DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO Artigo COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS

DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS
*

Joaquín Herrera Flores**

Traduzido e adaptado por Antonio Henrique Graciano Suxberger, Carlos Roberto Diogo Garcia e Jefferson Aparecido Dias.

RESUMO: A decisão dos povos indígenas que optam por se manter em isolamento autônomo representa uma resposta legítima frente ao sistema hegemônico do mundo globalizado que, atualmente, ao contrário de garantir direitos para todas as pessoas, está a serviço do mercado e da acumulação desenfreada de capital nas mãos de poucos. O que se pretende neste trabalho é explorar os argumentos que justificam tal postura e apresentar propostas para que eles sejam utilizados para o desenvolvimento de uma conduta emancipadora que nos conduza a uma vida digna de ser vivida. Palavras-chave: Direitos Humanos. Povos Indígenas. Isolamento Autônomo. ABSTRACT: The decision of the indigenous peoples that choose to keep themselves in self-isolation represents a rightful reply to the hegemonic system of the globalized world that, currently, in opposition to guaranteeing rights for all people, is in service of the market and the wild accumulation of capital in the hands of a few. What is intended in this work is to explore the points that justify such position and to present proposals so that they are used for the development of an emancipatory behavior that leads us to a life worthy of being lived. Keywords: Human rights. Indigenous Peoples. Self-Isolation.

* O título do texto em espanhol é “10 bases para la consideración de sujetos de derechos humanos a los pueblos indígenas en aislamiento autônomo”, traduzido e adaptado por Jefferson Aparecido Dias, Antonio Henrique Graciano Suxberger e Carlos Roberto Diogo Garcia, doutores em “Direitos Humanos e Desenvolvimento” pela Universidad Pablo de Olavide, Sevilla, Espanha. ** Diretor do Programa Oficial de Pós-graduação em “Direitos Humanos e Desenvolvimento”, Universidade Pablo de Olavide, Sevilha, Espanha.

Revista Internacional de Direito e Cidadania, n. 5, p. 127-137, outubro/2009

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políticas e jurídicas do capitalismo. e. 3ª edição. fronteiras que nada têm de naturais. senão que foram construídas histórica e politicamente como linhas de exclusão estabelecidas na base de relações de força e de eliminação colonial de outras formas de regulação política e jurídica. A dúvida surge de imediato: poderá o imenso e gigantesco arcabouço normativo e jurisprudencial do chamado Direito Internacional dos Direitos Humanos fazer algum arranhão. e a este regressar” (PENTEADO FILHO. J. econômicas. correção e distribuição de bens “transformados” em escassos pelos pontos 1 e 2. econômicos e culturais. (c) a persistência na manutenção da dualidade estabelecida em 1966 entre direitos individuais. H. A partir de múltiplos e distintos contextos sociais e políticos. reiteradamente se denuncia sua ineficácia na hora de enfrentar os graves problemas pelos quais a humanidade atravessa atualmente. no mínimo. I – A constatação de ineficácia do “atual” Direito Internacional dos Direitos Humanos Algo ocorre com o Direito Internacional dos Direitos Humanos neste turbulento início do século XXI. Nestor Sampaio. Transcorreram mais de sessenta anos da assinatura da famosa Declaração Universal e poucos são os seres humanos que acreditam em sua virtualidade na hora de diminuir os efeitos desastrosos do sistema econômico e de relações sociais que regula a vida cotidiana das pessoas. São Paulo: Editora Método. 2. p. 5. (b) a continuidade da política de “dois pesos. Estas críticas não são um fenômeno novo. Todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado. e direitos sociais. (2) a consequente “criação” de escassez (baseada na consideração excludente e profundamente antissolidária do critério axiológico de eleição racional). duas medidas” em relação aos conflitos que assolam muitas das regiões do mundo. (d) a dependência patológica dos direitos com respeito às fronteiras nacionais (tal e como se afirma no artigo 13 da Declaração Universal de 19481). nessa estrutura de dominação e de exploração que traz consigo o sistema de relaciones sociais. novas exclusões. 127-137. n. como um Polifemo de um olho só. de efetiva aplicação. fazem parte do acervo de descontentamento e desesperança que parece ter se instalado nas mentes da ingente “multitude” de militantes que lutam dia-a-dia pela construção de um mundo melhor utilizando a categoria “direitos humanos”. Muitos são os temas que recorrentemente aparecem nas críticas: (a) as dificuldades para abordar seriamente os chamados “objetivos do milênio” com suas constantes prorrogações e atrasos no momento de sua implementação. Nos referimos ao sistema capitalista e seu círculo infernal composto. ergue-se gigantesco sobre uma base de desi- II – O círculo infernal instituído pelo sistema capitalista 1 O referido artigo 13 dispõe que: “1. Todo ser humano tem o direito de deixar qualquer país. constantemente postergados até que por arte de mágica surjam os recursos necessários para sua colocação em prática. inclusive o próprio. A novidade é a consciência de que algo não funciona com esse conjunto de “direitos” que foram “declarados” como universais em dezembro de 1948. (3) a afirmação e reafirmação do mercado autorregulado como único mecanismo racional de ajuste. novas justificações dos mercados e mais acumulação. pelos seguintes quatro elementos: (1) a apropriação privada dos recursos naturais e humanos (com toda sua bagagem de patentes e múltiplas versões do sacrossanto direito de propriedade privada garantido juridicamente nas esferas nacional e internacional). Estes fatos. Manual de Direitos Humanos. e (4) a “naturalização” de um fim ou “telos” insuperável: a contínua e sempre crescente acumulação de capital que permita reiniciar o ciclo com novas apropriações privadas. globalizado? III – O vigor do Polifemo Como conciliar o emaranhado jurídico e institucional que. 2009) 128 Revista Internacional de Direito e Cidadania.FLORES. outubro/2009 . como ponto final. abrir alguma fissura. hoje em dia. e muitos outros.

2004. há alguma forma de conciliar o sonho ou de evitar a esquizofrenia quando proclamamos nossa adesão aos direitos humanos sem levar em consideração tais situações individuais e coletivas? Estamos acostumados a seguir nossos clássicos ocidentais (Francisco de Vitória2. política e juridicamente a opressão de uns (os mais) em benefício de outros (os menos). Contudo. Ijuí: Unijuí. Porém. insistentemente destacando sua ineficácia para a resolução dos problemas da humanidade. Cada vez que nós culpamos globalmente ao direito (seja nacional ou internacional) pelos problemas que sofrem as maiorias empobrecidas. os idealizadores. Sorrindo uns e outros. quando falamos de capitalismo. contemplam entusiasmados como mais uma vez erramos o alvo de nossas críticas. a apontar as debilidades do gigante de um olho só em que consiste o Direito Internacional dos Direitos Humanos. devemos ter muito cuidado quando. sempre em benefício das minorias dominantes nos processos de acumulação do capital. outubro/2009 129 . n. 5. as causas reais de referidos problemas se mantêm incólumes e sua reprodução histórica permanece assegurada. denunciamos a fraqueza dos direitos frente à ordem hegemônica que está na sua base. sempre deôntica. O Direito da Guerra e da Paz. Tradução de Ciro Mioranza. É extremamente necessário que nos dediquemos à crítica do grande Polifemo que só vê normas e instituições. 2006. com um simples observar do mundo que nos rodeia vemos que as realidades históricas e sociais têm funcionado de forma a excluir as maiorias oprimidas e subordinadas até do gozo de seus próprios recursos. injustiças e explorações sistemáticas? Por acaso os direitos humanos podem conviver com esse contexto econômico capitalista e seguir engordando os compêndios do direito internacional sem poder afetar as instituições e as práticas que legitimam e reproduzem a opressão generalizada que sofrem as quatro quintas partes da humanidade? Se todos e todas estamos dotados retoricamente de direitos individuais e sociais (entendidos conjuntamente na Declaração Universal) e materialmente vivemos em condições de injustiça ou de privilégio. que estes já estão bem fundamentados e que somente deverão ser aplicados no futuro? Essa hipotética aplicação dos direitos poderá se realizar no marco da relação social capitalista ou precisará de qualquer tipo de rechaço sistêmico da mesma? Definitivamente. exercendo a nossa capacidade de crítica. 3 GROTIUS. podemos nos sentir seguros de que as coisas irão mudar porque a doutrina dominante no campo dos direitos humanos nos afirma (contradizendo toda lógica jurídica. Sendo assim. não devemos nos contentar com essa avaliação negativa e nos deleitar com nossa perspicácia.DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS gualdades. no Direito Internacional dos Direitos Humanos como único instrumento de solução de seus problemas? IV – A opção pelo critério de valor de “riqueza humana” Está claro que. Ijuí: Unijuí. 127-137. explorados e colocados em situação de subordinação pelo conjunto de relações sociais capitalistas. p. ocultar ou ignorar: (a) quais são as causas concretas e materiais desse abismo estabelecido entre os direitos reconhecidos constitucional ou internacionalmente e as realidades concretas de subor- 2 VITORIA. O capitalismo nada mais é que o estabelecimento e generalização de um determinado tipo de relação social que se institui para formalizar social. Enquanto nos dedicamos. produtores e legitimadores do sistema socioeconômico vigente esfregam suas mãos. podem confiar os coletivos tradicionalmente oprimidos. Revista Internacional de Direito e Cidadania. o que fazemos é esquecer. Quando nos conformamos em permanecer assim. Contudo. Francisco de. Os Índios e o Direito da Guerra. com boas razões. pois o que estamos fazendo é confundir a causa dos problemas com um dos meios que temos ao nosso alcance para tentar solucioná-lo. Hugo Grócio3 e outros) na afirmação de que todos somos seres humanos porque temos os mesmos direitos. não tratamos de um fenômeno natural. nunca descritiva) que “temos” os direitos. Hugo.

etc. n. as normas e as práticas sociais que se realizem sob seu âmbito axiológico potenciarão a obtenção de benefícios individuais sem levar em conta as opressões ou exclusões coletivas.FLORES. corrupção e genocídio em que foram afundadas. H. o civilizado e o cultural (no qual o civilizado se apresenta como universal e o cultural como produto primitivo e particular). nós e eles (em benefício de um nós excludente dos outros). o mental e o corporal (em benefício do mental). não levamos a sério que toda política. Agora. as políticas. É bem sabido que a lógica da dominação capitalista tem funcionado secu130 larmente estabelecendo fronteiras de diferentes tipos: territoriais. por exemplo. a qual se estende além dos muros da fábrica e alcança até os horizontes mais íntimos dos corpos e do desejo. a decisão permanece intacta. O problema reside em esquecer ou ocultar que toda política. norma ou prática social nada mais são que o reflexo de uma decisão ética que legitima. culturais e econômicas. Pois bem. 5. uma normativa internacional que os favorece. existem os movimentos migratórios compostos de centenas de milhares de pessoas que pretendem escapar das situações de miséria. aos 04 (quatro) pontos do círculo infernal acima citado. temos os novos movimentos sociais devedores das lutas autônomas operárias e estudantis dos anos sessenta. de pouco nos servirá para tal tarefa. 127-137. e (c) desatendemos aos fins que devemos perseguir. reproduz ou critica o sistema hegemônico de relação social. empenhados como estamos em fazer cada vez mais a crítica incisiva e certeira da impotência jurídica. ao mesmo tempo. norma ou prática social é um produto mais ou menos concreto da assunção de um ou outro critério ético e axiológico. Quando não se coloca tal critério no debate. As políticas coloniais e imperialistas sempre têm funcionado desse modo. se o isolamos do restante dos meios políticos. Esta tendência fronteiriça (que funciona mais como “confim” insuperável do que como linha porosa e transitável) tem se legitimado a partir de dualismos nos quais os termos são irreconciliáveis e em que um deles sempre funciona como fiel da balança: o público e o privado (em benefício do privado). V – A decisão autônoma de isolamento Acrescentemos um pouco mais de complexidade ao assunto nos aproximando do objeto de nossa argumentação. Isto faz com que os resultados normativos e políticos que surgem de referida decisão sejam considerados como algo natural e desprovido de toda justificação ideológica favorecedora de sua reprodução por todos os séculos. jurídica e cultural. Se optarmos pelo critério de valor de “eleição racional”. no mundo contemporâneo estão acontecendo ao mesmo tempo três fenômenos sociais que questionam essa natureza-confim do sistema e. no mínimo. como Revista Internacional de Direito e Cidadania. o de “riqueza humana”. econômicos. J. em grande parte. coloniais e nacionais que confinam as comunidades em reservas “sem reservas” para se apropriar do mais sagrado de suas cosmovisões e práticas culturais: seus territórios e os recursos naturais que neles subjazem. que estão questionando os confins do que pode se entender por exploração. ideológicas. terceiro. Em segundo lugar. Porém. Em primeiro lugar. garantindo. (b) que o direito (seja nacional ou internacional) nada mais é que um dos instrumentos que temos ao nosso alcance para a construção de um mundo melhor. pelas políticas colonialistas ocidentais. quer dizer. engordando. as políticas. sua supremacia política. p. dinação submetidas. depois de séculos de lutas. produzindo seus efeitos concretos e materiais. outubro/2009 . As exigências dos povos indígenas alcançaram. se optarmos por outro critério de valor. estão questionando a decisão axiológica que subjaz ao mesmo. Estes movimentos migratórios questionam os confins de privilégio das sociedades do bem-estar e pedem para entrar nos paraísos do consumo irrestrito e do trabalho aparentemente garantido a todos. E. sociais e culturais de que dispomos. as normas e as práticas sociais tenderão ao desdobramento e apropriação das capacidades humanas individuais e coletivas em prol de uma situação de maior igualdade no que concerne ao acesso aos bens que tornam digna a vida que vivemos. as demandas e reivindicações dos povos indígenas frente às políticas culturais racistas. com isso.

hoje em dia. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 6 BAUMAN. também no que se refere à identidade e à cultura. p. outubro/2009 131 . da madeira. Zygmunt. decidem autonomamente separar-se daqueles e daquilo que ameaça sua existência como povos. negam-se a serem integradas nos marcos culturais e econômicos das lógicas hegemônicas e. criação de exércitos de reserva humanos para serem explorados em benefício da acumulação de capital. 5. dos mesmos conhecimentos tradicionais (tão importantes para renovar as patentes farmacêuticas e o desenvolvimento da indústria agroalimentar transnacional). recentemente. O capital. Revista Internacional de Direito e Cidadania. político. São Paulo: Companhia das Letras. os povos indígenas da América do Sul sofreram um genocídio sistemático tanto em nível populacional como cultural e econômico. A construção negativa dos outros não europeus é finalmente o que dá uma base e sustenta à própria identidade européia”7. 17. econômico e cultural. não somente no plano econômico e político. colocando em prática sua ancestral capacidade de resistência e luta. alcoolismo. Michael. VII . dadas suas estreitas relações com a manutenção da biodiversidade e dos recursos naturais. poderíamos acrescentar a invasão dos territórios ancestrais na busca do ouro. hoje em dia muitas dessas comunidades. 2002. p. 123. Antonio. Karl Marx analisava a desastrosa influência que as relações sociais capitalistas (base da denominada civilização ocidental) tiveram sobre os trabalhadores e artesãos que emigraram durante os séculos XVIII e XIX à atual América do Norte: proletarização. 1986. p. ao constatar a impotência do Polifemo e seu único olho. Vidas desperdiciadas (La modernidad y sus parias). Imperio. degradação de condições de vida. n. vol.A manifestação de desobediência e rechaço a toda forma de servidão voluntária O colonialismo imperialista – e o correspondente genocídio sistemático dos povos indígenas denunciado por Darcy Ribeiro – levado a cabo pelas potências européias no mundo tem se baseado. 127-137. Foram dizimados pelo afã predatório do sistema ocidental de desenvolvimento capitalista. Mas. A este memorial de agravos. I. 1983. Zygmunt Bauman afirma. pelas incursões violentas dentro de seus territórios. Darcy. em palavras de Antonio Negri e Michael Hardt é absolutamente funcional ao capitalismo/colonialismo ocidental: “o colonialismo e a subordinação racial funcionam como solução transitória à crise da modernidade européia. 5 MARX. fogem do contato com a civilização capitalista. tais povos sabem por experiência própria que aí não acaba a luta e que a batalha continua a um nível social. da borracha. entre 1900 e 1957. etc. nesse desprezo pelos outros e por qualquer forma de vida que se apresente 4 RIBEIRO. Barcelona: Paidós. o nosso Polifemo. Segundo Darcy Ribeiro. Barcelona: Paidós. Karl. São Paulo: Abril Cultural. em menos de 50 (cinquenta) anos. expropriação de seus próprios meios de produção. que a globalização significa para as regiões empobrecidas do nosso planeta “a mais prolífica e menos controlada linha de montagem de resíduos humanos”6 que. No capítulo XXV do Livro Primeiro de “O Capital”5. 7 HARDT. Ademais. O colonialismo constrói figuras de alteridade e organiza seus fluxos em um espaço que se desdobra em uma complexa estrutura dialética. na hora de proteger suas cosmovisões e suas práticas sociais. do petróleo. 87 (oitenta e sete) etnias que tinham vivido até o momento isoladas da “civilização capitalista” desapareceram junto com tudo aquilo que elas conservavam em benefício de sua própria sobrevivência e do resto da humanidade. então. NEGRI. por enfermidades produzidas pelo contato com as nossas propostas “civilizatórias” e pelas ingerências religiosas missioneiras que lhes impunham cosmovisões contraditórias com suas posturas tradicionais acerca do sagrado. 2005.DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS se isso fosse possível. do gás e. VI – Os reflexos do contato “amistoso” e “civilizatório” O grande antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro apontava em sua obra “Os índios e a civilização”4 que.

132 Revista Internacional de Direito e Cidadania. não é só patrimônio do privilegiado. 280. ao desertar. é um isolamento político. entendida como a dimensão comum das práticas sociais. 5. Oceania. Seu isolamento não é somente uma estratégia geográfica ou fronteiriça. povos e indivíduos se isolam. as diferenças ao construir novos cenários de luta a partir dos quais assumir (e obrigar que os outros assumam) a própria igualdade sem a integração nacional. Não é um mero gesto negativo que os libera de assumir responsabilidades ante suas próprias ações. nossos sistemas econômicos e axiológicos. A Odisséia. África e América Latina constituem exemplos que não podem cair sob a cegueira moral do Polifemo que tem representado o Direito Internacional dos Direitos Humanos. sua “fuga” é o resultado de uma decisão autônoma por não aceitar e não deixar que interfiram. de Araújo Gomes. mas de deserção como mostra de igualdade na hora de decidir pela própria forma de vida e pelo lugar onde poder exercê-la do modo mais digno possível. É também parte da natureza de animais culturais que compartem os indivíduos que compõem todas as formas de vida 8 HOMERO. Pelo contrário. como o resíduo inerte mais importante para qualquer reconhecimento do outro em sua mesma “outredade” e “alteridade”. mas. em seus modos de vida. os povos em isolamento autônomo exercem sua mobilidade afirmando sua natureza de sujeitos com capacidade de escolher o lugar onde viver com dignidade. sem exceção. p.FLORES. como uma alternativa ao modelo hegemônico do ocidente. com isso. Estas comunidades. 127-137. São Paulo: Ediouro. Desse modo. o conflito é travado a partir do que se construiu fugindo para defender relações sociais tradicionais em uma nova perspectiva: a defesa da dignidade a partir do respeito à diferença e à decisão autônoma de não participar nem se deixar integrar naquilo que se considera a causa de seu extermínio. Ao contrário de Ulisses e seus companheiros de odisséia que fogem da caverna onde Polifemo os mantinha encerrados gritando que “eram ninguém”8. então. nem de exclusão identitária. social e cultural (impulsionado pela história da colonização e da construção artificial das fronteiras nacionais) que deve ser respeitado em toda sua dimensão de decisão ética autônoma em prol da sobrevivência e da dignidade. H. não por impotência frente ao genocídio ao qual são submetidos. o que fazem os povos em isolamento autônomo é algo muito mais radical que a simples petição de integração em igualdade: modificam as condições dentro das quais se desenvolvem os conflitos amplificando. Tradução de Fernando C. A cultura. O exemplo que estão dando as comunidades que de um modo voluntário estão colocando em prática sua decisão autônoma de “fugir” desse modelo hegemônico está fazendo ir pelos ares as contradições nas quais o nosso gigante pretende sobreviver. pelo contrário. 2004. p. ao instituir esse espaçamento e essa diferenciação frente à hegemonia de valores ocidentais. um “espaçamento” e uma diferença com respeito aos valores hegemônicos com o objetivo genérico de manter as condições materiais e imateriais que garantam sua inclusão no humano. nem de inclusão diferencial. somos animais culturais que reagimos plural e diferenciadamente frente aos entornos de relações nos quais vivemos. n. outubro/2009 . mas sem a correspondente integração no modo de vida e de relações sociais ocidentais. As lutas dos povos indígenas na Ásia. Não se trata. Tal decisão é a máxima expressão de desobediência e de rechaço a toda servidão voluntária por parte dos homens e mulheres que compõem os povos que se isolam autonomamente. J. Em vez de uma submissão alinhada à ordem hegemônica sustentada nesse círculo infernal de quatro pontos que vimos anteriormente. VIII – A capacidade humana de reação e de questionamento aos dogmas centralizadores A decisão autônoma de isolamento nos coloca em evidência que todos. Estes processos de isolamento autônomo marcam uma distância. é este mesmo círculo que aparece como o principal obstáculo.

que estamos empenhados em construir alternativas. Em outras palavras. Tudo dependerá da verificação de ser o isolamento o produto de uma decisão autônoma de deserção e de rechaço da servidão voluntária ou um simples ato de repulsa sem objetivos políticos e culturais a longo prazo. n. a não-integração. a colocação em marcha de um processo de subjetivação de amplo alcance. por meio de duas posturas: (a) não admitir como modelo de criação de subjetividade as políticas de inclusão e/ou representação disponíveis pelo sistema. aumentam a tensão entre a realidade concreta da opressão e a busca de condições dignas de vida. ao dizer não à ordem dominante. Migraciones. pelo outro. Definitivamente. ciudadanía y globalización. Derecho de fuga. e. o isolamento os transforma em agentes sociais dinâmicos que. 2005. Daí que o isolamento como decisão autônoma de distanciamento e de diferenciação nada mais é que uma reação cultural de quem não aceita a forma em que estão construídas as relações humanas. 5. estamos idealizando suas pautas culturais e organizativas. e (b) a não-integração. a categoria-metáfora do direito de fuga (que nós vemos realizada na decisão autônoma de isolamento) se compõe de dois elementos básicos: (a) a igualdade. Sandro. pois não solicitam a inclusão na ordem hegemônica em condições de subordinação. como questionamento das fronteiras nacionais e de todos os dogmas políticos centralizadores que tem impedido sistematicamente o reconhecimento das diferenças dos de fora. Revista Internacional de Direito e Cidadania. IX – A superação dos direitos de ser pelos direitos de estar De acordo com o que até aqui foi exposto. Como afirma Sandro Mezzadra9. dos que ficaram marginalizados sistematicamente do projeto político da nação.DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS existentes em nosso mundo. efetivamente. A diferenciação e o distanciamento do êxodo dos povos que se isolam não têm por que nos conduzir sempre e a qualquer momento a resultados emancipadores. de indicar aos indivíduos e comunidades que exercem a deserção autônoma que atuem de um modo ou de outro. um voto”. são atores e atrizes 9 MEZZADRA. Não se trata. Tampouco são heróis. o isolamento autônomo dos povos indígenas tem para os movimentos sociais antissistêmicos um enorme potencial político de superação das categorias tradicionais de igualdade e diferença. econômicas. Goste ou não aos ocidentais. grupos e coletividades que fazem parte dos povos em isolamento são sujeitos com plenos direitos humanos. o isolamento como produto de decisões autônomas de êxodo do sistema hegemônico pode mostrar a todos nós. Não são vítimas. Melhor. temos a igualdade como compreensão de que todos somos animais culturais dotados de capacidade humana genérica de reagir como entendamos conveniente frente aos entornos de relações nos quais vivemos. Nem. então. por um lado. entendida como desafio frente aos confins para os quais nos está levando a redução da cidadania a mero consumo eleitoral e de reprodução sistêmica de muitas opressões que ficam invisibilizadas pelo dogma “um indivíduo. p. obviamente. Assim. sociais e culturais que se lhes pretendem impor. e (b) apresentar a igualdade sem integração (a não-inclusão emancipadora) como uma alavanca para novas modalidades de ser e de questionar as certezas políticas. culturais e epistemológicas que se dão por estabelecidas de uma vez por todas. Trata-se de aprender com eles para trabalhar na construção de vontades e singularidades que saibam dizer “não” e “já basta” aos processos de inclusão subordinada. entendida como capacidade de escolher a forma de vida e o lugar onde levá-la a cabo. não estamos diante dos novos heróis da pós-modernidade. 127-137. outubro/2009 133 . Isto não faz dos indivíduos e comunidades que a assumam nem vítimas nem heróis. podemos defender que os indivíduos. Não se trata de “marginalizar-se” esteticamente na diferença. jurídicas. mas sim de exercer a capacidade humana genérica de êxodo e de deserção frente aos processos de inclusão na opressão. Por um lado. Madri: Traficantes de Sueños.

H. de liberdade negativa em função da obtenção de benefícios individuais e de igualdade formal perante a lei. Ao isolar-se. direitos espaciais. Estamos. de eliminação dos contextos. pois são obtidos no marco da nação (artigos 1º e 13 da Declaração Universal de 1948). de diferenciação e de êxodo do sistema hegemônico que nos propõem os povos indígenas em isolamento voluntário supõe a distinção. A decisão autônoma de isolamento. formais para exercer os direitos anteriores. de inclusão sem integração. segundo. estamos frente a direitos que promovem e protegem a inclusão entendida como integração no que é hegemônico e rechaço de tudo o que não concordar com tal situação. Estamos. aparecem como se houvessem surgido do vazio ou das meras vontades jurídicas. entre as posições ocupadas e as disposições subjetivas propostas nas lutas. direitos de liberdade positiva na 134 qual “minha” liberdade não começa até que comece a “tua”. Definitivamente. finalmente. não solidárias e não igualitárias. de dois tipos de direitos (no mais amplo sentido da palavra “direito”). Por sua parte. os direitos que surgem do critério-valor de riqueza humana são direitos de estar. direitos denenhuma-parte que se possuem de um modo ideal e abstrato. ou seja. p. o de riqueza humana. então. Direitos. J. direitos de diferenciação de toda servidão voluntária. a visibilizar o horror a que conduz a imposição do critério-valor de eleição racional (sempre funcional em suas consequências com aquele círculo infernal no qual se sustenta o sistema capitalista/colonialista). outubro/2009 . n. 127-137. e direitos de igualdade material. os direitos de estar podem se caracterizar como direitos de “inclusão diferenciada sem integração”. ou seja. 5. direitos que se autoproclamam como não políticos. a assumir em toda a sua extensão as consequências de outro critério-valor. Quer dizer. não ideais. quer dizer. Vejamos o quadro comparativo entre os direitos de ser e os direitos de estar: Revista Internacional de Direito e Cidadania. Os direitos de ser são direitos de “inclusão excludente”. ou seja. de êxodo e de diferenciação com respeito ao sistema capitalista/colonialista hegemônico. mas que só podem ser usufruídos no marco de uma cidadania estabelecida a priori e sem contar com aqueles que não aceitam – ou não foram convocados a discutir sua criação – as fronteiras da nação. dado que surgem da desconexão entre as garantias jurídicas e a categoria de cidadania (constituem garantias à margem do fato de ser ou não cidadão). situados. Ao revés. no plano jurídico. mais de acordo com o desdobramento e apropriação das próprias capacidades humanas de ação e reação frente aos entornos de relações nos quais se está. direitos de autonomia expansiva em função das lutas pelo acesso a bens. direitos de ser. Os direitos que surgem do critério-valor de eleição racional são. São direitos solidários e igualitários que não podem ser reduzidos aos que se tem pelo simples fato de ser cidadão de uma nação. mas conquistáveis por meio de lutas e decisões éticas autônomas. direitos que se situam na tensão entre identidade e diferença. Seriam direitos identitários que rechaçam a diferença.FLORES. diante de direitos que se tem onde a pessoa ou a comunidade estiver. que não levam em conta as posições e disposições subjetivas dos que os reclamam. e. primeiro. São direitos com um forte conteúdo político enquanto garantidores da criação de espaços de ação individual e coletiva. diante de direitos que se autodenominam como universais. imateriais e. obviamente. estes povos estão nos obrigando. sociais que tomam seus destinos em suas mãos colocando em marcha processos de luta pela dignidade. como produto de uma decisão autônoma de fuga. de identidade homogênea e excludente das diferenças. quer dizer. de criação de condições materiais. de nãointegração emancipadora: direitos de fuga e de assentamento. então. expressando-os em poucas palavras. de autonomia reduzida ao já estabelecido. um critério-valor frontalmente oposto ao núcleo da relação capitalista sempre tendente a expropriar os indivíduos e as comunidades de suas próprias forças de produção de vida e de cultura.

Ao contrário. Estes direitos não se tem por si só. p. como algo que se tem. Isolar-se autonomamente. a diferenciação e o distanciamento do hegemônico (dados os genocídios e invasões a que foram submetidos ancestralmente) são sujeitos de plenos direitos humanos enquanto direitos de estar. 5. de fortalecimento das próprias capacidades para poder atuar e lutar em prol da liberdade positiva: quer dizer.Os direitos e deveres nos quais deve se centrar um sistema de garantias Os indivíduos e comunidades que decidem autonomamente a fuga. econômicos e culturais Direitos de autonomia expansiva: a liberdade positiva como inclusão (não integra Dora): minha liberdade começa quando começa a tua. 2) apropriação de tais capacidades em benefício individual e coletivo Garantias de identidade transna cional Garantias que se situam na tensão entre as posições ocupadas pelos sujeitos no sistema social e suas disposições frente ao mesmo Garantias políticas (de construção de espaços de ação individual e coletiva) Garantias solidárias: concepção integral dos direitos humanos. imateriais e for- mais que potenciem. econômicos e culturais Garantias da igualdade como um fato. econômico e cultural. econômico e/ou cultural Direitos de autonomia reduzida àquilo já estabelecido: a liberdade negativa como exclusão (minha liberdade termina quando começa a tua) ESCOLHA RACIONAL: obtenção da máxima quantidade de benefício individual com a correspondente expropriação das capacidades e potencialidades humanas dos outros para promover a contínua acumulação de capital Garantias de identidade nacional Garantias que não levam em conta as posições ocupadas no sistema social pelos sujeitos Garantias não políticas (meramente jurídicas) Garantias não solidárias: separação entre direitos individuais e direitos sociais. a decisão de isolamento autônomo tem muito a ver com a ideia de autonomia expansiva que citávamos mais acima: a criação de condições materiais. não implica abandonar nossa capacidade humana de articulação e entrecruzamento ético. DIREITOS DE INCLUSÃO DIFERENCIADA SEM INTEGRAÇÃO Direitos espaciais (consideração dos objetos e as ações que compõem a categoria de espaço) Direitos situados Direitos de diferenciação transcultural e transnacional Direitos em seus cont extos sociais. como sujeitos críticos de direitos humanos. em função da expansão de nossa liberdade “sempre e quando” os demais possam exercer também sua própria liberdade. em segundo lugar. tanto no âmbito nacional como internacional Garantias da igualdade como norma: algo que não se tem naturalmente e que há que se conseguir a partir de lutas sociais e políticas públicas de intervenção X . 135 Revista Internacional de Direito e Cidadania. 127-137. Paradoxalmente. outubro/2009 . n. aptidões de empoderamento. atitudes favoráveis ao êxodo e à manutenção das formas produtivas e culturais que tradicionalmente são respeitosas para com os entornos naturais e humanos. se decide fugir e por em prática o êxodo para reproduzir as condições naturais e culturais de vida digna. mas sim porque se atua e se luta aonde se está na hora de poder desdobrar e apropriar-se das capacidades humanas genéricas que o sistema capitalista/colonial nos expropria. constituem exemplos de assunção de responsabilidades e de deveres para com os outros. Nesse sentido. em primeiro lugar. e.DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS DIREITOS DE INCLUSÃO/INTEGRAÇÃO EXCLUDENTE Direitos de nenhuma parte Direitos abstratos e idealmente conseguidos Direitos de identidade homogênea monocultural e mononacional Direitos sem contexto social. RIQUEZA HUMANA: 1) desdobramento de capacidades e potencialidades humanas.

tanto para povos em contacto com a civilização capitalista como para povos que tenham decidido autonomamente excluir-se dos efeitos da mesma) Concepção não estatal/nacional de “estado de direito”: categoria política que propicie a garantia de direitos individuais e coletivos que funcionem promovendo a construção de condições políticas e econômicas baseadas em três conjuntos de diretos: 1) direitos de representação: Ampliação do princípio de igualdade (contrário à tendência capitalista de construção de escassez) Ampliação do princípio de desenvolvimento (contrário à tendência capitalista à generalização do mercado autorregulado como mecanismo de produção e distribuição de bens transformados em escassos) 136 Revista Internacional de Direito e Cidadania. Por essa razão. J. tomam em suas mãos a responsabilidade que deveríamos assumir todas e todos para acabar com esse círculo infernal de apropriações. H. devemos ser ousados juridicamente e construir novas garantias que. (3) deveres éticos de reciprocidade (que nos obriguem – nacional e internacionalmente – a devolver o que foi apropriado privadamente em nosso benefício). assumindo os deveres que surgem das lutas pela dignidade. Este novo sistema de garantias deveria centrar-se nos seguintes 05 (cinco) deveres: (1) deveres culturais de reconhecimento (que nos obriguem – seja no âmbito nacional como internacional – a respeitar a inclusão não-integradora). respeitando as formas tradicionais de proteger e promover os recursos naturais dos povos indígenas Direito a um Desenvolvimento Instituidor (garantir o controle da produção e reprodução dos próprios recursos naturais. Por fim. culturais e humanos. construção de escassez. outubro/2009 Ampliação do princípio de . conjugando-se os deveres. p.FLORES. protejam a decisão autônoma de fuga e de diferenciação frente a todos aqueles que a julgam como um obstáculo para um desenvolvimento capitalista de traços coloniais. 5. Com sua decisão. Estes indivíduos e comunidades em isolamento autônomo são o maior exemplo de luta pela dignidade que temos hoje em dia. (2) deveres sociais de respeito (que nos obriguem a tomar consciência e atuar – nacional e internacionalmente – contra as hierarquias estabelecidas a priori no acesso aos bens que transformam as diferenças em desigualdades). econômicos e culturais como normas jurídicas nacionais e transnacionais que garantam o acesso igualitário e não hierarquizado a priori aos bens. que vivem em e para os bosques e as florestas. rejeitam o sistema de valores capitalista/colonial em razão do seu afã destrutivo e de apropriação privada dos recursos que devem servir para reproduzir a vida. conclui-se o presente trabalho com a síntese desta última base. (4) deveres políticos de responsabilidade (que nos obriguem – nacional e internacionalmente – a assumir as consequências dos genocídios aos quais conduziram as práticas capitalistas/coloniais realizadas em nosso próprio e intransferível desenvolvimento). apostam por um acesso igualitário e não hierarquizado a priori aos bens que fazem digna a vida que vivemos: único critério material de dignidade que não se eleva como a coruja de Minerva quando o dano já foi realizado. Os povos indígenas. Ao enfrentarem esse círculo infernal capitalista/ colonial. 127-137. e (5) deveres econômicos de redistribuição empoderadora (que nos obriguem – tanto no âmbito nacional como internacional – a cooperar em prol de um desenvolvimento autônomo e instituidor no qual a voz dos povos seja a que prime na hora de aplicar e de reproduzir os recursos vitais). n. princípios e direitos que devem ser respeitados quando da decisão autônoma de isolamento dos povos indígenas: Ampliação do principio de liberda de (contrário à tendência capitalista de apropriação privada de recursos materiais e imateriais) Direitos individuais como direitos de autonomia expansiva que potenciem atitudes e aptidões de empoderamento e de respeito às decisões autônomas de fuga e êxodo do sistema hegemônico Direitos sociais. reclamo de mercados autorregulamentados e de acumulações contínuas de capital que eliminam toda possibilidade de dignidade individual e coletiva em prol do benefício privado e imediato.

Barcelona: Paidós. senão como forma social de empoderamento dos habitantes do lugar. 2) direitos de participação: que potenciem a distribuição do poder político (democracia participativa). a garantir a criação de condições materiais e imateriais que respeitem o isolamento decidido autonomamente. O Direito da Guerra e da Paz. Hugo. PENTEADO FILHO. A Odisséia. política. 2009. 2005. 1986. culturais e humanos. Francisco de. ciudadanía y globalización. produtiva e reprodutiva dos processos de acumulação de capital) Referências Bibliográficas BAUMAN. Revista Internacional de Direito e Cidadania. São Paulo: Editora Método. Princípio contrário à renovação infinita do círculo dos quatro elementos que compõem a base da relação social. Os Índios e o Direito da Guerra. São Paulo: Abril Cultural. Ampliação do princípio de democratização baseado nos subprincípios de participação. êxodo e diferenciação (contrários à tendência capitalista à homogeneização e à integração em condições de subordinação garantidas juridicamente no âmbito nacional ou transnacional) Ampliação do princípio de estado do bem-estar (entendido n ão somente como forma política de intervenção vertical. 2004. 127-137. e. 3) direitos de desconexão: que potenciem a construção de uma nova garantia jurídica.Ampliação do princípio de (garantir o controle da produção e desenvolvimento (contrário à tendência reprodução dos próprios recursos capitalista à generalização do mercado naturais. Migraciones. Sandro. Tradução de Ciro Mioranza. MARX. 2005. Michael. GROTIUS. I. Darcy. 5. O capital. n. NEGRI. social e cultural do reconhecimento e do respeito dos povos em isolamento autônomo para seguir desconectados até que eles mesmos decidam autonomamente reverter sua decisão Direitos econômicos transnacionais e transfronteiriços dirigidos a. e. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. Karl. VITORIA. 2002. 1983. Barcelona: Paidós. tanto para autorregulado como mecanismo de povos em contacto com a civilização DEZ BASES PARA A CONSIDERAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS EM ISOLAMENTO AUTÔNOMO produção e distribuição de bens capitalista como para povos que tenham COMO SUJEITOS DE DIREITOS HUMANOS transformados em escassos) decidido autonomamente excluir-se dos efeitos da mesma) Concepção não estatal/nacional de “estado de direito”: categoria política que propicie a garantia de direitos individuais e coletivos que funcionem promovendo a construção de condições políticas e econômicas baseadas em três conjuntos de diretos: 1) direitos de representação: que potenciem a igualdade do poder político (democracia formal). primeiro. 3ª edição. Zygmunt. Ijuí: Unijuí. Imperio. Ijuí: Unijuí. Derecho de fuga. Vidas desperdiciadas (La modernidad y sus parias). São Paulo: Ediouro. RIBEIRO. de Araújo Gomes. HOMERO. HARDT. p. Tradução de Fernando C. Madri: Traficantes de Sueños. 2004. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. Manual de Direitos Humanos. segundo. MEZZADRA. Nestor Sampaio. garantir os direitos anteriores no marco da cooperação transnacional e do respeito pelas plurais e diferenciadas formas de vida que compõ em nosso planeta. fuga. vol. outubro/2009 137 . Antonio.