A palavra fraude tem origem no latim fraus, fraudis e significa engano, má-fé, logro.

A fraude é normalmente compreendida como um engano malicioso, um procedimento astucioso, intentado de má-fé, destinando a encobrir a verdade ou a contornar um dever, tendo como alicerce atos que causem prejuízos a terceiros. Para que se caracterize fraude é necessária a presença de má-fé ou dolo, pois alterações havidas em matérias-primas, insumos ou produtos em razão de caso fortuito ou de força maior e até mesmo negligência no processo industrial não são consideradas fraudulentas. A legislação sanitária brasileira distingue fraude de adulteração e falsificação. Adulteração é quando os alimentos são elaborados em condições contrárias às especificações legais ou com matéria-prima alterada ou impura, que contenham substâncias não permitidas, inclusive corantes e aromatizantes não autorizados. Mascarar intencionalmente a data de validade também caracteriza adulteração. Exemplos de adulteração são utilizar leite com acidez acima do permitido, elaborar um produto cárneo a partir de matéria-prima clandestina ou adicionar bromato de potássio em produtos de panificação. Ocorre falsificação quando os produtos forem elaborados, preparados e expostos ao consumo com forma, características e rotulagem que constituem previlégio ou exclusividade de outros, sem que seus legítimos proprietários tenham dado autorização ou quando forem usadas denominações diferentes da aprovada em regulamentos. São os chamados produtos pirateados, tão em voga nos meios de comunicação. Finalmente, ocorre fraude quando um produto: ● ● ● ● ● tem elementos modificados total ou parcialmente; é elaborado com a intenção de dar falsa impressão sobre sua qualidade; tem suprimido ou substituído compostos visando aumento de ganho em detrimento de sua composição normal ou valor nutritivo; é conservado com substâncias proibidas; e a declaração na rotulagem não condiz com o contido na embalagem ou recipiente.

Entre falsificação, adulteração e fraude, esta última é a mais sutil e difícil de ser identificada, pois visa mascarar um defeito ou ressaltar uma qualidade, descumprindo mas se aproximando do que requer a lei. Em se tratando de alimentos, as fraudes dizem respeito principalmente a desvios de quantidade e qualidade. Exemplo de fraude de quantidade é quando uma embalagem contém menos produto que o indicado, ressalvado a tolerância estabelecida em lei, ou então quando a quantidade tradicional de um produto é reduzida sem a devida informação ao consumidor, que é induzido a pensar que está adquirindo a quantidade costumeira do produto. A simples redução proporcional do preço não descaracteriza este tipo de fraude, batizado pela imprensa como “maquiagem de produto”. A fiscalização de fraude em quantidades é feita pelo INMETRO através de seus representantes (os IPEM estaduais). Os produtos são coletados nos pontos de venda e submetidos a exame pericial e em caso de divergência entre os valores indicados

nos rótulos e a quantidade efetivamente encontrada, a empresa é notificada para defender-se. No caso de maquiagem de produtos, os casos são analisados e punidos pelo Departamento de Defesa e Proteção do Consumidor, órgão do Ministério da Justiça. As fraudes de qualidade são as mais conhecidas. O exemplo clássico é adição de água no leite, para aumentar o seu volume. Mas há outros tipos de fraude que mascaram a perda de qualidade de um produto, como o uso de sulfito de sódio em carne previamanete moída em processo de deterioração. Mesmo o uso de lâmpadas coloridas em expositores de carne, com a finalidade de dar impressão de frescor ao produto caracteriza fraude. Muito próximo da fraude, sem contudo sê-lo de fato, é a prática de comercializar um produto de classe inferior como se fosse um superior. Para muitos casos, essa prática tem amparo na lei, e quem sai prejudicado é o consumidor que acaba levando um produto inferior por um preço igual ou próximo ao de outro de maior qualidade. É, por exemplo, o caso do queijo ralado. Ele tanto pode ser de queijo parmesão ou apenas conter queijo parmesão, mas quando expostos à venda juntos dificilmente o consumidor notará a diferença, a não ser, talvez, pelo preço. O requeijão também sofre a concorrência de produtos muito parecidos em seu aspecto, denominados de “especialidade láctea”. Fraudar alimentos constitui-se crime grave. O artigo 272 do Código Penal reza que “corromper, adulterar, falsificar ou alterar substância ou produto alimentício destinado a consumo, tornandoo nocivo à saúde ou reduzindo-lhe o valor nutritivo” sujeita o infrator a pena de “reclusão de 4 (quatro) a 8 (oito) anos e multa”. As mesmas penas se aplicam a quem “fabrica, vende, expõe à venda, importa, tem em depósito para vender ou, de qualquer forma, distribui ou entrega a consumo” o produto fraudado. E por força da Lei Federal 9.695, de 1998, esses crimes foram definidos como crimes hediondos, posto que atentam contra a saúde pública. Considerando a possibilidade de alterações fraudulentas em alimentos, alguns cuidados devem ser tomados. Por parte das empresas, devem ficar sempre atentas a qualquer indício de que seus produtos tenham sido alterados ou falsificados. Os consumidores, por sua vez, a qualquer indício de fraude devem entrar em contato com o fabricante informando o ocorrido, recorrendo à vigilância sanitária caso não sejam tomadas as providências devidas. E aos órgãos oficiais cabe fiscalizar de forma eficaz e penalizar nos termos da lei, começando pelos produtos clandestinos (sem registro oficial ou provenientes de estabelecimentos não autorizados), passando pelas falsificações até chegar às práticas enganosas que levam os consumidores a adquirirem um produto pensando se tratar de outro, de classe superior. Afinal, mais que a economia, a saúde dos consumidores está em jogo.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful