OFICINAS

DE

REESTRUTURAÇÃO

CURRICULAR

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO MÉDIO INTEGRADO A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E A AÇÃO DOCENTE
NASCIMENTO, Elaine Cristina Universidade Tecnológica Federal do Paraná AMORIM, Mário Lopes Universidade Tecnológica Federal do Paraná

RESUMO: Este artigo tem como objetivo promover uma reflexão sobre a proposta de Ensino Médio Integrado a Educação Profissional, desenvolvida nas escolas públicas estaduais do Paraná. Traremos como referência a realização de Oficinas de Reestruturação Curricular, ofertadas pela Secretaria de Educação do Estado (SEED), a profissionais envolvidos nesta modalidade de ensino. Esta estratégia da SEED, visa uma análise da atual situação dos cursos em andamento, e busca alternativas para superar possíveis dificuldades para articular os conhecimentos específicos da Base Nacional Comum, aos conhecimentos da Base Técnica, promovendo um ensino integrado e interdisciplinar. Neste contexto, as relações entre a escola e o trabalho, tornam-se elementos de suma importância na elaboração de políticas públicas educacionais, e principalmente para a elaboração de currículos que se fundamentem nas relações entre trabalho, cultura, a ciência e a tecnologia.

PALAVRAS-CHAVE: Educação; Trabalho; Educação Profissional

ainda. responde predominantemente. numa perspectiva de escola unitária que articule trabalho. o currículo dos cursos. o Decreto nº 5.Introdução As últimas décadas do século XX e o início do século XXI vêm marcadas por profundas mudanças no campo econômico.208/97. suas concepções. sociocultural. A necessidade de serem efetivadas alterações significativas na Educação. segundo preconiza a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. a formação de professores. em que vários intelectuais da área de educação participam de debates sobre a construção de uma política de ensino médio que o consolide como etapa final da educação básica e como direito de todos os cidadãos. reforça-se a necessidade de retornar a discussão sobre a educação tecnológica como expressão do princípio educativo. desenvolve-se um processo de reflexão coletiva. ao definir as políticas que iriam nortear a Educação Profissional para a Rede Pública Estadual. de forma integrada ou concomitante. então. ciência e tecnologia.1. tecnológicas e culturais da contemporaneidade. assumiu a diretriz de retomada desta modalidade de ensino e reconhecia que a Educação Profissional fora a oferta educacional mais atingida pelas políticas equivocadas dos anos anteriores. Surge. etc. as quais resultaram no desmonte da Rede Pública de cursos profissionalizantes de nível técnico. de forma seqüencial para aqueles que já o tenham concluído. que vem regulamentar o § 2º do art. cultura. 2005) . (Garcia. de 23 de julho de 2004. às pressões das transformações econômicas e tecnológicas. 39 a 41 da Lei nº 9. para o aluno que esteja cursando o ensino médio e.394/96 e revogar o Decreto nº 2. No cenário de crítica a Reforma dos anos de 1990. envolvendo desde as políticas públicas educacionais. de modo que possam interagir com as profundas mudanças socioeconômicas. Neste sentido.154. ético-político. Há um discurso muito difundido em toda a sociedade que defende a necessidade de formação dos jovens com base em novos conhecimentos e competências.36 e os arts. No caso paranaense a gestão 2003/2006 da Secretaria de Estado da Educação. de modo a facultar às instituições de ensino o oferecimento da educação profissional técnica de nível médio articulada com o ensino médio. até o funcionamento dos sistemas de ensino. ideológico e teórico.

econômicas e culturais. em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho. podendo reintegrá-los. Admitindo-se seu desenvolvimento por diferentes estratégias de educação continuada. buscando superar a dualidade do ensino mediante a garantia de uma base de formação geral e possibilitar a formação técnica. institui nova regulamentação para a relação entre os ensinos médio e profissional. tendose o trabalho como princípio educativo. e em especial da Educação Profissional o que se pode verificar é como as políticas públicas. A relação da educação profissional com o ensino regular poderia ocorrer por articulação e a preparação básica para o trabalho seria uma de suas finalidades. voltado para o permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva.” A Lei 9394/96 incorporou a Educação Profissional como processo educacional específico. desde que atendida a formação geral do educando. exigindo dos professores competências específicas para o trabalho nesta modalidade de ensino. revogando o Decreto 2208/97. não vinculado necessariamente a etapas de escolaridade. ressaltando as relações entre educação e trabalho. de acordo com as necessidades sociais. Com a promulgação do decreto 5154/2004 que. destaca Vieira (2002): “Mudanças amplas e profundas estão ocorrendo na economia contemporânea e provocam reformas que tem repercussões sobre as políticas educacionais e para entender o sentido das reformas educacionais em curso. a partir da concepção de que as mudanças interferem diretamente na formação do indivíduo e que os elementos socioeconômicos. afetam a realidade escolar. contribuem diretamente na elaboração dos currículos desenvolvidos e que por sua vez.Em decorrência da análise do caso paranaense. . culturais e tecnológicos. é necessário dirigir o olhar para essas reformas globais que as motivam e imprimem contornos a seus rumos. queiram ou não. 2005) Todas estas transformações acarretaram em novos modelos de organização pedagógica. (Ramos. estão diretamente vinculados a esta realidade. Assim.

Políticas Públicas para o Ensino Médio Integrado a Educação Profissional – reflexões sobre a ação docente A Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED-PR). a Secretaria de Educação do Estado do Paraná. o que acarretou na dificuldade que encontramos nos dias de hoje. Esta mesma proposta compreende o trabalho como fundamento unificador da educação como prática social. Todos estes elementos permeiam as dimensões teórico-metodológicas da Educação Profissional. Este fato. contribui para a sedimentação de uma política curricular equivocada do ponto de vista da educação omnilateral. Este fato tem criado certo desconforto. representações e significados. Entretanto. e mais ainda. Entretanto o que se tem percebido nas escolas que ofertam a Educação Profissional na modalidade de Ensino Médio Integrado. através de seus símbolos. sobre a importância em desenvolver no interior das escolas e em âmbito de políticas educacionais. Como estratégia de política educacional e busca da superação dos embates sobre a integração dos currículos. pouco foi o investimento na capacitação dos profissionais que estariam diretamente envolvidos com tal proposta. de cultura. é que existe uma grande dificuldade por parte dos professores.2. pois não há clareza por parte dos professores sobre os fins da Educação Profissional. cerceando a formação integrada do conhecimento que embasa a técnica e as tecnologias. segundo Ciavatta (2005). sustentado pelos conceitos de trabalho. tornar o trabalho como princípio educativo. a formação de sujeitos sociais. está realizando um programa denominado “Oficinas para Reestruturação Curricular dos . de ciência e de tecnologia. em muitos cursos de Educação Profissional da Rede Pública Estadual para promover a articulação entre os conhecimentos previstos. a ciência como disponibilizadora dos conhecimentos produzidos e legitimados socialmente. tendo como objetivo principal. fundamentos da técnica e da tecnologia e a cultura como categoria que sintetiza as diferentes formas de criação existentes na sociedade. na proposta dos Fundamentos Políticos e Pedagógicos da Educação Profissional (2005) assumiu o compromisso com uma política de Educação Profissional em que o trabalho deve ser compreendido como princípio educativo no sentido da politecnia ou da educação tecnológica. em articular os conhecimentos propostos nos currículos que embasam esta proposta de ensino.

Esta reestruturação será realizada pelos professores da formação específica (técnica) e base nacional comum. quando foram elaboradas as propostas que hoje estão em andamento. Devemos considerar que os cursos Técnicos foram implantados nas escolas do Estado. É de suma importância que os resultados destas reflexões possam ser difundidos no interior das escolas. assume responsabilidade perante a sociedade. evidenciando seus avanços e dificuldades. Esta estratégia é uma tentativa de tornar mais participativa a ação dos docentes. a Secretaria de Educação do Estado do Paraná. a partir de 2004. abrangendo não apenas alguns representantes desta classe. no ano de 2007 e tem como objetivo. Estas oficinas serão realizadas em três momentos distintos. coordenadores que atuam nos cursos técnicos. visando uma análise da realidade de cada instituição. em sua maioria. Além das reflexões sobre a prática pedagógica. uma nova proposta curricular deverá ser organizada e apresentada à SEED.Cursos Técnicos dos Setores da Indústria e Serviços”. ao promover momentos de análise da ação docente e das políticas curriculares. docentes convidados da área específica de cada curso e da concepção teórica da Educação Profissional. que estabelecem uma nova relação entre conhecimento compreendido como produto e como processo da ação humana. mas todos os envolvidos nesta proposta de ensino. reestruturar as propostas curriculares que estão sendo trabalhadas nas escolas públicas do Estado. Assim. . ainda se faz necessário que a abrangência de oferta de capacitação para os docentes. com o acompanhamento das equipes Técnico-pedagógicas da SEED. devendo por fim ser editada e difundida para os demais sujeitos envolvidos nesta proposta educativa. com o que se passa a demandar maior conhecimento teórico por parte dos trabalhadores. que resultam da própria natureza das mudanças ocorridas no mundo do trabalho. Entretanto. tenha maior dimensão. gerando inúmeros conflitos estruturais. houve debates acerca das novas demandas de Educação Profissional. no sentido de entender que há uma fragmentação e um dualismo estrutural na proposta atual e instiga os educadores a participarem efetivamente na reconstrução do trabalho educativo. Cabe destacar. que durante os encontros expuseram a realidade dos cursos de Educação Profissional dos quais fazem parte. bem como promover mudanças necessárias no desenvolvimento das propostas pedagógicas das mesmas. que ao término destas oficinas.

em diferentes épocas e frente a diversificadas estratificações sociais. Considerações Finais Diante do tema abordado neste texto. partindo da compreensão e verificação dos limites existentes na escola. para fortalecer a estrutura dos cursos de Educação Profissional. Este seria um grande desafio para a Secretaria de Educação do Estado do Paraná: desenvolver políticas de formação e capacitação de docentes. para atuar diretamente com a Educação Profissional. os conflitos manifestados durante os encontros. considerando que a política educacional dominante projeta uma relação de qualidade e identidade da função social do acesso ao saber escolar. . se em âmbito macro. evidencia-se a importância em valorizar as relações que se dão no interior da escola.Seria certamente um avanço para a Educação Profissional. que poderá auxiliar na redefinição dos encaminhamentos e propostas da SEED. torna-se evidente a necessidade de aprofundar as discussões sobre a formação de docentes que atuam na Educação Profissional. Este é um processo longo e gradativo. pudessem efetivamente contribuir na reformulação curricular. que afetam diretamente na formação dos trabalhadores. 3. Neste sentido. que tenham consciência de seu papel enquanto educador e que assumam compromisso com a articulação dos conhecimentos históricos sociais. tornando o docente co-participante nas decisões político educacionais para esta modalidade de ensino. visando um processo de educação emancipatória que busque garantir o acesso e o direito de todo cidadão ao trabalho. É importante que se realize um processo de revisão e reorganização curricular para o Ensino Médio Integrado que vise refletir e compreender as relações existentes entre a estrutura social e o sistema educacional brasileiro e suas influências. pois é a partir desta realidade que as bases concretas para a melhoria dos processos educativos se estabelecerão.

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Campinas: Papirus. Ilma Passos e AMARAL. 2002. Ana L. In: VEIGA. “Políticas de formação em cenários de reforma”.VIEIRA. . (Orgs). Formação de Professores: Políticas e Debates. Sofia Lerche.