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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO DISCIPLINA: ESTUDOS DE TEORIA LITERÁRIA II: VERTENTES CRÍTICAS PROFESSORA: ELEONORA

ALUNA: TAYSE FELICIANO MARQUES

COMENTÁRIO: POR UM MUNDO IMANENTE – A CRENÇA DO FORA EM DELEUZE Tatiana Salem Levy, neste capítulo, nos mostra como Deleuze traça direções distintas das de Foucault e Blanchot para o conceito do Fora. Observa-se que a relação com experiência do Fora possui duas grandes consequências: primeira, a de restabelecer o vínculo do homem com o mundo. Segundo Deleuze, o vínculo do homem com o mundo se rompeu e é preciso retomá-lo. A experiência do Fora ao nos colocar diante do mundo – do nosso mundo, e não de outro mundo – restabelece o vínculo do homem com a realidade, devolvendo-o a crença no mundo. Nota-se o quando Deleuze enfatiza que ao se falar do mundo, se fala deste mundo, do nosso mundo. Isso é enfatizado porque ao se falar do Fora, muitas vezes, acreditamos que se trata de questões que não são propriamente as nossas, que não dizem respeito ao mundo em que vivemos. Mas não, a experiência do Fora nos coloca diante deste mundo. Afinal, a literatura e as demais criações sempre tratam de questões do nosso mundo. A segunda conseqüência da relação com experiência do Fora é nos fazer romper com o senso-comum. O restabelecimento da relação do homem com o mundo ocorre para que o homem possa resistir, para que possa transformar o que já está dado, o que não pode continuar como tal, e não para continuar repetindo o que afirma o senso-comum. E a arte é uma potência criadora capaz de romper a rigidez do senso comum ao entrar em conexão com as forças do Fora. A fim de continuar explorando a concepção de Deleuze sobre o Fora, a autora faz um percurso pelas principais questões suscitadas pelo pensador quando aborda tal conceito.

Esse percurso inicia com a autora nos mostrando o que constitui o plano da imanência, que é um conceito chave da filosofia de Deleuze. Para o filósofo, Fora e imanência muitas vezes se confundem, pois possuem muitos pontos em comum. Tudo se encontra no plano da imanência, ou seja, todos os planos, todas as multiplicidades se encontram num único e mesmo plano, que é o plano da imanência. O transcendental, o outro nome do plano de imanência, constitui um campo assubjetivo, isto é, não remete a um objeto e nem pertence a um sujeito. Uma vida, em sua máxima potência, encontra-se neste estado, livre dos qualificativos de subjetividade e de objetividade. Assim, não sendo formado de sujeitos nem de objetos, o plano de imanência é formado por singularidades impessoais, pré-individuais. Pois as singularidades antecedem a gênese do indivíduo e das pessoas. Considerando a singularidade como neutra, Deleuze se aproxima de Blanchot e de Foucault, pois os três pensadores concebem a literatura como uma experiência neutra. Para Deleuze, escrever é sentir e agir no plano da imanência, produzindo singularidades. Agindo na imanência, as palavras produzem sensações absolutamente reais. Em seguida, Levy empenhou-se em fazer a distinção entre atual e virtual. Este, não é algo que falta à realidade, e sim é o que se engaja no processo de atualização. Assim sendo, o Fora, por ser constituído por virtualidades, é pleno de realidade. O virtual jamais se opõe ao real, somente se opõe ao que é atual. No entanto, como o ser é sempre unívoco, atual e virtual não se separam de maneira alguma, constituindo, cada um, uma das faces do mesmo objeto. Sendo assim, todo objeto é atual e virtual a um só tempo, o que diferencia ambos é o fato de o atual já ter passado por um processo de atualização e com isso, se diferenciou. A diferenciação das coisas é, em outras palavras, sua individualização real. A vida, para Deleuze, se faz a partir de um processo de diferenciação, ou seja, da atualização de uma virtualidade. Para o filósofo, diferenciar também é criar, é fazer surgir o novo e outras possibilidades de vida, pois criar é experimentar o desconhecido, é alcançar o plano de imanência. Deleuze propõe uma inversão da concepção tradicional de tempo cronológico. A partir de obras cinematográficas, o filósofo analisa o que seria um tempo não mais

baseado na linearidade passado/presente/futuro. Observa que na passagem do cinema clássico para o cinema moderno, o primeiro subordina o tempo ao movimento, já o segundo, subordina o movimento ao tempo e assim, extingue a linearidade do tempo. Falando da relação da literatura com o tempo, Deleuze analisa um fragmento da obra de Proust Em Busca do Tempo Perdido em que o narrador, em alguns instantes, vivencia momentos do seu passado. Para o filósofo, o que ocorre não é o retorno de um presente atual, mas sim o encontro imediato com o próprio passado, um passado virtual. Dessa maneira, tal obra apresenta o tempo em seu estado original, um tempo não cronológico, em que presente e passado são contemporâneos. E é justamente essa idéia de tempo não cronológico que é, para o filósofo, o que busca a arte, seja na literatura ou no cinema. Além disso, segundo Deleuze, a arte moderna também estimula o pensamento a pensar, pois produz um choque no pensamento do indivíduo, que pensará como experiência limite, uma vez que se lançou ao desconhecido. Dessa forma, para o filósofo, pensar não é uma capacidade inata, temos que nos lançar a esse desconhecido, nos encontrar com algo que nos force a pensar. O cinema com sua montagem descontínua é um exemplo de arte capaz de provocar o pensamento. Sendo assim, pensar constitui uma experiência própria da criação. E se pensar é criar é porque faz surgir o que ainda não existe ao invés de apenas representar o que já está dado. Pensar então, é resistir ao senso comum, é criar novos moldes de existência, pois se coloca em oposição ao que já está estigmatizado enquanto verdade. Todos esses conceitos de Deleuze enfatizam a importância de se romper com o senso comum, de criar o novo, sendo isso possível por meio do contato com o Fora, que nos faz acreditar novamente no nosso mundo (o mundo em sua exterioridade pura) e, assim, interligando-nos novamente com ele. A arte nos provoca ao nos lançar diante do desconhecido, no entanto, com o desconhecido somos também lançados ao real, confrontando-nos com a beleza e com o horror do mundo.