A justiça como prática e a necessidade de raciocínio público

Por Sonia Montaño

A sexta edição do Fronteiras do Pensamento teve início na noite de 25 de abril com a conferência do Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, que apresentou a sua teoria da justiça, que visa o crescimento econômico para o desenvolvimento humano. “A injustiça em qualquer lugar representa uma ameaça à justiça em toda parte”, disse citando uma frase de Martin Luther King Jr., defendendo que pobreza e injustiça nunca são desafios de um só país ou região. O Prof. Sen lembrou da trajetória de Luther King, que se engajou no combate às injustiças cometidas contra os afro-americanos nos Estados Unidos, mas que de maneira geral defendeu quem sofria de pobreza e discriminação no mundo inteiro. A passagem do nível local ao global não foi difícil para ele, estava subjacente ao seu pensamento, há 50 anos. “Se pensarmos a injustiça de outros países como algo que não nos diz respeito, nunca poderemos superar a nossa injustiça”, enfatizou o criador do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O economista, que vem se debruçando sobre a teoria da justiça desde sua juventude, disse ter conseguido desenvolvê-la principalmente em seu último livro, A ideia de justiça, lançado há alguns meses no Brasil pela Companhia das Letras. O livro está direcionado para a prática: as políticas públicas, as práticas individuais, a movimentação política e as atividades cooperativas sociais em busca da justiça.

Justiça e contrato social A teoria da justiça, do século XVII ao século XXI, esteve determinada pela ideia de contrato social, contrato imaginário aceito por um povo ou nação, tão razoável na busca da justiça que todas as instituições e as pessoas se comportariam de acordo com esse contrato. A ideia de contrato social, iniciada por Thomas Hobbes, passou por Jean-Jacques Rousseau e John Locke, e teve sua forma ainda mais elaborada com Immanuel Kant. O livro mais contundente sobre a teoria da justiça foi escrito por John Rawls, filósofo político e colega de Amartya Sen enquanto lecionavam na Universidade de Harvard. “Essa ideia parte de um Estado Soberano. Mas não há um Estado soberano global, atualmente, e nem haverá no futuro. Quando Rawls fala das relações internacionais, na verdade, não fala mais de justiça, e sim de humanitarismo e civilidade. As teorias da justiça até agora reduzem a justiça a uma retórica vazia ainda que bem intencionada”, criticou. Para ele, quando as pessoas reivindicam mais justiça global, não estão pedindo um humanitarismo mínimo ou civilidade, também não estão se mobilizando por um mundo perfeitamente justo, estão exigindo a eliminação de arranjos crassamente injustos.

Justiça e qualidade de vida Sen lembrou que o posicionamento do Brasil no cenário internacional lhe dá uma voz muito mais ativa em relação à que tinha para lutar pela justiça. Houve crescimento econômico no Brasil que elevou sua renda, embora minimamente, com repercussão na qualidade de vida e nas liberdades (à educação, o à segurança etc.). Desta forma, tanto no G20 quanto nos BRICs, o Brasil e a Índia deveriam levantar a voz e falar por tantos outros países que não estão representados. “Diferente da Índia, da China e da Rússia, o Brasil não tem armas nucleares e pode falar de cabeça erguida sobre essas questões, por isso sugiro que o país tem um papel importante a desempenhar, de forma que os pensadores da justiça ficariam satisfeitos, vendo suas teorias sendo levadas à prática.” A pobreza é central para a justiça. O que ameaça a justiça não é só a escassez de renda, é a privação de capacidades básicas: educação, saúde, segurança. Rawls passa da renda para os bens primários, que incluem direitos e liberdades. “É preciso examinar qual é a liberdade efetiva das pessoas. A renda é para aumentar a liberdade”, insistiu o professor. Disse não haver nenhuma novidade nessa relação entre economia e qualidade de vida, e lembrou que já no século VI o fundador do Budismo deixou seu palácio quando se confrontou com pessoas doentes e com a mortalidade infantil, mostrando já esse interesse pelo desenvolvimento da capacidade humana. Cientistas como Gregory King, François Quesnay, Antoine Lavoisier, Joseph Louis Lagrange e Adam Smith também se concentraram na renda com o objetivo da qualidade de vida das pessoas. Assim como alguns desenvolviam a teoria do contrato social, outras falavam diretamente de qualidade de vida e liberdades. O mesmo aconteceu no século XVIII com John Stewart Mill e Karl Marx. Houve, então, uma outra tradição do iluminismo, que não a abordagem do contrato social, e é a essa tradição que Amartya Sen se filia. Crescimento econômico sustentável “Precisamos de mudança, mas é necessário ver a conexão entre o crescimento econômico, que obviamente é importante, e a redução da pobreza no sentido da privação de capacidades. Por isso, quando falamos sobre os benefícios do crescimento econômico, precisamos falar do crescimento econômico sustentável”, defendeu o economista, lembrando do compromisso do Brasil na Eco 92 e na Rio + 20 e de que a devastação do meio ambiente não resolve nem no presente nem no futuro a questão da pobreza ou o aumento das capacidades das pessoas em geral. A opção nuclear poderia ser uma forma de pensar a energia, mas ela se mostra bastante perigosa porque, entre outras questões, há o roubo de material nuclear por parte de grupos terroristas. Opções energéticas devem ser melhor pensadas. Precisamos de um subsídio maior para a produção de energia ambientalmente sustentável como a solar e a eólica, para serem competitivas”, explicou.

Crescimento econômico e Estado O crescimento econômico expande o produto interno bruto de uma nação, mas a qualidade de vida das pessoas depende do Estado desempenhar um papel nessa expansão. “Essa conexão estava clara para Adam Smith. Para ele, é necessário mais do que o mercado para que a economia e a sociedade sejam bem-sucedidas. Devemos considerar os efeitos de outras pessoas, e muitas vezes estamos presos a uma forma provinciana de pensar”. O crescimento econômico não só eleva a renda, mas também os recursos que estão nas mãos do governo, para que preste os serviços que o Estado deve fazer. O mercado ajuda, assim o Estado para constituir-se de forma ativa num Estado ativo e não restritiva. O raciocínio público sobre a democracia Índia e Brasil seriam exemplos de crescimento econômico para a qualidade de vida das pessoas, à diferença da China, já que é importante que as pessoas tenham voz, segurança, apoio à democracia e aos direitos humanos. “A China executa a cada semana muito mais pessoas que a Índia, o valor da segurança da vida humana deve ser inerente à democracia. O crescimento econômico não é o único”, enfatizou. “A democracia é governada pela discussão.” O fracasso da Índia em não conseguir reduzir a fome é um fracasso não da democracia e sim da prática democrática. Amartya Sen disse se orgulhar de ter sido protagonista do surgimento do movimento feminista no pensamento econômico, já que colocou a questão de gênero no centro da reflexão sobre a justiça. Isso introduz uma mudança no raciocínio público, com, por exemplo, a ideia de que um terço dos integrantes do governo seja formado por mulheres. Iluminismo e austeridade O crescimento, portanto, é importante, contudo o iluminismo europeu resultou na atualidade num fracaso intelectual grave e num fracasso democrático, além de um fracasso econômico. A grave crença da austeridade, isto é, que se podia curar o déficit através de uma política severa, pagando a dívida pública e reduzindo os custos, é algo que ignora como a vida pública e o Estado estão relacionados. “Quando olhamos para a Grécia, que tem crescimento negativo (entre -5% e -7%), vemos o fracasso da política europeia, porque nenhum país do mundo reduziu sua dívida pública num período de crescimento zero. O pensamento inteligente sobre a ciência econômica coincide com o pensamento humanitário.” Hoje, importa muito pouco o que a população grega, espanhola ou italiana pensa, comparado com o que pensam as instituições financeiras. A atual austeridade da Europa não é resultado do raciocínio público. “Teoria e prática da justiça se unem na prática do raciocínio público, e esse é o cerne na minha teoria da justiça”, disse, defendendo a necessidade de mais debate e argumentação públicos sobre questões econômicas. Após a fala, o Prof. Sen respondeu a perguntas dos seus interlocutores, os professores Flávio Comim e Francisco Marshall, e da plateia. Entre elas, um questionamento sobre as relações entre imparcialidade e justiça e sobre a importância da educação na busca efetiva da justiça. O economista disse nunca ter se identificado com os modos como era classificado, embora tenha tido influência de diversos autores e correntes filosóficas. Destacou também que não é a

objetividade e sim as questões relacionadas à ética e à política que podem sobreviver no raciocínio público. “Não é a busca de uma justiça completa em nossas crenças, e sim a busca dela nas questões públicas, o que de fato se torna indispensável.” Amartya Sen lembrou também da importância da educação para muitos outros aspectos da vida, além do crescimento econômico.

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