Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - Instituto Três Rios Curso de Direito Disciplina: Fundamentos da Ciência Política Professora

: Camila Daniel Alunas: Iany Brum, Margareth Ferreira, Phaloma Medeiros, Renata Lima

O Príncipe, obra de Nicolau Maquiavel, foi escrita no ano de 1513 e dedicada a Lorenzo de Médici, com o intuito de orientá-lo na habilidade de manter-se estável no exercício de poder à frente do estado. Possui vinte e seis capítulos, os quais são abordados abaixo. No primeiro capítulo há uma explicação do que viriam a ser os principados para Maquiavel e como se subdividem. Ele diz que toda forma de governo que exerce poder e controle sobre os homens são denominados principados ou repúblicas e que, desta forma, esta força ou controle de poder teria como resultado um determinado domínio que deveria escolher a acostumar-se a viver livre ou sobre o comando de um príncipe. Maquiavel, no capítulo II, traz o seguinte ensinamento: Como os principados hereditários devem ser governados e mantidos. Desta forma, salienta que nos principados hereditários os problemas para a preservação deste Estado são menores, pois o povo já estaria acostumado e afeiçoado a viver sob a linhagem de um príncipe. Completa ainda dizendo que o príncipe “dotado de ordinária capacidade” (p. 5) sempre se manterá no poder e mesmo que uma esplêndida e excessiva força o venha privar do poder e por mais obscuro que seja seu usurpador, o príncipe voltaria a conquistá-lo. Segundo o autor, o príncipe deve ser mais amado, não se deixando odiar por desbragados vícios e em uma lógica natural sendo benquisto por todos.

No capítulo III, “Dos principados mistos”, explica que estes são a união entre um membro e um Estado hereditário. É neste Estado que se alojam, devido grandes variações, as maiores dificuldades provenientes da oscilação e irregularidade temporal com que os homens mudam seus governantes pensando que esta mudança lhes será benéfica e, mais tarde percebem que a situação piorou. Disto, surge uma necessidade natural e ordinária por parte do governante de negar qualquer injúria que se lance sobre a recente conquista ofendendo seus súditos com seus soldados e, desta forma, passando a ter como inimigos todos aqueles que foram prejudicados com a ocupação do novo principado; seus amigos serão os que, por insatisfação do governante anterior o privaram do poder, atribuindo-o ao príncipe. Este, como necessita de apoio popular, não pode voltar-se contra eles. Maquiavel cita como exemplo o Rei da França, Luís XII, que, ao ocupar Milão, confrontou-se com os que o colocaram no poder e nessa situação de descontentamento o povo percebeu que havia errado ao julgar o bem que supostamente aquele príncipe lhes traria. O rei Luís XII cometeu cinco erros que Maquiavel considera cruciais: o rei eliminou os menos fortes, aumentou o prestigio de um poderoso, colocou um estrangeiro poderosíssimo no novo principado, o rei não veio a habitar no país e, por último, não foram instalados colônias no principado que divergia totalmente do antigo Estado. Maquiavel estabeleceu uma lógica de como manter este novo principado, conforme suas características constitutivas: 1ª Os principados conquistados que forem anexados a um Estado antigo, sendo este novo membro da mesma província ou tendo a mesma língua, este será facilmente controlado, ainda mais se o povo desta província não estiver acostumado a viver em liberdade. 2ª Quando os principados anexados divergirem em sua língua, mas possuírem os mesmos costumes o conquistador deverá ter em mente duas regras básicas. A primeira será extinguir a língua do antigo príncipe e a segunda de não modificar as leis ou impostos. Estas duas regras devem ser consideradas primordiais para o príncipe que deseja se manter no poder, pois mantendo a língua anterior, conserva parte do legado do antigo governante e uma pluralidade cultural interpretativa, e ao conservar leis e impostos adota uma medida cautelar de
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não provocar o descontentamento popular, o que lhe tiraria o poder e causaria uma revolta em seu Estado antigo. 3ª Em contrapartida, o autor também caracteriza o Estado antigo sendo ameaçado pela anexação de um novo principado quando este divergir em língua, costumes e legislação. Segundo Maquiavel, a melhor forma de conquistar este principado e mantê-lo sob seu comando é de o príncipe habitá-lo (p. 7), pois desta maneira acabará com toda e qualquer desordem em seu surgimento. Caso contrário, se o príncipe estiver distante e a notícia da desordem lhe chegar, será tarde de mais para remediar gerando assim, uma Revolução. Outra forma seria enviar tropas e estabelecer colônias e ao chegar neste ponto o autor cita como exemplo o modo como os romanos agiram com os Aqueus e os Etólios, submeteu o reino dos Macedônios e expulsou Antíoco. Neste capítulo, de forma geral, o autor trata do desejo de conquista como uma “coisa natural” e os homens que o conseguirem serão sempre louvados e nunca recriminados (p.13) desde que, sendo ele um governante, atente para a demanda de seus súditos. Maquiavel completa ainda salientando que quando se almeja a conquista e não o podendo e querendo de qualquer maneira fazê-lo, aí se encontra o maior dos perigos: a ganância, que faz o homem perder a razão e gerar a fúria dos que por ele estão sendo governados, merecendo assim a censura. Fica claro no capítulo IV o espantoso fato de que Alexandre Magno, após ter se tornado em poucos anos o senhor da Ásia, veio a morrer. Importante é focalizar que, com a morte de Magno, o povo não se revoltou contra seus sucessores a não ser pela ambição pessoal que nasceu entre eles mesmos. Para melhor explicar o fato de o povo não ter se revoltado, é necessário percorrer alguns conceitos gerais. Maquiavel nos explica que existem dois modos de se governar, conforme os principados de que se conserva memória: “ou por um príncipe, sendo todos os demais servos que, como ministros por graça e concessão sua, ajudam a governar o Estado, ou por um príncipe e por

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barões, os quais, não por graça do senhor mas por antigüidade de sangue, têm aquele grau de ministros.” (p. 15) No ápice Maquiavel nos deixa uma reflexão dizendo que a conquista não é fruto da virtude de um vencedor, sendo ela muita ou pouca, mas sim da diversidade da forma do objeto da conquista. No capítulo V, intitulado “De que modo se deve governar as cidades ou principados que antes de serem ocupados, viviam com as suas próprias leis”, Maquiavel explica que existem três formas de fazê-lo: “o primeiro, arruiná-los; o outro, ir habitá-los pessoalmente; o terceiro, deixálos viver com suas leis, arrecadando um tributo e criando em seu interior um governo de poucos, que se conservam amigos.” (p.18) Maquiavel diz que em uma cidade na qual se esteja acostumado a viver livre, a melhor forma de mantê-la seria por intermédio de seus cidadãos. Apesar disso, o autor salienta que não existe forma mais eficaz e segura de se manter uma cidade senão por intermédio da destruição. Exemplificando o que foi dito, Maquiavel nos alerta dizendo que se alguém vier a se tornar senhor de uma cidade que esteja acostumada a viver livre e não a destrua este senhor, estará a mercê de ser destruído por ela, pois a cidade sempre lutará pela liberdade. Especificamente nesta parte do livro “O Príncipe” – capítulo VI – se confrontam as habilidades de um príncipe, a virtude e a boa sorte. Maquiavel diz que estas habilidades influenciariam em um principado completamente novo, onde exista um novo príncipe, tais habilidades estariam ligadas ao nível de dificuldade que o príncipe encontraria para mantê-lo. Segundo ele, quem menos se apoiou na sorte retêm um poder seguro e se o príncipe não possuir outros Estados, ele estaria destinado habitá-lo e assim, seguiria o segundo ensinamento de Maquiavel de se manter um governo estável, o de habitá-lo pessoalmente. Os príncipes que se apoiaram em suas virtudes conquistaram o principado com dificuldades, mas facilmente o conservaram, como Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu, etc. Seguindo os ensinamentos de Maquiavel, os obstáculos que surgem ao se conquistar ou desejar conquistar um principado são atribuídos aos novos sistemas ou disposições que são inseridas para a formação de um Estado e ao estabelecimento da segurança, considerando “não haver coisa mais difícil para cuidar, nem mais duvidosa a conseguir, nem mais perigosa de manejar, que tornar-se
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chefe e introduzir novas ordens.” (p.22). Assim, o príncipe deve estar pronto a persuadir o povo pela força, quando não acreditarem mais. Maquiavel, no capítulo VII – Dos principados novos que se conquistam com as armas e fortuna dos outros – continua salientando os caminhos para se tornar um príncipe, pela fortuna (boa sorte) ou pela virtude. Discorre ainda (p. 24), assim como no capítulo anterior, que quem o consegue facilmente através da fortuna dificilmente o conservará e se conseguir, será este fruto de muito trabalho e esforço; o que o conquistar por virtude será um processo cansativo e árduo, mas este o conservará facilmente pela honra. O autor cita como exemplo destas duas maneiras de vir a se tornar príncipe, por virtude ou por fortuna, Francisco Sforza e César Bórgia. Francisco tornara-se duque de Milão e com grande esforço alcançou este mérito. De outro lado, César Bórgia, pelo povo chamado de Duque Valentino, chegou ao governo do Estado através da fortuna herdada por ele de seu pai, ou seja, quão fácil adquiriu o poder e a fortuna, mais fácil ainda as perdeu. Afirma que quem quiser “assegurar-se contra os inimigos, adquirir amigos, vencer ou pela força ou pela fraude, fazer-se amar e temer pelo povo, seguir e reverenciar pelos soldados, eliminar aqueles que podem ou têm razões para ofender, ordenar por novos modos as instituições antigas, ser severo e grato, magnânimo e liberal, extinguir a milícia infiel, criar uma nova, manter a amizade dos reis e dos príncipes, de modo que beneficiem de boa vontade ou ofendam com temor, não poderá encontrar exemplos mais recentes que as ações do duque.” (p. 31). Ainda afirma que todas as ofensas ao povo devem discorrer todas de uma só vez para que, durando pouco tempo, marquem menos e quanto aos benefícios ao povo, diz que devem ser oferecidos aos poucos para que sejam melhor saboreados (p. 37). No que se refere também à conquista de um principado, Maquiavel prevê a conquista por meio de crimes. No capítulo VIII é possível ver como Maquiavel percebe a política, como a arte de se chegar ao poder não importando os meios que foram ou serão usados. Contudo é interessante notar a observação preliminar que Maquiavel faz daqueles que chegam ao poder através de crimes: não são modos que se podem atribuir totalmente à fortuna ou a virtude. No exemplo de Agátocles de Siracusa, Maquiavel reconhece a coragem e o empenho do filho de oleiro que se tornou príncipe, porém ressalta que seu mérito não se deveu a fortuna, nem à
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virtude. À fortuna não se deveu o êxito de Agátocles porque este se deu somente pelo seu esforço e coragem. Quanto à virtude, embora o conceito deste termo, para Maquiavel, esteja muito distante dos termos piedosos cristãos, também não são aplicados no caso de Agátocles. De modo explícito Maquiavel julga a atitude deste príncipe como não se podendo “chamar de virtude o matar os seus concidadãos, trair os amigos, ser sem fé, sem piedade, sem religião; tais modos podem fazer conquistar o poder, não glória”(p.33). Se por um lado Maquiavel ensina que em caso de necessidade pode-se imitar tais exemplos, por outro lembra que o poder será obtido sem glória, ou seja, o príncipe jamais será celebrado entre os mais ilustres. É possível ver nesta passagem um mínimo de senso ético em Maquiavel, uma vez que se apresenta contrário a prática da crueldade, desumanidade e perversidade exacerbados. Assim, é possível perceber a defesa do conceito de honra, pelo que se é lícito matar seus inimigos para evitar sua própria ruína futura, não é aceitável matar traiçoeiramente os que são amigos. Maquiavel questiona se é lícito falar bem do que é mau, mas seguindo sua ideia de política desvinculada da moral comum, prossegue defendendo o uso adequado da crueldade. A crueldade seria bem usada para fins de afirmação no poder inicialmente e depois em benefício dos súditos, e mal usada quando aumentassem no decorrer do tempo ao invés de extinguirem-se, tornando impossível a continuidade no poder pelo príncipe. A estratégia do uso da crueldade nas lições de Maquiavel vai mais além: “as ofensas devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, pouco degustadas, ofendam menos, ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos, para que sejam melhor apreciados” (p. 37), e que sejam tão eficazes de forma a impedir a vingança.

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A relação do príncipe com o povo é o ponto chave na obra de Maquiavel, porque dela decorre a manutenção do poder. O príncipe não pode ser cruel o tempo todo porque, teria a desconfiança de todos e em tempo de guerra não teria aliados. Maquiavel defende duas premissas: que o povo não deseja ser oprimido e governado pelos poderosos e os poderosos querem governar e oprimir o povo; porquanto o primeiro busca o governante para que o proteja e o segundo, para garantir sua ambição. Maquiavel adverte, porém, que para o príncipe, o povo é mais importante e determinante na adversidade do que os poderosos. . A relevância do papel do povo na permanência no poder pelo príncipe, se deve ao fato de ser maior em número. Para Maquiavel o príncipe deve ter a habilidade de manter o povo ao seu lado e, ao mesmo tempo, conquistar os poderosos que lhe são hostis estando alerta quanto aos que são inimigos. A força de um príncipe também decorre da força de suas armas contra o inimigo externo, Maquiavel passa a dar lições de estratégias de guerra, sendo forte o príncipe que tem homens e dinheiro para manter exercito próprio para batalha em campo aberto, e necessitado da defesa de outros os que se refugiam nos muros da cidade. No segundo caso, é preciso ser o príncipe amado pelo povo, guarnecer seus víveres e ter habilidade de conservar firmes os ânimos de seus cidadãos. O ideal é que o príncipe tenha exército próprio e não utilize tropas mercenárias ou tropas auxiliares, porque estas lhe trarão a ruína. A preparação para guerra deve ser uma atividade constante para o príncipe, inclusive em tempos de paz. Afinal, também isso constitui uma das virtudes do príncipe: estar sempre preparado para as mudanças da fortuna. Nesses próximos capítulos que integram a obra – de XV a XXI – percebe-se claramente o quanto o autor valoriza ver as coisas como elas são. Para manter-se um Príncipe seria necessário abrir mão da bondade e usá-la somente quando fosse realmente importante. Partindo do princípio que o ser humano é falho, o príncipe deveria ser prudente e dosar suas virtudes e vícios. Os quais poderiam inverter valores e quando solicitados usados de maneira racional. O essencial se torna manter a ordem no Estado. Assim como os vícios e virtudes, a liberdade também precisa ser medida. Um príncipe que quer manter a imagem de liberalidade utilizando todos os meios possíveis será tido como miserável. Porém, se isso acontecer, ele não pode se incomodar. Com o tempo os súditos irão têlo como mais liberal e entenderão sua precaução, tornando-o ainda mais confiável.
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É importante frisar a dimensão da liberalidade quando se é príncipe ou quando está a caminho disso. No primeiro caso é prejudicial, pois acaba dando muita abertura e prejudicando o controle. Já no segundo é necessário ser tido com liberal, pois esse termo auxilia na conquista e permanência de súditos. Clemência, a virtude que permite perdoar ou atenuar castigos, deve ser considerada com precauções. É preferível ser tido como clemente a cruel, mas isso não pode permitir distúrbios que levem à impunidade, prejudicando a comunidade. É necessário ser cauteloso com todas as decisões e não deixar que o medo impeça ações, sem deixar de lado o equilíbrio e a coerência. Bom seria se pudesse unir o temor ao amor, mas é difícil em função da essência humana. Diante disso, é aconselhável ser temido. Pois o temor resulta em respeito, já o amor é construído por laços que podem acabar quando não se fazem mais necessários. É preciso obter o temor e não necessariamente conseguir o amor, mas evitar o ódio. E quando alguma atitude mais severa, como tirar uma vida for necessária, ter argumentos para isso. E se abster de tomar bens, visando que o homem não lida de forma amigável com a perda de patrimônios. Um bom príncipe deve apoiar-se nos meios ao seu alcance e não depender de poderes alheios. O príncipe deve saber usar bem as leis e a força. É preciso ser como a raposa e o leão: “eis que este não se defende dos laços e aquela não tem defesa contra os lobos. É preciso, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos.” (p. 68). Observando que os homens são naturalmente maus, não se faz necessário agir sempre de boa fé. Sabendo diferenciar as necessidades imediatas do que realmente importa. Não é totalmente importante que um príncipe tenha todas as qualidades, “mas é bem necessário parecer possuí-las.” (p.69). Ter uma mente aberta e agir conforme o momento e suas variações, se possível com bondade, mas não se esquecer que o mal se pode fazer necessário, tornam-se habilidades indispensáveis. Deve haver cuidado com as palavras para que não sejam mal interpretadas. Homens veem, mas poucos sentem. E essa minoria não ousaria se opor ao Estado. O objetivo acaba por se sobrepor aos meios usados para chegar até ele. O homem que vive bem, com sua honra e patrimônio respeitados, sente-se satisfeito.
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Seria apenas necessário o príncipe dosar os poucos ambiciosos que surgissem com tal forma e firmeza que suas decisões não seriam contestadas. É complicado conspirar com quem tem grande prestígio. A boa relação com a massa se evidencia extremamente necessária quando se trata em inibir conspirações contrárias. Esse é um dos principais assuntos que o príncipe precisa se preocupar. “Os Estados bem organizados e os príncipes hábeis têm com toda a diligência procurado não desesperar os grandes e satisfazer o povo conservando-o contente, mesmo porque este é um dos mais importantes assuntos de que um príncipe tenha de tratar.” (p. 73). O príncipe precisa ter ambos em vista, tomando decisões que os favoreçam, mesmo que seja, por um momento, cruel com alguns. Deve extrair o que for necessário para consolidar um Estado e o que for útil para manter um domínio glorioso. A criação de fortalezas se fazem importantes para manter um Estado forte, mas o príncipe nunca se deve esquecer da força do povo quando movido pelo ódio. As fortalezas acabam por se equivaler ao amor do povo, pois é mais seguro não ser odiado pelo povo do que possuir fortalezas (p. 86). No capítulo XXII, o autor trata da importância da escolha dos ministros do príncipe. Pois, se os ministros demonstram inteligência, capacidade e fidelidade, reafirmam as próprias qualidades daquele que os escolheu. Se, no entanto, são incompetentes, recai sobre o príncipe a culpa por tão infeliz escolha, fazendo surgir, inclusive, dúvidas quanto à capacidade do próprio príncipe. Nisto, cabe ao príncipe saber analisar o tipo de inteligência que os candidatos ao ministério possuem, se procuram interesses próprios ou se, como é recomendado, que nunca pensem em si “mas sim e sempre no príncipe” (p.91). Para conservar um bom ministro, é preciso criar nele uma verdadeira dependência da proteção do príncipe e temente de mudanças, “honrando-o, fazendo-o rico, obrigando-se-lhe, fazendo participar das honrarias e cargos” (p.91). Na sua orientação em “Como se afastam os aduladores”, tema do Capítulo XXIII, Maquiavel expõe como as cortes estão repletas de pessoas que agem assim. É necessário, segundo Maquiavel, fazer com que os homens entendam que não ofendem o príncipe dizendo a verdade. Mas isto não cabe a todos os homens, somente a poucos – os homens sábios – e
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somente quanto ao que o príncipe pergunta, para que este não seja tratado com irreverência. Depois de ouvi-los, deve formar sua opinião, “seguir a deliberação adotada e ser obstinado nas suas decisões. Quem procede por outra forma, ou é precipitado pelos aduladores, ou muda frequentemente de opinião pela variedade dos pareceres; daí resulta a sua desestima.” (p.92). Deve desestimular àqueles que queiram aconselhar-lhe sem que ele peça alguma opinião. Também “deve ser grande perguntador e, depois, acerca das coisas perguntadas, paciente ouvinte da verdade”. Encontra-se aqui uma virtude necessária além da aparência: o príncipe tem que ser sábio, e não só o Conselho ou os ministros, pois “um príncipe que não seja sábio por si mesmo, não pode ser bem aconselhado, a menos que por acaso confiasse em um só que de todo o governasse e fosse homem de extrema prudência.” (p.93) E se existe alguém assim, logicamente desejará obter o governo para si. Se o príncipe não for sábio, não saberá aproveitar ou rejeitar os conselhos, quer sejam bons ou maus, nem harmonizá-los. “Consequentemente se conclui que os bons conselhos, venham de onde vierem, devem nascer da prudência do príncipe, e não a prudência do príncipe resultar dos bons conselhos.” (p.94). No capítulo XXIV, Maquiavel explica “Por que os príncipes da Itália perderam seus estados”. Primeiro assinala que é muito mais fácil um príncipe novo se assegurar no poder que um hereditário, se agir do modo que sugere e isso está baseado na sensação de segurança que um súdito tem diante das ações tidas como virtuosas do príncipe, “Terá a dupla glória de ter dado início a um principado novo e de tê-lo ornado e fortalecido com boas leis, boas armas e bons exemplos” (p.94). Além disso, Maquiavel observa que os príncipes hereditários caem “pois, não tendo nunca, nos tempos pacíficos, pensado que estes poderiam mudar (o que é defeito comum dos homens na bonança não se preocupar com a tempestade) quando chegaram os tempos adversos preocuparam-se em fugir e não em defender-se” (p 95). Isso não vem da sorte – ou falta dela – mas de sua pouca prudência. É ainda necessário saber ter o povo como amigo e garantir-se contra os grandes, para não perder o Estado.

Em seu capítulo XXVI, Nicolau Maquiavel considera que a sorte só decida a metade das ações humanas, cabendo ao livre arbítrio a responsabilidade pela outra metade das ações – ou quase – e, desse modo, volta a declarar a importância de agir com previdência e ao mesmo
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tempo com flexibilidade. Aquele que se adapta às mudanças dos tempos, mudando a natureza de suas ações, consegue êxito, enquanto aquele que permanece inflexível ao seu próprio modo de agir é derrubado pelo momento adverso. Ademais, considera ser “impetuoso do que dotado de cautela, porque a fortuna é mulher e consequentemente se torna necessário, querendo dominá-la, bater-lhe e contrariá-la; e ela mais se deixa vencer por estes do que por aqueles que procedem friamente.” (p. 99). Em seu último capítulo, chamado “Exortação para procurar tomar a Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros”, percebe-se a voz de um italiano penalizado com a situação na qual se encontra o seu país, quando a descreve, comparando-a com outros povos. “Vê-se como ela implora a Deus lhe envie alguém que a redima dessas crueldades e insolências bárbaras. Vê-se, ainda, toda ela pronta e disposta a seguir uma bandeira, desde que haja quem a impunhe.” (p. 101). Naquele momento, era necessário e urgente o surgimento de um príncipe, segundo Maquiavel, da própria casa dos Medici, “com sua fortuna e virtude, favorecida por Deus e pela Igreja.” (p. 101). Para tal, orienta a constituição de tropas próprias, honradas e mantidas pelo Príncipe. Frisa que a Itália clama por um redentor, e que diante de todos os problemas que estavam passando, ninguém se negaria a obedecê-lo, honrá-lo e devotar seu amor a ele. Com a leitura atenciosa de “O Príncipe”, quebram-se os preconceitos que fizeram de Nicolau Maquiavel um escritor maldito. Em verdade, pode-se afirmar que aqueles que detinham o poder em sua época – as famílias de nobres e a Igreja, principalmente – sentiram-se afrontados por terem seus modos de agir revelados em cores tão vivas. Para manter o poder, o Estado constituído, se faz necessário não ser ingênuo e aprender com a história dos outros governantes e governos. A extrema atualidade do livro impressiona, fazendo com que o grupo que preparou esta resenha percebesse que existem muitos exemplos de políticos que agem conforme as lições de Maquiavel, a fim de que sejam amados e temidos, e assim permaneçam em situação de poder. Percebe-se que o modo de “fazer política” afinal, não mudou tanto assim.

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Referência: MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. [S.l.] : LCC Publicações Eletrônicas. Disponível em <http://academico.ufrrj.br/quiosque/aluno/quiosque.php?pag=arquivos> Acesso em: 3 de maio de 2012.

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