A ressignificação da democracia brasileira Deivison Campos Jornalista. Professor da Ulbra.

O ano de 2011 marca os 40 anos da evocação do 20 de novembro como um dia de refletir e manifestar-se pela promoção da população negra aos espaços de cidadania plena. As conquistas dos movimentos negros nessas últimas décadas, como o Estatuto da Igualdade Racial e as políticas de ação afirmativa, obrigaram o Estado a reconhecer oficialmente a desigualdade entre brancos e negros. Demonstrada em números, a raciologia apresenta-se ainda como estruturante da sociedade brasileira e, segundo o sociólogo inglês Paul Gilroy, distorceu as melhores promessas da democracia moderna. O Mapa da Violência, do Ministério da Justiça, mostra que o jovem negro do sexo masculino tem 127% mais chances de ser assassinado. Por outro lado, segundo publicação da Associação Brasileira de Medicina, 71% por cento das adolescentes prostituídas são negras. Essa situação de vulnerabilidade, mesmo denunciada por entidades, como a Agência Nacional para o Desenvolvimento da Infância (ANDI), teve um crescimento na última década. A desigualdade também se reflete na educação. A média de escolaridade da população negra com 25 anos ou mais é de 5,8 anos, contra 7,8 anos para a população branca. Com 12 anos ou mais de estudo, 71% são brancos e apenas 4,5% negros. No outro lado da escala, a cada três analfabetos no país, dois são negros (IBGE). Essa desigualdade, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, sem ações mais efetivas, não será superada nos próximos 40 anos. A marginalização da população negra também está refletida no mercado de trabalho. A Fundação Getúlio Vargas indica que a taxa de desemprego aumenta nas cidades com maior número de negros no mercado de trabalho. Isso acontece mesmo com os negros recebendo em média metade do que é pago a empregados brancos e amarelos. Outro estudo sobre característica étnico-racial da população brasileira (IBGE) mostra que as diferenças raciais ou de cor influenciam, além do acesso ao trabalho (71%), em aspectos como relação com justiça/polícia (68,3%) e convívio social (65%). Ao pensar a sociedade brasileira nos anos 50, Florestan Fernandes, confrontado com índices ainda piores, concluiu que o movimento negro assumiu a tarefa de modernizar o sistema de relações raciais e possibilitar a todos o acesso a ordem legal escolhida [democracia]. A opção pelo 20 de Novembro sintetiza essa tarefa. A proposta original, em substituição às manifestações de 13 de Maio, propunha simbolicamente substituir a

liberdade concedida por liberdade conquistada, exaltando o quilombo dos Palmares como um exemplo de construção coletiva e solidária. Os movimentos negros têm cumprido seu papel. O 20 de Novembro é um convite permanente a todos que desejam construir um país em que todos tenham direito de ser cidadãos. Sejamos Palmares.

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