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Edição 820A

10 de novembro de 2011

EspEcial dEz anos da grEvE da

Mais até do que os bolsos e a sobrevivência das pessoas, decadência e fechamento do jornal feriram de morte a alma de um jornalismo feito com dignidade, profissionalismo e paixão

Feridas da Gazeta Mercantil continuam abertas uma década depois

d

ezenas, centenas, milhares foram as histórias de vida afetadas pelo descalabro administrativo-financeiro do mais importante jornal de Economia da história do Brasil, a ainda querida Gazeta Mercantil. Não, a Gazeta Mercantil já não tem um corpo em que se sustentar, porque este, esquartejado por barbaridades empresariais de todas as naturezas, foi indigentemente sepultado sem honras no campo largo do tempo. Foi um sepultamento lento, impiedoso, lancinante, onde os gritos da desesperada coragem de muitos, com o inexorável passar dos dias, deram lugar aos sussurros da indignação e ao mutismo de vergonha de todos. Não houve choro explícito, porque homens (e mulheres e crianças) não choram. Não nessa hora. Mas foram muitas as lágrimas que, contidas, pregavam peças escapando fugidias aos olhos, sem frescor,

sem alegria. Sem tristeza, até. Porque eram apenas lágrimas da incredulidade. Como aceitar, afinal, que um jornal que era o exemplo mais bem acabado da defesa serena e pragmática do capitalismo sustentável fosse um poço de insustentabilidade? Como explicar que a publicação econômica mais brilhante de que se tinha notícia no Hemisfério Sul e que norteava a economia do País fosse um abismo de ‘dernorteamento’ econômico? Como desconfiar que uma organização que exigia das empresas e do mercado práticas fiscais responsáveis fosse uma fraude contábil? Como acreditar que um veículo que defendia e se colocava ao lado de quem era bem sucedido empresarialmente fosse um fiasco de gestão? Como entender que um jornal que falava verdades, e por elas era respeitado, praticasse mentiras? Difícil. Muito difícil. Tão difícil quanto entender como jornalistas tão experimenta-

dos, talentosos, respeitados e ciosos de sua reputação pessoal (e também do veículo em que atuavam) demorassem tanto para reagir, praticamente anulando as poucas chances que teriam de reverter o quadro se fizessem isso ao cabo e ao tempo. Foi-se o corpo. Ficou a alma, a energia, o exemplo do bom e digno jornalismo, por muitos apontado como uma das melhores escolas de que se tem notícia no País. Estão por aí, espalhados por inúmeras redações e outras atividades, as dezenas, centenas de jornalistas que passaram pela Gazeta Mercantil, particularmente nos anos da Major Quedinho, no Centro de São Paulo. Se saíram com os bolsos vazios, o coração despedaçado e a autoestima abalada, com certeza carregaram consigo um excepcional legado, o da retidão, da ética e do bom jornalismo. Foi para contar um pouco dessa traumática história, mostrando a montanha russa

em que se transformou o fim, da Gazeta Mercantil, num ciclo que se agudizou com a greve de outubro de 2001, que este Jornalistas&Cia convidou a editora-contribuinte Nora Gonzalez. Nora foi personagem e testemunha desse processo e escreveu com a razão. Mas os leitores vão perceber que em várias passagens o coração falou mais alto, enriquecendo ainda mais esse emocionante trabalho. Importante frisar que parte da culpa deste especial é de Cecília Zioni, que, com duras críticas à mídia, a quem acusa de ter negligenciado e relegado essa história ao esquecimento, fez a provocação certa, na hora apropriada. Está aí o especial, que busca resgatar, dentro dos limites de nossa capacidade e recursos, um pedaço dessa triste história. Boa leitura!
Eduardo Ribeiro e Wilson Baroncelli

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“O maior crime da Gazeta Mercantil foi ter interrompido os sonhos de toda uma geração de ótimos e promissores jornalistas” (Cecília Zioni)
Por Nora Gonzalez

A greve dos funcionários da Gazeta Mercantil, que está completando dez anos, é, efetivamente, um marco na história dos profissionais daquele jornal. Principalmente porque ocorreu numa empresa em que, acreditava-se, movimentos paredistas não vingariam – e isso foi verdadeiro durante muito tempo – e porque quem olhava de fora não entendia como é que uma paralisação daquele tipo não havia acontecido antes, tantos eram os motivos para tal. Os problemas financeiros da empresa não começaram em 2001, mas foi ali, naquele momento, que o estopim se acendeu, detonando irremediavelmente a greve de outubro. Aliás, atrasos de salário, pagamentos parcelados e demora nos reembolsos de despesas com táxi ou de almoço com fontes nunca foram totalmente ramas o orgulho com o produto final era incomparável. As reuniões de pauta já serviam de baliza para o que não podia ser deixado de fora. Lembro de um caso em que Miriam Cassas, editora de Internacional, anunciou que teria uma nota sobre um possível cisma na Igreja Católica. O editor-chefe, após longa explicação sobre o que isso poderia significar, lembrou-a de incluir uma série de informações e de

ros. Ao contrário, eram rotineiros, exceto nos períodos de bonança, de publicação de balanços. Pessoalmente, trabalhei lá durante 12 anos, em dois períodos. Sempre balizei meu orçamento particular pelo vão debaixo da porta da cozinha: quando o porteiro do prédio conseguia passar o jornal por debaixo dela, era sinal de poucas páginas, portanto, poucos anúncios e vacas magras. Quando eu própria tinha de abrir para recolhê-lo sobre o capacho era sinal de que o pagamento seria depositado no banco na data acordada – vá lá, mais ou menos... Para quem não trabalhou lá, a lógica pode soar estranha, mas havia muitas coisas que compensavam os desgostos financeiros que, verdade seja dita, não eram poucos. Quem nunca fez parte daquela redação não entende e antecedentes, mencionando-as de memória. E era uma nota curta, num jornal econômico – e laico. Assim eram tratados todos os assuntos, com cuidado, apuro. Pelo menos assim foi até uma certa época. “Os profissionais da Gazeta Mercantil eram invejados, no bom sentido, por aqueles que trabalhavam em outros veículos”,

soa até mesmo estranho explicar esse tipo de atitude, digamos, pacata e submissa, especialmente dentro de uma categoria como a dos jornalistas. Só quem passou por essa experiência sabe a que me refiro. Para quem não, imagino que tudo isso soe como física quântica em gótico. Trabalhar ao lado de pessoas de gabarito como Matías Molina, Sidnei Basile, Roberto Muller, Celso Pinto, entre tantos outros, era um privilégio, numa época em que o editor ou até mesmo o editor-chefe explicavam para o repórter porque reescrevia algo. Não se tratava apenas de melhorar o texto, mas de ensinar por quê. Lembro de uma vez em que Molina reclamou com o editor de Transportes, o recentemente falecido Ariverson Feltrin, sobre um título. Era uma nota bem pequena, lembra Cecília Zioni, que durante 20 anos atuou na Folha de S. Paulo e no Estadão e foi editora da Gazeta por pouco mais de um ano, até ser demitida exatamente na greve, por ter aderido a ela. “Os salários eram bons, o padrão industrial, o texto final, a riqueza de informações, tudo isso estava lá, nas páginas da Gazeta. Não se publicavam releases e jabás não eram admitidos”. Bons tempos, em que não havia receio de deixar de publicar uma matéria, mesmo que não fosse exclusiva, porque alguma pessoa citada não havia sido ouvida. Muitos fechamentos foram atrasados por apenas uma matéria e, se não era possível ouvir todos os envolvidos, ela simplesmente ia para a gaveta, pois era impensável publicar notícia sem ouvir todos os lados. Pessoalmente, acrescento que o fato de ter sido o primeiro jornal a indicar o autor de cada texto era um diferencial profissional, pois cada um tinha de zelar pelo próprio nome. Cuidados redobraValor Econômico acenava com a abertura de postos de trabalho – o que, de fato, aconteceu. Em 2001, quando o jornal chegou ao mercado, passávamos na Gazeta por um período que Cida Damasco, então editora-executiva, chamou de “TPV” – Tensão Pré-Valor. Dezenas de profissionais saíram da Gazeta e foram para lá. Eram tempos em que se fazia de tudo para segurar os profissionais – quase chegamos a levar trainées para almoçar no Hotel Transamérica a fim de convencê-los a permanecer no jornal. Paralelamente, a bolha da internet provocava convites para trabalhar em sites de todo tipo. Aliás, muitos terapeutas devem ter aumentado o volume de consultas, pois quem não havia sido convidado para trabalhar no Valor nem num site tinha verdadeiras crises pessoais e profissionais. Um repórter novato de Finanças chegou a dizer à editora Maria

minúscula até, e título complicado de fazer, mas que, tecnicamente, estava correto: quadradinho, com verbo, direto. “Avião bate em morro e cai”. Inconformado, Molina disse ao Ari que novidade seria o avião bater no morro e não cair. E, em seguida, deu outra sugestão de título, do qual agora não me lembro, mas que, de fato, era melhor. Bom, faço essa digressão para explicar porque coisas como atrasos nos salários ou conviver com baratas no meio da redação eram toleradas. Ninguém ficava feliz com isso, não se trata de ser néscio, mas provavelmente em outro lugar isso nunca teria acontecido. Em troca, tínhamos a oportunidade de conviver, lado a lado, com os melhores profissionais e o aprendizado era diário. As cobranças eram muitas, e duras, dos, então. Thales Guaracy, ao escrever sobre o fechamento do jornal, em 2009, lembrou que “a disputa aberta e estimulada entre os repórteres pelo espaço da primeira página era uma forma de garantir a perseguição permanente pela qualidade, num mercado em que ainda não havia concorrentes importantes. A Gazeta valorizava o jornalista, que assinava todas as suas reportagens e era tratado como patrimônio da casa, a própria essência do negócio”. “O Luiz Fernando Levy (dono do jornal) se aproveitava do orgulho que as pessoas tinham de trabalhar na Gazeta”, diz Paulo Totti, que dirigiu a sucursal do Rio de Janeiro, foi correspondente em Buenos Aires, Washington e Cidade do México e editor em São Paulo, num total de cerca de 15 anos. Essa era outra característica do jornal: a longa permanência dos jornalistas. Não que fosse o único meio de comunicação onde isso acontecia, mas era, sim, bastante frequente. Christina Carvalho, ao pedir demissão para um ir para um site, que queria aproveitar “para se vender na alta”. Assim, como se fosse uma cotação de commodity... Nesse cenário prévio a 2001, de bonança e dinheiro farto graças à estabilidade econômica do País, inflação baixa e sob controle, os donos da Gazeta, ou mais especificamente Luiz Fernando Levy, levavam adiante projetos megalomaníacos de expansão como, aliás, acontecia ciclicamente. Era a época da abertura das Unidades Regionais de Negócios nas mais diversas cidades. Chegaram a ser 21 unidades, muitas vezes em localidades bastante próximas. Luiz Fernando achava que o jornal tinha de estar representado no País todo, o que pouco tempo depois seria viável com a internet,

OrgulhO de trabalhar na gazeta

Thales exemplifica: “A Gazeta não era apenas um grande jornal de negócios. Era também uma escola de jornalismo. Isso incluía princípios como a imparcialidade e a honestidade absolutas; a obsessão pela informação correta, segundo elemento essencial para a credibilidade; a busca incansável pela notícia exclusiva, que fazia a diferença”. E não se pense que os atrasos no pagamento dos salários eram justificados pela chefia. Pelo menos não dentro da redação, fosse na sede em São Paulo ou nas sucursais. Ao contrário, numa atitude rara, a diretoria estava do lado dos editores e repórteres e não compactuava com aquilo. Nunca ninguém disse que aquela situação era admissível ou normal. Conversava-se bastante e, claro, pedia-se paciência. Por várias vezes casos específicos foram resolvidos com a intervenção direta da

chefia, em situações de doença, por exemplo. Provavelmente porque a chefia também não recebia seus salários em dia e, de fato, punha a mão na massa no fechamento. “A falta de transparência vinha da empresa, não acontecia dentro da redação”, diz Totti. Como foi que, então, aconteceu a greve de 2001? Em tantos anos de atrasos e vaivéns de salários, outras foram tentadas, mas nenhuma vingou. O que teria sido diferente daquela vez e que marcaria, permanentemente, a história daquela casa de mais de 80 anos de existência e, de forma indelével, a vida de centenas de profissionais? “Todo o processo se deu num momento de grande desgaste para a categoria”, explica Guto Camargo, atual presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Havia outras paralisações em andamento e o recém lançado

as trOpas avançaram sem muniçãO

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a custos infinitamente menores. Mas ele não teve a capacidade de prever esse cenário. Foi como ampliar o avanço das tropas sem ter munição para isso. Enquanto a Gazeta tinha bem montadas sucursais nas capitais, abriam-se URNs em cidades e regiões periféricas a todo momento. E cada uma com diretoria, redação, comercial, secretárias, praticamente como se fosse outro jornal. “Enquanto a sucursal de Belo Horizonte tinha três jornalistas para a edição nacional, com bons salários e grande experiência, a regional tinha 10 ou 11 que ganhavam R$ 1.000 a R$ 1.500, todos em começo de carreira”, exemplifica Roberto Baraldi, que ocupou vários cargos no jornal durante quase duas décadas, entre eles o de diretor de Belo Horizonte. O problema é que, embora alguns regionais respondessem por 25% do faturamento do Estado, as despesas eram proporcionalmente mais elevadas, se bem vida financeira de acordo com os atrasos nos salários, mas com a chegada do Valor, a Gazeta perdeu gente e ‘importou’ profissionais de outros jornais, gente nova, que vinha de empresas como o Estadão ou a Folha, onde nunca, em tempo algum, houve atraso de salários”. Ao contrário, durante a greve de jornalistas de 1979, os Frias pagaram os salários dos funcionários fora do prédio da Folha ‘para não constranger os grevistas e obrigá-los a entrar no edifício’. Mesmo em momentos de tsunamis financeiros e planos econômicos, como o congelamento de ativos promovido pelo presidente Fernando Collor de Mello, em 1990, empresas como o Estadão fizeram seus pagamentos em dia. Na Gazeta, isso era exceção, não a regra. Em compensação, a Gazeta, ao contrário do que faziam em momentos assim outros meios de comunicação, não pedia cortes ção de Redação achava que a greve não era oportuna nem viável, mas apoiava as reivindicações da equipe. “Apenas previmos o que acabou acontecendo”, diz Totti. Com o aumento dos problemas e das pressões, Luiz Fernando foi novamente à procura de recursos. Assinou um acordo de parceria com a JB Comercial, de Nelson Tanure, já então detentor da marca Jornal do Brasil. O contrato era para comercialização de publicidade e assinaturas da Gazeta, áreas que seriam cobertas pela JB Comercial. Todos achavam que essa parceria era o primeiro passo para uma efetiva troca de ações entre as duas empresas e que algum

que a maioria estava bem abaixo disso. Diz a lenda que o jornal tinha mais funcionários na regional de Belém, no Pará, do que leitores na cidade... Paralelamente a toda esta expansão do jornal impresso, ainda no final dos anos 1990 Luiz Fernando resolveu fazer televisão e uma agência de notícias eletrônicas, o InvestNews. Para este último, ele ainda conseguiu recursos da Portugal Telecom e assim a operação foi bem mais duradoura do que as outras iniciativas. O próprio InvestNews não registrava atrasos de salário nem falta de depósitos de FGTS, ao contrário das demais iniciativas jornalísticas da empresa. Sempre se disse que essa era uma exigência dos sócios lusitanos e que eles exerciam cerrado controle sobre o que estava pactuado. “Os investimentos nessas unidades regionais, na televisão e na agência de notícias foram feitos sem consultas, sem incorporar de pessoal aos seus editores em momentos de dificuldade. Simplesmente porque não era uma prática do jornal e nunca havia sido. As demissões, quando ocorriam, eram por falhas profissionais ou porque o jornalista trocava de emprego. Não que nas principais praças sobrassem funcionários, que sempre trabalhavam com menos gente do que o necessário, mas nas empresas “periféricas” ao jornal, havia, sim, gordura para cortar. Segundo Cecília, enquanto os mais novos se mostravam inconformados com os atrasos, os mais antigos de redação seguravam as pontas e tentavam acalmar os mais afoitos. Mas com a bolha da internet e o novo concorrente, cerca de 30% da redação era de pessoas que vinham de outras empresas. Visto em retrospectiva, percebe-se agora que era como tentar controlar uma panela de pressão cheia, tampada, e que estava há muito tempo sobre a chama. dinheiro teria sido adiantado por Tanure a Luiz Fernando, mas os detalhes da operação nunca foram esclarecidos. Com o agravamento da crise dentro da redação, das ameaças de paralisação e das constantes assembleias, no segundo semestre de 2001 a cúpula do jornal alegou que as chefias deveriam ter “segurado” a redação e dispensou sumariamente Mário de Almeida, Cida Damasco e Delmo Moreira, respectivamente diretor de Redação, editora-executiva e editor-chefe, que sempre foram corretos com o jornal, mas entendiam as reivindicações dos profissionais e se recusaram a

outras lideranças”, conta Dirceu Pio, ex-diretor do jornal. “Eles eram condottieri, queriam conduzir, não permitiam a participação de ninguém”. Ele critica a falta de visão empresarial de Luiz Fernando como, de resto, a maioria das pessoas que trabalhou com ele. Ninguém nega o entusiasmo pelos meios de comunicação nem pela inovação que ele sempre demonstrou, mas gerencialmente recebe muitas críticas até hoje. Os ralos por onde saia o dinheiro eram muitos e a fonte de receita, basicamente, apenas o jornal impresso. Por isso, é unânime o sentimento de que o problema não era o produto jornal em si – muito pelo contrário, essa era a galinha dos ovos de ouro. Era uma questão de má gestão. “O Luiz Fernando mandava começar algum projeto, as pessoas faziam as contratações avalizando pessoalmente, mas depois o dinheiro nunca chegava”, conta Dirceu. “Ele chegou a dizer que Inicialmente, as manifestações aconteciam à boca pequena. Um comentário aqui, outro ali, uma reclamação ao editor-chefe, à Secretaria de Redação, mas o tom foi subindo e várias vezes jornalistas quiseram ir confrontar a diretoria da empresa. A insatisfação chegou ao ponto de, fato raríssimo na Gazeta, serem convocadas assembleias – algumas com a participação de representantes

o governo é que financiava a expansão da Gazeta Mercantil, pois não recebia os impostos devidos pelo jornal”. No começo dos anos 1980 uma tentativa de greve fracassou quando uma minúscula parte da redação continuou trabalhando e o jornal saiu sem maiores percalços. Claro que foi uma paralisação muito curta, mas longa o suficiente para desanimar aqueles que cruzaram os braços para tentar forçar o cumprimento da lei – “exigências” como pagar salário em dia e recolher encargos trabalhistas. Fora isso, nem se discutia a possibilidade de deixar de trabalhar. Mesmo durante as crises mais agudas, que não foram poucas. Cecília Zioni tem uma teoria interessante sobre os motivos que fizeram com que, pela primeira vez, os jornalistas da Gazeta se unissem e fizessem greve, efetivamente. “Por incrível que pareça, as pessoas estavam razoavelmente acostumadas a planejar sua do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. É emblemático que essas assembleias ocorressem no pátio do próprio jornal, sem que fossem impedidas por editores ou pela chefia de Redação. As manifestações eram livres. Também não houve retaliações nem demissões. Quando ocorreram, vieram de cima, de fora da redação e foram depois de iniciada a greve. A Dire-

retaliações vieram de cima

punir os mais combativos. Assumiram então Molina e Muller, e por algum tempo não houve novas demissões. No dia 15 de outubro de 2001, em assembleia na frente do prédio da Gazeta, no bairro paulistano de Santo Amaro, os jornalistas pediam “Ética e respeito aos profissionais” e conclamavam os colegas a aderir à paralisação pelo pagamento dos salários atrasados, férias, 13° e depósito do FGTS, além de outros direitos não pagos, como as verbas rescisórias dos demitidos. Essa foi a 14ª assembléia dos funcionários, que vinham negociando com a diretoria havia três meses, sem

sucesso. Era o início da greve mais longa do jornal. O pessoal do InvestNews foi solidário à paralisação, mas não chegou a interromper as atividades. De resto, por força do acordo com a Portugal Telecom, eles recebiam salários em dia e não faltavam os depósitos do FGTS, ao contrário do que se dava com os colegas do jornal impresso. Neste, a empresa, além de não depositar sua parte do Fundo, descontava a parte do funcionário mas não fazia o recolhimento ao Fisco, num duplo prejuízo para os empregados. Foi então, em meados de outubro, que começou, de fato, a mais longa greve da Gazeta Mercantil,

11-3861-5280

está de telefone novo. Anote:

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que agora completa dez anos. Inicialmente, algumas pessoas pararam, mas o movimento foi ganhando força e adeptos. As pessoas não tiveram medo de expressar se eram contra ou a favor da greve, se iam ou não aderir a ela e o clima, se não era de lua de mel, não chegou a ser de confronto. Todos já estavam tão cansados de promessas não cumpridas, acordos rasgados e falta de compromisso, que os que acreditavam no movimento cruzaram os braços; os que não, continuaram, mas com grande respeito. As diferenças quanto a aderir ou não à greve estavam no campo da ideologia e da estratégia, pois muitos achavam que essa não era a maneira de se obter os resultados desejados. Mas não se questionou em momento algum a legitimidade do movimento. Em outubro de 2001, alguns dias depois de ter oficializado a parceria com a JB Comercial, Luiz Fernando anunciou a suspensão dizendo que ele estava demitido. No total, cerca de 400 pessoas receberam telegrama semelhante, com demissões por justa causa, alegando “abandono do emprego”. Isso, numa época em que o jornal empregava cerca de 700 pessoas nas redações. Pouco tempo depois, a Justiça deu ganho de causa aos jornalistas e desfez a “justa causa”, por entender que não estava configurado o abandono do emprego. Imediatamente, muitos entraram com processos na Justiça para receber os atrasados, as verbas rescisórias, férias e vários outros deveres não pagos e alguns conseguiram. Em outras situações, os casos se arrastaram – e ainda se arrastam – por anos. Em muitos, houve ganho de causa a favor do empregado, mas ele não recebeu. Em outros acordos, ainda que homologados pela Justiça do Trabalho, a Gazeta simplesmente ignorou a determisetembro de 2002 a Associação entrou com uma ação coletiva na Justiça. “Nós apresentamos cálculos dos valores devidos, mas a empresa nem sabia exatamente quanto devia”, conta Marcelo, que assumiu a liderança das negociações. Os números incluíam não pagamento do FGTS, verbas rescisórias, salários atrasados... a mesma lista de sempre. No total, Marcelo estima que a ação esteja hoje na casa dos R$ 200 milhões, sem considerar multas nem correção monetária. Alguns, poucos, conseguiram ganhar e receber o que lhes era devido. Mas a grande maioria, não. Muitos, aliás, saíram da Associação, fosse porque optaram por seguir no embate com ações individuais ou mesmo porque não tinham como do acordo, surpreendendo a todos. Ato seguido, anunciou a contratação da WorldInvest, de Sérgio Thompson Flores, que ficaria responsável pela captação de recursos e pela realização de estudos para a reestruturação da empresa, um trabalho que na parceria com a JB Comercial deveria ser feito pelo Banco Fator. A parceria com a JB Comercial ficava, então, na dependência do resultado dos trabalhos de Thompson Flores. Não ficava descartada, mas adiada. Na realidade, o Banco Fator começaria a verificação das contas da Gazeta dois dias antes da data em que foi anunciada a suspensão da parceria. O prazo estimado pela instituição para a conclusão do due diligence era de 90 dias e havia sido encomendada pelo próprio Tanure. Nem Luiz Fernando nem Tanure jamais mencionaram nação da Justiça e dos documentos que ela própria havia assinado e não pagou. Muitos jornalistas morreram sem conseguir receber. Há casos de correspondentes que tinham cerca de US$ 30 mil para receber em salários e reembolsos atrasados. Fala-se inclusive num que chegou a acumular US$ 200 mil entre reembolsos não pagos e salários atrasados. A greve acabou no dia 16 de novembro de 2001, ironia do destino, por absoluta falta de gente. Metade do efetivo do jornal havia sido dispensado. Com as demissões, a desmobilização foi inevitável. No jornal, Sergio Thompson Flores estava no comando da área financeira e a empresa prometia, mais uma vez, colocar em dia os pagamentos assim que começassem as publicações dos balanços – tradicionalmente, uma boa época para o Comercial, mas ao mesmo tempo uma antiga alegação do jornal toda arcar com a contribuição mensal destinada a pagar despesas de custas jurídicas, entre outras coisas. Houve também aqueles que se decepcionaram com a lentidão da Justiça. se de fato houve troca de dinheiro ou antecipação de recursos, como se disse quando o acordo foi anunciado, mas muitos funcionários, inclusive ex-diretores que estavam na Gazeta na época, apostam que o jornal obteve algum adiantamento de Tanure em troca da promessa de troca de ações, mas não teria cumprido nem uma coisa nem a outra. Fato concreto é que Luiz Fernando sempre fez de tudo para manter o controle da empresa e mesmo quando conseguia recursos substanciais era em troca de pequenas participações acionárias. Ao mesmo tempo, a Fundação Cásper Libero entrou com uma notificação judicial contra o jornal por uma dívida com a TV Gazeta de cerca de R$ 2 milhões, de um contrato que previa o recebimento de R$ 5 milhões nos primeiros seis meses. Com isso, a lista de credores do jornal não parava de aumentar. vez que atrasava salários. Foi então que os jornalistas criaram uma entidade jurídica para negociar, de forma oficial, com a diretoria. Em 2002 aconteceu o primeiro encontro dela com os advogados do escritório Martins e Salvia, tendo ali sido criada a Associação dos Funcionários, Prestadores de SerEm 8 de novembro de 2001, após três semanas de greve (chamada pela cúpula da Gazeta de ”ato de indisciplina e rebeldia de alguns funcionários”), os jornalistas da Gazeta obtiveram uma primeira vitória – vitória de Pirro, na verdade, pois não resultou em qualquer ganho concreto. O Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo considerou legal a greve e mandou o jornal pagar todos os salários atrasados, incluindo férias e FGTS em 48 horas. Se a exigência não fosse cumprida, a multa seria de 5% por dia sobre cada salário atrasado – e ainda concedeu 60 dias de estabilidade no trabalho a todos os empregados. Só que não foi isso o que aconteceu. Na verdade, essa decisão marcou o início das retaliações. No dia 15 de novembro, em assembleia no Sindicato, um dos diagramadores do jornal atendeu no celular a uma ligação da esposa avisando que havia recebido um telegrama viço e Credores do Grupo Gazeta Mercantil, com 350 associados. Inicialmente, a presidente da associação foi Cynthia Malta (com cerca de duas décadas de jornal), mas depois Marcelo Moreira acabou assumindo o posto. Ao contrário do prometido, os atrasos nos pagamentos continuaram e em

vitória de pirrO

JOvens desiludidOs prOmOveram a
Dos valores pleiteados, até onde se sabe, haveria R$ 17,5 milhões bloqueados pela Justiça paulista para o pagamento das dívidas trabalhistas – R$ 6,5 milhões que dependeriam ainda da assinatura de uma juíza para serem liberados, e outros R$ 11 milhões, já arrestados para uma conta judicial, que seriam destinados ao acerto de contas de 47 ex-funcionários (todos membros da Associação), que já teriam ganho em todas as
greve

instâncias e para cujos processos não cabe mais recurso. A pressão para que esses recursos sejam liberados o mais rápido possível tem tido a participação do Sindicato dos Jornalistas, que até protesto fez, reivindicando maior celeridade da Justiça. “Toda a estratégia da empresa é de protelação”, diz Vicente Vilardaga, que trabalhou por cerca de 15 anos na Gazeta. “E em alguns casos juízes revertem as próprias decisões”, explica. “A greve foi a última tentativa de fazer algo, em que pese a descrença que todos tínhamos nos resultados”. De fato, a greve foi significativa, pois representou o ponto final numa situação que se prolongava havia tempo e deixou claro para a diretoria da empresa que a redação não

estava mais disposta a tolerar essa prática. Foi uma decisão difícil. “As pessoas estavam cansadas. Não sei se havia uma racionalidade na greve e a paralisação aconteceu tarde, quando a situação financeira já não permitia o acerto de contas, mas era a única coisa que podíamos fazer”, diz Vicente, que votou contra a greve. Ele faz coro com Cecília Zioni ao explicar as razões de ter trabalhado tanto tempo no jornal: era um ambiente de trabalho ótimo, de desenvolvimento de pessoas. “Muita gente não queria perder o ‘privilégio’ de trabalhar na Gazeta Mercantil”, explica. Totti também partilha da mesma visão. “A greve foi promovida pelos mais jovens, desiludidos que estavam com o jornal. Achavam

Perfis biográficos dos jornalistas brasileiros e o noticiário com o vaivém profissional
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que tinham ido trabalhar numa empresa séria, mas ela não dava a contrapartida. Os mais antigos achavam que a empresa poderia ser salva, pela seriedade do conteúdo”, diz. “Tudo o que a Gazeta construiu em 20, 30 anos, foi graças à seriedade dos jornalistas que lá trabalhavam. O jornal era muito sério, com uma sólida credibilidade construída pela redação. A empresa, ao contrário, não tinha credibilidade nem interna nem externa, administrativamente falando”. Thales Guaracy relatou de forma irretocável qual era a situação da empresa ao escrever sobre o fechamento da Gazeta, em 2009: “Seu fim não se dá pela crise da imprensa (...) com a prevalência crescente da internet sobre a mídia impressa. É apenas um caso de má administração, de incompreensão da natureza de um negócio”. Segundo ele, o jornal, mesmo endividado, prosseguiu não por causa de seus criadores, instituição financeira emprestaria dinheiro a uma empresa nessa condição? A tentativa de colocar Sergio Thompson Flores, em 2001, para analisar e rever as finanças da Gazeta também não deu em nada. Como em outras ocasiões, Luiz Fernando lhe dava e tirava autoridade. Houve então outros intentos de buscar um sócio com mas apesar deles; pertencia não a uma família, mas à sociedade. “Sempre foi respeitado graças ao espírito de corpo dos jornalistas que nele trabalhavam, enquanto seus proprietários eram tratados com reservas”. O próprio Totti votou contra a greve, embora sempre tivesse deixado claro que achava o movimento justo – ainda que mal preparado. Tanto que na primeira ação movida pela Associação contra a Gazeta está no nome dele e de outras pessoas. Para Totti, se ela tivesse acontecido em outro momento o resultado poderia ter sido diferente. “Quando o processo era mais fabril, precisava-se do apoio dos gráficos; agora uma paralisação desse tipo precisa do endosso do pessoal de Tecnologia da Informação, algo que não aconteceu na greve de 2001”. Mas no começo dos anos 2000 parte de toda essa seriedade começou a se perder. Mesmo durante a greve, e nos períodos capital, coisas que o próprio Luiz Fernando havia feito inúmeras vezes, algumas com algum sucesso, com aportes de fundos de pensão ou outros, como o da Portugal Telecom. Em 2002, ele tentou dividir a empresa em Conteúdo e Negócios, num modelo pelo qual o próprio jornal e terceiros comprariam o conteúdo e o revenderiam – algo seguintes, a Gazeta não deixou de ser publicada nem um dia. Claro que não faltaram erros, mas no começo eles eram imperceptíveis ao leitor comum. A credibilidade, é verdade, já estava um pouco arranhada, mas o pior ainda estaria por vir. Tentaram-se vários caminhos depois da greve. Vicente lembra que a diretoria chegou a dizer que abriria as contas de entrada e saída de dinheiro diariamente para a redação, para que ele e outras pessoas de uma comissão levassem esses números aos colegas, mas o fato concreto é que ninguém se lembra de ter tido acesso a eles – possivelmente porque, mesmo que tenham tido, nunca acreditaram neles. Entre as alternativas aventadas, Vicente defendia uma espécie de leverage buyout, uma tomada de posse da empresa, provavelmente na forma de uma cooperativa, mas a proposta não foi muito longe, pois todos receavam herdar dívisemelhante a uma agência de notícias, tendo o próprio jornal como um de seus clientes. A ideia era captar dinheiro externo sem colocar do próprio bolso. A primeira tentativa se deu com o empresário Germán Eframovich, que começou com uma empresa marítima e depois montou a Ocean Air. Mas também não deu certo. Somado a isso, o Valor Econômico, lançado em maio de 2000, bem estruturado e bem gerido, já solidificava sua posição de principal jornal econômico do País. A maioria das pessoas, no entanto, não justifica no concorrente o declínio da Gazeta. Ele se deve, basicamente, à má gestão administrativa. O concorrente apenas teve mais facilidade para ocupar um lugar que, em outras circunstâncias, talvez tivesse de brigar mais. Em janeiro de 2003, sem ter resolvido os problemas que se acumulavam e com um total de oito meses de salários atrasados, Jaime Matos, editor de Revistas, e outras 12 pessoas. das, passivos trabalhistas e outras pendências que ninguém sabia exatamente a quanto ascendiam. Dirceu Pio defendia a ideia de que uma pessoa com perfil de publisher assumisse a empresa ou, ainda, que pessoas como Muller, Molina e Totti ficassem à frente do jornal, talvez na forma de cooperativa, com a participação dos demais jornalistas. Alguns mais engajados tentaram buscar sócios com capital, mas o obstáculo era sempre o mesmo: ninguém sabia exatamente o tamanho do rombo. A incerteza quanto às quantias envolvidas era enorme. Muitos acreditavam e continuam a acreditar que, entre FGTS e Imposto de Renda não pagos, esses valores ultrapassariam R$ 300 milhões. Dentro da lógica de gerenciamento da empresa, as dívidas eram todas com funcionários e governos. Aos bancos não se devia nada. Mas, mesmo assim, qual os jornalistas da Gazeta fizeram uma nova greve sem terem resolvido ainda as pendências da de 2001. Os problemas eram ainda maiores e perceptíveis, inclusive externamente. Sem dinheiro para táxi, os profissionais não saíam da redação. Alguns, aliás, não tinham como ir até o jornal por total falta de dinheiro para pagar a própria condução. Dessa vez, a paralisação foi mais completa, pois incluiu o pessoal de TI. Cerca de 20% do efetivo decidiu continuar trabalhando e fechando o jornal, mas não contavam com um erro histórico, numa seção em que a Gazeta era a grande referência para as operações em moeda estrangeira, a tabela de cotações. Foi mais um baque na credibilidade do jornal. Ainda em janeiro, em atendimento a uma solicitação do escritório Martins & Salvia, em nome da associação de ex-funcionários da Gazeta, um juiz da 26ª Vara Trabalhista da Capital de São Paulo bloqueou a penhora das assumimos integralmente”. Tempos depois, passou a negar o vínculo com as dívidas trabalhistas da Gazeta, assim como o fez com as do Jornal do Brasil. Em maio de 2009, ele decidiu rescindir o contrato de licenciamento de uso da marca Gazeta Mercantil e quis devolvê-la a Luiz Fernando Levy. Estipulou que a devolução aconteceria a partir de 1º de junho daquele ano. A Companhia Brasileira de Multimídia (CBM) alegou, então, não ser a sucessora da antiga dona da marca e que, por isso, não teria de pagar as dívidas. Em nota oficial, a empresa sugeriu que, se Luiz Fernando não reassumisse o controle da publicação, os próprios funcionários deveriam fazê-lo. A contradição parece evidente, pois a própria CBM havia firmado um termo de compromisso com o Tribunal Regional do Trabalho para pagar os funcionários – e chegou a fazer isso parcialmente. Pagou 11 das 35 parcelas do acordo, mas em abril de 2009 deixou de

levy dava e tirava autOridade

marcas Gazeta Mercantil, InvestNews, Panorama Setorial, Balanço Financeiro e outras do grupo até que fossem quitados os débitos trabalhistas, estimados, à época, em cerca de R$ 30 milhões. Mais uma vez, os funcionários ganharam, mas não levaram. Em 2003, Luiz Fernando acabou fazendo um novo negócio com Nelson Tanure, dono da Cia Docas e que arrendara, em 2000, o título do Jornal do Brasil – uma forma de negócio até então desconhecida dos veículos de comunicação. Tanure sempre negou, mas, na prática, a modalidade consiste em ficar com a parte saudável da empresa e deixar as dívidas para trás. Um executivo de multinacional, na condição de absoluto off, disse ter recebido nessa época proposta com tabela de preços para a publicação de matérias, inclusive editoriais, tudo sob encomenda. Uma repórter que trabalhava no jornal naquele momento também relatou ter recebido ordens para

reescrever um texto contra uma determinada empresa, já pronto, e uma editora contou ter participado de uma reunião com a cúpula da empresa em que se disse que jornalista não entendia nada de negócios, que escrever matérias sem uma contrapartida financeira não tinha o menor sentido. Em pouco tempo, Tanure adotou a mesma prática na Gazeta Mercantil e no Jornal do Brasil: exigiu que todos os jornalistas celetistas com salários superiores a R$ 2.000 passassem a atuar como Pessoa Jurídica, mediante fornecimento de nota fiscal, pelo mesmo valor bruto que recebiam de líquido. Alguns aceitaram, outros não. Armênio Guedes, então com 87 anos e 17 anos de casa, foi um dos que resistiram. E o fez abertamente, em várias assembleias da redação. “Podem comunicar à direção da casa que não aceito. Se quiserem, me demitam”. E foi o que fez o jornal. Além de Armênio, foram dispensados

FunciOnáriOs deveriam assumir O
Em entrevista a este Jornalistas&Cia em 2005, no projeto Protagonistas, Tanure criticou o então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, Fred Ghedini, que defendia os profissionais da Gazeta e era contra a passagem de CLT para PJ. “É uma pessoa retrógrada. Ele queria que continuasse com carteira assinada, essas coisas antigas, e por causa disso começou a dizer que eu era predador...” Na mesma entrevista, Tanure afirmou que o processo de arrendamento permitiu que ambos os jornais fosse saneados, apesar de reconhecer ter chegado a enfrentar 4 mil ações trabalhistas. Disse ter investido US$ 60 milhões entre 2000 e 2005 nos dois jornais e que teria pago “quase todo o passivo trabalhista”. “Passivo, aliás, que
JOrnal

Edição 820A Página 6

EspEcial dEz anos da grEvE da

fazê-lo e o termo foi suspenso. A alegação da CBM é de que esses recursos seriam, na verdade, uma forma de ajudar a Gazeta e que isso teria sido feito a título de adiantamento de royalties devidos pela licença, o que faria com que a CBM fosse, na realidade, credora da Gazeta Mercantil. O imbroglio estava mais uma vez armado, embora juridicamente, ao fechar um acordo na Justiça do Trabalho para pagar as dívidas, a CBM teria claramente assumido sua respon-

sabilidade sobre o passivo da marca. Ao mesmo tempo, a sucessão ficaria caracterizada pelo fato de que a redação da Gazeta Mercantil foi unificada com a do Jornal do Brasil, que já era da CBM. “A Justiça já desconsiderou que Tanure não tenha nada a ver com as dívidas. Está mais do que caracterizado que é sucessão”, diz Marcelo Moreira. Os ex-funcionários da Gazeta têm como alvo da ação o próprio Tanure e suas empresas. A Justiça teve o mes-

mo entendimento e aceitou que a marca Gazeta Mercantil fosse a leilão mais de uma vez – mas, por falta de transparência dos números e do elevado passivo, não houve lances. Em agosto de 2007, o STJ aceitou a penhora de 15% da renda da Gazeta Mercantil em favor dos credores e várias ações individuais obtiveram penhoras e bloqueios para recebimento de valores atrasados. Agora, os advogados da Associação e aqueles de ex-funcionários que entraram com ações individuais na Justiça miram outras fontes de receita de Tanure. Em meados de 2010, o empresário recebeu R$ 112 milhões da Petrobras referentes a um processo movido em 2003 pelo estaleiro Ishibras, de sua propriedade. A estatal foi condenada a pagar R$ 180 milhões em duas parcelas a título de ressarcimento por prejuízos na construção de plataformas de petróleo. A primeira parte, de R$ 112 milhões, passaria das mãos da Petrobras para as de Tanure em 2007, mas boa parte dela foi penhorada antes de chegar ao em meados de 2009 a Gazeta Mercantil fechou definitivamente. Já iam longe os tempos em que o jornal era referência ou a primeira leitura dos empresários brasileiros. Foi triste ver chegar ao fim um veículo com quase 90 anos de vida. Mais triste ainda ver o que aconteceu com centenas de profissionais, que, embora esperançosos, sabem que não será nada fácil receber o que lhes é de direito. Não se espera, em sã consciência, uma solução rápida para nenhum dos processos que decorreram da greve de 2001. Mesmo procurado insistentemente, Vladimir Durães, advogado da Associação de ex-funcionários da Gazeta e do escritório de Frederico Muller, filho de Roberto Muller, avisou que não pode falar, pois todo o processo tramita em segredo de Justiça. Para piorar, o Judiciário está e permanecerá paralisado nas primeiras instâncias até que sejam finalizadas adequações internas, o que está previsto para o final de novembro. E em dezembro começa o recesso forense, que

destino. Entre os que pleiteavam esse dinheiro estavam representantes do extinto Jornal do Brasil (impresso) e inclusive um leitor que alegava ter sido exposto em matéria indevidamente. O INSS também pediu uma reserva de crédito de pouco mais de R$ 110 milhões e o Citibank também reivindicou pagamentos atrasados. Desde novembro de 2010, no entanto, o STJ suspendeu a penhora, cuja execução de dívida corria no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, mas outro credor levou o caso para Brasília e, até agora, aguarda-se uma decisão sobre ele. Ou seja, a fila de credores é longa e as dívidas já superam, em muito, os R$ 112 milhões da Petrobras. Também alvos dos credores são os recursos que Tanure recebeu da Telecom Italia Mobile (TIM) e que foram para a JVCO Participações, dele próprio. Os advogados da associação de ex-funcionários conseguiram que a 26ª Vara do Trabalho de São Paulo bloqueasse 10,4% das ações da TIM que pertencem à JVCO, avaliadas em cerca de R$ 1,3 bilhão. Tanure vai até o início de janeiro. Ou seja, pode-se esquecer 2011. Antes de finalizar, penso ser importante um rápido testemunho sobre o estado de espírito dos colegas. A maioria concordou em falar, alguns em on e outros em off; falaram horas a fio comigo, passando informações e relembrando os velhos tempos. O que, no entanto, me chamou muito a atenção foi a negativa de alguns em falar, inclusive amigos pessoais de muitos anos. Em pelo menos três casos notei que a recusa nada tinha a ver com medo de retaliações. Era pura tristeza. Para esses, tocar nesse assunto é como mexer numa ferida exposta. Uma dor excessiva. Provavelmente, Cecilia Zioni tenha feito o melhor resumo desta história de dez anos atrás, cujos reflexos se percebem até hoje: “O maior crime da Gazeta Mercantil foi ter interrompido os sonhos de toda uma geração de ótimos e promissores jornalistas. E isso é muito ruim para a própria história do jornalismo”.

havia comprado a Intelig em janeiro de 2008 por R$ 2 milhões e subscreveu as ações ao vender à operadora a empresa Holdco Participações, dona de 100% das ações da Intelig, em dezembro de 2009. Pelo acordo com a TIM, caberiam a Tanure 5,2% das ações preferenciais e 5,2% das ordinárias da TIM, avaliadas, naquele momento, em R$ 750 milhões. “Queremos que a TIM converse com nossos advogados”, diz Marcelo Moreira. A associação já havia tentado bloquear as ações da Intelig em 2009, quando ela estava sendo vendida à TIM, mas o TRT da 2ª Região determinou o embargo das ações da empresa e a penhora online de R$ 200 milhões das contas da empresa. A medida foi contestada e a Justiça autorizou a transferência das ações da Holdco para a TIM, embora mantendo o arresto. Houve recursos de ambas as partes, mas, segundo foi divulgado na manifestação de julho em favor de maior celeridade para esses processos,

uma mãO na Frente, Outra atrás

o dinheiro já está bloqueado e disponível, restando apenas a assinatura da juíza. “Eu sai do jornal no final de 2007 e não desejo a ninguém passar pelo que passei. Saí com uma mão na frente e outra atrás, além das dívidas”, diz Vicente Vilardaga. Essa, aliás, é a situação da maioria dos ex-funcionários da Gazeta que entraram na Justiça e reclamam a mesma coisa: falta agilidade ao sistema legal, pois mesmo quando não cabem mais recursos os pagamentos não são efetuados. Aqueles que ocupavam cargos de diretor estatutário estão em situação ainda pior. Até hoje, passados dez anos, vivem o pesadelo de responderem com o patrimônio pessoal pela dívida da empresa – sem crédito, sem acesso ao sistema bancário e sem perspectiva de voltarem a ter uma vida normal, do ponto de vista financeiro. Alguns voltaram a frilar e hoje sobrevivem de trabalhos esporádicos. Com muitas idas e vindas, e trocas constantes de advogados da parte de Tanure, finalmente

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