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Título: AS INSTITUIÇÕES COLONIAIS DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO

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Ailton Menezes Cunha Junior1 Willemberg Harley de Lima Alves2 RESUMO O Brasil é um país de dimensões continentais com ampla gama de fatores favoráveis ao seu desenvolvimento. Todavia, tal processo tem evoluído de forma acentuadamente lenta o que nos leva a questionar por qual(is) motivo(s) nossa nação teria um desenvolvimento díspar quando observadas outras nações cronologicamente mais novas e de dimensão territorial contínua inferior quando comparadas ao território brasileiro. Tal justificativa motiva o presente trabalho no intuito de se estudar sob um prisma institucional o processo de colonização do Brasil identificando o legado institucional do período colonial sobre o Estado Brasileiro, os traços institucionais herdados daquele período assim como seus reflexos sobre o processo de desenvolvimento do país. Palavras chave: Instituições, Desenvolvimento, Arranjos Institucionais, Período Colonial.

ABSTRACT Brazil is a country of continental dimensions with a wide range of factors favorable to its development. However, this process has been so dramatically slow that it leads us to ask for which reason(s) our nation would have a disparate development rhythm when compared to younger nations with less territory. This rationale motivates the present work to study from an institutional perspective the process of colonization in Brazil, identifying the institutional legacy of the colonial period on the Brazilian State, and tracing institutional inheritances of that period as well as their reflections on the developmental process of the country. Keywords: Institutions, Development, Institutional Arrangements, Colonial Period.

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INTRODUÇÃO

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Professor adjunto do UNIPE e mestre em economia pela UFPB. Professor adjunto do UNIPE e mestre em economia pela UFPB.

sem deixar de considerarmos que ao falarmos de desenvolvimento estamos na realidade nos reportando a um estado de progresso econômico. econômica e social determinando as condições e a velocidade com que estas sociedades evoluem. os grupos étnicos. Destarte. Os motivos de colonização. processo esse legitimado pelos agentes. extremamente ligada às origens históricas dessas nações cujo legado tende a influenciar diretamente a sua formação política. Sendo o Brasil um país de dimensões continentais com ampla gama de fatores favoráveis ao seu desenvolvimento questiona-se por qual(is) motivo(s) nossa nação teria um desenvolvimento díspar quando observadas outras nações cronologicamente mais novas e de dimensão territorial contínua inferior quando comparadas ao território brasileiro realizando. a transferência e a introdução de cultura. a análise do subdesenvolvimento ou desenvolvimento de um país não pode ser ahistórica nem ser observada de forma pontual em vários aspectos. . além de se analisar os impactos das instituições coloniais sobre o desenvolvimento do Brasil. como a seleção de hábitos mentais prevalecentes e a respectiva formação de classes dominantes. Tal processo seria fruto conjunto do crescimento econômico e da evolução institucional dessa sociedade. mas deve-se ter em mente que tal análise deve ser fruto de uma observação holística e temporal. o ambiente e os arranjos institucionais deles decorrentes. que culminariam com o estabelecimento de uma relação de dependência ou dominação perante as demais nações. Tal justificativa motiva o presente trabalho no intuito de se estudar sob um prisma institucional o processo de colonização brasileiro e as influências das instituições coloniais sobre o processo de desenvolvimento do Brasil. assim como a formação de grupos oligárquicos que atenderiam aos objetivos e interesses de suas metrópoles realizando arranjos institucionais nos campos social e econômico. as condições econômicas e as instituições produziram reflexos profundos na organização social e econômica das nações. institucional e de melhoria do bem-estar coletivo em que um determinado país ou nação estaria incorrendo. a presença ou não do caráter exploratório nos objetivos econômicos das metrópoles sobre as riquezas das colônias. sem sombra de dúvida.2 A heterogeneidade econômica e social verificada entre os países do mundo está. todavia. identificando-se o processo de criação dos institutos jurídicos e econômicos do período colonial. um progresso quase que milagroso elevando-as à condição de potências do mundo.

de instituire. Os aspectos polissêmicos da palavra instituições convergem para a unidade de um conjunto de princípios e regras (jurídicas ou não) que se materializam através das relações sociais. As instituições jurídicas são. a seção 3 descreve de forma sinóptica o processo de colonização brasileiro. Um dos pilares sobre os quais se apóia um instituto é a capacidade de perpetuação de uma prática social.3 O presente trabalho está estruturado em cinco seções incluindo a presente introdução. quanto organizar ou ordenar. no período medieval. instituir. 2 A PERSPECTIVA INSTITUCIONAL Identifica-se. as quais delineiam os institutos sob a forma de regras conforme a regularidade de comportamentos legitimados por consenso majoritário. modelo ou gênero que represente a unidade de diversos elementos agrupados. a palavra instituições pode significar tanto o ato ou efeito de fundar. Todavia. a gênese do conceito de instituição o qual deriva da tradição canônica com Sinibaldo de Fieschi. criar. sua motivação econômica. boas leis só alcançam um padrão de eficiência satisfatório em determinado sistema social quando estão em sintonia com as crenças. a palavra instituição. a massa patrimonial destinada à realização dos fins cuja livre disposição pelas partes não era permitida em virtude da existência de autoridade hierárquica. STAJN. na realidade. é empregada no sentido do ordenamento jurídico e corresponde a um tipo. de que deriva instituto. 2005) Do étimo latino institutio. . das corporações cujo substrato era o collegio e os bens. de conceitos fundamentais que embasam determinada área de estudo e sobre os quais se edifica uma teoria subseqüente. identificando as instituições jurídicas e econômicas observadas à luz das instituições de Thorstein Veblen. (ZYLBERSZTAJN. a seção 5 conclui o trabalho. as rotinas e as práticas coletivas vigentes. Pode também ser empregada para indicar caracteres consuetudinários ou mesmo estruturas sociais que modelam práticas legitimadas em determinada comunidade ou núcleo social (ibidem). A seção 2 apresenta a perspectiva institucional do período colonial brasileiro. que se ocupava das organizações de pessoas jurídicas. estabelecer algo durável. o ambiente e os arranjos institucionais realizados à época. na seção 4 busca-se identificar as relações institucionais jurídicas e econômicas e seus impactos sobre o processo de desenvolvimento brasileiro. No contexto das ciências jurídicas. o resultado da organização das sociedades civis. os valores.

particularmente pelo prisma holístico com que observa o homem e sua relação com o meio social e econômico. No conceito de instituições econômicas estariam inclusos além das organizações com fins específicos (educação. Um simples direcionamento ao desenvolvimento já se constitui em uma mudança de situação a exigir uma nova adaptação. A velocidade com que as normas evoluem nem sempre acompanha a mudança no comportamento dos agentes. Essas instituições transferidas às gerações subsequentes por herança. de Direito Civil ou Comercial. . os agentes modificam o meio em que atuam. esses agentes demandarão um período maior de adaptação das suas concepções individuais às novas circunstâncias derivadas da situação alterada. modos de pensar e de agir. Veblen (ibidem. e constitui-se em um novo início para um novo passo rumo ao ajustamento. uma vez que é da natureza do seu método habitual corresponder aos estímulos que essas circunstâncias variáveis lhes proporcionam”. implicando em um retardo no processo de transformação social. 1983). bancos. indefinidamente. para indicar de um lado o conjunto de princípios informadores dessas matérias e. provocando um hiato entre o tempo de resposta dos agentes às novas situações promovidas pelas evoluções sociais e econômicas. são por esse meio influenciados e a síntese dessa interação será formalizada através das instituições. ou ainda uma classe social encontra-se sob determinado anteparo que os isola da ação do ambiente institucional. p. empresas. No campo econômico encontramos na literatura três vertentes da Teoria Institucional: A Antiga Economia Institucional (OIE) de Thorstein Veblen. a Nova Economia Institucional (NEI) de Douglas North e a Nova Sociologia Institucional (NIS) desenvolvida por Dimaggio & Powell. de outro. e a adequação das normas em vigor às novas condições dos agentes. leis e normas de conduta. o poder público. e assim por diante. os costumes e/ou estruturas sociais. Mas se determinado agente ou grupo de agentes. povos ou Estados e que servem às realidades de ações de interesse social ou grupal. incluindo-se aquele conjunto fruto da lei quanto aos costumes existentes e determináveis em grupos. um conjunto de usos e costumes. Adotamos a Antiga Economia Institucionalista de Veblen como a vertente mais apta para a presente análise. culturalmente sacramentados (VEBLEN. As instituições representam a fundação sobre a qual se erige o edifício lógico-normativo. 88) enuncia que “as instituições têm de mudar com a mudança das circunstâncias. famílias entre outros). ou seja.4 Recorre-se às instituições de Direito Público ou Privado.

há ainda. As nuances institucionais distintas distinguem os processos históricos das diversas sociedades organizadas e os hábitos mentais dos indivíduos tendem a serem mantidos indefinidamente. características do tipo étnico (ou tipos) predominante(s). portanto. O caráter concentrador de poder de um sistema normativo não pode. pontos de vista. Dialéticas são encontradas em diversas fases dessa evolução. Um sistema normativo que incorpora mecanismos de coação. entretanto. são. e a ação individual encontra-se influenciada pelas circunstâncias e pelas relações de natureza institucional. e o tipo humano assim selecionado para continuar e. atitudes e aptidões mentais. sabe-se que nenhum indivíduo (ou conselho) pode sozinho. favorecerá a sobrevivência e o domínio de um tipo de caráter de preferência a outro. ser negligenciado. costuma opor-se à evolução das sociedades. salvo quando as circunstâncias obrigam a uma mudança. A inércia provocada pelo tradicionalismo mostra-se resistente à incorporação do progresso técnico e. e é esse um fator de inércia social. Mas além da seleção. simultaneamente. ulteriormente. pode levar uma sociedade a desenvolver-se. p. e hábitos mentais. quebrando as resistências do sistema tradicional. um processo de adaptação seletiva de hábitos mentais. . por exemplo. um ou outro dentre muitos os tipos persistentes e relativamente estáveis de corpo e temperamento se tornam predominantes em determinado ponto. por sua vez. os alicerces consuetudinários e as convenções determinam o comportamento econômico. bem como entre tipos relativamente estáveis de caráter. revela-se inibidora de mudanças estruturais no âmbito das sociedades. Na biografia de qualquer comunidade cuja população é formada por uma mistura de diversos elementos étnicos. um elemento conservador. Prestigiar a preservação da ordem vigente costuma gerar grande dificuldade nas transições coletivas de paradigmas tecnológicos. por mais lúcido que venha a ser. de conservantismo” (ibidem. Todavia.5 ou ainda.88). deliberar de forma eficiente sobre qual a forma de organização econômica excelente para uma sociedade que se torna cada vez mais complexa. elaborar as instituições herdadas do passado modelará essas instituições à sua própria semelhança. Para o longo prazo. de inércia psicológica. “esses hábitos mentais. dentro da ordem geral de aptidões. A tradição. inclusive as instituições em vigor em qualquer época determinada. A situação. portanto. É a limitação decorrente da impossibilidade de onisciência.

uma consequência das pressões políticas exercidas pelas demais nações européias sobre Portugal e Espanha derivadas principalmente do interesse pelas riquezas potenciais a explorar na nova terra. Na seção seguinte busca-se delinear o ambiente institucional do período colonial brasileiro identificando como se deu o processo de seleção dos padrões ou hábitos mentais preponderantes. a ação coordenada dos institutos jurídicos. então. o qual pode convergir para a manutenção de padrões ortodoxos que obstariam o processo ou. em grande parte. que as condições sobre as quais se dá um processo de desenvolvimento econômico estão diretamente associadas a um vetor resultante das forças institucionais em sinergia3. de forma antagônica. Segundo Furtado (2001) a ocupação das terras americanas seria um episódio secundário da expansão comercial Européia. 3 AMBIENTE INSTITUCIONAL DO PERÍODO COLONIAL BRASILEIRO Não constitui a presente seção uma tentativa de se realizar a análise da historiografia do período colonial brasileiro. Holanda e Inglaterra contestavam o direito à totalidade das terras americanas exercido por Portugal e Espanha se posicionando no sentido de reconhecer o direito de propriedade apenas sobre as terras efetivamente ocupadas. pela implantação da atividade agrícola cuja organização culminou no modelo primário agro3 No caso presente. como foram legitimados e manutenidos ao longo do tempo. A inquietação e a perspectiva de usurpação promovida pelas demais nações européias sobre o governo lusitano motivou-o a ocupar sua colônia americana levando os portugueses a buscar atividades econômicas factíveis de serem desenvolvidas em solo sul-americano de modo a financiar a colonização e minimizar as perdas financeiras derivadas da aplicação de recursos improdutivos com fins militares e de defesa territorial. mas sim. França. bem como identificar os processos de formação dos institutos do direito e da economia vigentes à época. .6 Percebe-se então. o que resultaria em desenvolvimento econômico e social. pode prestigiar a mentalidade inovadora arregimentando adeptos e alterando os paradigmas existentes de modo que haja progresso econômico e evolução das instituições numa busca permanente da excelência do bem estar coletivo. Tal ocupação não teria sido motivada por migrações de excedentes populacionais como o caso da Grécia mas seria. econômicos e sociais. a de se buscar no processo de colonização do Brasil as características do ambiente institucional resultante da transculturação. Deliberou-se.

adviria do seu caráter exploratório e da abundância dos fatores de produção que necessitava: terra e mão de obra (ibidem). identifica-se nesse período que o mercado destinado ao escoamento da produção da empresa agrícola brasileira era o mercado europeu evidenciando a exogeneidade que existiu na determinação do nível de produto. submeterem as políticas públicas a seus interesses. o algodão. Além disso. Juntamente com a plantação da cana. foram categóricas na formação econômica do Brasil: a cana-de-açúcar e a mineração. no Brasil. Dentre as diversas atividades que se desenvolveram sob características de empresa agrícola na época colonial figuram a cana-de. O ciclo do açúcar é marcado por uma economia com grande concentração de renda nas mãos dos donos de engenho. a utilização de forma intensiva da mão-de-obra escrava 4 Segundo Sandroni (2000) consiste na prática por alguns agentes econômicos e políticos de. O engenho de açúcar era um empreendimento que exigia um grande volume de recursos para ser iniciado. As terras eram concedidas àqueles que tinham alguma relação com a coroa portuguesa ou com os capitães donatários e que possuíam recursos para ocupá-las e nelas produzir. por um grande número de escravos absolutamente desprovidos de poder econômico. entre outras. político ou consideração social. e estabelecendo desde então uma relação de dependência do mercado externo. de títulos e honrarias criando uma perspectiva de que aqueles que obtivessem êxito no empreendimento retornariam para a metrópole rico e usufruindo títulos de nobreza. de outro lado. Acerca dos aspectos institucionais da economia açucareira Naritomi (2007) elucida que: “A economia do açúcar se estruturou no chamado plantation com base em três elementos básicos: latifúndio. A estratégia desenvolvida pelo governo lusitano para atrair pessoas interessadas em explorar a empresa agrícola açucareira contemplava a concessão de terras. por uma estrutura sócio-econômica extrativista e por uma lógica rent-seeking4. o café. o ciclo do açúcar só foi possível devido à solução do problema da mão-de-obra: o escravo africano. em busca de vantagens pessoais. a pecuária. o fumo. segundo Furtado (ibidem). Ambas as atividades são marcadas pelo uso intensivo de mão de obra escrava. monocultura e trabalho escravo. Os recursos econômicos e o poder político eram extremamente concentrados. Além disso. nasceram. dos senhores de escravos e de completa dependência do mercado externo vis-à-vis o reconhecimento que o produto tinha no mercado europeu sendo considerado especiaria.” Destarte. sendo possível identificar duas atividades que.açúcar. a mineração. a grande propriedade rural e a sociedade patriarcal e escravocrata. . a economia açucareira evidenciava uma forte polarização derivada do enorme poder e influência local de que detinham os senhores de engenho e. a sua manutenção. Alhures.7 exportador que dominaria nossa economia por muitos anos e.

o ordenamento jurídico do período colonial brasileiro inicia-se com a transferência do ordenamento jurídico português visto que as atividades desenvolvidas na colônia deviam atender aos interesses da metrópole para a realização de qualquer . intervém veementemente nessas regiões seja pela instituição de impostos. Dos esforços por parte de Portugal em procurar organizar uma instituição políticoadministrativa eficiente na colônia depreende-se que tenha havido uma transferência de juridicidade da metrópole para o Brasil. que o controle que a coroa desejara obter sobre o processo de extração e sobre a circulação de bens e pessoas levou Portugal a instituir um aparato governamental ineficiente e por demais complexo impondo óbices na relação entre o setor público e a população local (ibidem). ia revelando de forma mediada a ascensão de uma burguesia comercial num contexto de relações feudais definidas por um sistema com base no direito romano e com influências do direito canônico (BANDECCHI. identificar os institutos jurídicos para cá transferidos e suas repercussões sobre a população existente. “que aí estariam os elementos constitutivos de instituições ruins: extrema desigualdade social. Seu direito expressava uma conformação social que. p. Destarte. Entretanto. 24).8 constituiu-se em uma instituição sine qua non empreendimento de vulto. portanto. ou seja. Os extremos em que se situavam o senhor de engenho e seu escravo bem como a condição de colônia orientada pela monocultura latifundiária exportadora foram. maior mobilidade social e menor rigidez. Concomitantemente. objetivando um maior controle e a apropriação máxima das reservas auríferas brasileiras cujo monopólio a ela pertencia. uma elite política e econômica demasiadamente pequena e a formação de um arcabouço legal e tributário extrativista” Naritomi (ibidem. Acrescenta-se. ainda. pela criação de regras para a exploração das minas e movimento de bens e pessoas. segundo Naritomi (ibidem) os institutos responsáveis pela gênese das instituições políticas e econômicas das zonas açucareiras. Acrescenta ainda. À época do seu aporte na costa brasileira. No caso do ciclo do ouro. aos poucos. a economia mineira diverge da açucareira por constituir-se numa sociedade mais equânime no ponto de vista do poder político. a metrópole. Buscar-se-á. seu início foi marcado por um volumoso fluxo migratório para as regiões mineradoras. 1984). Portugal já se constituía em uma grande potência comercial e tecnológica do Ocidente.

. cartas régias. Ao proceder-se uma análise no que se refere à aplicação do direito português sobre as condições de vida de um Brasil em formação. notadamente na parte administrativa. como o era o silvícola. o estabelecimento das regras e normas de conduta deveria ser coerente com tais objetivos. há mister não se guardarem em algumas coisas as ordenações. senhores de escravos e proprietários de terras (. 1984: p. p. O primeiro pilar normativo introduzido em nosso país foram as Ordenações do Reino.. 18). decretos. seja pelo vulto da extensão territorial. Senhor. As Ordenações compreendiam as leis de caráter geral aplicadas ao império e as leis especiais promulgadas especialmente para o Brasil. a pulverização do poder na mão dos donos das terras e dos engenhos. através dos Governadores-Gerais e da administração legalista.9 e. de outra parte.) Com isso. marchará decisivamente no sentido de preeminência do poder público sobre a comunidade. A ordem jurídica vigente.. observando ainda que tais institutos delineariam o ambiente institucional à época: “Registra-se a consolidação de uma instância de poder que. Ao se referir à estrutura política e jurídica do período colonial brasileiro. percebemos a distância entre as duas realidades. desenvolveu-se um cenário contraditório de dominação política: de um lado. completamente desvinculada dos objetivos de sua população de origem e da sociedade como um todo. Alheia à manifestação e à vontade da população. regimentos. no domínio privado ou público. 39 e 40) enuncia alguns dos principais institutos gerados pelo poder de mando da metrópole portuguesa sobre sua colônia. implantando um espaço institucional que evoluiu para a montagem de uma burocracia patrimonial legitimada pelos donatários. p. alvarás que estabeleciam normas especiais para o Brasil (.. a Metrópole instaurou extensões de seu poder real na Colônia. solidificando uma estrutura com tendência a perpetuação das situações de domínio estatal”. sofria constantes modificações com as cartas de doação. Bandecchi (1984. que foram feitas não havendo respeito aos moradores delas. . Wolkmer (2003. 18) elucida que as “(." (Bandecchi. o esforço centralizado que a Coroa impunha. para se conservar e ir adiante.) Ordenações do Reino eram as leis que se aplicavam no Brasil no que diz respeito principalmente ao direito privado. além de incorporar o aparato burocrático e profissional da administração lusitana.. surgiu sem identidade nacional.. não sendo possível haver a legitimidade das regras por parte de todos os agentes. Percebe-se claramente a inadequabilidade das instituições (Ordenações vigentes à época) com relação ao pilar cognitivo-cultural existente. algo já identificado por carta de um ouvidor-geral: "Esta terra. leis metropolitanas que foram aplicadas sobre um povo de cultura atrasada como era o caso da escória portuguesa deportada para cá e até inculto.)". O direito público. provisões. assim. seja pelo profundo quadro de divisão de classes.

o ambiente institucional gerado pela estrutura jurídico-administrativa portuguesa teria sido legitimado apenas pelas classes sociais encarregadas de atender àqueles interesses. não lhes permitiu competir com o colonizador na elaboração do direito brasileiro”. Como os interesses da metrópole eram voltados para a ocupação territorial mediante a implantação de atividades econômicas de cunho exploratório e destinada a financiar esta ocupação. predominando aquelas instituições que atendem aos interesses da classe política majoritária. ou seja. participando mais da humilde condição de objeto do direito real. Igualmente o negro.) dos três grupos étnicos que constituíram nossa nacionalidade. se sua presença é mais visível no contexto cultural brasileiro. pois os nativos não conseguiram impor suas leis. Ressalta-se que a manutenção ou não dos institutos dependerá do poder político exercido pelos agentes. . No caso do período colonial brasileiro. assim escreve: “(. da legitimação destes institutos pelos agentes ativos. 4 5 INSTITUIÇÕES E DESENVOLVIMENTO No presente trabalho constitui-se no conjunto de n institutos que dependem de um sistema de legitimação com n-dimensões e que se modifica segundo os processos de legitimação quando se muda o sistema. Se a contribuição dos indígenas foi relevante para a construção de nossa cultura. ou seja.. Tais circunstâncias podem ser observadas sob a forma de Revoluções. Todavia.. mas percebese que a gênese desses derivou da transjuridicidade do ordenamento lusitano para o Brasil.10 O grau de eficiência que pode ser alcançado pelas instituições depende. para aqui trazido na condição de escravo. estabeleceu-se um quadro de forças institucionais caracterizadas por vetores institucionais como a estrutura de poder público e as oligarquias constituídas para atender a vontade da metrópole cuja sinergia implicou em um vetor institucional com preeminência sobre as comunidades. um ambiente institucional que atenderia os interesses da metrópole sob uma situação de domínio estatal. Destarte. Não se identifica nesse período um processo de seleção dos hábitos mentais prevalecentes nem a participação da população local no processo de formação dos institutos. em grande monta. a sua condição servil e a desintegração cultural que lhes impelia. Além disso. o mesmo não se pode dizer quanto à origem do Direito nacional. resta saber quais as conseqüências dessa estrutura institucional e os arranjos institucionais dela decorrentes sobre o processo de desenvolvimento brasileiro. as fissuras porventura existentes e decorrentes da não legitimação por parte de alguns agentes podem levar a uma ruptura dependendo da força do vetor institucional5 que sobre ela atue. Machado Neto (1979. 307) ao arguir sobre as raízes culturais da legislação brasileira. somente a do colonizador luso trouxe influência dominante e definitiva à nossa formação jurídica. p. objeto de proteção jurídica.

valores. As instituições corroboram nas explicações dos diversos híbridos existentes por compreenderem o sistema coletivo de crenças. torna-se desejável que o vetor maior dessas forças convirja para a superação do tradicionalismo inercial. A combinação desta última com mecanismos de socialização do excedente produtivo rateado entre salário e lucro. Todavia. mando e mercado. resultaria em uma contínua transferência dos aumentos na produtividade física do trabalho para o salário real. a incorporação de progresso técnico deve promover um aumento na produtividade física do trabalho o que resultaria numa dinâmica endógena. O desenvolvimento das civilizações dependeria então do resultado da dinâmica institucional promovida pela sinergia entre as diversas forças desprendidas pelos institutos e a legitimação pelos agentes. são elas o produto das relações de poder existentes nas sociedades e. O instituto prevalecente sobrepujará os demais e determinará o rumo dessa dinâmica. Todavia. Para Mendes e Teixeira (2004) o “modelo dinâmico de crescimento” de Furtado acarretaria dois tipos de pressões: o primeiro derivado de um passado colonial. por entender-se desenvolvimento como o progresso econômico e institucional que resulta na elevação do bem-estar coletivo. Segundo Furtado (1974). associado a um grupo . o ponto crucial residiria na existência de um ambiente institucional que permitisse que a acumulação de capital desencadeasse uma tendência à escassez relativa de trabalho. e combinando progresso econômico com elevação contínua do bem-estar coletivo. Desta forma. os quais atuando em conjunto podem resultar em variadas combinações que irão legitimar ou não o ambiente institucional. consequentemente a majoração do bem estar coletivo.11 De acordo com Heilbroner (1962). os governos e os mercados são moldados pelos institutos vigentes e legitimados. rotinas e conhecimentos técnicos acumulados. promovendo a introdução de progresso tecnológico e social. um processo de desenvolvimento requer equidade social como condição sine qua non para que aquele aconteça. práticas. melhor distribuição de renda e. Tomando-se uma sociedade capitalista. os arcabouços jurídicos. impulsionando a dialética de inovação e difusão do progresso técnico. os processos de evolução das sociedades dependem basicamente de três tipos de arranjos institucionais: tradição. destarte.

O segundo tipo de pressão estaria associado à concentração da propriedade privada dos meios de produção na mão de alguns grupos. Entretanto. 4) elucidam que: “(. por uma elite que adota. 2007.12 político dominante (oligárquico. . Observa-se então. Esse país crescerá economicamente. se deformará”. Do instrumental analítico empregado por Furtado para estudar o desenvolvimento. padrões de consumo e formas de viver típicos dos países ricos e totalmente incompatíveis com o nível de renda do próprio país. existem determinados institutos que entorpecem e podem mesmo impedir o desenvolvimento por convergirem para a manutenção da concentração de renda. A proposição acima ratifica a existência de um hiato entre o tempo de resposta dos agentes às novas situações promovidas pelas evoluções econômicas e a adequação das normas em vigor às novas condições dos agentes. que por sua vez causa maior disponibilidade de bens e serviços e. Segundo ele... Observa-se que o regime de propriedade da terra. Terão aumento de renda. seria prejudicial ao desenvolvimento porque fomenta a gênese de instituições desligadas do processo produtivo mas inclinadas a altos padrões de consumo. 5) ressalta o caráter intrínseco da cultura no que concerne à questão do subdesenvolvimento brasileiro. mas não se transformará. por exemplo. o surgimento de óbices institucionais derivados de ajustes inadequados ou decorrentes de um descompasso cronológico. agrário) o qual reluta quanto à cessão de posições privilegiadas de poder. a partir de produtos primários. p. Furtado (2003.) as relações econômicas (estrutura econômica) promovidas pelas inovações científicas mudam mais rapidamente que as relações institucionais (superestrutura social). os quais manifestar-se-ão na manutenção do anacronismo da distribuição da renda e que se traduzem em insuficiente vigor na demanda final para consumo ou investimento. TEIXEIRA. p. finalmente. então. que põem em marcha um conjunto de reações que provoca um aumento na produtividade média do sistema. manutenida segundo características próprias do capitalismo. especialmente no contexto de subdesenvolvimento “alguns países podem ter crescimento econômico. tendo este um papel fundamental na dinâmica de reprodução capitalista. o qual poderá ser apropriado por uma minoria. ao contrário. Mendes e Teixeira (ibidem. impulsiona o desenvolvimento científico que por sua vez causa novos avanços tecnológicos”. apud MENDES. com a técnica possibilitando uma série de mudanças na evolução histórica do país.

seja na indústria agrícola ou na economia mineira. gerando alta concentração desta e disseminando elementos de desigualdade social. do crescimento e do desenvolvimento nacional. buscou-se estudar sob um prisma institucional o processo de colonização brasileiro e as influências das instituições coloniais sobre o processo de desenvolvimento do Brasil. os institutos econômicos atendiam à prática de atividades econômicas de cunho exploratório. aqui estabelecidos de forma coercitiva e derivada da excelência de poder político emanado pelo poder de mando da metrópole sobre sua colônia. A sinergia entre estas instituições convergia para atender os interesses da metrópole que residiam na obtenção de recursos para financiamento do processo de ocupação territorial e da busca de riquezas potenciais. Não se verificou uma seleção dos hábitos mentais prevalecentes nem a regularidade de comportamentos culturalmente sacramentados. TEIXEIRA. as agudas desigualdades econômicas e sociais que obstam a expansão do mercado doméstico. ampliando as distorções internas (MENDES. 2004). 5 CONCLUSÕES Na presente pesquisa. mas sim. vis-à-vis a absorção de modernas tecnologias de produção não contemplar a totalidade da nossa economia. Concomitantemente. Inicialmente.13 Essa arguição é plenamente compatível à situação brasileira. Os fortes institutos econômicos identificados no modelo de economia primário-exportadora consistiam na dependência do mercado externo e da utilização intensiva de fatores de produção abundantes (terra e mão-de-obra) legitimando a inexistência de progresso tecnológico e ratificando o caráter exploratório no processo produtivo. sem qualquer participação da população nativa. Os ganhos de produtividade e de renda per capita sem uma necessária distribuição de renda apenas reproduziriam padrões de consumo dos países abastados em grupos restritos. pôde-se observar que o ambiente institucional do período colonial brasileiro foi constituído por institutos jurídicos derivados do ordenamento lusitano. mesmo hodiernamente. a transferência de juridicidade do direito português o qual demonstrava completa incompatibilidade com a realidade brasileira. . A legitimação destes institutos desencadeou arranjos institucionais que se manifestaram na incapacidade do país superar. de máxime renda.

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