ESTUDO DE CASO

VOCÊ É CAPAZ DE ADMINISTRAR SEU CHEFE? Depois de trabalhar quatro anos sob Pete Webster, Larry Frankenmuth estava farto. O trabalho em si era ótimo; era o responsável pelas quatro unidades de metaloplastia da empresa, entendia do que fazia, gostava do serviço e tinha certeza de realizá-lo bem. Seus subordinados eram excelentes. Os quatro gerentes das unidades fabris eram do mais alto calibre, bons trabalhadores em equipe, competentes, seguros de si no serviço. A empresa era ótima e caminhava a passos firmes. O salário era mais do que razoável. Mas Webster! Para Larry, ele era a própria encarnação do aporrinhamento. Nunca proferia uma palavra de incentivo, só grunhidos semi-ininteligíveis e críticas contundentes. Larry trabalhava feito um escravo nos memorandos e relatórios que enviava ao escritório do chefe, que jamais sequer mencionava tê-los recebido. Ia procurá-lo todas as manhãs para informá-lo de tudo que julgava importante, ou comunicava-se com ele às oito e meia em ponto. Seu antigo chefe havia treinado-o a agir assim nos tempos em que ainda era engenheiro de produção. No entanto, Webster agia como se Larry houvesse quebrado todos os dez mandamentos quando este batia em sua porta e pedia licença para entrar. - Mas por que raios você veio me ver outra vez, Frankenmuth? – rosnava ele. Por outro lado, se Larry não o informava detalhadamente sobre tudo que estava acontecendo e se não o avisava das coisas ruins que iriam acontecer, era praticamente esganado pelo chefe. Mas o pior de tudo era a estarrecedora ignorância de Webster. Larry Frankenmuth, formado e com um mestrado em Engenharia Mecânica do prestigiado Massachusetts Institute of Technology, havia aproveitado todo o seu tempo livre para freqüentar todos os cursos possíveis sobre administração moderna, produção moderna, pesquisa operacional e métodos quantitativos. Tudo isso para depois ir trabalhar sob um chefe que nem completara o segundo grau! Webster ingressara no exército em 1941, quando terminara o primeiro ano do colégio, e começara a trabalhar como operador de máquinas ao deixar o serviço militar. Certamente não sabia sequer dividir números com mais de três algarismos e era incapaz de acompanhar a mais elementar análise de regressão. O cúmulo dos cúmulos! Portanto, Larry Frankenmuth decidiu deixar a firma. Percebeu que tinha tomado esta decisão num domingo à noite ao completar um meticuloso estudo sobre os modelos de encomendas e cronogramas de produção, resultando em recomendações de mudanças no ritmo de fabricação, controle de estoque e sistemas de despacho de mercadorias de todas as quatro unidades da divisão de metaloplastia. Era a análise mais extensiva e abrangente que jamais fizera, e sentia-se orgulhoso do trabalho. Mas quando estava ordenando as páginas para sua secretária datilografar na manhã seguinte, subitamente deu-se conta que não havia o menor sentido em mostrar o estudo a Webster. - Aquele bode velho não tem a menor condição de entender isso aqui – pensou consigo mesmo. – E, mesmo que tivesse, reacionário do jeito que é, nunca modificaria os procedimentos que existem desde antes de eu nascer. Aposto que nem começaria a ler meu relatório. E ao invés de discutir os dados e as idéias comigo, irá certamente contar mais uma das suas infindáveis anedotas sobre como eram as coisas no seu tempo. Eu decididamente não agüento mais.

Webster também aprovara a saída de Frankenmuth. sem sequer avisar sua esposa. escolhera o mais jovem (Sartorius ainda estava longe dos quarenta anos). Mas as críticas vêm em enxurrada. Lois aprovara a transferência. Não esperava uma grande promoção nos próximos três ou quatro anos. e sua nova empresa tinha apenas oportunidades limitadas de crescimento. portanto. Na realidade. e mais uma hora analisando as relações e os problemas internos da empresa (em particular. São Paulo: Pioneira. o mais inovador. Mas. 1983 E assim. não são os contadores. Parece incapaz de ler uma linha. na realidade. E Sartorius concordou com a cabeça. A escolha de Sartorius fora uma enorme surpresa para Larry. Mas estava dentro de um campo de alta tecnologia. Peter F. Nunca em meus quatro anos recebi uma só palavra de elogio e incentivo. recebeu uma visita inesperada de Frank Sartorius. Dois dias antes de ir embora. Finalizando. e Larry duvidava que estivesse pronto para as novas funções. quase que me comia vivo quando entrava em sua sala para discutir essas coisas com ele. E ficou ainda mais surpreso quando ouviu o outro dizer: . Larry observou: . Não passa. 2 . Ela sabia há quanto tempo Larry vinha se sentindo frustrado.Larry. Todavia. Quando Larry foi informá-lo. pois quase todos seus colegas eram doutores. Com isso Larry empacotou todos seus papéis e preparou-se para deixar o escritório dentro do qual sofrera quatro longos anos. o gerente de fábrica que iria substituí-lo.Frank. agora era Larry quem se sentia com pouca instrução. o mais importante não são as unidades fabris. Seu novo cargo não era tão amplo nem tão bem remunerado. O que você pode me dizer que me ajudaria no serviço? Larry Frankenmuth passou uma ou duas horas discutindo as quatro fábricas de metaloplastia e seus administradores. Ele espera que você o mantenha informado de tudo. não é o departamento de compras ou de pessoal. Tenho apenas que lhe dizer que eu não podia e não teria recomendado seu nome para uma promoção. escrever para ele é a mesma coisa que escrever na água. O pior de tudo é aquele filho da mãe daquele chefe. mas não o considerava um amigo. Larry. creio que você está a par de quase tudo isso. fiquei muito chocado quando soube que ia embora. Lois. a longa rixa com o departamento de compras e o espinhoso caso do departamento de pessoal que se recusava a apoiar os gerentes de operações contra o sindicato). Haviam se relacionado bem. que tinha certeza que Webster iria nomear o mais velho e mais tradicional dos quatro gerentes. dizendo que estava de passagem pela cidade onde a empresa tinha sua sede e que gostaria de conversar off-the-record com ele em sua casa. Não foi difícil. “50 casos reais de administração”. Larry começou a procurar outro emprego. O fato de você ir embora torna as coisas mais fáceis para todos nós. o Webster. Acho que você não terá nenhuma dificuldade grave em seu novo cargo (está tudo em ordem e o pessoal é ótimo). e sua insistência de ficar sabendo antecipadamente de tudo que possa ocorrer de inesperado é positivamente indecente. de modo que a sua formação científicoadministrativa foi bem apreciada. se é que então. à sua moda grosseira. achou estranho que Sartorius fosse procurá-lo. Sartorius era gerente fabril há poucos anos. mas não creio que conseguirá controlar o chefe. de um velho reacionário que nunca ousará propor qualquer tipo de mudança.* DRUCKER. disse apenas: . Larry teve que admitir que ele próprio hesitaria em assumir o risco de nomear Frank para o cargo. o mais audaz. Fiquei mais chocado ainda quando Webster me chamou e disse que ia assumir seu cargo. ao invés. .Contudo – prosseguiu ele -.Não vou insistir que fique.

Preciso enviar uma nota de parabéns ao Frank quando chegar em casa hoje à noite – disse para si mesmo. O que Larry disse a Sartorius sobre administrar um chefe agressivo. . Em cima da mesa da sala havia um enorme vaso com flores acompanhado de um bilhete do próprio punho: Caro Larry Frankenmuth: Você terá ouvido que fui promovido a vice-presidente de produção. com grande surpresa que leu três anos depois no Wall Street Journal que Frank Sartorius havia sido indicado para substituir Pete Webster na vicepresidência de produção quando este foi promovido a vice-presidente executivo encarregado das divisões mecânicas e de metaloplastia. Devo isso a você e quero lhe dizer “muito obrigado”. portanto. Foi. Suas novas funções revelaram-se muito mais complexas do que esperava e o mantiveram totalmente ocupado. só para ouvir um azedo “Por que você quer saber?” como resposta. reacionário e filho da mãe como Pete Webster? 3 . Foi você que me ensinou que eu precisava aprender a administrar o chefe. E foi você que me ensinou como fazê-lo.Frankenmuth logo se esqueceu da sua velha empresa. Cordialmente. viu que Sartorius havia se antecipado a ele. Mas ao chegar em casa. Encontrou-se certa vez com Webster no aeroporto e perguntou-lhe como Sartorius estava se saindo. Frank Sartorius O estupefato Larry Frankenmuth não tinha a menor idéia do que Sartorius queria dizer.

Três anos antes. Larry sentia-se tão superior que nunca lhe passou pela cabeça que as “anedotas” de Webster tinham a intenção de dizer-lhe algo. Pois Larry obviamente subestimou seu chefe. portanto. que Webster. Disse ainda o que era necessário para administrar Pete Webster em particular. ou então não teria ficado tão surpreso quando este escolheu o gerente mais jovem.COMENTÁRIOS DE DRUCKER Larry Frankenmuth disse a Sartorius que cabe ao subordinado administrar seu chefe e que isso é um trabalho árduo. Informa Sartorius que Webster precisava das manhãs para seu próprio trabalho e que detestava ser interrompido. 4 . abominava “surpresas” e considerava (acertadamente) que é dever dos subordinados notificar seus superiores da possibilidade de quaisquer eventos inesperados. e que o seu próprio erro mais grave havia sido a arrogância intelectual. como qualquer chefe. entulhá-lo de memorandos e relatórios antes de fazer uma apresentação verbal era bastante inútil. ele deixara bem claro que Webster era uma pessoa que preferia ouvir a ler e que. mais audaz e menos convencional para substituí-lo. Como também nunca lhe passou pela cabeça que o fato de um homem chegar a uma posição de cúpula sem qualquer instrução formal revela qualidades e forças (e certamente uma enorme capacidade de aprender) que merecem muito mais respeito do que desprezo.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful