EXPRESSõES!

Mais que dizer - transmitir. Ed. 11

QUAL É A GRAÇA DA POESIA?
José Danilo Rangel e César Augusto

A Profecia do Sertão Nardiane Balbino da Silva Orgulho e Preconceito Laisa Winter 1 Ano De Estúdio 1/4

Sobre Heróis e Tumbas Cátia Cernov

Bruno Honorato Gabi Amadio Nem Deus, Nem Diabo Ferrovia da Passividade Rafael de Andrade e Camila Felisberto Sousa Fotos de Mari Azuelos e Maria Teresa Castelo Branco

Capa: Meme Questionador

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EDITOR José Danilo Rangel CO-EDITOR: Rafael de Andrade COLABORADORES: Nardiane Balbino da Silva - Conto César Augusto- Crônica Cátia Cernov - Decofidicando Maria Teresa Castelo Branco - Fotos Mari Azuelos - Fotos Sérgio P. Cruz - Fotos Douglas Diógenes - Fotos Bruno Honorato - Poesia Gabrieli Amadio - Poesia EXPRESSõES! Junho 2012 | 02

ÍNDICE
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Preâmbulo..................................................................04 A Profecia do Sertão..................................................................06 Ironia em CAPS LOCK...........................................09 Sobre Heróis e Tumbas..............................................................12 Nem Deus, Nem Diabo, Ferrovia da Passividade........................15 10 Dicas Para Não Ser Considerado Louco.........................................18 Visões Poéticas - Poeira..............................22 Ele Andava Pelos Bares.............................................23 Respirar...............................................................................................24 D.R. ......................................................25 Orgulho e Preconceito..........................................27 Extra: 1 Ano de Estúdio 1/4..................................................29 Especial: Qual a Graça da Poesia?..........................................36 Do leitor................................................................................................51 Ao leitor....................................................................................52 Um Agradecimento...............................................................................53

PREÂMBULO ................................
Abrindo o 11º número da EXPRESSõES!, temos um conto de Nardiane Balbino da Silva, de Vilhena, “A Profecia do Sertão”. O conto, com aquele alegorismo personificador comum a produções nordestinas, onde todos e tudo são “pessoas”, descreve a luta cotidiana daqueles a quem o Sol achou de imolar e o governo de oprimir. Em seguida, mudando o clima, temos “Ironia em CAPS LOCK”, de César Augusto. Um texto divertido, onde o tema se mistura com a linguagem, resultando num todo divertido. Chega a vez de Cátia Cernov, em “Sobre Heróis e Tumbas”, dentre outras coisas, ela reflete sobre a necessidade de salvadores. Rafael de Andrade e Camila Felisberto tomam a voz de todos aqueles oprimidos pelos hábitos culturais rondonienses e em “Nem Deus, Nem Diabo, Ferrovia da Passividade”, falam sobre haver uma cultura incapaz de enxergar acima, ou abaixo, ou ao lado, com os olhos fixos num ponto, e por ele hipnotizada. O 10 dicas traz um monte de coisas, eu escrevi pensando em ajudar o pessoal que é rotulado assim só porque entende um pouco de muita coisa. Em seguida, em Visões Poéticas, “Poeira”, de César Augusto, com versos regulares, trabalho o nosso hábito de desencaixotar cacarecos e lembranças. Gabi Amadio, um doce, na poesia “Ele Andava Pelos Bares”, utiliza-se da sua facilidade em descrever de forma sucinta e delicada para falar (acredito) de um bon vivant, ou de um boêmio. O resultado é um lindo texto! Bruno Honorato, autor de “Walter: Sem Sorriso”, apresenta “Respirar“, poema com versos de métrica variada, tendo com tema o sonho de um outro lugar, um outro ar. Em seguida, D.R., escrita por mim para falar um pouco sobre minha conturbada relação com a Poesia, essa injusta. Duas novidades. Primeira novidade: Laisa Winter estreia a seção Quadro a Quadro, apresentando-nos o filme “Orgulho e Preconceito”. Segunda novidade: o “entre seções” neste número conta com o adorno do trabalho de duas sensibilíssimas fotógrafas, Maria Teresa Castelo Brando e Mari Azuelos. Depois, uma pequena matéria sobre a festa cultura promovida pelo Estúdio 1/4, em comemoração ao seu primeiro ano de atividade. Por fim, em Qual é a “Graça da Poesia?”, eu e o César Augusto apresentamos parte do material apresentado no evento que realizamos no Bistrô da Floresta, acho que em maio. Espero que gostem.

Porto Velho - Junho de 2012 José Danilo Rangel
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Fixai com pensamentos perduráveis o que flutua sobre vagas aparências
Goethe, em Fausto

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Para acessar é só clicar sobre a imagem.

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Conto

A profecia do Sertão
Nardiane Balbino da Silva
Era um tempo em que a terra era seca, não se sabe se mais do que os corações dos sertanejos que viviam ali. O ar denso, pesado, quase irrespirável, transformava as coisas mais simples em sacrifícios diários. Não se via cores naquele lugar, além da cor marrom, que tão solitária, não coloria nada. Dizem por lá, que até a excelentíssima Morte, quando passava pelo sertão, vestia-se de marrom em respeito à tamanha dor dos homens da terra. Toda orgulhosa, ela se intitulava sertanista, aquela que é a única grande conhecedora do povo sertanejo e de seus costumes. Mas, também, quem, além dessa Diaba passava por ali? Ela era quase de casa, não havia um mês sequer, que a sertanista não desse uma passadinha no sertão para trabalhar. Mas, isso não quer dizer que ela era querida. Ao contrário, o sentimento que o povo sertanejo nutria por ela, no máximo podemos chamar de respeito. Às vezes, alguns deles até gemiam o seu nome. Chamavam a Diaba ao encontro deles, desejavam antes a morte, do que o sofrer lentamente. No início, muitos séculos atrás, a jovem Morte, recém-formada na faculdade da escuridão, carregava com ela toda a arrogância do conhecimento científico, pronto e acabado. Presunçosa, achava-se muito esperta, detentora de todo o conhecimento que
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precisava para ser a melhor buscadora de todos os tempos. Possuidora de um humor-negro, como ninguém, preparou uma peça para caçoar os infelizes no seu primeiro dia de trabalho. Ela sabia que os homens a imaginavam bastante caricata. Então, vestiu-se com um longo vestido preto com capuz, arranjou uma foice, e se foi com um sorriso largo. Chegando à terra rachada, os seus olhos ofuscaram-se com a claridade. Com tantos anos na sombra, aquele lugar devolveu a ela, novamente, a visão. Reza a lenda que foi aí que a Diaba, pela primeira vez, chorou. Não se sabe se foi pela forte claridade, ou pela dor quando enxergou pela primeira vez, a imagem amarronzada do sertão. Ainda zonza, esfregou os olhos com as mãos, uma, duas, três vezes. Xingou em pensamento o seu chefe, que não só no nome era “A Besta”. Era ele o responsável pela lotação das buscadoras. Não acreditava, na imagem que estava diante dos seus olhos. De que utilidade serviria uma buscadora, em um lugar que não tem vida? Quem ela iria buscar? Olhou em volta... Terra rachada. Alguns bichos magros. Mandacaru, xiquexique e palmas. A claridade tornava a visão embaçada. A Diaba apertada os olhos, na tentativa quase inútil de se proteger da luz. O tempo quente parecia ainda mais escaldante, quando olhava o chão, distorcido com o efeito da miragem. - Tem sertanejo em pó aqui. Tem sertanejo morto nesse chão! Todo esse pó marrom. Tudo isso é feito dessa gente! - disse a Diaba. Para a jovem buscadora, aquela terra tinha sido amaldiçoada. E ela junto, no momento em que pisou pela primeira vez no sertão. Depois de vagar por muito tempo, cansouse de carregar a foice, deixando-a no chão. E o vestido preto, agora estava marrom, coberto pela solidão em pó. Chegou a uma cidade chamada Canudos. Alegrou-se. Havia homens vivos. Compridos, magros, abatidos. Será que enfim a buscadora cumpriria o seu papel? Ninguém notava a sua presença. Insignificante, ela não aterrorizada aquele povo. Eles já viram bichos, muito mais feios que aquela Diaba. Ao longe, ela enxergou uma pequena multidão. Conduzindo a romaria, um homem alto,

muito magro, com cabelo comprido, vestido com um camisão azul. Destacou-se na imensidão opaca. As misturas de vozes compunham um canto triste e místico. O maestro era Antônio. Antônio Conselheiro. A Diaba foi coberta pela inveja. Ela desejava ser respeitada igual aquele homem. O tempo passou. Muitas almas ela buscou. A inveja transformou-se em compaixão. Como pode a Morte sentir tão admirável sentimento? Ora, caríssimo leitor, só há um caminho: o sofrimento. A buscadora viu todo o sofrimento daquele lugar. A fome, a sede, a seca deu a ela o respeito que ela desejava. Tornou-se aquela que levava mais almas. Mas, esse título para a sertanista, já não era tão querido assim. Pensou em uma forma de ajudar o sertão. Falou com Antônio Conselheiro, o beato que não se sabe se era doido ou santo. Ele proclamava a profecia, que um dia o sertão iria virar mar. A Diaba sorriu, não acreditava que um dilúvio com Noé fosse sair de uma terra que só brota mandacaru. Todo sofrimento que a buscadora tinha presenciado, não era nada perto do que se aproximava. No mês de março, em 1897, aconteceu o maior conflito que a caantiga já viu. A guerra de Canudos. Pilhas e pilhas de cadáveres se acumulavam no chão. A Diaba não conseguia levar tanta alma sozinha. E pela primeira vez, o chão rachado estava encharcado, mas era de sangue. Antônio Conselheiro, lutou até a morte pelo sertão, morreu como um santo. E para o povo sertanejo ele era divino. Um líder, um mito. Profeta de Deus, e amigo da Morte. A Diaba conseguiu o que queria quando se formou. Tornou-se a mais conhecida buscadora. Sustentou um título, que agora não queria mais amparar. Nos braços, ela carregava o herói sertanejo. E sem saber, realizou o prenúncio de Antônio Conselheiro. Foi preciso o profeta morrer, para sua maior profecia se cumprir. Naquele dia, o sertão virou mar. Um enorme açude de lágrimas brotou aonde o beato morreu. E diz a lenda, que essa foi então a segunda vez, que a excelentíssima Morte chorou.

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Foto : Maria Teresa Castelo Branco

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Crônica

Ironia em CAPS LOCK
César Augusto César Augusto

or que deveria ser diferente, se a gente vive o tempo todo cercado de ironia? Por que as ironias daquela mocinha a fariam mais brilhante que um filme de um final bem bolado? Eu não andava mais feliz que o normal, nem mais “eu lírico” que o normal, acreditava estar justo na medida dos homens e ainda assim aquele gostinho de sangue na boca após aquela ironia bem colocada ainda me fazia imitar o mocinho acertado por um golpe fraco, obrigado a revidar na mesma medida não importando a quantidade ou a qualidade dos inimigos, filmes demais, o roteiro daquela pessoinha exclamativa deveria com certeza ser analisado por um bom diretor, tanto soube disso que sequer tentei rimar escárnios onde simplesmente não eram cabíveis. Da mesma forma que não iria rimar amores, nem admiração, era uma coisa diferente, inquieta como aquela vontade que ela inspirava nos coleguinhas de escola no primário – Mãe, ele quer me bater! – hoje não tem mãe que escute, ela sabe também que se fosse pega a maioria não saberia o que fazer, assim como os cachorros que ladram para os carros não saberiam o que fazer com eles se o pegassem, ela tem uma prepotência tão irritante que sequer deve se dar ao trabalho de imaginar um belo dia em que aquele moço vai saber o que fazer quando conseguir
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correr mais rápido que ela, aí eu quero ver! Mas ao contrário do que vocês possam imaginar, ela não irá se tornar uma mulher ordinária de avental e rotina, odeia essa palavra feia como declarações de amor e “eu te amo” gratuitos nas baladas mais diversas, ela vai achar um modo de continuar correndo, vai achar um modo de continuar sendo perseguida e de despertar no moço a simples vontade de correr na sua direção sem saber o porquê. E quando estiver quietinha desconfie! Doces ou travessuras? Sem os doces! Arteira e moleca com um meio sorriso monalisa do tipo que “só os inteligentes podem ver”. E nos seus saltos de festa não se acha desequilíbrio, ela poderia passar você para trás em um pé só! O batom, marca as vitimas mais fracas! Mastiga homens como aquela balinha forte que muitos não aguentam, blindada de “tantos todos” os encantos, definitivamente conseguiria a lenda de escrever ironias em Caps Lock, ou achar a Atlântida, tanto faz. Destinada a feitos memoráveis que não precisam ser publicados, rápida demais para uma foto, volátil e inflamável demais para ser contida, brilhante demais para ser ignorada. Óculos escuros e cinismo quebrados em um primeiro contato, letal aos mais espertos, atraente para os desavisados com uma trilha sonora que aumenta a velocidade do tempo: - Você sabe por quanto tempo os homens enceram esse casulo de cinismo? – Você realmente acredita que isso te protege de alguma coisa?. Você acha que estava voando com aquelas asas de papelão desde os 8 anos de idade até agora e simplesmente: Bang! Você é acertado, sem corredores iluminados, sem máscaras de oxigênio ou bancos flutuantes! Não é pouso de emergência é uma queda livre em milésimos de segundo! Um piscar de olhos mostra que você simplesmente não tem nada para responder! Ela usou o Caps Lock mítico, armamento desproporcional ao arsenal dos inimigos ou aliados, tem um calibre pesado e nunca será apanhada nos detectores de metal das linhas, é guarda costas de si! Exercito de um só! Culpada dos piores crimes simplesmente por ser... ultraje, encanto, luto e núpcia debaixo de quilômetros de blindagem macia e rosada que rouba todos os raios solares, a maldição do Egito, purgatório dos homens, harém do pós vida, o antagonismo de viver em lábios vermelhos. Caps Lock de si, uma alma que não cabe no corpo! Alguém a detenha, pois só consigo a descrever!

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Para mais textos de César Augusto, acesse: EXPRESSõES! Junho 2012 | 10

Foto : Mari Azuelos

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Sobre Heróis e Tumbas
Cátia Cernov
A EXPRESSõES! nº 06, em Decodificando, traz artigo de José Danilo Rangel sobre heróis, o herói Batman mais especificamente. Uma excelente análise da moral do herói, o Cavaleiro das Trevas que traz luz para a superficie, ficando bem colocada a questão do bem e do mal inerente às pessoas, e cujas tabelas morais não lhe cabem. Mas sempre teve uma coisa que me incomoda muito meu espírito: a necessidade de heróis. Principalmente pelos heróis criados para nós (os americanos Superman, Spiderman, Batman...). Sempre desconfio das falácias que eles representam. Há uma rede de ideologia por detrás deles. Eles combatem os agressores da “paz e da ordem”, mas existe mesmo essa “paz e ordem” (“paz e ordem” mantida por forças, leis, exércitos) ou essa “paz e ordem” é uma invenção, uma simulação? Uma “paz e ordem” dos americanos, dos senhores, dos patrões, das empresas. Criam heróis que protegem o sistema de leis deles, o discurso civilizatório de seu império, os cidadãos bons pagadores de impostos, os que choram pela bandeira... E quanto ao “outro”? O bárbáro? (Duas-Caras, Curinga...). Estes, classificados como “antagonistas”, são representações de tudo aquilo que o sistema não quer - qualquer possibilidade de caos na ordem deles. Há uma tentativa de “limpar” a sociedade, um excesso de assepsia, quase hospitalar. É negar a parte maldita que é inerente a qualquer realidade. O Império Romano, no seu ápice cristão, combateu os bárbaros a tal ponto que acabaram por destruir a Biblioteca de Alexandria e tudo aquilo que hoje é ilegítimo! Sempre que assisto filmes americanos (raramente os vejo, já entendo as armadilhas deles), observo uma coisa: tudo gira em torno de “vingança”. O policial se vinga da morte do parceiro, o herói se

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vinga dos algozes do passado, a mulher se vinga do ex-companheiro. A mentalidade é tão enraizada com o termo vingança, um eixo conclui de alguma forma? Enfim, vingança é o que os impulsiona, tudo que fere o orgulho deles. É vingança em cima de vingança e mais vingança... nunca pára a roda cármica disso!!! E vingança é uma coisa do ego, que se irradia para o social. Os heróis acabam defendendo a ordem depois de consumadas suas vinganças, e quase por profissão, conforme requer os interesses do império que “canalizam” suas virtudes. Eu sempre desconfio quando me oferecem heróis, pois eles nos salvam, esperamos algo deles em vez de nós mesmos. Achei forças em mim mesma quando rompi com eles. Restitui minha sensibilidade quando desliguei a TV! E assim vão nossas crianças se espelhando neles, nos heróis deles, esperando que eles (representantes do poder divino na terra, com sua missão de civilizar os povos, destino manifesto) venham ter por nós. E assim permaneceremos submissos a eles. Eles simulam o caos (um Duas-Caras) e nos mostram quem vai repor a ordem (o Batman): acho isso uma armadilha terrível. As mídias estão focadas nos conflitos que nos dão a sensação de caos, e isso requer que alguém venha instalar a ordem, algo nos é apresentado como restituidor dessa ordem (os tiras, os heróis, os veteranos de guerra, os Trasnformers). A introdução do arquétipo do herói se instala na construção de um mito. Muitos mitos ficaram para trás, superamos-lhes? Ou foram substituíidos por outros mitos? Quebramos os mitos e passamos a inventar mitos? Medo de nossa nudez? Medo de termos nós mesmos de encarar tais conflitos? Nos falta alguém pra falar por nós? Não, não nos falta, mas fazem que acrediteamos que falta, já que vivemos numa democracia representativa, e vivemos tanto tempo sob o jugo de algum senhor que é dificil imaginar fazermos alguma coisa nós mesmos. E quando imaginamos que podemos alguma coisa, acabamos por ceder tal liberdade aos anti-heróois. Como uma subversão instintiva de cada cidadão que, no fundo, se sabe usurpado e manipulado por forças alheias aos seus interesses. Então, nascem paralelamente os anti-heróis. Destaques pra atuação do Curinga no filme! (pra mim o Curinga sempre roubou a cena!).

Shrek, Chapolin, Simpsons... E tudo se irradia para todos os cantos do mundo. Anti-heróis criados pelo brazilian way of life – “Cidade de Deus” e Dadinho; e heróis contra esses anti-heróis – “Tropa de Elite” e o Capitão Nascimento... Sempre uma dúvida seguida de uma resposta pronta. Armadilhas! Mas vivemos agora num mundo que, apesar de ainda brilharem heróis e anti-heróis reinam os piratas! Piratas na rede, piratas de software, piratas no rádio, piratas nas ruas, piratas libertando informações, hackers lançando satélites, camelôs e seus “genéricos” fugindo e rindo da cara da polícia... Os piratas ganham uma dimensão espetacular, lutam abertamente por seu espaço e sua significação. Será que estamos cansandos dos heróis e seus antagonistas? Será que tudo se tornou tão previsível - quem já não enxerga o roteiro programado por detráas das tramas de Hollywood? – que esperamos algo de novo dos piratas? O sistema de ordem se saturou até tal ponto que agora tudo o que desejamos é o caos, um navio pirata abordando um porta-aviões, roubando os signos do império, se apropriando das imagens e transfigurando para dar outro sentido. As guerras que acontecem pelo domínio do ciberespaço são exemplos disso. Há hoje uma legitmidade possível no que antes era pirata. Viva The Pirate Bay!! Os piratas estão vivos, próximos, cruzam nossas rotinas em cinrcunsstâncias reais, e não são apenas imagens e simulações dos heróis, distantes do real. Independente dessa minha desconfiança pelos heróis, o que José Danilo Rangel escreveu sobre a moral do Batman é bem acertada, ele não perde seus méritos por isso (nem Rangel, nem Batman). Amo as dualidades que eles buscam conciliar, se entender, a moral como um jogo de sobrevivência. E o que respondo só alimenta as outras possibilidades de ver as coisas. Desconfiar daquilo que está tão bem estabelecido que se simula invencível. Enxergar o que há por detráas das imagens, e principalmente o modo como tais imagens nos são colocadas. Mas... será que os piratas se tornarão corsários? Saqueadores autorizados em nome de algum rei? Fiquemos atentos!
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Foto : Maria Teresa Castelo Branco

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Literatura em Rede

Foto : Mari Azuelos

Nem Deus, nem Diabo, Ferrovia da passividade:
Relato de Dois Jovens em Rondônia.
Camila Felisberto Sousa e Rafael Ademir Oliveira de Andrade1

1. Acadêmica do curso de História. Acadêmico do Programa de Pós Graduação em Educação. Ambos estudantes da Universidade Federal de Rondônia.

Muito mais importante do que os problemas sociais que abarcam este Estado é se iremos tratar a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré de “ferrovia do diabo” ou “ferrovia de Deus”. Porque os milhares de cidadãos em condição miserável, os pedintes, os usuários de drogas, os jovens em contato com o mundo violento do tráfico, a educação e a saúde sempre reciclada pelos governantes devem esperar que Excelentíssimos artistas reunidos no Encontro das Fronteiras (e já é o 2º!) decidam se a ferrovia é celestial ou abissal. Porque estas dificuldades sociais não são abarcadas por esta arte regional? Que de regional não tem nada.
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Pois uma arte regional poderia até mesmo tratar destes assuntos, mas se preocuparia com os seres que estão (após) nos espaços geográficos e os monumentos culturais, cultuados acima de tudo como pilares e deuses do progresso, que Rondônia está aquém, pois é indígena e ultrapassada. Os povos tradicionais devem ser lidos apenas como heróis, sacrificados em nome do progresso e como são preguiçosos aqueles que insistem em se chamar indígenas visando “mamar nas tetas do governo”. Esta forma de arte local, preocupada em criar seus heróis, em pintar Rondônia para o Brasil e o mundo, pouco se preocupa com Rondônia. Se ela discute quem é o dono da Casa de Cultura ou do Mercado Cultural, se é bendita ou maldita a Ferrovia, se ela canta odes ao progresso que chegou com a ciência à atrasada e primitiva Rondônia, se Deus, o Deus cristão e não o deus das diversidades, está com eles ou não, como presidentes americanos em suas cadeiras, dominando o mundo que antes era sem cor. Estes artistas locais não dão cor à Rondônia, eles a deixam atrás da fala do Estado e do positivismo gritante de nossa sociedade excludente e alienante. O pensador Foot Hardman já aponta que é importante não cultuar a Estrada de Ferro como é de interesse destes artistas reunidos neste encontro das fronteiras, mas sim olhar para o passado e fazer uma referência direta ao presente. Coisa que não fazem nossos grandes artistas, e olha que eles viveram suas vidas para “pensar Rondônia”. Lá, reunido no calor das compras de Guajará Mirim, esqueceram das mortes que ocorreram nas obras da Ferrovia do DEABO. Não sabem que duas justificativas foram decisivas para a construção de uma estrada de ferro no meio do “inferno verde”: primeiro, propiciar a todos um meio de transporte mais moderno (com maior rapidez, ‘menor custo’), segundo o que subjaz a esse discurso, estava implícita a facilitação

das relações comerciais. Assim o essencial na construção, inauguração e ativação das linhas ferroviárias era o desenvolvimento econômico (lograr uma forma de comércio mundial que fosse eficaz). E como desenvolvimento econômico, voltado para o progresso, (como por exemplo, as usinas) ele visa melhorar o processo de acúmulo de capital por parte de alguns, matando os animais e pessoas que forem necessários para o fim sagrado desta tarefa. E toda “tarefa sagrada” tem seus bardos, seus poetas e tem seus mortos, injustiçados. E por trás da “tarefa sagrada” há um porco burguês enriquecendo e o cidadão sendo oprimido. Nós poderíamos esperar que os “bardos e escribas de Rondônia” partissem em defesa dos homens que morreram, dos homens que vivem, mas isso é utopia. Eles defendem a característica sagrada da missão do progresso, chamando a Ferrovia de “de Deus”. Assim como eles se calaram quando as Usinas vieram e poucos, alguns mais progressistas, foram registrar os erros já cometidos por todos nós. Daqui uns anos, se curvem para esta visão profética, estarão os Excelentíssimos Acadêmicos e Poetas de Rondônia cultuando o progresso das Usinas de Deus, e não do Deabo, enquanto outros milhares de Rondonienses continuam a ser explorados pelos filhos das elites. Os filhos dos poetas bajulam os filhos da burguesia, e no fim, todos acabam por feder!

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Foto : Mari Azuelos

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10 dicas para não ser considerado louco e outro monte de coisas
Meu solitário andar por entre a gente, na praça do half, quando a frequentava, entre amigos e, especialmente, na escola, sempre foi marcado por uma fama: a de que eu era louco. Talvez seja, não gosto de eliminar hipóteses não experimentadas, mas não se trata disso, trata-se de viver em sociedade e, para isso, aprendi a abrir mão de algumas coisas em prol de outras. Pensando, entretanto, naqueles poucos cujo andar por entre a gente está sempre colorido por uma reputação semelhante, só porque tem gostos e pensamentos e interesses distintos daqueles preceituados pelos discursos comunais - afinal, a gente tem um critério muito abrangente para diagnosticar loucura: não foi igual, é louco - decidi escrever essas modestas dicas. Por fim, um parênteses, pois se me deixei escapar o escopo, não fui de todo desleal à sua intenção. José Danilo Rangel

1. Filosofe Com Moderação Nem consigo calcular de quantos constrangimentos eu seria poupa caso alguém dissesse ao jovem José Danilo: meu filho, muito bonito tudo isso que você fala, contudo, não entende que para o resto do mundo é tudo bobagem? - É o que aprendi, com o tempo e alguns chutes na cara. Discorrer sobre assuntos que exigem um certo nível intelectual nem sempre é bem visto pelos outros, talvez porque eles temam não ter poder sobre você, por você não compartilhar preceitos, valores e outras das suas ideias cotidianas. Funciona assim, quando assimilo um valor geral, admito e passo a obedecêlo, no fim, o que ganho com isso é o poder conferido pela obviedade desse valor para controlar o outro. Talvez, seja mesmo estranho ouvir alguém falar sobre determinadas questões... Em todo caso: vigiai!

2. Debater Tem Hora e Lugar Por falta de lugar onde expor minhas ideias, para testá-las, para expô-las a críticas, e ouvir argumentos, acabei disseminando-as em vários círculos: besteira! O que tem de mais belo em Dom Casmurro é a tese apresentada por Machado de Assis sobre tomarmos decisões baseados em indícios e humores e nunca exatamente sobre aquilo que nos apresenta a realidade? Fernando Pessoa assume um de seus heterônimos como platonista e místico, em certo sentido, metafisicista? Camões talvez tivesse sido bipolar? Gonzalez não sei de quê resolve a questão do pensamento e da razão assumindo a dualidade cognitivista configuração/operação? Ninguém está nem aí para isso. Quer falar sobre essas coisas: Vá para a faculdade! – Brincadeira, lá é como todo outro lugar. A manha é achar gente que se importe com esse tipo
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de tema, de outro, modo, falarás às paredes. O que, do alcance racional. Entendeu? Vai perder tempo pra em todo caso, é um pouco triste, mas não chega a ser quê? Vá ler outro livro novo! deprimente. 3. Não Blasfemai o Dinheiro! Pergunta: Danilo, o que você pretende com a sua poesia? Resposta: Dizer algumas coisas que penso, que sinto, expressar. O que gera uma nova pergunta: e os concursos públicos, tá fazendo? Nova resposta: Não. Nova pergunta(acompanhada por um gesto de espanto e recriminação): Por que não? De alguma forma, estabeleceu-se que o Dinheiro (com D maiúsculo) é o fim de todas as coisas. Nunca entendi direito esse teleologismo capitalista, mas, como disse acima, é preciso andar por entre a gente. Se tens pretensões que não são claramente direcionadas ao acúmulo de riquezas, seja qual for, acrescente ao final da frase em que expô-la: e ficar milionário, claro! Exemplo: Danilo, por que tu lê tanto? Resposta: para saber... (cara de desconfiança do inquiridor e então o gran finale) e ficar milionário, claro! Outro exemplo: Danilo, por que tu escreve poesias? Resposta: Para dizer algumas coisas que penso, que sinto, expressar... (cara de desconfiança e então) e ficar milionário, claro! Dizer que dinheiro não é tudo, é até bonito! Outra coisa é viver dentro do que recomenda este preceito, se você vive, já tem trabalho suficiente, não? Então, por que perder tempo tentando explicar que ficar milionário não é tudo? Embora, de minha parte, eu tenha como objetivo principal da minha existência ficar milionário, claro! 5. Nada de Panelas e Intolerância Sabe aquele pessoal detestável que nunca muda, nunca cresce, e que, provavelmente vai passar a vida toda numa tentativa contínua e desesperada de manter tudo como está? Fazer panelas, grupinhos fechados e ser intolerante com toda a imensa coleção de pessoas distintas que há pelo mundo é a forma mais eficiente de imitá-lo, de arrecadar o seu destino. Sei, você é inteligente e acaba de perceber que estou sendo contraditório pois, logo acima, falo para encontrar pessoas certas com quem compartilhar esses gostos e pensamentos estranhos. Falei, por acaso, para fundar um clube secreto? Acho que não. Encontrar pessoas com quem compartilhar e se limitar a andar com elas são coisas diferentes. 6. Não Se Esconda.

De novo, contradição, não é? Sim Danilo, ali na dica você diz para não perder tempo lutando contra a obviedade. E agora vem com essa de “não se esconda”? Calma. A contradição é só aparente. Já te falei que a Vida é um carnaval de circunstâncias? Não? Pois é: a Vida é um carnaval de circunstâncias, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança, todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Entendeu já? Certo, vamos tentar de novo: a Vida é um carnaval de circunstâncias e é preciso reconhecer 4. Não Lute Contra a Obviedade os momentos que nos são apresentados, uma hora é preciso falar, outra hora, é preciso calar, uma hora é Quer entrar numa batalha perdida? Tente preciso fazer, outra hora é preciso se aquietar. Se você convencer uma pessoa acostumada ao por que sim acatar o que dita aquela conjuntura que faz com que dogmático de todas as ideias sedimentadas de que você tenha vontade de não mais tentar ser quem é e esse por que sim não é resposta. Pior, tente convencer passar a tomá-la como plano geral da existência, vai um bando dessas pessoas. Sim, eu sei, é divertido, mas acabar desaparecendo, tornando-se outra pessoa. é fracasso indubitável! Acontece assim, as vivências Acho que fui claro... em comunidade nos vão fazendo assumir ideias como óbvias, como se elas estivessem aí desde a criação do mundo, não se foge disso, há, contudo, aqueles 7. Não Assuma o Rótulo onde o nível de assunção é menor, e, a maioria, sobre quem as ideias assimiladas são bem mais numerosas e Já me chamaram de príncipe e me quiseram resistentes. Entenda que essas ideias ou estão em cima, impecável como um e, por isso, me recriminavam ou embaixo, ou ao lado daquela parte do cérebro onde quando eu não lavava o cabelo, ou arrotava depois ficam as habilidades raciocínicas, de todo modo, fora de uma boa refeição. Também já me trataram como
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vagabundo e, por isso, me recriminavam, quando eu assumia uma postura responsável. Com muitas outras personalidades me rotularam, é normal, deve ser um dispositivo sociológico e psicológico de organização do mundo percebido. O problema aparece quando você faz força para caber nas expectativas alheias, quando as assume e passa a dedicar energia ao correspondê-las, especialmente, quando custam uma boa parcela do que você é. Aqui cabe uma ressalva: tentando convencer alguém que você como esperam que seja, ou, fazendo exatamente o contrário, você vai estar respondendo ao rótulo, então, duplo cuidado. 8. Livre-se da Presunção. Você, capaz de decifrar complexas charadas matemáticas, dominador de várias línguas, orgulhoso por ter aprendido inglês sozinho por causa dos RPGs que joga, que sabe o que significa idiossincrasia, hermenêutica, e outros mais verbetes desusados, amador da história, da filosofia e de muitos outros exercícios mentais, não se aparte da realidade. Com o tempo, a forma com que pessoas como você encontram para resistir ao esmeril que é a vida social é valorizar-se além da medida, construir um pedestal para si, e passar a considerar todos os outros de cima dele, defini-los como massa, multidão, ignorantes e nominações equivalentes. Aí, quem se torna ignorante é você, por ignorar a grande miríade de possibilidades existentes nessa aparente gosma de ninguéns que está acostumado a ver.

e tratai de esculpi-las e apresentá-las ao rigor dos temporais, pois, de tal modo, observareis seu desgaste, e aprendereis a dispor o que for resto como coisa de vosso uso pessoal, que serão elas vossas amigas. Dizendo de outro jeito: experimente, teste, aplique suas grandes concepções na construção de si, na lida cotidiana e, cedo ou tarde, você vai perceber que não sabe tanto assim e é exatamente aí, que encontrará ou um bom motivo para queimar todos os livros da estante, ou de persistir na senda tortuosa daqueles que mais que pensam - fazem. Muita gente já disse – você transforma o mundo, o mundo transforma você. 10. Ame a Bênção Recebida

Já passei por tanta coisa por gostar de ler e por ter certos pensamentos, coisas que vão de idas à diretoria sob acusação de arrogância e algo que era como desrespeito à autoridade professoral, até uma porrada de foras que sempre foram mais ou menos assim: Danilo, tu só sabe conversar sobre essas besteiras? Ainda tem as dificuldades nos trabalhos por quais passei, no atual também. Enfim... A ponto de me sentir muito só e muito besta. Contudo, hoje, sei que não vai ser todo mundo que será capaz de conversar sobre “essas besteiras”. Sabe aquele livro que você leu e o amou? Pouca gente vai passar por isso. Sabe aquele momento mágico quando você resolve uma equação e fica contente por finalmente ter entendido? Aquele dia, quando você aprende algo novo? Aquela vez, quando defendeu um valor não com verbos, mas com atos e no fim, sentiu que valeu a pena? Aquele instante quando você entendeu algo e isso contribuiu 9. Experimente, Teste, Aplique. para a sua liberdade? Quando você resolveu um problema fácil fácil porque tinha disponível um Conhecimento enquanto conhecimento grande ferramental de ideias? Pense e logo logo vai é nada. É imprescindível lhe dar braços e pernas e encontrar depois de todas essas pequenas dificuldades bocas, para agir, para andar, para falar. Sabe todas a maravilha de ter persistido. Pouca gente, rara gente, aquelas lindíssimas conceituações que você apreende passará por isso. Entendeu? Não, ainda não entendeu. no decurso da vida acadêmica, pense comigo, quantas Quando entender vai se sentir bem, vai se sentir livre, delas você transforma em movimento? Sabe todas e, não é que vai deixar de se importar com o que as aquelas concepções que você desenvolve diante do pessoas pensam, vai aprender, entanto, a se importar mundo ainda conceitual que é este mundo aprendido com o que pensam somente àquelas com quem vale a em livros e aulas e palestras? Quantas delas estão pena se importar. disponíveis ao usufruto? E não estou falando em convertê-las em formas de ficar rico, como preceitua o utilitarismo capitalista, mas em serem, todas as ideias e todos os lampejos, transformadas em ferramentas com as quais lidar com o mundo e a gente nele. Tomaias, irmãos, entre os dedos desacostumados à escultura, ....................................................................
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Foto : Maria Teresa Castelo Branco

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Visões Poéticas

Embaixo da cama, recolhi uns versos, Empoeirados, amassados e descartados, Tal como ficam sentimentos abusados Tal como espreitam, tal como esperam Linhas irreconhecíveis de um tal amor Substituído, amassado entre verbos Tal como ficam estes poetas cegos Tal como tateiam tais sílabas de dor. Versos banidos do mundo efêmero, Transitórios desejos eternos sem pai Tal como morrem de aspas os imortais Tal como fraquejam, tal poder supremo Virgulas ignoradas e remetentes estrangeiros Paisagens apagadas nas reticências diurnas Tal como ficam debaixo de um leito de brumas Tal como maldizem o que carregam no seio Em baixo da cama recolhi umas promessas, Póstumas, funestas, canalhas e ciganas Tal como enlouquecem, tal como enganam Tal como sabemos, tal como essas. E meu desejo transportou para a poeira Para o calabouço lúdico de outrora Tal como consomem, tal como isolam, Tal como quem, tal como queira, Tal como moram. Poeira.
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poeira
texto: César augusto Fotos: Henderson baena

P o e s i a

Ele andava pelos bares E a sua risada, falavam alguns Era a que mais fervilhava os corações. As mulheres simpáticas, lhe lançavam Alguns gestos permissivos E os copos sempre cheios Lhe mantinham alegre; A música eufórica, assim como Todos os homens daquele local. A noite segue quente E o corpo já pede outro Para se lançar. Lá vai ele dançando pacato Apurando seu charme Desejando algo que o satisfaça. (Não precisa alcançar seu íntimo) Logo aparece uma sutileza Um pouco de conversa A intenção já está concordada Um novo corpo, Alguém que tenha calor Mesmo que não chegue a esquentar (Daquele jeito, naquele som). De manhã, já é novo dia, Volta aos livros, Passeia pela tarde, Já chega uma nova carta O endereço para chegar, Mas... Ele andava pelos bares E a sua risada, falavam alguns Era a que mais fervilhava os corações... Gabi Amadio

Curta a fanpage da Gabi Amadio....

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P o e s i a

Respirar
Em algum lugar fora desse ar Que aqui corta os asfaltos Rodovias Latas de lixo orgânico vazias Penso eu, quem sabe, Haver um ar estranho. Bem além mesmo, Depois que a rua esqueceu-se de si mesma. Um vento estranho, talvez solene. Quem sabe cheio de marra e autoridade. Um ar que pulmões sadios da realidade respiram. Ou não. Fresca brisa que refresca seres pequenos, nunca caçados Espíritos livres, ecossistemas melindrosos. Esse ar que, à priori, senti sair de páginas cansadas, Mas não sei por quê, Temo pensar que há de soprar, nalgum lugar, Um frio gostoso de fim de noite Com orquestras de sapos Percussões de seixos vitorianos E o respirar de galhos gordos como pano de fundo. Um ar de uma alegria magra e escondida entre papéis Carimbos e pranchetas. Gostaria sentir, ainda em vida, pudera eu, Esse ar que parece vida, parece vivo. Esse ar de sonho. Bruno Honorato

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D.R.
P o e s i a Precisamos conversar? Precisamos conversar sobre o quê? O quê? Sério mesmo? Tem certeza? Sobre eu não ter mais tempo pra você? Eu não tenho mais tempo pra você, né? Tempo nenhum, momento algum, né? Ah, Poesia, tá de brincadeira comigo? Já está todo mundo reparando, Eu vivo cansado, vivo com sono, Bocejo mais que falo! E tudo isso, porque você Não sabe o que é conveniência. Aparece quando quer. E fica. No trabalho, na faculdade, No ônibus, no almoço, Quando estou andando na rua, Quando estou numa festa, Toda hora é hora, pra você! Não, não quero “dar um tempo”, Tá vendo? Ou é do seu jeito, ou não é! Acha que eu quero que suma de novo? Não, não quero... Não entende? Não é isso! Só preciso dormir depois das 23, Pelo menos depois das 23. Custa me deixar dormir? Como assim eu mudei? Como assim eu não te amo mais? Que outra? Que outras? Tá bom, tudo bem... Esquece! Finge que não toquei no assunto... Que cara é essa? O que foi? Tudo bem, estou calmo. O que foi? Como assim “NADA, NÃO”?
José Danilo Rangel

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Foto : Mari Azuelos

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uadro uadro

Orgulho e Preconceito
Laisa Winter
O filme, de 2006, é baseado em um dos maiores romances da escritora inglesa Jane Austen, Pride and Prejudice, (Orgulho e Preconceito). Publicado pela primeira vez em 1813, terminado, porém, em 1797, antes que Austen completasse 21 anos. A história nos mostra a protagonista Elizabeth Bennet, Lizzy para os mais íntimos, e sua maneira de lidar com as limitações de uma mulher vivendo no século XIX, quando a essas não era permitida a educação. Das mulheres da alta sociedade às plebeias, restava apenas o casamento como forma de mudar de vida. Para muitas mulheres que viveram naquela época, a maior preocupação era conquistar um marido rico e não trabalhar mais. E não era à toa. No século XIX a herança não era direito de nenhuma mulher. Como primeira opção, os bens de uma família sem um herdeiro iriam para o parente mais próximo, a
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segunda era o governo. Nada mais sobraria para uma mulher, além da miséria. Nos primeiros minutos do filme , somos apresentados às animadas e empolgantes irmãs Bennet, Jane, Elizabeth, Mary, Kitty e Lydia. Todas na sala da aconchegante casa dos Bennet, onde logo o espectador se sente bemvindo, não só pela simplicidade e (verdadeira) simpatia dos Bennet, que se contrasta com boa parte de outros personagens que surgirão ao longo do filme. Como Sr. Darcy, sempre com seu olhar desconfiado, a arrogante irmã de seu simpático e tímido amigo Sr. Bingley, Caroline Bingley. A procedência dessa sensação de hospitalidade deve ser creditada à direção de Wright, que passeia as camêras por cômodos mostrando vários personagens. Olhando com atenção e, às vezes, apenas, olhando, podemos perceber, bem diante de nossos olhos, amores secretos, esmagados diante da grande responsabilidade de eternizar o nome e os costumes de suas famílias, impostas a pessoas que desde muito jovens são “abençoadas” com grandes obrigações. Sendo Elizabeth a segunda de cinco filhas, mesmo contrariada, ela sabe que logo terá que arrumar um pretendente, até por sua segurança, e na casa dos Bennet não se fala em outra coisa além de casamento. Sr. Bingley, que está procurando uma propriedade no campo, decide dar um

baile para conhecer os moradores de Meryton. Uma oportunidade que a Sra. Bennet não pode perder para procurar maridos para suas filhas. A partir daí começam as várias reviravoltas que envolvem Elizabeth e Sr. Darcy, cada um representando seu orgulho e preconceito. Ela o acha intratável, e ele apenas vê a sua condição financeira. A fidelidade ao livro é respeitável, há diálogos inteiros transferidos do livro, fielmente transpostos, algo importantíssimo e raro. Quem já viu seu livro ou gibi favorito virar filme sabe do que eu estou falando. Vale destacar a ótima fotografia, a atuação de Keira Knightley, com 27 anos e com a experiência de mais de 20 filmes, indicada ao Oscar de melhor atriz. E a explêndida trilha sonora composta por Dario Marianelli (Desejo e Reparação, Os Irmãos Grimm, Comer, Rezar, Amar e O Solista), também indicado pela academia. Após o término do filme você dificilmente não terá vontade de sair procurando pelo livro em busca de mais detalhes sobre os moradores de Meryton. Foi o que eu fiz, mas não parei no livro, também fui atrás de obter as séries e as primeiras versões do filme.

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1 Ano de Estúdio 1/4
Um dos problemas enfrentados pelos artistas locais é a falta de apoio e incentivo, por isso, tanta gente de mal com as instituições – estão todos esperando que de uma hora para outra tudo mude, enquanto isso, um outro pessoal vai agindo no grande espaço fora dos limites instituicionais e, apesar da falta de apoio e tempo e dinheiro para equipamento, gasolina e muitos outros obstáculos, estão aí, fazendo, produzindo. O Estúdio 1/4 é um perfeito exemplo. É um estúdio independente que usa a mídia alternativa para incentivar produções artísticas locais, disponibilizando material de qualidade na internet. Isso há já um ano. E foi sob esse pretexto que aconteceu a comemoração no dia 26 de maio, afinal, um ano de atividade independente, lutando
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contra a falta de tempo, de equipamento, de incentivo e tudo mais, é algo que se deve comemorar e também motivo para dizer “estamos aí, há um ano, tá ligado?” A festa cultural aconteceu na sede do estúdio 1/4, a casa da Michele, no sábado dia 26 de maio, e sua programação contou com feira de trocas, apresentação de bandas, varal de fotografias, e apresentação de vários poetas. A primeira banda a se apresentar foi a Lótus, ela ocupou o ambiente montado para as bandas no alpendre da frente e tocaram várias músicas do Nirvana. Enquanto isso, no segundo ambiente, nos fundos, estruturado à beira da piscina acontecia a “deejayagem” com Leo, que mandou um sonzinho relax pra galera. Mais tarde o vocalista da banda Orbe, Márcio Marques, fez uma apresentação solo com voz e violão, tocando músicas conhecidas e algumas versões próprias. Depois, ainda ocuparam o palco a Overdose DS, Três Acordes, Gilberto Lobo e Leonel Almeida e Orbe. No ambiente montando na pérgula da piscina o pessoal da Manoa, grupo de rap, mandou ver. Logo depois, o primeiro momento da Poesia. Eu e o César falamos um pouco sobre a Poesia e recitamos um material. No segundo momento, Elias Balthazar, Elizeu Braga e Cátia Cernov, acompanhados pelas Testemunhas de Giovani e Nino Amorim, trouxeram João

Cabral de Melo Neto de volta à vida com o acompanhamento, numa performance cheia de Música e Poesia. Para finalizar, Binho, violão e Música e Poesia no peito, assenhorouse com propriedade do microfone. Nós da revista EXPRESSõES! parabenizamos por ter conseguido reunir tanta gente e tantas expressões num mesmo lugar, tanto como a iniciativa e a manutenção do projeto Estúdio 1/4. E torcemos para mais outros muitos anos de produções e de festas culturais como a que aconteceu, repleta das diversidades artísticas por aqui encontradas.

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Fotorama

Foto: Douglas Diógenes

1 ano de Estúdio 1/4
Lótus

Fotos: Douglas Diógenes

Overdose DS
Fotos: Douglas Diógenes

Gilberto Lobo e Leonel Almeida
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Foto: Douglas Diógenes

Foto: Douglas Diógenes

Márcio Marques
Foto: Douglas Diógenes

Três Acordes

César Augusto

Leo

José Danilo Rangel
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Foto: Sérgio P. Cruz

Foto: Sérgio P. Cruz

Cátia Cernov

Elizeu Braga
Foto: Sérgio P. Cruz

Foto: Douglas Diógenes

Foto: Douglas Diógenes

Manoa

Elias Balthazar

Nino Amorim

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Fotos: Douglas Diógenes

Testemunhas de Giovani
Foto: Douglas Diógenes

Binho
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Clique nas imagens para ver os vídeos:

Entrevista com Binho

Música de Cabeceira: Hereditário / Orbe

Música de Cabeceira - Luto/ Theoria das Cordas

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Especial

QUAL É A GRAÇA DA POESIA?
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Perguntar é Preciso!
Estamos tão envolvidos com a sensação do óbvio, que perguntar sobre o que está aí, estabelecido ninguém sabe exatamente como, parece coisa de idiota e aquele que pergunta, geralmente é tratado como tal. Contudo, romper essa camada do “todo mundo sabe e quem não sabe é burro, ou doido, ou idiota”, é já um primeiro passo para o advento de entendimentos baseados em algo, senão perfeitamente seguro, pelo menos, mais sofisticado do que toda a impressão de saber coletivo sendimentado sobre o por que sim e por que não. Toda mudança, se não é antecedida pela adição de um elemento estranho à coleção de fatores sustentadores de uma determinada dinâmica, é precedida pela transformação de um destes fatores essenciais. No caso da nossa Porto Velho, o primeiro caso é verdadeiro e aplicável. Apesar de vários outros eventos acrescentados à nossa realidade e nela transmutados, a implementação das usinas, de fato, está se mostrando o fator determinante de muitas das transformações ocorridas por aqui nos mais variados aspectos de nossas vidas, passando pela economia, pela política, e chegando à cultura. Diante da expectativa da transformação, temos várias disposições, as daqueles que estão ansiosos por alguma dose forte e quase insuportável de qualquer coisa, as dos esperançosos, que estão sentados agora mesmo em suas cadeiras de balanço, sorrindo com a espera da sua merecida parcela de um futuro bem melhor para todos, contudo, as que agora me interessam referem-se à literatura e são, primeiro: a dos mantenedores, estes que estão fazendo de tudo para carregar para o futuro aquilo que se consolidou em tempos diversos, segundo: a dos oportunistas, ou transformadores (para ser eufêmico), para estes o momento é o certo para se inserir no contexto cultural. É evidente que me ponho no segundo grupo, contudo, a verdade é que não sou imbecil para abrir mão do que aqueles que me antecederam foram capazes de conquistar, muito menos de lhes tirar o mérito da conquista. A realidade literária local tem essa dialética e embora o dialetismo taoísta empobreça as possibilidades de análise, reduzindo o cárater multifatorial do analisado a duas facetas conflitantes, aqui, cai muito bem, por sintetizar as forças principais. O ponto essencial, todavia, não é aproveitar o momento atual de assédio crítico a tantos valores, conceitos e conceituações para lhes tomar o lugar. Acredito que o que realmente é preciso é reavivar discussões, espíritos, humores, acordar os mais velhos, pôr os mais novos para trabalhar, e ver no que vai dar. Foi a partir destes e de outros pensamentos e ânimos, que montamos o “qual é a graça da Poesia?”, tema que, pelo menos, nos encontros sociais mais diversos pensamos ser de conhecimento de todos. Exatamente, por não ser um conhecimento tão de todos assim. Agradecemos de antemão à Margot Paiva, por ter cedido seu maravilhoso Bistrô da Floresta, lugar perfeitamente adequado a eventos dessa espécie. Também, a Elizeu Braga, Elias Balthazar e Cátia Cernov, por adicionarem seus matizes àquela noite de perguntas, risos, desconfiança e poesias, e a todos os que foram nos prestigiar. A seguir, apresentamos, eu e o César Augusto, nossos primeiros trabalhos com a temática.

José Danilo Rangel

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A Graça da Poesia
Ai daquele que ousado procurar A lógica-graça na linha que dizia Que o compor haveria de animar Que haveria alguma graça na Poesia Ai daquele que redigir explicando O objeto-fim-meio dessa fábrica Que não tem de realidade ou fábula Que não tem do céu, nem do mundano Ai daqueles, que rirem da desgraça Que calarem seus dedos inexpressivos Que animarem calados, ausentes e passivos Ai daqueles que descobrirem a graça. Se existe uma graça em vocês, e neles Ai daquele que trovar tentando! Ai de nós, ai de Deus, ai de quando A graça se for só com eles. Ai de mim, que não acho, que não sou Que não tenho a graça, que não tenho a fibra Ai de nós, ai de Deus, Ai da vida! Ai da morte, Animou. Ai daquele que por descuido descobrir Segredo tão bem amarrado nas costas Ai daquele exilado, ai de suas obras! Que só os iniciados hão de sentir! Ai daquele que descobrir, A graça da Poesia se ela existir!

César Augusto

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Bistrô da Floresta, foto : Michele Saraiva

Mas Qual É A Graça da Poesia?
Por César Augusto
Qual é a graça da Poesia? O que ela tem de tão bom e notável para ser melhor ou pior que um Tche Tche Tche e do Tchu Tcha Tcha Tchu Tchu Tcha? Só porque ela não é musicada? Mas por que então ela canta? Porque tantas vezes fechamos os olhos nas linhas? A graça da Poesia é ser fina e entrar nos olhos? Ou no nariz? A Poesia é um grande espirro? Daqueles desconfortantes no meio de uma reunião ou quando você está com a boca cheia? A graça da Poesia é te pegar desprevenido sempre, mesmo quando você acha que esta armado até os dentes de insensibilidade, e cheio de oral “b”– sem trocadilhos sexuais por favor. Mas continuando, qual é a graça da Poesia? Esses poetas malucos, esses caras estranhos com seus chapéus, com seus cachimbos, com seus verbos intransitivos, instransigentes, em uma análise morfológica e sintática sem graça, mas onde está realmente a graça da Poesia? Onde ela está escondida, quão enterrada ela permanece, será mais fácil acharmos petróleo? Ou chegarmos ao Japão antes de saber realmente onde esta questão se esconde?. Simplifiquemos então, qual seria a graça dos poetas? Elias Balthazar disse que somos todos canibais, mas tenho certeza que nunca provou da carne de outro poeta até sentir o sangue na boca – assim espero, e de modo nenhum sou voluntário! Disse ainda algo sobre os mortos da humanidade, mas tenho certeza que nunca viu um zumbi tão perto senão assistindo a noite dos mortos vivos, e eu não digo um seriado recente de zumbis porque os poetas não gostam destas modernidades, não, de forma nenhuma, muito embora o senhor Balthazar tenha escrito sobre nossas penas online, nossos notebook’s.
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A graça da Poesia sempre foi compartilhada sem facebook, ou “i Likes”, ela nunca precisou enriquecer ninguém e muito menos – voltando aos zumbis – zumbificar nossos cérebros que não conseguem chegar em um lugar e tentar visualizar a plaquinha de wi-fi como se ela significasse “Este estabelecimento possui um banker contra ataques nucleares para a sua comodidade”, não twite isso por favor, se a Poesia tivesse alguma graça, hoje em dia, compartilhamentos a fariam criar uma grande risada coletiva ou não, hoje em dia as redes sociais são

A graça da Poesia então é pouca, não dá pra todo mundo?

um grande diário compartilhado, você vai encontrar as coisas mais bizarras da sua vida, como alguém postando que “comi uma feijoada ontem e passei uma noite de rei” e alguém curtindo e comentando “foi no Cantina do Porto que você comeu? Nossa velho também me deu um piriri”. Você já viram as pessoas que postam a hora? Agora são 20:20. WFT?. Sabe, a minha irmã é praticamente psicóloga, e a cada dia com o crescimento das redes sociais eu vejo que ser advogado não foi uma opção tão boa assim, afinal de contas para você ter uma ação de alguém, essa pessoa tem que te conhecer ou alguém indicar você, fora que o problema pode, e na maioria das vezes, começa e acaba e ninguem fica sabendo, por segredo de justiça por exemplo, mas os clientes que ela vai ter, esses não! Tem um placa na testa deles falando “Preciso de ajuda”, todo mundo aqui precisa de ajuda, cara olha pra vocês! Hoje é segunda o que vocês estão fazendo aqui, nesse dia depressivo, que não estão vendo o CQC? Bem, eu falei de psicólogas, justamente porque a graça da Poesia está intrinsecamente ligada aos poetas, e estes como disse, são uns tipos geralmente estranhos que

da mesma forma tem a plaquinha na testa, ela acha até hoje que as caronas, as ajudas com psicologia jurídica era porque eu era um bom irmão, conversa fiada vocês não sabem como dá trabalho conseguir prescrição para alguns medicamentos! Mas, voltando ao assunto, a graça da Poesia não esta no composto do rivotril, gardenal ou do êxtase, a graça da Poesia não poderia ser indicada nem mesmo pelos poetas, embora sempre exista contraindicação de uma parcela das pessoas ao nosso redor, por que será que ler, ou escrever, ou gostar de quem o faça causa tanta revolta nas pessoas? Será que dói tanto assim ver alguém lendo um livro de Poesia? Não tenho nada contra as várias formas de literatura, já é uma vitória gostar de ler, mas mandar a gente ler “10 dicas de pessoas de sucesso” no lugar de Pessoa, ou Álvares ou Caio é fora dos meus padrões de compreensão. Vocês que gostam de Poesia e da arte estão aqui com a desculpa disso aqui ser um bar! Já pensou o que todos iriam dizer se você fosse marcada no “Terceiro Encontro de Poesia Ribeirinha” - Eita, tá querendo ser Cult agora é?. Que tipo de recalque é esse? Por acaso alguém reclama quando a pessoa vai pro show do mister Catra falando: eita, quer virar funkeira é? Ou vai pro tantos muitos sertanejos universitários indagando: mas você nem gosta daqueles caras de bota,chapéu e fivela de prato. Que interdito existe em gostar de Poesia? A graça da Poesia então é pouca, não dá pra todo mundo? Falando um pouco mais sobre nossas redes sociais, você percebem que existe uma grande guerra de ideologias e de poder como antes não percebíamos, temos pessoas compartilhando salmos, temos agnósticos, compartilhando gafes bíblicas, temos a galera underground e seus eventos fucking crazy, temos o povo baladinha com sua vibes topíssimas, temos os viciados em concursos que só postam que estão estudando, temos os realmente preguiçosos que pregam o garfiled life-stile, e hoje temos poetas e artistas, ambígues, paradoxos de si mesmos e ainda assim no meio dessa diversidade não encontramos ninguém falando da graça da Poesia. Quem seria eu pra tentar encarar um pedreira de assunto desses?. Vou contar uma coisa pra vocês, antes dos
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celulares se tornarem um órgão vital do nosso sistema motor, locomotor e reprodutor, as canetas dos poetas, pasmem! As canetas e as penas já eram wirelless assim como as máquinas de escrever, parece que só hoje, diante dessa graça que procuramos estamos todos wired, temos autonomia muito limitada à bateria dos nossos celulares, computadores, à gasolina dos carros, isso tem alguma graça? Um belo dia vocês irão esquecer que possuem pernas, como os Jetsons! Mas e a Poesia? Qual a graça dela no meio de tudo isso? Parece que antes mesmo do inicio do evento todo mundo já tinha lido o tema e pensado: trollface esse cara vai se estrepar! Vocês vão me perdoar, ou não vão, tanto faz, vou continuar falando, como eu posso falar da graça da Poesia se o senhor Danilo já havia comentado outrora de um tipo de otimismo criado por Murphy? Isso mesmo, por Murphy, Minhas senhores e seus senhores, como posso procurar a graça da Poesia se ele já havia ratificado a lei mais perversa, o humor mais negro? Ele disse, com todas as letras, verbos e exclamações que às vezes o desagradável deve ser pensado como possível recompensa! Ele senhores, essa pessoa que vos fita com o olhar maquiavélico já ousou perguntar “Pra Que Poesia?” e me joga às feras agora – e umas muito bem afeiçoadas diga-se de passagem - tentando extrair essa graça que haveria de ter a Poesia. Mas como? Somos menos zumbis ou menos otimistas ao inverso porque não sabemos que graça ela tem? E é preciso ter graça pra alguém sorrir?. Então, de uma forma mais complexa acabei de dizer que a Poesia deixa as pessoas felizes? Vocês nunca irão ouvir isso da minha boca! Ou das minhas linhas, não assino! E se me perguntarem algum dia, nunca disse uma barbaridade dessas! É como falar que o BBB não é um programa instrutivo e prazeroso de ser decifrado. Eureka! A graça da Poesia deve ser a graça que as pessoas veem nos programas e nas novelas, agora ficou fácil né? É, não ficou não. Citei meus dois amigos pela simples impossibilidade de vocês conhecerem os meus escritos, eu era enrustido sabe? Anos e anos, desde os

tempos de malhação e lagoa azul da Sessão da Tarde na vida de vocês, eu escrevia, empilhava, classificada e escondia! E, hoje, observo que a graça da Poesia não é um cartãzinho e aquelas rosas que murcham, lembre da música “as flores de plástico não morrem”, mas o que não morre mesmo é a Poesia, ou a graça dela, muito embora, dentro de minhas limitações não consiga descrevê-la da maneira cientifica que todos vocês estão acostumados a ver no Jornal Nacional – se alguém assiste – mas sem Dalton de Franco por

É um grande tabu qual a graça da Poesia, foi mais fácil ler a Sandy falar em prazer anal do que os filósofos ou os poetas chegarem a uma conclusão...
favor. Ninguém duvidaria se em um belo dia um cara falasse com um jaleco branco que os cientistas de Harvad University descobriram que a graça da Poesia é criada pelo gameta feminino, histérico e fofoqueiro, em conjunto com o masculino, bígamo e preguiçoso, em uma epifania sexual. Eles disseram meus amigos no domingo que antecedeu esta segunda alcoólica cultural, que nós, carnívoros diários, temos menos expectativa de vida! Qual seria então as expectativas de vida do poetas que são canibais? O que será de nós Elias? Me reservei o direito de não saber mais destas descobertas, hoje em dia, não sei se vocês perceberam, mas viver causar doenças do coração ou câncer! Beber cerveja aos domingos é causa, a mistura gargalhadas prolongadas com o piscar dos olhos é motivo, fazer sexo apenas três vezes na semana é quase fatal! Ouvir Restart é morte súbita! É se acomodem e respirem, em alguns anos os notáveis cientistas irão perceber que o facebook causa dependência! Mas não para por aí, mais 10 anos e eles irão concluir, em um estudo feito com cerca de 10 milhões de jovens virgens que face
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causa o que!? Advinha? Altos índices de masturbação? Não, câncer! Sinixxxxxxxtro!. Mas a Poesia, não dá não gente, a Poesia faz outras coisas que quando todos nos formos grandinhos vamos entender! Quer explicação mais científica do que esta dita tantas e tantas vezes por nosso pais? Mas nunca eles falaram qual era a graça da Poesia, assim como não falaram qual é a nossa graça. É um grande tabu qual a graça da Poesia, foi mais fácil ler a Sandy falar em prazer anal do que os filósofos ou os poetas chegarem a uma conclusão, e falo de grandes nomes, com grande vivência e obras

Talvez em busca da graça da Poesia sejamos cachorros correndo atrás de carros, se algum dia conseguirmos alcançálos não saberemos o que fazer com eles.
de envergadura inimaginável, não esses caras que fazem stand-up poetry. Já pensou se a moda pega? Do mesmo jeito que tudo na música hoje tem que terminar com “Universitário” todas as formas de expressão tendem a ser aplicadas no Stand-up, então vamos criar “Stand-up poetry universitário”, já que está tão difícil conseguir delimitar qual a graça da Poesia, pelo menos fica fácil achar uma risada da expressão, sabia que existem stand-up com os apresentadores sentados? Como?. Mas a conclusão científica da graça da Poesia poderia não convencer alguns, então eu poderia trazer até vocês a sua santidade com suas costas fracas, dizer que a graça da Poesia é a mesma graça da Bíblia, é uma questão de fé, mas, por favor, meus amigos, como tudo na vida das pessoas normais, não exagerem, fé demais não cheira bem! Não tentem da mesma forma quantificar e padronizar essa parte diminuta da vida que é realmente livre, a

graça da Poesia é não pensar que 98% das pessoas não irão entender, aliás, interpretar... Tá bom: ler! Assim como é desnecessário pensar que a chance de um fora daquela mocinha linda é de 98%, ou ainda, que a chance do cara não perceber o brinco novo, o corte de cabelo é de 98%, enquanto o de não ver o decote é de 2%. Mas perguntem-se, refutem-se e, por fim, acordem ouvindo o carro do sorvete: “passando aqui na sua rua, chama o papai chama a mamãe” Qual é a graça da Poesia? Qual a graça que eu tenho? Quem é esse cara tentando ser descolado? A dislexia que o faz vagar por tantos temas sem concluir é o engraçado? Você estão rindo de um deficiente! Punam-se! Nós os poetas temos muletas, aparelhos de marca-passo e marca-letra, e cadeiras de rodas e de balanço! Alguém, aí, pelo menos já leu alguma coisa que esse cara escreveu? Não respondam!, alguém aqui já leu grandes poemas de poetas baixinhos? Ou teceu pensamentos em letras de poetas carecas – ou quase – ou viu beleza nesses moços e moças ordinários que irão vos falar muitas coisas, Algum de vocês pelo menos descobriu qual a graça da Poesia pra me contar? Quem são vocês e o que eu estou fazendo aqui? Então, parem de se perguntar e não me perguntem também, qual é a graça da Poesia? Alguém viu aPoesia passar por aqui? Ela tava sozinha? Como estava vestida aquela safadinha, todo mundo já pegou e tem uns que sequer se lembram! Ninguém aqui recitou batatinha quando nasce? Ninguém ouviu falar na maldita pedra no caminho? Nunca foram um clichê dizendo que “o amor é fogo que arde sem se ver?”. Mas não importa, Poesia não é isso, é outra coisa! Não preciso citar aqueles caras que tiveram que morrer para alguém dar ouvidos ou olhos aos seus escritos, um desses grandes disse uma vez que “todas as pessoas tem algo em comum. São todas diferentes”. Então quão inútil seria tentar achar alguma equação? Mas vou continuar tentando; se chiar resolvesse alguma coisa sal de fruta não morria afogado!. A graça da Poesia não é ser ingrata! Os alicerces da Poesia são movediços por natureza e se a
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Poesia tem realmente alguma graça ela está aqui! No intervalo de um sorriso e um gole de cerveja, entre um suspiro perplexo, uma cantada de mau gosto um flerte descarado, entre os corações partidos, os trincados e o rosados e fofinhos que nunca experimentaram o que é a vida na selva. A graça da Poesia pode estar nesse microfone, ou nessa caixa de som que faz tum-tumtum nestes belos decotes e peitorais definidos, existe Poesia nas panicats, nos go-go-boys, nos nerds, nas frígidas - mas qual é a graça da Poesia? Ela pode até não tem barriga tanquinho, cochas torneadas, bumbum durinho e um boquinha pequena, ou braços grossos e ombros largos, óculos fundos de garrafa, aparelho, cinta-liga, fio dental ou escova de dentes. Não ser viciada em coca-cola, wiskhey, goma de mascar, filmes do tarantino pode até não ser, infelizmente, ninfomaníaca, a graça da Poesia não é nada disso, mas ela pode estar em tudo isso, ou ela simplesmente não existe como as armas de destruição em massa do afeganistão, talvez a graça seja ninguém saber. Talvez em busca da graça da Poesia sejamos cachorros correndo atrás de carros, se algum dia conseguirmos alcançá-los não saberemos o que fazer com eles. E talvez vocês se perguntem, porque depois de fracassar em expor qual a graça da Poesia, eu ainda esteja rindo, não é? É simples, já sei em quem pôr a culpa! Vocês! Exatamente! E nem me venham com o velho ditado: “Se você não puder ajudar, atrapalhe, afinal o mais importante é participar”. Eu realmente esperava uma resposta de vocês. E não me olhem assim, só porque estou com o microfone não quer dizer que sou o dono da verdade, só quer dizer que eu falo mais alto e vocês não conseguirão ser escutados. Talvez seja mais fácil explicar a graça da Poesia como mágica. Para os que não sabem, os truques de mágica consistem em três etapas simples: A primeira, pode ser denominada “A promessa” - é quando o mágico mostra um objeto ordinário, como um maço de cartas, uma chapéu ou uma assistente de palco muito gostosa toda amarrada, a segunda etapa é “A virada” - consiste no fenômeno extraordinário

que acontece com o objeto, as cartas desaparecem, a assistente cai em um tanque de água. E a terceira e última etapa, após uma tensão, consiste no “Grande Truque” é quando as cartas aparecem, a assistente ressurge ilesa e com a escova intacta e você fica com cara de “como esse cara fez isso?”. A graça da Poesia consiste praticamente nisso, primeiro o poeta, com seus trajes e jeitos bem menos distintos que o Mr. M, pega um fato comum, uma coisa ordinária na qual todo mundo topa ou topou na vida, ele começa a descrevê-la e você começa a se identificar com as linhas, aí vem

Talvez seja mais fácil explicar a graça da Poesia como mágica.

a segunda fase, ele mostra um ângulo daquela coisa que você não esperava, ele usa palavras que caem como uma luva, palavras que você sabia, mas não usaria ordinariamente, essa é a parte em que você pensa “como esse cara fez isso?”, mas, espera aí! Não eram três etapas? Exatamente! A terceira é o “Grande Truque” ele nada mais é do que a graça da Poesia. A Poesia meus amigos, não precisa mostrar que funcionou, ela pode simplesmente desmontar e deixar faltando parafusos, ela pode só começar e não ter meio nem fim, pode acabar sem começar, a Poesia e a sua graça são simples assim, como a lei da relatividade. Vocês conhecem, né? É aquela máxima que diz que um minuto passa rápido ou devagar dependendo do lado da porta do banheiro que você esta.

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Bistrô da Floresta, foto : Michele Saraiva

Poesia Tem Graça?
Por José Danilo Rangel

Duas Formas de Fazer Não Pensar Há muitas formas de se promover a alienação. Os meios de comunicação em massa se utilizam do maior número deles. Contudo, há duas formas muito eficientes de imbecilizar pessoas que na verdade, consistem no que se pode chamar de opostos discursivos perfeitos. Gosto de chamá-las de as duas mais belas formas de imbecilização. A primeira consiste em defender axiomas sem sustentação maior que a ostentação, silogismos sem premissas, só conclusões. Aqui, todo o defendido é alicerçado sobre uma impressão de obviedade, como todo mundo soubesse o que se está sendo falado e quem não soubesse fosse um idiota. Afirmações do

tipo: “isso é assim”, “isso não é assim”, “isso é pra isso”, sempre fazem parte desse discurso, sem base maior que a sensação já citada de que é assim e sempre foi desde que Deus criou o mundo, desde o Big Bang, estava tudo escrito e sempre esteve, todo mundo sabe disso. A outra forma é exatamente o contrário, ou seja, enquanto a primeira resolve a ausência de fundamento com modos e pose, essa outra sustenta com tanto rebuscamento e referências a ponto de o defendido só ser entendido por especialistas, talvez, nem por eles. Talvez, nem mesmo o autor seja capaz de se entender. Muitos temas são tratados assim, de um modo, ou de outro, a Poesia, inclusive. De um lado temos aqueles que querem estabelecer verdades poéticas a partir da insistência e da presunção, da
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impressão, da pose, o outro tipo pretende dominar as conceituações a partir da gratuita exibição de conhecimento e sofisticação, pedantismo. Imaginemos um debate. Iniciemos com o primeiro tipo de defesa. Ela não iria muito distante, um dos “debatedores” começaria, é claro, com uma afirmação, um dogma, que poderia ser: Poesia é para idiotas. O segundo “debatedor” então, retrucaria com a negação, que no fundo seria a mesmo frase com um não no meio, ou no começo, ou nos dois lugares: “Não, Poesia não é para idiotas!”. E aí, a coisa vai esquentando: “é sim”, acrescenta aquele, “é sim, para idiotas”, o que causaria um “não, não é não, para idiotas” no rival, em pouco, estaríamos ouvindo, sim, não, sim, não, sim, não... até os humores chegarem num grau de fazer os dois “rolarem no caroço”. Poetas brigam, nem sempre, mas brigam. Agora, imaginemos um debate acontecido segundo os parâmetros do segundo modelo de alienação, ele começaria assim, “Pessoa, nos revela que segundo as características da modernidade, o que se pode fazer em relação ao neo-platonismo alienante nas questões concernentes à poemática classicista e sua temática, toda a Poesia é nunca.” Ao que o outro retrucaria: “Elementar, contudo, um autor mais atual, defenderia que “nunca” é tradicional demais e que elementos do discurso marxista acabariam por representar um “sempre” dialético e contínuo em relação à Poesia, que se estenderia até o final dos tempos”. “Pode ser”, retomaria o primeiro, “mas não é isso o que nos diria Goethe”, e em pouco teríamos um debate mais ou menos assim: “Freud”, “Jung”, “Nietsche”, “Machado de Assis”, “Marx”, “Proust”, o que seria, na verdade, apenas uma forma mais complexa do primeiro debate. Nos dois casos, como se posicionar? Na verdade, só o que se pode fazer é isso, se posicionar. Concordar ou discordar, pensar que é bom - neca! Por isso é importante conversar, debater, expor pensamentos, não para que ele prepondere como dogma, mas exatamente para interagir com outros conceitos e, a partir dessa interação, serem passíveis de melhoria. É pra isso que estamos aqui.

Esboço para uma teoria da leitura
Uma parte de mim É só vertigem Outra parte Linguagem Traduzir (se) Uma parte na outra parte - Questão de vida ou morte Será Arte? Ferreira Gullar

Para Gullar, expressar, fazer Arte, e por extensão, escrever, é traduzir o que é vertigem para o que é linguagem. Parece-me que temos muitas outras teorias a respeito do expressar, do escrever, por extensão, mas, e do ler? Talvez tenhamos também, não sei... Acontece que parei para pensar sobre o escrever, passei então para o ler e cheguei a uma conclusão. Acredito que ler é o movimento exatamente inverso ao escrever. Quero dizer com isso que: se escrever é traduzir a vertigem para a linguagem, ler é traduzir o que é linguagem para o que é vertigem. Considerando, claro, uma boa leitura. Na verdade, não qualquer leitura é assim. Com a ressalva de que nem toda leitura nos alcança senão a parte “tá de sacanagem comigo?”. Partindo deste entendimento, será mesmo possível falar com um público que não tem a parte linguagem suficientemente desenvolvida? Sim. Pois o desenvolvimento da parte linguagem fica a cargo do poeta. E se falo de desenvolvimento, não falo, entretanto, em sofisticação gratuita, ou rebuscamento. Não digo, também que sofisticação e rebuscamento não sejam importantes na Poesia, são sim, mas de um modo especial. Na Poesia é preciso sofisticar tanto, rebuscar tanto, aprumar, premeditar ao ponto extremo de parecer simples e espontâneo. Como o ourives bilaquiano, em Profissão de Fé, preciso, minucioso, delicado, senhor do próprio ofício. Cabe ao leitor, estar de olhos e ouvidos atentos para entender sobre o relevo da jóia que lhe é exposta e a desconfiança essencial de que o ouro nem sempre é legítimo. Uma
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boa poesia, um bom poema, alcança a todos, é capaz de lhes falar! Chega às cordas íntimas de cada um e lhes tange, bem ou mal, mas tange. Pode ser como uma pedra jogada sobre um lago, pode ser como um vento. Realmente, estou poeta hoje! Para haver a verdadeira relação entre poeta e público, aquela quando eles se comunicam, contudo, não se pode prescindir de intimidade. Estou falando de intimidade na acepção não donruanesca do termo. Falo daquela sensação de proximidade entre pessoas que se conhecem há tempos, entre irmãos, entre filhos e pais, que mesmo naquela época que não se bicam, reconhecem-se, sabem quem são uns aos outros, seu modo de ver e pensar o mundo, seu modo de sentilo e de reagir a ele. Falar sobre temas, sobre valores, sobre ideias e ideais, compartilhar isso, é o que nos aproxima das pessoas e nos torna capaz de entendêlas. E é desse entendimento que tanto precisa a Poesia. Um dia recitei Augusto dos Anjos para uma amiga: Eu, filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão de rutilância, sofro, desde a epigêneses da infância, a influência má dos signos do zodíaco... Ao que ela disse: Eca! E passou a discorrer sobre esses poetas sempre tristes, sempre de mal com o mundo. Claro. Faltava o contexto. Ela não sabia por que passou o paraibano magrelo para escrever do jeito que ele escreveu. Não podia portanto saber autêntico o que ele expressa, muito diferente de um grande número de poetas que inventam dores e que só sabem escrever como aqueles que sofrem. Não sei se estou sendo entendido. Vou dizer de outra forma: é preciso dar ao público dicas, motivos, intenções, anseios, pois é com essas outras informações que a comunicação vai acontecer, que a intimidade vai se estabelecer e a Poesia vai deixar de ser resultado de nada e será produto de alguém, expressão de alguém. Sempre falo um pouco sobre as minhas poesias antes de declamá-las por isso. Apesar das críticas que recebo, por não deixar o leitor decifrar por si mesmo do que estou falando, a maior parte da gente que me ouvi não acha ruim. Até gosta quando exponho os motivos e os interesses de uma poesia.

Por Que Não Tem Graça Na Escola? Na escola, somos obrigados, de forma muito sutil, e às vezes nem tanto, a aceitar o trabalho de pessoas mais diplomadas do que nós, pelo simples fato de serem elas mais diplomadas do que nós. Não me entendam mal, eu cresci e hoje, compreendo quase perfeitamente o valor que deve ser atribuído a esses homens e mulheres que se dedicam aos estudos e que, de tanto ficarem sobre suas escrivaninhas, acabam por batizá-las e a tratá-las com grande afeto. Contudo, entretanto, todavia, o que eles pensaram e a necessidade de conformação intelectual, não pode nos tirar o direito de pensar, o pouco que seja, sobre aquilo que aprendemos, que lemos, que vemos. Afinal, não é isso que ainda nos garante um tanto de liberdade? Na escola, a literatura não tem graça nenhuma, como muitas outras matérias, porque não se pode pensar sobre elas, estão todas prontas e acabadas, cabe ao aluno, aceitar, de outro modo, não vai passar no vestibular e daí para o mundo das drogas, prostituição e tudo mais é um passo. Ao ler um livro, quem não tem uma opinião? Quem não absorve alguma coisa, uma frase que seja? Ao ler uma poesia que traduz um sentimento, um pensamento, que sintetiza aquele momento de dor ou de alegria, quem não quer ter o direito de opinar? Retomando a linha de pensamento anterior ( escrever é converter a vertigem em linguagem e ler é o contrário), como alguém vai realmente gostar de Poesia se não pode ter sobre ela posse alguma, se não pode se identificar com ela, entendê-la de um modo seu? Como esse alguém vai poder ser atingido em sua parte vetigem se a parte linguagem estiver de todo desamparada de recursos? Cabe ao leitor, sentar e esperar que façam tudo por ele? - não é isso que digo. Contudo, se a Poesia é sempre coisa “dos outros”, como apenas para os iniciados, encaixotada dentro dos limites para ela estabelecida por gente que ninguém conhece direito, não pode, portanto, tornarse parte da vida de um leitor, porque tirar seu papel ativo na leitura é lhe pedir para não ler. O esforço de partir dos dois dos, de quem escreve e de quem lê.
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Tipos de Poetas

é exatamente aí, que se inicia a supressão das outras possibilidades, das outras perspectivas. O mundo é Mostra-me o que escreves e eu te direi um grande carnaval de circunstâncias onde muitas quem és. É até comum certa cegueira entre aqueles músicas diferentes são tocadas ao mesmo tempo, é que, por si mesmos, aprenderam sobre tudo isso que impossível, portanto, que todos dancemos do mesmo falo e, rompendo as amarras acadêmicas, acabaram modo. por se apropriar da Poesia, tanto quanto que cada um tome a Poesia para si e depois de a preencher com as características que não são dela, mas de si mesmo, Funções da Poesia tente chamar a sua poesia a Poesia de todos. Isso é muito mais simples do que parece. Não é difícil concordar comigo que cada Imaginemos um adolescente idealista um vai atribuir a função que mais lhe parecer cabível que acabou de ler Karl Marx e ficou maravilhado. Ele à Poesia. O revolucionário vai dizer que a Poesia serve tem um coração sensível e muita hostilidade contra para rebelar, para denunciar o Estado opressor e que o mundo tal qual o suportamos? Sim? Então, temos se não for assim, não é Poesia. Da mesma forma o mais um revolucionário. Aquele cara que participa depressivo vai “denunciar os males da verdade e do de protestos a ponto de não poder ver uma reunião amor”, defender que Poesia é para lamentar a vida, de pessoas que já pensa que é ou discurso socialista, se não tem lamento, não é Poesia. Escrevia a Poesia a ou uma mobilização, uma greve. Ele vê quatro ou seguir pensando nisso: cinco pessoas agrupadas e chega já dizendo: isso O que é da Poesia? mesmo irmãos, rebelar-se é justo, vamos lá, abaixo o capitalismo, melhor morrer em pé, que viver de Não é próprio da Poesia joelhos – ou quase isso. Esse passional escreverá sobre Nem iluminar, o quê? Escreverá como, escreverá por quê? Entendem, Nem abrir portas, meus amigos? Nem denunciar, Nem ensinar Outro exemplo, o cara depressivo, aquele - Como já ouvi dizer. a quem a tudo é triste, ou dramático, para esse cara a Poesia não vai aparecer como a possibilidade de Ela não é lâmpada anunciar dias melhores e as pequenas maravilhas Nem chave de uma vida dedicada à contemplação da beleza do Nem jornal, Nem livro didático. mundo. Uma pessoa que tenha uma espiritualidade desenvolvida, que se acredita em contato ou em busca Próprio da Poesia pelo contato com as forças do além, e sobre o terceiro É expressar. olho e mistérios congêneres, escreverá (sim ou não?) E é a cada expressão sobre os fenômenos naturais segundo a perspectiva Que se deve caracterizar. Se o que uma Poesia científica? Nunca! Expressa é luz: iluminará, Não há problema nenhum em usar a Poesia Se é chave: abrirá portas... para se expressar, para expressar as próprias crenças, entendimentos, esperanças, tristezas e tudo mais. Isso Acho que fui claro. é até uma das coisas que torna a Poesia atraente a estes espíritos cheios de vontade de dizer algo. O problema A Poesia é para expressar, como, quando, é haver quem não entenda a Poesia como meio “de onde, por quê, pra que e pra quem são questões com dizer” que pode ser usada para qualquer fim. Porque as quais cada poeta vai ter que lidar. De novo, deixo
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claro não haver problema em usar a Poesia para um determinado fim. Por isso é que nos apropriamos dela, para tornar possível a fala que não se fala cotidianamente, o registro do que é bom, ou mal, a defesa de uma ideia e qualquer que sejam os anseios que procurem forma. Problema é limitar a Poesia segundo os próprios pressupostos e querer que ela seja “à sua imagem e semelhança” em todos, ainda mais considerando que todos tem uma imagem e semelhança bem dessemelhantes. Sobre isso posso falar como leitor e como escritor. Eu era como todo bom idiota diante da Poesia, ou seja, acreditava que ou ela falava de amor, ou falava de tormento. Simples assim. O resto, se existia, eu não sabia e nem queria saber. Quando ela começou a fazer sentido para mim, ela surgiu como a possibilidade de dizer o que de outra forma não podia ser dito (era isso o que faziam os poetas que eu lia). Tudo o mais, era lixo. Ou o poema continha um entendimento sobre algo, uma mensagem, um recado, ou eu não considerava Poesia, era extravagância bem verbalizada. Frívolo é dizer as minhas preferências naquele primeiro tempo de leitura, mas vou dizê-las: Camões, Bocage, Bilac, Goethe, dentre outros. Fui conhecendo, entanto, outros autores, lendo a seu respeito, sobre o seu tempo (queria de verdade, entender do que é que eles estavam falando) e assim, acabei me ligando na parada: cada um tem a sua própria busca poética, a sua vibe. Assim, fiz as pazes com Pessoa, Drummond, Gullar, Ginsberg, dentre outros. Como escritor, foi mais fácil. Quando cheguei na Poesia e disse: tá afim? E ela respondeu: claro, por que não?, tomei-a em meus braços e, porque ela era ainda muito dura, metrificada, tinha um ritmo muito regular, clássico, e a cintura de um robô, quebrei-a, sem delicadeza, transformei-a no barro primacial, passando a modelá-la como queria, como ansiava, para falar de tudo o que me tornava ridículo em determinados círculos e genial, em outros, para corresponder às minhas ânsias, para fazer transitar o que de outra forma não transitaria. Com isso, a conclusão veio de graça: Espera aí! Se eu peguei a Poesia e fiz dela o que eu queria, por que acho

que esse é um direito apenas e todo meu? Aí, uma verdadezinha surgiu muito simples e bonita e disse como uma criança diz: Não é! Não é! – entendem? Modo Poeta de Ser? Outra coisa muito negativa é caracterizar a pessoa pelo ofício que ela exerce. O cidadão trabalha numa borracharia é (reparem no “é”), portanto, borracheiro, da mesma forma, aquele que trabalha com Poesia é poeta, notemos que o uso da língua carrega significados. Se afirmamos que alguém é e não que trabalha com isso ou aquilo, estamos descaracterizando a pessoa para caracterizar o papel desempenhado na sociedade. Quem quer ser visto como o estudante? O roqueiro? O emo? Tudo bem, algumas pessoas querem, mas acredito que a maioria quer ser vista em suas curvas e retas com o mais alto grau de fidelidade. Quando eu digo que sou poeta, não estou apenas dizendo que escrevo Poesia. Pelo menos, não é assim que se entende. Ser poeta é ter sensibilidade aguçada, ser um pouco desligado das coisas do mundo, ser louco e livre, ser triste e desbocado, e por aí vai. Poeta sofre preconceitos. Uma noite dessas, encontrei amigos de outros tempos e um deles me falou: - Zé, tu é poeta agora? Que boiolagem é essa? Há uma personalidade atribuída ao poeta, isso reduz a leitura da pessoa, do alguém que está usando a Poesia para se expressar, empobrece, por conseguinte, o entendimento do que fala. Rótulos são assim. Basta, entanto, uma pequena olhada entre os poetas que temos aqui, eles têm personalidades completamente diferentes. Se alguém aí, estiver afim de ser poeta, não esquente em caber dentro da caixa preconceitual, mire em escrever Poesia. Não existe um modo poeta de ser, existem pessoas com seus modos de vida onde se inclui a produção de Poesia. Pessoas com anseios diversos que, dentre eles, estão respondendo ao de expressão.
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Poesia, Modo de Falar e de Ser Passei por tanta coisa na vida, que acabei por me tornar muito fechado, merecedor até da alcunha de homem de lata. Acontece que quando você e sua família chegam ao momento de comemorar ter dois reais para comprar um quilo de arroz, você tem que tomar uma decisão. A decisão que tomei foi ser forte. Desculpem a indiscrição, mas este fato sintetiza perfeitamente uma época da minha vida e explica por que acabei me tornando o homem de lata. Um dia, muito tempo depois, aliás, encontrei uma menina, ela tinha 15 ou 16 anos, ou 17 (nunca lembro dessas coisas de idade), e passei a frequentar a casa dela. Passávamos horas conversando. Eu gostava tanto de estar com ela, que uma vez fui andando do bairro Jardim Ipanema até a casa dela, no Nova Esperança. Acabamos namorando. Falei com os pais dela e tudo. Como já ouvi Lulu Santos cantar “ela me faz tão bem, que eu também quero fazer isso por ela”, era exatamente isso que eu sentia. Tinha que ser algo especial. Sabendo que ela gostava de sonetos, afinal, ela que me emprestou o primeiro livro do Camões, decidi que escreveria um para ela, e escrevi, depois de ler até a exaustão os sonetos do grande caolho lusitano – o que explica muita coisa sobre a linguagem utilizada, a metrificação e o resto. A verdade é que ela não entendeu direito do que eu estava falando e eu ainda lutei uns dois anos com esse soneto tentando fazer caber nos 14 versos tudo o que eu queria lhe dizer, tudo o que eu sentia por ela, quanto bem ela me fazia. Sem entender o que eu dizia, mas gostando do gesto, seus olhos brilharam daquele modo do cinema. Somente muito mais tarde eu entenderia que são os gestos os verdadeiros indicativos do afeto, é o estar junto todo dia, é o próprio fazer de todo dia o que melhor diz sobre nossas emoções. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”: o tempo mudou, as vontades mudaram, muitas delas, mas não todas. Daquela experiência ficou o entendimento de que eu podia falar através da Poesia, e falei muito tempo, apenas através dela. O ponto é que, até hoje, quando me sento diante do

computador, ou pego um caderno e um lápis, para começar uma poesia, encontro uma forma de ser inteiro. Entendem? O processo se dá em duas etapas. Primeiro, há um momento onde me encontro como um realizador, como um inventor. Quando pequeno, tentei construir um megazord ( o robô gigante dos Power Rangers), não consegui, é evidente, Outro monte de cacarecos, contudo, eu fui capaz de construir. Na Poesia, é o mesmo prazer, embora a composição tenha uma engenharia e disponha de mecanismos e de um ferramental bem diversos daquela outra engenharia que eu praticava, sempre que vou escrever uma poesia, sempre que a vou estruturar, sinto o mesmo gosto - desenvolvo algo. A segunda etapa tem mais a ver com o expressar. Durante muito tempo, me fechei de tal maneira a ponto de não conseguir transmitir afeto, tão envolto com o cotidiano e de lutar com ele todos os dias, acabei perdendo habilidades de comunicação. Na Poesia reencontrei essa possibilidade. Daí, que, depois de apresentar uma poesia a alguém e sentir que os versos de alguma maneira o tocaram, é algo que me leva a continuar escrevendo. De alguma forma, o fazer Poesia, ultrapassou o fazer Poesia e acabou por influir em muitas das minhas características, pois a Poesia exige que eu pense, que organize, que desenvolva, eis aí outra grande graça dela. Talvez não fique muito claro, espero que a Poesia a seguir esclareça um pouco mais as coisas.

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Pra que Poesia?
José Danilo Rangel

Com Poesia não se compra pão, Com Poesia não se compra carne, Nem sapato, nem camisa, nem nada. Nunca ouvi falar de uma promoção assim: Traga uma Poesia bem bonita E ganhe dez por cento de desconto! Nunca ouvi da boca de um taxista, Ou de um garçom, ou no caixa do supermercado: É a dinheiro, cartão, ou Poesia? Não conheço ninguém que tenha abonado A falta no trabalho dizendo: Chefe, ontem não pude vir, Estava escrevendo uma Poesia, Mas tá aqui, tá pronta. Não sei de nenhum professor Que tenha aliviado depois de ouvir: Professor, eu até tentei, mas a Poesia Não me deixou terminar a tempo. Ela ficou e ainda está me puxando Pelas orelhas... Não sei de ninguém que tenha Tomado uma Poesia para dor de cabeça, Ou para insônia, ou para outro mal qualquer, Não sei de ninguém que tenha Matado a sede ou a fome com Poesia, Nem de alguém que tenha consertado O carro, a bicicleta ou qualquer outra coisa Com uma Poesia. Nunca ouvi frases assim: Calma, vou ali buscar uma Poesia. Calma, ainda temos a Poesia. Não há motivo para pânico Eu sempre trago uma Poesia comigo.

Contudo, uma boa Poesia Pode nos falar de qualquer coisa E quando queremos ouvir, Isso tem importância. Uma boa Poesia aconselha E quando estamos perdidos, Isso é importante. Uma boa Poesia é capaz de nos mostrar Que não somos os únicos a pelejar pelos dias E quando sofremos, Saber disso é importante. Uma boa Poesia tem o poder de inquietar, De consolar, de sossegar, de desassossegar, De indagar, de descrever, colorir, descobrir, De trazer para fora, ou levar para dentro, O que por outro meio não transitaria. A Poesia é capaz de dizer O que de outra forma não seria dito, Ela revela o que de outra forma Ficaria escondido, Proclama o que outra forma seria silêncio. Mas eu entendo a pergunta, Se a Poesia só é capaz disso, De falar ao sujeito, de alcançar o sujeito, Qual é mesmo a sua serventia Num mundo cada vez mais prático, Cada vez mais frio, mais fútil, mais mecânico? Num mundo onde as pessoas São meios e não fins, Pra que, realmente, Pra que Poesia? ..............................................................................
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DO LEITOR ................................

RESERVADO

expressoespvh@hotmail.com
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AO LEITOR ................................
Entre todas as críticas que recebo cotidianamente sobre a revista, entre boas e pancadas no ego, a que mais me chamou a atenção foi a seguinte: a revista EXPRESSõES! podia muito bem se chamar revista EXPRESSõES! do José Danilo Rangel. Diante disso, a minha enorme vaidade, correu com seus indiscretos passos de elevante aos meus ouvidos e falou: Olha aí, como é que não tinha pensado nisso! Ao que pensei, como não pensei nisso? Um número todinho, de cabo a rabo com conto, crônica, dicas, e tudo mais, tudo meu, tudo eu! Seria fantástico. Não, não seria. A ideia principal da revista é oferecer uma alternativa a todos aqueles que como eu, lutam contra as barreiras que os espaços convencionais levantam. O problema é que a maioria que luta contra essas barreiras estão tão envolvidos com o tentar derrubálas que acabam por considerar tudo o que está ao redor dos limites como nada. Ou se está dentro ou fora, pensam, e por estarem fora, não se permitem aproveitar o espaço disponível, por quê? Por quê? Por quê? Porque querem entrar. Eu já falei, tanto pela revista quanto pessoalmente, tem alguma coisa para apresentar, um conto, uma crítica de filme, dez dicas de como ser revolucionário? É só mandar. Pensa alguma coisa a respeito da revista e quer contribuir? É só falar. Desenha, fotografa, sabe uns lance da internet, sabe o português correto? Quer ajudar e não sabe como? A gente conversa e vai se acertando e, quando formos ver, a EXPRESSõES! também será sua. Tá, você até acha legal a revista e tudo mais, contudo, não acha que se enquadra no que ela vem trabalhando, porque é só outra forma de opressão. Perfeito! Mas não fique aí parado, esperando, faça alguma coisa, tente outra vez. Quando mais tarde descobrir que os muros que quer pular não valem o esforço do pulo, a construção da escada, ou se ficar morrendo de felicidade com o resultado, vai saber que tudo foi produto da ação. expressoespvh@hotmail.com Até mais

José Danilo Rangel

EXPRESSõES!

mais que dizer - pôr as mãos na massa!

EXPRESSõES! Junho 2012 | 52

UM AGRADECIMENTO ................................
Vanessa, agora que as cores tristes e deplorantes com que a mágoa achou de recobrirte são lavadas de sobre a tua imagem e os delineios distorcidos por tantas brigas e tantas frustrações vão tornando àquela forma de antes, posso te ver, para depois da cortina que foi ocultando o teu ser de mim, posso te ver e sorrir. Minha grande última desilusão, volto a te amar, mas já não é aquele amor que move à busca e à posse, parece-se mais com aquele primeiro carinho que me fazia andar quilômetros para conversar um pouco contigo. Sabes que não justifico sofrimento algum pelo aprendizado que ele pode oferecer, aprendo, para fazer a dor menos estúpida e sem sentido, tanto quanto a felicidade menos efêmera, mesmo assim, não vou dizer que foi inútil ou sem sentido estar ao teu lado e aprender sobre esse amor de gente, sobre esse amor de carne e osso e sexo, sem deuses, sem alturas inalcançáveis, esse amor possível, factível, único, e de uma densidade impossível nos romances, de uma verdade impublicável, detestável para aqueles ainda perseguidores de suaves fantasias adolescentes. Um dia decidi que viveria tudo o que fosse para viver até onde não desse mais, por isso, não me arrependo de ter ido te buscar depois do que aconteceu naquele primeiro namoro, quando eu ainda não podia interferir em quem era, naquele homem de lata. Não me arrependo de ter usado o que aprendi para me transformar naquele que te deu um abraço no teu aniversário de não sei quantos anos (nunca lembro datas, anos, essas coisas), lembro, contudo, da tua camisa azul e como estavas trêmula e de como foi divertido te roubar um beijo. Voltei para a tua vida com aquela determinação doentia de que sofro, às vezes. Lembras de tudo o que passamos desde então? Eu lembro. E agora, depois de finalmente ter chorado de verdade a tua perda, me contento com o que houve, porque foi pelo houve que esperei e lutei tanto tempo. Queria algo de verdade, algo além do que é defendido ou perseguido, algo além disso que é o céu e o inferno, algo depois dessas ideias e ideais esdrúxulos, algo ainda não vivido, ainda não experimentado. Foi exatamente isto que me deste. Queria que durasse o resto da vida. Não durou. Mas foi vivido ao limite e ainda além. Eu sei, errei feio, guiado pela minha obstinação. E tive a consciência do erro muito tarde, lembra? Decidi que voltaria para você e que faria tudo diferente daquela primeira vez que namoramos. Faz parte de mim, isso de se entender a demanda e se moldar para ser capaz de atendê-la, assim é que me debato contra as circunstâncias, para que elas não determinem quem sou. Assim é que me preparei para estar contigo. Transformei-me para ti, antes

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mesmo de saber se queria ou não esse eu modificado, pronto. Eis o grande erro: transformei nossa relação num objetivo, tinha que dar certo, ao custo que fosse. Então, lutei obstinadamente para que tudo desse certo. E em boa parte, por isso não deu certo, pois tudo o se tornava obstáculo, eu enfrentava, mesmo que fossem os teus medos, que eu tentava resolver, mesmo que fossem as tuas incertezas, que eu tentava sanar. Talvez, se deixasse acontecer, acontecesse, mas nunca estou preparado realmente para isso. Lembra do que te contei, sobre ultrapassar o meio? Não sou de esperar. Sei que está implícito, mas quero deixar claro até a redundância. Sabes aquele teu medo de não significar nada para mim? Não te preocupas mais com ele. Esses dias depois do rompimento, tive variações de humor tão grandes que precisei ficar sozinho por aí. Senti-me perdido e depois de uma festa, fui dormir numa calçada, meu antigo modo de ficar triste. Quando passava os dias sem almoço, tendo que sobreviver com pipoca e lanche, havia sentido nisso, porque estavas comigo. Quando estava feliz, quando estava bem, a quem eu procurava para compartilhar? Se ainda não jogou fora o que te escrevi, leia mais uma vez e vai perceber o quão importante, mesmo fundamental tu te tornastes para mim. E quanto senti a tua falta por esses dias de casa vazia e ninguém para escutar meus planos de dominar o mundo. Apesar do tom, este não é um lamento, é um agradecimento. Sabes de tudo o que passei,

mesmo as menores coisas, e que arranjei minha dureza e o idiossincrático otimismo com que ando para frente, chamado de pessimismo pelos mais sensíveis e sonhadores, para resistir. E foi quando precisei amar que te reencontrei. Obrigado por ser capaz de receber todo o meu amor estranho, pesado, cheio de vicissitudes e dos matizes obsessivos da minha personalidade, por conseguir suportá-lo, apesar do medo, da incerteza, obrigado por confiar em mim, por segurar minha mão e andar no abismo que acabei me tornando. Obrigado por me ver. Obrigado por me dar o teu amor, também todo, também estranho, também pesado, lindo! Obrigado por me ajudar. Obrigado, borboleta, por voar comigo. Obrigado e adeus.

José Danilo Rangel

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