You are on page 1of 19

1

UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS DEPARTAMENTO DE DIREITO PLANO DE AULA (DP II – 2012.1 Aula n.º 01)

Identificação: Disciplina: Direito Penal II Departamento: Direito Curso: Direito Professor: Antoniel Lobo Cardoso Carga Horária: 90 minutos. Bibliografia utilizada: - Alexandre Araripe Marinho e André Guilherme Tavares de Freitas. Manual de Direito Penal. Parte Geral. Rio de Janeiro. 2009. - Paulo Queiroz. Direito Penal. Parte Geral. 6ª ed. Ver. e Ampl. – Rio de Janeiro. 2010. - Capez, Fernando. Curso de Direito Penal, volume 1; parte geral (arts 1º a 120). 11ª. ed. Rev. e atual. – São Paulo; Saraiva, 2007. - Bitencourt, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral, volume 1 – 11ª. ed. Atual. – São Paulo; Saraiva, 2007. - Prado, Luiz Regis. Curso de Direito Penal Brasileiro, parte geral: arts. 1º a 120. 8ª ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo: editora Revista dos Tribunais, 2008. Vol. 1. - Greco, Rogério. Código Penal comentado, 2ª ed. – Niterói – RJ. Ímpetus, 2009. Ementa: Finalidades da pena. Sistemas prisionais. Penas privativas de liberdade. Reclusão. Detenção. Objetivos: Oferecer suporte teórico para que os acadêmicos sejam capazes de compreender e identificar conceitos e institutos utilizados pelo Direito Penal, especialmente, na Parte Geral do Código Penal; Orientar os acadêmicos na tarefa de resolução de problemas relacionados com o Direito Penal;

2

Apresentar aos acadêmicos conceitos, princípios e definições de Direito Penal a serem utilizados no estudo e aplicação da sanção penal; Incentivar os acadêmicos na busca de conhecimentos, além daqueles já adquiridos em sala de aula, através da pesquisa doutrinária, legislativa e jurisprudencial; Fornecer aos acadêmicos informações bastantes para que possam usar seus conhecimentos em casos concretos de aplicação da sanção penal.

3

CONTEÚDO: 1. INTRODUÇÃO. 2. PEGUNTAS FREQÜENTES. 3. CONSEQUENCIAS JURÍDICAS DO DELITO: 3.1 Definição; 3.2 Consequências penais; 3.3 Consequências extrapenais; 4. FINALIDADES DA PENA: 4.1 Introdução; 4.2 Teorias sobre a finalidade da pena; 4.2.a Teorias absolutas; 4.2.b Teorias relativas; 4.2.c Teorias mistas; 4.2.d Teorias Ressocializadoras. 5. SISTEMAS PRISIONAIS: 5.a Sistema Pensilvânico; 5.b Sistema Auburniano; 5.c Sistema Progressivo; 6. PENAS PRIVATIVAS DE LIBERDADE: 6.1 Distinção entre reclusão e detenção; 6.1.a Quanto à gravidade; 6.1.b Quanto ao regime inicial de cumprimento da pena; 6.1.c Quanto à ocorrência de concurso material; 6.1.d Quanto ao efeito da condenação; 6.1.e Quanto à aplicação de medida de segurança; 6.1.f Diferenças fora do Código Penal; 6.2 Prisão simples; 7. REVISÃO

4

1. INTRODUÇÃO A doutrina costuma dividir a infração penal, que é gênero, em duas espécies: a) Crimes; b) Contravenções Penais (infrações menos graves, punidas com multa ou prisão simples e previstas no Decreto-Lei nº 3.688/41). Ex: LCP, 59 (vadiagem1); LCP, 61 (importunação ofensiva ao pudor2). Quanto ao crime, uma vez praticada uma conduta e considerada criminosa, ou seja, de acordo com o conceito analítico de crime, é dizer, o fato é: - típico, porque previsto objetivamente como tal; - antijurídico, porque não agasalhado por uma das causas capazes de excluir a sua ilicitude, tais como: legítima defesa, estado de necessidade, exercício regular de um direito ou estrito cumprimento de dever legal; - culpável, porque traz ínsita em si a reprovabilidade do comportamento típico e antijurídico, tornando possível que se responsabilize o agente pela prática da infração penal, sendo necessário que, para tanto, o agente seja imputável, é dizer: a) tenha a capacidade de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento; b) tenha a potencial consciência da ilicitude praticada; c) nas circunstâncias em que se encontrava era razoável que se exigisse que o agente tivesse uma conduta diversa da tomada, que ele agisse conforme o direito. Na presença, portanto, deste fato típico, antijurídico e culpável, surge o Estado, titular exclusivo do direito de punir. Esse direito de punir (ou poder-dever de punir), titularizado pelo Estado, é Direito Penal Subjetivo, também chamado de Jus Puniendi, é genérico e impessoal porque não se dirige especificamente contra esta ou aquela pessoa, mas destina-se à coletividade como um todo. Trata-se, portanto, de um poder abstrato de punir qualquer um que venha a praticar fato definido como infração penal. No entanto, naquele momento em que foi praticada uma conduta tida como típica, esse poder, até então genérico, e impessoal, concretiza-se, transformando-se em uma pretensão individualizada, dirigida especificamente contra o transgressor.
1

LCP, 59: ‘Entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover a própria subsistência mediante ocupação ilícita: Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses’. 2 LCP, 61: ‘importunar alguém, em lugar público ou acessível ao público, de modo ofensivo ao pudor: Pena – multa’

5

O Estado, que tinha um poder abstrato, genérico e impessoal, passa a ter uma pretensão concreta de punir determinada pessoa. Surge, então, um conflito de interesses, no qual, de um lado, o Estado tem a pretensão de punir o infrator, fazendo valer o Direito Público Subjetivo (jus puniendi) e, do outro, o acusado que, por imperativo constitucional, oferecerá resistência a essa pretensão, exercitando suas defesa técnica e pessoal, tentando manter, incólume, o seu estado de liberdade, jus libertatis. É esse conflito que caracteriza a lide penal, que será solucionado por meio da atuação jurisdicional. Tal atuação é a tarefa, porque o Estado, substituindo as partes em litígio, através de seus órgãos jurisdicionais, põe fim ao conflito de interesses, declarando a vontade do ordenamento jurídico ao caso concreto. Assim, o Estado-Juiz, no caso da lide penal, deverá dizer se o direito de punir procede ou não, e, no primeiro caso, em que intensidade pode ser satisfeito. É a partir daí que inicia nosso estudo. O estudo da sanção penal. Assim é que a pena criminal pode privar o indivíduo de sua liberdade física (prisão), de seu patrimônio (multa) ou de outros bens jurídicos (direito de exercer uma atividade ou profissão, etc.). Além de seu caráter aflitivo, a pena moderna objetiva, também, a recuperação moral e social do condenado. Na prática, essa intenção, ou seja, a ressocialização do condenado, dificilmente é alcançada, pois, no caso da prisão, sua aplicação tem conduzido os condenados por uma estrada de desesperança e abandono que, após seu cumprimento, termina, muitas vezes, na reincidência e consequente reencarceramento.

6

2. PERGUNTAS FREQÜENTES 1. Quais as teorias que tentam explicar a finalidade da pena? 2. A expressão latina ‘punitur quia peccatum est’ representa o pensamento de quais das teorias da finalidade da pena? 3. Qual a teoria adotada pelo Código Penal quanto aos fins da pena? 4. O que significa a Teoria da Nova Defesa Social? 5. O que você sabe sobre os ‘Movimentos de Lei e de Ordem’? 6. Quais os Sistemas Prisionais mais conhecidos? 7. Qual o Sistema Prisional adotado pelo Brasil?

7

3. CONSEQUÊNCIAS JURÍDICAS DO DELITO: 3.1 Definição: Consequências jurídicas do delito são reações jurídicas aplicáveis à prática de um injusto penal. Dividem-se em consequências penais e consequências extrapenais. 3.2 Consequências penais: - penas; - medidas de segurança; 3.3 Consequências extrapenais: - efeitos da condenação; - responsabilidade civil (material ou moral); - reparação do dano pelo agente; Certamente, a pena é a mais importante das consequências jurídicas do delito. 4. FINALIDADE DA PENA 4.1 Introdução: Perde-se no tempo a origem das penas, pois os mais antigos grupamentos de homens foram levados a adotar certas normas disciplinadoras de modo a possibilitar a convivência social. Segundo Manoel Pedro Pimentel, o confronto das informações históricas contidas nos relatos antropológicos, oriundos das mais diversas fontes, autoriza uma forte suposição de que a pena, como tal, tenha tido originariamente caráter sacral. Ou seja, não podendo explicar os acontecimentos que fugiam ao cotidiano (chuva, raio, trovão), os homens primitivos passaram a atribuí-los a seres sobrenaturais, que premiavam ou castigavam a comunidade por seu comportamento. Esses seres, que habitariam as florestas, ou se encontrariam nas pedras, rios ou animais, maléficos ou propícios de acordo com as circunstâncias, eram os totens, e a violação a estes ou o descumprimento das obrigações devidas a eles acarretavam graves castigos. É plausível, portanto, que as primeiras regras de proibição e, conseqüentemente, os primeiros castigos (penas), se encontrem vinculados às relações totêmicas.

8

As violações das regras totêmicas acarretavam aos infratores os castigos ditados pelo encarregado do culto. Todos participavam de tais castigos porque as infrações atraíam a ira das entidades sobrenaturais sobre todo o grupo. É da história, também, que se extrai a fase da vingança privada, onde as principais espécies de penas eram perda da paz3 e a vingança do sangue4, que evoluíram para o talião5 e a composição6. Nas civilizações antigas de um modo geral, dada a idéia de castigo que então predominava, as sanções, que se costumava aplicar, variavam apenas no modo de execução e tempo de exposição do apenado ao sofrimento, mas sempre objetivavam a morte. Surgiu então, a fase da vingança pública, onde se visava dar maior estabilidade ao Estado, visando à segurança do príncipe ou soberano pela aplicação da pena, ainda severa e cruel. Deixando de lado o período primitivo (vingança privada, divina e pública), cabe frisar que o período humanitário inaugura-se com a singela, porém magistral obra de Cesare Bonessana, o Marquês de Beccaria, intitulada ‘Dos delitos e das penas’; (1764) Beccaria insurgiu-se contra toda a sorte de abusos e iniquidades verificadas na legislação criminal até então existente, vociferando contra as penas abusivas e desproporcionais, os julgamentos parciais e os métodos desumanos de produção de prova, como a tortura. Na conclusão de sua obra, o Marquês sentenciou: ‘o julgamento criminal deve ser público, pronto, necessário; a pena, proporcional ao crime, baseada em leis e menos rigorosa possível, dentro do que as circunstâncias permitirem’. Por fim, a fase científica do Direito Penal foi iniciada pelo surgimento das Escolas Penais com Francesco Carrara, Enrico Ferri, Rafaele Garofalo e Cesare Lombroso, dentre outros, cujo objeto de estudo está compreendido na Disciplina Direito Penal I. 4.2 Teorias sobre a finalidade da pena: Como vimos, a história das penas confunde-se com a própria história do Direito Penal.

3

Perda da paz (ou expulsão da paz) típica da fase da vingança penal privada, era a pena aplicada ao transgressor, membro do grupo, similar ao banimento, que o deixava à mercê de outros grupos, que lhe infligiam, invariavelmente, a morte. 4 Vingança de sangue, considerada como obrigação religiosa e sagrada, era verdadeira guerra movida pelo grupo ofendido àquele a que pertencia o ofensor, culminando, não raro, com a eliminação completa de um dos grupos. 5 Talião: de talis = tal, igual: pertencente à fase da vingança penal privada. Pena que limitava a reação a um mal idêntico ao praticado (sangue por sangue, dentre por dente, olho por olho), adotada no Código de Hamurabi e, também, na Lei das XII Tábuas. 6 Composição: sistema pelo qual o ofensor se livrava do castigo com a compra de sua liberdade (pagamento em moeda, gado, armas, etc.).

9

Ao tempo das Ordenações do Reino, por exemplo, (Afonsinas, Manuelinas e, sobretudo, Filipinas), as penas eram construídas sem qualquer natureza científica, senão como instrumento intimidativo e, por vezes, de pura vingança. A imensa maioria dos crimes era apenada com a morte, que se dividia em morte natural, morte natural para sempre, morte natural cruelmente e morte pelo fogo até ser feito o condenado pó, afim de nunca de seu corpo e sepultura pudesse haver memória; Investigando-se o direito de punir do Estado (também dever de punir), que nasce com a prática do crime, surgiram várias correntes doutrinárias a respeito da natureza, fins e fundamentos da pena, dentre as quais se destacam: Teorias Absolutas (ou de retribuição ou retribucionistas ou de justiça); Teorias Relativas (ou utilitárias ou utilitaristas; finalistas ou de prevenção); Teorias Intermediárias (ou mistas); Teorias Ressocializadoras.

(((Já podemos responder a pergunta nº. 01))). 4.2.a Teorias absolutas (ou de retribuição, ou retribucionistas, ou de Justiça). Para as teorias chamadas absolutas, o fim da pena é o castigo, ou seja, o pagamento pelo mal praticado. Segundo o esquema retribucionista, é atribuída à pena, exclusivamente, a difícil incumbência de realizar a Justiça. A pena tem como fim fazer Justiça, nada mais. A culpa do autor deve ser compensada com a imposição de um mal, que é a pena. Em outras palavras, a pena é a retribuição, a compensação do mal causado pelo crime. Têm como fundamento da sanção penal a exigência da justiça: pune-se o agente porque cometeu o crime (punitur quia peccatum est, ou seja, punir porque pecou). (((Já podemos responder a pergunta nº. 02))). A pena é um imperativo categórico, conseqüência natural do delito, uma retribuição jurídica, pois ao mal do crime impõe-se o mal da pena, do que resulta a igualdade e só esta igualdade traz a justiça. A Lei de Talião é a expressão mais fiel destas teorias.

10

Para os seguidores destas teorias clássicas, a retribuição ora tinha natureza divina, ora moral, ora jurídica, mas em nenhum momento se preocupava com a pessoa do delinqüente. A teoria da retribuição não encontra o sentido da pena na perspectiva de algum fim socialmente útil, senão em que mediante a imposição de um mal merecidamente se retribui, equilibra e espia a culpabilidade do autor pelo fato cometido. Fala-se aqui de uma teoria ‘absoluta’ porque para ela o fim da pena é independente, ‘desvinculado’ de seu efeito social. A sociedade, em geral, contenta-se com esta finalidade, porque tende a se satisfazer com essa espécie de “pagamento” ou compensação feita pelo condenado, desde que, obviamente, a pena seja privativa de liberdade. Se ao condenado for aplicada uma pena restritiva de direitos ou mesmo a de multa, a sensação, para a sociedade, é de impunidade, pois que o homem, infelizmente, ainda se regozija com o sofrimento causado pelo aprisionamento do infrator. Note que a base das teorias absolutas encontra-se no passado, que demanda reparação. 4.2.b Teorias relativas (utilitárias, utilitaristas, finalistas ou de prevenção) A pena tem que ter um fim exclusivamente prático, especialmente o da prevenção, que pode ser: - geral: dirigida a todo o corpo social por meio de ameaça de pena ou - especial: dirigia à pessoa do delinquente para evitar que ele, após ter cumprido a pena e sofrer suas consequências, volte a praticar novos crimes; Veja que, para as teorias finalistas, a base encontra-se no futuro, pois a pena somente se justifica enquanto fator de prevenção. As teorias da prevenção encaram a pena como fator necessário à segurança social. Não se admite possa a pena servir como simples mecanismo de retribuição. Não se justifica a imposição de um mal tão grave e acentuado sem que haja, por detrás, a busca de um fim ulterior, de uma meta superior. Seus adeptos, então, aduzem que a finalidade superior consistiria justamente em evitar a ocorrência de novos crimes. Ou seja, pune-se para não delinquir. (punitur ne peccetur). A prevenção geral Com vimos, a prevenção geral é voltada para o grupo social. Poderá ser estudada em duas vertentes:

11

a) Positiva; (ou por integração, ou integradora). b) Negativa; (ou por intimidação). Pela prevenção geral positiva, também conhecida como prevenção integradora, a pena busca intimidar os cidadãos a partir da norma penal em tese. Com a simples previsão legal de sanção ao comportamento delituoso, procura-se infundir na consciência geral a necessidade de respeito a determinados valores, promovendo, em última análise, a integração social. Pela prevenção geral negativa, conhecida também pela expressão prevenção por intimidação, a pena concretamente aplicada ao autor da infração penal tende a refletir junto à sociedade, evitando-se, assim, que as demais pessoas, que se encontram com os olhos voltados na condenação de um de seus pares, reflitam antes de praticar qualquer infração penal. A pena tem efeito intimidatório. Com a prevenção por intimidação existe a esperança de que os concidadãos com inclinações para a prática de crimes possam ser persuadidos, através da efetiva resposta sancionatória à violação do Direito alheio, previamente anunciada (pela prevenção geral positiva), a comportarem-se em conformidade com o Direito. É a pena confirmando a ameaça prometida. A prevenção especial Se a prevenção geral atribui à pena o fim de evitar novos delitos, dirigindo-se à sociedade, por outro lado, a prevenção especial dirige seus fins preventivos ao criminoso. A função preventiva especial justifica a pena com base na criação de condições para que o apenado não reincida. Por seu turno, também pode ser concebida em seus dois sentidos: a) Negativa; (ou por segregação). b) Positiva; (ou por reeducação). Pela prevenção especial negativa, existe uma neutralização daquele que praticou a infração penal, neutralização esta que ocorre com a sua segregação no cárcere. A retirada momentânea do agente do convívio social o impede de praticar novas infrações penais, pelo menos junto à sociedade da qual foi retirado. Quando falamos em neutralização do agente, deve ser frisado que isso somente ocorre quando a ele for aplicada pena privativa de liberdade. Pela prevenção especial positiva, a missão da pena consiste unicamente em fazer com que ou autor desista de cometer futuros delitos, através de sua reeducação, ressocialização.

12

A prevenção especial positiva, não busca a intimidação do grupo social nem a retribuição do fato praticado, visando apenas àquele indivíduo que já delinqüiu para fazer com que não volte a transgredir as normas jurídico-penais. A reintegração do sentenciado à sociedade constitui, portanto, uma meta a se atingir; não se pode, contudo, obrigar ninguém a se ressocializar – o que a lei deve fazer e o Estado, por meio de ações concretas, buscar é fornecer meios para que o executando tenha essa opção – seu destino, a ele somente caberá definir. 4.2.c Teorias mistas (ou ecléticas, ou intermediárias, ou unificadoras, ou conciliatórias). As teorias mistas partem do pressuposto de que as funções retributivas e preventivas não são inconciliáveis. Faz uma fusão das duas correntes anteriores. Por esse motivo, pode-se identificar na pena um duplo papel: retribuir e prevenir: punitur quia peccatum est et ne peccetur, ou seja, punir para não pecar. Passou a entender que a pena, por sua natureza, é sim retributiva, ou seja, o mal do crime era retribuído com o mal da pena, mas sua finalidade não é simplesmente preventiva, mas um misto de educação e correção. No Código Penal, em razão da redação contida no artigo 597, podemos concluir pela adoção, em nossa lei penal, de uma teoria mista ou unificadora da pena. Isso porque a parte final do caput do CP, 59, conjuga a necessidade de reprovação com a prevenção do crime, fazendo, assim, com que se unifiquem as teorias absoluta e relativa, que se pautam, respectivamente, pelos critérios da retribuição e da prevenção. Por fim, significa que o magistrado deve voltar-se ao passado e, ao impor a pena, mirar na retribuição pelo ato cometido e, fazendo-o, graduar a pena segundo a gravidade do ato praticado; deve ele também mirar o futuro e impor a sanção de modo a que sirva de exemplo para todos (prevenção geral) e de fator interno de reflexão (prevenção especial). ((( Já podemos responder a pergunta nº. 03))). 4.2.d Teorias Ressocializadoras Modernamente, com o surgimento da Escola da Defesa Social, de Adolfo Prins e Filippo Grammatica, e, mais recentemente, com a Nova Defesa

7

CP, 59: ‘o juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime: (...)’.

13

Social ou Neodefensismo Social8, de Marc Ancel, tem-se buscado instituir um movimento de política criminal humanista fundado na idéia de que a sociedade apenas é defendida à medida que se proporciona a adaptação do condenado ao meio social. Adotou-se outra perspectiva sobre a finalidade da pena, não mais entendida como expiação ou retribuição de culpa, mas como instrumento de ressocialização do condenado, procurando-se excluir definitivamente a retributividade da sanção penal. Essa corrente, filiada à novíssima criminologia, propõe soluções que parecem ser mais adequadas, propondo a substituição da pena por determinados meios de recuperação do delinqüente. A bem da verdade, porém, o certo é que desde seus primórdios até hoje, a pena sempre teve um caráter predominantemente de retribuição, de castigo. O que se faz é acrescentar, adicionar a esse caráter uma finalidade de prevenção e ressocialização do criminoso.

(((Já podemos responder a pergunta nº. 04))).

8

As idéias das Teorias Ressocializadoras, principalmente do Neodefensismo Social, chocam-se com os postulados do que se tem denominado, atualmente, de os ‘Movimentos de Lei e de Ordem’. Tais pressupostos sustentam-se no argumento falacioso de que a pena cominada deve ser elevada, a fim de garantir a prevenção geral que o Direito Penal visa. Na realidade, esse é um caminho que os menos cultos acreditam ser eficaz. De outro modo, os políticos se utilizam dessas teorias a fim de iludir o povo, adotando mecanismos mais baratos, e satisfazer o desejo da população inculta, normalmente pouco conhecedora do fenômeno da criminalidade. Assim é que, no Brasil, muitas leis recentes foram inspiradas nos Movimentos de Lei e Ordem, verbi gratia, lei nº 8.072/90 (Lei de Crimes Hediondos). (((Já podemos responder a pergunta nº. 05))).

14

5. SISTEMAS PRISIONAIS
Como sabemos, anteriormente, as penas tinham natureza aflitiva, ou seja, o corpo do delinqüente pagava pelo mal que ele praticara. Com isso, o condenado, ou até mesmo, somente acusado, era torturado, açoitado, crucificado, esquartejado, esfolado vivo, enfim, todo tipo de sevícias recaía sobre o seu corpo físico. Por isso, podemos dizer que a pena de prisão, ou seja, a privação da liberdade como pena principal, foi um avanço na triste história das penas. Dentre os sistemas penitenciários que mais se destacaram durante a sua evolução, podemos apontar os seguintes: a) Sistema Pensilvânico; b) Sistema Auburniano; c) Sistema Progressivo. (((Já podemos responder a pergunta nº. 06))). 5.a Sistema Pensilvânico (ou de Filaldéfia, ou Belga, ou celular). Seu surgimento deu-se na prisão de Walnut Street, em Filadélfia, no ano de 1790, tendo sido posteriormente implantado em outras prisões. No Sistema Pensilvânico, o preso era recolhido à sua cela, isolado dos demais, não podendo trabalhar – para que o preso pudesse se dedicar, exclusivamente, aos estudos das escrituras sagradas - ou mesmo receber visitas, com passeios em um minúsculo pátio circular, sendo estimulado ao arrependimento pela leitura da Bíblia. O sistema caracterizava-se, portanto, pelo isolamento celular ou solitary system. Aos poucos, o solitary system converte-se em separate system, admitindo-se que o preso pudesse conversar não só com o capelão, mas também com funcionários da prisão e recebesse visitas. Ainda assim, esse sistema recebeu inúmeras críticas, pois que, além de extremamente severo, impossibilitava a readaptação social do condenado, em face do seu completo isolamento. 5.b Sistema Auburniano (ou Silent System). As críticas ao Sistema Pensilvânico fizeram com que surgisse um outro, que ficou conhecido como Sistema Auburniano, em virtude de ter sido a

15

penitenciária construída na cidade de Auburn, no Estado de Nova York, no ano de 1818. Menos rigoroso que o sistema anterior, permitia o trabalho dos presos, inicialmente, dentro de usas próprias celas e, posteriormente, em grupos. O isolamento noturno foi mantido. Uma das características principais do Sistema Auburniano diz respeito ao silencio absoluto que era imposto aos presos, mesmo quando em grupos, razão pela qual também ficou conhecido como Silent System. O ponto vulnerável desse sistema, além do rigor, era a regra desumana do silêncio. Fez com que surgissem várias formas de comunicações entre os presos: sinais com as mãos; batidas nas paredes; boca do boi9. 5.c Sistema Progressivo. (ou inglês) O Sistema Progressivo surgiu inicialmente na Inglaterra, sendo posteriormente adotado pela Irlanda. O cumprimento da pena era realizado por estágios, cada um menos rigoroso que o outro, até atingir-se o livramento condicional. Ainda hoje, o Sistema Progressivo, com certas modificações, é o adotado nos países civilizados, inclusive no Brasil. (((Já podemos responder a pergunta nº. 07))).

9

Boca do boi: quando os presos esvaziavam os vasos sanitários e falavam por meio deles.

16

6. PENAS PRIVATIVAS DE LIBERDADE O Código Penal prevê duas penas privativas de liberdade – reclusão e detenção – sobre as quais incidem uma série de implicações de Direito Penal e de Processo Penal, sendo que a pena de prisão simples está prevista no Decreto-Lei 3.688/41, conhecido como “Lei” de contravenções penais. A nosso sentir, a reforma da Parte Geral do Código Penal, ocorrida em 84, manteve a distinção entre as penas de reclusão e detenção, embora, na prática, ela tenha perdido a importância. Portanto, didaticamente, algumas diferenças de tratamento podem ser apontadas no Código Penal, bem como no Código de Processo Penal, vejamos: 6.1 DISTINÇÃO ENTRE RECLUSÃO E DETENÇÃO: 6.1.a) Quanto à gravidade: De modo geral, pode-se dizer que a pena de reclusão é mais severa que a de detenção, motivo pelo qual destina-se aos delitos mais graves. 6.1.b) Quanto ao regime inicial de cumprimento da pena: A reclusão: pode ser cumprida, inicialmente, em regime fechado, semi-aberto ou aberto. A detenção: somente poderá ser cumprida, inicialmente, regime semi-aberto, ou aberto, salvo necessidade de transferência a regime fechado (CP, 3310, LEP, 11811), por conta de regressão. 6.1.c) Quanto à ocorrência de concurso material12: No caso de concurso material, aplicando-se cumulativamente as penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro a pena de reclusão13; 6.1.d) Quanto ao efeito da condenação14:

10

CP, 33, caput: ‘a pena de reclusão deve ser cumprida em regime fechado, semi-aberto ou aberto. A de detenção, em regime semi-aberto, ou aberto, salvo necessidade de transferência a regime fechado’. 11 LEP, 118, caput: ‘a execução da pena privativa de liberdade ficará sujeita à forma regressiva, com a transferência para qualquer dos regimes mais rigorosos, quando o condenado: (...)’. 12 CP, 69: ‘Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela’ 13 Exemplo: mãe que, sob o estado puerperal, mata, dolosamente, a enfermeira para ter acesso ao filho, antes de cometer o infanticídio. (CP, 123, combinado com o CP, 121, na forma do CP 69). 14 CP, 92: ‘são também efeitos da condenação: (...);a incapacidade para o exercício do pátrio poder, tutela ou curatela, nos crimes dolosos, sujeitos à pena de reclusão, cometidos contra filho, tutelado ou curatelado’.

17

Como efeito da condenação, a incapacidade para o exercício do pátrio poder (hoje, poder familiar), tutela15 ou curatela16, somente ocorrerá com a prática de crime doloso, punido com reclusão, cometido contra filho, tutelado ou curatelado. Assim, por exemplo, se um juiz condenar um pai por estuprar a própria filha, pessoa vulnerável, poderá na sentença decretar-lhe incapaz para exercer seu poder familiar (em face de todos os filhos, não só daquela que foi vítima do delito). Se o magistrado, todavia, condenar um pai pelo crime de abandono material (CP, 24417), não poderá fazer o mesmo, porquanto tal infração é apenada com detenção. 6.1.e) Quanto à aplicação da medida de segurança18: É obrigatória a internação do inimputável que pratica fato típico e antijurídico punível com reclusão (neste caso, a Medida de Segurança tem que ser a detentiva). Se o fato praticado pelo inimputável, no entanto, for punível com detenção, o juiz poderá submetê-lo a tratamento ambulatorial19; 6.1.f) Diferenças fora do Código Penal: - medida de interceptação telefônica: somente poderá ser decretada se a pena do delito for de reclusão (Lei 9.296/97, art. 2º, III20). 6.2 Prisão simples: Essa pena privativa de liberdade, exclusiva das contravenções penais, tem as seguintes características: a) é cumprida sem rigor penitenciário;

15

O que é tutela: A Tutela pode ser definida como um encargo ou autoridade que se confere a alguém, por lei ou por testamento, para administrar os bens e dirigir e proteger a pessoa de um menor que se acha fora do pátrio poder, bem como para representá-lo ou assistir-lhe nos atos da vida civil. 16 O que é curatela: é um instituto jurídico pelo qual o curador tem o encargo imposto pelo juiz de cuidar dos interesses de outrem (maiores incapazes) que se encontra incapaz de fazê-lo. A nomeação do curador é feita pelo juiz, que estabelece, conforme previsão legal, as atribuições desse curador. (Ver CC, 1.767). 17 CP, 244: Deixar, sem justa causa, de prover a subsistência do cônjuge, ou de filho menor de 18 (dezoito) anos ou inapto para o trabalho, ou de ascendente inválido ou maior de 60 (sessenta) anos, não lhes proporcionando os recursos necessários ou faltando ao pagamento de pensão alimentícia judicialmente acordada, fixada ou majorada; deixar, sem justa causa, de socorrer descendente ou ascendente, gravemente enfermo: Pena - detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos e multa, de uma a dez vezes o maior salário mínimo vigente no País. Parágrafo único - Nas mesmas penas incide quem, sendo solvente, frustra ou ilide, de qualquer modo, inclusive por abandono injustificado de emprego ou função, o pagamento de pensão alimentícia judicialmente acordada, fixada ou majorada. 18 As medidas de segurança podem ser: a) detentiva (internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico; b) restritiva (sujeição a tratamento ambulatorial). 19 CP, 97: ‘Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua internação (art. 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível com detenção, poderá o juiz submetê-lo a tratamento ambulatorial’. 20 Lei 9.296 de 1996, Art. 2º, III: Não será admitida a interceptação de comunicações telefônicas quando ocorrer qualquer das seguintes hipóteses: (...); III- o fato investigado constituir infração penal punida, no máximo, com pena de detenção’.

18

b) só admite seu cumprimento nos regimes semi-aberto e aberto (ainda que pratique falta grave durante a execução da pena, o sentenciado não poderá ser regredido para o regime fechado); c) o condenado deve ficar separado daqueles que cumprem pena de reclusão ou detenção; d) o trabalho é facultativo para penas de até 15 (quinze) dias;

19

7. REVISÃO 7.1 As teorias que tratam da finalidade da pena são: a) Absolutas; b) Relativas; c) Intermediárias – ou mistas; d) Ressocializadoras; 7.2 As teorias absolutas trazem uma idéia de retribuição, castigo pelo crime praticado; 7.3 As teorias relativas trazem uma idéia de prevenção geral (direcionada à coletividade) e prevenção especial (direcionada ao indivíduo); 7.4 O fim da pena é a prevenção geral quando direcionada a todos os componentes da sociedade; 7.5 O fim da pena é a prevenção especial ao impedir que o indivíduo pratique novos crimes, intimidando-o e corrigindo-o; 7.6 A prevenção geral é positiva quando busca intimidar a coletividade a partir de uma norma penal em tese, procurando infundir, na consciência geral, a necessidade de respeito a determinados valores; 7.7 A prevenção geral é negativa quando a pena confirma a ameaça prometida por meio de sua aplicação em concreto; 7.8 A prevenção especial é negativa quando, em razão de um delito, priva o indivíduo de sua liberdade; 7.9 A prevenção especial é positiva quando busca a readaptação do preso à sociedade. Busca a ressocialização. 7.10 As teorias intermediárias trazem não só uma idéia retributiva, mas, também, preventiva para educar e corrigir; 7.11 As teorias ressocializadoras trazem a idéia de reeducar, reinserir o condenado na sociedade; 7.12 Os expoentes da Escola da Defesa Social, de Adolfo Prins e Filippo Grammatica; 7.13 A Nova Defesa Social ou Neodefensismo Social, foi desenvolvido por de Marc Ancel; 7.14 A LEP adotou os fundamentos da Nova Defesa Social; 7.15 Quanto à finalidade da pena, o CP adotou a teoria mista. 7.16 Os sistemas penitenciários mais conhecidos são: a) Sistema Sistema Auburniano; c) Sistema Progressivo. Pensilvânico; b)

7.17 O sistema pensilvânico surgiu na prisão de Walnut Street, em Filadélfia. 7.18 O sistema auburniano era também conhecido como silent system. 7.19 O sistema progressivo surgiu na Inglaterra e é o utilizado pela maioria dos países civilizados atualmente, com certas modificações;