Assunto: Carta Aberta de várias ONG sobre a remoção progressiva dos subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis

Lisboa, 12 de Junho de 2012

Exma. Sr.ª Ministra do Ambiente, Dr.ª Assunção Cristas

Várias organizações não governamentais, entre as quais a Quercus, apelam aos Governos de todo o Mundo para implementarem ações concretas para a remoção progressiva dos subsídios governamentais atribuídos à produção e consumo dos combustíveis fósseis. Estimativas globais recentes sobre o valor total destes subsídios anualmente atribuídos apontam para 730 mil milhões de dólares USD (cerca de 583 mil milhões de euros). Em tempo de crise económica à escala global e perante os efeitos negativos das alterações climáticas e da procura crescente de fontes de energia mais limpas e fiáveis1, os subsídios para os combustíveis fósseis constituem uma forma de uso irracional e irresponsável dos impostos pagos pelos contribuintes e dos investimentos dos Governos de todo o Mundo. Já em 2009, os líderes mundiais do G20 reconheceram esta realidade e assumiram o compromisso para “eliminar de forma progressiva e racionalizar, a médio prazo, os subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis, enquanto asseguram o apoio aos países mais pobres”. Um compromisso semelhante foi acordado na reunião subsequente dos líderes da APEC (Associação da Cooperação Económica ÁsiaPacífico), onde mais de 50 países presentes reforçaram esta ambição. As organizações não governamentais signatárias desta carta aberta, entre as quais a Quercus, congratulam-se perante o compromisso assumido pelos líderes mundiais do G20. No entanto o progresso na sua concretização tem sido lento. Mais recentemente, o Painel de Alto Nível para a Sustentabilidade Global do Secretário Geral das Nações Unidas apelou inequivocamente para a remoção progressiva destes subsídios no seu relatório “Resilient People Resilient Planet: A Future Worth Choosing”. Este Painel de Alto Nível para a Sustentabilidade Global presidido pela Finlândia e África do Sul, e constituído pelos principais decisores políticos de 20 países incluindo a União Europeia, os Estados Unidos da América, o                                                             
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Apesar do contributo importante das energias renováveis para diminuir os impactes ambientais da produção de energia, os subsídios atribuídos às energias renováveis não são mais do que uma pequena fração dos subsídios aos combustíveis fósseis, as chamadas fontes convencionais e mais poluentes. Consultar o Relatório da AIE, “World Energy Outlook 2011”, p.530

 

Brasil, a Índia, a China, a Federação Russa - recomenda a “remoção progressiva dos subsídios para os combustíveis fósseis e o uso racional de outros subsídios, com efeitos perversos e de distorção de mercado, até 2020.” 2 A próxima Cimeira do G20 e da Cimeira da Terra Rio+20 (a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável), a acontecerem em Junho próximo, constituem oportunidades únicas para os líderes mundiais consolidarem os seus compromissos políticos para a implantação de ações concretas nesta matéria. As organizações não governamentais abaixo listadas, representando milhões de cidadãos em todo o Mundo, apelam aos líderes mundiais para aproveitarem esta oportunidade histórica para reafirmarem o seu compromisso através de ações concretas, para eliminarem estes subsídios, claramente ineficientes e perversos, e reencaminharem este dinheiro para ações que garantam um futuro energético mais sustentável. Os Governos de todo o Mundo presentes nas Cimeiras do G20 e Rio+20, e em especial Portugal, deverão considerar quatro passos fundamentais para traduzir este compromisso em ações concretas:

1) Definir planos para a remoção progressiva dos subsídios para os combustíveis fósseis até 2015 Em Setembro de 2009, na cidade de Pittsburgh (EUA), os líderes mundiais do G20 comprometeram-se a "eliminar ou racionalizar, de forma progressiva e a médio prazo, os subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis, proporcionando um apoio específico para os países mais pobres". No entanto, e perante a inação dos Governos para cumprirem este compromisso histórico, os líderes mundiais deverão estabelecer, o mais rapidamente possível, um mútuo acordo para remover os subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis até 2015.

2) Aumentar a transparência e a coerência nos relatórios de comunicação sobre estes subsídios A elaboração de um inventário de todos os subsídios atribuídos para a produção e consumo dos combustíveis fósseis constitui um primeiro passo para aumentar a transparência e a coerência deste compromisso. A comunicação e a reforma sobre estes subsídios deverão ser consideradas em separado. Até ao momento, não existe conhecimento público suficiente sobre os subsídios atribuídos aos produtores de combustíveis fósseis em muitos países. É imperativo que os governos se comprometam, de forma completa e justa, a divulgar publicamente o valor de todos os subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis, a fim de definir planos de reforma informados e robustos para estes subsídios.

                                                            
Resilient People Resilient Planet: A Future Worth Choosing, Recommendation 27f., page 18, Available at http://www.un.org/gsp/TheGSP.
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3) Incorporar programas de assistência e salvaguarda para os países em desenvolvimento, bem como os grupos mais pobres e vulneráveis   A remoção progressiva dos subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis, em especial para o seu consumo, só poderá ser bem sucedida através da incorporação de salvaguardas para os grupos mais pobres e vulneráveis, bem como assistência financeira, ajuda técnica e de capacitação nos países em desenvolvimento, quando necessária.

4) Identificar ou estabelecer um organismo internacional para facilitar e apoiar a reforma dos subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis   Um organismo internacional deverá ser identificado ou criado com o propósito de apoiar os esforços dos Governos para a eliminação progressiva dos subsídios para os combustíveis fósseis. Este organismo deverá ser transparente e equilibrada para incluir a representação de países desenvolvidos e países em desenvolvimento, e ter competência para avaliar os compromissos dos países para atingir este objetivo. O organismo deverá definir e rever, de forma adequada e regular, os relatórios de comunicação sobre estes subsídios elaborados por todos os países. Estes relatórios de comunicação deverão incluir uma lista de todos os subsídios existentes para os combustíveis fósseis, bem como as ações e custos assumidos pelos Governos para eliminar estes subsídios e submeter a métodos de monitorização e verificação verdadeiramente independentes. O momento atual obriga ao fortalecimento dos compromissos políticos, mais orientados para a ação, no sentido da transição da economia global baseada no uso de combustíveis fósseis para uma economia mais “verde”, baseada em fontes de energia mais limpas e renováveis. Persistir na subsidiarização dos combustíveis fósseis não contribui para a sustentabilidade global, dada a necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis que contribuem para o aquecimento global. Os passos fundamentais, acima referidos, são críticos para essa transição, e as organizações não governamentais apelam veementemente para os Governos empreenderem esforços adicionais na definição de metas e prazos para a remoção progressiva dos subsídios, a comunicação acerca dos subsídios existentes e o apoio internacional para a sua remoção progressiva.

Agradecendo desde já a V/ melhor atenção, apresentamos,

Nuno Sequeira Presidente da Direção Nacional Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza

Nota: Esta carta aberta foi assinada pelas organizações abaixo indicadas:

Abibimman Foundation (Gana) Amigos da Terra – Amazônia Brasileira (Brasil) AQLPA (Canadá) Australian Climate Justice Program Australian Conservation Foundation Avaaz Basic South Initiative BC Sustainable Energy Association Bond Beter Leefmilieu (Bélgica) Campaign against Climate Change (Reino Unido) Canadian Voice of Women for Peace Canadian Youth Climate Coalition Catholic Agency for Overseas Development (Reino Unido) CDM Watch CEE Bankwatch Network Center for Biological Diversity Christian Aid Citizens Climate Lobby (Canadá) Citizens for Public Justice (Canadá) Clean Air Action Group (Húngria) Climate Action Network (Austrália) Climate Action Network (Canadá) Climate Action Network – Europa Climate and Health Alliance (Austrália) COCEDA (DR Congo) Concerned Citizens against Climate Change Conservation Council of South Australia CXI AD Group, the Netherlands Earth Day Network (EUA) Earth Track Earthworks EcoEquity (EUA) Ecological Association EKO-UNIA (Wroclaw - Polónia) Edmonton Friends of the North Environmental Society (Canadá) Energy Forum (Sri Lanka) Environment Victoria (Austrália) EEB - European Environmental Bureau Focus – Association for Sustainable Development (Eslovénia) For Our Grandchildren (Canadá) Forum Umwelt & Entwicklung (Alemanha) Friends of the Earth (Espanha) Friends of the Earth (EUA) Global Subsidies Initiative of the International Institute on Sustainable Development Global Witness Greenovation Hub (China) Greenpeace HELIO International Iceland Nature Conservation Association IndyACT (Líbano) iCSC - Institute for Climate and Sustainable Cities (Filipinas) IESR - Institute for Essential Services Reform (Indonésia) Integrated Effort For Development (Nepal)

International Forum on Globalization Jeunes Volontaires pour l'Environnement (Nepal) Natural Resources Defense Council (EUA) Natuur en Milieu (The Netherlands Society for Nature and Environment) Oil Change International Plant-for-the-Planet Polaris Institute (Canadá) Polish Green Network Post Carbon Institute (Canadá) Quercus (Portugal) Réseau Action Climat (CAN - França) Sierra Club (EUA) Sustainable Population Australia SustainUS (EUA) Taiwan Environmental Protection Union Tearfund Transportation & Environment Union of Concerned Scientists (EUA) Vasudha Foundation (Índia) Vegans & Vegetarians of Alberta Association (Canadá) Vitae Civilis (Brasil) World Future Council WWF International 350.org

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