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Q
ue o periodo terminal da vida humana deva
sempre ser humanizado, ou seja, digniñcado,
não tenho a menor duvida.
Que o testamento vital seja o instrumento
mais adequado para promover esta humaniza·
ção já me parece bem duvidoso.
Senão vejamos: o que é o testamento vital:
Por testamento entende·se a elaboração de um documento
no qual uma pessoa toma decisões antecipadas de vontade,
que deverão ser cumpridas apos a sua morte. Para que este
documento tenha eñcácia juridica, a lei estabelece as con·
dições a que o testador deve obedecer. Para poder fazer um
testamento válido.
Por testamento vital (designação impropria, porque a pessoa
não deixa a vida em testamento; e se é sinonimo de testamen·
to feito em vida é um absurdo, pois ninguém faz testamento
depois de morto) entende·se, em geral, a elaboração de um
documento com decisões antecipadas, referentes a cuidados
de saude; a ser cumpridas quando a pessoa não estiver em
condições de decidir de forma consciente e responsável.
Cabe perguntar: porquë e para quë:
10326³
Tenho lido nos abundantes escritos dos defensores deste
instrumento juridico - ou que se pretende que o seja - que a
justiñcação está no receio que as pessoas terão de ser mal·
tratadas na fase ñnal das suas vidas pelos médicos, que esta·
riam mais interessados em prolongar artiñcialmente a vida
dos doentes em fase terminal do que em atender aos seus
desejos e decisões. É certo que, estando a pessoa incapaz de
decidir por si propria sobre os tratamentos ou intervenções
para os quais dá o seu consentimento, cabe ao médico deci·
dir, de acordo com as regras aplicáveis da boa prática clinica,
na situação concreta. Para os paladinos do testamento vital,
os médicos decidem mal, e por isso a pessoa vai decidir, ela
propria, antecipadamente, o que permite ou não permite que
lhe seja feito pelo médico na situação concreta.
1"3"26³
Para honrar um direito de personalidade, que é a liberdade,
do qual se deduz o principio do respeito pela autonomia das
pessoas. 0 tempo do paternalismo médico já passou, dizem,
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0 exercicio da autonomia sem
informação adequada e rigorosa
é muitas vezes prejudicial para a pessoa
que o exerce. É preciso legislar sem
urgëncia e com rigor
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e agora é a pessoa doente que decide sobre o que permite
ou não permite que seja feito no seu corpo pelo médico.
Se ñcar em situação de não poder decidir, por estar incons·
ciente, não quer depender do arbitrio do médico e decide
antecipadamente.
Esta justiñcação ética é falaciosa. 0 instituto juridico do
consentimento para atos médicos impõe uma informação
prévia, dada à pessoa doente pelo médico responsável pelo
tratamento ou intervenção que propõe; e esta informação
tem de ser completa, verdadeira, compreensivel pela pessoa
e respeitante à situação clinica concreta em que a pessoa
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B5 Orden dos Advogados OUTUBRO 2DlD
doente se encontra.
0ra, mesmo que a pessoa, no momento de redigir o dito
testamento vital, tenha a assessoria de um médico - como
impõe a legislação de alguns paises -, este nunca poderá dar
uma informação, que, nos termos legais, terá de ser completa,
verdadeira e respeitante à situação clinica concreta, porque a
situação clinica é imaginada pela pessoa e é sobre essa hipo·
tética situação que ela deseja decidir. Portanto, ela irá dar
ou recusar o consentimento sem ter recebido a informação
adequada, o que torna o consentimento não válido; logo, sem
eñcácia juridica. Antecipando esta critica, a maior parte das
legislações europeias estabelece o dever de o médico ter em
conta as disposições antecipadas de vontade do seu doente;
mas não o obriga a segui·las em todas as situações.
0o meu ponto de vista, e como médico que sempre defen·
deu o consentimento informado, considero que o progresso
cientiñco na área dos cuidados intensivos, o qual permite fazer,
hoje, com muito rigor, um juizo seguro sobre as possibilidades
de sobrevivëncia de um doente em situação grave, aliado a
uma aceitação, com critério cientiñco, da decisão médica de
não iniciar ou de suspender os tratamento futeis ou inuteis,
torna a declaração antecipada de vontade, ou testamento
vital, de facto, ela também, futil ou inutil.
A pessoa irá recusar tratamentos que o médico não iria nunca
aplicar na situação imaginada pelo doente, e agora concreti·
zada, e até pode suspeitar·se que se a pessoa viesse a estar
na situação que imaginou e pudesse falar, nomeadamente em
situações oncologicas, talvez pedisse ao médico tratamentos
heroicos que este não considerasse adequados.
0 exercicio da autonomia sem informação adequada e rigo·
rosa é muitas vezes prejudicial para a pessoa que o exerce.
Faça·se uma lei clara, que seja completa, porque as situa·
ções são muito diversas, e que proteja as pessoas em vez de
as por em risco.
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