Robson Moraes - Direito da criança e do adolescente - UNIGRAN

Aula 01

Inserções sobre o histórico dos direitos da criança e do adolescente no Brasil

Em pesquisas realizadas junto à doutrina e aos artigos multidisciplinares que abordam a presente disciplina pode-se observar que tanto as crianças como os adolescentes obtiveram ao longo do século passado o reconhecimento de seus direitos. Os professores Guilherme Madeira Dezem, João Ricardo Brandão Aguirre e Paulo Henrique Aranda Fuller, autores da obra “Elementos do Direito, V. 14, Difusos e Coletivos – Estatuto da Criança e do Adolescente (Editora Revista dos Tribunais : São Paulo, 2009, p. 11/13), bem demonstraram a evolução dos direitos das crianças e adolescentes, que abaixo se reproduzirá integralmente.
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Vê-se.513/1964). após anos de luta para o fim do SAM – órgão tipicamente repressivo –. em 1927. É de se observar que esse texto aboliu o critério do discernimento e exigia que o menor ficasse sob o cuidado dos pais até os 14 anos. A profusão de leis impôs a necessidade de organização da legislação em um único estatuto. cujo processo era apenas diferenciado. com uma única diferença: era voltado à população juvenil. a integrar o Ministério da Previdência Social. é de se destacar. como dado positivo. começam a surgir programas oficiais de assistência à criança e ao adolescente. na impossibilidade de tais cuidados. Em 1959 tem-se a primeira grande evolução no sentido da mudança de mentalidade sobre o tema: a Assembleia Geral da ONU aprovou por unanimidade a Declaração dos Diretos da Criança. no Brasil.Direito da criança e do adolescente . Em 1941. foi aprovado o Código de Menores. Assim é que a Lei 4. e. e surgiu como órgão do Ministério da Justiça. então. transformando o problema da criança em um desafio que implicava uma solução universal: pais e países tinham a obrigação de proteger e de educar suas crianças. de 5. Da mesma forma. Enquanto isso. simplesmente. Neste período inicia-se a distinção técnica entre “criança” e “menor”: criança – população infanto-juvenil incorporada à sociedade convencional. desde que fosse “menor abandonado”. de 1972 a 1986. Para o que se encontrasse entre 14 e 18 anos havia a previsão de tratamento. mencionado pela doutrina como o primeiro estabelecimento a crianças e adolescentes.697).UNIGRAN “No final do século XIX e início do século XX. culminando com a fundação. que a tônica ainda permanecia na ideia de que o adolescente infrator era.242/1921 autorizava o governo a criar o Serviço de Assistência e Proteção à Infância Abandonada e Delinquente e abria oportunidade para a criação dos juízos de menores.1921. durante o governo Getulio Vargas. autorizou o governo a organizar o Serviço de Assistência e Proteção à Infância Abandonada e Delinquente. Apre12 . passando. do Instituto de Proteção e Assistência à Infância. Tinha como órgão nacional a FUNABEM. de forma que. É importante notar que durante muito tempo a tônica dada à criança e ao adolescente foi sempre no sentido de buscar alguma forma de controle ou proteção para os que se encontrassem em situação de risco ou vulnerabilidade social.Robson Moraes . Tratava-se de uma afirmação de princípios. Porém. menor – população infanto-juvenil em situação de vulnerabilidade social. que tratava da proteção e vigilância às crianças menores e aos adolescentes em situação irregular. em 1964. órgão ligado ao Ministério da Justiça cuja função era equivalente à atribuída ao sistema penitenciário comum. que foi prevista a necessidade de defesa técnica para o então menor. um criminoso comum.1. é estabelecida a Política Nacional do Bem-Estar do Menor (Lei 4. no Rio de Janeiro. a internação seria então aplicada.242. Em 1979 é aprovado o Código de Menores (Lei 6. é criado o Serviço de Assistência Social ao Menor – SAM. que compilava toda a legislação existente na época. cujo enfoque era claramente assistencialista. a Lei 4.

226 a 230. há que salientar que a Constituição Federal de 1988 trouxe mudanças consideráveis. Na década de 1980. Nessa época. conclui-se que houve a necessidade de implementar uma legislação que abarcasse os infantes. A atenção mundial voltada ao tema também ganha relevância. com a promulgação da Constituição Federal.UNIGRAN sentava um único conjunto de medidas destinadas. às pessoas menores de 18 anos. especialmente. Dentre as principais convenções destaca-se a Convenção sobre os Direitos da Criança (Res. em plena abertura política. cuja função é regulamentar e dar efetividade aos dispositivos constitucionais da Carta Política de 1988. ganha destaque o trabalho desenvolvido pela Frente Nacional de Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes. Diante das impressões do texto acima referido. O tema ganha capítulo próprio na Constituição Federal.12/1990) e as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade. indiferentemente. pela Comissão Nacional Criança e Constituinte. em 1988. A situação foi ganhando corpo de forma que culmina. somente podendo descumpri-los em caso de denúncia do acordo internacional. carentes ou abandonadas. como. dentre outros. levando o legislador a considerar os documentos internacionais. ao romper com a “Doutrina da Situação Irregular”. importante frisar que essa nova busca também ofereceu alterações ao Sistema Jurídico da Criança e do Adolescente. passou-se a ver questão da criança e do adolescente como ponto fulcral para o desenvolvimento na Nação. pela Pastoral do Menor. que prevê uma série de dispositivos que visam proteger a criança e o adolescente. como veremos durante o transcorrer das aulas. o resguardo da dignidade da pessoa humana. o que indica a preocupação das democracias em relação à proteção à criança e ao adolescente. desde a sua concepção até mesmo depois de atingida a maioridade civil e penal. busca-se paulatinamente tornar a sociedade mais justa. pelo Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua. que busca o desenvolvimento de nova consciência e postura em relação à população infanto-juvenil. autoras do ato infracional. É também de 1990 o Estatuto da Criança e do Adolescente. nos arts. de modo que. de forma que tratados e convenções são assinados. de 14. 45/112. Assim. É importante notar que o Brasil se obrigou a cumprir o quanto estabelecido nos tratados e convenções assinados. de forma a adotar a “Doutrina 13 . atendendo as necessidades da sociedade e resgatando os valores infanto-juvenis. sendo regulado. ainda em alusão a evolução histórica.Robson Moraes . surge no Brasil grande movimento em prol da nova concepção da infância e da juventude. Por influência dos ventos de democracia que cá sopravam.Direito da criança e do adolescente . por exemplo. que prevê o reconhecimento da criança como sujeito de direitos e não apenas como objeto de proteção: recomenda a criação de uma justiça especializada e de um sistema processual adequado. Outrossim. pelo menos do ponto de vista teórico.

para os efeitos desta Lei. a medidas socioeducativas do artigo 112 do ECA. ficando sujeitos às medidas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente quando cometerem atos infracionais (crimes ou contravenções penais). Honduras. como por exemplo. México. diz que “considera-se criança. menor de 18 anos. estabelece que “se entende por criança todo o ser humano menor de 18 anos”. Essa decisão está contida no artigo 228 da Constituição Federal. o Conselho Tutelar. e por exceção. ou seja. 2. nestes casos serão asseguradas aos adolescentes as garantias do devido processo legal detalhadas no artigo 111. Equador. passar a ser titulares de direitos subjetivos. sem que ocorra a privação de sua liberdade. verificar-se-á que. El Salvador. Assim. como a família. em seu primeiro dispositivo. possui a maturidade suficiente para formar sua opinião e decidir sobre certos assuntos que o podem afetar e concernem à sua própria vida e destino. os quais além de fiscalizar os direitos estabelecidos pela Carta Magna e disciplinados pela Lei n. a pessoa até doze anos de idade incompletos. num tratamento através de sua própria família ou na comunidade. em determinadas circunstâncias. ou seja. com as recomendações reiteradas dos Congressos Pan-americanos da Criança e com o critério adotado por diversas legislações americanas. bem assim reconheceu de forma imutável que os infantes deixam de ser apenas objeto da tutela assistencial para. Definição de criança e adolescente O artigo 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente. distingue a situação da “criança” e do “adolescente”. Colômbia.Direito da criança e do adolescente . Esse critério etário está de acordo com a Convenção sobre os Direitos da Criança que. observando-se nos demais o procedimento dos artigos 171 e seguintes.UNIGRAN da Proteção Integral” que. bem assim de acordo com o espírito da Convenção sobre os Direitos da Criança. em matéria 14 . o Estatuto considera que o adolescente. por sua vez. Nesta senda. Outro fator muito importante quanto ao limite dos 18 anos tem referência ao assunto sobre a “imputabilidade penal”. entraram em cena novas figuras da sociedade e do Estado. que lhe implicará. a criança infratora fica sujeita às medidas de proteção previstas no artigo 101 do ECA. Isso quer dizer que o legislador delimitou ao Estatuto da Criança e do Adolescente sua competência em razão da pessoa. o adolescente infrator poderá ser submetido a um tratamento mais rigoroso. como. Semelhantemente. Todavia. doravante. elevou nosso país ao nível das nações mais avançadas no que diz respeito as garantias e direitos fundamentais das crianças e dos adolescentes.069/1990. por exemplo. os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis. dispondo como criança a pessoa até 12 anos e adolescente aquela entre 12 e os 18 anos de idade. até os 21 anos. Guatemala. e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade”. o Poder Judiciário e o Ministério Público.º 8. Com efeito. vislumbra-se que dentro do conceito de “menor”. Uruguai etc. dentre as quais a eventual implicação da privação de liberdade (internação). Diferentemente. deverão buscar efetivá-los.Robson Moraes . com a evolução dos direitos da criança e do adolescente. em princípio.

939. da relatoria da ministra Cármen Lúcia. 3. 121 do ECA). da relatoria da ministra Ellen Gracie. ORDEM DENEGADA. Por tais motivos. IMPLEMENTO DA MAIORIDADE CIVIL.492. SUPERVENIÊNCIA DA MAIORIDADE CIVIL. É pacífica a jurisprudência de ambas as turmas do Supremo Tribunal Federal no sentido de que a redução da maioridade civil pela Lei nº 11. parágrafo único. HC 94.491 e 94. “e”. 2. DJE 07/08/2009. da relatoria do ministro Ricardo Lewandowski. Precedentes: HC 96. 111) HABEAS CORPUS. encontra-se derrogada parcialmente pela vigência do Código Civil. da relatoria do ministro Joaquim Barbosa. Entretanto. 227 da CF).406/2002 (novo Código Civil) em nada modificou os parâmetros de idade constantes do Estatuto da Criança e do Adolescente . somente podem ser aplicadas em decorrência de fatos praticados antes da maioridade penal.129 e 91. 16/06/2009. hcs 90. 15 .UNIGRAN de guarda e adoção.539-9. NORMA GERAL. A solução da causa passa pela adoção do princípio da especialidade das Leis. Primeira Turma. ORDEM DENEGADA. A proteção constitucionalmente consagrada é de se estender até a idade de vinte e um anos (§ 5º do art. 142 e 148. ATO INFRACIONAL ANÁLOGO AO CRIME DE ROUBO CIRCUNSTANCIADO TENTADO. Carlos Britto. A automática aplicação da maioridade civil para desconsiderar os institutos jurídicos que são próprios do Estatuto da Criança e do Adolescente opera como inescondível fator de tratamento desfavorável. §5º. no caso das medidas socioeducativas. 1. RJ. Solução de todo condizente com a “absoluta prioridade” constitucional conferida à criança e ao adolescente. a doutrina tem entendido que a sua aplicação atinge tão-somente as de internação e a semiliberdade. Pelo que hão de prevalecer as regras e parâmetros do microssistema jurídico em que o Estatuto da Criança e do Adolescente consiste. levando à consequente revogação parcial dos artigos 36. porque estão expressamente previstas nos artigos 120. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. 4. Julg.938.742. cada qual deles expressamente qualificado como detentor de “condição peculiar de desenvolvimento” (caput e inciso V do § 3º do art. Ordem denegada. não se aplicando as demais medidas. MEDIDA SOCIOEDUCATIVA DE SEMILIBERDADE. do ECA. Os delitos praticados depois dos 18 anos são da competência da Justiça Penal Comum. §2º. embora a internação e a semiliberdade possam persistir após os 18 anos e até os 21 anos. MANUTENÇÃO DA MEDIDA PROTETIVA: POSSIBILIDADE. há que se frisar que. Min.Direito da criança e do adolescente . A aplicação excepcional entre os 18 e 21 anos de idade prevista no parágrafo único do artigo 2º. HC 97. que reduziu a maioridade civil para 18 anos. Vejamos os entendimentos do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça quanto ao critério etário e aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente: HABEAS CORPUS.ECA. e 121. Rel. PROGRESSÃO DA INTERNAÇÃO À SEMILIBERDADE. IRRELEVÂNCIA. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Pág. (STF. LIBERAÇÃO COMPULSÓRIA AOS 21 (VINTE E UM) ANOS.Robson Moraes . hcs 91.

cursos profissionalizantes etc. Proc. a saber: HABEAS CORPUS – ECA – ADVENTO DA MAIORIDADE PENAL – PRETENDIDA REVOGAÇÃO DA MEDIDA SOCIOEDUCATIVA – IMPOSSIBILIDADE – ORDEM DENEGADA.069/1990 (artigo 104. demonstrando omissão em vez de dar concretude aos direitos estabelecidos as crianças e adolescentes. 121.069/1990. Entretanto. 104. Por tais motivos. a comunidade e o Estado tem procurado minimizar tais violações. contudo o precoce consumo de drogas.Robson Moraes . temos. no que couber. DJE 18/10/2010) Nosso Tribunal de Justiça também segue o mesmo entendimento. o interesse do Estado em sua concretização. RJ. § 5º). 120. 121. exposição a trabalho incompatível com sua faixa etária. 2007. não será liberado compulsoriamente. deve-se buscar incessantemente implementar os dispostos do ECA.188. 2. Se. Com efeito. de hospitais especializados. Rel. 4. Quinta Turma. parágrafo único). sendo irrelevante o advento da maioridade civil durante o cumprimento da semiliberdade. clínicas para tratamento de dependentes químicos. A liberação compulsória se dá ao atingir 21 anos (art. Julg. 3.027062-2/0000-00 – Bonito – Órgão Julgador: 1ª Turma Criminal – Rel. o menor já vinha cumprindo medida socioeducativa. § 5º. Min. por exemplo. 8. através da promoção de atendimentos especializados.art. principalmente em razão da imperatividade de suas normas e. (STJ. Leva-se em consideração a idade do menor ao tempo do fato – art. enquanto. comunidade e sociedade em 16 . tem aumentado drasticamente em detrimento da efetivação dos direitos previstos Estatuto da Criança e do Adolescente. 2010/0061144-0. A semiliberdade rege-se. porquanto o Código Civil trata-se de diploma de caráter geral. família. crianças e adolescentes tem experimentado violações aos seus direitos e garantias fundamentais. aplicável ao caso em testilha. haja vista a insuficiência de escolas. A situação da criança e do adolescente na realidade brasileira Assim como toda e qualquer pessoa. Estados e a União) tem sido o primeiro a descumprir os preceitos por ele próprio estabelecido. § 2º. A extinção da medida se dá aos 21 anos de idade . HC 168. ao completar 18 anos. exploração sexual e o cometimento de atos infracionais. por óbvio. João Batista da Costa Marques – Julgamento: 02/10/2007) 3. pelas normas que tratam da internação (art. Considera-se a idade do agente na data do fato para fins de aplicação de medida prevista na Lei n. do ECA. do ECA). É certo que a família. evasão da escola. 21/09/2010. muito embora esteja ocorrendo descasos pelo Poder Público em relação aos direitos garantidos na legislação especial. Ordem denegada. parágrafo único – sendo irrelevante a circunstância de atingir o adolescente a maioridade civil ou penal durante seu cumprimento. Jorge Mussi. sem o condão de derrogar a Lei nº 8.UNIGRAN 1. o Estado (Municípios. Des.Direito da criança e do adolescente . (TJMS – Habeas Corpus – N.

A garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias. à dignidade. à alimentação. ao respeito. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência. moral. ao lazer. espiritual e social. a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico. Art. desta forma. pois. d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei. em condições de liberdade e de dignidade. que assegurar. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana. violência. Parágrafo único. 4. assegurando-se-lhes. todas as oportunidades e facilidades. a efetivação dos direitos referentes à vida. Art. ao esporte. Art. de modo que a sistemática principiológica envolvendo crianças e adolescentes não pode ser tratada simplesmente a partir do estudo do ECA. da comunidade. fala-se no princípio da prioridade absoluta. que é na Constituição Federal que se busca a fonte primordial que irá inspirar toda a atuação do legislador e do intérprete da lei. com absoluta prioridade. por lei ou por outros meios. Vê-se. da sociedade em geral e do poder público assegurar. em sede de proteção constitucional. punido na forma da lei qualquer atentado. crueldade e opressão.UNIGRAN geral. mental. discriminação. aos seus direitos fundamentais. 4º É dever da família. Desse modo. por ação ou omissão. exercendo. estabelece a primazia em favor das crianças e adolescentes em todas as 17 . b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública. à profissionalização. a efetivação dos direitos e garantias fundamentais de nossas crianças e adolescentes. c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas. com absoluta prioridade. uma função de integração sistêmica. à cultura. Todos os princípios que permitem uma melhor aplicação da matéria. que se baseia no princípio do melhor interesse da criança (the best interest of the child). à liberdade e à convivência familiar e comunitária. com previsão no artigo 4º do ECA. à saúde. espelho do princípio da dignidade da pessoa humana para crianças e adolescentes. Princípios constitucionais Os doutrinadores tem entendido que o Estatuto da Criança e do Adolescente é um sistema aberto de regras e princípios.Robson Moraes . Como se vê. que é estabelecido no artigo 227 da CF/88. a exemplo ao da prioridade absoluta e o do melhor interesse. exploração. à educação.Direito da criança e do adolescente . de modo que as regras nos fornecem a segurança necessária para delimitarmos a conduta. devem ser interpretados em consonância com as garantias fundamentais previstas nos artigos 3º e 5º do ECA. enquanto que os princípios expressam valores relevantes e fundamentam as regras. Ambos concretizam a doutrina da proteção integral.

enquanto a prioridade em favor de crianças é constitucionalmente assegurada. Mais. da CF) e do Melhor Interesse da Criança e do Adolescente. CRIANÇA E ADOLESCENTE. RECURSO ESPECIAL.Direito da criança e do adolescente .º 10. obrigatoriamente terá que optar pela primeira. integrante da doutrina da proteção integral. Se pensarmos que o Brasil é ‘o país do futuro’ – frase de efeito ouvida desde a década de 70 – e que o futuro depende de nossas crianças e jovens.741/03. caput. COMPETÊNCIA.. Leva em conta a condição de pessoa em desenvolvimento. A Constituição Federal alterou o anterior Sistema de Situação de Risco então vigente. COMPETÊNCIA ABSOLUTA DA VARA DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE. RECURSO PROVIDO. 2007. pois estabelecido no artigo 3º da Lei n.UNIGRAN esferas de interesses. SUJEITOS DE DIREITOS. PROCESSUAL CIVIL.. 1. A jurisprudência pátria tem reconhecido a relevância do tema. mas aqui se tratou de ponderar interesses. À primeira vista. assegurando primazia que facilitará a concretização dos direitos fundamentais enumerados no caput do artigo 4º do ECA. (. protegidos atualmente pelo Sistema de Proteção Integral. pois ambos necessários.Robson Moraes . 20): “(. O corpo normativo que integra o sistema então vigente é norteado. CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Pág. pode parecer injusto. 3. Ressalte-se que a prioridade tem um objetivo bem claro: realizar a proteção integral. sociedade em geral e Poder Público. se torna razoável e até acertada a opção do legislador constituinte. seja judicial. A prioridade deve ser assegurada por todos: família. EXPRESSÃO PARA A COLETIVIDADE.. o princípio da prioridade para os idosos é infraconstitucional. por exemplo. na interpretação do Estatuto e da Criança “levar-se-ão em conta 18 . Rio de Janeiro: Editora Lúmen Júris. 227. JUÍZO DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE. Assim.. O que seria mais relevante para a nação brasileira. 2. SISTEMA DA PROTEÇÃO INTEGRAL. extrajudicial. pelos Princípio da Absoluta Prioridade (art. pois a criança e o adolescente possuem uma fragilidade peculiar de pessoa em formação. INTERESSE DISPONÍVEL VINCULADO AO DIREITO FUNDAMENTAL À EDUCAÇÃO. comunidade.) se o administrador precisar decidir entre a construção de uma creche e de um abrigo para idosos.). como explica Andréa Rodrigues Amin (in Curso do Direito da Criança e do Adolescente: Aspectos Teóricos e Práticos. Não há olvidar que. social ou familiarmente. administrativa. reconhecendo a criança e o adolescente como sujeitos de direitos. PRINCÍPIOS DA ABSOLUTA PRIORIDADE E DO MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA. dentre eles. correndo mais riscos que um adulto. Isso porque. ADMINISTRATIVO.

Arnaldo Esteves Lima. indubitavelmente. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO À PARTE RECORRENTE. quais sejam.199. torna imperativa a observância do melhor interesse da criança e do adolescente. posto que.069/1990). Julg. 8. afastar a competência da Vara da Infância e da Juventude. ressalvadas aquelas estabelecidas constitucionalmente. sempre que uma irregularidade do processo não acarretar prejuízo para a parte. consequentemente. de expressão para a coletividade. Min. VÍCIO NA INTIMAÇÃO DO NOME DO ADVOGADO DA PARTE. MÉRITO. 2010/0101307-5. COMPROVAÇÃO DE QUE A CRIANÇA ESTÁ SENDO BEM ASSISTIDA MATERIAL E AFETIVAMENTE POR AMBOS. ARTIGO 1º DO ECA (LEI N. in casu. REsp 1. 148 e 209 do ECA não excepcionam a competência da Justiça da Infância e do Adolescente.069/1990). 5. Primeira Turma. 6º). de outro lado. da Justiça Federal e de competência originária. Os arts. não será justificada a declaração de nulidades. 7. da CF). APELAÇÃO CÍVEL. portanto. todavia.Direito da criança e do adolescente . e. aplicando-se a todas as crianças e adolescentes. limitando-o aos infantes em situação irregular. as exigências do bem comum. SE. Trata-se. NULIDADE DA SENTENÇA. de interesse de cunho individual. pois vinculado ao direito fundamental à educação (art. Com base no princípio da instrumentalidade das formas. 19 . de natureza absoluta para processar e julgar feitos versando acerca de direitos e interesses concernentes às crianças e aos adolescentes. 4. ESTUDO PSICOSSOCIAL. 6. 21/10/2010. por si só.º 8. o qual foi reconhecido na Declaração dos Direitos da Criança. A disponibilidade (relativa) do interesse a que se visa tutelar por meio do mandado de segurança não tem o condão de. DJE 12/11/2010) Outro princípio de suma importância ao lado da prioridade absoluta é o do melhor interesse. a dignidade da pessoa humana. ao preconizar a doutrina da proteção integral (artigo 1º da Lei n. Rel. RECURSO IMPROVIDO. em 1959. O Estatuto da Criança e do Adolescente. de credo ou raça. caput. AÇÃO DE GUARDA JUDICIAL PRELIMINAR. deve-se entender que. PORÉM POSSUI MAIOR VÍNCULO AFETIVO COM A MÃE. e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento” (art. o que não mais persiste desde a promulgação da Carta Magna e a consequente vigência do ECA.Robson Moraes . sendo. independentemente de sua relação familiar. Deve-se assegurar que a criança fique sob a guarda daquele que dispõe de melhores condições para assisti-la tanto no aspecto afetivo como material. destinada a assegurar a integral proteção a especiais sujeitos de direito. (STJ. devidamente inserido no antigo Código de Menores. OBSERVÂNCIA DO MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Proc. que materializa.587. contudo. com a adoção da doutrina da proteção integral. cuidados esses indispensáveis a sua subsistência com dignidade da criança. a aplicação do referido princípio ganhou amplitude.UNIGRAN os fins sociais a que ela se dirige. Recurso Especial provido para reconhecer a competência da 16ª Vara Cível da Comarca de Aracaju (Vara da Infância e da Juventude) para processar e julgar o feito. 227. os direitos e deveres individuais e coletivos.

II). 4ª Edição – Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris. AGUIRRE. (TJMS. Água Clara. em razão do maior vínculo afetivo que possuem. MACIEL. Terceira Turma Cível. Guilherme Freire de. . 31) Neste prisma jurisprudencial. LÉPORE. Salvador: Editora Juspodivm. acima de todas as circunstâncias fáticas e jurídicas. Estatuto da criança e do adolescente. 227. c/c o art. Curso de Direito da Criança e do Adolescente: Aspectos Teóricos e Práticos.UNIGRAN Embora tenha sido constatado que ambas as partes possuem bom relacionamento e boas condições de sustentar a menor. Estatuto da Criança e do Adolescente (Dicas para realização de provas de concursos artigo por artigo). Luciano Alves. DEL-CAMPO.010/2009. João Ricardo Brandão.Robson Moraes . dentre os quais podemos reportar o da municipalização ou participação popular (através da formulação de políticas locais – Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente – da escolha de cidadãos interessados em integrar o Conselho Tutelar a fim de solucionar conflitos mais simples e resguardar os direitos fundamentais infanto-juvenis – CF. 204.São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. É certo que existem inúmeros outros princípios que também devem ser somados à proteção da infância.º 12. Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado. 2008. Estatuto da Criança e do Adolescente: doutrina e jurisprudência. ____BIBLIOGRAFIA CURY. notadamente.031077-5/0000-00.003 e Lei 20 . a criança e o adolescente). 2009. Paulo Henrique Aranda. 10ª Edição – São Paulo: Editora Saraiva. 2010. ou seja. Thales Cezar de. Guilherme Madeira. §§3º e 7º. 4ª Edição – São Paulo: Editora Atlas. Estatuto da Criança e do Adolescente (Elementos do Direito V. FULLER. 2010. OLIVEIRA. ISHIDA. 2010. deve pairar o princípio do melhor interesse. de 3 de agosto de 2009 : e outras disposições legais : Lei 12. Eduardo Roberto Alcântara. a mantença desta sob a guarda da mãe é a melhor solução. AC 2007. DJEMS 09/03/2009. 2010. 11ª Edição – São Paulo: Editora Atlas S. DEZEM. 3ª Edição – Atualizada de acordo com a Lei n. como garantidor do respeito aos direitos fundamentais titularizados por crianças e adolescentes. Oswaldo Rodrigues de Melo.Direito da criança e do adolescente . ROSSATO. e o da condição peculiar de pessoa em desenvolvimento (o destinatário do direito da infância e da juventude é justamente aquele que está vivenciando um processo de formação e de transformação física e psíquica. Pág. Munir (Coordenador). 14). Válter kenji. art. Rel.A. fica claro que. Kátia Regina Ferreira Lobo (Coordenadora).010. Paulo Eduardo. Comentários à lei nacional de adoção : Lei 12. Des. MELO BARROS.