Relatório Proposta de Delimitação da APA Serra Velha

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA Analista Ambiental – Vitor Vieira Vasconcelos 28 de julho de 2010.

Objetivo: Nas reuniões do grupo técnico do Copam para mediar os conflitos sócio-ambientais na região da Serra Velha, foi proposto que o Ibama, em articulação com o CAA (Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas) e as comunidades locais, propusesse a delimitação de uma Área de Proteção Ambiental - APA - para a região. Nos dias 15.06.2010 e 16.06.2010, os analistas ambientais do Ibama Rafael Macedo Chaves e Vitor Vieira Vasconcelos, acompanhados da liderança local do Sr. Braulino, realizaram trabalho técnico visando elaborar uma proposta preliminar os limites da APA.

Justificativa: A região da Serra Velha é ocupada principalmente por pequenos agricultores, os quais utilizam os vales para produção de hortifrutigranjeiros. Há também a coleta agroextrativista em algumas áreas mais elevadas. A população local se agrupa em pequenas comunidades, cada qual com sua associação de moradores. O aspecto de unidade associativista mais amplo cabe à Associação de Produtores, que agrega os pequenos agricultores das diversas associações. As áreas de topo da Serra Velha são constituídas de solos arenosos, cobertos por uma fina camada de cascalho laterítico. Com a instalação de cascalheiras e areeiras nessas áreas mais altas, os agricultores nos vales passaram a sofrer com o assoreamento dos rios, e temem ainda perder áreas com potencial de extrativismo. A concepção de uma APA é uma antiga demanda de lideranças locais e do CAA. O principal motivo para a criação da APA é fornecer à população e aos produtores da Serra Velha um instrumento de empoderamento social, possibilitando a conservação de seus recursos

naturais. A criação de um conselho da APA também será uma grande oportunidade para fortalecer os laços associativistas da região e propor um caminho conjunto de desenvolvimento sustentável. Além dos moradores e pequenos agricultores, também devem estar presentes no Conselho o Poder Público, os mineradores e outros empreendedores, consolidando-se como um grande espaço para o diálogo e acordos. O conselho da APA poderá estabelecer as regras para o licenciamento, estabelecimento e gestão dos empreendimentos utilizadores de recursos sociais ou potencialmente poluidores. Em especial, será possível proteger as áreas de recargas, os cursos de água e as áreas de agroextrativismo. O conselho também aumentará o poder de voz da comunidade em outros círculos de decisão, como o Copam, os Codemas e os Comitês de Bacia Hidrográfica. Em especial, o conselho da APA terá o direito de se pronunciar sobre o licenciamento ambiental dos empreendimentos que ocorrerem dentro de seus limites, ou que lhe afetarem diretamente. Com um futuro zoneamento ecológico da APA, tornar-se-á possível estabelecer critérios de ocupação mais específicos para cada localidade, em virtude de suas características ambientais, de sua aptidão agropecuária ou minerária, e de sua vulnerabilidade natural à erosão e assoreamento. Para o trabalho de zoneamento ecológico, podem ser aproveitadas as bases do Zoneamento Ambiental da Serra Velha, apresentado pelo Ibama em fevereiro de 2010 e aprovado pela URC Norte de Minas do Copam. Com o estabelecimento da APA, também será possível qualificar com mais rigor as infrações e crimes ambientais que ocorram na região. Por ser uma unidade de conservação, os ilícitos ambientais se tornam agravados, de acordo com a Lei Federal nº 9605, de 1998, do Decreto Federal nº 6.514, de 2008 e da Lei Estadual nº 14.309, de 2002. Além disso, existem ilícitos ambientais específicos para as APAs, previstos pela Lei Federal nº 6.902, de 1981 e pelo Decreto Federal nº 99.274, de 1990. O estabelecimento de uma APA garante novos recursos para os Municípios, por meio de repasses do ICMS ecológico (Lei Estadual nº 18.030, de 2009). Os recursos de manutenção do Conselho Consultivo da APA podem inclusive ser arcados com esse aporte tributário. Com a aprovação do Zoneamento Ecológico da APA, o repasse para o município referente à APA é multiplicado de 4 a 20 vezes, conforme o Anexo IV da respectiva lei. Metodologia: Preliminarmente, foram elaborados mapas com imagens de satélite, altimetria, modelo digital tridimensional de terreno, declividade, hidrografia, vulnerabilidade à erosão, estradas, e localização das principais comunidades. Em campo, os caminhamentos percorridos foram registrados com aparelho receptor de GPS. Também foram marcados pontos de GPS para registrar localidades específicas. As câmeras fotográficas foram sincronizadas com o aparelho receptor de GPS. O roteiro de campo contemplou prioritariamente as áreas mais altas, com maior campo de visão, além de passar pelos locais de maior degradação ou maior interesse de preservação. O principal objetivo da vistoria foi travar contato com a realidade local, observando o vínculo e a

dependência da população e dos empreendedores locais para com as características naturais do ambiente. Em diversos momentos da vistoria, foram demarcados, nos mapas, a toponímia dada para cada localidade e para a comunidade a que se vinculam. Posteriormente, as fotografias foram georreferenciadas a partir dos programas PhotoMapper 0.7 e da extensão ArcPhoto para ArcGis 9.3.1. Com isso, foi possível comparar os registros fotográficos, as anotações de campo, as bases cartográficas e as feições nas imagens de satélite Landsat 5 e Spot, ambas de 2009. A análise integrada das informações, somadas às discussões realizadas durante à visitação, possibilitaram demarcar uma proposta preliminar para a APA. Com base em informações da população local, também foram delimitadas áreas com uso efetivo para agroextrativismo. Ainda, foram demarcadas algumas áreas principais de recarga, inferidas como áreas topograficamente superiores às nascentes de maior vazão e estabilidade ao longo do ano, conforme o conhecimento da população local. Critérios para a delimitação da APA: As áreas mais sensíveis, que têm sido o foco dos conflitos, são sem dúvida as áreas de arenito no topo da Serra Velha, que têm sido utilizadas para mineração de areia e cascalho. Essas áreas de arenito necessariamente tornam-se os núcleos da APA. Todavia, também é imprescindível incluir nos limites da APA as comunidades no entorno das áreas de arenito, pois são os principais afetados pela degradação ambiental de suas áreas de recarga. A eficácia de uma APA está diretamente ligada à força de seu conselho consultivo. Por isso, é importante que a área da APA coincida com o território das comunidades que apresentam maiores laços de associativismo entre si. É importante que haja uma identidade territorial na APA, permitindo que a população se interesse pela sua conservação e se sinta representada no conselho, o que facilitaria nas tomada de decisão e na execução das diretivas de gestão acordadas. A partir dos critérios basilares representados acima, o traçado dos limites da APA também levou em conta a facilidade de demarcação, por meio da coincidência com estradas, hidrografia, divisores de água ou mudanças acentuadas de relevo. O estabelecimento de limites visíveis facilita sua compreensão pela população local e pelo poder público. A seguir, são apresentadas as principais justificativas para os limites da APA em cada direção geográfica. Limite leste: A leste, mais abaixo das camadas de solos arenosos sobre arenito, estende-se uma área ondulada de solos rasos argilosos, sobre embasamento de pelito. A vegetação é de transição entre Cerrado e Floresta Estacional Decidual. A ocupação é realizada por pequenos agricultores, que sofrem diretamente com as minerações de areia e cascalho do topo da Serra Velha. A ocupação por pequenos agricultores coincide com a área de relevo ondulado.

Mais a leste, abaixo da área ondulada, está o vale do Rio Verde Grande. A partir daí o terreno torna-se plano, o solo e fértil sobre embasamento de calcário, sem escassez de água. Essa área é ocupada por médios e grandes fazendeiros, sem vínculo com as associações de produtores e moradores da Serra Velha. Portanto, optou-se por manter como limite leste da APA a transição entre o relevo ondulado para o relevo plano do vale do Rio Verde Grande. Sempre que possível, procurou-se coincidir os limites com as estradas e com a hidrografia. No limite nordeste optou-se por incluir na APA a cabeceira da bacia do Rio do Peixe, pois ela também é afetada pela degradação dos solos arenosos da Serra Velha. Os aspectos de solo, vegetação e ocupação da cabeceira do Rio do Peixe também são semelhantes aos do leste da APA. A Associação Comunitária do Rio do Peixe apresenta uma preocupação especial com a preservação do meio ambiente, tendo realizado diversos trabalhos locais de educação ambiental. Limite Norte: O limite Norte coincide com o divisor de águas ao norte da Bacia do Pacuí. O vale da cabeceira do Rio Pacuí apresenta boa fertilidade, e seus agricultores familiares respondem por uma parte expressiva da produção agrícola que abastece Montes Claros. Todavia, esses pequenos agricultores têm sofrido como as minerações e com as trilhas de motoqueiros no divisor norte, em virtude do assoreamento dos rios e da degradação das áreas de recarga. Os agricultores do Pacuí apresentam bons laços com a Associação de Produtores. A conservação ambiental da cabeceira do Rio Pacuí possui ainda outro aspecto significante. Pois são as águas de sua cabeceira que alimentam a Barragem dos Porcos, a qual abastece de água a cidade de Montes Claros. A qualidade ambiental da cabeceira do Pacuí é essencial para garantir água em qualidade e quantidade para o município de Montes Claros. Em virtude de se tratar de agricultores familiares na bacia de um manancial de abastecimento urbano, a bacia da cabeceira do Rio Pacuí apresenta as características necessárias para ter prioridade no recebimento da Bolsa Verde, de que trata a Lei Estadual n º 17.727, de 2008. Ao norte do divisor de águas, já fora bacia do Rio Pacuí, a ocupação predominante é de chacreamentos e de especulação imobiliária para expansão urbana. Os moradores dessa vertente não possuem vínculo com o restante da população da Serra Velha. Entendemos que estender a APA para essa vertente dificultaria a criação de uma identidade própria para o conselho da APA, e tiraria o foco de seus objetivos iniciais. Limite Oeste: Como limite noroeste, optou-se por coincidir o limite da APA com a BR-365. A fácil visualização desse limite também coincide com os limites de influência da Associação de Produtores. Seguindo de Montes Claros no sentido de Jequitaí, pela BR-365, o limite da APA segue até logo após a plantação de eucaliptos da Empresa Somai. Em seguida, segue-se o divisor de água entre o córrego Santa Maria e as bacias onde ficam as comunidades Riachão e Canto do Engenho.

A bacia de influência da Associação da Comunidade de Santa Maria foi incluída nos limites da APA, por sugestão do CAA. Essa associação possui um histórico de lutas em relação aos impactos ambientais ocasionados pela empresa Somai, a qual se instalou nas cabeceiras dessa sub-bacia hidrográfica. Apesar de atualmente a comunidade possuir boas relações com a Somai, a APA apresenta-se como um instrumento de defesa dos direitos ambientais da comunidade, no caso de futuros conflitos. As plantações de eucalipto da Somai ao lado da BR365 localizam-se sobre a área de recarga do córrego Brejal. Trata-se de um córrego conhecido pelos moradores como de grande quantidade e regularidade de vazão. Ao incluir na APA a bacia hidrográfica do Córrego Santa Maria, também se justifica que a Somai participe do conselho da APA, como representante dos empreendedores. A Somai tem propriedade de uma parcela expressiva da Serra Velha, especialmente as áreas mais elevadas da porção noroeste. A Somai possui uma granja de grande porte, plantações de eucaliptos e uma reserva legal bem preservada. Existe um vinculo entre a Somai e os produtores rurais da Serra Velha, por meio do fornecimento de adubo de fezes de galinha. Optou-se por não incluir as comunidades do Riachão e Canto do Engenho no território da APA, por razão principal de não possuírem fortes vínculos com as associações de moradores e produtores da Serra Velha. Por estarem mais afastados das áreas de topo da Serra Velha, os moradores do Canto do Engenho e do Riachão não apresentam um forte histórico de organização comunitária em prol da defesa de seus recursos naturais. Limite Sudoeste A Sudoeste do território da Serra Velha, encontra-se o povoado de Morro Vermelho. O nome do povoado se deve ao solo vermelho arenoso do morro, que quando é degradado, difícilmente se regenera. Uma análise de campo preliminar tornou possível inferir que o Morro Vermelho possui boa viabilidade econômica para instalação de areeiras de encosta, caso não se leve em conta o potencial de impacto ambiental. Todavia, sua vulnerabilidade natural é maior inclusive do que a dos locais onde estão instaladas as areeiras atuais na Serra Velha. É preciso alertar que o Morro Vermelho está fora da poligonal aprovada pela URC Copam Norte de Minas, dentro da qual os empreendimentos de mineração não podem seguir o regime de Autorização Ambiental de Funcionamento. Com um maior rigor no licenciamento e fiscalização ambiental nas atuais áreas de mineração da Serra Velha, o Morro Vermelho apresenta-se como principal área para uma futura expansão da mineração de areia de encosta. Tal potencial é inferido por critérios de proximidade das atuais areeiras, proximidade do centro consumidor e de facilidade de acesso às vias de escoamento. Portanto, a inclusão do Morro Vermelho na APA é crucial para que seus moradores tenham meios de lidar com uma vindoura expansão das atividades minerárias para essa localidade. Também se coloca como alternativa estender a poligonal aprovada pela URC Norte de Minas do Copam, para que abarque também a região do Morro Vermelho.

Como critério local para delimitação da APA, o traçado seguiu os rios coletores (ou seja, rios que recebem perpendicularmente os córregos que descem da Serra Velha). Dessa forma, protege-se, como APA, toda a vertente de Serra até chegar ao canal coletor. Limite Sul O limite Sul da APA adentra-se para o território do Município de Bocaiúva. Descontando a parte sudeste da APA, os proprietários da vertente Sul da Serra Velha apresentam perfil bem diferenciado do restante da população coberto pela APA. Trata-se de propriedades médias e grandes de vocação pecuarista, sobre vegetação original de Floresta Estacional Decidual e solos férteis. Como critério inicial, o limite Sul da APA foi delimitado a partir da ruptura de declive, de modo a incluir na APA a parte superior e mais declivosa da vertente sul da Serra Velha. Parte-se do princípio que os proprietários que possuem propriedade na vertente sul possuem interesse em não terem seus cursos de água prejudicados por empreendimentos no topo da serra. Não obstante, é indispensável que as lideranças dos proprietários da vertente Sul da Serra Velha sejam inseridas no processo de discussão sobre a APA, para se manifestarem sobre o seu interesse ou não em participar desse movimento, além de indicarem qual seria o limite desejado para a APA nessa região.

Resultados: O mapa 1 apresenta a proposta de delimitação da APA, incluindo as toponímias identificadas, bem como as estradas e rios de referência. Também foi incluído ao fundo um modelo tridimensional de elevação, para prover uma noção do relevo. A proposta para a APA ocupa 57.939,3 hectares no total, sendo 45.904,2 ha no município de Montes Claros e 12.035,1 ha no município de Bocaiúva. O mapa 2 apresenta outros elementos importantes para análise da proteção da APA, como áreas de agroextrativismo, áreas de importante recarga identificadas, áreas de arenito (e respectivo solo arenoso) e a poligonal aprovada pelo Copam para convocação ao licenciamento ambiental das minerações com AAF, além do caminhamento percorrido no roteiros de campo.

Recomendações Finais

Recomenda-se que seja realizada uma reunião com as lideranças das comunidades e produtores locais, para apresentação dos trabalhos já realizados. Trata-se de uma ocasião importante para esclarecer à população sobre o que é uma APA e sobre os benefícios para a comunidade. Nessa reunião, também devem ser discutidos os limites da APA, para se chegar a uma proposta consensual.

É importante que sejam apresentados os mapas deste relatório, de modo que os presentes possam localizar-se na área da APA. Aproveitando o recurso dos mapas, torna-se viável realizar uma dinâmica de mapeamento participativo, em que os membros das comunidades possam indicar as áreas que mais lhe preocupam em termos de conservação, tais como áreas de agroextrativismo e cursos de água mais importantes. Essas informações já servem de subsídio para adiantar o Zoneamento Ecológico da APA. Também é necessário que as prefeituras de Montes Claros e Bocaiúvas sejam envolvidas no processo de concepção da APA. Afinal, por se tratar de uma proposta de APA municipal, o principal apoio para instalação e manutenção deve ser justamente do município. Após os trabalhos de articulação local e municipal, propõe-se ainda uma última comitiva para percorrer os limites da APA em conjunto com representantes das comunidades locais e do poder público. Esse evento de campo, com importante valor simbólico, seria uma oportunidade para que os interessados conheçam mais detalhadamente a extensão da APA. Também seria uma oportunidade para realizar ajustes menores nos limites, com o objetivo de facilitar a sua demarcação ou evitar conflitos futuros.