebidas do céu. Recusem-se a pregar o maior dos sermões — “divulgar” a salvação recebida. Salvar-se-ão, porventura, tais espécies de cristãos que se envergonham de testemunhar de seu Senhor e Salvador? Serão êles, em verdade, cristãos, vivendo no anonimato em relação a Cristo? O rei Nabucodonosor não agiu assim. Bradou êle bem alto, à terra tôda, — o seu eloquente e destemeroso testemunho de fiel gratidão a seu Senhor e Salvador. Quais foram os “sinais e maravilhas” operados por Deus em seu favor e que a todos, diz êle, “pareceu bem divulgar”? Os ditos “sinais e maravilhas” dividem-se em quatro sessões distintas: 1) Os quatro maravilhosos jovens que Deus enviara à sua côrte para ajudarem-no a governar. 2) As revelações pessoais que Deus lhe concedeu em sonhos. 3) A manifestação evidente do Todo-poderoso na fornalha ardente. 4) A operação da poderosa graça de Deus em sua vida transformando-o em um verdadeiro servo de Deus e súdito honrado de Seu reino eterno. Tudo isto foi feito para o bem do rei Nabucodonosor e constitue “os milagres e maravilhas”, da compaixão de Deus por êle, que, por fim, correspondem plenamente. Porém, dentro destas quatro sessões referidas, um caudal, de “sinais e maravilhas” admirou, convenceu e converteu o grande soberano e fêlo cair genuflexo e emocinado aos pés, do Deus do céu — seu Salvador. O GRANDIOSO PODER DE DEUS VERSO 3: — “Quão grandes são os Seus sinais, e quão poderosas as Suas maravilhas! O seu reino é um reino sempiterno, e o Seu domínio de geração em geração”. O rei Nabucodonosor, depois de recusar tantas claras provas da supremacia do Deus de Israel sôbre todos os deuses cridos e adorados como tais, embora deuses não fossem, por fim O reconhece e O aceita como o Deus-vivo e único supremo Soberano da eternidade. Aceita seus “milagres e maravilhas” como eloqüentes testemunhos da estabilidade de Seu reino imperecível. Reconhece, com suas declarações, quão incapaz era êle como 214

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monarca e quão instável era a sua realeza terrena. Em face das irrecusáveis evidências da soberania de Deus sobre o govêrno dos homens, como por êle comprovadas em seu reino e sua própria pessoa, resolve, ainda em tempo, curvar-se ante Seu poder bem como dÊle fazer depender o seu domínio enquanto no trono da terra. Reconhecessem hoje, os governantes das nações, o poder de Deus e Sua supremacia até sôbre seus domínios humanos na terra; humilhassem-se êles ante a absoluta Eminência do Eterno; fizessem depender de Sua sapiência divina a marcha de suas funções governamentais no mundo, — então seriam grandemente abençoados; a justiça seria a vestidura de seus atos como soberanos; haveria transbordante paz perpétua e mundial; e teriam fim as injustiças e as explorações descabidas e desumanas raramente por êles reprimidas e muitas vêzes permitidas sôbre a humanidade em aflição. O PERIGO DA CONFIANÇA PRÓPRIA VERSO 4: — “Eu, Nabucodonosor, estava sossegado em minha casa, e florescentes no meu palácio”. Nada mais perigoso para o homem do que quando sossegado e florescente em palácio, domina na terra custodiado por uma política opressiva e por um exército de ferro. Êste era o caso do outrora poderoso rei do mundo, Nabucodonosor. Sua tranquilidade e florescimento governamentais não eram de admirar. Através da fôrça e da conquista armada puzera a terra sob seus pés, sendo temido como senhor da vida e da morte. Apoiado, pois, pela fôrça das armas e conservando seus súditos em inexorável sujeição, estava pronto para reprimir com severidade e castigo os conquistados povos que se atrevessem a tentar libertarem-se de seu férreo jugo. As grandes conquistas de Nabucodonosor o inspiraram na vaidade de sentir-se seguro em si mesmo. Não, parecia, portanto, que viesse a ocorrer algo que perturbasse a sua completa tranquilidade. O que poderia ameaçá-lo, se todos os seus inimigos estavam inexoravelmente vencidos e nenhuma nuvem hostil deparava-se-lhe no horizonte? Seus próprios pensamentos de poder e visões de glória asseguravam-lhe que o futuro não lhe poderia ser adverso e perturbador. Cria ter alcançado o alvo de suas ambições e nada e ninguém poderia desassossegá-lo. Entretanto, o famoso monarca jazia à beira do abismo. Seu enganador sossêgo e sua pretenção de segurança de todos os lados, 215

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eram uma farça de seus ilusórios pensamentos. Nunca esteve êle em maior perigo e nunca lhe foram tão graves as circunstâncias, do que quando, tudo lhe parecia indicar um futuro ainda mais brilhante e promissor. Todavia, em condições de segurança carnal, até de Deus esquecera-se o rei Nabucodonosor, posto que de Seu supremo poder lhe fossem dadas tantas e convincentes provas. Em seu orgulho perdera de vista as lições que Deus lhe dera de que o poder exercido por todo o governante da terra é concedido pelo céu e que o êxito e aprovação de Deus dependem do use dêsse poder. Cegado, porém, pelo brilho efêmero da glória mundana, esquecera que o sossêgo e o florescimento de que parecia desfrutar, eram instáveis e inseguros. Um rei infinitamente maior do que êle vigiava seus passos. No momento em que tudo parecia segurança e bonança imperturbáveis, o infinito Soberano intervem e lhe mostra quão errado é assegurar-se, tranquilizar-se e florescer à custa do despotismo e de impiedoso jugo sôbre seus governados. Êle mesmo conta neste capítulo o que lhe sucedeu quando embalado na pretença segurança que lhe era mais um laço do que uma realidade. UM SONHO CONDENATÓRIO VERSO 5: — “Tive um sonho, que me espantou; e as imaginações na minha cama e as visões da minha cabeça me perturbaram”. Em pleno sossêgo e florescimento, no pináculo da glória mundana, o espanto é a perturbação assaltaram o rei de Babilônia inesperadamente. Todavia, as revelações de Deus não são dadas para assombrar e perturbar os homens, mas para alertá-los e levá-los a reconhecer situações e circunstâncias perigosas em que se metem e proporcionar-lhes um meio de escape. Duas vêzes havia o rei de Babilônia reconhecido o Deus de Israel como supremo no universo — a primeira vez por ocasião da interpretação de seu primeiro sonho da estátua dos Impérios e a segunda vez no Campo de Dura no livramento dos três hebreus. O rei de Babilônia chegara a atribuir a glória de seu reino e o esplendor de seu reinado ao favor de Jeová, o Deus de Israel. A despeito, porém, de todas as evidências de que seu reinado e sua própria vida estavam nas mãos de Deus e de que seria fatal para êle dar costas ao Rei do universo, não obstante foi levado em seu orgulho a afastar-se da luz recebida e deixar definitivamente de lado os conselhos de Daniel que lhe falara em nome de Deus, enveredando novamente pelo caminho da idolatria pagã, colocando-se à beira do precipício. Mas, em Sua misericórdia deu-lhe Deus outro 216

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sonho, para adverti-lo do perigo em que se encontrava, e do engano a que tinha sido levado para sua ruína. Entretanto, esta última advertência de Deus que visou recuperá-lo e restaurá-lo, foi por êle loucamente regeitada e desdenhada. NOVA DERROTA DOS SÁBIOS DE BABILÔNIA VERSOS 6-7: — “Por mim pois se fez um decreto, pelo qual fossem introduzidos à minha presença todos os sábios de Babilônia, para que me fizessem saber a interpretação do sonho. Então entraram os magos, os astrólogos, os caldeus, e os adivinhadores, e eu contei o sonho diante dêles; mas não me fizeram saber a sua interpretação”. Grandemente perturbado pelo sonho, que era sem dúvida um presságio de adversidade, recorreu o rei a seus sábios para que o desvendassem. Eram êles os mesmos sábios analfabetos confessos em matéria de inspiração celestial. No segundo ano de seu reinado, foram incapazes de satisfazê-lo, contando-lhes e interpretando-lhe o sonho da imagem profética mencionada no capítulo dois. No que respeita ao primeiro sonho do rei, rogaram-lhe que lhes contasse o sonho e dariam a interpretação. Porém, a despeito de que êste segundo sonho lhes fôra explícito, nenhum dêles o poude interpretar. Assim, nesta nova experiência do monarca são mais uma vez derrotados e com isto mais uma vez confessaram que a sabedoria que pretendiam nada mais era que franca impostura e diabólico embuste, meios pelos quais Satanás procurava conservar o rei e o reino afastados da sabedoria de Deus. O mundo todo, pelo decreto real, tomou conhecimento de que aqueles pretensos sapientes nada mais eram, na verdade, do que hábeis enganadores. DANIEL — NOVAMENTE O HOMEM VERSOS 8-9: — “Mas por fim entrou na minha presença Daniel, cujo nome é Belteshazzar, segundo o nome do meu deus, e no qual há o espírito dos deuses santos: e eu contei o o sonho diante dêle: Beltshazzar, príncipe dos magos, eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum segredo te é difícil; dize-me as visões do meu sonho que tive é a sua interpretação”. Como no caso do primeiro sonho, Daniel é mais uma vez o último a comparecer diante do rei para satisfazê-lo. Outra vez urgia que a falsa sabedoria e falsa ciência fossem primeiramente 217

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desmascaradas para maior realce da sabedoria e ciência divinas. Por mais que o rei reconhecesse em Daniel o “príncipe dos magos”, e em quem havia o “espírito dos deuses santos”, ao qual “nenhum segrêdo” era “difícil”, contudo não notou a sua providência ausência em meio aos sábios fracassados. Só depois da evidente derrota daqueles embusteiros o monarca dêle se lembra e o convoca às pressas. Tendo então diante de si Daniel, introduz o rei uma exaltação à sua pessoa como grande sábio. Mas o servo de Deus desprezou essa bajulação. Não mancharia a sua reputação. Não obstante, “uma vez mais nesta nação idolatra devia ser dado testemunho do fato de que unicamente aquêles que amam e temem a Deus podem compreender os mistérios do reino do Céu. O rei em sua perplexidade mandou em busca de seu servo Daniel, homem estimado por sua integridade e constância e por sua inigualada sabedoria”.1 E deveras o perplexo monarca não se decepcionou com a comparência de Daniel em palácio naquela hora de aflição e angustiosa espectativa. Recebeu do embaixador de Deus aquilo que anelava. UM SONHO IMPRESSIONANTE VERSO 10-18: — “Eram assim as visões da minha cabeça, na minha cama: Eu estava olhando, e vi uma árvore no meio da terra, cuja altura era grande; crescia esta árvore, se fazia forte, de maneira que a sua altura chegava até ao Céu; e foi vista até aos confins da terra. A sua folhagem era formosa, e o seu fruto abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e tôda a carne se mantinha dela. Estava vendo isto nas visões da minha cabeça, na minha cama; e eis que um vigia, um santo, descia do céu, clamando fortemente, e dizendo assim: Derribai a árvore, e cortai-lhe os ramos, sacudi as suas fôlhas, espalhai o seu fruto; afugentem-se os animais de debaixo dela, e as aves dos seus ramos. Mas o tronco com as suas raízes deixai na terra, e com cadeia de ferro e de bronze, na herva do campo; e seja molhado do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais na grama da terra. Seja mudado o seu coração, para que não seja mais coração de homem, e seja-lhe dado coração de animal; e passem sôbre êle sete tempos. Esta sentença é por decreto dos vigiadores, e esta ordem por mandado dos santos; a fim de que
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conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sôbre os reinos dos homens; e os dá a quem quer, e até ao mais baixo dos homens constitue sobre êles. Isto em sonho eu, rei Nabucodonosor vi: Tu, pois, Belteshazzar, dize a interpretação: todos os sábios do meu reino não puderam fazer-me saber a interpretação, mas tú podes: pois há em ti o espírio dos deuses santos”. Aí está uma maravilhosa revelação em sonho como nenhum profeta legítimo jamais teve igual ou com tanta imponência e grandeza sôbre quaisquer assuntos. Vemos como em casos especiais Deus usou até mesmo ímpios para tornar conhecidos os seus segrêdos e desígnios para o bem dêles próprios. O mesmo aconteceu à Faraó nos dias de José, no Egito, e também a outros em tempos e circunstâncias diversas. Mas isto não implica que ditos ímpios fossem profetas de Deus, — nem mesmo nos momentos da revelação, — ou que ostentassem o Dom de Profecia. Foi para mostrar o seu propósito em relação a Seu povo e a propagação de Sua mensagem de misericórdia e redenção ao mundo em tempos difíceis, que a Providência agiu de modo a fazer-se conhecer à humanidade através de potentados terrestres como único Deus verdadeiro, bem como demonstrar Seu inefável amor por todos os Seus filhos extraviados e dÊle separados, No caso de Nabucodonosor, quão fácil foi para Deus fazer-se conhecer no mundo de então por meio de seus decretos leis imperiais! Ao contar o sonho a Daniel, o rei fez-lhe um dramático apêlo para que lhe fizesse conhecida a interpretação, não esquecendo de referir a incompetência de seus ignorantes sábios em satisfazê-lo. Seu apêlo ao profeta conclue com a afirmativa de que êle era capaz de dizer-lhe a verdade sôbre a matéria, “pois há em ti”, dissera-lhe, “o espírito dos deuses santos”. DANIEL EM PERPLEXIDADE VERSO 19: — “Então Daniel, cujo nome era Belteshazzar, esteve atônito quasi uma hora, e os seus pensamentos o turbavam; falou pois o rei, e disse: Belteshazzar, não te espante o sonho, nem a sua interpretação. “Respondeu Belteshazzar, e disse: Senhor meu: o sonho seja contra os que te têem ódio, e a sua interpretação para os teus inimigos”. UMA MENSAGEM DE CONDENAÇÃO E JUÍZO Enquanto os sábios de Nabucodonosor se demonstraram ineficazes para dar-lhe a interpretação do misterioso sonho, Daniel a 219

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recebia em visão de Deus para transmití-la ao rei ao ser convocado por êle. Em palácio o profeta ouviu atentamente dos lábios do monarca a sua exposição do sonho, constatando a exatidão da revelação como a êle revelada por Deus. Depois da narrativa do rei Daniel “esteve atônito quase por uma hora”. O vocábulo “hora”, do aramaico “sha’ali”, pode significar um longo período como um breve momento. Não era fácil para Daniel, embora comissionado por Deus, interpretar ao rei uma mensagem de tão severa ameaça de juízo. Além disso Daniel não só era íntimo amigo do rei como também seu honrado primeiro ministro. Enquanto em silêncio, meditava o mensageiro do céu em como melhor informar da tremenda mensagem de modo a ser recebida com humildade pelo já bastante angustiado soberano. Todavia “o profeta compreendeu que sôbre êle tinha Deus colocado o solene dever de revelar a Nabucodonosor o juízo que estava para lhe sobrevir em virtude de seu orgulho e arrogância. Daniel precisava interpretar o sonho em linguagem que o rei pudesse compreender; e embora o seu terrível conteúdo o tivesse feito hesitar em muda estupefação, êle tinha que dizer a verdade, fossem quais fossem as consequências para si”.1 Percebendo Nabucodonosor a perplexidade do profeta, o anima a dar-lhe a interpretação não importando o significado e o juízo que pudesse ela implicar. Alentado, pois, pelo próprio combalido monarca, iniciou Daniel a interpretação em categórica e enfática linguagem, posto que respeitosamente. Como introdução manifesta o anelo de que o sonho fôsse contra os que ao rei odiavam e a sua interpretação contra os seus inimigos. Se não fôra ali estar para cumprir o seu dever, segundo lhe ordenara um Rei infinitamente maior, certamente não teria comparecido em presença do rei de Babilônia. Entretanto, é êste um dos deveres dos profetas de Deus. Não só são êles portadores de mensagem de aprovação, de conselhos e de bênçãos, como também de censura, de juízo e de condenação. Assim desincumbiu-se Daniel de sua árdua missão, ainda que tivesse de interpretar uma drástica mensagem, uma sentença inapelável da suprema côrte do universo. O DESTINO DO REI EM SUAS PRÓPRIAS MÃOS Embora a sentença fôsse inexorável, o faltoso rei podia atenuá-la e até evitá-la, — uma vez humilhando-se ante o Altíssimo Juiz,
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reconhecendo-se culpado diante dÊle e com Êle reatando relações íntimas, amistosas e respeitosas. Em outras palavras, estava na alçada do rei comutar a pena em nada, por uma entrega de seu coração e vida ao Magistrado supremo do universo. O destino do homem é êle mesmo quem o faz, quem o escolhe diante de Deus. É êle mesmo quem se condena ou se absolve ante o Augusto Tribunal do Eterno. Tudo depende de sua atitude e escolha. O impoluto Juiz não tem nenhum interêsse em condená-lo, deixa com êle a suprema escolha — a vida ou a morte, sim a solene escolha fica unicamente em suas mãos. O que êle proferir ou decidir, o Supremo Juiz concederá. Seu conselho, porém, é que êle escolha a vida pela incondicional e voluntária obediência justa aos reclamos de Sua Majestade e Onipotência, uma vez que vive nos Seus domínios, desfruta de Seus bens e dÊle depende até da própria vida. Sim, Deus não força o homem, seja quem êle fôr, a serví-lO contra a sua vontade; pois não aceita dêle senão uma obediência sincera, reconhecida como seu dever em gratidão por Suas inúmeras bênçãos. NABUCODONOSOR — A ÁRVORE MUNDIAL VERSOS 20-22: — “A árvore que viste, que cresceu, e se fez forte, cuja altura chegava até ao céu, e que foi vista por tôda a terra; cujas folhas eram formosas, e o seu fruto abundante, e em que para todos havia mantimento; debaixo da qual moravam os animais do campo, e em cujos ramos habitavam as aves do céu; és tú, ó rei, que cresceste, e te fizeste forte; a tua grandeza cresceu, e chegou até ao céu, e o teu domínio até à extremidade da terra”. Quando o profeta interpretou a estátua do primeiro sonho do rei Nabucodonosor, disse-lhe solenemente: “Tú és a cabeça de ouro”. Agora, na interpretação da árvore, do segundo sonho, Daniel, com maior solenidade ainda, declara: “A árvore que vistes,... és tú, ó rei”. Êstes dois símbolos da inspiração atestam quão grande fôra aquêle monarca do mundo antigo. A própria revelação declara: “... a tua grandeza cresceu, e chegou até ao céu”. Tão altaneira era a sua glória real, que o inspirado sonho o simbolizou numa primorosa e gigantesca árvore que abrangia a terra inteira e se elevava até ao céu — e da qual todos os viventes se mantinham. Não há notícia na História de que um outro potentado da terra o tenha sobrepujado como senhor das nações. Embora o reinado de Nabucodonosor fôsse um reinado em que os povos, dado o seu poder, não vissem nenhuma chance de libertação e 221

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de independência política, contudo é certo, também, que estavam bem guardados sob sua proteção e que não foram espoliados como o fizeram os seus predecessores e sucessores de impérios outros de tôda a terra, sem dúvida os dois sonhos, principalmente o segundo, provaram que os seus súditos eram por êle bem protegidos e bem cuidados, ainda que tivessem de lhe pagar certa soma anual de tributos como vassalos seus. Assim, três coisas assinalaram a grandeza do reinado do rei Nabucodonosor ao ponto do céu tê-lo em grande conta: 1) O exercício do seu poder sôbre a totalidade do mundo de então, — conforme o versículo vinte e dois dêste capítulo e o versículo trinta e dois do capítulo dois; 2) a absoluta proteção dispensada a seus súditos da terra; 3) e o ter sido usado por Deus como seu “servo” para exercer domínio e juízo sôbre os povos recalcitrantes em seu dever conhecido para com o Sumo-potentado do mundo — Deus. Nenhum outro monarca do mundo antigo ou moderno foi reconhecido pelo céu tão grande e tão poderoso como o rei Nabucodonosor de Babilônia. Alguns grandes reis antigos aparecem figurados nas profecias; mas elas não dizem deles o que dizem dêste famoso rei. O JUÍZO DIVINO EM PERSPECTIVA VERSOS 23-26: — “E quanto ao que viu o rei, um vigia, um santo, que descia do céu, e que dizia: Cortai a árvore, e destruí-a, mas o tronco com as suas raízes deixai na terra, e com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; e seja molhado do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais do campo, até que passem sôbre êle sete tempos; esta é a interpretação, ó rei; e êste é o decreto do Altíssimo, que virá sôbre o rei, meu senhor: Serás tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e te farão comer erva como os bois, e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti: até que conheças que o Altíssimo tem domínio sôbre o reino dos homens, e o dá a quem quer. E quanto ao que foi dito, que deixassem o tronco com as raízes da árvore, o teu reino voltará para ti, depois que tiveres conhecido que o céu reina”. UMA MESCLA DE JUÍZO E DE GRAÇA A frondosa árvore abastecedora de tôda a terra seria espetacularmente derribada e destruída Nada mais estranho para ser 222

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pensado da imensa grandeza e inigualável poder terrenos como os do rei Nabucodonosor. Êle próprio considerou inaceitável e irrealizável a tremenda sentença imposta em ameaça pelo Todo-poderoso e não lhe deu crédito. E, até ao presente século, ainda que os irrefutáveis fatos atestem a sua execução, é ela tida por muitos como irrisória e lendária. Não obstante, a infalível sentença seria cumprida — como o foi — inexoràvelmente, a menos que aquêle orgulhoso soberano mudasse suas atitudes para com Deus, o Absoluto Governador na Terra e no Céu. Mas a concretização ou não da sentença, ficaria sujeita à sua decisão — de continuar sua recusa e desrespeito ao Soberano celestial ou de submeter-se em obediência e respeito incondicionais para com Êle. É notável o fato de que o tronco da árvore seria deixado na terra! Ficaria desgalhado, sem expressão, sem o esplendor da gloriosa ramagem que antes sustinha. Mas seria protegido “com cadeias de ferro e de bronze”, expressão de que a graça de Deus acompanharia e protegaria o réu nêle implicado como símbolo, enquanto no cumprimento da sentença uma vez por ela atingido. A mensagem não só era precursora do juízo mas também de graça restauradora após possível arrependimento. Isto revela a grandeza de Deus que às vêzes é obrigado a ferir o pecador para poder restaurar-lhe a saúde moral e espiritual. Tão gravíssima era a condição de pecador do rei Nabucodonosor, que seriam necessários nada menos do que “sete tempos”, aliás, sete anos, para quebrar-lhe o orgulho e humilhá-lo.1 A SENTENÇA DO DECRETO DA ONIPOTÊNCIA O monarca cumpriria a sentença condenatória junto aos brutos e em dito período parecer-se-ía com um dêles. Mas, quem creria isto se lhe fôsse contado antes de ocorrer? Uma imensa glória ser reduzida à mais vil expressão, ser jogada em meio aos irracionais incompreensíveis do campo, não era para aquela geração crêr antes de tornar-se uma realidade e de ver com os próprios olhos. Jamais mesmo aquêle rei creu antes de sofrer a estranha e terrível penalidade. Até pode ser que o réu, antes de cumprir a pena, contasse o sonho e sua interpretação a muitos — a seus familiares, a seus grandes — e todos, à uma, tenham procurado tirar-lhe da mente qualquer preocupação

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quanto a verificar-se aquêle vaticínio do profeta. Não seria possível que êle descesse de tão fantástico estado de supremacia e glória para uma tão abjeta e indigna humilhação. E os fatos atestam que o rei zombou daquela tão séria advertência de Deus revelada em Sua misericórdia para com êle. E, ainda que o Altíssimo Deus esperasse algum tempo por êle, dando-lhe a oportunidade de rever a sua perigosa condição de recalcitrante, de repelente exaltação e de humilhar-se diante de Si, êle não apropriou-se desta graça divina, antes decidiu firmemente opôr uma barreira ao sonho, à sua interpretação e mesmo ao conselho do profeta. E o juízo evidente e iminente indicado no sonho caiu inexorável sôbre êle durante sete anos. O Eterno Juiz poderia reduzí-lo àquilo que lhe ditava o sonho e a interpretação, sem necessitar notificá-lo do perigo em que incorria e que o ameaçava seriamente; mas, não o fêz sem prévio aviso, para dar-lhe a oportunidade de arrependimento e reabilitação imediatos. Embora a sentença judicial proviesse dum “decreto do Altíssimo”, e portanto inalterável e imutável, contudo, êle, somente êle e ninguém mais que êle, como acusado réu, poderia desviá-la e anulá-la, dependendo tudo, como dissemos, — de mudar o seu modo de encarar o poder e a soberania absolutos do Deus Todo-poderoso. Ninguém jamais passou por uma experiência tão vexatória como o rei Nabucodonosor. Mas foi ela o recurso extremo de Deus para salvá-lo de perecer no pecado. Todo o remédio antes aplicado pelo grande Médico fôra em vão. O doente carecia duma medicação mais forte. Ser afastado do trono, da grande côrte, do palácio real, dos influentes vassalos, do próprio lar, dos homens, — de todos enfim — e passar a “comer erva como os bois”, ser “molhado do orvalho do céu” durante sete longos anos, não era isto mais do que a pedagogia de Deus aplicada ao seu caso para erguê-lo ao estado de homem verdadeiro e redimí-lo. No final, porém daquele tempo de dramático juízo e dura prova, o reino voltaria novamente ao rei Nabucodonosor com mais pujança e glória que antes, mas dependendo sempre de seu reconhecimento de que a sabedoria pertence ao Céu, e que os soberanos da terra estão, em todo o sentido de seus mandatos governamentais sujeitos ao verdadeiro Soberano — o Altíssimo Deus. Vimos que o tronco da árvore emblemática ficaria na terra solitário — para brotar ou morrer — e o rei Nabucodonosor, a realidade da figura, era quem deliberaria qual das duas coisas aconteceria. A inspiração, porém, previra a sua feliz decisão findo 224

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aquêle período de sentença. O tronco, na proteção simbólica de cadeias de “ferro e de bronza”, indica a proteção de Deus ao rei enquanto no cumprimento da sentença, para que nenhum possível usurpador o assassinasse e ocupasse o trono. Sua restauração foi assim prevista e portanto ninguém devia ocupar o trono enquanto estivesse cumprindo a pena. UMA PALAVRA AOS GOVERNANTES DO SÉCULO XX Ai está, senhores soberanos terrestres e governantes das nações do século XX. A grande advertência de Deus, não só àquele antigo rei de Babilônia, como também a vós que hoje exerceis o poder sôbre os povos do globo. Lede a sua experiência no capítulo quatro do livro de Daniel, o profeta, e entregai-vos a Deus antes que também possa ser vossa a grave e amarga experiência que abalou aquêle outrora senhor da terra. Lembrai-vos de que as nações são justas em proporção à fidelidade com que os seus governantes cumprem o propósito de Deus para com elas. O sucesso delas depende da aceitação e prática do poder conferido por Deus a seus líderes. A submissão de seus dirigentes aos divinos princípios do céu, são sempre a medida da prosperidade e justiça dos povos por êles governados. O destino das nacionalidades é determinado pela escolha de seus guias com respeito aos reclamos do Deus do céu e Criador do mundo. Deus concede sabedoria e poder às nações que permanecem fiéis a êle; mas abandona aquelas que atribuem sua glória a humanas conquistas e atuam independente de Sua vontade. Os lideres do mundo que recusem a se submeter ao govêrno de Deus, são inteiramente inaptos para governar as nações da terra. Quando através delas as nações tomam-se um orgulho e uma opressão, a queda de tais podêres, por culpa dêles próprios, é inevitável. Haja vistas para numerosas nações antigas, algumas das quais poderosas e até grandes impérios como o Egito, Assíria, Babilônia, Medo-Persa, Grécia, Roma, e outros menos potentes mas apreciáveis em fôrça e poder, que há muito desapareceram pelo juízo de Deus e por culpa de seus governantes. “A cada nação que tem subido ao cenário da atividade, tem sido permitido que ocupasse seu lugar na terra, para que se pudesse ver se ela cumpriria o propósito ‘do Vigia e Santo’. A profecia delineou o levantamento e queda dos grandes impérios mundiais — Babilônia, Medo-Persa, Grécia e Roma. Com cada um dêstes, assim como com 225

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nações de menos poder, tem-se repetido a história. Cada qual teve seu período de prova, e cada qual fracassou; esmaeceu sua glória, passouse-lhe o poder e o lugar foi ocupado por uma outra nação. Conquanto as nações rejeitassem os princípios de Deus, e com esta rejeição operassem a sua própria ruína, todavia era manifesto que o predominante propósito divino estava agindo através de todos os seus movimentos”.1 Fato idêntico sucede com as nações do presente na pessoa de seus dirigentes. Por sua escolha estão decidindo o seu próprio destino, e em rejeitar os princípios do céu cavam a sua inevitável ruína. O complicado jôgo dos eventos humanos está sob as vistas daquele que é o Verdadeiro Dominador e Único Senhor do mundo.2 Em meio às disputas e os temores das nações, Aquêle que se assenta entre os querubins ainda norteia os negócios da terra e tudo controla para cumprimento de Seus propósitos, ainda que os poderosos das nações desconheçam isto ou se desinteressem por Sua suprema liderança. A experiência do rei Nabucodonosor foi e é uma amostra de que Deus é o legítimo Senhor da terra e de que Êle irá nela intervir para pô-la em ordem e liquidar as contas com os que querem liderar os povos e são desqualificados para o fazerem. A situação de caos mundial, é a evidência irrecusável de que o govêrno do homem é um govêrno falido e Deus precisa, como seguramente o fará, intervir para libertar seus filhos do despotismo de soberanos opressores que não temem a Deus e não têm nenhum amor a seus súditos. O GRANDE CONSELHO DE DANIEL VERSO 27: — “Portanto, ó rei, aceita o meu conselho, e desfaz os teus pecados pela justiça, e as tuas iniquidades usando de misericórdia com os pobres, se se prolongar a tua tranquilidade”. O PECADO E A JUSTIÇA O conselho dum profeta! Conselho, portanto, inspirado. Raros, mesmo cristãos, estão prontos a aceitar os conselhos dos profetas de Deus, conselhos absolutamente para o bem dos que os recebem. Aceitassem, pelo menos metade dos homens, êstes conselhos, quão
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Educação, E. G. White, págs. 176, 177. Salmos 62:11; S. Mateus 28:11.

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diferente seria a sociedade humana! Aceitassem-nos todos os homens, a terra se converteria então no antigo Éden de paz e amor legítimos e permanentes. Porém, quem está realmente disposto, hoje, a aceitar os inspirados conselhos do Senhor por Seus antigos e santos profetas que ainda falam por suas velhas porém sempre novas mensagens? A salvaguarda do rei Nabucodonosor estava em aceitar o conselho de Daniel, o profeta do Senhor. Nada mais nem menos que isto poderia livrá-lo do independente juízo. Em aceitá-lo e seguí-lo rigorosamente, evitaria a terrível catástrofe de o ser, como potentado da terra, reconhecido como um atingido, ferido pelo dedo do desagrado de Deus. O conselho de Daniel a fim de ser obstado o mal à vista era a renúncia do pecado e da iniquidade. O servo de Deus fôra bem explícito: “Desfaze os teus pecados... e as tuas iniquidades”. Pôsto que as duas maldades se enquadram num só molde ou sejam uma e a mesma coisa — pecado — parece fazer o profeta uma distinção entre “pecado” e “iniquidade”. Parece ser claro que “os teus pecados” eram os seus próprios — independente de que êles envolvessem quaisquer prejuízos ao próximo, — os pecados alusivos ao seu orgulho e soberba como soberano mundial, sua altivez em relação ao céu e tôda a concupiscência da carne e dos olhos. Êstes eram “os teus pecados”, só dêle, particularmente dêle, sem afetar séria e prejudicialmente a outrem, ainda que altamente ofensivos a Deus. Esta classe de pecados só poderá ser estirpada, desfeita, dissera Daniel, — pela justiça. A virtude da justiça é a principal das virtudes que ornam a corôa dum verdadeiro governante em contraposição com as injustiças dos déspotas, opressores e tiranos. E, agora perguntamos: O que é a justiça, a justiça que desfaz, que extirpa o pecado? Naturalmente nenhuma alusão fêz o profeta à justiça humana que não é nenhuma justiça. Justiça só há uma: a divina justiça. Só através desta justiça é possível desfazer o pecado. Desta justiça única devia o rei Nabucodonosor se apoderar para neutralizar os seus pecados e afastar o cataclisma pessoal que ràpidamente se aproximava. Como, porém, é possível ao homem apossar-se da justiça divina? Para a consecussão da justiça divina há um só caminho a seguir: receber o Autor dessa justiça — Cristo, como Salvador pessoal e vivê1’O na vida. E, como é que o pecador pode receber a Cristo na vida e vivê-l’O? Isto só é possível aceitando incondicionalmente o plano da salvação de Deus nÊle centralizado e como maravilhosamente 227

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explanado nas Sagradas Escrituras dos antigos profetas e apóstolos que nô-lo expuseram por Sua inspiração. Seguindo à risca o divino plano, norteando por êle o viver constante, — significa isto ter recebido a Cristo, significa vivê-1’O, significa praticar a Sua celestial justiça, a Sua divina justiça como Salvador dos homens. Agora, com Cristo no trono da vida, o pecado não mais terá domínio sôbre o pecador, pois êle vive, com a presença íntima de seu Redentor, a Sua própria justiça. Em virtude desta sublime verdade, o pecado passado é perdoado, é desfeito, não mais existirá nem será mais praticado pelo homem perdoado e restaurado e nem mesmo lembrado por Deus que o perdoou. Era isto que o rei Nabucodonosor devia fazer para eliminar incontinentemente o pecado e afastar o flagelo que rápido se avizinhava sôbre sua altiva pessoa real. E é isto mesmo que todos os indivíduos devem proceder para desfazerem também os seus pecados, antes que o juízo anunciado desabe inexorável sôbre suas cabeças. O PECADO E A MISERICÓRDIA O profeta apresenta ao rei uma outra classe de pecado que o punha em risco de vida — a iniquidade. Segundo a exposição de Daniel, está, espécie de pecado, que também envolvia o monarca, afetava diretamente os pobres e os excluía da sua misericórdia. O pecado que neutraliza a misericórdia para com os pobres e suas prementes necessidades, é um dos mais graves e seguramente os seus desumanos obradores se colocam em estado ofensivo a Deus. Pecados desta qualidade manifestos contra os desafortunados pobres, não só constituem manifesta ausência de amor para com êles como muito mais ainda para com Deus. O amor a Deus é refletido no amor ao próximo. Mas, se êste não é amado por obras de verdade, muito menos é Deus amado. Escrevera São João, o apóstolo do amor: “E dÊle temos êste mandamento: que quem ama a Deus, ama também a seu irmão”.1 Aqui está a medida do amor a Deus — o amor a nosso irmão. Dissera Jesus que o mandamento do amor ao próximo é igual ao mandamento do amor a Deus.2 A falta de amor aos pobres era um dos pontos-chaves das falhas do rei de Babilônia que punha em cheque as suas relações para com Deus. Segundo o conselho do profeta, devia êle pôr em ordem êste
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I S. João 4:21. S. Mateus 22:37-39.

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ponto fraco antes que sôbre êle caísse a calamidade anunciada. Pelo sonho da bela árvore foi mostrado ao rei que, como figura nacional absoluta do reino que era êle, todos os seus súditos dêle dependiam e que êle havia, até certo ponto, provido tôdas as suas solicitudes no que respeita à manutenção da vida material, não esquecendo os pobres. Porém, agora, é êle aqui fortemente acusado, e sua falta era tão grande ao ponto de ser um sério entrave em suas relações com o verdadeiro Senhor da terra e mesmo de seu reino — Deus. Devia conceber que os seus súditos todos, sem exceção dos pobres, eram filhos de Deus e que êle, como governador da terra em Seu nome, ali estava para cuidá-los e bem tratá-los a todos, especialmente os pobres — provendo-lhes meios para que pudessem trabalhar e ganhar o suficiente para viverem razoávelmente a vida. Embora o reinado de Nabucodonosor se caracterizasse por uma sábia administração que o levou a grande prosperidade em benefício de todos os seus súditos — ricos e pobres — êle por fim abandonou esta última classe que foi desprezada e escravizada, segundo depreendemos do conselho que lhe dera Daniel. O que torna um govêrno digno diante de Deus não é a sua glória terrena, seus empreendimentos materiais notáveis no desenvolvimento do Estado ainda que necessário para o consecutivo progresso. O que importa, mais que tudo, diante de Deus, é o cuidado eficaz do povo — mormente da classe proletária — provendo-lhe os meios de subsistência sem que tenham dificuldades em trabalhar e ganhar e sem que sejam explorados por classes favoritas ou privilegiadas na nação. Êste estado desastroso de coisas tem acarretado a miséria e a ruína, principalmente no século em que vivemos. Os pobres, que são propriamente dito a mão-de-obra das nações, curtem as maiores agruras com tôda a sorte de explorações inomináveis da parte dos desalmados senhores do poder econômico, sem que os governos se levantem sèriamente contra êstes seus trucidadores e planejem em justiça para amenizar seus sofrimentos. A inércia do rei Nabucodonosor neste sentido foi uma das causas que levou o Céu a se levantar contra êle a ponto de decretar-lhe séria penalidade. A menos que sanasse esta grave falha de seu govêrno o juízo anunciado desabaria sobre êle. Os governantes das nações que amam a Deus não têm direito de deixar no abandono o proletariado que luta desesperadamente por manter uma já triste vida na Terra. 229

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“Desfaze os teus pecados pela justiça, e as tuas iniquidades usando de misericórdia com os pobres”. Sua conversão dependia não só de arrepender-se e deixar o pecado, mas também de encher sua vida vazia usando de beneficência em favor dos desafortunados. A advertência foi dada ao rei Nabucodonosor e os resultados — positivos ou negativos — daí em diante, para sua felicidade ou infelicidade, para sua ventura ou desventura, dêle unicamente dependiam. “SE SE PROLONGAR A TUA TRANQUILIDADE” O governante babilônio devia encarar com seriedade a revelação do sonho e a sua interpretação. No final de sua exposição Daniel o exorta a curvar-se ante a misericórdia de Deus por êle e seguir a orientação do céu para evitar a dura experiência de que era advertido. Em Seu amor, Deus lhe daria um tempo ainda de graça para que considerasse sua caótica situação perante a divina justiça e se arrependesse em tempo de ser perdoado e de ser detido o sério ajuste com o Todo-poderoso por êle desacatado e ofendido por seus pecados e maus tratos para com os pobres do seu reino. Só assim poderia evitar ser envolvido em cheio pelo dilúvio do açoite. A advertência foi dada com muito amor da parte de Deus, e dêle dependiam os resultados bons ou maus. A todos os homens é também dado um tempo de carinhosa graça da parte de Deus. Façam êles uma feliz decisão e entrega de suas vidas a Deus, para não se verem, por fim, inesperadamente, envolvidos também pelos vagalhões da vingança resultante do pecado, e virem a perecer com a chance de salvação em suas mãos. Foi a procrastinação que levou o rei caldeu a sofrer o desagrado de Deus e ser sentenciado a um terrível juízo Seu. Ajamos diferente dêle para que não suceda cair sôbre nós o dedo da divina justiça para nosso dano e perda eternas. O MONARCA REPELE A INTERPRETAÇÃO VERSO 28: — “Tôdas estas coisas vieram sôbre o rei Nabucodonosor”. “Por algum tempo a impressão da advertência e o conselho do profeta exerceram forte influência sôbre Nabucodonosor; mas o coração não transformado pela graça de Deus logo perde as impressões do Espírito Santo. A auto-indulgência e ambição não haviam ainda sido erradicadas do coração do rei, e êsses traços mais 230

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tarde reapareceram. Não obstante a instrução tão graciosamente dada, e as advertências da passada experiência, Nabucodonosor permitiu-se ser controlado pelo espírito de ciúmes em relação aos reinos que se deviam seguir. Seu govêrno, que até então havia sido em grande medida justo e misericordioso, tornou-se opressor. Endurecendo o seu coração, êle usou os talentos que Deus lhe dera para a glorificação de si mesmo, exaltando-se acima de Deus que lhe dera vida e poder. “Por mêses o juízo de Deus foi retardado. Mas em vez de ser levado ao arrependimento por esta tolerância, o rei acariciou o seu orgulho até que perdeu a confiança na interpretação do sonho, e riu de seus antigos temores”.1 A despeito de ser êste sonho a quarta grande manifestação de Deus ao rei Nabucodonosor e ao seu reino, de Sua supremacia indiscutível sôbre todos os deuses e nações da terra, contudo colocou êle de lado, depois de algum tempo, tôdas as evidências e se recusou pedante e obstinadamente a reconhecê-las e a aceitar a advertência. Desdenhou submeter-se a um Deus vencido na Judéia pelos deuses de Babilônia, segundo sua errônea concepção. Não admitiu ser tão pecador como o sonho o figurou. Além de tudo o sonho podia ser ou não ser uma revelação e Daniel podia estar certo ou errado em suas conclusões interpretativas. Se êle era em verdade aquela pujante árvore mundial, de quem tôda a terra dependia, não era possível ser vexado ao ponto de ser excluído do explendor de sua côrte, a maior dos séculos. O rei Nabucodonosor, o grande monarca, o maior soberano da História, o único senhor da terra, o conquistador incomparável e inconquistável, cujo poder e glória jamais foram igualados e muito menos ultrapassados por outro potentado, diante de que os povos todos do orbe temiam e tremiam, — ter de se submeter a um Deus cujo povo êle levou em cativeiro para o Oriente? Êle, a majestade absoluta, ser tirado dentre sua suntuosa côrte, de seu soberbo palácio, dentre todos os homens, — para viver em meio aos brutos irracionais do campo e tornar-se algo semelhante a êles? Êle, o inigualável senhor de todos, que tornou Babilônia a maior, e mais poderosa e mais magnificente cidade do mundo de todos os tempos,— ser derribado do poderoso trôno e ser levado até a pastar com as bestas do campo? Êle, o incomparável sábio monarca de seu tempo e de todos quantos empunharam o cetro da terra, o sumo catedrático da universidade de
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 519.

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Babilônia, — perder a razão, tornar-se um analfabeto e até mesmo ser transformado em uma espécie de demente excluído? Instigado pelo inimigo de direito que procurava arruiná-lo e impedir que se tornasse um testemunho vivo do poder de Deus, fundamentou sua recusa em tudo isto que dissemos acima, e pertinazmente negligenciou a veracidade do sonho e o sábio conselho de Daniel, que o salvaria da calamitosa tragédia. Mas a despeito de ter descrido no sonho e desprezado a sua advertência como impossível de realizar-se, contudo o terrível vaticínio cumpriu-se à risca na sua vida ainda que majestoso e poderoso senhor dos reis de toda a terra. Lamentavelmente regeitou a advertência da graciosa misericórdia de Deus que visava preservá-lo da ruína. Assim teve de atravessar uma experiência amarga, mas exclusivamente por sua própria culpa. “Tôdas estas coisas vieram sôbre o rei Nabucodonosor”. Êle cumpriu sua pena tremenda, fruto de sua ousada e pertinaz oposição a Deus. Milhões de milhões ainda hoje menospresam as advertências do céu. O orgulho, a presunção, a soberba, fazem suas vítimas de contínuo. As posições sociais, políticas e até mesmo religiosas, são por muitos encaradas como atestado de preservação de direitos na terra e nos céus. Nenhum engano, porém, é maior do que êste. Assim pensava o rei Nabucodonosor nos seus dias. Mas, aquele que se julgava a sumidade dos séculos, foi reduzido, num instante — a um “João Ninguém”! E a menos que os milhões de Nabucodonosores modernos se humilhem diante de Deus e usem de clemência na terra, receberão como êle e muito mais do que êle o impacto frontal e fatal do juízo divino. Deus está pronto em perdoar e faz questão de perdoar. Mas também não quer ser desonrado e vexado pela aberta rebeldia a Suas leis, pela arrogância e pela falta de caridade. O REI NABUCODONOSOR PRECIPITA A CRISE VERSOS 29-30: — “Ao cabo de doze mêses, andando a passear sôbre o palácio real de Babilônia, falou o rei, e disse: Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa leal, com a fôrça do meu poder, e para a glória da minha magnificência?” DOZE MÊSES APÓS A ADVERTÊNCIA O sonho que representou o grande rei no emblema duma frondosa árvore foi algo inédito em sua vida. “Tal representação mostra o 232

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caráter de um govêrno que cumpre o propósito de Deus — govêrno êste que protege e consolida a nação. “Deus exaltou Babilônia para que ela pudesse cumprir êste propósito. A prosperidade favoreceu a nação, até que ela atingisse uma altura de riqueza e poder que desde então nunca foi igualada — apropriadamente representada na Escritura pelo símbolo: uma “cabeça de ouro”.1 “Mas o rei deixou de reconhecer o poder que o exaltara”. “Em vez de ser protetora dos homens, tornara-se Babilônia opressora, orgulhosa e cruel”.2 Um ano se passara desde que o rei Nabucodonosor tivera o seu grande sonho e recebera de Daniel a sua impressionante interpretação. O juízo predito não viera imediatamente, pois a graça de Deus susteve a sentença dando ao soberano a oportunidade de meditação e arrependimento. Vemos a memorável e manifesta paciência de Deus para com êle antes de deixar cair o anunciado golpe. Não obstante a suprema misericórdia fôra incompreendida e desprezada. Durante todo o prazo de postergação da tormenta por doze longos mêses, o rei continuou albergando em seu coração o orgulho, a jatância, a arrogância e a glorificação própria. Era um atrevido desafio ao Todopoderoso, tanto mais que êle já havia recebido anteriormente, como já vimos, uma outra mensagem em face da qual confessa a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é Deus dos deuses, e o senhor dos reis”.3 Em outra ocasião, como também já nos referimos, chegara o monarca a expedir o seu primeiro decreto mundial em honra de Deus — depois do livramento dos três hebreus da fornalha ardente — no qual continha uma ameaça de extermínio total a quem deixasse de reverenciar o Deus de Israel.4 Agora, porém, quando recebe uma poderosa revelação precursora dum juízo que devia atingi-lo em cheio, e, portanto, mais séria e mais solene, se insurge contra ela tanto por vontade própria como aconselhado por outrem. Assim expunha Nabucodonosor a iminente perigo sua própria vida e a honra de seu trôno no qual fôra empossado e exaltado pelo Deus do céu como soberano das nações. Doze mêses a redentora e paciente praça esperou por uma decisão de Nabucodonosor favorável à divina justiça. Mas a espera fôra em
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Daniel 2:38. Educação, E. G. White, pág. 175. 3 Daniel 2:47. 4 Daniel 3:29.

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vão e nada mais pôde fazer Deus para convencê-lo de Sua dignidade e honra supremas senão assentando o fulminante e decisivo golpe. A espera dum ano foi o suficiente. Ninguém no seu tempo ou depois dêle e nem êle mesmo, poderiam acusar a Deus de ausência de longanimidade em Seu trato com aquele monarca. Deus só intervira para aplicar a prenunciada sentença quando viu que o rei decidira irrevogàvelmente a não acatar Sua excelsa vontade e a ela submeterse. Foram tristes os resultados que vieram àquele potentado mundial; mas êle, e êle só, fôra o culpado absoluto de sua ruína. NABUCODONOSOR ENCHE A MEDIDA O rei Nabucodonosor, “não obstante a advertência que Deus lhe dera, fez muitas coisas que o Senhor lhe advertira não fazer”.1 Mas, no dia fatídico, na hora exata do infalível relógio da Onipotência, o calamitoso juízo desabou em cheio sôbre o grande rei exaltado. Tranquilo, confiante de si mesmo é transbordante de ousada soberba, dirige-se êle ao cume de seu mais famoso palácio real em Babilônia, situado ao norte da cidade, nas proximidades do canto onde o rio nela penetrava. Dali daquele extraordinário posto de observação desejou contemplar a grande cidade que construíra ou remodelara. Aos olhos do altivo rei divisava-se um deslumbrante panorama que jamais alguém divisou nem mesmo do topo do estupendo Empire States Building, em Nova York. Durante seus 43 anos de reinado elevou Nabucodonosor Babilônia a uma grandeza tal como capital da terra, que a própria revelação de Deus a denomina de: 1) “a cidade dourada”2; 2) “um copo de ouro na mão do Senhor”3; 3) “o ornamento dos reinos”; 4) “a glória e a soberba dos caldeus”4; 5) “a glória de tôda a terra”5; 6) “o martelo de tôda a terra”.6 Tudo isto deveu-se ao gênio empreendedor de Nabucodonosor! secundado pelas bênçãos de Deus. Extasiado e saturado de glorificação própria, está o grande rei no cimo de seu mais grandioso palácio dos três que erigira em Babilônia
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Testimonies for the Church, E. G. White, Vol. IX, pág. 126. Isaías 14:4. 3 Jeremias 51:7. 4 Isaías 13:19. 5 Jeremias 51:41. 6 Jeremias 50:23.

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nos dias de seu apogeu e glória reais. Referindo-se a êsse palácio, diz êle mesmo num de seus cuneiformes: “Construí o palácio, a sede da minha realeza, o coração de Babilônia. Assentei os alicerces, numa grande profundidade abaixo do nível do rio, estribei a sua construção em cilindros revestidos de betume e tijolos”.1 Apolônio, o sábio de Tiana, diz em sua inscrição que o palácio tinha telhado de bronze. Segundo Deodoro, três poderosas muralhas circundavam êste inigualável palácio da História dos impérios, sendo a primeira de 20 estádios, a segunda de 40 e a terceira de 60, tendo a segunda 300 tijolos de espessura. Ctesias diz que a altura destas muralhas era de 100 metros e suas torres de aproximadamente 140 metros. Assim era o formidável palácio uma inexpugnável fortaleza, de cima da qual o rei Nabucodonosor descortina a sua inteira e fascinante metrópole. A 700 metros do palácio real estão os celebrados jardins suspensos, quadrados de cêrca de 130 metros de cada lado; comportavam árvores até de 60 metros de altura e eram aguados com água do Eufrates, junto do qual se elevavam, por um sistema especial de irrigação. Construídos aqueles jardins ou levantados por êste mesmo rei, em homenagem à sua esposa meda, Amytis, filha de Astiages, constituíam uma das sete maravilhas do mundo antigo ou quiçá de todos os tempos. Como atesta um tablete cuneiforme do tempo de Nabucodonosor, havia na cidade 53 templos dedicados a importantes deuses, além de 955 santuários menores e 384 altares de rua. O famoso templo Etemenhanki, “a pedra fundamental do céu e da terra”, erguia-se soberbo com seus 300 pés de cada lado na base e mais do que 300 pés, de altura, sendo que o menor e mais alto do seus sete estágios era um relicário dedicado a Marduk, o deus dos deuses de Babilônia. Um outro grande templo era o Esagila, literalmente — “Aquele que levanta a cabeça”. Era o centro das cerimônias religiosas especiais realizadas em honra de Marduk, e o local terminal das procissões dos deuses da cidade. Com exceção do grande templo Amen em Karnak, Esagila era o maior e mais famoso de todos os templos do antigo Oriente. O templo de Bel, diz Strabão, tinha a forma de uma pirâmide quadrangular; media um estádio (185m25cm), de largura e outro tanto de altura. Como todos os templos caldaicos, compunha-se de muitos
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História Universal, C. Cantú, Vol. II, págs. 229 a 236.

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terraços sobrepostos. Escadas ou rampas conduziam; aos santuários, abertos nos massiços dos diversos andares, ei ao templo dos Alicerces da Terra, erguido sôbre o último terraço. O edifício todo era consagrado a Marduk (Bel) que tinha um santuário na parte inferior do monumento, e era também nêle que se proferiam os oráculos. Nabucodonosor mandara construir a cúpula de mármore, guarnecida de ouro. Herôdoto diz que Babilônia formava um quadrado de 120 estádios de lado, aliás, um perímetro de 480 estádios ou seja cêrca de 90 quilômetros. Historiadores há que dizem ter sido Babilônia protegida por três muralhas de 120 metros de altura, em vez de duas, por 30 metros de largura, podendo dois carros, cada um puxados por dois cavalos, andarem por cima e fazerem fáceis suas voltas. Em cada lado da cidade haviam 25 soberbas portas de bronze, partindo de cada uma delas uma rua que se perdia à distância de 24 quilômetros. Em tôrno da terceira muralha havia uma fossa larga e profunda revestida de ladrilhos e cheia de água, como sendo propriamente a primeira proteção da cidade. Suas muralhas eram flanqueados por “duzentas e cincoenta e cinco” gigantescas torres de vigia. Os testemunhos históricos asseveram que a cidade era “aproximadamente cinco vêzes o tamanho de Londres”1, e dividida em 676 quadras (cada uma das quais media cêrca de três quilômetros e meio de perímetro) por suas cincoenta ruas que tinham quarenta e cinco metros de largura cada uma e se cruzavam em ângulos retos, sendo direitas e niveladas e se estendendo num comprimento de vinte e quatro quilômetros”.2 Herôdoto diz que o interior da cidade era coberto de casas de três e quatro andares: e Quinto Cúrcio acrescenta que estavam separadas umas das outras por largo espaço. Outrossim devemos compreender que parte da área de Babilônia era ocupada para cultivo agrícola, podendo a cidade, em virtude de sua produção interna de abundantes víveres, resistir a um possível grande cêrco inimigo em caso de guerra. O rio Eufrates, cortando a cidade diagonalmente em duas partes, todo ladeado por muralhas tipo cáis e atravessado por pontes e túneis, recebia tôdas as ruas da cidade nas direções Leste-Oeste, com suas respectivas portas, concorrendo para realçar e imprimir beleza e encanto à metrópole de Nabucodonosor.
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Bible Dictionary, Smith, art. Babel. O Raiar de Um Nôvo Dia, R. F. Cottrell, pág. 99.

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O rei Nabucodonosor, do alto de seu soberbo palácio, estava deveras fascinado ao ter diante de seus olhos uma glória sem par até ao presente século. Seu contentamento e orgulho jamais ascenderam antes a tão grande nível. Excluindo Deus de suas obras e realizações, inflou-se a si mesmo do vento de orgulho pelo inédito espetáculo que ali estava a contemplar. Já antes dêsse tempo escrevera êle de sua famosa cidade: “Para assombro das multidões construí esta casa. “Aqueles portais, adornei-os lindamente, para assombro de multidões de pessoas. “Afim de que a tempestade da luta de Imgur-Bel não alcançasse a muralha de Babilônia; o que nenhum rei antes de mim fizera. “Assim fortifiquei completamente as defesas de Babilônia. Oxalá se conservem, para sempre”.1 “Babilônia — a cidade que é o encanto dos meus olhos, e que eu tenho glorificado”.2 “Ó Babilônia, seja quem for que te contemple encher-se-á de regosijo. “Seja quem fôr que habitar em Babilônia aumentará sua vida, “Seja quem fôr que falar mal de Babilônia é similhante a alguém que mata sua própria mãe, “Babilônia é similhante e uma doce tamareira, cujo fruto é graciosamente contemplado”.3 “Eu tenho tornado Babilônia, a santa cidade, a glória dos grandes deuses, mais proeminente do que antes, e tenho promovido sua reedificação. Tenho tornado os santuários dos deuses e deusas para iluminarem como o dia. Nenhum rei entre todos os reis jamais creou, nenhum dos primitivos reis têem jamais edificado, o que eu edifiquei magnificamente para Marduk. Tenho levado ao extremo o equipamento de Esagila, e a renovação de Babilônia mais do que jamais fora feito antes. Tôdas as minhas valiosas obras, o embelezamento dos santuários dos grandes deuses, que eu empreendi mais do que meus reais antepassados, eu escrevi em um documento e guardei-o para as gerações vindouras. Tôdas as minhas obras, que tenho escrito neste documento, aqueles que lerem saberão e recordarão a glória dos grandes deuses. Possa o curso de minha vida
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O Raiar de Um Nôvo Dia, R. F. Cottrell, pág. 100. Beacon Lights of Prophecy, Spicer, pág. 39. 3 Seventh-Day Adventist Bible Commentary. Vol. IV, pág. 797.

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ser longo, possa eu regosijar-me em minha descendência; possa minha descendência governar sobre o povo de cabeça negra em tôda a eternidade, e possa a mensão de meu nome ser notória para sempre em todos os tempos futuros”.1 “Então edifiquei o palácio, o assento de minha realeza, o vinculo da linhagem dos homens, a habitação da exultação e regosijo”. “Em Babilônia, a cidade que eu prefiro, que eu amo, está o palácio, e maravilha do povo, o vínculo da terra, o brilhante palácio, a morada da majestade no solo de Babilônia”.2 Não é possível desassociar Nabucodonosor do esplendor de sua grande cidade. E realmente êle merece tal associação. Se alguma vez um homem teve motivos, simplesmente humanos, de se orgulhar ao contemplar as obras de suas mãos, êste homem foi, em verdade, o rei Nabucodonosor ao olhar à sua majestosa Babilônia. Grande, ela sempre havia sido; fora reverenciada como cidade mãe e como fonte de estudos e leis, até pelos seus conquistadores nos dias de humilhação. Contudo, Nabucodonosor e seu pai a haviam encontrado tal qual os assírios a deixaram — fraca, humilhada e abatida. Numa geração, porém, o extraordinário rei a elevou muito acima do esplendor antigo, a u’a magnificência realmente impossível de se descrever depois de tantos séculos após sua queda e destruição. Mesmo os próprios historiadores de seus áureos dias não encontraram termos para narrar a sua pujante glória com que dotou-a o grande monarca caldeu. Aquilo que até nós chegou de sua grandeza e opulência, é o suficiente para encantar e fascinar e dar uma idéia nítida do gênio que conseguiu elevá-la acima de tôdas as demais metrópoles da terra antes e depois dela. Ainda que prostrada no pó e recordada apenas nas páginas da História e nos museus das nações, Babilônia não foi até agora e não será jamais, enquanto o mundo durar, apagada da imaginação da humanidade como grande metrópole da terra, e isto por ter-se tornado um emblema de tudo o que é magnificente, luxuoso e imponente no que respeita às obras de arquitetura humana. Deveras os historiadores de seus dias não encontraram palavras para descrever a grandeza de seus palácios, de seus templos, de seus jardins suspensos, de suas muralhas e de tudo quanto fê-la grande e admirável. A rainha do Eufrates não teve rival
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Seventh-Day Adyentist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 799. Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, págs. 792; 793.

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na História. Londres, Nova York, Paris, Roma e outras atuais capitais das nações do século, ficam apagadas diante do que foi a cidade de Nabucodonosor. Embora o poderoso Nabucodonosor tivesse em mente tornar Babilônia uma glória, uma maravilha do mundo, apenas para memória futura de sua grandeza como monarca do orbe, não podemos deixar de admirá-lo como sábio arquiteto e sua capital não só como suprema e magnificente, metrópole do mundo como também a maior praça de guerra dos séculos, a maior fortaleza das nações. A EXPLOSÃO DO ORGULHO HUMANO Do cume de seu maior palácio divisa Nabucodonosor a sua gloriosa cidade. Palácios gigantes, templos famosos, muralhas poderosas, o caudaloso Eufrates, ruas maravilhosas, — um caudal de obras sem fim que lhe deu um nome perpétuo na História da terra. E então o grande rei não se conteve diante do espetáculo que se descortina diante dêle. Esquecendo totalmente o sonho da gigantesca árvore, a sua interpretação, o conselho e a advertência de Daniel, êle, num arrebatamento, num excesso de incontida paixão, num delirante frenesi, submerso na vaidade e elevado aos píncaros da altivez, prorrompe estasiado e vencido pelo orgulho que lhe era próprio: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com a fôrça do meu poder, e para a glória da minha magnificência?” As palavras: “... que eu edifiquei”, aparecem muitas vezes repetidas nas inscrições tiradas das ruínas de Babilônia e guardada no museu britânico. (Vêr Apêndice notas 2 e 3). Três vêzes o “eu” — seu maior adversário e sua ruína — evidencia-se soberbo esquecendo-se êle completamente de Deus, a origem absoluta de sua fôrça e glória como rei do mundo. “Eu edifiquei”, “fôrça do meu poder”, “minha magnificência”. Isto foi o golpe de misericórdia dado contra si mesmo. Erguera êle ali no cume do fascinante palácio o trampolim para o abismo. Apressou o rei a sua queda da altaneira glória para chegar a ser mais inferior do que o mais humilde súdito de seu reino, para deixar de ser, pràticamente, um ser humano e converter-se em uma espécie de irracional humano. Cêrca de seis séculos depois desta experiência que derribou o rei Nabucodonosor dos píncaros de sua glória real, um outro rei, — Herodes Agripa — muitas vêzes inferior a êle, em poder e majestade 239

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governamentais, é ferido pelo “anjo do Senhor”, ao aceitar do povo que o ouvia, as honras dum deus, “e, comido de bichos, expirou”.1 Êste rei ultrapassara os limites da graça, havia pecado contra o Espírito Santo de Deus, não sendo mais possível o seu arrependimento, e sua recuperação. Herodes foi derribado do trôno e da vida. Nabucodonosor, todavia, posto que soberbo e cheio de glorificação própria, tinha um coração ainda moldável, accessível pela graça da redenção. Foi, no entanto, indispensável, aquecê-lo ao rubro, até que ficasse maleável e moldável. Como ferro, frio não era possível transformá-lo num dócil filho de Deus. Quando metal bruto, gelado pela arrogância, não correspondeu, não cedeu às grandes pancadas do malho do divino amor. Agora, porém, o novo método de Deus demonstraria nêle o imensurável poder e a infinita sabedoria da graça em salvá-lo e em transformá-lo num vivido e eloquente testemunho do seu amorável Redentor, testemunho jamais igualado na história da recuperação do homem pela graça redentora do Deus Onipotente. Duas coisas importantes urge termos em mente com o trato dispensado na conversão do rei Nabucodonosor: 1) Não procrastinar a nossa conversão a Deus até que Seu dedo nos caía em cima; 2) e não esperar indefinidamente para dar um testemunho em Sua honra diante de todos quantos nos cercam. A INEXORÁVEL SENTENÇA DO ALTO VERSOS 3-33: — “Ainda estava a palavra na bôca do rei, quando caiu uma voz do céu: A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Passou de ti o reino. E serás tirado dentre os homens, e a tua morada será com os animais do campo: farte-ão comer herva como os bois, e passar-seão sete tempos sôbre ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre os reinos dos homens, e os dá a quem quer. Na mesma hora se cumpriu a palavra sôbre Nabucodonosor, e foi tirado dentre os homens, e comia herva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu pelo, como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves”. O RESULTADO DE DESPREZAR A GRAÇA O rei Nabucodonosor julgava ter Deus esquecido de ajustar contas consigo, Mas ali no cume do grande palácio fazia ainda transbordar seus lábios de seu desafiante e contumaz orgulho; ainda
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Atos 12:20-23.

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manifestava insensatas pretenções de senhorio e poder; ainda expressava sua pretensa e absoluta independência de Deus no que respeitava a seu reinado e grandeza real; e ainda jatava-se da glória de sua inigualável metrópole mundial como oriunda de sua própria sabedoria arquitetônica, — quando incontinente ouve da imediata execução da condenatória sentença, já a um ano antes sancionada por Deus mesmo, suspensa, porém, na espectativa de que o réu tivesse suficiente senso de responsabilidade em sustê-la definitivamente por um sincero e positivo arrependimento e incondicional reconhecimento da supremacia do Deus de Israel, como único Deus vivo e verdadeiro, do qual êle dependia em todo o sentido da vida e do trôno. Mas o arrogante potentado fracassou e com isso obrigou o supremo Juiz a aplicar a merecida pena que o privou do trôno e da glória de que tanto se ufanava. A dramática sentença foi resumida e anunciada nesta curta frase: “A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: passou de ti o reino”. Eis um caso direto de destituição de um soberano terrestre pelo próprio Deus Todo-poderoso. Ficou constatado, como avisara Daniel àquele monarca, que o govêrno do homem na terra está sujeito à aprovação ou não de Deus. E isto mesmo que sucedeu ao rei de Babilônia verificou-se, de modo diferente e até imperceptívelmente quanto à intervenção de Deus no govêrno de inúmeros reis em todo o passado, chegando mesmo a desaparecer da história das nacionalidades com êles muitos de seus reinos. Sucede o mesmo em pleno século XX, sem que seja percebido peles dignatários atingidos e por seus achegados acessores. São derribados do poder pelo dedo do Altíssimo Deus. Incapazes do desempenho do seu posto em justiça, dêle são afastados por Aquele que em verdade tudo dirige segundo o Seu propósito pró prosseguimento e término de sua gloriosa obra de redenção na terra. Julgando estar só no cume de seu imenso palácio, Nabucodonosor fica espantado com a voz, para êle muito solene e estranha, de Quem peta primeira vez lhe falava audivelmente. Com espanto e estupefação é obrigado a permanecer ali imóvel e ouvir os detalhes da condenatória sentença, que êle já bem conhecia por seu sonho e cujas palavras são as mesmas da interpretação de Daniel, — para que ele se rebordasse que desprezara a advertência e agora colhia os amargos frutos.

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LEVADO AO CÁRCERE DO CAMPO Do cimo de seu tão adorado palácio já saíra o rei diretamente para o campo — provavelmente levado pelos anjos de Deus — onde cumpriria sua pena, junto aos irracionais. Aquilo que êle jamais podia crêr e do qual desdenhara que o acometesse, veio implacável sôbre êle e com todos os rigores do sonho e da interpretação, — o que êle, portanto, não ignorava. Mas, pensemos na mudança do quadro: O maior estadista da História política nas nações; o soberano mundial que enfechou em suas mãos a maior soma de poder e de glória; o maior arquiteto conhecido; o grande sábio do Oriente; o caudilho não igualado em campanhas de conquista; a máxima autoridade terrena jamais vista; o homem que tinha na terra o poder da vida e da morte, e, agora, num simples instante, reduzido pràticamente a nada, igualado aos brutos que nada entendem de palácio, de glória, de fama e de poder humanos. Pensemos nêste rei outrora inigualável como autoridade máxima do orbe inteiro, — afastado de sua famosa côrte, de seus grandes cortezões, da sociedade dos homens, de seus familiares, — comendo “herva como os bois”, “molhado do orvalho do céu”, com “penas de águia”, crescidas em seu corpo “e as unhas como as das aves”, comparado a um quadrúpede por sua comida e às aves de rapina pelas penas e unhas que lhe cresceram! “Um tablete cuneiforme não publicado no Museu Britânico menciona um homem que comia herva como uma vaca”.1 Humilhado Nabucodonosor até ao pó, nenhum vestígio ficou de sua estupenda majestade real. O versículo dezesseis dêste capítulo quatro diz que seu “coração de homem” fora trocado por um “coração de animal”! Não podia, pois, ter sido mais humilhado do que foi. Agora os pensamentos e desejos daquele que fôra reverenciado por tôda a terra e tido como sumidade em matéria de sabedoria e discernimento, seriam os dos próprios animais irracionais dos campos, que por sete anos deveriam ser os seus únicos companheiros, seguramente por todos êsses anos, nenhum pensamento de sua passada glória e grandeza, nenhuma lembrança de seu poder sôbre as nações
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Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 793.

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da terra, nenhuma recordação de sua estupenda cidade lhe assomaram à memória então irracionalizada. O juízo que êle pensava ser tão perfeito, a sabedoria de que se orgulhava possuir, foram removidos, e o até então poderoso monarca tornou-se de momento um maníaco. Não se deve pensar, porém, que o rei Nabucodonosor foi completamente abandonado lá no campo por seus familiares e por sua côrte. Foi êle certamente visitado, embora êle mesmo não se desse conta disso em virtude da mudança de seu coração e mente. Todos aguardavam anciosamente o fim da prova e sua reintegração no trôno. Indubitàvelmente Daniel, seu primeiro ministro, continuou nêste honrado posto até à sua restauração. Possivelmente o profeta tenha explicado detalhes da condenação do soberano a seus grandes e a seus familiares, bem como de sua futura restauração. O DESPERTAR DO SONO PROFUNDO VERSOS 34-35: — “Mas ao fim daqueles dias eu, Nabocodonosor, levantei os meus olhos ao Céu, e tornou-me a vir o meu entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a Sua vontade Êle opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazer?” O TÉRMINO DA PROVA CRUÉL O rei Nabucodonosor chega ao final da extranha prova. Ao término dos sete anos de juízo a mão de Deus deixou de afligí-lo. “Sua razão foi restaurada” para que pudesse deparar os resultados do orgulho, da soberba, da altivez e o que significa dizer não ao único eterno Todo-poderoso. Para êle, pareceu ter acordado dum longo e profundo sono. Surpreendeu-se, todavia, com seu ruinoso estado de anormalidade. Contempla-se desnudo, descarnado, enfraquecido, alimentando-se de feno; sua pele está coberta de espêsso pêlo de um quadrúpede enquanto penas como de águia pendem de seu corpo e as unhas — dos pés e mãos — se parecem como as das aves de rapina. Sobretudo, nota o humilhado rei a ausência da coroa real e vê-se longe, bem longe de seu soberbo e luxuoso palácio e de sua magnificente metrópole mundial. Então, diz, êle, “levantei os meus olhos ao céu”. Reconheceu a pesada mão de castigo pré-anunciado e regeitado com zombaria mas tornado por fim uma efetiva realidade. Reconheceu a mão divina do Juízo sôbre êle e a aceita como merecida 243

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e justa. Não sabemos porque a ofendida Onipotência preferiu humilhálo como o fez, em pleno campo em companhia de grosseiros sêres e em condições de absoluto desamparo, em vez de ser comodamente assistido em palácio ainda que com a perda da razão. Certo é, porém, que o aflitivo juízo teve o efeito previsto e foi aprendida pelo réu a lição de humildade. O primeiro ato do rei desperto, ali mesmo no campo e naquelas adversas circunstâncias, foi bendizer ao Altíssimo Deus que desprezara, louvá-1’O e glorificá-1’O como Eterno-Dominador e reconhecer seu domínio como imperecível. Reconheceu ainda, o abismado rei, que os moradores da terra são reputados em nada perante Deus, e que Êle opera como quer tanto em relação a êles como aos habitantes do céu. E conclue: “Não há quem possa estorvar a Sua mão e Lhe diga: Que fazes?”. Incompreensível mas maravilhoso e eficaz o trato de Deus no caso do rei Nabucodonosor! Fôra imprescindível aquela drástica medida divina para derribá-lo de seu orgulho e transformá-lo num testemunho do poder de Deus que encheria os séculos futuros em Seu louvor. Como escrevera cêrca de seis séculos mais tarde São Tiago, a “misericórdia”, que “triunfa no juízo”, triunfou em verdade no juízo advindo àquele monarca. Êle ficou satisfeito e feliz. E, em gratidão à insondável misericórdia do Eterno, notificou todo o mundo a Sua supremacia sôbre tudo e todos o Seu insondável amor por Seus incontáveis filhos. A GRANDIOSA RESTAURAÇÃO VERSO 36: — “No mesmo tempo me tornou a vir o meu entendimento, e para a dignidade do meu reino tornou-me a vir a minha majestade e o meu resplendor; e me buscaram os meus capitães e os meus grandes; e fui restabelecido no meu trôno, e a minha glória foi aumentada”. Em sua mundial proclamação Nabucodonosor tornou bem clara — a seus súditos a sua experiência e humilhação — e com todos os detalhes. Admitiu a sua culpabilidade bem como a grande misericórdia de Deus em sua restauração. Esta atitude do rei caldeu convertido foi deveras inédita e muito original. Não há notícia de que antes ou depois dêle um outro converso tenha tornado pública a história de sua humilhação e conversão. Salomão, o grande rei de Israel, que desceu às mais baixas e vis recâmaras do pecado, não confessou a seus súditos os requintes de seus pecados e a alegria de 244

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seu retorno a Deus, como o fez o rei Nabucodonosor. Nem mesmo Saulo de Tarso, o indomável bandeirante do evangelho, em suas tantas cartas, fez ao mundo uma confissão evidente de seus pecados, humilhação e restauração à dignidade dum converso filho de Deus, como o fez aquele poderoso rei de Babilônia. Para Nabucodonosor foi uma glória contar a seus súditos do amorável sério trato de Deus para com êle. Seu coração, transbordante de gôzo, deu ao mundo de seus dias e de todos os tempos depois dele, o maior e mais eloqüente testemunho do poder de Deus operado em si como pessoa humana e como pessoa soberana no trôno do mundo. E seus súditos de tôda a terra foram ricamente abençoados com a sua experiência e a sua conversão. Quão diferente seria a civilização hodierna se os seus governantes passassem pelo caminho da humilhação perante o verdadeiro Dominador do orbe, sem mesmo a necessidade de Êle agir com êles como agiu com Nabucodonosor, e se convertessem a Deus! Mas o admirável monarca contou também a sua restauração ao trôno Imperial. Contou que, em face de sua atitude agora favorável a Deus, seu entendimento ou razão, indispensável à sua reintegração ao trôno, foi-lhe completamente restaurado. Ao retornar inesperadamente à sua capital, completamente restabelecido do mal que o acometeu, e dirigir-se ao palácio real, foi recebido com todo o respeito por todos. Escreveu êle “meus ministros de Estado e meus senhores vieram consultar-me, e fui firmemente colocado no meu trôno e investido com supremo poder”.1 É dito, sem confirmação, que, durante o tempo em que esteve sob o juízo de Deus, Evil-Merodach, seu filho, reinou em seu lugar aguardando o seu restabelecimento. Certamente a interpretação de Daniel — ao ser o rei retirado do trôno para cumprir a pena do Céu, — foi bem compreendida por sua côrte, e seu regresso, findo os sete anos, foi aguardado com intensa expectativa e interêsse. Sua majestade e resplendor retornaram com maior brilho do que antes e êle empunhou até à morte o cêtro do inundo. A INCONDICIONAL ENTREGA A DEUS VERSO 37: — “Agora pois eu, Nabucodonosor, louvo, exalço, e glorifico ao Rei do Céu; porque tôdas as Suas obras são verdade; e os

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Tradução de James Moffatt, Daniel 4:36.

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Seus caminhos juízo, e pode humilhar aos que andam na soberba”. O notável decreto do rei é fechado com chave de ouro. É encerrado com a notificação mundial de sua entrega definitiva e incondicional ao Creador dos céus e da terra. Tornou público a gloriosa mudança operada em sua pessoa quer como indivíduo quer como governante real e mundial. “O outrora orgulhoso monarca tinha-se tornado um humilde filho de Deus; o governante tirânico e opressor tornora-se um rei sábio e compassivo. Aquêle que tinha desafiado o Deus do Céu; e d’Êle blasfemado, reconhecia agora o poder do Altíssimo, e fervorosamente procurou promover o temor de Jeová e a felicidade dos seus súditos. Com a repreensão dAquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, Nabucodonosor tinha afinal aprendido a lição que todos os reis precisam aprender — de que a verdadeira grandeza consiste na verdadeira bondade. Êle reconheceu ao Jeová, como o Deus vivo, dizendo: “Eu, Nabucodonosor, louvo, e exalço, e glorifico ao Rei do Céu; porque tôdas as suas obras são verdade, e os Seus caminhos juízo, e pode humilhar aos que andam na soberba”. O propósito de Deus de que o maior reino do mundo mostrasse o Seu louvor, estava agora cumprido. Esta proclamação pública, em que Nabucodonosor reconhecia a misericórdia, bondade e autoridade de Deus, foi o último ato de sua vida registado na história sacra”.1 Com amor seguira Deus os passos do poderoso monarca. Em meio à sua côrte tão cheia de tentações, podemos crêr que Deus viu nêle sinceridade, integridade e pureza de propósito que podia usar para a glória de Seu nome, daí ter agido de forma tão admirável para com êle. Indiscutivelmente, seguira Deus com amor os passos do rei Nabucodonosor até ao momentoso desfecho em que fêz dêle um filho honrado e um futuro cidadão de Seu reino eterno. Se quisermos vêr um dia o famoso rei, urge que também nos humilhemos ou que sejamos humilhados ao sumo, pois só os humildes poderão ser exaltados e redimidos para viverem na presença de Deus e de seu amorável salvador — Nosso Senhor Jesus Cristo. Não fôra o profundo sentimento religioso do rei Nabucodonosor, não teria êle reconhecido o Criador e sua supremacia. Suas inscrições o revelam um monarca espiritual, mesmo com vistas à outrora religião pagã. Uma inscrição sua contém uma de suas orações nos têrmos como segue:
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 521.

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“Ó príncipe eterno! Senhor de tôda a criação! Assim como amaste ao rei cujo nome tens exaltado, como foi do teu agrado, faze-o endireitar a vida, guia-o por veredas retas. Eu sou o príncipe, que te obedece, a criatura da tua mão; tú me fizeste, o domínio dos povos me confiaste, na medida da tua graça, ó senhor, a qual concedes, aos povos todos, faze-me amar tua suprema dominação, e cria em meu coração o louvor da tua divindade, e dá-me o que fôr da tua vontade, porque engrandeceste a minha vida”.1

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A History of the Babilonians and Assyrians, Goodspeed, pág. 348.

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CAPÍTULO V
O BANQUETE FATAL DE BABILÔNIA

Introdução O capítulo cinco do livro de Daniel talvez constitua a maior advertência do céu a todos quantos são deliberadamente desafiantes da divindade. Trata principalmente da história de um homem negligente e procrastinante em relação a seu conhecido dever para com o sagrado. Um destacado personagem irreverente para com Deus, ainda que conhecedor de prodigiosas maravilhas operadas pelo Soberano do Universo em bem de sua própria realeza. Um político audazmente profano daquilo que sabia ser por demais sagrado. Um cortezão declaradamente falto para com a santa e imutável lei do Deus Todopoderoso. Um rei arbitrário, jactancioso, presumido de si mesmo. Um soberano imoral, licencioso, ébrio e indigno do trono do mundo que ocupava. Por incrível que pareça e revelando elevado grau de insensatez, despreocupou-se com o marcante perigo que rondava a sua capital, o último reduto do que restava daquilo que fôra outrora o poderoso império babilônio sôbre tôda a terra. O relato dêste quinto capítulo dá conta duma cena ímpia, abjeta aos olhos de Deus, a mais repelente e impudica orgia que os séculos presenciaram e registraram. O centro da diabolesca festa era o próprio rei de Babilônia, Belshazzar, acima descrito, cuja soberania mundial agonizava. Fôra êle o promotor daquela provocante degradação ímpia que se caracterizou pela mais vil licenciosidade e pela mais deturpante intemperança. O festim de Belshazzar foi a revelação mais aguda da decadência moral dos cortezões da antiguidade, da derrocada dos chamados intelectuais do fim duma civilização que se precipitava no abismo da alucinação do pecado, especialmente o da libertinagem.

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Mas, a desprezível festança não passou despercebida dAquele diante do qual tudo será acertado em juízo. Um representante Seu, invisível, achava-se presente, e, no momento oportuno — de aviltante sacrilégio — manifestou-se e deixou gravada uma decisiva mensagem de condenação. Cessam então os desafios ao céu. Os sacrílegos foliões, antes bem ousados e ultrajantes, agora pasmam-se e tremem pela evidente perspectiva do fim de tudo. Logo ouvem Daniel, o profeta, interpretar a mensagem do desagrado de Deus ofendido com tanto vilipêndio, — mensagem, sim, de juízo condenatório irrevogável. E o santo relato finda informando que a ultrajante orgia terminou com o estabelecimento de uma nova ordem política no orbe, tendo os descuidosos libertinos, incluso mesmo o rei, o principal dêles, sido ceifados pelos medos e persas vitoriosos irmanados. UMA INFAMANTE ORGIA EM PERIGO FATAL VERSO 1: — “O rei Belshazzar deu um grande banquete a mil dos seus grandes, e bebeu vinho na presença dos mil”. UM MONARCA INTEMPERANTE O banquete de Belshazzar tomou lugar no mês de Tammuz, (o quarto mês do ano, correspondente a junho-julho do calendário Gregoriano) e foi realizado em homenagem anual a Tammuz, “um deus de origem Sumeriana cuja adoração espalhara-se pelo mundo antigo. Era êle o deus das pastagens e rebanhos, o pastor celestial, que morria anualmente e ressuscitava para nova vida cada ano depois de Ishtar, sua esposa e irmã, descer ao mundo inferior e trazê-lo novamente à vida. A comemoração de Tammuz era um dos festivais vastamente celebrados entre os antigos semitas. Nos tempos de Ezequiel o culto de Tammuz havia penetrado em Judá, e mulheres hebréias, certa feita, pranteavam aquêle deus nas portas do templo;1 consequentemente deviam elas ter cumprido os ritos ligados à sua morte anual”.2 (Ver apêndice, nota 1). Segundo o versículo trinta, o festival de Belshazzar, em honra de Tammuz, tomou lugar à noite, e isto confirma com o relato histórico seguinte: “Xenofonte preservou a tradição de que ao tempo da queda de Babilônia, um certo festival tinha tomado lugar em Babilônia,
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Ezequiel 8:13-14. Seventh-Day Adventist Bible Dictionary, art. Tammuz.

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durante o qual todos em Babilônia costumavam beber e festar durante a noite tôda”.1 O rei Belshazzar mostrou bastante insensatez em realizar o seu banquete-orgia sem levar em conta o exército inimigo de Ciro que cercava Babilônia, o último baluarte de pé do império caldeu que ainda não caíra nas mãos do vitorioso conquistador. O perigo, porém, não importava ao licencioso rei de Babilônia; o que para êle era de capital importância era a sua ruidosa orgia, pois se a adiasse poderia cair no desagrado daquele deus, em cuja homenagem o festival fôra empreendido com o máximo de esplendor. Sua atitude, porém, redundou na perda de sua vida e na queda do seu império. A absorvente festa de Tammuz despreocupou Belshazzar em absoluto da possibilidade da queda de sua capital sob as tropas de Ciro, a despeito dêste o ter derrotado, fazia pouco, em Opis, e a seu pai, Nabonidos, em Sippar. Além de tudo Babilônia estava circundada por poderosas muralhas consideradas inexpugnáveis e, segundo seus cálculos, não havia, portanto, coisa alguma a temer. Pretendia segurança dentro dos maciços muros com suas poderosas portas de bronze, havendo além disso abundantes provisões em estoque. Daí crêr-se Belshazzar seguro, podendo respirar e dormir tranquilo com os que com êle jaziam na cidade, como se nenhum inimigo velasse em tôrno de Babilônia. Mas ignorava que no sentimento de segurança estriba-se grande perigo. De cada lado do rio, no interior da cidade, haviam também muralhas de grande altura e de espessura igual às que circundavam a cidade. Nestas muralhas haviam portas de bronze que, quando fechadas e custodiadas, impediam a entrada, pelo rio, ao interior da metrópole. Porém, as portas dêstes muros do rio foram deixadas abertas naquela noite de festa. Ninguém se deu conta, naquela noite, de que as referidas portas estivessem abertas. Porém, a despreocupação total com as defesas internas da cidade e a integração de todos na orgia daquela noite de dissipação, custou aos babilônios o seu reino e a sua liberdade. A festa de Tammuz podia processar-se normalmente e sem o mínimo perigo, tal como nos anos anteriores. Quando naquela trágica noite o rei fôra avisado de negócios graves e urgentes que demandavam solução imediata, sua orgulhosa e jatanciosa resposta de segurança própria foi esta: “Para amanhã os
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Seventh-Day Adventist Bible Commentary, pág. 801.

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negócios graves”. Mas o “amanhã” jamais surgiu para o voluptuoso monarca! “Em seu orgulho e arrogância, com um temerário senso de segurança, Belshazzar “deu um grande banquete a mil dos seus grandes, e bebeu vinho na presença dos mil”. Tôdas as atrações que a riqueza e o poder podem proporcionar, acrescentavam esplendor à cena. Belas mulheres com seus encantos estavam entre os hóspedes em atendimento ao banquete real. Homens de gênio e educação estavam presentes. Príncipes e estadistas bebiam vinho como água, e se aviltavam sob sua enlouquecedora influência, A razão destronada pela despudorada intoxicação, os mais baixos impulsos e paixões agora em ascendência, o rei em pessoa tomou a dianteira na desbragada orgia”.1 Daniel, testemunha ocular do festim de Belshazzar, o descreve como “um grande banquete”. É declarado alhures que o palácio festal era tão largo como três vêzes a frente da igreja de S. Pedro em Roma. Isto se harmoniza plenamente com o relato do profeta, e ainda com a sua declaração de que haviam presentes “mil dos seus grandes”, além de ímpios e muitas mulheres. Uma das descobertas arqueológicas em Babilônia foi a de um grande palácio — não distante da entrada do rio Eufrates na cidade pelo norte, no qual havia um “hall” medindo cêrca de 52 metros de cumprimento por 18 de largura e 20 de altura. Êste imenso “hall” parece muito provavelmente ter sido o local, naquele palácio, do banquete de Belshazzar naquela fatal noite babilônica, pois, em local algum da cidade havia outro “hall” bastante vasto para acomodar um milhar de convivas, além das mulheres presentes. E para enfatizar esta crença, uma das mais belas estruturas de Babilônia, a famosa porta “Istar”, que dava acesso ao interior da cidade, estava localizada exatamente nas proximidades do aludido palácio. Ora, como vimos, a lendária “Istar” era a esposa do lendário Tammuz; e a verdade de que a porta com seu nome estava junto do palácio em referência, confirma que o festim de Belshazzar, em honra a Tammuz, esposo de “Istar”, fôra nêle realizado. A rapidez da tomada do palácio pelas tropas de Ciro naquela fatídica noite, é evidente afirmativa de que o banquete do rei realizou-se no palácio em aprêço, localizado, como apreciamos, próximo por onde entrou o grosso das tropas de Ciro, o vitorioso conquistador. Certamente sabia Ciro que o banquete realizava-se
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 523.

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naquele palácio e concentrou, sem dúvida, maior número de tropas naquelas proximidades da entrada do Eufrates, para a penetração imediata sob as muralhas, à diminuição das águas do Eufrates, e fazer capitular Babilônia incontinente pela tomada do palácio, o que ocorreu tão ràpidamente que as fôrças de Belshazzar só tomaram conhecimento da façanha quando nada mais havia a fazer, pois já estavam cercadas e vencidas sem batalha. A despudorada comemoração de Tammuz, enuncia Daniel, fôra regada de abundante vinho, Um indivíduo é citado por nome como sendo intemperante número um em meio a seus centenares de convivas — Belshazzar. É bastante enfática a alusão de que o rei “bebeu vinho na presença dos mil”. Isto parece referir que o costume da côrte de Babilônia, como o da côrte Medo-Persa, era que o rei, em ocasiões de festas comemorativas, comia e bebia geralmente em um separado “hall”, e somente em ocasiões muito especiais, participava conjuntamente com seus convidados. A festa da última noite da vida de Belshazzar que estamos considerando, foi evidentemente uma ocasião especial em que o soberano preferiu reunir-se com seus cortezões e grandes do reino para dela participar — “bebendo na presença dos mil”. Sem dúvida esta declaração, como vimos, apresenta Belshazzar como o grande intemperante dentre os presentes e o maior alcoólatra de todos os circunstantes. O alcoolismo o fizera seu escravo, e não nos maravilha a sua recusa aberta e decisiva das evidências da manifestação do poder de Deus mesmo no seio de sua família. UM ATREVIDO SACRILÉGIO VERSOS 2-4: — “Havendo Belshazzar provado o vinho, mandou trazer os vasos de ouro e de prata, que Nabucodonosor, seu pai, tinha tirado do templo que estava em Jerusalém, para que bebessem por êles o rei, e os seus grandes, e as suas mulheres e concubinas. Então trouxeram os vasos de ouro, que foram tirados do templo da casa de Deus, que estava em Jerusalém, e beberam por êles o rei, os seus grandes, as suas mulheres e concubinas. E beberam o vinho, e deram louvores aos deuses de ouro, e de prata, de cobre, de ferro, de madeira, e de pedra”. BELSHAZZAR — SÍMBOLO DO ALCOOLISMO Se o primeiro versículo declara que Belshazzar bebeu vinho na presença de seus mil grandes, êste segundo versículo revela quanto 253

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vinho êle bebeu: “Estando pois já cheio de vinho...” Uma outra versão diz: “Quando arrebatado pelo vinho...”1 Aí está o desastroso estado a que chegara um rei em presença de sua côrte num festival em palácio! O demônio do vinho o saturou; arrebatou-lhe os controles; solapou-lhe a decência, a moral, a dignidade, a honra real, e o outrora reverenciado monarca perdera o respeito diante de seus cortezões! Agora, sob a influência do vinho e revelando-se verdadeiro representante do deturpante alcoolismo babilônico, estava o rei Belshazzar preparado para surpreender o mundo de seus dias e de todo o futuro, com um vil sacrilégio que lhe custou a perda do trono e da vida. Em verdade, como um infeliz escravo das paixões da carne e do álcool, estava agora qualificado para ofender, desacatar e vilipendiar o Todopoderoso cujo infinito poder não ignorava. O SACRILÉGIO DE BELSHAZZAR Cambaleante, com a razão destronada, ordena o rei Belshazzar que tragam os vasos sagrados do templo de Deus, que Nabucodonosor havia conduzido de Jerusalém a Babilônia, para que por êles bebesse vinho conjuntamente com seus príncipes e suas depravadas concubinas. Essas mulheres, certamente componentes do harém babilônio, eram moralmente desqualificadas. A História não registrou até ao presente um mais ousado ato cometido com todos os requintes de arrogância como êste do rei Belshazzar. Mas êle quis demonstrar e provar que nada era demasiado sagrado que suas mãos não pudessem tocar. Êle intencionalmente desprezou a Deus de cujo templo eram aqueles vasos. Em sua insolência insultou publicamente o Rei do Céu. Os sagrados vasos foram incontinentemente trazidos e por êles todos os circunstantes, por ordem do rei, beberam vinho abundante. Num ruidoso delírio, numa insana loucura, ergueram todos tresloucados gritos de louvores a “seus deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra”. Com êste vil ato de “delirium tremens”, pretenderam o monarca e seus grandes provar a supremacia dos deuses de Babilônia sôbre o Deus de Israel. Todavia esta insolente pretenção se converteria logo em amargo juízo fatal para todos aqueles ousados pagãos.
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Tradução de James Moffatt, Daniel 5:2.

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A RESPOSTA DO TODO-PODEROSO AO REI BELSHAZZAR VERSOS 5-6: — “Na mesma hora apareceram uns dedos de mão de homem, e escreviam, defronte do castiçal, na estucada parede do palácio real; e o rei via a parte da mão que estava escrevendo. Então se mudou o semblante do rei, e os seus pensamentos o turbaram: as juntas dos seus lombos se relaxaram, e os seus joelhos bateram um no outro”. QUANDO TUDO PARECIA FELICIDADE E SEGURANÇA Quando a felicidade do rei e de seus hóspedes parecia total; quando os deuses do reino afiguravam-se-lhes triunfantes; quando o vinho era sorvido sob delirante júbilo nos sagrados vasos, — então o invisível vigia manifestou a sua presença na festa de Belshazzar. Bastava já de ofensas ao céu e Àquele em cujas mãos estava a vida daqueles depravados foliões. Deus vai até certo ponto com o ousado transgressor; suporta suas blasfêmias e impropérios a Êle até que a taça transborde; depois disso — por ter sido rejeitado todo o remédio divino — então se manifesta como Juízo para julgar e sentenciar. Se os blasfemos modernos foliões do século XX pensassem ao menos um pouco no licencioso e ébrio festim de Belshazzar e suas imediatas consequências fatais, estremeceriam em face de suas próprias práticas sociais deletérias, ofensivas e desafiantes a Deus. Mas parece terem o mesmo espírito de corrupção e manifestar o mesmo decidido desacato ao céu que manifestaram aqueles babilônicos, — que só viram o mal quando não havia mais escape da inapelável sentença do supremo Juiz por êles vilmente ofendido. UM VALENTÃO REDUZIDO A NADA “Mal imaginava Belshazzar que havia uma Testemunha celestial de sua grosseira idolatria; que um divino Vigia, incógnito, olhava a cena de profanação, ouvia a sacrílega hilaridade, contemplava a idolatria. Mas logo o Hóspede não convidado fêz sentir a Sua presença. Quando a orgia ia alta, uma pálida mão apareceu, e traçou na parede do palácio caracteres que luziram como fogo — palavras 255

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que, embora desconhecidas ao vasto auditório, eram um presságio de condenação ao rei, agora ferido em sua consciência, e seus hóspedes. “Cessou a ruidosa festa, enquanto homens e mulheres, possuídos de inaudito terror, observavam a mão traçando os misteriosos caracteres. Perante êles passaram-se, como numa visão panorâmica, as obras de suas vidas más; parecia-lhes estarem citados ante o tribunal do eterno Deus; cujo poder êles acabavam de desafiar. Onde apenas poucos momentos antes havia hilariedade e ditos blasfemos, viam-se agora faces pálidas e exclamações de terror. Quando Deus faz os homens tremer, êles não podem ocultar a intensidade dêsse terror. “Belshazzar era o mais aterrorizado de todos. Era êle que, sôbre todos os demais, tinha sido responsável pela rebelião contra Deus, que nessa noite alcançara o seu apogeu no domínio babilônico. Na presença da invisível Testemunha, representante d’Aquele cujo poder tinha sido desafiado e cujo nome fôra blasfemado, o rei sentiu-se paralisado de temor. A consciência despertou. As juntas dos seus lombos se relaxaram, e os seus joelhos bateram um no outro”. Belshazzar se levantara impiamente contra o Deus do Céu, e tinha confiado em seu próprio poder, não supondo que alguém ousasse dizer: “Por que fazes isto?” Mas agora, sentia que precisava prestar contas de sua mordomia, e que por suas oportunidades malbaratadas e desafiadora atitude não podia apresentar escusas. Em vão o rei procurou ler as letras de fogo. Mas ali estava um segrêdo que êle não podia compreender e um poder que êle não podia nem compreender e nem contestar”.1 Ao retirar-se aquela misteriosa mão, os rostos empalideceram e gritos de terror se faziam ouvir confusos. O pânico tomara conta daquela impúdica assembléia em presença de um enigma que não podiam decifrar. Sentem, porém, chegado ó momento da prestação de contas e de terem dissipado tôda a oportunidade para estarem fora de tão fatal situação. Trementes e apavorados, trocam o blasfemo tumulto pela ansiedade e angustiosa espectativa. O desprezível sacrilégio era o próprio pregoeiro da catástrofe iminente. Daqui a pouco os desafiadores modernos de Deus verão não simplesmente u’a mão traçando-lhes a condenação, senão que verão o próprio supremo Juiz em pessoa, — descendo à terra, — não mais para anunciar-lhes a sentença futura tantas vêzes já anunciada, mas para executá-la inexorável. Na profecia de Apocalipse, capítulo seis,
1

Profetas e Reis, E. G. White, págs. 524, 527.

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versículos quinze e dezessete, depara-se-nos o indizível quadro da aflição destes babilônios do século XX, num desesperado esforço de fuga inútil do olhar chamejante e fulminante do eterno Juiz tantas vêzes recusado e blasfemado. Aproxima-se rápido o momento do ajuste e da vindicação da honra do Todo-poderoso desdenhosamente ultrajado. A CONVOCAÇÃO DOS INCOMPETENTES SÁBIOS VERSOS 7-9: — “E ordenou o rei com fôrça, que se introduzissem os astrólogos, os caldeus e os adivinhadores: e falou o rei, e disse aos sábios de Babilônia: Qualquer que ler esta escritura, e me declarar a sua interpretação, será vestido de púrpura, e trará uma cadeia de ouro no pescoço, e será, no reino, o terceiro dominador. Então entraram todos os sábios do rei; mas não puderam ler a escritura, nem fazer saber ao rei a sua interpretação. Então o rei Belshazzar perturbou-se muito, e mudou-se nêle o seu semblante; e os seus grandes estavam sobressaltados”. ALTAS HONRAS EM TROCA DA INTERPRETAÇÃO Em desespêro de causa volta-se Belshazzar aos sábios do reino, na esperança de que êles, que pretendiam desvendar todos os mistérios e solver as dúvidas e problemas, aliviassem a tensão que a todos os circunstantes envolvia. A grandes brados — como um desvairado e alucinado — convoca a urgente presença dos sábios credenciados da côrte. O rei lhes promete as mais altas honras se porventura lessem a escritura: Veste de púrpura, cadeia de ouro ao pescoço e a prerrogativa de ser o terceiro governador no reino. Mas nada adiantariam seus apelos e promessas de ricas recompensas a seus acreditados “sapientes” conselheiros. “A sabedoria celestial não pode ser comprada ou vendida” por seres humanos; não pode ser exigida de quem com ela se desarmoniza e muito menos pode ela depender de custosos e honrosos prometimentos de quem se recusa estar em boas relações com o céu, — como era o caso do rei Belshazzar de Babilônia. O FRACASSO DOS SÁBIOS DE BABILÔNIA Os sábios entram em massa no recinto da festa. Olham a fulgurante escritura na parede do palácio. Ficam atônitos, perplexos. Estavam diante duma incógnita jamais deparada. Ali estavam 257

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caracteres completamente desconhecidos na linguagem humana. Ficam como que petrificado; diante dum milhar de angustiados espectantes. O fracasso de tais sábios fôra evidente, completo e decepcionante. Fôra desmascarada a sabedoria do homem diante da revelação de Deus. Na verdade aquela divina escritura não era para sabedoria humana ler e interpretar. Homens separados da fonte suprema da sabedoria jamais poderão entender a revelação sobrenatural. A derrocada dos embusteiros sábios foi total e humilhante em presença daquela grande assembleia tremente que esperava dêles uma solução satisfatória, já que se arrogavam sumidades em decifrar mistérios. A falha “in totum” dos sábios de Belshazzar foi idêntica à dos sábios de Nabucodonosor 65 anos antes, como podemos apreciar na dissertação do segundo capítulo. A flagrante derrota dos “entendidos” alarmou sobremaneira o já assombrado rei Belshazzar. O fracasso redondo dos chamados sábios foi humilhante e depreciativo e revelou que sábios não eram. Os considerados sumamente “sapientes” revelaram-se sumamente ignorantes. A consternação e a ansiedade tomaram posse de todos os presentes. Se os tidos como eminentes em quaisquer problemas falharam fragorosamente em tão angustiantes circunstâncias, a quem mais apelar então? A situação, tanto no que concernia ao rei como aos seus grandes convidados, era de caos absoluto. As perspectivas se lhes afiguravam sombrias e pressagiavam um fim iminente, inexorável e fatal. O desespêro apossou-se de imediato daqueles que há poucos instantes se demonstraram tão valentes e ousados em desafiar o Soberano do universo e profanar desdenhosa e deliberadamente os sagrados vasos de Seu santo templo. Cumpriu-se o que mais tarde pregou São Paulo: “Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará”.1 Estava evidente, pois, a terrível colheita da ousada semeadura. A RAINHA-MÃE SOLVE O PROBLEMA VERSOS 10-12: — “A rainha, por causa das palavras do rei e dos seus grandes, entrou na casa do banquete: e falou a rainha, e disse: ó rei vive para sempre! não se turbem os teus pensamentos, nem se mude o teu semblante. Há no teu reino um homem, que tem o espírito dos deuses santos; e nos dias de teu pai se achou nêle luz, e
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Gálatas 6:7.

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inteligência, e sabedoria, como a sabedoria dos deuses; e teu pai, o rei Nabucodonosor, sim, teu pai, ó rei, o constituiu chefe dos magos, dos astrólogos, dos caldeus, e dos adivinhadores, porquanto se achou neste Daniel um espírito excelente, e ciência e entendimento, interpretando sonhos, e explicando enigmas, e solvendo dúvidas, ao qual o rei pôs o nome de Belshazzar: chame-se pois agora Daniel, e êle dará a interpretação”. CARTA BRANCA A SOBERANA A rainha aqui aludida não era a esposa de Belshazzar que, certamente, tomava parte com êle naquela desprezível orgia. Pelo que tudo indica, segundo o contexto, era a mãe dêste degenerado rei, a esposa de seu pai Nabonidus e filha de Nabucodonosor. Ela não tomou parte no banquete. Como testemunha do poder de Deus manifesto em favor de seu pai no passado, provàvelmente O servia, razão porque não estivera presente no desonroso folguedo. Mas ela “entrou na casa do banquete”, diz o texto sacro, ao tomar conhecimento do problema que angustiava o filho e os que com êle se banqueteavam. Como rainha-mãe, podia, de acordo ao costume oriental, entrar à presença do rei sem prévia anunciação ou convocação. Não gozava dêste direito a esposa do monarca; o seu comparecimento à presença do rei, seu próprio marido, dependia de ser por êste admitida.1 Nada disso acontecia quanto à rainha-mãe que tinha na corte tôda a regalia. A velha cortezã, entrando, procurou acalmar o filho rei e dar-lhe esperança. Em seguida foi dizendo com entusiasmo: “Há no teu reino um homem...” Um homem apenas em todo o vasto reino de Belshazzar! Portanto, havia crise de homens verdadeiramente homens naquela realeza! Não era uma crise rara, mas comum não só ao tempo de Babilônia como em todos os tempos dos séculos. Mesmo em pleno pujante século XX permanece a crise de homens; e os acontecimentos mundiais evidenciam lamentavelmente esta triste realidade. Faltam homens nos lares, nas escolas, nas igrejas e nos passos governamentais. Faltam homens em tôda a parte e a civilização cambaleia em seus alicerces rumo ao abismo por falta de homens verdadeiramente homens, homens de caráter.

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Ester 4:11, 16.

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Lá na antiga Grécia, Diógenes, o celebrado filósofo do quarto século a.C., procurava, de lanterna em punho em pleno brilho do sol de meio-dia, pelas ruas de Atenas, “um homem”. Dizia êle aos seus admirados interlocutores: “Ando à procura de um homem”. Havia crise de homens na velha Grécia. A rainha-mãe de Babilônia nem a seu próprio filho Belshazzar reconhecia como “um homem”! O homem com o qual ela não se enganara e que bem o conhecia, “tem o espírito dos deuses santos”, declarou. Isto mesmo também dissera Nabucodonosor, anos atrás, do mesmo homem.1 “Um homem”, continuou a rainha, no qual “se achou luz, e inteligência, e sabedoria, como a sabedoria dos deuses”. “Um homem”, afirma a velha soberana, que tinha “um espírito excelente, e ciência e entendimento, interpretando sonhos, e explicando enigmas, e solvendo dúvidas”. “Um homem”, diz ela ainda, que “teu pai, ó rei, o constituiu chefe dos magos, dos astrólogos, dos caldeus, e dos adivinhadores”. Era indubitavelmente Daniel a que se referia a rainha, e seu apêlo confiante foi êste: “Chame-se pois agora Daniel, e êle dará a interpretação”. Ela não tinha quaisquer dúvidas sôbre a capacidade de Daniel em resolver o problema da escritura de fogo da parede do palácio. Conhecia pessoalmente o servo de Deus quase já há meio século, tempo em que testemunhara maravilhas na côrte de seu pai operadas por Êle. Ela o admirava sobremaneira e ainda a impressionava a sua celestial sabedoria. Não é de maravilhar que a rainha-mãe servisse o verdadeiro Deus, que tantos prodígios seus se deparassem na côrte de Babilônia, através de Daniel, o Seu embaixador naquele reino. UM ANGUSTIANTE APÊLO A DANIEL VERSOS 13-16: — “Então Daniel foi introduzido à presença do rei. Falou o rei, e disse a Daniel: És tu aquêle Daniel, dos cativos de Judá, que o rei, meu pai, trouxe de Judá? Tenho ouvido dizer a teu respeito que o espírito dos deuses está em ti, e que a luz, e o entendimento e a excelente sabedoria se acham em ti. Acabam de ser introduzidos à minha presença os sábios e os astrólogos, para lerem esta escritura, e me fazerem saber a sua interpretação; mas não puderam dar a interpretação destas palavras. Eu porém tenho ouvido dizer de ti que podes dar interpretações e solver dúvidas: agora, se

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Daniel 4:8.

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puderes ler esta escritura, e fazer-me saber a sua interpretação, serás vestido de púrpura, e terás cadeia de ouro ao pescoço, e no reino serás o terceiro dominador”. DANIEL TRATADO COMO SIMPLES CATIVO Sem excitação e delongas mandou Belshazzar chamar aquêle sábio conselheiro cujos conselhos êle havia desprezado. Deseja o rei, antes de mais nada, saber do próprio Daniel se êle era “aquêle Daniel dos cativos de Judá”, levados a Babilônia por Nabucodonosor. O mal educado governante desgovernado, trata a Daniel como um simples cativo, posto que a rainha o tinha apresentado como um homem notável, uma grande figura, uma perfeita sumidade, uma vida, aliás, moldada por influências sobrenaturais. O ébrio rei revela ignorar totalmente a Daniel, quer como primeiro ministro na grande côrte de Nabucodonosor, quer como chefe dos sábios do reino, como disseralhe a rainha-mãe. Certamente Belshazzar e seu pai Nabonidus haviam excluído tôda a influência de Daniel da côrte, possivelmente por politicagem malsã e invejosa. Daí não ser mais o profeta considerado como um grande cortezão, e não ter sido, por isso mesmo, convidado para aquela festa em palácio, embora seja certo que a ela, desonrosa a Deus como fôra, êle não compareceria jamais com ou sem convite. Nos últimos anos do império de Babilônia, muito perdera a sua administração pelo menosprêzo ao profeta de Deus. Posto que Nabucodonosor reinasse brilhantemente durante 43 anos, os cinco soberanos que o sucederam reinaram dentro do curto prazo de apenas 23 anos, em cujos efêmeros reinados muito deixaram a desejar em comparação com o reinado dêle. A côrte colheu amargos frutos na exclusão dos conselhos de Daniel. REVELAÇÃO DE IGNORÂNCIA DO MELHOR Lamentavelmente o rei Belshazzar começa por atestar mais uma vez sua completa ignorância daquele “um homem”. Como podia desconhecer o maior homem de seu reino? Mas era uma verdade; Daniel era ignorado como o maior e melhor homem, homem que havia sido o primeiro e maior cortezão depois do maior monarca daquele império — o rei Nabucodonosor. E a ignorância custou caro àquele ignorante e desmoralizado ébrio monarca. Da ignorância 261

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dizemos ser um dos mais graves pecados e de consequências as mais negras e imprevisíveis. E foi o que sucedeu ao último rei de Babilônia. O que importava àquele derradeiro rei caldeu, não era cercar-se de homens de caráter, mas sim de homens como êle — mundanos, licenciosos, imorais, criminosos, injustos e politiqueiros. Sim, a ignorância voluntária do melhor homem e dos melhores conselhos do Céu através dêle, tiveram sérios e fatais resultados. O REI APRESENTA A SUA DIFICULDADE Primeiramente confessa o monarca a sua inaptidão de seus sábios em ler a luminosa escritura. Foi uma palhaçada — não puderam ler e muito menos interpretar os caracteres de fogo. Ao tempo de Nabucodonosor sentenciou êste rei à morte incontinente os seus enganadores sábios que também falharam vergonhosamente como agora os de Belshazzar, alguns dos quais deviam ser daqueles derrotados de outrora. Mas na verdade o problema não era para a corrupta sabedoria humana e para os corruptos pretensos sábios humanos darem qualquer solução satisfatória. A rainha dissera enfàticamente a Belshazzar: “Chame-se pois agora Daniel e êle dará a interpretação”. O frio monarca, porém, disse ao profeta: “Agora, se podes ler esta escritura, e fazer-me saber a sua interpretação...”! Êle duvidou do caloroso testemunho de sua mãe, a rainha que bem conhecia o servo de Deus. Além disso, pela decepção que lhe causaram os homens tidos como respeitáveis sábios de Babilônia, já não podia ter certeza plena na sabedoria dum idoso e humilde cativo hebreu. Por outro lado, parece que se desinteressou, no passado, pelo homem que solvia as misteriosas questões que acarretavam a côrte de seu avô, pelo que o desconhecia totalmente e nêle não podia exercer confiança numa hora de tamanha crise, crise esta que desmascarou a farsa da sabedoria de seus sábios. Todavia Belshazzar arriscaria entregar o caso nas mãos do humilde cativo! Fêz-lhe os mesmos prometimentos que fizera aos sábios derrotados por aquela misteriosa frase sobrenatural: Veste de púrpura — emblema de altos serviços; cadeia de ouro ao pescoço — alta condecoração da côrte; e a honra de ser o terceiro governador do reino. Eis as recompensas em troca da solução do mistério. Esta última prerrogativa jamais seria cumprida, pois o reino estava já em estado de coma. Os medas e persas já se haviam de tudo apossado. Restava apenas a capital, através de cujo derradeiro baluarte receberia 262

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o reino naquela mesma noite o golpe de misericórdia dos vitoriosos soldados de Ciro. Entretanto, o oferecimento a Daniel da dignidade de terceiro governador, comprova que Nabonidus era o primeiro soberano e Belshazzar, seu filho, o segundo. DANIEL — UM CRISTÃO INÉDITO VERSO 17: — “Então respondeu Daniel, e disse na presença do rei: Os teus dons fiquem contigo, e dá os teus presentes a outro; todavia lerei ao rei a escritura, e lhe farei saber a interpretação”. DANIEL NÃO SE DEIXA CORROMPER Raramente um homem age como agiu Daniel em face de tão ricas ofertas e tão grandes honras. Mesmo um moderno cristão dificilmente agiria hoje como êle e até em se tratando de coisas sagradas. Não são hoje vendidas as próprias graças da religião cristã pelo vil metal? Como embaixador do céu na terra, não se corromperia Daniel pelo sacrilégio de aceitar peitas quando no desempenho de sua inspirada missão no mundo. Não é próprio que um ministro da justiça ame a Deus e a Mamon. As coisas celestiais e as bênçãos de Deus não são negociatas como muitos entendem em pleno século XX. DANIEL ENTRA NA HORA CERTA Aquela hora era a hora de Daniel. Era a hora de se apresentar, não como um ébrio cortezão sem moral como os circunstantes daquela ímpia orgia de Tammuz — mas propriamente como um cortezão do alto, um embaixador honrado da côrte do Todo-poderoso Deus. Primeiramente deviam ser desmascarados os falsários e a embusteira sabedoria para então se manifestar o verdadeiro representante pessoal do Céu em Babilônia bem como a sabedoria do céu. Pelo fracasso porque passaram não receberam os sábios os presentes e honras do rei. E na verdade Daniel também não os receberia! E porque também não os receberia êle? Porque êle mesmo os rejeitou. Daniel não ofenderia a seu Deus desonrando-o e dando dÊle um mau testemunho na aceitação de pagas “simoníacas” que mancham e vilipendiam o ministério do evangelho de seu senhor. Êle foi enfático e decisivo: “Os teus dons fiquem contigo, e dá os teus 263

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presentes a outros”. Todavia, para conservar mãos limpas como portavoz de Deus na terra, e não assemelhar-se aos sábios que nenhuma sabedoria tinham — leria a inquietante escritura e daria a sua interpretação, sem exigir ou aceitar recompensas corruptoras. Com a recusa da paga, revelou Daniel um caráter nobilíssimo e limpo. Revelou sua decisão em não cair na tentação econômica corruptora da sagrada missão do evangelho. REVIVENDO A EXPERIÊNCIA DE NABUCODONOSOR VERSO 18-21: — “Ó rei! Deus, o Altíssimo, deu a Nabucodonosor, teu pai, o reino, e a grandeza, e a glória, e a magnificência. E por causa da grandeza, que lhe deu, todos os povos, nações e línguas tremiam e temiam diante dêle: a quem queria matava, e a quem queria dava a vida; e a quem queria engrandecia, e a quem queria abatia. Mas quando o seu coração se exalçou, e o seu espírito se endureceu em soberba, foi derribado do seu trôno real, e passou dêle a sua glória. E foi tirado dentre os filhos dos homens, e o seu coração foi feito semelhante ao dos animais, e a sua morada foi com os jumentos montezes; fizeram-no comer herva como os bois, e pelo orvalho do céu foi molhado o seu corpo, até que conheceu que Deus, o Altíssimo, tem domínio sôbre os reinos dos homens, e a quem quer constitue sôbre êles”. UM SÉRIO PARTICULAR COM BELSHAZZAR Antes de lêr e interpretar a aterradora setença Daniel chamou a atenção do rei para sérios assuntos que lhe eram bem familiares, mas que, desgraçadamente, não os levara em conta para dêles aprender as lições de humildade que poderiam tê-lo salvo do momento fatal em que se encontrava em seu desonroso festival. Lembrou Daniel ao aterrado monarca a glória e a magnificência de seu avô Nabucodonosor, no trôno de Babilônia, resultantes das abundantes e evidentes bênçãos de Deus. Tôda a terra tremia e temia aos pés do grande rei. Êle engrandecia e abatia os homens como bem desejava, e até a vida concedia ou negava a quem queria. Nabucodonosor era senhor absoluto na terra graças à vontade de Deus e a concessão de Seu poder. Daniel falou também ao atônito monarca dos pecados do rei Nabucodonosor. Aludiu claramente à tremenda experiência do referido soberano ao ser severamente humilhado e punido em seu orgulho pelo juízo de Deus, tendo sido convertido num semi264

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irracional, sendo levado a viver entre os brutos, comer com êles da herva do campo e ser molhado pelo orvalho do céu. E êste infeliz estado durou, diz Daniel, até que o grande rei, humilhado ao pó, “conheceu que Deus, o Altíssimo, tem domínio sôbre o reino dos homens, e a quem quer constitue sôbre êles”. E acrescenta Daniel que o grande rei, terrivelmente abatido, reconheceu afinal a supremacia de Deus do Céu sôbre todos os soberanos da terra, foi então restaurado ao trôno, recuperou novamente sua glória e poder, e entregando-se, desta vez, ao Deus do Céu ao qual honrou e serviu irrevogàvelmente até ao fim de sua vida. OS GOVERNANTES DO SÉCULO EM PERIGO Se alguns dos governantes do mundo atual levassem em conta o trato de Deus com o rei Nabucodonosor e perante Êle se humilhassem e incondicionalmente, se submetessem, como aquele rei o fez, ante as evidências do poder e supremacia do Altíssimo, então não teriam o destino desastroso e funesto que teve o último rei do império caldeu. Tudo indica, entretanto, que estão seguindo de mãos dadas como Belshazzar rumo ao abismo. Os potentados que a Deus não reconhecem como fonte de poder supremo e Senhor absoluto do mundo e a Êles não se submetem para receberem do Seu poder afim de governarem seus povos com sabedoria e justiça, estão caminhando irrevogàvelmente para o mesmo desfêcho fatal que liquidou Belshazzar para a eternidade. BELSHAZZAR ENCHEU A MEDIDA VERSOS 22-24: — “E tú, seu filho Belshazzar, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto. E te levantaste contra o Senhor do Céu, pois foram trazidos os vasos da casa dÊle perante ti, e tu, os teus grandes, as tuas mulheres e as tuas concubinas, bebestes vinho por êles; além disto, deste louvores aos deuses de prata, de ouro, de cobre, de ferro, de madeira e de pedra, que não vêem, não ouvem, nem sabem; mas a Deus, em cuja mão está a tua vida, e todos os teus caminhos, a Êle não glorificastes. Então dÊle foi enviada aquela parte da mão, e escreveu-se esta escritura”.

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“NÃO HUMILHASTE O TEU CORAÇÃO” Daniel fôra ordenado por Deus a transmitir ao rei Belshazzar uma mensagem de condenação irrevogável. O orgulhoso soberano trocara a salvação eterna pelas efêmeras honras corrutoras do mundo e pelas enlouquecedoras concupiscências da carne de pecado. Jogou o reino e particularmente a sua vida no abismo da destruição. Despresou áureas oportunidades que lhe valiam a vida eterna. Afinal, ali estava o resultado da ímpia procrastinação. Semeara ventos e agora colhia tempestades. Sente que Deus não o atura mais e vê com os próprios olhos a mão chamejante do indiscutível e inadiável juízo divino. Belshazzar tornou-se um protótipo de todos os indivíduos que, depois de terem tôda a evidência da Onipotência de Deus, recusam-se ousadamente serví-1’O; dos que preferem o mundanismo; dos que escolhem a concupiscência carnal; dos que amam as orgias da perversidade. Há numerosos “Belshazzares” em pleno presente século, que logo serão surpreendidos, não por uma simples mão pregoeira do juízo, mas pelo juíz mesmo em pessoa, em Sua majestade, glória e poder. Depois de Daniel referir-se ao dramático caso de Nabucodonosor e sua inteira submissão a Deus, diz com muita ênfase e solenidade a Belshazzar: “E tu, seu filho Belshazzar, não humilhaste o teu coração, ainda que soubeste tudo isto”. Sem dúvida é um atrevido desafio o vil mortal conhecer o seu dever perante o Todo-poderoso e rechassá-1’O. Virar as costas ao Senhor do universo significa jogar-se no cáos da perdição. O rei Belshazzar agiu temeràriamente ante as irrefragáveis e abundantes provas do poder do Eterno Rei, infinitamente mais poderoso do que êle. Não humilhou o seu coração, embora sabedor através da vida e reinado de Nabucodonosor, seu avô, das grandiosas maravilhas de Deus. Agora colhia o fruto fulminante da sua diabólica loucura em trocar a verdade divina e os caminhos divinos pela maldade corruptora do pecado. A enormidade de sua culpabilidade perante o Céu levou-o a uma desastrosa morte prematura. Colheu êle a terrível recompensa do ultrage e do sacrilégio à pessoa do Altíssimo Deus e do descaso à sua Onipotência. Quando um indivíduo ignora suas responsabilidades para com o Supremo Rei do Céu, já é culpado por ignorá-las. Como poder viver nos domínios do Todo-poderoso Rei Eterno e ignorar o seu dever como cidadão de Seu reino? Quando, porém, um indivíduo está côncio 266

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das referidas responsabilidades e contra elas se insurge, como fizera o rei Belshazzar, então assume uma atitude para a qual não há esperança. A esperança para Belshazzar encerrou-se quando êle encheu a medida na noite de seu trágico festival em palácio, dedicado a um deus falso. Êle voltou definitivamente costas ao Céu e foi alvejado em cheio pelo juízo divino. Emitido em sua juventude a partilhar da autoridade real, Belshazzar se gloriou de seu poder, e exaltou-se em seu coração contra o Deus do Céu. Permitiu que o amor dos prazeres e a glorificação do eu obliterassem as lições que jamais devia ter esquecido. Êle malbaratou as oportunidades que graciosamente lhe foram dadas, e negligenciou o uso dos meios que estavam ao seu alcance para se tornar mais amplamente familiarizado com a verdade. Aquilo que Nabucodonosor tinha finalmente alcançado a preço de inauditos sofrimentos e humilhação, Belshazzar passou por alto com indiferença. E o mesmo destino dêste ímpio rei aguarda a todos quantos, com êle, se decidem contra Deus, contra a Sua lei e contra a Sua verdade — recusando-se deliberada e voluntariamente a serví-1’O em justiça. Aproxima-se a passos largos o dia do grande ajuste com multidões que recusam honrar o Grande Rei e único Senhor do mundo — Deus. LOUVANDO DEUSES MORTOS Daniel, continuando sua censura ao tresloucado monarca, o acusa de se ter levantado contra Deus profanando os sagrados vasos de seu santo templo em Jerusalém e bebendo por êles vinho conjuntamente com seus depravados cortezões e suas despudoradas mulheres. É também acusado de louvar, êle e os que com êle se prostituíam, “aos deuses de ouro, de prata, de cobre, de ferro, de madeira e de pedra, que não vêem, não ouvem, nem sabem”, e deixar de louvar o verdadeiro Deus, o Deus vivo, em cujas mãos estavam a sua vida e os seus caminhos. Por fim, Daniel acrescenta com muita ênfase: “Então dÊle foi enviada aquela parte da mão, e escreveu-se esta escritura”. Potentados, príncipes e senhores do século XX, lêde o capítulo cinco do livro do profeta Daniel com o mais profundo interêsse e meditação. Ajoelhai-vos diante do Senhor da terra, do qual depende a vossa existência e o vosso poder. Humilhai-vos diante do Todopoderoso Monarca do universo e vivei. Não suceda imitardes o desvairado rei de Babilônia cujo orgulho foi derribado ao pó. Evitai 267

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receberdes o mesmo tremendo prêmio daquele desnaturado rei caldeu. Vosso destino depende de vós, de vossa escolha somente. Ninguém será condenado porque viveu em impiedade ou pecado, mas sim por recusar servir a Deus sob Sua graça — para subsistir. “Agora, pois, ó reis, sêde prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que Se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se inflamar a Sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nÊle confiam”.1 A TEMEROSA SENTENÇA JUDICIAL VERSO 25: — “Esta é pois a escritura que ali está disposta: MANE, THECEL, FARÉS”.2 MANE, THECEL, FARÉS Esta foi a frase deixada na parede do palácio festal de Belshazzar pelo invisível vigia divino. As palavras continuaram a luzir com terrível clareza e ameaça de juízo iminente. Alguns interpretes pretendem que estas três palavras eram “aramáicas”. Mas, neste caso por que os sábios convocados pelo rei não as leram? Certamente êles, principalmente como sábios que eram, deveriam conhecer o aramáico que naqueles dias era idioma corrente no Oriente. Também nenhum dos mil grandes que naquele palácio festejavam Tammuz foi capaz de ler a frase. Fôsse ela composta em língua aramaica ou outra qualquer conhecida no mundo, teria sido entendida imediatamente, pois ali estavam os grandes dominadores das províncias de todo o reino reunidos, vindos de tôda a terra, e portanto nenhum idioma corrente era desconhecido naquela oportunidade. O fato de ninguém poder ler a frase, é prova de ser o idioma daquelas palavra completamente desconhecido do vasto auditório; e, ainda, que a frase constituia-se de “misteriosos caracteres”. Além disso, cada palavra, como veremos, compreendia uma frase, coisa desconhecida nos idiomas humanos daqueles tempos. Se aquelas palavras pertencessem a algum idioma conhecido, não seria necessário Daniel, um homem inspirado por Deus, comparecer para lê-las e interpretá-las. Portanto, cremos terem sido palavras de origem celestial, que só por inspiração poderiam ser lidas e interpretadas por um profeta de Deus.
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Salmos 2:10-12. Tradução de A. P. de Figueiredo, Daniel 5:25.

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A SOLENIDADE DA LEITURA DA FRASE DE FOGO Nunca palavras ou frases tiveram tão grande e decisiva significação como — Mane, Thecel, Farés. Só um Daniel, com a indomável coragem dum fiel porta-vos de Deus, e em meio ao terror e ao tumulto que venceram aqueles ousados foliões, poderia ler e interpretar as assombrosas e temíveis palavras e a terrível condenação que elas encerravam. “Diante desta aterrorizada aglomeração, Daniel, insensível às promessas do rei, permanecia na tranquila dignidade de um servo do Altíssimo, não para pronunciar palavras de adulação, mas para interpretar uma mensagem de condenação”.1 Com a respiração em suspenso — o sacrilego e imoral auditório aguardava atento, apreensivo e espectante a leitura e a interpretação do tremendo mistério. Qual seria a interpretação do ancião profeta? Aprovação ou condenação do festival de Tammuz e de seus participantes? A SENTENÇA DO SUPREMO JUÍZ VERSOS 26-28: — “Esta é a interpretação das palavras: Mene: Deus contou os dias do teu reinado, e lhe pôs termo. Thecel: Tu foste pesado na balança e achou-se que tinhas menos do peso. Farés: O teu reino se dividiu, e foi dado aos medos e aos persas”.2 “MENE” “Deus contou os dias do teu reinado, e lhe pôs termo”. Esta é a interpretação de “MENE”. Fim, portanto, ao reinado de Belshazzer, e bem assim ao reino mundial dos caldeus, — fim êste dado pelo próprio Deus. O reino caldeu foi contado por Deus, e por Êle liquidado. De Nabupolasar (625) a Belshazzar (539), temos o equivalente de 86 anos de domínio caldeu no mundo do passado. No plano de Deus, já que este reino, com excesso dos poucos anos desde a conversão de Nabucodonosor até sua morte — não preencheu a razão de ser na história das nacionalidades e dos grandes impérios da terra, devia desaparecer para sempre. Deus contou bem o tempo dêste reino. Contou também a moral, o caráter e o trato deste reino, na pessoa de seus soberanos, para com os seus conquistados súditos.
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 529. Tradução de A. P. de Figueiredo, Daniel 5:26-28.

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Tôda esta contagem pesou ao coração de Deus por deparar uma história de impiedade, de desmoralização, de deboches e de crueldades. Chegou, pois, o momento da intervenção do verdadeiro Soberano no mundo para liquidar as contas e deter aquele indesejável estado de coisas acentuado principalmente pelas últimas cabeças coroadas de Babilônia. O tempo da dominação caldáica na terra, excetuando, como vimos, o pouco tempo da conversão de Nabucodonosor à sua morte, foi inútil para a humanidade. E a intervenção de Deus se manifestou no tempo próprio livrando o mundo dum poder despótico, opressor e desonroso ao Céu. Daniel, com tôda a solenidade, assentou o fato de que Deus foi quem “pôs termo” ao império caldeu. Disto evidenciamos mais uma vez que Deus têm em suas mãos o controle do domínio das nações pelos homens, e, quando êles não preenchem os requisitos do Céu. Êle os substitue ou encerra a história de seus próprios reinos ou nações. Dissera Daniel a Nabucodonosor: “... até que conheças que o Altíssimo tem domínio sôbre o reino dos homens, e os dá a quem quer”. Pensemos nas numerosas nacionalidades dos antigos tempos, cuja história foi encerrada por vontade de Deus. Nos livros dos profetas Isaías, Jeremias e Ezequiel, encontra-se bom número de profecias que praticamente tragaram povos, nações e até impérios inteiros em grande número. Como a soberania mundial de Babilônia, encontraram também o seu “MENE”, e desapareceram por completo da história da civilização humana. A simples determinação do conselho d’Aquele que é o verdadeiro e único Potentado e que rege o destino de todos os reinos e nações da terra, deteu-lhes para sempre a perversa e sanguinária marcha, para exemplo dos que permaneceriam empunhando o cetro do poder. “THECEL” “Tú foste pesado na balança, e achou-se que tinhas menos do pêso”. Esta é a interpretação de “THECEL”. Nunca antes um homem fôra apontado publicamente como culpado diante de Deus e pelo próprio Deus. Jamais de um outro homem foi declarado ao mundo ter sido pesado na balança da justiça divina e ter sido achado em falta. Pensemos o que significa para um ser humano ter menos do pêso da justiça divina de Deus diante do supremo Juiz. Não há notícia de que Deus fizesse questão de publicar ao mundo a condenação de outro homem. Tal o caráter do rei Belshazzar que nem mesmo Deus, — 270

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todo amor e bondade, — pôde mais suportar. O veredito do Céu sôbre o rei de Babilônia foi decisivo, irrevogável e fatal. Êle próprio, porém, criou a sua desastrosa situação e a sua rejeição por parte de Deus. Nunca é Deus que sentencia pròpriamente um pecador. O que Deus faz é simplesmente confirmar a sentença que êle e somente êle lança sôbre si próprio por sua atitude desrespeitosa para com o Senhor, Sua lei e Sua justiça. Sua irresponsabilidade é que fulmina ante o direito do Céu, pisado a pés por êle. Sua desrespeitosa audácia para com Deus é que o priva da vida e da eterna salvação da graça. Todos os indivíduos humanos serão pesados, como Belshazzar, na balança de Deus. Grandes e pequenos, sábios e ignorantes, ricos e pobres, brancos, pretos, amarelos, vermelhos — todos — serão pesados inexoràvelmente na perfeita balança do grande tribunal. Suas próprias obras decidirão do veredito de Deus. Sim, cada um decidirá o seu destino — absolvição ou condenação, vida eterna ou morte eterna. Aquilo que o homem semear, indiscutivelmente colherá.1 “A cada nação que tem surgido no cenário da ação tem sido permitido ocupar o seu lugar na Terra, para que seja comprovado o fato de que ela cumpriu ou não os propósitos do Santo e Vigia. A profecia traçou o surgimento e progresso dos grandes impérios mundiais: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma. Com cada uma delas, bem como com as nações de menos poder, a história tem-se repetido. Cada uma tem tido o seu período de prova; cada uma tem falhado, sua glória fenecido e passado seu poder. “Conquanto as nações tenham rejeitado os princípios de Deus, e nesta rejeição tenham obrado a própria ruína, um divino e soberano propósito tem manifestamente estado a operar através dos séculos. Foi isto que o profeta Ezequiel viu na maravilhosa representação que lhe foi dada durante o exílio na terra dos caldeus, quando ante os seus olhos atônitos foram apresentados os símbolos que revelavam um Poder dominante que trata com os negócios dos soberanos terrestres. “Sôbre as barrancas do rio Quebar, Ezequiel contemplou um vento tempestuoso que parecia vir do norte, “uma grande nuvem, como um fogo a revolver-se; e um resplendor ao redor dela, e no meio uma coisa como côr de âmbar”. Uma porção de rodas intercaladas
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Gálatas 6:7.

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umas nas outras eram movidas por quatro sêres viventes. E por cima de tudo “havia uma semelhança de trôno, como duma safira; e sôbre a semelhança do trôno havia como que a semelhança dum homem, no alto, sôbre êle”. “E apareceu nos querubins uma semelhança de mão de homem debaixo de suas asas”.1 As rodas eram de um arranjo tão complicado, que à primeira vista pareciam uma confusão; não obstante elas se moviam em perfeita harmonia. Sêres celestiais, sustentados e guiados pela mão sob as asas dos querubins, estavam impelindo essas rodas; acima dêle, sôbre o trôno de safira, estava o Eterno, e ao redor do trôno havia um arco-íris, símbolo da divina graça. “Assim como as rodas com aparência tão complicada estavam sob a guia da mão por baixo das asas dos querubins, também o complicado jogo dos eventos humanos está sob divino controle. Em meio as lutas e tumultos das nações. Aquêle que Se assenta sôbre querubins ainda guia os negócios da Terra. “A história das nações fala-nos a nós hoje. Deus tem designado um lugar em Seu grande plano para cada nação e cada indivíduo. Homens e nações estão sendo hoje testados pelo prumo na mão dAquele que não erra. Todos estão por sua própria escolha decidindo o seu destino, e Deus está superintendendo a tudo para a consecucão dos Seus propósitos”.2 Um dos maiores erros que paira sôbre a humanidade, é a falsa concepção de que cada ser humano veio ao mundo com um destino evidentemente traçado por Deus. Todos os defeitos humanos, quer físicos quer morais, são injustamente debitados na conta de Deus. Esta é uma visão errada do santo caráter de Deus e de Seu imensurável amor infinitamente demonstrado no Calvário. A sentença pronunciada sobre Belshazzar liquida com a falsa idéia de desamor atribuída a Deus. Ficou indiscutivelmente assentado em definitivo, que é o pecador que se condena ou se absolve, dependendo de suas obras — boas ou más. O caso de Belshazzar, como declarou Daniel por inspiração de Deus, foi criado e liquidado por êle próprio. A sentença pronunciada pela balança do juízo de Deus contra aquele rei, foi por êle mesmo escolhida como resultante de sua insurreição contra o Altíssimo Deus e Sua justiça.” Seu pêso inferior ao da justiça do Céu deveu-se exclusivamente a êle e nunca jamais a Deus. Sua condenação
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Ezequiel 1:4, 26; 10:8. Profetas e Reis, E. G. White, págs. 535, 536.

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eterna foi, pois, absolutamente lavrada por êle e jamais por Deus. E assim é com todos os indivíduos, nações e reinos. Enquanto os governantes das nações estão absorvidos pela política, enquanto os homens de negócios estão absortos em busca de excessivos lucros, enquanto os amantes dos corruptos prazeres procuram satisfazer aos mesmos, enquanto a escrava da moda está a arranjar os seus adornos — pode ser que naquela hora o Juiz de tôda a terra pronuncie a sentença: “Tu foste pesado na balança, e achou-se que tinhas menos do pêso”. “FARÉS” “O teu reino se dividiu, e foi dado aos medos e aos persas”. Esta é a interpretação de “FARÉS”. Algumas versões dão “Upharsin”, em lugar de “farés ‘, sendo interpretado por alguns comentadores como “radical” e “plural” de “farés”. O mais acertado, porém, é aceitarmos a palavra original “farés”. O que mais importa, todavia, é a interpretação inspirada de Daniel sôbre a qual não repousa nenhuma dúvida. De acôrdo à interpretação de “farés”, os medas e persas tornar-seiam senhores do império mundial dos caldeus. A velha ordem já intolerável aos olhos de Deus devia findar para dar lugar a uma outra. Assim estava à vista terrível castigo aos desprezadores da justiça. “Nessa última noite de louca orgia, Belshazzar e seus grandes tinham enchido a medida de sua culpa e da culpa do reino caldeu. A mão restringedora de Deus não mais desviaria o mal impendente. Através de multiformes providências, Deus tinha procurado ensinarlhes reverência por sua lei. “Queríamos sarar Babilônia”, declarou Êle a respeito daqueles cujo juízo agora alcançava o Céu, “mas ela não sarou”.1 Em virtude da estranha perversidade do coração humano, Deus achou ser necessário afinal passar a irrevogável sentença. Belshazzar devia cair, e seu reino devia passar a outras mãos”. “Mais de um século antes a Inspiração havia predito que “a noite que eu desejava”,2 quando o rei e seus conselheiros se rivalizariam em blasfêmias contra Deus, seria mudada subitamente numa ocasião de destruição e temor. E agora, em rápida sucessão, momentosos eventos

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Jeremias 51:9. Isaías 21:4.

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seguiam-se uns aos outros exatamente como tinham sido retratados pelas escrituras proféticas anos antes que os principais personagens do drama tivessem nascido”.1 O REI QUE JAMAIS REINOU VERSO 29: — “Então mandou Belshazzar que vestissem a Daniel de púrpura, e que lhe puzessem uma cadeia de ouro ao pescoço, e proclamassem a respeito dêle que havia de ser o terceiro dominador no reino”. Mesmo que Daniel interpretasse uma mensagem de juízo incontinente sobre Belshazzar e seus reino, o rei ordenou que se cumprisse a promessa de ser o profeta vestido de púrpura, ter cadeia de ouro ao pescoço e ocupar o trono como terceiro soberano de Babilônia. Daniel havia prèviamente recusado a oferta, — uma porque é isto incompatível com o caráter dum embaixador de Deus e Sua obra na terra, e outra porque a promessa jamais se cumpriria, pois os medas e persas, finda a exposição de Daniel, já estavam invadindo a cidade pelo leito do rio Eufrates sob as muralhas, para dar o golpe de misericórdia no que restava do incomparável império caldeu fundado por Nabucodonosor. Êste decreto, que foi o último dum rei de Babilônia, revelou a existência dum segundo monarca no trono do Império. Evidências arqueológicas indiscutíveis apontam Belshazzar como o segundo no trono ou como rei co-regente com seu pai Nabonidus, A proclamação do rei elevando Daniel à dignidade de terceiro rei de Babilônia, só foi notória aos circunstantes, cujas vidas, minutos mais tarde, seriam inapelàvelmente ceifadas pelas armas medo-persas triunfantes sobre o reino caldeu. Na verdade Daniel foi um rei que não chegou a reinar. O DESFECHO DO ÚLTIMO FESTIM DE BABILÔNIA VERSO 30: — “E naquela mesma noite foi morto Belshazzar, rei dos caldêus”. EIS O DIA DO AJUSTE! ... Pronto! Eis o fim de tudo! Eis o trágico epílogo da história dum rei libertino, dum soberano de deboches! Eis o funesto desfêcho duma

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Profetas e Reis, E. G. White, págs. 530, 531.

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vida de audácia e desacato à divindade celestial. Eis o remate de quem relegou Deus ao desprezo e ao mundo serviu e celebrou mais que tudo na vida. Assim findam aqueles que amam o pecado, a devassidão, a crapulagem e repudiam a moralidade, a decência e a Deus. “Naquela mesma noite” — noite de orgia, de bacanal, de imoralidade — “foi morto Belshazzar, rei dos caldeus”. A despeito de terem todos os cortezões de Belshazzar morrido com êle naquela trágica noite, apenas êle é citado como tendo perecido. Sim, porque êle foi o responsável único por toda aquela provocação ao Soberano dos soberanos. Êle foi o sacrílego número um naquela noitada que passou para a História como uma solene advertência. Êle foi quem levou os mil ou mais circunstantes a ofender o Senhor do universo ao sumo na profanação dos sagrados vasos de Seu templo em Jerusalém. Audacioso como nenhum outro, a História o recorda com asco e repúdio. Tudo que restava do domínio e glória do reino caldeu no mundo, — sucumbiu para sempre conjuntamente com o desprezível monarca. “Naquela mesma noite”, — pelo juízo do ofendido e desacatado Juiz — tudo desabou no abismo. O Todo-poderoso não postergaria a sentença por mais um dia siquer. Não havia mais delongas nem mais apelação. Triste fim de quem teve pleno conhecimento da luz e a desprezou decididamente! E este tem sido no passado o fim de muitos e será o fim no futuro de tantos outros Belshazzares. A FULMINANTE INVASÃO DE BABILÔNIA Enquanto Belshazzar e seus convivas tremiam pela iminência do inexorável juízo predito, já os exércitos de Ciro marchavam céleres pelo leito do rio Eufrates em demanda do interior da grande cidade. Dias antes daquela fúnebre noite os babilônios riram e zombaram do cêrco que Ciro impusera à sua metrópole tida como inexpugnável e inconquistável. E, na verdade, nenhum gênio militar era capaz de forçar e derribar as poderosas muralhas que circundavam Babilônia com as tacanhas armas de guerra daquala época. Mas Ciro revelou-se o maior extrategista militar dentre os grandes conquistadores da História, e já tinha em mente pôr em ação um plano secreto e astuto para a catura imediata do poderoso baluarte. Nos tempos do apogeu do rei Nabucodonosor, êste monarca, para impedir a inundação de Babilônia ao tempo das cheias do rio Eufrates que a atravessava, fez cavar — por cativos transportados de povos 275

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submetidos de muitas terras — cêrca da cidade de Siparra bem acima de Babilônia, um enorme lago de “doze metros de profundidade e de mais de vinte léguas de circunferência, cujas comportas se abriam e fechavam automàticamente”.1 Ciro viu, naquele lago artificial, a solução para apoderar-se de Babilônia, Na noite do festival de Belshazzar — 16 de Tammuz —quando todos os babilônios estavam entregues à orgia a noite tôda, o grande comandante persa — ao cair da noite — ordenou que aquelas comportas fossem abertas para darem passagem às águas do Eufrates rumo ao grande lago. Vejamos agora como Herôdoto e Xenofonte nos informam da memorável façanha de Ciro e seu poderoso exército: “Êle (Ciro) recorre ao seguinte estratagema: Tendo estacionado uma parte de seu exército próximo à passagem do rio onde êle entra em Babilônia, e outra divisão do outro lado da cidade, onde o rio sai, deu ordem às suas tropas para penetrar na cidade tão logo às águas permitissem passagem. Tendo assim estacionado suas tropas e dado estas ordens, êle retirou-se com a parte ineficaz de seu exército; e tendo vindo ao longo (a uma considerável distância acima de Babilônia). Ciro fez o mesmo com respeito ao rio e o lago como o fizera a rainha dos babilônios (a rainha Nitocris tinha uma vez desviado o rio ao pantanoso lago afim de edificar uma ponte sôbre êle em Babilônia); porque tendo desviado o rio, por meio de um canal, ao lago, que era antes um pântano, fez com que o leito do rio desse passagem”.2 Então “Ciro ordenou a seus oficiais persas, tanto de cavalaria como de infantaria, que comparecessem com suas forças divididas, ambos os destacamentos formando duas filas de profundidade, e ordenou que os aliados seguissem os persas na forma costumeira. Êles alinharam-se imediatamente, e Ciro fez seu próprio corpo da guarda descer ao seco canal primeiro, para certificar-se se o leito estava firme bastante para a marcha. Ao responderem que estava, convocou êle um consêlho de todos os seus generais e disse-lhes o seguinte: “Meus amigos, o rio tem-nos dado trânsito; êle oferece-nos uma passagem através o seu leito para Babilônia. Devemos tomar ânimo e entrar destemidamente, lembrando que aqueles contra quem marchamos esta noite são os mesmos homens que vencemos antes,
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Los Videntes y lo Porvenír, L. R. Conradi, pág. 38. Source Book for Bible Students, ed. 1927. pág, 56.

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quando ainda tinham seus aliados para auxiliá-los, quando estavam vigilantes, alerta, e sensatos, armados até os dentes, e em ordem de batalha. Esta noite vamos contra êles quando alguns estão dormindo e outros bebendo, e todos estando despreparados; e quando se derem conta de que estamos dentro dos muros, sentir-se-ão em completa perplexidade e ainda mais sem ajuda do que antes. Se alguns de vós temerem ao pensamento de descargas de seus telhados quando o exército entrar na cidade, eu ordeno que êstes temerosos se ponham de parte: sí nossos inimigos subirem aos telhados, temos um deus para auxiliar-nos, o deus do fogo. Seus pórticos tão fàcilmente incendiáveis, porque as portas são feitas de madeira de palmeira untadas com betume, o alimento próprio do fogo. E nós viremos com tochas para incediá-las, e com pez e estopa para alimentar o fogo. Êles serão forçados a fugir de suas casas ou morrer queimados. Vinde, tomai vossas espadas em vossas mãos: Deus me auxiliará e eu vos guiarei. “Vocês”, disse êle dirigindo-se a Gadyatas e Gobrias, “mostrai-nos as ruas, vós as conheceis; e uma vez lá dentro, guiai-nos diretamente ao palácio”. “Assim desejamos”, disseram Gobrias e seus homens, “e não será surpreza se acharmos o palácio com suas portas abertas, porque esta noite tôda a cidade está entregue à orgia. Todavia estamos certos de achar uma guarda, porque uma está sempre postada ali: “Então”, disse Ciro, “não há tempo a perder; vamos quanto antes e apanhémo-los desprevenidos”.1 E, imediatamente, ao baixar das águas do rio desviadas para o grande lago, penetraram os dois fortes contingentes pela entrada e saída do Eufrates sob as fortes muralhas, marchando céleres sôbre o leito do rio, ávidos por alcançar as portas das ruas que nêle desembocavam, Afortunadamente, encontram ditas portas abertas e desguarnecidas. Jamais sonharam os babilônios com uma invasão de sua poderosa cidade-fortaleza, a maior da antiguidade, pelo leito do caudaloso Eufrates. “Daqueles que encontraram alguns caíram e morreram, alguns fugiram de suas casas, e outros ergueram alarido e clamor, mas Gobrias e seus homens cobriram o seu clamor com seus gritos, como se fôssem também foliões. E assim, marchando pelo caminho mais curto, logo acharam-se diante do palácio do rei. Aqui o destacamento sob Gobrias, e Gadyatas acharam as portas fechadas, porém os homens designados para atacar os guardas investiram sôbre êles ao
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Source Book for Bible Students, ed. 1927. pág, 57, 58.

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estarem bebendo rodeados por um resplendente fogo, liquidando-os ali mesmo. Ao aumentar mais e mais o ruído, os que estavam dentro perceberam o distúrbio até que, alguns abriram as portas e saíram para fora. Gayatas e seus homens, ao verem as portas escancaradas, lançaram-se com ímpeto para dentro, ao encalço dos que retrocedendo fugiam e feriram-nos a golpes de espada até à presença do rei. Encontraram o rei de pé como sua cimitarra desembainhada em sua mão. Pela força de número êles o sobrepujaram: e nenhum de seus acompanhantes escapou, todos foram ceifados”.1 Ciro mandou a diferentes companhias de cavalaria, que correndo às ruas da cidade, matassem tôdas que encontrassem pelas ruas, e anunciassem em linguagem siríaca aos que na o tinham saído de suas casas, que se conservassem nelas sob pena de serem mortos. Estas ordens foram cumpridas. “Gadyatas e Gobrias fizeram sua junção com o grosso do exército, logo agradeceram aos deuses por terem castigado um rei ímpio, e beijaram as mãos e os pés de Ciro, ao mesmo tempo que de alegria derramavam copiosas lágrimas. Assim que amanheceu, e as guarnições das tôrres foram informadas da tomada da cidade e da morte do rei, entregaram-se. Ciro logo tomou posse delas, e lhes pôs novos presídios. Consentiu que os mortos fossem enterrados por seus parentes; e por arautos mandou publicar que todos os babilônios entregassem as armas, e que se em qualquer casa alguma se escondêsse, todos morreriam”.2 Pouco antes do momento fatal, “enquanto ainda no salão de festas, rodeados por aquêles cuja sorte tinha sido selada, o rei foi informado por um mensageiro que “a sua cidade foi tomada”, pelo inimigo contra cujos planos êle se imaginava seguro; que “os vaus estão ocupados... e os homens de guerra ficaram assombrados”.3 No momento mesmo em que o rei e seus nobres estavam bebendo pelos Vasos sagrados de Jeová, e louvando a seus deuses de prata e ouro. Os medos e persas, havendo desviado do seu leito o Eufrates, estavam marchando para o coração da cidade desguarnecida. O exército de Ciro estava agora sob os muros do palácio; a cidade estava cheia de soldados inimigos, “como de pulgão”,4 e seus gritos triunfantes
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Source Book for Bible Students, ed. 1927, pág. 58. Ciropédia, Exnofonte ,ed. portuguesa, págs. 181, 184, livro VII no original, (edição Jackson). 3 Jeremias 51:31-32. 4 Jeremias 51:14.

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podiam ser ouvidos sobre o desesperado clamor dos foliões atônitos”.1 Assim foi tomada Babilônia de surpresa, como anunciara a profecia de Jeremias.2 “Num momento caiu Babilônia”.3 Foi “cortado e quebrado o martelo de tôda a terra”, como era ela considerada.4 A alegria de um lado e a admiração de outro que a queda de Babilônia causou, assim anunciara antecipadamente a inspiração: “Ao estrondo da tomada de Babilônia extremeceu a terra; e o grito se ouviu entre as nações”.5 A interpretação da escritura do fogo da parede, por Daniel, cumpriu-se à risca: O reino mundial de Babilônia findou para sempre; o rei Belshazzar, faltou na balança do Juiz do universo, foi morto em plena orgia em palácio; e o domínio caldeu do orbe foi dado aos medas e persas vitoriosos. “E DARIO, O MEDO, OCUPOU O REINO” VERSO 31: — “E Dario, o medo, ocupou o reino, na idade de sessenta e dois anos”. Que Dario, o medo, era um grande personagem ao tempo das conquistas de Ciro, é questão que não carece ser discutida. O termo “medo” aqui, não é empregado para designar um simples cidadão do país, mas sim a um destacado e grande político do reino da Média. O depoimento irrecusável, de Daniel, testemunha ocular e escritor dos fatos, é que Dario, o medo, era “filho de Assuero, da nação dos medos”.6 O termo “Assuero” — KHASHAYÂRSHÂ — do velho idioma persa, significa “rei”. Logo, o pai de Dario, o medo, fôra rei no trôno da Média, e êste, em consequência, como filho, deveria tê-lo sucedido naquele trôno como herdeiro legítimo. No trôno medo, como sucessor do pai, indubitàvelmente era também outro “Assuero”, já que o termo significa “rei”. Porem, ao galgar o trôno do mundo pela subversão de Babilônia em fase das conquistas de Ciro, tomou êle o título de “Dario”, significado latinizado do grego equivalente do nome real do idioma dos persas — DARAYAVAUSH — que também significa “rei”.
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 531. Jeremias 51:40. 3 Jeremias 50:24. 4 Jeremias 50:23. 5 Jeremias 50:46. 6 Daniel 9:1.

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Sendo que Dario, o medo, fora de tôda a dúvida, era “tio de Ciro”, e êste neto de Astiages da Média, — através de Mandane, sua filha e Cambises I, o persa, — consequentemente e como já expresso, Dario, o medo , era filho e sucessor de Astiages no trôno dos medos. Xenofonte, relatando a sucessão de Astiage, escreveu: “Entretando morreu Astiages. Xiaxares, seu filho, irmão da mãe de Ciro, começou a reinar na Média”.1 Duas outras coisas importantes escreveu Xenofonte sobre as relações entre Ciro e seu tio Xiaxares ou Dario o medo: 1) Que Ciro se familiarizara com Xiaxares (II), seu tio, durante os anos que êle dispendeu na côrte da Média ao tempo de Astiages, seu avô.2 2) Que “quando Ciro conquistou Babilônia êle visitou seu tio com presentes e ofereceu-lhe um palácio em Babilônia; e que Xiaxares aceitou os presentes, e deu a Ciro sua filha tão bem como o seu reino”.3 Êstes pontos históricos deixam transparecer que, quando Ciro rebelou-se contra seu avô Astiages e o derribou do trôno da Média, permitiu a seu tio, com o nome de Xiaxares (II), reinar em seu lugar no mesmo trôno, para agradar os medas, “enquanto todos no reino sabiam que o verdadeiro soberano era Ciro, e que Xiaxares (II) era uma figura de prôa”.4 A afirmativa de Daniel de que Dario, o medo, contava sessenta e dois anos de idade ao subir ao trôno da Medo-Pérsia está de pleno acordo com a verdade dos fatos. Na altura da queda de Babilônia, Ciro, segundo Xenofonte, era no máximo de quarenta anos de idade, como é evidente de que seu filho, Cambises, naquele tempo, não era ainda maduro bastante para representá-lo em uma posição oficial mundial como a que recem fôra conquistada aos caldeus. Daí Xiaxares (II), ou Dario, o medo, como tio de Ciro ter, evidentemente, a idade de sessenta e dois anos ao tempo da queda da grande cidade, como assinala Daniel, e ter sido por seu sobrinho empossado no trôno do mundo — agora dos medas e persas. Repetimos assentando: que Dario, o medo, era Xiaxares (II), rei dos medos ao ser conquistada Babilônia; que era tio e por fim sogro de Ciro, a quem êste honrou dando-lhe o trôno conquistado aos babilônios, enquanto êle consolidava as suas conquistas já realizadas e planejava as novas.
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Ciropédia, Xenofonte, ed. portuguêsa, livro I, pág. 36, (edição Jackson). Ciropédia, Xenofonte, I.3.1; 4.1, 6-9, 20-22; 5.2. 3 Ciropédia VIII, 5.17-20. 4 Seventh-Day Adventist Bible Commentary, Vol. IV, pág. 817.

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Como desfêcho e confirmação do que dissemos, citamos o historiador Prideaux, que diz: “Dario o medo, isto é Xiaxares, tio de Ciro, tomou o reino; porque Ciro lhe concedeu o título de tôdas as suas conquistas enquanto viver”.1 Também Flávio Josefo, o historiador judeu, declara: “Dario, filho de Astíages, ao qual os gregos dão outro nome, tinha sessenta e dois anos, quando, com o auxílio de Ciro, seu parente destruiu o Império de Babilônia”.2

Humphrey Prideaux, The Old and The New Testament Connected In the History of the Jews, Vol. I, pág. 137. 2 Histórias do Hebreus - F. Josefo - Vol. III, pág. 296.

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CAPÍTULO VI
VITÓRIA NA COVA DOS LEÕES

Introdução O capítulo agora sob nossa apreciação é essencialmente histórico, não contendo nenhuma profecia. Os acontecimentos e que nos dá conta tomaram lugar em 538 a.C., no primeiro ano de Dario, o Medo, no trôno do Império mundial da Medo-Persa. Daniel, que a êsse tempo alcançara a avançada idade de 86 anos, fôra contudo olhado pelo novo rei, como o fôra antes pelo rei Nabucodonosor, como o homem mais capaz para estar à testa dos negócios do reino conjuntamente com 0 soberano. E o rei Dario não teve dúvidas em empregar os seus raros talentos para ajudá-lo, mormente no que compreendia a pôr em bôa ordem o grande Império recém-conquistado aos sucessores do grande monarca caldeu. A matéria do capítulo revela um dos maiores e mais odiosos crimes da História que, não fôra a imediata intervenção de Deus, teria sido consumado com todos os requintes de perversidade. Um complô, ardilosamente maquinado e preparado contra uma inocente vítima — Daniel, foi motivado por sua irrestrita fidelidade a seus deveres oficiais como o maior dos três grandes primeiros ministros do reino e pelo firme pensamento do rei de empossá-lo como único primeiro ministro do Império Medo-Persa, eliminando os outros dois por incompetência e deslealdade. Por sua própria integridade puzéra Daniel em risco a sua vida. Verdadeiramente não é fácil ser justo nesta terra injusta. Todo o homem de caráter imaculado, nobre e temente a Deus, arrisca-se a ser abatido pela inveja e a infâmia dos homens maus e perversos. Todavia, a criminosa camarilha satânica desta história recebera o tremendo prêmio, bem merecido aliás, de sua injustiça contra o íntegro servo de Deus, Seus ímpios conjurados caíram na armadilha que prepararam para o inocente e santo homem, e foram fulminante e

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coletivamente trucidados. A vingança do ato não tardou e foi aplicada como repulsa do céu à perversa, invejosa e malsã política dos homens, bem como uma solene advertência aos senhores do poder em todo o futuro. Imediatamente ao extermínio dos conspiradores, foi Daniel exaltado ao sumo, não só ao posto honrado de primeiro ministro absoluto como ao de homem de confiança do rei, da côrte e do reino nos reinados de Dario e de Ciro. Sobretudo, o fracasso da diabolesca intentona resultou na exaltação do nome de Deus de Israel, — o Deus de Daniel, — não só na província de Babilônia e na própria côrte, como em todo o mundo sob o poder dos medas e persas, e preparou o espírito de Ciro para inclinar-se a conceder liberdade aos cativos hebreus tão logo que assumisse o trôno em sucessão a Dario — fato que ocorreu no ano 536 a.C. UMA NOVA ADMINISTRAÇÃO MUNDIAL VERSO 1: — “E pareceu bem a Dario constituir sôbre o reino a cento e vinte presidentes, que estivessem sôbre todo o reino”. Imediatamente ao ser empossado por Ciro no trôno da terra, em Babilônia, procedeu Dario, o Medo, uma nova organização dos vastos domínios conquistados aos babilônios. Os cento e vinte presidentes que se dispunha investir no imenso Império, equivaliam ao mesmo número de províncias reais de sua nova divisão. As posteriores vitórias de Ciro, Cambises, Dario Hystaspes e Xerxes estenderam as fronteiras do reino e aumentaram o número de províncias. Aos tempos de “Xerxes — o Assuero do livro de Ester”,1 contou o império com “cento e vinte e sete províncias”, compreendendo um imenso território estendendo-se “desde a Índia até à Etiópia”.2 Parece ter o reino Medo-Persa atingido a êste tempo o ponto culminante de seu apogeu e extensão, tanto quanto se saiba, já por ter começado com Xerxes o seu enfraquecimento desde a derrota sofrida na Grécia. UM VELHO PROBLEMA DE CARÁTER VERSO 2: — “E sôbre êles três príncipes, dos quais Daniel era um, aos quais êstes presidentes dessem conta, para que o rei não sofresse dano”.
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 598. Ester 1:1.

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Não há outra mensão na História do passado de que num reino houvesse três ministros de Estado empenhados num só mistér administrativo como instituira Dario, o Medo, em sua reforma. Êste inédito caso verificado unicamente no govêrno de Dario, revela no seu reinado o fortalecimento do ministério da fazenda ou das finanças, como claramente se depreende do texto. Segundo ditou-lhe a sua visão, escolhera Dario os três mais importantes homens que na ocasião pôde encontrar entre os príncipes do reino vitorioso e os do reino subvertido. Cada um dêstes príncipes deveria ser direto responsável pela administração financeira de quarenta províncias, agrupadas, possivelmente, em três zonas distintas que por certo eram: a Oriental, a Ocidental e a Sul, estando as províncias do norte inclusas nas duas primeiras. Aos três grandes deviam prestar contas todos os governadores provinciais quanto às receitas do reino. Daniel infere no seu texto que a principal razão que levara o rei a criar o ministério das finanças sob três ministros, visou salvaguardar o reino de quaisquer fraudes por parte dos soberanos das províncias, concernente às rendas do Império. Daí a necessidade duma extrita vigilância por parte dos três destacados ministros de Estado escolhidos para a referida alta função. Eis a velha falta de confiança do homem em relação ao homem, principalmente no que concerne à administração de finanças. Êste mal entre os homens é hoje mais acentuado do que em qualquer época decorrida. Há nos ministérios da fazenda de todos os governos e nas grandes corporações e emprêsas de menor importância, os fiscais e os inspetores. Aqueles para porem a prova a honestidade dos que manejam diretamente as finanças e êstes para submeter o caráter daqueles a teste, na fiscalização. Todavia, com toda a fiscalização e inspecção, ouve-se com freqüência de fraudes em todos os setores. A desonestidade tornou-se virtude corrente, dissera o grande Rui Barbosa: “O homem tem vergonha de ser honesto”! E não é de maravilhar que o rei Dario fôsse lezado nas rendas do reino, a despeito de sua imediata precaução. UM VERDADEIRO MINISTRO DE ESTADO VERSO 3: — “Então o mesmo Daniel se distinguiu destes príncipes e presidentes, porque nêle havia um espírito excelente; e o rei pensava constituí-lo sôbre todo o reino”. 285

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DANIEL SE DISTINGUIU É notável o testemunho que a revelação dá de Daniel concernente à sua atuação no reino Medo-Persa. Êle se “distinguiu” dos seus dois companheiros de ministério e de todos os demais príncipes de todo o reino. Em outras palavras, Daniel tornou-se o maior príncipe, o maior homem do reino, como antes o era no domínio caldeu desde Nabucodonosor, e seus sucessores. A distinção que fê-lo preferido dentre todos os príncipes e presidentes do reino resultou de sua dedicação e lealdade no desempenho das funções a êle conferidas no Império, sem vizar com isso estar em bôa forma com o monarca e muito menos receber as honrarias que de estilo lhe seriam prestadas como alta figura da côrte. Longe de ser um destacado personagem do govêrno em troca de tais honras e do vil metal, Daniel tudo fez para demonstrar a visível diferença que há entre um ministro de Estado que serve ao Estado por amor a Deus e os demais ministros burocratas que o servem por amor ao ganho. Esforçado, diligente, procurou não só o bem do reino como de seus súditos, sem ter em vista quaisquer vantagens materiais ou pecuniárias. Daniel não se julgava um simples burocrata que só pensa em aumento de vencimentos e em aposentadoria. Êle julgava-se um representante de Deus na côrte do mundo. Sim, o “espírito excelente” que o tornou mais notável naquela côrte, era devido às suas estreitas relações com Deus. Uma vez que nos deveres para com o Céu demonstrara fidedigna dedicação, não podia fazer diversamente em relação às suas atividades e responsabilidades ligadas aos negócios do Estado. O indivíduo que é leal, fiél e dedicado em servir a Deus, também o será no cumprimento de seus deveres para com a pátria, quer como ministro de Estado, quer como funcionário público da mais humilde categoria, quer como simples cidadão. O segrêdo em bem servir a pátria está em bem servir a Deus. Eis aí a razão de ser Daniel distinguido dentre todos os demais poderosos príncipes do reino Medo-Persa. DANIEL — PRIMEIRO MINISTRO ABSOLUTO O rei Dario contrastara logo a grande diferença entre Daniel e os outros príncipes, tanto na honradez como na capacidade em exercer as altas funções que lhe foram confiadas. A invulgar sabedoria com que liderava o setor financeiro sob sua custódia; a evidente prosperidade 286

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dos negócios do Estado sob sua liderança; e a sua indiscutível superioridade administrativa em relação aos outros dois ministros em funções idênticas, bem como sôbre todos os governadores das províncias, — levaram o monarca Medo a desejar exonerar os dois outros ministros e constituir a Daniel como único primeiro ministro sôbre todo o reino. E êste desejo do rei Dario foi por êle concretizado imediatamente. Que alta honra para Daniel como servo de Deus! Elevada honra, não que êle a buscasse, mas por se certificar o monarca pagão de que só êle era capaz de conduzir com êxito os destinos do Império a uma prosperidade crescente, ainda que era um cativo no Oriente e no reino. A grande honra não foi assim prestada propriamente a Daniel, mas a seu Deus cujo representante êle era naquela côrte. E é admissível que a êste tempo, aos 86 anos de idade, gozava êle ainda de um “espírito excelente”, sendo preferido aos demais príncipes. Sua robustez e seu claro discernimento até ali evidentes, eram devidos às bênçãos de Deus em face de sua fidelidade como embaixador do Céu nos reinos mundiais do paganismo babilônio e Medo-Pérsia. Dario poderia ter considerado Daniel indigno duma investidura tão honrosa uma vez que êle era dos grandes da nação inimiga conquistada além de ter tomado conhecimento de que Belshazzar fizera dêle o terceiro governador na noite da queda de Babilônia. Mas, ao contrário disto, consentiu em que êle permanecesse para aproveitar a sua longa e bem conhecida experiência, mesmo no exterior, como estadista de êxito e insubstituível em qualquer posto de comando do govêrno. Naturalmente a Previdência estava com sua sábia mão a guiar o rei Dario para que Seu servo permanecesse no distinguido posto, tanto para o bem de Seu povo cativo no Oriente como dos próprios pagãos, e, sobretudo, para honra e glória de Deus de quem era êle um honrado embaixador naquela côrte do mundo. DANIEL SUBMETIDO A ESCRUTÍNIO SECRETO VERSOS 4-5: — “Então os príncipes e os presidentes procuravam achar ocasião contra Daniel a respeito do reino; mas não podiam achar ocasião ou culpa alguma; porque êle era fiél, e não se achava nêle nenhum vício nem culpa. Então êstes homens disseram: Nunca acharemos ocasião alguma contra êste Daniel, se não a procurarmos contra êle na lei do seu Deus”. 287

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ELOQUENTE CONFISSÃO DOS INIMIGOS DE DANIEL Uma das inúmeras verdades proferidas por Salomão, parece estar ligada ao caso enunciado nos versículos citados acima. Dissera êle: “Também vi eu que todo o trabalho, e tôda a destreza em obras, trás ao homem a inveja do seu próximo”.1 Verificara-se exatamente isso entre os príncipes da Medo-Pérsia em relação a Daniel. Sua elevação pelo soberano ao mais alto posto junto de sua magestade, incitara grandemente os ciúmes daqueles maus homens. Inflamados pela inveja de ser a tão elevada e por êles tão cobiçada honra de primeiro ministro conferida a um judeu cativo outrora ministro do reino caldeu vencido, e não como de direito a êles, como conquistadores, unem-se para boicotarem e atentarem contra a vida do humilde e leal homem de Deus. Satanás estava a postos para perder a fiél testemunha de Deus e por meio daqueles homens fez tudo para remover daquela côrte mundial aquele em cujas mãos e sabedoria tudo prosperava no setor administrativo sob sua tutela. A primeira tentativa para terem de que acusar Daniel, levou os príncipes a procurar alguma possível falha ou fraude contra êle nas suas próprias atividades ligadas às suas responsabilidades nos negócios do estado. Foram, porém, decepcionados. Nenhum mínimo deslize encontraram que apoiasse a menor atuação contra êle junto do soberano. A história de Daniel “demonstra o que pode ser efetuado por alguém que consagra a fôrça do cérebro, dos ossos e dos músculos, do coração e da vida ao serviço de Deus”.2 “Êle era fiél”, diz o sacro texto. E a menos que os homens que hoje ocupam posições oficiais numa nação — como Daniel naquele reino — temam a Deus como êle O temia, é duvidoso que, como êle, sejam achados irrepreensíveis em suas altas responsabilidades burocráticas governativas quando submetidos a minucioso escrutínio por seus adversários. Quem não é em todo o sentido fiél a Deus, dificilmente o poderá ser, em tudo, fiél às suas responsabilidades seculares. O mundo moderno carece de homens de negócio como Daniel, que sintam a necessidade de entrelaçar os grandes princípios da verdade em tôdas as suas transações, quer comerciais quer governativas. Eis ai o segrêdo da inalterável lealdade e sucesso de Daniel como estadista em duas côrtes mundiais.
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Eclesiastes 4:4. Parábolas de Jesus, E. G. White, pág. 351

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Revelou Daniel que um estadista não está obrigado a ser necessàriamente um homem de planos dolosos, um astuto, — mas que pode ser instruído por Deus a cada passo. Satanás empreendera todo o esforço para eliminar o profeta de Deus que lhe era um estorvo naquela côrte. Mas seus agentes destinados a achar falhas por menores que fôssem fracassaram neste afã. Todavia prosseguiram êles no inglório empreendimento até julgarem terem sido coroados os seus maldosos desejos. A FIDELIDADE A DEUS COMO BASE DA ACUSAÇÃO Convencidos os príncipes de que não encontrariam “ocasião alguma contra êste Daniel” nos deveres oficiais do reino sob sua guarda, tiveram de imediato uma satânica inspiração; disseram: “Nós não acharemos nenhuma ocasião contra êste Daniel, se não a acharmos nêle no tocante à lei do seu Deus”. Analizemos: Êles não pretediam encontrar infidelidade alguma de Daniel em relação à lei divina, pois conheciam de sobejo a sua harmonia perfeita aos seus imutáveis requisitos. O que tencionavam era usar a sua própria lealdade à lei de Deus como ponto de apôio da armadilha e do crime que premiditavam contra êle. Em outros termos, como veremos esclarecido adiante, estabeleceriam — por imutável decreto — uma determinada e obrigatória abstenção de fidelidade à lei de Deus, em todo o reino e a todos os homens, no que respeita ao próprio Deus como único Senhor, contando como certo que Daniel não aderiria a essa abstenção imposta por decreto real, — e nisto consistiria a acusação e a sentença máxima contra êle. Fôra uma ocorrência sui generis na história da civilização humana — um caso absolutamente de consciência religiosa transformado em uma acusação fatal de caráter evidentemente político. Uma vez que aqueles famigerados príncipes não puderam acusar, a Daniel como esperavam, fundados em sua administração civil, de tôda a maneira o acusariam transformando a sua fidelidade religiosa em um caso político. Na verdade caso nenhum havia. Foram os inimigos de Daniel que formaram um caso que não era caso, mas sim uma falsificação, — para o envolverem e o perderem. Conhecedores da lei de Deus à qual o profeta era extritamente fiél, deliberaram sôbre qual dos dez preceitos lançariam uma contrafação — impondo temporàriamente o homem em lugar de Deus — esperando assim enredarem a Daniel em suas manhas criminosas. 289

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Segundo entendiam nenhum outro dos dez mandamentos da lei de Deus se adaptaria mais à sinistra intenção do que o primeiro, que proíbe a aceitação de outro deus no culto de adoração além do Deus do céu — ou do Deus de Israel como concebiam. Porém, só um decreto assinado pelo monarca — chefe supremo do Estado e da Religião — poderia concretizar o plano e efetivar a ruína de Daniel como esperavam. Segundo o previsto por êles, o próprio rei Dario deveria substituir a Deus, ao menos por 30 dias, no que concerne aos ditames do primeiro mandamento. Daniel, porém, estava preparado para enfrentar a crise mantendo-se leal a Deus e confiante em Seus invisíveis mas infalíveis e vitoriosos recursos. Aparentemente tiveram os conjurados completo êxito quanto a simplesmente achar o que anelavam contra Daniel. Ignoravam, no entanto, que o fiél servo de Jeová não estava um só momento desacompanhado para onde quer que se locomovesse. Sim, ignoravam os poderosos protetores do leal homem de Deus que lhe vigiava os passos para livrá-lo de qualquer perigo que o assaltasse. Mal sabia aquela diabólica camarilha que, naquilo que pretendia ter assegurado o criminoso atentado contra uma vida justa, irrepreensível, — encontraria seguramente o seu completo aniquilamento e não o do digno embaixador de Deus como pretendia e tinha como certa. UM CRIME SOB MANTO DE BAJULAÇÃO VERSOS 6-9: — “Então êstes príncipes e presidentes foram juntos ao rei, e disseram-lhe assim: ó rei Dario, vive para sempre! Todos os príncipes do reino, os prefeitos e presidentes, capitães e governadores, tomaram conselho a fim de estabelecerem um édito real e fazerem firme este mandamento: que qualquer que, por espaço de trinta dias, fizer uma petição a qualquer deus, ou a qualquer homem, e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões. Agora pois, ó rei, confirma o édito, e assina a escritura, para que não seja mudada, conforme a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar. Por esta causa o rei Dario assinou esta escritura e édito”. UM DECRETO DE INSPIRAÇÃO SATÂNICA Incansáveis em seus esforços por livrarem-se de Daniel, congregam-se os seus adversários para encontrarem um meio ligado à religião e satisfatório para a concecussão com êxito na miseranda 290

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trama que ocupava o primeiro lugar em seus corações. Lançando mão do costume de serem os antigos monarcas supremos representantes de todos os deuses, quer nacionais quer dos povos conquistados, atribuindo-se a êles, por isso mesmo, honras divinas, deliberaram, unânimamente, redigir um decreto segundo o qual todos os súditos de Dario, grandes e pequenos, ficariam proibidos, sob pena de morte na cova dos leões, de suplicar a seus deuses durante o espaço de trinta dias sob quaisquer assuntos de fé. Cada cidadão do reino, se desejasse auferir qualquer graça de seu deus, deveria rogá-la por intermédio direto do rei como vivida encarnação de todos os deuses. Só as invisíveis más agências poderiam ter inspirado um decreto semelhante. Certos fatôres que se deduzem dos têrmos do decreto, não deixam realmente dúvida quanto à sua origem satânica. Por que o decreto deveria incluir todos os súditos do reino em relação a seus deuses quando tinham em vista sòmente a Daniel em relação a seu Deus? É que, se o édito apenas inferisse que nenhum pedido deveria ser feito ao Deus dos hebreus durante trinta dias, pois que na realidade êste era o desígnio daqueles ímpios homens, o rei infalivelmente descobriria a trama e, certamente, não lograriam a sua assinatura para efetivá-lo. Para a pronta obtenção da assinatura real, urgia, portanto, que a verdadeira intenção fôsse camuflada. Foi por amor à ruína do objeto do ódio de seus corações, que deram uma aplicação geral ao fatídico édito, ainda que sabiam estar afrontando todo o sistema de religião e insultando a multidão de seus deuses tão bem como de seus adoradores em todo o reino. O REI DARIO ASSINA O CRIMINOSO DECRETO Preparado o astuto decreto os príncipes “apresentaram-no a Dario para sua assinatura. Apelando à sua vaidade, o persuadiram de que a promulgação dêste édito acrescentaria grandemente a sua honra e autoridade. Ignorante do criminoso propósito dos príncipes, o rei não discerne a animosidade dêles, como revelada no decreto, e, condescendendo com a lisonja dêles assinou-o. “Os inimigos de Daniel deixaram a presença de Dario, jubilosos com a armadilha agora seguramente colocada para o servo de Jeová. Na conspiração assim formada Satanás tinha tomado parte saliente. O profeta era grande em autoridade no reino, e os maus anjos temeram que sua influência debilitasse o controle dêles sôbre os seus senhores. 291

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Foram estas agências satânicas que incitaram os príncipes para invejar e enciumar; foram êles que inspiraram o plano para a destruição de Daniel; e os príncipes entregando-se eles próprios como instrumento do mal, levaram-no em resultado”.1 UMA FARSA DESPERCEBIDA PELO REI DARIO É bem certa a asserção de que a violência e a mentira são as armas dos que não têm razão. Ao aparecerem de modo tumultuoso diante do monarca, como se houvessem divisado uma grande e urgente matéria a ser posta imediatamente em curso para bem e honra do soberano e do Império, fizeram-no ver os príncipes que todos os grandes haviam tomado conselho juntos e concordaram sem abstenção alguma com o decreto elaborado, — o que era indiscutivelmente falso. Por que razão, então, não convocaram com êles a Daniel para também dar o seu parecer no caso? Não era êle considerado pelo rei o primeiro príncipe, dentre êles todos, no reino? Não deveria o decreto, por justiça, passar por suas mãos antes de chegar ao rei? Estaria êle de pleno acordo com êles se o tivessem consultado a respeito? Teriam, mesmo, ouvido o depoimento de “todos os príncipes do reino”, quanto a tão alta honra que almejavam prestar ao rei? É claro que aquêles falsários impostores, cegados por Satanás, não esperavam que o tiro lhes saísse pela culatra. Pois todos os que se colocam à mercê de Satanás para servir de voluntários instrumentos em suas mãos, só terão como prêmio uma terrível colheita. O Céu estava alerta e preparado para agir e fazer cair sôbre aquêles criminosos a carga que pretendiam despejar contra o fiel profeta de Deus. Naquela ocasião, em que pairava uma densa sombra sôbre Daniel, podia êle confiar em Deus sem receio de decepcionar-se, como o salmista Davi o fêz em ocasião igualmente sombria para êle e em face também de adversários cruéis inspirados por Satã; “Podia acaso associar-se Contigo o trono da iniquidade, que forja o mal tendo por pretexto uma lei? Acorrem em tropel contra a vida do justo, e condenem o sangue inocente. Mas o Senhor foi o meu alto retiro; e o meu Deus a rocha em que me refugiei. E fará recair sôbre êles a sua própria iniquidade; e os destruirá na sua própria malícia: o Senhor nosso Deus os destruirá”.2
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 540. Salmos 94:20-23.

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Dario falhara fragorosamente em não ter encaminhado aquêles homens a Daniel, a quem pretendia elevar como chanceler único do reino, para que desse antes de tudo a sua opinião. Os canais competentes a seguir seriam de fato êstes. Mas, em virtude da honra que se lhe afigurava tão fascinadora e conceber cegamente que não poderia perdê-la, foi levado a dar, sòzinho, solução ao problema sem o concurso de Daniel. Além de tudo, frisaram-lhe que desejavam que o decreto se tornasse irrevogável como as leis dos medas e persas, e isto para que a grande honra que lhe almejavam tributar fôsse indubitàvelmente assegurada. E o rei Dario, lisonjeado de ser assim honrado como um deus e consentindo em tomar o lugar até mesmo do verdadeiro Deus ao menos por trinta dias, assinou o criminoso decreto. Sua irreflexão lhe resultaria amargas horas do apreensão e desespêro, que, não fora a poderosa intervenção do Céu, custaria o sacrifício de seu maior cooperador ou do maior homem de sua administração real. O júbilo com que partem na presença do rei os agentes humanos das trevas, como vimos, iria converter-se bem logo em insolúvel amargura fatal. E o rei Dario aprenderia a lição de não mais firmar a sua assinatura a um decreto antes de conhecer a fundo a sua origem e as suas razões de ser bem como as suas possíveis conseqüências. UMA INALTERÁVEL DEVOÇÃO VERSO 10: — “Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa (ora havia no seu quarto janelas abertas da banda de Jerusalém), e três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como também antes costumava fazer”. INTRÉPIDA CORAGEM DEVOCIONAL “Os inimigos do profeta contavam com o firme apêgo de Daniel ao princípio para o sucesso de seu plano. E êles não estavam errados na estimativa do seu caráter. Êle percebeu logo o maligno propósito que tiveram na elaboração do decreto, mas não mudou a sua conduta num mínimo que fosse. Por que deveria êle deixar de orar agora, quando mais necessário era orar? Antes renunciaria a própria vida a renunciar a sua esperança de auxílio em Deus. Tranqüilamente êle desempenhou seus devêres como ministro de Estado; e na hora da oração dirigiu-se para o seu aposento, e com as janelas abertas para o 293

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lado de Jerusalém, de acordo com o costume, fêz as suas petições ao Deus do Céu. Êle não procurou ocultar o seu ato. Embora soubesse muito bem quais as consequências de sua fidelidade a Deus, seu espírito não vacilou. Ante os que estavam tramando a sua ruína, êle não permitira sequer a aparência de que sua ligação com o Céu estava interrompida. Em todos os casos onde o rei tivesse o direito de ordenar, Daniel obedeceria; mas nem o rei nem o seu decreto poderiam fazê-lo desviar-se de sua obediência ao Rei dos reis. “Assim ousada, embora quieta e humildemente, o profeta declarou que nenhum poder terreno tem o direito de interpôr-se entre a alma e Deus. Cercado por idólatras, êle era uma fiel testemunha desta verdade. Seu inquebrantável apêgo ao direito era uma brilhante luz nas trevas morais dessa côrte pagã. Daniel está perante o mundo hoje como um digno exemplo do destemor e fidelidade cristãos”.1 UM EXEMPLO MARAVILHOSO PARA O MODERNO CRISTÃO Quão diferentemente poderia ser o mundo moderno se o exemplo outrora dado aos homens por Daniel se tornasse uma realidade na vida dos cristãos da atualidade. Jovem ainda, pouco depois de chegar à côrte de Babilônia, quando sua vida achava-se em iminente perigo, bem como as de seus companheiros, demonstrara Daniel uma imperturbável calma e uma inconfundível e inabalável confiança no imediato socorro da Providência. Ao chegar a ser idoso ancião, em meio a uma côrte cheia de agitação, perigos e infâmias, onde lhe eram grandes as responsabilidades para com um nôvo rei secular e para com o Soberano do universo, — nenhuma metamorfose se havia operado em sua vida, em seu caráter e em suas relações para com Deus. O maravilhoso plano devocional diário, posto em prática bem no alvorecer de sua vida, jamais sofreu a menor alteração, mormente no final de sua existência e embora atarefado com um reino de numerosas províncias e inúmeros negócios. Que inestimável bênção não seria para o mundo hodierno, tão cheio de difíceis problemas, a imitação da vida de absoluta fidelidade e consagração de Daniel por parte daqueles que pretendem amar e servir ao mesmo Deus que êle amou e serviu!
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 510, 541, 542.

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Que grande luz não haveria de ser para este entenebrecido mundo, a imitação da sua vida de perfeita devoção, pelos cristãos atuais! Não só o mundo carece hoje de fidedignas testemunhas do Céu, como os próprios cristãos de maior confiança nos planos do Criador. E isto não será possível, mòrmente em ocasiões adversas, sem que haja ininterrupta ligação com a fonte do supremo poder divino. E esta ligação só poderá ser efetuada através da oração. O poder de que tanto carece o cristão moderno para fazer frente aos últimos e perigosos eventos do século, só será obtido, não por meio de ligeiras orações quando tais eventos vierem a ocorrer, mas através de uma vida antecipada de intensa e constante oração. É bem verdade o fato de que, para armazenar-se energia em algum receptáculo capaz de retê-la, urge que se coloque o mesmo em contato com uma fonte produtora de fôrça. Por que Daniel possuía poder, energia capaz de enfrentar com tanta serenidade e inflexibilidade a tão graves perigos promovidos diretamente pelos invejosos pagãos que buscavam a sua vida? A razão não se acha encerrada em mistério que não se possa conhecer. O versículo dez dêste sexto capítulo em aprêço responde sobejamente a esta interrogação. Proclama que Daniel possuía abundantes reservas de poder por achar-se buscando sempre, mediante ardorosa vida de oração, da inesgotável fonte que é Deus. E nos graves momentos de perigo fatal, mais poder buscava ainda Daniel, não porque estivesse então em falta, mas para assegurar a vitória sobre as potências do mal. É de admirar encontrar-se homens, em todos os tempos incluso o nosso, principalmente, que digam não ter tempo para ir à igreja ou para a devoção em família ou mesmo em particular. Realmente êles não têm tempo para se porem em estreita ligação com Deus. Tempo têm, não obstante, para empregar em seus próprios interesses, seus negócios, suas festas, seus divertimentos carnais e seus clubes. Todo o tempo que Deus lhes concede, absorvem-no em proveito próprio e no pecado. No orçamento do tempo que fizeram, nada foi previsto, nem mesmo quinze minutos, para a devoção diária a Deus em cujas mãos estão suas vidas. Como tinha tempo Daniel, um homem acarretado de responsabilidades com um tão vasto Império Mundial, para se colocar três vêzes ao dia em especial contacto com Deus? Nenhum moderno estadista está hoje tão atarefado que não possa dispor de alguns instantes diários para se pôr em intimidade especial com a suprema fonte eterna de poder. Nenhum homem de negócio, seja do ramo que fôr, está tão cheio de preocupações que não possa separar de seu 295

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tempo alguns minutos ao menos para ligar-se a Deus e dÊle auferir força e energia divinas. Quando os homens se põem em conexão com Deus, todos os seus empreendimentos serão fundamentados na Sua justiça. Embora não sejam comuns hoje os homens de oração, salientamse por vêzes alguns com verdadeira sêde de comunhão com Deus. Todavia Daniel é o protótipo desta devoção. Quão notável a sua atitude ao discernir que o decreto daqueles príncipes visava a sua pessoa! Não se dirigira ao rei para alegar contra os príncipes seus inimigos e fazê-lo ciente de que não tinham a pretenção de honrá-lo com aquêle édito, mas sim de atentar contra a sua vida como ministro de Estado. Não tomou nenhuma providência humana em sua defesa. Conhecedor da imutabilidade das leis dos medos e persas, previra a inutilidade de pedir clemência ao monarca. Longe de se dirigir ao homem em busca de socorro, vai diretamente à fonte original de todo o poder. Todo o céu se pôs ao seu lado e assegurou-lhe a vitória no momento próprio daquela tremenda batalha com os podêres das trevas. O século atual, o mais perigoso de todos quantos a História já registrou, exige um cristianismo cujos cristãos revelem a devoção e a têmpera cristãs de Daniel. Não há outro modo de ganhar a batalha e auferir a triunfante vitória para a eternidade. O exemplo daquele digno baluarte do direito deve contagiar os cristãos modernos levando-os a imitarem a sua firmeza e devoção cristãs. OS CONJURADOS VIGIAM SUA PRÊSA VERSO 11: — “Então aquêles homens foram juntos, e acharam a Daniel orando e suplicando diante do seu Deus”. CERRADA VIGILÂNCIA E SÊDE DE SANGUE Assinado o decreto fatal pelo rei, os criminosos conjurados vigiaram sua vítima durante todo um dia. Espiaram-no “com o maior cuidado”, diz certa versão, não tirando dele suas vistas. Conservavam sua prêsa diante de seus disfarçados olhos sem dar a entender que estavam vigiando seus movimentos. Urgia apoderar-se do intruso o mais depressa possível. Mas Daniel não ignorava o disfarce e o crime decretado de que eram capazes. Naquela remota conjuração contra a lealdade de um homem vê-se até que ponto a inveja é capaz de atingir sem tomar em conta a justiça. 296

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A maldade da inveja é capaz de tudo, mesmo de silenciar uma vida de que o mundo não pode prescindir. A inveja daquele grupo de cortezões era sinônimo de vilania, de homicídio, de sêde de sangue. Parece incrível que Satanás pôde transformar homens feitos à imagem e semelhança de Deus, em tão maus espécimes humanos. Pareciam verdadeiras feras a espreitar sua presa para devorarem-na. Como o justo Daniel não podia, por seu imaculado caráter, ligar-se àquele perverso grupo de desonestos e ladrões, era preciso ser eliminado incontinente. E não se pense que não há, em pleno século XX, homens invejosos semelhantes àqueles, prontos a eliminarem, se possível, os raros justos da terra contanto que possam ascender em preeminência. Nossa época não é melhor que a da Medo-Persa — muito ao contrário, é realmente pior, não poucas vêzes pior. Não é maravilha, pois, que ainda hoje muitos verdadeiros crentes tenham sido perseguidos e até mortos em face da retidão que caracteriza suas vidas e de suas amistosas relações com o Céu e com Deus. A vigilância sôbre o nobre Daniel era cerrada. Êle, porém, não permitiu que suas relações costumeiras com o Céu fossem quebradas mesmo com risco de vida. “Três vêzes viram-no dirigir-se ao seu aposento, e três vêzes ouviram sua voz erguer-se em fervente intercessão a Deus”.1 Três vezes estiveram juntos debaixo daquelas abençoadas janelas escancaradas de seu quarto, à espreita. Três vêzes, em períodos diferentes do dia, ouvem suas ardentes súplicas ao seu Deus Todo-poderoso. Convictos de que Daniel não deixaria de orar ao Deus de Israel nem fecharia as janelas de seus aposentos nas horas de suas devoções, julgavam ter a sua prêsa bem firme em suas garras. Mas Daniel não temeu, não trepidou, mostrou-se valente na renhida peleja. Conhecedor do perigo presente, mostrou-se corajoso e confiante, não alterando sua costumeira devoção em períodos prefixados e bem conhecidos dos que buscavam a sua vida para eliminarem-na. Que divergentes quadros se nos deparam: Num dêles um homem em audiência com Deus; no outro um grupo de homens em audiência com Satanás conjurando um crime injusto e inominável! CORAÇÕES CAUTERIZADOS PELO PECADO Nosso velho mundo carece hoje, neste século de cristianismo moribundo, quase desconhecido, — de exemplos intrépidos como o de

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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 542.

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Daniel; de cristãos denodados; de indômita coragem espiritual; de fé arrojada e triunfante. Carece, sim, de cristãos que ergam às culminâncias o estandarte da sã verdade e do direito de Cristo e ali o implantem num testemunho eloqüente e grandioso da fé vitoriosa, não importando que os adversários rondem e bramem procurando devorálos. O arrojo de Daniel, aquêle invencível baluarte cristão, deve ainda impressionar e contagiar. O fato de os conjurados comparecerem às janelas do aposento de Daniel, leva-nos a crer que ouviram os termos de suas súplicas a Deus, pois era-lhes de interesse ter a certeza se êle em verdade estava ou não em comunhão com o seu Deus, para o acusarem com segurança. Mas seus corações eram por demais endurecidos, cauterizados pelo pecado, para se enternecerem com as suas ardentes e comovedoras súplicas. Longe de se arrependerem do premeditado crime, saem dali, pela terceira vez, decididos a acusarem-no na manhã seguinte perante o iludido monarca. É APRESENTADA DENÚNCIA CONTRA DANIEL VERSOS 12-15; — “Então se apresentaram, e disseram ao rei: No tocante ao mandamento real, porventura não assinaste o édito, pelo qual todo o homem que fizesse uma petição a qualquer deus, ou a qualquer homem, por espaço de trinta dias, e não a ti, ó rei, seria lançado na cova dos leões? Responde o rei, e disse: Esta palavra é certa, conforme a lei dos medos e dos persas, que se não pode revogar. Então responderam, e disseram diante do rei: Daniel, que é dos transportados de Judá, não tem feito caso de ti, ó rei, nem do édito que assinaste, antes três vêzes por dia faz a sua oração. Ouvindo então o rei o negócio, ficou muito penalizado, e a favor de Daniel propôs dentro do seu coração livrá-lo; e até ao pôr do sol trabalhou por o salvar. Então aquêles homens foram juntos ao rei, e disseram ao rei: Sabe, ó rei, que é uma lei dos medos e dos persas que nenhum édito ou ordenança, que o rei determine, se pode mudar”. OBTENDO A CONFIRMAÇÃO DO DECRETO Na manhã seguinte, — após testemunharem no dia anterior por três vêzes as poderosas orações de Daniel ao seu Deus, — os príncipes comparecem em palácio para formularem ao rei a denúncia. Antes de tudo, porém, procuram arrancar do monarca a confirmação e a 298

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irrevogabilidade do criminoso decreto, a fim de fundamentarem com segurança e absoluto êxito a acusação. E, ignorando ainda Dario a trama homicida contra a vida dê seu fiel ministro de Estado, confirmou plenamente o decreto e sua imutabilidade, segundo a lei dos medos e dos persas. Abisma-nos o fato de Dario não ter suspeitado da trama, nem quando a quadrilha criminosa lhe trouxera o decreto para ser assinado, nem agora quando, antes de apresentarem a acusação lhe suplicam a confirmação do decreto. O rei fôra conduzido por um caminho escuro sem se dar conta dos sérios tropeços possíveis a encontrar em sua trajetória. Nunca jamais se soube que um monarca fôsse levado a proceder desta maneira, contribuindo tão voluntariamente para tirar a vida de algum súdito seu que conscienciosamente suplicasse a seu Deus em suas diárias e costumeiras orações. A ARROGANTE DENÚNCIA DOS HIPÓCRITAS Assegurados pelo rei de que o decreto não podia ser revogado, apresentam exultantes e imediatamente a culpabilidade de Daniel em violá-lo e exigem a sua imediata condenação na cova dos leões. Sabedores, entretanto, do tremendo impacto que causaria em Dario a denúncia e pensando, contudo, assegurarem a execução do profeta, não o acusaram de apenas ter violado três vêzes o édito em si mesmo, mas, para suscitar os preconceitos do rei contra Daniel, o denunciam como um cativo de Judá, em vez de como grande ministro do reino. Também o acusam de desconsideração para com o monarca, nestas palavras: “Daniel... não tem feito caso de ti”. Pretendiam, pois, com esta tríplice fórmula acusatória, causar desfavorável impressão em Dario em relação ao acusado e despertar-lhe imediata repulsa ao mesmo, autorizando incontinentemente o seu lançamento na cova dos leões. O ESFÔRÇO DE DARIO POR DANIEL Ao ouvir o rei a repelente incriminação, divisou de imediato a farsa do decreto dos príncipes e o laço que haviam armado contra o seu fiel ministro. Compreendeu que não fora o zêlo por sua honra e glória reais que os moveram na elaboração daquele decreto e conseguirem o seu assentimento assinando-o, mas sim a inveja, o ciúme e o ódio votados contra Daniel. Era esta, sabe agora o rei, a maior conspiração verificada nas antigas côrtes. Ficou revelado o caráter daqueles cortezões: Administradores falsos, políticos iníquos, 299

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homens indignos de confiança, assassinos profissionais dos homens justos. O rei Dario angustiou-se sobremaneira. A honra aceita através aquêle decreto transformou-se-lhe em pesadêlo. Como se livraria êle dum homem insubstituível, de indiscutível confiança, em cujas mãos prosperavam amplamente os negócios do reino? Deveria êle aplicar a infamante sentença contra um evidente inocente? Uma coisa, porém, é certa: O rei Dario colhia o amargo fruto de sua precipitada anuência àquele vil édito de seus príncipes, — que visava não só obrigar seus súditos a cortar relações diretas com seus deuses bem como vedar-lhes o direito de suplicar qualquer coisa a qualquer homem senão a êle mesmo ou por meio dêle! Durante trinta dias seria êle o mediador entre os deuses e os homens em relação a seus súditos. Não poderia Satanás ter forjado coisa mais absurda e mais perversa! Mas o monarca, ávaro da honra à sua alteza, que aparentavam os têrmos do decreto principesco, não se apercebeu de sua falsidade e do desgosto que causaria a seus súditos a sua imiscuição em questões de consciência religiosa, mormente no que concernia à adoração e suplicação dum Deus proferido. Contudo, embora Dario, o Medo, tivesse legado à posteridade um infeliz exemplo de fraqueza, ao mesmo tempo legara uma séria advertência aos governantes dos séculos futuros, fàcilmente levados, como êle, pela lisonja e a bajulação — para que não confiem cegamente nos seus “ príncipes”, mas que se precavenham contra a fôrça e a hipocrisia possíveis dos mesmos. Dario empenhou-se ao máximo para livrar a Daniel da morte. Até à hora do pôr-do-sol — último prazo previsto de espera no caso de penas máximas — trabalhou incansavelmente para livrá-lo. Mas, a despeito de seus mais ingentes esforços, não pôde achar, até àquela hora, um dispositivo legal pelo qual salvar a Daniel e ao mesmo tempo preservar o conceito básico da inviolabilidade das leis da Média e da Pérsia. Mesmo assim o soberano vacilou em decidir da sentença fatal. OS CONSPIRADORES EXIGEM O CUMPRIMENTO DA SENTENÇA Os criminosos conspiradores conceberam o esforço do rei em livrar a Daniel da pena máxima. Perto do pôr-do-sol comparecem novamente em palácio para exigirem o cumprimento da sentença. Por muitas horas haviam esperado pela decisão do rei; porém, como o rei 300

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Dario nada resolvia em definitivo, outra vez o assediam imprudentemente exigindo a imediata execução de sua prêsa, em harmonia com aquêle decreto que, embora feito de afogadilho e tornado inalterável pelas leis medo-persa, devia produzir seus indignos efeitos. A SENTENÇA É CUMPRIDA CONTRA DANIEL VERSOS 16-18: — “Então o rei ordenou que trouxessem a Daniel, e o lançaram na cova dos leões. E, falando o rei, disse a Daniel: O teu Deus, a quem tú continuamente serves, Êle te livrará. E foi trazida uma pedra e foi posta sôbre a boca da cova; e o rei a selou com o seu anel e com o anel dos seus grandes, para que se não mudasse a sentença acêrca de Daniel. Então o rei dirigiu-se para o seu palácio, e passou a noite em jejum, e não deixou trazer à sua presença instrumentos de música; e fugiu dêle o sono”. O TEU DEUS TE LIVRARÁ Finalmente, sem nada mais poder fazer, e devendo cumprir a lei dos medos e persas até mesmo nas mais absurdas injustiças, Dario ordena a execução da sentença. Daniel foi trazido, o rei falou com êle e declarou: “O teu Deus, a quem tú continuamente serves, êle te livrará”. Xenofonte diz de Dario, o Medo: “É débil, irresoluto, impulsivo, não obstante não deixava de dar provas dum doce caráter que se resolvia em lágrimas”. Sim, fôsse Dario mais homem e mais rei no momento, poderia ter pôsto a sua vontade e autoridade anulando o decreto provando ser injusto, assassino e fruto duma cega inveja criminosa. Todavia, junto da cova dos leões, manifestou seus sentimentos, seu arrependimento por ter assinado irrefletidamente o decreto, e expressou a esperança de que o Deus de Daniel o livraria. Dario conhecia a vida religiosa fiel de Daniel: “O teu Deus a quem tú continuamente serves”, declarou o soberano. Maravilhosa vida de contínua lealdade a Deus! Nisto se fundou a esperança do rei em que seria liberto por um divino milagre. SÊLO SÔBRE A PEDRA DA COVA DOS LEÕES O édito ou decreto dos príncipes não requeria que o seu infrator fôsse devorado pelos leões, mas que, simplesmente, “seja lançado na cova dos leões”. Assim, pois, cumpriu o rei Dario plenamente as suas estipulações, crendo que, em verdade, o Deus de Daniel não permitiria 301

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que a sentença de morte, não estipulada no decreto, viesse a se verificar. O monarca, bastante previdente, fêz questão de estar presente ao ato condenatório e de dirigir pessoalmente a execução da sentença. Êle mesmo ordenou que a pedra da boca da cova fôsse posta em seu devido lugar. Temendo, não obstante, que o profeta, liberto dos leões por seu Deus, fosse assassinado na própria cova pelos príncipes, êle mesmo pôs sôbre a pedra o seu sêlo real e exigiu que todos os componentes do complô também puzessem os seus selos na mesma, conjuntamente com o dêle. Todo o caso parecia estar liquidado. Satanás e seus anjos regozijaram-se grandemente. Os príncipes pretendiam ter assegurado o que tanto almejavam. E, o rei Dario, confiante na intervenção miraculosa do Deus de Daniel, dirigiu-se ao seu palácio onde, depois daquela terrível experiência, passou uma longa noite de tristeza, insônia e jejum, não permitindo, em seu abatimento, que a orquestra real executasse, segundo o costume da côrte, qualquer programa em sua honra. UM MEMORÁVEL LIVRAMENTO VERSOS 19-23: — “E pela manhã cedo se levantou, e foi com pressa à cova dos leões. E, chegando à cova, chamou por Daniel com voz triste; e, falando o rei, disse a Daniel: Daniel, servo do Deus vivo! Dar-se-ía o caso que o teu Deus, a quem tú continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões? Então Daniel falou ao rei: ó rei, vive para sempre! O meu Deus enviou o Seu anjo, e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem dano, porque foi achada em mim inocência diante dÊle; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum. Então o rei muito se alegrou em si mesmo, e mandou tirar a Daniel da cova: assim foi tirado Daniel da cova, e nenhum dano se achou nêle, porque crera no seu Deus”. A ESPERANÇA DO REI DARIO Mal despontava a aurora quando o rei Dario se dirige às pressas à cova dos leões. Estava êle muito ansiado e sobremaneira abatido. Em meio a uma tirânica noite de insônia e pesadêlo, não perdera a esperança de rever com vida e ileso a seu grande ministro, vilmente alvejado pela infâmia de seus malvados cortezões. Com voz triste e comovente, chama por Daniel à boca da cova. 302

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Quando Dario pôs Daniel na cova dos leões, assegurou-lhe o livramento de seu Deus. Agora, suas palavras parecem denotar dúvida: “Daniel, servo do Deus vivo!”, bradou ele, “dar-se-ía o caso que o teu Deus, a quem tú continuamente serves, tenha podido livrarte dos leões?” Devemos, porém, levar em conta que êle era um pagão e por isso mesmo não podia expressar uma genuína fé na interferência de Deus. Contudo, pensava que algo sobrenatural sucederia em favor de Daniel. Sua expressão: “Servo do Deus vivo”, revela que possuía um grau de conhecimento do Deus e da religião de Daniel. O fato de o monarca referir-se ao Deus do profeta como ‘‘Deus vivo”, sugere que Daniel o instruíra concernente à natureza e poder do verdadeiro Deus. O MILAGRE DO LIVRAMENTO Ao ouvir sua voz embargada pela ansiedade, Daniel responde cortêsmente: “Oh rei, vive para sempre!” Era êste um costume oriental respeitoso dirigido aos antigos potentados com quem se desejava falar referindo algo ou suplicando algum favor.1 Daniel o usou sinceramente em meio à dramática circunstância em que se encontrava — junto dos leões. Depois desta respeitosa instrodução, o servo de Deus declara solenemente ao rei a causa de seu livramento: “O meu Deus enviou o Seu anjo, e fechou a boca dos leões”. Fôra certamente o poderoso Gabriel, o anjo sempre assistente de Daniel nas revelações de Deus, que descera com êle à cova dos leões.2 Estava assim quebrada por completo a ímpia oposição ao inocente, santo e corajoso homem de Deus. Aí estava um dos grandes favores concedidos a um homem que se dispunha a orar três vêzes ao dia, ainda que assoberbado de trabalhos os mais importantes dum reino mundial. “Da história do livramento de Daniel podemos aprender que em tempos de provação e tristeza, os filhos de Deus devem ser precisamente o que eram quando suas perspectivas brilhavam de esperança e estavam cercados de tudo o que poderiam desejar. Daniel na cova dos leões foi o mesmo Daniel que estêve perante o rei como o principal entre os ministros de Estado e como profeta do Altíssimo. Um homem cujo coração se firme em Deus será na hora de sua maior prova o mesmo que era em sua prosperidade, quando a luz e o favor

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Daniel 2:4; 5:10; 6:6; Neemias 2:3. Salmos 34:7.

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de Deus e do homem incidiam sôbre êle. A fé alcança o invisível, e se apega a realidades eternas. “O céu está mais próximo daqueles que sofrem por amor da justiça. Cristo identifica os Seus interêsses com os interesses do Seu fiel povo; Êle sofre na pessoa dos Seus santos; e seja o que fôr que toque em Seus escolhidos toca nÊle. O poder que está perto para libertar do dano físico e da angústia está perto também para salvar do mal maior, tornando possível ao servo de Deus manter sua integridade sob tôdas as circunstâncias, e triunfar através da graça divina”.1 Prosseguindo, dá Daniel duas razões evidentes de seu providencial livramento pelo poderoso anjo de Deus: “Porque foi achada em mim inocência diante dÊle; e também contra ti, ó rei, não tenho cometido delito algum”. Embora essas palavras tenham sido proferidas cortêsmente, deviam ter produzido aguda dôr no coração de Dario, por ter consentido em condenar um inocente perante êle e Deus, simplesmente em atenção a um infame decreto injusto no caso. Mas, o inocente profeta foi protegido por um poder superior a qualquer poder da terra. Sua causa foi vindicada e proclamada a sua inocência pelo próprio Céu. Naquela noite, tão trágica para Dario, o Medo, houve perfeita paz na cova dos leões. O servo de Deus estava tão seguro entre os leões como quando em suas devoções em seu aposento em Babilônia. Ali, em meio às esfaimadas feras em perfeita ordem, Daniel continuou a elevar ao Céu as suas ferventes preces. O silêncio e a paz reinantes entre os ferozes animais naquela lúgubre cova, era evidência da presença do poderoso anjo que comungava de sua devoção naquele ambiente e naquela circunstância inéditos. A vitória estava ganha e os agentes de Satanás seriam logo justiçados como advertência aos que, depois dêles, ousassem erguer-se injustamente contra os embaixadores de Deus Todo-poderoso na Terra. DANIEL É TIRADO DA COVA DOS LEÕES Ao ouvir o rei Dario a Daniel responder-lhe do meio dos leões, revelando absoluta calma e confiança no seu Deus; ao ter agora, mais que nunca, plena certeza de sua inocência; ao constatar o rei o estupendo milagre realizado; muito alegrou-se em vê-lo ileso e pela perspectiva de continuar a tê-lo como seu primeiro ministro em sua
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Profetas e Reis, E. G. White, pág. 545.

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pesada administração de um enorme Império. A alegria de Dario está muito além de sua apreciação; e nós com êle nos alegramos ainda hoje pela preservação daquele extraordinário homem de Deus que, após seu livramento, foi ainda o veículo de tantas maravilhosas revelações de Deus a nós, que agora vivemos no derradeiro final da história do mundo. O rei creu que havia dado satisfação aos requerimentos daquele infamante decreto e ordenou que Daniel fôsse tirado da cova. E o relato inspirado declara: “Nenhum dano se achou nêle, porque crera no seu Deus”. Foi um absoluto livramento. A ímpia oposição ao servo de Deus estava agora completamente esfacelada. O soberano, fora de si pela alegria que sucedeu-lhe uma noite de agonia, certamente estreita em seus braços o seu amado primeiro ministro. Todos os séculos futuros, até agora, tomaram conhecimento do fenomenal milagre, e os fiéis de Deus mais confiança depositaram em Sua ajuda certa em tôdas as circunstâncias. O livramento de Daniel e outros menos impressionantes, contribuíram para amparar numerosos baluartes da fé em circunstâncias difíceis e quase desesperançosas. O TIRO SAIU PELA CULATRA VERSO 24: — “E ordenou o rei, e foram trazidos aqueles homens que tinham acusado Daniel, e foram lançados na cova dos leões, êles, seus filhos e suas mulheres; e ainda não tinham chegado ao fundo da cova quando os leões se apoderam dêles, e lhes esmigalharam todos os ossos”. O REI DARIO VINGA A HONRA DE DANIEL A indizível alegria do rei Dario foi transformada em ira feroz. Compreendendo êle que o Céu declarara a inocência de Daniel e a culpabilidade dos repulsivos príncipes. Para o rei, portanto, o incidente não podia encerrar-se com apenas o livramento de Daniel. A seu ver, aquêles déspotas criminosos, veementemente acusados pelo milagre da providência na preservação do profeta, deviam ser incontinentemente justiçados para exemplo de outros possíveis futuros hipócritas. Homens como tais não só seriam um perigo para a administração real como um vexame para a côrte e suas relações com os povos que constituíam o grande Império mundial. O monarca creu que urgia agir com firmeza e decisão imediata para salvar a honra e os interêsses do reino, — e não teve dúvida em tomar a única medida cabível no caso. 305

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Depois de o rei Dario acompanhar a Daniel aos seus aposentos em Babilônia e falar com êle do grande acontecimento que foi a intervenção de seu Deus para livrá-lo, deixou-o, possivelmente, o que não seria necessário, — sob a custódia de forte guarda. O monarca dirige-se então às pressas ao seu palácio. Fôra redigir e assinar um nôvo decreto. Sim, um nôvo édito, agora não mais para condenar um santo e inocente, mas sim a um grupo de indesejáveis ímpios culpados. A candente ira do soberano atingiu até às famílias daqueles criminosos. Nos têrmos de seu decreto, todos, conjuntamente com mulheres e filhos, deviam ser lançados imediatamente na cova dos leões. Esta terrível sentença foi cumprida por certo com grandes clamores dos sentenciados. Porém, “não tinham chegado ao fundo da cova quando os leões se apoderaram dêles e lhes esmigalharam todos os ossos”. Não é possível precisar o número de príncipes sentenciados com seus familiares. Não se pode dizer que o número alcançou a 120, como o número das províncias e mais os dois antes companheiros de Daniel no ministério das finanças. Embora a Bíblia e a História em nenhuma parte refira-se ao número de sentenciados, cremos terem sido algumas dezenas, além dos seus familiares. O rei ordenou a eliminação de seus familiares ao mesmo tempo com êles, não só para evitar possível represália como também livrar o reino duma casta tão indesejável como aquela. Herôdoto (III 19) e Ammianus Marcelinus (XXIII. 6,81) testificam que a morte dos familiares com os condenados estava de acordo ao costume persa. Com êste tremendo ato do rei encerrou-se em definitivo aquêle complô, sendo proclamada a grandiosa vitória de Daniel e a inexorável derrota total dos príncipes medo-persas. Mais uma vez foram verdadeiras as palavras de Davi e Salomão: “O justo é libertado da angústia e o ímpio fica em seu lugar”. “Cavaram uma cova diante de mim, mas foram êles que nela caíram”.1 UM VELHO RIFÃO EM EVIDÊNCIA Cumpriu-se mais uma vez, naquela horrível refrega, o velho sempre nôvo rifão: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. A condenação na cova dos leões, vilmente preparada contra Daniel, atingiu em cheio a seus próprios e injustos perseguidores. A fôrca preparada para Mardoqueu pelo famigerado Haman, um outro mau

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Provérbios 11:8; Salmos 57:6; 9:15.

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príncipe medo-persa, serviu também para o seu próprio enforcamento.1 Nos dois casos Deus agiu com rapidez, para vindicar o Seu nome e limpar o caminho dos mensageiros da justiça — do estorvo de seus audazes oponentes. Os livramentos de Daniel em Babilônia e o de Mardoqueu em Susã, bem como o total aniquilamento de seus opositores, revelam a aversão do Céu aos perseguidores daqueles que Deus chamou e os incumbiu de levarem avante e a têrmo — anunciando-o — o seu plano de redenção dos homens. Todos quantos tentaram imitar aquêles cruéis cortezões da antigüidade, receberão a mesma merecida paga. Deus está vigiando sua gloriosa obra na terra, bem como a seus escolhidos mensageiros, e não passarão despercebidos a seus olhos nem impunes aqueles que ousarem pôr tropêço à sua marcha vitoriosa. O juízo os liquidará para sempre. UM DECRETO MUNDIAL EM HONRA DE DEUS VERSOS 25-27: — “Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e gentes de diferentes línguas, que moram em tôda a terra: A paz vos seja multiplicada. Da minha parte é feito um decreto, pelo qual em todo o domínio do meu reino os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque êle é o Deus vivo e para sempre permanente, e o Seu reino não se pode destruir; e o Seu domínio é até ao fim. Êle livra e salva, e opera sinais e maravilhas no Céu e na Terra; Êle livrou Daniel do poder dos leões”. UMA JUSTA HOMENAGEM O rei Dario, o Medo, estava satisfeito. Tinha a seu lado novamente a Daniel, o seu insubstituível primeiro ministro. Todos os inimigos da prosperidade do reino haviam pago com a pena capital as suas injustiças. A paz e a tranquilidade voltaram ao trono real. Uma só coisa faltava e desejava o monarca realizar com tôda a reverência, com tôda a honra e com a maior solenidade: Prestar ao Todo-poderoso Deus de Daniel uma justa e verdadeira homenagem, em respeito ao Seu inigualável poder e por lhe ter devolvido o seu maior homem e ministro de Estado através de uma tão impressionante intervenção. Em seu gabinete de despachos, ainda sob a forte impressão dos acontecimentos ligados à traição e à inédita vitória de Daniel, redige o
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Ester 7:10.

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mais famoso decreto de seu tão efêmero mandato real: Um tributo de reconhecimento e gratidão ao Criador e Supremo Deus. O potentado Medo não desejou que sua homenagem ao Deus Onipotente atingisse apenas a capital do Império — Babilônia, onde aqueles sucessos haviam tomado lugar. O mundo todo, todo o reino, cada cidade e lugarejo das 120 províncias que compunham aquela realeza, desde a Índia à Etiópia, deviam tomar conhecimento do grande milagre da proteção e libertação de Daniel na cova dos leões pelo poderoso anjo enviado de Deus. Eis o decreto do rei: Paz vos seja multiplicada. De minha parte é feito um decreto, Pelo qual em todo o domínio do meu reino Os homens temam e tremam perante o Deus de Daniel Porque Êle é o Deus vivo e para sempre permanente, E o Seu reino não se pode destruir; O Seu domínio é até ao fim. Êle livra e salva, E opera sinais e maravilhas no Céu e na Terra; Êle livrou a Daniel do poder dos leões. Posto que legítimo pagão, expedira o rei Dario um inigualável decreto em exaltação de Deus. Era, porém, fruto da poderosa evidência que lhe dera de Sua supremacia o Deus de Israel. Êle quis fazer notório a todo o reino aquêle invencível poder que o impressionara sumamente. Pelos têrmos de seu decreto, é provável que êle posteriormente aceitara o Deus de Daniel como seu Deus, e não será maravilha encontrar-se-no futuro reino de Deus, ao lado de seu então honrado ministro de Estado — Daniel. Antes de Dario, Nabucodonosor, rei de Babilônia, legislou dois decretos em honra de Deus, igualmente fundado em irrecusáveis evidências que lhe dera o Rei do Céu do Seu incomparável poder, — e entregou-se afinal a Deus para servi-1’O e ser salvo.1 Seguramente Nabucodonosor estará no glorioso futuro reino e provavelmente o rei Dario, o Medo, também lá se encontrará. O rei começa seu decreto almejando “paz... multiplicada” a seus súditos de tôda a terra. Esta sua atitude revela uma rápida mudança em seu caráter e vida, depois daqueles terríveis acontecimentos que o envolveram. A mesma “paz multiplicada” desejou o rei
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Daniel 3:29; 4:1-37.

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Nabucodonosor ao mundo ao se converter a Deus.1 Daí vermos na introdução do decreto de Dario os indícios de sua conversão ao Deus único e Criador. A paz de Dario e de Nabucodonosor, era uma paz rara! Em geral os governantes do mundo não cuidam devidamente de seus súditos; os deixam entregues aos usurpadores e ladrões. Aqui, porém, tratamos de dois homens, reis do mundo, que se entregaram a Deus, e êste grande fato redundou em bem de seus súditos de tôda a terra. A seguir, o rei Dario, em seu nôvo sêlo religioso, concita aos súditos de seu reino para que “temam e tremam perante o Deus de Daniel”, e apresenta-lhes firmes razões porque deviam fazer isto: “Porque Êle é o Deus vivo”, diz o rei. Aí está o caráter do verdadeiro e único Deus, contrastando com os deuses inertes de mera imaginação e feitio humanos. Os deuses sem conta adorados naquele tempo, são reduzidos a nada pelo decreto de Dario, pois “Deus vivo” só é o Deus de seu servo Daniel, afirmou êle. Êle é “para sempre permanente”, continua o soberano. Quando naquele tempo um povo conquistava outro povo, dizia-se que a batalha era dos deuses, e que os deuses dos vitoriosos conquistaram os deuses dos vencidos. O rei Dario, porém, proclama ao mundo um Deus Todo-poderoso, inigualável, inconquistável, “para sempre permanente”, cujo reino, assinala o decreto, “não se pode destruir” jamais, pois seu domínio alcança de uma à outra eternidade. O Deus de Daniel, o “Deus vivo”, é o Deus que “livra e salva” “e opera sinais e maravilhas no Céu e na Terra”. E, o que por fim encerrou o famoso decreto com chave de ouro, foi esta declaração: “Êle livrou a Daniel do poder dos leões”. Nunca antes se vira ou soubera que daquela “cova de leões” saíra algum condenado com vida. Nenhum outro deus livrara um adorador seu antes ali lançado. O primeiro caso aí estava estupendo, fantástico, grandioso, quase incrível, abismante! O édito de Dario é convincente e supremamente apelativo. Seus súditos podiam crer no poderoso Deus de Daniel, pois assim adorariam o Verdadeiro e Soberano Senhor dos Céus e da Terra. DANIEL SEMPRE PROSPEROU VERSO 28: — “Êste Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa”. O livramento de Daniel pelo poder de Deus e o decisivo decreto do rei Dario, arrazaram em definitivo tôda a ímpia oposição, presente
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Daniel 4:1.

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e futura, contra êle no reino Medo-Persa e asseguraram a honra de seu Deus na côrte mundial. E, o último relato sagrado que dá conta da estada de Daniel na côrte Medo-Persa, assim reza: “Êste Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa”. O grave incidente no final de sua vida, resultou em sua prosperidade como estadista. Dario e Ciro, embora por pouco tempo, de Daniel, usufruiram, inestimáveis benefícios da sabedoria e experiência dêste servo de Deus como primeiro ministro por dezenas de anos na côrte de Babilônia. Extraordinária vida vivida a serviço de Deus e para abençoar o mundo antigo, tão carente de justiça e de homens verdadeiramente homens. O mundo hoje carece de homens de seu caráter e de sua têmpera. Carece de estadistas de seu timbre que prefiram antes de tudo a morte que o ludíbrio, que o engano. Carece de cristãos de sua fé, de sua moral, de seu testemunho. E, mesmo com a lanterna de Diogenes em punho e em pleno meio dia, dificilmente se encontrará homens, — na governança, na sociedade e na religião, — que se enquadrem no molde moral e espiritual de Daniel, — poderoso estadista e poderoso servo de Deus.

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SEGUNDA

PARTE

SEIS CAPÍTULOS DE PROFECIAS ALUSIVAS À HISTÓRIA DAS NAÇÕES — DE BABILÔNIA AOS NOSSOS DIAS

CAPÍTULO VII
O DRAMA DAS OPRESSÕES POLÍTICAS E RELIGIOSAS

Introdução O capítulo sete do livro de Daniel constitue o calendário profético da civilização permeado da mais profunda significação histórica. A História é a tremenda e ininterrupta luta entre o bem e o mal; entre a luz e as trevas; entre a verdade e o êrro. É o contínuo conflito entre a vontade de Deus e a vontade do homem. Se o homem jamais se houvesse rebelado contra o govêrno de Deus, não teríamos tido o que chamamos a — História Política das Nações. Esta história é, por conseguinte, a história de um mundo que se rebelou contra Deus e a ordem divina. Como um enfermo que sofre de moléstia infecciosa, foi nosso planeta isolado do resto do universo para evitar o seu contágio fatal com os mundos santos não caídos. Esta é a triste história de nossa civilização em ousada rebelião e desafio contra o Criador e suas justas, santas e divinas leis. Esta é a tragédia das tragédias. Os homens jamais distinguirão, pela sabedoria humana, entre a vontade de Deus e os enganos de Satanás. O significado mais evidente dos acontecimentos da História vem aos homens unicamente através a revelação contida nas Sagradas Escrituras. Apartando-se êles da revelação de Deus, suas falsas esperanças forçosamente os extraviarão. Portanto, o conhecimento histórico está ligado — em um vivido sentido de dependência — à revelação, a revelação que fornece a chave do significado do passado, do presente e do futuro. Assim a História é a continua resposta do sentido da revelação. Daí ter a revelação por objetivo orientar o homem em face da História, auxiliá-lo a precaver-se tomando posição contra o mal, leválo a apegar-se ao bem e tirá-lo das trevas para a perfeita luz de Deus. O tema geral do capítulo sete do livro de Daniel trata, pois, duma extraordinária profecia perfeitamente comprovada por irrecusáveis evidências históricas. E o profeta fornece-nos o seu esboço — desde o

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Império de Babilônia até o estabelecimento do glorioso e eterno reino de Deus nesta terra purificada e transformada. Em 1607, Leonard Kern esculpiu, em cima de duas portas das três que compreendem a entrada da casa consistorial de Nuremberg, aliás, na da extrema direita e na da extrema esquerda, as cenas dos quatro animais do capítulo sete de Daniel que vamos considerar. Ali estão o leão, o urso, o leopardo e o monstro de dez chifres. Na frente de cada animal está a figura de cada um dos supremos representantes dos reinos que simbolizam, que são respectivamente — Nabucodonosor, Ciro, Alexandre e César. “Foi um espetáculo noturno histórico “A Exibição do Império”, no Estádio de Wembley, próximo de Londres, em 1925. Uns cem mil espectadores esperavam, como que em suspenso, à medida que da compacta escuridão ouviam os sons de homens em marcha, rufar de tambores, e os fracos acentos de uma música marcial. Algo surpreendente estava para acontecer. Ia-se aproximando cada vez mais; o que era, porém, ninguém podia ver. Havia trevas, um senso de mistério e ansiosa expectativa. “De repente, tôdas as lâmpadas se acenderam; e que quadro sensacional se deparou aos olhos estarrecidos de todos! Batalhões após batalhões de soldados em marcha, trajando os vários uniformes usados pelos exércitos da história, desde os primitivos tempos, até nossos dias. Ali, numa pompa multicor, elmos cintilantes, espadas e lanças, incitados pela música marcial de bandas reforçadas, achavamse, ordenadas para a batalha, as legiões dos séculos”.1 Seria mais importante que os homens cressem nesta inspirada revelação e se curvassem em reverência e adoração ao supremo Revelador, de que simplesmente representaram-na sem O reconhecerem com devoção e submissão incondicionais e decisivas. O presente capítulo está dividido em duas sessões distintas — a política e a eclesiástica. A sessão política compreende um impressionante panorama dos grandes Impérios da História, tais como Deus os viu e os prefigurou em terríveis feras simbólicas duma política de agressão e de impiedoso jugo imposto por êles sôbre inúmeros povos conquistados. Não admira, pois, que da antiga civilização subjugada, escravizada e explorada por aqueles tirânicos poderes, só restem destroços, ruínas informes, relatórios que revelam o orgulho e a soberba de seus potentados, as suas destruições, os seus
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A Marcha da Civilização, A. S. Maxwell, pág. 75.

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latrocínios, as suas chacinas sem conta e os seus inomináveis crimes. Os símbolos metálicos do capítulo dois e os símbolos animais do capítulo sete, que tratam da mesma profecia dos quatro Impérios, decrescem seriamente em importância e valor, evidência de que, à medida que o curso da História tem continuado, a civilização tem perdido consecutivamente a sua importância na apreciação do céu, comprovação essa de que ela se apressa ao seu inevitável ocaso. O altivo homem vê a atual civilização em progresso, em face de suas gigantescas e nunca dantes igualadas realizações científicas e culturais materialistas. Deus, porém, a vê em franco retrocesso — moral, social, espiritual e governamental — mais e mais acentuado. Aquilo que o materializado homem denomina de civilização, fundado em desenvolvimento puramente material, tem-se demonstrado decadência, debalde, caos, afastamento absoluto do Creador, de Sua justiça e de Suas leis. (Veja-se no segundo capítulo: Uma Civilização de Ferro e Barro). Na sessão eclesiástica e em seu primeiro plano alusivo ao nominal cristianismo dos séculos post-apostólicos até ao presente, deparam-se-nos indiscutivelmente colapso, aberta apostasia e ridícula insolência, — em que o vil mortal, em sua irreverência e sacrilégio, usa os próprios sacratíssimos títulos da divindade celestial e até ousa, pretensamente, substituir a Deus na terra e ser adorado em Seu lugar, bem como pôr em segundo plano a Sua lei e o Evangelho de Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, trocando-os pela tradição dos apóstatas. No segundo plano da sessão eclesiástica, divisamos a abertura do augusto tribunal do universo e o assento solene do juízo que decidirá da sentença justa sôbre os bilhões de bilhões de indivíduos — mortos e vivos — que por êste mundo passaram e atuaram. A majestade do supremo Juiz e de Seu trôno de fogo e a presença de milhões de milhões de angélicas testemunhas, prontas para depôr, — emprestam ao ato solenidade e circunstâncias tão tremendas, que não é possível ao mortal descrever em termos de linguagem humana, mesmo em se tratando duma visão da realidade. Contudo, a hodierna civilização vive nesta hora solene, perigosa e decisiva de sua história, — o momento de seu julgamento e de sua inexorável sentença eterna, — de modo ousado, desrespeitoso e desafiante a Deus, à Sua justiça e às Suas divinas, imutáveis e santas leis. Findando, esta introdução, dizemos que, a magnitude e 315

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importância da profecia inspirada dêste sétimo capítulo, é decisiva a quem a lêr e estudar. O homem que a Deus reconhece como Senhor e Juiz, não terá dúvidas, findo o exame desta revelação, em decidir-se a ser, imediata e irrevogàvelmente, um servo leal e um honrado representante do Altíssimo, em cujo tribunal sua vida terá de ser passada em revista e suas contas com o céu ajustadas. A DATA E LOCAL DA PRIMEIRA VISÃO DE DANIEL VERSO 1: — “No primeiro ano de Belshazzar, rei de Babilônia, teve Daniel, na sua cama, um sonho e visões da sua cabeça: escreveu logo o sonho, e relatou a suma das coisas”. O PRIMEIRO ANO DE BELSHAZZAR No capítulo oito de seu livro relata Daniel a sua segunda visão que êle mesmo data do terceiro ano do rei Belshazzar. Nesta visão o Império de Babilônia fôra de todo excluído da Revelação, ao passo que na primeira visão relatada no sétimo capítulo datada do primeiro ano de Belshazzar, Babilônia ainda figura como poder mundial embora apenas cêrca de três anos antes de sua queda. Ora, sabemos que a Inspiração só trata de poderes terrenais vigentes e estáveis ou quando êles têm chance de avançar para o futuro pelo menos ainda por algum tempo, ainda que pouco. Do contrário, nenhuma razão haverá para serem alvos de profecias que revelem suas atuações futuras se êles do futuro estarão excluídos. Compreendemos, portanto, que, o ano da segunda visão de Daniel, o terceiro de Belshazzar, fôra, sem dúvida alguma, o último ano do Império de Babilônia, aliás, o ano de sua queda para sempre, 539 a.C. — em que não haveria mais um futuro ano para êle — razão porque não figura na segunda visão do profeta que começa com a Medo-Pérsia. E, uma vez que o Império Caldeu encontrou o seu trágico fim em 539 a.C., vencido pelos medas e persas sob Ciro, evidentemente o primeiro ano de Belshazzar e consequentemente a data da primeira visão de Daniel, segundo o capitulo sete, foi infalívelmente o ano 541 a.C. Com isto compreendemos que Belshazzar esteve na co-regência do reino caldeu, conjuntamente com seu pai Nabonidos, apenas três anos, sendo seu efêmero reinado marcado pela libertinagem que lhe era própria e pelo juízo de Deus que o varreu para sempre do mundo.

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UMA VISÃO NUM SONHO NOTURNO O profeta fez questão de frizar que o local em que pessoalmente se encontrava ao receber a sua primeira visão foi a sua própria cama, comprovando com isso tê-la recebido à noite em tranqüilo sono. No oitavo capítulo, porém, constatamos a segunda visão do profeta que entendemos, em face de tôda a segunda visão do profeta que entendems, em face de tôda a explanação de Gabriel que continua nos capítulos seguintes, tratar-se de uma visão aberta, isto é, em arrebatamento de sentidos ou em um perfeito extase. E, sua terceira visão, relatada no capítulo dez, foi também outro extase perfeito. Assim teve Daniel visões através de dois sistemas distintos: em sonho e em extase. Êstes dois sistemas foram, na maioria dos casos, os preferidos por Deus em suas comunicações com grande número de Seus antigos profetas. Por êstes dois métodos a mente do profeta era posta sob o domínio e controle absolutos do agente da revelação, o Espírito Santo,1 não havendo a possibilidade do mínimo desvio da atenção do profeta, sendo por isso impossível a corrupção pelo instrumento humano.2 Na “visão da noite” ou visão em sonho, ainda que o contrôle do Espírito Santo fôsse uma realidade indiscutível, o processo do preparo do profeta para a recepção da visão era natural, aliás, o próprio sono. Porém, na visão por arrebatamento de sentido ou extase, urgia que o Espírito Santo o preparasse de modo especial pondo-o em condições de ver e ouvir o sobrenatural de que devia ser inteirado. Evidências disto temos no Nôvo Testamento nos ministérios de três apóstolos — S. Pedro, S. Paulo e S. João, e no Velho Testamento no do profeta Balaão, cujos textos indicamos aqui.3 Em tais ocasiões, do extase, aliás, o profeta não só permanecia durante tôda a visão alheia a tudo e a todos em quaisquer que fossem as circunstâncias, como manifestava absoluta ausência de respiração. Contudo, o seu organismo físico permanecia em perfeita normalidade, incluso o pulso, o coração, a corrente sangüínea, a coloração da pele e a própria fisionomia. É, porém, notável, que, embora alheio inteiramente a todo o ambiente e circunstâncias durante a recepção do sobrenatural, o profeta tomava
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I Samuel 10:10; Zacarias 7:12; Miquéias 3:8. Hebreus 1:1; Números 12:6. 3 Atos 10:10-17; 22:17; II Coríntios 12:1-4; Apocalipse 1:10; Números 24:15-16.

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parte ativa na visão enquanto contemplava com o olhar fixo, sem pestanejar, as cenas da revelação. Às vêzes fazia graciosos gestos, falava ou descrevia pontos do que via — fossem objetos, edifícios, cidades, planetas, personagens, animais ou panoramas. Foi assim que a vontade de Deus foi-nos transmitida através de Seus santos servos, os profetas, tal como a temos nas Sagradas Escrituras, sendo essa comunicação de Deus com o profeta comumente denominada — “Testemunho de Jesus” ou “Espírito de Profecia”.1 Denomina-se “Testemunho de Jesus” porque Jesus é o Mediador entre Deus e o homem, e é por Seu Espírito que Êle anuncia ao profeta a revelação.2 Para Daniel, demonstrou a importância da visão e seu evidente zêlo por ela relatando-a imediatamente ao despertar do seu memorável sonho inspirado. Sua responsabilidade para com o grande Revelador e a posteridade a quem a revelação que recebera se destinava, foi assim cumprida incontinente, e nós nos devemos alegrar e sentir-nos felizes por sua fidelidade em nos transmitir, da parte de Deus, tão preciosa profecia repleta dos mais sensacionais lances de História Universal — secular e eclesiástica. TEMPESTADE NO MAR GRANDE VERSO 2: — “Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando, na minha visão da noite, e eis que os quatro ventos do céu combatiam no mar grande”. O MAR GRANDE NO MUNDO ANTIGO O Mar Grande, nos dias desta visão, vamos dizer de inicio, era o mesmo mar também conhecido pelo nome do Mediterrâneo. Em tôrno desse mar viveu o mundo dos dias de Daniel e depois dêle, e por suas encapeladas ondas navegavam e comerciavam os povos que dominavam suas margens. Nêle poderosas esquadras mediram outrora suas forças e ambições, vibrando grandes e decisivas batalhas em busca do predomínio de suas águas. Roma, Bizâncio, Atenas, Cartágo, Egito, Creta e Fenícia, principalmente, lutaram tenazmente por êsse predomínio, vencendo por fim Roma — graças à sua melhor estratégia náutica que lhe deu e assegurou em definitivo e por séculos o poderio bélico-naval no grande mar.
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Apocalipse 12:17; 19:10. I S. Pedro 1:10-11.

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Nenhum outro teatro natural do mundo antigo asseguraria com tanta precisão um símbolo profético tão expressivo e completo das grandes lutas pelo domínio do orbe de então, do que o Mar Grande ou Mediterrâneo. Naquele tempo, como hoje, êle se localizava no centro habitado do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul. De tudo isso vemos a grandeza da divina sabedoria na escolha daquele mar como emblema das grandes mutações políticas dos povos que trariam como resultado os poderosos impérios da História. A BATALHA DOS QUATRO VENTOS NO MAR GRANDE Nas profecias inspiradas águas representam povos, nações, multidões.1 Em se tratando de um rio, designa êle a potência dominante de sua região à qual êle banha. Na antiguidade o rio Nilo como o Eufrates, eram respectivamente emblemas do Egito e da Assíria.2 Se a inspiração houvesse por bem representar nas profecias inspiradas o Brasil, os Estados Unidos, a Alemanha, a Inglaterra, a França ou a Palestina, no simbolismo das águas, certamente empregaria os correspondentes e mais famosos rios dêstes países: o Amazonas, o Mississipe, o Reno, o Tâmisa, o Laize e o Jordão. Porém, quando a revelação trata dum grande poder de influência total no mundo — seja política ou eclesiástica — nêste caso usa o mar como emblema.3 No Apocalipse, capítulo dezessete versículo 19, já citado, temos um frizante exemplo, aliás, o da Igreja Católica “assentada sôbre muitas águas”, simbólicas do mundo onde ela desempenha as suas atividades. Entre os sinais precursores de Seu segundo advento, alude Jesus: “... e na terra angústia das nações, em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas”.4 Fantástica evidência do Salvador: Os povos e nações do glôbo no símbolo do mar e suas ondas! Os próprios grandes impérios da terra que nêste capítulo estamos considerando, encontram no mar a sua figura profética. Assim, assentamos, as águas do Mar Grande, nesta profecia, eram simbólicas dos poderes que sucessivamente dominaram o mundo de outrora — dos Impérios que no orbe de então exerceram poder de conquista, domínio e opressão por certo tempo.
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Apocalipse 17:15. Jeremias 46:8; Isaías 8:7. 3 Isaías 17:12. 4 S. Lucas 21:25.

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Ventos, como no caso profético em foco, aludem, em linguagem figurada, a comoções, lutas e guerras internacionais pela conquista aa hegemonia política sôbre as nações do mundo.1 E na verdade fôra esta a dramática história dos povos que na distante antigüidade habitavam em torno do Mediterrâneo e nêle dominavam. Tal era a agitação, a efervescência, os conflitos entre aqueles antigos povos, que a profecia declara que os quatro ventos do céu combatiam. Um verdadeiro furacão político total pejado de ódio, de racismo, de vingança, de sangue e de sede do domínio absoluto. Viveram âqueles povos num caos contínuo sem solução humana, mas que Deus solucionou liquidando-os para todo o sempre, para exemplo das nações que no futuro tentassem imitar a loucura da conquista armada e dominação sôbre os povos que devem permanecer livres e independentes de qualquer jugo estrangeiro. Mas, desgraçadamente, o exemplo dado por Deus tem sido regeitado pelas nações modernas mais poderosas em tôda a era cristã, mormente no século em que vivemos. Saibam os poderosos da atualidade que também estão inclusos na profecia que apreciamos, e que sôbre êles certamente pesa o desagrado de Deus pelo orgulho, pela jatância e pela loucura da busca, pelas armas, da preponderância no mundo. Entretanto, as profecias divinas já determinaram o terrível destino dos ambiciosos poderes desta geração tão bem como as das gerações passadas, que, sucumbiram sob o juízo do Rei do universo cuja honra ofenderam e cujo domínio neste planeta desprezaram e usurparam. GRANDES ANIMAIS SOBEM DO MAR VERSO 3: — “E quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar”. UMA CENA DEVERAS GRANDIOSA Uma empolgante e ao mesmo tempo aterradora cena contempla Daniel em sua visão do Mediterrâneo. Pensemos em os quatro ventos soprando simultaneamente sôbre um só lugar qual furacão jamais visto ou sentido! Se nos fôra dado contemplar no mar a cena de sua visão como cena natural, ficaríamos não só maravilhados como também assombrados. A tremenda história das nações e povos em luta titânica pelo supremo poder político no mundo, desde Babilônia às
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Jeremias 25:32; 49:36-37.

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nações modernas, segundo é o conteúdo da grande visão de Daniel, dá-nos uma idéia do gigantesco espetáculo daquele mar enfurecido aos olhos videntes do profeta. PODERES TERRIVELMENTE SIMBOLIZADOS Da imensa e enfurecida massa líquida saem quatro grandes, terríveis e ferozes animais “diferentes uns dos outros”, em atitude de agressão, destruição e supremacia. Segundo a explanação do anjo Gabriel nos versículos 17 e 23, os quatro animais eram imagens de quatro poderosos reinos “mundiais que se levantariam do enfurecido mar de povos dos antigos tempos. A natureza e a aparência de cada fera era uma estampa vivida do caráter dos quatro reinos, medido pelo caráter politico de seus próprios soberanos. Animais, como símbolos de podêres nesta profecia, não constituem admiração, pois tais figuras já haviam sido empregadas antes pela inspiração. O Egito foi considerado um “dragão” na pessoa de Faraó.1 A Assíria foi figurada num “leão”.2 No estandarte de cada uma das quatro tribos líderes de Israel havia um animal simbólico — leão, bezerro, homem e águia.3 Outros símbolos há referidos na Bíblia correspondentes a povos remotos. O livro do Apocalipse está repleto de emblemas — animais e outros — alusivos a poderes políticos e eclesiásticos vigentes na era cristã. As próprias nações modernas usam animais como imagens de seu poder: A Inglaterra usa um leão, a Rússia um urso, os Estados Unidos e Alemanha uma águia, a França um galo, a China um dragão, e outras nações têm insígnias várias indicativas de supremacia. Assim, não é de maravilhar os símbolos da profecia de Daniel que apreciamos. BABILÔNIA — O PRIMEIRO IMPÉRIO MUNDIAL VERSO 4: — “O primeiro era como leão, e tinha azas de águia: eu olhei até que lhe foram arrancadas as azas, e foi levantado da terra, e posto em pé como um homem; e foi-lhe dado um coração de homem”.

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Ezequiel 29:3. Jeremias 50:17. 3 Apocalipse 5:5; Números 2:1-30; Apocalipse 4:7; Ezequiel 31:10.

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UM PODEROSO LEÃO-ALADO Antes de tudo leia-se a exposição: A Origem do Império Babilônio, relativa aos versos 37 e 38 do capítulo dois deste livro de Daniel que consideramos. Do quarto animal dêste sétimo capítulo e do quarto metal da estátua referida no capítulo dois, é claramente dito representarem “o quarto reino da terra”. Portanto, o primeiro animal — um leão — e o primeiro metal daquela estátua — a cabeça de ouro — como o profeta assevera, designam ao primeiro reino da terra — o reino de Babilônia.1 Na cabeça de ouro é Babilônia figurada como o reino mundial mais famoso, o mais perfeito dos reinos dos homens, o mais bem organizado, o mais opulento de todos. No leão é êle designado pela inspiração como o mais forte, o mais poderoso, o que exerceu uma supremacia territorialmente maior sôbre as nações. No capítulo dois é enfatizado que o domínio do reí Nabucodonosor se estendia até “onde quer que habitem filhos dos homens, animais do campo, e aves do céu”, isto é, sobre a vastidão do mundo habitado. O leão é o rei, o monarca absoluto em seu reino. É o mais poderoso dos carnívoros; de porte altivo e olhar majestoso, sua espêssa juba dá-lhe o aspecto de rei, de imperador, de soberano. Possui grande fôrça e extraordinária agilidade. Com uma patada quebra a espinha dorsal de um cavalo, sendo capaz de saltar até quatro metros de altura, embora chegue a pesar até duzentos quilos. É abundante nos climas quentes, mormente na África onde se encontra as espécies maiores e mais temíveis. Em sua boca parece estar o segredo do seu poder e a magia de causar terror aos demais animais de seu reino. Seu aterrador rugido, ouvido a quilômetros de distância, põe em fuga a todos os quadrúpedes em debandada errante e desabalada. Astuto como só êle sabe ser, põe-se à espreita de suas vítimas que dificilmente conseguem escapar de suas garras. Sem suspeitá-lo em sua emboscada, são em geral incapazes de se porem em segurança. O leão só sai de seu retiro às primeiras horas da noite e volta à saída do sol; a êste tempo busca as suas prêsas. É, porém, muito prudente. Gosta especialmente dos grandes ruminantes e os surpreende de emboscada na proximidade das águas. Mata suas vítimas desarticulando-lhes as vértebras cervicais com a pancada de sua larga pata de garras curvas, despedaçando-lhes o pescoço com seus enormes
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Daniel 2:37-38.

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dentes. Faz estragos terríveis nos rebanhos, causando temor por tôda a parte. Nenhum outro animal se atreve a enfrentar voluntariamente um leão. De igual modo, nenhum povo fêz frente com êxito a Nabucodonosor e com êxito nenhum vassalo seu ergueu o pé contra êle. O grande rei era o temível leão personificado de cujas garras nenhuma nação escapava. As próprias Sagradas Escrituras denominam de “leão” a êste poderoso rei, único no Império Caldeu mundial que soube ser um monarca na altura devida. Os demais ficaram muito aquém dêle.1 O leão desta profecia é um leão-alado com “azas de águia”. Extraordinária conexão de símbolos na exaltação dum único poder da terra sob um único potentado! As “azas de águia” dão a esta ave grande autonomia de vôo, grande raio de ação na conquista ao espaço em busca remota dê suas vítimas. Assim foi Babilônia sob o rei Nabucodonosor. Êle acumulou em figura o poder, a fôrça e a majestade do leão no reino dos brutos, acrescidos da rapidez, da rapina e da implacabilidade da águia no reino das aves. Senhor do poder do leão e da águia figurados, caía o rei caldeu inexorável sôbre suas prêsas internacionais. A revelação associa as conquistas dos exércitos dêste rei ao poder da águia nestas palavras: “Porque eis que suscito os caldeus, nação amarga e apressada, que marcha sôbre a largura da terra, para possuir moradas não suas. Horrível e terrível é; dela mesma sairá o seu juízo e a sua grandeza. Os seus cavalos são mais ligeiros que os leopardos, e mais perspicazes do que os lobos à tarde; os seus cavaleiros espalham-se por tôda a parte; sim, os seus cavaleiros virão de longe, voarão como águias que se apressam à comida”.2 Nos emblemas do quadrúpede rei da terra e da rainha das aves dos ares — era o famoso monarca absoluto, temido em todo o orbe habitado. O LEÃO-ALADO NA ARTE E NA MITOLOGIA DE BABILÔNIA O emblema do leão-alado nesta profecia de Babilônia, foi um amplexo da arte e da mitologia caldaicas arranjado pela Inspiração. A figura de leão ligada à arte encheu todo o curso da história da Mesopotâmia, na antigüidade, não meramente no Império NeoBabilônico da dinastia caldaica, mas desde os primitivos tempos de
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Jeremias 50:17, 55; Joel 1:6, Jeremias 4:7. Habacuque 1:6-8.

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Babilônia e o seguinte período do domínio assírio até à magnificente arte da rejuvencida Babilônia de Nabucodonosor e seus sucessores. As cabeças de quatro leões foram encontradas defronte ao frontispício de um primitivo templo. Um leão guardava a entrada do santuário do Gatumdug, ao tempo de Gude, e no monólito do Gudea um leão assentava-se ao lado do trono. Em Assur, na Assíria, que tomou a cultura de Babilônia, um leão de gêsso, deitado, foi descoberto em fundamentos de pedra. Nos tempos assírios leões guardando uma entrada eram sempre representados como parados ou a passos largos em direção ao inimigo, e os “portentos leões-alados” simbólicos não eram igualmente incomuns. Layard descobriu um par de leões de pedra guardando a entrada do templo de Bêlit-mâti em Calah. Um leão de bronze foi achado firmemente implantado no solo na entrada do palácio em Khor-sabad. Dentro do palácio de Nabucodonosor na principal fortaleza em Babilônia, numerosos fragmentos de leões em basalto foram descobertos. Também leões em tijolos vítrios eram representados andando para a direita e para a esquerda na entrada do templo de Jirgal em Khorsabad. Freqüentemente era o leão representado nos vítrios e coloridos tijolos que adornavam as paredes dos templos e palácios. Nabucodonosor estampou a figura de leão nos tijolos de seus edifícios. Selos cilíndricos mostravam o combate de Marduque com leões-alados com faces de águia. Até mesmo em desenhos externos de mesas de jôgo era vista a figura de leão. Finalmente uns sessenta leões apareciam, andando, sobre ambos os lados dos muros do “Caminho Processional” que conduzia à famosa Porta Istar na Babilônia de Nabucodonosor. Não somente eram os leões símbolos de Marduque e Istar, mas também as combinações leão-águia eram comuns nas representações de Bel e o Dragão. As águias sumerianas com uma e às vêzes com duas cabeças de leão eram substituídas por leões-babilônios-alados com azas de águia e pés com garras trazeiras. Às vêzes o leão tinha uma cabeça ou cauda de águia, e às vêzes faltavam as garras. Leões-alados eram representados em conexão com Ehlil e seu filho Minurta, e é bem conhecido que Marduque, na mitologia babilônia, sucedeu ambas estas divindades. Marduque é representado conduzindo um carro tirado por um leãodragão-alado, ou cavalgando um leão-alado que vomitava chamas, ou em combate com esfinge e um leão-alado. A combinação de leão e águia era muito comum. Muitas vêzes um leão com azas de águia e às vêzes com garras ou bico; um singular compôsto era a águia com 324

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cabeça de leão. O leão-alado é uma das formas da bêsta muitas vêzes pintada em combate com Marduque, o deus patrono da cidade de Babilônia. Assim pode ser visto o que o leão com azas de águia representava à mente contemporânea nos dias de Nabucodonosor. De uma tal figura — artística e mitológica — bastante familiar, lançou mão a Providência para apontar profética e simbolicamente o poderoso reino caldeu na pessoa de seu grande rei — Nabucodonosor, cuja similitude não podia ser mais apropriada e mais fàcilmente compreendida naqueles dias e em todos os tempos, mormente agora quando a arqueologia traz à tona o símbolo de leão como fundamental no caráter do Império Babilônio. Foi assim que o rei Nabucodonosor, reunindo em sua pessoa a supremacia do poder político na magia da arte e da mística, mitológica, simbólicas do leão-alado da crença de seus contemporâneos e compatriotas, saiu de seu pequeno reino caldeu herdado para conquistar o mundo e tornar-se senhor absoluto das nações. AS CONQUISTAS DE BABILÔNIA SOB NABUCODONOSOR No ano 606 a.C. Nabucodonosor, ainda príncipe e general de seu pai Nabopolasar, avançou até à Judéia, levando de vencida o exército egípcio que pretendia reapossar-se dos territórios do rio Eufrates perdidos aos caldeus vitoriosos em ascenção. Nesta campanha a Judéia capitulou e foi convertida em satrapia de Babilônia. Volvendo nossos olhares ao primeiro capítulo e primeiro versículo apreciaremos melhor a campanha da Judéia e submissão do rei judeu e sua destruição por fim. Enquanto em campanha contra os egípcios e os judeus neste ano 606 a.C., tomara Nabucodonosor conhecimento da morte repentina de seu pai, e acorre às pressas à Babilônia a fim de cingir a coroa como único legítimo herdeiro do trono. O ano 605 a.C., porém, foi o primeiro ano oficial de seu reinado, tendo sucedido seu pai no ano anterior. A INÉDITA TRANSFORMAÇÃO DO LEÃO-ALADO Permanece o fato de que o leão desta profecia é, em primeiro lugar, emblema do Império de Babilônia. A transformação dêste Império num ser humano — na visão — segundo reza a profecia, não eqüivale a uma mudança sua de regime político e administrativo mais 325

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suaves em relação ao mundo submetido, do mesmo modo que um leão não poderá transformar-se de um ser irracional em um ser racional. A transformação de que fala o evangelho está afeta exclusivamente aos indivíduos humanos, e jamais a instituições suas que as representem. Cremos, porém, que uma potência política — no nosso caso um Império — é aquilo que são os seus mandatários, os seus soberanos. Portanto, a transformação indicada no simbólico primeiro animal, deveria ocorrer no caráter de algum soberano de Babilônia, ao tempo exato do apogeu dêste antigo poder, ocorrência essa que redundasse em bem moral e político do próprio império e consequentemente de seus súditos. E não há quem possa afirmar que uma tal transformação tenha ocorrido no caráter afeminado, fraco e perverso dos incompetentes sucessores do rei Nabucodonosor. Já vimos que êste poderoso rei caldeu era o reino personificado, o seu indiscutível fundador, quem o elevou ao pináculo internacional político e que depois ou antes dele jamais houve um potentado que tão sàbiamente governasse todo o mundo com tão evidente e tão inigualável sucesso como êle o fêz em sua soberania absoluta. Assim, deveria, em face disto, ter ocorrido em seu outrora simbólico caráter de arrogante e conquistador leão e da rapinante águia, uma admirável transformação moral e espiritual sobrenaturais jamais verificadas num homem de Estado e que somente o poder transformador da graça de Deus poderia ter operado. A história bíblica atesta ter ocorrido, em verdade, na vida de Nabucodonosor — como homem e estadista — uma memorável e radical transformação de caráter. Um múltiplo e estupendo fenômeno transformatório como êste — moral, social, espiritual, físico e governamental — só poderia ter ocorrido em seu caráter e vida mediante uma incondicional submissão de sua parte à miraculosa graça de Deus que advém ao pecador unicamente através de seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Em outras palavras, o rei Nabucodonosor deveria ter aceito ao Filho de Deus como seu único glorioso e Todosuficiente salvador pessoal e vivido, daí em diante — como cidadão e como soberano do mundo — a vida dum verdadeiro redimido da divina graça e do divino amor. Mas a conversão do rei Nabucodonosor não foi imediata nem aos primeiros contactos evidentes com a realidade da supremacia de Deus. Sua conversão resultou duma renhida batalha da graça com o seu coração natural contaminado mòrmente pelos pecados do orgulho e da altivez. A primeira prova que Deus lhe deu de sua supremacia total, como relatada no capítulo primeiro, foi a distinção de Daniel e seus 326

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companheiros no curso de estudos da universidade da corte de Babilônia devida exclusivamente à Sua divina sabedoria. A segunda grande prova da supremacia de Deus dada ao rei Nabucodonosor foi o testemunho pessoal constante de Daniel e seus três companheiros como altas patentes do reino e da côrte de Babilônia. A terceira grande prova dada a êsse rei foi a revelação de Deus contida no sonho dos Impérios mencionado no segundo capítulo, em que Seu representante, Daniel, foi enviado a êle para interpretá-lo. Nesta prova o rei reconheceu ao Deus do Céu como “Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador dos segredos”. A quarta grande prova, relatada no terceiro capítulo, fôra o fenomenal livramento dos três hebreus no forno de fogo ardente, em que o próprio Filho de Deus apareceu pessoal e visivelmente ante os estarrecidos olhos do grande rei, revelando a Sua gloriosa majestade — tanto quanto dela o rei de Babilônia podia suportar. A quinta prova, que foi de tôdas a maior, encontra-se no capítulo quatro do mesmo livro de Daniel, que é um relato original do punho do rei convertido. Esta prova foi dramática, dura, atingiu em cheio o monarca, mas foi decisiva — convenceu-o afinal da supremacia absoluta do Deus do céu, o Deus de Israel, e o converteu incondicional e irrevogavelmente. Após converter-se, fêz o rei Nabucodonosor questão de notificar a grande nova — sua definitiva entrega e consagração ao Rei do universo, seu Salvador — a todos os seus súditos, no inteiro reino. Por decreto real seu, todo o orbe foi informado de sua nova e gloriosa vida, agora vivida à luz do plano de Deus para com o pecador arrependido, convertido e salvo. E o mundo certamente respirou aliviado das opressões que sofrera dêste rei até ali ou antes dêsse grande e maior acontecimento no reino — a conversão de seu soberano a Deus. No capítulo quatro podemos apreciar o seu comovente e impressionante decreto tornando pública a sua feliz decisão — plena de verdadeira felicidade — de servir para sempre “o Rei dos reis e Senhor dos senhores”. UM HOMEM DE PÉ — SÔBRE DOIS PÉS Aqui está o que foi a conversão do rei Nabudonosor. Convertido, tornou-se êle um homem! Antes não era um homem. Sua vida anterior contaminada e corrompida pelo pecado, principalmente o orgulho, a sêde de supremacia, a devassidão e a libertinagem — tiraram-lhe a honra de ser um homem. 327

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Há entre os humanos masculinos falsas idéias relativas ao verdadeiro significado de ser um homem. Concebem que um homem é um homem simplesmente porque é do sexo do homem, porque se veste como um homem, porque suas atitudes, ações é gestos são de homem; ou o homem é um homem porque manifesta a coragem, a valentia, o arrojo, a audácia física com que se sobrepõe a outrem, ou com que se desforra injustamente do seu próximo menos potente que êle. O homem é um homem, pensam alguns, porque enfrenta perigos graves sem recompensa humana, passando por êles fisicamente incólume. Outros, descabidos aliás, pensam ainda que, ser um homem, significa ter na cintura um revólver carregado, praticar certos vícios sociais e ter uma elevada posição sôbre as massas. No entanto, um homem, no sentido nato e clássico do têrmo, é aquilo em que se transformou o rei Nabucodonosor pela graça de Deus. A nova versão portuguêsa da Bíblia Almeida — revista e atualizada no Brasil — reza que o rei Nabucodonosor foi “posto em dois pés como um homem”. Êste pensamento é deveras significativo. No sentido físico, não há firmeza de corpo quando alguém se ergue e pretende permanecer num só pé. Não há equilíbrio. Não há estabilidade. Não é possível andar. No sentido real da vida, da vida dum convertido a Deus — há estabilidade e firmeza de propósito sob dois distintos aspectos: No que concernem às relações com Deus e as relações com o próximo. Poderíamos dizer que, ao converter-se o rei Nabucodonosor, sua conversão foi estabilizada e comprovada por suas novas relações com o céu e com a terra, fundamentadas segundo a vontade de Deus. Um pé de sua nova vida firmou-se no reconhecimento dos direitos de Deus e o outro no reconhecimento dos direitos de seus semelhantes e de seus próprios súditos. E o capítulo quatro do livro de Daniel, que é o auto relato de sua conversão, evidencia altamente êstes dois básicos princípios da transformação dum ser humano num verdadeiro filho de Deus pelo poder de Sua graça. Vemos assim, que, um homem verdadeiramente um homem; um homem “posto em dois pés como um homem”, é em verdade um legítimo cristão, um testemunho vivo, eloquente e grandioso do poder transformador da graça de Deus. A conversão do rei Nabucodonosor no sentido exato e evidente da vida espiritual — quer como homem quer como estadista — é uma repreensão aberta e fulminante aos relapsos que, pretendendo ser cristãos ou homens-cristãos, vivem em completa desarmonia com Deus e com o próximo. Vivem em marcada 328

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oposição voluntária contra os fundamentos do são viver como filhos de Deus; vivem em recusa decisiva da lei do Decálogo do Criador e do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo — que se resumem em amor a Deus e amor aos semelhantes. O rei Nabucodonosor, no entanto, dá o grande exemplo de são cristianismo e declara aos homens como se devem preparar para serem úteis nesta vida e por fim se tornarem cidadãos do futuro reino de Deus. Portanto, “um homem” completo, absolutamente “um homem”, é, como vimos, semelhante ao nôvo homem — o rei Nabucodonosor. Êle tornou-se um verdadeiro homem, “um homem” digno dêsse têrmo, “um homem” de vida santificada, “um homem” reverente, “um homem” transbordante do amor de Deus para com o seu próximo e os seus súditos reais. Tornou-se “um homem” de pé, em seus “dois pés”, pelo direito, pela justiça, pelas dignidades, pela honra de Deus. Não se concebe “um homem” quando caído, derribado, vencido, vulnerado pelo pecado. Mas o rei Nabucodonosor tornou-se “um homem” de pé na altura do que significa êsse másculo vocábulo. “Um homem” de pé, sôbre seus “dois pés”, é “um homem” que serve a Deus e ao próximo como a si mesmo em todos os sentidos da vida em ação. É um homem que ama a Deus acima de tudo e comprova êsse santo amor amando ao próximo como a si mesmo em todos os sentidos da vida em ação. É um homem que ama a Deus acima de tudo e comprova êsse santo amor amando ao próximo não menos do que a si mesmo. “Um homem” que pratica entusiàsticamente a regra de ouro: “Fazer aos semelhantes o que deseja que lhe façam”. Sim, o leão “foi levantado da terra, e posto em dois pés como um homem”. Eis um imensurável milagre da graça. Grande milagre operado em favor do rei Nabucodonosor e de milhares de outros seres humanos caídos como êle, mas re-erguidos ao pináculo da honra de serem transformados em “um homem” à semelhança de seu Criador e Salvador. UM HOMEM COM CORAÇÃO DE HOMEM — COM MENTE DE HOMEM A conversão da graça fêz do rei Nabucodonosor “um homem” com “coração de homem”. Sua conversão teve que ver diretamente com o seu coração. O coração é o centro não só da vida física como da vida moral e espiritual. É o centro de tôdas as emoções. É a cabine de contrôle do ser humano em todos os aspectos de suas relações com 329

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Deus e seu próximo. O rei Nabucodonosor, possuía — antes de sua experiência com a redentora graça, — um coração natural, — amante das perversidades da carne e do pecado. Mas, submeteu-se a Deus depois duma renhida batalha em que a carne lutava por prevalecer. Sua submissão, entretanto, facultou a Deus, o Grande Cirurgião divino, operá-lo, mudar-lhe o coração em outro. Empunhando o bisturi da divina graça, o Eterno Facultativo amputou-lhe o velho coração corrompido, estragado pelo orgulho, e deu-lhe um coração nôvo — “um coração de homem”, idêntico ao coração que no princípio o homem recebera de Deus pela criação. Um homem com um nôvo coração é um espetáculo! Seu caráter assemelha-se ao santo caráter de seu Criador. O coração do homem natural desespiritualizado, é semelhante a uma pedra, diz Deus em Sua palavra, as Sagradas Escrituras. Mas um homem com um nôvo coração é a maravilha das maravilhas, é o maior dos milagres. O nôvo coração torna-se um receptáculo do Espírito Santo, o representante de Deus, e, o felizardo em possuí-lo, terá a faculdade de viver vida pura e santifiçada e cumprirá com entusiasmo e regozijo todos os requerimentos de Deus — como evidência de que foi transformado num homem completo, num homem restaurado pela graça e santificado pela presença de Deus em sua vida.1 Mas, a menos que o homem se submeta à operação da redentora graça, a fim de receber um coração de homem ou um nôvo coração, êle continuará vivendo e operando como se fôra um irracional humano. E de tais indivíduos o século está cheio! De humanos com coração semelhante ao coração de leão, como no caso do rei Nabucodonosor antes de se converter, sim, o mundo está cheio. Um governador leão, um parlamentar leão, um patrão leão, um esposo leão, um professor leão e infindáveis outros leões humanos enchem o mundo numa desgraça para a família humana. Procedem como leões, como feras, se carneiam, se devoram nos parlamentos, nos tribunais, nas emprêsas, nos lares, em tôda a parte! Leões-alados com azas de rapinante águia que buscam odiosos a sua prêsa para devorá-la e liquidá-la! A já citada nova versão portuguêsa da Bíblia Almeida — revista e atualizada no Brasil — reza: “E lhe foi dada mente de homem”, em vez de “e foi-lhe dado um coração de homem”. O têxto traduzido por “coração” é do hebraico “lebab”, que em outros textos bíblicos é
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Ezequiel 36:26-27; 11:19-20.

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traduzido por “mente” ou o seu equivalente.1 No que respeita à vida espiritual e emocional, há uma identidade maravilhosa entre o coração e a mente. Podemos dizer que a mente é o poder legislativo do ser humano enquanto o coração é o poder executivo. A mente funciona com incrível rapidez, enquanto o coração é, na maioria das vêzes, ponderado em suas decisões e sanções, embora algumas vêzes seja precipitado em decidir. Todavia o homem espiritual tem o seu coração ligado ao coração de Deus através de sua mente. A conversão tem muito que ver com a mente e não somente com o coração. Se a mente é pura, se idealiza o que é justo e santo, seus atos sancionados pelo coração serão igualmente justos e santos para a glória de Deus. Nada menos que isso sucedeu ao rei Nabucodonosor ao converter-se bem como a milhares de outros convertidos pela poderosa graça de Deus. Eis o mistério revelado da graça: A transformação do homem pela transformação e purificação de sua mente e conseqüentemente de seu coração. Com mente e coração purificados e santificados, o rei Nabucodonosor foi transformado num milagre impressionante, numa admiração sensacional ante seus estarrecidos compatriotas e contemporâneos e os homens de todos os séculos futuros. Sua conversão e transformação têm sido uma inspiração a muitos sinceros crentes que anseiam e procuram atingir a vida espiritual santificada que por fim êle atingiu. Não há quem não possa atingir as culminâncias dum estado espiritual ideal pela poderosa transformação da graça de Deus. Não há limites para o poder de Deus operar em bem do pecador que se coloca à mercê da influência do Seu Espírito. O transformador agente de Deus não leva em conta os pecados do passado, abundantes ou não. O importante é que traz segura a vitória ao pecador, é êle se colocar confiantemente nas mãos do supremo poder e consentir em Sua total ação sem procurar impedí-lo em nenhum sentido até ver-se liberto de todo o poder do mal. Ninguém será mais pecador do que o foi o rei Nabucodonosor em sua arrogância, seu orgulho, sua impostura, seus crimes e suas injustiças inomináveis como conquistador impiedoso. Homem de estravagantes vícios, licencioso, concupiscente, — um inveterado pecador. Mas a graça de Deus o atingiu em cheio, o dobrou, reduziu-o a nada e o convenceu de sua indiscutível necessidade de salvação. E
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Jeremias 51:50.

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por fim êle entregou-se incondicionalmente a Deus. E sua experiência pode repetir-se hoje com quem o desejar. MEDO-PERSA — O SEGUNDO IMPÉRIO MUNDIAL VERSO 5 — “Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal; semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes, e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne”. UM PODEROSO URSO DESTRUIDOR Antes de tudo leia-se a exposição: A Origem do Império MedoPersa, — relativa à primeira parte do versículo trinta e nove. É indiscutível que o segundo animal desta profecia — um urso — como a prata da estátua, do capítulo dois, aponta ao segundo grande império do mundo — a Medo-Persa. “Cremos que Babilônia figurou num leão somente no governo de Nabucodonosor, pois os seus fracos e inábeis sucessores não poderiam ser nem mesmo figurados por um simples cão doméstico. Enquanto Nabucodonosor em 43 anos elevou o reino caldeu ao cume das nações, — os seus cinco sucessores, em 24 anos, o enfraqueceram e aceleraram a sua queda. Desta sorte, o urso Medo-Persa, seguro da vitória, avança irresistível contra o ex-leão, sem encontrar nêle nem mais sequer o espírito dum cão para ao menos acoá-lo com insistência e afugentá-lo temporariamente. Nem mesmo os aliados do Império Babilônio tiveram o poder de o socorrer com êxito e deter a avalanche de guerreiros medo-persas que investiam invensíveis e inflamados por seu grande comandante Ciro, — que o tinham como um semi-deus e um predestinado. Os medos e persas não venceram, pois, o leão babilônio. Êste, na pessoa de Nabucodonosor e pouco antes de sua morte, deixara de ser um leão, como reza a profecia, e tornara-se “um homem” com “coração de homem” ou “mente do homem”. O que Ciro venceu em Babilônia, fôra uma sombra de imperadores sem capacidade para manter e defender o poderoso reino herdado do maior rei político do mundo — Nabucodonosor. Que os medos e persas estavam unidos na formação de um império para derribar e substituir Babilônia no mundo, é fora de tôda a dúvida. “Sobe, ó Elam, sitia, ó medo”, diz o profeta Isaías, tratando da

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queda de Babilônia.1 Na própria noite da tomada de Babilônia foi anunciado ao seu último rei: “Dividido foi o teu reino, e deu-se aos medos e aos persas”.2 No início dêste duplo poder foi mencionada “a lei dos medos e dos persas”.3 Os reis da Média e Pérsia, unidos, são citados na profecia do capítulo oito de Daniel.4 Textos bíblicos outros da época dos dois poderes confirmam-nos conjugados num só poder.5 A História secular também comprova amplamente a união dos dois povos — medos e persas — num só poder mundial, representado num urso pela profecia inspirada. A união dos dois podêres é, portanto, um fato indiscutível. LEVANTADO MAIS UM LADO Do carneiro mencionado no oitavo capítulo, também simbólico do Império Medo-Persa, é dito possuir dois chifres, sendo enfatizado que um era mais alto do que o outro e que subira depois do menos alto. Na profecia do urso de nossa consideração, emblema do mesmo duplo poder, é esclarecido que estava mais erguido de um lado que do outro. Não precisamos dizer muito nem apresentar farta documentação histórica, para atestarmos que inicialmente a Média era suprema no Oriente, mesmo sôbre a Pérsia, mas que, depois, esta se tornou suprema sôbre aquela. É bem conhecida a história de Ciro que, estando a Pérsia, seu país, governada pela Média, ergueu-se êle em armas contra o poder opressor, derribou do trono medo a Astiages, seu avô, e tornou-se senhor também da Média. Daí em diante a Pérsia é a ponta mais alta do carneiro e o lado mais levantado do urso. Embora os medos compartilhasssem do poder mundial com a Pérsia, apenas um rei fôra da raça meda — Dario, chamado o medo, que, à tomada de Babilônia, ocupou o trono por “cêrca de dois anos”. Todos os demais soberanos no trono Medo-Persa do mundo, a contar de Ciro até ao último, foram persas. E é notável como a revelação não esquecera êste importante pormenor da união dos dois podêres, bem como da supremacia primeiro da Média e depois da Pérsia. É um detalhe que, por si só, eleva e comprova plenamente a autenticidade divina e a inspiração desta grande profecia.
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Isaías 21:2. Daniel 5:28. 3 Daniel 6:8, 12, 15. 4 Daniel 8:20. 5 Ester 1:14, 18; 10:2.

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TRÊS COSTELAS ENTRE OS DENTES Ao surgir das agitadas águas o urso, trazia três costelas entre seus dentes. Indubitàvelmente significam elas as três “potências políticas” que os medos e persas acharam por bem eliminar principalmente, o que comprova com segurança três fatos reais: 1) Eram as mais fortes da época como poderes individuais; 2) aspiravam também o domínio mundial; 3) e, aliaram-se para enfrentar o avanço vitorioso dos medos e persas. Porém, todo o esforço que conjugaram fôra em vão, não tivera êxito, foram por êles vencidos e dominados; e é assim que aparecem entre os aguçados dentes do urso. E a história secular, que é o verdadeiro intérprete das profecias inspiradas, elucida esta verdade de modo particular e notável. Herôdoto, o grande historiador da antigüidade, cognominado o pai da História, declara (1:77) ter havido uma aliança entre Cresso da Lídia, Nabonidus de Babilônia e Amais do Egito — contra a expansão dos medos e persas sob Ciro. Outros historiadores dizem o mesmo, pelo que as três costelas são inquestionavelmente os reinos da Lídia, Babilônia e Egito, únicas potências que poderiam naquele tempo opôr alguma resistência aos medos e persas irmanados. Lídia e Babilônia caíram nas; mãos de Ciro em 547 e 539 respectivamente, e o Egito nas mãos de Cambises em 526 a.C. Êsses três reinos foram agarrados pelos medas e persas com garras tão tenazes como a prêsa que um urso segura entre os seus temíveis dentes. A VORACIDADE DO URSO SIMBÓLICO Antes de tudo urge a pergunta: Por que razão a profecia emprega um urso como símbolo para designar o Império Medo-Persa? Certamente não pelo poder que êsse Império exerceria, mas pela crueldade e sede de sangue que manifestariam os seus soberanos no trato com os povos por eles conquistados e governados. Um urso, posto que jamais tenha destronado um leão do trono de seu reino, atinge maior estatura e maior pêso que o leão. Diz-se que sua maior espécie foi encontrada na Média, país montanhoso, acidentado e frio. Os seus 42 dentes, as suas formidáveis grandes garras aduncas aguçadas, o seu grande pêso, a sua coragem e a sua astúcia, fá-lo grandemente temível. No que respeita à sua crueldade, voracidade e sêde de sangue, não tem rival. Ao andar, não 334

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ràpidamente, senta tôda a planta do pé no chão (ao contrário dos pés de cachorro e leão), dando a impressão de amassar tudo onde quer que pise ou passe, como se fôra um rôlo compressor que tudo arraza. É em seus pés que reside a sua maior fôrça de domínio e destruição. No livro do Apocalipse lemos de um animal com pés de urso, sendo dito dêle que fêz “guerra aos santos” de Deus e os subjugou.1 Assim, seu tríplice poder concentrado em seu pêso, sua boca e seus pés, faz do urso o segundo em seu reino, só vencido pelo leão após renhida batalha. Não podendo o urso ser o rei dos quadrúpedes, parece pretender sê-lo. Não alcançando, todavia, supremacia absoluta, é obrigado a cometer destruição para impôr-se, como se supremo fôra, sem contudo lograr o seu objetivo. Neste terrível animal carniceiro e destruidor, fôra o Império Medo-Pérsia figurado pela revelação. Na figura de um urso agiram os soberanos medas e persas. Inábeis para governar o mundo, cometeram as maiores e mais vis atrocidades, chacinas e destruições inomináveis, muitas vêzes em massa, nunca conseguindo, por isso mesmo, ser respeitados pelas nações como senhores do poder dominante e mundial. Em suas conquistas, procuravam vencer, não pela categoria bélica, mas pela avalanche de suas tropas. Dai o massacre inexorável a qualquer povo que impusesse a mínima resistência. Os medos e persas ficaram célebres por suas matanças e suas punições, enquanto eram ladrões e espoliadores. Pelo que veremos no tópico seguinte, com relação aos reis persas desde Ciro a Dario III, poderemos ter uma idéia assombrosa dos massacres sem conta daqueles monarcas. “Segundo Séneca, um de seus reis mandou cortar o nariz de todo o povo de uma nação”.2 E consta que Ciro fôra o autor desta terrível façanha. As atrocidades de Cambises no Egito não podem ser descritas em linguagem humana. Todos os reis persas foram cruéis, daí o Império inteiro ter-se constituído num vulcão de constantes revoltas. Era o pesado urso que tudo esmagava fazendo correr rios de sangue e efetuando mortandades sem conta. “LEVANTA-TE, DEVORA MUITA CARNE” Neste tópico teremos a história da Medo-Pérsia em miniatura, salientando alguns dos principais e tremendos atos de seus soberanos,
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Apocalipse 13:2, 7. O Mundo do Futuro, D. H. Dupuy, pág. 217.

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o suficiente para vermos cumprida com tôda a exatidão a profecia inscrita na epígrafe acima: I. CIRO — O GRANDE CONQUISTADOR Depois de se unirem num só poder, e com isso já contando com um vasto Império inicial que alcançava desde as cordilheiras do IndoKusch e o Imaus pelo Este, o Iaxarte pelo Norte, a Armênia e o Tigris pelo Oeste e o Oceâno Indo pelo Sul, Ciro procurou consolidar o seu poder para arremessar-se depois em procura de novas e vastas conquistas. Semelhante a um meteoro lançou-se Ciro em busca da liderança do segundo grande Império da terra, não deixando de causar enorme impressão a seus contemporâneos e a todos os séculos futuros. Em 548 empenhou-se contra as tribus hostis ao oriente do Tigris, enquanto se preparava para o grande teste de fôrça que logo viria provar a sua capacidade como grande conquistador. Os grandes líderes políticos, Nabonidus de Babilônia, Cresso da Lídia e Amaris do Egito, viram o emergente e ameaçador poder de Ciro com sérios pressentimentos, e, temerosos pela segurança de seus próprios tronos, como vimos, coligaram-se por um pacto de mútua assistência militar. O temor dêstes três grandes — que também aspiravam cada qual o cetro absoluto do mundo, — foi confirmado em 547 quando Ciro investiu sôbre a Mesopotâmia Superior e recuperou uma outrora província meda que Nabonidus tinha arrebatado aos medas. Cresso, notando que o exército de Ciro se aproximava mais e mais das fronteiras de seu reino, suplica de seus aliados o auxílio prescrito no tratado de mútua assistência. Invadiu então a Ptreia e apoderou-se de quase tôda esta província! Surpreendido, reúne Ciro suas tropas, ainda que bem menores que as de Cresso, e apresenta-lhe batalha. Durante todo o dia até a noite a vantagem não se definiu por nenhum dos contendores, que lutaram com igual valor e fortuna. Porém, julgando-se Cresso vencedor e crendo que Ciro não tentaria de nôvo a sorte, volta a seus Estados e licencia parte de seu exército. Mas logo convencera-se tardiamente de seu êrro. Ciro penetra em seu reino e uma a uma de suas cidades vão caindo em seu poder. Na batalha decisiva em Thymbrea, em pleno inverno, que resultou favorável a Ciro, os vencidos se refugiaram em Sardo, a capital do reino, e ali ficaram encerrados batalhando da fortaleza. 336

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Por duas semanas estêve Ciro com Sardo sitiada sem resultado, quando um persa, Hireades, descobriu casualmente um passso para subir ao castelo. Escalando com alguns arrojados companheiros a muralha, tomou logo o castelo. Em seguida a cidade e o trono de Cresso caíram nas mãos do vencedor (547). Ciro poupou a vida de Cresso, fêz dele um amigo, e até é dito que a miúdo seguia com êxito a seus conselhos. A queda do reino da Lídia produziu extraordinária impressão, pois estava no apogeu de sua fortuna e poderio. Seus soldados haviam submetido tôdas as cidades gregas — empório do comércio universal, centro das artes e ciências — e quase tôda a Ásia Menor, e por fim via-se destruído pelos medas e persas, povos de longínquas terras que acabavam de ser tirados de um estado semibárbaro por um grande general. Tôda a Ásia Menor de Cresso caiu em poder dos exércitos de Ciro. O vencedor nomeou Tabalos para governar a Lídia, e encarregou a Pactias que levasse as amplas riquezas de Cresso à Pérsia, enquanto com êle se dirigiu a Ecbatana. Depois da vitória sôbre a Lídia de Cresso, penetra Ciro nas regiões mais remotas do Extremo Oriente. Só as estepes da Sibéria atalharam sua marcha para o Norte. Ao Este, já nos limites da Tartária, conquista os saces que ficam seus tributários. Voltando-se para o Sul, submete vários povos até à ribeira de Cabul e o Indo. Dêste ponto volta para o Oeste. Leva agora Ciro suas vitoriosas armas contra os caldeus que, a despeito dos esforços de Nabonidus e seu filho Belshazzar, submete tudo o que ainda restava do então poderoso Império mundial de Babilônia. Sôbre êste tremendo desfecho, vejam-se os versículos 30 e 31 do capítulo cinco desta exposição. O êxito de Ciro em submeter a tão vasta região que constituiu o seu Império, deveu-se ao temor que inflingiu a todos como um conquistador indicado pela Providência. Nenhum poder foi capaz de enfrentá-lo e permanecer como um obstáculo à sua marcha vitoriosa. Por outro lado, despertou em todos os povos por êle subjugados um tão vivido desejo de agradá-lo, como seu nôvo soberano, que ardorosamente desejaram ser guiados por sua vontade e nêle depositaram inteiramente as suas esperanças. Em seu próprio cilindro dando conta da captura de Babilônia, escreveu êle: “Todos os habitantes de Babilônia, de Sumer a Accad, nobres e governadores, prostraram-se diante dêle e lhe beijaram os pés, regozijaram-se em sua

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soberania, suas faces sorriam de alegria”.1 Os judeus cativos no Oriente receberam o advento de Ciro com grande regozijo, pois sabiam que a profecia de Isaías o indicava como aquêle que lhes daria a liberdade e autorizaria a sua volta à Judéia e a reconstrução do templo.2 (Ver apêndice, notas 4 e 7). Além de tudo, as tribus que Ciro sujeitou eram tantas que, se ainda hoje subsistisse o seu Império, seria difícil percorrê-las tôdas numa viagem a partir de seu palácio, quer para o Oriente quer para o Ocidente, quer para o Norte quer para o Sul. Todo o formidável sucesso do grande conquistador deveu-se à plena vontade de Deus como exarado no livro de Isaías, capítulo quarenta e cinco, versículos um a quatro. As expressões dêstes textos: “... a quem tomo pela mão direita”, “soltarei os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas”; “Eu irei diante de ti” — atestam que o poder de Ciro emanou de Deus e que o Senhor por meio dêle executou um definido plano sôbre as nações de seu tempo. A boa impressão que causou aos povos conquistados deveu-se às bênçãos de Deus em secundar a sua memorável jornada em busca da supremacia política sôbre as nações de seu século. Ao assumir o poder por morte de Dario, o Medo, em 536 a.C., reconheceu o poder de Deus em suas conquistas, nestas palavras: “Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra”.3 Depois da vitória sôbre Babilônia, pouco se sabe de Ciro e suas campanhas. Em 529, segundo Herôdoto, penetrou êle até além do Iaxartes, onde combateu contra os Massagetas embriagados, vencendo-os, sendo aprisionado Espargapitas, general e filho de Tomires, rainha dos Massagetas. Sabedora a rainha da derrota, envia a Ciro a seguinte mensagem: “Príncipe sedento de sangue, não te orgulhes com uma vitória que só deves ao sumo da uva, a êsse licor que converta ao homem em um insensato. Tens conseguido uma vitória sôbre meu filho, não em uma batalha e por tuas próprias, fôrças, senão pelo efeito de seu veneno sedutor. Escuta e segue um bom conselho: Devolve-me a meu filho, e, ainda depois de haver destruído uma pequena parte de meu exército, permito que te retires impunemente de meus Estados; doutro modo, te juro pelo Sol,
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Source Book for Bible Students, ed. 1927, pág. 59. Isaías 44:26; 45:1-4; II Crônicas 36:23; Esdras 1:1-3; vêr Daniel cap. 10. 3 Esdras 1:2.

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soberano senhor dos Massagetas, que te saciarei de sangue por sedento que estejas dêle”. Ciro não fêz caso das advertências de Tomires. Quanto a Espargapitas, após refazer-se de sua embriaguês rogou a Ciro que lhe mandasse tirar suas cadeias. E, quando o prisioneiro viu-se em liberdade, suicidou-se. Então, sabedora Tomires, reuniu tôdas as suas forças e se dispôs em batalha. Quando ambos os lados terminaram suas flechas, lutaram com lanças e espadas. A vitória, depois de muito tempo de luta, declarou-se pelos Massagetas, ficando no campo de batalha a maior parte do exército Medo-Pérsía, e com ela também Ciro. Tomires fêz buscar o seu cadáver, o destroçou e fêz que metessem a sua cabeça decepada em uma bacia cheia de sangue humano, dizendo: “Por mais que haja ficado viva, tu me tens perdido fazendo perecer meu filho; mas cumprirei minha promessa saciando-te de sangue”.1 Xenofonte, entretanto, diz que Ciro morreu em sua cama rodeado de seus filhos, Ctesias, todavia, convém que êle morreu entre os seus, mas em resultado de ferimentos recebidos em combate contra os derbikos. II. CAMBISES — FILHO E SUCESSOR DE CIRO O grande Ciro foi sucedido por seu filho Cambises, que reinou de 529 a 522 a.C. e distinguiu-se como um tirano da mais refinada crueldade. Conta-se que, descontente com a conduta de um juiz, o mandou esfolar vivo e fêz forrar com sua pele a cadeira em que se sentava para administrar a justiça. Tão logo subiu ao trono, tomou a resolução já antes sonhada de conquistar o Egito como única grande potência que ficara para submeter, e que desde muito tempo havia mostrado, por sua aliança com a Lídia, a sua intenção de impedir o aumento do poderio persa. Para provocar uma farsa a fim de invadir o Egito, mandou pedir, ao Faraó Amasis, a mão de sua filha, já sabendo que lhe seria negada. Amasis, ao receber o pedido do rei persa, imaginou e executou um expediente julgando satisfazer a Cambises. Em lugar de sua filha, enviou o rei do Egito outra princesa chamada Nictetis, filha do desditoso rei Apries, uma vez que os persas não conheciam nenhuma nem outra. Apenas se achou em presença de Cambises, Nictetis descobriu tôda a trama de que fôra vítima, já para vingar-se de Faraó, já pelo temor que lhe inspirava Cambises.
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Dicionário y Enciclopédia Hispano Americano, art. Ciro.

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Sumamente irado Cambises com o engano de Amasis, aproveitou-se desta oportunidade que buscou, e, à frente de de um numeroso e poderoso exército, empreende a campanha contra Amasis e o Egito preparada com grande tino e procisão (525). A primeira esquadra persa, composta de navios gregos e fenícios, aos quais se uniram também os príncipes de Chipre, dirigiu-se ao longo da costa para o Egito para impedir aos habitantes de Menfis utilizarem a via do Nilo contra sua campanha. Em Pelusa souberam os persas da morte de Amasis e de sua sucessão por Psamético II, seu filho, porém não mudaram a intenção de invasão. O rei egípcio foi vencido na primeira encarniçada batalha defronte de Pelusa e rechaçado até Menfis onde se encerrou com seu exército. Cambises enviou mensageiros a Psamético para entrar em negociações; porém, os egípcios cometeram a imprudência de matar ao embaixador e a sua comitiva, bem como a tripulação do barco que os havia conduzido Nilo acima até Menfis. Êste ato irritou de tal maneira aos persas que, depois da tomada do castelo branco de Menfis, mataram em represália dez importantes egípcios, incluso o filho do Faraó, pelo embaixador, e igual número como vingança de cada um dos seus companheiros chacinados. O próprio Psamético, que a princípio foi tratado por Cambises com muita indulgência e que devia, segundo parece, seguir governando o país como vassalo, fêz-se suspeitoso, e foi condenado pelo rei persa a uma morte cruel, fazendo enterrá-lo vivo conjuntamente com doze dos principais egípcios. Cambises foi na terra dos Faraós um “doido furioso” que espantou o país com suas crueldades, entre as quais mandando açoitar com varas os sacerdotes egípcios. Possivelmente fôra Cambises o “senhor duro” e o “rei rigoroso” da profecia de Isaías, que dominaria e submeteria o país dos Faraós.1 Nesta segunda batalha decidiu-se a sorte do Império dos Faraós que por tantos séculos existiu e constituiu a mais antiga civilização. O alto Egito se submeteu, os líbios renderam-se e os cirineus pagaram tributo (523). Partindo de Menfis com seu exército na intensão de conquistar a Etiópia, foi Cambises obrigado a retornar do meio do caminho ao Egito, pela falta de víveres e as enfermidades que dizimavam s seus soldados. Cambises, todavia, com a constante lembrança das desgraças de seu exército, remorso pelos assassinios de seu irmão e irmã e o medo
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Isaías 19:4.

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de que com êle se extinguisse a estirpe de Ciro, não teve paz de espírito. Finalmente recebe a notícia de que a rebelião que êle havia querido evitar matando o irmão, havia instalado na Pérsia pela usurpação do trôno. E Cambises, a esta notícia, põe-se imediatamente era marcha a seu país, na intenção de sufocar o movimento. Ao chegar a Hamath, na Síria, soube que a rebelião já havia logrado o seu objetivo, e, desesperado de ser êle mesmo a causa de sua ruína, suicidou-se (522). Dizem alguns historiadores que, ao montar o cavalo em Bobatana da Síria, caiu, sendo ferido por seu punhal que o vitimou neste incidente. Outros descrevem que fôra assassinado por Prejaspe ao dirigir-se à Pérsia na intensão de expulsar o usurpador de seu trôno. Seja como fôr, o monstro pereceu. Êle é o Assuero do livro de Esdras, que não era simpático à obra do povo de Deus na Judéia, mas inclinado à ímpia causa de seus inimigos. Não era possível, pois, que um tão perigoso vulto contra os interêsses do povo de Deus subsistisse por muito tempo, empunhando o cetro do mundo. III. ARTAXERXES (I) — O FALSO SMERDIS Quando Cambises em 529 sucedeu a Ciro, seu pai, inaugurou seu reinado por ordenar a morte de seu irmão Bordija, conhecido comumente por Smerdis, a quem Ciro havia deixado muitas importantes províncias e do qual Cambises receiava que contra êle se levantasse e lhe arrebatasse o trôno, mormente quando estivesse ausente na campanha contra a Egito. O assassínio do irmão foi efetuado com muito segrêdo, até ao ponto de muitos descrerem em sua morte que fôra inventada doutra maneira. Enquanto Cambises estava no Egito, Gaumata, um mago muito parecido com seu irmão Smerdis assassinado, apresenta-se como o próprio Smerdis que muitos criam ter sido morto e outros não. A princípio ninguém suspeitou da impostura, tendo Gaumata se proclamado rei na cidade de Pasyuvada em março do ano 522 a.C. As províncias orientais do Império o aclamaram imediatamente, e três meses mais tarde dava entrada êle em Babilônia como soberano no Trôno. Patiritis, o verdadeiro autor da trama, decidido a combater com seu falso soberano, despachou correios a todas as províncias, mesmo ao Egito, comunicando a sua elevação ao trôno e intimando a todos que rendessem obediência ao nôvo potentado, tal como faziam a Cambises. Foi então que Cambises, tomando conhecimento da 341

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usurpação, abalou-se do Egito a Babilônia para desforrar-se de seu usurpador, morrendo a caminho da capital do Império. O seu desaparecimento desembaraçou o impostor cuja dominação já parecia indestrutível, sobretudo por ter Prexaspes, que havia executado o assassinato do legítimo Smerdis, ter por temor negado seu crime. Achando-se seguro e tranqüilo no trôno, o falso soberano tomou o nome de Artaxerxes I. Porém, a farsa teve pernas curtas e foi descoberta cerca de sete mêses depois da posse de Artaxerxes. O fato dele subtrair-se constantemente ao contacto com sua côrte despertou as suspeitas dos grandes. Por outro lado, Otanes, sátrapa de Capadócia, teve informação por sua filha Faidimi, que se achava no Harem de Gaumata, de que êste de maneira alguma era o filho de Ciro. Também Prexaspes, atormentado pelo remorso, confessou em alta voz seu crime e se precipitou do alto duma tôrre. Com estas graves suspeitas e denúncias de tão grande fraude, urdiu-se uma conspiração em que tomaram parte os chefes de sete grandes famílias persas — Otanes, Aspatites, Gobrias, Intafernes, Megatiors, Hidranse e Dario Histaspes — cujo propósito era matar imediatamente o falso Smerdis entronizado. Dario, que como parente mais próximo de Cambises, era o herdeiro legal do trôno, penetrou com seus outros seis companheiros em um castelo de Sicathauvati, no país de Nijava, na Média, onde o mago Gaumata residia e para onde fugira dos conjurados, e ali, depois de lutar corpo a corpo com Gobrias, foi morto a estocadas por Dario, em 10 de abril do ano 521. Estava estirpada a farsa e desempedido agora o caminho para o verdadeiro sucessor de Cambises ascender ao trôno. Artaxerxes I, falso Smerdis, mencionado no livro de Esdras,1 foi um inimigo da causa de Deus de reconstrução na Judéia. Inclinou-se para os inimigos do povo de Deus que ali trabalhavam e ordenou a paralização da obra. Era bem de ver que o intruso devesse ser afastado, pelo que foi morto não muito depois de seu decreto contra a obra de Deus. IV. DARIO — HYSTASPES Herdeiro legal de Cambises, filho de Hystaspes da raça dos
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Esdras 4:7.

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Aquemenides, subiu ao trôno em 521. A primeira tarefa de Dario para poder manter a sua autoridade, foi reprimir inúmeras rebeliões que estalaram em todos os confins do Império, principalmente na Média, Susiana, Partia, Babilônia e Pérsia. Para dizer a verdade, viu-se obrigado de imediato a reconquistar uma grande parte do Império, o que lhe custou nada menos do que seis anos de luta. Depois de pacificadas as províncias e unificado o Império, deu Dario início à organização interior do reino, sendo conhecido como o primeiro príncipe da Ásia que soube estabelecer um perfeito sistema de administração baseada nos princípios de verdadeira organização política. O vasto Império foi sabiamente cortado por rodovias em tôdas as direções, contribuindo isto para que Dario organizasse um excelente serviço de correio a cavalo. O comércio, indústria, literatura — tudo aliás, floresceu no Império dêste terceiro Aquemenides. Depois de haver Dario concedido ao Império muitos anos de paz, começou com as suas emprêsas guerreiras, lançando seus olhares para as fronteiras ocidentais e orientais. Submeteu primeiramente as tribus árabes do deserto da Síria, a costa da Líbia, e talvez Cartago, parte da Índia e Jônia revoltada contra o domínio persa. Em 513 declarou Dario guerra aos scitas. Saiu de Susa com um exército de 800.000 homens, devendo os jônios armarem uma esquadra de 600 navios. Submeteu imediatamente a Trácia e transpôs o Danúbio. Os scitas retrocederam com o fim de atrair os persas para os territórios de outros povos que dêste modo haviam de tomar parte na luta. Êste plano foi executado com suma habilidade; em sua retirada destruíram além de tudo os campos, e atraíram Dario até o interior do país. Por mais que Dario procurasse obrigar o inimigo a uma batalha, não logrou nunca, pois os scitas se contentavam em entreter os persas com pequenas escaramuças de cavalaria, obrigando Dario a resolver-se pela retirada. E, quando Dario foi forçado pela fome a uma retirada, então foi quando os scitas atacaram com tôdas as suas tropas em implacável perseguição ao exército que procuravam alcançar de volta a tôda pressa o Danúbio. Quase todo o exército de Dario foi destruído. Dario, porém, consolou-se desta tremenda derrota mantendo-se na Trácia e conquistando logo uma parte da Índia. A última emprêsa de Dario foi contra a Grécia, em virtude desta ter sustentado contra êle a revolta de Jônia e doutras colônias gregas da Ásia Menor. Começaram assim, as chamadas Guerras Médicas contra a Grécia. Em 492 enviou Mardônio com um exército para subjugar a Ática e a Eritréia, e ao mesmo tempo expediu uma grande 343

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frota para a conquista das ilhas independentes do mar Egeu. Mardônio conseguiu dominar as tribus da Trácia e da Macedônia, porém, a frota, depois de se ter apoderado da ilha de Tasos, encontrou uma tempestade, ao dobrar o Promontório dos Atos, que destruiu 300 de suas trirremes, com uma perda de 20.000 homens, Como os remanescentes da frota voltassem para a Ásia, Mardônio, privado assim de suas comunicações por mar e acossado por uma crescente oposição, viu-se obrigado a bater em retirada. Em 490 enviou Dario outra expedição composta de 110.000 homens em uma frota de 600 navios contra Grécia, comandada por Datis e Artafernes, que foi a princípio bem sucedida: Os generais persas submeteram as Cyclades e uma parte de Eubéia. Porém, na planície de Maratona, a uns seis quilômetros de Atenas, foram vencidos por completo pelo pequeno exército grego de apenas 10.000 atenienses e 1.000 de Platéia sob o comando de Milciades. Os vencidos foram jogados contra a a praia e obrigados a embarcar às pressas em seus navios, alguns dos quais foram incendiados. Assim resultaram em nada as expedições de Dario contra a pequenina Grécia. Em sua perseverança, preparava Dario uma terceira expedição contra a Grécia, quando estalou no Egito nova sublevação; todavia, enquanto se preparava para repelir o nôvo motim egípcio, a morte o surpreendeu em 485, aos 73 anos de idade e 36 de reinado. V. XERXES — O GRANDE Filho de Dario Hystaspes, tinha 34 anos ao sucedê-lo no trono de 484 a 465. Segundo Herôdoto, o nôvo rei não tinha rival entre os persas quanto à elegância e beleza física. Contudo, nem como monarca nem como líder militar, foi êle um digno sucessor de Ciro ou de Dario. Êle sofreu graves derrotas. Todavia, o amor às aventuras e às intrigas do Harém pareciam tê-lo interessado mais que a política e negócios de govêrno. Era deveras pouco inteligente, orgulhoso e fraco. Xerxes inaugurou seu reinado por submeter o Egito e a Caldeia revoltados. Tratou Babilônia com rigor, saqueou o tempo de Bel, violou o túmulo dos reis e os despojou, e parte dos seus habitantes vendeu-os como escravos. Depois disto preparou Xerxes a grande expedição da História contra a Grécia, na expectativa de vingar as derrotas sofridas por seu pai ali. Nestas guerras com os gregos Xerxes foi perseguido pela má fortuna. Por muito tempo o rei pareceu hesitar, aparentemente 344

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indeciso, se continuava as guerras de sou pai contra a Grécia ou limitaria seu governo à Asia, Herôdoto diz que uma facção de seus conselheiros, liderada por seu tio Artabano, ora a favor da paz, enquanto outra facção, cujo líder em Mardônio, queria a guerra, e que o partido da guerra finalmente ganhou o favor do rei, e os preparativos para uma nova expedição foram feitos em todo o Império. Para termos uma idéia do volume das tropas que Xerxes jogou contra a pequena Grécia, basta volvermos à profecia do capítulo onze, versículo dois do livro de Daniel, onde se diz que êle, “esforçando-se com suas riquezas, agitará todos contra o reino da Grécia”. Ao sair de Sardo em 480 o poderoso exército, dir-se-ía que tôda a Ásia estava em marcha contra um pequeno povo pràticamente indefeso. Êste maior exército da antiguidade foi avaliado divergentemente entre um e cinco milhões de homens. Além disso uma frota de 1.200 navios de guerra e 2.000 de carga tomava posição para assegurar o domínio do mar Egeu contra a pequena esquadra grega. A passagem do exército de terra de Xerxes pelo Helesponto, através uma ponte de barcos, durou sete dias e sete noites. A primeira ponte foi desfeita por uma tempestade, tendo Xerxes mandado castigar o mar com 300 chicotadas como teria feito a um escravo revoltado. O exército persa avançou sem dificuldade através da Trácia e Macedônia. Foi, porém, detido no desfiladeiro das Termópilas, única válvula por onde o oxército de Xerxes podia Avançar pura o Sul. Leônidas, rei de Sparta, com seu minguado exército com o qual socorrera Atenas, posta-se ali no Passo das Turmópilas, e nenhum soldado persa por êle passou enquanto naquele pôsto permaneceu com vida pelejando em companhia do seus poucos homens. Xerxes enfureceu-se com a rígida defesa de Leônidas. Enviou-lhe uma mensagem prometendo-lhe o Império da Grécia em troca de sua capitulação, “prefiro”, respondeu Leônidas, “morrer aqui pela pátria a fazer-me senhor dela”, Xerxes manda em seguida outra mensagem intimando-o a entregar as armas. “Vem tomá-las”, respondeu o bravo rei espartano. Leônidas mandou seu exército lutar noutra parte e ficou ali nas Termópilas guardando o passo com apenas 300 homens. Afinal, diz-se que por traição dum grego, Ephialto, foi descoberto um caminho por detrás dos 300 valentes e seu rei. E, depois de desesperados combates, foram todos sacrificados com seu intrépido rei. Xerxes mandou crucificar o corpo de Leônidas para vingar os 20.000 persas que pereceram nas Termópilas. No túmulo que depois se ergueu no local onde tombaram os 300 heróis e seu soberano, gravou-se êste epitáfio: 345

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“Oh, vós que passais, ide dizer a Sparta que nós aqui morremos para obedecer as suas leis”. A Ática e a Beócia foram devastadas e Atenas foi prêsa das chamas, e os morticínios não tinham conta. Após haver atravessado tranqüilamente o mar Egeu a frota persa estabeleceu sua base em Sepias para preparar o ataque à frota grega de 380 navios. Ao raiar do dia um vendaval pôs a pique 400 navios persas e um número desconhecido de transportes. Em seguida um tufão surpreendeu uma frota persa de 200 navios mandada contornar a Eubéia a fim de atacar os gregos pela retaguarda e nenhum dêsses navios se salvou. Temístocles conseguiu levar a frota grega para a Baía de Salamina, e em seguida enviou um mensageiro secreto a Xerxes, para dizer que, se atacasse imediatamente, esmagaria tôdas as forças navais gregas de um só golpe, e que, se demorasse, os gregos se dispersariam. Xerxes aceitou o astuto conselho que visava desbaratar a sua esquadra. Ordenou que o grosso de sua frota atacasse a esquadra grega na baía de Salamina — a tôda pressa. A batalha tomou lugar a 20 de setembro do ano 480. A astúcia de Temístocles teve completo êxito. A frota persa desorientou-se de saída. Um duplo ataque grego contra a ala direita dos persas tornou-se o lance decisivo da batalha. Os persas empreendem a retirada pela própria flor de sua esquadra — a frota fenícia. A batalha de Salamina estava ganha pela frota grega que perdera 40 navios contra 200 da frota persa afundados e um número indeterminado capturados. Ariobignes, o comandante da esquadra persa e irmão de Xerxes, achava-se entre os mortos. Xerxes dá expressa ordem ao resto sobrevivente de sua esquadra que acorresse aos Dardanelos a fim de guardar as pontes ali estabelecidas. O exército de terra estava agora em terrível situação. Cortado de suas comunicações com o mar, deveria ou bater em retirada ou perecer de fome, pois era impossível encontrar na Grécia víveres para um exército tão numeroso. Xerxes deixou na Tessália um exército de ocupação de 300.000 homens sob o comando de Mardônio e ordenou ao restante que regressasse à Pérsia do melhor modo que pudesse. Seguindo-se uma debandada com aspecto de pânico em direção dos Dardanelos. E durante os 45 dias seguintes um imenso exército, que jamais encontrara resistência em um campo de batalha, desfêz-se perseguido pela fome, pelas doenças e guerrilhas movidas pelos habitantes dos países atravessados na retirada. Apenas um resto desmoralizado dêsse exército sobreviveu para atingir os Dardanelos. 346

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Houvessem os gregos ouvido a opinião de Temístocles, indo a frota grega tomar posição nos Dardanelos, não teria subsistido nenhuma parcela do exército em fuga. Mas as tempestades haviam destruído as pontes, e os poucos sobreviventes do exército de Xerxes tiveram de atravessar para a Ásia nos navios da frota vencida e desmoralizada. Xerxes persistia em sua idéia de apoderar-se da Grécia; mas sua oportunidade esvaira-se. Os gregos reuniram um exército de 100.000 homens e no ano seguinte liquidaram em Platéia o exército de 300.000 homens de Mardônio, deixado na Grécia. No mesmo dia a frota grega liquidava, em Micale, na costa da Ásia, o que restava da frota persa, que tomara de assalto e incendiara. Xerxes havia induzido Cartago a empreender uma expedição naval e militar contra os gregos da Silícia, de maneira a esmagar simultaneamente todos os Estados gregos independentes. Desta feita ainda as tempestades vieram em socorro dos gregos, desaparecendo a maior parte da frota cartagineza pela ação de vendavais. Ruíra por terra, desta forma, o plano grandioso do déspota persa, e com êle caiu o prestígio e o poderio do seu Império. A despeito da sua incapacidade de reunir um exército assaz numeroso para lutar contra as tropas persas de terra, a Grécia pôde infligir ao Império persa uma derrota desastrosa, pelo fato de ter ganho uma vitória naval. Pelo ano 466 novos revezes foram infligidos à Pérsia pelo ateniense Cimon, que destruiu um exército e uma armada perto da foz do Bureymedon, e depois uma outra esquadra nas águas de Chipre. Do ponto de vista da História do mundo, a guerra entre a Pérsia e a Grécia constituiu uma das grandes épocas da História. A subseqüente história da Europa, e do mundo, podia ter sido muito diversa houvessem as decisões de Salamina e Platéia sido diferentes. A civilização ocidental, então confinada quase inteiramente na Grécia, conseguiu salvar-se de ser engolfada pelo despotismo oriental. Os Estados gregos sentiram o senso de unidade antes desconhecido. A vitória de Salamina provou a Atenas a importância do poder marítimo e logo a cidade colocou-se à frente de um Império e de uma poderosa esquadra. Com a perda do domínio marítimo começou o declínio do Império persa como potência mundial e os prenúncios da ascenção da Grécia no orbe. Derrotado e desmoralizado, encerra-se Xerxes em seus suntuosos palácios, ocupado unicamente com intrigas de harém. Pouco sobreviveu às suas derrotas, sendo assassinado em Susa em 465 pelo eunuco Aspamithres e pelo chefe dos guardas, Artabanus. Antes dêste 347

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fatal complô contra sua vida, outros foram levados a efeito sem êxito, um dos quais acha-se mencionado no livro de Ester.1 VI. ARTAXERXES I — LONGIMANO Artaxerxes I reinou de 464 a 422 a.C. Descobriu que o poderoso Artabanus fôra o assassino de seu pai e o eliminou imediatamente por meio de Megabysos, seu cunhado, livrando-se assim dêle que pensava poder controlar o seu reinado, dado à bem conhecida fraqueza de caráter de Artaxerxes. Semelhante a Xerxes, seu pai, Artaxerxes não foi nem bom líder nem bom general. Se não fôra seu forte sustentáculo, Megabysos, êle não poderia ter conservado o trono por muito tempo. Infelizmente Artaxerxes foi governado por sua mãe e por sua esposa e usualmente era indeciso quanto à política a seguir. Sendo que êle era facilmente persuadido e influenciado por seus conselheiros para fazer o bem ou o mal, sua palavra jamais podia ser de confiança. Contudo é notável e até um milagre que o Império pôde manter-se tão unido durante o seu reinado de 42 longos anos. Com a morte de Xerxes a Pérsia tornou-se um imenso campo de batalha em rebeliões, principalmente no Egito, que levou cinco anos para ser novamente submetido. Cêrca de 450 os gregos infligiram sério revés naval aos persas próximo à ilha de Chipre. Sendo que a própria existência do Império parecia estar em risco, Artaxerxes fêz a paz com os gregos em 448 a.C. Esta paz livrou os persas da interferência ateniense em Chipre e no Egito e livrou também as cidades gregas da costa da Ásia Menor do pagamento de tributo. Foi igualmente assentado um compromisso entre Artaxerxes e Megabysos, já que êste, em querelas com o rei, não podia ser eliminado pela fôrça. Foi perdoado pela côrte e mantido em sua alta posição de sátrapa sôbre os territórios entre o Egito e o Eufrates. Na verdade pouco se sabe dos 42 anos de reinado de Artaxerxes I, em que o Império não pareceu ter sido seriamente conturbado por calamidades de alguma conseqüência. Porém, a despeito da incompetência de Artaxerxes Longimano para dirigir seu tão vasto Império e de suas tantas fraquezas morais, contudo Deus o usou para, através de um célebre decreto seu, autorizar a reconstrução de Jerusalém e dar assim fôrça ao restabelecimento, em definitivo, do lar nacional judeu na Judéia, conforme a profecia do capítulo nove de Daniel.
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Ester 2:21-23.

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XERXES II — UM EFÊMERO REINADO Quando Artaxerxes I morreu pelos fins do seu quadragésimo segundo reinado, provàvelmente em fevereiro do ano 422, condições caóticas prevaleceram mais uma vez. Xerxes, o filho mais velho de Artaxerxes subiu ao trono com o nome de Xerxes II, mas foi morto após 45 dias de reinado, por Secydianus, um de seus “meio irmãos”, auxiliado por alguns eunucos. Mas o assassino não pôde conservar o trono e foi logo pôsto fora do caminho por um outro “meio irmão” de Xerxes II, que tomou o nome de Dario II. VII. DARIO II — OCHUS Dario II Ochus, depois Nothus, reinou de 422 a 406 a.C. Sendo, porém, fraquíssimo, foi completamente governado por Parysatis, sua esposa e irmã, uma mulher de caráter pérfido e cruel, e por três eunucos — Artoxares, Artibanes e Anthous, e trouxe desgraça ao Império por uma série de vergonhosos e sangrentos crimes. O próprio Dario foi um déspota cruel e sanguinário. O resultado destas condições foi o desprêzo para com a autoridade real em todo o reino e uma sucessão de rebeliões que submergiu o govêrno numa crise após outra. Uma destas revoltas foi conduzida por Arsetes, um irmão do rei, que foi seguido pelo sátrapa da Síria — Artyphius, um filho de Megabysos. Ambos confiaram na palavra de Parysatis e de Dario, e finalmente renderam-se, mas foram pérfida e cruelmente mortos. Dario II tomou parte indireta na guerra do Peloponeso, autorizando os sátrapas Pharnabago e Tissaphernes a apoiarem alternadamente os dois partidos. Em sua campanha da Trácia a cargo de Tissaphernes recuperou parte dêste país. Durante seus últimos dois anos Dario foi perturbado por enfermidades, inquietação no Egito e por dissenção de família sôbre a sucessão ao trono depois de sua morte. As evidentes e crescentes fraquezas do govêrno persa e o rápido declínio desde Xerxes, o grande, as contínuas inquietações por todo o Império, — resultaram em que os nacionalistas egípcios tomaram ânimo outra vez e se levantaram contra os opressores. A revolta tornou-se totalmente aberta ao tempo da morte de Dario com a ascenção de Amyrtaeus como rei do Egito. Em 413 o Egito se torna independente da Pérsia com os Faraós indígenas. 349

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No ano 408, no reinado dêste Dario, segundo a profecia de Daniel, capítulo nove, versículo vinte e cinco, foi concluída a reconstrução total de Jerusalém. Crê-se que Dario, chamado “o persa” em Neemias, capítulo doze, versículo vinte e dois, é êste mesmo Dario II. As várias listas de oficiais eclesiásticos citadas no livro Nemias parecem ter seu ponto terminal em seu reino. Os reis persas foram perversos, fracos para governar e maus, mas Deus serviu-se dêles para O ajudarem em relação ao restabelecimento de Seu povo na Palestina desde Ciro. VIII. ARTAXERXES II — ARSACES Subiu ao trono em sucessão a Dario II, seu pai. Chamava-se Arsaces e tomou o nome de Artaxerxes ao galgar o trono em 406 reinando até 359 a.C. Também é nomeado “Mnemon”“ em face de sua prodigiosa memória. Débil, porém, para governar, deixou afinal o poder nas mãos de sua mãe Barisatis, fato que despertou descontentamento entre os sátrapas que continuamente se levantavam em armas. Seu irmão Ciro revoltou-se contra êle e pereceu na batalha de Omaxa próximo de Babilônia. Outros proeminentes eventos de seu reinado foram a paz de Antalcidas em 399 a.C., e a emancipação do Egito que, a despeito dos persas terem enviado 200.000 homens com Evagoras, seu líder, cêrca de 380 a.C., foram derrotados. Os sátrapas ocidentais declararam-se independentes e formaram uma liga ofensiva e defensiva, mas desfêz-se e quase o Império persa se desmoronou. Artaxerxes II morreu em 362 a.C. O único memorial nativo do reinado de Artaxerxes II é uma inscrição achada em Susa, nas bases dos pilares da residência real, que reza: “Diz Artaxerxes, o grande rei, o rei dos reis, o rei das nações, o rei desta terra, o filho do rei Dario; Dario era filho do rei Artaxerxes, Artaxerxes era filho de Xerxes, Xerxes era filho do rei Dario, Dario era filho de Histaspes, o Aquemenido. Dario, meu predecessor edificou êste templo (ou edifício), e posteriormente, foi reparado por Artaxerxes, meu avô. Com o auxílio de Ahuramazda eu coloquei Anahita e Mithra neste templo. Que Ahuramazda, Anahita e Mithra me protejam”.1 IX. ARTAXERXES III — OCHUS Era filho de Artaxerxes II. Reinou de 359 a 338. Inaugurou o seu reinado mandando estrangular a todos os príncipes e princesas da

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Encyclopedia Britânica, art. Artaxerxes II.

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família real em número de oitenta. Êste Artaxerxes foi odiado primeiro por seu povo e depois pelo assassínio de seus dois irmãos que podiam disputar-lhe o trono; e logo por todo o Império por causa de suas crueldades. O inicio de seu reinado foi também assinalado por inúmeras formidáveis revoltas nas províncias ocidentais do Império, que foram vigorosamente reprimidas, e o Império teve uma aparente estabilidade inigualável desde os tempos do grande Dario Histaspes. O Egito, uma das satrapias revoltadas (351) deu lugar à rebelião dos povos da Síria, sendo necessário quatro anos para apagar êste terrível incêndio. No primeiro ataque ao Egito rebelado, os persas foram derrotados. Artaxerxes invadiu outra vez a terra dos Faraós, agora com uma avalanche de guerreiros em número de 400.000 homens, e foi vitorioso. Nesta guerra matou o boi sagrado Apis, deus do sol, e queimou e passou à espada grande parte do país. Baogas, seu conselheiro, o envenenou para vingar a morte do deus Apis, eliminando igualmente a seus filhos com êle. Esta vitória sôbre o Egito foi a última do Império Persa, pois já agonizava e estava à beira do abismo, faltando apenas pouco mais do que nada para despenhar-se e desaparecer do cenário da política internacional. Aproximava-se a hora fatal em que receberia o golpe de misericórdia dos gregos e macedônios unidos que já afiavam as suas espadas para retalhá-lo. X. DARIO III — CODOMANO Êste último rei persa reinou de 338 a 331. Era parente longe dos Aquemenides. Segundo Prideaux, Dario era de nobre estatura, de boa presença e do maior valor pessoal, como também de uma disposição benigna e generosa. Algum tempo havia sido corrido, que levava às províncias os despachos do rei. Dera provas de valentia em um combate contra os endureianos e em conseqüência foi nomeado sátrapa da Armênia. Foi levado ao trono pelo eunuco Bagoas que envenenou o seu predecessor com tôda família real. Não tendo podido Bagoas galgar o trono, pensou fazer de Dario Codomano um dócil instrumento de política em suas mãos, fazendo-o subir ao trono. Porém, enganou-se e procurou eliminá-lo pelo veneno, o que tomando conhecimento Codomano, fê-lo beber a porção que para si preparara. Dario III Codomano teve o infortúnio de lutar com um homem apontado por Deus para derribar o seu cruel Império. O restante da 351

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história dêste Dario, portanto, devemos considerar como a história da invasão de seu reino por Alexandre Magno. Olhando retrospectivamente os dois séculos anteriores a Dario III Codomano, ficamos pasmados com a desumanidade com que governaram o mundo os seus antecessores. As destruições, os massacres, os rios de sangue que causaram, além do furto e das espoliações dos povos que conquistaram e impuseram o tremendo jugo, justificam a escolha dum urso pela revelação para qualificar o caráter do Império Medo-Pérsia na pessoa de seus monarcas impiedosos e cruéis. Todavia, o golpe inexorável estava à vista ao tempo de Dario III, e um pequeno povo, à frente dum grande líder — Alexandre — iria vingar a terra e os povos das chacinas medo-persas aniquilando-as de todo e para todo o sempre. GRÉCIA — O TERCEIRO IMPÉRIO MUNDIAL VERSO 6: — “Depois disto, eu continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha quatro azas de aves nas suas costas: tinha também êste animal quatro cabeças, e foi-lhe dado domínio”. UM FULMINANTE LEOPARDO-ALADO Antes de tudo leia-se-a exposição: A Origem do Império Grego, na consideração do versículo trinta e nove do capítulo dois. Sem sombra de dúvida, o terceiro animal desta profecia — um leopardo-alado — como o cobre, da profecia da estátua do capitulo dois, aponta ao terceiro Império do mundo a Grécia. Na profecia do oitavo capitulo vemos um bode seguindo um carneiro, e se nos diz ali, claramente, que à Medo-Pérsia seguiu a Grécia. Medas e persas, figurados num potente e esmagador urso, cedem caminho aos gregos figurados num leopardo. O leopardo não é símbolo nacional da Grécia, e sim o bode, como veremos no capitulo oito. O leopardo, como símbolo, foi-lhe aplicado pela profecia para denotar a austúcia e a sagacidade de Alexandre Magno em seus movimentos guerreiros, enquanto as quatro azas para indicar a incrível rapidez de suas conquistas mundiais. Alexandre se precipitou como uma torrente sôbre o gigantesco Império Persa, levando de vencida tôda a resistência que foi inútil contra o seu fulminante avanço. Os gigantescos exércitos mobilizados por Dario III Codomano para 352

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enfrentá-lo, dissolveram-se, como a neve à luz do sol. Em apenas três batalhas fôra selada a sorte do Império dos Aquemenides — que alcançava já dos séculos desde Ciro — e garantido o domínio dos gregos. Que um leopardo vença um urso no reino da zoologia, não podemos admitir. Porém, na profecia que consideramos, um leopardo substitue um urso no domínio do mundo. O uso Medo-Persa alcançara dois séculos de tirania no trono da terra, mas bastava já de seus morticínios e destruições. O mundo já estava cansado de seus tantos massacres, de seus derramamentos de sangue, de seus roubos e de seu arquejante e inominável jugo. Por outro lado, Xerxes e seus sucessores, até ao último, enfraqueceram o reino e o trono pela incompetência e insensatez com que governaram. O Império tornarase um vulcão de revoltas e as intrigas e os assassínios na côrte eram a ordem do dia. O urso Medo-Persa estava assim já bastante cansado, alquebrado e por demais acuado em seu próprio covil para resistir o impacto do leopardo grego em tôda a sua pujante fôrça e indómita vontade de vencer. Mas, o velho urso, ignorando que apenas pouca fôrça lhe animava a estrutura, não se dispõe a entregar-se, pensou sobreviver e triunfar sôbre um animal que considerava inferior em relação a si no reino do qual era o segundo em soberania. Não obstante, quando o urso Medo-Persa era ainda terrivelmente poderoso e invencível na Ásia e na África, não conseguiu triunfar sôbre o leopardo grego sendo êle ainda um filhote. Nem Dario Histaspes nem Xerxes, com todo o poderio de que dispunham, o venceram quer em terra quer no mar. O frágil leopardo dera uma tremenda lição ao audacioso e potente urso que o abalou de alto a baixo e fê-lo cambalear perigosamente. E tudo isto na defensiva e em sua própria casa. Agora, porém, iria o velho e ainda orgulhoso urso receber um impacto em cheio e em seu próprio covil, uma irresistível, veloz e fulminante ofensiva num triunfo esmagador do leopardo já adulto e sequioso de vingança e por se impôr no mundo internacional. É assim que veremos agora Alexandre Magno, belo e forte jovem, filho de Felipe II e de Olímpia, discípulo de Aristóteles, o maior sábio da época, — a invadir o enorme Império Medo-Persa com um punhado de soldados gregos e macedônios, numa tremenda arrancada contra uma avalancha de guerreiros que compunham os exércitos de Dario III. O exército de Alexandre revelava uma verdadeira disparidade numérica de fôrças, — mas também uma acentuada diferença em disciplina bélico-militar. A enorme massa belicosa do urso medopérsico iria ruir ante o valor e o denodo dos soldados de Alexandre. 353

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A surpreendente e extraordinária rapidez que caracterizaram as conquistas vitoriosas de Alexandre, uma façanha a mais notável em virtude das pequenas forças de que dispunha, foi devido, em parte, à superioridade de organização de seu exército, aos seus excelentes guerreiros treinados na escola de seu pai Felipe, e às suas próprias qualidades como general e líder dos homens. A profecia dêste leopardo grego, mais simbólica do próprio Alexandre do que mesmo da Grécia, contém, entre, outras, esta importante cláusula: “E foi-lhe dado domínio”. Na verdade Alexandre não poderia vencer como venceu com seu diminuto exército as enormes forças de Dario, se não lhe fôra “dado domínio”. E quem mais lhe daria o “domínio” senão Deus? É tão evidente a profecia de que Deus o escolhera para abater o Império Medo-Persa, como é evidente o fato de tê-lo abatido inapelàvelmente. Dario Codomano mal imaginava estar lutando contra um homem secundado pelo poder do céu e destinado a vencer pela vontade de Deus. ALEXANDRE INVADE A ÁSIA Diz-se que Alexandre, antes de sua partida para a grande aventura, repartiu seus bens com os seus amigos. Ao ser interrogado por Pérdicas: “Que guardas para ti mesmo?”, respondeu: “A esperança”. Levando consigo òs melhores generais de seu falecido pai Felipe II, da Macedônia, e 35.000 escolhidos soldados (30.000 de infantaria e 5.000 de cavalaria) afeitos a todas as fadigas da guerra, atravessou Alexandre o Helesponto na primavera do ano 334, enquanto uma esquadra greco-macedônia, de 160 galeras seguia pela costa da Ásia Menor a fim de evitar uma possível invasão persa da Grécia por mar ou da própria Ásia Menor por sua retaguarda. A desgraça da Pérsia — em parte — consistiu em que os sátrapas da Ásia Menor não cumpriram devidamente a ordem do rei Dario da concentração de um poderoso exército para conter a invasão de Alexandre. A armada persa estava pronta para fazer-se ao mar; porém, nem ela nem as tropas de terra estavam deveras em seus postos quando Alexandre e seu exército transpuzeram o Helesponto. O conselho de retirar-se, cortar ao inimigo os víveres e tentar um desembarque na Grécia, foi recusado e em câmbio se concentraram uns 40.000 homens às margens do Grânico para a defesa da fortaleza de Dasilco, na Bitínia. 354

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A BATALHA DO GRÂNICO Em maio do mesmo ano 334 deu-se o grande primeiro choque nas margens do rio Grânico. O desastre dos asiáticos foi inevitável. Muito sangue persa foi derramado. O exército de Dario foge espavorido deixando grande número de mortos no campo de batalha, incluso oito generais e mais um outro que fugiu para suicidar-se ante o desespêro da derrota. Um elevado número de prisioneiros e grande cópia de material bélico caiu em poder dos vitoriosos, o comandante persa de Sardo entregou-se incondicionalmente e sem batalha e Alexandre fêz daquela praça forte uma poderosa base de suas operações na Ásia Menor. Na Frígia cortou Alexandre, com a espada, o famoso “nó górdio”, — cujas pontas não apareciam — depois de várias e infrutíferas tentativas para desatá-lo, pretendendo ter assim interpretado o oráculo que prometia o Império da Ásia a quem soubesse desatá-lo. UMA CARTA DE DARIO A ALEXANDRE Depois da derrota do Grânico, enviou Dario uma orgulhosa e ofensiva carta a Alexandre, que damos abaixo: “Desta capital dos reis da terra: Enquanto o sol brilha sôbre a cabeça de Iskander Alexandre, o salteador, etc. etc., saiba êle que o Rei dos Céus me outorgou o domínio da terra, e que o Todo-poderoso me concedeu os quatro quartos da superfície dela. Distinguiu-me outrossim a Providência com a dignidade, a majestade e a glória, e com um sem conta de campeões e confederados. Chegou ao nosso conhecimento que reunistes uma corja de ladrões dos quais a tal ponto vos escaldou a imaginação que vos propuzestes com a ajuda dêles disputar a coroa e o trono, devastar o nosso reino e destruir o nosso país e o nosso povo”. “Tais resoluções são, em sua crueldade, perfeitamente consistentes com a fatuidade dos homens de Room. Mas é melhor para o vosso bem que, ao lerdes estas linhas regresseis imediatamente do lugar até onde chegastes. Quanto ao vosso movimento criminoso, não tenhais receio da nossa majestade e punição, pois não entrastes ainda para o número daqueles que nos merecem vingança ou castigo. Olhai bem! Mando-vos um cofre cheio de ouro e um burro carregado de sésamo no propósito de dar-vos uma idéia da extensão da minha riqueza e poderes. Mando-vos também um chicote e uma bola: a 355

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última para que vos entretenhais com um brinquedo próprio da vossa idade; o primeiro para servir ao vosso castigo”. “Ao receber essa carta, ordenou Alexandre que fossem presos e executados os embaixadores que a tinham trazido. Mas êstes lhe suplicaram misericórdia e foram finalmente atendidos. Regressaram para o seu país levando a seguinte resposta de Alexandre a Dario: “... para provardes e reconhecerdes o amargor de minha vitória. “Do Zul-ul-Kurnain Alexandre àquele que pretende ser o rei dos reis; que se julga temido pelas próprias hostes celestes; e que se considera a luz de todos os habitantes do mundo! Como se pode então dignar tão alta pessoa de temer um inimigo tão desprezível como Iskander? “Não saberá Dario que o Senhor Onipotente outorga poder e domínio a quem bem lhe aprás? E também que quando um fraco mortal se julga um deus e vencedor das hostes celestes a indignação do Todo-poderoso lhe reduz a ruína o reino? “Como pode um indivíduo destinado à morte e à decomposição ser um deus, êle a quem lhe tomam o reino e que deixa para outro os prazeres dêste mundo? “Olhai! Decidi travar batalha convosco e para isso marcho na direção de vossas terras. Confesso-me fraco e humilde servo de Deus, a quem ofereço as minhas preces para que me conceda a vitória e o triunfo, e a quem adoro. “Com a carta em que fizestes tamanho alarde dos vossos podêres me enviastes um chicote, uma bola, um cofre cheio de ouro e um burro carregado de sésamo; tudo isso agradeço a boa fortuna e considero como sinais auspiciosos. O chicote significa que serei o instrumento do vosso castigo e me tornarei o vosso governador, preceptor e diretor. A bola indica que a superfície da terra e a circunferência do globo obedecerão aos lugar-tenentes. O cofre de ouro, que é uma parte do vosso tesouro, denota que as vossas riquezas me serão transferidas muito breve. E quanto ao sésamo, embora os seus grãos sejam tão numerosos, todavia é macio ao tato e de todos os gêneros de alimentos o menos nocivo e desagradável. “Em retribuição vos envio um saco de mostarda para provardes e reconhecerdes o amargor da minha vitória. E não obstante vos terdes exaltado com tamanha presunção, soberbo da grandeza do vosso reino e pretendendo ser uma divindade na terra, ousando mesmo compararvos à Majestade celeste, eu verdadeiramente é que sou o vosso senhor supremo; e embora vos tenhais esforçado por me alarmar com a enumeração do vosso poder e dos vossos recursos em homens e 356

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armas, todavia confio na intervenção da Divina Providência que hei de ver a vossa jactância reprovada por todo o gênero humano; e que na mesma proporção em que vos exalçastes vos humilhará o Senhor e me concederá a vitória sôbre vós. No Senhor está a minha fé e a minha confiança. Adeus”.1 A BATALHA DE IPSO A batalha de Ipso, a segunda de Alexandre contra Dario, deu-se a 29 de novembro do ano 333. Dario concentrou 600.000 homens para êste encontro com Alexandre. O exército persa havia se detido na estreita planície ao sul de Ipso, entre um lago e os flancos escarpados da montanha, e Alexandre não lhe deu tempo de sair desta desvantajosa posição onde o espaço era insuficiente para o eficaz manejo das numerosas tropas de Dario, mormente da cavalaria que era a arma mais temível dos persas. A batalha generalizou-se por corpo a corpo. Era impossível retroceder. Diz-se que só matando se ganharia o espaço. A princípio a peleja pareceu indecisa. Porém, ao destruir Alexandre em pessoa a ala esquerda persa e a cavalaria da guarda de Dario, a derrota dêste se precipitou. Seu exército mais uma vez foge ante o valor dos soldados de Alexandre, deixando no campo 100.000 persas mortos e grande número de prisioneiros. As perdas foram de 100 persas para um dos soldados do vitorioso. Alexandre queria aprisionar Dario e matá-lo em seu próprio carro. Mas êle pôde escapar graças a seu veloz cavalo e à escuridão da noite, deixando prisioneira tôda a sua família — esposa, duas filhas, um filho e a própria mãe — que foi tratada com consideração por Alexandre. Imensa prêsa de 2.600 talentos de ouro. 500 talentos de prata — cai em poder do vencedor. O caminho do exército persa em fuga ficou semeado de objetos de valor e custosos trajes. Dario envia embaixadores a Alexandre propondo a paz. Oferece imensa soma pelo resgate da família, tôda a Ásia Menor e ainda Statira e um dote de trinta milhões. Mas, pela paz pede Alexandre todo o Império Persa, e rumou para o Egito. Em Tarso adoeceu Alexandre seriamente de um banho que, suado, tomou nas águas geladas do Cydnus. Foi avisado que seu médico Felipe puzera veneno na poção que lhe daria como remédio.
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As Grandes Cartas da História, M. Lincoln Schuster, páginas 17-20.

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Mas êle não creu, e diz-se que tomou o medicamento segurando em uma das mãos a carta de advertência. Enquanto se dirigia Alexandre para o sul, Dario teve tempo de preparar um mais numeroso exército poderosamente equipado, do qual faziam parte contingentes de todos os povos do Império. O MEMORÁVEL CÊRCO DE TIRO Depois da vitória de Ipso dirigiu-se Alexandre para o sul. Damasco e as riquezas da Pérsia que ali se encontravam caem em seu poder. Sidom é depois tomada sem resistência. Logo chega o vitorioso diante da nova e orgulhosa cidade de Tiro — que resiste um cêrco de sete mêses. Acampado defronte de Tiro, manda Alexandre “uma mensagem aos habitantes da nova cidade pedindo-lhe autorização para entrar e adorar os deuses da cidade. Os habitantes recusaram compreendendo o estratagema de Alexandre para se apoderar da sua cidade forte. O macedônio, ferido no seu orgulho, acampa-se defronte da cidade orgulhosa que lhe oferece uma forte resistência. Impaciente, e dum caráter impetuoso, não tenta tomá-la pela fome, isso levar-lhe-a muito tempo. Pensou então em forçar as suas muralhas e derrubar as suas torres. Mas entre os muros e o seu exército estendia-se o mar numa largura de 800 metros. O fogoso Alexandre, que tinha desbaratado 460.000 soldados da infantaria persa e os seus 100.000 cavaleiros, poderia ficar agora retido por essa massa de água? Os seus soldados põem de lado o sabre e o escudo e, sob as ordens de Alexandre, constroem uma estrada indo do continente aos muros de Tiro”. “As ruínas da antiga Tiro, destruída 250 anos antes, forneceram os materiais. Uma emprêsa tão gigantesca parecia, durante algum tempo, acima dos esforços mesmo dum Alexandre. As obras apenas começadas foram queimadas pelo inimigo, e a seguir destruídas por uma tempestade. Foi preciso novamente juntar uma grande quantidade de materiais; foi aproveitada tôda a terra e até mesmo o entulho, e esse mesmo conquistador, que não consegue reconstruir as Muralhas da Babilônia, lança no mar as de Tiro até mesmo o próprio pó do lugar que elas tinham ocupado”. “Logo que as muralhas ruíram para dar passagem ao grande vencedor, Alexandre vingou-se dêsses tírios que o tinham retardade na sua marcha contra o Egito. Sômente alguns habitantes, 15.000 aproximadamente, puderam escapar sôbre os seus navios. Um grande número foi passado ao fio da espada, outros pereceram no incêndio ordenado por Alexandre, os que foram 358

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poupados, 230.000, segundo alguns autores, foram vendidos como escravos”. “O cêrco de Tiro”, diz o Dr. A. Keith, “por Alexandre, o Grande, é um dos mais singulares acontecimentos da História. Irritado com o fato de que uma cidade solitária como Tiro pudesse por tanto tempo deter a marcha do seu exército vitorioso, desesperado pelo assassinio de alguns soldados seus, e orgulhoso da sua nomeada, nada pôde demover o jovem vencedor a levantar o cêrco. A tomada de Tiro foi ainda mais espantosa que o plano de ataque audacioso”. ALEXANDRE EM JERUSALÉM Depois da tomada de Tiro, o próximo importante objetivo de Alexandre foi Jerusalém. Flávio Josefo, o grande historiador judeu fornece-nos importante relatório sôbre a estada de Alexandre em Jerusalém, como damos abaixo: “Quando se soube que êle já estava perto, o Grão-Sacrificador, acompanhado pelos outros sacrificadores e por todo o povo, foi ao seu encontro, com essa pompa tão santa e tão diferente da das outras nações, até o lugar denominado Sapha, que em grego significa mirante, porque de lá se podem ver a cidade de Jerusalém e o templo. Os fenicios e os caldeus, que estavam no exército de Alexandre, não duvidaram de que na cólera em que êle se achava contra os judeus êle lhes permitiria saquear Jerusalém e daria um castigo exemplar ao Grão-Sacrificador. Mas aconteceu justamente o contrário, pois o soberano apenas viu aquela grande multidão de homens vestidos de branco, os sacrificadores revestidos com seus paramentos de linho e o Grão-Sacrificador, com seu efod, de côr azul adornado de ouro e a tiara sôbre a cabeça, com uma lâmina de ouro sôbre a qual estava escrito o nome de Deus, aproximou-se sozinho dêle, adorou aquêle augusto nome e saudou o Grão-Sacrificador, ao qual ninguém ainda havia saudado. Então os judeus reuniram-se em redor de Alexandre e elevaram a voz, para desejar-lhe tôda a sorte de felicidade e de prosperidade. Mas os reis da Síria e os outros grandes, que o acompanhavam, ficaram surpresos, de tal espanto que julgaram que êle tinha perdido o juízo. Parmênio, que gozava de grande prestígio, perguntou-lhe como êle, que era adorado em todo o mundo, adorava o Grão-Sacrificador dos judeus. Não é a êle, respondeu Alexandre, ao Grão-Sacrificador, que eu adoro, mas é a Deus de quem êle é ministro. Pois quando eu ainda estava na Macedônia e imaginava como poderia conquistar a Ásia, êle me apareceu em sonhos com êses mesmos hábitos e me exortou a nada temer, disse-me que passasse 359

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corajosamente o estreito do Helesponto e garantiu-me que êle estaria à frente do meu exército e me faria conquistar o império dos persas. Eis por que, jamais tenho visto antes a ninguém vestido de trajes semelhanles aos com que êle me apareceu em sonho, não posso duvidar de que não foi por ordem de Deus que empreendi esta guerra e assim vencerei a Dario, destruirei o império dos persas e tôdas as coisas suceder-me-ão segundo meus desejos. Alexandre, depois de ter assim respondido a Parmênio, abraçou o Grão-Sacrificador e os outros sacrificadores, caminhou depois no meio dêles até Jerusalém, subiu ao templo, ofereceu sacrifícios a Deus da maneira como o GrãoSacrificador lhe dissera fazer. O Soberano Pontífice mostrou-lhe em seguida o livro de Daniel no qual estava escrito que um príncipe grego destruiria o império dos persas e disse-lhe que não duvidava de que era êle de quem a profecia fazia mensão. Alexandre ficou muito contente; no dia seguinte, mandou reunir o povo e ordenou-lhe que dissesse que favores desejava receber dêle. O Grão-Sacrificador respondeu-lhe que êles lhe suplicavam permitir-lhes viver segundo suas leis, e as leis de seus antepassados e isentá-los no sétimo ano, do tributo que lhe pagariam durante os outros. Êle concedeu-lhe. Tendolhe, porém, êles pedido que os judeus que moravam em Babilônia e na Média, gozassem dos mesmos favores, êle o prometeu com grande bondade e disse que se alguém desejasse servir em seus exércitos êle o permitiria viver segundo sua religião e observar todos os seus costumes. Vários então alistaram-se”.1 ALEXANDRE DIRIGE-SE AO EGITO De passagem para o Egito, Gaza resiste Alexandre num cêrco de dois meses. Defendida por Betis, seu governador. Tomada e destruída a cidade, diz-se que o vencedor fêz arrastar três vêzes o cadáver de Betis em tôrno da cidade, como havia feito Aquiles com o de Heitor, ao redor dos muros de Tróia. Do Egito o herói macedônio é recebido como libertador, ato que já se havia verificado em muitas das províncias da Ásia. Na terra dos Faraós fundou Alexandre, Alexandria. centro e laço de união entre o Oriente e o Ocidente, tanto para o comércio como para a cultura intelectual. Do Egito avançou para o interior da Líbia, para visitar o templo de Ammon, onde foi recebido como um “deus” e como o filho
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Josefo, Vol. III, págs. 378 a 381.

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querido de Ammon-ra, o senhor do Universo. Diz o historiador: “Alexandre visitou o célebre Oásis de Siwan, onde se encontra o deus egípcio Ammon, chamado Júpiter Ammon na Grécia, e relacionado com o oráculo geral grego. Ali deixou-se consagrar pelos sacerdotes do templo como filho de Ammon e como filho do Sol, seguindo a uzança dos antigos Faraós do Vale do Nilo”.1 A BATALHA DE ARBELAS Com 50.000 homens em marcha forçada, atravessou Alexandre o rio Eufrates em Thapraca e o Tigre superior a dezesseis milhas das ruínas de Nínive, para encontrar Dario Codomano e seu exército em Arbelas e vibrar a batalha decisiva com a Pérsia. Com esta terceira batalha — 2 de outubro do ano 331 — ficou liquidado o poderio da Medo-Pérsia ou propriamente da Pérsia. Dario empregou um exército de 1.000.000 de soldados de infantaria e 200.000 de cavalaria. O terreno havia sido preparado para facilitar os movimentos principalmente da cavalaria, dos carros e dos elefantes persas. O exército de Alexandre era cêrca da vigéssima parte do de Dario. Mas Alexandre foi informado de todos os planos de Dario para aquela batalha e formulou também os seus planos para desbaratá-lo. Iniciado o supremo choque, a confusão nas fileiras de Dario não se fêz esperar muito. O rei persa foge espavorido e com êle o seu exército desbaratado e disperso. Nada menos de 300.000 asiáticos mortos juncaram o campo da luta e grande número de prisioneiros foi feito. Uma imensa prêsa de guerra cai em poder de Alexandre e seu vitorioso exército. Alexandre, diz o historiador, perdeu cem homens e mil cavalos. ALEXANDRE ENTRA VITORIOSO EM BABILÔNIA Vitorioso na batalha decisiva de Arbelas, dirige-se Alexandre a Babilônia. As portas da capital da Ásia lhe foram abertas sem resistência alguma, sendo êle recebido com toda a solenidade. Maceio, o general persa, saiu com sua família ao encontro do vencedor. O povo em massa se reunira sobre as muralhas para conhecer o nôvo rei e, ao vê-lo, adianta-se para recebê-lo fora das portas da cidade. O
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História Universal, G. Oncken, Vol. V, pág. 351.

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tesoureiro e governador do castelo, Bagoianes, mandou semear o caminho de flores e coroas e levantar em ambos os lados altares de prata, nos quais se queimaram incenso e tôda a classe de perfumes. Depois lhe apresentaram regalos, rebanhos de toda a classe de gado e cavalos, panteras e leões enjaulados; os magos entoaram hinos sagrados; os caldeus tocaram instrumentos de vento, e fechavam a comitiva ginetes babilônios com atavios magníficos. Alexandre, rodeado de guerreiros, entrou na cidade em um carro e foi instalar-se no palácio de Nabucodonosor. ALEXANDRE NO ENCALÇO DE DARIO CODOMANO Depois de receber altas homenagens em Babilônia, assegurar a posse da cidade e convertê-la em capital do imenso Império arrebatado aos Aquemenides, — mete-se Alexandre (330) pelo Irã em fora em busca de Dario fugitivo. Queria alcançá-lo em Bactriana para fazê-lo abdicar voluntariamente e entregar formalmente a corôa. O rei persa estava resolvido a travar mais uma batalha e fazia preparativos para isso. Porém, Barsentes, sátrapa de Aracosia, e Bessus, sátrapa de Bactria, apoderaram-se de sua pessoa para entregá-lo prisioneiro a Alexandre, ou matá-lo e continuar a guerra por conta própria. Aproximando-se, porém, Alexandre a marchas forçadas do atual Shahrud, na Pártia, encontrou ali o grupo que conduzia Dario numa carruagem fechada. Barsentes e Bessus; com 1.000 ginetes que os secundavam, fogem depois de ferirem mortalmente o rei persa. Dizem historiadores que Alexandre assistiu os últimos momentos de Dario, pôs sua capa sôbre êle e o consolou, e que Dario o agradeceu, recomendou-lhe sua mãe Gul-ara (corôa de Rosas) e sua filha Ruscheneh (a brilhante) e lhe suplicou fôsse clemente com seu povo, — expirando em seus braços. Alexandre fêz transportar o seu cadáver para a Pérsia onde foi depositado em uma cripta dos Aquemenides. Tomou então Alexandre o encargo de vingar o assassínio de Dario, cuja corôa quiseram dar ao príncipe Bessus — com o nome de Artaxerxes — e Dario protestou, possível razão porque foi morto. Bessus foi prêso mais tarde e entregue a Alexandre que, por sua vez, o entregou a Oxatres, irmão de Dario, para que o castigasse. Foi atado a duas árvores unidas com cordas; ao desatarem estas, se separaram com violência levando cada uma parte do corpo de Bessus. Assim colheu êste o fruto imediato de seu crime. 362

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AS CONQUISTAS DE ALEXANDRE NO ORIENTE Susã foi a primeira grande capital do Irã a cair em poder de Alexandre, novembro do ano 331. Imensas riquezas dos reis persas foram ali encontradas: 40.000 talentos de ouro; 9.000 talentos de ouro cunhado; 5.000 talentos em tecidos de púrpura e preciosas obras de arte que Xerxes havia levado da Grécia. Em meados de janeiro do ano 330 Persépolis foi tomada e queimada. Em maio do mesmo ano cai Ecbatana, na qual fêz Alexandre uma nova base de operações no Irã Oriental. Ei a esta a mais formidável fortaleza do interior do Império, e nela Alexandre guardou os tesouros arrebatados aos Aquemenides em Susã, Persépolis e em si própria, — no valor total de 190.000 talentos. Seis mil soldados ficaram ali montando guarda ao grande tesouro. Recorre Alexandre a Pártia, a Draugiana, a Aracôsia vitoriosamente. Em julho de 330 submete territórios ao sudoeste do mar Cáspio — a Tapúria e a Hircânia. Planejou Alexandre levar suas conquistas até às fronteiras do Beluchistan e o Vale de Cabul que conduz ao Indo. Em abril do ano 329 atravessou as montanhas do Sinducusch, a 9.000 pés de altitude. Recorreu tôda a Bactriana sem dificuldade, e apoderou-se da magnífica cidade de Zariaspa ou Cactria e de sua cidadela tão famosa desde tempos legendários dos primitivos períodos históricos. Nesta cidade Alexandre casa com Roxana, sua prisioneira e filha do príncipe bactriano de nome Oriartes, que passava pela mulher mais formosa daquele tempo, — com ruidosas bodas. Fêz ali a base de operações ao norte de Hinducush. Penetra então o Laxartes vibrando grandes combates com povos selvagens das montanhas. A esta altura, caudilhos da Bactriana e da Sodigiana levantam-se contra Alexandre. Êste levante estendeu-se como um incêndio destruidor até à Bactriana Oriental. Mas êle não desanimou. Destrói as cidades do Iaxartes que se sublevaram matando todos os habitantes do sexo masculino. Na margem direita do Iaxartes deu uma grande batalha contra os escitas — vencendo-os. Aniquilou completamente os sublevados da Bactriana e Sodigiana. Terminada a guerra na Sodigiana, volta Alexandre a Zariaspa para repousar até depois da primavera do ano 327. Neste ano cruza o Hinducush. Na primavera do ano 326 chega à Índia, tão cheia de perigos. O primeiro obstáculo sério na terra dos indus foi o rei Poro, que êle venceu em renhida batalha. No Hifasis, na comarca do rei 363

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Magdala, que exercia sua soberania sôbre o território do Ganges, os soldados de Alexandre se negaram a ir adiante. Êle então renunciou a conquista completa da Índia, limitando-se a apoderar-se de todo o Pendejab e das margens do Indo Inferior. No verão do ano 326 empreendeu Alexandre a retirada e chega em setembro ao Acesines. Mandou construir ali uma esquadra com a qual queria levar ao oceano Índico uma grande parte de seu exército, já de 120.000 homens. Em novembro do mesmo ano a expedição dirigiu-se para o sul. A esquadra se achava custodiada à direita e à esquerda por fortes colunas do exército, que travavam com freqüência sangrentos combates com povos indus livres — mas sempre vitoriosos. Durante o assalto da última fortaleza dos Malaios, Alexandre recebeu um ferimento perigoso que lhe pôs à borda da sepultura. Afinal chegaram à confluência do Panchanada com o Indo. Nesta parte meridional da satrapia novamente formada na Índia Superior, Alexandre tratou, a princípio do ano 326, de conquistar o Sinduh, isto é, a comarca do Indo Inferior. Depois de alguns sangrentos combates chega à comarca setentrional do Delta do Indo — Fotalene — cujo soberano, Saureya, lhe presta homenagem. Soube aí Alexandre de más notícias das comarcas que se estendiam entre Cabu de Ecbatana, que denunciavam grandes transtornos e violências por parte dos governadores que, crendo difícil o seu regresso da Índia, haviam abusado da sua situação. Mas êle enviou tropas que sufocaram o levante com êxito. Em fins de julho do ano 525, chegaram Alexandre, seu exército e a esquadra à desembocadura do Indo no oceano Índico. Ali vêem pela primeira vez a maré, coisa estranha na Grécia. A frota passa a explorar o litoral do oceano Índico, e Alexandre casa com mais uma mulher — Statira — filha de Dario que, enviada do pai, já lhe havia sido oferecida. Em outubro do mesmo ano parte da esquadra — 100 navios, e 5.000 homens, comandada pelo grego Nearco — rumou para o Gôlfo Pérsico. Em fins de agôsto já havia Alexandre, com o exército de terra, saído de Patala de regresso ao Irã. Ao alcançar a Pura, três quartas partes do exército havia perecido. Só 30.000 homens chegaram em estado deplorável àquela localidade, onde descansaram longo tempo. Foi devido à falta dágua, de víveres e da grande fadiga que pereceram tantos de seus soldados. Em janeiro de 324 regressaram a Susã, onde as tripulações do exército e da esquadra se reuniram e solenizaram o encontro com grande festa. Muitos matrimônios se realizaram entre orientais e 364

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europeus — entre os mais ilustres gregos e macedônios e os jovens das mais ilustres famílias da nobreza iraniana. Em agosto de 324 fêz Alexandre uma bem sucedida expedição à Média, e a princípio de 323 marcha para Babilônia, aniquilando alguns povos pelo caminho. Resumindo as conquistas de Alexandre, assim as temos Em quatro anos subverteu o Império Persa fundado por Ciro, o grande, fazendo-se senhor dêle por conquista. Outros quatro anos foram dispendidos em subjugar as tribus selvagem do Plateau Iraniano e a maioria dos povos civilizados do Vale do Indo. Nesta gigantesca emprêsa dispendeu Alexandre apenas dez anos de campanha bélica, desde a invasão do Império Persa. A MORTE SÚBITA DE ALEXANDRE Os astrólogos o aconselharam a não entrar em Babilônia. Há desgraças, advertiram êles. Todavia regressou êle à grande cidade da qual fizera capital do Império conquistado como já o era antes. Em Babilônia ocupa-se Alexandre em resolver uma multidão de negócios do govêrno e em fazer novos preparativos, por terra e mar, recebendo além de tudo embaixadores de vários países do Ocidente: De Cartago, de outras cidades da África, da Espanha, Sicília, Gália, Sardenha, e mesmo de Roma. Tanto era o terror de seu nome, que tôdas as nações vieram render-lhe obediência como alguém que foi designado pelo Todo-poderoso a ser o seu monarca. Depois de ver realizado o sonho duma dominação universal — do Adriático às montanhas centrais da Ásia e o Indo; do Mar Cáspio ao Gôlfo Pérsico; do Mar Negro ao Egito e Etiópia; da Grécia, Itália e Espanha ao Norte da África — tudo repousando sob um único desejo, um simples cérebro, alimentado pelo pensamento helênico — foi ela, qual passageira ilusão, desmoronada pela fatal realidade — a morte. Em fins de maio do ano 325, quando o exército e a esquadra se preparavam para marchar para o Sul — para conquistar a península árabe no centro dos seus domínios Alexandre, minado por excessivos trabalhos de vastos projetos, pelas fadigas, pelos sofrimentos morais e entregue a uma vida licenciosa e às orgias — viu-se repentinamente acometido por fortes febres que em onze dias lhe roubaram a vida a 13 de junho do ano 323, aos 32 anos de idade. Os soldados de Alexandre não consentiram que êle morresse sem que o vissem mais uma vez. Os guardas do palácio foram obrigados a 365

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abrir-lhes as portas, e os veteranos de cem batalhas desfilaram pesarosamente ante o leito de seu moribundo comandante. A morte de Alexandre chocou o mundo de estupor. Seu corpo, segundo suas últimas disposições, devia repousar no templo de Júpiter Ammon, mas Tolomeu o conservou no Egito. Foi levado primeiramente para Menfis e, posteriormente, para Alexandria, no Egito, e ali colocado em uma urna de ouro, substituída depois por uma de cristal, sôbre o qual foi levantado um esplêndido mausoléu. Sua ambição por honras divinas lhe fôra satisfeita em sua morte, pois no Egito e em tôda a parte templos foram a êle dedicados, e adoração divina foi tributada às suas estátuas. Em 324 êle requereu que cada cidade o arrolasse no círculo de suas divindades. Isto foi feito relutantemente em alguns lugares, como em Atenas e Esparta, mas em geral foi feito com entusiasmo. A Grécia celebrou sua morte, a Ásia o chorou, e ainda os próprios persas dêle se recordavam com amor e profundo respeito. Alexandre deixou sua mãe Olímpia; suas três esposas — Roxana, Statira e Barsino; seus dois filhos — Alexandre Egue e Hércules, e seu irmão Felipe Arideu. Foi sucedido no trono por seu irmão e por seus dois filhos. Porém, quinze anos depois, tôda a sua parentela havia sido assassinada, em atenção à profecia do capítulo onze do livro de Daniel, versículo quatro. Séculos depois César visitou o sepulcro de Alexandre, e pôde ter uma idéia da efêmera ambição dos que almejam ser grandes mesmo à custa do derramamento de abundante sangue humano e destruições sem conta. O ataúde de Alexandre Magno existiu até Alexandre Severo, desaparecendo daí em diante. Alexandre é a flor da raça grega, a suprema figura na galeria de seus heróis. Em fôrça física e beleza, em alcance e equilíbrio mental, em propósito e domínio próprio, foi êle preeminente entre os homens de seu tempo. De elevados e mais sentimentais ideais, de coração bondoso, companheiro genial e amigo, ídolo de suas tropas, destemido para vingar a negligência no dia da batalha, — sabia êle como agir incansavelmente, como fazer permanecer seus propósitos com uma resolução de ferro para varrer tôda a oposição de seu caminho, e para negar-se a si mesmo sem piedade para cumprimento de seus planos. Para alcançar tão alta posição e permanecer sozinho, no cume de seus tão grandes empreendimentos, foi para tão jovem homem uma admirável realidade. Mas Alexandre não escapou incólume. O poder fê-lo às vêzes arbitrário e cruel. A posição levou-o a crimes 366

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inexcusáveis. Em dez anos de incessante atividade êle venceu enorme área do globo e deliberou dirigir-se a novos caminhos. Jamais perdera uma batalha, e terminou quase cada guerra em uma ou duas batalhas. Tôdas as terras que seus olhos viram, foram por êle conquistadas. Enquanto cumprindo esta tarefa êle tornou seu nome imortal. Por um ato notável Alexandre não pode ser jamais esquecido, aliás, pelo único valor de suas conquistas além de suas efêmeras ambições e intenções políticas, — que foi a difusão da língua e da cultura gregas na Ásia, unindo o Ocidente e o Oriente, preparando assim o caminho para a introdução da religião cristã no mundo e facilitando em parte a marcha triunfal dos arautos do evangelho nos primeiros séculos. Deu assim Alexandre uma língua à dessiminação do evangelho, enquanto os romanos dariam mais tarde estradas relativamente boas. Por suas mãos cumpriu Deus, pois, dois de seus grandes propósitos; — justiçar o desalmado e impiedoso Império Medo-Persa e propagar um idioma comum para a implantação do evangelho na Ásia e na Europa. AS QUATRO CABEÇAS DO LEOPARDO Antes da morte de Alexandre, ainda conseguiu Pérdicas arrancar sua opinião quanto à sucessão. Perguntou-lhe a quem se destinaria o Império, o que respondeu êle e dissse: “Ao mais digno”; e acrescentou que seus funerais seriam sangrentos. E deveras foram sangrentos os seus funerais. Seus generais lutaram encarniçadamente durante vinte anos pela sucessão, até que fragmentaram o grande Império em quatro partes, sem que com isso cessassem as lutas entre êles até o advento dos romanos que os liquidaram. Sôbre esta quádrupla divisão do Império de Alexandre figurada nas quatro cabeças do leopardo, veja-se o versículo oito do oitavo capítulo desta dissertação do livro de Daniel. Quão completa e perfeitamente a História apresenta o cumprimento desta notável profecia sôbre Alexandre e suas conquistas, temos aqui apresentado ainda que muito mais podia ser dito. ROMA — O QUARTO IMPÉRIO MUNDIAL VERSO 7: — “Depois disto, eu continuava olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; êle devorava e fazia em pedaços, e 367

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pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dêle, e tinha dez pontas”. UM ANIMAL FORA DA ZOOLOGIA Antes de tudo leia-se a exposição: — A Origem do Império Romano, na consideração do versículo quarenta do capítulo dois. No capítulo dois Roma é primeiramente figurada no ferro, sendo referido que ela, como “quarto reino” da terra, seria “forte como ferro” e como o ferro tudo esmiuçaria e quebraria. Agora, neste sétimo capítulo, Roma é figurada num animal espantoso e mais potente do que os três que o precederam na visão do profeta. Só a inspiração poderia imaginar uma tal monstruosidade que representasse a índole antipática e perversa do que fôra o Império Romano e qualificasse a sua nefanda férrea política e o seu impiedoso trato para com as nações menos fortes sôbre as quais exerceu o seu poder. Sim, eis um monstro especialmente criado pela revelação, parecendo um mito, uma lenda, — dado o seu temível aspecto e suas terríveis atitudes ao surgir das gigantescas ondas do mar aos olhos do vidente de Deus. Assim o quarto animal desta grande profecia é o retrato perfeito e antecipado do que foram os romanos no trono da terra durante quase seis e meio séculos, uma fotocópia simbólica evidente do caráter tirânico e impiedoso de seus Imperadores. O pouco que diremos dêste cruel poder, em relação às suas conquistas e domínio no mundo, será o suficiente e convincente para confirmar a profecia que lhe diz respeito e harmonizar o símbolo com a sua realidade. Verificaremos que nenhum outro poder, além de Roma, se ajustou e se ajusta tão completamente ao emblema profético do quarto animal. A história desta potência mundial se encarregou de dar razão ao símbolo inspirado que lhe concerne nesta revelação e comprová-lo com a maior exatidão e os mais impressionantes detalhes. Os testemunhos dos fatos históricos relativos a Roma e seu inspirado símbolo, são mais que sobejos para exaltar e testificar da veracidade da inspiração do livro de Daniel e de tôdas as Sagradas Escrituras dos quais êle é uma parte. Esta revelação única, pois, é capaz de transformar os “Incrédulos de boa fé” em “cristãos de boa fé”, levando-os aos pés de Cristo e ao eterno reino de Deus. Não somente é imprescindível um pouco de vontade para examinar a profecia e os fatos que a cumpriram. 368

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COMO ROMA CONQUISTOU O LESTE E O SUL Enquanto ainda terçando armas com Cartago, na segunda Guerra Púnica, pela hegemonia do Mediterrâneo, começou Roma — passo a passo, porém, com firmeza — a apoderar-se de uma após outra nação do Leste e do Sul. Grécia e Macedônia, o reino do Oeste do dividido Império de Alexandre, foi o primeiro firme degrau a galgar na marcha para tornar-se o quarto Império da terra. Felipe V da Macedônia tentou assistir Cártago contra Roma. Mas esta preveniu-se formando aliança com certos Estados gregos e com Pérgamo contra o rei macedônio. O dever de não permitir a destruição de seus antigos aliados de Alexandria e de Pérgamo, nem dos ródios que eram seus aliados mercantis desde mais de um século, e por último o natural temor com que havia de olhar o crescimento da inimiga potência macedônia, crescimento que pedia ser altamente prejudicial ao comércio siciliano e itálico, — foram as causas de o Senado não considerar insensata uma nova guerra, contra o perigoso Felipe V, enquanto prosseguisse a guerra contra Cártago. Em 203 Felipe V atacou as fronteiras ilíricas. Em 201 Roma envia uma esquadra de observação de 38 navios aos mares gregos. Lépido, que visitara Felipe V defronte a Abidos, comunicou as condições do Senado, isto é, a suspensão, da parte do rei macedônio, dos ataques às cidades gregas e contra o Egito, devolução dos territórios tomados aos lagidas e a aceitação de um tribunal sem apelação para resolver os agravos a Pérgamo e a Rodes. Felipe V rechassou todas essas exigências, sem declarar rota a paz com Roma, como desejavam os romanos. Mas isto não evitou a guerra. Roma não quis precipitar-se agora como na primeira guerra com a Macedônia entre 215 e 205 a.C. Em março do ano 200 os atenienses enviaram uma comitiva a Roma para suplicar auxílio contra Felipe V que castigava as cidades gregas, e deram ao Senado um pretexto cômodo para declarar guerra contra Felipe V, encontrando ali uma tão boa acolhida que Felipe, avisado da formal declaração futura dos atenienses, e conhecendo perfeitamente a intenção dos romanos, ordenou a seu general que se achava na Grécia, Felocles, que hostilizasse energicamente os atenienses. E os romanos logo atravessaram o Adriático em socorro dos gregos afligidos pelo rei macedônio. Em 197 deu-se a esperada batalha decisiva em Cynoscephalae. Os macedônios com Felipe sofreram pesada derrota perdendo 13.000 369

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homens: 8.000 mortos e 5.000 prisioneiros. Os romanos tiveram 700 baixas. Felipe propôs logo a Flamino um armistício de quatro mêses para preliminar de um tratado de paz. Com o referido tratado perdeu Felipe todas as províncias fora da Macedônia — na Grécia e nas ilhas, na Ásia Menor e na Trácia. Não podia firmar nenhuma aliança estrangeira sem o consentimento dos romanos, nem apoiar os inimigos de Roma, nem os aliados dêstes e nem atacar aos aliados da cidade do Tiber. Só no caso de ser atacado por êstes podia defender-se. Mas, Roma que libertou os gregos do poder opressor dos macedônios por suplicação daqueles, não retirou jamais o seu pé da Grécia. Aflitos e desesperados os gregos pelos massacres que lhes infligiam os seus protetores, apelaram a Antíoco III, o Grande, rei da Síria, para que os socorresse, mas sem sucesso. A êsse tempo o rei sírio achava-se em luta com Tolomeu IV Filopator do Egito, e, depois de algumas vantagens, foi vencido por Tolomeu em 217 a.C. na terrível batalha de Ráfia. Porém, à morte de Filopator em 205, subiu ao trono do Egito Tolomeu V Epifanes, de cinco anos de idade, permanecendo sob tutores até ao tempo de maioridade para governar. Antíoco, que na ocasião volvia vitorioso e poderoso duma expedição ao Oriente, estendida até à Índia, vê, na situação a crítica em que jazia o Egito com o advento do rei pupilo e a o má atuação de seus tutores, uma boa oportunidade para nova guerra e vingança da tremenda derrota que sofrera em Ráfia. Para isto aliou-se com Felipe V da Macedônia que estava em guerra com Roma na Grécia. Os dois reis assentaram planos para dividirem os Estados dos Tolomeus entre êles e livrarem-se do que chamara Antíoco — “a enfadonha vizinhança dos Tolomeus”. Felipe devia ter a Cária, Líbia, Cirenáica e Egito; e Antíoco todos os restantes Estados. Ao tomarem conhecimento os tutores de Tolomeu V das Intenções de Antíoco e Felipe coligados, incontinentemente “apelaram para Roma e confiaram ao Senado a tutela do rei infante. O Senado, que até então se havia mostrado afeto aos Tolomeus, tornou-se desde êste momento seu árbitro”.1 O primeiro ato dos guardiões do rei egípcio foi providenciar contra a ameaça de invasão dos reis confederados. Para isto Scopas, um famoso general de Etólia, então a serviço do Egito, foi enviado à frente dum exército contra Antíoco. Invadiu numa campanha de
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História Universal, C. Cantú, Vol. III, pág. 162.

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inverno a Palestina submetendo-a inteiramente e apoderando-se de várias cidades gregas. Antíoco, conhecedor do sucesso de Scopas, desistiu da guerra contra Atalo para enfrentá-lo. Em 198 deu-se a batalha decisiva e mortífera ao pé de Paneas, ao norte da Palestina. Scopas foi vencido e encerrou-se na cidade de Sidon. Inutilmente três dos mais capazes generais egípcios foram enviados para forçar Antíoco a levantar o cêrco de Sidon. Por fim Scopas fôra obrigado a render-se com a condição de dirigir-se ao Egito com seus 10.000 soldados em desesperadas condições. Antíoco submeteu a Celesíria, Fenícia, Samária, Judéia, e Gaza foi tomada depois de um longo, famoso e difícil cêrco, e com ela a sua província mediterrânea. Mas Antíoco, não continuou por muito tempo na posse de suas novas conquistas. O Senado romano, tutor de Tolomeu V, obrigou Antíoco a deter a guerra contra o Egito, devolver-lhe as recentes conquistas e estabelecer uma paz tão duradoura quanto possível com o Egito. Para assegurar esta paz bem como a devolução das aludidas conquistas, exigiram os romanos o casamento de sua filha Cleópatra com Tolomeu Epifanes, nupcias que se realizaram com grande pompa em Ráfia, no ano 193 a.C. E Antíoco deu à sua filha a Celesíria, Fenícia e Palestina recém-tomadas ao Egito. Porém, a despeito da paz com os egípcios e aparentemente com os romanos, a guerra entre êstes e Antíoco era inevitável. Depois do célebre casamento político de Ráfia, passou Antíoco a guerrear os territórios ao Oeste do Taus, as margens do Helesponto, as cidades gregas da costa asiática e os reinos independentes de Pérgamo, Betínia, Capadócia, Ponto e Armênia; atravessou o Helesponto e ocupou a cidade de Lisimáquia, ameaçou Lampsacus, Bisáncio e Heráclia. Todavia, apreensivos por sua independência, os príncipes e cidades que Antíoco ameaçara e guerreara, colocaram-se sob a proteção de Roma. O Senado, através de diversas embaixadas enviadas a Antíoco, exigiu que desistisse de suas hostilidades contra seus aliados e libertasse as cidades gregas e reinos conquistados na Ásia e na Europa. Antíoco III, arrogante, replicou a interferência romana com os seus negócios dizendo que êle não se perturbaria com os negócios da Itália e com o mundo ocidental. Assim êle proibiu aos romanos a intrometerem-se nos seus negócios na Ásia e Trácia, estigmatizando suas demandas como contrárias à justiça e à honra. Mais tarde, com negociações adicionais ou por embaixadas deteve o estalar da guerra, mas mesmo assim não pôde evitar o golpe fatal de Roma que caminhava firme para a supremacia no Oriente. 371

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As mensagens constantes e impositórias de Roma irritaram de tal modo a Antíoco, que declarou por fim guerra a Roma. Desembarcando com 10.500 homens na Grécia, apoderou-se imediatamente de Caleis na Ilha Eubea e parte da Tessália. Mas foi vencido nas Termópilas por Catão, o Velho, e por M. Acílio Glábrio, e depois duas vêzes no mar (em Koryko e em Myonneso). Em 190 foi Antíoco completamente desbaratado na batalha de Magnésia, na Lídia, perto de Smirna, por Scipião, o Asiático, perdendo 240.000 homens: 50.000 mortos e 190.000 prisioneiros. Esta terrível derrota acabou de uma vez com o poder da Síria e dos Seleucidas. No ano seguinte (189) impôs Roma uma paz esmagadora. Antíoco foi obrigado a ceder aos aliados de Roma todos os territórios da Ásia Menor, até o monte Tauro; a pagar 15.000 talentos de Rúbea; a entregar-lhe todos os elefantes e navios de guerra, à exceção de dez; a não empreender nenhuma guerra pelo lado do Oeste, nem fazer navegar os seus navios pelas costas ocidentais, e finalmente, a entregar na qualidade de réfens, 20 jovens das famílias mais nobres, entre eles o seu próprio filho. Ficou assim quebrantado para sempre o poder sírio. Em 186 foi Antíoco assassinado em Elimáida, no sul do Mar Cáspio, onde havia ido com a intenção de apoderar-se das avultadas riquezas do templo de Bel, para poder satisfazer o tributo requerido por Roma. Antíoco IV Epifanes, a despeito da proteção de Roma sôbre o Egito, aventurou-se, logo depois de subir ao trono em 174, a fazer guerra a Tolomeu, a quem fez prisioneiro e ía apoderar-se por completo do Egito, quando Roma, tutora do país, intervem e o obriga a abandonar o Egito e a tôdas as possessões arrebatadas aos Tolomeus. Êste incidente, que liquidou duma vez as pretenções de Antíoco IV, é relatado pelo historiador como segue: “Caio Pompílio Lena ordenou depois, no Egito, que Antíoco IV, Epifanes, da Síria, evacuasse o país desde o ístimo posto nas mãos de Antíoco. O rei sírio disse que ia refletir o caso; então Pompílio com seu bastão traçou na areia um circulo ao redor do seleucida, pronunciando estas palavras: “Antes de que saias dêste círculo hás de dar-me a contetação que pede o Senado: “Queres ser amigo ou inimigo dos romanos?” Confuso em extremo, ainda sem fazer resistência alguma, o sucessor do grande rei de Antióquia responde: “Farei o que o Senado pede”. Então o rústico diplomata romano estendeu pela primeira vez a mão a Antíoco e o saudou como amigo e 372

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aliado do povo romano”.1 Êste incidente foi mais uma evidência de terem os romanos liquidado com o reino dos Seleucidas, faltando somente o golpe de misericórdia e o atestado de óbito no tempo próprio como veremos mais adiante. Felipe V, amarrado pela “paz romana”, sobreviveu a Antíoco III. Morreu, porém, em 178 e foi sucedido no trôno por seu filho Perseu, que venceu os romanos numa batalha, em 171, em Galicinos. Esta terceira guerra teve como causa a morte do rei de Pérgamo quando viajava pela Grécia. Na segunda batalha, ao meio dia de 22 de julho de 168, próximo à fortaleza de Pidna, os romanos, sob o comando de Lúcio Emílio, fogem a princípio com grandes perdas, ante a pressão do exército de Perseu. Porém, uma feliz manobra de Lúcio Emílio mudou a sorte da luta. Fogem agora os macedônios com Perseu precipitadamente, perseguidos pelos romanos. Ficaram no campo 20.000 macedônios mortos e 11.000 prisioneiros, sendo saqueada a cidade de Pidna. Todos os oficiais de Perseu se entregaram aos romanos. Perseu, já até mesmo sem apoio pessoal no continente, refugiou-se na ilha de Samotrácia. Grécia e Macedônia sofreram tremendos massacres da parte dos vitoriosos romanos. Vencida a Macedônia, não a anexou Roma, imediatamente. Dividiu-a Roma imediatamente. Dividiu-a em quatro separadas Repúblicas. Vinte e dois anos depois foi então oficialmente anexada em definitivo à sua órbita ou convertido em província romana. A maioria das conquistas romanas, depois da Macedônia e Grécia, foram de natureza pacífica. Seus abados, que em Roma confiavam cegamente como sua desinteressada protetora, viram-se por ela inesperadamente tragados e reduzidos a províncias romanas com absoluta administração romana. Agora veremos os resultados diretos da intervenção de Roma na política extrangeira da Macedônia, Síria e Egito. As dinástias Antigonida, Seleucida e Lagida, respectivamente, foram liquidadas, faltando apenas o atestado de óbito que seria passado inapelàvelmente e sem delongas. Em 146, Macedônia e Grécia, o reino ocidental do dividido Império de Alexandre, foram convertidas em províncias romanas. O fato de em 205 Tolomeu V Epifanes suplicar ajuda de Roma e sob esta proteção permanecer contra a Síria, converteu o reino Lagida moralmente em província romana, embora só fôsse como tal anexado oficialmente em 30 a.C., por Otaviano, o vencedor de
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História Universal, G. Oncken, Vol. VI, pàg. 250.

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Antônio e Cleópatra. O reino sírio, sob os Seleucidas, pràticamente foi vencido e grandemente humilhado pela vitória romana de Magnésia, em seu próprio território, ainda que anexado como província romana só no ano 64 a.C. sob as firmes e inapeláveis conquistas de Pompeu. Assim a terceira guerra de Roma no Oeste, fora de suas fronteiras italianas, deu-lhe virtualmente o poderio mundial nos três continentes — Europa, Ásia, e África ou resultou na posse das três divisões restantes do que fôra o grande Império de Alexandre — Macedônia e Grécia, reino do Oeste; Síria, reino do Norte; e Egito, reino do sul. Embora os reinos do Norte e do Sul fossem anexados a Roma mais de um século depois, praticamente podiam ser considerados sob o círculo de sua órbita, já por lhe pagarem tributo, já por estarem sob o seu protetorado do qual não tinham recurso algum para escaparem. A data de 168 a.C., que deu a vitória a Roma em Pidna, é o marco inicial de seu domínio mundial. O GOLPE DE MISERICÓRDIA DE POMPEU A lei manilha confiou a Pompeu o encargo de terminar a guerra contra Mitridates, rei do Ponto na Ásia Menor, já reduzido à última extremidade por Lúculo. Mitridates reinou no Ponto de 120 a 64 a.C. Foi o príncipe que mais trabalho deu aos romanos, sendo necessário mais de um quarto de século de lutas para conquistar-lhe o reino. Começou a guerra contra Roma; ainda moço, fazendo logo executar 80.000 soldados romanos na Ásia. Mas o verdadeiro vencedor de Mitridates foi Pompeu. Mitridates, irremediavelmente perdido, tentou todavia negociar com Pompeu. Mas os romanos obrigaram o seu general, com o qual combatiam, a romper as negociações. Novamente derrotado nas margens do rio Eufrates e abandonado pelos seus, só às sombras da noite deveu Mitridates a sua salvação. Logo depois, porém, envenenou-se com as suas concubinas e duas filhas. Morreram as mulheres; mas, a êle, habituado aos contra-venenos, não fez a poção o desejado efeito, e teve de recorrer à espada de um soldado para terminar a aventurosa vida. Pompeu que o perseguia encontrou-o moribundo, mandando pensar-lhes as feridas, querendo; conservá-lo para o seu triunfo em Roma, mas um gaulês separou-lhe a cabeça do tronco. Pompeu ditou a lei a Tigranes, rei da Armênia. No Caucaso derrotou os iberos e os albaneses Em fins de 64 chegou à Síria, onde 374

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pôs termo imediato à anarquia reinante, começando por depôr a dinastia dos seleucidas afastando do trôno desta seu último soberano, Antíoco XIII. O reino sírio foi convertido em província romana. Todo o vasto território, que se estendia do Alto do Eufrates e do Golfo Issico até às fronteiras dos partos e ao ístimo de Suez, passou de direito para o poder dos romanos. Em Jerusalém, porém, dispendeu Pompeu três mêses de cêrco. Cêrca de 15.000 judeus pereceram, as muralhas da cidade foram arrazadas e o reino dos macabeus foi liquidado. E a Judéia foi convertida em província romana no ano 63 a.C. CÉSAR — O CONQUISTADOR DO OCIDENTE César foi o verdadeiro conquistador do Ocidente e das Gálias. Quando a primeira vez foi à Espanha, em qualidade de Questor, pranteou ante o busto de Alexandre Magno, no templo de Hércules em Cadiz, dizendo aos que o interrogavam sôbre a causa de sua aflição: “Credes que não são justas as minhas lágrimas, quando considero que Alexandre à minha idade havia submetido tantos povos, e que eu não tenho feito todavia nada memorável?” Buscando glória e fama mundanas, César foi violento e cruel na Espanha; dominou a Lusitânia e regressou à Itália com abundante ouro. Por nove anos governou nas Gálias e na Ilíria. Nas Gálias triunfou sôbre 800 populações e mais de 300 povos em cinco campanhas até o ano 54 a.C. Mais de três milhões de homens reconheceram a autoridade de Roma, e todo o país do Reno foi reduzido a província romana. Para chegar a tão grandes resultados como chegou, César realizou coisas prodigiosas. Aproveitou as dissenções de alguns povos; provocou a outros; compartilhou fadigas e perigos com seus soldados; marchou pelas Gálias sem temor à chuva, à frente de suas legiões; atravessou a nado rios; escreveu seus famosos comentários; achou tempo para ditar a quatro secretários de uma vez; franqueou com singular arrojo as montanhas do Jura e de Auvérnia, os bosque de encinas do centro da Gália e da Armórica, os terrenos pantanosos do Mosa e de Flandres, as planícies cenagosas e as selvas virgens do Sena; abriu muitas vêzes caminho com o machado na mão ou improvisando pontes, e, em suma, demonstrou que possuía o gênio dos grandes capitães, ao mesmo tempo que o valor de um modesto soldado bem disciplinado. Dirigindo-se a Roma para desforrar-se de Pompeu, chega às margens do Rubicão, pequeno rio da costa do Adriático e limite de seu 375

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govêrno. Deteve-se naquele ponto, dizendo a seus amigos: “Se não passo o Rubicão, tenho perdido tudo, e si o passo, em quantas desgraças envolverei Roma”. Guardou silêncio por alguns instantes, e, resoluto por fim lançou-se impetuosamente à água pronunciando sua célebre frase — Aba jacta est — a sorte está lançada. Foi o começo da guerra civil que perdeu Pompeu e o deixou como único senhor de Roma e do grande império. Não fôra César tão sòmente um imperador que se impos em três continentes — Europa, Asia e África — mas também um conquistador nestas três partes da terra conhecidas em seu tempo. A História credita a César a honra de ter sido o maior imperador de Roma e o seu maior conquistador que estendeu grandemente o império principalmente no Ocidente. Entretanto, posto que conseguisse Cesar enfeixar em suas mãos um poder político nunca jamais concedido pelo Senado a outro imperador antes ou depois dêle, um negro futuro o aguardava inexorável. Desvencilhado de Pompeu, não o estava de seus numerosos adversários que ávidos buscavam sua vida. O acúmulo de poder que logrou do Senado despertou a inveja mortal de seus inimigos que resultou em sua brusca queda política e em seu repentino desaparecimento da vida. Êste é o fim da glória que o mundo oferece aos que procuram àvidamente ostentar o efêmero poder que dura um só momento; uma glória sem estabilidade, sem reais benefício para a humanidade, conquistada pela intriga, pela espada, a custo de rios de sangue, e que joga por fim o seu dono no abismo dum eterno túmulo, levando-o à perda de tudo. Eis o engano da sedutora fama do poder! E quantos Cesares en tôda a História, mesmo no presente século, sucumbiram ingloriamente embriagados pelo poder inútil! Os demais imperadores romanos, em vasto número, pouco fizeram em estender as fronteiras de Roma, que afinal alcançaram: Da Grã-Bretanha ao Norte da África, do Mar Negro ao Egito e da Espanha à Armênia e ao rio Eufrates. “E DEVORARÁ TÔDA A TERRA, E A PISARÁ AOS PÉS, E A FARÁ EM PEDAÇOS” O profeta apresenta o quarto animal como terrível, espantoso, muito forte, com grandes dentes de ferro, com unhas de metal, devorando tudo, fazendo em pedaços e pisando o que sobejava. Êste assombroso animal estava destinado para figurar indivíduos 376

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desnaturados, cruéis, repelentes, diabólicos, monstros humanos, mas que seriam aclamados como semi-deuses, coroados e empossados no trôno do orbe para liderar uma civilização! Nada mais do que o sanguinário, desumano, ediondo e odioso caráter dos Césares está figurado na monstruosidade profética dêste simbólico quarto animal desconhecido na zoologia. Não há termos que descrevam com exatidão os massacres e as chacinas incontáveis de que foram autores os romanos, sôbre os povos que lhes opunham resistência e mesmo sôbre os já conquistados, quando rebelados. O mundo foi esmagado por êles, reduzido à mais tirânica escravatura política e social, convertido no mais lúgubre cárcere em que os presos — nações e indivíduos — jamais podiam escapar de suas inexoráveis garras de ferro. Seus assombrosos carcereiros — os imperadores — não tinham coração, não pareciam humanos, eram implacáveis, impiedosos, sumamente cruéis e desalmados. A fisionomia de seus soldados, é dito, parecia a de “desvairados” e “os olhos se assemelhavam a tochas de fogo”. Inspiravam terror e assombro. Da própria nação romana diz a inspiração. “Nação feroz de rosto, que não atentará para o resto do velho, nem se apiedará do moço”.1 O que César fez, principalmente nas Gálias, já seria o suficiente para cumprir a profecia da crueldade de Roma. Dois milhões de homens foram trucidados para coroar suas vitórias e enaltecer seus triunfos no Coliseu. Os imperadores romanos, em sua totalidade, com raríssimas exceções, eram mais feras do que humanos indivíduos. O mundo foi deveras esmagado por êles. Os massacres na Grécia e na Macedônia e em outras regiões sem conta, foram inomináveis e comprovaram a perversidade daqueles Césares e seus exércitos. Torrentes de sangue inundaram o Império. A igreja cristã, desde o monstro Nero ao cruel Deocleciano, — do ano 64 a 313 a.D. — foi perseguida, pisada, torturada, dizimada, chacinada. Milhões de seus membros, pagaram com a vida e o sangue a sua lealdade ao céu. Suas propriedades foram confiscadas e seus templos arrazados. No cárcere do Império dos Césares era fatal resistir e impossível evadir-se. Nenhum fugitivo podia atravessá-lo ou refugiar-se sem ser descoberto, prêso e levado aos vigilantes magistrados romanos. Dissera Cícero a Marcellus: “Onde quer que estejas, lembra-te que estás igualmente ao alcance do poder do vencedor”. A população total

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do Império era pràticamente escrava do despotismo dos seus algozes mandatários. Os grandes dentes de ferro e as unhas de metal do horrível animal que serviu de símbolo profético de Roma, já contam a sua história independente de sua própria história. A terra foi, em verdade, pisada sob o férreo tacão dos romanos e reduzida a pedaços. Cártago, no norte da África, foi arrazada (ver pág. 133); Corínto na Achaia, teve a mesma sorte, assim como Numântia, na Espanha e Jerusalém na Judéia. Desta última destruída no ano 70, diz a profecia: “Sião será lavrada como um campo, e Jerusalém se tornará em montões de pedra’’.1 Eusébio afirma “que ela foi arada pelos romanos, e que, êle a viu em ruínas”.2 Mas Roma devoraria também a terra, enfatiza a profecia. Depois de seu exercrável jugo de ferro sôbre suas infelizes vítimas, as nações, ainda lhes roubariam os seus haveres. Riquezas enormes afluiam a Roma de todos os povos do Império — absoluto furto de seus mizerandos dominadores. Fortunas incalculáveis eram saqueadas através de injustos tributos e indignas expoliações por confiscos. Os imperadores, para se colocarem em bôa forma com o povo, distraiam os habitantes da capital do mundo — com pão e circo, com espetáculos e festas, com “triunfos e banquetes” — tudo à custa do empobrecimeno dos povos subjugados, tiranizados e vilmente roubados no Oriente e no Ocidente. Falando Moisés do futuro jugo romano sôbre o apóstata Israel, declarou: “O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que vôa como a águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não atenderá para o rosto do velho, nem se apiedará do moço; e comerá o fruto dos teus animais, e o fruto da terra, até que sejas destruído; e não te deixará grão, mosto, nem azeite, creação das tuas vacas, nem rebanhos das tuas ovelhas, até que te tenha consumido: e te angustiará em tôdas as tuas portas, até que venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas em tôda a tua terra; e te angustiará até em tôdas as tuas portas, em tôda a tua terra que te tem dado o Senhor teu Deus: e comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas, que te der o Senhor teu Deus, no cêrco e no apêrto com que os teus inimigos te apertarão”.3 Aí está uma bem clara amostra do saque de Roma sôbre as nações. Do
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Miquéias 3:12. Source Book for Bible Students, ed. 1927, pág. 276. 3 Deuteronômio 28:50-53.

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fruto agrário e da pecuária e de outras provisões vitais, se apossariam os desumanos opressores. Em verdade tudo o que alcançou o povo romano, na qualidade de dominador do mundo, foi pela violência e pelo furto das indefezas nações por êle oprimidas. Roma acarretou a miséria e o infortúnio da raça humana. Quando César conquistou o norte da África, disse ao povo romano ao regressar a Roma, que havia “conquistado um país, a África, tão rico e tão vasto, que podia subministrar a Roma trigo em abundância e outros produtos de primeira necessidade”.1 Mas êste trigo e outros produtos seriam compulsòriamente arrebatados ao suor dos oprimidos. Mitridates, rei do Ponto, escreveu certa feita uma carta a Arsaces, rei dos Partos, a respeito dos romanos, em que dizia em certo lugar: “Seria para vossa imortal glória ter socorrido dois reis, e ter derrotado e destruído aqueles ladrões do mundo. Isto é o que eu aconselho e exorto ardentemente a que façais. Que possais escolher antes compartilhar conosco numa salutar aliança em vencer o inimigo comum, do que permitir ao Império Romano estender-se universalmente para nossa ruína”.2 Veja-se a exposição do versículo vinte do capítulo onze, sôbre o sistema de impostos mundiais de Roma, e ter-se-á uma idéia da expoliação tributária e do latrocínio dêsse poder à custa do enfraquecimento econômico dos povos sob seu suplício. Como enfatiza a profecia, Roma devorou realmente a terra, pizou-a e a fêz em pedaços. Terrível jugo de impiedosos brutos senhores do mundo. A HIPOCRISIA DA PROTEÇÃO DO SENADO Grande parte do domínio mundial de Roma foi adquirido sem batalha. Valendo-se da opressão de muitos fracos povos por seus inimigos oferecia-se o Senado romano para os proteger como aliado fiél. O Egito, a Grécia, cidades e reinos da Ásia Menor e outros muitos povos, se colocaram sob o manto de sua proteção amàvelmente oferecida, ignorando o que viria depois — a completa perda da independência nacional. Traía Roma vergonhosamente a seus aliados arranjados hipocritamente e os reduzia a escravos depois de ter bem firme o seu pé em seus países. Sob a sombra de clemência e amizade
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Dicionário y Enciclopédia Hispano-Americano, art. Cesar. Source Book for Bible Students, ed. 1927, pág. 465.

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falsas, que passavam por verdadeiras, conseguiam acrescentar constantemente novas províncias ao império. Uma frisante evidência da farça da proteção de Roma de sua hipocrisia em oferecer-se como aliada dos povos fracos, temos no seu engano em relação aos judeus, a procurarem-na êstes como guardiã contra as opressões da Síria. A despeito de seu amparo sôbre a Judéia, anexou-a como província no ano 63 a.C., e, no ano 70 a.D., massacrou um milhão de judeus, levou cem mil como escravos e destruiu a cidade de Jerusalém arrazando-a. No primeiro livro dos Macabeus, capítulos oito, versículo um a trinta e dois a versículos quinze a vinte e quatro, podemos apreciar a lábia da aliança do Senado romano com os judeus enganados por seus engodos aparentemente simpáticos. Queremos dizer tudo, resumidamente, do Império Romano? Então digamos acertadamente que êle é o dragão mencionado no livro do Apocalipse capítulo doze. “Conquanto o dragão representa primeiramente Satanás, é, em um sentido secundário, símbolo de Roma pagã”.1 Em outras palavras, o dragão vermelho do Apocalipse nada mais é do que Satanás, com a toga romana. Em outros termos bem evidentes, o Império Romano era o Império de Satanás disfarsado em Império dos Césares. Quando êle tentou a Cristo lá no monte, declarou ser o senhor do mundo, e isto evidentemente através de Roma que constituía o Império do mundo.2 Portanto, todos os horrores, os saques, os morticínios e tôdas as vilezas que os Césares romanos cometeram na terra, o cometerá simples e puramente por inspiração de Satanás. Por meio dêle Satanás governou o mundo sob um jugo de ferro. Meus amigos, cuidemos com Roma! A DÉCUPLA DIVISÃO DE ROMA Os dez chifres do quarto animal têm absoluta afinidade com os dez dedos da estátua do capítulo dois. Representam uma e a mesma coisa — a divisão do Império Romano Ocidental em dez reinos, como é evidentemente enfatizado no versículo vinte e quatro do capitulo sete. E, esta décupla divisão devemos apreciá-la na exposição dos versículos quarenta e um e quarenta e dois do segundo capítulo sob o titulo: O Fulminante Golpe “Teutônico”, pág. 134.

1 2

O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 438. S. Lucas 4:5-7.

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UM TREMENDO RESUMO Até êste ponto apreciamos o Império Romano desde a fundação da cidade que lhe deu o nome. Êste Império que, podemos dizer, começou já com a fundação de sua capital em 753 a.C., tem uma história de opressão e de sangue. O crescimento do Império Romano desde Rômulo, seu primeiro rei, foi fenomenal e rápido. Depois de firmar-se bem na Itália, suas vistas foram voltadas para o Mediterrâneo, e não descançou enquanto não pôs Cártago e o poder marítimo dos cartagineses fora de ação. Depois disso, o Oriente e o Ocidente caíram como fáceis prêsas em suas mãos. As profecias que tratam do Império Romano o apresentam como um Império tirânico, o mais cruel de todos os impérios que a história do mundo registou. Babilônia foi a princípio sem paralelo em suas terríveis opressões; a Medo-Pérsia sobrepujou Babilônia em opressão e desumanidade; O Império Romano, porém, não teve rival em oprimir; massacrar e devorar a terra. Entretanto o Império Romano ainda domina. E, o que daqui para frente consideraremos ligado a esta profecia é a comprovação desta terrível realidade que alcança o século XX. UM ESTRANHO “CHIFRE PEQUENO” VERSO 8: – “Estando eu a observar os chifres, eis que entre êles subiu outro pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres, foram arrancados; e eis que nêste chifre havia olhos, como os de homens, e uma boca que falava com insolência”. A SUA IDENTIFICAÇÃO PROFÉTICA A profecia do “chifre pequeno”, é uma patologia perfeita do poder a que alude. Identifica-o com absoluta precisão. Damos a seguir os pontos de referência de sua indiscutível identidade, primeiramente em sua própria profecia no capítulo que consideramos, e a seguir na profecia da Besta semelhante a um leopardo do capítulo trêse do Apocalipse, e então na profecia da Besta côr de escarlata e da mulher vestida de púrpura que a cavalga, do capítulo dezessete do livro do Apocalipse. Feito isto, resumiremos os pontos de mais acentuada identificação entre o “chifre pequeno” e as duas Bestas e a mulher referidas, para termos a prova insofismável e irretorquível do poder, 381

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que, ainda em pleno século XX, representa o “chifre pequeno”, desta profecia de Daniel. I. A identidade do “chifre pequeno”, na profecia do capítulo sete do livro de Daniel, ligada ao quarto animal, ou ao Império Romano do Ocidente: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. Subiu da cabeça do quarto animal romano. — Vs. 8. Surgiu entre os dez chifres europeus — Vs. 8. Era diferente dos dez chifres europeus — Vs. 24. Era mais firme do que os dez chifres ou nações européias — Vs. 20. Três dos dez chifres foram arrancados por êle — Vs. 8. Tinha olhos como olhos de homem — Vs. 8. Tinha uma bôca. — Vs. 8. Falava insolentemente — Vs. 8. Proferia palavras contra o Altíssimo — Vs. 21. Fazia guerra aos santos do Altíssimo — Vs. 21. Destruia os santos do Altíssimo — Vs. 25. Cuidaria em mudar os tempos. — Vs. 25. Cuidaria em mudar a lei de Deus. — Vs. 25. Dominaria por 3 1/2 tempos proféticos. — 25. Será destruído para sempre. — Vs. 26.

II. A identidade do “chifre pequeno”, na profecia do capítulo treze do livro de Apocalipse alusiva à Besta semelhante a um leopardo com bôca de leão e pés de urso. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 382 Emergiu do mar. — Vs. 1. Tinha sete cabeças. — Vs. 1. Tinha dez chifres. — Vs. 1. Era semelhante ao leopardo. — Vs. 2. Tinha pés de urso e bôca de leão. — Vs. 2. O dragão deu-lhe o seu trôno, poder e domínio — Vs, 2. Uma de suas cabeças foi ferida de morte. — Vs. 3, A sua chaga mortal foi curada. — Vs. 3. Tôda a terra se maravilhou após a Besta. — Vs. 3. Adoraram o dragão que lhe deu o poder. — Vs. 4. E disseram: “Quem é semelhante à Besta?”. — Vs. 4. Quem poderá batalhar contra ela? — Vs. 4. Foi-lhe dada uma bôca. — Vs. 5. Proferia arrogâncias e blasfêmias. — Vs. 5. Recebeu poder por 42 mêses proféticos., — Vs. 5. Abriu a bôca em blasfêmias. — Vs. 6.

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17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25.

Blasfema contra Deus. — Vs. 6. Difama o nome de Deus. — Vs. 6. Difama o tabernáculo de Deus. — Vs. 6. Difama os que habitam no céu. — Vs. 6. Fez guerra aos santos. — Vs. 7. Recebeu poder sôbre as nações. — Vs. 7. Adoraram-na os que não têem o nome escrito, no livro da Vida do Cordeiro. — Vs. 8. Foi levada em cativeiro. — Vs. 10. Foi morta à espada. — Vs. 10.

III. A identidade do “chifre pequeno” na profecia do capítulo dezessete do livro do Apocalipse, alusiva à Besta Côr Escarlata e à Mulher vestida de púrpura que a cavalga: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. Uma meretriz assentada sobre muitas águas. — Vs. 1,15. Prostituiu se com os reis da terra. — Vs. 2. Embebedou a terra com o vinho da sua devassidão. – Vs. 2. Uma mulher montada numa besta. — Vs. 3. Uma besta côr de escarlata. — Vs. 3. Cheia de nomes de blasfêmias. — Vs. 3. Tinha sete cabeças. — Vs. 3. Tinha dez chifres. — Vs. 3. A mulher vestia-se de púrpura, escarlata, adornada de ouro, e de pérolas — Vs. 4. A mulher tinha na mão um cálice de ouro transbordante das abominações e imundície da sua prostituição. — Vs. 4. Na sua testa estava escrito: “Babilônia, a Grande, a Mãe das Meretrizes e das abominações da terra. — Vs. 5. A mulher estava embriagada com o sangue dos santos. — Vs. 6. A Besta é a sétima cabeça, será também o oitavo rei, embora seja a sétima cabeça. — Vs. 11. A Besta irá à perdição. — Vs. 11. Os 10 chifres ou reinos reinariam com a Besta. — Vs. 12. Os 10 chifres entregariam o seu poder e autoridade à Besta. — Vs. 13. Os 10 chifres ou reinos com a Besta combateriam o Cordeiro e os Santos. — Vs. 14. A mulher assentada sôbre nações, povos e multidões. — Vs. 15. 383

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19. 20.

Os 10 chifres, por fim, aborreceriam a mulher. — Vs. 16. A mulher é a cidade (Roma) que reina sôbre os reis da terra. — Vs. 7-10-18.

RESUMO DE IDENTIFICAÇÃO DO “CHIFRE PEQUENO”
Fatos Proféticos Dan. 7 Apoc. 13 Apoc. 17

1. Um poder romano............... 2. Entre os 10 chifres.............. 3. Tinha uma boca.................. 4. Falava insolências ou blasfêmias........................... 5. Falava contra o Altíssimo... 6. Fazia guerra aos santos....... 7. O tempo de seu domínio..... 8. Será destruído..................... 9. Roma pagã-papal................

Vs. 8 Vs. 8 Vs. 8 Vs. 8 Vs. 25 Vs. 25 Vs. 25 Vs. 26 Vs. 7-8

Vs. 1 Vs. 1 Vs. 5 Vs. 5 Vs. 6 Vs. 7 Vs. 5 Vs. 10 Vs. 1-4

Vs. 3 Vs. 3

Vs. 3 Vs. 6 Vs. 12 Vs. 8 Vs. 3, 18

Vemos que o “chifre pequeno” se identifica em nove pontos com a Besta do capítulo treze do Apocalipse e em sete com a besta e a mulher do capítulo dezessete do Apocalipse. Trata-se portanto, do mesmo poder, aliás, — o “chifre pequeno”, a Besta “semelhante ao leopardo” e a Besta “côr de escarlata” e a mulher que a cavalga, são um e o mesmo poder. Identifica-se ainda indiretamente, em outros pontos, com as duas Bestas do Apocalipse citadas. Só se engana quem o quer. No mundo sempre existiram dois sistemas de govêrno — o civil e o eclesiástico, o Estado e a Igreja. Os 10 chifres do quarto animal são apontados na própria profecia como 10 reinos que resultariam da divisão de Roma-pagã Ocidental e formariam a Europa Moderna. O “chifre pequeno” é referido como “diferente” dos 10 chifres ou reinos. Portanto, só poderia designar um poder eclesiástico. Na profecia êste “chifre pequeno” subiu entre os 10 outros chifres, e, portanto, aponta indubitàvelmente um poder eclesiástico que teve sua origem no continente europeu em meio às suas modernas nacionalidades. Outra indestrutível verdade é que o “chifre pequeno” subiu da cabeça do quarto animal — o Império 384

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Romano, sendo por isso, afirmativamente, um poder eclesiástico romano, nascido em Roma, a séde do Império Romano e jamais na Judéia ou em Jerusalém. E, agora, estamos prontos para afirmar que, um simples exame das atuações das duas Bestas do Apocalipse referidas, como dadas em suas próprias profecias, e confirmadas pelos fatos históricos, identificam-nas indiscutivelmente com o poder Papal. Logo, o “chifre pequeno”, que se identifica plenamente com ambas as duas Bestas Apocalipticas, é, incontestàvelmente — Roma Papal. A clareza das referidas profecias sôbre êste poder e as evidências dos testemunhos históricos que as cumpriram à risca, — liquidam toda a oposição em contrário. Assim, pois, nenhum mistério envolve o “chifre pequeno”. Tudo quanto aqui dissermos ainda a seu respeito, mais e mais o identificará com o Papado Romano e com a Igreja Romana, que são uma e a mesma coisa: Aquele a realidade do poder e esta — o seu instrumento de propaganda e a sua fôrça e vida. Para dizermos a verdade, à velha Roma-pagã seguiu a nova Roma-Papal. Aliás, a mesma Roma, o mesmo Império Romano metamorfoseado. Mudou o nome de pagão para cristão. Aquela fase dominava seus súditos pelo físico, esta os domina pelas consciências. O Império Romano subsiste mais poderoso na fase Papal do que na fase pagã. No livro — O Vaticano Potência Mundial, lemos: “Uma coisa é certa; que a antiga Roma subsiste na Roma cristã”.1 Em confirmação, seu nome é ainda romano; seu trôno ainda está em Roma; seu idioma, o latim, é romano; suas pretenções; do domínio do mundo são romanas, seu absoluto soberano pretende deificação como pretendiam os Césares romanos. Porém, os Césares de ontém eram eleitos pelo povo romano enquanto os Césares de hoje o são por uma escassa minoria — os cardeais. Sim, disse Bonifácio VIII — “eu sou César”. Todavia têem hoje mais poder do que outróra, e o Império Romano desta última geração alcança uma área mais vasta do que o antigo, pois seus súditos se estendem sôbre os cinco continentes da terra. As nações em grande número, os poderosos da terra, tôdas as classes sociais de mais de metade da população do mundo, ouvem e se curvam em pleno século XX sob as leis da moderna Roma e a autoridade de seus Césares modernos.

1

O Vaticano Potência Mundial, J. Bernhari, pág. 195.

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ESTORVOS NO CAMINHO DO PAPADO Dos dez reinos que dividiram Roma Ocidental faltam três — os reinos dos Vândalos, dos Hérulos e dos Ostrogodos... A profecia de Daniel declara que êles sucubiram diante do “chifre pequeno” Papal. E, posto que a profecia não dê as razões da queda dos três ante o novo poder romano, a História que a cumpriu nô-las dá com exatidão e vêlas-emos a seguir. Antes de tudo, dizemos que os três aludidos reinos eram arianos, e, portanto, contrários aos dogmas e pretenções do Papado de supremacia temporal. (Vêr apêndice nota 9). E, mais, ainda, apunhamse mesmo pelas armas, ao crescimento Papal e às aspirações pessoais de seus pontífices. Constituíam assim um perigoso estorvo no caminho do Papado ali no alvorecer da Idade Média e urgia que êste os liquidasse se pretendesse manter as suas aspirações de domínio temporal no Ocidente. Todavia, contava a nova Roma ainda com quasi nenhum apoio no Ocidente até o final do quinto século entre os povos invasores e os novos Estados em formação. Era, pois, indispensável que suplicasse o auxílio de Constantinopla ou dos Imperadores do Oriente — Zenon e Justiniano. A seguir veremos as concretas razões porque o Papado apressou-se em remover os três reinos estorvos de seu caminho. Com o extermínio dos três grandes opositores, os outros Estados que se acantonaram no Ocidente na formação da Nova Europa, puzeram suas barbas de molho, se humilharam ante o Papado em ascenção e a êle tudo entregaram — o Estado, o poder, os súditos e as próprias consciências. Eis a maior tragédia da História — Estados civis livres, tornam-se voluntàriamente servos dum poder eclesiástico ambicioso! O REINO HÉRULO — O PRIMEIRO A CAIR Os Hérulos, com seu rei Odoacro, estavam com suas espadas, depois da formação de seu reino na Itália, a um passo da Sé Romana. Porém, o que apressou a queda de Odoacro e seu reino, fôra a sua direta imiscuição nos negócios do Papado. “Na história do Papado Odoacro figura como o autor de um decreto promulgado na eleição de Felix II, em 485, proibindo o papa que infligisse êste édito com anátema. Êste decreto, deveras estranho para proceder de um soberano ariano, fôra provàvelmente sugerido 386

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por alguns conselheiros romanos do rei, e parece ter sido aceito no tempo sem protesto. Foi, entretanto, fortemente condenado em um sínodo tido pelo papa Simaco (502) como uma inexcusável interferência do poder civil contra os interêsses da Igreja”.1 “Quando em conseqüência da morte de Simplício, em 483, se impôs a eleição de um nôvo papa (Felix II), apresentou-se, Basílio, um dos altos funcionários de Odoacro, na reunião eleitoral, em nome dêste, para forçar a eleição e, ainda que leigo se atreveu a ameaçar os príncipes espirituais com anátema”.2 Portanto, por suas imiscuições nas questões eclesiásticas de um poder fadado a ascender absoluto sôbre tudo e não cochilou nesta questão. Com o imperador católico do Papado. O indesejável tropêço devia ser incontinentemente afastado da rota ascensional do Papado. E o papa Félix II não cochilou nesta questão. Com o imperador católico do Oriente, Zenon, concertou o extermínio, sem perda de tempo tempo de Odoacro e seu reino. Em 488 envia Zenon à Itália a Teodorico e seus ostrogodos, que estavam às suas ordens no Oriente, com o propósito decidido de atender à solicitação de Félix II e dar fim ao reino de Odoacro. Conquanto tenha Odoacro enfrentado com valor ao adversário, a principio, rendera-se em 27 de fevereiro de 493, tendo sido morto no mês seguinte num banquete que para tal fim lhe preparara Teodorico, a despeito dêste lhe ter antes concedido a vida, a liberdade e honras reais. Com esta refrega, finda em 495 e para sempre o efêmero reinado dos Hérulos, sob Odoacro, na Itália. Estava assim desarraigado o primeiro sério e imprudente obstáculo à supremacia temporal do papado no Velho Continente e no mundo. O REINO VÂNDALO — O SEGUNDO A CAIR O reino Vândalo do norte da África fôra o segundo alvo ariano do Papado. Genserico, seu poderoso rei, votou extirpar o poder romano a ferro e fogo. Os terríveis vândalos constituíam grave ameaça à expansão papal na Europa, Ásia e África. Suas destruidoras incursões a miúdo à costa européia não eram bem, olhadas pelo pontífice do Vaticano. Os católicos estavam de contínuo expostos às suas

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Anglo-American Enciclopedia, art. Odoacro. História Universal, Ranke, Vol. IV, pág. 375.

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violências. O saque de Roma em 455 por aquelas ordas comandadas por Genserico alarmou grandemente o mundo católico e pôs em cheque o crescente poder do Papado, nada valendo a intervenção do papa Leão I junto do rei ariano para que poupasse a milenária cidade da terrível pilhagem que afinal sofrerá durante quatorze dias. Doutro lado “Genserico quis extirpar o catolicismo, aplicando-lhe as leis promulgadas por outros príncipes contra os hereges, e só se abrandou a pedido de Zenon”. 1 Justiniano, o imperador do Oriente que elevou o papa à categoria de “cabeça das Igrejas”, em substituição a Cristo2, determinou a pôr um fim aos reinos arianos. “Perseguindo no interior o arianismo, queria ser no exterior o salvador dos católicos, libertando-os primeiro da escravidão dos vândalos”.3 Belizário fôra o grande general bisantino destacado por Justiniano para a emprêsa contra os vândalos da África. Em apenas três mêses e em somente duas batalhas principais, desapareceu o reino fundado por Genserico. Num triunfo solene, traz Belizário, aos pés do imperador, o último rei vândalo. Numa operação de limpeza exterminara Belizário os bandos de vândalos das ilhas de Córsega, Sardenha, Cecília e outras. Estava assim liquidado o segundo sério empecilho da carreira vitoriosa temporal do Papado. O REINO OSTROGODO — O TERCEIRO A CAIR A espada papal cai por fim sôbre o terceiro e último chifre intruso — o reino dos Ostrogodos na Itália. As desavenças entre êste reino e a Sé papal, fermentaram já desde os tempos do papa Simaco (498-514), que subira ao trono pontifício pela vontade de Teodorico, rei dos Ostrogodos, a êle favorável, visto haver outro concorrente, Lourenço, e a disputa ter sido submetida à sua decisão. Mas, a ruína dos Ostrogodos já pareceu assentada quando Simaco se dirigira a Teodorico em carta, como vemos abaixo: “Comparemos a dignidade de um bispo com a de um imperador; existe entre êles a mesma diferença que existe entre as riquezas da terra; das quais somos os dispenseiros. Vós recebeis, o batismo; êle administra-vos os sacramentos; vós pedis orações, esperais a sua
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História Universal, C. Cantú, Vol. VI, pág. 432. Celossenses 1:18. 3 História Universal, G. Oncken, Vol. VI, pág. 162.

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bênção e dirigis-vos a êle para vos submeter à penitência. Finalmente os príncipes governam os negócios dos homens, e nós dispomos dos bens do céu. Bem vêdes, senhor, que a nossa dignidade é superior a tôdas as grandezas da terra”. E Simaco termina a sua carta com as seguintes ameaças contra o imperador: “Se vós conseguirdes provar as bases da acusação feita contra mim, podeis obter a minha deposição da santa sede; mas não receiais vós igualmente perder a vossa corôa, se vos não for possível convencer-me delas? Lembrai-vos de que sois homem e que esta causa será discutida no julgamento de Deus. É verdade que um sacerdote deve respeito aos podêres da terra, mas não àqueles que exigem coisas contrárias às leis da igreja. Respeitai Deus em nós, e nós O respeitaremos em vós; se não sentis veneração pela nossa pessoa, como podereis firmar o vosso domínio sôbre povos e usar de privilégios de uma religião cujas leis desprezais? Acusais-me de ter conspirado com o Senado para vos excomungar! Não segui eu nisso o exemplo de meus predecessores? Não é a vós, senhor, que nós anatematizamos, é Acácio; separai-vos dêle, e separar-vos-eis também da sua excomunhão; de outro modo não seremos nós que vos teremos condenado, mas sim vós mesmos”.1 Simaco queixa-se a seguir da perseguição que o imperador fazia sofrer os católicos, proibindo-lhes o livre exercício da religião, e tolerando tôdas as heresias. Seja por esta carta ou por outro motivo qualquer, temos na História o registro da morte dêste papa ordenada por Teodorico, rei dos ostrogodos. De um historiador, pelo menos, preservou-se o seguinte passo: “A morte de Teodorico, que é dito ter sido apressada pelo remorso da execução de Simaco, ocorreu a 30 de maio de 526”. E mais êste trecho da mesma fonte: “Acima de tudo, êle (Teodorico) manchara a sua fama pela execução de Boécio e Simaco”.2 Quando, mais tarde, Justiniano, imperador do Oriente, determinou a extirpação dos reinos arianos e da doutrina de Ario, “Teodorico enviou ao imperador uma embaixada para induzir a desistir da sua perseguição contra os arianos; e, para que esta tivesse mais probabilidade de êxito, encarregou desta comissão, apesar da sua resistência, o próprio papa João I. Esta embaixada não teve o resultado que Teodorico esperava, apesar de algumas concessões verbais e secundárias; mas em troca grande foi a ovação que recebeu o papa à
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Os crimes dos Papas, Vol. I, pág. 123. Anglo-American Enciclopedia, art. Teodorico.

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sua chegada a Constantinopla. Tôda a população em massa, precedida do clero, saiu a recebê-lo; o imperador curvou-se fazendo-se coroar outra vez por êle. Quando regressou encontrou Roma em agitação; o rei recebeu-o com desconfiança e cheio de ira”. “O rei, fora de si, envolveu na causa a Beócio, que foi prêso, do mesmo modo que o papa (João I) que acabava de chegar e que pouco tempo depois, em 18 de maio de 526, falecia na prisão”. “Em meio desta situação tensíssima dos partidos opostos nacionais e religiosos, precursora do completo desencadeamento de todos os rancores e paixões, faleceu de repente Teodorico”.1 E o desfecho dessa cruenta crise entre ostrogodos e o Papado, verificou-se entre o rei Vitiges, o terceiro sucessor de Teodorico, e o exército de Belisário enviado por Justiniano. Após aniqüilar os vândalos no norte da África, passa Belisário à Itália para dar combate aos ostrogodos arianos. Depois de fazer capitular Nápoles, Belisário e seu exército foram entusiàsticamente recebidos em Roma. Vitiges acode com 150.000 homens e estabelece o cêrco da cidade. Neste histórico assédio de Roma empreenderam os sitiantes sessenta e nove ações entre assaltos e sortidas, e outros combates. Mas cada tentativa fôra desbaratada pela intrépida vigilância de Belisário e sua tropa de veteranos. Destituídos de esperança e subsistência, os ostrogodos, outrora um exército tão forte e poderoso, clamorosamente apressaram-se a levantar o cêrco e retiraram-se de Roma, queimando suas tendas. Tumultuosamente repassaram o Milvian, perseguidos pelo general romano que lhes infligiu uma severa e vergonhosa derrota. Um ano e nove dias havia durado o cêrco de Roma, suspenso por Vitiges em março do ano 438 a.C..2 Depois de nova refrega em Nocera (552) a cargo de Narcés, sucessor de Belisário, vibraram os ostrogodos sua última batalha, na qualidade de um reino, em 553, a.C., tendo sido morto seu último rei, Teias, desaparecendo então para sempre o poderoso reino fundado por Teodorico. IMPORTANTE RESUMO Vimos porque o papado desarraigou os três reinos tratados acima. O primeiro dêles, o reino Hérulo, teve em Odoacro, a imprudência de se imiscuir nos negócios puramente da alçada do Papado, ameaçando
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História Universal, G. Oncken, Vol. VI, págs. 230, 231, 232. Deline and Fall of Roman Empire, Vol. II, pág. 541.

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de represálias a êste no caso de não serem suas ordens acatadas. O resultado que se esperava foi o seu extermínio completo para sempre. O reino dos Vândalos, com sua sêde de extermínio do Papado, cavou a sua ruína fatal e o seu extermínio completo. E, o reino Ostrogodo, que teve a infeliz visão de Teodorico em matar dois papas — Simaco e João I — forçando êste último a ser um simples mensageiro de sua política ariana a Constantinopla, aprisionando-o ao seu regresso, em cujo cárcere morrera, não podia esperar melhor sorte do que a dos Hérulos e Vândalos — o aniqüilamento. Estava, pois, livre o caminho do Papado para a sua ascenção. Nenhum outro inimigo ousou fazer-lhe frente com determinação. O ano 538, o do levantamento do cêrco de Roma pelos ostrogodos de Vitiges, contituiu o marco inicial da supremacia temporal do Papado, da qual voltaremos a tratar no versículo vinte e cinco dêste sétimo capítulo do livro de Daniel. UM CHIFRE COM OLHOS DE HOMEM É notável que a inspiração informe que no “CHIFRE PEQUENO” “havia olhos, como os de homem” e não olhos divinos; “homem” no singular e não no plural. Em primeiro lugar vemos aqui que o absolutismo do Papado, na pessoa do papa, não é uma democracia nem mesmo nos 44 hectares de seu Estado. Numa democracia, o povo comparece às urnas para eleger livremente o seu soberano, que se torna então govêrno “do povo, pelo povo e para o povo”. Mas não se dá isto quando da escolha e eleição do potentado do Vaticano. O papa não é eleito por seus súditos do mundo e nem mesmo pelos de seu próprio Estado — o Vaticano. Nenhum católico do mundo, exceto os cardeais, elege o seu pontífice. Além disso, o Papado concede ao seu pontífice prioridade nas decisões, não admitindo que êle seja contraditado. O que diz e o que determina, é inexoràvelmente executado. Dai não serem seus súditos mundiais, e mesmo o seu clero, mais que autômatos em suas mãos. Êle domina suas consciências a seu belo prazer. Em matéria de fé não têm os católicos o direito de pensar. O papa é quem pensa por êles. Não necessitam de fé para aceitar e cumprir seus dogmas, pois dogmas meramente de homens não carecem de fé para serem aceitos. Todo o poder, pois, do Papado, concentra-se num exclusivo homem — o papa. Sim, no “CHIFRE PEQUENO” “havia olhos, como os do homem” e não como os de “homens” e muito menos olhos divinos. 391

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Em segundo lugar, vemos nos “olhos, como os de homem” do “CHIFRE PEQUENO”, a vigilância mundial do Papado. “Não há poder temporal que tenha um serviço de informações, um serviço secreto comparável ao do Vaticano. Seus milhares de milhares de clérigos estão perfeitamente postados em todo o orbe para verem o que faz, o que diz e o que pensa o mundo”. “Os monsignori do secretariado de Estado do Vaticano são esmeradamente exercitados na arte de interpretar êsses relatórios confidenciais que chegam de todos os cantos do mundo. Há quem diga que o Vaticano terá influenciado na decisão que tomou Roosevelt em dezembro de 1939, de enviar Myron Taylor ao Vaticano como seu representante pessoal”.1 Em terceiro lugar, vemos na figura de “olhos, como os de homem” do “CHIFRE PEQUENO” os recursos, os meios humanos de que lança mão o Papado para manter-se poderoso sôbre as nações, não sendo, em face disso, um poder propriamente eclesiástico, mas, a exemplo da velha Roma Imperial de que é o legítimo sucessor ou continuador sob nova fase, — vemos no Papado um poder essencialmente político sob a toga eclesiástica romana. Assim era a velha Roma dos Césares — imperadores e assim devia ser e é a nova Roma dos Césares-papas. A evidência está nas páginas dos séculos; contraditá-la, só mesmo riscando, os fatos inexoráveis da História. E quem poderá fazê-lo? UM CHIFRE COM BOCA DE HOMEM Se os olhos são de “homem”, a boca também o é. Daí estarmos tratando com um poder exclusivamente humano, não obstante suas pretensões de existência sobrenatural. E, como age um poder puramente humano mas com pretensão de divindade? Age indubitàvelmente como reza a inspirada profecia insolentemente. A própria Bíblia católica, aprovada por êste poder e referindo-se à sua profecia indiscutível, diz que o “CHIFRE PEQUENO” tinha “uma boca que falava com insolência”. Esta é a história das nações e esta é a história do Papado. Aí está a prova profética inspirada de suas palavras insolentes, orgulhosas, petulantes, desrespeitosas, altivas — para impôr-se no orbe como supremo. Suas palavras são insolentes principalmente contra o Deus do céu — como veremos no versículo onze e vinte e cinco para poder ostentar-se e impôr-se como deus na

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Revista “O Cruzeiro”, 13 de Maio de 1950, pág. 68.

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terra. Cuidem-se os homens com o que procede da boca dum poder que insolentemente exalta-se a si mesmo pretendendo equiparar-se ao Deus Onipotente. Cuidem êles com os ensinos oriundos de uma boca que profere orgulhosas palavras, insolências até contra o Céu sem revelar sequer vestígios de humildade. Desgraçadamente não exerceram e não exercem os homens e os poderosos das nações êste vital cuidado, e foram envolvidos sorrateiramente nas malhas dum poder que os afastou de Deus, de Sua verdade e de Sua divina justiça. O AUGUSTO TRIBUNAL DO UNIVERSO VERSOS 9-10: — “Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um Ancião de dias se assentou: o seu vestido era branco como a neve, e o cabelo da Sua cabeça como a limpa lã; o seu trono chamas de fogo, e as rodas dêle fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dÊle: milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões estavam diante dÊle: assentou-se o juízo, e abriram-se os livros”. INSTALA-SE O JÚRI DA HUMANIDADE Como tratamos na introdução dêste sétimo capítulo, encerra êle o calendário profético da civilização humana num período de mais de vinte e cinco séculos decorridos. Os grandes acontecimentos internacionais, relativos à política e à religião, estão nêle sàbiamente condensados pela inspiração. O papel de cada um dos grandes impérios anunciados nesta profecia — Babilônia 606-539 a.C.; MedoPérsia 539-331 a.C.; Grécia 33-168 a.C.; Roma 331 a.C. 476 a.D.; Papado 538-1798 a.D. — foi desempenhado no palco da História com a maior exatidão. Agora, a cena seguinte e final desta grande profecia é a do juízo no Augusto Tribunal do Universo. Segundo a seqüência dos acontecimentos preditos e comprovados pelos fatos históricos que os cumpriram na ordem cronológica como dados nesta revelação, o tribunal do Todo Poderoso deveria ter instalado sua primeira sessão num tempo depois do término do poder temporal do Papado, ou seja depois do ano de 1798. Além disso, a “hora” do juízo chegaria quando o evangelho eterno, segundo o Apocalipse, capítulo quatorze, versículos seis e sete, fosse proclamado num grande movimento religioso mundial. E isso só poderia ser possível nestes últimos tempos com o concurso da ciência moderna, que deu ao mundo principalmente a imprensa e todo o meio 393

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de locomoção e comunicação. Na exposição dos capítulos 8:14 e 9:25 temos estabelecido a data exata e profética do assento deste juízo de investigação, e ali devemos considerá-la. À medida, de nossa consideração, devemos tomar posição definida e positiva junto de Deus e Sua justiça. O juízo deve fazer-nos tremer por nossos pecados, e levar-nos a procurar Aquêle que é o Único que nos poderá ajudar a passarmos satisfatoriamente pelo tribunal do Excelso. TREMENDA SOLENIDADE DE INSTALAÇÃO Tronos, diz o profeta, foram postos na sala do Augusto Tribunal. Pelo menos dois eram tronos especiais — o do Supremo Juiz e do Supremo Advogado. E, se levarmos em conta a visão do profeta do Apocalipse, haviam mais vinte e quatro tronos, nos quais assentaramse vinte e quatro anciãos.1 Dentre os circunstantes que tomaram assento nos tronos dos juízes, de um único é feita mensão especial — do “Ancião de Deus”, o Juiz. Esta expressão do profeta é antes descritiva do que propriamente um título do Soberano do universo. Daniel não tentou descrever o Eterno indescritível, como São João não o fêz ao contemplá-lO em Seu trono.2 Milênios antes de iniciar-se o grande júri, a ambos os dois videntes fôra permitido tão somente constatar a Sua presença no tribunal — de um modo representativo em harmonia com o significado da visão — e contemplar a Sua inenarrável glória. São João simplesmente diz: “E o que estava assentado era, na aparência, semelhante à pedra de jaspe e sardônica”.3 E Daniel limitou-se apenas a referir-se à Sua veste “branca como a neve” e a Seus cabelos “como a limpa lã”. Em suas alvas vestes e em seus cabelos brancos, podemos vêr a pureza e a eternidade do Altíssimo Deus como Juiz, mòrmente nesta hora solene de julgamento. Temos, pois, de tratar com um Juiz eternamente puro e santo, em que a eqüidade absoluta é a base de seus vereditos no trato com os réus de Seu tribunal. Fôra a imensurável glória que circundava a majestade do Egrégio Juiz, dÊle próprio emanante, que vedou, tanto a Daniel como a São João, verem-n’O precisamente mesmo em visão. Numa outra visão apocalíptica o profeta declara que a terra e o céu desapareceram de
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Apocalipse 4: 1-4. Apocalipse 4: 1-2. 3 Apocalipse 4: 3.

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Sua presença, ao assentar-se em Seu Augusto Trono para julgar e sentenciar.1 Tal a imensidade de Sua glória que Daniel a descreve como um rio de fogo abrasador, fazendo especial mensão de Seu trono como de fogo ardente. Aí está a glória do Magistrado Supremo diante do qual todo o indivíduo humano terá de prestar contas de tudo quanto fêz em todo o tempo que viveu no mundo de Sua criação. Pensemos seriamente no grande ajuste de contas com o Juiz da eternidade. MILHARES DE MILHARES — MILHÕES DE MILHÕES Aqui estão dois grupos de angélicos circunstantes na sala do júri, além dos que compõem a côrte do Venerável Juiz e com Êle se acham assentados em tronos. O primeiro grupo — milhares de milhares — é o dos anjos que servem no tribunal do juízo, considerados oficiais de justiça encarregados da leitura dos autos ou processos referentes aos réus em julgamento. O segundo grupo — milhões de milhões — é o dos anjos que estão em pé diante do Excelso Juiz prontos para depôr como testemunhas oculares verdadeiras e relatores das obras dos que são citados e levados à barra do supremo tribunal universal. “E ABRIRAM-SE OS LIVROS” Esta mesma solene declaração — e abriram-se os livros — encontra-se no versículo doze do capitulo vinte do Apocalipse, onde trata também do juízo. Ninguém pense que pode andar só, um minuto sequer da vida. Um invisível angélico vigia, acompanha seus passos e de suas obras diárias faz um perfeito relatório que é levado para os registros do divino tribunal consecutivamente. Um dia cada indivíduo responderá por seus atos em juízo diante do Altíssimo Deus. Uma amostra de que Deus tem um registro perfeito das obras de cada indivíduo que neste mundo vive, vemos nestas palavras do salmista: “O Senhor, ao fazer descrição dos povos, dirá: êste é nascido ali”.2 No céu tudo está registrado, mesmo a residência de cada um aqui na terra.3 Se se pudesse correr o véu e ver um anjo registrando cada ato e palavra de nossa vida, ficaríamos deveras estarrecidos! Tôdas as nossas ações terão pêso em decidir o nosso destino para a salvação ou perdição.
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Apocalipse 20:11. Salmos 87:6. 3 Atos 10:5-6.

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Duas classes de livros de registros ou autos são abertos no tribunal. Alguém que falou com autoridade, declarou: “Os livros são abertos — o livro da vida e o livro da morte. O livro da vida contém as boas obras dos santos; e o livro da morte também as más obras dos ímpios”.1 Entendemos então, que, o livro chamado “memorial”, no qual estão registradas as boas obras dos que temem ao Senhor, é o mesmo livro da vida.2 “No livro memorial de Deus toda ação de justiça se acha imortalizada. Ali, tôda tentação resistida, todo mal vencido, tôda palavra de terna compaixão que se proferir, acha-se fielmente historiada. E todo ato de sacrifício, todo sofrimento e tristeza, suportado por amor de Cristo, encontra-se registrado. Diz o salmista: “Tú contaste as minhas vagueações: põe as minhas lágrimas no Teu odre: não estão elas no Teu livro!”.3 Evidentemente entendemos que os justos têm também seus nomes escritos no livro da morte, pois seus pecados não podem estar arrolados entre as suas boas obras no livro da vida. Além disso, antes de serem êles justos eram ímpios. O livro da vida existe desde o princípio do mundo e pertence ao Filho de Deus por quem nos vem a vida.4 Quem, pois, tem o seu nome escrito neste livro. Já notamos que os justos têm suas boas obras escritas neste livro e consequentemente seus nomes. Notemos outras declarações: “O pecador, pelo arrependimento de seus pecados, fé em Cristo e obediência à perfeita lei de Deus, tem a justiça de Cristo a êle imputada; ela torna-se sua justiça, e seu nome é inscrito no livro da vida do Cordeiro. Êle torna-se um filho de Deus, um membro da familia real’.5 O livro da vida contém os nomes de todos os que já entraram para o serviço de Deus”.6 São Paulo, referindo-se a êstes fiéis cooperadores de Deus, escreveu: “... cujos nomes estão no livro da vida”.7 Ao regressarem os apóstolos de uma jornada missionária, disse-lhes Jesus: “Mas não vos alegreis por que se vos sujeitam os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus”.8
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Early Writings, E. G. White, pág. 52. Malaquias 3:16. 3 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 481. 4 Apocalipse 17:8, 13:6. 5 Testimonies for the Church, E. G. White, Vol. III, páginas 371 e 372. 6 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 480. 7 Filipense 4:3. 8 S. Lucas 10:20.

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É possível serem riscados do livro da vida nomes que ali já foram inscritos.1 Só a vitória sôbre todo o pecado fará com que o nome do vencedor permaneça no glorioso livro. Se, porém, não vencer o pecado e continuar a praticá-lo, não serão levadas em conta as suas boas ações.2 Estará êle perdido.3 Nenhum justo, salvo, poderá livrar a quem se desviar no mínimo que seja do caminho da justiça por amor ao pecado.4 Quando o povo de Israel pecou fazendo o “bezerro de ouro”, Moisés disse a Deus: “Agora pois perdoa o seu pecado, se não risca-me, peço-te, do Teu livro, que tens escrito”. Mas Deus, não aceitando a sua proposta, respondeu-lhe: “Aquêle que pecar contra Mim, a êste riscarei Eu do meu livro”.5 Vemos assim que naquele balanço final do grande tribunal tôdas as contas serão liquidadas; e serão riscados ou os nomes ou os pecados. Sim, cometendo o justo, pecado, e não se arrependendo, será riscado o seu nome do livro da vida. Suas justiças não serão levadas em consideração. Será excluído de participar da cidade de Deus6. O segrêdo da vitória jaz em vencer todo o pecado, e isto requer luta renhida e constante. Mas é claro que o sincero lutador não estará sozinho nesta batalha tremenda; o poder de Deus está à sua disposição, podendo dêle lançar mão com tôda a segurança para seu triunfo. Se preferir lutar só, perderá a batalha e certamente sucumbirá para sempre na peleja. O livro da morte, já por seu nome e como vimos, “contém as más obras dos ímpios”. Tôda a classe de pecados reprovados pela lei de Deus — tanto por sua letra como por seu espírito — enchem êste horrível livro da morte. “Eis que está escrito diante de Mim... as vossas iniqüidades, e juntamente as iniqüidades de vossos pais”.7 A adoração de deuses estranhos, a idolatria, a desonra ao nome do Altíssimo, a recusa do santo dia do repouso de Deus, o desrespeito aos pais, crimes, imoralidades, furtos, falsidades, cobiça — tudo isto que ofende a santa lei divina, está assentado com imperiosa exatidão. Êste resumo de pecados, apontados pela lei suprema do tribunal de Deus e que enfeixa todo o pecado, podem ser cometidos mesmo pelos cinco sentidos sem que o ato seja carnalmente consumado. Os pensamentos, as palavras, as intenções e o olhar precedem a consumação do ato e
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Apocalipse 3:5. Ezequiel 33:13; 18:24-26. 3 Hebreus 10:26-27. 4 Ezequiel 14:12-20. 5 Êxodo 32:32-33. 6 Apocalipse 21:27. 7 Isaías 65:6-7.

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suas dramáticas conseqüências, sendo do mesmo modo violação indiscutível da lei, do código penal do augusto tribunal. Tôda a imaginação — oculta ou não — que gerou o pecado, está meticulosamente registrada nos livros e no juízo aparecerá o delito com todos os seus requintes. “Ao lado de cada nome, nos livros do céu, estão escritos, com terrível exatidão, toda má palavra, todo ato egoísta, todo dever não cumprido, e todo pecado secreto, juntamente com toda artificiosa hipocrisia. Advertências ou admoestações enviadas pelo céu, e que foram negligenciadas, momentos desperdiçados, oportunidades não aproveitadas, influência exercida para o bem ou para o mal, juntamente com seus resultados de vasto alcance, tudo é historiado pelo anjo relator”.1 E ninguém poderá neutralizar nenhum de seus males por seu próprio poder.2 “Pecados de que não houve arrependimento e que não foram abandonados, não serão perdoados nem apagados dos livros de registo, mas ali permanecerão para testificar contra o pecador no dia de Deus. Êle pode ter cometido más ações à luz do dia ou nas trevas da noite; elas, porém, estavam patentes e manifestas Àquele com quem temos de nos haver. Anjos de Deus testemunharam cada pecado, registando-o nos relatórios infalíveis. O pecado pode ser escondido, negado, encoberto, ao pai, mãe, esposa, filhos e companheiros; ninguém a não ser os seus autores culpados, poderá alimentar a mínima suspeita da falta; ela, porém, jaz descoberta perante os sêres celestiais. As trevas da noite mais escura, os segredos de tôdas as artes enganadoras, não são suficientes para velar do conhecimento do Eterno um pensamento que seja. Deus tem um relatório exato de toda conta injusta e de todo negócio desonesto. Não se deixa enganar pela aparência de piedade. Não comete erros em Sua apreciação do caráter. Os homens podem ser enganados pelos que são de coração corrupto, mas Deus penetra todos os disfarces e lê a vida íntima. “Quão solene é esta consideração! Dia após dia que passa para a eternidade, traz sua enorme porção de relatos para os livros do céu. Palavras, uma vez faladas, e ações, uma vez praticadas, nunca mais se podem retirar. Os anjos têm registado tanto as boas como as más. Nem o mais poderoso guerreiro pode revogar a relação dos acontecimentos de um único dia sequer. Nossos atos, palavras, e mesmo nossos
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 482. Jeremias 13:23; 2:22.

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intuitos mais secretos, tudo tem o seu pêso ao decidir-se nosso destino para a felicidade ou para a desdita. Ainda que esquecidos por nós, darão o seu testemunho para justificar ou condenar. “Assim como os traços da fisionomia são reproduzidos com precisão infalível sobre a polida chapa fotográfica, assim o caráter é fielmente delineado nos livros do céu. Todavia, quão pouca, solicitude é experimentada com referência àquele registo que deve ser pôsto sob o olhar dos sêres celestiais! Se se pudesse correr o véu que separa o mundo visível do invisível, e os filhos dos homens contemplassem um anjo registando tôda palavra e ação, que eles deverão novamente encontrar no juízo, quantas palavras, que diariamente se proferem ficariam em ser faladas, e quantas sem ser praticadas!”1 A não ser que o pecador lance mão da previsão de Deus, será inapelàvelmente condenado pelo grande júri do universo. O JUÍZO NUM IMPRESSIONANTE SONHO No século passado uma piedosa cristã teve um impressionante sonho sobre o juízo, e o descreve em palavras que nos devem, fazer pensar com seriedade e temor sobre nossa vida è nossos pecados. Notemos a sua descrição: “Na manhã de 23 de outubro de 1879, por volta das duas horas, o Espírito do Senhor repousou sobre mim, e vi cenas do juízo vindouro. Faltam-me palavras, para descrever devidamente as coisas que passaram diante de mim, e o efeito que tiveram sobre meu espírito. Parecia haver chegado o grande dia da execução do juízo de Deus. Dez milhares vezes dez milhares achavam-se reunidos diante dum grande trono, sobre o qual estava sentada uma pessoa de aparência majestosa. Vários livros achavam-se diante dÊle, e na capa de cada um estava escrito em letras de ouro, que pareciam como chama ardente: ‘Contas-correntes do Céu’. Foi então aberto um dêsses livros, contendo os nomes dos que professam crer na verdade. Perdi imediatamente de vista os inúmeros milhões que se achavam em redor do trono, e unicamente os que eram professos filhos da luz e da verdade me prenderam a atenção. Ao serem nomeadas essas pessoas, uma a uma, e mencionadas suas boas ações, sua fisionomia iluminavase de santa alegria que se refletia em tôdas as direções. Isto, porém,
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 485, 486.

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não pareceu fixar-se em meu espírito com a maior intensidade. “Abriu-se outro livro, no qual se achavam registados os pecados dos que professam a verdade. Sob o cabeçalho geral de egoísmo, vinha uma legião de pecados. Havia também cabeçalhos sôbre cada coluna e, embaixo dêstes, ao lado de cada nome, achavam-se registados, em suas respectivas colunas os pecados menores. “Sob a cobiça vinha a falsidade, o furto, o roubo, a fraude e a avareza; sob a ambição vinha o orgulho e a prodigalidade; o ciúme encabeçava a maldade, a inveja e o ódio; e a intemperança servia de, cabeçalho a uma longa lista de terríveis crimes, como a lascívia, o adultério, a condescendência com as paixões animais, etc. Ao contemplar isto, enchi-me de inexprimível angústia, e exclamei: ‘Quem poderá salvar-se? quem subsistirá justificado diante de Deus? Quem terá os vestidos sem mancha? quem é impecável aos olhos de um Deus puro e santo?’ “À medida que o Santo que estava sôbre o trono ia virando lentamente as folhas do Conta-Correntes e Seus olhos pousavam momentaneamente sôbre os indivíduos, êsse olhar parecia queimarlhes até ao íntimo a alma, e no mesmo instante cada palavra e ação de sua vida passava-lhe diante da mente, clara como se fosse traçada ante seus olhos com letras de fogo. Apoderava-se, dêles o temor, e os rostos empalideciam. Seu primeiro aspecto quando se achavam diante do trono, era de descuidosa indiferença. Mas como se lhes mudava agora êsse aspecto. Desapareceram o sentimento de segurança, substituindo-o inominável terror. Toda alma está aterrada, não seja ela achada entre os que estão em falta. Todos os olhos se acham voltados para a face dAquele que está sôbre o trono; e enquanto Seu olhar solene e esquadrinhador passa por aquele grupo, há tremor de coração; pois sentem-se em si mesmos condenados, sem que fosse pronunciada uma palavra. Em angústia de alma, cada um declara a própria culpa e de maneira terrivelmente vívida vê que, pecando, atirou fora a preciosa dádiva da vida eterna. “Uma classe estava registada com empecilhos do terreno. Ao cair sôbre êsses o penetrante olhar do Juiz, foram distintamente revelados seus pecados de negligência. Com lábios pálidos e trêmulos reconheceram haver sido traidores do santo depósito que lhes fôra confiado. Haviam tido advertências e privilégios, mas não os haviam atendido e aproveitado. Podiam ver agora que haviam presumido demasiado dá misericórdia de Deus. Em verdade, não tinham a fazer confissões como as dos vis e baixamente corrompidos; mas, como a 400

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figueira, eram amaldiçoados por não produzirem frutos, por não haverem usado os talentos a êles confiados. Esta classe dera ao próprio eu o supremo lugar trabalhando apenas pelo interêsse egoísta. Não eram ricos para com Deus, não havendo correspondido a Suas reivindicações sobre êles. Conquanto professassem ser servos de Cristo, não Lhe trouxeram almas”. “Foram mencionados os nomes de todos quantos professam a verdade. Alguns foram reprovados por sua incredulidade outros por terem sido servos negligentes. Deixaram que outros fizessem a obra na vinha do Mestre, e levassem as mais pesadas responsabilidades, enquanto êles estavam servindo egoisticamente seus próprios interêsses temporais”. “As palavras dirigidas a êsses foram soleníssimas: ‘Fôstes pesados na balança, e achados em falta’. Negligenciastes as responsabilidades espirituais devido à atarefada atividade nos assuntos temporais, ao passo que vossa própria posição de confiança tornava necessário possuírdes sabedoria mais que humana e discernimento acima do finito. Precisáveis disto a fim de realizardes mesmo a parte mecânica de vosso trabalho; e quando desligastes Deus e Sua glória de vossa ocupação, desviastes-vos de Sua bênção”. “Foi então feita a pergunta: ‘Por que não lavastes vossos vestidos de caráter, e os branqueastes no sangue do Cordeiro? Deus enviou Seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que êsse fosse salvo por Êle. Meu amor por vós foi mais abnegado do que o de uma mãe. Foi para poder apagar vosso sombrio registo de iniquidade, e pôr-vos nos lábios o cálice da salvação, que sofri a morte de cruz, suportando o peso e a maldição de vossa culpa. As agonias da morte, e os horrores das trevas do sepulcro, Eu suportei, a fim de vencer aquêle que tinha o império da morte, descerrar a prisão, e abrir-vos os portais da vida. Submeti-Me à vergonha e à angústia porque vos amava com infinito amor, e queria trazer de volta Minhas ovelhas desgarradas e errantes ao paraíso de Deus, à árvore da vida. Essa vida de bênção que para vós comprei a tal preço, vós a desprezastes. Vergonha, vitupério e ignomínia como os que por vós sofreu vosso Mestre, vós evitastes. Os privilégios que Êle deu a vida” para pôr ao vosso alcance, não os apreciastes. Não quisestes ser participantes de Seus sofrimentos, e agora não podeis partilhar com Êle de Sua glória”. “Foram então proferidas estas solenes palavras: ‘Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem santo, seja santificado ainda’. Fechou-se 401

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então o livro, e caiu o manto da pessoa que estava no trono, revelando a terrível glória do Filho de Deus”. “A Cena dissipou-se, e encontrei-me ainda na terra, inexprimivelmente grata por que o dia de Deus ainda não tivesse vindo, e o precioso tempo da graça ainda nos fosse concedido, de modo a nos prepararmos para a eternidade”.1 UMA “MENSAGEM PRESENTE” DE JUÍZO A mensagem do juízo é uma “mensagem presente”. Os antigos profetas, apóstolos e o Senhor Jesus Cristo referiram-se solenemente ao juízo, porém como um acontecimento futuro. Nem mesmo nos séculos da Reforma, que foi o primeiro grande movimento religioso depois do apostólico, aludira-se ao juízo como “mensagem presente”. Lutero, referindo-se ao juízo, colocou o seu advento para cêrca de uns 300 anos no futuro e êle estava certo. Até o final do século dezoito, quando a França derribou o poder temporal do Papado — aliás, em 1798 — nenhum movimento surgiu anunciando ter chegado a “hora” do juízo. Porém, na primeira metade do século dezenove, exatamente 300 anos depois de Lutero, surgiu, em vários países do mundo, principalmente nos Estados Unidos, um movimento religioso, cuja mensagem central era verdadeiramente esta: “Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque é a hora do Seu juízo”. Constatamos ser este movimento um cumprimento correto do anunciado nos capítulos dez e quatorze do livro do Apocalipse. Daniel, o profeta de Deus, predisse, no capítulo oito e versículo quatorze de seu livro, o ano de 1844, em forma de um problema de matemática, como o ano inicial da “hora” do juízo. Portanto, desde 1844 vivemos sob a anunciação — “Temei a Deus, e dai-Lhe glória; porque vinda é a hora ‘do Seu juízo”. É um fato indubitável, atestado por sobeja documentação histórica alusiva ao movimento profético que o anunciou nesta data. Desde êsse ano, portanto, vive a hodierna civilização sob o signo do juízo investigativo de Deus. Quão grande responsabilidade implica em vivermos neste tempo de ajuste com o Egrégio Juiz do Universo em seu tribunal. Todos deverão acertar suas contas com o dono do mundo no qual permitiu que vivessem sob condições de fidelidade às Suas justas e

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Testemunhos Seletos, E. G. White, ed. Mundial, págs. 518 a 522.

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imutáveis leis. Não importa que o indivíduo já tenha morrido”.1 Mesmo assim terá de responder por sua vida vivida na terra, segundo a sua conta-corrente evidente que há nos registros celestiais, constante de suas boas e más obras. Para que nos precavêssemos e tomássemos posição decisiva e firme junto da verdade e da justiça, a fim de não termos a lamentar no dia da aplicação geral da inexorável sentença, o Venerável Juiz, em sua bondade e amor, enviou-nos por seus profetas inúmeras mensagens dando-nos conta de como processará o julgamento depois do qual não haverá apelação da sentença. SOLENES ADVERTÊNCIAS INSPIRADAS “Porque o juízo será sem misericórdia”.2 “Mas o Senhor está assentado perpétuamente; já preparou o seu tribunal para julgar, Êle mesmo julgará o mundo com justiça; julgará os povos com retidão”.3 “E regrarei o juízo pela linha, e a justiça pelo prumo”.4 “Deus pede conta do que passou”.5 “Porque Deus há de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mau”.6 “Mas Eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado”.7 “No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho”.8 “E chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o jornaleiro, e pervertem o direito da viuva, e do órfão, e do estrangeiro, e não Me temem, diz o Senhor dos Exércitos”.9 “Porque o dia do Senhor está perto sobre todas as nações: como tu, fizestes, assim se fará contigo: a tua maldade cairá sobre a tua cabeça”.10 “Quanto ao ímpio, as suas
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Hebreus 9:27. S. Tiago 2:13. 3 Salmos 9:7-8. 4 Isaías 28:17. 5 Eclesiastes 3:15. 6 Eclesiastes 12:14. 7 S. Mateus 12:36-37. 8 Romanos 2:16. 9 Malaquias 3:5. 10 Obadias 15.

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iniquidades o prenderão, e com as cordas do seu pecado será detido”.1 “E se não fizerdes assim, eis que pecastes contra o Senhor: porém sentireis o vosso pecado, quando vos achar”2 “E não há creatura alguma encoberta diante dÊle; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos dAquele com quem temos de tratar”.3 E, eis que cedo venho, e o meu galardão está Comigo, para dar a cada um segundo a sua obra”.4 “E o servo que soube a vontade do seu Senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a Sua Vontade, será castigado com muitos açoites; mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites, será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou muito mais se lhe pedir”.5 AS TRÊS FASES DO JUÍZO 1. A primeira fase do juízo denomina-se: Juízo Investigativo. Estende-se desde o ano de 1844, segundo a clara profecia de Daniel capítulo oito versículo quatorze, até ao fechamento da porta da graça, ou término da obra intercessória de Cristo no santuário celestial. É um juízo que visa exclusivamente a Igreja de Deus desde o princípio do mundo e atinge tanto aos mortos como aos vivos de sua comunidade. Escreveu São Pedro: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus; e, se primeiro começa por nós, qual será o fim daqueles que são desobedientes ao evangelho de Deus?”.6 “Antes de qualquer pessoa poder entrar nas mansões dos bem-aventurados, seu caso deverá ser investigado, e seu caráter e ações deverão passar em revista perante Deus. Todos serão julgados de acordo com as coisas escritas nos livros, e recompensados conforme tiverem sido as suas obras”.7 Começou pelos mortos, no ano supracitado de 1844 e passará imediatamente aos vivos. Esta fase do juízo denomina-se também de “purificação do santuário”, como veremos no oitavo capítulo, e significa a remoção dos pecados do povo de Deus no santuário celestial no qual deram entrada pelo arrependimento, confissão, e fé em Cristo como Mediador e Salvador.
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Provérbios 5:22. Números 32:23. 3 Hebreus 4:13. 4 Apocalipse 22:12. 5 S. Lucas 12:47-48 6 I S. Pedro 4:17. 7 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 548.

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Os santos de cada geração da terra são citados neste juízo no tribunal. Embora todos “devam passar em juízo perante Deus, examinará Êle o caso de cada indivíduo, com um escrutínio tão íntimo e penetrantes como se não houvesse outro ser na terra. Cada um deve ser provado, e achado sem mancha ou ruga, ou coisa semelhante”.1 Todo o nome é mencionado, cada caso minuciosamente investigado. “Aceitam-se nomes e regeitam-se nomes. Quando alguém tem pecados que permaneceram nos livros de registro, para os quais não houve arrependimento nem perdão, seu nome será omitido do livro da vida, e o relato de suas boas ações apagado do livro memorial de Deus”. O livro da vida2 . Esta questão é mais séria do que muitos pensam, “enquanto o homem de negócios está absorto em busca de lucros, enquanto o amante dos prazeres procura satisfazer aos mesmos, enquanto a escrava da moda está a arranjar os seus adornos — pode ser que naquela hora o Juiz de tôda a terra pronuncie a sentença: “Pesado foste na balança, e foste achado em falta”.3 “Quando se encerrar a obra do juízo de investigação, o destino de todos terá sido decidido, ou para a vida, ou para a morte”.4 Vivemos na hora mais solene da história. O conselho e advertência de Deus para êste tempo é: “Temei a Deus, e dai-lhe glória; porque vinda é a hora de Seu juízo. E adorai Aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas”.5 Atendido êste conselho, a absolvição no juízo estará assegurada e a vida será o eterno e precioso galardão. 2. A segunda fase do juízo denomina-se: Juízo Milenar. Estenderse-á desde a segunda vinda de Cristo e prosseguirá ininterruptamente durante dez séculos. Mediará precisamente entre a primeira ressurreição — a dos santos, e a segunda ressurreição — a dos ímpios. Os réus dêste juízo serão os ímpios, todos quantos se recusaram a aceitar o plano da salvação de Deus para se salvarem. Constarão estes impenitentes de bilhões de bilhões desde o princípio do mundo até à presente geração. Será um juízo para determinar a pena que cada um dos réus deve receber, pois condenados já estão pela rejeição da salvação de Deus que lhes foi oferecida gratuitamente em sua graça.
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 490. O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 482. 3 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 491. 4 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 490. 5 Apocalipse 14:7.

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O juízo dos ímpios não poderá realizar-se no santuário celestial onde se realiza atualmente o juízo dos santos, pois o santuário foi estabelecido como centro de mediação da obra expiatória de Cristo na cruz, e os ímpios regeitaram essa expiação e mediação. Os impenitentes não terão mediação no juízo e sim julgamento preparatório da execução. Também os maus anjos, incluso Satanás, que uma vez se rebelaram contra Deus no céu, serão julgados nêste mesmo juízo do milênio. Escreveu São Pedro: “Porque, se Deus não perdoou os anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo”.1 “E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão, e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia”.2 Os juízes dêste julgamento milenar dos ímpios e dos anjos caídos serão os remidos, cujo juízo será na Nova Jerusalém, a cidade de Deus.3 São Paulo, falando dêste julgamento e dos santos como juízes, declara: “Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo... Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?”.4 Durante êste juízo, os ímpios todos estarão mortos, e na terra só estarão vivos Satanás e seus anjos, em meio ao dantesco estado em que as sete pragas transformarão o mundo.5 3. A terceira fase do juízo denomina-se: Juízo executivo. Finda a fase do juízo milenar, Deus, Jesus e os santos regressarão à terra conjuntamente com a santa cidade, a Jeová e Jerusalém. Nesta ocasião Jesus chamará à vida todos os ímpios desde o princípio do mundo. Obedientes à Sua voz de comando, ressurgirão do pó da terra “como um grande exército inumerável como a areia do mar”. “Os ímpios saem da sepultura tais quais a ela baixaram, com a mesma inimizade contra Cristo, e com o mesmo espírito de rebelião. Não terão um nôvo tempo de graça no qual remediar os defeitos da vida passada. Para nada aproveitaria isso. Uma vida inteira de pecado não lhes abrandou o coração. Um segundo tempo de graça, si lhes fôsse concedido, seria ocupado, como foi o primeiro, em se esquivarem aos preceitos de Deus e contra Êle incitarem rebelião”.6
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II S. Pedro 2:4. Judas 6. 3 Apocalipse 20:4-6. 4 I Coríntios 6:2-3. 5 Jeremias 25:33; Apocalipse 16:17-21. 6 O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 662.

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Ao ver Satanás todos os ímpios ressurretos, exatamente todos quantos êle enganou e levou à ruína e perda da salvação, vai novamente enganá-los, agora pela última vez. “Representa-se a si mesmo, ante seus súditos iludidos, como um redentor, assegurandolhes que seu poder os tirou da sepultura, e que êle está prestes a resgatá-los da mais cruel tirania... Propõe-se guiá-los contra o acampamento dos santos e tomar posse da cidade de Deus. Com diabólica exaltação aponta para os incontáveis milhões que ressuscitaram dos mortos e declara que como seu guia é muito capaz de tomar a cidade, reavendo seu trono e reino”.1 “Satanás consulta seus anjos, e depois êsses reis, vencedores e guerreiros poderosos. Olham para a fôrça e número ao seu lado, e declaram que o exército dentro da cidade é pequeno em comparação com o seu, podendo ser vencido. Formulam seus planos para tomar posse das riquezas e glória da Nova Jerusalém. Hábeis artífices constroem apetrechos de guerra. Chefes militares famosos por seus êxitos arregimentam em companhias e secções as multidões de homens aguerridos. Finalmente é dada a ordem de avançar e o inumerável exército se põe em movimento — exército tal como nunca foi constituído por conquistadores terrestres, tal como jamais poderiam igualar as forças combinadas de tôdas as eras, desde que a guerra existe sôbre a terra. Satanás, o mais forte dos guerreiros, toma a dianteira, e seus anjos unem as forças para esta luta final. Reis e guerreiros estão em seu séquito, e as multidões seguem em vastas companhias, cada qual sob as ordens de seus designados chefes. Com precisão militar as fileiras cerradas avançam pela superfície da terra, quebrada e desigual, em direção à cidade de Deus. Por ordem de Jesus são fechadas as portas da Nova Jerusalém, e os exércitos de Satanás rodeiam a cidade, preparando-se para o assalto”.2 O profeta do Apocalipse escrevera dêsse final conflito: “E, acabando-se os mil anos, Satanás será solto da sua prisão. E sairá a enganar as nações que estão sôbre os quatro cantos da terra, Gog e Magog, cujo número é como a areia do mar, para os ajuntar em batalha. E subiram sôbre a largura da terra, e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada”.3 Tôda a família humana, de todos os séculos da História da terra acha-se agora reunida pela primeira vez. Os santos salvos estarão
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 663. O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 664. 3 Apocalipse 20:7-9.

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dentro da cidade com Cristo, Seu Pai e Seus anjos, e os ímpios estarão fora com Satanás e seus anjos. Então os livros de registos dos seus pecados serão abertos ante êles. “Logo que se abrem os livros de registo e o olhar de Jesus incide sobre os ímpios, êles se tornam cônscios de todo pecado cometido. Vêem exatamente onde seus pés se desviaram do caminho da pureza, e santidade, precisamente até onde o orgulho e rebelião os levaram na violação da lei de Deus. As sedutoras tentações que acoroçoaram na condescendência com o pecado, as bênçãos pervertidas, os mensageiros de Deus desprezados, as advertências rejeitadas, as ondas de misericórdia rebatidas pelo coração obstinado, impenitente tudo aparece como escrito com letras de fogo”.1 Finalmente tudo terminou. Diz o profeta do Apocalipse: “... Mas desceu fogo do Céu, e os devorou. E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre”. “E aquêle que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo”.2 “A terra se fende. São retiradas as armas escondidas em suas profundezas. Chamas devoradoras irrompem de cada abismo hiante. As próprias rochas estão ardendo. Vindo é o dia que arderá como um forno. Os elementos fundem-se pelo vivo calor, e também a terra e as obras que nela há, são queimadas.3 A superfície da terra parece uma massa fundida — um vasto e fervente lago de fogo. É o tempo do juízo e perdição dos homens maus — “dia da vingança do Senhor, ano de retribuição pela luta de Sião”.4 “Alguns são destruídos em um momento, enquanto outros sofrem muitos dias. Todos são punidos segundo as suas ações. Tendo sido os pecados dos justos transferidos para Satanás, tem êle de sofrer não somente pela sua própria rebelião, mas por todos os pecados que fez o povo de Deus cometer. Seu castigo deve ser maior do que o daqueles a quem enganou. Depois que perecerem os que pelos seus enganos caíram, deve êle ainda viver e sofrer. Nas chamas purificadoras os ímpios são finalmente destruídos, raiz e ramos — Satanás a raiz, seus seguidores os ramos. A penalidade completa da lei foi aplicada; satisfeitas as exigências da justiça; e o Céu e a Terra, contemplando-o,
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 666. Apocalipse 20:9-10, 15. 3 Malaquias 4:1; II Pedro 3:10. 4 Isaías 34:8.

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declaram a justiça de Jeová”.1 “Enquanto a terra está envolta nos fogos da destruição, os justos habitam em segurança na santa cidade. Sôbre os que tiveram parte na primeira ressurreição, a segunda morte não tem poder. Ao mesmo tempo em que Deus é para os ímpios um fogo consumidor, é para o Seu povo tanto sol como escudo”.2 Foi então aplicada a sentença do Juiz Todo-poderoso, sentença, aliás, que o próprio pecador o obrigou a aplicá-la sôbre si por sua deliberada rebelião, e menos caso à imensurável salvação de Deus e sua divina graça. Êste juízo executivo, conquanto destrua os ímpios e suas obras com fogo e enxofre, purificará a terra preparando-a para morada eterna e feliz dos santos. “E vi um novo céu e uma nova terra”.3 “Mas nós, segundo a Sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça”.4 NINGUÉM ESCAPARÁ AO INEXORÁVEL JUÍZO Muitos poderão dizer; “Não creio no juízo”, ou “não consentirei que Deus me julgue”. Mas embora não creiam e não queiram comparecer ante o tribunal universal, e procurem esquecer a todo custo esta responsabilidade, mesmo assim comparecerão e prestarão contas de seus atos cometidos durante todo o tempo em que viveram nesta província do Criador e desfrutaram de seus bens. Ninguém escapará, seja quem fôr: o rei e a rainha, o príncipe e a princêsa, o governador e o senador, o deputado e o vereador, o juiz e o industrial, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o grande e o pequeno, o moço e o velho — todos serão citados no augusto tribunal para acêrto de contas. Pode ter o indivíduo a religião que tiver: católica ou protestante, maometana ou budista, espírita ou sintoista, ou outra qualquer, comparecerá do mesmo modo à barra do tribunal. Não importa que o indivíduo tenha alta posição como clérigo ou mesmo que seja o chefe supremo de sua religião — não será jamais excusado — terá também de responder por suas obras diante da Majestade do Supremo Juiz. O Eterno Juiz não cogitará do tempo em que o homem ou a mulher tenham cometido seus erros e pecados contra a Sua lei. Todos
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O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 672, 673. O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 673. 3 Apocalipse 21:1. 4 II S. Pedro 3:13.

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os seus atos serão trazidos à luz e julgados com precisão, embora tenham sido cometidos há milhares de anos e mesmo esquecidos há muito na terra. Mas, se os homens encararem a realidade do tremendo juízo que os espera como encarou Felix e sua mulher Drusilla, nos tempos de apóstolo São Paulo, como escaparão? Notemos como o sagrado relátório narra o caso daquele governador da antiga Cesaréia; “Alguns dias depois, vindo Felix com sua mulher Drusilla, que era judia, mandou chamar a Paulo, e ouviu-o acerca da fé em Cristo. E, tratando êle da justiça, e da temperança, e do juízo vindouro, Felix, espavorido, respondeu: Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei”.1 No juízo executivo êste casal de cortezões terá de reconhecer a má escolha que fez. Milhões de milhões terão também de lamentar a desastrosa escolha preferida. Sim, ninguém escapará! Há sabedoria em seguir em tempo os conselhos do Altíssimo Juiz. E aqui está o Seu consêlho a todos, principalmente à mocidade: “Alegra-te, mancebo, tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e ainda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos: sabe, porém, que por tôdas estas coisas te trará Deus a juízo”.2 Todos quantos forem condenados, não o serão, é bem de vêr, compulsòriamente, antes terão sido convencidos “do pecado, da justiça e do juízo”, pelo Espírito Santo de Deus.3 Não haverá, pois, desculpas quaisquer a dar ou a aceitar. O CÓDIGO PENAL DO JUÍZO Em se tratando do juízo divino, vem-nos automaticamente a solene pergunta: Qual o código penal pelo qual o Todo-poderoso Juiz afere as suas sentenças de absolvição, ou condenação dos réus citados à barra de Seu tribunal? Esta importante pergunta enuncia a verdade de que o grande juiz de maneira nenhuma empregará um código penal de justiça ignorado dos réus. Pois, se são réus, violaram êsse código e deveriam portanto, tê-lo conhecido. Se não, não só seria injusto o julgamento como poria em cheque a justiça e as decisões do Augusto Juiz. Cremos, todavia, que Deus jamais cometerá injustiça em nenhum caso, mòrmente em se tratando do julgamento final de seus filhos.
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Atos 24:24-25. Eclesiastes 11:9. 3 S. João 16:7-8.

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Sim, a norma de justiça do insigne tribunal é muito bem conhecida dos habitantes do mundo. Sabemos que o próprio Soberano Juiz dela tirou um traslado e, sob a maior solenidade, entregou-o pessoalmente, mais uma vez, a seus súditos da terra para que não ignorassem a conduta que deviam manifestar como criatura dÊle dependentes. Não se trata duma norma impossível de cumprí-la, pois jamais a daria Deus a seus amados súditos uma vez sabedor de que não poderiam cumpri-la. Entregando-a a Seus queridos filhos, criados à Sua própria imagem, e rogando-os que a observassem para serem felizes, deu com isso sábias provas de que são capazes de obedecê-la e vivê-la. Qual é, pois, o código penal, a norma de justiça decisiva no grande juri da humanidade? Responder-nos-á esta pergunta um dos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo — São Tiago, que dÊle aprendeu o que ensinar aos homens. Eis a sua resposta: “Porque qualquer que guardar tôda a lei, e tropeçar em um só ponto tornou-se culpado de todos. Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tú pois não cometereres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei. Assim falai, e assim procedei, como devendo ser julgados pela lei da liberdade”.1 O santo apóstolo deixa bem evidente que, essa lei da “liberdade” a que se refere e pela qual os homens serão julgados, é a lei que, entre seus preceitos, contém dois que assim rezam: “Não cometerás adultério” e “não matarás”. Em outras palavras, êle define que a norma ou o código penal do divino juízo — é inquestionavelmente o Decálogo de Deus, a lei dos dez mandamentos. Aludindo indubitàvelmente a essa mesma lei em relação ao juízo, escreveu Salomão, o grande sábio: “De tudo o que se tem ouvido, o fim é: Teme a Deus, e guarda os Seus mandamentos; porque êste é o dever de todo o homem. Porque Deus há de trazer a juízo tôda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom quer seja mau”.2 Também São Paulo, o notável apóstolo, declarou: “Porque todos os que sem lei pecaram sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram pela lei serão julgados”.3 Não seria assim próprio relacionar a lei moral com o juízo, não houvessem os homens de serem por ela julgados. E, jamais por essa lei julgaria Deus os homens sem que prèviamente lhes houvesse entregue, como vimos, uma completa e
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S. Tiago 2:10-12. Eclesiastes 12:13-14. 3 Romanos 2:12.

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perfeita cópia da mesma, para estarem ao par da vida que deviam viver e do juízo que por fim enfrentariam. A lei de Deus ou o código penal do juízo, é a única porção das Sagradas Escrituras que não foi dada ao mundo por inspiração. O santo Decálogo era por demais importante para que Deus confiasse ao homem, ao profeta, o encargo de escrevê-la. Essa lei, em seus dez preceitos, aponta o caráter de Seu divino Legislador, pelo que não seria possível o homem escrevê-la ainda que ditada por Deus. Não teria a lei tanta fôrça e poder de acatação da parte das criaturas humanas, não fôsse ela uma cópia autêntica do próprio punho de seu Legislador.1 Assim, o Deus Todo-poderoso baixou do Céu sôbre uma montanha, o Sinai, e dali, com a máxima solenidade, promulgou mais uma vez, a lei suprema de Seu governo universal. Cada um dos dez preceitos foi primeiramente falado oralmente e depois escritos em duas táboas de pedra. Os quatro primeiros, que aludem aos deveres diretos para com Deus, foram escritos em separado numa táboa — e os seis últimos, que definem os deveres diretos do homem para com o seu semelhante, foram escritos noutra táboa. Milhões dos que se achavam presentes ao ato da promulgação da lei constataram a tremenda solenidade do ato. O monte Sinai estava em chamas ardentes e cambaleava como um ébrio — dada a presença do Poderoso Legislador. Do meio do terrível incêndio proclamou Deus com Augusta Voz o sagrado Decálogo — como base do bom viver de seus filhos e como código penal do julgamento dêles próprios.2 Uma profecia do Apocalipse que trata da chegada da hora do juízo, relacionou a “arca do concerto” de Deus com o mesmo juízo.3 A “arca do concerto”, é o receptáculo da lei de Deus chamada também “concerto”. Moisés, ao receber no Sinai uma cópia da lei do Decálogo, foi ordenado por Deus a depositá-la numa arca coberta de ouro e coloca-la no santíssimo do santuário de Israel.4 No lugar santíssimo do santuário celestial, exatamente no compartimento onde se processa o juízo desde o ano de 1844, foi vista pelo profeta do Apocalipse a arca da lei original em ligação com juízo profetizado, e diz, o vidente, os mesmos “relâmpagos, e vozes, e trovões, e terremotos” do Sinai, foram repetidos na solene visão. Relacionando as visões do juízo com a lei do Decálogo, faz Deus com que sintamos a responsabilidade de
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Êxodo 31:13. Deuteronômio 4:12-13. 3 Apocalipse 11:18-19. 4 Êxodo 40:20-21.

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vivermos em harmonia com seus preceitos, para não virmos a lamentar a decisão do tribunal a nosso respeito. O decálogo penal do juízo não tem rival na terra como lei. Jamais intelecto humano algum produziu uma tão primorosa obra de conduta pessoal e coletiva. É um código que, embora tão breve, abrange tudo que respeita às legítimas relações com Deus e o próximo. Compreende tôdas as possíveis condições e circunstâncias da vida. Recomenda aos homens tôdas as virtudes enfeixadas sem faltar uma só. Todos os desatinos humanos são por êle rigorosamente proibidos e condenados. Requer dos homens uma perfeita e evidente prova de amor a Deus e aos semelhantes. Tanto os delitos executados como os simplesmente premeditados, são por êle veementemente reprovados. Coisa alguma da verdadeira vida que o homem deve viver deixa de estar compreendida no glorioso Decálogo. É uma perfeita regra de ação que, cumprida pela totalidade do gênero humano, faria da Terra um Céu e de cada lar um paraíso. Esta divina lei não somente prescreve o dever do homem para com Deus e seus semelhantes em sua conduta exterior, como também alcança até mesmo as intenções e os pensamentos mais secretos do coração. Tôda a sabedoria dos séculos — das escolas e das universidades — não tem sido capaz de descobrir e apontar no santo Decálogo da justiça um único defeito, um único êrro. Foi entregue ao homem no alvorecer da civilização, e, houvesse êle pautado sua inteira vida por êle, quão diferente teria sido a sua história do que até agora tem sido! Porém, a respeito do cáos em que se tornou a civilização pela recusa injusta do inigualável decálogo, onde quer que ainda viceje alguma verdade, pureza, inteligência, ciência, artes, invenção, descobrimento, educação, ordem, moralidade e bom govêrno, — verifica-se que a divina lei precedeu a essas coisas como um “aio”, para conduzir os homens de volta a Deus, a fim de que possam aprender os caminhos da paz, da justiça, da felicidade. Assim receberam os filhos de Deus uma norma perfeita que os capacita viverem vidas santas e justas e executarem tudo com perfeição. Uma vez que a lei do Decálogo é o código penal pelo qual Deus está julgando agora os homens, urge o dever de pôr a vida em harmonia com essa lei. Um descaso neste sentido pode ser fatal e perda da eternidade. Um exame rigoroso da vida à luz dos imutáveis preceitos dêsse eterno Decálogo, é a urgente necessidade do momento. 413

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Harmonizar tôda a vida com os seus reclamos é viver agora e para todo o sempre. O segrêdo do cumprimento das estipulações do Decálogo de Deus consiste em receber Cristo no coração e na vida. A primeira coisa a fazer, portanto, se desejarmos pautar nossos atos por essa perfeita lei, e recebermos do Juiz do universo uma feliz decisão no juízo, — é indispensável que recebamos agora o Salvador. Teremos então no coração o verdadeiro amor divino que nos facultará viver a vida como verdadeiros cidadãos do atual mundo de Deus e no futuro como súditos eternos do glorioso reino de Cristo. Lamentàvelmente o santo e imutável Decálogo penal do tribunal de Deus é abertamente regeitado e calcado a pés pelos homens em geral, — e até mesmo pelo cristianismo nominal do século. A menos que os indivíduos vivam em concordância com esta divina lei, não haverá escape da condenação do juízo. Desgraçadamente, porém, bilhões de indivíduos, massas incontáveis de, seres humanos que na Terra tem vivido, em todos os séculos, não têm dado importância qualquer ao Decálogo do Legislador Todo-poderoso. Até as próprias religiões modernas, com o rótulo de religiões de Deus e de Cristo, têm mudado, rejeitado e reduzido a nada este Decálogo. Deixaram de ensiná-lo como base de tôda a moral e de tôdas as boas e verdadeiras relações humanas, e o mundo virou confusão. Conheçamos êste santo e grande Decálogo de Deus na página 447. O DESTINO DO QUARTO ANIMAL VERSO 11: — “Então estive olhando, por causa da voz das insolentes palavras que o chifre proferia; estive olhando e vi que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito e entregue para ser queimado pelo fogo”.1 AS “INSOLENTES PALAVRAS” DO “CHIFRE PEQUENO” Ao surgir o “chifre pequeno” o Papado, entre os 10 chifres, ou reinos da Europa, surgiu dirigindo-se a êles e ao mundo com arrogante autoridade e expressando direitos que não lhe foram conferidos e que só à divindade pertencem. E isto continuaria fazendo, segundo a profecia, por todo o tempo em que exerceria o seu poder temporal. Os fatos históricos atestam que êste poder cumpriu e cumpre à risca o teor da profecia no que respeita às suas “insolentes palavras”, ou “palavras
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Tradução de João Ferreira de Almeida, revisada Daniel 7:11.

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arrogantes”, como diz a Bíblia Católica. Porém, depois da visão da instalação do tribunal do juízo, conforme os versículos nove e dez, se nos diz no versículo onze que o Papado, representado no “chifre pequeno”, continuaria a proferir suas “palavras arrogantes” ou “insolentes palavras” ou pretenções que unicamente à divindade cumpre arrogar e não o vil mortal. Em todo o tempo de sua existência, mesmo em plena época atual de juízo, impôse-se o Papado, como árbitro arrogante ou insolente exigindo que todos os próceres eclesiásticos e políticos do orbe o reconheçam como supremo senhor, dominador e líder absoluto. Esta coisa estranha, as “insolentes palavras” do “chifre pequeno” Papal, foi o favor da visão que mais chamou à atenção do profeta. O modo como a inspiração apresenta o “chifre pequeno” Papal e o seu desenvolvimento na História, leva-nos a crêr que as suas “insolentes palavras”, ouvidas pelo pasmado profeta, eram certamente as que damos abaixo: — Eu tenho poder para ser deus na Terra, no Céu, no purgatório ; e no inferno; eu tenho poder para ter todos os homens como meus súditos e sob o meu único poder; eu tenho poder para pôr e depôr os reis; eu tenho poder para receber adoração na Terra e no Céu, dos homens e dos; anjos. — Eu tenho poder para ser infalível; eu tenho poder para estabelecer a tradição dos homens em lugar do evangelho de Cristo; eu tenho poder para mudar a lei imutável do Deus Todo-poderoso; eu tenho poder para mudar o repouso do santo Sábado para o dia de repouso do Paganismo romano — o domingo; eu tenho poder para estabelecer dias santos. — Eu tenho poder para perdoar pecados; eu tenho poder para vender o perdão dos pecados; eu tenho poder para vender as graças gratuitas de Deus. — Eu tenho poder para estabelecer dogmas de fé; eu tenho poder para crucificar a Cristo novamente no sacrifício da missa; eu tenho poder para operar o milagre da transubstanciação; eu tenho. poder para impor a idolatria. — Eu tenho poder para fazer e canonizar santos; eu tenho poder para impor a adoração dos santos; eu tenho poder para estabelecer a virgem Maria como advogado do pecador; eu tenho poder para dizer que “todos os que se salvam, salvam-se ùnicamente por meio desta divina mão”. — Eu tenho poder para tornar a alma imortal; eu tenho poder para lançar no inferno a quem comigo discordar; eu tenho poder para abrandar o fogo do inferno com missas; eu tenho poder para tirar as almas do purgatório e mandá-las ao Céu. 415

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— Eu tenho poder para excomungar os reis e seus súditos; eu tenho poder para perseguir e matar os hereges; eu tenho poder para destruir os santos do Altíssimo. Estas acima e um dilúvio de outras, são as “insolentes”, as “arrogantes” palavras que o profeta, admirado e abismado, ouviu o “chifre pequeno”, Papal proferir em meio aos 10 reinos europeus e mesmo em pleno século XX. O QUARTO ANIMAL É QUEIMADO O animal aludido nos comentários de Daniel é o quarto — o Império Romano. É muito evidente o juízo que Deus nesta profecia determinou sôbre Roma: Seria destruída, morta e queimada. Eis o destino do Império Romano quer como pagão quer como nominalmente cristão, pois Roma é uma coisa só, um único Império desde os Césares da corôa imperial aos Césares da tiára eclesiástica; desde os Césares do Capitólio aos Césares do Vaticano. Mas, perguntamos: Por que o quarto animal, Roma, seria desfeito, morto e queimado? A profecia é muito clara em sua resposta: “Êle foi tomado para ser queimado, por causa das orgulhosas palavras proferidas pelo chifre”.1 Roma, na fase pagã, já foi desfeita, morta pelas tribus bárbaras que invadiram a Europa. Resta, agora, êste mesmo juízo cair sôbre a fase Papal, pois as “orgulhosas palavras” que deram lugar à inexorável sentença de Deus, provêm do “chifre pequeno” que a representa. Aí está quão ofensiva é a exaltação aos olhos de Deus, mormente quando o mortal pretende igualar-se a Êle e receber adoração como se fôra Deus. Fogo, diz a profecia, será a arma de Deus contra êste insolente poder. Não haverá lugar na terra feita nova, no reino de Cristo, para Roma. Ela será queimada e inteiramente reduzida a cinzas no juízo executivo dos ímpios no fim do milênio da profecia do capítulo vinte, do Apocalipse. A futura humanidade estará livre de Roma, de seus enganos e de seu inferno que criou como arma para ameaçar, amedrontar e dominar as conciências de suas incautas vítimas humanas. Nos capítulos dezoito e dezenove do livro do Apocalipse ouvimos já o brado de triunfo dos salvos, indizível regozijo pelo extermínio desta grande Babilônia mãe que infelicitou a Terra e afastou bilhões de almas do perfeito caminho que leva à salvação e ao Céu.
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Tradução de James Moffatt, Daniel 7:11.

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O DESTINO DOS OUTROS TRÊS ANIMAIS VERSO 12: — “E, quanto aos outros animais, foi-lhe tirado o domínio; todavia foi-lhes dada prolongação de vida até certo espaço de tempo”. O Império Romano Ocidental foi conquistado e liquidado imediatamente pelos bárbaros que o invadiram. Não foi deixado aos romanos pagãos nenhuma chance de constituírem um reino no ocidente por pequeno que fôsse. O mesmo sucedeu aos romanos bizantinos ou ao Império Romano do Oriente quando os turcos o derribaram. Todavia, aos outros animais ou Impérios — Babilônia, Medo-Persa e Grécia, — reza a profecia que “foi-lhes dada prolongação de vida até certo espaço de tempo”. Na verdade os babilônios continuaram na Caldéia como reino vassalo da MedoPérsia; os medos e pérsas continuaram na Média e no Irã como reinos vassalos da Grécia; e os gregos continuaram na Grécia como província vassala de Roma. Mas, por fim, todos foram também destruídos totalmente como reinos que aspiravam o poder mundial. A Grécia ainda subsiste, mas não com aspirações de nôvo domínio mundial. Apenas ali está Roma, porém, em sua fase pagã, foi destruída desde os alicerces como poder político, destino que aguarda igualmente a sua nova fase — a pontifícia. O FILHO DO HOMEM NO TRIBUNAL VERSO 13: — “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem: e dirigiu-Se ao Ancião de Dias, e O fizeram chegar ate Êle”. QUEM É O “FILHO DO HOMEM”? Nenhum cristão ignora quem seja o “Filho do Homem”. Segundo esta profecia, seria êste o titulo oficial de Jesus na Terra como Redentor do homem. Êle muitas vêzes aplicou a Si êste título. No aramaico, o dialeto nativo do Salvador, o título “Filho do homem” vem de “Bar nosho” que significa homem genèricamente, Homem Universal, Super Homem. Isto é confirmado no fato de Jesus não ostentar o referido título no sentido de ter sido gerado pelo homem, mas de ter tomado a natureza do homem através um misterioso ato sobrenatural de Deus, Seu legítimo Pai. A gloriosa verdade de Jesus ter vindo salvar a humanidade, sendo para isso indispensável que com 417

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ela se identificasse a sobrepujasse em sua própria natureza humana, comprova que o título de “Filho do Homem” por Êle tomado, tem em verdade alcance genérico ou universal como Redentor. Além disso, este ponto de vista de uma vez se recomenda como o mais natural e significativo, em passagens tais como estas: “Vereis o Céu aberto, e os anjos de Deus subirem e descerem sôbre o Filho do Homem”. “O que nasceu do Céu, a saber, o Filho do Homem, que está no Céu”. “O Filho do homem tem na Terra autoridade para perdoar pecados”. “O Filho do homem até do sábado é Senhor”. “Se não comeres a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos”. “O Filho do homem virá na glória de Seu Pai”. “O Filho do homem veio salvar o que se tinha perdido”. O Pai “deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é Filho do homem”.1 A profecia alude ao “Filho do Homem” vindo “nas nuvens do céu. Diz enfàticamente que Êle Se dirigiu ao “Ancião de Dias”, o grande Juiz, assentado em Seu tribunal no lugar Santíssimo do santuário onde se processa o juízo. “É esta vinda, e não o Seu segundo advento à Terra, que foi predita na profecia como devendo ocorrer ao terminarem os 2300 dias em 1844. Assistido por anjos celestiais, nosso grande Sumo-sacerdote entra no lugar santíssimo, e ali comparece à presença de Deus afim de se entregar aos últimos atos de Seu ministério; em pról do homem, a saber: realizar a obra do juízo de investigação e fazer expiação por todos os que se verificarem: com direito aos benefícios da mesma”.2 O SUPREMO ADVOGADO DO HOMEM Muitos que no juízo serão condenados, sê-lo-ão não por serem demasiado pecadores ou por falta de suficiente graça para cobrir os seus pecados por mais negros que se possam afigurar, — mas por terem regeitado a salvação de Deus. Outros serão condenados não por terem descrido totalmente no Salvador capaz de remí-los, mas por desejarem que Êle os salve segundo o modo de ver dêles e não segundo o modo de ver do próprio Salvador. O pecador não possue em si mesmo méritos capazes de o salvar, e tão pouco em outrem de sua própria natureza.
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São Mateus 9:6; 12:8; 16:27; 18:11; S. João 1:51; 3:13; 6:53; 5:27. O Conflito dos Séculos, E. G. White, pág. 480.

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O pecador, seja quem fôr êle, é salvo pelo Redentor previamente designado por Deus — o seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, Jesus é um maravilhoso Salvador! Prefeito, imaculado, santo! Habilitou-se a ser o nosso Remidor tomando nossa própria natureza humana e dando voluntariamente a sua divina vida na cruenta cruz do Calvário. Um infinito preço pagou Êle assim por nosso resgate, mais valioso preço do que todas as riquezas que possam haver no inteiro universo.1 Uma eternidade será insuficiente para, mesmo os anjos, calcularem o preço pago pelo infinito Salvador por nossa vida. E, em face de tão imensurável amor, não deveríamos relutar em colocar-nos genuflexos a Seus pés numa dádiva incondicional de nós mesmos a Êle, — numa demonstração sincera e absoluta de nossa entrega para amá-1’O, serví1’O e vive-l’O por tôda a existência que ainda nos resta na terra. E, então, com Êle, passaremos á eternidade, embalados por Seu santo e puro amor e felicíssimos em sua incomparável companhia sempiterna. Temos, pois, um Redentor Incomparável, Insuperável, Inquestionável, Incontestável, Imperecível, Indispensável, Insubstituível. Por ser Jesus o nosso Salvador, é Êle também o nosso Advogado no tribunal universal diante do Supremo Juiz. A visão de Daniel declara que Êle foi levado à presença do “Ancião de Dias”, o Juiz, evidentemente para pleitear à causa de seus escolhidos, dos que o aceitaram e o representaram na terra através uma vida devota e pura, moldadas por Seu evangelho, por Sua lei e por Sua graça. A causa dêstes está segura em suas mãos. Jesus é um Advogado que não pega causas perdidas, mas sim causas ganhas, pois jamais comprometará a Sua advogacia divina. Êle não poderá comparecer em juízo para defender a quem não o constituiu legitimamente a seu advogado pela entrega da vida a Êle e em viver consequentemente com Seus planos e ensinos.2 Queres tú, amigo leitor, uma feliz decisão de teu caso no tribunal do grande juiz onde serás indiscutivelmente julgado? Constitue então a Jesus teu Advogado, sem esquecer de preencher a todos os requisitos que Êle exige para ser teu Advogado defensor. Busca-o agora mesmo, e acerta com Êle os planos para que por ti, e em teu lugar, Êle compareça em juízo. Serás certamente absolvido, viverás com Jesus para sempre. Más, não percas tempo, urge que agora mesmo te entendas com o grande Advogado dos pecadores antes que possa ser tarde demais,
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Hebreus 7:26. Provérbios 25:26.

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antes que o juri da humanidade encerre a sua primeira sessão que foi aberta somente para absolver e não para condenar. A condenação será na segunda sessão do júri quando a porta da salvadora graça estará fechada para sempre; Não percas tempo, pois apressa-te, sim antes que possa ser tarde. Não decidas tardiamente; pois uma decisão postergada poderá ser fatal à tua vida.1 O contrito pecador tem realmente um infalível Advogado. Dissera São João, o amado apóstolo: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E Êle é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos mas também pelos de todo o mundo”.2 E o grande apóstolo São Paulo, escreveu: “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo”.3 “Um Advogado”, “um Mediador” — não mais do que “um”. Outro será, espúrio e impostor; será falho e enganador; perderá a causa do pecador que lh’a entregar e perder-se-á também a si mesmo, conjuntamente com o que pretender defender em juízo. Portanto, não aceitemos outro advogado. Aceitemos somente aquele que Deus recomendou — o Seu Filho Jesus Cristo. UM ADVOGADO QUE DERRAMOU SEU SANGUE Como pôde Jesus penetrar no tribunal celestial para ser o Advogado do pecador contrito perante o “Ancião de Dias”, o Juiz? Aqui temos a evidente reposta: “Mas, vindo Cristo, o Sumo-sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não desta creação, nem por sangue de bodes e bezerros, mas por seu próprio sangue, entrou uma vez no santuário, havendo efetuado uma eterna redenção”. “Porque Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo Céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus”.4 Aí está: Em virtude dos méritos de Seu sangue derramado na cruz, comparece Êle em juízo em defesa do pecador que O aceitou. Vemos que, quem não derramou sangue pelo pecador, não pode ser seu advogado diante
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Cantares 5:6. I S. João 2:1-2. 3 I Timóteo 2:5-6. 4 Hebreus 9:11-12, 24.

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do Egrégio Juiz no tribunal. Não será aceito. Não foi indicado por Deus como advogado do pecador. Não devemos, pois, procurá-lo como nosso advogado. De nada adianta buscá-lo — é tempo perdido e risco de vida.1 Vejamos como os apóstolos relacionaram o sangue de Cristo com a remissão do pecador: “Justificados pelo Seu sangue”.2 “Redenção pelo Seu sangue”.3 “O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado”.4 “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vocação, maneira de viver como por tradição recebestes dos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado”.5 Ainda afirmam os apóstolos de Jesus que a “confiança em Deus”, o “acesso ao Pai”, o “perdão”, a “reconciliação com Deus”, — só é possível por Cristo.6 Se alguém tentar obter o perdão por outrem, será decepcionado. Não há outro Salvador além de Cristo.7 Portanto, não há intermediários entre o pecador e Jesus.8 Outro não salva, pois não morreu pelo pecador, pelo que não deve ser procurado para perdoar pecados. Não há outro nome indicado para salvar — nem de homem nem de mulher — além do nome de Jesus.9 Jesus é o único Intercessor, Fiador, e Sumo-sacerdote do pecador perante o Pai.10 Só Jesus pode perdoar os pecados cometidos na Terra: nenhum outro recebeu dÊle ou do Pai tal autoridade.11 Assim só Jesus poderá reconciliar o perdido pecador com Deus, o Supremo juiz.12 A paz entre o impenitente e Deus só é possível pela mediação de Cristo.13 Como Jesus intercede no tribunal do juiz pelo pecador? Exemplifiquemos: Digamos que o primeiro caso a aparecer em juízo foi o de Abel, o primeiro homem a morrer na terra, pois o julgamento começou em 1844 com os mortos justos desde o princípio do mundo.
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Hebreus 9:22. Romanos 5:9. 3 S. Mateus 11:28. 4 I S. João 1:7. 5 I S. Pedro 1:18-19. 6 I S. João 2:12; Atos 10:43; 13:38; II Coríntios 3:4; Efésios 2:18. 7 Atos 4:12. 8 Colossenses 1:14; Efésios 1:7; 9 Hebreus 7:25; Atos 4:12; 10 Romanos 8:34; Hebreus 7:22; Hebreus 3:1. 11 S. Mateus 9:6. 12 II Coríntios 5:19; Romanos 5:10. 13 Atos 10:36.

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Ao ser citado o seu nome inscrito no livro da vida onde estão também suas obras, um outro livro foi aberto — o da morte — onde também está o seu nome e as suas más obras ou pecados. Mas, foi verificado que todos os seus pecados foram confessados e abandonados, visto ter êle aceito o plano da salvação de Deus. Então Jesus — em virtude de Abel O ter tomado como seu Advogado e confessado e abandonado todo o pecado — intervem em seu favor. O Salvador não justificou os seus pecados, mas apresentou o seu arrependimento e fé, e suplicou o perdão para êle, erguendo as mãos feridas perante o Pai, o grande Juiz, exclamando: “Meu sangue, Pai, meu sangue! meu sangue! meu sangue!” Então o Supremo Juiz aceitou o sacrifício de seu Filho em lugar do de Abel, e este foi perdoado, absolvido e salvo. Seus pecados e seu nome foram apagados do livro da morte pelos méritos do sangue de Cristo, e Abel estará com seu Salvador no eterno reino. Exemplifiquemos outro caso, seria o do pecador morto ou vivo. Digamos que se chamava João Peres. Por algum tempo êle aceitou o plano da salvação de Deus vivendo em harmonia com êsse plano. Mas deslizou aqui e ali nos mandamentos e vontade de Deus dêle bem conhecidos. Acariciou certos pecados os quais não confessou nem abandonou. Seu nome foi encontrado no livro da vida, pois por algum tempo fora fiel a Deus e a seu Salvador. Porém, no livro da morte seus acariciados pecados estavam latentes, sem nenhuma referência de que os abandonara. Seu nome foi então regeitado para êsse atual julgamento de absolvição. Foi riscado do livro da vida bem como suas boas obras, permanecendo seu nome apenas no livro da morte, com seus pecados não abandonados. Seu julgamento for transferido para o juízo de condenação, — dos ímpios e dos maus anjos, durante o milênio. João Peres estará ausente do reino de Deus, embora pertencesse na terra à comunidade do povo de Deus ao tempo de sua morte ou ao tempo do juízo em vida. Assim sucede com cada caso ligado ao juízo investigativo atual iniciado em 1844. O que vencer o pecado e fôr fiel guardando os mandamentos de Deus, seu nome permanecerá no livro da vida e viverá.1 O que, porém, fôr vencido pelo pecado deixando de ser fiel aos mandamentos de Deus, seu nome será riscado do livro da vida; e

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Apocalipse 3:5.

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perecerá seguramente.1 Cada um decide o seu destino — salvação ou perdição, vida ou morte. Se aceitarmos o plano da salvação de Deus e vivermos segundo Êle, não necessitamos temer. Jesus garante nossa absolvição no juízo se formos fiéis em tudo. Tão somente necessitamos confessar e abandonar todo o pecado para assegurarmos a Sua misericórdia.2 Todavia, o Senhor põe-nos entre a faca e a parede: “Portanto, qualquer que Me confessar diante dos homens. Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos céus. Mas qualquer que me negar diante dos homens, Eu o negarei também diante de Meu Pai, que está nos céus”.3 Não há solução para o nosso caso senão em Cristo. Nossos pecados nos liquidarão se não recorrermos ao divino Advogado à nossa disposição. A obra que Cristo efetua atualmente em juízo no santuário celestial, é a que fôra prefigurada anualmente pelo sumo-sacerdote no santuário terrestre de Israel, e que devemos apreciar na exposição do versículo quatorze do oitavo capítulo em relação com a purificação do santuário. Porém, a despeito da clareza do evangelho, muitos há que estão buscando ser salvos independentemente do plano de Deus. Querem ser salvos por suas obras mortas. Parecem querer persuadir a Deus a salvá-los conforme seus próprios planos de obras. Êstes devem ler e meditar nas parábolas das bodas e notarem bem o que sucedeu com o homem que entrou para o banquete nupcial com trajes inadequados para aquela solenidade. Ali está uma tremenda figura do juízo que espera aqueles que pretendem que Deus os salve segundo seus planos religiosos apóstatas.4 Um dia serão obrigados a sentir os seus pecados.5 Não te demores meu amigo! Não confies em tuas obras mortas, para que no fim não tenhas a dizer em angústia: Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos”.6 Jesus está ancioso à tua espera no tribunal do juízo. Há pouco tempo. Logo a porta da misericórdia fechar-se-á. Busca a teu Salvador com urgência.7 O divino Advogado garante pleno perdão e plena absolvição. Êle assegura o pleno

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Êxodo 32:33; Apocalipse 20:15. I S. João 1:7, 9; Provérbios 28:13. 3 S. Mateus 10:32-33. 4 S. Mateus 22:1-14. 5 Provérbios 5:22; Obadias 15; Números 32:33. 6 Jeremias 8:20. 7 Isaías 55:6.

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afastamento de teus pecados e apela ardentemente para que não te demores em achegarte a Êle.1 Mas busca-O de todo o coração para poderes achá-lO.2 Achega-te com confiança ao trono de Sua graça e serás por Ele aceito.3 Não faças o Salvador esperar mais por ti. “Uma senhora de preeminência necessitou uma vez de conselho legal, e foi aconselhada a consultar eminente advogado. Ela começou a protelar, até que afinal não podia esperar por mais tempo, pois o tribunal estava prestes a se reunir. Foi então ao jurisconsulto, e começou a expor seu caso, porém êle a deteve, dizendo: “Senhora, veio demasiadamente tarde. Ontem eu teria tido satisfação de encarregar-me do seu caso, e comparecer perante o tribunal como seu advogado, mas não me é possível, pois acabo de ser designado para seu juiz”.4 Assim sucederá com aquêle que pretendem entregar seu caso ao Supremo e único Advogado do pecado, único escolhido e aceito por Deus no grande tribunal, mas que procrastinam sempre e sempre estão a adiar sua decisão: Irão se decidir tarde de mais e ver-se-ão perdidos para sempre. O Advogado transformar-se-á em Juiz, findo o juízo, para condenar esses retardatários em buscá-1’O. Aqui, está, amigo, o patético apêlo do grande Advogado a ti, “Desfaço as tuas transgressões como a neve, e os teus pecados como a nuvem: torna-te para Mim, porque Eu te remi”.5 Êle garante tua absolvição: “O Senhor resgata a alma dos Seus servos, e nenhum dos que nÊle confiam será condenado”.6 Jesus garante a tua vitória. Dissera São Paulo: “Mas graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”.7 Aceita êste Seu grande conselho: “Na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê nAquele que Me enviou, tem a vida eterna, e não entrara em condenação, mas passou da morte para a vida”.8 Muitos buscarão tardiamente o Supremo Advogado, e serão desolados. Conta-se que numa catedral, duma antiga aldeia alemã, há uma pintura mural representando o juízo. Num magnifico trôno está
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Isaías 1:18; Salmos 103:12; Miquéias 7:19; Isaías 44:22; Isaías 43:25. Jeremias 29:13. 3 Hebreus 4:14-16. 4 Meditações Matinais, H. M. S. Richards, 1957, pág. 126. 5 Isaías 44:22. 6 Salmos 34:22. 7 I Coríntios 15:57. 8 S. João 5:24.

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Jesus Cristo, rodeado dos profetas e apóstolos; à Sua frente, incontável multidão de povo. Defronte dessa grande massa de gente está um anjo, de lindo aspecto, empunhando uma balança. Acima da figura desta balança, pintou o artista u’a mão a escrever: “Fostes pesado na balança e achado...” A mão como que espera uma decisão, antes de escrever a última palavra.1 Amigo, que decisão final será escrita a meu e a teu respeito? Seremos achados em harmonia com a justiça de Deus ou em falta para com ela? Estava um velhinho sentado no muro de pedra, em frente da Casa Branca, nos Estados Unidos, nos tenebrosos dias da Guerra Civil. Lágrimas lhe deslizavam pelas faces enrugadas. As mãos, calejadas, tremiam-lhe, enquanto apertavam um lenço com que enxugava os olhos. Passou um menino a correr, tangendo um arco. Ao avistar o velhinho, deteve-se e indagou infantilmente do motivo de sua tristeza. — Não querem deixar-me entrar, para ver o presidente, nem, meu Filho! Ai, meu filho vai ser fuzilado! O presidente Lincoln é o único capaz de livrá-lo. — Vou levá-lo para dentro, disse ansiosamente o pequeno Tad; êles não podem impedir que eu entre. O senhor venha comigo! O velho e o pequeno defensor entraram, passando corajosamente diante de carrancudos guardas, até à própria presença daquele que, só poderia salvar o filho. Aquele menino era filho do presidente e o pôde levar ao pai. Meu amigo, Jesus é o Filho de Deus, o único que nos pode levar ao Pai, o grande Juiz. Deixemos, pois, que nosso querido Salvador, nosso amoroso Advogado nos leve a Seu Pai ,e nosso problema, nosso pendente caso no tribunal terá satisfatória solução. Não esperemos mais. A solenidade do momento exige urgente decisão. RECEBENDO O ETERNO REINO VERSO 14: — “E foi-Lhe dado o domínio e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas O servissem; e o Seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e Seu reino o único que não será destruído”. Declarou certa feita Jesus: “E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o Juízo”. “E deu-lhe o poder de exercer o juízo,
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O Raiar de Um Novo Dia, R. F. Cotirell, pág. 236.

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porque é o Filho do homem”.1 Quem é o Juiz — o Pai ou o Filho? São Paulo esclarece: “Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que destinou: e disse deu certeza a todos, ressuscitando-O dos mortos”.2 Compreendemos que Deus é o Juiz, que Êle é quem julga, — mas que O faz em virtude do Filho ter-se tornado o Advogado do homem. Se não fôra isto, não haveria necessidade de juízo. Todo o pecador ao vir ao mundo já estaria sumariamente condenado. O fato, porém, de Jesus se ter constituído Advogado do homem, resultou na necessidade dum julgamento real. Eis porque dissera Jesus que “o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo”. Jesus fêz questão de instaurar um processo pró reabilitação do pecador — e então, o juízo é dÊle embora o Pai continue sendo o Juiz e haja a necessidade dÊle comparecer diante do Pai em defesa do pecador contrito. Jesus não foi ao “Ancião de Dias”, o Pai, apenas para defender a causa dos que a Êle se entregaram. Foi também receber o domínio do mundo.3 Quão maravilhoso é isto! O próprio dono do mundo virá governá-lo! Isto é a maravilha das maravilhas! É esta uma necessidade premente e urgente. O govêrno falido do homem precisa ter, na verdade, um fim. O homem não sabe governar os seus semelhantes. A experiência de quase seis mil anos tem comprovado isto. Seu domínio na terra tem fracassado e arruinado a civilização. Além de não saber governar, o homem tem se demonstrado um déspota, um tirano, um violento para com seus súditos. Seu domínio de orgulho, de violência, de opressão, de malsã e deletéria política logo findará na terra. Alegremos-nos e demos graças a Deus por isso. Levantemos as mãos para o céu e supliquemos a Deus que se apresse em libertar o mundo do terror do govêrno do homem. Foi por Sua vitória sôbre a morte que Cristo, ganhou o domínio dêste mundo. Suas palavras ao ressuscitar, foram estas: “É Me dado todo o poder no céu e na terra”.4 Êle ensinou-nos a Lhe pedir: “Venha o Teu reino”.5 Veja-se na profecia do capítulo dois versículo quarenta e quatro, uma amostra do glorioso futuro reino de Cristo. Não haverá lugar em Seu reino para nações do tipo das atuais; aliás, haverá um só

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S. João 5:22, 27. Atos 17:31. 3 Apocalipse 11:15. 4 S. Mateus 28:18. 5 S. Mateus 6:10

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domínio — o de Cristo. E a narrativa assim finda: “O Seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o Seu reino o único que não será destruído”. Que privilégio viver eternamente no reino em que o Filho de Deus será o Eterno Rei! Quando êste glorioso reino fôr estabelecido, o regozijo dos salvos seus súditos será sem limites. Êles expressarão delirantemente: “Aleluia: pois já o Senhor Deus Todopoderoso reina”.1 Ao dirigir-se ao “Ancião de Dias” para receber o reino, Jesus recebê-lo-á recebendo os súditos do reino por Sua intercessão, e desde o ano de 1844 Êle os está recebendo. Maravilhoso: Parte dos súditos das nações do mundo — vivos e mortos — Êle os está recebendo como futuros súditos de Sua gloriosa e eterna realeza. Findo o juízo que lhe dará os súditos do reino eterno, Êle virá para liquidar o domínio do homem na terra e estabelecer o Seu. Haverá aqui então paz e amor eternos, em troca do ódio, da guerra e do crime que têm sido a ordem do dia através dos séculos. Jesus governará sem canhões, sem metralhas, sem bombas atômicas, sem esquadras de mar, sem esquadrilhas aéreas, — pois isto tudo é próprio de povos incivilizados e maus. Preparemos-nos, portanto, para sermos súditos integrantes do reino do Filho de Deus, reino que jamais passará outra vez às mãos incompetentes do homem e de seu criminoso despotismo. Não nos esqueçamos da urgente entrega ao Advogado divino que por nós espera. Nossa felicidade futura jaz em nossas mãos; depende de nossa favorável decisão em constituí-1’O nosso advogado. Não esperemos mais um instante e não magüemos em fazê-1’O esperar mais. Desfaçamos nossa procrastinação antes que tenhamos de bater em vão na porta da graça então fechada. DANIEL SUPLICA PORMENORES VERSOS 15-24: — “Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi alarmado dentro de mim, e as visões da minha cabeça me perturbaram. Cheguei-me a um dos que estavam perto, e lhe pedi a verdade acêrca de tudo isto. Assim êle me disse, e fêz saber a interpretação das coisas. Êstes grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino, e o possuirão para todo o sempre, de eternidade em eternidade. Então tive desejo de conhecer a verdade a respeito do quarto animal, que era diferente de todos os outros, muito terrível,
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cujos dentes eram de ferro, e cujas unhas eram de bronze; que devorava, fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobejava; e também dos dez chifres que tinha na cabeça, e do outro que subiu, de diante do qual caíram três, daquele chifre que tinha olhos, e uma boca que falava com insolência, e parecia mais robusto do que os seus companheiros. Eu olhava e eis que êste chifre fazia guerra contra os santos, e prevalecia contra êles, até que veio o Ancião de Dias, e fêz justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino. Então Êle disse: o quarto animal será um quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; e devorará tôda a terra, e a pisará aos pés; e a fará em pedaços. Os dez chifres correspondem a dez reis que se levantarão daquele mesmo reino; e depois dêles se levantará outro, o qual fará diferente dos primeiros, e abaterá a três reis”. Daniel ficou abatido com a extraordinária e grande revelação contida neste capítulo. O profeta desejou saber pormenores do que vira. Mas Daniel, o seu anjo assistente, deu-lhe, a princípio, um rápido resumo, como vemos nos versículos dezesseis e dezoito, referente aos quatro animais e o eterno reino dos santos, Mas Daniel não ficou satisfeito, desejou saber mais. Seu interêsse estava concentrado no terrível quarto animal, seus dez chifres e principalmente o seu insolente CHIFRE PEQUENO, especialmente. Êste monstro sem paralelo na zoologia e que representa em símbolo o quarto Império da terra como vimos, comprova por sua aparência e atuação nas cenas de visão, tratar-se dum poder político-religioso — o maior, mais visível e mais aberto e ousado inimigo que Deus jamais teve neste mundo. Um poder arrogante, insolente, blásfemo, cruel, atrevido, autoritário, sedento de destruição e de sangue; um poder orgulhoso, implacável, que se julga único e absoluto no orbe e que até honras divinas e adoração pretende dos homens e das nações. E, o profeta, visivelmente admirado, impressionado e pasmado, solicita encarecidamente de Gabriel, o seu anjo assistente na visão, esclarecimentos sôbre o referido poder, no que foi prontamente atendido. Quanto à resposta do anjo contida nos versículos 23 e 24, já consideramos amplamente na explanação dos versículos sete e oito, não sendo necessário repetir aqui. Do versículo 22 ligado ao anterior, entendemos que a guerra do CHIFRE PEQUENO, o Papado, contra os santos, estendeu-se até à instalação do juízo do século dezenove, durando esta batalha inglória contra os portadores da luz mais de doze séculos. 428

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Um detalhe importante revelado no versículo 22, devemos tornar bem expressivo aqui. Tratando ainda do juízo iniciado em 1844 sôbre o povo de Deus, o profeta declara — segundo a versão do padre Antônio Pereira de Figueiredo, assim: “E foi dada sentença a favor dos santos do Altíssimo”. Duas coisas notáveis: Que o povo de Deus é que está em julgamento agora e que êste juízo só sentencia a favor dos réus ou os absolverá. Como já vimos, êste juízo não é um juízo para condenar e sim só para absolver. Sim, aí só são tratados, pelo Supremo Juiz e pelo Supremo Advogado; os casos de absolvição. Os casos de condenação estão destinados à segunda fase do julgamento durante o milênio da profecia do capítulo vinte do livro do Apocalipse. O “CHIFRE PEQUENO” EM SEIS DIMENSÕES VERSOS 25-26: — “Proferirá, palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e os santos lhe serão entregues nas mãos, por um tempo, dois tempos e metade do tempo. Mas depois se assentará o tribunal para lhe tirar o domínio, para o destruir e o consumir até ao fim”. Jamais nos devemos esquecer que o CHIFRE PEQUENO desta profecia representa o Papado Romano, sucessor e continuador legítimo e indiscutível do Império Romano dos Césares. O título desta seção supracitado, revela a inteira história do Papado em seis dimensões ou partes, comprovadas pelas ações deste poder com a máxima evidência. Não seremos extensos, mas diremos o suficiente tanto exata como incontestàvelmente. PRIMEIRA DIMENSÃO — “PROFERIRÁ PALAVRAS CONTRA O ALTÍSSIMO” Seja quem fôr que hoje leia a declaração da epígrafe acima, da pena inspirada do profeta Daniel, em relação ao “CHIFRE PEQUENO” PAPAL, mesmo um não católico ou um ateu, dificilmente crerá nela. Entretanto, no livro do Apocalipse esta denúncia é incisivamente confirmada por São João: “E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do Seu nome, e do Seu tabérnáculo, e dos que habitam no Céu”.1 Daniel e São João, ao informarem à posteridade sôbre êste assunto, não o fizeram de si mesmos. Deus, através destes dois profetas Seus, é o próprio
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denunciante desta terrível insolência do Papado. A civilização humana é assim posta ao par da realidade do verdadeiro caráter deste poder romano. No versículo onze, que convém apreciarmos novamente ali, já temos tratado, em parte, de como o poder Papal tem cumprido em absoluto, em sua história, os têrmos desta acusação do Céu. Como vimos acima, o nome de Deus é o primeiro alvo dos ataques blasfematórios do “CHIFRE PEQUENO” romano. Não é que o Papado, com suas atitudes — negue a existência do Todo-poderoso ou que O proclame como uma utopia ou uma crença de alucinados como o fazem os ateus. Não. O Papado em seus ensinos e culto, dá provas evidentes da existência de Deus. Mas, em que consistem então as suas blasfêmias contra o Altíssimo Deus? Nos dias em que estas coisas foram reveladas, blasfemar de Deus significava, principalmente, tomar alguém sôbre si o Seu nome pretendendo ser deus ou igual a Deus na terra.1 E, perguntamos: Pretende o Papado o título de Deus neste mundo? Vejamos a palavra inspirada de São Paulo: “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição; o qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus’’.2 Ninguém poderá negar esta categórica afirmativa do apóstolo, unicamente aplicável ao supremo representante do Papado — o papa. E, agora, vejamos a concludente confirmação Papal de que o papa pretende, na verdade, ser deus sôbre a terra e mesmo, além da terra. Há no direito canônico uma proposição que reza abertamente como segue: “O papa romano não ocupa o lugar de um mero homem, senão o do verdadeiro Deus neste mundo”.3 Já Simaco, papa de 498-514, falou por Eunódio: “O pontífice romano foi constituído juiz no lugar de Deus, lugar que êle ocupa como vice-regente do Altíssimo”.4 Inocêncio III, papa de 1198-1216, nas suas decretais, diz referindo-se ao papa: “Deus, porque é vigário de Deus”. Leão XIII (1878-1903), declarou: “Ocupamos na terra o lugar de Deus Todo-poderoso”.5 Pio IX declarou de sua pessoa “Eu
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S. João 10:33 II Tessalonicenses 2:3-4. 3 Direito Canônico, C 3, x de Translat e Piso 1,7. 4 Daniel – Esboço de estudos, Edwin R. Thiele, pág. 66. 5 The Great Encyclical Letters of Leo XIII, 20/6/1894, pág. 304.

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sou o caminho, a verdade e a vida”.1 Pio X afirmou: “O papa é Jesus Cristo escondido sob o véu da carne”. Pio XI disse de si mesmo: “Vós sabeis que eu sou o santo padre, o vigário de Cristo, o representante de Deus na terra”. E ainda Pio XI em 1938: “Deus no céu e eu na terra”.2 “E portanto declaramos, dizemos e resolvemos: “Estar sujeito ao pontífice romano é necessário a tôda a criatura para ser salva”.3 “O papa é o supremo juiz da lei na terra”. É o representante de Cristo, que é não somente um sacerdote para sempre, mas também Rei dos reis e Senhor dos senhores”.4 “O papa é o vigário de Cristo, ou a cabeça visível da igreja sôbre a terra. Os atributos do papa são os mesmos que os de Cristo. Êste pode perdoar pecados, também o pôde o papa. O papa é o único homem que se arroga o vicariato de Cristo. Sua pretenção não encontra oposição séria, e isso lhe estabelece a autoridade”. “Os podêres conferidos ao papa por Cristo lhe foram dados, não como a um mero homem, mas como representante de Cristo. O papa é mais do que o representante de Cristo, porque êle é o fruto de sua divindade e da divina instituição da igreja”. Num congresso eucarístico de Buenos Aires, foi distribuído um pequeno folheto em honra ao papa, em o qual, entre outras exaltações do pontífice de Roma, encontramos a seguinte: “Jesus Cristo pôs o papa na Igreja, para que O representasse de tal maneira, que o papa fôsse em tôda a profundidade da frase: “O doce Cristo na terra”. “A eleição de Pio XII, declarou o arcebispo de Paris, cardeal Verdier, ao representante da Agência Taves, “foi um grande acontecimento. Dí-lo bem alto a atitude do mundo inteiro. Direi que o universo tem a sensação de haver encontrado a seu pai”.5 “Todos os nomes que são atribuídos a Cristo; nas Sagradas Escrituras, mencionando a Sua supremacia sobre a Igreja tôda, são também atribuídos ao papa”.6 A literatura clerical católica romana está repleta do cumprimento desta profecia. O bispo Cornélio Musseo, de Bitarto, ao pregar em

Normal “Correio do Povo”, Pôrto Alegre, 8/1/1938. Bula Unam-Sanctum, Novembro 1302 C. L. 3 Extraído de Civilitá Católica, de 18/3/1871, mencionado em Vatican Concil, por Leonardo Wooslay Bacon, edição da American Tract Society, pág. 200. 4 Rev. Jeremias Prendegast S. J. Syracusa N. Y., em Post Standard de 14/3/1912 (Citado em Source Book for Bible Student pág. 412). 5 Revista Adventista, julho 1939. 6 Source Book for Bible Students, ed. 1927, pág. 411.
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Roma sôbre a Epístola aos Romanos, disse: “Aquilo que o papa diz, devemos aceitar como se Deus mesmo o tivesse dito. Nas coisas divinas o temos por Deus, e no domínio dos mistérios da fé, eu teria mais confiança num só papa do que em mil Agostinhos, Jerônimos e Gregórios”.1 “A CIVILTA, depois de ter exposto como Deus pôs nas mãos do papa todos os tesouros da revelação divina, da verdade e da justiça, e o constituiu como seu único guardião e administrador, chega à conclusão que o papa continua no mundo a obra de Cristo e que é para nós como se Cristo mesmo governasse visivelmente a Igreja na terra. Não faltava mais do que um passo para declarar ao papa a encarnação de Deus. Êsse passo, efetivamente, se deu.2 “O papa é, pois, o pai de todos os cristãos, sendo que por êle recebemos a graça de Deus. É por conseguinte o papa que tem a chave das fontes da graça”.3 “O papa, no lugar de Jesus Cristo na terra, é Seu vigário, seu representante oficial. Obedecer ao papa é obedecer a Jesus Cristo mesmo.4 Tomaz de Aquino declarou: “Não há diferença entre o papa e Jesus Cristo”.5 “O Catecismo de Trento faz essa afirmativa: “Bispos e padres são com justiça chamados deuses”. “O papa é de tão grande dignidade e exaltado que não é um simples homem, senão como se fôsse Deus, e o vigário de Deus... O papa é de dignidade tão sublime e suprema que, falando com propriedade, não tem sido estabelecido em algum grau de dignidade, senão que tem sido pôsto no próprio cume de tôdas as dignidades... O papa é chamado santíssimo porque se presume legitimamente que o é... “Só o papa merece ser chamado ‘santíssimo’ porque unicamente êle é vigário de Cristo, manancial, fonte e plenitude de tôda a santidade... ‘É igualmente o monarca divino, imperador supremo, o rei dos reis’... De aí que o papa 1eva uma corôa tríplice, como rei do céu, da terra e das regiões inferiores... Além disso, a superioridade e o poder do pontífice romano não se referem só às coisas celestiais, às terrenais e às que estão debaixo da terra, senão que chegam até sôbre os anjos, pois é maior do que êles... De maneira que se se pudesse dar
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El Pontificado, por Inácio de Doellinger, pág. 276, edição: Espanha Moderna, Madrid. Idem, idem, pág. 371. 3 A religião Demonstrada, P. A. Hillare, pág. 389. 4 Idem, idem, pág. 513. 5 El Pontificado, Inácio Doellinger, pág. 186.

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o caso de que os anjos errassem na fé, ou pensassem em forma contrária à fé, poderiam ser julgados e excomungados pelo papa... Porque êle tem tão grande dignidade e poder que forma com Cristo um e o mesmo tribunal... O papa é como se fôsse Deus na terra, único soberano dos fiéis de Cristo, principal rei dos reis, que tem a plenitude do poder, a quem o Deus onipotente tem confiado não só a direção do terrenal, senão também do reino celestial... O papa tem tão grande autoridade e poder que pode modificar, explicar ou interpretar mesmo as leis divinas”.1 “Cristóbal Marcelo, na quarta sessão do quinto concilio de Latrão em uma oração dirigida ao papa, exclamou: “Tú és o pastor, tú és o médico, tú és o diretor, tú és o lavrador; finalmente tú és outro Deus na terra”.2 “Ninguém pode apelar do papa a Deus, como ninguém pode entrar no consistório de Deus sem a mediação do papa, que é o portador das chaves e o porteiro do consistório da vida eterna; e como ninguém pode apelar a êle mesmo, porque há uma decisão e uma côrte (cúria) de Deus e do papa”.3 E, note-se por fim, na palavra do célebre Gregório VII, como o Papado tem usurpado a dignidade de Deus na igreja e no mundo: “A Igreja romana”, diz aí o papa, “foi fundada unicamente pelo Senhor. Somente o bispo de Roma merece em direito o nome de universal. Só êle tem o direito de decretar novas leis, de fundar novas comunidades de depor bispos sem decisão sinodal, de subdividir dioceses ricas e unificar as pobres. Só êle tem o direito de conferir as insígnias imperiais. Só êle dá o pé a beijar a todos os príncipes. Só o seu nome é citado nas preces da igreja. O seu nome de papa é reservado a êle só no mundo. Êle tem direito de depor o imperador. Sem a sua vontade, nenhum Sínodo pode ser chamado universal. As suas sentenças são inapeláveis. Êle não pode ser julgado por ninguém. Todos os negócios importantes de tôdas as igrejas devem ser levados perante a Santa Sé. A igreja romana nunca se enganou e nunca se enganará conforme, atestam as Sagradas Escrituras. O papa romano, quando é consagrado segundo os cânones, torna-se santo pelos méritos de S. Pedro. Ninguém pode ser considerado católico, se não está de acôrdo com a igreja romana. O papa pode dispensar os súditos do

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Prompta Biblioteca, tradução Lúcio Ferrari, art. Papa, Vol. VI, págs. 26-29. Acta Conciliorum, de P. Juan Arduino, Vol. IX, pág. 1615. 3 Augustino