IMPULSO ISSN 0103-7676 • PIRACICABA/SP • Volume 12 • Número 28 • P 1-200 • 2001

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Universidade Metodista de Piracicaba
Reitor ALMIR DE SOUZA MAIA Vice-reitor Acadêmico ELY ESER BARRETO CÉSAR Vice-reitor Administrativo GUSTAVO JACQUES DIAS ALVIM EDITORA UNIMEP Conselho de Política Editorial ALMIR DE SOUZA MAIA (PRESIDENTE) ANTÔNIO ROQUE DECHEN CASIMIRO CABRERA PERALTA CLÁUDIA REGINA CAVAGLIERI ELIAS BOAVENTURA ELY ESER BARRETO CÉSAR (VICE-PRESIDENTE) GUSTAVO JACQUES DIAS ALVIM GISLENE GARCIA FRANCO DO NASCIMENTO NIVALDO LEMOS COPPINI Comissão Editorial ELIAS BOAVENTURA (PRESIDENTE) AMÓS NASCIMENTO JORGE LUIS MIALHE JOSIANE MARIA DE SOUZA TÂNIA MARA VIEIRA SAMPAIO Editor executivo HEITOR AMÍLCAR DA SILVEIRA NETO (MTB 13.787) Equipe técnica Secretária: IVONETE SAVINO Apoio administrativo: ALTAIR ALVES DA SILVA Secretaria editorial: NILSON CÉSAR DE SOUSA Edição de texto: SUZANA VERISSIMO Revisão do inglês: MARGARET ANN GRIESSE Revisão do espanhol: JUAN CARLOS BERCHANSKY Supervisão gráfica: CARLOS TERRA DTP e produção: GRÁFICA UNIMEP Capa: WESLEY LOPES HONÓRIO Impressão: YANGRAF GRÁFICA E EDITORA LTDA. Produzida em março/2001 A revista IMPULSO é uma publicação quadrimestral da Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (São Paulo, Brasil). Aceitam-se artigos acadêmicos, estudos analíticos e resenhas, nas áreas das ciências humanas e sociais, e de cultura em geral. Os textos são selecionados por processo anônimo de avaliação por pares (peer review). Veja as normas para publicação no final da revista. IMPULSO is a quarterly journal published by the Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP (São Paulo, Brazil). The submission of scholarly articles, analytical studies and book reviews on the humanities, society and culture in general is welcome. Manuscripts are selected through a blind peer review process. See editorial norms for submission of articles in the back of this journal. Impulso é indexada por: Impulso is indexed by: Base de Dados do IBGE; Bibliografia Bíblica LatinoAmericana; Índice Bibliográfico Clase (UNAM); e Sumários Correntes em Educação. Administração, redação e assinaturas: Editora UNIMEP www.unimep.br/editora Rodovia do Açúcar, km 156 Tel./fax: 55 (19) 430-1620 / 430-1621 13.400-911 – Piracicaba, São Paulo/Brasil E-mail: editora@unimep.br

Revista de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Metodista de Piracicaba VOL. 1 • Nº 1 • 1987 Quadrimestral/Quarterly ISNN 0103-7676 1- Ciências Sociais – periódicos CDU – 3 (05)

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EDITORIAL

É SOMENTE O DEPOIS
DE AMANHÃ QUE ME PERTENCE. ALGUNS HOMENS NASCEM PÓSTUMOS
Assim falava Nietzsche...
Friedrich Wilhelm Nietzsche, nascido em 15 de outubro de 1844 na cidade alemã de Röcken, próxima a Leipzig, sempre se autodenominou um pensador extemporâneo, alguém para além de seu tempo. Mas podemos nos perguntar: seria ele ainda atemporal ou já teria ficado preso à malha da história? Os ensinamentos nietzschianos permanecem apontando para um futuro ou teriam sido abarcados e digeridos pela tradição filosófica? Nietzsche morreu aos 56 anos de idade, na cidade de Weimar, a 25 de agosto de 1900, e durante praticamente toda a sua vida intelectual amargou o desprezo e a indiferença de seus contemporâneos. Para ter suas obras publicadas, pagava do próprio bolso o custeio da impressão; a quantidade era pequena e quase sempre não recebia resposta das pessoas às quais brindava com seus livros. O silêncio em torno de seu pensamento era quase total, e disso tinha consciência. No prólogo de Ecce Homo afirmou: “Prevendo que dentro em pouco devo dirigir-me à humanidade com a mais séria exigência que jamais lhe foi colocada, parece-me indispensável dizer quem sou. Na verdade já se deveria sabê-lo, pois não deixei de ‘dar testemunho’ de mim. Mas a desproporção entre a grandeza de minha tarefa e a pequenez de meus contemporâneos manifestou-se no fato de que não me ouviram, sequer me viram”. O autor de O Nascimento da Tragédia acreditava que sua filosofia não era apropriada para a época em que vivia, que seu espírito estaria para além da cultura filistéia do seu tempo: “É somente o depois de amanhã que me pertence. Alguns homens nascem póstumos”. Em uma carta en-

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Nietzsche afirma: “Quero levar a humanidade a resoluções que decidirão sobre todo o futuro humano. que nunca revelam.. mas nunca indiferente a ele. Desse modo. E deixar o espírito crítico dele em paz somente é possível se nunca tomarmos sua filosofia como a Verdade desveladora do real. Nesses termos. Nela. Assim. Deleuze e Rorty. entre outros. No entanto. sobre Zaratustra. também somos os póstumos de Nietzsche. “preso” num código de barras. devemos ler Nietzsche à luz dos Oráculos que nunca afirmam. Pelo contrário. um futuro extemporâneo. portanto. Jaspers. somente é possível filosofar com ele ou contra ele. Nietzsche. como a chave interpretativa do mundo. estudado e comentado pelos maiores pensadores do século XX. Nietzsche foi lido. Heidegger. metafísicos ou religiosos.. que nunca respondem. A filosofia nietzschiana também serviu de inspiração ao debate sobre a modernidade e a pós-modernidade. igualmente influenciados pela sua filosofia – dialogando com ela ou contra ela. parece subsistir graças à sua extemporaneidade. mas apenas apontam. o crítico da modernidade. cabe dialogar com os filósofos preservando sempre a fidelidade ao seu pensar. o pensador que não foi devidamente reconhecido em vida é trazido para o presente. É com esse sentimento que foi proposta esta edição da IMPULSO pelos professores e alunos do Curso de Filosofia da UNIMEP. devemos tomá-lo unicamente como um apontamente para o futuro. Ao entitular-se um homem do futuro. É assim que a assinatura dele grafitada em nossa capa busca reafirmar esta personalidade que previu tal reconhecimento futuro. exercendo influência. e pode acontecer que um dia milênios inteiros façam em meu nome seus votos mais elevados”.dereçada a Malwida von Meysenbug. Nietzsche de fato foi um póstumo. COMISSÃO EDITORIAL dezembro 4 99 . que vislumbraram no centenário de morte do pensador alemão do século XIX um momento oportuno para aprofundar as discussões sobre este que foi um dos mais célebres filósofos da modernidade. livre representação da digitalização dos ícones nos tempos modernos. E igualmente terminou apropriada pelos mais diversos fins políticos. numa referência a Foucault. Klossowski. Nós. A filosofia nietzschiana foi objeto de estudo dos grandes filósofos que se seguiram a ele. Foucault.. em pleno século XXI. devemos apropriar-nos da filosofia de Nietzsche muito menos como uma verdade e muito mais como uma caixa de ferramenta com a qual filosofamos sobre o mundo e a existência. sobre Freud. Nietzsche concretizou-se nas gerações posteriores por sua “profecia”: depois dele..

. ........ A LIÇÃO SCHOPENHAUER E O ETERNO RETORNO Nietzsche..... PERSPECTIVA Y DELIRIO: el caso Nietzsche Laughter.... A conceptual analysis of the preface of Thus Spoke Zarathustra SCARLETT MARTON 21 CULTURA E EDUCAÇÃO NO PENSAMENTO DE NIETZSCHE Culture and Education in the Thinking of Nietzsche ROSA DIAS 33 O MÉTODO NIETZSCHIANO DE CRÍTICA AO CRISTIANISMO: filologia e genealogia The Nietzschean Method of Criticizing Christianity: philology and genealogy MÁRCIO DANELON 41 HISTÓRIA E VERDADE: do absolutismo ascético à ascese do relativismo History and True: from asceptic absolutism to the ascesis of relativism JOSÉ JOÃO PINHANÇOS DE BIANCHI 57 RISA..Temáticos O CAOS E A ESTRELA Chaos and the Star OSWALDO GIACOIA JUNIOR 11 EM BUSCA DO DISCÍPULO TÃO AMADO.. Schopenhauer’s Lesson and the Eternal Return CARLOS ALBERTO SOBRINHO 81 impulso 5 nº 25 Sumário .......... Perspective and Delirium: the case of Nietzsche MARTÍN HOPENHAYN 65 NIETZSCHE..... Uma análise conceitual do prólogo de Assim Falava Zaratustra In Search of the so Beloved Disciple.

Extropianos. 21’st century nietzschean elitists BEN GOERTZEL 151 dezembro 6 99 .... Extropians... memory and forgetfulness JOSÉ GERARDO VASCONCELOS 95 FREUD E NIETZSCHE: ontogênese e filogênese Freud and Nietzsche: ontogenetics and phylogenetics MÁRCIO APARECIDO MARIGUELA 103 UM ENCONTRO DE ADORNO E NIETZSCHE NAS MINIMA MORALIA The Encounter of Adorno and Nietzsche In Minima Moralia BRUNO PUCCI 111 A VIDA É BELA: o amor fati de Nietzche no cinema Life is Beautiful: The Amor Fati of Nietzsche in film CHRISTOPH TÜRCKE 123 CRÍTICAS NIETZCHEANAS À MODERNIDADE Nietzschean Criticism to Modernity JUNOT CORNÉLIO MATOS 129 .... os elitistas nietzcheanos do século XXI The Cult of the Digital Übermensch.Sumário LEOPARDI E NIETZSCHE: uma reflexão sobre história. memória e esquecimento Leopardi and Nietzsche: a reflection about history... Comunicação O CULTO DOS ÜBERMENSCH.....................

. Normas 197 impulso 7 nº 25 Sumário ....................................... History and New Technologies EDUARDO ISMAEL MURGUIA & RAIMUNDO DONATO DO PRADO RIBEIRO 175 ................... Resenhas DANÇANDO COM O ESTRANGEIRO: a valsa das relações internacionais do Brasil A QUEM SERVEM AS PSICOLOGIAS? POR QUE A PSICANÁLISE? ANDRÉ SATHLER GUIMARÃES 187 EDSON OLIVARI DE CASTRO 189 PAULO SÉRGIO EMERIQUE 193 ........ ......................Gerais DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MÃO-DE-OBRA FEMININA: uma síntese da controvérsia teórica Discrimination Against Female Labor: overview of the theoretical controversy ANA MARIA HOLLAND OMETTO 159 MEMÓRIA.. HISTÓRIA E NOVAS TECNOLOGIAS Memory.....

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Keywords OVERMAN – THE LAST MAN – NIHILISM – POLITICS – MODERNITY. Palavras-chave ALÉM-DO-HOMEM – ÚLTIMO HOMEM – NIILISMO – POLÍTICA – MODERNIDADE. impulso nº 28 11 . O autor toma como ponto de partida uma aproximação entre esse prólogo e o aforismo 125 de A Gaia Ciência.br Abstract The aim of this article is to present a brief interpretation of the theme of nihilism in a series of dramatic episodes. OSWALDO GIACOIA JUNIOR Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp giacoia@tsp.com.O CAOS E A ESTRELA CHAOS AND THE STAR Resumo O artigo apresenta uma breve interpretação do tema do niilismo numa série de episódios dramáticos presentes no prólogo de Assim Falou Zaratustra. which are introduced in the preface to Thus Spoke Zarathustra. e utiliza como operadores hermenêuticos centrais as figuras do Além-do-Homem e do Último Homem. An approximation between this preface and the aphorism 125 of The Gay Science provides the starting point while I make use of the figures of the Overman and the Last Man as central hermeneutic operators.

de que o aforismo 125 de A Gaia Ciência antecipa e dirige a montagem da cena pública que figura no prólogo de Assim Falou Zaratustra pode encontrar uma primeira atestação hermenêutica no modo de composição da primeira das obras mencionadas.2 Todavia. baseado no exame escrupuloso das últimas provas tipográficas de A Gaia Ciência. 1999. 2 SALAQUARDA. com a paciência e a minúcia do ourives. A tese que ora avanço. as traduções são de minha autoria. em plena manhã clara. correu ao mercado e gritava incessantemente: “– 1 NIETZSCHE. Jörg Salaquarda demonstra. acendeu um candeeiro. em meio à multidão reunida na praça pública. Sua pregação só encontra. objeto do aforismo 125 de A Gaia Ciência. tornando cada uma dessas narrativas o símile invertido de seu respectivo correspondente. 1980. proponho. um retorno ao famoso aforismo 125 de A Gaia Ciência: Não ouvistes falar daquele homem louco que. Ao revisitar essa passagem memorável. Num acurado trabalho de interpretação. isso é. de início. pretendo sustentar que existe um conjunto absolutamente ordenado de correspondências intertextuais estruturantes. que Nietzsche induz o leitor. os primeiros lineamentos do prólogo de Zaratustra. a perigosa travessia sobre a corda estendida entre o símio e o raio transfigurador. o último aforismo do quarto livro de A Gaia Ciência – com o qual terminava o livro. não é precisamente a argumentos dessa espécie que pretendo recorrer. é preparada e conduzida pela encenação dramática de outro célebre fiasco narrado pelo filósofo. Retumbante fracasso do profeta e do portavoz. conduzindo-o ritmicamente num crescendo até a região espiritual de atmosfera rarefeita. até mesmo pela disposição tópica dos aforismos no interior dos livros e pela ordem seqüencial dos próprios livros. Não havendo indicação em contrário. porém. em grande parte literalmente. Para elucidar minha hipótese. Zaratustra faz sua primeira aparição pública descrita no prólogo de Also Sprach Zarathustra. o ensinamento do eterno retorno do idêntico. sob a forma de enigma. Gostaria de sugerir que a narrativa do espetacular insucesso de Zaratustra na praça do mercado. Movido por seu amor pelos homens. Como se sabe.“ Vede: Eu vos ensino o Além-do-Homem! O Além-do-Homem é o sentido da terra! Que diga a vossa vontade: seja o Além-do-Homem o sentido da terra!”1 Com essas palavras. tal como estilizada por Nietzsche no prólogo de Assim Falou Zaratustra. enquanto o penúltimo expõe. Refiro-me aqui ao trágico episódio de praça pública. oferta-l.hes a mais ardente esperança: a elevação do homem acima de si mesmo. protagonizado pelo homem louco. onde enuncia a seu discípulo ideal a quintessência de sua doutrina. o mais esotérico dos mistérios: o eterno retorno do idêntico. Todas as citações de Assim Falou Zaratustra e demais obras originais de Nietzsche se referem a essa edição. 12 impulso nº 28 . o escárnio e o cinismo. um dos temas fundamentais da obra subseqüente. na primeira edição de 1882 – já contém.

vale destacar os personagens que o partilham com os protagonistas. O saltimbanco deveria atravessar. onde se julgava. impulso nº 28 13 . Como salta aos olhos ao primeiro relance. que sepultam Deus? Nada sentimos ainda do cheiro da decomposição divina? Também os deuses se decompõem! Deus morreu! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como é que nos consolamos. se sacrificava aos deuses e se comerciava.. que divinos jogos teríamos que inventar? A grandeza desse feito não é demasiado grande para nós? Não teríamos que nos tornar nós mesmos deuses. se dão no mesmo palco. então. zombaria. e mais noite? Não temos que acender candeeiros pela manhã? Nada ouvimos ainda do rumor dos coveiros. de todos os lados? Há ainda um alto e um baixo? Não erramos como através de um Nada infinito? Não nos bafeja o espaço vazio? Não ficou mais frio? Não vem sempre a noite.4 sensacional. na praça pública do mercado. vós e eu! Nós todos somos seus assassinos! Como. dizia o outro. p. Não por acaso (afirma Christoph Türcke comentando o aforismo 125 de A Gaia Ciência) Nietzsche. o erudito em filologia antiga. Esse é o motivo prosaico que fornece ocasião para o primeiro discurso público de Zaratustra. pois?”. logo em seguida ao anúncio redentor do Além-do-Homem.) O mercado é o berço da filosofia ocidental. clamou. porém. na maioria das vezes. os cínicos interlocutores do homem louco são os promotores e herdeiros da Ilustração. alguém da multidão gritou: ‘Eis que já ouvimos o suficiente do funâmbulo! Deixai-nos também vê-lo agora!’. (. para apenas 5 Relativamente ao espaço cênico. ficava junto ao porto. 16.. é necessário que recapitulemos os gestos e metáforas do homem louco: O homem louco saltou em meio a eles e trespassou-os com o olhar. e. então? Para onde nos movemos nós? Longe de todos os sóis? Não nos precipitamos sem cessar? Para trás. Já ouvimos as respostas dadas ao louco. desse modo gritavam e riam entre si. uma grande gargalhada. 1989. tanto da parte dos notáveis quanto da populaça à espreita de diversão 3 4 NIETZSCHE. 1980. a reação é de escárnio. sem cessar. para o lado. lídimos representantes da moderna consciência científica. “Eu vos quero dizê-lo! Nós o matamos. o largo espaço que separava duas torres situadas em extremos opostos da praça. Nietzsche justapõe imagens espaciais convergentes: as duas performances. E como lá se reunissem justamente muitos dos que não acreditavam em Deus. também de seus mais poderosos produtos históricos: as idéias metafísicas. a turba. p. serve de interlocutor. o fizemos? Como pudemos tragar o oceano? Quem nos deu a esponja para remover o inteiro horizonte? Que fizemos nós. faz seu homem louco ingressar na praça do mercado: a ágora foi a alma da polis grega que. equilibrando sobre uma corda estendida nas alturas. 1980. a do louco e a de Zaratustra. E todo povo se ria de Zaratustra”. 16.5 Atentemos para a simetria das imagens. onde se desenrolava toda vida pública. provocou ele. Em ambas as cenas. NIETZSCHE. 480. Para tanto. “– Ter-se-ia extraviado. dizia um. “Para onde foi Deus?”. ridicularização humilhante. mais precisamente. com isso. “Quando Zaratustra tinha assim falado. porém. “– Perdeu-se ele. aguardando ansiosamente a exibição de um funâmbulo. quando desprendemos esta terra de seu sol? Para onde se move ela. TÜRCKE. No caso de A Gaia Ciência. nós os mais assassinos de todos os homicidas? O que o universo possuiu de mais santo e poderoso até agora sangrou sob nossos punhais – quem enxuga de nós esse sangue? Com que água poderíamos nos purificar? Que cerimônias de expiação. como uma criança?”. ouçamos agora as respostas dirigidas a Zaratustra. No caso de Zaratustra.3 O espaço cênico onde se desenrolam as duas narrativas fornece aqui o primeiro elemento de intertextualidade. p. para frente. “– Ou se mantém oculto? Teria ele receio de nós? Terá tomado o navio? Emigrado?”.Procuro Deus! Procuro Deus!”.

pelo desaparecimento do oceano. para poder acolher uma corrente suja sem se tornar impuro. e sobretudo.6 Quando se compara os dois textos que estamos examinando.. 480. Mas ela pode conduzir também ao niilismo extremo. na praça do mercado: os arautos da crença no progresso infinito do conhecimento.7 Além disso. Ibid. sob a figura sinistra do Último Homem. uma vez que perdemos nossa fonte originária de referências e já não existe mais nem um alto nem um baixo. não permanecemos apenas na expiação pela água. permanecei fiéis à terra e não creiais naqueles que vos falam de esperanças ultraterrenas. o relâmpago. Envenenadores são eles. replica de outra extremidade o texto sobre o homem louco. e com isso morreram também aqueles delinqüentes. quer o saibam ou não. Essa terra. remetendo a um mesmo núcleo: ao perigo extremo. a essa atmosfera onde nos bafeja o Nada infinito. o raio. ele recorre também ao outro elemento tradicional de purificação. Não é que temos que acender candeeiros pela manhã? Fantasma cuja sombra espectral oblitera a fulguração solar do Além-do-Homem. essa tenebrosa ameaça não constitui senão o resultado adventício do pensar e do agir daqueles mesmos representantes da moderna Aufklärung que o homem louco encontrara reunidos. teríamos tragado. porém. exigindo-se mutuamente em direções complementares. o Além-do-Homem toma precisamente o lugar do oceano que absorve a impureza da história humana pretérita: “Em verdade. abismo sem fundo em que nos precipitamos sem cessar. é necessário observar que tanto na narrativa de Zaratustra quanto no clamoroso lamento proferido pelo louco do aforismo 125 de A Gaia Ciência encontra-se em 14 impulso nº 28 . que. Conjuro-vos meus irmãos. o lamento se faz. No caso do louco.. banidos que fomos de todos os sóis. no prólogo de Zaratustra. tudo se torna cada vez mais frio e reina a noite. eu vos ensino o Alémdo-Homem: ele é o oceano. sabemos nós o sentido daquilo que nós mesmos fizemos quando a desprendemos de seu antigo sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Longe de todos os sóis? Perguntas aterradoras. a derrisória duplicação invertida da auto-superação humana. por causa desse feito.parecer dignos dele? Jamais houve um feito maior – e quem tenha alguma vez nascido depois de nós pertence. É necessário ser já um oceano. uma corrente suja é o homem. em eterna errância por todos os lados. por nosso ato homicida. não se sabe como. p. nele pode submergir vosso grande desprezo”. Antes de examinar de maneira mais detida a problematização do niilismo alegoricamente esboçada no personagem do último homem. ele faz sua aparição. a uma história mais elevada do que foi toda história até agora!”. do triunfo da ciência e da racionalidade sobre as sombras da ignorância e da superstição.. foi desprendida de seu eixo de gravidade. Ela pode ser o prenúncio da travessia que conduziria em direção de nosso mais ardente anseio: uma humanidade elevada à altura de sua própria essência. em torno do qual se articula o prólogo de Zaratustra – perigo também. No anúncio de Zaratustra. o fogo. sempre mais noite. e apreciar de modo mais elevado as entranhas do insondável que o sentido da terra!8 6 7 8 Ibid. Ibid. Delinqüir contra a terra é agora o mais horrível. o anúncio do Além-do-Homem figura também o raio que preludia o futuro radiante da humanidade Desse modo. em sacrílega confraria. mas Deus morreu. A morte de Deus é o resultado do progresso das Luzes. o Além-do-Homem restitui o horizonte de sentido que a esponja homicida removera: esse horizonte é o sentido resgatado da terra. Vede. E. primeiramente. Nesse contexto. privada de sua fonte de sentido depois da morte de Deus.. Outrora o delito contra Deus era o máximo delito. no interior imaginário cênico de Zaratustra. que nos resgatam do torturante horror vacui que pesa imponderavelmente sobre nossa existência. que deveria conduzir ao domínio do homem sobre a natureza e à humanização das relações entre os homens. p. 15. é necessário estar atento para um jogo caleidoscópico de imagens recorrentes. no entanto. para o Além-do-Homem.

.. “homem-Deus”). Concluída sua primeira pregação. tornando-os cegos e surdos tanto para a imensidão do que lhes é anunciado quanto para as funestas conseqüências de seu próprio feito homicida. ao orgulho deles. com isso. vivi tempo demasiado nas montanhas.) Desde Copérnico o ho11 Ibid. impulso nº 28 15 . Este feito está ainda mais distante deles do que os astros mais remotos – e todavia eles o consumaram. em que Adorno e Horkeimer desvendavam a imbricação entre mito e esclarecimento. Chego cedo demais. desde Copérnico. a crença em sua dignidade. Esse acontecimento formidável está ainda a caminho e peregrina – ele ainda não penetrou nos ouvidos dos homens. sua esotérica cumplicidade na tarefa de aviltamento do homem e da terra. animal sem alegoria. Finalmente. não estou ainda no tempo oportuno. Relâmpago e trovão precisam de tempo.ação a mesma experiência. sua vontade de auto-apequenamento. 18. a palavra 9 10 ‘desprezo’. de modo que este se estilhaçou e apagou. Nesse momento cria-se. por meio da reflexão: somos extemporâneos. (. em versão resumida. escutei em demasia os regatos e as árvores: agora falo-lhes como os pastores de cabras”. o tema comum do fim da história pensado como a realização da essência verdadeira da humanidade. a luz dos astros precisa de tempo. pois ela é o resultado de um movimento subterrâneo que acompanha. Encontramos aqui. p. a atmosfera narrativa para o aparecimento do personagem do último homem: “Eles têm algo de que estão orgulhosos.9 Experiência que também tem que ser amargada pelo personagem central de Assim Falou Zaratustra. insubstitutibilidade na hierarquia dos seres se foi – ele se tornou animal. o advento glorioso do primado universal da razão e da justiça. ou melhor. que porventura a derrubada da astrologia teológica signifique uma derrubada daquele ideal (ascético OGJ)? Quem sabe o homem ficou menos necessitado de uma solução no além para seu enigma da existência porque essa existência aparece desde então ainda mais arbitrária.10 Idêntica vivência de deslocamento em relação aos homens de seu tempo. De maneira análoga à Dialética do Esclarecimento. na curva de um progresso infinito. pois. Por isso. nossa palavra é alheia aos ouvidos dos nossos contemporâneos. restrição e reserva. Vou falar. disse ele então. Pensa-se. em busca do fim último de sua existência: a consecução da felicidade e da bem aventurança sobre a terra. ele arrojou o candeeiro ao solo. a litania do fim da história e a euforia do progresso: o auto-rebaixamento do homem. o alheamento daquele que traz a palavra: Aqui calou-se o homem louco e mirou seus ouvintes: também estes silenciavam e olhavam-no com estranhamento. o resultado não é menos decepcionante: “Eles não me entendem: não sou a boca para esses ouvidos. ele que em sua crença anterior era quase Deus (“filho de Deus”. de fato. Como chamam isso que os infla de orgulho? Chamam-no formação (Bildung). feitos precisam de tempo. referida a eles. Sem dúvida. Vou falar-lhes do mais desprezível: o último homem”. mais confinada. para ser vistos e ouvidos. em um incessante progresso? Ai. pósteros de nós mesmos. Ibid.. mais dispensável na ordem visível das coisas? Não está precisamente o auto-apequenamento do homem. no prólogo de Zaratustra. desagrada-lhes ouvir. unicidade. revelando. Ibid. Nietzsche denuncia a profunda pertença da ciência moderna ao mesmo ideal ascético que ela pretendera destronar.11 A figura do último homem é a caricatura satírica do ideal que animava a crença da moderna Aufklärung: a convicção de que nas vicissitudes da história é preciso reconhecer a laboriosa e heróica peregrinação do gênero humano. a conversão do esclarecimento em mito.. elevando os dois protagonistas à consciência de si. é isso que os distingue dos pastores de cabra. em surdina. A hybris de seu orgulho ofusca-lhes os olhos. mesmo depois de consumados. A bizarra atrofia do último homem é a paródia desse enredo. p. 20.

para ter uma morte agradável. sua vontade de auto-rebaixamento: Toda ciência (e de modo nenhum somente a astronomia. representa a plenitude da auto-satisfação. pois o trabalho é um entretenimento. Louco é quem continua tropeçando com pedras e com homens! Um pouco de veneno. tanto a natural quanto a desnaturada – chamo assim a autocrítica do conhecimento –. o abastardamento do ideal de felicidade e bem-aventurança: Que é amor? Que é criação? Que é nostalgia? Que é estrela? Assim pergunta o último homem. A gente. dizem os últimos homens. e piscam os olhos. pois a gente precisa de calor. A gente continua trabalhando. por uma figura “mais elevada” – in hoc signo vinces.mem parece ter caído em um plano inclinado – agora rola cada vez mais depressa. Abandonaram as regiões onde é duro viver. quando a alma olhava depreciativamente para o corpo – outrora considerado elemento indigno e impuro –. na medida em que desaprendeu o grande desprezo. “Ai. mais séria pretensão de manter em pé o apreço por si mesmo (com razão. o mais entranhado e paradoxal do homem moderno. 18. que torna tudo pequeno. desse desprezo brotava.. Ibid. toda ciência. tende hoje a dissuadir o homem do apreço que teve até agora por si. É para fazê-lo que apela ao que pode haver de mais desprezível. E muito veneno. como corda estendida entre o animal e o Além-do-Homem. a encarnada impotência para lançar a flecha de sua nostalgia na direção de um mais elevado anseio. ou autodesprezo. 1980. Sua estirpe é indestrutível. A terra se tornou pequena então. por fim. sua cultura (Bildung).. aspiração e anseio pelo sublime. 1974. Olhai: mostro-vos o último homem. O último homem. p. Zaratustra vai falar do que mais prezam os homens modernos. Já não nos tornamos nem pobres. Nenhum pastor e um só rebanho! Todos querem o mesmo. seu laboriosamente conquistado autodesprezo. como a pulga. de fato: pois aquele que despreza é sempre alguém que “não desaprendeu a prezar”). 16 impulso nº 28 . de vez em quando. Mesmo outrora. “ela anula minha importância”). A gente ainda discute. todavia. ao último homem. o último homem é o que mais tempo vive. portanto impotente para toda auto-superação. chega o tempo do homem mais desprezível.). como caminho de auto-superação. e pisca os olhos. porque na contra corrente dela é que vem à luz seu autodesprezo. senão se estropia o estô- Zaratustra invoca. Quem ainda quer governar? Quem ainda quer obedecer? Ambas as coisas são demasiado molestas (. consideramno perigoso: a gente caminha com cuidado.”14 O último homem é último não somente porque se autocompreende como fim em si – e não mais como travessia para a outra margem. “Nós inventamos a felicidade”. como sua última. antiteticamente. que o entretenimento canse. Adoecer e desconfiar. pois. Evitamos. inclusive. produz sonhos agradáveis. O último homem alegoriza o autocomprazimento na mediocridade. quando sob o signo e a inspiração Deus. p. porém.13 ciação. ama o vizinho e se esfrega nele. sobre cujo humilhante e rebaixador efeito Kant fez uma confissão digna da nota. todos são iguais: quem sente de outra maneira segue voluntariamente para o hospício (. como se este nada mais tivesse sido do que uma bizarra vaidade: poder-se-ia até mesmo dizer que ele tem seu próprio orgulho. a forma acabada do amesquinhamento geral do tipo-homem. Para trazê-lo à consciência de si. NIETZSCHE. e sobre ela saltita o último homem. pois a gente precisa de calor. o incapaz de se desprezar a si mesmo.. nem ricos: as duas coisas são demasiado molestas. afastando-se do centro – para onde? Para o nada? Para o “perfurante sentimento de seu nada”?12 É esse inarticulado sentimento de inferioridade que a figura do último homem dramatiza.). 328.. incapaz de se desprezar a si mesmo. mas logo se reconcilia. esse laboriosamente conquistado autodesprezo do homem. Ele é último porque inverteu a relação entre apreço e depre12 13 14 NIETZSCHE. sua própria forma acre de ataraxia estóica.

15 O último homem encarna a última vontade do homem. ainda uma vez. Ai. ele é o oceano que pode tragar vosso grande desprezo. Seu terreno é ainda bastante fértil para isso. chega o tempo em que o homem deixará de lançar a flecha de sua nostalgia mais além do homem. ainda não problematizados no plano da teoria filosófica: o asco pela banalização do humano. Temos nosso prazerzinho para o dia e nosso prazerzinho para a noite.. que não tem necessidade de desfigurar o homem para prezá-lo. o raio. Nietzsche permanece. eu vos ensino o Além-do-Homem: ele é esse raio. Ibid. É tempo que o homem plante a semente de sua mais elevada esperança. a vos lamber com sua língua? Onde está a loucura com a qual teríeis que ser inoculados? Vede. mas prezamos a saúde. “Nós inventamos a felicidade”.18 17 18 Ibid. e a compaixão pelo que ainda resta de trágico e de belo na epopéia humana. o congelamento da estrela. constitui o elemento que nucleia tanto o aforismo 125 de A Gaia Ciência quanto o prólogo de Assim Falou Zaratustra. O último homem é o homem supérfluo..16 15 16 O último homem. Ele dramatiza a ameaça niilista representada pela absolutização do desejo de manutenção e reprodução infinita de uma vida desprovida de tensões. O último homem se deleita em sua autocomplascência. chega o tempo em que o homem já não dará à luz nenhuma estrela”. e no qual a corda de seu arco já não saberá vibrar! Digo-vos: é preciso ter ainda um caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançarina. impulso nº 28 17 . Digo-vos: vós tendes ainda caos dentro de vós. Zaratustra pretende “liberar de sua casca o sentido oculto. 142. é a encenação do perigo que ronda a fertilidade do solo da experiência humana na história: a desertificação da vida. ele é essa loucura!”. p. sua transformação em engrenagem impessoal e descartável a ser consumida e indefinidamente reposta na maquinaria global dos interesses e rendimentos em que se transformou a terra. Com isso. pois. para o grande autodesprezo. de fermento de auto-superação. como constataram Adorno e Horkeimer. E aqui se nos oferece a ocasião para desenvolver um pouco mais o tema que já afloramos instantes atrás: a tese de que a discussão do niilismo. porém. Contra o último homem. 19. que não mais carece por mais tempo de desfiguração”. e dele não poderá brotar já nenhuma árvore elevada.17 Contra o último homem. contra a mais desprezível autoconfiguração da humanidade. Essa experiência determina o destino tanto do homem louco quanto do profeta Zaratustra. E Zaratustra falou assim ao povo: “É tempo que o homem fixe sua própria meta. distâncias e conflitos – mas também despojada da grandeza de toda verdadeira personalidade. o sofrimento com o destino do homem. sugerida apenas no episódio dramático do último homem. com o futuro de suas possibilidades indefinidas. seu niilismo brotado de dois contraditórios sentimentos fundamentais: o grande asco pelo homem e a grande compaixão pelos homens. 1987. a utopia contida no conceito kantiano de razão: aquela de uma humanidade que não mais se desfigura a si mesma. p.mago. Ai. 16. Ibid. decisivamente apegado a uma idéia de grande razão. contratastes. p. dizem os últimos homens e piscam o olho. Nela vêm à tona os dois sentimentos básicos da modernidade. “Não é vosso pecado – é vossa moderação que clama ao céu. sua vontade de nada. impotente para o grande sofrimento. Zaratustra apela. o esgotamento do caos. HORKHEIMER. vossa mesquinhez até mesmo em vosso pecado é o que clama ao céu! Onde está. Vede: ensino-vos o Além-do-Homem. sem se tornar impuro. errando longe de todos os sóis. que finalmente eliminou da existência a tragédia do sofrimento e da finitude – não nos esqueçamos que o último homem é aquele que mais tempo vive – e com isso se condena a si mesmo a uma vida banal. na fruição infinita dos prazeres anódinos e do bem estar idêntico para o maior número possível. Mas algum dia esse terreno será pobre e manso.

e vós tendes ainda um caos dentro de vós. Mas eles pensam que sou frio e um bufão que faz terríveis gracejos. companheiros de viagem. numa última e inócua tentativa de salvá-los. vivi tempo demasiado nas montanhas. pois nesse ponto interrompeu-o a gritaria e o prazer da turba. Não propriamente no “pecado”.. seu requiem aeternam Deo.Percebe-se. Demasiado Humano ainda fora dedicado –. ambos. O homem louco e Zaratustra. O destino de Zaratustra é abandonar tanto os homens superiores quanto toda e qualquer forma secularizada de eclesia. oh Zaratustra”. a quem Humano. p. reduzido à estatura do último homem: no ideal transformado em pacífica felicidade das verdes pastagens em que se esfrega. Essa autoconsciência suscitada pela reflexão sobre o fracasso determina o destino futuro do personagem-título: Zaratustra não tornará a falar ao povo. e. mem.19 Zaratustra descobre a causa originária de seu erro: foi ter buscado na praça do mercado o lugar para falar ao povo de seu amor pelos homens. entoando. em desespero. Zaratustra. consola-o a desvairada busca de Deus. em peregrinação pelas criptas e mausoléus do Deus morto. 18 impulso nº 28 . mas na mesquinhez. E agora olham-me e riem. Zaratustra e o homem louco. assim gritavam eles. para quem o último homem – que torna tudo pequeno – constitui protótipo e ideal. o arauto da filosofia do porvir. encenações paródicas de figuras que têm origem na profunda meditação sobre uma e mesma experiência epocal: o fracasso da pregação de Paulo no aerópago de Atenas. continuam me odiando. A um deles. É preciso ter ainda um caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançarina. essas as palavras que preludiam a apresentação do personagem do último homem. para oferecer-lhes a dádiva redentora do Além-do-Ho19 Ibid. Ao outro. doravante. não repetirá a experiência do homem louco na praça do mercado. que buscara os filósofos estóicos e epicuristas na ágora de Atenas. pois. não falará mais aos cínicos Aufklärer de seu tempo – como Paulo. Imóvel está minha alma e luminosa como as montanhas pela manhã. não fundará comunidades como o fizera o apóstolo dos gentios. nós o damos de presente a ti!”. buscará a solidão e a intimidade daqueles poucos discípulos que são suficientemente fortes para não ter que seguir um mestre e. enquanto riem. porém. os “espíritos livres” que o homem louco de A Gaia Ciência ainda buscava. Nietzsche. o rebanho universal dos indivíduos uniformes. Há gelo em seu riso”. anima-o a espera pelos discípulos seletos e pelos horizonte de futuro humano que surgirão a partir de seus ensinamentos fundamentais: o Além-do-Homem e o Eterno Retorno do Idêntico. e o transporta para uma nova figura. Não pregará também para multidões. Zaratustra os abandona à própria sorte na caverna em que os reunira. Para Zaratustra. A praça do mercado é o espaço do grande número. onde reside o perigo fundamental: ele consiste não no que existe de temível no homem. mas na esterilização do solo fecundo de seus impulsos. que se chama também “o prólogo”. agora falo-lhes como os pastores de cabras. sim. “faze de nós esse último homem! O Além-do-Homem. Sem dúvida. 20. o destino do homem depende ainda do caos dos impulsos e da fecundidade dessa terra. a autoconsciência: E aqui terminou o primeiro discurso de Zaratustra. E todo povo dava gritos de júbilo e estalava a língua. escutei em demasia os regatos e as árvores. aqueles mesmos valorosos Iluministas. entristeceu-se e disse a seu coração: “– Eles não me entendem: não sou a boca para esses ouvidos. ao grande número. Temos mesmo esse caos dentro de nós? Somos ainda um solo do qual possa brotar alguma árvore elevada? Eis a questão que introduz o segundo fracasso espetacular de Zaratustra. na banalidade de pecado. Redimido de sua derradeira tentação – a compaixão pelos homens superiores. têm necessidade de candeeiro aceso em pleno meio-dia – ambos se elevam à suprema consciência de si a partir da experiência trágica na praça do mercado. de forma indolor. “– Dá-nos esse último homem. para buscar – correndo o risco de algum dia vir a encontrar – a si mesmos.

meus passos não são para eles um chamado de despertar. meu dia se inicia – eleva-te. In: NIETZSCHE. M. J. Der Tolle Mensch. 1980. In: COLLI.: Giacoia Jr. TÜRCKE. Referências Bibliográficas HORKHEIMER. M.: G. Trad.: Torres Filho. 1999. & ADORNO. nº. impulso nº 28 19 . 1974 __________. A última fase de surgimento de A Gaia Ciência. oh grande meio-dia. In: Cadernos Nietzsche. & MONTINARI. v. Band 5. Berlin/New York/München: De Gruyter/DTV. 406. III. pois. F. ardente e forte como um sol matinal que vem de escuras montanhas. NIETZSCHE. Para a Genealogia da moral. meus filhos estão perto. 1980. Obra Incompleta. eleva-te. Montinari. 1987. para meu dia: eles. & Salaquarda. minha hora chegou: esta é minha manhã.Kritische Studienausgabe. Sämtliche Werke.R. cujo 20 Assim falou Zarratustra e abandonou sua caverna. 1ª ed. R.. Frankfurt am Main: Fischer Verlag..Gesammelte Schriften. F. 4 v. Os Pensadores. O. 3. Ed. O. Kritische Studienausgabe (KSA). G. 6. F.. Trad. SALAQUARDA. In: NIETZSCHE. porém. não compreendem quais são os sinais de minha manhã. Zaratustra está maduro. Assim Falou Zaratustra se conclui com o segundo ocaso do personagem-título. Colli e M. In: HORKHEIMER. Frankfurt am Main: Fischer Verlag. Quero ir para minha obra. São Paulo: Discurso Editorial. São Paulo: Abril Cultural. Col. enquanto eu estou desperto: esses não são meus companheiros adequados de viagem! Não é a eles a quem devo aguardar aqui em minhas montanhas.21 21 Ibid. Also Sprach zarathustra. Die Fröhliche Wissenschaft. p. T.Pois bem! Dormem ainda esses homens superiores. 1989. Berlim/Nova York/München: De Gruyter/DTV. Ibid. __________. C. desta feita sob a forma da visão daqueles filósofos do futuro.20 signo presente se esboça na alegoria do leão sorridente e das pombas amorosas: Meu sofrimento e minha compaixão – que importam! Por acaso aspiro à felicidade? Eu aspiro por minha obra! Pois bem! Chegou o leão. M. Dialetik der aufklärung.

20 impulso nº 28 .

Uma análise conceitual do prólogo de Assim Falava Zaratustra IN SEARCH OF THE SO BELOVED DISCIPLE. Fazendo com que as possibilidades de comunicação se guiem pelo compartilhamento prévio de experiências análogas. Upon examining communication as sharing and the life experience/reflection link as a result of the condition expressed through the range of impulses. aponta para a singularidade como uma dimensão condicionante das produções e manifestações. it points to singularity as a conditioning dimension of productions and manifestations. Coordenadora do Grupo de Estudos Nietzsche (GEN) e editora-responsável dos Cadernos Nietzsche e da coleção Sendas e Veredas smarton@usp. Abstract Through the reading of the preface to Thus Spoke Zarathustra’s.br impulso nº 28 21 .EM BUSCA DO DISCÍPULO TÃO AMADO. analisa-se o vínculo existente entre vivência e reflexão filosófica na perspectiva do comungar nietzschiano. SCARLETT MARTON Professora de Filosofia do Departamento de Filosofia da USP. this article aims at analyzing the link between life experience and philosophical reflection in line with Nietzschean communicability. Palavras-chave NIETZSCHE – ZARATUSTRA – DISCÍPULO – ENSINAMENTO. Ao examinar o comunicar como um compartilhar e o elo vivência/ reflexão como resultado da condição manifestada pela gama de impulsos. Keywords NIETZSCHE – ZARATHUSTRA – DISCIPLE – TEACHING. A conceptual analysis of the preface of Thus Spoke Zarathustra Resumo A partir da leitura do prólogo de Assim Falava Zaratustra. the unused connection is presented between the common and the singular in teaching: searching for one’s path and companions for this path. apresenta a ligação inusitada entre o comum e o singular no ensinamento: buscar o próprio caminho e companheiros desse caminho. In guiding the possibilities of communication through the previous sharing of analogous experiences.

4 NIETZSCHE (1881/1882). Se nada mordeu. em que Zaratustra declara: “Com a minha melhor isca. vivências semelhantes. deve ter sido a mais poderosa.2 decifrando-a. é preciso partir de um solo comum. quando se escreve. aprimorá-lo. Todo espírito. costumeiro. É nisto que reside a condição básica para que se comuniquem. em última instância. impõe limites aos “outros”. Não basta ter as mesmas idéias.. se quem quer que seja o acha incompreensível. comungar vivências. 4 NIETZSCHE (1885/1886). proíbem “a entrada”.. Apresentando-a. o autor seleciona o seu leitor. se critica de forma tão veemente o “espírito de rebanho”? “É preciso invocar prodigiosas forças contrárias”. que desde sempre a necessidade aproximou apenas aqueles que podiam. Aí têm origem todas as leis mais sutis de um estilo: elas afastam. o autor lança sua isca. indicar necessidades semelhantes. § 268. como se diz. não foi culpa minha. o leitor dele se mostra digno. É preciso bem mais. que entre todas as forças que até agora dispuseram do ser humano. gregário – rumo ao vulgar!”. demasiado natural progressus in simile. abraçar as mesmas concepções. uma senha. É assim que se estabelece a cumplicidade entre os dois. uma mensagem cifrada. talvez isto mesmo fizesse parte das intenções do escritor – ele não queria ser compreendido por “quem quer que seja”. a partir de Para Além de Bem e Mal. 1967/1978a. as vivências que comungam são. Ao escolher um estilo. é preciso partilhar experiências. a compreensão.1 É sobretudo para garantir a própria sobrevivência que os indivíduos se relacionam. todo comunicar é tornar-comum. “para fazer frente a esse natural. Tudo se passa como se o estilo fosse um mot de passe. também Ecce Homo. as mais comuns. Para além de bem e mal.3 ´ E Não se quer apenas ser compreendido. então. em que Nietzsche afirma que. quando quer comunicarse.. Como compreender. NIETZSCHE [1883/1885]. o vivenciar apenas vivências medianas e vulgares. 1967/1978c. mas também. § 1. para comunicar.no âmbito da relação entre autor e leitor que Nietzsche situa as questões estilísticas. § 381. as mais básicas e gerais. Cf. em geral. Faltavam os peixes. por isso mesmo. enquanto abrem os ouvidos dos que são de ouvidos aparentados aos nossos. Não é de modo algum uma objeção contra um livro. “todos os meus escritos são anzóis: quem sabe eu entenda de pesca tanto quanto ninguém?. escolhe para si os seus ouvintes. precisamente. mediano. fisgo hoje para mim os mais raros peixes humanos!”. No limite. As experiências que partilham são. Tampouco basta atribuir às palavras o mesmo sentido ou recorrer aos mesmos procedimentos lógicos. criam distância.” 3 NIETZSCHE. todo gosto mais elevado. daí resulta. então. por certo. Pois. Suposto. atrai quem é do seu feitio. observa Nietzsche. burilá-lo. ao escolhê-los. Repele quem lhe é estranho. 1967/1978b. o aperfeiçoamento do homem rumo ao semelhante. é para conservar a própria vida que se comunicam. a fácil comunicabilidade da necessidade. 2 1 22 impulso nº 28 . ou seja. adverte ele. § 268.. que Nietzsche queira justamente comunicar-se. Cf. não ser compreendido. com sinais semelhantes.

Enquanto os indivíduos gregários buscam segurança e se voltam para a autoconservação. em sua autobiografia. 1967/1978h. põem termo à própria investigação. Ao tratar das convicções. Por que escrevo livros tão bons. É como consolidação de uma perspectiva que a convicção se impõe. como a ‘coisa em si’. pois. uma tensão interna de pathos através de signos. 18991901. ao buscarem atingir a “verdade” a qualquer preço. § 4: “Bom estilo em si – pura estupidez. sua autêntica necessidade”. § 2. os mais raros não se furtam a correr riscos e apostam na vida. 1967/1978h. E ganha ainda mais força ao fundar-se num juízo moral. Ela manifesta-se sobretudo na aceitação impensada do óbvio. E conclui: “As estimativas de valor de um homem denunciam algo da disposição de sua alma e aquilo em que ela vê suas condições de vida. É à procura deles que se põe o filósofo no curso de sua obra. essas disposições. esclarece o filósofo. desistir da pesquisa. de um pathos.Sentindo-se ameaçada. ao tratar de sua “arte do estilo”. para comunicá-las o autor precisa dispor de signos. Hans Weichelt. 2. algo como o ‘belo em si’. dão ordens”.7 quem julga haver um estilo universalmente bom nada mais faz do que revelar os impulsos que o dominam. alguns até por experiência”.. assegura ele. Por que escrevo livros tão bons. o mais estúpido possível?” (NIETZSCHE [1883/1885].10 Ora. Tanto é que. emprega o termo asno para designar estupidez.) Eu sou o antiasno par excellence e. acaba por diagnosticar as que norteiam as interpretações dos autores com quem dialoga. crenças e convicções. pois colocam-se a serviço de uma convicção e diante dela se detêm. 167-208. § 268. pp. quando ocorre com freqüência. em grego e não só em grego. restringem-se em sua obra a interpretar e fundamentar os limites que se impuseram. 12). E. ao lidar com as perspectivas consolidadas. 11 Seguimos. ou seja. Em nota à margem de sua tradução. firma-se numa atitude e acaba por converter-se em convicção. “Bom”. qualquer que seja. IV 17. 10 Em Assim Falava Zaratustra. por fim. tomam a palavra. ele entende estilo como sintoma. a interpretação de Jörg Salaquarda. disposições de afetos. com isso. Por ela subjugados. os pagãos zombavam de Cristo representando-o na forma de asno (cf. nota 77). “asno” é quem a elas se submete. mas também precisa encontrar lei5 6 tores que vivenciem essas tensões. Mas. “Que sentimentos dentro de uma alma despertam mais rapidamente. a exceção chega a sucumbir em seu isolamento. NIETZSCHE (1888). “o que é um animal de orelhas compridas. Por que escrevo livros tão bons. o Anticristo”.” 8 NIETZSCHE (1888). destemida. Pois bem. uma vez que. Aliás.8 Não é por acaso que. mero ‘idealismo’.1907. impulso nº 28 23 . Nietzsche caracteriza. abandonar a investigação. como o ‘bom em si’. que não se engana quanto aos signos. ao fazê-lo. o primeiro estudo de fôlego sobre Assim Falava Zaratustra. 1967/1978h. a de ter orelhas compridas e somente dizer sim e nunca dizer não! Não criou ele o mundo à sua imagem. “Asno” remete. Enquanto manifestação de um estado.. 7 Cf. Há tantos estilos quanto os estados. de uma estupidez específica: a falta de esprit.6 No limite. por conseguinte. quanto aos gestos”. não é para todos que ele deve falar. quanto ao ritmo dos signos. 1995. Nietzsche trata da questão do entendimento deles. “Todos nós sabemos. 1967/1978c. Se bom estilo é o que comunica tensões de impulsos. § 4. quais estimativas de valor nele se expressam. a sua tábua de bens”. (. Salaquarda distancia-se de uma linha interpretativa que remonta ao trabalho em quatro volumes de Gustav Naumann. aqui. dentre eles Otto Gramzow. 9 NIETZSCHE (1885/1886). também eles se tornam “asnos”. e August Messer. 1997. Por que escrevo livros tão bons.9 Ao trazer à cena o animal de orelhas compridas. 1967/1978b. porém. e. Daí decorre que não há um estilo. os filósofos empenham-se em dissipar todas as perspectivas consolidadas. incluído o ritmo desses signos – eis o sentido de todo estilo”. na Roma antiga. Quem acredita existir um estilo “bom em si” não passa de idealista. determina. quais afetos dele se apoderam e. Sanchez Pascual observa que as expressões antiasno e anticristo se acham relacionadas. constrange seu portador a abrir mão da busca. o estilo indica quais impulsos dominam o autor num determinado momento. 1967/1978h. bom para todos os autores. Exercendo ação paralisante. a perspectivas consolidadas e não mais questionadas. afirma o filósofo. 1922. afirma: “Comunicar um estado. não saberiam mesmo proceder de outra maneira. o leitor que tanto almeja.5 Ora.11 Tanto é que Nietzsche afirma serem os filósofos “advogados que NIETZSCHE (1888). “é todo estilo que realmente comunica um estado interno. ouso afirmar que tenho as orelhas mais curtas que existem. Ecce Homo. a maioria se apega a pré-conceitos. “isso decide toda a hierarquia de seus valores. pelo avesso. não é da ordem do gregário o que Nietzsche tem a dizer. NIETZSCHE (1888). antes de discorrer sobre seus escritos. a convicções. 1922. um monstro da história universal – eu sou. Trata-se. é desta maneira que o protagonista se refere ao asno: “Que oculta sabedoria é essa.. e sequer um único estilo bom para o mesmo autor. Seguindo o uso lingüístico convencional.. § 4.

II 2). 1967/1978b. 14 Cf. discursa e monologa. que batizam de ‘verdades’”. Na terceira. “antiasno par excellence”. o bufão (idem. IV 8) e a sombra (idem. por vezes. Mas é quem se serve das várias formas do estar convicto e. para ser modestos. até 1901. IV 9). na última parte do livro. o falar esconde mais que o calar. 7-9 e idem. a passagem intitulada “Nós. p. E. o adivinho (idem. III 5. da solidão que se apodera de sua vida. o feiticeiro (idem. Raros amigos.20 “o porta-voz da vida. E assim o filósofo passa do desalento à esperança. ‘As palavras mais quietas são as que trazem a tempestade. Prefácio 8) e o velho homem (idem. Harold Alderman. depara-se com as jovens que dançam (idem. 37. em realidade só para isso criados”. IV 4). Reivindica-se extemporâneo. Prefácio 8). e Ecce Homo. o consciencioso do espírito (idem. 3. ele põe em prática a sua psicologia do desmascaramento. NIETZSCHE (1881/1882). NIETZSCHE. Na primeira parte.19 É assim que fala Zaratustra. quem é aquele que tem “as orelhas mais curtas que existem”? Certamente. IV 6. se coloca acima de todas. onde se lê: “Já nos queixamos de ser mal compreendidos. § 371. Prefácio 6). no prefácio de Anticristo: “É somente o depois de amanhã que me pertence.15 suas idéias destinam-se a um público por vir. Prefácio 2). IV 3). 18 Ao examinarem o título do livro. defensores manhosos de seus preconceitos. Zaratustra encontra o santo homem do bosque (NIETZSCHE [1883/1885]. Zaratustra como um comunicador. IV 7).não querem ser assim chamados e. I 19). mal ouvidos ou não ouvidos? Esta é justamente a nossa sorte. 1967/1978b. 1977. confundidos. por exemplo. Nietzsche dedica-se a desmascarar convicções. 1.18 Zaratustra fala. 1967/1978l. não se cansa de tentar compreender as razões da indiferença que o cerca. 1967/1978c. quanto à citação. empenha-se em não se tornar vítima de nenhuma delas. “Ah! Ainda terá de procurar por muito tempo! É preciso ser digno de ouvi-lo. os que são do seu feitio. conversa com seus animais e troca segredos com a vida. IV 5). Acredita ter nascido póstumo. Por que escrevo livros tão bons. seria desmedido entender esse falar.17 Contudo. o mais feio dos homens (idem. Alguns homens nascem póstumos”. Oh! Por muito tempo ainda! Digamos. Na segunda. “o sem-Deus”. 1987. § 4. e Kathleen Mary Higgins. “É preciso mais que tudo saber ouvir corretamente o tom que vem dessa boca. É por isso que são tão singulares as experiências que ele quer partilhar. “para não fazer injustiça deplorável ao sentido de sua sabedoria. É por isso que precisa encontrar os que lhe são aparentados. (256) 10 [150] do outono de 1887. a apenas um em particular. A expressão também se encontra em idem. o rei da direita e o rei da esquerda (idem. Oscila entre a impossibilidade do presente e a promessa da posteridade. Na correspondência e nos livros. o porta-voz do sofrimento. caluniados. ainda se acharia submetido a uma delas. Prólogo. os incompreensíveis”. neste caso. defronta-se com o espírito de peso (idem. 1967/1978h. não nos estimaríamos o bastante se desejássemos que fosse de outro modo”. 1967/1978a. Duvida de “que haja os 12 NIETZSCHE (1885/1886). 18. 1967/1978h. tem interlocutores e volta-se para si mesmo. Por que escrevo livros tão bons. o silêncio revela mais que as palavras. II 19). E parte desta regra básica: “Uma coisa que convence nem por isso é verdadeira: ela é meramente convincente. II 20). 72-78. § 1. II 10).. (1887/1889). o saltimbanco (idem.14 seus escritos antecipam-se àqueles a quem se dirigem. III 7). I 18) e com a víbora (idem. 15 Cf. também Crepúsculo dos Ídolos. De sua época só espera não-entendimento ou descaso. 13 capazes e dignos de tal pathos”. dirige-se aos marinheiros (idem. Já no prólogo. relata sua conversa com a velha mulher (idem.. adverte Nietzsche em sua autobiografia.13 Portanto. ao mesmo tempo. Sempre se queixa do silêncio que pesa sobre sua obra. 19 NIETZSCHE (1888). reconhece. não é quem está livre de qualquer espécie de perspectiva consolidada. o NIETZSCHE (1888).12 Empenhando-se na dissolução crítica de perspectivas que se consolidaram e deixaram de ser questionadas. 6. 20 Cf. Observação para asno”. mas deseja “que não faltem aqueles com quem é lícito comunicar-se”. IV 2). depara-se com o adivinho (idem. por exemplo. III 2) e ataca o chamado “macaco de Zaratustra” (idem. pois. § 4. o último papa (idem. pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem o mundo’”. ao contrário. § 15. escassos leitores. o cão de fogo (idem. (1883/1885). Psicólogo das profundezas. jamais alguém pôde esbanjar tantos meios artísticos novos. também presente no título do livro como mera necessidade de comunicar-se. IV 6). se o animal de orelhas compridas designa quem se submete a convicções. apresentam. mas também canta.16 Zaratustra fala em circunstâncias diversas e de diferentes maneiras. 30. na maioria. NIETZSCHE (1883/1885). 17 16 NIETZSCHE. entretém-se com várias personagens que cruzam o seu caminho. Sentenças e setas. dirige-se aos discípulos e. o mendigo voluntário (idem. as vivências que anseia por comunicar. 24 impulso nº 28 . Cf. “Meu Zaratustra. II 19) e o corcunda (idem. pp. esse tom alciônico”. E até lá não haverá ninguém que compreenda a arte que aqui se esbanjou.. na maior parte das vezes. ainda agora procura por eles”. desconhecidos. II 22. Discursa para o povo reunido na praça do mercado. na A Gaia Ciência. 1967/1978b. é também a nossa distinção. inauditos. III 13. § 5. E.

ó porta-voz da vida!”. Na verdade. o prólogo faz as vezes de exórdio. E seu percurso começa com um fracasso pedagógico. e permite que. encontram-se os temas centrais da filosofia nietzschiana da maturidade: a superação do niilismo e o projeto de transvaloração dos valores. Já em Ibid. 19. Cf. Alter ego do filósofo. já seria a resposta.25 Cf. “Eles não me compreendem. Não é por acaso que. o nome Zaratustra: pois o que constitui a imensa singularidade deste persa na história é justamente o contrário disto. causa. como força. Na cidade. 1. III 13. NIETZSCHE (1883/1885).. para traduzir a necessidade dionisíaca de aniquilar e de criar. Assim. desejam quem os apreenda e compreenda. 23 Cf. 28 NIETZSCHE (1883/1885). mas também de mais alegre e exuberante. suprime o solo mesmo a partir do qual se punham os valores. o sofrimento. 1967/1978b. E seu discurso termina com uma determinação seletiva: aprendera a discernir a quem deveria falar. Porque escrevo livros tão bons. 24 Nos atributos a que Zaratustra recorre para apresentar-se. 1978. É pela necessidade de doar e partilhar que ele fala. Inscreve-se. submetendo a cosmologia à moral. o conceito de vontade de potência e a doutrina do eterno retorno. 14. Para Nietzsche. para Zaratustra. é obrigado a custear a tiragem de quarenta exemplares da quarta parte de seu Zaratustra. dirige-se ao povo reunido na praça do mercado. § 27. no fundo. NIETZSCHE (1888). e o círculo. aquele que vem para desvincular a metafísica e a moral. Prefácio 5. 47. 7. do sofrimento e do círculo.23 Ao longo do livro. Perseguindo a idéia expressa no Ecce Homo: “Para aquilo a que não se tem acesso por vivência. 1967/1978b. Se critica os valores vigentes de sua época e mergulha fundo em seu tempo. que assim o denominam. dizendo: “Tu não declinarás em nosso céu. para encarnar o caráter dionisíaco de toda existência. 13. sua águia e sua serpente. portanto. e. são os animais de Zaratustra. É para partilhar a própria sabedoria que. Zaratustra deixa sua caverna e sua montanha. 1967/1978b. ele se expresse. 29 NIETZSCHE (1883/1885). 39.21 “o mestre do eterno retorno”. LEBRUN. não sou a boca para esses ouvidos”. Intimando-se a converter-se no que é. 1967/1978h. III 13. o mais fatal de todos. II 21 Aqui quem fala é Zaratustra. ouça!”. é recorrente a necessidade de escolher seus leitores. é recorrente a frase tomada dos Evangelhos: “Quem tiver ouvidos. do canto e sobretudo do silêncio. Perfaz desse modo a travessia do niilismo. na boca do primeiro imoralista. enquanto vontade de potência. aceita tudo o que há de mais terrível e doloroso.22 “o que não em vão disse a si mesmo: ‘tornate quem tu és’”. enquanto parte integrante da existência. enquanto infinita repetição de todas as coisas. “Não sou a boca para esses ouvidos”. NIETZSCHE (1883/1885). através de si mesmo. 48. Mateus. ele conta refazer a obra do Zoroastro histórico. abraça de maneira incondicional o próprio destino. que teria introduzido no mundo os princípios de bem e mal. um discípulo de Zaratustra a ele se dirige. Dando-se conta da morte de Deus. 13. ao fim de dez anos.24 É Zaratustra quem assim fala. anseiam por uma “alma irmã”. de outro modo no mundo. indispensável ao projeto de transvaloração. não se tem ouvido”. 1967/1978b. termina entretendo-se apenas com si mesmo. o subtítulo traz à luz sua relação com os leitores. ele desce em direção ao vale. Anunciando que tudo retorna sem cessar. NIETZSCHE (1883/1885). Mas essa pergunta. a moral: por conseguinte. ele também tem de ser o primeiro a reconhecê-lo”.26 ambos aspiram a quem comungue suas experiências. E fala assim: através de discursos e monólogos. o Zaratustra de Nietzsche quer precisamente recuperar a inocência do vir-a-ser e implodir a dicotomia dos valores. 22 Cf. enquanto o título do livro revela seu projeto filosófico. 1967/1978h. Portanto. Cf. tem por função introduzir o as26 27 NIETZSCHE (1888). p.27 não soubera discriminar quem poderia ouvi-lo. § 3: “Não me perguntaram.29 Em Assim falava Zaratustra. impulso nº 28 25 . é levado a assumir a condição de extemporâneo. Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a verdadeira roda que faz mover as coisas – a transposição da moral para o metafísico.28 Ainda assim tenta fazer-se entender pelos homens. Zaratustra começa discursando para o povo reunido na praça do mercado. estes são os atributos a que ele recorre para apresentar-se. Se Nietzsche vê seus primeiros textos festejados por todos nos círculos wagnerianos. o caráter dionisíaco da existência e a idéia de amor fati. 2. no livro. 1. 1967/1978b. E desse modo assume o amor fati. deveriam ter-me perguntado o que significa precisamente na minha boca. faz cair por terra o dualismo entre mundo verdadeiro e aparente. 25 Cf. fim-em-si. Este é um livro para todos e ninguém. a de eleger seus interlocutores. Ao contrário do profeta báctrio. Zaratustra criou este erro. é obra sua. § 1.porta-voz do círculo”. Como o sol que se põe todos os dias no horizonte. Prefácio 5. Falando em favor da vida. Por que sou um destino. para pôr-se dionisiacamente diante da vida. para chegar a um dionisíaco dizer sim ao mundo. aponta a íntima relação entre a vida. IV 1.

35 De posse desse instrumento. toma ciência do que tem a dizer. limita-se a descrevê-lo enquanto último homem que se apega aos valores instituídos. Prefácio 3. num movimento complementar. 34 São estas as primeiras palavras que Zaratustra diz ao povo reunido na praça do mercado: “Eu vos ensino o além-do-homem. Tanto é que na primeira página já se encontram os temas centrais da filosofia nietzschiana da maturidade. 7). 39 “E aqui terminou o primeiro discurso de Zaratustra. Zaratustra Será o tema central de NIETZSCHE (1883/1885). 1967/1978b.37 Objeto do grande Está presente nos termos “supérfluo” (Überfluss) (NIETZSCHE [1883/1885]. 1967/1978b. Prefácio 2. tornando-se criador de valores. razão (idem.sunto. Prefácio. substituir a concepção de homem como criatura em relação a um Criador por outra. a terceira. Assim o Vorrede já contém um erste Rede. 41 Ibid. de sua riqueza”.34 Deixando-se de postular um mundo transcendente. § 27. 2. Apesar do excesso de zelo. Zaratustra exclama: “Será possível? Este velho santo em seu bosque ainda não ouviu que Deus morreu!”.32 que será decisivo no último período da obra do filósofo. termina falando do que há de mais desprezível: o último homem. 36 Exemplo disso é o exame da noção de felicidade (NIETZSCHE [1883/1885]. Ibid. E é interrompido pela multidão que grita em tom de pilhéria: “Dá-nos esse último homem (.. 9. queremos também vê-lo!”.38 é sobre ele que incidirá a crítica corrosiva. Nela. 38 26 impulso nº 28 . pela concepção de além-do-homem. em cada uma delas. é recorrente a idéia de excesso. ele fala do além-do-homem que está por vir.31 que se tornará central na doutrina do eterno retorno. Mas Zaratustra toma ciência de seus ouvintes e. mas este é apenas preliminar. é necessário suprimir o solo a partir do qual os valores até então foram engendrados. o último homem aparece como defensor dos valores estabelecidos.41 Incompreendido pelo povo que dele ri por duas vezes. 21. uma vez que os discursos propriamente ditos só começarão na primeira parte.. é ela que permitirá criar novos valores. E nós te damos de presente o além-do-homem!”. a quarta e a quinta seções abrigam o primeiro discurso da personagem. 1967/1978b. Ao povo que quer ver um saltimbanco fazer suas proezas. em conseqüência. 20). Prefácio 3. No contexto do prólogo. é introduzido o projeto de transvaloração dos valores. Prefácio 3. Prefácio 3. 7-8. 3. 1967/1978b. seu discurso compõe-se de três etapas. 6. “transbordar” (überfliessen) (idem. 10). a noção de além-do-homem está intimamente ligada ao projeto de transvaloração. 31 Aparece com a imagem do sol que se põe e volta a surgir todos os dias. 32 Surge com a intenção de Zaratustra presentear e partilhar sua sabedoria. Cf. NIETZSCHE (1883/1885).. “farto” (überdrüssig) (idem. ao fazê-lo. 22). “opulento” (überreich) (idem. 5).36 E. ele fala então do que há de mais desprezível. Prefácio 1. No primeiro momento. como indica seu título.) faz de nós esse último homem. seu desconhecimento da morte de Deus e o fato de sua própria morte. selecionar o leitor e induzí-lo a manifestar disposição favorável ao que será tratado. 1967/1978b. 4). é sugerida a noção de curso circular. Prefácio 1. Prefácio 3. justiça (idem. 18). NIETZSCHE (1883/1885). passa a falar do homem como “perigosa travessia. § 26. Prefácio 1. NIETZSCHE (1883/1885). Na direção oposta. também chamado ‘o prólogo’”. malgrado o esforço em fazer-se entender. Prefácio 3. perigoso a-caminho” entre o animal que deixou de ser e o além-do-homem que ainda não é. NIETZSCHE (1883/1885). 1967/1978b. elas revelam a estratégia a que recorre Zaratustra. é a este que se passa a tomar por critério de avaliação das avaliações. o orador situa-se num patamar. agora. Tratado com escárnio. 35 Diz Zaratustra: “Permanecei fiéis à Terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças ultraterrenas”.30 que virá a constituir o elemento nuclear do conceito de vontade de potência. 1967/1978b.. Prefácio 5. virtude (idem. não chega a atingir o público. “até que os sábios dentre os homens voltem a alegrar-se de sua doidice e os pobres. convida-o a preparar a transvaloração dos valores. Prefácio 1. 33 Ao deixar seu primeiro interlocutor. Prefácio 3. 40 NIETZSCHE (1883/1885). 1967/1978b. abrem-se perspectivas. serão temas da conversa que Zaratustra e o velho papa entabulam ao se encontrar. 19). Na última parte do livro. a figura do santo homem do bosque. O homem é algo que deve ser superado”. não encontra receptividade. Exorta o povo a abraçar a perspectiva do além-dohomem. alteram-se posições. 21) e compaixão (idem.40 Ao povo que quer assistir a um espetáculo. E é interrompido por alguém que grita com ar zombeteiro: “Já ouvimos falar bastante do saltimbanco. 1967/ 1978b. Contudo. objeto do grande desprezo. para transvalorar os valores. 37 É deles que trata NIETZSCHE (1883/1885). Prefácio 1.39 Além de introduzir temas e problemas a serem tratados no livro. 1967/ 1978b. é preciso ter conhecimento da morte de Deus33 – e. NIETZSCHE (1883/1885). 6-15. inaugura-se o procedimento genealógico: diagnosticam-se e avaliam-se os valores instituídos. Prefácio 1. IV 6. ele fala do além-do-homem. Prefácio 4. Prefácio 5. 30 amor. conquista-se espaço para os anunciadores do além-do-homem. Gradativo. redefinem-se termos. Recebido com zombaria.

Pouco antes. É por encarnar o tipo homem que o saltimbanco virá a ser o primeiro companheiro de Zaratustra. Exemplo do emprego de uma palavra em diferentes acepções. Contudo. o saltimbanco despenca no vazio e cai no meio da praça. A ele mostra. um dançarino sobre cordas (Seiltänzer). 46 NIETZSCHE (1883/1885). o projeto e a tarefa indicam a possibilidade de outra forma de agir e pensar. 49 NIETZSCHE (1883/1885). uma cena insólita. 19. 50 NIETZSCHE (1883/1885). NIETZSCHE (1883/1885). define o homem como uma corda (Seil). sorrateiro. Zaratustra dissera: “O que é grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem é que ele é um passar e um sucumbir”. Instando para que deixe a cidade o quanto antes. Não é em sintonia com o contexto cultural de sua época que o autor concebe o projeto de transvalorar todos os valores. Desconcertante é a existência humana e ainda sem sentido: um bufão pode tornar-se-lhe fatal. é tampouco para ele que Nietzsche escreverá. Perseguindo o objetivo de selecionar o público a quem se dirigir. o bufão é o guardião dos valores instituídos. o autor monta – e a personagem vive – a trama que se desenrola nas seções subsequentes do prólogo. Ao longo do prólogo. “Em verdade. põe em cena um saltimbanco. ainda. este não hesita em ameaçá-lo: “São muitos os que aqui te odeiam. quão deslocada a sua intervenção.48 mas um cadáver. 11-12. de outra cultura. Mais ainda. impõe-se a conclusão.46 Agora. NIETZSCHE (1883/1885). O último homem entende que a cultura (Bildung) o distingue dos pastores de cabras e. 5. ele dissera: “O homem é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre um abismo”. aproxima-se e pula por cima dele. muito revela sobre quem ele próprio é. 1967/1978b. Odeiam-te os bons e justos e chamam-te seu inimigo e desprezador. Com o cadáver do saltimbanco às costas. Prefácio 6. 28.47 Nos dois momentos. o modo como o último homem vê Zaratustra. E deste fato 48 Quanto à expressão pescador de homens. dela se orgulha. Prefário 5. junto com o povo. É nisto que consiste seu aprendizado: diferenciar o “público” para discernir a “mensagem”. por isso. 4. por isso. Ao contrário.. 44 É digno de nota o uso que Nietzsche faz das palavras. imagem e conceito. 1967/1978b. o bufão. IV 1. A Zaratustra faz ver quão inoportuno foi o seu discurso. Exigindo que saia do caminho. § 2-5. ela se dá conta também daquilo que tem a dizer. Prefácio 6. a ele fala como um pastor de cabras. Zaratustra põe-se a caminho. 45 Cf. 3-4 e Ibid.49 No decorrer de seu primeiro discurso. § 1. tomamno como o perigo da multidão porque espera ensinála a amar o que encara com descaso. Prefácio 4. cúmplices. E mal dá alguns passos quando dele se acerca. 42 Cf. advogado dos crentes da reta crença. Mas ainda estou longe deles e meu sentido não fala a seus sentidos”. 1967/1978b. porém.42 Do embate de perspectivas. as razões do escárnio e zombaria com que foi acolhido. Prefácio 6. cf. E tudo contribui para que ela escolha seus interlocutores. Pouco antes. distinguir a “mensagem” para discriminar o “público”. Em NIETZSCHE (1883/1885). Mateus.. em Ibid. o saltimbanco44 põe-se a caminhar sobre uma corda suspensa entre duas torres. Prefácio 4. § 4. fazendo com que perca o equilíbrio. 47 Cf.nota que há um abismo entre seus ouvintes e o que tem a dizer. o termo Sinn (sentido) aparece aqui referido à fala de Zaratustra e aos órgãos dos que o ouvem. a personagem percebe quem é o povo reunido na praça do mercado. § 1. é por realizar o próprio destino que ele será o seu companheiro querido – e morto.45 Quando se acha no meio do percurso. o raio que surge da negra nuvem homem. 1967/1978b. Prefácio 8. Odeiam-te os crentes da reta crença e chamam-te o perigo da multidão”. 1967/1978b. 1967/1978b Prefácio 4. § 2. Zaratustra despreza o que o último homem entende por cultura e. A idéia reaparece em NIETZSCHE (1883/1885). acabam por se recobrir. 1. Calado. Zaratustra não mais falará ao último homem. § 1. 1967/1978b. Prefácio 7. Zaratustra presencia. impulso nº 28 27 .43 Agora. Vêem-no como o inimigo do último homem porque conta levá-lo a desprezar aquilo de que se orgulha. NIETZSCHE (1883/1885). um bufão vem ao seu encalço. Não é de acordo com a maneira de pensar e agir em voga que a personagem se propõe a tarefa de criar novos valores. Quero ensinar aos homens o sentido de seu ser: que é o além-do-homem. 1967/1978b. 2. a maneira como a multidão o toma.50 Defensor dos bons e justos. tudo concorre para que o autor eleja seus leitores. é o portavoz do último homem. uma bela pescaria fez hoje Zaratustra! Não pescou nenhum homem. 1967/1978b. 43 NIETZSCHE (1883/1885).

ouça!”. Prefácio 9. 6. 55 54 Ibid. ambos desafiam seus interlocutores. 10. enterrando o saltimbanco. não de companheiros mortos e cadáveres. 56 Cf. 22. I 22. § 234 e Caso Wagner. 1967/1978b. Não é um discípulo submisso que ele agora almeja. III 12. Ibid. 1. § 10. 62 Cf. Prova disso é o refrão. A mesma frase aparece em A Gaia Ciência. 1. 61 Cf. 58 NIETZSCHE (1888). NIETZSCHE (1883/1885). 3.ele se dá conta: “Vede os bons e justos! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores. 1967/1978i. a jornada que Zaratustra empreende afasta-o da multidão. Se na primeira seção do prólogo percebe sua necessidade de presentear e partilhar. “Tens orelhas pequenas”. Cf.56 É a maneira que encontram de selecionar seus interlocutores.58 No prólogo. cometi a estultície do eremita. 1967/1978b. Ibid. ele descarta tais interlocutores. Prefácio 9. Mateus.52 revela.. 2. 57 Cf. 1967/1978b. III 2. NIETZSCHE (1883/1885). NIETZSCHE (1883/1885). NIETZSCHE (1883/1885). 1967/1978b. 1967/1978b. 1. ignorando o bufão. 15. Ibid. Nietzsche introduz o assunto e escolhe o leitor. 26. nem coveiro. 1967/1978b. IV 3. § 2-3. A primeira verdade que sobre Zaratustra recai diz respeito ao que ele tem a dizer.. divergem. Zaratustra define o que tem a dizer e elege os que podem ouvir. não impõe preceitos. Ibid. IV 19. Vede os crentes de toda crença! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores. e eu mesmo quase um cadáver. / Sobre minha porta”.. 60 Cf. 1-3. porém. § 14-15. a grande estultície: instalei-me no mercado. 53 Na quarta parte do livro. 4. Zaratustra faz referência a essa nova verdade.57 ambos evidenciam a necessidade de ir ao encontro de quem dela se diferencia. 33: “Foste o primeiro a alertar contra a compaixão – não a todos nem a ninguém. 63 Que se lembre da epígrafe aos quatro primeiros livros de A Gaia Ciência: “Moro em minha própria casa / Nada imitei de ninguém/ E ainda ri de todo mestre / Que não riu de si também. o infrator: – mas este é o criador. a personagem insiste em voltar-se para quem tiver ouvidos finos. 16. Zaratustra não expõe doutrinas.54 Não é para todos nem para ninguém que ele quer agora discorrer. retomado da Bíblia. 5. “tens os meus ouvidos”. dirá Dioniso a Ariadne. À noite. “Nem pastor devo ser. IV 13. e vivos. compete ao leitor/ouvinte fazer jus à escolha. Desprezando o último homem. cabe agora aos interlocutores mostrar que têm ouvidos para Zaratustra. Reconhece o equívoco que cometera ao falar para o povo reunido na praça do mercado: “Quando pela primeira vez fui ter com os homens. na nona dá-se conta de si e do outro. Mas com a nova manhã veio a mim uma nova verdade”. Enquanto a plebe se denuncia por suas orelhas compridas. aquele é o criador. Não cabe mais a Zaratustra constatar que não é “a boca para esses ouvidos”. § 7-8. o infrator: – mas este é o criador”. III 8. este certamente não quer escutá-lo. 13. 13. Concluída a seleção. eram saltimbancos os meus companheiros. quanto à maneira de julgar quem quebra as tábuas de valores. IV 13.53 anuncia Zaratustra. I 12. Zaratustra e seus opositores concordam quanto a ser ele um infrator. é porque acreditam na especificidade do que têm a dizer. pela última vez falei a um morto”.55 No curso do livro. é um leitor altivo que então Nietzsche espera. 1967/1978b.. a nova verdade que sobre ele se abate diz respeito àqueles a quem deve falar. o caminho que percorre distancia-o do povo. “Entre uma aurora e outra veio-me uma nova verdade”. NIETZSCHE (1883/1885). 13. o quebrador. Ibid. Não quero 51 52 mais falar outra vez ao povo. 28 impulso nº 28 .. A partir daí. que carrego comigo para onde eu quero ir. 59 Cf. 32. é para os mais seletos que Nietzsche conta então escrever. Prefácio 9. É o que permite a ambos prepararem-se para buscar quem possa compreendê-los. porém. ele encontra lugar no livro: antes de Zaratustra falar pela primeira vez acerca do eterno retorno. Tanto melhor que a personagem decida não mais falar ao último homem. Ibid. IV 7. Mas é de companheiros vivos que eu preciso.51 No limite. Lamento de Ariadne.60 depois de insistir quanto à morte de Deus61 e ao exortar a que se faça a travessia do niilismo. 11. mas a ti e àqueles do teu feitio”. Irreversível. para os outros. 1. que se repete: “Quem tiver ouvidos. 2.. Inevitável. I 11. o autor persevera em dirigir-se a um leitor refinado. NIETZSCHE (1883/1885). E.62 Tudo se passa como se autor e personagem tivessem de reiterar a necessidade de interlocutores específicos. 1967/1978b. e cadáveres. o herético. que me sigam porque querem seguir a si próprios – e para onde eu quero ir”. 4. tais leitores. NIETZSCHE (1883/1885). “Uma luz se acendeu para mim: é de companheiros de viagem que eu preciso. É nisto que reside toda a diferença das perspectivas que abraçam: para um. IV 13. se assim for.. E Nietzsche. E quando falava a todos não falava a ninguém. o quebrador.63 Limita-se – e isso não é pouco – a parNIETZSCHE (1883/1885).59 Em três diferentes ocasiões.

“Sozinho vou agora. Acaso é de ontem a minha vivência? Há muito que vivenciei as razões de minhas opiniões”. aqui não se exige crença”. Agora vos mando me perderdes e vos encontrardes. cuja edição alemã Nietzsche possuía em sua biblioteca. ‘santo’. 70 NIETZSCHE (1883/1885). “De todos os escritos”. mas que importam todos os crentes!68 Ainda não vos havíeis procurado: então me encontrastes. 1858. II. o autor recusa-se a conferir caráter monolítico ao texto e a personagem nega-se a pôr-se como senhor autoritário do discurso. 10. 73 Ibid. § 3-4. impulso nº 28 29 . diz ele. tomando ao pé da letra o que ele então lhe dissera. 1967/1978b. É com o intuito de reforçar esta atitude que. aqui não se ‘prega’. 68 Cf. Lou Salomé publica uma biografia do filósofo em que. também eu o negarei diante de meu Pai”. 8. ignoro o que sejam problemas ‘puramente espirituais’”. 9-10. I 14. I. onde se lê: “‘Quem procura facilmente se perde a si mesmo.”70 Coragem e despojamento o autor e a personagem também exigem de si mesmos. 69 Cf.tilhar ensinamentos. ‘redentor do mundo’ e outro décadent diria em tal caso. Há de levar em conta este vínculo quem de Nietzsche for aparentado. Eu. (. 351.73 E. com longos raciocínios e minuciosas demonstrações. 43-44: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. NIETZSCHE (1883/1885). I 12. 74 NIETZSCHE (1880-1882). Hannover. 1 e Ibid. 7. Mateus. em carta de 16 de setembro de 1882: “Sua idéia de reduzir os sistemas filosóficos a atos pessoais de seus autores é mesmo uma idéia que provém de uma ‘alma-irmã’. opta por 71 72 NIETZSCHE (1888). quando se continua sempre a ser apenas o aluno. As posições que avança tampouco se baseiam em argumentos ou razões. por isso importa tão pouco toda crença. 1967. Versuche. 2-9. rejeitando a erudição. o infrator: – mas este é o criador”. traduzido para o alemão por G. precisa também poder odiar seus amigos. 3. convencê-los da pertinência de suas idéias. NIETZSCHE (1883/1885). “Aqui não fala nenhum ‘profeta’. E por que não quereis arrancar minha coroa de louros? Vós me venerais. mas. § 4. 17. a pessoa não pode ser morta’”. 1-3. NIETZSCHE (1888). 1967/1978b. e sozinhos!64 Assim quero eu. 4 (271) do verão de 1880. Ibid..) Aqui não fala nenhum fanático. melhor ainda: envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado. cf. Em Assim falava Zaratustra. “amo apenas o que alguém escreve com seu sangue”. I 12. assentam-se em vivências. 1967/1978b. NIETZSCHE (1883/1885). I 17. Tanto é que exorta seus discípulos a que o reneguem. I 22.. porém. também o fragmento póstumo 4 (285) do mesmo período. aqui..65 O homem do conhecimento não precisa somente amar seus inimigos.. Cf. Nietzsche retoma. quando pela primeira vez retorna para sua solidão? Exatamente o contrário daquilo que algum ‘sábio’. 1967/1978b. I 17. Prólogo.. 31-35. NIETZSCHE (1883/1885). § 4. 33: “Mas aquele que me negar diante dos homens. a idéia já presente em (1883/1885). Nem um nem outro busca. onde se lê: “Vede os crentes de toda crença! Quem eles odeiam mais? Aquele que quebra suas tábuas de valores. meus discípulos! Também vós. onde se lê: “Sempre escrevi minhas obras com todo o meu corpo e a minha vida. repetidas vezes.71 Nem o autor nem a personagem procura constranger seus interlocutores a seguir um itinerário preciso. Fabricius. 5. obrigatório e programado. Acreditando precisar de amplos horizontes para ter grandes idéias. eu próprio ensinei nesse sentido a história da filosofia antiga. § 1. Prefácio 9. 66 Cf. nenhum daqueles arrepiantes híbridos de doA propósito da necessidade da solidão.66 Paga-se mal a um mestre. e somente quando me tiverdes todos renegado eu voltarei a vós. I 17. 64 ença e vontade de potência que são chamados fundadores de religiões. 2. 67 Esta passagem lembra outra que se encontra nos Ensaios de Emerson. pelo menos é isto o que ele deseja. o quebrador. e se um dia vossa veneração desmoronar? Guardai-vos de que não vos esmague uma estátua!67 Dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa Zaratustra! Sois meus crentes. ele quer ressaltar que reflexão filosófica e vivência se acham intimamente relacionadas. com tudo isso. ide embora. Nietzsche jamais lança mão da linguagem conceitual. num fragmento póstumo. na Basiléia. Tanto é que a Lou Salomé escreve. um sedutor? Mas o que diz ele mesmo. Tanto é que o protagonista diz a um de seus discípulos: “Por quê? Perguntas por quê? Não sou daqueles a quem se tem o direito de perguntar por seu porquê. Cf..”.. Todo ficar só é culpa’ – assim fala o rebanho”. Ibid. 39. comungar vivências. 1967/1978h. 1967/1978b. 1967/1978h. 1967/ 1978b. o autor afirma: “Todas as verdades são para mim verdades sangrentas”. vos digo: Amai os vossos inimigos”. ele sempre apela para sua experiência singular. Doze anos depois.69 Assim fazem todos os crentes. e dizia com prazer a meus ouvintes: ‘tal sistema está refutado e morto – mas a pessoa que se acha por trás dele é irrefutável. p.. Mateus. Prólogo.74 Com isso.72 Recusando teorias e doutrinas. Afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! E. que comenta esta passagem: “Não será Zaratustra. recorre à imagem do sangue. Cf.1978j. 65 Cf.

asfixiá-la sob o peso do incontestável.. notam as estimativas de valor que com esses impulsos se expressam e. ‘O animal mais orgulhoso sob o sol e o animal mais prudente sob o sol – saíram em busca de notícias. Harvard: Harvard University Press. 75 Cf. 77 Caminhando em outra direção. Nada mais afastado de Zaratustra que o propósito de colocar a investigação a serviço da verdade. III 1. em Nietzsche. em especial a última parte) e. Ibid. 79 30 impulso nº 28 .79 “Quero juntar-me aos que criam.. 1967/1978b. só se tem vivências de si mesmo. 1967/1978b. Guiada pela idéia de que “o instinto religioso” sempre governou a “essência” e o “pensamento” do filósofo. 6. os afetos que deles se apoderam. 30. Cantarei minha canção aos solitários ou aos solitários-a-dois. hão de A esse respeito. “Sou um andarilho e um escalador de montanhas. Prefácio 10.77 Ao longo de sua obra. disposições de afetos similares às suas. ele discorreu para a multidão reunida na praça do mercado. que acata sem restrições o que lhe é imposto. sabe que atitude adotar. disse Zaratustra e alegrou-se de todo coração. que Nietzsche escreve. É o caso de Jaspers (cf. 1. Anseiam por quem siga o próprio caminho. 83 No duplo sentido de o conhecimento assentar-se em experiências de vida e implicar fazer experimentos com o pensar. 1950. em particular a primeira parte). Cf. todo conhecimento é experimental. encerrá-lo numa totalidade coesa mas fechada. 7. para um ouvinte apático. de certa maneira. procura entender as possíveis contradições nelas presentes como manifestação de conflitos pessoais. III 5. e também em idem. as idéias que com esses afetos se manifestam. Indispensável. No final do prólogo. Life as literature. 1. § 2-5. uma interpretação redutora de sua filosofia. “‘São os meus animais!’. 9: “Vivências do meu feitio virão também ao encontro de quem for do meu feitio”.. Acolhido com escárnio e zombaria. São as qualidades de seus animais que devem norteá-lo em seu trajeto. 1. em particular a introdução e o primeiro capítulo). o eterno retorno torna-se parte integrante de uma “mística”. 1985. a águia e a serpente vêm ao seu encontro. Nietzsche. Partindo do pressuposto de que. assim. em “desejo de endeusamento de si mesmo”. Nada mais distante de Nietzsche que o projeto de enclausurar o pensamento. Afinal. que entende buscar Nietzsche quem está aberto para comprometer-se com um estilo de vida análogo ao seu. 10.ª ed. Nova Y ork: The World Publishing Co.. o além-do-homem convertese em “representação de uma pura ilusão divina”. estou vivo ainda? Encontrei mais perigos entre os homens que entre os animais. cúmplice do caminho que eles mesmos seguem.75 Propõe. 78 Cf. SALOMÉ. § 16-17. Assim revela não ser exatamente a “alma irmã” tão almejada. Querem saber se Zaratustra ainda vive. além de ter clareza quanto ao que dizer e a quem falar. 1992.83 Novas vivências hão de vir. Ibid. III 3. Ao meio-dia. É outra a relação que contam estabelecer com seus interlocutores. mesmo que por vezes lhe falte a prudência. assim. § 2-3. 1983. todo itinerário é único. 80 Nietzsche faz aqui um jogo de palavras entre Einsiedler (solitário) e Zweisiedler (termo por ele forjado para referir-se à solidão de duas pessoas que estão juntas). Ambos sabem que a experiência de cada um se dá de acordo com o seu feitio. o autor não cessa de buscar quem é do seu feitio. aos que festejam”. Prefácio 9. no limite. que se curva ao que lhe é dito. não é para um leitor conivente.78 Não é. pois.. quem tem vivências análogas às suas. a personagem no decorrer do livro. NIETZSCHE (1883/1885). IV 11. por certo. aprisionando-a na malha de referenciais teóricos que lhe são estranhos. disse ele (Nietzsche/Zaratustra) ao seu coração. 81 NIETZSCHE (1883/1885). A morte de Deus transforma-se. De igual modo.. aos que colhem. Berlim: Walter de Gruyter & Co. assegura Zaratustra. Possam guiar-me os meus animais!’”82 Imprudente. Ibid. perigosos são os caminhos que Zaratustra percorre. determinou-se a falar para companheiros de viagem. philosopher.uma abordagem psicológica dos seus textos.”81 De posse da nova verdade. I 11. 1965. 15. antichrist. Buscam quem experimenta tensões de impulsos. psychologist.”76 Em suas vivências singulares. 25. III. Nietzsche – Einführung in das Verständnis seines Philosophierens.80 e quem ainda tiver ouvidos para o inaudito. obra e vida coincidem.. 1967/1978b. a personagem está pronta para a sua jornada: sabe o que tem a dizer e a quem deve falar. 1967/1978b. também o de Kaufmann (cf. que Zaratustra fala. III 8. será ela que o lembrará do caráter singular do que tem a viver. a autora acaba por fazer uma leitura bastante peculiar de alguns dos temas centrais presentes em sua reflexão. Jogo de palavras similar encontra-se em (1883/ 1885). É sobretudo nisso que consiste o estreito vínculo entre vivência e reflexão filosófica. ainda Ibid. espera que a altivez não o abandone. alguns comentaristas procuraram estabelecer um paralelismo entre o pensamento nietzschiano e a filosofia existencialista ou até chegaram a tomar Nietzsche por precursor do existencialismo. Em verdade. o autor e a personagem percebem os impulsos que deles se apossam. E seja lá o que ainda me venha como destino e vivência – sempre será os de um andarilho e escalador de montanhas: afinal. quero oprimir-lhe o coração com a minha felicidade. 82 Ibid. e. numa palavra. ver Alexander Nehamas (Nietzsche. não gosto das planícies e não posso ficar sentado tranqüilo por muito tempo. 76 NIETZSCHE (1883/1885). “Quero mostrar-lhes o arco-íris e todas as escadas do além-do-homem.

G. Nietzsche’s Zarathustra. Philosopher. A. 1967/1978c. COLLI. Werke. Kritische Studienausgabe. 85 NIETZSCHE (1888). Kritische Studienausgabe. Kritische Studienausgabe. Berlim:Walter de Gruyter & Co. 4. (orgs. A vós.. Ao pintar o retrato do interlocutor tão almejado. 1922. Haessel Verlag. também. Berlim: Walter de Gruyter & Co. Also Sprach Zarathustra. A. Kritische Studienausgabe. 1967/1978f.. um aventureiro e descobridor nato. __________ [1888]. Life as literature.. A vós. Unicamp... __________ [1887]. NIETZSCHE. 5. § 3. 6. Surhomme et homme total. K. JASPERS. Berlim: Walter de Gruyter & Co.. 1967/1978.Charlottenburg: Georg Bürkners. Berlim:Walter de Gruyter & Co. Ecce Homo. 1950. v.84 detestais deduzir”. Werke. 1899-1901.. F. Kritische Studienausgabe. 8. Berlim: Walter de Gruyter & Co. que persuade o mar a subir até a sua altura”. 1907. __________ [1883/1885].transformar o que ele é. & MONTINARI. Werke. ensinei-te de tal sorte a persuadir que persuades as razões mesmas a virem a ti. COLLI. Die fröhliche Wissenschaft. audazes buscadores. em que Zaratustra diz à sua alma: “Ó minha alma.Werke. v.). cauteloso. Kritische Studienausgabe. cuja alma é atraída com flautas a enganosos sorvedouros: pois não quereis tateando seguir um fio com mão covarde. 5. Campinas. e. que se alegram com a luz do crepúsculo. Kritische Studienausgabe. Psychologist. v. Werke. impulso nº 28 31 . Götzen-Dämmerung.). algo suave. De Fall Wagner. Nietzsche. Kritische Studienausgabe.Philadelphia:Temple University Press.. Werke.Stuttgart: Strecker und Schröder. Erläuterung zu Nietzsches Zarathustra. e a quem quer que com ardilosas velas navegou por mares temíveis. __________ [1988]. v. 6. Jenseits von Gut und Böse.85 Cf. 1975/1984. 1967/1978a. 8 v. Berlim: Walter de Gruyter & Co. __________ [1885/1886]. 1967/1978h. 1967/1978g.Harvard: Harvard University Press. In:Manuscrito. G. 3. 2 (1): 1978. Antichrist. Athens: Ohio University Press. NAUMANN. Sämtliche Briefe. III 14. 6. __________ [1988]. Berlim: Walter de Gruyter & Co. G. O. 1967/1978e. v.Berlim:Walter de Gruyter & Co.Kurzer Kommentar zum Zarathustra.M. 1985. LEBRUN. Berlim:Walter de Gruyter & Co. Leipzig: H.Werke. Zarathustra Commentar. HIGGINS. surge sempre um monstro de coragem e curiosidade e.. Kritische Studienausgabe. M. KAUFMANN. ébrios de enigmas. o que tem a dizer e a quem deve falar. Berlim: Walter de Gruyter & Co. v.. ed. Por fim: a quem no fundo me dirijo não saberia dizer melhor do que Zaratustra disse a quem quer contar seu enigma. & MONTINARI. M. NIETZSCHE (1883/1885). 1. Nietzsche – Einführung in das Verständnis seines Philosophierens.. Nietzsche. MESSER. Nova York:The World Publishing Co. v. v. 1967/1978b. Por que escrevo livros tão bons. K. 2-4. NEHAMAS. H. “Quando formo a imagem de um leitor perfeito. tentadores. GRAMZOW. 1967/1978b. 1987. onde podeis adivinhar. G. 1967/1978.. __________ [1881/1882].W. Kritische Studienausgabe. ardiloso.. Berlim: Walter de Gruyter & Co. __________. 84 Referências Bibliográficas ALDERMAN. Zur Genealogie der Moral.Werke. 1977. 1967/ 1978b. Der Antichrist. 6. (orgs. é o seu próprio que pinta Nietzsche/Zaratustra. 1967/ 1978d. Nietzsche’s Gift. igual ao sol. III 2. 1965. __________ [1988]. 15 v. Werke. quanto à citação (1883/1885).10ª.

1922. ed.C. 1967/ 1978l. em português. Leipzig: Felix Meiner. Nachgelassene Fragmente 1880-1882.2ª. São Paulo: Abril Cultural. Cescato. Berlim: Walter de Gruyter & Co. Col. 1992. __________.__________ [1888]. v. SALAQUARDA. R..Zarathustra-Kommentar. Werke. Nietzsche em suas Obras. 6.Discurso. __________. Berlim: Walter de Gruyter & Co. H. ed. Frankfurt am Main: Insel Verlag. M. 28: 167-208.R. Dep. Friedrich Nietzsche in seinen Werken. de Nietzsche.Torres Filho. L. Os Pensadores. v. SALOMÉ. Kritische Studienausgabe. WEICHELT. Zaratustra e o asno.Trad. 1967/1978i. 1978. Obras incompletas.Trad. Berlim: Walter de Gruyter & Co.. 1983. 2ª. Dionysos-Dithyramben.São Paulo. __________. 32 impulso nº 28 .. 9. v. Werke. Werke. J. Nachgelassene Fragmente 1887-1889. Kritische Studienausgabe. 1967/ 1978j. Uma investigação sobre o papel do asno na quarta parte do Assim Falava Zaratustra. Kritische Studienausgabe. 1997. São Paulo: Brasiliense. de Filosofia da USP. 13.

dias@openlink. Palavras-chave EDUCAÇÃO – CULTURA – FILOSOFIA – ESTADO – JORNALISMO. Nietzsche e a Música e As Paixões Tristes: Lupicínio e a dor-de-cotovelo rosa. Abstract This article makes explicit the understanding that Nietzsche had of the culture and education of his time.com. ROSA DIAS Professora adjunta de Estética no Departameto de Filosofia da UERJ. culture and education are inseparable. sendo por isso necessário pensar em novas perspectivas para a educação de modo que ela sirva de alicerce para uma cultura sadia. it is necessary to think of new perspectives for education that will provide a basis for a healthy culture. It shows that for this author. For this reason. Keywords EDUCATION – CULTURE – PHILOSOPHY – STATE – JOURNALISM. Mostra que para esse autor cultura e educação são inseparáveis. Autora de Nietzsche Educacador.CULTURA E EDUCAÇÃO NO PENSAMENTO DE NIETZSCHE CULTURE AND EDUCATION IN THE THINKING OF NIETZSCHE Resumo Este artigo explicita a compreensão que Nietzsche tem da cultura e da educação de sua época.br impulso nº 28 33 .

seus trabalhos compreendidos entre 1870 e 1874. a paciente formação de si – que deveria ser a finalidade de toda cultura –. que nada mais era do que o simulacro de outras culturas. por isso. fazem-se necessárias algumas observações. observou estar diante de um sistema educacional que abandonara uma formação humanista em proveito de uma formação cientificista. principalmente as conferências Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino (1872). preocupou-se com a educação e a cultura. mas foi nos primeiros anos como professor na escola secundária e na Universidade da Basiléia que se debruçou sobre os problemas concretos do ensino secundário e superior. Antes de abordarmos o pensamento de Nietzsche sobre a educação. cultura e educação são sinônimos de “adestramento seletivo” e “formação de si”. Privilegiaremos. ou melhor. é necessário que os indivíduos aprendam determinadas regras. e não personalidades harmoniosamente amadurecidas e desenvolvidas. NIETZSCHE Primavera/verão de 1875 N ietzsche. por tudo isso e para não perder a coerência de seu pensamento. Com fina acuidade. Educação e cultura são. durante toda sua vida. para a existência de uma cultura. as Considerações Extemporâneas – Da utilidade e desvantagem da história para a vida (1874) e Schopenhauer como Educador (1874). Para o filósofo. Nietzsche examina as entranhas do sistema educacional de sua época. Nietzsche decidiu denunciar os “métodos antinaturais de educação” e as tendências que a minavam. não teme ver de diferentes pontos de vista os contrastes que a vida lhe oferece. limitaremos nossa análise ao momento em que Nietzsche explicita de maneira mais detalhada os problemas relacionados à educação e à cultura. Não existe cultura sem um projeto educativo. E é para esses que eu escrevo. A conseqüente vulgarização do ensino tinha por objetivo formar homens tanto quanto possível úteis e rentáveis. adquiram certos hábitos e comecem a educar-se a si mesmos e contra si mesmos. Atento a tudo que se relacionava à formação. que tem um modo próprio de filosofar. nem educação sem uma cultura que a apóie. Em suas conferências Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino. Eles entravam a lenta maturação do indivíduo. exigindo uma formação rápida para terem a seu serviço funcionários eficientes 34 impulso nº 28 . que encontra sua alegria na busca e na transitoriedade e que. assim. contra a educação que lhes foi inculcada. inseparáveis. Percebe que o Estado e os negociantes são os primeiros grandes responsáveis pela depauperação da cultura. para Nietzsche.Educar os educadores! Mas os primeiros devem começar por educar a si próprios. A educação recebida nas escolas alemãs partia de uma concepção historicista e dava origem a uma pseudocultura. Por se tratar do estudo de um filósofo que une pensamento e vida.

Se o professor não conseguir incutir nos jovens estudantes uma aversão física por determinadas palavras e expressões com que os habituaram os jornalistas e os maus romancistas. A tarefa de uma escola de alta qualidade deve ser sempre a de levar o estudante a compreender a importância de estudar seriamente a língua. único caminho para revitalizar a educação e a cultura alemãs.2 Escreve sobre artistas e pensadores e vem tomando o lugar deles. Para ele. daí tanta felicidade quanto possível”. linha a linha. O crescente desprezo pela formação humanística e o aumento da tendência cientificista nas es- impulso nº 28 35 . lançando por terra sua obra. O acesso dos semiletrados ao poder tinha provocado uma drástica redução da riqueza e dignidade da língua. A língua alemã encontrava-se nesse momento contaminada pelo “pretenso estilo elegante” do jornalismo. adverte Nietzsche. Nietzsche examina as instituições de ensino responsáveis pelas diferentes etapas de formação dos ado1 2 NIETZSCHE. isto é. NIETZSCHE. “o escravo dos três M: o momento presente. cuja fórmula é mais ou menos a seguinte: “Tanto conhecimento e cultura quanto possível. a escola técnica e a universidade –. A cultura ampliada. e sobrepujam o tempo pela força da criação.º e 2. 666. tanta produção e necessidade quanto possível. Logo. a da redução da cultura. Se ela entrar em declínio. Nietzsche tem muito a dizer. a se perguntarem qual profissão devem escolher e a fazerem más escolhas.º graus do currículo brasileiro). mas sim fazê-lo construir determinados princípios a partir dos quais possa crescer por si mesmo. e exige que seus servidores procurem uma especialização. logo. é necessário analisar os clássicos. Significa torná-lo senhor de seu idioma e possibilitálo a construir uma língua artística a partir dos trabalhos que o precederam. a da ampliação máxima. que aprendam rapidamente a ganhar dinheiro. no entanto.ª a 8. toda renovação deveria começar pelo gymnasium. O jornalista. Mas isso não é tudo. A primeira tendência. “o mestre do instante”. 1988d. Mas enquanto o jornalista vive do instante e graças ao gênio de outros homens. tem a pretensão de julgar que o direito à cultura seja acessível a todos. talvez a mais importante. as maneiras de pensar (Meinungen) e a moda. ainda não se fizera nada por essa etapa de formação dos estudantes. Tal pressa indecorosa leva os estudantes. Ele reconhece a necessidade de um maior investimento na aprendizagem da língua materna e da arte de escrever – tarefas das mais essenciais da escola secundária. hoje 5. ela é a confluência das duas tendências anteriores.e estudantes dóceis. a cultura especializada e a cultura jornalística se completam para formar uma só e mesma incultura. é melhor.ª séries do 1. é regulamentada pelo dogma da economia política. renunciar à cultura. isto é. p. as grandes obras dos grandes artistas emanam do desejo de permanecer. A cultura jornalística. disciplina. admite a possibilidade de que os indivíduos consagrem sua vida à defesa dos interesses do Estado. Com o propósito de restaurar a cultura alemã. interior e exteriormente. vai substituindo aos poucos a verdadeira cultura. e estimular os alunos a procurar exprimir o mesmo pensamento várias vezes e cada vez melhor. 1988b. palavra por palavra. Para o filósofo. lescentes – gymnasium (equivale aos antigos ginásio e colegial.1 A segunda tendência. denuncia o mal que as envenena e indica remédios para combatê-lo. A questão. segundo Nietzsche. o lugar onde se encontram e dão as mãos. perder sua força vital. sejam “fiéis às pequenas coisas” e ao Estado. Isso leva Nietzsche a reconhecer a presença de duas tendências no sistema educacional de sua época que nada mais fazem do que trabalhar para o enfraquecimento da cultura: a da ampliação máxima da cultura e a da redução máxima. Quanto ao gymnasium. Todavia. Para isso. encontra-se a cultura jornalística. Aliada a essas duas tendências. numa idade em que ainda não estão amadurecidos o suficiente. não era apenas de pobreza vocabular – tratava-se também da má utilização dos recursos oferecidos pela língua. pois vai se refletir nas fases posteriores do aprendizado. conseqüentemente a cultura tenderá a se degenerar. Disciplinar lingüisticamente o jovem não significa acumulá-lo de conhecimentos históricos acerca da língua. 35 [12]. passa com pressa e ligeiramente sobre as coisas”. A educação começa com hábito e obediência.

colas, a instrução dirigida por questões históricas e científicas e não por um ensinamento prático, o abandono do ensino que vise à formação de um sentido artístico da língua em favor de um duvidoso estilo jornalístico, a ênfase dada à profissionalização no intuito de criar pessoas aptas a ganhar dinheiro, tudo isso impede que o sistema educacional se volte para a cultura. Deve ser ressaltado que Nietzsche não vê com hostilidade a implantação e a proliferação na Alemanha das escolas técnicas. Pelo contrário, ali, os indivíduos aprendem a calcular convenientemente, a dominar a linguagem para a comunicação e adquirem conhecimentos naturais e geográficos. De certo modo, elas cumprem, e com retidão, seu objetivo, que é o de formar negociantes, funcionários, oficiais, agrônomos, médicos e técnicos. Entretanto, o que Nietzsche censura ao afirmar que “a cultura não é serva do ganha pão e da necessidade” é o fato de o gymnasium e a universidade terem se voltado para a profissionalização e, apesar disso, continuarem a acreditar que são lugares destinados à cultura, quando na verdade não se distinguem muito da escola técnica em seus objetivos. Nietzsche também não poupa críticas ao ensino superior: “Uma boca que fala, muitos ouvidos e menos da metade de mãos que escrevem – eis o aparelho acadêmico aparente, eis a máquina de cultura da universidade posta em atividade”.3 O professor fala. O aluno escuta. “Liberdade acadêmica” é o nome que se dá a esta dupla autonomia: de um lado, uma boca autônoma; de outro, orelhas autônomas. Atrás desses dois grupos, a uma relativa distância, está o vigilante Estado, lembrando, de tempo em tempo, que deve ser ele “o objetivo, o fim e a quintaessência desses procedimentos de fala e de audição”.4 O estilo “acroamático” de ensino, que privilegia a exposição oral do professor e a audição do aluno, é, justamente, o oposto do que Nietzsche entende que deva ser a educação na universidade. Ali, onde se deveria exigir do aluno um treinamento rigoroso, inventou-se a autonomia. Tal autonomia nada mais é do que a domesticação do aluno para
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NIETZSCHE, 1988d, p. 732. Idem.

torná-lo uma criatura dócil e submissa aos interesses do Estado e da burguesia. Assim é necessário conter a tendência histórico-científica e profissionalizante na universidade – tendência que exige da educação um preparo mais rápido, aprofundado apenas o bastante para transformar os indivíduos em servidores eficientes e fazer com que a instituição se volte para os problemas da cultura, ou seja, para as questões essenciais colocadas pela condição humana. Dessa forma, Nietzsche propõe que se investigue como essas questões estão colocadas no conjunto da arte e da filosofia, as únicas disciplinas capazes de moderar a feição histórico-científica que se espalha na universidade. A universidade, porém, não tem nenhum comportamento que indique seu apreço pela arte. Isso não quer dizer que em seu espaço não haja professores com inclinação ou gosto pela arte. O problema é que, apesar de existirem matérias que ensinem história da arte, a universidade não pode dar ao estudante uma instrução artística. E para que poderia servir a instrução artística para o jovem? Em uma única palavra: para a vida. A arte disciplina o “instinto desenfreado de conhecimento” que domina todos os outros instintos a ponto de colocar a vida em perigo. Uma “instrução artística” na universidade contrabalançaria os efeitos nefastos da compulsão de saber a qualquer preço, e disciplinaria o instinto de conhecimento e a própria ciência. Já que a ciência, na maioria das vezes, ao querer conhecer a vida custe o que custar, “destrói as ilusões” que ajudam o homem a viver. Incapaz de dar sentido e beleza à existência, de considerar a vida em seu conjunto, coloca por terra o único ambiente em que se pode viver. Ao instinto desenfreado da ciência, que tudo quer conhecer, que revira a vida e a vasculha em seus mínimos detalhes, Nietzsche opõe a arte. Esta, ao contrário da ciência, não se interessa por tudo o que é real, não quer tudo ver nem tudo reter – é anticientífica. Mais importante ainda: a arte, em lugar de dissecar a vida, é fonte de dissimulação. Numa época em que vida e cultura estão separadas, a arte tem um papel fundamental: afirma a vida em seu conjunto. Reforça certos traços, deforma outros, omite muitos outros, tudo em função da vida, da transfigura-

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ção do real. Em suma, a arte nos liberta, ao passo que a dura e cotidiana experiência do real nos submete. Não se pode extrair da exposição de Nietzsche um projeto de instrução artística do jovem universitário, como foi feito em relação ao ensino da língua. Mas, embora não indique explicitamente como deve ser realizada uma tal instrução, Nietzsche deixa bem clara a sua finalidade. Por meio dessa educação para a arte, o jovem universitário seria capaz de, primeiro, contestar a pretensão científica de tudo conhecer; segundo, conduzir o conhecimento de modo a fazê-lo servir a uma melhor forma de vida; terceiro, devolver à vida as ilusões que lhe foram confiscadas; quarto, restituir à arte o direito de continuar a cobrir a vida com os véus que a embelezam. Todavia, a universidade alemã não soube dar um ensino artístico nem teve interesse em conter, por meio da arte, as tendências cientificistas. Dessa forma, em vez de a arte servir como antídoto à contaminação da cultura pela ciência, o erudito serviu-se dos métodos científicos para investigar a arte. A música, diz ele, é objeto de dissecação, como se fosse possível analisar com erudição o êxtase. É desse modo que os professores universitários demostram seu apreço pela arte: apresentando-se como seus peritos, quando, na verdade, gostariam de suprimí-la. Se a universidade não abre suas portas para a arte, também não as abre para a filosofia. A esse respeito, a tese principal de Nietzsche é a seguinte: o ensino universitário da filosofia não prepara o estudante para pensar, agir e viver filosoficamente; pelo contrário, o “instinto natural filosófico” é imobilizado pela cultura histórica. Na universidade, a filosofia está “política e policialmente limitada à aparência erudita”. Por isso, “permanece no suspiro ‘mas se...’, ou no reconhecimento: era uma vez”.5 As questões históricas introduziram-se de tal modo na filosofia universitária que esta se resume a perguntas como: o que pensa tal ou qual filósofo? merecerá tal lição ser realmente aprendida? é ela realmente um estudo de filosofia?6 Essa maneira de
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tratar a matéria desenraizou a filosofia universitária de todos os problemas fundamentais. Em lugar de levar os estudantes a levantarem questões sobre a existência, preocupa-se com as minúcias da história da filosofia. Assim, a filosofia reduz-se a um ramo da filologia. Em conseqüência, do mesmo modo que a filologia está interessada apenas nas etimologias e não em um trabalho com a palavra viva, a filosofia restringe-se a estudar o pensamento morto, que não mais serve à vida. A crítica de Nietzsche à filosofia universitária (que aparece na mesma época da Extemporâneas e de Sobre o Futuro de nossos Estabelecimentos de Ensino) está sob a influência de Schopenhauer, no texto “Sobre a filosofia universitária”, que faz parte de seu livro Parerga e Paraliponema, publicado em 1851. Em breves palavras, pode-se dizer que, para Schopenhauer, não existem filósofos na universidade, mas professores que vivem da filosofia, interessados em pensar no que seus interesses materiais exigem e no que convém ao Estado e à religião.7 Nietzsche retoma e aprofunda as críticas de Schopenhauer quanto à relação da filosofia com o Estado e a cultura histórica. Assim como Schopenhauer, ele acha que não existem filósofos universitários, mas apenas professores de filosofia, engrenagens úteis à sobrevivência da maquinaria do Estado. Para ele, o filósofo universitário é um anti-sábio por excelência. É um filósofo do Estado, da religião, colecionador dos valores em curso, funcionário da história, que se mascara com a filosofia para sobreviver. O que os filósofos universitários não haviam percebido é que o Estado moderno não era mais aquele idealizado por Platão. Este considerava necessária a criação de um organismo social completamente novo, no qual a formação do jovem ateniense não dependesse dos pais (que consideravam loucura a vocação filosófica dos filhos e, por isso, condenaram Sócrates a tomar cicuta, sob a acusação de “corromper a juventude”). Mas o Estado moderno, a que as almas se devotam completamente, como a abelha à colméia, não tem nenhuma intenção de criar novos Platões.
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NIETZSCHE, 1988c, p. 265. NIETZSCHE, 1988d, p. 743.

NIETZSCHE, 1988c, p. 411.

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Se a natureza lança os filósofos como uma flecha para atingir um alvo, deveria ser dever do Estado ajudá-la nesse processo, interferindo na cultura e na organização social. Mas acontece justamente o contrário. Quem impede a produção e perpetuação dos filósofos são os próprios filósofos universitários, que vivem do Estado. Quando o Estado promove a filosofia, favorece um certo número de homens que podem viver de sua filosofia, transformando-a num ganha-pão. Ora, como se acredita que quem vive de algum ofício também dele entende, os professores se comportam diante do público como mestres do assunto, especialistas em filosofia, e, portanto, verdadeiros filósofos, que podem escolher e ensinar o que julgam ser digno da atenção de suas audiências. Nietzsche crê que Platão e Schopenhauer jamais poderiam ter sido filósofos universitários. Representariam um perigo para o Estado: “Em qualquer lugar em que tenha havido sociedades, governos, religiões, opiniões públicas poderosas, em resumo, em qualquer lugar onde tenha havido tirania, ela execrou o filósofo solitário, pois a filosofia oferece ao homem um asilo onde nenhuma tirania pode penetrar, a caverna da interioridade, o labirinto do coração, o que não agrada aos tiranos”.8 O Estado teme os filósofos e a filosofia em geral. Por isso, tenta atrair para si o maior número de filósofos universitários “que lhe dêem a impressão de ter a filosofia a seu lado”.9 Mas será que os filósofos se deram conta dos compromissos e restrições que teriam de suportar ao se submeterem? Em alguns professores, a pergunta agirá como dinamite, “mas a maioria se contentará em sacudir os ombros e dizer: por acaso pode-se ser grande e puro nessa terra sem fazer concessão à baixeza humana?”.10 Esse compromisso com o Estado coloca em perigo o futuro da filosofia. Primeiro, porque é o Estado quem escolhe seus servidores filosóficos, na exata proporção de sua necessidade de preencher os quadros das instituições; além disso, outorga-se a competência de escolher quem são bons e maus fi8 9

NIETZSCHE, 1988c, p. 411. Idem. 10 Idem.

lósofos; segundo, porque obriga os professores a permanecerem nos seus postos e instruírem todo jovem que deseja seus serviços, e isso em um horário fixado de antemão. Nietzsche pergunta: pode um filósofo, de boa fé, comprometer-se a, diariamente, ensinar alguma coisa? “E a ensiná-la diante de qualquer um que queira ouvir? Ele não tem de se dar a aparência de saber mais do que sabe? Não tem de falar diante de um auditório desconhecido sobre coisas que somente com o amigo mais próximo poderia falar sem perigo? E, em geral: não se despoja de sua esplêndida liberdade, a de seguir seu gênio, quando esse chama e para onde chama, por estar comprometido a pensar publicamente, em horas, sobre algo pré-determinado? E isso diante de jovens! Um tal pensar não está de antemão como que emasculado? Um dia, ele poderia sentir: hoje não consigo pensar em nada, não me ocorre nada que preste – e apesar disso teria de se apresentar e parecer pensar!”11 Para Nietzsche, o esquema acadêmico foi tão bem montado pelo Estado que não permite ao professor sofrer com a falta do que dizer, pois nem o professor nem o aluno pensam por si mesmos. A cultura histórica e científica foi planejada pelo sistema universitário para preencher qualquer lacuna. Há mesmo quem acredite que o filósofo universitário não precisa ser um pensador, constituindo, no máximo, “um repensador e um pós-pensador”, um conhecedor erudito de todos os pensadores, com os quais poderá contar para poder dizer algo aos seus alunos. Esta é, segundo Nietzsche, a concessão mais perigosa que os filósofos fazem ao Estado. Comprometem-se a fazer o papel do historiador da filosofia. Ao empregar todo o seu tempo em conhecer apenas sistemas que a história apresenta como sendo dignos da atenção de todos, veneram o passado e devotam à morte as novas idéias que não receberam o selo da consagração. “A história erudita do passado nunca foi a ocupação de um filósofo verdadeiro, nem na Índia nem na Grécia; o professor de filosofia, ao se ocupar com um trabalho dessa espécie, tem de aceitar que se diga dele, no melhor dos
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Idem.

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O pior perigo que o filósofo corre numa sociedade enferma é ter o destino de um viajante solitário. mas tudo isso dentro dos limites da história da filosofia. livros. 404. que teme ver abalado tudo o que o mantém vivo. 15 NIETZSCHE. detestavelmente fastidiosos. Nietzsche insiste em que a filosofia se desvincule do Estado. pudesse falar e defender-se. nunca verá as coisas pela primeira vez e nunca será ele próprio uma tal coisa vista pela primeira vez”. no melhor dos casos. mas para a prova de filosofia. 1988a. diante da maioria dos trabalhos de erudição feitos por filósofos universitários. o filósofo tinha o poder de denunciar o perigo que a sociedade corria e encontrar belas possibilidades de vida.13 Em vez de educar o estudante para pensar e viver filosoficamente. o mais das vezes. nasceu para a história. A filosofia podia ser esse tribunal. Mas a filosofia e o artista reclamam seus direitos. um pensamento concebido como universal. 1988c.15 Em Schopenhauer como Educador. NIETZSCHE. 350. desvinculado da vida e das forças vitais. conhecedor de línguas.14 Nietzsche observa. Enquanto o filósofo não estiver ligado à sociedade por uma necessidade indestrutível. isto é. 12 13 14 Idem. pois. 833. Dessa forma. como se eu fosse a pecadora e vós os meus juízes? Vede minha irmã. dos valores correntes e da ordem estabelecida: “A verdade aparece como uma criatura bonachona e amiga das comodidades.”12 Pensa-se. conceitos. E a verdade que os filósofos julgam ser a origem de todas as suas buscas não passa de uma verdade a serviço do Estado. é verdade. impulso nº 28 39 . a Arte! Ela está como eu. opiniões. justa causa. como restituir-lhe seus direitos? Em A Filosofia na Época Trágica dos Gregos. um filólogo tem o sentimento de que são malfeitos. forçado a abrir caminho num ambiente hostil. p. 1988c. a não ser engendrar uma filosofia doente. como os poetas trágicos. Sem poderes conferidos pelo Estado e sem honras. Tem contra si o espírito gregário organizado. abstrato. p. disciplinando-o contra a compulsão do saber. que dá sem cessar a todos os poderes estabelecidos a segurança de que jamais causará a alguém o menor embaraço. pouco pode fazer pela cultura. isto é. ensina-se filosofia. mas com a condição de que ela. neutro. Nietzsche incita o homem corajoso a repudiar e banir a filosofia com palavras semelhantes às que Platão se utilizou para expulsar os poetas trágicos de seu Estado. Se a filosofia deixou de ter um lugar ao sol. Ela poderia dizer. A fim de restituir-lhe esse poder. poderia prestar seu espírito livre do espírito do tempo e do temor inspirado pelo tempo.casos: é um competente filólogo antiquário. fala-se. p. Aqui nos falta. ao invés de atrair pessoas para a atividade de pensar. quem. Nietzsche propõe a instauração de um tribunal superior que vigie e julgue a cultura que a universidade desenvolve e divulga. o ensino universitário acaba por desencorajá-lo a ter opiniões próprias em função da massa de conhecimentos históricos que é obrigado a assimilar. ela é apenas ciência pura”. uma ciência pura. caímos entre os bárbaros e não sabemos mais nos salvar. e então ficareis sabendo vós também o que a Filosofia quer e pode”. Na civilização grega. cumpre-se o desejo do Estado. então: “Povo miserável! É culpa minha se em vosso meio vaguei como uma cigana pelos campos e tenho de me esconder e disfarçar. NIETZSCHE. ainda. pois. E isso. passados. furtivamente ou aos empurrões e de punhos cerrados. que teme o desconhecido e os que pensam por si mesmos. Para ele. A universidade não está voltada para a educação filosófica. A filosofia universitária tornou-se. historiador – mas nunca um filósofo. mas os juízes diante dos quais encontraremos justiça têm também jurisdição sobre vós. enquanto não tiver ao seu redor uma sociedade sadia. a partir das experiências renovadoras: “Quem deixa que se interponham entre si as coisas. e vos dirão: Tende antes uma civilização. afasta-as. escreve-se. que uma cultura decadente pouco pode fazer pelo pensamento. nas mãos de uma multidão de pensadores puros. sem rigor científico e. Assim. a não ser denunciar o que a torna doente e o que a destrói. portanto. no sentido mais amplo. o filósofo é um centro de forças imensas que modifica todo “o sistema das preocupações humanas” e põe em perigo o que quer se manter gregário. afinal de contas.

suicidou-se. Berlin/New York:Walter de Gryter. In KSA. v. arqueólogo e teólogo –. v. 35 [12]. Berlin/New York:Walter de Gryter. pois terão de substituir um sistema educacional que tem suas raízes na Idade Média por um outro ideal de formação. morreu louco. v. deverão iniciar a tarefa sem demora. 1988e. _____________. mas não levam em conta aquilo que o obrigou à universalidade: a miséria. e Hölderlin (17701779). Berlin/New York:Walter de Gryter. que o acompanhou durante toda a sua vida. Com isso. Die Philosophie im tragischen Zeitalter der Griechen. Kleist (1777– 1811).A vida precisa de uma cultura sadia. 1988b _____________. Berlin/ New York:Walter de Gryter. Nietzsche tem uma resposta: os que perguntam dessa maneira raciocinam historicamente e erigem dogmas para não favorecer o gênio. o canto de um solitário? Ouçam Beethoven (1770-1827). e estabelece-se o raciocínio de que tudo já está feito. de seus sofrimentos está gravado nas rugas de seus rostos. Schopenhauer (1788-1860). nunca precisou delas. já que dela depende toda uma geração futura. pergunta ainda Nietzsche. 1988c. Quanto a esse aspecto. Referências Bibliográficas NIETZSCHE. Será. ainda. haja visto o número de monumentos com que. seja ela falsa ou verdadeira. já que os gênios. Querem ouvir. e. 1. 1. pergunta Nietzsche. Wag- ner (1813-1883) sobreviveram graças ao fato de serem da “natureza do bronze”. In KSA v.Von Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben. prova a necessidade de criar instituições para educar o corpo e o espírito do indivíduo. os alemães deveriam lamentar que esse homem tenha sido obrigado a resistir num mundo de inércia. Contudo. Ueber die Zukunft unserer Bildungsanstalten. 40 impulso nº 28 . Nietzsche deixa claro o tratamento que os alemães dão aos seus gênios e quebra o dogma de que não seria preciso fazer nada por eles. Essa veneração serve para camuflar a incapacidade de tirar proveito do passado e para livrar-se do peso de fazer alguma coisa para o que vive e o que quer nascer. formados a partir da necessidade interna da fusão entre vida e cultura e capazes de exercer toda a potencialidade de seu espírito. Mas ao se deduzir daí que não é preciso fazer nada por ele. mas devem ser criadas. para nascer.In KSA v. Isso significará um enorme esforço para os que se propõem a trabalhar para a cultura. por todo o país. continuariam nascendo. Nietzsche vê esconderse o ódio dos “filisteus” contra a grandeza que está à vista. mas o efeito de suas lutas. In KSA. crescendo no solo de uma cultura nacional. _____________. Elas não existem ainda. F. 7. A essa possível objeção. para isso. 1988a. _____________. nem das “muletas da cultura”. poder-se-ia perguntar por que Nietzsche vê como necessárias instituições para criar o gênio já que o gênio. forçado a polemizar sem descanso. A música de Beethoven serve para lembrar aos alemães que os espíritos de que se orgulham foram prematuramente sufocados por não encontrarem acolhida na cultura que os rodeava. Não devem ter por objetivo criar o pequeno-burguês que aspira a um posto de funcionário ou a um ganha-pão qualquer. Elogiam a polivalência de Lessing (1729-1781) – crítico e poeta. 1988d. são imprescindíveis instituições de ensino voltadas para a cultura. condena-se à morte tudo o que vive. se honra a sua memória. que os alemães podem pronunciar o nome de Schiller (17591805) sem corar? Será que a cor de sua face tingida pela morte não diz nada aos que o elogiam? Por trás dos elogios e das honrarias. Nachgelassene Fragmente 1869/1874. 1. incentivando-o a cultivar-se e tornando-o capaz de abrigar e proteger o gênio. apesar de tudo. ajudar a natureza na criação do filósofo e do artista e protegê-lo da “conspiração do silêncio” com que sua época o exclui. Schopenhauer als Erzieher. In KSA. Não resta dúvida de que os alemães estão contentes com seus gênios. o “Werther da Grécia”. Estas instituições devem. 1. por exemplo. ao contrário. precisam voltar-se para a criação de indivíduos realmente cultos. Com todos esses argumentos. Berlin/New York:Walter de Gryter. Como Goethe. Goethe (1749-1832).

br impulso nº 28 41 . Neste texto. que irá apontar que o cristianismo é apenas uma interpretação moral. Palavras-chave MÉTODO – CRISTIANISMO – FILOLOGIA – GENEALOGIA – INTERPRETAÇÃO. e pela genealogia. Procuraremos mostrar que este método é composto pela filologia. Abstract The definition and choice of a method has become a central problem in the process of investigating reality. Defining the method is a first step in doing research about a subject. we attempt to point to a Nietzschean method for his radical critique of Christianity.O MÉTODO NIETZSCHIANO DE CRÍTICA AO CRISTIANISMO: filologia e genealogia THE NIETZSCHEAN METHOD OF CRITICIZING CHRISTIANITY: philology and genealogy Resumo A definição e escolha de um método tornou-se um problema central no processo de investigação de uma realidade. MÁRCIO DANELON Professor de Filosofia na UNIMEP e de Ética no Curso de Direito da Uniclar. Doutorando em Filosofia da Educação na Unicamp madanelo@unimep. and of genealogy that will show the apostle Paulo as responsible for this interpretation. We are trying to show that this method is composed of philology that will show that Christianity is only a moral interpretation. In this paper. procuraremos apontar um método nietzschiano para sua crítica radical ao cristianismo. Definir o método é o primeiro passo para a pesquisa sobre um objeto. que apontará o apóstolo Paulo como o responsável por esta interpretação. Keywords METHOD – CHRISTIANITY – PHILOLOGY – GENEALOGY – INTERPRETATION.

131. com que espécie de ações se relacionam elas. 2. e mais fáceis. preferes desenvolver toda a tese que queres demonstrar numa longa exposição ou empregar o método interrogativo de que. O método torna possível. mais especificamente o livro VI 504. conforme afirma no De Ma1 2 3 4 Ver. Neste texto. Já em Platão. e 3. se misturam. A questão do método é tema central e recorrente na filosofia. pois. Tem-se um método quando se segue um determinado caminho que conduzirá a um determinado fim. e em todo lugar. devemos entender o método como o caminho que ilumina a alma no processo de conhecimento de um objeto. um recorte etimológico no termo método. No início do período medieval. se servia o próprio Parmênides”. encontramos na filosofia de Santo Agostinho elementos de uma discussão acerca do método e do conhecimento. ao desvelamento do real. Para este filósofo. na fala de Sócrates: “Não queiras. 1987. antes de conceituar o real – definir o que é sofista – propõe um método para tal empreitada: “Não é nada fácil saber o que são as pessoas. o estrangeiro. que ficou eternizado na história da filosofia. o termo método aparece em seus diálogos. a apreensão do real através de conceitos. ao refletir sobre a justiça no livro V. p. encontramos em Aristóteles o emprego do termo método. Em Santo Agostinho. para levar a bom termo as grandes obras é o de que se deve procurar. p. primeiramente. recusar-te ao primeiro favor que te pedimos. e dizer o que é o sofista. Mas dizenos antes se. Assim. entre outros atributos. o conhecimento e a fé não se encontram separados.2 Mais adiante. Teeteto e Teodoro. ao contrário. estrangeiro.. em dias distantes. o caminhar por entre os edifícios culturais. 1987. 42 impulso nº 28 . de costume. 130.1 No Sofista. por exemplo. ensaiar em pequenos exemplos.3 Ainda na filosofia grega. a palavra método aparece nas tentativas de definição do que é sofista. Mas o método aceito por todos. A República. dentro do cenário conceitual da filosofia. ou seja. durante o diálogo entre Sócrates.P ara adentrarmos no método nietzschiano de crítica ao cristianismo faremos. entre que extremos o ato justo é intermediário”. 81. PLATÃO. por sua inigualável produção intelectual e sua grande capacidade de sistematizar e organizar o conhecimento. o conhecimento pode ser de dois tipos: referente às coisas sensíveis e às coisas inteligíveis. o estrangeiro. então. por entre o mato fechado de uma realidade velada. não existindo uma oposição entre Filosofia e Teologia. No livro Ética a Nicômaco. que espécie de meio-termo é a justiça. objeto de nossa análise. Este assume a forma de uma trilha cujo objetivo é conduzir. p. propõe um método – a divisão deste problema em três partes: “No que toca à justiça e à injustiça devemos considerar: 1. Ibid.4 Este método de divisão de um problema em partes para seu conhecimento é coerente com a própria filosofia de Aristóteles. ARISTÓTELES. mas. 1987. Aristóteles. Metá-odós significa através do caminho. antes de chegar propriamente aos temas grandiosos”. previamente.

p. proporcionar maior controle sobre a natureza e uma melhor forma de vida. julga. atinge a verdade imutável e eterna. este somente é produzido pelo processo de reflexão interior. é através da iluminaçhão divina que o homem. pela necessidade. o conhecimento verdadeiro não é de ordem sensível e nem mesmo inteligível natural. mas produzido por uma inteligência que seja. Chamamos às primeiras ‘sensíveis’. a ponto de constituir-se no cerne do debate filosófico da modernidade. raciocina. a construção e definição de um método para o conhecimento da realidade ganha posição de destaque na produção filosófica da época. Desse modo. ou. iluminada. faz uma análise crítica do método até então empregado na produção do conhecimento. impreterivelmente. pela ordem do universo. se sintam obrigados a renunciar às suas noções e comecem a habituar-se ao trato direto das coisas”. Ainda na Idade Média. 4. Nesse sentido. em que o homem. munido das informações sensíveis. Em função das radicais transformações político-sociais. que consiste no saltar-se das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e.6 São Tomás admite que certos conhecimentos somente são possíveis através da iluminação divina. mas parte dos dados da sensação. portanto. Segundo esse pensador. ascendendo contínua e gradualmente 7 AGOSTINHO. descobrirem-se os axiomas intermediários a partir desses princípios e de sua inamomível verdade. p. BACON. 1973. pelo movimento. 3. Porém.5 Quando se refere às coisas sensíveis. está posto o processo de auto-reflexão proposto por Santo Agostinho. Esses dados formam a matéria-prima com a qual o intelecto vai trabalhar na formação dos conceitos. esquematicamente. abstrai. por meio da conciliação fé/razão.gistro: “Pois todas as coisas que percebemos. que recolhe os axiomas dos dados dos sentidos e particulares. 352. Para ele. 1973. desde a filosofia grega. mais precisamente a partir do século XVI que o método ganha amplitude. entende. a razão fundamentar os conhecimentos da fé.7 No mesmo texto. porém já em seu término. todo conhecimento produzido pelo homem deveria ter fins utilitários. impulso nº 28 43 . este conhecimento não prescinde do corpo. o segundo 5 6 momento é o intelectivo. e perpassa a Idade Média. a seguir. A outra. Assim. No Novum Organum. Nesse sentido. Para São Tomás. 5. em síntese. ou seja. a verdade em São Tomás seria a identificação do conceito – racional/empírico – com a realidade. é possível uma confluência entre fé e razão na produção do conhecimento. Francis Bacon foi um dos primeiros a elaborar um método para a aquisição do conhecimento. chega à essência das coisas. percebemo-las ou pelos sentidos do corpo ou pela mente. Já são consagradas as famosas cinco provas da existência de Deus que São Tomás desenvolve na Suma T eológica e que. 2. A problemática do método está presente. por um processo inteligível interno. que coleta os dados do mundo natural. o fundamento de toda verdade. Quando o conhecimento se refere às coisas “do espírito”. Uma. pela noção de causa. Esta é a que ora se segue. encontramos em São Tomás de Aquino uma importante reflexão sobre o conhecimento e o método. É da função intelectiva da alma que se pode chegar ao tipo de conhecimento acessível à razão. às primeiras ‘carnais’ e às segundas ‘espirituais’”. a fim de que eles. pois remete a esses dois planos da produção do conhecimento. o ser humano é composto de duas substâncias: corpo e alma. os sentidos fornecem as informações e as imagens que são conduzidas até a memória incumbida de as reorganizarem. econômicas e tecnológicas ocorridas naquele período. 26. e do advento das ciências naturais a partir do século XVII. deveria estar a serviço do homem. Bacon coloca a necessidade de um método para o conhecimento: “Resta-nos um único e simples método para alcançar os nossos intentos: levar os homens aos próprios fatos particulares e às suas séries e ordens. São Tomás aceita. Em tal conhecimento. às segundas ‘inteligíveis’. então. o conhecimento é racional/empírico. O primeiro momento da elaboração do conhecimento cabe ao sensível. para falar segundo costumam os nossos autores. Mas é na Idade Moderna. por si mesmos. Deus seria. e propõe um novo caminho: Só há e só pode haver duas vias para a investigação e para a descoberta da verdade. pela noção de perfeição. descrevemos: 1.

14 Na esteira dessa discussão moderna.) Assim. um método para bem conduzir nossa razão: Por esta causa. (. como por degraus.10 E. desde que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de observá-los. expõe o seu conceito a respeito: “Quanto ao método.15 pela certeza e clareza dos juízos alcançados por ela. Esses três são a lógica.. 22. 37-38. os princípios de máxima generalidade. (.) E o último. 1990. o de conduzir por ordem meus pensamentos. de um lado.11 Descartes produziu obras específicas sobre o método. Bacon denomina método indutivo: Na constituição de axiomas por meio dessa indução. pouco a pouco. o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. irão servir como uma espécie de garantia. jamais tomar o falso por verdadeiro e. em vez desse grande número de preceitos de que se compõe a Lógica. começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer. 44 impulso nº 28 . na mesma regra.) O segundo.9 ram a considerações e máximas. Dessa forma. que me conduzi8 9 Este método. pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento e de alçá-lo. 22.12 Refletindo sobre o próprio caminho filosófico que o conduziu do estudo das Letras à Matemática. Descartes afirma na regra IV a importância do método: “O método é necessário para a busca da verdade”. de que formei um método. a partir dessa reflexão. 14 DESCARTES. Descartes propõe. Descartes foi. por seu turno. p.. 19. e que tem como subtítulo Para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências. com as quais Descartes rompeu. p. o verdadeiro conhecimento de tudo que será capaz de conhecer”. de evitar cuidadosamente a precipitação e prevenção. em certos caminhos. para subir. porém ainda não instaurado. eu entendo. isto é. ao mais alto ponto”. em síntese. na regra XIV: DESCARTES. o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir. 10 DESCARTES. entre elas Regras para a Direção do Espírito e Discurso do Método. será evitado que se fique adstrito aos fatos particulares já conhecidos. 13 12 Ibid. p. (. em último lugar. Descartes está falando desde o campo da matemática como método. 18. 1987. além de regras certas e fáceis que a exata observação permitirá. Este é o verdadeiro caminho. a geometria e a álgebra. p. pensei ser mister procurar algum outro método que. uma das principais obras da literatura filosófica.. pp. Ibid. em Descartes. julguei que me bastariam os quatro seguintes. compreendendo as vantagens deste três. um dos principais filósofos a refletir sobre o tema.13 fôsse isento de seus defeitos. 11 Ibid. é necessário que se proceda a um exame ou prova: deve-se verificar se o axioma que se constitui é adequado e está na exata medida dos fatos particulares de que foi extraído. 1987.até alcançar. até o conhecimento dos mais compostos. constitui-se no método da matemática.. se não os excede em amplitude e latitude. através de um aumento gradual e contínuo do saber. Isso fica bastante claro. 29. p.. pouco a pouco. No texto Regras para a Direção do Espírito. que se cinja a sombras ou formas abstratas em lugar de coisas sólidas e determinadas na matéria. alcançar. desde a juventude.8 Este novo método. e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito. O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal. junto com os empiristas. Já na primeira parte Descartes coloca a questão: “Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de me haver encontrado. de outro. O terceiro.. se é confirmado com a designação de novos fatos particulares que.. a não importa quem. justamente pelo rigor e pela certeza que ela contém. diferentemente das letras.. sem despender inutilmente nenhum esforço da inteligência..

mas são estes sobretudo os que devemos estudar. Cito Granger: “As regras do método que o filósofo quer aplicar universalmente não aparecem em parte alguma de maneira mais manifesta do que no raciocínio matemático. somente em consideração etimológica. Neste capítulo. Kaufmann esclarece que o método de Nietzsche escrever através de aforismos não tem nenhum compromisso com a sistematização. nos abstemos quanto à intricada discussão secular da filosofia sobre o método. como um método que usou para elaborar suas reflexões críticas sobre a ciência. DESCARTES. Introdução. Quanto a esse sentido etimológico da palavra método. no seu estudo. ir do simples ao complexo. a forma em aforismos já é uma crítica ao academismo no rigor das elaborações teóricas que predominava nas universidades. Antichrist. está presente uma forma específica de interpretar a idéia de Deus. Assim. na medida em que foi. a metafísica. ou seja. torna-se possível apontar o processo histórico de sua construção e os atores responsáveis por sua criação e propagação. com a estrutura lógica ou com a coesão na construção da reflexão. Como o cristianismo constitui-se numa religião. num método de crítica ao cristianismo. p. e mais especificamente à álgebra. bufão como era. A realidade a ser conhecida deve decidir qual o método a ser eleito. é entendendo o cristianismo como uma forma de ler e dar publicidade a Deus que entramos no outro momento do método nietzschiano de crítica ao cristianismo: a filologia. Também em Nietzsche. que essas recondu- impulso nº 28 45 . que não importa nenhum outro gênero de questões. cada qual. da mesma forma que o islamismo. junto com Nietzsche. Por outro lado. 17 Na célebre obra de Walter Kaufmann Nietzsche Philosopher. 16 DESCARTES. Nietzsche não formulou uma teoria sobre o método pois. Psychologist. no processo de construção do cristianismo – que é uma religião historicamente construída – está implícito em seu bojo uma forma de interpretação moral de Deus. nem verdadeira nem falsa. quase só pelo valor de a cultivar. tenderemos por método o sentido etimológico da palavra. neste texto. é o que observa rigorosamente o geômetra quando analisa um problema em sua incógnita. Porém. até certo ponto subversiva. ria de todo conhecimento rigoroso. não se pode deixar de notar que estas últimas reproduzem e generalizam as regras de sua técnica algébrica. além de carregar a beleza e o gosto que o jogo das palavras proporciona. Dividir a dificuldade.Com efeito. É a filologia o instrumento que Nietzsche usou para tomar o cristianismo como uma forma. mas particular. encontrei. ele aparece como um caminho que permitiu a Nietzsche olhar a religião cristã desde um lugar particular da sua crítica. de interpretar Deus. como um caminho que conduz o espírito para o bem conhecer uma realidade. Assim. uma das questões mais centrais e incisivamente debatidas é a relação entre o método utilizado e a realidade que se procura conhecer. Em se se quiser comparar os procedimentos de que ele realmente lança mão em sua Geometria aos preceitos do Discurso do Método e da Regulae. a religião. ao qual é inteiramente suficiente. então. a escolha do método assume um caráter fundamental. acreditamos que um suposto método de crítica ao cristianismo passa por essa herança cartesiana. Desse modo. na certeza de que apontará quem fundou o cristianismo e quais os responsáveis pela universalização dessa religião. efetuar enumerações completas. pela forma. talvez.17 segue uma direção. o autor toma a escrita de Nietzsche em forma de aforismos. 1990.16 Através de suas obras. além do conteúdo da reflexão. de elaborar a crítica. na medida em que a realidade a ser debatida – o cristianismo – possui sua especificidade. e a eleição de um método que se mostra limitado implica em uma fratura no conhecimento produzido sobre o objeto. Quando pensamos. Descartes marcou o sentido com o qual o termo método passou a ser usado na filosofia a partir da modernidade. Para o autor. “A indicação do caminho certo foi o problema do qual deveriam propriamente significar. o autor faz uma reflexão bastante interessante sobre um método nietzschiano num capítulo cujo título é Nietzsche’s Method. gostaria de relacioná-lo com três citações de Nietzsche em Genealogia da Moral. p. 11. Dentro da reflexão sobre o método. independente da sátira nietzschiana à ciência. 111. balizados por Nietzsche. estabelece e resolve suas equações”. sua crítica ao cristianismo segue um determinado caminho. e en15 Na introdução ao volume de Descartes da Coleção Os Pensadores. Nesse sentido. universal e verdadeiro. É nesse sentido de entendimento do cristianismo que é possível adentrarmos em um dos dois momentos do método nietzschiano de crítica ao cristianismo: a genealogia. a designação de ‘bom’ cunhada pelas diversas línguas. a crítica aos “ídolos” da modernidade passa. Gilles-Gaston Granger associa essas quatro etapas do método à matemática – sempre muita cara a Descartes –. Sua utilidade é tal para adquirir uma mais alta sabedoria que eu não recearei em dizer: esta parte de nosso método não foi inventada por causa dos problemas matemáticos. Dessa forma. 1987. o judaísmo ou o budismo encerram. o emprego das regras que eu vou dar agora é mais bem fácil. sua forma particular de conceber a figura de Deus. o grande sistematizador da reflexão sobre o tema.

Prefácio. Nietzsche volta a tomar a filologia como ferramenta para a crítica dos valores morais. eterna e imutável. demasiadamente humanos. Primeira Dissertação. ou seja. justo. ao falar que o termo bom depende de metamorfose conceitual. proporcionou a Nietzsche condições para afirmar que os valores morais do cristianismo não são valores morais marcados pela eternidade. “paraíso”. através de seus avós paterno e materno. Cf. o valor mesmo desses valores – e para tal propósito é necessário o conhecimento das condições e circunstâncias em que nasceram.. 31. propõe-se a seguinte questão: essa merece tanto a atenção dos filólogos e dos historiadores quanto daqueles profissionais da filosofia: ‘quais indicações fornece a ciência da linguagem. de cultura para cultura. Ibid. Para Nietzsche. como método que lhe possibilitará abordar a evolução histórica das interpretações sobre os valores morais/religiosos. A FILOLOGIA A filologia. Nietzsche. como método. Assim. de época para época. Ibid. como bom. Desde a infância. também. desde a juventude de Nietzsche. de sua forma particular de olhar a cultura universal. Dessa forma. § 4. não são valores que se perdem na névoa da metafísica ou que surgem e pairam sobre nossas vidas como verdade inquestionável. Pensar a história da evolução e transformação dos valores morais e religiosos é desvendar o intricado emaranhado da construção histórica dos valores 18 19 NIETZSCHE. que o conduziria a uma análise crítica dos conceitos morais. ou um método. Os conceitos morais. fez parte. como sendo os dois momentos do caminhar nietzschiano de (des)construção do cristianismo. e que esses valores são humanos. p. Portanto. foi reconhecido publicamente por suas obras. Numa outra passagem. a genealogia. 1987. também. JANZ. um outro termo: o conceito moral bom cunhado pelas diversas línguas é produto de metamorfose conceitual.”18 Gostaria de sublinhar nesta citação o termo caminho certo para a análise do conceito de “bom”. o pastor protestante Friedrich August Ludwig Nietzsche. a crítica aos valores morais pressupõe um segundo momento – que é o da genealogia –. sob as quais desenvolveram e modificaram-se”. são interpretações historicamente construídas. marcado pelo estudo das condições e circunstâncias em que nasceram esses valores. porém. Primeira Dissertação. variam de língua para língua. § 6. nesta outra passagem: “Necessitamos de uma crítica dos valores morais. os conceitos religiosos “Deus”. conclui-se que os conceitos religiosos emanados do cristianismo não possuem nenhum critério de verdade universal. E pensar a história dos valores morais e religiosos é possível a Nietzsche ao tomar a genealogia como ferramenta.19 morais. Aqui. ele chama a atenção também dos historiadores da moral. a começar a colocar em questão. para a história da evolução dos conceitos morais?’. A genealogia permitiu a Nietzsche apontar. também. 46 impulso nº 28 . “alma”. são produtos de construções culturais que.21 em que propunha um rigoroso es20 21 Nesta afirmação. pois. também são variáveis de religião para religião. “pecado”. Aqui entramos no primeiro passo do método de crítica de Nietzsche ao cristianismo: a filologia. Ou seja. tomou contato com um estudo hermenêutico rigoroso da Bíblia. mas. O avô paterno. mal.zem todas a idêntica metamorfose conceitual.. como ciência que estuda a língua em toda a sua completude. para Nietzsche. os genealogistas. nota. Dessa forma. uma vez. que existe um responsável pela deflagração dessa interpretação cristã tornada universal. Gostaria de sublinhar. Nietzsche reconhece haver um caminho. especialmente a pesquisa etimológica. O papel da genealogia fica patente. bem. § 17. isto fica mais claro: Tendo em vista uma possibilidade deste gênero. que estuda a construção lingüística de um povo.20 Nesta passagem fica bastante claro o papel da genealogia como método: criticar os valores morais a partir do entendimento do processo histórico de construção. por isso. afirma-se que os conceitos morais e religiosos são produtos de diferentes interpretações fundadas numa linguagem. O que têm em comum é o fato de todos serem produtos de interpretações efetuadas pelas diversas religiões. 1988. este texto irá de uma análise filológica do cristianismo para a genealogia.

Ritschi. p. Introduction a la Lecture des Dialogues de Platon. tendo. uma conferência sobre Teógnis. . entre os quais Scheleirmacher e Carnap. Fédon. durante os anos de 1858-1862 que se assentaram em Nietzsche as sólidas bases filológicas de estudo dos clássicos. Este universo cultural foi amplamente vivenciado pelo futuro filósofo. E. Foi. Um grupo de monges cistercienses.24 A direção tomada pela filosofia de Nietzsche no primeiro período de suas obras foi justamente o estudo da cultura grega a partir da filologia. de natureza paradigmaticamente literária e humanística. Tucídides. 1987. que continha livros com textos de teologia. houve mestres lecionando em Pforta. As Leis e Fedro. Sófocles e os présocráticos. 27 Entre 1871 e 1876. que no século XII deixaram o Ocidente latino para virem instruir os nativos germanos ou eslavos e convertê-los ao Cristo. Aqui foram assentadas as bases extraordinariamente sólidas de seu conhecimento sobre a Antigüidade. protestante. análise e interpretação. Nesse período. na época. a dos Evangelhos. Timeu. Nietzsche realizou uma pesquisa. Wilhelm Dinderf. Em 1867. ele já tinha um conhecimento diferenciado tanto da Bíblia quanto da forma como os filólogos a estudavam. Educación.. Janz destaca duas: Aportaciones al Desarrollo de un Pensamiento Racional sobre Religion. Cf. falou sobre Homero. e Gamaliel. 1991.25 O estudo filológico acompanhou Nietzsche em sua graduação na Universidade de Leipzig. ministrou uma série de cursos a respeito da vida e dos diálogos de Platão. por colinas abruptas e cobertas de florestas à sombra das árvores. 22 grada em O Nascimento da Tragédia. em sua aula inaugural na Basiléia. filologia e dos exegetas germânicos modernos. O contato com o rigorismo do estudo de textos bíblicos foi amplamente alimentado nos estudos secundários de Nietzsche em Pforta. enunciou duas palestras: O Drama Musical Grego e Sócrates e a Tragédia. HALÉVY 1989. à direita e à esquerda. O Sofista. 15-16. pp. sua ruptura com o cristianismo e. p. podemos destacar: em 1864. pronunciou na Sociedade Filológica fundada por seu mestre Ritschi diversas conferências sobre Ésquilo.26 Seus primeiros anos como professor da Universidade de Basiléia foram marcados notadamente pelos cursos que ele ministrava e propunha. a direção de sua filosofia”. Homero. portanto. Em 1869. tornou-se um dos centros da Reforma cristã e científica. um centro de estudos religiosos de tradição católica e. em primeira esfera e durante muitos anos. o hebraico. uma profunda e rigorosa interpretação filológica dos diálogos de Platão. orgulhava-se da sua imensa biblioteca. em 1870. 110. 26 25 impulso nº 28 47 . pois. Em 1866. p. Desde as origens da Alemanha. Collection Polemos. como os avós e o pai.. destacamos A República. seus interesses filológicos recaíam sobre questões homéricas. Entre as obras estudadas. Nietzsche empreendeu. mas o seu colégio não parou de funcionar. onde prosseguiria seus estudos. de 1796. 70. pôde apropriar-se com maestria da filologia como uma ferramenta de estudo. Nietzsche realizou na Sociedade Filológica fundada pelo seu mestre e professor em Leipzig. HALÉVY 1989. NIETZSCHE. instalaram-se em pastagens dominadas.) No século XVI. que. consaEntre as obras. na qual foi ovacionado. entre os anos de 1863 e 1869. À época. o la inextinguible duración del cristianismo para edificación y pacificación en el momento de inquietud que vive hoy el mundo teológico. JANZ. Deberes de los Súbditos y Amor al Prójimo. Ainda em 1869 proferiu duas conferências: História da Lírica Grega e Metódica Investigação das Fontes da História dos Filósofos Pré-socráticos”. historicamente.. Entre esses estudos de filologia sobre a cultura grega. uma escola bastante conceituada pela forte formação filológica nos estudos bíblicos23 e dos textos clássicos da cultura grega e romana. os beneditinos foram expulsos pelos revolucionários luteranos. Sobre esse assunto. . esse conhecimento que iria determinar. a dos Padres. a pedido de um amigo de Ritschi. ademais. aprenderam as três línguas sagradas. 1987. que passava longas temporadas na casa dos avós estudando a Bíblia como preparação informal para ser pastor. (. 23 O Colégio de Pforta foi. em Leipzig. estudando a cronologia dos épicos antigos. Pforta. pp. sobre as fontes de Diógenes Laércio. como afirma Halévy: “O Colégio de Pforta dista duas léguas de Naumburgo. produziu textos que o alçaram à condição de professor respeitado entre seus alunos. transformada segundo os padrões do espírito novo. ver. Usando-a como um método de leitura dos textos gregos clássicos.. de 1804. conforme afirma Janz: “O que Pforta significou para Nietzsche é de maior peso no que diz respeito a sua evolução inteira. Ainda em 1867. fez um estudo sobre Ésquilo. o pastor David Ernest Oehler.tudo racional dos textos bíblicos.. Chegou a conhecer os autores fundamentais da Antigüidade com uma profundidade pouco comum. Éditions de l’Éclat.. o grego. 30-31.) Simultaneamente com a religião. que foi premiada. Ergueram ali essas edificações monásticas que vemos ainda hoje. aprendido a lê-los e interpretá-los com uma penetração e maestria filológica próprias de Pforta”. essa bagagem cultural foi influência decisiva na preferência pela Escola Provincial de Pforta. Porém. 24 JANZ.27 Graças a sua sólida formação. o latim”. era seu objeto de estudo. Cito Janz: “Os bens culturais que Nietzsche teve em Pforta eram. a partir da Escola de Pforta. Se desde a infância Nietzsche estudava a Bíblia com o rigorismo criterioso da filologia. posteriormente.e. (. a de Moisés. Cf.22 O avô materno. Diógenes Laercio. utilizando novamente a filologia como método. em meaIbid.

dada a sua condição de pequena planta artificialmente cultivada.. do século XVI ao século XIX. 48 impulso nº 28 . se Nietzsche. 1992. pp. estava. faz uma arqueologia do homem e das ciências humanas tomando como primado evidenciar a ordem das coisas que fundamentam o saber. Contudo. A crítica de Nietzsche ao cristianismo passa por uma crítica da ordem da linguagem. com seu método crítico de estudo da Bíblia. a este respeito sabia tanto e escrevia tão bons livros –. suposto que. nos veríamos obrigados a ex28 29 Essas críticas temporãs de Nietzsche ao cristianismo tiveram como cenário a formação filológica em Pforta. aproximou-a da filosofia. DEUSSEN.29 pressar algumas conclusões opostas às idéias gerais vigentes. A partir do olhar do filólogo. pelo menos. tomando a doutrina moral cristã como um discurso. Havíamo-nos declarados dispostos inclusive a entregar nossas vidas para estar com Cristo. conduziu o filósofo a fazer severas críticas àquela religião. Nietzsche escreve um texto para a Germânia intitulado Fatum e História. pecado. Seu rompimento com a religião cristã dá-se na fase pueril. viria a ser aplicado também. 1987. e tantas outras coisas que nunca deixaram de ser problemas. o estatuto da interpretação é decisivo no século XIX. apud JANZ. mas a excitação causada por esse acontecimento não dura muito tempo justamente por causa do método filológico de estudo da Bíblia. então com 17 anos e ainda estudante em Pforta. (. no século XIX. FOUCAULT.. e todos os nossos pensamentos. justamente no período de sua formação filológica..) O desconsolador resultado tem sido uma infinita confusão de idéias nos povos. 1987. Nesse sentido. Michel Foucault. É o rompimento com a fé da Igreja cristã”. 82-83. Fatum e História. p. grandes transformações haverão de ocorrer ainda para que a massa compreenda que o cristianismo descansa sobre conjecturas: a existência de deus.31 A filologia permitiu a Nietzsche olhar o cristianismo e sua doutrina moral sob o ponto de vista da linguagem. não tivesse sido o primeiro a aproximar a tarefa filosófica de uma reflexão radical sobre a linguagem”. procedeu à crítica mais severa que aquela religião já sofrera. na obra As Palavras e as Coisas. cremo-nos obrigados a considerar como um delito a eleição de um ponto de vista mais livre desde e a partir do qual possamos emitir um juízo não partidarista e de acordo com os tempos sobre a religião e o cristianismo.) Pouco a pouco. reduzidos desde nossos primeiros dias ao jugo dos costumes. a inspiração. enfim. 63.28 Em 10 de março de 1861.30 Em março de 1862. em que denunciava os dogmas do cristianismo como conjecturais: Se pudermos contemplar a doutrina cristã e a história das igrejas com os olhos isentos dos prejuízos. ao domínio bíblico. uma vez que sua crítica ao cristianismo se dá pelas vias da linguagem. p. por obra do exigente método histórico-crítico com que se tratava em Pforta os clássicos e que. como mostra Deussen: Recordo muito bem o estado de ânimo sagrado florescendo sobre o mundo que nos embargava durante as semanas anteriores e posteriores à confirmação. e se constitui numa forma de interpretação moral. em função de sua formação filológica. a imortalidade. apud JANZ. Ao utilizar a filologia para isso. o filólogo – e nisso também era ele tão erudito.. o primeiro a introduzir a linguagem como esfera de análise crítica: “A linguagem só entrou diretamente e por si própria no campo do pensamento no fim do século XIX. pp. os NIETZSCHE. matériaprima da filologia. que não podia durar muito. ele e seu amigo P Deussen recebem a confirmação pro. e aproximou. (. quando estudante em Pforta. também. uma forma de falar sobre Deus. foi-se fazendo crises de todos os tipos. que. 1990. o cristianismo é um texto. de sua puberdade. a fé cristã. a filosofia da linguagem. salvação ou paraíso. 321.dos da década de 80 do século XIX. sentimentos e impulsos irradiavam uma felicidade supraterrena. 31 30 SALOMÉ. fadada a murchar sob a pressão do estudo e da vida cotidiana. freados pelas impressões da infância na evolução natural do nosso espírito e determinados pela formação de nosso temperamento. Poder-se-ia mesmo dizer no século XX. de modo mais natural. testante. como afirma Foucault: “A partir do século XIX. como afirma Salomé: “A primeira metamorfose que Nietzsche realizou em sua vida situa-se no crepúsculo de sua infância ou. 86-87. Para Foucault. A ordem que perpassa a construção do saber é o discurso. a autoridade da Bíblia. Nietzsche foi.

a forma com a qual foi construído o próprio discurso. pois se constitui. ‘Alma’. o paraíso. a fineza. a salvação da alma. ‘almas’)”. Ibid. A filologia aparece como um método na filosofia nietzschiana no próprio sentido da ciência filológica. § 358. e raramente interpretam. Uma transação entre seres imaginários (‘Deus’. Nessa ótica. A Gaia Ciência. que se desenrola cada vez mais. têm algum ponto de contato com a efetividade. sem perder. Não há para Nietzsche um significado original.37 Assim. nas entrelinhas do discurso moral e/ou religioso. Nessa mesma ótica. entendida como a ciência que estuda a construção lingüística de uma cultura. a interpretação implica a anulação de um ponto originário que desencadearia a interpretação e. esmiuçando o caráter arbitrário com que ele foi erigido historicamente.32 E é igualmente decisivo na filosofia nietzschiana: “Também em Nietzsche está claro que a interpretação permanece sem acabar.35 texto bíblico que anuncia a salvação da alma. a filologia constitui-se numa atividade de ler textos. Isso fica claro na seguinte passagem: “Nem a moral nem a religião. em um significado muito geral. tudo seria interpretação: “Dessa mesma forma. 21. então. As mesmas palavras não são senão interpretações”. isto é. ‘espírito’). ele delimita a atividade do filólogo: “Distribui livros sagrados a todo mundo. Filologia como ephexis (indecisão) na interpretação: trate-se de livros. destruidores de toda crença que repousa em livros”. de destinos ou de fatos meteorológicos – para não falar da salvação da alma. como uma construção interpretativa sem nenhum fundamento na realidade. E foi esse método que lhe permitiu ler nas entrelinhas do discurso religioso a carga interpretativa que ele traz em seu bojo. O que é para ele a filosofia senão uma espécie de filologia sem fim. a filologia. ‘redenção’. ‘eu’. ou mais complexos. 1997. perde a oficialidade de seu discurso. uma filologia que não nunca seria absolutamente fixada?”. 23. de um ponto final. NIETZSCHE.símbolos encadearam-se numa rede inesgotável e também infinita não porque tenham repousado numa semelhança sem limite. uma vez que ela se constitui na arte de desvelar.36 Em outro texto. Porém. ‘castigo’. ‘clemência’. NIETZSCHE. também. Eu posso avaliar muito bem a característica dos escritos de seus sábios: eles expõem com tal segurança as suas conjecturas como se fossem dogmas. a cautela. Somente causas imaginárias (‘Deus’. Ibid. 20. sejam eles banais.33 Fica claro. Nesse sentido. ‘remissão dos pecados’). de curiosidades jornalísticas. a paciência. no qual se lê: Quão pouco o cristianismo educa o senso de honestidade e da justiça. de modo que 36 37 Nessa perspectiva. apenas. isto é. se deve entender a arte de ler bem – de saber entender os fatos sem falseá-los com interpretações. a vida eterna são meras construções da ordem da linguagem. de universalidade. 1995.. Nietzsche apodera-se das interpretações que são já prisioneiras umas das outras.. como o 32 33 34 35 FOUCAULT. como meteorologia. somente efeitos imaginários (‘pecado’. o cristianismo perde sua aura de verdade revelada. foi com o método filológico de interpretação que pôde tomar o cristianismo como um texto. p. Em síntese. p. impulso nº 28 49 . § 15. o método filológico deve recair sobre textos sagrados do cristianismo como matéria-prima para a análise. de tal modo que terminaram por cair nas mãos de filólogos. § 37. em mais uma forma de interpretação religiosa. no desejo de compreender.. Parecenos que foi para esse diagnóstico que o caminhar pela filologia conduziu Nietzsche. que a filologia referenciou o filósofo a tomar a moral cristã como uma forma de interpretação. seguindo ainda Foucault. ainda. Ibid. mas porque tinham uma amplitude e uma abertura irredutíveis”. no cristianismo. ele nos dá uma definição de seu conceito de filologia: Por filologia. segundo Foucault. de uma teleologia. encontramos no texto Aurora o aforismo de título “A filologia do cristianismo”.34 A partir da demarcação desse ponto. proporcionou a Nietzsche as condições para entender os dogmas do cristianismo apenas como uma forma de falar. No texto Anticristo. 1999. ‘espírito’. p.

ao perceber isto. 1995. Nesse contexto. para falar com maior precisão. Semelhante ao juízo religioso. uma vez que Deus. no Crepúsculo dos Ídolos. Idem. são falas que recebemos como herança cultural. é uma idéia historicamente construída. ou seja.39 Nessa linha. o juízo moral é relativo a um grau de ignorância em que falha até mesmo a noção de real. e. 1999. não importa se em Berlim ou em Roma. § 1. seus dogmas. ou seja. pois é desse lugar que a filologia o instrumentalizou para empreender sua crítica.. de tal forma que coloca um filólogo no ápice da agitação”. § 5. isto é.. suas crenças foram interpretados.. 1981. vida eterna são idéias. é um amontoado de palavras sem qualquer referência com o real. por inventar a idéia de Deus.. o filósofo assume uma posição frente à religião. a filologia irá apontar exatamente que o cristianismo é uma má interpretação moral. se são amontoados de palavras arbitrariamente organizadas. 1999. Em outro texto. encontramos: 38 39 40 41 O juízo moral tem em comum com o juízo religioso a crença em realidades que não existem. NIETZSCHE. interpreta uma ‘palavra da Bíblia’ (. Idem. de alma e de vida 42 43 44 Idem. uma interpretação que não possui nenhum critério de verdade. afirma no Para Além do Bem e do Mal: “Não poderia o filósofo elevar-se acima da credulidade da gramática”.. a história do cristianismo – desde o começo.44 Este é o ponto central da crítica filológica de Nietzsche: Deus é um discurso. Para que a crítica ao cristianismo seja efetiva.42 Fica claro na citação que. 1995. uma construção discursiva fundada numa interpretação de idéias. na forma como sua moral. Assim. Logo. e sempre pergunta: ‘Como é possível? É honesto tudo isso? É. ou. 50 impulso nº 28 . § 52. § 34. Deus é uma invenção. fica entre a cólera e o riso. uma falsa interpretação. por meio da linguagem. a distinção entre o real e o imaginário. ele afirma no Crepúsculo dos Ídolos: “Temo que não nos desvencilharemos de deus porque ainda acreditamos na gramática. é ele quem vai apontar que os dogmas apregoados pelo cristianismo são simples discursos conjecturais. uma vez que é ele quem vai des-construir o discurso do teólogo. pelo menos. A crítica nietzschiana ao cristianismo pela via da linguagem vinda da filologia perpassou toda sua obra. no Anticristo. a idéia de paraíso. Os Melhoradores da Humanidade. paraíso. o lugar de onde faz a crítica ao cristianismo é o da linguagem.”. se são discursos morais. o cristianismo e seus dogmas são meras construções lingüísticas.) é sempre ousado. § 22. § 37.38 É essa a perspectiva de análise nietzschiana com o método filológico: o problema do cristianismo está na forma como foi construído. fica uma pergunta: quem pronunciou tal discurso? Quem foi o responsável pela construção do discurso cristão? Quem foi o responsável. Idem. lemos: “O modo como um teólogo. segundo ele. alma.”.40 É exatamente pelo teor da interpretação do teólogo que Nietzsche o classifica de uma má interpretação: “Perdoe-me este velho filólogo. 1995. Idem. as crenças não possuem nenhum fundamento. decoroso?’. é um discurso moral errado. uma falsa interpretação. A moral é tão somente uma interpretação de determinados fenômenos. munido do referencial da ciência filológica. desenvolvido gradativamente sempre de maneira mais grosseira de um simbolismo originário”. que não pode resistir à maldade de pôr o dedo sobre arte-de-interpretação ruim.. uma forma equivocada de interpretação: “Ao contrário. mais ainda.um filólogo.43 Tal elevação do cenário da linguagem é estritamente necessária. § 84. Nietzsche pôde afirmar que o cristianismo é tão somente um tipo de interpretação e. já que as crenças religiosas repousam sobre uma forma de interpretação e construção lingüística. o cristianismo é uma religião criada a partir de uma forma de interpretar os valores morais. mas são crenças num discurso religioso. Ao tomar a filologia como método para interpretação e crítica do cristianismo. cabe ainda uma reflexão: se Deus. da morte na cruz – é a história de um mal interpretar..41 É com essa interpretação ruim do teólogo que o bom filólogo fica agitado. Para Nietzsche. Ibid. Da constatação da arbitrariedade dos juízos e dos discursos do cristianismo. A Razão na Filosofia.

ficar só na constatação da arbitrariedade das interpretações é perder o senso histórico. a genealogia se propõe a responder uma outra pergunta: quem construiu esse discurso religioso. este concerne à formação efetiva dos discursos. marcar a singularidade dos acontecimentos. Nesse sentido.. em que Nietzsche afirma: “Pois é óbvio que uma outra cor deve ser mais importante para um genealogista da moral: o cinza. pecado. Prefácio. que tipo de homem fundou o discurso cristão para efetuar a dominação? Assim. descontínua e regular”. ao contrário.) para a genealogia.47 É neste sentido da genealogia apontada por Foucault que Nietzsche. aponta. quer. afirma: A genealogia é cinza. o ponto crucial da crítica consiste. Foucault conceitua a genealogia: “Quanto ao aspecto genealógico. ou antes. e por aí entendo não um poder que se oporia ao poder de negar. o método nietzschiano de crítica ao cristianismo pressupõe um segundo momento: o da genealogia. espreitá-lo lá onde menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história – os sentimentos. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados. Ela FOUCAULT.. 65-66. Foucault. não se tratava de saber o que eram em si mesmos o bem e o mal.49 A GENEALOGIA Tomando novamente Foucault como referência dialógica. ela se opõe. Em A Ordem do Discurso. 1988. é apenas um ponto da crítica.) A genealogia estuda sua formação ao mesmo tempo dispersa. para a genealogia. o realmente havido. longe de toda finalidade monótona. Conceituando a genealogia. riscados. várias vezes reescritos (. Destarte. quer no exterior. Para ele. de quem define o que o objeto é: “A parte genealógica da análise se detém. o amor. alma. de um lado e de outro da delimitação. a pergunta básica da genealogia é: quem fala? É com essa pergunta que Nietzsche se metamorfoseia de filólogo para genealogista. pela genealogia. 49 FOUCAULT. ou seja. o Prefácio da Genealogia da Moral. ao desdobramento meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ibid. o efetivamente constatável. a crítica se efetivará ao apontar quem interpretou. isto é. NIETZSCHE.48 ela é meticulosa e pacientemente documentária. quer no interior dos limites do controle. ou seja. exatamente no terceiro período de sua produção filosófica. quem falava”. impulso nº 28 51 . 45 Mais adiante. a consciência. um indispensável demorar-se. aprender seu retorno não para traçar a curva lenta de uma evolução. pois ela apenas constata a arbitrariedade do discurso religioso. 48 Cf. § 07. Em última instância. usando-a. pp.. assim. irá constatar que foi Paulo quem exerceu o domínio sobre o cristianismo afirmando a verdade e a falsidade sobre Deus. mas para indicar os tortuosos caminhos de construção da fala oficial. quase indecifrável escrita hieroglífica do passado moral humano”. (. passando. 69-70. como afirma Foucault em As Palavras e as Coisas: “Para Nietzsche. a Genealogia e a História” da Microfísica do Poder. o poder intrínseco de quem constitui os domínios sobre o objeto. além da constatação das variadas interpretações que os conceitos abarcam. pecado. 47 46 FOUCAULT. mas quem era designado. 321. alma. salvação. a coisa documentada.eterna? Essas questões não constituem o campo da filologia. mas o poder de constituir domínios de objetos. p. 1995.. nas séries da formação efetiva do discurso: procura apreendê-lo em seu poder de afirmação. e sua efetiva crítica ao cristianismo se dá no final de sua vida. os instintos.. se revela a forma como foi construído o discurso cristão. no mesmo texto. paraíso. em contrapartida.. p. 15.45 Assim.. a maior parte das vezes. mas para reencontrar as diferentes cenas onde eles desempenharam papéis distintos. 1998. isto é.46 Um pouco mais adiante. não mais para apontar suas arbitrariedades. no capítulo “Nietzsche. A genealogia também toma o discurso como objeto. pp. vemos que a genealogia aparece como uma instância em que o des-velamento do discurso irá sublinhar o processo de formação do discurso. lemos: “A genealogia não se opõe à história como a visão altiva e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista. a longa. 1990. Uma vez que o discurso está dado e a interpretação se universalizou. dizer o que é Deus. no apontamento do responsável pelo discurso tornado oficial. a propósito dos quais se poderia afirmar ou negar proposições verdadeiras ou falsas”. se a filologia se caracteriza pelo des-velamento do discurso religioso. numa palavra.

pp. ao contrário. 16. Em que. mas é preciso tentar a reconstituição de sua articulação própria. Demasiado Humano. p. ‘o que era imediatamente’. Cito Foucault: “Entestehung designa de preferência a emergência. p. se esforça para recolher nela a essência exata das coisas. de 1878. p. 1995. a guerra... todos os fatos abarcam interpretações. a emergência caracterizase pela luta na imposição de uma forma de valorar. pois a origem é um mito. E Foucault conclui: “A emergência é. a emergência analisa o afrontamento entre as forças.. ou que sua essência foi Ibid. É o princípio e a lei singular de um aparecimento. é a antiga pertinência a um grupo – de sangue. a pesquisa. Foucault demarca que Nietzsche utiliza outro termo. o combate 52 53 54 FOUCAULT.. sobre que tipo de origem dos valores morais ele deseja refletir. o ‘aquilo mesmo’ de uma imagem exatamente adequada a si. de lutas por imposições de uma interpretação sobre uma suposta origem verdadeira. não deve ir em busca da origem dos acontecimentos. todas as astúcias. pp. de 1887. é a interrupção (. 17 e 18.. 23-24. quando deseja falar da origem da moral no sentido da genealogia. Termos como Entestehung ou Herkunft marcam melhor do que Ursprung o objeto próprio da genealogia..e. FOUCAULT. p. no sentido ideal ou metafísico. ou seja. O objeto da pesquisa é definido no início do texto como a origem dos preconceitos morais. nas obras de Nietzsche Humano. a entrada.)”. de ligação entre aqueles da mesma altura ou da mesma baixeza. é metafísica: Por que Nietzsche genealogista recusa. de tradição. 1995. Cito Foucault: “Um dos textos mais significativos do uso de todas estas palavras e dos jogos próprios do termo Ursprung é o prefácio de Para Genealogia da Moral. De outro modo. Esse sentido do uso do termo Ursprung (origem) é usado por Nietzsche ao apontar a pesquisa da origem dos valores morais cristãos feita por um não genealogista. FOUCAULT. quando o padre cristão vai reconstruir a origem da moral cristã. a pesquisa da origem (Ursprung)?51 Porque. é tomar por acidental todas as peripécias que puderam ter acontecido.se opõe à pesquisa da ‘origem’”. ou seja. Foucault. sua mais pura possibilidade. para a lei que rege a história..54 Assim. A alternância desses dois termos é precedida pelos objetivos do filósofo. nesse sentido. 1995. o uso de dois termos distintos do alemão para designar um mesmo problema: a origem dos conceitos morais. o importante é o processo de construção da realidade. a Genealogia e a História” demarca.53 Dessa forma. Cito Foucault: “Ursprung é também utilizado de uma maneira irônica e depreciativa. Ibid. sem importância.52 O genealogista vira as costas para o sentido histórico dos acontecimentos. é a proveniência. 17. 52 impulso nº 28 . primeiramente. dos conceitos morais. todos os disfarces... na ótica nietzschiana. Nesse mesmo texto. o que é que ele aprende? Que atrás das coisas há ‘algo imediatamente diferente’: não seu segredo essencial e sem data. e Genealogia da Moral. Ibid. pelo menos em certas ocasiões. segundo Nietzsche. (. para Nietzsche. O que a genealogia busca é a transformação que a realidade sofreu. mesmo porque não existe uma origem. Foucault caracterizou a genealogia nietzschiana como uma análise da proveniência (Herkunft) e a história da emergência (Entestehung). Afirmar que a origem está na criação do homem por Deus é.) A emergência se produz sempre em um determinado estado das forças”. ou seja. Ora. Herkunft. se o genealogista tem o cuidado de escutar a história em vez de acreditar na metafísica. o termo então utilizado é Herkunft”. 51 50 construída peça por peça a partir de figuras que lhe eram estranhas. 16. pois é um contra-senso histórico que a genealogia denuncia. o fundamental é a constatação do processo de luta pela universalização desse discurso. Na verdade. por exemplo. mas.) Ou ainda: onde é preciso procurar essa origem da religião (Ursprung) que Schopenhauer situava em um certo sentimento do além?”. portanto. o ponto de surgimento. 20. sua identidade cuidadosamente recolhida em si mesma. sua forma imóvel e anterior a tudo o que é externo. mas o segredo que elas são sem essência. é querer tirar todas as máscaras para desvelar enfim uma identidade primeira. um elemento detonador dos fatos.50 A genealogia. São ordinariamente traduzidos por ‘origem’. é o processo de luta entre o nobre e o escravo pela imposição do valor moral. p. a raça que inventou o cristianismo é a raça dos escravos. na parte II do texto “Nietzsche. pois a história é feita de abalos. Por outro lado. Freqüentemente a análise da Herkunft põe em jogo a raça ou o tipo social. encontramos o termo Ursprung quando deseja falar sobre a origem.. Assim. consiste este fundamento originário (Ursprung) da moral que se procura em Platão? (. a proveniência irá apontar que os valores cristãos foram construídos por um modo escravo de fundar valores. Herkunft é o tronco de uma raça.

de tornar universal a sua forma de interpretar os valores morais. Nietzsche aponta que sua tarefa genealógica consiste em des-velar as formas nas quais se fundaram os discursos morais: “(. na visão do ódio. como afirma Nietzsche: Paulo simplesmente deslocou o centro de gravidade daquela inteira existência para trás desta existência – na mentira do Jesus ressuscitado. interpretou e fundou os valores morais do cristianismo: 55 56 A “boa notícia” foi seguida rente aos calcanhares pela pior de todas: a de Paulo. simplesmente não podia aproveitar a vida do redentor – ele necessitava da morte na cruz e de algo mais ainda. o gênio no ódio. O que esse disangelista não ofereceu em sacrifício ao ódio! Antes de tudo. é tarefa da genealogia apontar quem efetuou essa má interpretação moral.. Se a filologia lhe permitiu apontar que os valores morais são frutos de interpretações. Nesse sentido. ela é limitada no sentido de não tornar possível verificar as condições históricas do surgimento dos valores. o sentido e o direito do Evangelho inteiro – nada mais existia. necessitamos de uma crítica dos valores morais.pela imposição da vontade. a morte.. Paulo “falsificou a história de Israel mais uma vez para fazê-la aparecer como a pré-história de seu feito: todos os profetas falaram de seu ‘redentor’. 57 58 59 NIETZSCHE. Na leitura nietzschiana. Ibid. Ao fundar o cristianismo como a religião do rebanho. Assim. Paulo encarna a forma escrava de interpretar os valores morais. o cristianismo é uma construção moral manifestado num discurso fundado pelo homem Paulo. A Igreja falsificou mais tarde até mesmo a história da humanidade em pré-história do cristianismo”. que até agora dominaram e continuam dominando na terra. (. Há uma moral dos senhores e uma moral dos escravos”.. Segundo ele. Enunciemos esta nova exigência. pois foi ele quem interpretou e construiu o discurso moral cristão. Na perspectiva de Nietzsche. Paulo reinterpretou o cristianismo do fundador com o objetivo de domínio. chegar à potência – só podia aproveitar conceitos. a genealogia consiste no segundo momento da crítica ao cristianismo. uma vez que ela possibilitou ao filósofo apontar as forças operantes no processo de construção dos valores cristãos. na inexorável lógica do ódio. § 260. a emergência é a luta do escravo e também é a luta do nobre pela imposição da forma de avaliar. o ensinamento.57 Assim. portanto.. símbolos. Ibid. ensinamentos. Portanto.56 É essa a tarefa de Nietzsche em sua crítica ao cristianismo: des-velar a contingência dos valores morais cristãos e apontar quem fundou o discurso moral da religião cristã. o redentor. com os quais se tiranizam massas.) Sua necessidade era a potência. começando a colocar uma vez em questão o valor mesmo desses valores – e para tal propósito é necessário o conhecimento das condições e circunstâncias em que nasceram. A vida. se formam rebanhos. impulso nº 28 53 . e uma diferença fundamental sobressaiu.. sob as quais desenvolveram e modificaram-se”. § 42. o exemplo. cabe ao apóstolo Paulo a responsabilidade por essa interpretação.59 Este era o objetivo de Paulo ao construir o discurso moral/cristão: fundar o rebanho e exercer o domínio sobre ele. queria o padre.. § 260.) finalmente uma nova exigência se faz ouvir.58 Nesse cenário. Em Paulo toma corpo o tipo oposto ao portador da “boa notícia”. mais uma vez. encontrei certos traços que regularmente retornam juntos e ligados entre si. até que finalmente se revelaram dois tipos básicos. 1995. com Paulo. Ibid. no Para Além de Bem e Mal: “Numa perambulação pelas muitas morais.. impondo sua forma de interpretar. No fundo. ele o pregou em sua cruz. Idem. § 42. porque. quando esse moedeiro falso por ódio lançou mão somente daquilo que podia aproveitar.. o cristianismo é a religião de Paulo. consoante a genealogia. § 42.. Nesse cenário da genealogia é que Nietzsche irá apontar a duplicidade da moral. 1999. as mais finas e as mais grosseiras.55 Retomando uma passagem do Prefácio da Genealogia da Moral anteriormente citada. Para Nietzsche.

O louco saltou em meio a eles e transpassou-os com seu olhar: “– Onde anda Deus?”. os malnascidos. mais tarde.. Todo o bem formado. soberbo.primou pela degeneração do homem.62 CONSIDERAÇÕES FINAIS À guisa de conclusão. suscitou grandes gargalhadas. para todos os lados? Haverá ainda um em cima e um em baixo? Não erramos como através de um nada infinito? Não sentimos na face o sopro do vazio? Não fará mais frio? Não seguirá a vir noites.)”. ao criar os ideais morais do cristianismo. No Assim Falou Zaratustra. molestalhe o ouvido e os olhos.) Paulo quer envenenar “a sabedoria do mundo”.. os inimigos dessa interpretação moral. Nietzsche também usou de um personagem para proclamar a morte de Deus. no Preâmbulo. o pecado contra Deus era o maior dos pecados. orgulhoso. “– Ou estará escondido? Terá medo de nós? Terá partido?”. o que é insensato perante o mundo. os doentes e pobres de espírito. Aquele “Deus” que Paulo inventou para si. 64 63 Ibid. um deus “que envergonha a sabedoria do mundo” (. Deus como aranha.. mas Deus morreu. sendo ele todo poderoIdem. § 3. Paulo. anuncia a morte de Deus. antes de tudo. gritou. para o lado. foi Paulo quem colocou na boca de Deus que ele escolhe os fracos. quem anuncia que Deus está morto: “Noutros tempos. Dessa forma. disse um. § 18. gritavam e riam todos da grande confusão. por sua vez.. seus inimigos são os bons filólogos e médicos. Deus como espírito – é um dos mais corrompidos conceitos de Deus que se tenha obtido na terra”. cabem perguntas: como é possível assassinar Deus.. 60 61 62 Nietzsche. é o próprio representante da revolta escrava. § 18. Cito Nietzsche: Paulo compreendeu que a mentira – que “a crença” era necessária: a Igreja.) é. Ibid. para trás. e com ele morreram tais pecados”. gostaria de chamar a atenção sobre a última frase de Nietzsche: os inimigos de Paulo. 1999. ou seja. justamente porque é pela filologia que se pode desconstruir a forma paulina de interpretação moral. na moral efetivada na fundação da religião cristã baseada na forma paulina de interpretação: “O cristianismo tem sua base na rancor dos doentes e no instinto contra os sadios. o que é ignóbil e desprezado’ (. Como lá se encontravam muitos que não acreditavam em Deus.. são os bons filólogos.. somente a resoluta decisão de Paulo a chamar “Deus” sua própria vontade. 1997. § 125. “– Está perdido como uma criança?”.. na verdade. “– Está talvez perdido?”.60 Sob essa perspectiva.64 Dado este fato. 54 impulso nº 28 . através do louco. Isto fica claro no Anticristo: “O conceito cristão de Deus – Deus como divindade dos enfermos. (. pois foi o apóstolo quem inventou esse deus que prima pela fraqueza e pela resignação. Nesste texto. Preâmbulo de Zaratustra. perguntou outro. “– Vou lhes dizer! Nós o matamos: vós e eu! Somos todos nós seu assassino! Mas como fizemos isto? Como pudemos esvaziar o mar até a última gota? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava a terra ao sol? Para onde que se move agora? Para onde nós vamos? Longe de todo sol? Não é nosso eterno cair? Para a frente. § 18. Recordo outra vez as inapreciáveis palavras de São Paulo: ‘Deus escolhe o que é fraco perante o mundo. tomo uma passagem do texto A Gaia Ciência: Nunca ouviram falar de um louco que em pleno dia acendeu sua lanterna e pôs-se a correr no mercado gritando sem cessar: “– Procuro Deus! Procuro Deus!”. é Zaratustra. contra a saúde. NIETZSCHE. a beleza.. cada vez mais noites? Não deveremos acender lanternas durante a manhã? Não escutamos ainda o ruído dos coveiros que enterram Deus? Não sentimos ainda o cheiro da putrefação divina? Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E nós o matamos!”63 Para finalizar.61 Esse conceito de Deus é uma improbidade cristã justamente porque é a forma de Paulo interpretar a idéia de Deus. compreendeu. Ibid.

para dizê-lo de modo mais simples e para o ‘povo’. Paris: Librairie Philosophique J. Col. Desta forma. a morte de Deus é possível quando Deus for uma idéia construída por uma forma de interpretação. a vida plena no paraíso. o cristianismo tornou-se o maior inimigo dos homens. Nietzsche conduz o louco até as igrejas. Para Nietzsche. 1987. exatamente. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo/Educ. o Deus cristão é o Deus de Paulo. assim. Ora. a igreja tornou-se a tumba de Deus. disse que era limitado a responder invariavelmente deste modo: ‘De que servem estas igrejas se são tumbas e monumentos de Deus?’”.65 Nessa passagem. NIETZSCHE. que torna a vida humana um martírio pelo sentimento de culpa.)”. pois até hoje os homens vão até elas. distante. § 125. Nietzsche escreve: “Conta-se ainda que esse louco entrou. o assassinato de Deus. São Paulo: Abril Cultural. Ao negar os homens e a vida terrena. FOUCAULT. 1988. BACON. 1987. DESCARTES. Novum Organum. na medida em que ele se constitui num discurso. ARISTÓTELES. sim. Referências Bibliográficas AGOSTINHO. No final desta mesma citação. Os Pensadores. Assim. impulso nº 28 55 . este é o maior erro da religião de Paulo: negar os homens. ou. Ao matar aos poucos e muito lentamente a vida humana. No entender do filósofo. Para Nietzsche. São Paulo: Abril Cultural. Régles pour la Direction de l’ Esprit. São Paulo: Abril Cultural. M.66 E a igreja fundada por Paulo é o sepulcro de um Deus ausente. Paulo foi o responsável pela interpretação cristã de Deus. negar a vida na terra. 1973. R. e as igrejas foram. A Ordem do Discurso. Col. Col. São Paulo: Edições Loyola. Mas. É a esse resultado que o caminhar de Nietzsche pela ciência filológica chegou. mas torna-os seres malogrados e ressentidos. 1999. sendo o grande fundador do cristianismo. neste mesmo dia. Prólogo. M. conseguiu que a sua “boa-nova” fosse a “boa-nova” para todos. essa igreja tornou a vida humana um fardo. A aplicação do método genealógico de busca pela “origem” do cristianismo conduziu Nietzsche até a figura de Paulo. __________. mas uma vida de expiações e arrependimentos. Independente do peso da eliminação da idéia de Deus em nossa consciência. que precisam expiar seus pecados para alcançar. 1990. Ética a Nicômaco. Retomando a passagem: os homens foram os responsáveis pela morte de Deus porque foram os homens os criadores de Deus. ANDREY. F. De Magistro.. um Deus metafísico. que não enobrece os homens. 1998. Deus é a materialização de uma idéia humana..so? Como é possível matar Deus se ele não é um ente material? O ponto central desta questão é exatamente isso: é possível. em diversas igrejas e entoou seu Requiem aeternam Deo. Os Pensadores. na medida em que concebeu os homens como seres desafortunados. somente eles podem ser seus assassinos. Para Compreender a Ciência. Paulo era um conhecedor da filosofia de Platão e. o apóstolo precisava tornar universal e aceita por todos a sua forma de idealizar 65 Deus. que não deseja a felicidade humana. Discurso do Método. remorsos e arrependimentos pelo pecados cometidos contra esse Deus. demasiada humana. São Paulo: Abril Cultural. as igrejas são os sepulcros de Deus. Os Pensadores. et al. 66 NIETZSCHE. numa forma de interpretação. Isso fica claro no Prólogo de Além do Bem e do Mal: “Mas a luta contra Platão. o cristianismo paulino era a aplicação na religião da metafísica platônica. Col. Sendo os homens os criadores de Deus através de um discurso tornado oficial. Os Pensadores. o homem é plenamente livre para tal ato. Uma vez assassinado Deus. como bem apontou o louco. do Deus concebido por Paulo e que ama não a vida. a luta contra a pressão cristã-eclesiástica de milênios – pois o cristianismo é o platonismo para o ‘povo’ (. 1999. não nesta vida terrena marcada pelo sofrimento. o meio eficaz.A. mas a morte. Expulso e interrogado. para Nietzsche.Vein. por que na igreja? Para o filósofo. 1973.

1997. Os Pensadores. NIETZSCHE. __________. F. Cosí Parló Zarathustra. Milão: Arnoldo Mondadori Editore.__________. As Palavras e as Coisas. 1988. Nietzsche em suas Obras. __________. Rio de Janeiro: Graal. __________. __________. Freud e Marx. HALÉVY. Genealogia da Moral. 1992. Nietzsche Philosopher. 1974. São Paulo: Martins Fontes. Nietzsche: uma biografia. New Jersey: Princeton University Press.Antichrist. São Paulo: Companhia das Letras. 1987. São Paulo: Abril Cultural. 2000. 1989. Col.W. Obras Incompletas. São Paulo: Brasiliense. GEFFRÉ. SALOMÉ. Milão: Arnoldo Mondadori Editore. Milão: Arnoldo Mondadori Editore. La Gaia Scienza. 1999. 1995.P. __________. 56 impulso nº 28 . Nietzsche e o Cristianismo. 1997. L’Anticristo. L. Microfísica do Poder. D. Milão: Arnoldo Mondadori Editore. 1981. Milão: Arnoldo Mondadori Editore. Petrópolis:Vozes. 1995. Psychologist. __________. Col. Aurora. JANZ. 1999. __________. 1981. São Paulo: Brasiliense. C. et al.A. São Paulo: Abril Cultural. Os Pensadores. __________. KAUFMANN. Nietzsche. Sofista. Crepusculo degli Idoli. São Paulo: Princípio. Nietzsche: infancia y juventud. Rio de Janeiro: Campus. 1995. Além do Bem e do Mal. C. 1990. PLATÃO. 1983. __________. Madri: Alianza.

apreendidos à luz de um racionalismo que não ignora a matriz intersubjectiva de que nasce.pt impulso nº 28 57 . por não ter sido capaz de lidar adequadamente com as idéias de verdade e de justiça num horizonte de relatividade histórico-cultural. However. não reconhecendo um terceiro termo entre o individualismo exacerbado e a frivolidade da vida quotidiana. coordenador do Departamento de Ciências da Educação da Universidade de Trás-osMontes e Alto Douro (Portugal) jbianchi@utad. Keywords NIETZSCHE – HISTORICISM – IDEOLOGY – EVERY-DAY LIFE – RELATIVISM – RATIONALISM.” thereby denying any possibility of deliberate choice or free action and that his vision of the future. éticos e axiológicos. Palavras-chave NIETZSCHE – HISTORICISMO – IDEOLOGIA – COTIDIANO – RELATIVISMO – RACIONALISMO. JOSÉ JOÃO PINHANÇOS DE BIANCHI Doutor em Ciências da Educação. he was not able to deal adequately with the ideas of truth and justice within a horizon of historic and cultural relativity. são suficientes para contrabalançar a atração solipsista do “espírito puro” e o risco de despersonalização decorrente da massificação e do consumismo. by not recognizing a third term between exacerbated individualism and the frivolity of every-day life. e que a sua visão do futuro. sobretudo. Porém. se conservou nos limites do niilismo que se propôs superar. Therefore. it is insinuated that the challenges of the present learned through the light of rationalism. negando toda a possibilidade de escolha deliberada ou de ação livre. is sufficient to counterbalance the solipsistic attraction of the “pure spirit” and the risk of depersonalization current in the mass society and in consumerism. We note the relevance of his diagnosis in various gnosiological as well as ethical and axiological aspects. sustentase que Nietzsche errou ao encerrar-se nas malhas do “eterno retorno”. On the other hand. insinua-se que os desafios do presente.HISTÓRIA E VERDADE: do absolutismo ascético à ascese do relativismo HISTORY AND TRUE: from asceptic absolutism to the ascesis of relativism Resumo Neste artigo aprecia-se brevemente o perspectivismo filosófico que Nietzsche delineou como resposta ao historicismo. we hold that Nietzsche made the mistake of falling into the trap of the “eternal return. Em contraponto. was kept within the limits of nihilism that he proposed to overcome. that does not ignore the intersubjective matrix from where it came. em vários aspectos gnosiológicos e. Abstract In this article we briefly appreciate the philosophic perspectivism that Nietzsche delineated as a response to historicism. Sublinha-se a atualidade do seu diagnóstico.

1974. upanishádica. budista. do sagrado.4 O século XVIII. da razão e da experiência –. como futuro. Ibid. a tradição européia “afunda as suas raízes no pensamento cristão da história como plano de salvação”. .3 A partir do século XVI. todavia. suspendendo o devir histórico: “Suas viragens eram. p. “o caminho que antes conduzira à escatologia. pp. pressupostamente prévios a toda experiência. Redefinido o seu ponto de partida. para o plano imanente. Ibid. é uma das traves mestras das tradições construídas ou inventadas pelas sociedades na fundação de uma auto-imagem coletiva. a mentalidade científica fez-se acompanhar de uma “consciente secularização da existência humana (.) que se apresentam como explicações comosgónicas e lugares de explicitação do sentido da existência humana.Longe de acreditar que não há nada em que acreditar. parecia agora levar à plenitude da civilização”. do domínio do inexplorável (o Pecado de Adão. p. nomeadamente daquelas que se exprimem em religiões (ou quasereligiões) assentes em livros (as literaturas védica. Cf. 58 impulso nº 28 . confucionista.. taoista. p. 15. Como nos lembrou Karl Jaspers. propô-la como autoconsciência da aventura da vida do homem.. uma racionalidade capaz de localizar a interpretação dos fatos históricos no domínio do averiguável. CLAUDE ROY1 A 1 2 3 4 5 6 História. jainista. o “século das luzes”. 14.. o Talmude. p. o Alcorão. ao juízo final. Ibid.6 ROY 1958. 58.. o Iluminismo procurou descortinar na cadeia dos acontecimentos um fio condutor. os dias da Redenção. bramânica. o termo escatologia”. JASPERS.) que. 13.. quanto ao passado.. e imediatamente alicerçado nas cartesianas clareza e distinção ou nos princípios kantianos. daquilo que se pode submeter ao escrutínio da razão e à prova documental. ele acreditava unicamente que é necessário acreditar em mais coisas do que se imaginam ao princípio.. no século XVIII. 3-9. 15. a Bíblia. as sagas eslavas e escandinavas. a Revelação de Moisés e a eleição do povo judaico. 1968. p. atinge o seu apogeu”. como grande narrativa da gênese e da evolução do mundo e da humanidade. GARDINER. as Profecias) ou. ao conceber a história como ciência – ao procurar trazer a história do plano transcendente.5 Longinquamente herdeiro da visão platônica de um elegante quadro de formas perfeitas e perfeitamente ordenadas.2 em cujo âmbito todas as épocas da existência mundana se dissolvem numa intemporalidade expectante dos últimos dias.

cf. transcendente e desligada da ordem vivenciada. a idéia iluminista de que a vida humana progride racionalmente. 8 Para uma perspectiva global da evolução da idéia de progresso. a perspectiva originária das Luzes orientou-se. intangível e intemporal. pp. 283. de Immanuel Kant. de Augusto Comte. tem na mão todas as grandes noções (. a “ciência”. 90-100. pp. a atenta exegese dos documentos. importava sair da caverna das impuras e obscuras ilusões dos sentidos para alcançar o luminoso entendimento de desígnios superiores: um caminho de ascese – de ascensão e de purificação – procurando o Absoluto. e “O Progresso do Espírito Humano”. Metodologicamente. se cuidadosamente perscrutadas. para 7 Veja-se. está. 1974. na natureza ou na história. in GARDINER.) e lançaas com um benévolo desprezo contra o “intelecto”.9 que continuou a alimentar o pensamento historicista do século XIX. o primeiro dogma ‘científico’ da história humana”. de certo. 57-112. de Karl Heinrich Marx. como sublinhou Karl Popper. 155-169. pela vigilância historiográfica – a crítica minuciosa das fontes. fontes equivalentes de certezas igualmente reconfortantes.14 No seio de esquemas filosóficos que têm como fundo comum o historicismo. as “honras”. à confiança no incognoscível.) O puro espírito.15 14 Karl R. portanto. para a produção nomotética que culminaria na atitude positivista (em Comte. pp. 1974. in GARDINER. 1974. são inteiramente abarcáveis pela inteligência. “História Filosófica”. pp. o programa iluminista organizou-se em torno de um critério de inteligibilidade. 10 Veja-se. são evidentes. tal como o padre. eis a pura mentira. 28-41. o “conforto”. 12 Veja-se. como tudo o que é humano. na senda da auto-consciência). a crença de que o que ilumina. preenchendo o vazio deixado por outro Absoluto. 1974. é apenas uma metamorfose do velho sonho “de que a história tem um enredo cujo autor é Javé. por exemplo. com maiúscula. 337. em Marx11 (o processo de desenvolvimento da sociedade. a crença de que as coisas. na História Científica. a razão suficiente da sua existência e das suas transformações. 13 Veja-se. 23. o que esclarece. de Antoine-Nicolas Condorcet. MAGALHÃES-VILHENA. 1999. 7-63.. “A Filosofia Positiva e o Estudo da Sociedade”. Razão e Fé são. 1997a. permanece acima do vivido. por exemplo. Aparentemente. p. permitindo antever o que o futuro nos reserva. No segundo momento. de Giambattista Vico. No primeiro momento. pp. ser deslindado pelos profetas”. in GARDINER. “Idéia de uma História Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita”.. 1974. numa abstração pura. vê tais coisas abaixo de si como forças perniciosas e sedutoras. em Darwin e em Spencer12 (o processo de desenvolvimento das espécies e dos grupos. Popper. acima das quais “o espírito plana”. substitui-se a fé no conhecimento.. 1974. de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. “Concepção Materialista da História” e “A Inevitável Vitória do Proletariado”. do que. diremos que a compreensão da História passou de uma aceitação da ordem divina. pp. 1984. por exemplo. 73-88. in GARDINER.. 11 Veja-se. É contra o “conforto metafísico” das certezas absolutas que se rebela Nietzsche. A sua voz ergue-se para denunciar o pendor puerilmente moralizante das conjecturas que julgam descobrir. em última análise. especialmente pp. in ABBAGNANO. em si mesmas. pp. a compreensão é trazida para o campo do humano. 1974. que desde então se constituiu em disciplina escolar.Conceptualmente. e que esse enredo pode. têm.”. na via seletiva dos mais aptos). in GARDINER. “A Ciência Nova”. p. a Razão. 15 NIETZSCHE. uma linha de demarcação que defina o que é verdadeiro ou justo: “O idealista. impulso nº 28 59 . 62-70. in GARDINER. 15-27. em geral. in GARDINER. os “sentidos”.. por exemplo. o rigor hermenêutico –. a atribuição de uma ordem imanente. é a Razão. 9 BOORSTIN. 1979. Feitas bem as contas.8 a “primeira ideologia moderna. como se constata em Hegel10 (o processo de desenvolvimento do espírito. mas também.7 No seu cerne. afinal. segundo o qual as sociedades aparecem como conjuntos organicamente interligados e cujos processos de mudança ocorrem em direção a estados de sucessivamente acrescida auto-suficiência ou no caminho de tensões e de impasses que desembocam na sua substituição por novas formas organizativas.. Mas. mais profícuas e estáveis. e para a qual o conhecimento histórico depende do fluir dos acontecimentos pretéritos segundo uma linha necessariamente convergente no presente).13 Resumindo. (. “Previsão e Profecia nas Ciências Sociais”. por exemplo. no trilho da justiça e da igualdade). é instável e contigente. pp. “O Positivismo Evolucionista”. uma idéia de progresso. presente no próprio desenrolar da vida e dos eventos. em parte.

1998. Idem.19 Porque as suas palavras parecem ter-nos sido diretamente dirigidas. embora com muitas novidades. p. evidenciando como não podem deixar de ser contra natura as perspectivas 16 17 18 que encerram a vida num quadro de categorias abstratas. porque é necessário calor. Idem. que falam as suas palavras: Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. 60 impulso nº 28 . 51.) não será permitido experimentar e perguntar se aquele “dado” não chega para se compreender também. reconstrói a metafísica. pois o homem precisa de calor. 50.... pura e divinamente despreocupada”. (. Nietzsche contrapõe a inevitabilidade das escolhas incertas e o papel incontornável das deliberações subjetivas.) mas a sua pouca honestidade. ignorantes das necessidades biológicas e dos desejos que nelas se enraízam. p. aparentemente impassível e desinteressada. Olhai! Vou-vos mostrar o Último Homem: “O que é amar? O que é criar? O que é desejar? O que é uma estrela?” Assim falará o Último Homem. da decadência cultural. dirão os Últimos Homens. 1997b. é só preciso ver onde se põem os pés! Insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens! Algum veneno de vez em quando. que vivemos mergulhados no morno e securizante bem-estar das sociedades consumistas. 91. erigidos em absolutos negativos: “O homem moral não está mais perto do mundo inteligível do que o homem natural – pois não há mundo inteligível”. piscando os olhos.18 Mesmo quando se deixou distorcer pelo exagero. da desistência da livre determinação. no querer corpóreo dos instintos. em muitos dos seus passos.Àquele modo de pensar. feita de alegrias breves.17 Porém. e não numa inteligência etérea. da desorientação. nela se verá saltitar o Último Homem. desnudando o caráter ilusório das descrições tidas como independentes dos interesses e motivações dos seus autores. a partir dele. coisa que proporciona sonhos agradáveis. geradoras de um sentimento de culpa ou de imperfeição onde apenas se cumpre a irreprimível apetência de viver.16 Retomando. A doença. Terão abandonado as regiões onde a vida é rigorosa. p. “Descobrimos a felicidade”.. como se fossem um resultado automático da aplicação de regras metodológicas: “O que incita a olhar-se metade dos filósofos com desconfiança e a outra metade com ironia não é darmo-nos permanentemente conta de como são ingênuos (. da satisfação com uma caricatura de felicidade. na entrega ao hedonismo frívolo de “uma vida de minguadas aspirações.. é o nosso tempo – é grande o risco do vácuo axiológico. a sua constatação de que no tempo da “morte de Deus” – um tempo de desencantamento que. o Último Homem será o que viver mais tempo. porque parece ser de nós. A sua espécie é tão indestrutível como a do pulgão. piscando os olhos. 18. 1997c. Nietzsche recorda-nos que é na paixão e no gosto. a proposta (de Schopenhauer) do “mundo como vontade e representação”.) Enfim.. Ai! O que se aproxima. do homem que nem se poderá desprezar a si mesmo. não é só permitido fazer-se esta tentativa: a consciência do método ordena que tal se faça”.) Fingem todos ter descoberto e alcançado as suas verdadeiras opiniões pelo desenvolvimento de uma dialética fria. é a época do homem mais desprezível. Ibid. a insurreição de Nietzsche contra a sonolência apaziguadora das religiões institucionalizadas e contra o historicismo otimista das ideologias do progresso propiciou. A terra ter-se-á então tornado exígua. além disso. (. divorciadas da materialidade do corpo. que deverá ser procurada a raiz das explicações: “Admitindo que nada seja “dado” como real a não ser o nosso mundo de desejos e paixões (. mais do que o seu. E incontornável é. que apouca todas as coisas.. num modo desencantado e áspero que se deixa atrair niilisticamente pelos abismos da irracionalidade e da incognoscibilidade. a desconfiança hão-de parecerlhe outros tantos pecados.. sem ver mais longe que de um dia para outro”. p. um diagnóstico incontornável.. E muito ve19 Idem. o chamado mundo mecanicista (ou material). absolutizando ele próprio a “vontade de poder”. Ainda se amará o próximo e se roçará por ele.

neno para acabar. no céu ou na terra. O viver humano decorre sob o signo da intencionalidade. de acordos e de recusas. mas respeitar-se-á a saúde. Assim seria. a fim de se ter uma morte agradável. que os configuram e nos determinam. nem à dissolução num quotidiano abúlico. se os homens assassinaram Deus. se à “idade da inocência” nada pudesse suceder além do vazio e da desilusão. saber-se-á tudo o que se passou antigamente. “Noutro tempo toda a gente era doida”. e se ela não permite delinear um futuro desejável. se à antevisão de um futuro paradisíaco. quem quer que tiver um sentimento diferente entrará voluntariamente no manicômio. quer dizer. Este sentimento inscreve-nos num tempo e num espaço imaginários. A nossa vida humaniza-se. Uma pessoa deixará de se tornar rica ou pobre. Habita-nos o sentimento de que a nossa vida é um enredo do qual somos autores. com os detalhes de um ponto de chegada a alcançar.. determinado por pretensos valores vitais. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado penosas. os homens não estão forçados à aceitação voluntária de um destino obrigatório. piscando os olhos. porque o trabalho distrai. 20 Ibid. Nietzsche acabou por errar na formulação do problema. destacando-se sobre um fundo de eventos sem propósito. O futuro do mundo não é. pp. talvez inexoráveis. se em vez da fantasia do saber absoluto não houvesse senão a ignorância completa. todos serão iguais. piscando os olhos. portanto. livres. o que nos acontece é aquilo que fazemos. conseqüentemente. seguramente. subjetivos. Não admira. Trabalhar-se-á ainda. Muito além das circunstâncias objetivas em que vivemos. tudo lhes é permitido. tudo o que nos assegura da nossa humanidade é a ilusão de que somos humanos. 17-19. Ser-se-á sagaz. muito além das possibilidades e dos limites dos espaços físicos. condenando a humanidade ao amor fati. são coisas demasiado penosas. de iniciativas e de omissões. de certo. Ainda se questionará. imposto pelo egocentrismo ético de quem esqueceu que o único reconhecimento autêntico é o que se verifica entre iguais. porque entre o tudo e o nada do saber absoluto há todo o espaço da verdade relativa. se o ceticismo fosse a única alternativa à salvação sobrenatural ou à utopia progressista. Mas ter-se-á cuidado para que esta distração nunca se torne fatigante. Frágil como todas as ilusões. que errada tenha sido também a solução que propôs. e dos dinamismos. desta maneira se terá com que zombar sem cessar. na ilusão indissolúvel de que podemos escapar ao império dos fatos. a subordinação à implacável “vontade de poder” do “super-homem”. numa estóica resignação com o seu cíclico destino. passíveis de escolha. com medo de estragar a digestão. O futuro do homem não é. “Descobrimos a felicidade”. de que podemos decidir à revelia dos determinismos que subjugam as coisas e os acontecimentos. torna-se vida humana. é ainda bastante para identificar o que no presente se quer superar. Como criadores de valores. Impetuosamente arrastado pela força do seu desmedido pessimismo. de que o que conta são as ações deliberadas. Ter-se-á um pouquinho de prazer durante o dia e um pouquinho de prazer durante a noite. dirão os Últimos Homens. o sentimento de que. em que a nossa vida se singulariza como um trajeto pessoal.20 Mas não é igualmente certeira a conclusão de que. dirão os mais sagazes. Falamos. somente se pudesse contrapor o inferno ou a anomia. sentimo-nos sujeitos de sucessos e de fracassos. do sentido da vida e de vidas com e sem sentido como de percursos com orientação definida num intricado tecido de memórias e de aspirações que nos religam ao passado e nos impe- impulso nº 28 61 . mas depressa surgirá a reconciliação. contraditando o acaso e a necessidade. Mas não. e desejando ver reconhecido o seu próprio valor. responsáveis pelo que conseguimos ou tentamos. o “eterno retorno do idêntico”. em que nos apropriamos da nossa vida e lhe atribuímos um sentido. biológicos e sociais em que nos situamos. submetidas ao nosso arbítrio individual ou colectivo. Nenhum pastor e um só rebanho! Todos quererão a mesma coisa. e para definir uma direção para o percurso a fazer.

exonera-se perante as decisões dilemáticas.. desligado dos objetos. como se as nossas intenções individuais fossem meras reformulações impessoais do querer coletivo. Através da repetição. uma tentação de plenitude que nos inquieta. Por trás da abdicação da integridade resiste. preenche os vazios da compreensão truncada.. cria a miragem da descrição adequada e do pensamento suficiente. ao passo que o que simplesmente é parece ser tão transitório que é como se não existisse (. o esquecimento do conflito sem remédio entre a nossa insaciável apetência de infinito e a condenação ao precário e ao efêmero em que nos deixamos aprisionar. furta-se à ignorância e à dúvida. plenas. rarefeitas. da substituição do todo pelas partes. Alienamo-nos na ficção de uma intencionalidade limitada como se fôssemos simples objetos de decisões alheias. a ideologia reduz as fraturas da inteligência incompleta. entregue a si mesmo. o sono que apazigua o nosso pensamento ferido pela contradição entre o relativo em que escolhemos viver e o absoluto para que apela a nossa humanidade. A nossa vida sente-se e pensa-se. privado dos liames que o prendem ao mundo. da conversão da utilidade de hoje em critério para ontem e para amanhã.21 Todavia... Os hábitos e os artefatos da nossa comunidade são. Redigimos a nossa biografia íntima na língua em 21 ARENDT. não há sossego no ilimitado horizonte temporal da vida vígil. acomodamo-nos na mansidão do relativo e do contingente. que os outros nos falam. da troca da realidade complexa pela aparência simples. evoca-se e antevê-se com as palavras e os símbolos da cultura comum. da transformação dos fatos em normas. Atemoriza-nos a vastidão indefinida que nos envolve. a vida humana é a vida que começa antes do princípio e se prolonga para além do fim.) manifesta-se na facilidade com que a oposição entre pensamento e realidade pode ser invertida. um resíduo nostálgico do nosso ser inteiro.. somente em ocasiões extremas somos capazes de afrontar resolutamente as conseqüências da nossa liberdade e nos dispomos a correr o risco de subordinar a nossa vida à compulsão voluntária de uma intenção com valor absoluto. demasiado agreste a condição do espírito separado do corpo. da atribuição do estatuto de regras gerais aos modos particulares do estar atual. demasiado inóspita a solidão do espírito que enjeita o aconchego da vida em comum.lem para o futuro: vidas harmoniosas. então. É demasiado inclemente a responsabilidade do espírito livre.. A ideologia é a obliteração das lacunas e das incongruências inerentes à nossa renúncia ao esforço de tentar pensar o complexo e abranger a totalidade. História e projeto. fluindo entre recordações aceites e antecipações desejadas. finge prolongar o pre- 62 impulso nº 28 . A plenitude do ser é tão perturbadora quanto o vazio absoluto do nada. Através da simplificação. 31: “Estar vivo significa viver num mundo que precedeu a nossa própria chegada e que sobreviverá à nossa própria partida”. 220-221: “A intensidade da experiência do pensar (. tentando fugir do que ficou para trás e temendo o porvir. Através da generalização. da isenção da responsabilidade alegando a coercitividade das circunstâncias. A ideologia é a sutura inconsciente das fissuras que se abrem à inquietação. da simulação da permanência.) alheamento inerente a todas as atividades do espírito. p. exime-se das escolhas arriscadas e desconfortáveis. ciente de que agora é sempre antes e depois.22 É excessivamente intensa a exaltação da vida que não se deixa entravar pelo ritmo das coisas mundanas. A maioria das vezes. preenchida pelos pequenos problemas da gestão do cotidiano..) estas singularidades do pensar brotam do (. Preferimos a amena escravidão de quem se imagina impulsionado pela pressão cega de forças externas à insegurança e à incerteza radicais de quem desenha o seu próprio destino. de tal maneira que só o pensamento parece ser real. Abdicamos da singularidade angustiante do nosso ser único e uno em favor de uma existência tranquila. pp. 22 Ibid. quando nos assumimos como seres absolutamente indeterminados. legitima o pragmatismo fácil e cômodo que identifica o valor com o uso. cola os fragmentos avulsos do entendimento parcial. os modos e as matérias-primas do nosso agir. Por isso. o pensar lida com ausências e isola-se do que está presente e à mão”. no entanto. 1999. A lucidez permanente é insuportável. a representação racionalizada da vida fragmentária que nos resta quando nos refugiamos no cálido torpor do casual e do fugaz. saturada pelas brandas aflições do dia-a-dia. impermeável à angústia. ou vidas desconjuntadas. a ocultação da irracionalidade intrínseca à cisão em que consentimos dividir-nos entre os imperativos da consciência e as prescrições da sobrevivência. entrincheiradas no presente.

Por isso. promete-nos a serenidade. acolhendo a lição do Pragmatismo. a nossa propensão para as previsões distópicas. da irreparável catástrofe ecológica. e nos previnem dos erros resultantes da colocação do sentido fora do espaço e do tempo. animam-nos ainda com a convicção de que as crenças e as opiniões podem ser avaliadas. Basta reconhecer. e que têm um determinado “grau de veracidade”.. de violência. não é preciso definir um destino ou um ponto de chegada. os pragmáticos desconfiam da força mítica e da eficácia mistificadora das “grandes narrativas” (ideológicas ou científicas). oferece-nos a segurança e o equilíbrio. de doença. e que esta pode ser apenas a do afastamento em relação àquilo que se deseja evitar. Tal como alguns daqueles que nos habituamos a chamar “pós-modernos”. a matriz da solidariedade que nos une. de miséria. entontecidos pelo corrupio das nossas ocupações. lembrando o passado e edificando voluntariamente um futuro melhor. de pequenas ambições.sente num retorno previsível.. o tempo ideológico. das nossas obrigações. a consciência de que só podemos ser com os outros. a cada momento. depende somente de perceber que. grande parte da nossa vida é vivida em função de objetivos imediatos. Porque não são as soluções acabadas que dão sentido à vida. de formas de racionalidade tidas como absolutas ou independentes das vicissitudes do viver concreto em cada tempo e em cada lugar. órfão de absoluto e paralisado pela nostalgia das certezas definitivas se recusa a compreender que todo “o caminho se faz caminhando” e que.. a direção em que se quer prosseguir. Enredados na trama da vida diária. serve à formulação e à solução dos problemas postos pela existência. Conseguiremos esquivarmo-nos ao solipsismo angustiante e à queda na banalidade do cotidiano? Como poderemos ser nós próprios e conservar a nossa liberdade sem deixarmos de ser solidários? O nosso tempo é o primeiro em que o cenário da destruição total da biosfera. O que quererá dizer pensar se o pensamento não refletir tamanhas evidências? Se soubermos avivar a consciência da nossa individualidade. mensurável por meio da ade23 LYOTARD. impulso nº 28 63 . A vida tem sentido porque é permanentemente problemática. ficamos completamente absorvidos pela atualidade. que é também a nossa igualdade básica como seres humanos e. encerra todas as esperanças nas fronteiras do disponível. imaginada por masoquismo ou paranóia. não será a falta de desafios que levará à falência do ânimo. das nossas rotinas. Partilharemos com Nietzsche a ambição de não nos deixarmos ofuscar pela capacidade sedutora da Razão. em cada momento. sem dúvida. Esse perigo. o tempo reduzido ao presente. não nos sobra qualquer parcela de tempo para o passado nem para o futuro. limitase ao curto prazo. Olhar esperançosamente para o futuro não depende de saber como será o dia de amanhã.) o ‘pós-moderno’ é a incredulidade em relação às metanarrativas”. portanto. O cotidiano é.. não recusaremos a validade daquilo que. se não nos facultam o conforto de indiscutíveis certezas utópicas e intemporais. Por muito tempo. p. por excelência. não é apenas uma possibilidade delirante. a certeza de que vale a pena estar vivo. Mas só um pensamento afogado na autocomiseração. tal como ontem e hoje. dia a dia. indiscutivelmente real. Há muito mais do que tédio e acrítico hedonismo quando diante dos nossos olhos se desfiam interminavelmente os exemplos de fome. a extinção da mágoa da vida que se escoa irreversivelmente. serão demasiadas as imperfeições no mundo e na vida dos homens para que se possa imaginar que não existe escapatória diante do destino sombrio e apático que Nietzsche traçou para o “último homem”. explica a nossa incapacidade para conceber utopias positivas.23 No entanto. quer dizer. atrelados ao movimento alucinante das coisas. à cintilante metamorfose das mercadorias que nos encandeia. 12: “(. 1989. disfarça a finitude numa atualidade perpétua. pelas cíclicas solicitações da interação social em que nos dispersamos. venceremos a prisão do ceticismo e redescobriremos. através dos serviços que prestam às formas de vida a que se referem. Mas. para caminhar. entretidos pelo tagarelar contínuo.

quando escreveu: “Fundamentalmente (o racionalismo) consiste em admitir que ‘eu posso estar equivocado e tu podes ter razão e. Lisboa: Caminho. a adequação da descrição das coisas e dos acontecimentos. 2ª. ed. ARENDT. uma vez que tenhamos deixado de nos preocupar com a questão de saber se a história terá ou não de nos justificar. Os Pensadores.V. Desta maneira poderemos. as formas de conversação de que cada comunidade dispõe.24 Dado que a razão ao nosso alcance é a que elaboramos em conjunto na comunicação. – Pensar. N.XI.V.Lisboa: Moraes. 1997c. ed.25 25 A expressão razão comunicativa remete.. desde que nos tenhamos desembaraçado da idéia de que a história é o nosso juiz. na coordenação de esforços em que. __________. Paris: Gallimard. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. F. A verdade. então talvez. subsistimos. chegar a justificar a história.. 314. POPPER. 1958. E. Lisboa: Guimarães Editores. 1974. 1984.. A Condição Pós-moderna. LYOTARD. História da Filosofia. BOORSTIN. Lisboa: Instituto Piaget. Ecce Homo. POPPER. 1999. devemos converter-nos em forjadores do nosso destino. 1997b. I. P.V. consigamos controlar o poder. 1999. Podemos terminar tomando de empréstimo as últimas palavras de Karl Popper em A Sociedade Aberta e os seus Inimigos: Em vez de posar como profetas. J. ed. Assim Falava Zaratustra. 1967.Progresso: história breve de uma idéia... necessário conviver com a carência de absoluto que daí deriva. e aperfeiçoável. definitivamente. pois. Lisboa: Guimarães Editores. 1967. 1998. ou seja. 1997a. através da “razão comunicativa”. 1989. 3ª. recordando continuamente que verdade e justiça relativas são ainda verdade e justiça. __________.F. D. E é certo que ela necessita seriamente dessa justificação. com algum esforço. pp. É necessário suportar a intranquilidade resultante da de24 terminação parcial e provisória. por exemplo. A Vida do Espírito. 11ª. GARDINER. é sempre relativa. podemos ambos aproximarmo-nos da verdade’”. ed. Para Além de Bem e Mal. sintomaticamente. É preciso passar do absolutismo ascético à aceitação de um estado de privação em que. no seio da comunidade. tudo o que se tem são representações precárias. é em vão que poderemos procurar na história qualquer justificação para a nossa vida.são coletiva que suscitam. A Situação Espiritual do nosso Tempo. Lisboa: Guimarães Editores. Porém. 2ª. La Malheur d’Aimer. K. Referências Bibliográficas ABBAGNANO. MAGALHÃES-VILHENA. 6ª.Teorias da História. 1968. Lisboa: Guimarães Editores. O Anticristo. ROY. pelo nosso lado. Lisboa: Gradiva. H. socialmente construídas com as constrições impostas pelos modos de dizer. ed. p. para Jürgen Habermas. NIETZSCHE. pode-se notar que já Karl Popper entreabriu idêntico entendimento. ed. 400-1. Devemos aprender a fazer as coisas o melhor possível e a descobrir os nossos erros. nos comprovamos e sabemos que somos.. e que aquela intranquilidade é também o que nos impulsiona na busca repetida e hesitante da nossa sempre incompleta humanidade. algum dia. Lisboa: Gradiva. 64 impulso nº 28 . ed. 2ª. 1979. Lisboa: Editorial Presença. __________... 9ª. E é. JASPERS. C. é necessário viver na ascese do relativismo. 7ª.

Fondo de Cultura Económica. Nietzsche lo logra con el arte de la perspectiva. arte que nace de la propia relación de Nietzsche con su propia salud inestable. finalista en el Concurso Ensayo Anagrama 1995. Ha sido profesor de filosofía en la Universidad de Chile y Universidad Diego Portales. MARTÍN HOPENHAYN Master en Filosofía (Universidad de París VIII). inhibit authentic individuality. There is no ultimate truth.cl impulso nº 28 65 .RISA. 1997) y Después del Nihilismo: de Nietzsche a Foucault (Barcelona. de las ideologías del progreso y de la productividad se domestican los individuos. Abstract Nietzsche reads the essence of the subject in a mirror that only reflects. PERSPECTIVA Y DELIRIO: el caso Nietzsche LAUGHTER. además. thus. Premio Iberoamericano de LASA. objectivity. unmasking the tight links between the “herd” morality and the modern “ratio”. 1994. a subject who is always reading. Palabras-llave IRONÍA – PERSPECTIVISMO – MORAL – SALUD – DISCURSO – CULTURA. Editorial Andrés Bello. Latin American Studies Association. but only contingent arguments which rely on the will to impose arguments within an everlasting battle of discourse. CEPAL* mhopenhayn@eclac. and claiming that science. 1997. afirma Nietzsche. progress and productivity are all ideological concepts that have been used to tame individuals and. says Nietzsche. Nietzsche muestra. Todo esto.1 1 * Entre sus libros publicados se destacan: Ni Apocalípticos ni Integrados: aventuras de la modernidad en América Latina (Santiago. y actualmente trabaja en la Comisión Económica para América Latina y el Caribe. And this has been achieved by Niethzsche through perspectivism – an art that is born from Nietzsche’s relationship with his own unstable health. sino juicios contingentes que responden a la voluntad de imponerse en una incesante batalla de discursos. No hay verdades últimas. PERSPECTIVE AND DELIRIUM: the case of Nietzsche Resumen Nietzsche lee la esencia del sujeto y sólo ve en ella a un sujeto que está siempre leyendo. in turn. He goes further on. la articulación que subyace entre la moral del rebaño y la razón moderna: cómo en nombre de la ciencia objetiva. Keywords IRONY – PERSPECTIVISM – MORALITY – HEALTH – DISCOURSE – CULTURE. en España).

La muerte de Dios es una nueva certeza: la del eslabonamiento inacabable de perspectivas sobre una realidad de la cual sólo podemos predicar ese mismo eslabonamiento. 66 impulso nº 28 . su sentido y hasta su existencia. en un juego en que el escrutinio último es sólo un relato más. la reducción del mundo al texto. La ironía consiste en leer la esencia del sujeto y ver en ella. después de Nietzsche se puede decir que el filósofo sale a la calle. trasciende el discurso exclusivamente filosófico (inscrito en esa carrera de relevos que la filosofía ha visto tradicionalmente como su propia historia interna).2 La fuerza de esta proposición radica no sólo en que le sustrae al mundo su pretendido valor intrínseco. Para el desarrollo de esta aseveración. el rictus de un demente y la sonrisa de un vencedor. no es más que un juego de lecturas que hacemos sobre ella. y releer la historia. la razón y la subjetividad como si ellas no fuesen más que narrativas y narraciones. En este punto de la genealogía nietzscheana el mundo queda reinterpretado como un tramado de lecturas. ver NIETZSCHE. y vemos dibujarse de a ratos. lo que da a los hechos su dirección. De allí en adelante el filósofo estará confinado al meticuloso trabajo de desmontar o deconstruir discursos. a saber. Así. a un sujeto que está siempre leyendo. a propósito de Nietzsche LA GENEALOGÍA Y EL ARTE DE REPOSAR SOBRE EL VACÍO N 2 ada de ingenuo hay en Nietzsche cuando invierte la relación entre interpretación y valor. ironizada por su propia evidencia. La interpretación de los hechos termina remitiendo a otras interpretaciones. Pero esa mirada queda. Esto último implica releer los actos del lenguaje como si éstos fuesen el reducto final del Ser. y al valor su pretendida objetividad. y afirma que sólo existen interpretaciones morales de los hechos. al mismo tiempo. Pero la calle. Esta mirada irónica des-sustancializa su objeto. Es connivente con su objeto en cuanto reconoce tanto en él como en sí misma la ausencia de otra cosa (la mirada como non plus ultra. LOU SALOMÉ. a su vez. 1986. Además prefigura lo que un siglo después será una de las tónicas predominantes en el pensamiento filosófico. De este modo el propio ironista termina formando parte. con su lectura. Ahora la filosofía se abocará a auscultar los textos que circulan por el imaginario social y la producción de conocimientos. sobre su mirada. de un universo en que sólo descubre lecturas y en el cual no hay fundamentos inseparables de ellas.Discernimos en su risa una doble resonancia. pero que a diferencia de otros tiene la fuerza para hacerse irreductible. inversamente. A medias lingüista y a medias historiador. o sea la ausencia de verdades últimas). pero no hechos propiamente morales. La mirada irónica sobre el mundo muestra al mundo como un juego sin fondo cuyo vacío se recubre y escamotea con capas y capas de interpretaciones.

y siempre tiene algo de burlesca la mirada que sólo encuentra capa sobre capa de otras miradas allí donde otros postulan la verdad. ambos sumergidos en el vaivén de las lecturas. las categorías de ‘intencionalidad’. A imagen del Dionisos griego. y lo licúa en el baile de las interpretaciones.. y que podría identificarse con extraños personajes. El mundo aparece como un juego de interpretaciones en un campo semántico de lucha. no es motivo para suponer que la investigación socrática sobre la esencia de la justicia o la ciencia o la racionalidad. Por algo Nietzsche juega tanto al bufón como al héroe trágico. Sin una lucha por imponerse la interpretación moral de los hechos resulta inexplicable. diferir y divertir su propia insustancialidad en el baile de las transfiguraciones y en la multiplicación de personalidades: Nietzsche-Dionisos. tras la aparente existencia real del mundo y de los sujetos que lo pueblan. Fin de la culpa por cuanto no hay hechos morales. a saber.) no estimamos lo que conocemos. Nietzsche-Wagner y anti-Wagner. y no tenemos derecho a seguir estimando las mentiras que nos debería gustar oír a nosotros mismos” (NIETZSCHE.6 Sade lo ilustra invirtiendo el orden. Somos dioses porque narramos y somos nada porque sólo existimos en la narración. su errática textura. pp. ‘unidad’. Primero desentraña. de modo que el mundo parece carecer de todo valor (. Nietzsche-Cristo. por tanto. existe el sujeto nietzscheano que pasa por una serie de estados y que identifica los nombres de la historia con esos estados: yo soy todos los nombres de la historia.4 Carcajada. la Historia (1983). sino juicios que nacen y crecen al interior de la historia confrontándose en la inacabable batalla de los discursos.. pero lo arroja a la ingravidez del mero texto. las volvemos a eliminar. Y en el mismo movimiento enmascara su propia mirada: reducido el mundo a juego de lenguaje y chisporroteo de narraciones. No ya la máscara engañosa que pretende ocultar y remitir un cuerpo tras de sí. este ironista vierte sobre los hechos la única certeza que de ellos se deriva. La muerte de Dios corre por este filo entre lo dulce y lo agraz. La Genealogía de la Moral (1990). aleatoria) de lecturas. a saber. la certeza atronadora de que todo es texto. se lanza este ironista a jugar el juego..” (DELEUZE & GUATTARI. Desolación. El ironista-Nietzsche es tanto desenmascarador como enmascarador. nos lleverá mucho más allá de los juegos de lenguaje del día” (RORTY 1989. de la confianza en el valor de las cosas. sino la máscara lúdica que encarna a la persona en lo único que tiene de real. colocando en la base de hechos moralmente 5 Véase al respecto la distinción que hace Vattimo entre la “máscara buena” y la “máscara mala” a propósito de la filosofía nietzscheana (Vattimo. y FOUCAULT. Pero al mismo tiempo la ironía se coloca muy por encima de su objeto por cuanto lo “liquida” en el doble sentido de la palabra: acaba con él en tanto objeto real. por cuanto disuelve el mundo y disuelve el yo cada vez que reduce al mundo y al yo a una suma eslabonada (pero en última instancia. se mira y se interpreta. porque todo deviene fantasma o juego de lenguaje.. 6 Ver NIETZSCHE. p. 1989). 3 libera al sujeto del peso de ser. 74-75). impulso nº 28 67 . . 13). La carcajada cae sobre el mundo como el relámpago incendiando lo que ilumina. 1974.. pero fin. Ríe del mundo sustrayéndole la gravedad propia de quien se pretende real. el bien y la realidad. porque nada tiene cuerpo más allá del mundo simbólico en que se habla. 4 “En suma. con ello. y no obstante uno no quiere renegar de él (.. vale decir. al sátiro y al solitario. p. un movimiento paradójico en que Aquí coincide el concepto de ironista propuesto por Richard Rorty: “El ironista (. ‘ser’. doble sentido de la contorsión que connota a la vez desesperación e hilaridad. Nietzsche. permuta al lector y lo leído. y nos quedamos virtualmente solos frente a todo lo que es sin ser del todo.. también.3 Pero ese mismo poder omnímodo es su confesión de impotencia cuando se trata de asir lo real o verdadero. Pero lo irónico no es la carcajada misma. Y en otro sentido lo proponen Deleuze y Guattari: “No existe el yo-Nietzsche. categorías que empleamos para darle algún valor al mundo. la Genealogía. porque remitimos a los sujetos a su modesto sitio narrativo.Con ello la ironía mezcla al intérprete con el hecho. a la víctima y al sepulturero. Hay allí un poder casi omnímodo del intérprete sobre el mundo. El ironista provoca. Cree. que el advenimiento de términos como ‘justo’ o ‘científico’ o ‘racional’ en el vocabulario final del día. Nietzsche-Zaratustra. 1969.. profesor de filología.5 I Nietzsche puso en la filosofía la idea de que no hay verdades últimas para decidir sobre la acción de las personas. 29). En este desfondamiento que la lectura ejerce sobre el mundo hay desolación y carcajada. un vendaval de relatos que levantan su propia polvareda. que pierde de golpe la razón.) uno no puede soportar este mundo. sino el filo desde el cual se desprenden hacia uno y otro lado la desolación y la risa: mezcla que resulta de esta mirada que se sabe texto y que sólo ve texto en derredor. su sustancial-insustancialidad.) piensa que nada tiene una naturaleza intrínseca o una esencia real.

asumir la forma que le imprimen las RORTY 1989. al remitir los discursos a las pretensiones de dominio que estos discursos alojan y ocultan. Moldean cuerpos materiales pese a la ilusoriedad de las mismas.8 Rompe con la confianza en un sustrato incondicionado que subyace a la secuencia de acontecimientos. Para Sade no hay nada de malo en la abyección despótica. y a la historia como destructor del cuerpo. Ni modo de pensar el cuerpo como materialidad irreductible. 8 7 máscaras. la tuberculosis después. Sade y Nietzsche resultan emblemáticos. la genealogía es a la vez la crítica y el ejercicio postcrítico. el primero por la inversión libertina de la justificación moral de los hechos y el segundo por vía de la genealogía que siempre muestra lo bueno en lo malo y lo malo en lo bueno. pantalla en que se asientan las interpretaciones? “La genealogía. Las máscaras no son inocuas por más que carezcan de profundidad real. metáfora siempre de un espíritu implosivo. Siempre es reflejo de algo. la moral cristiana y la racionalización moderna. La catatonía es respuesta. Todo lo contrario: resalta las diferencias una vez que se detiene en la textura. El matiz burlón le imprime un carácter punzante. se encuentra por tanto en la articulación del cuerpo y de la historia. y luego de los valores que le subyacen. juego y lucha de interpretaciones. explicita el carácter no universal ni incondicional de las interpretaciones. Nada más heterogéneo y conflictivo que el juego de las narrativas. y valores activos y reactivos (DELEUZE. elocuencia de lo mudo. La metáfora pasa del lado del relato al lado del cuerpo.”9 Al remontar al origen. En lugar de la oposición apariencia-verdad. Con ello ambos se ajustan al concepto de Rorty según el cual el ironista es capaz de hacer que cualquier cosa parezca indistintamente buena o mala. Pero a su vez estas interpretaciones son reinterpretadas por el propio Nietzsche como máscaras. II La crítica genealógica no se conforma con reducir todo a texto. para Nietzsche nada de bueno en la piedad cristiana. 142. Se aboca a extrovertir. el arte de interpretar las interpretaciones. En este juego de las diferencias. Es sobre ese cuerpo que se simbolizan las máscaras – la máscara moldea al cuerpo y no al revés: lo simbólico es corporal. porque a través suyo Nietzsche impugnó todo concepto que inhibe el libre desarrollo de la voluntad: la metafísica platónica. 1962). nos recuerda Foucault. o más bien mediación entre un cuerpo pre-simbólico y un juego de interpretaciones. Nietzsche invierte el juego. Crítica. muestra críticamente la filiación entre las distintas figuras de dominio – el platonismo. Véase al respecto la distinción que propone Deleuze. precisamente porque esta reducción no resuelve nada. En esto de invertir el signo moral de un hecho conforme a la rediscripción del mismo. producto o efecto de algo que a su vez está signado por la insustancialidad. 63. entre evaluaciones afirmativas y negativas. ¿Y no es irónico que aquello que presumimos como nuestro reducto material no sea sino máscara de la máscara. Más aún: el propio trabajo de la genealogía.inadmisibles. Pero aquí Nietzsche vuelve a interrogar: ¿quién es ese cuerpo material moldeado por narraciones o interpretaciones? Sólo como pantalla puede el cuerpo reflejar las interpretaciones. 1983. dependiendo de como la redescribe. el moralismo y el hiperracionalismo. un discurso sobre los mismos que los libera de toda objeción y los yergue en ejemplares. En el propio cuerpo enfermo de Nietzsche el recalentamiento del lenguaje estalla y provoca un organismo inmovilizado por esa tensión. Pone en evidencia las valoraciones que llevan a interpretar de tal o cual modo y que mueven a manipular un discurso en una u otra dirección. p. remite los juicios a la historia que los había previamente construido. a propósito de la genealogoía nietzscheana. efecto. En estas tres figuras hay un re9 FOUCAULT. . la genealogía permite reinterpretar nuestros propios síntomas a la luz de lo que pueda revelar esa trayectoria invertida. Kafka es otro caso emblemático: la hipocondría primero. como la violación y el crimen. Nada detrás de este baile: el mundo está vacío de sustrato y sólo se puebla con máscaras. 68 impulso nº 28 . en este sentido. mostrando la calumnia contra la vida en el discurso del pastor o sacerdote. Debe mostrar el cuerpo impregnado de historia. La ironía nietzscheana avanza un paso más.7 La genealogía nietzscheana es. es como el análisis de la procedencia. p.

Viejo tema de la alienación como proceso en el cual nos postramos ante los ídolos que nosotros hemos creado.) hacer antes al hombre. Con ello vuelve la ironía a violar el sentido común. se revierte cuando el instrumento queda introyectado por su amo. tal como fue intuida desde la ironía nietzscheana. Pero también es postcrítica porque opera ella misma en la lógica de las narrativas y admitiendo desde la partida que todo es interpretación. 13 DELEUZE & GUATTARI (1974). El dispositivo de la mala conciencia es el antecedente. y. como son la moral cristiana y la ratio moderna. El sujeto acaba reificado por su propia facultad. domesticando 10 y cuadriculando al sujeto que la empuña. p. y en los tres coincide quien posee el conocimiento y quien dictamina los comportamientos. 12 11 La ratio incluye una triple operación reductiva: del ser a la razón.13 Bajo esta perspectiva la racionalización que impone el régimen de producción capitalista. de la crítica que desenmascara y del juego que enmascara. impulso nº 28 69 .11 La genealogía es irónica por cuanto muestra la filiación entre términos que parecen irreconciliables. uniforme. Este eslabonamiento de antípodas tiene un segundo momento en que la genealogía desentraña el nexo íntimo entre la razón y el delirio. de la posterior racionalización del sujeto por las técnicas modernas de dominio. Nietzsche explicita el relevo entre moral y ratio: “Esta es cabalmente. prisión del cuerpo sexuado en la auto-exigencia de maximización del placer. cuajando en el espacio que ha quedado abierto tras el desenmascaramiento de las ilusiones trascendentales. Participa así de dos tiempos. cit. sólo se concibe después de la muerte de Dios. 1986. es también una forma específica de delirio. se instala en la subjetividad para hacer con ella el mismo trabajo de racionalización.. Vale decir. 74).. de la razón a las funciones de cálculo y manipulación. Y en este leer un tiempo desde el otro ironiza. ajustado a cierta regla. y de la voluntad a relaciones de dominio enmascaradas – y basadas – en el uso de dicha razón. encuentra su interpretación extrema en Gilles Deleuze y Felix Guattari.10 Ironía en la lectura del genealogista: la máquina de moldear que quisiéramos tener a distancia y usarla sólo para dominar la naturaleza. Y esta filiación entre razón y delirio. Esa misma razón que debía liberarnos de los atavismos de la moral opera como ella.lato que lo explica todo. En el caso Sade se trata de mostrar cómo la racionalización maximalista del deseo lo aniquila – paso de la ratio maximizadora a la aniquiladora. Rorty afirma incluso que “lo opuesto a la ironía es el sentido común” (op.. Más aún cuando se globaliza y yergue en modelo único.12 Nietzsche vio la morbidez delirante que subyace a una racionalización excesiva. la larga historia de la procedencia de la responsabilidad. RATIO Y MORAL: ESLABONANDO ANTÍPODAS En esta tensión entre crítica y afirmación la genealogía nietzscheana pone el acento en la contradicción básica que reconoce en la cultura moderna: la incongruencia entre el discurso de la individualidad y el hecho de que el sujeto de ese mismo discurso acaba racionalizando – y maximizando – su propia subordinación a la ratio. El esfuerzo del sujeto moderno que se empeña en constituir su autonomía mediante el dominio del mundo y la superación de la escasez. sea en su versión de sociedad industrial o postindustrial. Nietzsche muestra la artiNIETZSCHE. la genealogía rompe el sentido común mostrando el delirio como exacerbación de la ratio. necesario. 67. El tono revulsivo de Deleuze-Guattari quiere graficar la filiación entre esta racionalización productiva y la locura. p. filiación que ya había mostrado el Marqués de Sade en los discursos de sus libertinos y Nietzsche en su genealogía. en el campo de la moral. Porque mientras este último coloca ambos términos en extremos opuestos (el delirio es de quien “ha perdido la razón”). navega por el filo que articula el ojo clínico y la nueva salud.. que disciplina los cuerpos y moldea la conciencia. hasta cierto grado. igual entre iguales. Aquella tarea de criar un animal al que le sea lícito hacer promesas incluye en sí como condición y preparación (.. la genealogía es también en sí misma ese otro baile de máscaras de la vida postmoral y postmetafísica. en consecuencia calculable.”. De modo que si por un lado remite críticamente toda verdad a su condición de máscara. o de la lucha por liberarse y la carcajada de la libertad.

”16 Lo que Nietzsche atribuye al arquetipo del sacerdote.15 ¿No nos recuerda esto la escuela del libertinaje en Los 100 días de Sodoma o La Filosofía en el Tocador del Marqués de Sade? En ambos casos. en cambio. exacerba la tensión y a la vez la priva de un garante que asegure el desenlace conciliador que acabe domesticando la rebelión. extender el vínculo entre el adoctrinamiento religioso y la socialización general.culación que subyace entre la moral del rebaño y la razón moderna. como una máquina que moldea el alma. como si existiese un terreno hiperracional donde pudieren conjurarse todos los delirios. razón y sujeto. la primacía de una razón superior capaz de conjugar ambos términos heterogéneos.) el enderezamiento de la conducta por el pleno empleo del tiempo. pero que al cabo queda atrapado en la maquinaria pornográfica. La racionalización siempre tiene algo de disciplinaria. un encuadramiento de sus gestos. 130-133). En el análisis de Foucault. a su vez.. como el tránsito de la disciplina penitenciaria a la producción fabril. abre la posibilidad real de libertad. por un sistema de autoridad y de saber (. 70 impulso nº 28 . la adquisición de hábitos (. Ejemplo elocuente es el campo de la sexualidad. La lucha entre el impulso desbordante de la vida y esta tendencia racionalizadora no tiene.. Como grafica Foucault: “Una adopción meticulosa del cuerpo y del tiempo del culpable. Tanto más logrado cuanto mayores orificios en juego.. más volumen de los órganos y más secreción de líquidos. La síntesis siempre supone un operador trascendente que subordina la rebelión a la marcha de la racionalización. ha comprendido: ahora le ocurre como a la gallina en torno a la cual se ha trazado una raya: no vuelve a salir de ese círculo de rayas. El razonamiento da la vuelta completa. pp. sometido al régimen de rendimiento. Detrás de este corolario tiene que reír. Para Nietzsche la construcción que el sacerdote hace de una interioridad culposa tiene un efecto normalizador análogo a la regimentación del tiempo de los reclusos visto por Foucault. sino para transformar un culpable” (FOUCAULT. un sistema de entrenamiento del cuerpo y la asimilación de un discurso que se acopla a esa disciplina corporal. 1975.”14 La prisión es al mismo tiempo un régimen de saberes y una forma de sojuzgar y modelar. Si la racionalización moderna que debía constituir el resorte subjetivo para el progreso y la conquista de la libertad. negando esa libertad que pretendía actualizar. Foucault lo sitúa en la racionalización moderna del castigo. instrumento de conversión y condición para un aprendizaje. Por un camino distinto Michel Foucault recupera. Y una vez más aparece el desenlace irónico en que la racionalización modula la propia subjetividad que la crea. con su propio delirio de salvación. de sus conductas. en su historia de las prisiones. La dialéctica hegeliana había querido colmar la brecha entre la racionalización y la libertad del sujeto uniendo al final del camino el apogeo de la razón en el reino de la libertad. Esta no-coincidencia entre historia y razón. Tanto la genealogía del delirio17 como del régimen disciplinario (Foucault) contienen formas de la crítica a la ratio moderna. 1986. y buscan localizar el vínculo entre productividad y subjetividad al estilo en que Nietzsche estableció la filiación entre moral. Permite. El ironista resiste. La ironía Nietzsche. ríe el ironista. en Nietzsche. El libertino de Sade y el film pornográfico ilustran este deseo que aparentemente se maximiza. DELEUZE & GUATTARI (1974). la filiación que Nietzsche estableció entre racionalización y moral. metafísica o moral) lo fuerza a suponer. desenlace reconciliador. p. “la reclusión individual en su triple función de ejemplo temible. agazapado. La racionalidad productivista se cuela en el deseo para someterlo a esa misma lógica optimizadora. el ironista. Esta racionalización moderna también ordena el tratamiento de la criminalidad.) no se castiga para borrar un crimen. o entre biografía y racionalización. 163. está sujeta a su propia dosis de delirio maximizador: ¿Dónde está uno a salvo del delirio? Pero una vez más: es la ratio moderna. 1975. la que induciría a creer que debemos ponernos a salvo. con su risa cen16 17 NIETZSCHE. La evidencia de esta filiación desestabiliza. agazapado. Pero la integración entre la dimensión desbordante de la existencia y su racionalización (histórica. “El desventurado ha escuchado. Al fondo de la alcoba. La moral fluye hacia un cuerpo al que le pone límites: 14 15 Ver FOUCAULT. la prisión moderna deviene el modelo histórico de un nuevo discurso en que la ratio asume las riendas en el campo de la moral y la conducta..

Todo lo que se quiera absoluto es retratado por Nietzsche como fatuo. 261). Nietzsche tendrá que reír cuando elige la perspectiva de Dionisos para desarmar.. En contraste con la idea.18 ¿QUIÉN RÍE? I El genealogista se remonta del discurso al sujeto que lo enuncia.. constituir el fundamento de esa subjetividad porque su irrefrenable extroversión no da lugar ni tiempo para 18 En el mismo tono. de interioridad sustancial. consagrarlo o resumirlo. 1980. 39. va del qué se dice al quién lo dice y para qué lo dice19. en su versión dionisíaca. al preguntar ya está riendo. pues en el desborde dionisíaco no hay verdad nuclear ni sustrato detrás de la existencia. La risa cósmica de Dionisos es a la vez disolvente y productiva. Bataille repica: “En la representación de lo inacabado he encontrado la coincidencia de la plenitud intelectual y de un éxtasis que hasta entonces nunca había alcanzado (. la representación clara y ordenada de un yo. en esta aventura por precipitar el platonismo hacia el abismo? Aquí cabe remitir la interpretación al intérprete: si Dionisos ríe cuando desarma. la fundaba sobre lo acabado. La función disolutiva que Nietzsche tempranamente le adjudica a la naturaleza dionisíaca no da lugar a la autorepresentación estable y consistente del sujeto. La naturaleza no puede. ¿Y qué le ocurre a Dionisos. Se trata de devolver la pregunta por el quién al propio interrogador. Mostrarlo no es mera denuncia. la individuación apolínea está expuesta al vacío sin fondo. Será necesario sostener esta brecha para mantener la tensión de lo inacabado – brecha que en Nietzsche se da como recurrencia del destino trágico en que todo vuelve a desmoronarse – y para hacer perdurar la libertad en esta incesante lucha del sujeto contra todo aquello que quiere definirlo. o más bien a Nietzsche mirando por el ojo disolutivo de Dionisos. Abre el espacio antes ocupado por los discursos totalizadores de la metafísica y prescriptivos de la moral.) desde la pendiente vertiginosa que trepo. Sólo así se entiende el relato como recreación y no como sustancia. 19 Ver DELEUZE. luego el ironista burla el vacío al recrear desde él aquello que lo disimula. ¿Y cómo no atribuir al genealogista una cuota de ironía en este gusto de bufón por poner a otros al desnudo? Nietzsche no sólo lucha por desentrañar la mentira o la estafa moral. 1962. Lucha. las fugas de esa historia por parte del que ríe. La recuperación del juego Dionisos-Apolo marca la diferencia.. dice Zaratustra. y descubrir que ese quién que pregunta por el quién. tener todavía caos dentro de sí para poder dar a luz una estrella danzarina. por el contrario. Deleuze habla de la voluntad por “revertir el platonismo” (renverser le platonisme) en Nietzsche. A diferencia de la individualidad fundada en guiones continuos. En primer lugar pulveriza el trascendentalismo. p. destruye para dejar campos de creación. Lo singular se juega en estas configura20 21 NIETZSCHE. La risa desarma las pretensiones del sujeto por constituir un discurso de pretendida validez general con el que se representa a sí mismo. tanto moral como metafísica. Contra la sobredeterminación que impone el peso de la historia. aunque no inofensivo. Ver DELEUZE. veo ahora la verdad fundada en lo inacabado (como Hegel. Doble juego de Nietzsche: primero el genealogista burla lo que se pretende superior al vacío. En segundo lugar arrasa con el esencialismo. 1962. Siempre merma la seriedad en el discurso cuando éste queda explicado como artilugio de una voluntad que quiere imponerse a través suyo sin que se note pero a la vez exponiéndose en su ocultamiento. “Es preciso. También quiere ser apertura hacia otra cosa.. De este modo la risa cósmica aniquila y fertiliza. A la pregunta genealógica del ¿Quién habla?. la individuación es creatividad incesante que imprime forma al caos.trífuga.”20 La risa cósmica está presente en esta naturaleza dionisíaca que arrasa doblemente con el platonismo21. En ese espacio que abre advienen nuevas figuras. la fuerza centrípeta de la racionalización. pues en la perspectiva dionisíaca todo es inmanente al juego del cosmos. del mismo modo como burla ese vacío a través de su transfiguración en nuevos relatos. El sujeto detrás del discurso queda extrovertido en clave de caricatura.)” (BATAILLE. p. cabe complementar con la pregunta ¿Quién ríe? cuando el genealogista pregunta por quién habla. impulso nº 28 71 . porque quiere reírse. 1973. también. Hay en el desenmascaramiento una parte de burla que le es propio.

un exuberante sentimiento de vida acompaña a su culto (. Por ello Nietzsche va y vuelve del Olimpo. la voluntad sólo puede vadear la interpretación catastrofista de su situación si apela a un espíritu agonístico de juego y lucha. es productiva pero no tiene la pretensión de durar que le imprime la interpretación moral del mundo. Allí nos liberamos de nuestra propia ilusión – e imposición – de consistencia. o de la espiritualidad. pero a la vez todo tiene su peculiar intensidad (porque nada es repetible). para Nietzsche. La risa cósmica está allí para sabotear la normalización progresiva y la producción acumulativa: el tránsito entre lo apolíneo y lo dionisíaco es imposible de prescribir ni de atesorar. Nietzsche no quiere remon- 72 impulso nº 28 . y sólo en la medida en que no nos bajamos del juego y nos apasionamos por la mezcla de la disolución y la recreación. santidad y rigor de otras religiones. Ve en la heraclítea inocencia del devenir la aceptación del movimiento que permite desplazarse entre antípodas: flujo entre la succión indiferenciante del tiempo y la afirmación de singularidades sobre ese mismo tiempo. 22 NIETZSCHE. pero liberado del trabajo de fundamentar una representación absoluta de sí mismo. Es parte de una broma del tiempo y por lo mismo sufre y goza las dos caras de la moneda: condenado a no sedimentar. p. sino que juega con las combinaciones que ambos extremos proveen como imágenes-límite: la risa que disuelve y la que recrea. 1983. 237... a fin de que las antípodas puedan pensarse como anverso y reverso de una misma trayectoria: de la disolución (desidentidad) a la recreación (singularidad) y viceversa.22 Tras esta operación crítica busca recuperar dos experiencias reprimidas por la era moral-metafísica. tensados entre la voluntad constructiva del progreso y la tentación de jugar libremente en el teatro del devenir? Baudelaire describió la modernidad como eternidad en el instante. En la primera el sujeto “suelta” su identidad para experimentar la vorágine de una biografía que reconoce como ser-en-el-devenir. Desde esta perspectiva agonística cabe preguntar: ¿no estamos. Para ello se desplaza de Homero a Heráclito. El modernismo – en este sentido – es el reverso del mito constructivo de la modernidad. o de la ascética. y la reabsorción de la contingencia por el cosmos. En los dioses del Olimpo “habla una religión de la vida. Flujo entre la cristalización del cosmos en contingencia. acaso. No significa esto que el devenir divida el tiempo entre estas dos formas radicales de la experiencia. todas estas figuras respiran el triunfo de la existencia. Más aún: al calor de la lucha – o juego – entre figuración y disolución. Pero hará falta atribuirle al juego del devenir un carácter benévolo. corre la griega peligro de ser infravalorada como si se tratase de un jugueteo fantasmagórico”. La voluntad. la liberación y el desamparo. Acepta su finitud y celebra lo efímero como condición a la que tampoco ella escapa. estiramos este lado benévolo del devenir. Si Nietzsche apela a estas figuras de la mitología es porque desde allí pretende ironizar toda definición esencialista y dejar al sujeto vibrando en un estado cuya tersura viene dada por su precariedad: precariedad en que el ser de da con toda la fuerza de una nueva expresión y toda la debilidad de una mera apariencia. Hay que jugar hasta el final. no del deber. La riqueza de la vida.ciones de fuerzas que logran levantar un relato y burlar con ello la eterna repetición de lo mismo.) comparada con la seriedad. en este sentido apolíneo. El devenir heraclíteo se abre como un desfile de máscaras donde nada puede tomarse demasiado en serio (porque todo es efímero). radica en la potencia de la mezcla para conjugar y conjurar estos extremos mediante infinitud de combinaciones. Vuelve la ironía con el filo que une el anverso y el reverso. De allí la metáfora heraclítea de la inocencia del devenir como niño que juega. II A través del recurso al Olimpo Nietzsche pluraliza los dioses para impugnar aquel Dios cristiano que monopoliza nuestra lectura del mundo. La segunda es la experiencia de apertura a una auto-recreación incesante dentro de la propia biografía en que tenemos la posibilidad de diferenciarnos respecto de nosotros mismos. figuraciones que asumen su provisoriedad y que en esa provisoriedad logran sustraerse a la succión de lo indiferenciado.

De este modo la mirada bufonesca del Nietzsche sátiro no sólo torna grotesco lo que mira. la forma subjetiva del devenir. Una correlación se construye entre la exacerbación de rasgos del objeto y la exacerbación en la mirada que lo deforma. Al exacerbar estos rasgos la ironía caricaturiza su objeto. hacer fecundar el anverso por el reverso (como lo dionisíaco y lo apolíneo). la forma específica como el devenir se acuña en el pensar. Sobre todo cuando el objeto es otro sujeto que se defiende. afirma el desplazamiento de interpretaciones como devenir-en-el-sujeto y devenirdel-sujeto. opere contra la moral culposa: “Heráclito ha visto profundamente. Para transparentar deformando. De manera que en medio del desafío a lo múltiple Nietzsche introduce una clave: el devenir múltiple se expresa en la conciencia como desplazamiento de perspectiva. insubordinable a verdades absolutas o a miradas ubicuas. Contra el pensamiento homogéneo que fija la identidad al margen del devenir. conjugar lo plural y lo singular. cambio en la posición del intérprete. bizquea para desproporcionar su objeto y hacer aparecer otros matices. El perspectivista es ironista en tanto mira bizqueando. cuyo ritmo desmorona y recrea.” (DELEUZE. pero también nos hace eternos en la vibración del instante. Para el Nietzsche heraclíteo y homérico la pasión por lo múltiple también tiene su correlato en la capacidad del sujeto de desdoblarse en múltiples perspectivas para ver y verse. Dionisos y Apolo no son más que metáforas para un tiempo en que el héroe trágico puede reaparecer como singular y provisorio. De la ironía que agrede su objeto se remonta a la exuberancia del sujeto que cambia de miradas. Pero es también singularidad de cada interpretación porque todo queda puesto en perspectiva. IRONÍA Y PERSPECTIVA El devenir es también devenir de perspectivas. pues. niguna expiación del devenir. y no vio ningún castigo de lo múltiple. De este modo el cambio en la forma de mirar produce un doble efecto en el sujeto que mira. El perspectivismo hace carne la broma del tiempo: movimiento que no solidifica. a su vez. 1962. Torna grotesco al desproporcionar lo que mira. El desplazamiento de la perspectiva es consustancial a la ironía en tanto ésta exacerba rasgos del objeto que la mirada directa sólo percibe en su moderada dimensión dentro del conjunto. el filósofo del devenir. troca la perspectiva habitual o literal por una lectura oblicua de su objeto: una mirada que arroja luz a la vez que apaña luz. afirmado en su especificidad. La tarea del perspectivismo es. pero en esa deformación transparenta lo que suele quedar opacado o enmascarado. sino también pluraliza el espectro con que se mira. p. La pluralidad de miradas es. juega con tiempos distintos cuando mira. 28). transmutar la oposición en nutrición recíproca. Así rompe la familiaridad con el objeto. Por otra parte el efecto de exuberancia dado que enriquece al observador ampliando su gama de perspectivas. Y la risa cósmica tiene esa doble cara: nos hace insignificantes a la luz de la eternidad. pero liberado del signo de la fatalidad.tar el tiempo hacia una premodernidad arcaica sino actualizar en la modernidad. lo deforma para exhibirlo en aquello que puede pasar desapercibido al ojo habitual. hay que deformar también la perspectiva que mira. y que se experimenta como desplazamiento de la perspectiva en la propia conciencia. El perspectivismo ironiza también al sujeto instalado o rigidizado en una perspectiva estable. ninguna culpa de la existencia.23 El ironista deviene pluralista: de mofarse de la pretensión de unidad en los otros salta a la aceptación de la multiplicidad en su propia visión. porque abre la mirada al movimiento de posiciones y a interpretaciones múltiples. Este último efecto de exuberancia retrotrae al vínculo entre perspectivismo y multiplicidad. impulso nº 28 73 . Primero remite la verdad a la singularidad de un fenómeno (o a sus múltiples configuraciones 23 No es casual que Heráclito. único tiempo en que la libertad radical ha sido pensable. Nuevo eslabonamiento de antípodas: la pluralidad de perspectivas es la singularidad del devenir en el pensar. encarna en el ojo propio esta pasión por lo múltiple. Pone en evidencia el vínculo entre homogeneidad y mezquindad al contrastarlo con la exuberancia de lo múltiple. Por una parte el efecto de distorsión dado que desenfoca lo que mira. el perspectivismo une lo heterogéneo en un devenir incesante entre lo plural y lo singular: plural. esta voluntad de soltar.

y hace de este descentramiento la fuente de movilidad para la recreación del sujeto. el vaciamiento con la pluralidad. Disuelve el efecto disolutivo aplicándole. y ya no al fenómeno como caso de una ley genérica. Por otra parte no hay proceso de diferenciación si no hay un devenir-singular en medio de muchas posibilidades. Mediante esa doble cara el perspectivismo vuelve a eslabonar: libera la subjetividad de un eje único. pero tampoco lo hay si no existe un pluralismo interpretativo que socave la pretensión de un valor absoluto. bisagra que articula lo singular de una perspectiva y lo plural de sus virtuales desplazamientos. En su doble momento de crítica y creatividad el perspectivismo eslabona la relativización del sentido con la proliferación de sentidos. Paradójica inferencia del perspectivista: amenazado por el juicio lapidario que puede ejercer sobre él la verdad (“todo es interpretación”). juzgar esa misma verdad como descentrada y singular. Y al mismo tiempo que despuebla el mundo de su pretensión de jerarquía absoluta lo abre a la irrupción de singularides relativas. proclama Zaratustra. con el “buen vértigo” y el “mal vértigo” que tal desnudez provoca.singulares). como forma del pensar. En tanto sujeto ya pluralizado. reducido desde su prepotencia a un lugar modesto en el mapa de los lugares posibles. no puede sino devolver la jugada. La diferencia. y como forma de ejercer. tensión singular-plural. Lleva al propio sujeto perspectivista a experimentarse como relativo y efímero. apariencia-esencia o bien-mal. El eslabonamiento de antípodas no es meramente especulativo. eslabón o bisagra 24 NIETZSCHE. en la medida que el sujeto experimente afirmativamente dicho relativismo podrá liberarse del peso de juzgar esa misma desnudez. No obstante. reflexivamente. Se completa la vuelta: el perspectivista ironiza la verdad del perspectivismo (“todo es interpretación”) para aligerarla en su propio cuerpo. en el espacio abierto por la misma fisura. y si dicho desplazamiento también desplaza el eje en torno al cual gira el intérprete. porque los desplazamientos de mirada siempre abren brechas en la pretendida lisura de la identidad. tiene también doble cara: como acto por medio del cual fisura la identidad – y en esta fisura va el dolor. a la vez que impugna singulariza. Segundo. El perspectivismo. pero también una descompresión en la pérdida de consistencia –. Un déficit de ubicuidad remata en un superávit de desplazamiento. entre el desenmascaramiento de lo que se pretende homogéneo y la invención que afirma lo nuevo. momento de la no-identidad. está abierto a una diversidad de perspectivas que. De una parte lo arroja a las consecuencias de un mundo sin orden prefigurado. Al relativizar la verdad hace visibles otras miradas que yacían reprimidas bajo el molde verdad-error. 272. El juicio lapidario ya no es tal por cuanto queda reinterpretado en perspectiva. le da sentido a cada perspectiva como momento singular dentro de un devenir múltiple y exuberante en perspectivas: “Por muchos caminos diferentes y de múltiples modos. el perspectivismo desestabiliza al sujeto que lo ejerce. a su vez. p. también es intersticial: pliegue entre la crítica y la afirmación. La diferencia es allí diferencia entre perspectivas. el desplazamiento de perspectivas abre la posibilidad de producir múltiples contextos singulares de interpretación. la plasticidad para instalar otra cosa. 1980. puestas unas frente a otras. Esa misma carcajada que inicialmente desampara los objetos al someterlos al “bizqueo”. crean zonas inéditas de lectura del mundo. sino que la desestabiliza y privilegia los lugares por sobre el lugar desde el cual se mira. Permea la vida anímica del sujeto que ejerce el arte de la perspectiva.”24 En este eslabonamiento el perspectivismo abre a la lógica del descentramiento (no hay una interpretación central o privilegiada) y a la lógica de la diferencia (todas las interpretaciones son singulares). la carcajada cósmica. Así se vuelve doblemente intersticial: de una parte. Este descentramiento no elimina la interpretación. Así como la mirada genealógica desestabiliza a su objeto. brecha entre distintas interpretaciones. producen el movimiento de diferenciación entre distintos puntos de vista. Hay descentramiento si hay desplazamiento interpretativo. llegué yo a mi verdad: no por una única escala ascendí hasta la altura desde donde mis ojos recorren el mundo. y de otra parte porque el perspectivismo mismo. ahora salva del 74 impulso nº 28 .

desamparo al sujeto que bizquea. Si todo es interpretación, hasta esta afirmación lo es. Nada de que asustarse demasiado. Aún así el desplazamiento no puede detenerse. Tal como en el devenir lo único fijo es pasar, en el “mundo como interpretación” los únicos hechos son, a su vez, lecturas. Si el perspectivismo es la traducción del devenir a la voluntad subjetiva, esta voluntad es libre salvo para detenerse. No tiene el poder de elegir entre desplazarse o dejar de hacerlo, sino la potencia interpretativa para desplazarse en movimientos distintos, cambiar al interior de un ser en que todo es de por sí cambio. El perspectivismo es así devenir dentro del propio devenir: réplica del devenir del mundo en una subjetividad que se reposiciona sin cesar. Y también intensificación del devenir del mundo con el devenir de la interpretación en el sujeto situado en el mundo. Pero a diferencia del devenir del mundo, el sujeto que asume el perspectivismo refluye sobre sí, se mira a sí mismo, remonta sus propias miradas hacia adelante y hacia atrás. Esta es la mayor ironía al interior del propio perspectivismo: su forma de romper es siempre relativa y reversible, porque pretenderse absoluta y definitiva sería traicionar al perspectivismo que hace posible la ruptura; pero al relativizar rompe con mayor radicalidad, porque rompe también con la pretensión de lo definitivo. De una parte el perspectivismo es irreversible como fractura de todo juicio absoluto, pero de otra parte la radicalidad del corte no puede disociarse de su reversibilidad, porque lo radical está en el carácter reversible de toda perspectiva. En tanto perspectivismo no puede descartar el retorno ni consagrar un giro definitivo tampoco, y tiene que pensarse como un ir y venir entre la crítica y la afirmación, la expansión y la entropía. Es contradictoria en el perspectivismo una ruptura definitiva con la historia y, paradójicamente, el perspectivismo es la ruptura más radical con el modo moral-metafísico que se impone en la historia. Vaya ironía. La misma voluntad perspectivista que ha desarrollado su riqueza interpretativa no se instala de manera estable en la afirmación, sino que siempre vuelve a ejercer nuevas formas de la crítica. El perspectivista debe alimentarse recurrentemente del bu-

fón o sátiro que habita en él, porque la mirada irónica que bizquea sobre el mundo renueva el desplazamiento en las interpretaciones. Pero para eso debe también alimentar al bufón o al sátiro, hacerlo actuar en la escena de las perspectivas. Por eso en el propio Nietzsche hay un eterno retorno de la perspectiva crítica, o de la perspectiva en su uso crítico. Siempre vuelve el perspectivismo a caricaturizar las pretensiones centrípetas del juicio moral y metafísico, y siempre lo hace para liberarse un poco más, siempre zafarse un poco más del abrazo imaginario de la identidad y la unidad. Esta impugnación de la identidad unitaria es incesante en el perspectivismo, porque el sujeto que lo ejerce siempre tiene que huir de sí para mantener vivo el baile de las perspectivas (y aquí la ironía ironiza al ironista). Y así como en el campo personal siempre es necesario deconstruir la identidad para alimentar el flujo interpretativo (el devenir dentro de sí); así también en su desarrollo histórico el perspectivismo se vuelca incesantemente contra sus orígenes: nace del ala más secularizadora del Iluminismo y siempre vuelve a reinterpretar críticamente el Iluminismo para liberarse de las trampas de la ratio y de las grandes proclamas del saber. De una parte el perspectivismo es heredero del proyecto de liberar el espíritu que nace de las Luces; pero ese mismo ímpetu libertario lo obliga a ironizar siempre sobre otros rasgos del Iluminismo, como son la ratio y la pretensión de totalidad, que sabotean la emancipación del espíritu. El perspectivismo desenmascara y también enmascara. Cada nuevo punto de vista es como una máscara o producción de máscara: coloca en el objeto una expresión adicional, lo ve distinto, le superpone una apariencia no consagrada. En la exuberancia interpretativa opera, en este sentido, la “máscara buena”: no la del engaño sino de la exaltación, no la máscara que oculta sino la que expresa, no la que estafa sino la que juega.25 Este juego de máscaras deberá entenderse como incesante originalidad en el desenmascaramiento; y también como voluntad que crea enmascarando, hace de sus interpretacio25

Ver al respecto la interpretación que Gianni Vattimo hace de la máscara en Nietzsche, en Vattimo, 1989.

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nes figuras, cultiva la forma en su vocación productiva y autoproductiva. Este soporte lúdico del perspectivismo – su voluptuosidad productiva, su vocación por las máscaras – devuelve nuevamente a Nietzsche al esteticismo modernista, en que la libertad se asocia a la plasticidad. El juego de máscaras afirma la libertad como libre movimiento y metamorfosis del espíritu. Así entendido, el perspectivismo retorna del mandato utópico de “transformar el mundo” (Marx) a la invitación autopoiética de “cambiar la vida” (Rimbaud). La utopía libertaria cuaja en la soñada comunión entre la creación artística y la plasticidad interior de la conciencia, tan cara a las vanguardias estéticas modernas. Allí se funde la metáfora poética (la “buena” máscara) con el ímpetu de la libertad: poetización del mundo y autopoiesis, extroversión creativa y autocreación, transfiguración de la mirada y reinvención del acto mismo de mirar. Ese es el punto de llegada. Pero a la vez no puede haber punto de llegada. En su máxima tensión este mismo ideal se torna espasmódico. Precisamente porque es contradictorio como ideal, por cuanto propone liberarse de los ideales para hacer posible la estetización de la libertad, la libertad como plasticidad de las interpretaciones no permite la fijación en ningún ideal, ni siquiera en la plasticidad qua ideal. Eterno retorno de la utopía modernista que eternamente se malogra: esta libertad poetizante no puede constituir un orden estable o un principio para un orden. Sólo discontinuamente puede la libertad perspectivista manifestarse. Tendrá que ser inconsistente para ser consistente. El ironista ríe de nuevo.

FRONTERA Y DELIRIO (O PERSPECTIVISMO E HIPOCONDRÍA)
I
Liberada de esquema, la subjetividad se vive en la ilimitada expansión de la mirada y del rango de perspectivas con que mira. ¿Pero dónde está el límite entre el delirio psicótico y esta autorrepresentación del sujeto en que se entremezclan alquímicamente la expansión de la conciencia con su riqueza interpretativa? Para antipsiquiatras, modernistas ra-

dicales y exploradores psicodélicos no parece haber mucha distancia entre delirio y autocreación: todo viaje interior tiene sentido por cuanto expande la conciencia más allá de las inhibiciones gregarias y nos introduce en el vértigo creativo del perspectivismo. Alucinar es el grado zero de la perspectiva. Pero una vez más, la subjetividad que no reconoce un orden simbólico obra como el fuego heraclíteo, por autocombustión. No es casual la resistencia a llevar hasta sus últimas consecuencias el desafío nietzscheano de la muerte de Dios. ¿Miedo a asumir el devenir como perspectivismo, a experimentar al punto de quedar anclado en el limbo de las metamorfosis? A modo de ejemplo, la sentencia de Cioran: “Sin ninguna tradición que me lastre, cultivo la curiosidad de esa desorientación que pronto será patrimonio de todos (...). Ya nos anulamos en el cúmulo de nuestras divergencias con nosotros mismos. Negándose y renegándose sin cesar, nuestro espíritu ha perdido su centro para dispensarse en actitudes, en metamorfosis tan inútiles como inevitables.”26 En este punto aparece una frontera imaginaria de la modernidad, el fantasma que la acecha y el vértigo que la seduce. ¿Cuántos suicidios o muertes auténticamente modernos connotan esta frontera inhabitable pero siempre deseable – Sade, Rimbaud, Nietzsche, Van Gogh, Artaud, Kerouac, Passolini, Hendrix, Jim Morrison, Pollock, Fassbinder – en que el perspectivismo alcanza su grado zero o condición de intensidad pura? Umbral o frontera: la poetización del delirio en este lugar-sin-límite constituye un signo de interrogación para quien se plantea llevar el perspectivismo a sus últimas consecuencias. La utopía modernista que aspira a conjugar la exuberancia interpretativa con la expansión del sujeto se desgarra en esta pregunta por la sustentabilidad del delirio. La fulgurante carrera de Arthur Rimbaud, el rockero Morrison y el cineasta Fassbinder, y sus muertes prematuras, son elocuentes. Y lo mismo puede decirse del último Nietzsche, en quien la intensidad interpretativa tuvo como desenlace el mutismo catatónico.
26

CIORAN, 1987, p. 99.

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II
El delirio es la localización del perspectivismo hacia adentro, rebotando aleatoriamente en el reino de la virtualidad. Pero es también la brecha insoluble que se produce entre un Logos universal (de la “adecuación del concepto a la cosa”) y su resonancia-disonancia interna, el desajuste entre lo que la Palabra prescribe como correlato intelectual del mundo, y la respuesta disonante que provoca el desplazamiento en la perspectiva interna. En cierta forma incluye a la ironía, pero de manera reflexiva: en el delirio el ironista cae preso de su propia bufonería, se objetiva él mismo como lo infinitamente ironizado, queda “oblicuado” por dentro. Algo se transmuta en el baile de las perspectivas. Un desbocamiento del sátiro o un frenesí en la ironía llevan a que el delirio se constituya en el lugar de confrontación entre la carne y la ley, entre cuerpo y Logos. El juego de los desplazamientos se convierte en la lucha de lo irreconciliable. Hasta que lo irreconciliable violenta a dos puntas: la razón cuadricula al sujeto del delirio, pero a la vez el delirio inunda la mirada de la razón con el torrente de los sentidos. El caso emblemático en este juego de antípodas es Sade: el delirante que no da la espalda a la razón en su delirio sino que, a través del discurso libertino, lleva la razón a su paroxismo. Pero por otro lado no existe el desempate en esta fricción entre perspectivismo y racionalización (o entre delirio y normalización). La lucha entre el Logos y la singularidad se da, en última instancia, en la mente del loco. La violencia del perspectivismo se hace patente en esta confrontación que el delirante protagoniza contra el discurso gregario. Pero al mismo tiempo revela la violencia de la normatividad que busca domesticar la singularidad. En esta resistencia vuelve a instalarse la ironía respecto de las pretensiones de la razón para contener el delirio. Artaud, como Nietzsche, no puede evitar un son de burla al calor de sus propias batallas. Su delirio deviene finalmente una impugnación al statu quo precisamente porque reivindica lo no normado de la perspectiva – aquello que puede hacerla singular.

III
Volvamos ahora al caso Nietzsche, en quien el poder para resignificar a medio camino su propio

pensar va precedido de un aprendizaje que se nutre de las metamorfosis en la propia carne. El perspectivismo se imbrica no sólo con las mutaciones entre estados de salud, sino también con las mutaciones entre las interpretaciones que el propio Nietzsche va haciendo de esos estados. En esta línea puede pensarse que el lugar desde el cual Nietzsche construye una filosofía perspectivista es la relación con su propio cuerpo enfermo. No es desde un pensamiento que se pretende trascendental respecto del cuerpo que lo sostiene, sino desde un pensar empujado por el propio cuerpo a ir desplazando la perspectiva que asume respecto de dicho cuerpo. Esta inmediatez del relato respecto del cuerpo y del afecto de quien lo formula no lo condena a la autorreferencia. Por el contrario, lo singular del caso Nietzsche es el salto que va de este vínculo inmediato del cuerpo con su pensar, a la pertinencia de ese pensar para interpelar el espíritu de una época y una cultura. El flujo desde las contorsiones de un cuerpo singular hasta la interpretación de los códigos sedimentados de toda una cultura hacen de Nietzsche un eslabón – y un corte – en la posta de la historia de la filosofía. Como en Kafka, el cuerpo enfermizo de Nietzsche lo obliga a experimentar con sus propios estados de conciencia y expresar, mediante estas oscilaciones, las contradicciones de una historia que rebasa su caso individual. La debilidad queda revertida como singularidad del filósofo, y el modelo de filosofía que Nietzsche construye a partir de su salud precaria consiste en un pensar que hace de su cuerpo la pantalla de la cultura, una filosofía que transita desde la auto-observación del sujeto singular a la interpretación del sujeto colectivo. Y sólo una mirada oblicua hace posible cierta cuota de penetración en este relanzamiento hacia afuera de aquello que parte siendo una reinterpretación de la propia salud. Cuanto más intensivos los desplazamientos al interior del propio sujeto-Nietzsche, más extensivos los hace a las contradicciones de la cultura judeocristiana; y cuanto más singulares los padecimientos, más resume en ellos los avatares históricos de un espíritu moderno que lucha por emanciparse. El pensamiento ha dado así la vuelta completa: desde tener que hacerse cargo de su cuerpo, hasta hacer

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36-37. Ya en Humano. Demasiado Humano tiene Nietzsche esta intuición: “Desde este aislamiento enfermizo.. y que transfigura en miradas bizqueadas sobre la realidad. de esta vulnerabilidad a una auto-reinterpretación de la salud y la enfermedad propias. sino que busca en la derrota la luz de una nueva mirada. con su propensión al cambio y a la libertad. que es también dominio de sí mismo y disciplina del ánimo. sino también distingue en la interpretación las agresiones externas somatizadas por ese cuerpo. Lo que permanece finalmente es este flujo indiscernible afueraabajo-arriba-afuera. O bien una circularidad selectiva que Nietzsche postula bajo la figura del eterno retorno. El movimiento abajo-arriba al interior se alquimiza en movimiento adentro-afuera. y de este perspectivismo a un cambio en la mirada crítica sobre el entorno.todos los descargos sobre la conciencia colectiva de su tiempo. Pero no como quien paga con dolor. y que a la larga inunda la mirada y amplía su gama cromática. que el perspectivismo “somatiza” en nuevas interpretaciones del mundo. deviene su devenir. Nietzsche y Kafka transitan en línea por este sendero. movimientos previos afueraabajo. Y de allí también. dialécticamente hablando. vale decir. como medio y anzuelo del conocimiento. la apertura en que esa mirada desentraña las agresiones del medio que la circunda. La enfermedad adquiere así un sentido inesperado: es la usina de la metamorfosis. El valor de esta agonística no es la superación definitiva de la enfermedad sino su uso afirmativo en el juego de las resignificaciones. desde el desierto de estos años de aprendizaje. Su enfermedad recurrente parece compensarlo con esta adquisición que beneficia la riqueza del pensar en medio del padecimiento. La voluntad no niega la adversidad para vencerla. que no puede prescindir de la enfermedad misma. pp. una dimensión productiva de este mirar múltiple que le permite al sujeto exorcizar-develando.. de esta reinterpretación a un mayor perspectivismo volcado sobre el mundo.27 IV ¿Subsiste finalmente alguna división entre el cuerpo y este pensar que desde dentro del cuerpo reinterpreta su padecimiento? Si la resignificación de la salud en el cuerpo se traduce en la producción de una nueva perspectiva en el pensar: ¿Hay dos entidades claras y distintas en esta dinámica? ¿Puede existir tanta fluidez si se presupone una división? ¿O habrá que suponer un mecanismo de eslabonamiento entre el movimiento del cuerpo y el reposi27 NIETZSCHE. Sade. 78 impulso nº 28 . de la cultura al cuerpo. La “sanación” pasa por releer el mundo a la luz de los síntomas que se hacen carne en el propio cuerpo. el problema persiste: ¿Quién garantiza que este movimiento no sea la condena a una invariable repetición? Talvez sea la propia modernidad. hasta esa libertad madura del espíritu. y que permite el acceso a modos de pensar múltiples y opuestos (. el lugar del parto.) superabundancia que da al espíritu libre el privilegio peligroso de poder vivir a título de experiencia”. Pero no podría hacerlo si no hubiese. las usa como insumos para una combustión ulterior que a su vez despide nuevas aleaciones. Hay. pues. Mediante este viaje elíptico por su cuerpo. de éste a la mayor vulnerabilidad en la salud del que mira. permitiría que este metabolismo afuera-abajo-arriba-afuera-abajo se nutra con recurrentes cambios de perspectiva. Presumamos que esta circularidad ocurre y lleva de la mirada irónica al perspectivismo. La singularidad del pensamiento de Nietzsche es inseparable del padecimiento que lo lleva a cambiar de perspectiva. De allí que la mirada perspectivista no sólo reinterpreta el cuerpo enfermo o hipocondríaco. la combustión requerida para arrojar-afuera (hacer-aparecer) una nueva perspectiva que torna al pensar más expansivo. más tarde. No expía un pecado sino que revierte el valor de un padecimiento. el pensamiento nietzscheano asume su propio pathos. queda aún mucho trecho hasta esa inmensa seguridad y salud desbordante. 1984. sino a dar un paso atrás y mirar cómo mira su cuerpo. Esta resignificación de la enfermedad lleva al pensar no sólo a mirar nuevamente su cuerpo. Pero de no asumir el carácter selectivo de esta circularidad. Al hacerlo se convierte también en una forma de pluralizar: la combustión produce singularidades pero no se detiene en ellas. quien más pueda concurrir en ayuda del espíritu. sino como quien se afirma en la metamorfosis.

Surveiller et Punir. se ofrece como ejemplo y carne de cañón: la permeabilidad. Un filósofo que ha hecho el camino a través de muchas saludes y lo vuelve a hacer una y otra vez. Ultimo giro de la ironía que en su versión más benévola alimenta. la mezcla de antípodas. Buenos Aires:Taurus. una cabeza incendiada de visiones. Paris: PUF. Cuanto más se nutre la interpretación de la inestabilidad del cuerpo. por su dureza y su alienación de sí mismo.) es una cura a fondo (. lentamente. 1987. E. el eslabonamiento entre las errancias del cuerpo y el cambio de perspectivas en el pensar. impulso nº 28 79 . Cuanto más se exponen cuerpo y pensar. M. Le Coupable.M. 28 29 Idem. el reconocimiento de esos desbordes como intentos bizqueados por expandirse. F. por sus miradas a lo lejos y sus vuelos de pájaro en las frías alturas. p. recobrar la salud. Y una vez más: esta connivencia del devenir instalándose en el cuerpo y en el pensar relaja los límites entre ellos.. DELEUZE..cionamiento del pensar? Nueva astucia de la perspectiva: si es capaz de instalar el devenir en el campo del pensar (devenir como cambio en la mirada) es porque ya se ha instalado el devenir a través de las inestabilidades del cuerpo que sustenta ese pensar. con un cuerpo enfermo.“Carta sobre algunas aporías”en La Tentación de Existir. Nietzsche mismo. como antes Sade y después Kafka. seguir enfermo un buen lapso de tiempo y luego.”28 Y ya en el prefacio de Humano. legitima a ambos en cuanto marca un lugar específico desde el cual se prueba el magnetismo entre dos órdenes tan heterogéneos como son el lenguaje y la carne.V. FOUCAULT. Naissance de la Prison. 1990. de la ventaja que mi salud rica en cambios me otorga en verdad frente a todos los lerdos rechonchos del espíritu.. F. París: Gallimard. el flujo que metaforiza hacia uno y otro lado el cuerpo y el pensar. F. Idem. Monge. DELEUZE. París: Gallimard. muy lentamente. en Bataille. siempre en ella entregado a la regalada poltronería (. No una legitimidad moral fundada en la eficacia del discurso sobre el cuerpo (como control. revierte la oposición en correspondencia donde cuerpo y pensar se revelan ambos como formas internalizadas del devenir. p.. ¡Qué dicha no haberse quedado siempre ‘en su casa’. 1973. CIORAN. Obras completas. La esencia sedimentada del Logos se fisura allí. dice Nietzsche al despuntar su Ciencia jovial.) se encuentra casi como si sus ojos se abriesen por primera vez a las cosas cercanas (. ha transitado también a través de muchas filosofías: justamente él no puede actuar de otra manera más que transformando cada vez más su situación en una forma y lejanía más espirituales – este arte de la transfiguración es precisamente la filosofía. sea del cuerpo por el discurso o viceversa. El proyecto filosófico se encuentra con su cuerpo. En lugar de una norma que descalifica la inundación del pensar por el cuerpo. G. 1975.). demasiado humano: “Un paso más en la curación: y el espíritu libre se acerca a la vida (.”29 La enfermedad queda recuperada en esta exuberancia productiva de nuevas figuras y. Paradójicamente.El Antiedipo: capitalismo y esquizofrenia. & GUATTARI. 1962.. la potencia radica aquí en la volubilidad. v. En lugar del logos que se separa del cuerpo para fijarlo.Trad. Nietzsche et la Philosophie. en la resignificación del vínculo que une el nombre al pathos. sino una legitimidad amoral que se funda en la capacidad para singularizar esta traducción hacia uno u otro lado de estos órdenes heterogéneos. 4.. Lanza hacia atrás una mirada de reconocimiento por sus viajes.. recíprocamente. Barcelona: Barral Editores. quiero decir una ‘mejor’ salud.1984. “Tengo bastante buena conciencia. G. En lugar de la objetivación clínica de la salud. Referências Bibliográficas BATAILLE. domesticación y represión). ..Trad. más movimiento en la perspectiva. 1974. 38.) caer enfermo a la manera de esos espíritus libres. más se enriquecen como metáforas recíprocas. Savater. el pensar queda poblado de sentido en su paso fulgurante-fusionante por el cuerpo enfermo. G.

__________. 1986. Madrid. W. Pascal. y ed. Caracas: Monte Avila Editores. A.J. C. Madrid: Alianza Editorial. NIETZSCHE. 1983.Vergara. 80 impulso nº 28 . Varela. El Nacimiento de la Tragedia. J.Trad. __________. Pascal.. 1983.S. R.S. G. Madrid: EDAF. Binagui.Trad.S. F. __________. Madrid: Alianza Editorial. La Genealogía de la Moral. J. Trad.Trad. 1989.1980. 8ª. R. 1989. Folios Ediciones. El Sujeto y la Máscara: Nietzsche y el problema de la liberación. J. Kaufmann. 1990. Humano. Buenos Aires: .. 8ª. Trad. The Will to Power – La voluntad de poderío. Demasiado Humano. Barcelona: Ediciones Península. Contingency. y Alvarez-Uría. Trad. VATTIMO. Así Habló Zaratustra. F. 1969. A. Nueva York: Cambridge University Press. ed. 1984. y Hollingdale.Trad. Nueva York: Vintage Bookds-Random House. RORTY. reimpresión. La Ciencia Jovial (La gaya scienza).__________.Trad. Jara. “Nietzsche. __________. A. Irony and Solidarity. la genealogía. __________. la historia” en El Discurso del Poder. Pascal.

bringing up the Eternal Return theory as Nietzsche’s answer to Schopenhauer’s pessimism. A LIÇÃO SCHOPENHAUER E O ETERNO RETORNO NIETZSCHE.NIETZSCHE. e examina aspectos da obra de Schopenhauer que subsidiam a formulação de sua crítica da cultura. Este artigo indica elementos dessa influência. Tanto que. indicating some implications of the Eternal Return to contemporary thinking. This article indicates some elements of this influence. Mestre e doutorando em Educação pela PUC-RJ. So much so that in his writings. Nietzsche o homenageia. tecendo elogios à originalidade do filósofo.com.br Abstract Arthur Schopenhauer is present in the development of Nietzsche’s philosophy. nos seus escritos. Técnico em Assuntos Educacionais do MEC sob@uol. Nietzsche pays him homage by praising his originality and examines some aspects of Schopenhauer’s work that support the formulation of his criticism of culture. SCHOPENHAUER’S LESSON AND THE ETERNAL RETURN Resumo Arthur Schopenhauer está presente no desenvolvimento da filosofia nietzschiana. CARLOS ALBERTO SOBRINHO Bacharel em Letras. Palavras-chave EXISTÊNCIA – CULTURA – DIFERENÇA – VONTADE – VALOR – POTÊNCIA. situa a tese do Eterno Retorno como uma resposta de Nietzsche ao pessimismo encarnado por Schopenhauer e aborda algumas breves implicações do Eterno Retorno no pensamento contemporâneo. impulso nº 28 81 . Keywords EXISTENCE – CULTURE – DIFFERENCE – WILL – VALUE – POWER.

Não obstante o valor da contribuição filosófica do século XIX. reunidos no capítulo III das Considerações Extemporâneas. realizado em 1964 – momento em que no Brasil a formação do diferente não tinha horizonte. da Editora Nova Cultural e do trabalho do professor italiano Domenico Losurdo (Nietzsche e La Critica della Modernità. sabe-se também que. exposto na vitrine de uma livraria. “O Mundo como Vontade e Representação”. recorreu-se a leituras complementares. 223. 82 impulso nº 28 . p. Todavia. Nietzsche descobriu Schopenhauer em Leipzig. em nossa relação com o futuro. conseguiu formalizar uma filosofia da vontade não muito distante do que Fichte já havia proposto. apresentado pela seleção de textos de Gérard Lebrun. um campo de possibilidades para enfrentar as inquietações do mundo contemporâneo. A LIÇÃO SCHOPENHAUER Arthur Schopenhauer viveu entre 1788 e 1860. Durante 1 BENJAMIN. além do posfácio do professor Antônio Cândido à publicação brasileira Os Pensadores. na realidade. inspirado pela aproximação com pensadores indianos e com Kant. 1993. Outros textos mais clássicos de Deleuze também foram consultados. na investigação teórica de Nietzsche. “não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes?”. No esforço de reflexão sobre as questões mais candentes das últimas décadas. e alguns dos principais aspectos sobre o “Eterno Retorno”. afinal. depois de abandonar o curso de teologia na Universidade de Bonn. Como indagava Benjamin. na coleção Os Pensadores. Diz-se ter sido um filósofo que não queria se vincular à escola pós-kantiana mas que. entre as quais destaca-se o relato de Gilles Deleuze como participante do VII Colóquio Internacional de Royaumont “Nietzsche”. A fim de explorar as vicissitudes dos referidos temas. Por outro lado. e publicados pela Editora Nova Cultural. há reconhecidas limitações do seu alcance diante dos problemas erigidos pelo atual contexto sócio-político.A fecundidade das idéias desenvolvidas por Nietzsche ainda hoje reverbera nos debates empreendidos pela cultura. um ensaio contundente sobre a natureza histórica e política da crítica nietzschiana.1 Nessa perspectiva. em 1865. melhor compreender as circunstâncias históricas deste início de século e aprofundar o diagnóstico de nosso tempo. e a diferença sobrevivia à condenação e ao expurgo. Ficou imediatamente impressionado com o que encontrou. ao se deparar com o título de seu principal trabalho. Per una Biografia Politica). o renovado exame da obra do filósofo demonstra o vigor do seu pensamento. visitaremos os fragmentos de “Schopenhauer como Educador”. as dificuldades inerentes à aproximação do presente com o passado não nos impede de reconhecer.

a lição extraída por Nietzsche dessa viagem relaciona-se à importância de um pensador não se dobrar às opiniões alheias e às imposições acadêmicas.4 O universal está para a imagem pintada assim como o pintor está para a tela. 289. é condição necessária para o entendimento. apenas os fios singulares das ciências não conseguem traduzir o tecido vivo das cores e dos materiais da existência. Nietzsche invoca a vida como pintura universal. depois. somente desinvestindo-se do ceticismo e do relativismo. e não tenho mais nenhum. quando desacomodam-se as convicções mais caras aos pensadores. impulso nº 28 83 .) Se a ponta desse pensamento não atinge teu coração. primeiro. NIETZSCHE. “Toda grande filosofia (. .2 experimentariam o abalo como efeito da filosofia kantiana. suscetíveis de serem provocados na alma popular pela sentença kantiana.. ou favorecer. Schelling e Hegel) a doutrina de Schopenhauer seja identificada como portadora de poucos elementos originais. não sorrias de um outro que se sente 2 profundamente ferido por ele. 1996. a dúvida e as contradições inerentes a todo pensamento – na urdidura intrincada e insondável dos movimentos que compõem a pintura viva do ser –. ponderava o filósofo. a grandeza de Schopenhauer foi caminhar no sentido animado e penetrante da imagem do mundo. Entretanto. Tocados no cerne de sua verdade. KLEIST. A VERDADE E O PINTOR Segundo Nietzsche. p. a partir de sua própria experiência. só os homens mais ativos e mais nobres. e admitia que. 289.”3 De acordo com Nietzsche. Para Nietzsche. Nietzsche teve o exemplo vivo do trauma a ser enfrentado por quem se submetia inteiramente ao batismo de Kant. 1996. Ou vice-versa: lê tua vida e entende nela os hieróglifos da vida universal. admitindo o cisma. na sua relação mais íntima com a vida.onze dias. o que comove Nietzsche é o modo como o dramaturgo alemão foi afetado pelo pensamento. (. KANT. sobretudo.W In NIETZSCHE. no confronto com a ordem estabelecida. respeitar a si próprio e. “Schopenhauer como Educador”. meu supremo alvo foi a pique. oferecer-se como imagem da vida para a compreensão do sentido individual. Isto é. a extensão da influência transformadora de Kant ainda era muito reduzida no espírito de sua época. ser. leu ávida e atentamente as duas mil páginas do livro. na leitura da medida singular.) sempre diz unicamente: esta é a imagem de toda a vida. “que nunca agüentaram permanecer na dúvida”. 290. Meu único. e lembra que “é preciso adivinhar o pintor para entender a imagem”. p. Em meio a diversas descobertas e ao pleno desenvolvimento científico. é que os escritos de Schopenhauer puderam encarnar o sentido trágico na interpretação da vida como um todo. na verdade. no testemunho de Heinrich von Kleist. buscar a independência do Estado e da sociedade. todo pensador íntegro que estipulava sua trajetória a partir de Kant corria o risco de cair.. Ibid. aprende nela o sentido de tua vida.. depois de Kant. um dos resultados desse encontro foi aparecer na Terceira Extemporânea. da importância de Schopenhauer como educador. e acabou por conhecer toda a obra do filósofo. Na reação de Kleist ao projeto kantiano. “Não podemos decidir se aquilo que denominamos verdade é verdadeiramente verdade ou se apenas nos parece assim. Sem a apreensão do conjunto.”5 Tanto a alusão a Schopenhauer quanto a referência a Kleist traduzem o elogio ao caráter inovador da filosofia de Kant. no isolamento e. com o apogeu do Iluminis3 4 5 NIETZSCHE. sofrer o desespero da verdade. desde que fosse vigoroso nos seus sentimentos e nos seus desejos. Nove anos depois. sem se restringir à erudição ou ao refinamento conceitual da escolástica. Porém. Embora no contexto do idealismo alemão (Kant. ele reconhecia ser escassa a presença dessas qualidades no campo filosófico. 1996.. o entendimento dos sinais da dimensão universal. em seu íntimo mais sagrado. p. publicada em 1874. A potência pedagógica de sua filosofia está em. fiel às suas idéias e à sua verdade. esta maneira de sentir. e também significam uma crítica às teorias do conhecimento que. H. Fichte. um conhecido escritor de peças teatrais. ao realizar a crítica do interesse dos cientistas pelo detalhe.

p. Ibid. no fundo. Nietzsche apontava o embaraço entre o esforço de superação da vida imediata e a dúvida quanto ao valor mesmo da existência como um dos problemas que contagiavam o juízo e o pensamento modernos. ou do reformador e do filósofo. mas depois de nele reconhecer uma força: “sua hostilidade. Quando Schopenhauer torna-se hostil ao que em si mesmo encontra. “Um pensador moderno (. ela deve ser afastada. Schopenhauer exerce a sua liberdade mesmo é ao combater. Nietzsche empenha-se em mostrar que a grandeza do filósofo no confronto crítico com as feridas do seu tempo não representa uma luta infecunda. Equivocamse. Ao contrário. mais me abstenho de julgar o produto da minha realização. na cultura. a grandeza da vida só poderia ser tangível mediante a renúncia à vontade de compreender o seu verdadeiro valor. os valores que o impedem de afirmar a diferença do seu pensamento. em nome de um reino saudável para a vida. 84 impulso nº 28 . antes de poder acreditar que pode ser um juiz justo. está dirigida contra a impura mescla do incompatível e do eternamente inconciliável. a crítica. sobretudo. descartando a subjetividade. contra a falsa solda do contemporâneo com sua extemporaneidade. e. em vista disso..mo. A advertência quanto ao papel crítico do filósofo frente ao movimento moderno assinala a legitimidade da aventura de Schopenhauer.. Nietzsche recusou o pessimismo de Schopenhauer. Seus escritos. Esse é o primeiro ponto a ser destacado dos fragmentos analisados que homenageiam Schopenhauer: só posso conquistar a dimensão da vida universal se nela eu contemplo o horizonte da minha própria vida. que aprisiona a filosofia na crítica imobilizadora ou na realização acrítica. não é para negar-se. mas. Ou seja. mais me distancio de efetivar minha vontade de empreender. os intérpretes que dele extraem apenas a mensagem da ruína. ou cessa o realizador ou cala-se o juiz. Todavia. O JUIZ E O EXTEMPORÂNEO Um segundo aspecto observado por Nietzsche é relativo ao impasse do pensador moderno em sua aventura de sobrelevar-se. dirigida contra o lutador e destinada a converter-se na sua autodestruição. na transformação da natureza. ele eleva à altura 7 Ibid. esta é a manobra de Schopenhauer: a defesa do pensamento para além da vida contemporânea. Nessa situação encontrava-se o falso dilema do empreendedor e do juiz. afinal. 6 Justo na capacidade de escapar de tal armadilha reside a virtude de Schopenhauer.. significam a tentativa de depuração das marcas visíveis da doença contemporânea: uma vida sem clareza e sempre pronta a ser hipocritamente condenada. empenhado no curso de seu projeto criador. emigrando do presente em direção ao avanço do processo civilizatório.”6 A esta disjunção Nietzsche atribui o nascimento do espírito empreendedor da filosofia moderna – uma poderosa máquina de “fomentadores da vida” –. e quanto mais eu me ocupo do julgamento das minhas ações e do mundo. não encalha entre o desejo de viver e a dúvida sobre o valor da vida. Nietzsche. tal como Nietzsche o nomeia: quanto mais eu realizo.) sempre sofrerá de um desejo não cumprido: (. Diferente dos filósofos gregos.. adverte o filósofo. de transfigurar a natureza e caminhar para a civilização.. em toda a extensão da sua liberdade e diferença com os valores culturais.7 Celebrada por Nietzsche. para expulsar de seu interior as mazelas de sua época.) ele considerará ser um homem vivo. O EMPREENDEDOR. que faziam a defesa intransigente da physis em toda a plenitude de sua beleza e liberdade. a vida moderna sempre deixa um resto: nessa trajetória obstinada. compara a sua subordinação ao tempo como o vínculo do enteado à figura da falsa mãe indigna. O homem. traçando o perfil do filósofo moderno. 291. mais do que um defeito do escritor. o veneno da cultura que deforma e limita sua aspiração a uma outra humanidade. o suposto filho do tempo se mostra apenas como seu enteado”. desvalorizando a implicação do sujeito nessa construção. empenhavam-se na construção objetiva e científica do mundo.

à medida do seu ser. “É uma decisão pavorosa! (. o erudito. do seu inconformismo com o crescimento do mundo moderno. como resultado da civilização e objetivo último da humanidade. convertida aos estreitos limites da sobrevivência moderna. Este é mais um dos preceitos apreendidos de Schopenhauer. e se ele pensa em si.8 A capacidade de antecipar os graves problemas na proporção do que hoje enfrentamos é o testemunho do seu estilo ousado e visionário. purgar a desilusão diante de toda a inverdade que lhe assaltava o juízo foi a empresa de Schopenhauer para acercar-se da verdade. o avanço desmesurado da ciência e o potencial destrutivo da economia monetária. 293. Ibid. mede a distância de sua alta meta até si e é como se visse um desprezível monte de detritos atrás e abaixo de si. cuja esperança reservada aos homens não ia além da sua participação residual no devir do Estado. inclusive a arte e a ciência de agora”. levou o homem original a sofrer de uma cruel má vontade e do mais terrível desprezo. “tudo está a serviço da barbárie que vem vindo. ajusta a sintonia dos sentidos e dá início à investigação detalhada de 8 9 seus próprios demônios. em nome do projeto comum da civilização e da convocatória ao adesismo irrefletido do jogo contemporâneo. Ibid. o comerciante ou o filisteu.. a simplicidade. acolhidos no conforto das organizações governamentais. negociantes. Schopenhauer oferecese em sacrifício como primeira condição para medir as coisas à medida de si. pois quer negar a doença geral e é um empecilho para os médicos”.. num mundo onde não há mais lugar para a contemplação. Nietzsche vaticina que. em condições onde o apare10 11 Ibid. especialmente quando diagnostica a condição humana frente aos ideais modernos: o “homem culto degenerou no pior inimigo da cultura. os atos políticos encenados diante de si. Antes de se ocupar como um fantoche na burla do vir-a-ser moderno. O MUNDO DA CULTURA E A EXISTÊNCIA O Estado.”11 A ascese de Schopenhauer permite a Nietzsche verificar que as ações de valorização da cultura moderna incentivadas pelas autoridades não fazem senão promover o bem e a existência do Estado e de uma elite conformada. nem tampouco à tentação de compor o elenco da comédia social. a crescente hostilidade entre as nações. Schopenhauer não cede ao ímpeto de conjurar. o homem não deve mutilar a sua diferença. artistas e eruditos tratavam apenas de defender os seus interesses imediatos e de zelar ciosamente pelos benefícios que conseguiam auferir. Associar-se ao sentimento infeliz. que oferecia como horizonte para a vida o bom cidadão. impotente. Ibid. Nietzsche denuncia como a dimensão da vida. p.”10 Ao ressaltar a escolha de Schopenhauer. o filósofo vê na vida moderna os sintomas de um provável aniquilamento da cultura: a descrença religiosa.da consideração trágica o exame da existência para tornar-se universal. Ele não aceita esses limites. Nietzsche observa que. para encarnar o sonho da existência livre do peso do mundo e nascer transfigurado. com uma série de perguntas insólitas nos lábios: Por que vivo? Que lição devo aprender da vida? Como me tornei assim como sou e por que sofro então com esse ser-assim? Ele se atormenta: e vê como ninguém se atormenta assim. na relação da vida com a cultura..9 Por reconhecer na cultura o quadro de uma debilidade generalizada. O ESTADO. Não deixa de ser notável que o perfil traçado pelo filósofo para o final do século XIX ainda permaneça familiar a muitas das atuais análises de nossos dias. Na fronteira da história que se anunciava. 293. p. Juntos. Nietzsche propõe a destruição de toda forma de estupidez como tarefa superior ao dever de servir ao Estado. impulso nº 28 85 .) Pois agora ele precisa mergulhar na profundeza da existência. “Sua força está em esquecer-se de si mesmo. só cabe na convicção da mais ferrenha estupidez daquele que tem no serviço estatal o seu supremo dever. Ao contrário dos professores de filosofia.. o pensamento. Em oposição a esta promessa de felicidade anunciada pela inovação política.

a filosofia corre sérios riscos de se acomodar como saber universitário.cimento da sua singularidade tornava-se praticamente inexistente. é o de cultivar homens efetivos. a instituição cultural é compreendida na base de um conjunto de dispositivos e de leis por meio do qual seus integrantes legitimam-se e afastam os proscritos. 86 impulso nº 28 . além de ter de ser um pensador. Do seu ponto de vista. para as instituições de cultura: o caminho das benesses modernas e o caminho do autogoverno. isto é. Sua recomendação é de que a primeira medida deve consistir em decantar os pensamentos das influências medievais de formação cultural. mediante a educação de si. Ele é bem claro em seus propósitos quando defende não ser tarefa da educação e da cultura criar eruditos hipócritas.. Ibid. Ibid. pois entende que por estar comprometida com a “faca da verdade”. conseqüentemente. ele entende como necessária a mudança de objetivos dos educadores superiores.. se alimentando no passado. conformados à sua história mais recente. Nietzsche 12 considera-o como gênio em estado latente. fundarem um processo de autoconhecimento. O intuito. ela é tida como organização sólida de apoio e incentivo aos talentos. 296. p. p. No primeiro. opiniões alheias. ser filósofo em função do Estado. o esforço para ir além da opinião corrente. 298. Ibid. A FILOSOFIA E A EDUCAÇÃO A partir do programa crítico de Schopenhauer.16 Foram ao encontro de uma única tarefa. Nietzsche especula sobre algumas possíveis conseqüências para os estabelecimentos de ensino preocupados com a tarefa de instituir uma educação além da cultura da moda. ao se despirem das máscaras da incultura e. a mais leve e digna das imagens. eram iniciativas consideradas fundamentais e necessárias à liberdade do pensamento: “Quando alguém se vê por intermédio de opiniões alheias. Ibid. deve ser também um homem empenhado em “retirar de si a maior parte do ensinamento”13 que almeja e servir “para si mesmo de imagem e abreviatura do mundo inteiro”. Ibid.”18 13 14 15 16 17 18 Ibid. AS INSTITUIÇÕES CULTURAIS. No seu prisma.17 a liberdade do pensamento não pode ser rebaixada à função docente como meio de vida. uma diferença criadora e uma nova concepção de cultura. De início. que desnuda a índole fugaz e inconsistente do mundo moderno.. trata-se de formar pensadores. À expansão do Estado correspondia o afastamento insular da existência revolucionada e do sentido livre e elevado da cultura. vivem e vêem os eruditos”. Embora nele reconheça o portador de uma genialidade inata. abdicando do juízo e da crítica inclusive ao próprio Estado. com Kant. Encerrada na cátedra. Ibid. estabelece-se uma bifurcação fundamental para o pensamento e. isto ocorre porque o filósofo.15 Tanto Schopenhauer quanto Goethe. “Se alguém suporta. Nos termos de Nietzsche. a investigação de si como princípio educacional adquire tal relevância no pensamento nietzschiano que. Nietzsche não vê com bons olhos a filiação de pensadores ao Estado. A recusa da adesão fácil defendida por Nietzsche tem como meta um alvo superior ao da erudição. em oposição aos interesses decorativos do mundo moderno. O empenho. na verdade. Para tanto. resguardando-os do “egoísmo míope do Estado”12 e da tentação bajuladora do espírito novidadeiro.. na aventura pesada de cada uma de suas odisséias. o que há de admirar se até mesmo em si próprio ele não vê nada além de. ao contrário do erudito. p. pois. fundar. experimentaram o júbilo de ter da vida. E assim são. de um único sentido. homens livres com disposição heróica.14 A distância em relação à existência moderna era ponto de honra para o filósofo. 297. viram “o sagrado como juiz da existência”. tem também de suportar ser considerado por ele como se tivesse renunciado a perseguir a verdade em todos os seus escaninhos. mesmo admirando Kant. cujas raízes remontam ao ideal da Idade Média de formar eruditos.. no segundo. ele não concede ao ilustre intelectual o mérito de ter suplantado a condição de erudito.

442. Inaugurado com o Iluminismo. O que há são notas e algumas indicações apresentadas na obra. conforme diz Nietzsche. depois de submetidos ao martírio de percorrê-lo. DA CRÍTICA FILOSÓFICA Apesar de inicialmente afetado por Schopenhauer e de nele ter identificado o ato legítimo de um querer – o rompimento da existência com o divino e a demonstração dos fenômenos modernos como sintomas de uma vontade –. a exploração poética de Goethe sobre a vida humana em todas as suas ramificações. Vimos com Nietzsche que a lição de Schopenhauer pode ser traduzida em no mínimo três princípios fundamentais: 1. pretende uma saída da mentira que já dura dois mil anos. 19 Em resposta ao que identificou na doutrina de Schopenhauer como a face do pessimismo. O ETERNO RETORNO Em 1881. o movimento de objetivação do mundo contrasta com a postura desses pensadores que.19 lançaram-se ao desafio de inscrever na história do mundo moderno o que poderíamos chamar de políticas da subjetividade: o recrutamento do sujeito pela teoria do conhecimento de Kant. recusando-se a sofrer da consciência do conhecimento como representação. Isto. contudo.. Depreendemos que a linha de sucessão referida por Nietzsche – Kant. Haute-Engandine. sobretudo por não endossar a idéia da vontade como aquilo que se reflete na aparência.Na qualidade de concessões profundamente danosas. não torna menor o valor do seu projeto que. durante o passeio por uma aldeia da cidade onde morava. Nietzsche distancia-se dessa filosofia. o Estado moderno transformou a atividade filosófica num aglomerado de sistemas e de críticas ininteligíveis. e não o exercício de um filólogo. de um conhecedor de línguas ou de um historiador. Ao institucionalizar a filosofia. saem aliviados e convictos dos benefícios do amparo cristão e estatal. Nietzsche concebeu o eterno retorno. cuja tese. o eterno retorno não constitui uma formulação que tenha sido objeto de exposições e desenvolvimentos sistemáticos de sua filosofia. o distanciamento das imposições do presente como meio do desenvolvimento autocrítico e recurso de aproximação crítica da história. do bem e do mal. segundo Antônio Cândido. o filósofo como funcionário e a filosofia como erudição. de onde os jovens. Goethe e Schopenhauer – apresenta uma trajetória comum relativa à importância que estes intelectuais concederam ao exame de suas inquietações confrontadas aos imperativos históricos dos séculos XVIII e XIX. O DESMONTE Ibid. na ilusão do mundo. é a de que o mundo pode ser compreendido como um desenvolvimento alternado da criação e da destruição. e a vontade de potência no eterno retorno. a vontade como dimensão trágica da vida. p. impulso nº 28 87 . de Schopenhauer. De acordo com as conclusões do VII Colóquio Internacional de Royaumont “Nietzsche”. Nietzsche formula a vontade em sua máxima potência. Mas que saída é essa? Como ela se organiza e quais são as ferramentas de Nietzsche para encaminhar tamanho empreendimento? Sob o risco de restringir a amplitude do trabalho de Nietzsche caindo num discurso imprudente e estéril. e mesmo ciente da aversão do eterno retorno às explicações e definições. suspeita Nietzsche. e propõe a radicalidade da diferença como o efetivo destino do eterno retorno. sobretudo em face do projeto do sujeito moderno. Nietzsche rejeita o pensamento como profissão. a banalização da cultura promovida pelo alargamento do Estado e a incompatibilidade do pensamento filosófico com o instituto da educação moderna. do vir-a-ser intempestivo. 2. buscar-se-á uma abordagem preliminar de alguns de seus principais aspectos. uma vontade de não – Schopenhauer concebeu a força da vontade como fundamento do mundo para aprisionar-se no sentimento da impotência –. a subjetividade como via de acesso ao universal. de Nietzsche. isto é. em nome do livre exercício da diferença frente ao que Nietzsche observou como a intranqüilidade da mundanização – “a crença no mundo” –. A contemplação do filósofo deve ser semelhante ao olhar do poeta. e 3. do gozo e da dor.

442. de fato. da reação sobre a ação. assevera o filósofo. neles buscando algum reconhecimento. p. atribuem-se a si mesmas a falta primordial. que o que ele carrega é uma escravatura. Mas que tome consciência do que é que lhe dá o mais alto sentimento. sente-se responsável. disseminam o contágio reativo por todas as forças e. não fez a crítica da verdade e. medido e limitado por um pensamento que só pode se exercer em nome de valores tidos como superiores – “o Divino. Estes três contra-sensos. 20. segundo Deleuze. 25. Neles. As avaliações estão de tal modo deformadas que já não sabemos ver que o carregador é um escravo. dão o exemplo da renúncia. essa passagem em revista da cultura ultrapassa a crítica da razão. denunciando as falsas pretensões do conhecimento. sobretudo a vida. o mais alto sentimento. do verdadeiro e do falso. 1976. a vontade não tem rosto. Deus. o Belo. que o carregador é um carregador-fraco – o contrário de um criador.”. continuamos a sobrecarregar as costas com o entulho secular dos valores estabelecidos. 1996. a finalidade etc. Idem. Deus foi morto mas o homem dele guardou e ocupou o essencial: o seu lugar. p. ela é múltipla. Ibid. a fraqueza e a infelicidade renunciam às forças ativas e acusam o outro como causa da própria inanidade. que se esforce. sublimam o fracasso nos valores piedosos e superiores à vida em nome da própria salvação no além. favoreceu em toda parte a vitória do não sobre o sim. não colocou em causa a aspiração de conhecer. quem encontra em subordinar-se. Sem a crítica dos valores. obedecer. da má consciência e do ideal ascético. quem encontra no repouso o mais alto sentimento. parece-lhe difícil de suportar. mesmo a tarefa kantiana de conferir à crítica uma dimensão abrangente e positiva. 6. a causalidade.20 Deste ponto de vista. um ao outro. p. o Verdadeiro. que obedeça. tornou a vida algo a ser julgado. tornam a ação vergonhosa e acomodam a impotência no sentimento da inveja. imprimem um tom bastante peculiar à filosofia da vontade. não.. Nietzsche desobriga-se definitivamente da distinção metafísica dos mundos e anuncia a Vontade como o nome do libertador e do mensageiro da criação e da alegria – ânimo fundamental eternizado na afirmação. há uma fonte de inspiração comprometedora de toda a filosofia: o princípio teórico que estabelece a distinção dos mundos da essência e da aparência. o Mundo. Esta concepção.22 e produziu uma filosofia voluntarista e submissa. embora tenha criticado a falsa moral. Diz-se que alguém é forte porque ele carrega: carrega o peso dos valores “superiores”. pondera Deleuze. de nos tornarmos os verdadeiros sujeitos destas propriedades de mutilação? O sacerdote foi interiorizado pela Reforma mas não desapareceu. Nietzsche observa que a predominância das formas reativas e acusatórias se expressam também na dialética. que repouse. do inteligível e do sensível. Mesmo a vida. forjada por Sócrates.25 para a recomposição do Espírito ou da consciência. finalmente. não pôs em questão as aspirações da moralidade nem os seus valores. 20. p. introjetam o erro. NIETZSCHE. o Bem”–. 1976. p. Este objetivo da dialética contém o pressuposto de que nossas propriedades sugerem a vida e o pensamento em si como fenômenos mutilantes.23 terrenos nos quais triunfaram os contra-sensos do ressentimento. 88 impulso nº 28 . de um dançarino. DELEUZE. 24 25 Ibid. e não receie nenhum meio! Isso vale a eternidade!”21 Segundo Nietzsche. Todavia. a avaliação do filósofo vai mais além. Na matriz socrática e nas doutrinas judaico-cristãs encontramos “a gênese das grandes categorias do pensamento: o Eu. A predominância dos critérios superiores. 1981. Seria o caso então. “Quem encontra no esforço o mais alto sentimento. enquanto uma arte destinada a nos convocar para a recuperação de “propriedades alienadas”. seguir. Para Nietzsche. Eis a aliança de Deus com o homem para dizerem.24 DELEUZE. e só pode agir sobre uma outra vontade porque “só uma vontade pode obedecer àquilo que a comanda”. Sem embargo.Em Nietzsche. dizem-se culpadas pelo engodo que pre20 21 22 23 senciam da vida.

umas em relação às outras. o homem domesticado.Na renúncia à crítica dos valores é que a afirmação da vontade confunde-se com a imposição. Como todas as forças encontram-se em estado permanente de movimento. O elemento do pensamento é o sentido e o valor. impulso nº 28 89 . com o desejo de dominar.. Ou se acredita na pluralidade de forças em retorno seletivo e criador. acaso. o arsenal teórico que suporta o eterno retorno abrange também a articulação de noções como vontade. NIETZSCHE. 439. 28 O tempo do verbo. ancorada no ideal religioso. Diz o filósofo que a força total. não corresponde ao infinito. o bobo. buscando um outro caminho para a filosofia. Se nessa implicação do acaso as forças distinguem-se umas das outras em quantidade. Nietzsche descreve os Estados modernos como formigueiros. elas são forças dominantes ou dominadas. De maneira bastante abreviada. p. De início. elas são ativas ou reativas. O que é infinito é o tempo. ele considera como propriedade fundamental da força estar em relação com outra força. força esgotaria. tem de se repetir: essa é a minha conclusão. Nietzsche recorre aos conceitos de força. p.. infinito e tempo. “Outrora se pensava que a atividade infinita no tempo requer28 uma força infinita que nenhuma 26 27 Ibid. Para Nietzsche. 440. Apesar dessa força não poder ser medida. apreciar ou depreciar. que são anteriores às qualidades da força. e a situação global de todas as forças sempre retorna. “em um processo circular do todo”. 1996.30 ou se crê em um Deus voluntário. é dela que derivam a significação do sentido e o valor dos valores. o instante – “uma força eternamente igual e eternamente ativa”27 – em que todos os desenvolvimentos possíveis de força já transcorreram. em que os chefes e os poderosos levam a melhor devido à sua baixeza. a história universal é a história do modo como as forças reativas se apoderaram da cultura ou a desviaram em seu próprio benefício. p. Enquanto é próprio da força agir ou reagir. A infinidade só passou porque todas as possibilidades do que tem de ser na ordem e na relação de forças já se esgotaram. como escapar às proposições lógicas que.. As categorias do pensamento não são o verdadeiro e o 29 30 NIETZSCHE. “Os nossos senhores são escravos que triunfam num devir-escravo universal: o homem europeu. que se diferenciam em quantidade e qualidade. ao contágio desta baixeza e desta truanice. “Uma nova imagem do pensamento significa inicialmente o seguinte: o verdadeiro não é o elemento do pensamento. moral e dialético. 1996. ela é determinada. Ela é eternamente ativa. Pelo fato da vontade de potência também ser dotada das qualidades afirmativas ou negativas. Além da força. mas não pode mais criar infinitos casos. na verdade. resultado da atuação da multiplicidade de forças do todo. escondem uma segunda intenção teológica? Que lei originária vai instituir o filósofo para dar conta do curso do mundo e da sua eternidade? Com quais recursos ele constrói um novo caminho? O ARSENAL TEÓRICO Para situar o eterno retorno.. Ibid. quando a diferença entre as forças se expressa em qualidade. apesar de suscitar dúvidas ao leitor. fiador do mundo e do ser. corresponde ao texto original da publicação traduzida.”26 Na lida com a total inversão dos valores. subordina-se aos interesses e imperativos da dominação para se eternizar no poder como a vontade do mesmo – à semelhança de um escravo que se torna poderoso mas que não se inventa como senhor. e ela não precisa mais tornar-se infinitamente grande. Nietzsche vê o acaso. o que caracteriza a vontade. e por isto foi mantido tal como está editado.”29 Uma conclusão a que Nietzsche chegou como forma de evitar a tendência da cultura em atribuir crédito ao teísmo. 24. 439. articulando-os com a idéia da situação global. Por isto. compreende-se porque Nietzsche propôs a vontade de potência como o princípio plástico determinante da relação entre elas. p. à vontade de potência compete afirmar ou negar. o que gerou o tempo e o que dele nasce é uma repetição. para a história e para a política. este é o tecido conceitual que permite a Nietzsche engendrar uma saída ao predomínio de uma visão plotiniana do mundo. sentido e valor. Agora pensa-se a força constantemente igual. No relacionamento das forças. do tempo e do infinito.

não faz senão carregar. se opor à diferença. constata-se que o pensamento trágico de Nietzsche substitui o ideal do conhecimento. a baixeza e a escravidão figuram como categorias pertinentes a uma vontade de potência negativa. quando acredita afirmar. 86. Nietzsche chama a atenção para “os direitos da diferença de quantidade contra a igualdade e para os direitos da desigualdade contra a igualação das quantidades”. não há nada. Ibid. o alto e o baixo. porém guarda o sentido de dar e de criar. No lugar da lógica. avaliar é determinar o “valor” dos sentidos e totalizar os fragmentos. afirmar implica reconhecer diferença. Querer dominar é a imagem que os fracos fazem da vontade de potência. sentir e mesmo existir: as interpretações supõem não o que se interpreta. segundo a natureza das forças que se apoderam do próprio pensamento”. neles. coexistindo sob tensões variadas. humanos – demasiadamente humanos. Por conseguinte. 90 impulso nº 28 .. en33 34 DELEUZE. o valor de suas afirmações ele o avalia segundo o peso do que carrega. levando em conta a sua pluralidade. testemunha da vontade de potência como força plástica. carrega o peso dos valores humanistas.33 A vontade de potência não é uma vontade que quer a potência ou que deseja dominar. no seu mais baixo nível. Em última instância. ela não equivale à cobiça e nem mesmo à usurpação. pode-se dizer que o papel da negação e da afirmação no perspectivismo nietzschiano.. 37. atrás de cada profundidade há “uma profundidade original. Em um outro exemplo dessa tensão. afirmar significa negar. Estas qualidades da vontade. a avaliação. Ao se alterar esse espaço. as referências à nobreza.”34 Sob a assistência de Deleuze. logo. quando diz sim. O que ele carrega? O “asno carrega antes de tudo o peso dos valores cristãos. ESCOBAR.32 A VONTADE DE POTÊNCIA: UMA NOVA ALIANÇA COM O MUNDO Deleuze esclarece que o método de Nietzsche procura descobrir novas “profundidades” de sentido. potência de 31 32 modelar as máscaras. mas somente a vontade de potência. implicarão. mas quem quer na vontade. que é sempre parcial e fragmentário. em sendo afirmativas ou negativas.) abismo abaixo de todo fundo”. ontológica. potência de interpretar e de avaliar. Ibid. pela interpretação e pela avaliação. “Seu verdadeiro nome. Da mesma forma a máscara é a mais bela dádiva. que dispara os processos de sentido e não remete a nenhuma substância essencial de valor. por outro lado. Ele acredita que afirmar é carregar. da força capaz de se transformar. A potência não é o que a vontade quer. respectivamente. No lugar da representação.31 Assim entendidos os elementos centrais da Stimmung nietzschiana. a partir da orientação deleuziana. jogar. se busco analisar do ângulo do que se encontra abaixo. Deleuze nos oferece um exemplo de toda a magnitude contemplada na vontade de potência: atrás da caverna platônica não há outra coisa senão outra caverna atrás de toda caverna.falso. p. Deleuze ressalta a diferença entre o sim e o não do Asno e o sim e o não de Zaratustra. na condição de crítico da ciência e da cultura modernas. assume muitas significações. num devir ativo e num devir reativo. ao que não corresponde àquilo que a visão do que está embaixo é. mas o tipo daquele que interpreta. Se procuro ver do alto. p. A propósito desta espécie de horror vacui. O primeiro. é a virtude que dá. quando Deus está morto. criar. da descoberta do verdadeiro. as interpretações se organizam em nova profundidade e cessam de ter o verdadeiro e o falso como critério. (. o que há é a máscara. funda-se uma topologia e uma tipologia do pensar. de acordo com o vetor de análise.. como a mais alta potência da arte. e sim o nobre e o vil. não propriamente coisas a interpretar e avaliar. à altivez e à mestria podem ser identificadas como sendo próprias da vontade de potência afirmativa. alterando o espaço onde os signos se distribuem. 21. Interpretar é fixar o “sentido” de um fenômeno. 22. p.. Num grau mais elevado. 1985. p. que é potência de metamorfose. a vileza. 1976. de resto. diz Zaratustra.

Em sua obra sempre vigora uma pluralidade de sentidos. Lá. assumir a carga. como princípio de intensidade pura”. essas formas do eterno retorno eram vistas como ciclos incomensuráveis. afirmar significa desfazer-se da carga. Na expressão “eterno retorno” fazemos um contra-senso quando compreendemos retorno do mesmo. tudo aquilo que há está sempre no regime de um complexo de sentido. as mudanças cíclicas geradas na interação dos elementos qualitativos determinavam o retorno das coisas e dos corpos celestes. sua única realidade. A identidade no eterno retorno não designa a natureza do que retorna. é ao niilismo: nele. toda possibilidade de interpretação remete à possibilidade infinita de interpretar. Desde as raízes pré-socráticas.37 Nesse mundo de intensas flutuações. 40. De acordo com Deleuze. quando não há mais valores de modo algum”. p. o não de Zaratustra é o da agressividade. o valor é determinado pela vontade de potência. para Zaratustra. descarregar. e o negativo. as identidades se dissolvem. Desse modo. Nietzsche visava a vontade de potência “como princípio ‘intensivo’. que provavelmente não tinham uma abrangência total e nem mesmo eram consideradas como eternas. Na visão do filósofo. mas. ao contrário. ele era o resultado de uma interpretação das transformações ocorridas ou no mundo físico ou na dinâmica dos astros. O sim de Zaratustra é a afirmação do dançarino. não é sinônimo de carregar. síntese do diverso e de sua reprodução. como vimos. 23.. da atitude. o eterno retorno constitui uma das idéias mais antigas da filosofia. de outro. 1985.fim. da criação. Nenhuma dessas abordagens corresponde ao pensamento de Nietzsche. porque. o sim do asno é a afirmação do carregador. Deleuze sustenta ser o eterno retorno o tema que permite resgatar a importância e o sentido fundamental da afirmação na filosofia de Nietzsche. o eterno retorno é um dos mais complexos e de difícil alcance. Não é o ser que retorna. mas. Isto porque as proposições de sua filosofia encontram-se estruturadas numa conformação metodológica onde se privilegia a interação múltipla de signos. síntese da dupla afirmação. 25. a afirmação não é mais do que um fantasma. De um lado. o movimento circular dos corpos celestes determinava o retorno das qualidades e das coisas. resultado das forças que ali se manifestam e atuam. Ibid. o peso do real.36 PRODUÇÃO DA DIFERENÇA E CRIAÇÃO DE NOVOS VALORES Dos conceitos apresentados por Nietzsche. ele distingue a originalidade do filósofo em contraste com as formulações mais clássicas do problema. p. Afirmar. ESCOBAR. o eterno retorno não chegou a se confirmar como uma doutrina. o fato de retornar para o que difere. conforme as civilizações e as escolas filosóficas da época. e o querer de cada um só se exerce na medida em que 36 37 DELEUZE. síntese do devir e do ser afirmado do devir. sobretudo. De maneira geral. Mas isso não autoriza a que todas as interpretações tenham o mesmo valor e estejam no mesmo plano.35 Eis o niilismo nietzschiano em seus três estágios: o peso de Deus. de signos e de sentidos. Na Antiguidade. Dentre as diversas abordagens possíveis. o peso do homem e o peso do último dos homens – a carga que nós conduzimos quando não temos mais o fardo da teodicéia. Por isso o eterno retorno deve ser pensado como uma síntese: síntese do tempo e de suas dimensões. Ao que o asno diz sim ao mesmo tempo em que diz não a si mesmo. que não diz respeito nem à qualidade física nem à quantidade extensiva do mundo. fundar o ato solene e sublime da dança. o não do asno é o do ressentimento. 35 O eterno retorno de Nietzsche nos introduz numa dimensão não explorada. 1976. impulso nº 28 91 . ao domínio das intensidades puras – domínio desenvolvido como lei da vontade de potência. de se produzir outra interpretação. o conceito era articulado a outras noções especulativas e concebido sob variadas formas. p. no passado. Para isso. mas o próprio retornar constitui o ser enquanto é afirmado do devir e daquilo que passa.

O advento das flutuações ou intensidades que se atravessam umas nas outras caracteriza a vontade de potência. Esta é a marca mesma do eterno retorno. que não supõe nem o Um.. o diferente é a verdadeira razão do eterno retorno. além de se opor à hipótese cíclica.abrange a extensão radical de toda alteridade.) o mundo do eterno retorno é um mundo em intensidade. e o que ele faz voltar é a potência extrema de tudo que passa pela prova.000. não identificar o mesmo. os signos se estabelecem e se tornam “sentido” porque. Ele seleciona pela via do pensamento porque elimina as “meias-vontades”. O eterno retorno. p. entre atribuir-se valores em curso e criar novos valores. entre a criação dos valores novos e o reconhecimento dos valores estabelecidos. 38 A significação seletiva do eterno retorno se dá duplamente. Mas que diferença seria essa que sai do mesmo e retorna em repetição? Deleuze nos assegura que o eterno retorno não é uma repetição mecânica. mas autenticar as vontades. num mundo sem ser. a vontade visa atingir a sua maior intensidade. a revelação e o enigma de Nietzsche. e seleciona pela via do ser porque suprime as semi-potências. nem o Mesmo.”39 Nas relações de produção da diferença.. que Nietzsche. na afirmação irrestrita do querer e do ser.40 Dentre os valores. encontra-se uma diferença de natureza entre as formas extremas e as formas medianas. a presença a si se transforma em inumeráveis “outros”. Ele recorda. Dessa agitação caótica e elementar. e não tem nada em comum com a harmonia física e astronômica contemplada pelos antigos. 39 40 Ibid. a que constitui o seu fundamento: “valores ‘novos’ são precisamente as formas superiores de tudo o que é”. ele mesmo. O desigual. nem o mesmo ou o igual. “(. Nela. e só pode ser apreendida como um instante. Ele concerne apenas ao vir-a-ser e ao múltiplo. unidade ou identidade. um mundo de diferenças.. Sob a força de Klossowski. Assim. faz uma crítica contundente à noção de Tudo. 110. cuja causa está no seu envolvimento com toda a série.000. não supõe nenhum equilíbrio. sentenciando que Tudo também não volta. mesmo depois de aparentemente assimilados pela sociedade. Não é a volta do Todo. o filósofo acena com a transformação da vida e do pensamento em novo horizonte histórico e político. 1100. 28. 110. do Mesmo. mas no infinito – onde não há distinção entre uma vez e uma infinidade de vezes –.”38 Na repetição. “Por toda a parte o eterno retorno se encarrega de autenticar. mas que se constrói sobre o túmulo do Deus único como as ruínas do Eu idêntico. que transcendem o seu próprio tempo de criação e sempre mobilizam novas forças sociais. 92 impulso nº 28 . da volta e da re-volta em todas as danças. testemunham a profundidade criadora da vontade de potência. é a única unidade deste mundo que não desfruta disso senão “retornando”. contradanças e mudanças dessas flutuações ou intensidades é que decorre o eterno retorno. os trabalhadores como soldados e o eterno retorno como a própria vertigem da vida em poesia. Ibid. A dupla dimensão do eterno retorno consiste. a dimensão mais radical da diferença corresponde à máxima potência dela mesma. já que o eterno retorno é essencialmente seletivo. assim Deleuze nos oferece a visão. não é um ciclo. ao se dirigirem para outras diferenças implicadas na diferença primeira. Ibid. uma atualização fortuita. 1n). as formas e as potências. nem um retorno ao Mesmo. portanto. É esse caos que Nietzsche afirmava ser não o contrário mas o próprio eterno retorno. a única identidade de um mundo que não tem do “mesmo” senão pela repetição. há aqueles que não aparecem senão para se identificar com o reconhecimento da ordem e aqueles que se perpetuam. numa diferença de intensidade. Esses valores. as máscaras e os papéis. ainda. 11. nenhuma unidade. contemplando o super-homem como poeta. isto volta porque nada pode ser igual. Onde não há mais medida é quando a expressão da diferença se exerce com maior radicalidade (1. Apesar do esforço da cultura na igualação das diferenças. por meio delas retornam sobre si. nem o mesmo pode ser idêntico a si. lembra Deleuze.

a qual atravessa em profundidade toda manifestação cultural e em torno da qual quase tudo gira e deve girar. DIDIER. D. deixo o fragmento de Domenico Losurdo. Nietzsche e a Filosofia. que ele convida a “criar” através da “grande política”. Nietzsche Educador. Isto porque. Rio de Janeiro: Editora Scipione.41 41 LOSURDO. 1996. Por que Nietzsche? Rio de Janeiro: Achiamé. do alto a baixo. 1993. Por mais que lhe seja cobrada a identificação com a ordem cultu- ral. Magia e Técnica. 1976.) não só pensa em termos profundamente políticos. caracterizada pelo desprezo à mesquinharia chauvinista e provincial da “pequena política” nacional liberal e pela consciência que a contradição principal. Este indivíduo. Per una biografia politica. reduzida aos objetivos de uma sobrevivência infecunda e subumana para o indivíduo. São Paulo: Editora Brasiliense. p. circunscritas aos interesses do Estado. tem o direito de buscar novos valores para o homem e para a cultura. F. mas enfrenta ainda o problema dos instrumentos necessários para o alcance dos objetivos anunciados: aspira explicitamente a um “novo partido da vida”. Obras Incompletas. ROSSET. Dicionário da Filosofia. que não hesita em eternizar a vida e a alegria em suas máximas potências. 1981. Nietzsche e la Critica della Modernità. Ela é indispensável para a realização crítica da cultura.F. São Paulo: Nova Cultural. R. reunindo em breves palavras a imagem que. Diante da rendição à mediocridade cultural e política. O filósofo (. Para concluir. J. a vida fica restrita aos horizontes estabelecidos pelo padrão vigente e a educação. ESCOBAR. A segunda diz respeito à consolidação dessa atividade investigativa. 1969. 1997. Madrid: Alianza Editorial. impulso nº 28 93 . Diccionario de Filosofia. v. significa o retorno de uma vontade recalcada pela cultura. 1. 1989. et al. W. A primeira lição é relativa à importância de o homem investigar a si mesmo como condição necessária para atingir a compreensão crítica daquilo que se lhe impõe como história e como destino. Arte e Política. LOSURDO. Rio de Janeiro: Editora Rio. a crítica do presente e a independência do pensamento. Roma: Manifesto Libri. MORA.. Ensaios sobre a literatura e história da cultura. Lisboa: Edições 70. por mais que se lhe anuncie como propósito a igualdade de condições para todos. DELEUZE. 1985.M. é aquela entre o senhor e o escravo. 1981. C. tem direito a fundar um pensamento. Por mais que lhe seja imposto o peso da carga dos valores estabelecidos.H. ao invés de representar o pessimismo de nada querer. Lógica do Pior. nelas. 1991. 1997.. o vôo da águia permitiu-nos vislumbrar. Nietzsche compreende que o produto da coragem que institui o auto-exame. __________. 71. G. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo.CONCLUSÃO Vimos que Nietzsche apreende da filosofia de Schopenhauer elementos para a formulação de sua abordagem sobre a cultura moderna. Referências Bibliográficas BENJAMIN. e pressupõe que o pensamento não renuncie à diferença que opõe ao seu tempo em nome de uma existência culturalmente autorizada. tem o direito de exercer a singularidade de seu projeto contra a modelização cultural e política. Pensar e viver devem ser faces de um mesmo projeto criador auto-sustentado. J. NIETZSCHE. Nietzsche. DIAS. Rio de Janeiro: Editora Larousse do Brasil. A terceira lição recomenda a prudência necessária na lida com a variante conservadora das instituições culturais. C. assumir a sua verdade e tornar-se sujeito de um caminho próprio.

94 impulso nº 28 .

próxima a Leipzig.2 Mostraremos que a crítica ao sentido (finalidade) da história proposta pelo filósofo alemão já se encontra esboçada na poesia e na prosa de Giacomo Leopardi. editor-chefe da revista Educação em Debate da Faculdade de Educação (UFC). no então Estado Pontifício das Marcas.526 páginas do diário que intitulou Zibaldone. 4.com. Palavras-chave HISTÓRIA – MEMÓRIA – ESQUECIMENTO. com 39 anos. Abstract The present study examines the concept of history and memory in the work of Friedrich Nietzsche and his approximation with the poet Giacomo Taldegardo Francesco Leopardi. além dos textos satíricos contidos nos Opúsculos Morais. Keywords HISTORY – MEMORY – FORGETFULNESS. em Fuorigrotta. Alunomodelo. mestre e doutor em Sociologia gerardo@secrel. bacharel em Filosofia. Deixou-nos 41 versos. Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844 na cidade de Röcken. memória e esquecimento LEOPARDI AND NIETZSCHE: a reflection about history. na cidade de Weimar.br impulso nº 28 95 .MDCCCXXXVII)”. Morreu em 14 de junho de 1837. Ao seu lado. numa casa em Vila Ferrigni. filho do Conde Monaldo Leopardi e da Marquesa Adelaide Antici. 2 Nasceu em 29 de junho de 1798 em Recanati. encontrava-se seu amigo Ranieri. We will show that the critique of the meaning (goal) of history proposed by the German philosopher is already found in the poetry and prose of Giacomo Leopardi. inúmeras cartas. Em sua lápide. vitimado por um ataque de asma e hidropsia cardíaca. memory and forgetfulness Resumo O escopo do presente estudo é examinar o conceito de história e memória no pensamento de Friedrich Nietzsche1 e sua aproximação com o poeta Giacomo Taldegardo Francesco Leopardi. Morreu em 1900. entre outros. encontra-se a inscrição feita pelo amigo Pietro Giordani: “Ao Conde Giacomo Leopardi de Recanati / filólogo admirado fora da Itália / escritor de filosofia e de poesia altíssimo / a comparar-se apenas com os gregos / o qual cessou aos XXXIX anos de vida / em virtude de contínuas doenças terríveis / fez Antônio Ranieri / durante sete anos até a extrema hora / ao amigo adorado. 1 JOSÉ GERARDO VASCONCELOS Professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira (UFC). Foi sepultado na Igreja de São Vital. era chamado pelos colegas de escola de “pequeno pastor”.LEOPARDI E NIETZSCHE: uma reflexão sobre história.

e nesse caso as possibilidades são inúmeras frente à beleza estilística de dois filólogos que se movem em torno de um complexo campo eivado pelos dilemas da vida humana. primeira obra de Nietzsche. É no mistério e na força viva de seus versos que as tragédias modernas são relançadas e coabitam nos diversos sentidos de um tempo marcado pela força da crítica. encontram essa aproximação. 1997. e. martírio. no pensamento de Leopardi? Inicialmente. sacrifício. Consoante suas afirmações na Genealogia da Moral. cada um à sua maneira. procuraremos entender a importância da lembrança. Analisá-los é um risco. pelo menos em germe. 304. mostraremos a aproximação de Nietzsche com o poeta de Recanati em relação aos aspectos mais gerais do pensamento do filósofo. Pela poesia. É nesse intempestivo poeta do mundo moderno que o sentido da história. Leopardi alça vôos imponderáveis e intempestivos. e a demonstração da infelicidade e o diálogo com a morte não poupam sequer os deuses. procura relacionar o projeto de Assim Falou Zaratustra com A Origem da Tragédia. p. A pesquisa da origem pode ser encontrada em Nietzsche ou Nietzsche bebe nas águas leopardianas? O Eterno Retorno gestado na alternância do nascimento e perecimento não estaria. Nietzsche radicaliza contra a verdade e os elementos axiológicos que impedem as paixões humanas. e encontra na dor o mais poderoso elemento da mnemônica. finalmente. arriscada e caótica nas rachaduras apalpadas pelo gênio de Leopardi. só comparada à tragédia4 nietzschiana de Assim Falou Zaratustra. de 1871. 1983a. analisaremos a aproximação dos dois filólogos em relação à idéia de progresso e felicidade. Seguindo a mesma trilha não traçada teleologicamente. Encontra na dor um elemento propulsor da lembrança. pede licença a Júpiter e morre. como acontece a Quíron que. NIETZSCHE. examinaremos a crítica.3 É provavelmente uma genealogia da genealogia de Nietzsche. NIETZSCHE E LEOPARDI: UMA PRIMEIRA APROXIMAÇÃO Refletir sobre o sentido da história no pensamento do poeta de Recanati é embriagar-se com o encanto do filólogo e a erudição de um gênio que se estorva nos limiares da filosofia moderna e nos rituais lúgubres da solidão. pois continua difusa. É pela poesia e pela prosa leopardianas que reencontramos os segredos e a vitalidade de muitos conceitos nietzschianos. 4 3 96 impulso nº 28 . a felicidade. Em seguida. Leopardi e Nietzsche. quando o homem achou necessário se fazer uma memória”. esquecimento e dor para o filósofo alemão e para o poeta de Recanati. a teleologia e o conceito de genealogia em Nietzsche. entediado com a vida. MACHADO. Na seqüência do texto. Sacode nas vielas da história os arcabouços de temporalidade removidos pelas lembranças. “nunca nada se passou sem sangue. a verdade e o prazer são revisitados.P oesia e filosofia fundem-se em campos extremamente aproximados.

se no outono e no inverno mostra-se quase enfermo e velho. não restará um vestígio sequer. Mundo. Assim como de grandes reinos e impérios humanos com seus movimentos maravilhosos. uma idéia que se tornou inútil e supérflua. talvez. Apenas o próprio planeta parece imune à decadência e ao declínio. Temos conhecimento de que Nietzsche. não chegaria ele à saciedade. Caráter. inicia a compilação do índice do Zibaldone. Juventude. / Contigo envolve num igual desprezo a natureza toda. / É morta. NIETZSCHE. e. da alegria e do sofrimento. nada resta hoje. Palpitaste / Bastante.7 no Diálogo de Torquato Tasso e seu Gênio Familiar. não se entedia pelos desprazeres do mundo. em 1827. Acalma-te. 8 Em 1820. 12 Encontrava-se em Nápoles em companhia de Antônio Ranieri e sua irmã. Sinto bem / Que não só de quimeras a esperança / Está. Egoísmo. à saturação e mesmo ao nojo! De tal modo que o mais temerário acabará. Desespera agora / pela última vez. teve a intuição de o Eterno Retorno – que foi redigido logo depois –. durante um passeio na pequena aldeia de Silvaplana. um poema de Leopardi11 e. Tasso afirma: “Pilatos não soube mais do que eu”. Sabe que da verdade ao sonho não vai grande diferença senão que este. então. Educação. Encontrava em Nápoles algum alento. Nas Considerações Extemporâneas II – Da utilidade e desvantagem da história para a vida. do mundo inteiro. assim envelhecem todos os dias e finalmente se extinguem. um mundo que caminha para o nada. Simplicidade e Velhice. impulso nº 28 97 . como / O desejo também / Repousa para sempre. E o próprio Gênio responde: “Bem. Rio de Janeiro: T ypographia Leuzinger. do nascimento e do perecimento. lodo apenas. não menos na nova estação rejuvenesce sempre. 7 LEOPARDI. responderei por ti. Enquanto o homem sofre. / E o mundo em que vivemos. LEOPARDI. posteriormente. a ponto de dizer. 1996b. não obriga a nada. que lança os seus filhos à solidão e ao desterro. 1996c. de indício ou fama. Mas como os mortais no primeiro momento de cada dia readquirem uma parte da juventude. e um artigo anterior de VASCONCELOS. às vezes. Tempo virá em que ele e a própria natureza se apagarão. ou a Filosofia a Golpes de Martelo. 1983c. pois o clima era considerado aprazível pelo poeta. trata-se do A Si Mesmo. 32. 1999. no entretanto. Contudo. que jamais o será”. Nela o mal / Impera. nem de suspiro é digna / A terra. 6 NIETZSCHE. p.5 Leopardi prepara-lhe as bases. em que afirma que o mundo passa pela alternância da criação e da destruição. p. Leopardi encontra na dor o mais poderoso caminho e a mais nobre saída para o tédio. É um constante exílio de reposições tênues reescritas no passar de um tempo que sucumbe nas tempestades. Galateu moral. Amizade. a teoria do Eterno Retorno encontra uma possível sustentação no Canto do Galo Silvestre. dos acontecimentos infinitos e das calamidades das coisas criadas. no verão de 1881. o que raramente faz com outros pensadores. 9 LEOPARDI. seriam denominadas Opúsculos Morais. tem a idéia de escrever algumas composições satíricas que. p. por conseguinte. 1996d..8 diante da afirmação de Tasso sobre o sonho. embora não se refira ao título do poema. 1976. Ao que parece. a seu coração”. uma idéia que não serve mais para nada. Cita. Consoante as afirmações de Nietzsche6 no Crepúsculo dos Ídolos. por fim. “o mundo verdade. escrito em 183312 em Nápoles. 1894). 10 11 Conferir sobre o assunto o livro de MACHADO. na infinita profusão dos acontecimentos. / É tédio apenas a amargura da vida. / Supus eterna. Nietzsche10 cita Leopardi de uma maneira especial. 59. Leopardi. famosíssimos em outros tempos. dentro de nós.Se Nietzsche é o pensador que mais radicaliza contra a verdade. 972. Tentava suportar uma dolorosa doença que o torturava por mais de cinquenta dias. Conforme demonstra Leopardi no Cântico do Galo Silvestre. o Gênio pergunta: “O que é a verdade?”. / À nossa raça miserando o fado / Um Dom único fez: o dom da morte. é morta / Minha extrema ilusão. e não tem fim. / E a lei oculta e bárbara que rege / A miséria comum” (Versos. Aniversário. dos Opúsculos Morais:9 Cada parte do universo apressa-se infatigavelmente para a morte com solicitude e celeridade admiráveis. extinta. Nada vale / O teu afã. igualmente o uni5 verso no princípio de cada ano renasce e nem por isso deixa de continuamente envelhecer. mostra que o pensador supra-histórico “ilumina a história dos povos e dos indivíduos de dentro para fora (.. publicado com outros escritos satíricos nos Opúsculos Morais. p.) pois como. como Giacomo Leopardi. uma idéia refutada: suprimamo-la”. 418. como Maquiavelismo e Sociedade. Esse conjunto de textos é publicado em junho de 1827 pelo editor Stella. 354. ó meu cansado / E triste coração. é muito mais bonito e doce do que ela. dos Opúsculos Morais. que fora acrescido de novas correções. 1998. A tradução de Júlia Cortines é a seguinte: “Vais repousar p’ra sempre. Entre junho e outubro.

ou. conforme observaram os metafísicos modernos. LEOPARDI. “traduzir a prosa do grande irmão romântico de Artur Schopenhauer.22 Segue-se a essa crítica a desconstrução da felicidade associada à história. 1996e. 59. contudo. do que a expressão de alguma idéia nossa relativa ao modo de ser das coisas. Inicialmente. p. a partir da idéia do risco. o progresso. 1986. 594. p. Ibid. É no Zibaldoni. arriscavam com maior desprendimento. e almejá-la acima de qualquer coisa com tanto ardor e tanta sinceridade como creio firmemente que ela é apenas para pouquíssimos homens no mundo”. 452. então. não bai13 14 15 16 17 18 19 xo a cabeça ao destino nem faço acordos com ele.. e a Terra não merece um só suspiro. 1996.19 E finalmente Tristão parece despertar quando afirma: “Digo-lhe francamente que não me submeto à minha infelicidade.25 ao analisar a história no texto Nietzsche.. temos a crítica da eternidade: “A hipótese da eternidade da matéria não seria objeção e esses pensamentos. A idéia de progresso associa-se à idéia de felicidade.24 no Aurora. FOUCAULT..18 E ainda pergunta o Amigo: “Como conseqüência. representasse a mesma em menor tamanho. o tempo. p. Conhecia-o em tradução e sentia-lhe o peso da existência”. Ibid. A eternidade. ouso desejar a morte. p. 98 impulso nº 28 . entre outras coisas. Nietzsche. a história do gênero humano assemelham-se à do indivíduo como uma figura que. mostra que o acaso é desprovido de sentido. Essa idéia encontra na possibilidade do acaso a contraposição ao reino dos fins e da vontade. p. p. quando perdendo a vida perdiam algo. 20 21 22 23 24 25 LEOPARDI apud NIETZSCHE. p. Ibid. nada mais do que o espaço. mas. 593. / Aquieta-te”. Ibid. contudo. mas naquilo que é ou parece ser mais verdadeiro aos seus propósitos”. Dizia-lhe precisar de um pensador que lhe fosse próximo e afim”. Ibid. então. A busca da felicidade passa. apesar da admiração pelo poeta italiano. ampliada. É. LUCCHESI. coisas que foram tão discutidas pelos antigos. 1996. Ibid. 89.. p.23 É esse ponto-chave da crítica da história que. 28. O trecho do poema citado por Nietzsche é o seguinte: “Nada vive que fosse digno / De tuas emoções.13 Nietzsche fora convidado. DE FATO.20 Nesse caso. a espécie humana vai melhorando a cada dia?”. na perfectibilidade indefinida do homem?”. como pareciam considerar os antigos”. 450. E Foucault. A ESPÉCIE HUMANA VAI MELHORANDO A CADA DIA? O gênero humano. a integrar essa ânsia de sentido na história.. a Genealogia e a História. o desenvolvimento. 1996a. de fato. 20. O PROGRESSO E A FELICIDADE: CRÊS QUE. Em muitas outras coisas. aproxima Leopardi e Nietzsche. Idem. por meio de uma carta de 1874 do escritor e pianista Hans von Bülow. 1983c.14 Segundo Lucchesi. acreditas que este século seja superior a todos os passados?”. como todos os outros homens. BÜLOW apud LUCCHESI. O Amigo indaga: “Crês que.16 “acredita sempre não na verdade.17 E Tristão responde: “Sem dúvida”. em relação à crítica da história que encontraremos essa aproximação de forma mais contundente. que passa a ser denunciada pelo poeta Leopardi. p. por não dominar de todo a língua italiana. Nietzsche “declina do convite. que Leopardi21 apresenta mais substancialmente a crítica da história e da felicidade. p. 453. Idem.com 35 anos. Quando os homens desfrutavam alguma felicidade ou uma infelicidade menor que a presente. a seguinte. sofrendo de uma enfermidade que já o torturava por cinquenta dias. É nesse diálogo que o Amigo pergunta. segundo Leopardi afirma no Diálogo de Tristão e um Amigo. 1983f. a traduzir a obra de Leopardi. nas palavras de Bülow. / Dor e tédio é nosso ser e o mundo é lodo – nada mais. quatro antes de morrer. 451. a história deverá ser pensada como alternância de dor e felicidade. de forma irônica: “Crês. 19. p. não são. 455. e não coisas ou seres.15 A aproximação entre Nietzsche e Leopardi é imensa.

por mais justos e nobres que os conceitos se apresentem. os significados múltiplos e. porém. De modo que o mundo. GENEALOGIA OU TELEOLOGIA? Buscando os dissabores do tempo é que se encontra. Idem. p. o valor primeiro e último. p. entretanto. Todavia. Idem. a crítica ao sentido da história justifica-se contra todo e qualquer desdobramento do “espírito absoluto” e Nietzsche. Deus este que. a seguir caminhos já traçados pelo desenvolvimento de um a priori pleonasmicamente teleológico. p. Galopa nos sinais já quase apagados pelo tempo. pouco a pouco. Nesse caso. 68.. Rescreve os códigos de honra. pelos bons espíritos que possam reinar nesses historiadores da moral! Mas o que é certo. o risco de um acaso ainda maior. por mais sagrados e onipotentes que pareçam. Conforme relata Nietzsche no Humano. Encanta-se com os segredos. impulso nº 28 99 .) A incompetência de sua genealogia da moral 28 29 30 31 NIETZSCHE. mostranos que é preciso Compreender este acaso não como um simples sorteio.28 “tudo veio a ser. Ajunta os pedaços do tempo. transparente e inteligível para si mesmo e já galgou os degraus dialéticos do seu vir-a-ser até chegar a essa auto-revelação”. p. Ibid. do à história com a rigidez de uma mão de ferro. conforme Nietzsche26 demonstra na Genealogia da Moral.. essa crítica encontra a complementação no método filológico. 69. Todas as utilidades.. vielas e descaminhos de uma rota não traçada e de um sentido sem sentido. Ibid.30 É que.publicado no Brasil na Microfísica do Poder.29 nas Considerações Extemporâneas II – Da utilidade e desvantagem da história para a vida.27 A história passa. A genealogia aparece como necessidade de reparação de um dano que fora causa26 27 A genealogia segue o múltiplo e o diverso. a partir de si. o sentido final. tal qual nós o conhecemos. assim como não há verdades absolutas”. por seu lado.31 “está mais do que no tempo de avançar contra os descaminhos do sentido da história. não há fatos eternos. reabilita o antiherói. 68. 1983c. O instituído axiológico vivido na história emana de acasos. no interior da caixa craniana de Hegel. chega a ironizar com o divino hegeliano. nas entranhas das tempestades. demasiado Humano. Faz-se então necessário desconstruir o dito. só é feito pela história. mas como o risco sempre renovado da vontade de potência que a todo surgimento do acaso opõe. Esse Deus. imprimiu-lhe o sentido de uma função”. então. ao contrário. é que o próprio espírito histórico lhes falta. é reinventado. “são apenas sinais de que uma vontade de potência se tornou senhora de algo menos poderoso e. revisitar os lugares e os signos da história. o seu sentido foi imprimido em postulados rígidos fixados nas gôndolas que transportam conceitos eternos. é. pois o tempo não é dado. ao mesmo tempo. contra o desmedido gosto pelo processo”. quando afirma que “essa história entendida hegelianamente foi chamada com escárnio e perambulação de Deus sobre a terra. Apraz-se no desdém do nada. 308.. É na Primeira Dissertação que Nietzsche mostra esse procedimento: “Todo respeito. considerado um método crítico que procura fazer falar o que permanece mudo. as características essenciais. p. as diversas utilidades de uma determinada coisa. 1983a. Caminha passo a passo nas pegadas meticulosas e nas vielas mais estreitas. para controlá-lo. (. tornou-se. É na Genealogia da Moral que esse procedimento se torna transparente. 92. infelizmente. não é essa figura simples onde todos os acontecimentos se apagaram para que se mostrem. gênero ou ideal de verdade. É então que a história inteira de uma determinada coisa ou de um órgão pode ser simplesmente uma “continuada série de signos de sempre novas interpretações e ajustamentos”. Devolve os lamentos e os prantos funestos de ritos e símbolos. para Nietzsche. 1983b. pois. Ibid. uma miríade de acontecimento.

humilhar-se”.34 “o grande jogo da história será de quem se apoderar das regras. Os escravos construíram uma moral fundada na piedade e na compaixão – o que Nietzsche denominou moral do ressentimento –. “Como se imprime algo a esse em parte embotado. NIETZSCHE. 1996f. isto é. poderíamos encontrar a resistência nos escravos.37 na realidade. A resposta nietzschiana tem sua origem “naquele instinto que adivinha na dor o mais poderoso meio auxiliar da mnemônica”. seu refrigério. em que o bom é o que produz a compaixão e a piedade dos outros. p. de não esquecer. então. utilizá-las ao inverso e voltá-las contra aqueles que as tinham imposto”. pudessem ser louvadas como boas de acordo com a utilidade de seus criadores. FOUCAULT. que sentiram e puseram a si mesmos e a seu próprio fazer como bons. devendo ser revisados. p.35 O homem do ressentimento vive a sua desgraça justificada no mundo exterior. 299. comum e plebeu.33 “O homem do ressentimento não é nem fraco nem ingênuo. mais altamente situados e de altos sentimentos. de modo que permaneça presente?”. 1983a. As duas perguntas de Nietzsche. já apresentam uma inseparabilidade entre lembrança e esquecimento. louvadas e/ou denominadas boas. em parte estouvado entendimento de instante.32 Diriam os historiadores da moral que o conceito bom tem na origem as ações não egoístas. Necessita de estímulos externos para sobreviver. LEOPARDI.vem à luz logo no início. ou que. não podem e não devem ser tematizados como eternos. Ibid. 32 33 34 MEMÓRIA E HISTÓRIA EM LEOPARDI E NIETZSCHE: SONHO.. O juízo “bom” não provém daquele a quem foi demonstrada a bondade! Foram antes “os bons” eles próprios. que não conseguem se opor à produção de conceitos gerada pelos nobres. de esperar.. quando se trata de averiguar a proveniência do conceito e juízo ‘bom’”. responde com meio século de antecedência à questão proposta por Nietzsche: “Por que nos são os tempos tão cruéis? / Por que o nascer nos deste ou. sua segurança. Segundo Nietzsche. 290. Nietzsche desconstrói essa idéia mostrando que os “genealogistas” procuraram o foco no lugar errado. Nietzsche discorda dessa idéia. de quem se disfarçar para pervertê-las. p. por oposição a tudo o que é inferior. p. Ibid. LEMBRANÇA. 100 impulso nº 28 . Como assinala Foucault. Ao contrário. de sentimento inferiores. nem mesmo honesto e direto consigo mesmo. ele lança: “Como se faz no animal-homem uma memória?” ou. que se preparava em Florença. a essa viva aptidão de esquecimento. Sua alma se enviesa. de provisoriamente apequenar-se. seu espírito gosta de escaninhos. 304. segue-se a idéia de que esses mesmos conceitos não são. os nobres. são suscetíveis de reinvenções. ele entende de calar. ESQUECIMENTO E DOR A utilização da memória como possibilidade de recomposição do passado ligado à consciência de temporalidade insurge-se no pensamento de Nietzsche36 como desconstrução de um possível sentimento de prazer imanente à história. de primeira ordem. 186. mais 35 36 37 38 Idem. poderosos. Na Segunda Dissertação da Genealogia da Moral. vias dissimuladas e portas dos fundos. 302. Diante da possibilidade de construir o seu caminho. ou seja. 1986. A produção de conceitos deve ser entendida em meio ao grande emaranhado da história gestada em jogos de força. de quem tomar o lugar daqueles que as utilizam. 1983a.38 em um poema Sobre o Monumento a Dante. simplesmente. Sua ação é sempre através de reação. 1983a. tudo o que é escondido lhe apraz como seu mundo. ele procura reagir a partir do culpado ou de um possível culpado pela sua dor em vez de voltar-se para si próprio e construir o seu caminho. É seguindo esse jogo de forças que poderíamos pensar: se os nobres geram os conceitos. p. Essa idéia acaba reproduzindo um desenvolvimento ou meta na história. p. 25. Ao demonstrar que a produção de conceitos é um ato de disputa. Busca um culpado pelas adversidades de sua vida. NIETZSCHE. Giacomo Leopardi.

e isto. quando não experimenta a dor. Em um fragmento de 7 de outubro de 1823 do Zibaldone. No Zibaldone. O risco da vida reintegra-se no risco que acabo de correr quando me propus estudar os elementos nietzschianos e leopardianos da história e da memória. Leopardi mostra a relação da dor com o tédio e. porém com dor assoma”.48 CONCLUSÃO O elo entre esses dois pensadores é inegavelmente muito forte. quinze anos antes do nascimento de Nietzsche. que em nada se relaciona à dos homens do tempo de Adão. mas também escuro”. Idem. 58. essa nossa atual?”. p. Em Leopardi. inevitavelmente e irremediavelmente. fazer com que o dever.43 É desse ponto que poderemos pensar a importância do esquecimento em Nietzsche e Leopardi. O esquecimento. 669. É necessário mergulhar também de forma apaixonada nas vielas e entrelinhas desses gênios da humanidade. 597. Isso não implica que a paixão deva ser suprimida. segundo Leopardi.... um desprazer qualquer”. Idem. impulso nº 28 101 .. e mesmo viver feliz. 1983c.42 E responde: “(. aborreceríamos a morte”. Pelo estilo de Leopardi. NIETZSCHE. em um texto de 1873. Certamente a paixão que os une ultrapassa a temporalidade. menino. 680. é somente pelo esquecimento que o homem algum dia pode supor uma verdade. e o homem busca formas de escapar à dor e ao tédio através do sono. Ibid. integra-se no limiar do desprazer onde se seleciona e/ou se evita os eventos e acontecimentos capazes de promover a dor ou alegria/felicidade. 1996c. Para Nietzsche. em um fragmento de 28 de novembro de 1821. simplesmente viver”. mas converter a razão em paixão. / Um mínimo conforto / À dor malvada que a dilacerava / Jamais lhe permitiste desfrutar”. Para Nietzsche.49 “(. p. / Destino amargo? Vendo de infiéis / E estranhos nossa pátria serva e escrava / E uma lima mordaz / Roendo a sua força. O sono é apresentado por Giacomo Leopardi41 no Zibaldone. fazendo parte da vida. esquecimento ou do silêncio. / Não nos deste o morrer. nas minhas noites / Quando. fragmento de 22 de outubro de 1820. e não desejaríamos. o homem deve encontrar canais que possam abreviar o sofrimento e a infelicidade. sem esquecimento. não seríamos infelizes. Idem.45 esquecer é imprescindível. Leopardi39 verseja: “Recordo-me.47 a dor é algo presente na vida. Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra-moral. antes. p. exige o suicídio. como uma imagem do fim da vida. se a memória é fixada pela dor. eu vigiava o escuro / De terrores assíduos. 1996e. ou melhor. LEOPARDI.. Se nossa natureza fosse ainda a primeira natureza humana. “sempre que o homem não experimenta prazer algum. Ibid. este som. mas é inteiramente impossível. permite. Pois não há coisa alguma / Que um veja ou sinta sem que dela surja / Uma imagem ou doce remembrança.) o homem desprovido de paixões não se moveria por 45 46 47 48 49 Idem.46 “todo agir requer esquecimento: assim como a vida de tudo o que é orgânico requer não somente luz. pois. Assim o eram entre os antigos e as coisas corriam muito melhor. 1996e. uma saída. antes. p. Na poesia intitulada As Lembranças. 1996g. composta em agosto e setembro de 1829. se tornem paixões. Ibid. suicídio. experimenta o tédio. Assim o são por natureza. p. p. 1983d. como mostra o animal. seria contra a natureza? Leopardi responde com uma pergunta: “Que natureza. Essa é uma discussão inicial. E o suicídio. Ou ainda em outra poesia.atrás. principalmente. Ibid. pelo modo intempestivo com que a filosofia de Nietzsche se apresenta no mundo atual. “É possível viver quase sem lembrança. Ibid. / Doce por si. Para Nietzsche. 248.40 Ora. a virtude.) nossa verdadeira natureza. Mas quando a única paixão do mundo é o egoísmo.44 o sono é a possibilidade de desvio da verdade sem que 39 40 41 42 43 44 o sentimento moral possa impedir.. 681. então é racional que se insurja contra a paixão. Contudo. Nesse caso. porém apaixonada. a impossibilidade de o homem experimentar o verdadeiro prazer. encontramos a seguinte asserção: Não é necessário suprimir a paixão por meio da razão. suspirando / pela manhã. o heroísmo etc.

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Não consta que tenham se encontrado. O Ego e o Id. Contemporaries of the emergence of philological studies. aspects that allow us to demonstrate a certain field of common problems. Keywords FILOGENETIC – ONTOGENETIC – BLAME FEELING – MORAL CONSCIENCE. we mark the genesis of the moral conscience and of the guilt feelings in Freud and we establish a dialogue with the 16th aphorism of the Second Dissertation of Nietzsche’s Genealogy of the Moral.FREUD E NIETZSCHE: ontogênese e filogênese FREUD AND NIETZSCHE: ontogenetics and phylogenetics Resumo Estabelecer conexões entre os nomes de Freud e Nietzsche é apontar. beyond influences and intellectual debts. In this way. História e Letras da UNIMEP e doutorando em Filosofia pela Unicamp m. Professor da Faculdade de Filosofia. however. MÁRCIO APARECIDO MARIGUELA Analista praticante. impulso nº 28 103 .mariguela@terra. Contemporâneos da emergência dos estudos filológicos.br Abstract To establish connections between the names of Freud and Nietzsche is to point out. Freud made reference to Nietzsche's ideas in two moments of his work: in the paragraph added in 1919 to the end of item B of chapter VII of The Interpretation of Dreams. ambos determinaram os desdobramentos das técnicas de interpretação no século XX. both men determined the development of the interpretative techniques in the twentieth century.com. mas Freud fez referência às idéias de Nietzsche em dois momentos de sua obra: no parágrafo acrescentado em 1919 no final do item B do capítulo VII da Interpretação dos Sonhos e numa nota de rodapé no escrito de 1923. Deste modo. O objetivo deste artigo é apresentar o complexo de Édipo como o paradigma de leitura da analogia estabelecida por Freud entre a filogênese e as vicissitudes da pulsão no plano ontogenético. para além de influências e débitos intelectuais. membro da Escola de Psicanálise de Campinas. Nothing tells us that they met each other. The objective of this article is to present the Oedipal Complex as the paradigm for reading the analogy established by Freud between the phylogenetic and the vicissitudes of the instincts in the ontogenetic plane. aspectos que permitam demonstrar um certo campo de problemas comuns. Palavras-chave FILOGÊNESE – ONTOGÊNESE – SENTIMENTO DE CULPA – CONSCIÊNCIA MORAL. and in a footnote to The Ego and the Id in 1923. demarcamos a gênese da consciência moral e do sentimento de culpa em Freud e estabelecemos uma interlocução com o aforismo 16 da Segunda Dissertação da Genealogia da Moral de Nietzsche.

17. situam-nos de novo ante técnicas interpretativas. a seu modo. Para além de apontar influências. já que estas técnicas de interpretação nos dizem respeito. deve-se provavelmente ao fato de terem significado para nós o que o mesmo Marx qualificou de “hieroglíficos”. na conferência de 1964. o contato com sua escrita. textos como o Nascimento da Tragédia e A Genealogia da Moral. o gênero de ferida que estas obras produziram no pensamento ocidental. Michel Foucault. O que nos coloca numa posição incômoda. Freud e Marx para analisar as rupturas que cada um. 104 impulso nº 28 . Ao longo do século XX. ASSOUN. E o efeito do seu impacto. teremos que nos interpretar a partir destas técnicas. alinhou Nietzsche. Não consta que eles tenham se encontrado. p. por exemplo. à ontogênese. por muito tempo. o domínio sobre os afetos. cujo tema foi “Lacan no Simbólico”. relacionar os nomes Freud e Nietzsche implica constatar. como intérpretes. a Traumdeutung. que ambos partilham de um cenário histórico comum.2 ´ E O objetivo desse artigo3 é apresentar o complexo de Édipo como o paradigma de leitura da analogia estabelecida por Freud entre o processo civi1 Paul-Laurent Assoun comenta a estranha contemporaneidade entre Freud e Nietzsche citando a ata da Sessão de 1. 2 FOUCAULT. 1987. de Sigmund Freud. 15. O Ego e o Id. todos esses privilégios e adereços do homem: como foi alto o seu preço! Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as “coisas boas”. quando Freud afirmou que não conhecia a obra de Nietzsche. Cita também duas outras ocasiões em que Freud disse ter recusado o grande prazer proporcionado pela leitura de Nietzsche e ter evitado. realizou na hermenêutica moderna: No primeiro volume do Capital. Contemporâneos da emergência dos estudos filológicos. primeiramente. 3 A primeira versão do artigo foi apresentada nas Jornadas Internas de 1996 da Escola de Psicanálise de Campinas. toda essa coisa sombria que se chama reflexão. No entanto. Certamente Freud leu Nietzsche e apropriou-se de dois argumentos fundamentais: o primeiro diz respeito à filogênese e o segundo. a seriedade. e numa nota de rodapé no escrito de 1923. que não ia além de meia página nas tentativas de lê-lo. Freud1 faz referência às idéias de Nietzsche em dois momentos de sua obra: no parágrafo acrescentado em 1919 no final do item B (Regressão) do capítulo VII (A psicologia dos processos oníricos) da Die Traumdeutung. a razão. e o centenário da morte de Friedrich Nietzsche. débitos intelectuais ou coisas do gênero.º de abril de 1908 da Sociedade Psicanalítica de Viena. e que nós.Ah. diferentes autores tematizaram a relação Freud-Nietzsche. FRIEDRICH NIETZSCHE tempo de rememorar: o centenário de nascimento da Interpretação dos Sonhos. p. ambos determinaram os desdobramentos das técnicas de interpretação no século XX. 1989. que nunca conseguiu estudá-lo.

1970. com a intenção de iniciar sua amada no campo desse saber. Ernest Jones5 relata uma confidência feita por Freud no início de 1910. p. e a extensão deste no capítulo VII de O Mal-estar na Civilização. Por uma analogia entre o itinerário da libido e do processo civilizatório. FREUD. escreveu: “a filosofia. A Universidade de Viena de então era o centro de excelência da investigação científica. Os jovens universitários. O complexo de Édipo é o núcleo constitucional da subjetividade. nela. Outro aspecto ilustrativo da especulação filosófica do jovem Freud pode ser identificado na correspondência com sua noiva Martha. Freud apropria-se de diferentes teorias que dominavam o cenário filosófico de seu tempo. lugar da especulação filosófica sobre a filogênese. 1989. realizando uma extensão da psicologia individual à psicologia das massas. levando mais tempo para concluir seu curso regular. 17. Freud adentrou na “especulação filosófica” sobre a origem da espécie do animal humano. de 1930. porém. Idem. Numa carta de 16/08/1882. p. p. iremos marcar a gênese da consciência moral e do sentimento de culpa em Freud e estabeleceremos uma interlocução com o aforismo 16 da Segunda Dissertação da Genealogia da Moral de Nietzsche. No fundo. instituída em 1804. Freud freqüentou as aulas como atividade extracurricular. as aulas de iniciação à reflexão filosófica e à história da filosofia foram excluídas do currículo da Faculdade. a construção do núcleo edípico. Tendo estruturado seu aparato teórico. Foi neste núcleo que Freud estabeleceu o elo para sua analogia entre o desenvolvimento da libido individual e o desenvolvimento civilizatório. GAY 1989. afirmou que suas argumentações “representam uma primeira tentativa de aplicar o ponto de vista e as descobertas da psicanálise a alguns problemas não solucionados da psicologia social”. seguiu os seminários de filosofia ministrados por Franz Brentano. lugar de teorizações sobre a ontogênese. 305. em 1873. Por volta de 1912. A predisposição filogenética faz-se notar por trás do processo ontogenético. o indivíduo repete em seus sintomas o processo civilizatório.lizatório da filogênese e as vicissitudes da pulsão no plano ontogenético. Mesmo sem a obrigatoriedade. Partiremos de algumas referências biográficas da relação de Freud com a especulação filosófica no período de escrituração do livro Totem e Tabu. a predisposição é justamente o precipitado de uma vivência prévia da espécie. de 1913.8 Quais eram as descobertas da psicanálise no período de escrita do Totem e Tabu? Sem dúvida. p. trata-se da sexualidade infantil e. 1990. No mesmo ano. cada vez mais me fascina todos os dias”. chega-se ao núcleo central da constituição psíquica: o complexo de Édipo. quando Freud ingressou no curso de medicina da Universidade de Viena.4 Nesse mesmo período redigiu um “ABC filosófico”. Com desenvoltura. . 124. Os alunos não eram mais obrigados a cursar esta disciplina. no prefácio à terceira edição dos Três Ensaios sobre a T eoria da Sexualidade escreveu o seguinte: “A ontogênese pode ser vista como uma repetição da filogênese na medida em que esta não seja modificada por uma vivência mais recente. formados dentro do mais rigoroso estilo positivista de ciência – e Freud era um deles –. p. Através da analogia entre a constituição da neurose (ontogênese) e o processo civilizatório (filogênese).7 Para Freud. 1978. CONTEXTO TEMÁTICO Assoun informa que. cita autores da antropologia. impulso nº 28 105 . Deste modo. encontravam nas aulas de filosofia espaço para aventuras no terreno filosófico. 12. Em 1914. à qual se vem agregar a experiência mais nova do indivíduo como soma dos fatores acidentais”. e havia pouco espaço para a especulação filosófica. JONES. para a civilização. que sempre imaginei como objetivo e refúgio para minha velhice. da 6 7 8 ASSOUN. 61. realizou uma passagem que foi designada pelos críticos6 como o vôo de Ícaro: da escuta clínica. 4 5 O campo do discurso filosófico é freqüentado por Freud de maneira decisiva para a constituição da psicanálise. período de maior repercussão dos Três Ensaios sobre a T eoria da Sexualidade: seu maior desejo era afastar-se da prática científica e dedicar-se aos problemas filosóficos. No prefácio da primeira edição de Totem e Tabu.

38.. e Freud propõe-se a analisar a hipótese de que é mais antigo que os próprios deuses e remonta a um período anterior à existência de qualquer espécie de religião. que.) As proibições dos tabus não tem fundamento e são de origem desconhecida. misterioso. que estabelece a identidade do totem. o que a própria natureza proíbe e pune. se violado. a organização totêmica e a proibição do incesto”. A culpa é o preço que deve ser pago por aquele que não respeitar o interdito.) é o antepassado comum do clã (. A exogamia é a manifestação do caráter totêmico desta lei (interditando as fêmeas a outros machos jovens na horda primordial)...”11 A proteção que o totem promete ao clã exige obrigações sagradas. acarreta em impureza: “As restrições do tabu são distintas das proibições religiosas ou morais. é a interdição cujo fundamento encontra-se na crença de que haverá uma punição para qualquer um que violar o interdito.) é o seu espírito guardião e auxiliar. a exogamia. Freud explicita quem são seus interlocuto10 11 12 Ibid.) A lei apenas proíbe os homens de fazer aquilo a que seus instintos os inclinam. da filologia. para o tabu sobre o incesto. aquilo que estabelece a interdição.. não só para o indivíduo particular mas para todo o clã. O importante a des9 tacar aqui é o caráter convencional do tabu. Embora sejam ininteligíveis para nós. assim.. Freud procurou... p. Um deles é o discurso nietzschiano.10 A gênese do tabu é relacionada com o sistema totêmico. da física. são aceitas como coisa natural”. p. seria supérfluo para a lei proibir e punir”. O campo da investigação fica assim definido: “Os problemas decisivos relacionam-se com a origem da idéia da descendência do totem e com as razões para a exogamia (ou melhor. Os argumentos que a sustentam podem ser identificados em dois grupos: a origem da horda primitiva de Charles Darwin e a cerimônia da refeição totêmica na religião dos semitas de Willian Smith.12 Ao introduzir os elementos da teoria psicanalítica na abordagem do totemismo e dos tabus que o sustentam. da literatura poética.. um vegetal ou um fenômeno natural. O totem é o que dá identidade ao clã. portanto. A civilização alicerça-se em dois tabus concomitantes: não matar o pai e não manter relações de acasalamento com as mulheres pertencentes a ele. Citando Frazer no conjunto de suas argumentações. e seu fundamento está na proibição das relações sexuais entre as pessoas do mesmo totem. o tabu é uma proibição convencional imposta por tradição e tem um caráter de sagrado. O totem é o representante do tabu. 106 impulso nº 28 . introduzir o discurso psicanalítico no interior da polifonia dos discursos existentes que abordavam o tema da origem da espécie humana. principalmente. sofrimentos. afirmou que tabu é um termo polinésio que possui um campo de significação: sagrado. Valendo-se da filologia. Freud considerou que “não é fácil perceber porque qualquer instinto humano profundo deva necessitar ser reforçado pela lei. “O que é um totem? Via de regra é um animal e. são apontados como os pilares de sustentação da civilização. que. Ibid.etnologia. perigoso. Assim. Ibid. Ibid. A GÊNESE DA CIVILIZAÇÃO: O MITO PRIMORDIAL DO PAI MORTO Freud escreve Totem e Tabu para responder à seguinte pergunta: Como descrever a gênese do processo civilizatório? O tabu do incesto e sua conseqüência prática. por sua vez. proibido. 133. e qualquer violação representa impureza. 21. (. p. de que a exogamia é expressão) e a relação entre estas duas instituições. É por isso que Freud insiste em abandonar as teorias que explicam o horror ao incesto como algo natural. invulnerável.. que lhe envia oráculos. que mantém relação peculiar com todo clã (. mais raramente. para aqueles que por elas são dominados... (.9 O tabu é o código de leis não escrito mais antigo do animal homem. mas pode-se dizer que se impõem por sua própria conta. Generalizando. fundamenta-se numa crença no estado de impureza para aquele que o violar. infortúnios. Não se baseiam em nenhuma ordem divina. O tabu é. podemos inferir que o tabu é o que interdita. p. Freud formulou a hipótese de que o totem é o representante do pai primordial. 150. da biologia e..

de Dostoievski. essas duas leis estabeleceram as bases para a organização social. (.. os laços sociais estão solidificados no ato de comer juntos o animal totêmico. assim.res em sua trajetória: a biologia evolucionista de Darwin e a arqueologia de Smith. seria assim uma repetição e uma comemoração deste ato memorável e criminoso que foi o começo de tantas coisas: da organização social. 170. 161-163. de William Shakespeare. foi em princípio um festim de parentes. a união dos irmãos sustenta. 172.. de Sófocles. adquirem a força: reforçam sua identificação com ele e uns com os outros. Portanto. ambas não estão psicologicamente no mesmo nível: “O primeiro deles. enquanto a moralidade fundamentava-se parte nas exigências dessa sociedade e parte na penitência exigida pelo sentimento de culpa”. “A refeição totêmica. Assim.14 O tema do parricídio com o qual Freud trabalha para interpretar a origem do sentimento de culpa deve ser remetido às fontes literárias constantes em suas pesquisas filogenéticas. fundamenta-se inteiramente em motivos emocionais: o pai fora realmente eliminado e. os integrantes do clã. a lei que protege o animal totêmico.) Em todos os lugares. 175. a proibição do incesto. e Os Irmãos Karamazov. onde um macho forte e ciumento interdita suas fêmeas do contato com outro macho. A segunda hipótese que sustenta a argumentação de Freud é a refeição totêmica extraída da obra A Religião dos Semitas. o ato podia ser desfeito. As duas leis primordiais do totemismo – não matar o pai e não manter relações incestuosas com as mulheres pertencentes a ele – são apontadas como correspondentes aos dois desejos reprimidos no complexo de Édipo.. Mas a segunda norma. Ibid. p. de Willian Smith. consumindo o totem. então. Ibid. p. Freud considera que a experiência clí14 15 16 Ibid. foi o sacrifício de animais. 13 Eis o momento para Freud apresentar o que considerou sua hipótese fantástica: cruzar a interpretação psicanalítica do totem (substituto do pai) com a refeição totêmica e a horda primitiva. p. tem também uma poderosa base prática: os desejos sexuais não unem os homens. o laço social consangüíneo: “A sociedade estava agora baseada na cumplicidade do crime comum. de 187.13 O animal totêmico é sacrificado num festim de parentes. mas os dividem”. Hamlet. Ernest Jones nos informa que Freud alinhou-se ao tema através das seguintes obras: Édipo Rei.. a religião baseava-se no sentimento de culpa e no remorso a ele ligado. Mas se uma das regras básicas do totemismo é a proibição de matar o animal totem. pp.) Um sacrifício dessa espécie era uma cerimônia pública.. O animal sacrificado era considerado membro do clã e sua morte só pode ser efetivada porque o clã assume o sacrifício como festa.16 A conclusão de Totem e Tabu apresenta o eixo temático da analogia entre o processo filogenético e ontogenético.. que é talvez o mais antigo festival da humanidade. A horda primordial é o modelo das relações endogâmicas. em nenhum sentido real.1 nos seguintes termos: a primeira regra prática do macho ciumento é a exclusão de outros machos jovens da horda. Ibid. O estado social dos primitivos é definido por Darwin em sua obra A Descendência do Homem.. expulsando-os de seu domínio territorial. de acordo com a lei de que apenas parentes comem juntos. um festival celebrado por todo o clã..) A refeição sacrificatória. porque o totem é o símbolo do poder. Comer a carne do animal sacrificado é adquirir sua força. cuja carne e sangue eram desfrutados em comum pelo deus e por seus adoradores. (.. das restrições morais e da religião”. Para Freud. impulso nº 28 107 . e permitida só quando todo o clã partilha da responsabilidade do ato. o sacrifício envolvia um festim e um festim não podia ser celebrado sem um sacrifício. reconhece que A forma mais antiga de sacrifício. mais do que o uso do fogo ou do conhecimento da agricultura.15 O mito do parricídio primordial permite sustentar a substituição da horda patriarcal pela horda fraterna. publicada em 1889.. Nela. como ele se torna o alimento da refeição sacrificial? A resposta deve ser buscada na prática do sacrifício: a morte do animal totêmico é proibida na esfera do particular. (.

146. de 1923. Ibid. um pouco mais adiante. ao mesmo tempo em que faz isso. Por meio disso. em 1920. que surge do medo do superego. enquanto que. Lacan interrogou os dois momentos da obra de Freud em que a falta é teorizada: “Será a falta que a obra freudiana designa em seu início.20 O capítulo VII da obra O Mal-estar na Civilização refere-se com precisão à elaboração teórica decorrente da introdução da pulsão de morte. FREUD. 706. o assassinato do pai.nica da psicanálise revela que.18 Ao iniciar seu diagnóstico do mal-estar na civilização. “à qual nossa resposta confere uma significação exata – uma resposta da qual devemos conservar a mais severa disciplina para não deixar adulterar o sentido. a segunda. 237. porque a per18 19 20 21 LACAN. e que é procurada para obter essa punição. exige punição. 10. Freud escreveu para Lou Andreas-Salomé. dado que o homem 17 está ancorado. e deu a entender que o preço do progresso no seio da civilização é pago pela privação da felicidade através da intensificação do sentimento de culpa”. em suma profundamente inconsciente.. 1975. expressa-se como uma necessidade de punição”. esse mito colocado por Freud na origem do desenvolvimento da cultura? Ou será a falta mais obscura e ainda mais original cujo termo ele chega a colocar no final de sua obra. em direção a não sei que falta mais obscura que clama essa punição”. Ou seja. (. p.. e me parece. no neurótico.. Freud chegou nesse “pouco mais adiante” ao qual referiu Lacan. assim. da felicidade e de tópicos elevados semelhantes. aquilo que foi ato para o primitivo é pensamento para o neurótico. FREUD COM NIETZSCHE: SENTIMENTO DE CULPA E MÁ CONSCIÊNCIA Na apresentação do Seminário 7 – A ética da psicanálise. A primeira insiste numa renúncia às satisfações pulsionais. p. em julho de 1929. é o ato que constitui um substituto do pensamento. no que tem de mais profundo em si mesmo. p. p. que sempre brotaram de alguma necessidade interior. em sua temível dialética?”. somos transpostos. e da formulação da segunda tópica.19 E quais são as “verdades banais” que Freud descobriu novamente? A resposta podemos encontrar no que Ernest Jones chamou de foco central do livro: “Freud pretendeu representar o sentimento de culpa como o mais importante problema na evolução da cultura. o pensamento constitui um substituto completo do ato.17 De que falta se trata? “Seguramente. Quando falamos de necessidade de punição. dizendo que havia terminado um trabalho onde “trata da civilização. do sentimento de culpa. e outra. com a publicação do Para Além do Princípio do Prazer. FREUD-SALOMÉ. muito supérfluo.) Escrevendo este livro descobri de novo as verdades banais”. O sentimento de culpa expressa-se pela necessidade de punição. no homem primitivo. O sentimento de culpa dos neuróticos remete-se. o neurótico representa a cena mítica primordial da gênese da civilização: a ontogênese recapitula e repete a filogênese. em contraste com trabalhos anteriores. JONES. não é a mesma que o doente comete com o fim de ser punido ou de se punir. 11. O caso clínico “O homem dos lobos” é um exemplo lapidar desse “mais adiante”. trata-se justamente de uma falta que designamos. tal como estabelecida em O Ego e o Id. posterior.21 Os sintomas neuróticos revelam esta necessidade de punição. 1991. 1970. p. Freud define o sentimento de culpa como a tensão entre o severo superego e o ego a ele submetido. aos dois tabus que alicerçam a civilização: não matar o pai e não manter relações incestuosas com as mulheres que a ele pertencem. A gênese do sentimento de culpa é estabelecida por Freud em duas fontes: “Uma que surge do medo de uma autoridade. Dessa forma. dessa demanda”. Considerou que a “atração da falta” é a demanda do doente. sem dúvida com razão. da qual os sintomas neuróticos são a manifestação: “A tensão entre o severo superego e o ego que a ele se acha sujeito é por nós chamada de sentimento de culpa. 108 impulso nº 28 . 1974. o instinto de morte. que se encontra no caminho dessa necessidade. Jacques Lacan captura o problema ao afirmar que a experiência psicanalítica conduz a um aprofundamento do universo da falta.

são revivescência das impressões que caracterizam a cena infantil. Portanto: no sono e no sonho repetimos a tarefa da humanidade primitiva” (NIETZSCHE..T6 Ibid.24 Considerando a mútua exclusividade dos traços mnêmicos com os signos de qualidade que caracterizam a consciência.26 Um novo parágrafo é acrescentado em 1919. atingia comunidades e povos inteiros. de 1923. ao recordar claramente um sonho.29 Atribui a Georg Groddeck30 a Ibid. Podem tornar-se conscientes.. Idem. em que a alucinação era extraordinariamente freqüente e. e nele Nietzsche é invocado para sustentar o seguinte argumento: sonhar é regredir à condição mais primitiva do sonhador. semanalmente. p. todos esses três tipos de regressão constituem um só e. 30 Ver O Livro dIsso. O livro é uma composição de cartas assinadas por um certo Patrik Troll destinadas a uma amiga.25 Os sonhos são produtos dos traços mnêmicos que constituem o sistema inconsciente. Freud sustenta que “nossas lembranças – sem excetuar as mais profundamente gravadas em nossa psique – são inconscientes em si mesmas. e considera que cada uma delas abre caminhos para especulações e postulados psicológicos. p. 501. reproduzimos a tradução brasileira de Paulo César Souza: “Mas no sonho todos nós parecemos com o selvagem. Os franceses. p. as impressões que maior efeito causaram em nós – as de nossa primeira infância – são precisamente as que quase nunca se tornam conscientes”. É aqui que se encontra o aspecto regressivo do funcionamento do aparelho psíquico. sua forma mais cabal nos sonhos. 22). 27 Ibid. Em 1914. e. 491. ‘acha-se em ação alguma primitiva relíquia da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta’. um aparelho fotográfico ou algo desse tipo. conferências psicanalíticas integradas ao tratamento de seus pacientes no sanatório que dirigia. Ego e Superego. pois o que é mais antigo no tempo é mais primitivo na forma (. o sistema perceptivo”. assim. Eu e Supereu. Freud lança uma questão decisiva para a genealogia da moral: “O que descrevemos como nosso ‘caráter’ baseia-se nos traços mnêmicos de nossas impressões. Trata-se do aforismo 12 do Humano. é o campo onde o conhecimento da herança arcaica do homem se constitui. 502.. em que Groddeck ministrou. O título inicial era Cartas a uma Amiga sobre a Psicanálise. Nas versões brasileira dos Seminários de Lacan adotou-se a seguinte tradução: Isso. com o título Das Buch vom Es. demasiado Humano – Um livro para espíritos livres. nos sonhos. 37. e podemos esperar que a análise dos sonhos nos conduza a um conhecimento da herança arcaica do homem. porém. lembra-nos uma vez mais os estados da humanidade primitiva. sua candidatura à Associação Psicanalítica de Berlim e o encontro com Sandor Ferenczi. “Podemos calcular quão apropriada é a asserção de Nietzsche de que. em geral. ocorrem juntos. além disso. às vezes.22 Freud inicia o item B do capítulo VII da Interpretação dos Sonhos fazendo um resumo das principais proposições de sua investigação sobre os sonhos. O conteúdo das cartas remetem ao período de 1916-1919. a Edição Standard Brasileira adotou a escolha dos ingleses.sistência dos desejos recalcados não pode ser escondida do superego”. apresenta a topografia do aparelho psíquico com o objetivo de demarcar o funcionamento dos sistemas que o compõem. (. A analogia entre a filogênese e ontogênese encontra. nos assustamos com nós mesmos por abrigarmos tanta tolice. 29 FREUD. p. Freud justifica a adoção do termo gramatical Das Es28 para designar o desconhecido e inconsciente “sobre cuja superfície repousa o ego. p. que decidiram manter um equivalente em latim (Id) para o termo Ego. Ibid. Para tanto..) Essas analogias visam apenas a nos assistir em nossa tentativa de tornar inteligíveis as complicações do funcionamento psíquico. escolheram manter a radicalidade semântica do alemão e traduziram por ça. Datam do mesmo período o encontro com Freud. sobretudo depois de Jacques Lacan. a nota de Freud no texto O Ego e o Id. Daí a segunda tópica ter recebido a seguinte designação: Id.)”. mas não há dúvida de que produzem todos os seus efeitos quando em estado inconsciente”. 1987. impulso nº 28 109 . de modo que. que tem como pressuposto a crença incondicional em sua realidade. 26 Ibid. dissecando essa função e atribuindo suas operações singulares aos diversos componentes do aparelho”. 2000. 1976. p. O principal é responder sobre “o lugar dos sonhos na concatenação da vida anímica”. carac22 23 24 25 terizando três tipos de regressão: tópica.. Ao compor a segunda tópica. desenvolvido a partir de seu núcleo. designando a impessoalidade do pronome: aquilo que é estranho ao eu. o mau reconhecimento e a equiparação errada são a causa das inferências ruins do que nos tornamos culpados no sonho. Para que o leitor possa comparar. 494. daquilo que lhe é psiquicamente inato”. publicado por Nietzsche em 1878. parece indicar uma nova conexão com Nietzsche. sugere visualizar o aparelho que “executa nossas funções anímicas como semelhante a um microscópio composto..23 Dotando esse aparelho de sistemas (ou instâncias).. E acrescenta que “no fundo. publicado por Groddeck na Psychoanalytischer Verlag. temporal e formal. Quanto ao que é psiquicamente inato. como vimos. 28 Sobre a tradução deste termo. Afastando-se de uma localização anatômica para o aparelho psíquico.. em 1923.27 A investigação da filogênese. p. 151. Freud acrescenta um parágrafo à quarta edição. A perfeita clareza de todas as representações oníricas.

calcular. p. que não cessam de fazer exigências. GAY. Edição Standard Brasileira (ESB) das Obras Completas. CONCLUSÃO Para finalizar. ed. __________. 1976. __________. F.Vida e Obra de Sigmund Freud.A ética da psicanálise. O Ego e o Id. E. há nesta recapitulação uma atualização daquilo que constitui a gênese do sentimento de culpa: o superego. __________. 37. Se a ontogênese pode ser considerada uma recapitulação da filogênese.Rio de Janeiro: Francisco Alves. v.Totem e Tabu.. O Seminário – Livro VII. 1974. 1989. 89. São Paulo: Companhia das Letras. Freud e Nietzsche: semelhanças e dessemelhanças. 3ª. a pensar. v. J. Rio de Janeiro: Imago. 1990. FREUD-SALOMÉ. P. ESB. __________.. ed. o processo filogenético adquire sua devida importância na construção dos fenômenos psíquicos e. Nietzsche afirmou. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. O ato de sonhar é alheio à vontade. seguiu o exemplo de Nietzsche. 2ª. ESB. os civilizados vivem um mal-estar provocado pela recusa das pulsões. os impulsos reguladores e inconscientemente certeiros. 2000. P. 1987. 1970. Rio de Janeiro: Imago. categoricamente.assertiva de que o ego é habitado por forças desconhecidas e incontroláveis: “O próprio Groddeck. ed.Trad. Ibid. 1978.. também nominado como alma. 2ª. 1975. sujeito à lei natural”. 110 impulso nº 28 . A isto chama de interiorização do homem. neste mundo social. Rio de Janeiro: Imago. Através do sentimento de culpa é possível estabelecer uma interlocução entre Freud e Nietzsche. “não mais possuem seus velhos guias. 1987. a Filosofia e os Filósofos. que utiliza habitualmente este termo gramatical para tudo o que é impessoal em nossa natureza e. Humano. está além do campo da intencionalidade. v. Souza. Freud.Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. 1991. I e II. ESB. do processo de subjetivação. estão reduzidos. portanto.31 O Das Es como sistema inconsciente marca a dimensão de impessoalidade que os sonhos representam para o sonhador.. V. São Paulo: Brasiliense. Genealogia da Moral. podemos afirmar que o complexo de Édipo permitiu a Freud estabelecer a analogia entre a ontogênese e a filogênese. O Livro disso. 1989. 1987. São Paulo: Brasiliense. LACAN. A parte racional da alma – resgatando a divisão aristotélica – é subproduto das pulsões libidinais que tiveram que ser reprimidas e que se voltam contra o próprio homem na forma de sintoma. JONES. P. v. S.. A Interpretação dos Sonhos. NIETZSCHE. Rio de Janeiro: Zahar. ESB. 3ª. v. v. XXI. NIETZSCHE. XIX. Rio de Janeiro: Imago. p. que todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro como sentimento de culpa. por assim dizer. 1991. __________.. P. __________. O Mal-estar na Civilização. Retomando o prefácio da obra Três Ensaios sobre a T eoria da Sexualidade. GRODDECK.XIII. FREUD.C. Em ambos.32 Reduzidos à consciência – 31 32 o órgão mais frágil e mais falível –. indubitavelmente. Referências Bibliográficas ASSOUN. E. ed. Souza.L. uma Vida para nosso Tempo. Demasiado Humano. VII.C. 2ª. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1989.. ENRIQUEZ. Trad. São Paulo: Companhia das Letras. Rio de Janeiro: Imago. Correspondência Completa. inferir. os infelizes. Freud. Da Horda Primitiva ao Estado: psicanálise do vínculo social. Rio de Janeiro: Imago. combinar causas e efeitos”. vejamos o que escreveu Nietzsche no aforismo 16 da Segunda Dissertação da Genealogia da Moral: “Vejo a má consciência (sentimento de culpa) como a profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu: a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz”. Um livro para espíritos livres. São Paulo: Perspectiva. ed. G. herdeiro do complexo de Édipo. 1990.

Abstract This essay is a product of a first textual study and at the same time of productive fantasy. as Minima Moralia. It attempts to establish a relevant dialogue about the Apollonian and Dionysian elements present in their works with the purpose of interlacing some representative elements of the Frankfurt thinker’s methodology. BRUNO PUCCI Professor doutor da Faculdade de Educação da UNIMEP e coordenador do grupo de estudos e pesquisas Teoria Crítica e Educação. fruto simultâneo de uma primeira pesquisa textual e da fantasia produtiva. Nietzsche and Adorno. ético-estético. Keywords GRECIAN ART AND TRAGEDY – DIONYSIAN SPIRIT AND APOLLINIAN SPIRIT – NEGATIVE DIALECTICS – ADORNIAN ETHICS AND AESTHETICS – CRITICAL THEORY.br impulso nº 28 111 . Pesquisador do CNPq e da Fapesp bpucci@unimep. Palavras-chave ARTE E TRAGÉDIA GREGA – ESPÍRITO DIONISÍACO E ESPÍRITO APOLÍNEO – DIALÉTICA NEGATIVA – ÉTICA E ESTÉTICA ADORNIANA – TEORIA CRÍTICA. negative dialectics. It imagines an encounter of two extemporaneous thinkers. imagina um encontro de dois pensadores extemporâneos. a dialética negativa.UM ENCONTRO DE ADORNO E NIETZSCHE NAS MINIMA MORALIA THE ENCOUNTER OF ADORNO AND NIETZSCHE IN MINIMA MORALIA Resumo O ensaio. Tenta estabelecer entre eles um diálogo pertinente sobre os elementos apolíneos e dionisíacos presentes em suas obras com o propósito de tecer alguns dos fios constituintes da metodologia do pensador frankfurtiano. no interior de um livro de aforismos. Minima Moralia. within a book of aphorisms. Nietzsche e Adorno.

E ste artigo não tem a pretensão de rastrear as influências de Nietzsche em Adorno nem suas concordâncias e discordâncias. pp. a teoria e a prática do utilitarismo. questionando a filosofia. não serão. E quando vamos ler o prefácio de Nietzsche à Origem da Tragédia. um potencial de vida? Uma predileção intelectual pelo horror. quem sabe. serenos. os gregos. nas criaturas? Uma visão mais penetrante sobre a realidade não será por si só dotada de uma temeridade irresistível. tornaram-se cada vez mais otimistas. talvez. é a de serem autores pessimistas. no caso. com a Origem da Tragédia. ambos têm muita coisa a dizer. que vêm sublinhando apenas o princípio apo1 Cf. Talvez o texto se proponha a ver como Adorno. construtores de becos sem saída. que busca o terrível como quem busca o inimigo. escrito por Adorno nos Estados Unidos no período de 1944 a 1947. em alguns de seus escritos. o predomínio da razão. Por outro lado e por razão contrária. aborda. um atento leitor de Nietzsche. recente leitor de Nietzsche. Ou. escrito em Basiléia em 1871 e prefaciado pelo próprio autor em 1886. pelo excesso da força vital presente no mundo. sobre as nossas atuais construções espirituais. que procura um adversário digno contra o qual experimentar sua força? Nietzsche. de decadência? Não existirá no pessimismo uma força. No entanto. pela crueldade. a filosofia e a arte das sociedades em que viveram e. 20-25. NIETZSCHE. está examinando a tragédia grega em seus horizontes primeiros. Mesmo porque o autor. “sob as condições de contemplação”. o sintoma do declínio da força. sobre a cultura. amantes das coisas negativas e melancólicas. pela incerteza da existência não é resultante de uma predileção pela vida. Extratos de dois livros significativos serão levados em consideração: A Origem da Tragédia. a arte e a cultura de seu tempo. durante a guerra. superficiais. temas e categorias trabalhados anteriormente pelo filósofo alemão e que ajudam a configurar traços distintivos e constituintes da metodologia incisiva do pensador franckfurtiano: a dialética negativa. particularmente contra Adorno. racionais. 112 impulso nº 28 . da degeneração fisiológica?1 Nietzsche está. da aproximação da velhice. expresso em questões desafiadoras como estas: será o pessimismo necessariamente sinal de declínio. não se sente preparado para tal. 1996. de Nietzsche. estabelecer entre os dois pensadores alemães um diálogo pertinente sobre os elementos apolíneos e dionisíacos presentes em suas obras. contemporânea de tudo isso. e Minima Moralia. em conjunto. O PESSIMISMO DA FORÇA CONTRA O OTIMISMO DA DECADÊNCIA Uma das pechas lançadas contra os franckfurtianos clássicos. nos surpreendemos com um expressivo elogio à postura pessimista. talvez. no dizer do próprio autor. assim como a própria democracia. e a ligação umbilical entre ela e o espírito dionisíaco. E pergunta Nietzsche: a vitória do otimismo. na época de sua dissolução e de seu declínio. Mais de setenta anos separam um escrito do outro. na forma de diagnósticos radicais.

) encobre as condições materiais sobre as quais se ergue tudo que é humano.. também. Ibid. (. não.). (. capricho ou vaidade intelectual. em engodo. uma vez encarada face a face. p. No último aforismo do livro. De fato. 1996. 161. que não existe. pp. MARTON. comum aos intelectuais burgueses e também a seus adversários. e transforma-o em imagens ideais que tornam agradável e possível a vida”. com seu consolo e apaziguamento. mas versificada e metrificada em notas lúgubres e disso2 3 nantes. 1992.3 Adorno. Compreendemos porque uma cultura tão miserável odeia a verdadeira arte: receia prever nesta a causadora da sua ruína”. tenta mostrar que a predileção ininterrupta pela postura negativa não é apenas sinal de uma visão mais penetrante das contradições da realidade. Aí. não por proselitismo. se consolida na escrita invertida de seu contrário”. 216. muito tempo depois. Uma tentativa de recobrar a esperança. chamados por Nietzsche “filisteus da cultura”. e mesmo todas as críticas que se dirigem à cultura enquanto mentira. para manter viva a má determinação econômica da existência”. então. NIETZSCHE. NIETZSCHE. Os organizadores das instituições artísticas e dos estabelecimentos de ensino.. e o dionisíaco acaba por desaparecer por um longo tempo da face do mundo. Ao mesmo tempo. e Wagner. perde sua potencialidade crítica. são incapazes de criar. tinham desaparecido as inquietações com o cultivo do espírito humano e o desenvolvimento autônomo do indivíduo. como uma visão otimista e dissimuladora do mundo falso. “a arte surge como um deus salvador que traz consigo o bálsamo benfazejo: só ela tem o poder de transformar o aborrecimento do que há de horrível e de absurdo na existência. “a chamada cultura intelectual e a arte verdadeira foram tão estranhas uma à outra. das coisas. 17-21. Nietzsche deflagra contra ela sua impiedosa crítica. das instituições. pois “simula uma sociedade digna do homem. expressa em pequenas manifestações.. Privilegia-se a ciência em detrimento da arte. ele só é este poder quando encara de frente o Negativo e nele permanece”4. com Tristão e Isolda. um canto de louvor à existência humana. na Alemanha da segunda metade do século XIX. foram indícios marcantes desse retorno.líneo. Para Adorno.. impulso nº 28 113 . para Nietzsche. ao comércio e ao consumo da cultura. na Origem da Tragédia. continua a postura pessimista de Nietzsche.. A cultura é mentira. O seu livro Minima Moralia não deixa de ser um hino à vida. em que a crueldade da existência cede lugar ao progresso do saber. O critério primeiro para avaliar a produção cultural são as necessidades dos consumidores. Nietzsche e Marx. p. A cultura deixa de ser cosmopolita e desinteressada e se transforma em um bem venal. com O Mundo como Vontade e Representação. apesar do desespero estampado na face do indivíduo. Schopenhauer. p. o exercício da esperançosa busca de brechas salvadoras para saídas históricas. ADORNO. submetido às leis de compra e venda. essa concepção da cultura como ideologia. limitam-se à imitação. o escrito nietzschiano é um canto tênue e esperançoso pelo retorno do espírito dionisíaco ao coração da filosofia e da arte de seu tempo. integra-se cada vez mais na sociedade de troca. a febre de viver cede lugar à serenidade da vida. Já na Dedicatória do livro deixa claro que os múltiplos aforismos que o compõem insistem o tempo todo na negatividade: “O espírito não é como o Positivo que desvia o olhar do Negativo (. a cultura converte-se em máscara.. 1993. pp. essa é a concepção de cultura como ideologia – entendida como falsa consciência –. mas por incontestável respeito à verdade e à realidade histórica das coisas.5 Mas é no aforismo A criança com a água do banho6 que o seu chicote pessimista se manifesta com todo vigor contra os que hipostasiam a cultura como mercadoria. Para Nietzsche. 9.7 Mas. tendem a se tornar elas próprias ideologia. p. continua Adorno.. diz ele. 1996. “Em nenhuma época artística”..2 Transformada em mercadoria. 77. Restringem a uma dimensão única a realidade complexa e ambígua da Bildung. 36-37. De 4 5 6 7 Cf. Logo no início do parágrafo observa que o tema da cultura enquanto mentira é central há muito tempo entre os críticos culturais.) ela serve. tão divergentes como hoje. Ibid. constata que “a perfeita negatividade. mas. da filosofia. Por considerar a cultura assim.

se desse a mudança radical da sociedade. não existirá na potencialidade negativa das análises adornianas uma esperança de vida. dotada de uma temeridade irresistível. poderá ser ainda um antídoto à tendência generalizada de alienação do espírito objetivo. a mentira que o denuncia torna-se um corretivo. diz Adorno. procura se furtar da pressão universal. então. que procura um adversário digno contra o qual experimentar sua força? Ou seja. por contradições. por mais frágil e incipiente que seja. com o que. mas integrá-los em suas relações e. com todas as suas tensões e contradições. Ilusória porque. com a mentira. Essa atitude in- dicia antes uma postura fatalista do que crítica. com a mercadoria. danificada. Uma feliz expressão. com a aparência. assim. Porém. Exigir tal identificação significa comprometer todo pensamento que se propõe a resistir. ultrapassá-los. se olharmos apenas por esse viés. e porque. Absolutizaríamos a mentira entranhada na cultura. toda a antecipação quimérica de uma situação mais nobre. então. e em todas as relações humanas que se assentam no elemento material encontramos manifestações ou resquícios de insinceridade. a própria troca livre e justa é uma mentira – na verdade é uma troca de desiguais. que. ela perderá sua potencialidade auto-reflexiva e se transformará em seu contrário. Como. E com isso. por si só. eles desenvolveram uma afinidade eletiva com a economia política. seus contemporâneos. afeta até as mais delicadas relações eróticas e as mais sublimes relações espirituais. e cultura aquilo que se recusa a aceitar a dominação do valor de troca. Aí. o medo da impotência da teoria fornece o pretexto para se entregar ao todo-poderoso processo de produção. de fato. tudo o que. no entanto. onde o mais forte sempre leva vantagem –. E a cultura se identificaria. Essa perspectiva antes favoreceu o crescimento da própria barbárie. então semelhante recusa é decerto ilusória na presente circunstância. negativo ao extremo contra todos os críticos da cultura. submeteram a teoria às determinações da práxis e se tornaram demasiadamente pragmáticos. Adorno não poupa de suas críticas contundentes os marxistas ortodoxos. colocada quase no final do aforismo. Adorno termina esse aforismo apresentando uma orientação prática sobretudo para os que vivem nas cercanias da cultura. efetiva e inteiramente. mesmo de maneira indigente. aquilo que a nega fala também em defesa da verdade: em face da mentira que é o mundo da mercadoria. que se alimentam dela. em que a cultura está. se identificar a cultura com a mentira já era uma visão falseada da realidade em tempos de um capitalismo predominantemente concorrencial. em face da barbárie crescente. para que ele seja desnudado em sua pretensão de poder. que ainda lutam pela sua sobrevivência: as pessoas que pertencem a um mesmo grupo não deveriam nem silenciar seus interesses materiais nem nivelar-se a estes últimos. de maneira cega e misteriosa. de amor vil. acentuaram os elementos determinantes da infra-estrutura material. passaríamos imediatamente à barbárie que se acusa a cultura de propiciar. mesmo resistindo à universalização do mercado. um potencial de vida? Uma visão mais penetrante sobre a realidade não será. porém. sim. Este aforismo. a situação se tornou mais funesta ainda no presente momento da sociedade administrada – com a onipresença do espírito alienado –. Se. que busca o terrível como quem busca o inimigo. com isso. imbuídos de uma visão linear de cultura e por amor à “tendência objetiva”. é uma expressão histórica da questão colocada anteriormente por Nietzsche: não existirá no pessimismo uma força. é verdade que a dimensão da troca. apesar do cerco total da dominação. na esperança de que. Se se denomina realidade material o mundo do valor de troca. com o falso que existe na cultura. Se a cultura se integrar totalmente na sociedade administrada pelo mercado. tudo o que é verdadeiro. a cultura está se transformando quase que totalmente em um valor venal.um lado. retruca Adorno. No poder. de transformação? O fato de ele chamar pelo nome a dureza e a inflexibilidade do real não é para que esse real permaneça como está e. ela só poderá se expressar crítica e criativamente envolvida pelas leis do mercado. Nada escapa ao mercado no mundo capitalista em que vivemos. Para Adorno. de interesse. abriram mão da utopia socialista. corremos o risco de também extirpar. se convertendo em mentira. nos devolve a esperança ativa no resgate do espírito objetivo: o fato 114 impulso nº 28 . ela não perder seu discurso pungente. se admite plenamente a impotência da teoria.

Ibid. que é a extrema ponderação. na tragédia grega primordial. mesmo no mundo de dores.8 Dionisos.10 A densa e complexa relação do espírito apolíneo com o instinto dionisíaco na tragédia deveria ser simbolizada por uma aliança fraterna dessas duas divindades. o da embriaguês. caricatura bruta da natureza. Entre seus atributos principais podemos destacar os seguintes: trabalha com as imagens de vida. “Mas vede. presentes no sonho. Apolo é o deus do sonho. de seus instintos mais poderosos.. Com Apolo. ao mesmo tempo. da coerência interna. aparência da realidade. aquela que alegremente brota em toda a natureza. p. O sátiro. desperta a vontade de viver no indivíduo subjetivo. figura fantástica e estranha da arte dionisíaca. de sabedoria e. desindividualiza-se para emergir plenamente na unidade. representa o excesso de vitalidade presente na renovação primaveril. Nietzsche observa que a criação e o desenvolvimento da arte resultam de seu duplo caráter: ela é. as contrariedades. representa o mundo da embriaguês. o sinistro. Dionisos. as dimensões do prazer. também o sombrio. a capacidade de entender essas mesmas imagens. Apolo não podia viver sem Dioniso. o outro extremamente lógico. sereno – e que se unem 9 10 Ibid. as expectativas. ainda. é um ser paradoxal: cheio de entusiasmo (de θεοσ). pp. impassível. 49. convida-o insistentemente a aniquilar-se no total esquecimento de si mesmo. através do processo de adivinhação. o homem. os homens. de suas lágrimas. 37-43. a livre serenidade nas emoções mais violentas. é também o deus da adivinhação. apolínea e dionisíaca. diz Nietzsche.. da interpretação a partir dos indícios da aparência. Articula-se. eleva-se ao grau universal da espécie e até da própria natureza. poeta. impulso nº 28 115 . É o deus da lógica. num todo polarizado. ao mesmo tempo em que participa integralmente do sofrimento do mundo. ao mesmo tempo. 57. Na arte ditirâmbico-dionisíaca. pp. no mergulho absoluto na unidade cósmica. cantam seus hinos. da existência. e portanto da expressão. por sua vez. Mais ainda: nele encontramos. e no fundo da alma do mundo anuncia e proclama a verdade.. alegres ou tristes. experimenta e quer exprimir sentimentos até então desconhecidos. se consideradas em si mesmas. Apolo sintetiza em si. em que os ho8 mens se liberam de suas amarras culturais. 43. do mundo do sonho. Dois irmãos individualmente fortes contrapostos – um veementemente intempestivo. intimamente vinculado às faculdades anteriores. as características que configuram o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco se negam frontalmente. É músico. Apolo. do sofrimento e do conhecimento. O artista examina minuciosamente os sonhos e consegue descobrir nessa aparência a verdadeira interpretação da vida.de que a cultura tenha fracassado até os dias de hoje não é uma justificativa para que se fomente seu fracasso. É também o deus da individuação – principium individuationis –. dançarino. participa a sabedoria. o triste. a serena sabedoria nas ações da vida.9 Como se percebe pela exposição nietzschiana. a aparência. visionário numa pessoa só. tudo isso se desenvolve sob seu olhar. o deus da faculdade criadora de formas. No entanto. a arte de criar e de decifrar enigmas. ao mesmo tempo. é a tensão entre esses dois espíritos que lhe dá força. do estado narcótico. senhor de si. expressam febrilmente seus desejos. do homem individual que. Ibid. o homem é arrebatado até a exaltação máxima de todas as suas faculdades simbólicas. E não são apenas imagens agradáveis e deliciosas as que o artista descobre dentro de si. O titânico ou bárbaro era finalmente uma necessidade tão imperiosa como o olímpico”. uma outra linha delicada. beleza e expressão artística. do equilíbrio perfeito. dá a essas imagens uma determinada forma plástica ou as transforma em poesia e desenvolve. Com a ajuda de tais imagens ele se exercita para tomar contato com a vida. cheia de beleza. é a condição primeira de todas as artes plásticas e uma parte essencial da poesia. um deus híbrido: de seu sorriso nasceram os deuses olímpicos. 84 e 95. Dionisos. pois. permanece sereno. O DUPLO CARÁTER DA ARTE E DA FILOSOFIA: O ESPÍRITO APOLÍNEO E O ESPÍRITO DIONISÍACO Ao analisar a origem da tragédia grega. No êxtase da arte dionisíaca.

do começo ao fim. ADORNO. e com eles o fim da natureza híbrida da tragédia esquiliana. Ibid.. e dessa maneira se conseguiu atingir o fim último da tragédia e da arte.num todo. só se peca por ignorância. Diz ela: Ainda que se lhe concedesse aquela recomendação discutível de que a exposição deve reproduzir exatamente o processo de pensamento. “Dionisos fala a língua de Apolo. 172. sua lei principal – tudo deve ser inteligível para ser belo – estava fundamentada na doutrina filosófica de que “só é virtuoso quem é ciente”. chamando-o sempre para a espécie. melodia e capacidade de arrebatamento à tragédia grega. inversamente. 120. o conhecimento se dá numa rede onde se entrelaçam prejuízos. em poucas palavras. inervações. este processo não seria uma progressão discursiva de etapa em etapa. e com isso favorecer o estado de individuação como fonte e origem primordial de todos os males: o homem lobo para o próprio homem. nem o indivíduo era simplesmente tragado pelo todo da espécie ou da natureza.”13 Por outro lado. entre o filosófico e o estético. Nesse campo intenso de forças. e nem o todo perdia sua força poderosa sobre o indivíduo. mas Apolo acaba por falar a língua de Dionisos. p. Quero apenas expor e comentar duas citações em que essa relação híbrida aparece de modo evidente. a 13 14 Ibid. “Não esqueçamos as conseqüências dos preceitos socráticos: ‘virtude é ciên11 12 cia. e construir um novo tipo de teatro para a arte e para a moral. apolínea e dionisíaca. 116 impulso nº 28 . 69. Ibid. Nisso. de outro lado ele conduz o mundo da aparência – da forma artística apolínea – até os limites em que procura negar a si próprio e buscar refúgio no seio da verdadeira e única realidade.. na origem e na essência. ele foi apoiado e aprofundado por Sócrates. p. previsível. simultaneamente contrário e uno. Excluir a força incomensurável da espécie e de natureza significa sobrevalorizar o indivíduo em sua subjetividade. Nietzsche vê nesses princípios a afirmação unilateral do processo crítico e da cegueira racionalista: vem o intelecto para botar ordem no caótico e imprevisível instinto e tudo se torna calculado. mesmo a manifestação artística assumindo uma configuração apolínea específica. E como Adorno vê a tensão entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco? Poderíamos afirmar que as Minima Moralia são. autocorreções. de sua duplicidade. o homem virtuoso é o mais feliz’. ela continuava sempre enxertada e fertilizada pelo húmus da exuberância da vida. entre o conceito e a imagem. fundada. excluir da arte o elemento dionisíaco significa também despotencializar o elemento apolíneo. assim como. desintegrando-se. original e onipotente. extrair-lhe o chão fértil da exuberância vital em que encontra inspiração e razão de sua intervenção. Para a estética socrática. se de um lado o mito trágico deve ser compreendido como uma representação simbólica da sabedoria dionisíaca. A primeira é extraída do aforismo Lacunas.”11 Nietzsche vai mais longe em sua análise ao observar que.12 Foi então que apareceram Eurípedes e Sócrates. que assume formas próprias graças ao auxílio de processos artísticos apolíneos. 1992. a racionalidade. uma tentativa de manter viva e fecunda a polaridade entre o apolíneo (em sua negatividade dialética rigorosamente elaborada) e o dionisíaco (no contato mediado com as mais densas expressões da vida e da natureza). 172-174. na experiência. Nestes três princípios do otimismo esconde-se a morte da tragédia.14 Embora no juízo – expressão lógica do pensamento – predomine a coerência. intuições. Assim o pensamento filosófico se sobrepõe à expressão estética e obriga a arte a se orientar pelo movimento da dialética. p. em que o autor analisa o caminho não retilíneo e até não-racional que o pensamento percorre em seu processo de vir-a-ser. Ao contrário. pp. que é densa. para a natureza. A intencionalidade de Eurípedes foi a de excluir progressivamente da tragédia o elemento dionisíaco. Ou seja. É essa mágoa cósmica que Nietzsche deplora criticamente no interior da arte e da filosofia de seu tempo. fruto de um duvidoso iluminismo. tampouco os conhecimentos caem do céu. mas de modo algum transparente em todos os seus pontos. antecipações e exageros.. É essa interdependência que dava ritmo.

Elas só se desenvolvem nesse processo associativo e interativo. com a padronização dos gestos. Agora. Num primeiro momento.18 em que Adorno critica a fundo a exclusão do pensamento dos elementos dionisíacos. de uma sutileza inebriante. vazio. mas corrosivo. eles nos exortam a pôr fim àquela fatalidade que individualiza os homens somente para poder quebrá-los por completo no seu isolamento”. 96. Ibid. Adorno vê nessa tendência um desafio para todos os que ainda acreditam no resgate das forças apolíneas e dionisíacas: “Se hoje os últimos traços de humanidade parecem prender-se apenas ao indivíduo como algo que se encontra em seu ocaso. 131. desenvolve um individualismo desenfreado. o ato de amar. deixa claro como o principium individuationis. 132. irracionalidades.17 Gostaria ainda de apresentar citações centrais do aforismo Intellectus sacrificium intellectus.16 Não é como na tragédia grega primordial. Não obstante. 106-107. regridem quando separadas ou absolutizadas. o indivíduo deixa de ser. Cf. A outra citação é extraída do aforismo Segunda colheita: Numa noite de tristeza inconsolável. a decadência do indivíduo se dá a partir de uma tendência irreversível da pressão do social sobre o particular. E aquela expressão de fala.. ele próprio. o seu processo de constituição pressupõe elementos emocionais. em nome de uma racionalidade técnica e padronizada. só vem à tona numa noite de tristeza inconsolável. quando o indivíduo não tem mais argumentos ou justificativas em que se apegar. a língua oficial (o alemão padrão) e a educação formal escolar produzem como efeito colateral. em diversos momentos das Minima Moralia. mas tão familiar. impulso nº 28 117 . idas e vindas. p. que o espírito dionisíaco explode com força e violência. a percepção em suas diferentes manifestações. eu me surpreendi fazendo uso do subjuntivo ridiculamente errado de um verbo que. desaparece. solavancos.. enfim. Como um eco. gerou uma situação em que. com a eliminação da diferença. nem se deixam isolar dos demais elementos somáticos e existenciais. quando se sente abandonado como uma criança. incorreta oficialmente. que aguardava impotente lá no fundo. p. silêncios. o abafamento de expressões da fala (do dialeto) carregadas de experiências da vida familiar. de outro. o pensamento se torna rígido. mas faz parte do dialeto de minha cidade natal. o autor expõe com rara felicidade a indissociável interação entre todas as faculdades do indivíduo: o pensamento. a fantasia. a linguagem devolveu-me a humilhação que a infelicidade me infligiu esquecendo o que eu sou.. Desde os primeiros anos escolares não havia mais ouvido essa forma errada tão familiar. Ibid. pois aí perderiam sua função antitética. Diz ele: Supor que o pensamento tira proveito da decadência das emoções com uma crescente objetividade. dos corpos e das mentes. ou que apenas permaneça in16 17 18 Ibid. Parece que é nos momentos de grande tristeza. de um lado. pois aí perderiam sua força expressiva. em que o mergulho do indivíduo no todo da espécie e da natureza se dava a partir da atuação do espírito apolíneo. Uma melancolia. o desejar. onde tudo é possível. expõe como. que me arrastava de maneira irresistível para o abismo da infância. 1992. despertou esse antigo som. Se se abafar esses elementos vitais em nome da ordenação lógica. ADORNO. e. de contato com a comunidade originária. p. menos ainda empregado. Os pensamentos bem elaborados nem se deixam tragar pelo standard estabelecido. insensível. a memória. como um momento fundamental de sua própria constituição enquanto ser humano. Adorno. que faz parte do dialeto de sua cidade natal. já não pertencia de todo ao alemão padrão. a emoção. pp.clareza. mostrando 15 quem o indivíduo é e como é frágil e insignificante a pura racionalidade. debilitam-se. tomado sob a distensão do apolínio-dionisíaco e sob as bençãos da racionalidade instrumental da sociedade administrada.15 Esse extrato adorniano. quando uma melancolia o arrasta de maneira irresistível para o abismo da infância.

no dizer de Nietzsche. e não no esquecimento ou na exclusão dessas manifestações. O MOMENTO LETÁRGICO-NEGATIVO DO HOMEM DIONISÍACO Nietzsche afirma que na embriaguez estática do estado dionisíaco são abolidas as separações e os limites ordinários da existência. o que resta a ele? O próprio momento apolíneo. segundo Kant.. que.) As faculdades. este se constitui plenamente em sua realização a partir do momento em que começa a “derrubar um império de titãs. transcende-os sem traí-los?19 des intelectivas e perceptivas.. seu pai. E entre o mundo da realidade dionisíaca e o da realidade cotidiana cava-se um abismo de esquecimento que os separa um do outro. irracional. rebaixa de imediato a apercepção sintética.diferente a isso.22 Portanto. certamente o conhecimento falha quando seu esforço objetivante permanece sob o encanto dos desejos. 107. Na verdade. E mostra que até no idealismo kantiano. Mas logo que o indivíduo volta a ter consciência da realidade cotidiana. p. dá-se um momento letárgico durante o qual desaparecem as lembranças pessoais do passado. obriga-a por isso mesmo a inserir-se no esquema da repetição impotente do que já é conhecido. hoje consignada ao domínio do inconsciente e do conhecimento como um rudimento infantil e sem juízo. graças à poderosa ilusão dos sonhos jubilosos. é só no combate ininterrupto com as manifestações dionisíacas que o apolíneo se realiza. que lhe recusa toda antecipação desejante. Ibid. p.) Uma vez suprimido o último traço de emoção. vencer monstros. banido. deslocando os elementos do existente. da rememoração..21 Adorno argumenta que o conhecimento não deve se deixar conduzir exclusivamente pela chamada razão positiva. 1996. não confiável. se vê surpreendido pela vingança da estupidez. 53. A memória é transformada num tabu como algo de imprevisível. não pode ser separada da “reprodução na imaginação”.. diz: Certamente o sentido objetivo dos conhecimentos desprendeu-se. sobre o horror profundo do espetáculo existente e sobre a sensibilidade mais apurada para o sofrimento. que ele se faz mediador e frutífero. Mas se as pulsões não são ao mesmo tempo suprassumidas no pensamento. (. e o pensamento que mata o desejo. É no respeito crítico por esses dois momentos. se fragiliza também.. o lógico e o ilógico. o racional e o instintivo. nem deve se deixar levar passivamente pelo irracionalismo das pulsões. p. NIETZSCHE. Mas a castração da percepção pela instância de controle. que visa tornar o processo e seus produtos assépticos com medo da contaminação dos instintos. atrofiam-se quando são dissociadas umas das outras. (. repetitivo. Ele torna-se estéril. o que resta do pensamento é apenas a absoluta tautologia. A falta de fôlego intelectual que daí decorre.20 Uma vez suprimido do pensamento o espírito e os elementos dionisíacos.. Assim. que escapa desse encantamento.) Não é a memória inseparável do amor. cada vez mais da base pulsional. Adorno continua esmiuçando as conseqüências desastrosas para o pensamento de sua segregação das outras faculda19 20 Ibid. e que culmina na perda da dimensão histórica da consciência. elas mesmas desenvolvidas através da interação. institui aquela relação entre objetos que é a fonte irrevogável de todo juízo: se ela é banida. o ato mesmo de conhecer – a apercepção sintética – não pode ser segregado da imaginação. ela é sentida com tal aborreci21 22 Na última parte do aforismo.. já é uma expressão de estupidificação. e triunfar. 118 impulso nº 28 . que. Apenas a fantasia. 106. então o juízo – o ato de conhecimento propriamente dito – também se vê exorcizado. o conhecimento torna-se impossível. Ibid. com a objetivação do mundo. já vimos. (. da rememoração.. que prioriza a razão como faculdade do entendimento. que pretende conservar o que passa? Não é cada impulso da fantasia engendrado pelo desejo.

falta de ação. está em vir a reconhecer em breve que. Ele se sente inútil. educativa. demasiadamente solitário. é indispensável que sobre o mundo paire o véu da ilusão. O conhecimento verdadeiro mata a ação. apodrecidas. ele mantém firme a esperança de que o espírito dionisíaco. apatia (figurado). e Nietzsche o simboliza na figura do cavaleiro acompanhado da morte e do diabo. incita nosso pensamento a ir além da aparência e a apreender o significado mais profundo das coisas. a vida e as relações humanas quase que integralmente regulamentadas. desenvolve e potencializa em nós o instinto estético. impulso nº 28 119 .25 O espírito apolíneo carrega em si uma dimensão formativa. se esconde uma força 25 26 Ibid.. que. atingir a verdadeira realidade da existência. vida latente. a filosofia e a arte apolíneo-dionisíaca se tornaram danificadas. Para agir. Com a progressiva dominação do homem teórico sobre o homem trágico nos séculos posteriores a Sócrates. mas também sem esperança. torpor.26 No entanto. mergulhar na essência das coisas. estado de abatimento moral ou físico.. o conhecimento/visão da verdade horrível anula no indivíduo todos os impulsos e motivos de agir. as reações padronizadas. Nietzsche compara o homem dionisíaco a Hamlet: “Ambos penetraram com olhar profundo na essência das coisas. como estado de insensibilidade característico do transe mediúnico. desinteresse. tal como a desenhou Dürer: (. debaixo das convulsões da nossa cultura. inércia. de olhar duro mas tranqüilo. O homem dionisíaco na segunda metade do século XIX é um espírito isolado. para as dificuldades terríveis do cotidiano. Ao mesmo tempo. Ibid. porque nele o homem dionisíaco se depara com a crueldade da vida. mas preferia a verdade. Esse homem não tem par. depressão (figurado). mostre sua força de vida e liberte o homem das garras do socratismo. ambos viram.. quase inexistente. com a vigência da crença de que o mundo pode ser totalmente endireitado por meio do saber e que a vida deve ser governada pela ciência. das circunstâncias. Ibid. só com o seu cavalo e o seu cão. da história. inércia. “A nossa esperança mais ardente.. porque não podem alterar em nada a essência eterna das coisas.) o cavaleiro coberto com a sua armadura. significados próximos.24 A verdade contemplada face a face mostra com toda força o aspecto horrível e absurdo da existência. da aparência”. porém. ainda. parece-lhe ridícula ou vergonhosa a pretensão de endireitar o mundo”. para despertar o homem dionisíaco de seu torpor letárgico e trazê-lo de volta. É o momento trágico por excelência. e estão desencantados da ação. e temporariamente. volte como um furacão para revolver as coisas mortas. Ibid. Acrescenta. inibidora das forças de reação da vontade. torpor. reforçado. pode o paciente despertar. então. A intervenção do momento apolíneo é fundamental. ajudando a nos constituir como indivíduos. autônomos. p. prossegue impassívelmente no seu caminho fantástico.. conhece a fundo o sofrimento do mundo.23 O Aurélio descreve o termo letargia como um estado patológico que se caracteriza por um sono profundo e duradouro do qual só com dificuldade. liberado. sem cuidar dos seus companheiros horríveis. p. impotente. indiferença. apesar da descrença de Nietzsche na civilização filistéia de seu tempo. É por isso que a experiência dionisíaca dá ao homem possibilidade de ser extremamente negativo. 109. pessimista. graças à alegria que sentimos ao ver as apa23 24 rências. Esse momento letárgico é o momento do despojarse do eu. E a arte apolínea é uma forma de se garantir isso: pois ela é a prodigiosa potência “que transfigura a nossos olhos as coisas mais horríveis. p. diz ele. crítico. do esquecer-se de si. pela exuberância de vida. auto-reflexiva: ele nos faz sair da universalidade viscosa do estado dionisíaco.mento que gera uma disposição ascética. ávido de formas belas e sublimes. 76. de sofrimento e de alegria que contém em si. e esse conhecimento primordial lhe traz profunda melancolia. 162. O nosso Schopenhauer foi esse cavaleiro de Dürer: não tinha esperança alguma. graças à felicidade na libertação que para nós nasce da forma exterior. debaixo da inquietação e da desordem da nossa vida civilizada.

“quando são calculadas matematicamente. A própria sociabilidade é participação na injustiça. pp. sociável. Continuando o raciocínio. até o inocente “que beleza!” torna-se expressão para a ignomínia da existência que é diversa. 19. é uma falsidade no mundo falso em que vivemos. das leis. salvífico. pp. e a palavra solta. com implacável consciência da negatividade. Vou dividí-lo em partes: Não há mais nada de inofensivo. e se volta para o horrível. construído e administrado historicamente pelos dominantes e regido pelas relações de interesses está eivada pelo vírus da falsidade. de todo descuidar-se que envolva condescendência em relação à prepotência do que existe. “o todo é o não verdadeiro”. nesta completa ofuscação do poder. mas se colocam de imediato a serviço do que lhes é mais contrário. e não há mais beleza nem consolo algum fora do olhar que se volta para o horrível. na fase mais recente. Cito algumas: “Não há vida correta na falsa”. Expressões espalhadas pelos aforismos afora nos confirmam esse olhar negativo.29 um dos mais pessimistas do autor. 1992.30 configurações. 33. na explosão da natureza. obtusidade que é necessária para o exercício da dominação.. Todo olhar lançado à vida se tornou enviesado. para o ignominioso. 93 e 168. cultural. da prepotência do sistema. “verdadeiros são apenas aqueles pensamentos que não se compreendem a si mesmos”. da repressão estatal. pois todas essas mais “puras” expressões podem estar a serviço de seu contrário. à semelhança de Nietzsche. Ibid. 180-181. o gesto de condescendência desaparece e só o ajustamento se torna visível. O processo de exploração do homem pelo homem não existe apenas no mundo do trabalho. É por isso que o olhar dionisíaco deve ser extremamente desconfiado até das pequenas manifestações de “vida”. que a relação de classe disfarçada se impõe de maneira implacável. 19-20. a ele resiste e diante dele sustenta. contribui para perpetuar o silêncio. de “beleza”. da mentira. se mostra alienada. até no mais escondido de si. A vida já não vive mais. p. é então. Não há mais vida. Ibid. profundamente sã. na medida em que finge ser este mundo morto um mundo no qual ainda podemos conversar uns com os outros. o aforismo Isso é bonito de sua parte. Só há beleza e consolo no olhar que vai além da aparência. saio mais estúpido e pior. apesar de todo cuidado e atenção. o autor diz: De cada ida ao cinema. tenta. pp.31 A participação nas expressões da vida.”27 E Adorno. (.. e permanece nele com implacável consciência de negatividade. descontraído. soberba. na 31 Ibid. pp. Até a árvore que floresce sem sombra de sobressalto. na medida em que as concessões feitas ao interlocutor o humilham de novo na pessoa que fala. porém. ele também lança um olhar dionisíaco ou hamletiano sobre a horrível realidade da existência? Parece-me que sim. de um impiedoso não querer ver. tecida ideologicamente por poderes objetivos que a determinam de fora e de dentro. e continua em sonhos até nova ordem de despertar. e possibilidade de algo melhor. precisamente.. da dominação. a possibilidade de algo melhor. rachaduras. gostaria de analisar.. em vão. Quando.28 Nessa perspectiva. 42. é uma manifestação disso. 120 impulso nº 28 . Sua tentativa de esmiuçar os objetos.. Toda participação no mundo social. que decerto não se manifesta poderosamente em seguida. A vida imediata. As pequenas alegrias. ADORNO. de “descontração”. Apenas esse olhar redentor. confirmamos nesta fraqueza o pressuposto da dominação e desenvolvemos nós próprios a medida da grosseria. as manifestações da vida que parecem excluídas da responsabilidade do pensamento não possuem só um aspecto de teimosa tolice. mergulhando no seu interior e ensaiando deles extrair sua história ali enrustida. em todas as suas 27 28 29 30 Ibid. É de bom alvitre desconfiar de tudo o que é ingênuo. afirmar o que não existe mais. atento e estonteante. todas as ações adquirem ao mesmo tempo um aspecto estúpido”. 19-20..) Ajustando-nos à fraqueza dos oprimidos. permite revelar fendas. de “ingenuidade”. senhor doutor.primordial.

de conversação. reflexões dionisíacas e a audição do tom dionisíaco. A Origem da Tragédia. Só tem condições de encarar a essência das coisas. 1992. também. Para o intelectual. da igreja. da escola. Não fui capaz de observar se Adorno se utiliza de alguma categoria-chave nietzschiana e a trabalha crítica e criativamente. ensaios. apolineamente. Husserl etc. Adorno. Dá-se em todas as manifestações de vida. a solidão inviolável é a única forma em que ele ainda é capaz de dar provas de solidariedade. Nietzsche.. Apenas levanto a hipótese de que. no próprio ato de socialização. é que merecem ainda sua atenção.T. em suas terríveis manifestações. 9. daqueles que são desafiados pelo próprio conceito a entrar dentro (intus legere) das coisas e chamar-lhes pelo nome.estrutura da família. 1993. Marx. um protesto contra a maneira acadêmica padronizada de escrever e contra os sistemas fechados e “completos”.W. e desse encontro são construídos. como ele costuma fazer com Kant. S.E. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. A. Referências Bibliográficas ADORNO. com a atitude negativa do cavaleiro de Dürer (que prossegue seu caminho impassivelmente. impulso nº 28 121 . que encobre e envolve todas as expressões socioculturais. Adorno foi um rigoroso leitor de Nietzsche e se tornou mais expressivo. que reencontra Dionisos mais de dois mil anos após. Só o sofrimento. e desse encontro surge um mosaico dissonante de aforismos e tragédia. L.Trad. apesar de elaborada quase que inteiramente por harpejos sombrios e distoantes. Hegel. E a melodia que eles nos fizeram ouvir foi maviosa. 1996. F. mesmo assim. analítico e filosófico depois dessas leituras. 7ª. mas também sem esperança).32 Há muita semelhança dessa citação final com o espírito dionisíaco de Hamlet (que penetra com olhar profundo a essência das coisas e se desencanta da ação porque não pode endireitar o mundo).. A forma. Solidão. Nietzsche: a transvaloração dos valores. os horrores da vida. p. MARTON. 20. com olhar duro mas tranqüilo. 32 Ibid. p. expressões. ed.33 Não sei se Nietzsche influenciou Adorno na elaboração dos aforismos das Minima Moralia. Enxergar isso criticamente é um passo inicial para se tentar reverter as relações sociais de dominação presentes no cotidiano. A configuração que este texto foi tomando durante a sua elaboração expressa uma intencionalidade primeira: colocar lado a lado esses dois pensadores alemães e ouvir deles algumas de suas criações originais sobre a dialética negativa. se transforma em instrumento eleito na composição da dialética negativa. com que compõe as Minima Moralia é a mesma com que Nietzsche construíra a Origem da Tragédia: o aforismo. pela abordagem que fiz. É com o sofrimento dos homens que se deve ser solidário: o menor passo no sentido de diverti-los é um passo para enrijecer o sofrimento. de condescendência. São Paulo: Ática. Lisboa: Guimarães Editores. todo humanitarismo por trato e envolvimento é mera máscara para a aceitação tácita do que é desumano. NIETZCSHE. que se encontra com Nietzsche setenta anos depois. 33 Ibid.São Paulo: Moderna. de ajuda ao necessitado. aquele que encara de frente o negativo e nele permanece. solidariedade. Bicca. habilmente entretecido pelo olhar ordenador apolíneo. Como é que um olhar enviesado pelo véu da ideologia vigente. negativamente. Toda colaboração. Ribeiro. sem cuidar de seus companheiros horríveis.Trad.. na manipulação dos meios de comunicação. sua intervenção. pode atingir a entranha das coisas e revelar suas relações perversas e mentirosas? Adorno finaliza o aforismo apelando para a responsabilidade dos intelectuais. e.

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A VIDA É BELA: o amor fati de Nietzsche no cinema*1
LIFE IS BEAUTIFUL: the Amor Fati of Nietzsche in film
Resumo O que Nietzsche definiu, sob parcial influência de Schopenhouer, como vontade de poder se revela de modo claro não na vida de César ou de Napoleão, mas nas práticas banais do cotidiano das pessoas comuns. O filme A Vida é Bela tem a ousadia de mostrar isso ao resgatar, em meio à pervesidade de um campo de concentração, o elemento fundamental da filosofia nietzscheana: o amor fati. Palavras-chave NIETZSCHE – SCHOPENHOUER – AMOR FATI. Abstract What Nietzsche defined, under partial influence by Schopenhouer, as the will to power is revealed more clearly not in the life of Cesar or Napoleon, but in the trite everyday practices of common people. The film, Life is Beautiful, has the audacity to show this by redeeming within the perversity of a concentration camp, the fundamental element of Nietzschean philosophy: the amor fati. Keywords NIETZSCHE – SCHOPENHOUER – AMOR FATI.
1 * Esse ensaio, aqui traduzido por Peter Naumann, foi inicialmente publicado na revista filósofica der blaue reiter – Journal für Philosophie, como “Das Leben ist schön Nietzsches amor fati im Kino”.

CHRISTOPH TÜRCKE Professor de Filosofia na Academia de Arte Visual em Leipzig, Alemanha. Autor, entre outros, do livro O Louco. Nietzsche e a Mania da Razão (Vozes, 1993)

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A

s festividades por ocasião do 100.º aniversário da morte de Nietzsche sugerem que seu destino não difere do de todos os outros aceitos no panteão dos grandes filósofos. Aos poucos ele adquire o que Max Frisch denominou a “retumbante falta de influência de um clássico”. Se ele ainda produz em algum lugar um pouco do efeito perturbador e transformador outrora exercido, quando era mencionado às escondidas e lido debaixo do cobertor ou na trincheira, isso acontece mais onde ele atua sem dar a conhecer o seu nome. E aqui temos agora um caso interessante. Há um bom par de anos teve início um violento debate sobre um filme que fez dançar os conhecidos padrões político-morais da superação do passado. Esse debate é um discurso nietzschiano – e muito mais atual do que o acadêmico. Só que os seus participantes não se dão conta disso. Conhecem pouco ou nada de Nietzsche. E quem o conhece não participa, pois o nome de Nietzsche não aparece em nenhum momento do filme. Seu filósofo de referência é outro. O protagonista e seu amigo se vêem em uma situação na qual precisam dividir uma cama. Deitam-se para dormir. O amigo acaba de fazer uma pergunta. Segundos depois, ele dorme profundamente, sem esperar pela resposta. E quem o proveu dessa surpreendente capacidade? Schopenhauer! “Ele diz que você consegue fazer tudo com a vontade: ‘Sou o que quero ser...’, e agora quero ser alguém que dorme. No íntimo, eu disse para mim: ‘Durmo, durmo, durmo!’ E já estava dormindo!”.2 Evidentemente estamos diante de um Schopenhauer caricato. O autêntico teria protestado contra essa redução da vontade, tal como ele a compreendia, ou seja, como motor de todo o processo do universo, a um meio da auto-hipnose. Mas houve um schopenhaueriano a quem essa redução deveria ter se afigurado um exagero bem-sucedido. A assim chamada vontade consiste apenas no modo específico “da hipnotização de todo o sistema nervoso e intelectual”3 que um organismo se permite. É perfeitamente possível formular a relação de Schopenhauer e Nietzsche nesses termos: a revaloração da vontade. O que teria desagradado a uns como caricatura, torna-se o busílis para os outros. Quando jovem, Nietzsche esteve inteiramente sob a influência da concepção schopenhaueriana da vontade. Mas quão mais experiente ficou, mais vazia ela lhe pareceu. Uma vontade do mundo, que age e opera em tudo o que se move: será que ela não é um princípio metafísico vazio, abstrato? Seria uma desconsideração do fato de “vontade de algo” ser sempre sinônimo de “vontade de impor algo” e, conseqüentemente, “vontade de se impor”: querer vencer as resistências, ainda que sejam tão miúdas e banais como o cansaço matutino, quando soa o despertado. Vontade de poder: na opinião de Nietzsche, ela não se encontra apenas em César e Napoleão, mas em todos os assalariados que levantam de manhã,
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BENIGNI, & CERAMI, 1998, p. 35. NIETZSCHE, KSA, 1988, p. 296, v. 5.

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mas um fazer que se compõe a si mesmo sem saber a partir de quê. atos de sugestão. É isso que elas denominam sua vontade. Colocam-na. transformar nada. 1988.” É praticamente impossível imaginar um equívoco mais crasso do que significa o amor fati: ele justamente não é a aceitação bem-comportada de tudo 6 Idem. argumentou a crítica a Nietzsche por parte dos socialistas. em uma espécie de paralelograma de forças que se lhes afigura posteriormente como se fosse uma faculdade da sua própria alma.. formar um conceito das coisas vivas.todas as pessoas que tomam café e levam a xícara à boca. não para frente. Mas é justamente nas coisas mais miúdas. por assim dizer. nesse estado de sono mental que denominamos abstração? Ocorre somente que na vida cotidiana não costumamos notar que procedemos assim. sem fixá-las e colocá-las. não para trás. (. Essa boléia nem existe. tão pouco a ponto de elas nos oprimirem como um destino. Não apenas suportar o que é necessário. na sua soma. ao lado das pulsões e do intelecto. 1988. se descobre o seguinte: a vontade nunca é outra coisa senão vontade de poder. assim como elas são.. Não sei porque ele cita Schopenhauer como filósofo de referência. NIETZSCHE. que está por trás do mundo das aparências como um motor por trás da cenografia. ou como uma espécie de órgão da alma que capacita à vontade como o olhar capacita à visão. só que. não obstante. o título somente leva a sério o que Nietzsche entende por amor fati: “o fato de que não queremos ter nada diferentemente. e procuram se convencer de que se a vontade e o intelecto sentassem juntos na boléia da alma e segurassem as rédeas. Só nos deparamos com isso no caso extremado. a tentativa de impor.) “O público chega aliviado e feliz da sala de cinema e confere prêmios a Benigni por ele finalmente lhe abrir a perspectiva de um caminho de fuga. E justamente nessa linha argumentam os críticos do diretor e ator Roberto Benigni. menos ainda ocultá-lo (. 297. A sua pressão é “uma complexidade de mil modos” que nós “sentimos como unidade”. moral. 329. A vontade não é nenhuma instância que faz algo.6 Isso já causou embrulhos no estômago de muita gente há cem anos. O que denominamos “querer” e “conhecer” é “apenas um certo comportamento das pulsões entre si”.. KSA 3. nós a sugerimos para nós mesmos. Isso como título da história de uma pequena família judia que é levada à força da Itália para um campo de concentração alemão. O jornal New York Times caracterizou o seu filme como uma “versão benigna da negação do Holocausto”. E o filme que aqui está em discussão não faz outra coisa senão promover um exercício mental num caso extremo de hipnose. de impor-se. pois “faltam-nos todos os órgãos mais sensíveis” para registrá-la. KSA 13. NIETZSCHE. nesses casos. o pensamento tornar-se-ia racional e a ação. p. que devemos estudar o que é a vontade de poder se quisermos compreender os seus grosseiros casos na história universal.5 a assim chamada alma é apenas um campo de combate de manifestações pulsionais. p.. Já é bastante ruim se podemos fazer contra as situações. KSA 6. Em outras palavras: a nossa assim chamada vontade é apenas o 4 5 produto mais constante da nossa auto-sugestão. menos chamativas. se manifesta de forma tão banal que as pessoas não se dão conta. seria a nossa relação com o mundo uma relação hipnótica? Com efeito. afirma Nietzsche. será que a provocação poderia ser maior? E. impulso nº 28 125 . à medida que suas manifestações pulsionais e afetivas difusas e divergentes resultam. Nada disso.. portanto. como terceira faculdade da alma. e também não vale a pena falar disso. p. mais delicadas. 559. Sem uma dose de hipnose não podemos apreender. nesse caso. E. É inteiramente errado imaginá-la como princípio movente. digerir. Seriam os nossos atos cotidianos de vontade. que se confere uma direção e uma coesão sem saber como. E como deveríamos fazer uma idéia. 1988. então.4 Mas essa complexidade não é. Tudo isso é ficção. afirma Nietzsche.)”. não em toda a eternidade..) mas amá-lo (. Não se pode falar de três forças fundamentais da alma. Pessoas somente possuem um self unitário. Mas daí ainda a amar o destino? Isso é perverso. pois já o título é sugestivamente hipnótico no exato sentido nietzschiano: A Vida é Bela. e o que a filosofia denomina “autodeterminação” é apenas um caso ideal de auto-hipnose.

o filme encena – sem dúvida à maneira de um clichê. E o Fulano.’”. passei na farmácia com um amigo. existe a arte da inversão.. 1988. os dois são levados à força.. um chinês que tem um canguru –: ‘– Não. E este seria insuportável se não fosse a prova de resistência do amor fati. à qual o pai. “– Aranhas. ele mantém o filho na convicção de que tudo era continuação do jogo ominoso e que os dois estariam prestes a ganhar o prêmio principal: um tanque. que absorve a força do oponente. por meio do seu olhar amoroso. O artista trágico não é nenhum pessimista – ele precisamente diz sim a tudo o que é questionável e mesmo ao que é terrível”. mobilizável a qualquer tempo. eles não deixam entrar espanhóis e cavalos.. De quem você não gosta?”. “Nada dá certo sem que a ousadia tenha sua parte 126 impulso nº 28 . é “a realidade mais uma vez. “– Mas nós deixamos entrar todos!”. l. teria organizado uma excursão para fora da cidade com um grande jogo. E você?”. tão artificial. feliz.. E como aqui no detalhe. É claro que um tal final só existe no cinema. Lá trás há uma loja de ferragens. descobrem na caminhada pela cidade. coagulada em sigla. uma nova vida ao clichê do campo de concentração.. irreal. fixa. Ela está indo justamente nessa direção. correção”. O prêmio principal anda realmente em sua direção. Parece uma aula elementar de amor fati nietzschiano quando o livreiro Guido e seu filho Giosuè. se não quisermos que a quintessência do terror moderno se enrijeça em monumento. O olhar amoroso sobre o cotidiano do campo de concentração é um olhar artístico e. de tal forma que ela finalmente aparece como um idiota chapado: isso é mais destrutivo do que qualquer erupção de indignação. argumento moralista ou frase feita. 79. “– Ora. e o pai Guido afirma ao aniversariante que 7 8 Ibid. se sacrifica. Isso exige o privilégio da distância. no qual seria necessário fazer mil pontos. Onde existe o amor fati. o primeiro tanque dos aliados dobra a esquina. c. por que os judeus e cachorros não podem entrar aí?”. Cada um na sua. a partir de amanhã também vamos colocar um cartaz. 107ss. Quem foi interno de um campo não pode olhar de forma tão artística. potenciá-la por “seleção. Benigni opôs algo que não exige apenas coragem (Mut). pouco antes de serem levados à força ao campo de concentração. BENIGNI & CERAMI. reforço.8 Dizer “sim” à proibição dos nazistas. Mal ele saiu engatinhando de seu esconderijo no campo abandonado. a graça do nascimento tardio. “– Não. e entabulam a seguinte conversa: “– Pai. mas a transformação da aceitação em um evento de dignidade própria. nessa medida.7 O verdadeiro artista é um artista da vida – justamente por desarmar dizendo “sim” e fazendo como quem diz “sim”. reforço. Estou cheio! Estou farto desses visigodos!”. o campo de concentração como o que ele passou a ser na consciência e no discurso da esfera pública: uma quintessência do terror moderno. A isso.. e o motorista do tanque ergue a criança. mas ousadia (Übermut): um filme que insufla. clichê. pois a arte. na vitrine de uma confeitaria. o filme opera em toda a sua extensão. o cartaz “Entrada proibida para judeus e cachorros”. o farmacêutico – ontem. muito pelo contrário. apenas em seleção. mas torna visível”. O filho sobrevive somente graças a essa sugestão. Lá. p. No aniversário do pequeno Giosuè. Ver o cotidiano do campo de concentração como um excitante jogo para fazer mil pontos significa olhá-lo com amor. aumenta o seu impulso e inverte-a em força sobre o oponente. Ele não pretende ser uma representação realista de um campo de extermínio. conforme diz. O artifício do amor fati é um modo emocional-mental de agarrar. No campo de concentração real. p. eles não querem judeus e cachorros. Durante todo o tempo no campo. de certo modo. Ele não gosta deles. a sugestão não teria durado um dia sequer. chineses e cangurus não podem entrar aqui!”. olhar para ele. correção. finalmente. Essa quintessência. Mas tal graça deve ser aproveitada. Mas isso o filme também não sugere. de forma mais perscrutadora do que qualquer olhar analítico sobre os fatos – bem no sentido da frase de Paul Klee: “A arte não reproduz o que é visível. Para Nietzsche. O absurdo dos campos de extermínio é levado ad absurdum pelo “sim”. ela é idêntica à arte em geral. semelhante ao judô. em seus braços. “– Eu? Não gosto dos visigodos! E amanhã vamos escrever: ‘Entrada proibida para aranhas e visigodos’.o que acontece. Toma.

a força e o sentido de toda a lembrança: que nos libertemos do pesadelo do passado. os desmascaramentos e as refutações sempre iguais resultam em nada.10 Somente à luz do campo de concentração – no qual a conversa inocente sobre árvores. “autosuperação da crítica”. KSA 6. à frase feita ou ao argumento moralista quanto. na sua forma mais elevada. Com tudo isso. 1998. __________. ao invés de enrijecermos sob sua pressão. Kritische Studienausgabe (KSA). em última instância.9 Em A Vida é Bela. Referências Bibliográficas BENIGNI. impulso nº 28 127 . Zweite Abhandlung. Berlim/Nova York/Munique: De Gruyter/DTV. B. 1988. KSA 6. Berlim/Nova York/ Munique: De Gruyter/DTV. 1981. __________. Tal revaloração é o oposto de uma neutralização final do potencial poluente da história. 1988. escreve Nietzsche. 1998. os primeiros açafrãos ou os últimos raios de sol. Ecce Homo. Tendem tanto ao clichê. uma vez que foi impossível superá-las in loco. Contra isso só ajuda uma alegria de viver que supera ao menos posteriormente as atrocidades. Berlim/Nova York/Munique: De Gruyter/DTV. R. Talvez só reste uma chance para a crítica: ela assumir uma forma artística. KSA 6. se elas levarem incondicionalmente a sério a evocação do que foi feito contra os seus antepassados. 5. que alegria ainda lhes restará? Brecht não estava inteiramente errado ao escrever o poema Aos Pósteros: “Que tempos são estes. Primo Levi e Jean Améry são apenas os casos mais conhecidos. alegria de viver. Ela não se poupa a memória: aprofunda-a. KSA 13. NIETZSCHE. E mesmos as gerações subseqüentes. nos quais uma conversa sobre árvores já é quase um crime. Die Gedichte in einem Band.nisso”. a fruição da música ou uma dança alegre se afiguram todas quase como um crime – a imensa tarefa de revaloração do amor fati se manifesta em sua plenitude. Götzen-Dämmerung. F. por incluir o silêncio sobre tantas atrocidades?”. Contestar-lhes ao menos a vida póstuma significa contestar-lhes o direito à palavra final. O amor fati de Nietzsche poderia ser o seu artifício: o início de um procedimento que.V. p. Frankfurt am Main. Die fröhliche Wissenschaft. Talvez o seu nome seja. Berlim/Nova York/Munique: De Gruyter/DTV. __________. essa sua quintessência do terror moderno. a ousadia passa a advogar todas as manifestações humanas que o campo de concentração ameaça matar mesmo depois de sua duração real. Berlim/Nova York/Munique: De Gruyter/DTV. p. Em que consistiria a alegria dos sobreviventes? Há várias pessoas que não suportaram a vida posterior e se suicidaram. Não se trata de nada menos do que inverter esses quase-crimes em impulsos de combate ao crime para que as atrocidades não vençam postumamente e apaguem para sempre toda a 9 10 NIETZSCHE. a sempre reiterada imputação. § 4. BRECHT. 1981. BRECHT. 1998. talvez ainda deva ser desenvolvido.Das Leben ist schön. Não evoca apenas. KSA 3. então. o filme inaugura um novo discurso sobre a crítica. & CERAMI. __________. mas também presta contas acerca do que perfaz. Nachgelassene Fragmente. 1998. também a elas tende. Zur Genealogie der Moral. Faz sentir que as denúncias. 723. Frankfurt am Main: Suhrkamp. v.1998. 57.

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busca-se demonstrar a filosofia de Nietzsche como uma das possibilidades de leitura do fenômeno da Modernidade. Ao contrário. he elaborates an analysis of the project from its most perverse aspects. understanding that this is a period in which the human person is found excluded. O autor. Nietzsche’s philosophy is demonstrated as one of the possibilities in reading the phenomenon of modernity. On the contrary. a crítica ao cristianismo e à ciência histórica –. recorre ao pensamento nietzschiano para encontrar. elementos inspiradores para uma nova crítica. inspiring elements for a new critique. e reconhecendo a necessidade de repensar o projeto ocidental de humanidade. JUNOT CORNÉLIO MATOS Professor titular do Departamento de Filosofia e decano do Centro de Teologia e Ciências Humanas da Unicap (Universidade Católica de Pernambuco). O filósofo recusa-se a investigar novos horizontes do projeto de Modernidade. Palavras-chave MODERNIDADE – CRÍTICA – PROJETO ANTROPOLÓGICO. Keywords MODERNITY – CRITIQUE – ANTROPOLOGICAL PROJECT. Though the thematic presentation of the fundamental elements of the above mentioned critiques (radical nihilism. returns to Nietzschean thought in order to find within the genesis of the radical thinking of this philosopher. Abstract The central point of this reflection is the discussion about the Nietzschean critiques towards modernity. and recognizing the necessity of rethinking the occidental project of humanity. The author. Mestre em Filosofia Social e doutor em Educação junot@unicap. the critique of Christianity and historical science). This philosopher refuses to investigate new horizons of the project of modernity. Mediante a apresentação temática de elementos fundamentais da referida crítica – o niilismo radical.CRÍTICAS NIETZCHEANAS À MODERNIDADE NIETZSCHEAN CRITICISM TO MODERNITY Resumo A presente reflexão traz como ponto central a discussão acerca da crítica nietzecheana à Modernidade. faz dela uma análise desde seus aspectos mais perversos.br impulso nº 28 129 . entendendo ser este um tempo em que a pessoa humana se encontra excluída. na gênese de seu pensamento radical.

levando o niilismo às últimas conseqüências. o que pode ser amado no homem é que ele é um passar e um sucumbir”. bem longe de si. Nietzsche reconheceu o niilismo e o examinou como um fato clínico. p. está a vontade de voltar-se para o que é inatural e de combater. às instituições colocadas sob o signo da “ilusão” ou da “decadência”. A tentação individualista foi vista como uma das mais notáveis características da chamada Modernidade. e uma gota de nuvem. p. e que se estende às heranças culturais. Situar o problema da crítica nietzschiana à Modernidade significa colocar como questão até onde era mesmo o projeto de Nietzsche elaborar uma crítica da razão contra a razão.4 Alguns indicam que. uma categoria favorável a uma concepção humanista nova? Nietzsche aponta o horizonte de sua missão: A minha missão consiste em preparar para a humanidade um momento supremo de retorno à consciência de si mesma. Não se pode desconsiderar que o pensamento de Nietzsche se desenvolveu numa direção em que se nega todo valor ao que representa a dimensão social da existência. ao contrário. Cevenacci1 opina que “com Nietzsche. um grande meio-dia com o qual a mesma possa olhar para trás. “O que é grande no homem é que ele é uma ponte. Tal afirmação incondicional tem como escopo mantê-lo um indivíduo só. 1989. 180. 18. em si. OLIVEIRA. Nietzsche edificou uma filosofia sobre o homem. Oliveira2 opina que “o pensamento de Nietzsche vai se transformar no horizonte fundador de todos os diferentes matizes da crítica à razão que experimentamos nos dias de hoje”. Nietzsche colocou-se contra a razão. numa absoluta priorização do indivíduo. mas esse relâmpago se chama o além-do-homem”. e o classificam de “irracional”. 62. Este 1 2 3 4 CEVENACCI. Como entender essa filosofia da individualidade? Em que perspectiva deve ser considerado o eterno-retorno-asi-mesmo. situado – pela primeira vez – o problema do “por quê?” e do “com que fim?”. para tanto. outros. Pela primeira vez o niilismo se torna consciente. o niilismo parece se tornar profético.O legado espiritual e o testemunho existencial de Frederico Nietzsche se demonstram de uma atualidade marcante.3 “Vede. Dizia-se o primeiro niilista completo da Europa”. Ibid. a recuperação da vida – reduzida a acidente. 130 impulso nº 28 . e em que sentido se pode encontrar. aí. Configura-se. “multidão”. o espírito do tempo. advogam ter ele denunciado a racionalização da vida pelo uso autoritário da razão instrumental. p. e não um fim. Em primeiro lugar. Há uma insatisfação crítica em face de todo o conhecimento que se impõe com a marca da objetividade. NIETZSCHE. Há uma condenação de tudo o que é “massa”. “rebanho”. segundo sua visão – e a elaboração de uma nova compreensão de homem. como projeto fundamental de sua filosofia. 1978. 1968. Todas essas rejeições apresentam-se. eu sou um anunciador do relâmpago.

1.) uma certa maneira de se relacionar com o presente. Não se tem como “bicho-papão”. a recíproca é verdadeira. Nietzsche insurge-se. Porém. adotar outra perspectiva. pp. Se nasceu póstumo é porque endereça ao mundo em que vive uma crítica radical.5 As teses expressas na filosofia nietzschiana. Ibid. são uma prova e uma provação. Mas a despro5 6 7 Adiante. Tal desejo está motivado por uma vontade de mais vida: “Derrubar ídolos (minha palavra para ideais). Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extra-moral. Vivo de meu próprio crédito. aquele que destrói. imperando o instinto da negação. Assumiu perigosamente a tarefa de empreender uma crítica radical contra 8 9 Idem. segundo sua própria autobiografia espiritual.) Basta-me falar com qualquer homem culto que venha a Alta Engadina no verão para convencer-me de que não vivo.) destruidor por excelência”. mas. já se deveria sabê-lo. lida na ótica e na perspectiva da crise da Modernidade e de sua idéia de homem. 10 Ibid. p. NIETZSCHE. ao contrário. o próprio Nietzsche tinha consciência das dificuldades dos seus contemporâneos em compreendê-lo e. propostas em poemas. pela atualidade de Nietzsche pode significar um anacronismo. Assim Falava Zaratustra. § 6. p. contra o qual no fundo rebelam-se os meus hábitos. contra todo o marasmo de uma humanidade presa a valores que lhe negam a vida. Isto até na escolha das vogais”. isto sim é meu ofício”. MARTON. Na verdade. que visa a uma transmutação de todos os valores. Não obstante. in NT.. que eu viva? (. como ele mesmo se apresenta. contra ele.. 1968. mas um discurso mesclado a um tempo e a um espaço determinados. Diz-se “o primeiro imoralista (. dirá: “Para aquilo a que não tem acesso por vivência. 1990. então. o instinto da corrução. que é dizer: Ouçam-me! Pois eu sou tal e tal. seria um mero preconceito... debaixo de seus mais sagrados conceitos de valor se ocultou.. não me confundam!8 Figura controvertida. na visão de Marton. Em carta escrita a Erwin Rohde.11 Perguntar. Busca-se uma via crítica que veja que tipo de contribuição pode dar a filosofia de Nietzsche. Ao justificar o porquê da escrita do seu polêmico Ecce Homo. o instinto de decadência. Sobretudo. pois não deixei de “dar testemunho” de mim. hoje. Se ele se considera póstumo é porque se acha intimamente ligado a sua época. por vezes literatura. escreveu: Prevendo que dentro em pouco devo dirigir-me à humanidade com a mais séria exigência que jamais lhe foi colocada. (. § 1. 7-8. Por que escrevo tão bons livros.. 12 Idem. O que Nietzsche diz não constitui um discurso autônomo e independente... o caminho a seguir não pretende ser nem apologético nem de detratação.) Radicalidade implica diferença. inverter o ângulo de visão.) Nestas circunstâncias existe um dever. portanto. solitário.. (. Prólogo. De Nietzsche se pode dizer: é um homem do seu tempo. alguns nascem póstumos”.12 Sua filosofia deverá. em aceitá-lo.6 Extemporaneidade significa. ditirambos e textos aforismáticos. um extemporâneo: “tampouco é ainda meu tempo.escopo é uma conseqüência necessária da convicção de que a humanidade não caminha por si mesma. p. Prólogo.. visto que ele mesmo se disse “inatual”. impulso nº 28 131 . que inova a forma e o conteúdo de se fazer filosofia..9 Nietzsche não deseja ser confundido. 11 Ibid.7 porção entre a grandeza de minha tarefa e a pequenez de meus contemporâneos manifestou-se no fato de que não me ouviram. não se tem ouvido”. Nietzsche é um irreverente ou. Nietzsche declarou: “Meu estilo é uma dança. mas também não se vê como “santo”. mais ainda o orgulho de meus instintos. não é realmente governada pela providência divina. É por isso que nos leva a alterar o ponto de vista. Idem. ser encarada como uma obra assistemática.. muito mais.10 Ele é. em linha reta. 159. inscritos num contexto preciso. (. sequer me viram. um jogo de toda a sorte de simetrias e um pular por cima dessas simetrias. pareceme indispensável dizer quem sou.. 44. Extemporaneidade implica radicalidade. 21.

porém. elevada à condição de problema filosófico. Com ele./90. Pode-se. acertar os próprios passos com os da história. seja num mundo divino (cristianismo). a modernidade significa um projeto social que pressupõe racionalização dos cidadãos não apenas na modernização da máquina estatal. Nietzsche não é um sistema. Criou a metrópole moderna. que a sua filosofia não é a única. hoje. assim. ele acrescenta o princípio da subjetividade. multiplicou o impacto do capitalismo sobre a sociedade e produziu duas novas classes sociais: os proprietários da indústria e a classe trabalhadora.. conceber o termo. habituar-se com uma tópica cuja riqueza e sutileza logo tornam irrisórias as ‘convicções’ que satisfazem as ideologias correntes”.. Os sociólogos tendem a definir a Modernidade como a civilização inaugurada no final do século XVIII com dois importantes eventos sociais: a revolução industrial e a revolução democrática. isto é. 24/ago. 241. também. fomentou os ideais de liberdade e igualdade e criou o desejo 16 Ibid. E ainda: esse trabalho apresenta. Para outros. O termo modernidade está. a idéia de modernidade é. Hegel é o filósofo por excelência da Modernidade. após tais visões (. Finalmente. uma possibilidade de leitura entre tantas outras já realizadas. A revolução democrática levou à rejeição das hierarquias tradicionais. Fomentou o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e gerou a expectativa de um progresso contínuo. 1988. 13 14 15 do mundo que o homem moderno de qualquer latitude e vivendo nos novos tempos deve adotar. recorrendo à idéia de que necessário se faz manter-se na “ordem do dia”. VAZ. pode-se. e cuja primeira manifestação é. acima de tudo.15 como expressando “a concepção Ibid.14 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Ousadia seria pretender definir a Modernidade num conceito definitivo. passa a ser uma categoria de leitura do tempo histórico. É de Kant a definição clássica da Modernidade. Ele assinala. importa. A revolução industrial criou grande riqueza. como evento importante. pois.. porém iniciar-se num questionário. deixando-se guiar pela razão e rompendo com as tradições e dogmas que determinavam sua vida até então. p. 125.Paulo. Nietzsche é o viés pelo qual se deseja ver a Modernidade. G. Daí sua angustiante questão: “Como poderíamos nós. conforme Vaz. Tais acontecimentos proporcionaram o advento de uma nova cultura. em contraposição ao mundo real. de ordem a julgar o tempo. LEBRUN. pensar com ele. O Estado de S.13 A inspiração para um caminho a seguir rumo à filosofia nietzschiana está indicada por Gérard Lebrun: “Mas que outra coisa pretender. Não há lugar para essa pretenção.qualquer espécie de transcendência que negue a vida. Ler Nietzsche não é entrar num palácio de idéias. seja num mundo ideal (metafísica). cuja primeira característica é o privilégio de conferir ao próprio ato de filosofar a atualidade de seu exercício. mas também no redimensionamento da própria vida em sociedade. quando nos propomos a ler Nietzsche hoje? Muito se enganaria quem pretendesse travar conhecimento com um filósofo a mais. Alguns falam de modernidade econômica e política. ela ganha “status” de problema filosófico. Em vez de pensar o que ele disse. 132 impulso nº 28 . ainda. desgastado pelo freqüente e vasto uso que dele se faz. abrindo espaço para a razão humana e profana. falar em modernidade cultural. em contraposição ao mundo humano. Max Weber explicita a definição kantiana ao apontar para o mundo moderno como um mundo que descarrila. o surgimento da ciência histórica como discurso explicativo do passado. correlativa à formação de uma consciência histórica. Vaz16 reflete que a Modernidade. p. Está claro. nela o homem chega à sua maioridade. Dessa forma. e em face da qual são atingidas por irremediável caducitude as representações ético-religiosas das sociedades tradicionais”. Para ele. referindo-se aos ideais e metas que muitas sociedades almejam alcançar.) satisfazermo-nos como homem atual?”. é um instrumento de trabalho – insubstituível. À definição de Modernidade pela razão. Tal princípio tornou-se o horizonte e o fundamento da cultura moderna. “pensada filosoficamente. o aparecimento da história”. apenas.

Freqüentemente. fundados em va17 18 CALDERA. e particularmente das crises históricas. considerado como mero objeto. e estas acontecem quando muda radicalmente a estrutura da vida”. leva a in- dagar sobre os fenômenos que permitem delimitar a Modernidade como uma época e apreendê-la em suas tendências básicas. neste caso. definia o destino humano em termos de liberdade e responsabilidade. fazendo a cidade grande. para compreender as raízes da dinâmica específica da modernidade. porém. Nesse sentido. 1984. cabe à filosofia. Há quem considere que tal crise se restrinja à modernidade cultural ou a algum de seus aspectos. a filosofia racional que. A velocidade da técnica e a versatilidade da ciência nem sempre têm comungado. Para outros. a Modernidade e sua crise têm sido objeto da ocupação de pesquisadores qualificados. parece que a idéia de razão pura tende a não encontrar suas conseqüências cabais numa razão política. O sucesso das revoluções industrial e democrática acabou transformando o “liberalismo” na atitude filosófica dominante nas sociedades modernas. coroada por uma multidão de miseráveis. posteriormente. sempre mais extensa. elevando a razão à condição de guia da autolibertação humana.de participação política. significava a ciência demonstrável para entendimento e controle da natureza e da sociedade. impulso nº 28 133 . outros advogam a imperativa necessidade de se repensar uma neomodernidade. por sua natureza. o projeto da modernidade ainda não está concluído e a crise é. em seus resultados. transcendental ou coletivo) e da consciência em sua relação de oposição e domínio do outro – e dos outros –. três posições bem diferenciadas. expurgando suas lamentáveis conseqüências. caracterizado pela centralização do poder e por uma burocracia. A postura de crítica neoconservadora é a de salvaguardar a validade da racionalidade funcional e da lógica capitalista que impulsionam as produções científico-técnicas e técnico-econômicas. “As crises históricas determinam as mudanças históricas. Alguns apregoam o “fim dos tempos modernos”. é a crise da Modernidade. certamente se deve recorrer aos conceitos de subjetividade e racionalidade. seja pelo que esta dá à história. no dizer de muitos. também do ponto de vista filosófico. Razão. parece pertinente falar de nossa Modernidade como de uma Modernidade em crise.18 Inserida em um mundo complexo e em crise. Ambas as revoluções encarnaram idéias egressas do pensamento iluminista dos séculos XVII e XVIII. 17. em todos os homens. a pós-moderna e a teoria crítica. portanto. entendida a partir do eu (individual. crise de um modo de viver e compreender a Modernidade e suas revoluções. A vida ganha um ritmo alucinante. também. Na verdade. A Modernidade. ainda. Existem. p. que pretendiam destruir a velha ordem do seu status quo. Surgiu. a saber: a neoconservadora. portanto. Dessa forma. Milhões de pessoas são seduzidas a abandonar seu habitat ancestral e marchar em busca de uma nova vida na prometida metrópole. 14. sua igualdade e seu direito à liberdade. portanto. ainda. a filosofia não deve ficar indiferente a este seu contínuo renovar-se. São. da superação da filosofia da subjetividade. também. p. está em crise.17 O problema. As grandes descobertas da ciência e o avanço da tecnologia renovam incessantemente a imagem do mundo e do lugar que o homem é chamado a ocupar. serão objeto de reflexão. no geral. Fala-se. Tal questão é relevante para a filosofia uma vez que “o desenvolvimento da história. nutrem um consenso não só com respeito ao fato da crise mas. aqueles que preferem falar em Pós-Modernidade. que. São muitas as tentativas de elaborar paradigmas novos que possam orientar a caminhada do mundo moderno. também. A necessidade de precisar bem as críticas que. seja pelo que recebe dela própria”. Pois a passagem para a Modernidade coincide com a emergência de um sujeito humano consciente de sua autonomia e com a vitória de uma análise racional de todos os fenômenos da natureza e da sociedade. com o humanismo dos românticos nem com o idealismo revolucionário que pretendia reconhecer. Idem. o Estado moderno. Continua havendo um descomunal crescimento urbano. ao fato de já estar superado um certo modo de compreender a razão e a subjetividade. Creditam a elas os avanços da Modernidade.

A crítica pós-moderna faz-se a partir da idéia de sua polêmica.. Nietzsche o elaborou de forma bastante consciente. a filosofia deveria ser esse instrumento crítico que traz à luz os aspectos ofuscados pelas ilusões daqueles para os quais a realidade é algo perigoso. o livro é uma escola de gentilhomme. (. destituindo.20 A CRÍTICA NIETZSCHIANA Nietzsche é freqüentemente tomado como instrumento para a crítica à Modernidade. para que pudesse aparecer como equivalente do poder unificador da religião e superar as bipartições da modernidade a partir das suas próprias forças motrizes. p. NIETZSCHE. § 20. segundo Rouanet. Sobretudo os pós-modernos buscam em sua filosofia elementos para a crítica à razão. a argumentação alterase pela base. é preciso não haver aprendido a temer. recusando-se a realizar uma nova revisão do conceito de razão. em todo.) Todas as coisas de que a época se orgulha são 20 HABERMAS. 240. de maneira muito variadas e que não seguem uma orientação única. 91. Nietzsche declara a sensibilidade que deverá ser inerente a todo filósofo: “Todo homem que for dotado de espírito filosófico há de ter o pressentimento de que atrás da realidade em que existimos e vivemos se esconde outra diferente. entendido o conceito de maneira mais espiritual e radical do que nunca. Naturalmente. deve-se falar em tendências que se elaboram... a filosofia se encontra numa encruzilhada: ou o compromisso ou a indiferença. depois como apropriação libertadora e. não se pretende caracterizar a filosofia como “dona de toda a verdade” ou particularizar uma filosofia como a mais verdadeira. ROUANET. Esta tende a acentuar os aspectos perversos da Modernidade para. 19 Nietzsche opta por elaborar uma crítica radical. Mas como nenhuma filosofia é neutra. Entretanto. 1990. numa tentativa de demonstrar a Modernidade como época já ultrapassada. denunciando seu compromisso com um Estado excessivamente burocrático e uma razão totalitária. a tentativa de talhar o conceito de razão à medida do programa de um iluminismo em si mesmo dialético. por três vezes. Rebela-se contra a educação e a cultura. Fracassou. assim. Origem da Tragédia. a dialética do iluminismo.) com o ingresso de Nietzsche no discurso da modernidade. princípio fundamental que atravessa toda a história do homem. juntamente com indicações de um tipo antipático o menos possível. um tipo nobre. 1987. Habermas defende que. denunciando a proliferação de conceitos. como simples máscaras da vontade de potência. Critica o cristianismo e o identifica como cúmplice de um abstracionismo que esvaziou tudo quanto é essencial.lores como o gerenciamento racional da economia de mercado. Enquanto possibilidade de leitura da realidade. assim. Inicialmente a razão fora concebida como autoconhecimento conciliador. o dever e a culpa. Referindo-se ao seu Além do Bem e do Mal. despedir-se da mesma. mesmo a política moderna. Nietzsche só tem uma alternativa: ou submete mais uma vez a razão centrada no sujeito a uma crítica imanente ou abandona o programa na sua globalidade. 21 134 impulso nº 28 . o essencial. Com Nietzsche. Nesta constelação. Volta-se contra a metafísica.19 finalmente.21 O projeto de uma crítica à modernidade. diante da crise da Modernidade. de modo pleno ou embrionário. como recordação compensatória. por conseqüência. e. na própria Modernidade. Na realidade. Neste sentido. não excluídas as ciências modernas. que diz sim. p. e chama a atenção para a deformação historicista da consciência moderna. (. a primeira não passa de uma aparição da segunda”. de suas produções culturais”.. declara: “Este livro é. A teoria crítica define a Modernidade como um projeto inconcluso e com suficientes reservas utópicas para realizar-se. a crítica à Modernidade assume a forma de uma crítica devastadora da razão. busca pela mediação do seu método genealógico “desmascarar o bem e o mal. É preciso ter dentro de si coragem para simplesmente suportá-lo. tal tendência pode ser encontrada. o pragmatismo e o calculismo. uma crítica da modernidade. que. Há quem diga que.

uma tendência moderna a aplainar as diferenças individuais das pessoas por uma imposição uniformizadora. Reserva. seus compromissos com a racionalidade. p. 1887/mar. e tampouco se quer analista político. Correlativamente. mas sim assumindo a tarefa de avaliar. impõe-se como característica mais universal da Modernidade. mas como termos pomposos para algo completamente diferente (e até oposto!)”. ao mesmo tempo. verdade: todas essas grandes palavras só têm valor na luta enquanto es22 23 tandarte. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada. Deve-se ressaltar o estilo aforismático de sua filosofia.22 Pode-se asseverar que Nietzsche olha a Modernidade a partir dos seus aspectos mais perversos. Num fragmento póstumo. a ‘compaixão pelo sofredor’. Crítica Nietzschiana à Metafísica O niilismo. denunciando. A interpretação procura fixar o sentido de um fenômeno. no sentido estrito da palavra.percebidas como contrárias a esse tipo. a si. a avaliação busca determinar o valor hierárquico desses sentidos. por exemplo a famosa ‘objetividade’. a tarefa de analisar as “idéias modernas”. Identifica. impulso nº 28 135 . 1888. o ‘sentido histórico’. despojou a história de sua função reveladora. ao que parece. Com seu estilo peculiar. o aforismo é. herdada do cristianismo e mantida nas noções de progresso e de classe. Tem por grande tema a vida e o projeto de transmitir todos os valores. Fraternidade”. Nietzsche levanta seus protestos. Atenta para os acontecimentos de sua época e não se furta à tentação de refletir sobre eles. abolição da escravatura. Contra a tirania da razão científica. § 2. pois a tarefa de interpretar seria uma espécie de análise clínica daquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismo. Intimamente ligados em seu pensamento. no clima de decadência e esteticismo europeu. ao mesmo tempo em que a tarefa de avaliar leva à criação de perspectivas. amor à paz. justiça. e se insere no movimento mais amplo da reação antipositivista. a ‘cientificidade”. Aborda vários temas pertinentes à filosofia política. as correntes de idéias e os sistemas de governo. ao mesmo tempo. em sua obra. como más maneiras quase. embora não se pretenda um teórico do poder ou analista político. Porém. a Modernidade como uma época histórica cuja principal característica é a negação da vida. historicamente. O filósofo do futuro deverá ser artista e médico-legislador. Assim. a política aparece como estreitamente vinculada à moral e à religião23. com sua submissão pelo gosto alheio. ele entende o filósofo como crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos valores. política e religião integram um campo de investigação mais amplo: são objeto da crítica dos valores. Desse modo. considera a democracia. Nietzsche inaugura uma nova concepção da filosofia e do filósofo. direitos iguais. 136. Scarlett Marton. Não está ele a buscar o ideal de um conhecimento verdadeiro. Repetidas vezes. simultaneamente uma história e um destino. Ecce Homo. São muitos os poemas e aforismos com os quais Nietzsche enriqueceu a literatura e a filosofia do seu tempo. revolução. É desse ponto de vista que avalia os acontecimentos históricos. o socialismo e o anarquismo. Igualdade. Nesses termos. Analisa o ideário da Revolução Francesa com a palavra de ordem “Liberdade. pela imposição de valores morais que reduzem o homem a mero animal gregário. em seu artigo Nietzsche e a Revolução Francesa. Departamento de Filosofia/USP. mediante uma crítica destemida e radical. O pensamento de Nietzsche deve ser situado. 18: 85-96. de conservação. (371) 11 (135). Nelas identifica e denuncia um procedimento marcado pelo ressentimento. Nietzsche adverte para a estratégia dos modernos. 1990 NIETZSCHE. São Paulo. na tentativa de fazer valer mais o instinto de sobrevivência. nov. pode-se ler: “Cristianismo. mostrando como o conhecimento histórico se acha relacionado com a religião cristã e a moral dos ressentidos. moral. No seu entender. o aparecimento das “idéias modernas” faz parte dessa estratégia. Frammenti Postumi. e ataca o reino do animal de rebanho.24 É a partir dessa perspectiva que o filósofo encara todo o ideário moderno. In: Discurso. do que a vida. 24 NIETZSCHE. mostra que o filósofo não se pretende teórico do poder. com seu arrastar-se ante os petis faits. não como realidade. no pano de fundo da crise do fim do século XIX. acontecimento propriamente europeu. contra o conformismo dos princípios democráticos e igualitários e contra a medíocre confiança em um progresso determinista. filantropia. A história do pensamento ocidental é considerada como um niilismo que se radicaliza.

todos. 12. inventam pseudovalores e forjam o mito da eternidade. falta a resposta ao ‘por quê?’. no rebanho em si. disseminada por toda a Europa: “Evidentemente se sabe. são ou deveriam ser possíveis”. é uma idéia falaciosa. 101-102. por entender ser esse o lugar mais alto das determinações dos valores. os vencidos vislumbram o além como forma de compensar a própria miséria.28 O filósofo aponta a religião.”26 Contudo. toda a crítica à metafísica ancora-se nesta categoria. O desejo do “animal do rebanho”. pois. Idem. abordar os homens das ilusões modernas. Critica os anarquistas. uma ‘coisa-em-si’. Para ele. § 35. antes da qual. “Pressuposto dessa hipótese: que não exista uma verdade.Nietzsche tomou as reflexões sobre o niilismo como uma forma de analisar a crise do seu tempo.. Ele se apercebe de que a metafísica está na base da moderna democracia parlamentar e de que esta. uma luta acirrada contra o cristianismo. elas negam a vida. “Niilismo: falta o fim. pois da qual muitas outras morais. Nietzsche o faz consciente e intencionalmente. que não exista uma constituição absoluta das coisas. Ao homem das idéias modernas. Observa que a incumbência do Estado deveria ser a de mediar a realização da cultura e fazer nascer o além-do-homem. isto é. mediante uma crítica radical e devastadora. aqui. Nietzsche escolheu o horizonte da análise filosófica (metafísica). ao homem. na radical e instintiva amizade a toda outra forma de sociedade que não a do rebanho autônomo. § 202. Entretanto. O filósofo entende que a liberdade. tópico do ideário político ou postulado de doutrina moral. toda a luta dos socialistas está fundada em uma crença na comunidade redentora. A crítica nietzschiana se volta contra o Estado democrático por entender que ele se sobrepõe. c. o niilismo extremo.27 Sua percepção é de que tal moral sugere o aplainamento das diferenças individuais. O que significa niilismo? Que os valores supremos se desvalorizam. p. 28 Ibid. Considera ele que o cristianismo consagrou o dualismo helênico. como elemento de sublimação e justificação dessa moral. como absoluto. sobretudo mais elevadas. Decadência. Dessa forma.”25 O diagnóstico do niilismo. a crítica nietzschiana à metafísica é um combate à teoria das idéias socrático-plantônicas e. Essa repropõe o valor das coisas propriamente no fato de que a tal valor não corresponda nem tenha correspondido nenhuma realidade. aliás. então. da negação da possibilidade de erigir valores segundo uma convicção particular. mas só um sintoma de força por parte de quem põe o valor. Anota que o movimento democrático é uma herança do movimento cristão. Torna-se fim em si. entendida como escravização do pensamento. pp. Além do Bem e do Mal. Ibid. mas à qual deve o homem pura e simplesmente adequar-se. II. A metafísica e o cristianismo representam a perversão dos instintos que colocam a vida na condição de mero acidente. e os socialistas. ao seu ver. que querem a sociedade livre mas. na verdade. na Europa. isto é niilismo. Nietzsche se refere como “animal de rebanho”. VIII. por serem dilapidadores da cultura. “Moral de animal de rebanho” porque não é dado ao indivíduo o direito à inquirição e à salvaguarda das peculiaridades de sua personalidade. t. a democracia é uma forma histórica de decadência do Estado. 136 impulso nº 28 . permitindo à consciência fraca contentar-se com uma vida de resignação e sofrimento. constituindo-se num “platonismo para o povo”. diz Nietzsche. com a retórica da “igualdade de direitos”. pode ser encontrado até mesmo nas instituições políticas e sociais. pela imposição totalitária de uma moral não problematizada. Assim. reservando para o homem a tarefa de servi-lo. de25 26 27 Ibid. Nietzsche pretende. Nietzsche considera que tal moral é “apenas uma espécie de moral humana ao lado da qual. o que Sócrates acreditava não saber. Assim. também. Não está de acordo com a moral dualista. Para ele. conquistada numa luta quase neurótica contra o pecado e a plena satisfação dos instintos da vida. ocultou a realidade do domínio e a efetiva conformação das relações de força. são unânimes. mais precisamente o cristianismo. num Estado que não dá prioridade à cultura. o que a velha e famosa serpente prometeu ensinar: hoje se sabe o que é bem e mal”.

Ibid. seu futuro?”. sob o impacto da massificação. a terra. Ibid. impulso nº 28 137 . o problema da perda da fé do homem ocidental na religião cristã. colocando no homem a responsabilidade pela criação de toda a moral. ensinando que a visão da luz prefigura um árduo caminho. formam o binômio que permitiu à sociedade cristã-burguesa funcionar e reproduzir-se em escala alargada antes que esse binômio se rachasse.A tarefa de desvelar os falaciosos fundamentos da moral burguesa e cristã. de todos os padrões de qualquer espécie. Segundo ele.32 Poder-se-ia elencar o filósofo como o primeiro a encarar. de fato. A mentira significa uma inversão de valores: a fraqueza é. enfim. isto é. como sintoma. preocupou-o o problema da origem do bem e do mal. 45-47. degeneração da vida? Ou. que busca na Alegoria da Caverna uma linguagem própria para desenvolver sua teoria das idéias. 9.. a força. em que o próprio valor de tais valores seja colocado em questão: “Para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram. a verdade. inibição. pelo predomínio da moral e da supremacia dos valores éticos. empobrecimento. com que fim e a quem servem. moral e domínio. Ibid. que provocou a revogação do valor de todos os valores. sua coragem. estimulante. p.31 Nietzsche tenta ultrapassar a posição metafísica dos valores. revela-se neles a plenitude. “ética e política. um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem foi desejado”. Nietzsche convida para que se desçam os olhos à “negra e malcheirosa” oficina onde se fabricam idéias. Falam em paciência. de ser derrubados. criticando-a e efetivando a “transvalorização de todos os valores”. de modo que eles sejam os guias e os juízes não só da vida mas também do conhecimento. ao contrário. portanto. no âmbito da democracia de massa. 13.29 Vale salientar que ele se considerava como o mais completo imoralista europeu. mal-entendido. Vale. A sua abordagem leva à reavaliação de todos os valores à luz do que. a vontade da vida. das artes. veneno). porém. perdão e amor aos inimigos. tem como premissa de base sua crença em que todos os valores cristãos são falsos. se acredita e se sente. porque desprovidos de fundamento. Parece que a crítica à metafísica. a submissão em obediência. Nietzsche está.. sob as quais se desenvolveram e se modificaram (moral como conseqüência. honestamente. Seu intento é descer até a raiz dos fundamentos da era moderna para desmistificar a moral burguesacristã. desde garoto. mentirosamente. Ibid. das aspirações políticas e sociais”. a impotência em bondade. cuja categoria central é o niilismo. Prólogo. ao anunciar a morte de Deus. § 3. recolocando em questão a história da metafísica européia”.30 Para ele. os valores. É sua inversão de valores que Nietzsche denuncia. porém não com a pretensão de levar seus leitores à luz da verdade. e têm. mas também moral como causa. no seu interior. Revela que. Ele entende que há necessidade de uma crítica dos valores morais. a baixeza em humildade. é a tentativa de fazer prevalecer. § 14. Foi a ruptura desse binômio. “o elemento comum da história da Europa. Seu desejo parece ser o de provocar a inquirição corajosa para que o próprio leitor possa reagir. sobre todos os outros valores. pp.33 Não provoca estranheza que Nietzsche atribua ao Deus cristão a submissão e eleição do homem para uma vida de miséria cuja recompensa será 32 33 Idem. mudada em mérito. cujo fruto aprazível poderá ser a libertação das ilusões. de Sócrates em diante. medicamento. Sua alegoria apresenta uma oficina subterrânea onde nada se vê. Angustiam-no indagações como “sob que condições o homem inventou para si os juízos de valor bom e mau? E que valor têm eles? Obstruíram ou promoveram até agora o crescimento do homem? São indício de miséria. o filósofo a tem como algo inerente à sua própria natureza. totalmente. sua certeza. O filósofo havia percebido como a sociedade cristã-burguesa era marcada. Sua vida toda foi uma busca de entendimento de tais valores: como eles foram inventados. p. Adiante analisar-se-a tal questão. apenas se escuta um sussurrar indicativo de quem mente. másca29 30 31 ra. os valores morais. § 6. doença. Genealogia da Moral. problematizando qual é o valor dos valores. Ao contrário de Platão. o registro de que.

por um instinto “guerreiro” que tenta demolir tudo e todos.a felicidade no além. serão recompensados com a beatitude. 236-238. mundo.37 Diz não ter encontrado. da natureza e da história”. Não há. os modernos. § 344. toda idéia que se pretenda como verdadeira. Ibid. em seu berço. A preocupação. com Nietzsche. por isso. por uma necessidade imperiosa de fazer passar cada uma e toda forma de conhecimento humano pelo crivo da ciência. Ibid. assim se procede por conta de uma consciência medrosamente fraca. Atacar a moralidade constituída sob o signo da razão pode significar uma postura de descompromisso. 233-235. Entretanto. tornando-se autoritária e fazendo uso de uma moral dualista e negadora do indivíduo. Falando nesses termos. ele opina que querer a verdade significa bem mais do que apenas “não querer deixar-se enganar”. Não estariam. nenhum pensador que tenha “comprometido a sua própria pessoa no estudo da moral”. Tal propósito significaria “querer a própria morte”. responde. a história são imorais”. como dicotomizar as coisas... acabou dogmatizada e imposta. pressupõe um outro mundo “sem ser esse o da vida. Denuncia a fé cristã. parece que. Ele desenvolve a idéia de que a moral cristã é uma moral de ressentimento. então. a natureza. Há uma nítida preocupação de Nietzsche com a obrigatória condição da certeza que se expressa na verdade. os escravos. pelo uso recorrente a uma metafísica igualmente dominadora. advogam que ela estaria desprovida de valor. O irracionalismo seria uma ruptura com a Modernidade. apresentada como instrumento para as conquistas da ciência e para a gestão do mundo. Assim sendo. a recusa da razão instrumental é opção pela vida e possibilidade de sua perene construção.34 Isto é. Essa era parece ter sido marcada. pp. as convicções são cidadãs somente quando submissas ao domínio da ciência. que se recusa a enfrentar sua face perversa. § 345. a crítica da metafísica é crítica de todos os valores. uma vez que aprisionaram a vida em conceitos e verdades definitivos. o domínio. Está em jogo não apenas o discurso teórico acerca da metafísica e. os homens são submetidos por conta da imposição de credos e dogmas cristalizadores. por trás. submissos e os marginalizados de toda a terra “estão melhores” do que os poderosos. A crítica à metafísica é crítica à Europa. Alguns há que classificam a filosofia de Nietzsche como irracionalista e. A Gaia Ciência.38 Ninguém ousou fazer uma crítica dos valores morais. O filósofo alerta para o fato de que unicamente quando a convicção deixa de ser convicção passa a ter o direito de cidadania científica. “para quem o verdadeiro se identifica com Deus e toda a verdade é divina”. fica pertinente dizer. Não seria justamente o contrário? Não nasceria a ciência de convicções já firmadas? “Não há ciência sem postulado”. a 34 ciência se liga à moral. Isto é. Porém. muitas vezes. 35 36 37 38 Idem.) e aquele que se mantém impessoal”. no horizonte da filosofia nietzschiana.35 Nietzsche dirá que a necessidade da ciência se assenta numa fé metafísica. conseqüentemente. Nessa perspectiva..36 A crítica genealógica da filosofia nietzschiana procura solapar a modernidade em sua própria base. Nietzsche vê a história da Europa como a história da metafísica. isto é. e a metafísica como uma fetichização da moral que esconde. obrigatoriamente. porque “a vida. Seria incorreto pensar que o desmascaramento da razão é movido. Ibid. apenas. ainda. mas toda a visão de homem. vida. derivada de tais discursos. Como se vê. 138 impulso nº 28 . pois. pode-se entender que Nietzsche aponta “uma diferença enorme entre o pensador que compromete a personalidade no estudo dos seus problemas (. tantas vezes expressa pelo filósofo. O filósofo questiona a necessidade da ciência. fala das prisões a que. Ibid. ao seu ver. pp. que “no domínio das ciências as convicções dão direito à cidadania”. A razão. em sua totalidade. Daí o seu empenho para desencobrir o que se pode chamar de “ideologia da verdade”. Chama atenção para essa “camisa de força” pela qual deve passar. presos à busca de verdades? Nietzsche demonstra que tal busca denota o receio de correr o risco da incerteza. dos valores morais. e positivamente calculista e utilitária. no juízo final.

o aborrecimento que causa a ela própria. é a besta do rebanho que tem necessidade de dissimular a sua mediocridade.41 É. 39 40 em sua trama onto-teo-lógica. o niilismo é apresentado como a ciência desse apagamento. o mundo aparece desprovido de valor. ele crê ser muito difícil dispensar a moral. Daí sua extemporaneidade. Uma Crítica ao Cristianismo A Modernidade. uma excentricidade que constitui o modo de notificação mais fundo do seu ser e a configuração. “O europeu disfarça-se com o capote da moral porque se tornou num animal doente. Idem. Nesse sentido. o critério supremo do valor. de um modo geral. Idem. também a interpretação cristã-burguesa do mundo começa a entrar em crise: “O controle exercitado a respeito da moral é elemento determinante. impulso nº 28 139 . o extremo rompimento com o lugar específico do homem. que a fé no Deus cristão se tornou indigna de fé – começa já a lançar as suas primeiras sombras sobre a Europa. em ato. § 573. Por outro lado.39 Porém não de uma crítica. faz todos os esforços para nos fazer parecer mais nobres. como “a história deste grande desprendimento”. pois. e impusera o ideal. empreende com racionalidade a devastação das eternas verdades negadoras da vida. Parece que tudo converge para a sua dissolução. o filósofo não se entretém com a ansiosa busca da verdade. Mas que é. em nome do qual se julga a vida. Constata algumas tentativas de elaboração de uma “história das origens dos sentimentos morais e das escalas dos diferentes valores morais”. como uma mudança de centro. O acaso da interpretação moral do mundo que não tem mais uma sanção.ainda que fosse tão-somente por curiosidade científica. É o advento do novo que pretende impor-se como diferente. também uma retomada da cultura greco-romana naquilo que ela re41 42 Ibid. e 3. considerar a crítica da moral apenas como a demonstração das ambigüidades da moral. pode ser caracterizada pelo anseio de romper com tudo aquilo que signifique tradição. na verdade. Nietzsche chama a atenção para três erros dos moralistas: 1. ao perceberem que povos diferentes têm diferentes escalas de valores. § 3. mais importantes. mais reluzentes. objetivamente. não obstante os próprios presentes. mais ‘divinos’. depois de ter tentado refugiar-se em um além: isso acaba no niilismo.”40 O niilismo se revela no âmbito da metafísica e da história européia através da crise da sociedade cristã-burguesa. de sua vida. o cristianismo representara o esteio mais forte da cultura européia. § 352. confessemo-lo. Assim. na perspectiva de esvaziá-la de sua autoridade. 247-248. do fraco. Um animal de presa não julga necessário disfarçar sua ferocidade. Com essa crise – que hoje assume a figura da crise da sociedade pós-liberal – e com a ruptura entre as forças de vida (valores) e técnicas de domínio. p. desvincular a moral do dever. tais historiadores não passam de escolta de uma moral pela compaixão. Nietzsche declara que seu trabalho será o de fazer a crítica da moral empenhando o seu valor. 113. o princípio de orientação na existência. do canhestro. 2. Com isso. sobretudo com o laicismo das ciências e da filosofia modernas que se oferecem como substitutivo. o medo. pp. A moral. “O maior e mais moderno acontecimento – que ‘Deus morreu’. Crítico. poder-se-ia compreender a própria postura da pessoa de Frederico Nietzsche enquanto pensador e crítico de sua própria época. a crítica à metafísica e o desejo de “desconstruí-la” leva também a uma crítica ao cristianismo. numa besta enferma e mutilada que tem excelentes razões para se mostrar ‘domesticada’: as razões do quase aborto. Frammenti Postumi. Ele definia o horizonte de sentido. ‘Nada tem sentido’ (inaplicabilidade de uma interpretação do mundo à qual foi dedicada grande energia) desperta para a suspeita de que todas as interpretações do mundo sejam falsas”. cristalizar em postulados uma tradição que implica obrigação. Pensador. Com a constatação de que a moral está presa a velhas prescrições que não tematizam a vida nem buscam sua autocrítica. Dessa forma..”42 Efetivamente. A Gaia Ciência. O niilismo como história e destino radicalizase na expressão Deus morreu. Ibid. visível no sistema europeu de aspirações humanas.

Nietzsche teve a surpreendente originalidade de captar o deslocamento do pensamento judaicocristão não como um lugar de idéias ou como um dinamismo dialético. mas vidente e dramático. contrastante. O seu grande tema é. 71. a filosofia de Nietzsche será. de fato. Parece oportuno registrar o testemunho de Heinz P Pe. mas como uma empresa educativa. 1986. tinham muita coisa em comum. não está negada a dimensão de religiosidade na pessoa humana. a de julgá-lo não com referência à verdade que manifestava. Entretanto.presenta de revolucionária em relação à ordem social e religiosa. assimilada às forças destruidoras do mal. Ele considera que o homem do século XIX devia manter-se de pé sem o apoio da fé ou de qualquer espécie de dogma. Zaratustra parece significar a emergência de uma nova concepção religiosa. ela busca legitimar-se mediante os instrumentos disponíveis. se Nietzsche é ou não é esse ateu terrível. ters: “Lou. em que a vida é a grande vitoriosa. coerente com o universo de sua filosofia. uma das características da filosofia nietzschiana parece ser. Além das recusas sistemáticas ou das conciliações incondicionais. que a jovem russa e seu amigo. que ainda hoje existe em certos meios. Assim. Seu pensamento apresentou-se tumultuoso demais para ser compreendido. verificou-se uma polêmica superficial ou um desprezo altivo. vale enquanto tal empresa se presta para desvelar a realidade oculta pela tradição e pelas diversas manifestações da religião. como primeiro lugar da reflexão. Guardadas as devidas proporções. uma vez que todos os valores positivos do cristianismo são criticados e rejeitados: dar a face direita a quem maltratou a esquerda. passamos rapida43 PETERS. Ao que parece. em sua dimensão filosófica. mais precisamente. sempre. anticristã. mas o cristianismo enquanto institucionalização de um código de conduta moral que acaba por oprimir a vida. Deve-se mencionar que Nietzsche era filho de pastor da Igreja Luterana e viveu de forma intensa a influência da religião em sua infância. o professor. não é contra a religião que se volta seu pensamento. p. Sobre ele pesou uma espécie de censura preconceituosa. Porém. entre nós. Questionar a religião e. a crítica à religião. de que Nietzsche é devastador em sua negação de Deus. no mínimo. denunciando. É verdade que o seu ataque ao cristianismo não é neutro. Trata-se de contemplar que o problema de fundo não é esse. ambos se recusavam a enfrentar a realidade de um universo sem Deus”. o colégio interno protestante mais famoso. por sua vez. exatamente. Aí. Correlativamente. Ambos se preocupavam com a busca de uma nova fé. ao mesmo tempo. compadecer-se do sofrimento alheio etc. Sua crítica é devastadora. ouvira falar de Nietzsche durante suas longas conversas com Rée. sim. Freqüentemente tem passado. No debate entre “o bem e o mal”. a vida. Necessariamente. 140 impulso nº 28 .43 Contudo. constatamos já uma evolução significativa. imediatamente. despojou a história de sua função reveladora. Seus biógrafos apontam os primeiros anos de sua vida como os de uma fervorosa experiência religiosa. e a teologia foi a disciplina que mais estudou quando ingressou na Universidade de Bonn. a importância cultural de Nietzsche só foi tardiamente reconhecida pelo mundo cristão. desinteressado. Do ressentimento. Não se trata de perguntar. Parece que tal convicção não leva em conta que não se pode trabalhar o autor fora do contexto nem o texto. “a reação cristã face ao pensamento de Nietzsche é. como o fizeram alguns. o cristianismo. Chegou a estudar na Schulpforta. amar o próximo como a si mesmo. deve-se analisar a crítica nietzschiana à religião dentro do contexto de sua crítica à Modernidade. a idéia de que a filosofia de Nietzsche é uma filosofia atéia. Basta abrir algumas páginas de Zaratustra e não há como evitar uma imediata analogia com a Bíblia. tem-se a clareza de que se busca um paradigma novo. entre os quais a religião. seus compromissos com a racionalidade. herdada do cristianismo e mantida nas noções de progresso e de classe. mas a sua obra e o contributo que ela encerra. pacífico. mas em relação à vida que estimula ou contraria. na medida que o pensamento de Nietzsche era reduzido a um sistema dominado por alguma forma violentamente. È um ataque mais contra o cristianismo que contra o Cristo. Em torno de sua filosofia. do seu pretexto.

Y O pensamento cristão face à crítica de Nietzsche.) Os deuses também se decompõem! Deus morreu! Deus continua morto! E fomos nós que o matamos! Como havemos de nos consolar. Nietzsche o intitulou de o insensato. Expulso e interrogado. quem nos há de limpar deste sangue? Que água nos poderá lavar? Que expiações. Esse acontecimento enorme está ainda a caminho. as ações precisam de tempo. para o lado.mente ao que parece mais essencial: a proclamação da morte de Deus”. que somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte inteiro? Que fizemos quando desprendemos a corrente que ligava esta terra ao Sol? Para onde vai ele agora? Para onde vamos nós próprios? Longe de todos os sóis? Nós estaremos incessantemente a cair? Para diante. (65): 66. Petrópolis: Vozes. In . mesmo quando foram efetuadas.. caminha e ainda não chegou ao ouvido dos homens.. e o fitavam com espanto. Concilium – Revista de T eologia Fundamental. o seu grito provocou grande riso. O próprio termo já apresenta uma ponta de ironia com a qual ele pretende desmascarar as promessas religiosas da Modernidade. teria respondido inalteravelmente a mesma coisa: “O que são estas igrejas mais do que túmulos e monumentos fúnebres de Deus?”. seja permitido transportá-lo em sua inteireza: Nunca ouviram falar do louco que acendia uma lanterna em pleno dia e desatava a correr pela praça pública gritando sem cessar: “– Procuro Deus! Procuro Deus!” Mas como havia ali muitos daqueles que não acreditam em Deus. “É o que lhes vou dizer. O relâmpago e o raio precisam de tempo. exclamou. disse então. um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio? Não fará mais frio? Não aparecem sempre noites. Matamo-lo (.) vocês e eu! Somos nós. parecermos dignos dela? Nunca houve ação mais grandiosa. Não será preciso que nós próprios nos tornemos deuses para. que jogo sagrado seremos forçados a inventar? A grandeza deste ato é demasiado grande para nós. para trás.45 LEDURE. nós assassinos entre os assassinos! O que o mundo possui de mais sagrado e de mais poderoso até hoje sangrou sob o nosso punhal. nunca o foi qualquer história!” O insensato calou-se depois de pronunciar estas palavras e voltou o olhar para os seus auditores: também eles se calavam. Esta ação ainda lhes está mais distante do que as mais distantes constelações. § 125. “– Estará escondido? Terá medo de nós? Terá embarcado? Terá emigrado?” Assim gritavam e riam todos ao seu tempo. para serem vistas e entendidas. porém. e foram eles contudo que a fizeram!” Conta-se ainda que este louco entrou nesse mesmo dia em diversas igrejas e entoou o seu Requiem aeternum Deo. dizia um. pp. até aqui. como ele. 1981. “O meu tempo ainda não chegou.. “– Chegou cedo demais”. Considere-se que o texto é extenso. e quaisquer que sejam aqueles que poderão nascer depois de nós pertencerão. simplesmente. nós todos. 145-146. O texto nietzschiano reflete um pouco da perplexidade com que se encontra o cidadão co45 NIETZSCHE. para todos os lados? Haverá ainda um acima. por causa dela. O louco saltou no meio deles e trespassou-os com o olhar. impulso nº 28 141 . a luz dos astros precisa de tempo.. “– Para onde foi Deus?”. cada vez mais noites? Não será preciso acender os candeeiros logo de manhã? Não ouvimos ainda nada do barulho que fazem 44 os coveiros que enterram Deus? Ainda não sentimos nada da decomposição divina? (. “– Ter-se-á perdido como uma criança?”.44 Talvez um dos textos mais polêmicos e lidos da literatura nietzschiana seja aquele de A Gaia Ciência em que é anunciada a morte de Deus. a uma história mais elevada do que. Finalmente atirou a lanterna ao chão. de tal modo que se partiu e se apagou. A Gaia Ciência. por tratar-se de peça fundamental no que tange à crítica religiosa e ao projeto de repensamento da ordem moral.

pregando igualdade e fraternidade. Não obstante. 142 impulso nº 28 . antes. Aurora. que. Está em jogo o desmascaramento de experiências ilusórias em instituições cujo escopo é. se refere como sendo “o homem mais digno de amor e o maior cristão”.50 Sua interpretação é convincente. precipuamente. Deus está morto. anunciada num discurso descomprometido com as inesgotáveis possibilidades da vida. a exemplo de Marx e Freud. Na história européia. nós todos que somos os seus assassinos!”. Nietzsche identifica essa morte do deus cristão com o término virtual da moral do bem e do mal e de todas as formas de idealismo.mum ante o absurdo de um mundo em cuja época não está convidado a participar como um parceiro igual. mas já passa a integrar um projeto radical de crítica da Modernidade. Ele constata e anuncia o falecimento do deus cristão. p. não pareceresidir aqui o mais importante anúncio. A religião. Tudo leva a crer que Nietzsche. ou os autores. quando considerado o contexto em que se realizou. 49 STERN. Chama a atenção para o valor e a negação sistemática da vida realizada em nome de uma pretensa fé. A opinião que preside à leitura dos textos nietzschianas sobre a crítica religiosa é a de que ele não problematiza as reais condições da fé. Nietzsche anuncia. o ‘transcendental’ de Kant. do valor/não valor da vida. não obstante seja sua consumação 46 47 filosófica. É fato. 170.” NIETZSCHE. Ele parece proclamar aos seus contemporâneos que o Deus anunciado e adorado nos sagrados tempos religiosos não correspondia mais com a vida concreta que estavam levando. p. depois de ter se convencido do nada de tudo. 1978. procura no budismo e no cristianismo algo que preencha este vazio desolador. não se conhece um ataque tão contundente quanto este. Zilles46 explica que. seu refúgio e sua única esperança. Das Forças Cósmicas aos Valores Humanos. Nietzsche afirma duas coisas: 1. Entende que os códigos morais tendem a eliminar o que há de melhor no homem para erigir uma moral de rebanho. demonstrando que os homens são escravos de convenções. uma vez que nela não se encontram novas decodificações. VATTIMO. instrumento de decadência que cruza aqueles instintos que visam à elevação e conservação da vida. 48 ZILLES. que. era fardo pesado que não mais afirmava a vida: havia-se tornado uma instituição vazia e inibidora da vida. 2. Projeta elaborar uma genealogia da moral que explique a origem do bem e do mal. tal anúncio não se apresenta como mera constatação ou neutra reflexão. Contudo. mas um universo de reflexões que só se dão a perceber à luz da experiência interior.49 Vários são os textos de sua literatura em que ele demonstra grande familiaridade com o temário religioso. Resíduos metafísicos. Nietzsche desmascara o fundamento da moral cristã-burguesa. 1988. o ‘Absoluto’ de Hegel. mas ainda não constatado. os homens assassinos não se deram conta de sua façanha mortífera. Para alguns. 56. 175. elogiosamente. nessa parábola. não de Jesus Cristo. A importância de tal anúncio não faz de Nietzsche o patriarca do ateísmo. em sua obra. circulavam em torno da idéia de Deus. p. um fato consumado. trata. o de preservar a si próprio do que a elevação do homem. 1991. 20. desta façanha: “Vocês e eu somos nós. com seus exigentes preceitos e discursos. a compreensão da espiritualidade cristã é tão íntima quanto a de qualquer apologista”. até então. Resíduos sociais dos liberais e socialistas. Nesse sentido é que deplora a palavra geral. Nietzsche conclui que o cristianismo é uma “religião da compaixão”. Talvez por isso Vattimo entenda que tal anúncio deva ser considerado como “a data do nascimento da pós-modernidade na filosofia!”. a mais contundente denúncia presente no texto é aquela que indica o autor. o anúncio da morte de Deus é o evento fundamental da história moderna e do mundo contemporâneo.47 Deleuze constata nele uma grave dificuldade: a filosofia nietzschiana. consola-se nas promessas de uma vida além. a quem ele. p. como o amor Dei intelectualis de Bruno e Espinsa. Entretanto. Objetivamente. guardam implicitamente o conceito de um Deus Pai em que todos os homens seriam iguais e irmãos. § 39. Resíduos morais. Nesse sentido. como o ascetismo e o misticismo de Schopenhauer. Nietzsche se propôs a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo. 50 NIETZSCHE. Em sua crítica radical. Com a morte de Deus morreram todos os valores que. ao anunciar a morte de Deus.48 Stern afirma que “em Nietzsche. Scarlett Marton diz textualmente que “não houve quem descobrisse com tanta perspicácia e combatesse com tanta violência todos os resíduos do teísmo. assim.

fortalecendo crenças ou libertando a vida de antigos obstáculos.. Ibid. um guerreiro. abomino tudo aquilo que me instrui sem aumentar e estimular imediatamente a minha atividade”. estando previstos cerca de vinte desses escritos. denunciando a moderna epidemia historiográfica. Na realidade. Ibid. também. e porque sofre e tem necessidade de libertação. 98. p. em particular. Eis que Nietzsche não se confronta com os critérios modernos. à historiografia. pela tensão vida/história. Esse curso é o de um deferimento que deve criar as condições para a vida. 101. cujo modelo permanece oculto até seu último capítulo. § 1. § 2. p. Nietzsche entende que há uma tripla relação na história: história monumental. a partir de seus ensinamentos. Prefácio. cujo suporte é a história que aparentemente a nega. Um Nietzsche amadurecido de décadas adiante certamente faria uma revisão radical nas suas Extemporâneas. a segunda Extemporânea é mais uma crítica à Modernidade. ANDLER.51 Aliás. 53 54 55 56 57 58 Idem. portanto. Idem. já neste ensaio de juventude.. Trata-se.58 “A história tradicionalista degenera logo que a vida presente deixa de animar e vivificar. porém não deseja retomar o passado helênico na Modernidade. ornamento para o ócio. Sua virtude é mergulhar no tempo. a busca de uma terapia dessa doença moderna. mas a filosofia é.Crítica à “Ciência Histórica” Em dezembro de 1873.. ter a sensibilidade de ver no passado tudo que permitiu às gerações presentes nascerem: “(. o que está em causa é simples: trata-se de decidir acerca do valor/não valor da história. A reflexão de Nietzsche em torno da educação visa denunciar o fato de o saber ter-se tornado improdutivo. mas acrescenta. esse instinto e esse sentido. igualmente. tomando como parâmetro a vida. necessariamente.52 Por aqui se vê que o ensaio em questão não pretende ser apenas 51 52 crítica à história e aos historiadores mas. O intento é. uma concepção e uma crítica acabada da Modernidade. A noção de história tradicionalista está permeada pela preocupação com a utilidade da história.54 “Temos necessidade da história”. Ibid. É sabido que as Intempestivas se incluíam num conjunto de ensaios intitulados Angriffen (a atacar). então. Ecce Homo. de uma nação e de uma civilização”. buscar uma compreensão da história. Naturalmente. É mais um “ataque” que ele deseja fazer à ciência e. “quero dizer que temos necessidade dela para a vida e para a ação”. tanto a história pode ser útil ao presente. 117. Nietzsche demonstra seu entusiasmo pela Grécia Antiga. na sua concepção. p 127. porque tem prazer em conservar e venerar. Ibid. NIETZSCHE. pode provocar na juventude do seu tempo. Mas o interesse aqui é o de averiguar qual o seu posicionamento perante a época que não cansou de assediar. então. I l Intempestiva. senão que se afasta deles e os observa de fora.”57 Dessa forma. a Grécia torna-se um modelo para ele. um modelo de alto ideal cultural. de realizar a apresentação crítica da história. e protestar contra a formação histórica imposta à juventude na Alemanha de Bismarck.. § 1. p. A decisão passa. Em Goethe. Filólogo. buscando encontrar nela pressentimento do futuro.56 “A história é própria do ser vivo por três razões: porque é ativo e ambicioso. Nietzsche anota que “o sentido da história e sua negação são igualmente necessários à saúde de um indivíduo. como pode impedir o futuro. pp. não se pretende que exista. Andler53 observa que pode faltar o instinto da vida e o sentido de orientação na ciência e na arte. objetivando colocar a história em seu lugar.. impulso nº 28 143 .) o prazer de saber que não se é um ser (. ele próprio é. capaz de fazer nascer um ideal sufocado pela educação moderna. 159-164. 109. Tal projeto foi abandonado posteriormente.. No ensaio de Nietzsche. interpretado corretamente. Nietzsche encontra a inspiração inicial para mais uma investida: “De resto. Dirá que “as Extemporâneas são integralmente guerreiras”.) arbitrário e fortuito. história tradicionalista e história crítica. ela mesma. Assim sendo. Nietzsche conclui a sua segunda Intempestiva – Da utilidade e desvantagem da história para a vida.. I l Intempestiva. a piedade endurece. mas que se vem de um passado que é herdeiro”. 1985. mas fora dos critérios da modernidade filosófica. p.55 escreve. Seu propósito é especular os efeitos que um tal passado.

O que diferencia os dois é o ponto de vista a partir do qual vêem a vida: os grandes homens pouco se pre59 60 61 ocupam com a finitude da existência. portanto. uma arte. que culmina com Hegel e começa a se decompor com o Romantismo. “Crer que os grandes momentos da luta entre os indivíduos formam uma cadeia que prolonga através dos milênios a travemestra da história. deve auxiliar para que brote uma nova natureza. E desaparece. dirá o filósofo.63 Ele lembra que “é inegável que o Idealismo alemão. busca-se entender a crítica nietzschiana da Modernidade: numa perspectiva de deconstrução da ordem filosófica até então tida como seu fundamento. na qual se funda. 118. UMA CONCLUSÃO Quem se entretém. 129.fica o pedantismo rotineiro. Ibid.. com curiosidade especulativa. Nesse sentido. Todo o passado merece condenação porque. um procedimento genealógico que busca revirar pelo questionar todas as bases que justificam e mantêm o mundo humano. pois toda a tradição é posta em questão. isto é. (. Entretanto.. Quando o passado chega a inibir a inesgotável dinâmica da vida. É forçoso reconhecer que o assunto é controvertido e que são discordantes as opiniões que quanto a ele se 62 63 Ibid.”61 O valor da humanidade. condenando-o. 144 impulso nº 28 . Também nesse ensaio. que tem como referência a vida: o tipo ativo e o reativo. Mas a correlação história/vida tem o seu pano de fundo na Modernidade e no historicismo que nela vigora. 34. p. CAVALCANTI. crer que para mim um desses momentos já passados continua vivo e luminoso.. Na Genealogia da Moral. está justamente na capacidade de atingir tais momentos. Mas se essa é uma capacidade humana. Nietzsche se refere a uma luta entre os dois tipos de humanidade nos quais “tudo aquilo que vive fora da atmosfera de grandeza protesta”. 1989. submetendo-o a um inquérito rigoroso e.62 Um excelente balanço de como é que a crítica à Modernidade se apresenta na segunda Intempestiva foi realizado por Miranda. da história é problema para a vida. enquanto ruptura ocorrida no tecido da tradição ocidental”. de forma bastante semelhante à Genealogia. ela não se realiza necessariamente. é o fundamento da crença na humanidade. a tradição está apresentada como ré e vilã. não parece tão coerente apontar Nietzsche como crítico da modernidade. aqui entendida como categoria filosófica. “Consegue-o fazendo comparecer esse passado perante o seu tribunal. assim. nele se misturam a força e a fraqueza do homem. “para quem importa a conservação da existência a todo preço”. A história. Os traços gerais dessa deconstrução são uma mescla das críticas do Iluminismo e do Romantismo.) uma criação”. certamente não verá como prioridade uma crítica à Modernidade mas. por vezes.”60 Aqui. com o espetáculo repugnante de uma fúria cega de colecionador.”59 Na história crítica. Ibid. Nietzsche busca.. é preciso libertar-se dele. sim. p. a crença na humanidade. Esta é a história dos grandes momentos do passado. Nietzsche fala ainda de um terceiro tipo de história: a monumental. O segundo tipo é o homem angustiado pela brevidade da vida. MIRANDA. uma deconstrução da modernidade nos seus fundamentos. Nietzsche desenvolve uma dupla noção de humanidade. de aperfeiçoar e elevar a natureza. ele parece diferenciar dois tipos de indivíduos.. para ele. De sorte que o problema do valor. em torno da filosofia de Nietzsche. Parece que a crítica do filósofo se volta mais ao fenômeno dos tempos modernos do que a hipostatização de uma categoria totalizadora deste fenômeno. ou não-valor. a vida voltase para a necessidade imperiosa de crescer. p. na medida que tomam por tarefa a grandeza da espécie humana através “de uma obra. p. 128. 206. p. tem a ver com o problema da Modernidade na sua generalidade. 1987. que roda egoísta e complacentemente à volta do seu própria centro. como acontece com todas as coisas humanas. vislumbra o futuro. no fim. Vale enquanto correlato. empenhado em desterrar tudo o que existiu no passado. a exemplo do que fez Hegel.

Porto: Rés Editora Ltda. Nietzsche e a história. das aspirações políticas e sociais. Considera que o passado deve estar a serviço do presente. inclusive. enquanto Kant postula a maioridade do homem moderno ao deixar-se guiar pela razão. s/d. de Sócrates em diante. 1: 1989. 1989. Rio de Janeiro. o homem está negado e porque o entende como um ente a ser superado. levou a um abstracionismo esmagador. c. O ético e o político depois de Nietzsche.64 Nietzsche identifica a história da Europa como sendo a história da metafísica. das artes.H. 1989.S. Nietzsche critica os ensinamentos que servem somente de ordenamento. Magalhães. fundamento da democracia moderna. sa Vie et sa Pensée. II.VV. Contudo. Se tal propósito é legítimo. Na Intempestiva sobre a história. 1981. __________. A. de modo que eles sejam os guias e juízes não só da vida. 3. mas no de indignação e protesto quanto aos seus fundamentos. desta for- ma. A modernidade em discussão. 3ª. Não parece precípua preocupação do filósofo a busca de reciclagens de categorias ou dados históricos. M. G. Petrópolis. categorizamos algumas possibilidades de leituras do problema da modernidade.Revista Concilium. C. o lugar mais alto das determinações dos valores e. uma leitura mais ortodoxa tenha contestado com preconceito e desdém essa crítica pelo seu teor. altamente contestatório. Ora. A. dos Reis. mais uma vez. 1978. parece possível enquadrar Nietzsche como um crítico radical da classificada modernidade cultural. segundo o filósofo. sobre todos os outros valores.Trad. impulso nº 28 145 . impulsionada. BORDIN. investigar o contexto histórico em que essa ocorreu e considerar seus aspectos mais controvertidos para iniciar um diálogo mais elucidativo. ANDLER. 64 “O elemento comum na história da Europa. Fala-se de uma Modernidade em crise e de posturas críticas diferentes ante o fenômeno da crise. O. Nietzsche procura colher qual o sentido último e propósito dessa razão que. 7/8: 101-110. Antes dele. Nietzsche e a Filosofia. Paris: Galimard. Rio de Janeiro: Edições 70. no presente. Referências Bibliográficas AA.Boletim de Filosofia da UFRJ. Nietzsche. Nestes termos deseja-se expressar a dificuldade em se remeter a Nietzsche a fundação da pós-modernidade. E. DELEUZE. Dialética do Indivíduo: o indivíduo na natureza.formulam. La Filosofía de Nietzsche. Petrópolis:Vozes. CAVENACCI.Madrid: Alianza Editorial. 1985. Preocupa-se com o futuro da humanidade porque vê que.Trad. e que a tradição somente é útil como fonte de experiência e fortalecimento. Foram apresentadas três dimensões da sua crítica nietzschiana. CALDERA.” Fragmentos Póstumos. mas também do conhecimento. história e cultura. Rio de Janeiro. iniciando por averiguar a crítica à metafísica por ser ela. abrindo espaço para uma razão temporal. p. pela sua experiência religiosa. não no sentido de ajustamento aos modismos em vigor. Nietzsche nega-se a reciclar a razão e. v. 82.. ao seu ver. os valores morais. FINK. A. os estudos da moral não radicalizavam a crítica de uma forma tão devastadora como ele o fez. Hegel traz à tona o princípio da subjetividade como horizonte e fundamento da cultura moderna. 1984. é a tentativa de fazer prevalecer. Discorreu-se sobre a crítica ao cristianismo sabendo ser esta uma crítica apaixonada. Tal projeto incorre num individualismo algumas vezes equivocadamente utilizado por falsos divulgadores de suas idéias. Precisaria. São Paulo: Brasiliense. Filosofia e Crise: pela filosofia latino-americana. apoiar nela o futuro da humanidade. 1992. Possivelmente. CAVALCANTI.Cadernos do Departamento de Filosofia da PUC-RJ. 244. porém. mas não são lições para que a vida se expanda e se realize. pois a história tem como missão servir de intermédio que favoreça o nascimento do novo homem.M. L. Nietzsche. Seu propósito é resgatar o valor da vida transvalorizando a moral. ed.

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Chairman and Chief Technology Officer The Webmind Corporation (http://www. a maioria dos pensadores inspirados em Nietzsche preferiram se afastar dos Übermensch. e de um modo que Nietzsche havia previsto. in Mathematics from Temple University. 21’st century nietzschean elitists A impulso nº 28 idéia dos Übermensch é um dos conceitos menos compreendidos de Nietzsche. O lugar em que veio à tona mais recentemente foi no pensamento dos extropianos. da própria humanidade. de estarem mais próximos deste estado que os outros – quando. síntese do ser humano com o computador. concentrando-se em outros aspectos do seu pensamento. Desde a era nazista. Ao longo do caminho.D. tanto as virtudes quanto as fraquezas do conceito de Nietzsche. Esta é uma visão excitante e assustadora. encontra. Ele sabia que muitos dos seus leitores taxariam a si próprios de Übermenschianos. pelo menos. o credo dos extropianos pode ser rotulado de Como tecnologizar com um martelo. onde o dinheiro e a tecnologia controlam todas as coisas. Extropians. Esse grupo de loucos da computação e excêntricos da alta tecnologia quer forçar todo tipo de tecnologia o mais rápido possível – a Internet. em grande medida. Extropianos. BEN GOERTZEL Ph. modificações genéticas. o que for. os elitistas nietzcheanos do século XXI THE CULT OF THE DIGITAL ÜBERMENSCH. e. modificações corporais. amarga mas resignadamente.com) ben@goertzel.webmind. criogenia. nanotecnologia. ou. na verdade. um grupo de futuristas transumanistas sediados na Califórnia. refazendo o mundo como um sistema de realidade virtual hipereconômica povoado por ciborgs ou Übermensch da realidade virtual.O CULTO DOS ÜBERMENSCH. Os nazistas abusaram consideravelmente da idéia. o conceito permanece. finalmente. No entanto. das restrições morais.org 151 . Ecoando o subtítulo de Crepúsculo dos Ídolos – Como filosofar com um martelo. o que ele queria dizer estava muito além de qualquer pessoa existente. querem se livrar dos governos. e quando alguém a sonda em detalhes. em parte porque ele o explicou de maneiras muito complexas e contraditórias.

a liberdade individual. Os humanos serão vistos como um experimento fracassado – e já podemos ver que alguns seres humanos e algumas culturas humanas são fracassos piores que outros. Com uma ligeira perda de significado. talvez.1 em 1993. ele pergunta. Os extropianos. Está explicitamente declarado na doutrina extropiana que não pode haver extropia- nos socialistas. é o que permanece”. 152 impulso nº 28 . pode ser chamado de transumanismo libertário. a imensa maioria dos extropianos são libertários radicais.. rápidos e poderosos. e o favorecimento do governo da lei e a descentralização do poder. com o tempo. A evolução do Übermensch pode ser acelerada. à moda nietzschiana. porém evitando a religião e o dogma”. a extropia é um termo mais filosófico que científico. Será que nos importa hoje. O que é realmente singular no movimento extropiano é o seguinte: a fusão do otimismo tecnológico radical com a filosofia política libertária.) prefere a negociação à luta e a troca à compulsão.) busca o pensamento independente. a oposição a controles sociais autoritários... ...OS EXTROPIANOS Intuitivamente concebido como o oposto da entropia.) abertura ao desenvolvimento à utopia estática. 307.. (. Atuar no sentido da obsolescência da raça humana através da Inteligência Artificial (IA) e dos robôs é apenas parte disto. de acordo com o www. Por exemplo. mas certamente não era fã de governos democráticos.org.) totalmente irrelevantes. define extropia como “uma metáfora que se refere a atitudes e valores compartilhados por aqueles que desejam superar os limites humanos através da tecnologia. Acreditava que pessoas poderosas deveriam estar fora da lei. expressando uma preferência por monarcas poderosos.. preocupado com a “busca de uma continuação e aceleração da evolução da vida inteligente além de sua atual forma e limites humanos por meio da ciência e da tecnologia. Não importa o que as pessoas fazem. reis-filósofos. Alguns extropianos levam seu anti-socialismo a um extremo incrível. modificáveis. (. a responsabilidade pessoal. porque elas ficarão para trás como o segundo estágio de um foguete. Dery questionou Moravec sobre as implicações socioeconômicas da tecnologia robótica que ele vislumbrava. outro aspecto é a transferência das personalidades humanas para corpos mais duráveis. usando tecnologias como a engenharia genética.. 1 DERY 1996. p.org). Vidas infelizes. tais como “o apoio a ordens sociais que fomentam a liberdade de expressão. Resposta de Moravec: “Mas eu. um corajoso herói extropiano.. a bíblia online do movimento. Junto com a visão tecnológica vem a visão política. usando o pensamento racional e a tecnologia inteligente numa sociedade aberta”. que os dinossauros estejam extintos? Analogamente. distinguem-se por uma gama de princípios sociopolíticos.. a liberdade de ação e a experimentação.extropy. auto-orientação e respeito pelos outros”. mortes horríveis e projetos fracassados fizeram parte da história da vida na terra desde que existe vida. o destino dos humanos não interessará aos robôs superinteligentes do futuro. Na realidade. O Website dos extropianos (www. trocou idéias um tanto perturbadoras com o escritor Mark Dery. O extropianismo é uma forma de transumanismo.extropy. embora as várias nuances do socialismo democrático não sejam exploradas em detalhes. rejeitam leis impostas sobre eles. defendendo a total ou quase total abolição de governo. de acordo com os extropianos. o que realmente importa. de um modo que Nietzsche jamais vislumbrou: pela direta modificação ou substituição do vaso físico que estrutura nossas mentes para remover nossas atuais limitações. Estes valores (. Dery absolutamente não conseguiu engolir isto: “Eu não criaria uma homologia entre um grupo de répteis fracassados e os que estão nos degraus mais baixos a escada socioeconômica”. Moravec respondeu que “as implicações socioeconômicas são (. guiado pelos princípios e valores da promoção da vida.) incluem o desejo de direcionar a pessoa na busca do eterno progresso e da autotransformação com uma atitude de otimismo prático implementado. o roboticista visionário Hans Moravec. Os extropianos se consideram pessoas notavelmente poderosas e. sim”. a integração “neurocomputacional” e a nanotecnologia. (. e para hardwares pensantes. O próprio Nietzsche não era um libertário per si.

livro. revisões e recomendações. o fundador do extropianismo. mas difícil de conciliar com o desinteresse olímpico de Moravec com relação à destruição da raça humana.. A tecnologia de recomendação e filtragem era um tipo de droga inteligente coletiva para a raça humana que surfa na rede. nesse caso. Quanto mais alto classificam suas críticas. e talvez até perspectivas e opções sobre informações de outros agentes. 302. é tanto a fraqueza essencial do extropianismo quanto sua principal fonte de energia. Isso é tranqüilizador. e pagando umas às outras por suas classificações e opiniões. maior o valor que você recebe.lucifer. impulso nº 28 153 . Os sistemas de recomendação que Sasha projetou eram muito mais sofisticados. O bem maior seria alcançado não pelos editais de um governo autoritário.html. e revelava seu verdadeiro sentido apenas aos adeptos. e. era uma coisa tremendamente empolgante – um meio para os seres humanos se unirem e intensificarem a eficiência mental uns dos outros. mas pelos efeitos auto-organizadores de pessoas classificando outras produções. A visão de Sasha nessa área está condensada num Website como o epinions.3 que “o Übermensch não é a fera loura e saqueadora”. mas. Em alguns casos. mas. Nietzsche advertiu repetidamente que o Übermensch não era um super-herói brutal que levaria a mera humanidade à submissão. ele escreveu sistematicamente sobre o Übermensch de um modo tal que levava precisamente a essa concepção errônea.com. lhes recomenda coisas com base em suas classificações passadas e nas classificações de outras pessoas parecidas.com.com e bn. iguala explicitamente o “extropiano exemplar” ao “Übermensch de Nietzsche”. como amazon. ele escrevia intencionalmente.com/~sasha/home. Idem. Max More. mas perspectivas e opções sobre a alface. seu agente de compras comprando de você não apenas alface. como a economia tinha se transformado numa hipereconomia ciberneticamente ativada. Seu pensamento tinha grande amplitude e profundidade. e na qual complexos instrumentos financeiros emergem até de simples transações diárias – agentes de IA pagando outros agentes por informações sobre onde conseguir informação. têm sistemas de filtragem colaboradora embutidos – quando você acessa para comprar um 2 3 4 Ibid. para Sasha. depois. mas sua pesquisa científica concentrava-se. às tomadas cranianas e à inteligência artificial super-humana. na “filtragem colaboradora ativa”. No entanto. o Übermensch extropiano “transpirará benevolência.2. provavelmente os mais avançados do mundo. transmitindo o que aprenderam uns aos outros na forma de classificações.. que paga aos usuários para que dêem suas críticas sobre produtos de consumo e outras coisas. creio.Claro que a atitude de Moravec é intensamente nietzschiana. As pessoas seriam pagas para escrever ensaios científicos na medida da apreciação de outros cientistas. Websites populares.. p. Ao contrário. Ele comandava uma equipe que implementava alguns de seus projetos na Firefly. às vezes não. Ele inventou a palavra hipereconomia para se referir à complexa dinâmica de uma economia na qual agentes fazem pequenos pagamentos por tudo. eles lhe dão uma lista de livros nos quais você poderia estar interessado. contribuições intelectuais como as suas finalmente teriam o respeito econômico que sempre mereceram. a filtragem colaboradora ativa talvez pareça um caminho pouco excitante para o futuro hipertecnológico. Technological transformation: expanding personal extropy. qual teria sido sua motivação para escrever intencionalmente de modo a levar o leitor casual a crer em coisas erradas e perigosas? COMPARAÇÕES ENTRE CHISLENKO E NIETZSCHE Sasha Chislenko4 foi um cientista-filósofo extropiano que conheci muito bem pessoalmente. Ela reflete a contradição essencial da noção do Übermensch de Nietzsche. Às vezes estes sistemas funcionam. tecnologia que permite às pessoas classificar e revisar coisas que vêem na Internet. faz uma conexão explícita com Nietzsche quando. Ele achava que. no Extroy # 10. emanando seu excesso de saúde e autoconfiança”. de modo a enganar o leitor casual. Mas ele adverte. principalmente. Talvez ele simplesmente não pudesse evitar. Veja sua obra em http://www. uma empresa que mais tarde foi adquirida pela Microsoft. Comparada à modificação corporal. Esta contradição. num outro ensaio.

pessoalmente. na forma de salário e de ações. dos quais ele havia visto apenas uma pequena porcentagem. foi um dos padrinhos filosóficos dos extropianos. fica bastante atraente ignorar totalmente os valores humanos e concentrar a atenção no conhecimento. quase celibatário. creio. E esta contradição pessoal. como tudo mais. que o mundo lhe devia uma maior compensação financeira por suas brilhantes idéias. Sasha igualava riqueza a valor fundamental. Ou considere a moral sexual. de baixa tecnologia e humana. e sua visão do futuro cibernético era o de uma complexa rede hipereconômica. rico. entendimento e poder – qualidades que parecem ter um sig- 154 impulso nº 28 . os extropianos reconheceram que a moral é biológica e culturalmente relativa. com pena por ele ter apanhado de seu dono. o ar. que achava que o ar deveria ter um preço. os Maori e outras tribos. induzindo as pessoas e os agentes de IA a interagir de maneiras complexas de acordo com seus vários motivos pessoais e sua ganância. Quem já não se deu conta disso em um momento ou outro? Consideramos normal comer animais.Mas havia uma dolorosa contradição escondida aqui. Tanto Sasha quanto Nietzsche eram superastros intelectuais que enunciaram explicitamente uma filosofia moral. uma grande massa de dinheiro voando por aí em pequenas parcelas. e que aqueles que não tivessem dinheiro para pagar pelo seu ar deveriam sufocar! Mais tarde descobri que esta era uma variação de um argumento padrão libertário. porém era ele próprio suscetível à doença. achava que estava sendo tratado injustamente. Por que a infidelidade e a promiscuidade femininas são consideradas “piores” que comportamentos semelhantes por parte de homens? Isso é comum a todas as culturas humanas. sem nada pedir em troca. No dia em que enlouqueceu. os hindus consideram imoral comer vacas. tentando transformar o mundo em algo melhor e distribuindo suas idéias gratuitamente online. e esse fato lhe era altamente perturbador. mas não seres humanos. pega bem no coração da filosofia extropiana – e é herdada das raízes nietzschianas do extropianismo. mas viveu buscando a verdade e a beleza em vez de dinheiro. mas viveram outra. Sasha exaltava a teoria monetária do valor. Muitas vezes. não era. que as empresas para as quais havia trabalhado tinham tomado suas idéias e ganho milhões de dólares com elas. e não absoluta. meio ironicamente. Em alguns aspectos importantes. fiquei imaginando se aquele tinha sido um ato de desespero filosófico. Quando Sasha cometeu suicídio. respeitosa dos sentimentos de sua mãe e sua irmã (cujas crenças desprezava). em meados do ano 2000. no entanto era infalivelmente delicado e generoso na vida real. Sasha foi semelhante a Nietzsche. os aspectos da filosofia moral do extropianismo são chave. Semelhantemente. Argumentava que o ar deveria ser fornecido apenas aos que pudessem pagar por ele. Teria havido algum problema na empresa onde ele era vice-presidente de tecnologia? Não estariam eles dispostos a implementar seus mais recentes projetos para filtragem colaboradora online? Teria ele recebido mais uma prova devastadora de que o mundo simplesmente não iria compensá-lo apropriadamente por suas idéias. que. e ficava em seu quarto pensando e escrevendo diariamente. como vimos. até bem pouco tempo. sempre disposto a ajudar jovens intelectuais em seu caminho. Como Nietzsche. Ele pregava o mérito de homens de ação robustos e saudáveis e criticava os ascetas intelectuais. O DILEMA ÉTICO NIETZSCHIANO/EXTROPIANO Como Max More percebeu desde o início. de que o fato de o ar estar poluído era porque ninguém era dono dele – portanto. de modo algum. vem direto das necessidades evolutivas do nosso DNA egoísta. deveria ser propriedade privada. Dada essa ruidosa arbitrariedade. que o futuro cibernético hipereconômico demoraria muito para chegar? O que na verdade aconteceu foi que sua terrível atitude foi mais diretamente motivada por um complicado e doloroso relacionamento amoroso – angústia passional. foi visto abraçando um cavalo na rua. não muito abaixo da superfície. Mas ele. mas foi uma pessoa doce. Nietzsche pregou a resistência e a dureza. achavam normal comer pessoas. repetido freqüentemente por Max More. A tendência anti-humanista no pensamento de Sasha era totalmente declarada: uma vez ele me disse. antiquada.

é ao mesmo tempo atraente. Mas a falta de atenção a esse suposto fenômeno de gotejamento na literatura extropiana e libertária me faz pensar na seriedade com que se toma este aspecto dessas filosofias. a simples compaixão. ou devesse ser. permaneceriam desconhecidas. na qual uma mente vai além de si mesma para sentir os sentimentos dos outros e agir para o bem dos outros sem nada querer em troca.. CONCLUSÃO Minha impressão final dos extropianos? Admiro sua coragem nietzschiana de ir contra o modo convencional de pensamento. Houve algum ardor. fico um pouco incomodado com a visão que têm de si mesmos como protoÜbermensches supertecnológicos. era essencial à evolução dos complexos sistemas auto-organizadores que chamamos culturas e sociedades. embora pudesse se manifestar de maneiras diferentes em culturas diferentes e espécies diferentes. Considero seus escritos muito mais fascinantes do que a maioria das coisas que leio. É claro que Moravec estava fazendo o papel de advogado do diabo naquela entrevista. Opiniões como a de Moravec expressa acima me fazem pensar ainda mais. às vezes More traz uma visão benevolente do Übermensch. não fingiu se preocupar com o homem comum. em seus escritos. algo em mim se rebela contra o extremismo de sua filosofia ética e política.nificado absoluto que falta à moralidade. e prevendo que muitas das restrições morais e legais da sociedade contemporânea serão mudadas. não aconteceu. foi um ser humano geralmente exemplar. suspensas ou transcendidas com o crescimento da tecnologia e da cultura. econômica por natureza. Sim. Isto é. apesar dos aspectos de- impulso nº 28 155 . Nietzsche. Apresentei esta questão na lista de e-mail dos extropianos. No entanto. se concentrarmos todos os nossos recursos no desenvolvimento irrestrito da alta tecnologia. explorando regiões do espaço conceitual que. expressei minha descrença de que toda interação humana seja. Postulei que a compaixão. reconhecendo que a raça humana não é o ponto final da evolução cósmica. pessoalmente. Eles olham para o futuro. embora as ações e atitudes de sua vida real indicassem uma filosofia diferente. Eu. A profunda e ética discussão que eu estava esperando. e esta atenuação dos supostos efeitos de “gotejamento” é um aspecto do pensamento extropiano que vem diretamente da doutrina da liberdade absoluta. mas é um argumento plausível. e depois voltaram ao assunto que vinham discutindo. Basicamente. que o otimismo tecnológico não era lógica e irrefutavelmente casado com a política libertária. Nessa linha de pensamento. eletrônicas ou seja lá quais forem. mas não posso abalar a idéia de que haja uma essência de verdade ética que vá além da relatividade cultural e biológica dos códigos morais. era uma ética universal. A reação foi desestimulante. acho que está errado. Mas o aspecto da benevolência parece estranhamente atenuado. Nietzsche enfocava o poder pessoal alcançado através da exploração mental e da autodisciplina. fico furioso e irritado quando os governos nos impedem de experimentar com nossas mentes e corpos novas tecnologias – químicas. como revelado na citação de Moravec acima. Ambos compartilham do enfoque no brilhantismo intelectual e de uma perigosa atitude de rejeição para com os que não têm o necessário para dar o próximo passo no caminho evolutivo cósmico. seja do estilo Margaret Thatcher ou Ronald Reagan. observando do alto a inevitável obsolescência da humanidade. a riqueza pingará para todos. e. ao fazê-lo. assim como Sasha. O próprio Nietzsche. quatro ou cinco anos atrás. Em compensação. Como a visão original de Nietzsche sobre o Übermensch. Sugeri que a compaixão. podem acabar empurrando o desenvolvimento da tecnologia e da sociedade para melhor. é uma afirmação plausível de que a ausência de governo seja o melhor caminho para ajudar os que estão em desvantagem. tanto no cenário contemporâneo quanto no futuro cibernético profetizado pelos extropianos. divertida e perturbadora. imperturbáveis com minha posição herética de que talvez o transumanismo e o humanismo possam ser compatíveis. embora admire tanto Nietzsche quanto os extropianos. bem. Talvez seja apenas minha herança biológica.. de outro modo. Pessoalmente falando. refutações de um impassível Ayn Randish. Como eles. enquanto os extropianos enfocavam o poder alcançado por meio do avanço tecnológico.

vislumbro um holocausto hipertecnológico no futuro distante. que contém percepções extremamente profundas sobre a psicologia individual e coletiva. <http://www. muitos anos após sua morte. Creio que nós. exatamente como ele tinha amarga mas designadamente previsto. No entanto. por isso não fará muita diferença se os matarmos agora ou não. à sociedade e ao mundo. Esta é uma boa razão para não ignorá-lo. ou apenas da sua transcendência num sentido mais benigno – não deixará de existir. algumas filosofias captam mais a riqueza humana que outras.html> DERY. porque os humanos ficarão obsoletos de qualquer forma. Referências Bibliográficas CHISLENKO. Com o desenvolvimento das tecnologias advogadas pelos extropianos. e me parece que o extropianismo está numa posição muito baixa nesta escala – muito mais baixa que o pensamento de Nietzsche. porque eles pensaram em alguns aspectos do nosso futuro muito mais que qualquer outro. Escape Velocity. a história da moralidade. M. Londres: Hodder & Stoughton. sobrevivendo ao corpo humano na sua forma atual. contudo. no qual ciborgs déspotas fornecem ar a 50 dólares o metro cúbico citando escritos extropianos da virada do milênio. por toda a nossa ganância e fraqueza. Percebe-se claramente com tudo isso que o conceito de Nietzsche sobre o Übermensch ainda é profundamente relevante. As filosofias são abstrações. Eu adoro o calor humano e a prolífica diversidade mental de importantes pensadores como Max More. a metafísica. 1996. e o será ainda mais ao longo dos próximos séculos. Do mesmo modo. as mulheres e a moralidade como orientação para as atividades do mundo real. e espero que esse aspecto de nossa humanidade subsista até a era digital – até mesmo na era transumana. A contradição moral que está na essência do conceito – estamos realmente falando da destruição de uma humanidade insignificante. E. o Übermensch se tornará uma noção progressivamente mais concreta. acho que os extropianos deveriam ser lidos. mas talvez seja confrontada e ela mesma transcendida de maneiras que ainda não podemos perceber no atual estágio. No fundo de minha mente. 156 impulso nº 28 .com/~sasha/home. Porém.lucifer. ao mesmo tempo que aprecio profundamente as percepções de Nietzsche em relação à mente. e daí por diante. anseio pelo desenvolvimento de uma filosofia cibernética além do extropianismo – um transumanismo humanista. Consciente da contradição humana que isso envolve. Mas também acho que a idéia chave que torna o grupo singular – a aliança da tecnologia transumanista com a simplista e incompassiva filosofia libertária – merece vigorosa oposição. e grandes pensadores como Nietzsche – e espero que essas qualidades sobrevivam aos aspectos mais simplistas tementes da ambigüidade de suas filosofias.sumanos de sua filosofia. S. jamais promoveria suas visões sobre o governo. mas direcionar o seu desenvolvimento. temos uma essência compassiva. e o papel das abstrações não é substituir as especificidades das quais emergem. a obra de Nietzsche teve um papel nas atrocidades. mas pensar sobre ele pelo menos tanto quanto nos outros aspectos da filosofia nietzschiana. humanos. Nenhuma filosofia pode fazer justiça à plena riqueza da experiência humana. Hans Moravec e Sasha Chislenko.

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e na abordagem da teoria do mercado de trabalho segmentado. a useful debate began with other theoretical currents presenting alternative points of view. 1957. Abstract With the publication of Gary Becker’s work The Economics of Discrimination. focusing on the interpretation given by the neoclassic theory and related discussion consisting of the statistical theory of discrimination and the “human capital” theory and the approach of the internal labor markets theory. establishing a broader interpretation of the neoclassic theory on the conditions in which the discrimination against female labor can persist in capitalistic economies.com. Palavras-chave MERCADO DE TRABALHO – DISCRIMINAÇÃO – MÃO-DE-OBRA FEMININA.DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MÃO-DE-OBRA FEMININA: uma síntese da controvérsia teórica DISCRIMINATION AGAINST FEMALE LABOR: overview of the theoretical controversy Resumo A partir da publicação do trabalho de Gary Becker The Economics of Discrimination. de 1957.br impulso nº 28 159 . Este artigo contém uma análise crítica dessa controvérsia. ANA MARIA HOLLAND OMETTO Docente da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-ESALQ/USP maometto@uol. Keywords LABOR MARKET – DISCRIMINATION – FEMALE LABOR. This article contains a critical analysis of such controversy. centralizando a atenção nas interpretações oferecidas pela teoria neoclássica e suas vertentes constituídas pela teoria estatística da discriminação e pela do “capital humano”. em que outras correntes teóricas apresentam visões alternativas. tem início um profícuo debate. que estabelece a interpretação mais abrangente da teoria neoclássica sobre as condições em que a discriminação contra a mão-de-obra feminina pode persistir nas economias capitalistas.

como a generalização de um padrão característico do Sudeste urbano – o formato em que predomina a unidade biológica pai/mãe/filhos – e a sua contraface.5% e a participação das mulheres na PEA. o aprofundamento do processo de incorporação da mulher no mercado de trabalho. N 160 impulso nº 28 . 1990. particularmente as taxas de crescimento dos setores secundário e terciário. 1987. Os dados disponíveis para os anos 90 evidenciam. permite verificar que o crescimento das taxas de atividade feminina no Brasil e o decorrente aumento da participação das mulheres na PEA persiste na década de 80. quando a economia brasileira atravessa uma das mais graves crises de sua história. e ao maior nível de escolaridade. pela primeira vez desde que as estatísticas oficiais de emprego se tornaram disponíveis. bem como ao maior acesso aos meios anticoncepcionais.. que se costuma associar à intensificação do processo de urbanização.. reiteradamente. Paralelamente.1 A literatura especializada tem. de mais de 40%. elaborada a partir de informações obtidas através das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1981 a 1998.INTRODUÇÃO as últimas décadas. As elevadas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto per capita nos anos 70. as transformações de ordem econômica. A tabela 1. a diminuição das famílias extensas –. a taxa de atividade feminina é de 47. as estatísticas mostram que as taxas de atividade feminina se mantiveram ascendentes ao longo de toda a década de 80. A crise que se abateu sobre a economia brasileira no início dos anos 80 não interrompe esse processo. OLIVEIRA & BERQUÓ. especialmente das chefiadas por mulheres. e o aumento das famílias quebradas. a comparação entre o Censo Demográfico de 1970 e o de 1980 mostra que a participação feminina na PEA se eleva de 21% para 28% nesse período. 1990. geraram oportunidades de trabalho que levaram. a diminuição do número de filhos. 1987. ainda. em 1998. associado tais transformações ao crescimento da participação da mulher na força de trabalho. 1 Conforme OLIVEIRA. e BERQUÓ et al. social e demográfica pelas quais passou a sociedade brasileira afetaram consideravelmente a composição da força de trabalho familiar. entre outros. Nesse sentido. o crescimento da população economicamente ativa (PEA) a superar o da população. tomaram corpo mudanças consideráveis no âmbito da família. COSTA et al. que levariam a prever que a discriminação da mulher iria se agudizar nas conjunturas recessivas. contrariando as teses apoiadas no conceito marxista de “exército industrial de reserva”. de forma que. Ao invés disso.

Em linhas gerais.0 100. a relação entre os rendimentos femininos e masculinos volta a cair expressivamente.7 39. que podem impactar significativamente na evolução dos rendimentos dessa força de trabalho.0 100.1 60. em 1998. a da educação. atingindo.2 A despeito dessas transformações. Na segunda metade dessa década. em 1993.2 TAXA DE ATIVIDADE Homens 74.9 36.3 76.5 DISTRIBUIÇÃO DAS PESSOAS ECONOMICAMENTE ATIVAS POR SEXO Total Homens Mulheres 100.0 100.T abela 1.7 76.1 55.3%. 1988 e 1990). em 1990.6 35. o pico de 59.8 56.8 56.6 36. o rendimento real feminino cresce proporcionalmente mais que o masculino (1986) ou cai menos (1987.6 Mulheres 32.0 33.2 65.3 33.9 64.7 61. Brasil. o valor de 50.6 76.7 35. que aponta principalmente para o processo de proletarização da mão-de-obra feminina na agricultura. no período compreendido entre 1981 e 1998.8 54.0 100.3 73.9 75.4 59.6%. a da estrutura ocupacional. a setorial.1 56.2 35.6 38.0 100.1 35.2 47.6 59.7 Fonte: dados de 1981-1989 – IBGE.1 60.3 31.8 57.3 64. ligado à heterogeneidade dos trabalhadores com respeito a seus atributos produtivos. ao fato de trabalhadores com idêntica qualificação Conforme publicações das PNAD do período.6 74. ANO Total 1981 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1993 1995 1996 1997 1998 53.1 40. com acentuado crescimento de atividade nos grupos de idade intermediária.0 100. Nota: exclusive a população da área rural da Região Norte.1 61. Entre elas pode-se mencionar: a do perfil da participação etária.4 40.0 75. Somente a partir da estabilização da moeda e da recuperação da economia.7 56.0 100. essa relação vai assumir novamente valores crescentes.5 60.7 38.0 100. e o segundo.5 33. o diferencial de rendimento entre os sexos vigente na nossa sociedade permanece elevado.0 100.8 74.8 35. tabela 3.2 73. decorrente do crescimento relativo de setores que usualmente são bons empregadores de mão-de-obra feminina e de um processo de feminilização a taxas diferenciadas por setor. a remuneração das mulheres é 57.8 34.3. Síntese de Indicadores da Pesquisa Básica da PNAD de 1981-1989.9 59.9 66. com a mão-de-obra feminina se distribuindo em um elenco mais diversificado de ocupações.6 40.0 100. 1992. Com a crise implantada no início dos anos 90.8 64.6 59.0 100.4 40.6 75.7 67.9 47.5 39. também. dados de 1993 em diante obtidos nas PNAD correspondentes.0 100. com o aumento expressivo dos níveis de escolaridade.0 100. A tabela 2 mostra a 2 evolução dos rendimentos reais do trabalho de homens e mulheres ocupados na economia brasileira. e a regional.1 45. É importante salientar.1 33.6% da dos homens.0 68. a desigualdade de salários pode ser decorrente de dois fatores: o primeiro. dados de 1990 – Anuário Estatístico do Brasil. a da posição na ocupação.8 75.5 66. Indicadores de condição de atividade para as pessoas de 10 anos ou mais de idade – 1981 a 1998.0 48. que o crescimento da participação feminina na PEA tem sido acompanhado por mudanças de composição.4 54. atingindo.2 47. de forma que.0 75.8 38. Notase que na primeira metade da década de 80 a remuneração das mulheres se mantém ao redor de 50% da dos homens. impulso nº 28 161 .0 66. associada ao processo de urbanização.9 73.3 59.

6 50. BARROS et al. 1992. ANO 1981 1983 1984 1985(2) 1986 1987(2) 1988(2) 1989 1990 1992 1993 1995 1996 1997 1998 RENDIMENTO MÉDIO MENSAL REAL(1) DE TODOS OS TRABALHOS DAS PESSOAS OCUPADAS Homens/Mulheres (%) Total(3) Homens(3) Mulheres(3) 739 635 630 731 1. são raros os pesquisadores que se utilizam de ferramental econométrico para analisar a existência desse tipo de discriminação na economia brasileira. em outros termos.6 53.245 944 938 1.057 443 372 381 441 642 504 502 591 514 394 412 565 633 617 627 50. (1) Inflacionado pelo INPC com base em setembro de 1989.1 57. segundo o sexo – 1981 a 1998. serem remunerados de forma distinta.112 892 740 814 1.4 53. O segundo compreende a discriminação salarial propriamente dita. 1983. recebem salários menores porque têm acesso apenas às ocupações pior remuneradas e/ou recebem pagamento inferior no desempenho da mesma função. que a segregação ocupacional por sexo nesses Estados é elevada. Verificaram. com os valo4 5 3 REIS & BARROS. apesar de igualmente qualificadas. Embora no âmbito internacional existam virtualmente centenas de trabalhos empíricos desenvolvidos com o objetivo de quantificar a discriminação contra a mão-de-obra feminina. Brasil. Entre eles podem ser citados os trabalhos de Camargo & Serrano4 e o de Barros.6 57.. Dados de 1992 em diante obtidos nas PNAD correspondentes. diferenciados com base em atributos não produtivos).5 53. (2) Valores revistos. 162 impulso nº 28 . entre 1981 e 1990. da segregação ocupacional por gênero nos Estados de São Paulo e de Pernambuco. (3) Valores em NCZ$.072 1.5 Mais recentemente. Ramos & Santos. decorrente de uma segmentação do mercado de trabalho na qual o sexo se torna uma variável de triagem.080 1. Rendimento médio mensal real de todos os trabalhos das pessoas ocupadas.042 792 786 928 757 605 656 853 903 893 885 874 765 753 876 1.6 54.18 e IBGE – Síntese de Indicadores da Pesquisa Básica da PNAD de 1990. 6 CAMARGO & SERRANO. seja porque o mercado de trabalho é segmentado (caso em que os postos de trabalho valorizam seus atributos de forma diferente). 1991.3 Diz-se que as mulheres são discriminadas no mercado de trabalho quando.2 50.6 53. Ometto. tabela 6.7 48. a discriminação é ocupacional.3 51.6 59.20.3 Fonte: IBGE – Síntese de Indicadores da Pesquisa Básica da PNAD de 1981-1989.6 50. tabela 6. 1997.1 58. através do índice de segregação de Duncan. No primeiro caso. analisaram a evolução. Hoffmann & Alves.044 1. Nota: Exclusive o rendimento da população da área rural da Região Norte. OMETTO et al.. seja porque são discriminado (ou.T abela 2.6 utilizando dados individuais das PNAD.

promoções etc. Os resultados obtidos mostraram que as diferenças de qualificação entre homens e mulheres que participam da PEA não apenas explicam uma parcela desprezível da desigualdade de remuneração em São Paulo. mas homens e mulheres igualmente qualificados encontram-se segregados por escolha ou opção pessoal. através da metodologia que conjuga o ajuste de equações de rendimento por categoria ocupacional a um modelo logito multinomial. Ometto. ainda. impulso nº 28 163 . as diferenças de remuneração entre os gêneros não exigiriam nenhum tipo de intervenção.res do índice indicando que entre 58% e 65% da força-de-trabalho feminina (ou masculina) deveriam ser realocados para eliminar sua super-representação em determinadas ocupações e sua sub-representação em outras. como contribuem para reduzir essa desigualdade em Pernambuco. BECKER. com sua vertente constituída pela teoria do capital humano. a escola neoclássica. Todavia. DISCRIMINAÇÃO CONTRA A MÃO-DE-OBRA FEMININA: INTERPRETAÇÕES ALTERNATIVAS De modo geral. Hoffmann & Alves7 compararam a importância relativa da discriminação salarial e da ocupacional nesses dois Estados brasileiros. A INTERPRETAÇÃO DA TEORIA NEOCLÁSSICA: DO MODELO DE GARY BECKER À PROPOSTA DO “CAPITAL HUMANO” Embora o primeiro neoclássico a abordar de forma relativamente sistemática a questão da discriminação tenha sido Edgeworth. que procura estimar a distribuição ocupacional que vigoraria na ausência de discriminação. cada um dos quais com regras próprias de determinação de salários. Já em Pernambuco resultam. ou existem impedimentos estruturais criando barreiras à mobilidade. da discriminação salarial. EDGEWORTH. os quais. O modelo utilizado permitiu concluir. pp.9 Supondo um mercado de trabalho unificado. que levam à constituição de mercados isolados. pode-se dizer que as análises sobre a discriminação têm. Se o acesso às ocupações é universal. considerando que o aprofundar do conhecimento sobre as condições que favorecem a permanência de práticas discriminatórias no mercado de trabalho é uma pré-condição para a adoção de políticas que beneficiem a transformação da sociedade brasileira numa sociedade mais igualitária. 1999. como pano de fundo. Utilizando essa mesma base de dados. basicamente. uma questão central: o mercado de trabalho é unificado. 1922. as mulheres que se encontram excluídas de tais postos de trabalho são prejudicadas. A existência de diferenças significativas entre salários masculinos e femininos em um amplo espectro de países e a comprovação de que tais diferenças não podem ser explicadas pela desigualdade de qualificação têm gerado uma série de estudos que visam a criação de modelos analíticos. se esse acesso não é universal e ocupações tipicamente masculinas possibilitam a obtenção de rendimentos significativamente maiores. no qual existe perfeita informação dos agentes en8 9 Idem. 1957.8 o interesse no tema por parte dessa corrente da teoria econômica viria a se difundir apenas após a publicação do trabalho de Becker. 431-457. apoiados em diferentes pressuposições teóricas. que as diferenças de remuneração entre os gêneros em São Paulo decorrem da existência das duas formas de discriminação – a salarial e a ocupacional. estabele7 cem as condições nas quais esse tipo de discriminação pode persistir.? A partir de diferentes respostas a essa questão preliminar. O presente trabalho pretende desenvolver uma reflexão crítica a respeito desse debate teórico. e a teoria do mercado de trabalho segmentado fornecem explicações particulares à remuneração persistentemente menor da mão-de-obra feminina.

Somente na hipótese pouco plausível da estrutura vigente do emprego impedir que as mulheres encontrem espaço em tais postos é que o diferencial de salários se sustentaria. nesse caso. Em outros termos. implicando. conforme alega Stiglitz. é insustentável no longo prazo. por sua vez. diretamente ou na forma de renda reduzida.volvidos e livre mobilidade. escolhem a combinação que maximiza a utilidade. embora se configure uma situação de segregação.10 Essa preferência pode ter diversas origens. Nesse processo se estabelece a demanda por trabalho. pelas pressuposições do modelo. Por fim. diferencial salarial. 1957. para se relacionar com algumas pessoas ao invés de outras”. p. inibindo as oscilações salariais decorrentes de variações da oferta e da demanda por trabalho. 56ss. tornando tais firmas mais lucrativas. ou ainda. isolada ou conjuntamente. garantirão o pleno emprego na economia. contratando trabalhadores até o nível de emprego no qual os salários se igualam ao valor do produto marginal do trabalho. o que. necessariamente. e não. se colegas de trabalho preconceituosos exigissem um adicional de pagamento para tra11 Becker argumenta que a expansão das firmas sem preconceito somente poderia ser freada se os custos fossem crescentes à escala (1957. pode provocar a queda dos salários de mulheres em trabalhos que envolvam contato com consumidores. Considerando um mercado de trabalho funcionando segundo esse modelo. as mulheres não encontrarão emprego nas firmas que as discriminam. 164 impulso nº 28 . que os empresários estejam dispostos a contratar mulheres apenas por salário menor do que o que pagariam a homens igualmente produtivos. nesse caso. Se numa sociedade existem empregadores que discriminam mulheres. a inexistência de barreiras à entrada que caracteriza o sistema de competição perfeita possibilitaria às firmas com lucros acima dos considerados “normais” a expansão da produção através da montagem de novas plantas e/ou compra das já existentes. A análise de Becker permite verificar que. como o estabelecimento de valor mínimo para os salários ou ainda limitações que impeçam sua flexibilidade. dadas as suas preferências e os salários (reais) com que se deparam. os seus salários serão reduzidos (e o pleno emprego restaurado). Ibid. motivo pelo qual “os indivíduos agem como se estivessem dispostos a pagar. Os indivíduos. as empresas maximizam seus lucros considerando a tecnologia e os preços dos fatores de produção como dados. as diferenças entre os rendimentos dos dois tipos de trabalhadores podem ocorrer apenas no curto prazo. E mesmo sob essa hipótese. A interação entre a oferta e a demanda determina os níveis do emprego e do salário que vigorarão na economia. p. e estiver suficientemente difundido na economia. pois. optam entre o trabalho (e subseqüente renda) e o lazer. Nesse processo é gerada a oferta de trabalho. 36). o que provocaria novamente segregação. a mão-de-obra contratada pelos empregadores sem preconceito será exclusivamente feminina. a inexistência de entraves ao funcionamento desse mercado. tanto dos trabalhadores em busca de melhores salários como dos empregadores por mão-de-obra. 1973. a teoria neoclássica propõe que os salários e o emprego sejam determinados a partir dos processos de maximização do lucro das firmas e da utilidade dos indivíduos. 6. Contudo. sob tais hipóteses.12 Mas. se o volume de emprego oferecido pelas empresas que não se pautam pelo preconceito é insuficiente para a absorção da oferta de trabalhadoras. em tais circunstâncias. p. que os colegas de trabalho exijam um adicional de pagamento para compartilhar com elas o ambiente de trabalho. numa situação de “desequilíbrio autocorrigível”.11 Se o preconceito se origina no consumidor. homens e mulheres igualmente produtivos receberão salário equivalente. e. 12 BECKER. Becker acrescenta as condições de que homens e mulheres sejam igualmente produtivos e de que exista a “preferência pela discriminação”. que os consumidores por elas atendidos adquiram as 10 mercadorias apenas se lhes for oferecido um desconto. Num mercado competitivo. Por outro lado. mas o volume de emprego oferecido pelos que não o fazem é suficiente para absorver a oferta de trabalho.13 as trabalhadoras seriam encorajadas a procurar postos de trabalho que não exigissem tal contato. 13 STIGLITZ..

embora o monopólio no mercado de produtos possa resultar em lucros acima dos considerados “normais” (o que viabilizaria perdas decorrentes de comportamento discriminatório). assim. CAIN. assim como a competição no mercado de produtos tende a eliminar a discriminação nas empresas competitivas. no longo prazo. nas grandes empresas. Nessas circunstâncias. MARSHALL. 2. de forma que variações na sua demanda de trabalho afetam o nível de salários. individualmente. algumas firmas detêm monopólio no mercado de produtos. salvo em situações consideradas pouco prováveis. Ibid. E mais. no qual os trabalhadores dos dois sexos sejam igualmente produtivos e exista a “preferência pela discriminação”. que podem prejudicá-las apelando ao público simpático aos interesses das minorias. os trabalhadores estão organizados em sindicatos. Além do mais. E mesmo nesse caso a influência do monopólio como fonte primária de discriminação poderia ser questionada por razões de ordem prática. conclui que a discriminação nas indústrias monopolistas poderia persistir apenas se a posse fosse intransferível. p. pela sua proeminência pública. pois não conseguirá contratar mulheres por salário inferior ao que vigora no mercado.balhar com mulheres igualmente capazes. tal firma contratará apenas homens. impulso nº 28 165 . a competição no mercado de capitais deve reduzi-la nas empresas monopolistas. às pressões organizadas de grupos minoritários. Se a firma não puder afetar os salários. Conforme sugere Marshall. a sua situação de monopólio será irrelevante. as relações estabelecidas entre a administração e os empregados são mais distantes) e maior facilidade em integrar a mão-de-obra sem custos adicionais (visto que mesmo colegas de trabalho preconceituosos procuram evitar o sacrifício de boas posições no mercado de trabalho). novamente os custos maiores do emprego conjunto poderiam ser evitados através da segregação ocupacional. 48. cada empregador se depara com uma oferta de trabalho ascendente.15 Dessa forma. 1986. 1957. p. Em outros termos.14 O diferencial de salários poderia persistir apenas quando o número de trabalhadoras e trabalhadores sem preconceito fosse insuficiente para permitir o funcionamento de firmas em escala economicamente viável que integrassem a mão-de-obra de mulheres e homens sem preconceito ou nas quais se promovesse a segregação. afetem o nível de salários e a oferta de trabalhadores aos demais.17 Na segunda situação. se a posse for transferível. a competição imperfeita pode ser introduzida através das seguintes hipóteses: 1. não implica poder no mercado de trabalho.. ainda assim. considerada como forma clássica de exploração da mão-de-obra. Assim. a racionalidade dos agentes envolvidos levaria a que. Na primeira situação é preciso ter em mente que. 1974. 38. as empresas monopolistas. e não a 14 discriminação da mão-de-obra. tendem a ser muito sensíveis à questão da imagem e. Mesmo relaxando a pressuposição de competição perfeita. Na busca de 15 16 17 BECKER. e nem necessitará pagar aos homens salário superior. as diferenças salariais discriminatórias num mercado de trabalho competitivo seriam um fenômeno de curto prazo. autocorrigível pelas próprias regras que norteiam o funcionamento do mercado. os trabalhadores estão cativos em um mercado no qual o número de empregadores é suficientemente pequeno para que as ações de cada um deles. Becker encontra dificuldades em oferecer um modelo que explique de maneira convincente a persistência da discriminação. mesmo que a difusão dos monopólios na economia seja suficiente para que o comportamento do conjunto dessas empresas possa afetar o mercado de trabalho.16 monopolistas (ou oligopolistas) devem ter menor interesse em discriminar (dado que. configurando-se novamente a segregação. Em decorrência. e 3. Supondo novamente um mercado de trabalho que funcione com base em pressuposições neoclássicas. empresários menos preconceituosos assumissem o comando. um pequeno número de empregadores absorve fração expressiva da força de trabalho.

Pelas mesmas razões. BECKER. o impacto da sindicalização no diferencial de pagamentos de homens e mulheres é insignificante (explicando apenas 1. DARITY 1975. e não da discriminação. São. STIGLITZ. 1973. 1975. 166 impulso nº 28 . 1972. autocorrigível pelo funcionamento do mercado de trabalho. o seu modelo mostra que diferenças salariais de cunho discriminatório seriam um fenômeno de curto prazo. 26 PHELPS.9% dele). uma série de pesquisas empíricas tem verificado efeito positivo da sindicalização na remuneração dos seus associados. 1957. corretamente. dado o baixo grau de sindicalização dos trabalhadores de ambos os sexos na economia norte-americana.22 Em resumo. MARSALL. 54. nesse modelo. não colocam as pressuposições neoclássicas em xeque. 24 WELCH. o que. Portanto. o comportamento maximizador dos lucros resultará em salários menores para mulheres quando a oferta feminina de trabalho for menos elástica em relação aos salários que a masculina. 1988 apresentam revisão abrangente das idéias de Becker e das críticas subseqüentes à publicação do seu trabalho. 1986 e MADDEN. Welch24 denomina a teoria de Becker de “teoria da segregação”. .27 cientes dessas dificuldades. 27 SPENCE. argumentando que a prevalência de monopsônio no mercado de trabalho é muito limitada. toda a argumentação de Becker o leva a concluir que a discriminação pode resultar na segregação das trabalhadoras em determinados postos de trabalho. quando trabalhadores preconceituosos formam um monopólio na venda da força de trabalho. 1973. embora procurem apontar as contradições internas do modelo de Becker. críticas internas à teoria. Essas questões tem sido levantadas por críticos do modelo primitivo de Becker. 1973. Por fim. 23 ARROW 1972. mas também porque os meios de transporte modernos expandiram os limites geográficos desse mercado. a disponibilidade para serviço noturno e horas extras etc. simultaneamente. ASHENFELTER. os sindicatos trabalhistas estão amplamente difundidos na sociedade. Arrow. que as análises empíricas têm verificado que a elasticidade da oferta feminina de trabalho é usualmente maior que a da masculina. 192. 1971. elevar seus níveis salariais e restringir a entrada de mulheres na categoria. como SOWELL. Assim. a menor participação feminina em categorias cobertas por contratos coletivos de trabalho deveria 18 19 20 resultar em salários médios menores que os masculinos.25 Phelps26 e Spence. mas apenas em circunstâncias muito pouco prováveis tais postos podem ser persistentemente pior remunerados. leva a uma situação de equilíbrio na qual o volume de emprego e o salário são menores que os que vigorariam num mercado competitivo.). também. De modo geral. claramente. ARROW 1972 e 1973.20 E. Pode-se demonstrar que. . 1973. Ao contrário das situações de monopsônio. p. CAIN.18 Cain19 critica a viabilidade da persistência de diferenciais salariais por esse motivo. p. Além disso. Ashenfelter21 verificou que. e CAIN. WELCH. que “o modelo prevê a ausência do fenômeno que se propõe a explicar”. podem. As dificuldades enfrentadas por Becker na construção de uma “economia da discriminação” levaram Arrow23 a concluir. 25 ARROW 1973 . . assim como do irrealismo da hipótese da “preferência pela discriminação” num modelo pautado pela racionalidade econômica dos agentes 21 22 MADDEN. Lembra. a introdução de imperfeições no mercado de produto e/ou trabalho claramente não resolve os problemas encontrados pela teoria neoclássica para explicar as diferenças substanciais e persistentes entre o pagamento de homens e mulheres igualmente produtivos. embora a adoção de critério de contratação que exclua eventuais candidatos com base no sexo possa ser alvo de sanções. pois.maximização dos lucros o monopolista empregará trabalhadores até que se atinja o ponto no qual a despesa marginal com a mão-de-obra iguale sua receita marginal. 1975. 1986. Apesar disso. não apenas porque a maioria da população vive em grandes centros urbanos. 1974. CAIN. 1986. os sindicatos costumam negociar com os empregadores um conjunto de requisitos que afastam de fato as mulheres (como a experiência prévia no ramo. conforme descrito nos manuais de microeconomia neoclássica.

incentivos consideráveis para que trabalhadores e empresários encontrem indicadores mais eficazes da produtividade. 1972.33 Em suma. Entretanto. diferenças salariais baseadas em percepções da realidade que a experiência demonstrasse ser equivocadas não deveriam persistir. os seus salários. como é considerada um indicador menos confiável para as mulheres. o seu salário.29 Neste contexto. dos candidatos. Novamente. O passo seguinte foi. apesar de a educação formal não gerar aumentos de produtividade. Nesse mundo de informações imperfeitas. caso a caso. em quaisquer das hipóteses existem. na expectativa dos salários maiores que vigorariam após tal período. considerados agentes econômicos racionais que dispõem de perfeita informação. impulso nº 28 167 .28 buscaram justificar as diferenças salariais através do relaxamento da pressuposição de informação perfeita no mercado de trabalho. então. 31 LUNDBERG & STARTZ. em média. a escolaridade é encarada como uma credencial que indica a produtividade inata do indivíduo. optam por remunerar a mãode-obra de acordo com as estimativas de que dispõem. pode-se supor que os trabalhadores que se considerassem prejudicados pelos critérios adotados – não apenas as mulheres. mas à estimativa da média desse valor. os indivíduos naturalmente mais hábeis têm maior facilidade para alcançar níveis elevados de escolaridade. considerando os custos envolvidos numa análise mais precisa. 1983. a aversão ao risco do empresariado o leva a contratar mulheres apenas se os seus salários forem menores. os indicadores disponíveis são menos confiáveis para as mulheres. não dispõem de informações seguras sobre a produtividade real dos candidatos. experiência etc. necessitando avaliá-la com base em indicadores que não são plenamente confiáveis. Entretanto.30 O primeiro propõe que. os empresários. Se é apenas a falta de informação que leva os trabalhadores a serem remunerados pela estimativa da produtividade média do seu sexo. também a argumentação não demonstra que o custo da procura de informações mais fidedignas é maior que o dos erros de contratação que decorrem da ineficiência dos critérios.envolvidos.31 Como justificar que trabalhadores e empresários. respectivamente. considera-se que os empregadores não pretendem discriminar as mulheres. 33 McCALL. conseqüentemente.32 Além de se poder questionar a razoabilidade das suposições de maior variância da produtividade e/ou da menor confiabilidade dos indicadores. com a diferença de que as empresas contratam trabalhadores até o nível de emprego no qual os salários se igualam não ao valor do produto marginal do trabalho. alega-se que. a aversão ao risco do empresariado o levará a preferir contratar homens. ou seja. deprimindo a demanda por mulheres no mercado de trabalho e. 28 No segundo. Assim. a variância da produtividade é maior para a mão-deobra feminina. No que se convencionou denominar “teoria estatística da discriminação”. os obstáculos encontrados pela teoria neoclássica para justificar a existência de discriminação no mercado de trabalho aparentemente não puderam ser transpostos a contento. nem pelo abandono da pressuposição de competição perfeita nem pelo da informação perfeita. igualmente produtiva.) e. baseados em suas percepções da realidade. a aversão ao risco do empresariado deprimirá a demanda pela mão-deobra feminina e. embora estejam dispostos a pagar salários semelhantes para homens e mulheres igualmente produtivos. E. constróem estimativas da produtividade média de homens e mulheres com determinadas características (nível de escolaridade. Nessas circunstâncias. apesar de a produtividade média de homens e mulheres ser semelhante. apesar de a mão-de-obra dos dois sexos ser. em conseqüência. adotem um comportamento que pode excluí-los do mercado ao solicitar. dentro do referencial neoclássico no qual a teoria é construída. 1972. os diferenciais de salários são explicados basicamente por dois argumentos. adicional de pagamento para compartilhar o ambiente de trabalho com mulheres igualmente produtivas. os indivíduos passam a ser julgados com base nas características médias dos grupos a que pertencem. mas todos os que acreditassem ter produtividade maior que a média da sua categoria – provavelmente estariam dispostos a trabalhar por baixos salários durante um período de experiência. ou se dispor a pagar salários maiores a homens igualmente qualificados? 29 As normas preconizadas para o funcionamento do mercado de trabalho são as mesmas da teoria neoclássica convencional. Assim. considerar que as diferenças salariais são o resultado de diferenças – determinadas exogenamente ao mercado de trabalho – de qualificação da 32 SPENCE (1973) considera que. 30 A formalização dos argumentos pode ser vista em PHELPS.

mão-de-obra. E essa tarefa foi empreendida pelos adeptos da teoria do capital humano. A linha mestra dessa teoria é a hipótese de que grande parte dos gastos que os indivíduos têm consigo mesmos é realizada objetivando retornos futuros. Dessa forma, a busca de maior escolaridade, informação, saúde etc., implica gastos que devem ser encarados, não como decisões de consumo, mas como decisões racionais de investimento. Dada a fundamentação neoclássica da teoria, considera-se que o trabalhador seja pago pelo valor do seu produto marginal. Em decorrência, investimentos no “capital humano”, sejam gerais (através do ensino formal) ou específicos (através do treinamento em atividades particulares da firma que emprega o trabalhador), levam a aumentos de produtividade que resultam em salários maiores. A racionalidade econômica dos indivíduos os leva a investir na sua formação com base em suas percepções dos custos das opções disponíveis e dos benefícios gerados por cada uma delas.34 Sob tais hipóteses, a desigualdade de renda vigente numa sociedade em que prevalece a igualdade de oportunidades e o acesso a informações passa a ser o reflexo da distribuição de atributos pessoais natos, entre os quais o talento e o tino comercial, ou fruto de decisões individuais, como os investimentos na educação (que refletem, por sua vez, os padrões individuais de preferência temporal), e da experiência no mercado de trabalho. Os diferenciais de rendimento entre os sexos vão decorrer, basicamente, do fato de homens e mulheres avaliarem suas opções considerando diferentes expectativas a respeito dos padrões de trabalho que esperam desenvolver ao longo de sua vida útil. Tais expectativas resultam de uma divisão de trabalho na família que, conforme Becker,35 é favorecida por incentivos econômicos. Considerando que o consumo familiar envolve a aquisição de bens (o que, por sua vez, implica rendimentos monetários e, portanto, trabalho remunerado) que devem ser transformados pelo trabalho doméstico, a subsistência familiar exige o desempenho de atividades no
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mercado de trabalho e no ambiente doméstico. Como tais atividades envolvem habilidades específicas, que podem ser aprimoradas através de investimentos sujeitos a retornos crescentes, a família como um todo ganha com a especialização dos seus membros.36 Consubstanciada essa divisão sexual do trabalho, as decisões de investimento em termos do “capital humano” dos membros da família são tomadas como base em expectativas a respeito dos padrões futuros de trabalho que diferem segundo o sexo. Além do mais, assumindo-se que as responsabilidades domésticas resultem em um padrão de atividades remuneradas marcado pela descontinuidade, e que a interrupção da atividade seja “punida” pela depreciação dos salários que decorre da obsolescência das habilidades do trabalhador que se ausenta do mercado, a expectativa desse padrão37 leva as mulheres não apenas a menores investimentos na qualificação, mas também a buscar os empregos nos quais a descontinuidade receba menor penalidade.38 Como resultado, mesmo na ausência de discriminação, as escolhas racionais dos ofertantes do trabalho conduzem à segregação ocupacional: “Se o ciclo de participação no mercado de trabalho difere entre os indivíduos, e se os custos desses diferentes graus de intermitência variam entre as ocupações, então os indivíduos vão escolher as ocupações com menor penalidade para a participação que programam ter a longo de sua vida”.39
Como percebe corretamente O’NEILL (1988), as pressuposições desse modelo resultam na especialização, mas não na divisão sistemática do trabalho segundo o gênero. Para tal seria necessária a vigência de outras condições: a mulher deveria apresentar vantagens comparativas na produção doméstica e/ou rendimentos potenciais menores no mercado de trabalho. 37 É preciso ter em mente que para a lógica da teoria não é necessário que o padrão de descontinuidade se verifique, pois sua expectativa é condição suficiente para gerar os resultados preconizados. 38 POLACHEK, 1976 e 1979. 39 Idem, 1979, p. 144. England, através da análise das informações do National Longitudinal Survey (NLS), de 1967, não encontra suporte empírico para as idéias defendidas por Polachek (ENGLAND, P The failure of . human capital theory to explain occupacional sex segregacion. The Journal of Human Resources, 17 (3): 358-370, 1982). Verifica que os rendimentos das mulheres em ocupações predominantemente femininas não apresentam menor taxa de depreciação ou de valorização do que os das que estão inseridas em ocupações masculinas. Além disso, as mulheres que passam maior número de anos depois da escola fora do mercado de trabalho não se encontram em ocupações com maior predominância de mulheres do que as que têm atividade mais contínua.
36

BECKER, 1975; e MINCER, 1962 e 1974. BECKER, 1981 e 1985.

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Ou seja, dado um padrão de divisão familiar do trabalho que confere maiores responsabilidades domésticas às mulheres, os diferenciais de rendimento entre os sexos e a segregação ocupacional se explicam por decisões racionais dos ofertantes do trabalho em termos dos investimentos diferenciados segundo o sexo na qualificação profissional e da escolha da carreira a seguir.40 A intermitência resulta ainda em menor experiência e, como a experiência provoca aumento dos rendimentos em decorrência da produtividade gerada pelo treinamento que ocorre no trabalho,41 a teoria encontra uma justificativa adicional para os menores salários auferidos pelas mulheres. Em suma, a abordagem do capital humano enfatiza a idéia de que o menor investimento, menor experiência e segregação ocupacional resultam de escolhas voluntárias da mão-de-obra feminina. Diferenças por gênero na estrutura da demanda, por sua vez, desempenham papel passivo no modelo, na medida em que são consideradas mero resultado da percepção correta dos empregadores acerca da menor produtividade das trabalhadoras.

A Teoria da Segmentação do Mercado de Trabalho
Rejeitando o universalismo a-histórico das análises neoclássicas, Doeringer & Piore42 propõem ser a segmentação do mercado de trabalho uma conseqüência do desenvolvimento da estrutura produtiva das economias capitalistas industrializadas. O desenvolvimento desigual da indústria moderna acarreta o surgimento de setores oligopolizados, compostos por grandes empresas, tecnicamente dinâmicas, e setores menos concentrados, abran40 Deve-se notar que essa explicação difere substancialmente da oferecida por BECKER, 1957. Como vimos, para esse autor se houver preconceito contra mulheres por parte de empregadores, colegas de trabalho ou consumidores de certas empresas, no longo prazo, a mão-de-obra feminina será realocada nas atividades em que os agentes envolvidos não se pautam pelo preconceito. Em outros termos, a análise de Becker enfoca os determinantes da demanda de trabalho que levam à segregação das trabalhadoras em determinadas posições. Contudo, é importante perceber que as duas abordagens não se constituem em interpretações opostas, mas sim complementares. 41 MINCER, 1962; e BECKER, 1975. 42 DOERINGER & PIORE, 1971.

gendo firmas de menor porte e base técnica usualmente menos avançada. A expansão do número de postos e funções que respondem à necessidade de normas de controle burocrático das grandes empresas do mundo contemporâneo, assim como às suas especificidades em relação à qualificação, tecnologia e processos de treinamento da mão-de-obra, faz com que o mercado de trabalho assuma natureza cada vez mais compartimentalizada. Assim, nas grandes empresas, as posições subalternas da hierarquia são preenchidas pelos trabalhadores que nelas ingressam. Contudo, uma vez admitidos, as promoções são decididas internamente, com base numa estrutura de cargos e salários que constituem carreiras específicas das firmas e visam, não apenas atender a normas de controle burocrático de estruturas agigantadas, mas também, e principalmente, diminuir os custos significativos da rotatividade de uma mão-de-obra recrutada, selecionada e treinada para o desempenho de atividades específicas da empresa. Deve-se considerar que a introdução de novas técnicas e o crescimento da produtividade da mãode-obra registrado nessas empresas nas últimas décadas tornam os salários parcela cada vez menos importante do seus custos, permitindo-lhes conceder aumentos salariais sem comprometer a lucratividade. Entretanto, dada a oferta abundante de mão-deobra para os postos de ingresso, tais aumentos não necessitam ser generalizados. Ao invés disso, abrese a possibilidade de um amplo leque de salários que sanciona o estabelecimento do mercado interno de trabalho.43 A progressão do indivíduo na carreira à qual seu posto de ingresso dá acesso dependerá de sua adaptabilidade às normas estabelecidas, de sua identificação com os objetivos da empresa, dos treinamentos aos quais foi submetido etc., ficando relegadas para segundo plano as dimensões avaliadas antes da incorporação do trabalhador. Neste contexto, o processo de determinação dos salários difere significativamente do preconiza43

SOUZA, 1980, p. 94.

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do pela teoria neoclássica. A incorporação, na análise, dos custos fixos da força de trabalho (decorrentes do recrutamento, seleção, contratação e treinamento da mão-de-obra), que devem ser amortizados ao longo de uma permanência incerta do trabalhador na firma, dificulta sobremaneira a determinação dos salários pelo princípio da equivalência entre custos e produtividade marginal. Além disso, o salário, que não deve ser encarado como a remuneração do indivíduo, mas como a que pode ser recebida pela ocupação de determinado posto de trabalho, não está atado à produtividade individual, e sim a de grupos de trabalhadores na mesma função. Por fim, outro importante determinante neoclássico dos salários – a remuneração em oportunidades alternativas de emprego – também perde importância, pois os trabalhadores que abandonam a empresa têm acesso apenas a posições de ingresso (e, portanto, pior remuneradas) nas demais. Logicamente, as grandes empresas não absorvem a totalidade da força de trabalho. No âmbito dos mercados internos de trabalho, cujo conjunto Doeringer e Piore denominam mercado primário, os salários se tornam relativamente elevados, as possibilidades de ascensão profissional amplas e os empregos estáveis. Contrapondo-se a ele encontra-se o mercado secundário de trabalho, que compreende os empregos que não se estruturam segundo níveis hierarquicamente estabelecidos (ou, em outros termos, aqueles para os quais não existe nenhum tipo de carreira), e os que, embora organizados segundo uma estrutura formal, tendem a ter muitos postos de ingresso e pouca mobilidade ou possibilidades de promoção. Nesse mercado, que abrange principalmente os empregos localizados no setor doméstico e nas firmas de menor porte, além de alguns tipos de trabalho desenvolvidos em grandes empresas, a rotatividade não é percebida como um problema, pois a oferta de trabalhadores, pelas baixas exigências de qualificação e treinamento, é abundante, possibilitando que a reposição da mão-de-obra se faça praticamente sem custos. Em decorrência, no mercado secundário os cargos são menos estáveis, os salários

mais baixos e a possibilidade de ascensão profissional menor. Nessa abordagem, a desigualdade de salários por gênero resulta de uma alocação da força de trabalho que seleciona as mulheres preferencialmente para as carreiras menos atrativas do mercado secundário. A questão central que se coloca é o porquê da segregação da mão-de-obra feminina em tais postos. E, nesse particular, a resposta da teoria do mercado segmentado é semelhante a dos adeptos da teoria estatística da discriminação: o caráter intermitente do trabalho feminino favorece sua participação no mercado secundário, que encoraja a rotatividade da mão-de-obra através dos baixos salários e raras chances de promoção. A organização do mercado primário, por sua vez, pelos custos de treinamento da mão-de-obra e oportunidades de ascensão profissional, é mais adaptada à mão-de-obra masculina, encarada como mais estável e confiável. Se homens e mulheres diferem significativamente em termos da proporção que possui as características desejadas (no caso, a estabilidade), num mundo onde não existe perfeita informação, a política mais eficiente de contratação pode ser, simplesmente, a exclusão dos candidatos do sexo feminino. Dessa forma, o sexo torna-se uma variável-chave de triagem e o diferencial de salários se explica por uma segregação ocupacional com predomínio de mulheres nos cargos pior remunerados.44 É claro que as práticas que restringem as mulheres às posições subalternas e lhes negam o acesso a treinamento devem provocar a elevação da rotatividade e do absenteísmo. Assim, pode-se criar um círculo vicioso através do qual as opiniões são reafirmadas sem que se ofereçam às mulheres oportunidades de responder a uma estrutura diferente de incentivos.45 Os autores argumentam, ainda, que mesmo as trabalhadoras que estão incorporadas no mercado primário de trabalho podem ser pior remuneradas em decorrência de práticas discriminatórias nas
44 45

DOERINGER & PIORE, 1971, cap. 8. WEISSKOFF, 1972, p. 164.

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ainda. ainda. 1971. pelos menores investimentos realizados pela mão-de-obra feminina no “capital humano” e pela sua menor experiência no mercado de trabalho. as oportunidades desiguais com que se defrontam as trabalhadoras levam tanto à sua segregação num elenco restrito de ocupações. além da aversão ao risco do empresariado. ou de oportunidades desiguais de realizar escolhas semelhantes. apenas em circunstâncias muito específicas tais postos podem ser persistentemente pior remunerados. mas por características próprias de seu sexo. a baixa remuneração que auferem no mercado secundário é transmitida para o primário através do rebaixamento dos níveis salariais iniciais das carreiras em que estão inseridas. correlatamente. como à sua pior remuneração. as quais apresentam. Entretanto. Tais evidências são fortes indicativos de que esse não é um problema autocorrigível pelo funcionamento do mercado de trabalho. a menor remuneração das mulheres não é provocada pela discriminação. Em primeiro lugar. transcorrido mais de um século após a abolição da escravidão no Brasil e a plena constituição de um mercado de trabalho assalariado. A segregação das mulheres nas ocupações pior remuneradas não se constitui em objeto de análise dessa teoria. considerada uma característica-chave para o setor oligopólico. Para os adeptos da abordagem do mercado de trabalho segmentado. Assim.regras que governam a determinação dos salários.46 CONCLUSÕES Quando se busca verificar se a desigualdade por gênero observada na distribuição ocupacional e nos salários resulta de diferentes escolhas dadas as mesmas oportunidades. ao invés de procurar equipará-los pelo nível de qualificação exigido. Os adeptos da teoria estatística da discriminação explicam os diferenciais de salário entre os sexos através da aversão ao risco do empresariado conjugada à sua percepção acerca da maior variância da produtividade da mão-de-obra feminina ou. enfatiza a idéia de que são as escolhas racionais das ofertantes de trabalho que levam à sua segregação nas ocupações menos penalizadas pela intermitência. a segregação das mulheres nos postos de trabalho pior remunerados é determinada pela demanda de trabalho. De qualquer forma. segundo essa abordagem. Entretanto. pois a expectativa do empresariado acerca da menor estabilidade do conjunto da mão-de-obra feminina. da menor confiabilidade na capacidade dos indica46 dores disponíveis de avaliar corretamente a produtividade desse tipo de trabalhador. as correntes teóricas consideradas neste trabalho fornecem respostas diferentes.47 a discriminação pode levar à segregação das trabalhadoras em postos de trabalho nos quais os agentes envolvidos não se pautam pelo preconceito. 7. as carreiras com predominância de ocupação feminina podem também ser subvalorizadas pela aplicação de critérios desiguais de avaliação. essa segregação não necessariamente decorre da discriminação por parte dos agentes econômicos. como quer a análise neoclássica. Por outro lado. impulso nº 28 171 . 1957. Já para Becker. é importante salientar que. Além disso. cap. que adotam como prática estabelecer salários semelhantes para mulheres lotadas em diferentes tipos de serviço. por sua vez. como também auferindo rendimentos menores que os trabalhadores no desempenho da mesma função/ocupação. as análises empíricas disponíveis sobre o mercado de trabalho brasileiro permitem verificar que a discriminação contra mão-de-obra feminina se encontra amplamente difundida na nossa sociedade. com as trabalhadoras brasileiras encontrando-se não apenas segregadas em ocupações pior remuneradas. Os diferenciais salariais explicam-se. De qualquer forma. BECKER. os elevados índices de segregação ocupacional reportados nas análises empí47 DOERINGER & PIORE. A abordagem do capital humano. é suficiente para excluir as mulheres dos empregos melhor remunerados. reduzidas possibilidades de ascensão. causadas por fatores exógenos ao mercado de trabalho.

O. & SERRANO. Os dois mercados: homens e mulheres na indústria paulista. Censo Demográfico de 1980. Discrimination and trade unions. (ed.). S. o tratamento igualitário nesse mercado elimina as razões para considerar as mulheres como donas-de-casa. A Treatise on the Family. Human Capital. In: Encontro Nacional de Estudos Populacionais. EDGEWORTH. COSTA. 5: 225-490. 1990. 1957.H. LUNDBERG. In: ASHENFELTER. 1981. Anais. The theory of discrimination. I. A. a alegada (embora não comprovada) inferioridade da mão-de-obra feminina em termos do seu “capital humano” tenderá a desaparecer.). Oportunidades iguais encorajarão as jovens a se preparar para a atividade profissional e. Journal of Labor Economics. no longo prazo. Discrimination in Labor Markets.IPEA. Se considerarmos que o padrão de divisão familiar do trabalho que confere às mulheres maiores responsabilidades domésticas pode ser provocado pelos seus rendimentos potenciais menores no mercado de trabalho. 1983. BARROS. E. In: PASCAL. Rio de Janeiro. [Mimeo]. Economic theory and racial economic inequality. 1975.ricas disponíveis sugerem que a teoria da segmentação do mercado de trabalho pode se constituir numa ferramenta importante para a melhor compreensão desse fenômeno. 1983. __________. 1 (13): 1986.). Princeton: Princeton University.A. A. 1973. em primeiro plano. M.G. Estrutura das famílias e dos domicílios no Brasil: mudanças quantitativas e linhas de convergência. Rio de Janeiro. o ingresso no mercado primário de trabalho. 17 (3): 367-403. Labor market discrimination.Review of Black Political Economy. ASHENFELTER. 1992. uma estrutura de incentivos que ofereça às mulheres oportunidades de treinamento e o acesso a postos superiores na hierarquia. Handbook of Labor Economics.IBGE. Models of job discrimination. Todavia. em segundo.W.Internal Labor Makets and Manpower Analysis. & STARTZ.P. 73: 340-347. 1987. R. 1973.Y. E.J.IBGE.Estudos Econômicos. (eds. The allocation of effort. 1: 99-135. Referências Bibliográficas ARROW. O. A. São Paulo. Censo Demográfico de 1970. & PIORE. Princeton: Princeton University Press. DARITY. Da mesma forma. ou. Private discrimination and social intervention in competitive labor market. vii. CAIN. In: ASHENFELTER. In: ASHENFELTER. specific human capital and differences between men and women in earnings and occupations.Racial Discrimination in Economic Life.M. __________. & REES. R. deve provocar a diminuição da sua rotatividade e taxas de absenteísmo. G. R. necessariamente. BECKER. New York: Columbia University Press. Equal pay for men and women for equal work. 1972. DOERINGER. Chicago: University of Chicago Press. F. 1975. G. & REES. e trabalhadoras remuneradas. em outros termos.J. J. Cambridge: Harvad University Press.N. 37 (4): 435-48. (eds. K.B.Economic Journal. 431-457: 1922. BERQUÓ. a propostas políticas diferenciadas. __________. Arranjos familiares não-canônicos no Brasil. 172 impulso nº 28 . O.). é importante notar que a opção pelas diferentes interpretações teóricas não conduz. Lexington: Heath. 3 (1): 1985. O.S. et al. Gender Differences in Brasilian Labor Markets. P. F. (eds. CAMARGO.American Economic Review. et al. et al. Lexington: Lexington Books.Discrimination in Labor Markets.The Economics of Discrimination. quebrando o círculo vicioso que as condena às posições pior remuneradas. Revista Brasileira da Economia. 1971. & RAYARD. __________.

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174 impulso nº 28 .

EDUARDO ISMAEL MURGUIA Doutor em Educação pela Unicamp. Abstract This article tries to analyze the relationship between historiographical practices and new technologies. HISTORY AND NEW TECHNOLOGIES Resumo O presente artigo pretende analisar as relações entre as práticas historiográficas e as novas tecnologias.br impulso nº 28 175 . Categorias como tempo. It attempts to discuss the problem of the changes that these new means for the generation and transmission of knowledge bring to the study of history.com. Categories such as time. com a finalidade de propiciar uma reflexão e uma discussão que levem os historiadores a meditar sobre essa etapa de mudanças epistemológicas.br RAIMUNDO DONATO DO PRADO RIBEIRO Doutorando em Ciências Sociais da PUC-SP. Questions are made in order to propitiate a reflection and discussion that bring historians to consider this moment of epistemological changes. buscando problematizar as mudanças que esses novos meios de geração e transmissão de conhecimento trazem para essa disciplina.MEMÓRIA. Palavras-chave HISTORIOGRAFIA – SOCIEDADE TECNOLÓGICA – MEMÓRIA.com. HISTÓRIA E NOVAS TECNOLOGIAS MEMORY. Keywords HISTORIOGRAPHY – TECHNOLOGICAL SOCIETY – MEMORY. Professor do Curso de História da UNIMEP rdonato@uol. space and memory are put into question by these new technologies. espaço e memória são colocadas em discussão por esses meios. Perguntas são lançadas a respeito. Professor do Curso de História da UNIMEP murguia@uol.

resgatando nestes acontecimentos o sentido de serem merecedores da lembrança pela sua grandiosidade. ou seja. Nesse sentido. Já na Renascença. a importância do acontecimento desloca-se para as biografias e crônicas. uma utilidade. continua a se revigorar a excepcionalidade dos acontecimentos e das personalidades. assistimos importantes mudanças no ofício do historiador. a objetivação do acontecimento torna-o manipulável. A história passa a ter um sentido. o que significaria fazer história. 1987. Da mesma forma. a história que nasce com Tucídedes aparece. o que significa.A prática historiográfica na sociedade contemporânea está a exigir importantes considerações no que diz respeito à forma como se pensa a si mesma. Porém. com as conhecidas mudanças. pode servir como parâmetro preventivo e definidor de políticas públicas. na Idade Média. considerando que ela seja um elemento necessário para a construção de uma identidade coletiva num momento em que o esquecimento aparece como um novo valor? Longe de responder a esta pergunta. 1975. servem como modelos de vida a serem seguidos pelos fiéis. desde o começo. emprestando das ciências naturais critérios de aproximação para o social. ou vidas de santos. Esse caráter pedagógico do que fazer historiográfico perpassou. também. torna-se pedagógico. tanto no objeto quanto na metodologia. controlável. Ainda que nesse momento se produzisse uma história calcada num fazer histórico muito próximo aos já mencionados. apresentando para as gerações futuras modelos de conduta de caráter moralista. pedagógico. 176 impulso nº 28 . ques têm um traço providencial e escatológico. FUSTEL DE COULANGES. Assim. O caráter pedagógico da história manifesta-se nas hagiografias. desta vez políticas e artísticas. Ela é valorizada enquanto educa. parte considerável da história ocidental. No século XIX. trataremos de apresentar alguns problemas a serem debatidos com a finalidade de contribuir para a reflexão sobre o ofício do historiador. o acontecimento é revestido de um valor: por ser extraordinário na manifestação de coragem do povo grego. A história torna-se ciência objetiva. toda vez que explica as causas e os efeitos de um acontecimento. instituída de uma prática pedagógica. a noção de acontecimento individual extraordinário amplia-se para o estudo do fato social. A obra de Tucídedes1 que trata da Guerra do Peloponeso antevê uma concepção de história fundamentada na narração de acontecimentos que rompem o cotidiano. Por exemplo. torna-se exemplar e paradigmático. cuja complexidade extrapolaria os limites de uma primeira aproximação. Com efeito. como foi o caso das intervenções nos espaços da cidade a partir de estudos históricos prévios.2 1 2 TUCÍDEDES. o método passa a ser considerado como destituído de qualquer mácula subjetiva. Nesse sentido.

passado e futuro fecham-se no círculo que dilui as fronteiras que os separam. A segunda forma de narrar é marcada pela diferença entre a palavra e a escrita. ao contrário. é materializado num objeto – argila. mas se estende na recepção. a datação. enquadrado dentro de um processo maior. na medida em que prevê o tempo do acontecimento. o ato comunicativo. A partir desse fato. ainda. . assim como nossa percepção da realidade: as novas tecnologias da comunicação e a informática. o que significa que o estilo é a própria história. que precisa de 3 4 5 BURKE. ao longo do tempo. Conto/ acontecer são dois aspectos de um ato só. novas percepções do tempo e do espaço se colocam. Podemos. papel –. ou seja. isto indica o outro lado da historiografia. papiro. Se a história nasce com a escrita. presente. A primeira é a narração mítica. ele atualiza. Na medida em que o tempo primeiro.A NARRATIVA DA HISTÓRIA Outro aspecto a destacar do fazer historiográfico nesse século está constituído pela ênfase dada à discursividade da narração histórica. Os acontecimentos contados são arquetípicos: atemporais. na leitura. do sujeito-leitor diretamente com o texto. também. não no sentido de uma seriação de datas. o tempo da criação. A hermenêutica só é possível na medida em que um texto permanece. Qualquer documento só adquire importância na medida em que é percebido. da sua variante nomeada Mentalidades não escapou desses ideais. pedra. a importância do suporte para a escrita. Daí o desenvolvimento de técnicas mnemônicas rigorosas. A narrativa mitológica é metonímica: ela é o próprio tempo sagrado. O ritual narrativo não representa. Isso determina uma visão linear do tempo constituída pelo passado-presente-futuro. meios que permitam o controle e o planejamento da produção e da população pela escrita. sua narração precisa de uma linearidade que insere sua existência num passado. meio e fim. mas na ruptura de uma circularidade atemporal –. Todo texto. do tempo em que se escreve. Privilegiada como sua característica. GAY 1990. Não esqueçamos. o tempo da criação. os próprios experimentos feitos na década de impulso nº 28 177 . as produções dos Annales3 e. assistimos o aparecimento de um fenômeno tecnológico que mudaria radicalmente a forma de geração e difusão do conhecimento. LÉVY 1993. Chega-se a posições como a de Peter Gay. em última análise. do tempo em que o texto será lido. um contar de aconteceres – embora nem todo acontecer seja contado e nem tudo o que se conta tenha acontecido. ou mesmo como parte da sua compreensão do escrever a história. num presente e num futuro. No que se refere à informática.5 O tempo arquetípico só existe no momento da recitação feita através da repetição.4 para quem a história é a maneira como o historiador constrói os fatos. . Essa narrativa é oral. 1991. O que fazer histórico não se esgota na escrita. tempo sagrado que serve para reconstituir o tempo profano. pergaminho. identificar duas formas de narrar. possibilitando uma nova mediação. A partir da segunda metade do século XX. mais recentemente. Ela elimina a mediação do sujeito-intérprete. lançamos a seguinte indagação: não seria contra-senso considerar a existência de uma história oral? Uma vez que o objeto da história é o passado – o que implicaria uma cronologia. A história sempre foi. que se dá sob a forma de uma narrativa circular. na medida em que comunica. também. tornando-se prótese da memória. é atualizado. a complexidade nas relações possibilita o aparecimento do Estado. implica sempre um ordenamento linear que pressupõe a separação entre início. deixando para a história a narração do passado. como o domínio do solo e a necessidade inerente a esse domínio da previsão do tempo de plantar e de colher. e permeado pelas mediações subjetivas e culturais. que permite a perenidade do ato narrativo. A interpretação faz-se necessária para a leitura de um outro tempo no qual um texto aparece. na interpretação do texto. Com o aparecimento da agricultura. que faziam este tempo inalterável. A história só existe enquanto entendida como processo comunicativo. Qualquer suporte onde o signo escrito se manifeste. A escrita possibilita. este sim mutável e cronológico.

Com a informática. armazenado e difundido pela computação. que torna a informação veloz. os gregos pressupunham a memória como fundamento essencial dessas valorizadas atividades. então. nenhuma mensagem lembrada. informações sem mensagens. elas mesmas. seria a informação uma metanarrativa? Sim. Os gregos a chamavam de Mnemosine. desaparece a idéia do suporte. experiências podem ser acumuladas. manifestandose nos pixels da tela ou na impressão. amada por Júpiter durante nove noites. 12. do som e. do tato. ela pode ter qualquer suporte. E também porque é capaz de traduzir qualquer código em código binário. de que forma seria afetada essa narrativa com a criação de linguagens e memórias artificiais? Entendemos linguagem artificial como a linguagem das linguagens naturais. Sem entrar na questão específica do campo epistemológico da informática. torna-se uma latência infinita. filha do Céu e da Terra. a da música. isto significa a ênfase na sintaxe no seu aspecto formal. toda vez que não há informação fora de um sistema qualquer de sinais e fora de um veículo ou meio para transmitir esses sinais. pela qual mensagens são construídas a partir de modelos ou programas que possibilitam infinitas combinações de dados com significados mínimos. a informação foi entendida “no seu significado abrangente. Toda narrativa é formada por uma mensagem e um código. como uma metalinguagem. Se nossa memória é seletiva pelo fato de ser limitada. MEMÓRIA E NOVAS TECNOLOGIAS A memória sempre desempenhou um papel fundamental na explicação do desenvolvimento da inteligência. porque a informática é capaz de transmitir qualquer mensagem. significantes sem significados. e a memória artificial como a memória das memórias. a da comédia. a da história. É justamente esta flexibilidade. valeria olhar as suas implicações para o esquecimento do passado. a da persuasão. como as metalinguagens. nesse sentido. deu à luz as nove musas: a da poesia. Mas podem existir códigos de códigos. a miniaturização das memórias dos computadores possibilita a maximização ad extremis da capacidade de armazenamento. de modo a compreender a comunicação. A partir dela. formais e estruturais da organização e transmissão de mensagens”. 178 impulso nº 28 . PIGNATARI. seja através da escrita. Desta forma. da imagem. e que. bastando centésimos de segundos para intercambiar. Como vimos anteriormente. o que significa que o excesso de dados guardados é. Se pensarmos que a informação nada mais é que do sinais eletrônicos descontínuos. a diluição do contexto. a memória da informática é permissiva por ser ilimitada. alterar. depois de nove meses. isto é. a nossa ênfase recairá sobre os aspectos sintáticos. mesmo sendo os programas possibilidades limitadas. misturar mensagens. a narrativa histórica. ou esta imaterialidade. qual o lugar a ser ocupado no campo historiográfico por essa metanarrativa. a da sabedoria. diluir. A informação. O que significa também que. a durabilidade dos suportes da escrita e o fato de serem superfícies planas determinavam sua linearidade formal expressada na sintaxe. Não existem mensagens de mensagens. nosso tempo torna-se insuficiente para esgotá-las.6 Posteriormente. Se num primeiro momento. isso significa também a peculiaridade que o suporte da informação traz consigo. a informação pode ser armazenada em chips. a da matemática e a da astronomia. Através dos bytes. Se a linguagem e a memória constituem. Memórias sem lembranças. combinar. a da eloqüência. Desse ponto de vista. ou seja. no sentido que.50 sobre a linguagem e a inteligência artificiais apontam possíveis vias de compreensão a respeito das mudanças por ela gerada no campo cognitivo. ao mesmo tempo. readaptadas ou modificadas. p. Num primeiro nível. pelo fato de não ter suporte. ou uma manifestação fugidia e efêmera. 1991. Caberia indagar. mais recentemente. As possibilidades de combinação trazem consigo uma nova concepção de finitude. que por sua vez determinava a linearidade expositiva (narrativa) das mensagens. 6 Num segundo nível. teríamos que ela se manifesta intermitente e fugazmente. Em conseqüência. o significado do conceito de informação ficou restrito ao conhecimento gerado. Contraditoriamente.

a criação de múltiplas imagens.A Igreja. toda vez faz-se necessário a memória. permite a negação do homem como suporte de sua memória. tal e qual a escrita. O conhecimento (dentro do qual incluímos a história) é ainda mais complexo. independe de seqüência e de ordem para acessá-la. fora de nós e de nossa emotividade é um exercício mais complexo. Enquanto o método do Padre Ricci aparece como uma necessidade para ampliar os limites de nossa memória. A memória da informática se prefigura como peças de quebra-cabeças. essas imagens servem como espécies de “cabides” onde os dados eram pendurados. as novas tecnologias atualizam algumas de suas faculdades: nossas lembran- impulso nº 28 179 . entendido como exercício lógico. A fragmentação a que podem levar as lembranças visuais era superada justamente por esse todo maior ao qual nos referimos e que era representado pelo palácio. é um conhecimento incompleto. A lembrança do computador é aleatória. e sendo capaz de conter todas/nenhuma mensagem. tornando-se virtual. o método do Padre Ricci apresenta uma continuidade com começo. era parte de um todo maior. ou seja. cantos. ela é separada do sujeito. Outro aspecto a mencionar no Palácio da Memória é o referente ao emprego da memória visual. A informação contida é fragmentada não enquanto programa. Assim vemos que. criado. O conhecimento fundamentado somente na razão. e não mais absoluto. Assumindo que o conhecimento seja cumulativo. se alguma seqüência pode ser feita. requisito necessário para uma maior eficiência no acúmulo de conhecimentos. Em última instância. meio e fim. a memória nas novas tecnologias não precisa de métodos de lembranças. Embora nossa memória seja uma. Entendidas como exercício da memória. qualquer dado serve a qualquer momento. Lembremos que as técnicas do Padre Ricci apontam para o uso da imagem como um referente que nos remete a dados cognitivos. porque guardá-lo na memória requer aprendizado (atenção. razão e vontade. abstração e repetição). para conhecer. Aliás 7 SPENCER.7 Quando o Padre Ricci aprimora técnicas mnemônicas que vinham desde a Antigüidade clássica. um sujeito sem memória é um sujeito não cognoscente. A memória precisava ser ordenada. do programa permite. através da visualização de nomes e conceitos em nichos visuais específicos. ao longo de nossas vidas. por qualquer motivo. Um exemplo interessante acerca da idéia de memória nos inícios da modernidade é oferecido na obra de Matteo Ricci. atribuía à alma três faculdades de entendimento: memória. Se. Com a informática. simultaneamente. nesse sentido. contraditoriamente destituída de lembranças. O Palácio da Memória. Contida numa máquina. e não mais pelos objetos. com a diferença de que os quebra-cabeças tradicionais só podem constituir uma imagem. que sempre valorizou a separação platônica entre corpo e alma. a memória estava em nós – e daí o por quê de desenvolver métodos mnemotécnicos – . O acesso à memória da máquina é feito de maneira aleatória. 1986. hoje. a sociedade da memória de ampliação ilimitada. significa que cada um dos cômodos. O conhecimento precisa da memória e. ela se adapta a diferentes circunstâncias. os dados tornam-se flexíveis e adaptáveis a qualquer outro suporte ou mensagem. e que a informática potencia. A própria idéia da memória como um palácio. como prédio. Paradoxalmente. as lembranças de fatos marcantes. antes. a memória se objetiva. sempre permanecerá. se afasta do sujeito. ela é dada pelo sujeito. elementar. O que significa um ordenamento subjetivo e relativo. pois. novas questões se colocam. Já as lembranças de um conhecimento constituído. Mesmo porque essa era uma forma de ordenamento constituído historicamente a partir de uma concepção temporal também histórica. porque é o único meio que permite manter a identidade de cada um. Esse método só servia enquanto conexão ordenada de informação contida nas imagens. procurava sistematizar as lembranças dos dados da realidade. mas pelas infinitas combinações que o ordenamento lógico. A lembrança da informática são peças de quebra-cabeças que permitem. sem se importar com a ordem ou a seqüência. também previamente dispostas seguindo uma seqüência dada pelo sujeito. Não possuindo suporte.

viceversa. ela a nega toda vez que a fragmentação ignora a discursividade lógica formal do pensamento racional. Apesar dessa possível vantagem. hoje é praticamente impossível prever o que acontecerá. Embora os chamados meios de comunicação tenham se difundido anteriormente às novas tecnologias. de um só caminho aberto e de muitos caminhos fechados. Isso nos remete ao fato de considerar que tanto a imagem quanto o som eletrônicos dei8 xam de ser representativos. (. temos assistido. mesmo porque a precedem. se tivermos em conta que antigos canais. seja pela interação com as mensagens que difundem. 1993. como o livro ou o quadro. O apelo constante às imagens. é o rizoma (ou a rede) dentro do qual os ramos possíveis são infinitos. as novas tecnologias também mudam um outro aspecto da criação. p. rápidas variações nas novas tecnologias.8 Mas o que interessa resgatar para nossa discussão é o fato de que esses novos canais privilegiam um conhecimento sensorial. pelo menos do ponto de vista do acesso. seja escrito ou em imagens e sons. Por exemplo. para o qual as tecnologias da informação atualizam e refletem as práticas da memória. Isto se estabelece com o aparecimento da multimídia.10 9 NEGROPONTE. Eles não representam mais um objeto ou um sentimento previamente existente.9 Falar acerca das novas tecnologias e das mudanças que elas acarretam torna-se tarefa difícil devido às rápidas mudanças que elas provocam ao meio social e no interior delas mesmas. tanto no que se refere à sua potencialidade. a única forma que não se propõe. da mesma forma que as tecnologias. em última instância. esses meios possibilitam maior integração e envolvimento. Alguns anos atrás teria sido inimaginável a popularização do uso desses meios. quase sem perceber. 180 impulso nº 28 . a imagem e o som digitais simulam a realidade. a memória eletrônica privilegia a razão. Nesse sentido. Além de mudanças na recepção e na criação por meio da interatividade. 40.ças são aleatórias. à mixagem desses dois elementos. Curiosamente. que possibilita a interatividade do sujeito com o texto. 10 COUCHOT. quanto no que diz respeito às relações homem-máquina (suas interfaces). impossibilitavam qualquer alteração posterior. o meio é fundamental desde o ponto de vista da manipulação. caberia perguntar de que forma a história está conseguindo lidar com esta contemporaneidade. a separação epistemológica entre eles e as novas tecnologias inexiste. por um lado. Aqui. Nos últimos quinze anos. possibilita uma maior integração dos nossos sentidos. HISTÓRIA E NOVAS TECNOLOGIAS Perante o anteriormente exposto – as formas como as novas tecnologias criam e difundem conhecimento. conjunto dotado de cruzamentos múltiplos. estaríamos presenciando o nascimento de um novo tipo de conhecimento. A informática coloca questões no âmbito do ofício do historiador. e o caráter pedagógico do que fazer histórico –. Outra questão: a informática se adapta também a um outro tipo de conhecimento que não o discursivo: o conhecimento sensorial. mais do que o racional. como o fenômeno recente da criação de imagens e sons digitais. como esse referente à memória: Sistemas memoriais de acesso direto e de acesso seqüencial repetem substancialmente a proposta dos labirintos: também nesses casos trata-se de deslocarmo-nos (física ou metaforicamente) dentro de estreitos corredores. por outro. com a multimídia e o uso do computador pelos veículos de comunicação de massa. 1995. Além do mais. Os programas ou modelos matemáticos se antepõem aos objetos. COLOMBO. Da mesma forma.. categorias de pensamento como crítica e interpretação são dois pressupostos que esse novo tipo de racionalidade desconhece. 1991. Em outras palavras. podemos falar de labirinto unicursal: o objetivo é atingível desde o início e os erros não são possíveis (salvo o possível engano na auto posição do próprio objetivo). no caso do sistema ramificado.. estamos diante de um Irrweg. ao som. seja pela manipulação. ou as formas de conhecer através de nossos sentidos. uma nova contradição aparece no campo cognitivo: se.) No caso do sistema de acesso direto.

Aparece o “conhecimento dado”. mínimas referências que permitam nos aproximarmos delas. por definição. Sendo a escrita a materialização. e nenhum deles impede de se entrar nos outros. material com o qual o historiador lida. ou calcado numa idéia ideologizada da informática por parte daqueles que a viam como mais uma estratégia do capitalismo selvagem. 1964. Com a idéia de rede. Despreparo talvez explicado pelo preconceito. Nesse sentido. Em suma. apesar de não mais determinada pelo suporte?. a história trabalha com a idéia de um ordenamento possível de suas fontes – linear. manipulável. e determinava o objeto de estudos de muitas áreas de conhecimento. a memória faz-se história. Quando McLuhan11 afirmou que o meio era a própria mensagem. Num arquivo informatizado. ou seja. fazem com que desapareça a barreira que delimitava passado e presente. lugar. linear. O conceito de dado remete-nos a peças de um conhecimento não mais orgânico. a história se coloca como ordenadora das lembranças a partir de registros e vestígios do passado. mas atomizado. independente. O meio informático determina um outro tipo de conhecimento. A memória. O acesso pode ser feito de forma simultânea. sonhos. através de mudanças cognitivas e perceptivas. enfim. mais uma vez enquanto discurso. visto. seja qual for o seu suporte. A história é construída a partir da linguagem. contexto. perdendo a dimensão do fenômeno histórico em que elas se inseriam. lógico. Essa memória se constitui pelo acúmulo de fatos. aquele que é pontual. impulso nº 28 181 . o desenvolvimento tecnológico que já se anunciava no século XIX. como qualquer outro tipo de saber. seqüencial – como forma de tornar legível a memória. ouvido ou tocado. Ao se tornar legível. não se tem a idéia de entrada nem impedimentos no labirinto. o que existe são regras possíveis de combinação de dados. ela tem um percurso temporal. o percurso que fazemos para nos lembrarmos das capitanias hereditárias na colonização brasileira exigiria um caminho: saber em que momento (cronologia) aconteceu. é labiríntica. Estaríamos perante um novo fenômeno sobre o qual os historiadores ainda não refletiram. elimina-se uma ordem de entrada. E acrescentam o futuro dentro de um “eterno presente”. Segundo Colombo. é fácil entender a história e sua relação com o documento escrito. As mudanças ocorreram tão rapidamente que nos pegaram despreparados. não mais uma construção cognitiva na qual as partes são indissociáveis. Por exemplo. mas a recuperação de qualquer um deles precisa de uma ordem para ser comunicada e acessada. estava querendo destacar a indissociabilidade entre o discurso e o canal por meio do qual esse significado se manifesta. é o próprio movimento desnorteado. Essas peças são passíveis de serem combinadas da forma que o usuário bem entender. determinado pelo processo da leitura/escrita. feito ao mesmo tempo. A discursividade da história é constituída pela linguagem. Por exemplo. todos os dados estão conectados: a partir de um é possível entrar em todos. estaríamos assistindo a um novo tipo de acesso à memória. A memória-rede não precisa de uma ordem prévia. pessoas. sendo que esses documentos exigem uma organização. uma história textual. As novas tecnologias e o tipo de sociedade a que estão dando lugar. Dentro do labiríntico caminho da memória. com a informática. mas a memória entendida como rede. O documento da informática são os próprios dados. possibilitada pelos arquivos. enquanto que. no sentido de fragmentado. só é legível pela sua “tradução” em palavras. Estes devem ser vistos como sistematização dos documentos. embora escrito. Entendemos que a separação de presente e passado esteve sempre atuante na nossa percepção do tempo. a eternidade da linguagem. que não é a linearidade no caos do labirinto.Entendemos que a memória dos grupos sociais. o registro. a história ou a his11 McLUHAN. que se basta. Discurso maleável. normalizado. formal. No cerne do desenvolvimento do capitalismo tecnológico-industrial do século XIX já se anunciava a fantástica capacidade de adaptação dessa fase de capitalismo às contradições da história e seu deslocamento dela. porém disposto a ser arranjado de forma diferente por cada uma das pessoas (estilo) num suporte físico (documento). É desta perspectiva que se deve compreender a idéia da discursividade da história.

de passado e de futuro. as novas tecnologias constituem-se no aval suficiente para depositarmos nossa confiança nas mensagens por elas geradas e transmitidas. Já a memória muito próxima do “conhecimento dado”. Esse é um problema delicado. elimina-se a noção de espaço. O passado envergonha. O rigor científico é trocado pela eficácia tecnológica. esquecendo o problema das novas tecnologias ou limitando-se. encontramo-nos com uma prática historiográfica que enfatiza o conhecimento narrativo. Isto se expressa. lugares e acontecimentos. o que significaria a mudança de uma narrativa temporal por uma narrativa espacial: construída a partir de pontos nodais. E. muita informação cai no pouco conhecimento. A simultaneidade acaba com o passado. é transposto por elas. ele oferece possibilidades infinitas de armazenamento de informações. a velocidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Perante as inquietações apresentadas. a televisão já anunciava. como fim a ser conseguido. Um exemplo gritante foi a Guerra do Golfo. seletivo. O critério de verdade tinha de ser demonstrado. num terceiro nível. 1993. quando precisávamos de enormes áreas físicas para guardar documentos. não mais seqüenciais. num primeiro nível. como lugar de separação entre culturas. devido a ele mesmo transcorrer no tempo e. mas velozes e simultâneos. acrescentando um novo elemento. O conhecimento histórico-narrativo. acontecimentos etc. elas se tornam presentes. e não somente pelo fato de estar lidando com novos tipos de práticas cognitivas e memorísticas. saber lidar com um novo tipo de conhecimento. ao atrasado. à memória do computador. Ao contrário do que ocorria antigamente. enquanto ato de lembrança. os meios de comunicação e as tecnologias ópticas (microscópios e telescópios atômicos) de fato alteraram a nossa percepção da realidade. cirurgias plásticas) nem na paisagem urbana (prédios ultramodernos). necessariamente elimina-se a noção de tempo. dos satélites que possibilitam a presença instantânea de pessoas. Porém. experiências. O futuro entendido como possibilidade como meta a ser alcançada. porque o conhecimento narrativo pressupunha a noção de presente. repetimos. algo era verdadeiro na história. que. 182 impulso nº 28 . pelo fato de bastar a si mesmo. é fundamentalmente humano: sintético. enquanto que o “conhecimento dado”. uma vez que não dá para esquecer a tradição no objeto e no ofício do historiador construída e sustentada ao longo de mais de dois mil anos: a historicidade da historiografia. que não quer visualizar estragos do passado nem na fisionomia (spas. pode delegar a função de armazenamento de dados. E esta simultaneidade acaba com a idéia de futuro.tória da arte lidando com o passado.12 Com o aparecimento da teleconferência. VIRGILIO. antes de mais nada. pois elas nos dão a sensação de que é possível tudo: é a cultura da onipotência. ou a sociologia e a crítica de arte lidando com o presente. Isto significa que. A historiografia tem sérios problemas a pensar. presentificando o passado na tela. antes. precisar desse engajamento cronológico. depreciado por sua associação ao velho. nos dias atuais é possível fazê-lo em poucos milímetros quadrados. O espaço. em muitos casos. ao vetusto. abstrato. numa cultura narcisista. isso ocorria pelo fato de ser explicado num tempo. portanto. no sentido de imediatez e simultaneidade. A chegada do computador significa. num segundo nível. a possibilidade de estar lidando com novos paradigmas. uma vez que estas duas categorias são indissociáveis toda vez que elas definem qualquer tipo de existência. assistida momento a momento em todos os cantos do mundo. relacional etc. porque. Isso representa. No caso específico do computador. na medida em que tais tecnologias criam o sentimento de tudo ser possível. não tem mais validade. Hoje. não necessita dessa divisão temporal e torna-se eternamente presente. de certa forma. dos radares. 12 Se. analítico. As novas tecnologias geram uma cultura que elimina também a noção de tempo. através de imagens. também. num lugar determinado. devidamente documentado. E. a reproduzir a ideologia vazia e oca da informática como sinônimo de modernidade. eliminando-se a noção de espaço. A informática.

Brasília: Ed. N. 1986. 1964 NEGROPONTE. TUCÍDIDES. Rio de Janeiro: Ed. M. McLUHAN. COUCHOT. 1993.New York: McGraw-Hill. D. Linguagem e Comunicação.Rio de Janeiro: Ed. 34. Da representação à simulação.) Imagem-Máquina. As Tecnologias da Inteligência. O futuro do pensamento na era da informática. VIRGILIO.São Paulo: Cultrix.Acreditar na historicidade da historiografia significa aceitar as possíveis mudanças de suas práticas e suportes. FUSTEL DE COULANGES. Macaulay. Estudos sobre o culto. com os quais a história terá que lidar desde já – o que significa que estará lidando com fenômenos históricos. as instituições da Grécia e Roma. SPENCER. Cabe reconhecer esses acontecimentos como fatos inegáveis. impulso nº 28 183 . O Espaço Crítico e as Perspectivas do Tempo Real. 1991. Os Arquivos Imperfeitos: memória social e cultura eletrônica. A era das tecnologias do virtual. Ranke. J.Rio de Janeiro: Ed. P. 1991.São Paulo: Companhia das Letras. 34. PIGNATARI. GAY.São Paulo: Companhia das Letras. Understanding Media. A Vida Digital. 1993. LÉVY. 1993. O Estilo na História: Gibbon. História da Guerra do Peloponeso. (org.D. A Revolução Francesa da Historiografia: a Escola dos Annales (1929-1989). A Cidade Antiga.São Paulo: Hemus. o direito. P. F. Burckardt. Referências Bibliograficas BURKE. In: PARENTE. UnB.São Paulo: Perspectiva. A. E. São Paulo: Edunesp. este sim imutável: a historicidade da história como disciplina. COLOMBO. N. 1975. 1987. P. 1990. O Palácio da Memória de Matteo Ricci. P.São Paulo: Companhia das Letras. Acreditamos que respostas a essas perguntas só poderão ser tentadas e discutidas à luz de um princípio. 1991. 1995. 34. Informação.

184 impulso nº 28 .

Resenhas impulso nº 28 185 .

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referenciadores.br 187 . ANDRÉ SATHLER GUIMARÃES Economista. contudo. a evolução econômica da nação. das motivações e aspirações de ampliação da inserção do Brasil no cenário internacional. Esta matéria é trabalhada de forma superficial e rápida. questões vinculadas ao campo do direito econômico internacional e à sociologia do desenvolvimento. Quando se diz que uma pessoa é experiente.Dançando com o Estrangeiro: a valsa das relações internacionais do Brasil O Estudo das Relações Internacionais do Brasil PAULO ROBERTO DE ALMEIDA São Paulo: Unimarco Editora. mestre em Sistema de Informações Gerenciais pela PUC-Campinas. centrando a análise no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e do PIB per capita. o autor apresenta. categorias de análise. pode-se qualificar Paulo Roberto de Almeida como experto. Abrange. que se constituem. R$ 25.00. diplomata de carreira e autor de diversos livros na área. na qual o autor é bastante feliz ao tecer uma matriz que combina elementos sociológicos. econômicos e diplomáticos para corretamente definir e delinear os períodos. ISBN 85-86022-23-3 E impulso nº 28 xperiência e experto são palavras inter-relacionadas. ainda. ao analisar as transposições e rebatimentos dos diversos momentos da política brasileira na forma de interação do país com o contexto externo. ressaltando-se. Editor adjunto da Revista Brasileira de Política Internacional. de certo modo. 304p. No campo das relações internacionais. O livro aborda aspectos econômicos. Chefe de gabinete da reitoria da UNIMEP asathler@unimep. No início. utilizando-se de elementos comparativos com outros países. Faz ciência política. em breve narrativa. ele revela larga desenvoltura ao se propor a apresentar o tema de forma didática e. buscando interpretar de forma holística a inserção internacional do Brasil em seu período de existência como nação independente. Segue-se uma proposta de periodização das relações exteriores do Brasil. enciclopédica. que este tratamento é aplicado de forma anunciada e deliberada. 1999. em vários momentos. O conhecimento se desenvolve ao longo do tempo por meio da experiência. ambas derivadas do verbo latino que significa “submeter a teste”. em si mesmos. supõe-se que ela tenha um profundo conhecimento de um dado assunto. por ter sido testada e provada pela experiência..

mantido por Almeida. com outros materiais sobre o tema e com a possibilidade de contato direto com o autor. para um estudo das implicações da macroestrutura legal do país sobre suas relações exteriores. agrega várias páginas de bibliografia. em conjunto com a vastidão de citações bibliográficas. Concluindo a obra. 188 impulso nº 28 . o que reflete uma concepção moderna e interativa da obra. O livro será. característico de quem deseja enxergar o Brasil utilizando óculos de esperança. sem novidades factuais. destaca-se que o livro não se encerra em si mesmo. apresenta uma cronologia. Ao final. O autor entra. apontando a evolução desse tema como campo do saber e merecedor de enfoques e pesquisas específicos. sendo complementado por um site. ainda. Este ponto constitui-se em rica base de sugestões para outros trabalhos e abordagens sobre o assunto. que revelam um país que se insere de forma dialógica e independente no cenário internacional. que se inserem na proposta original da obra. aí. no que pode ser considerado. com um conjunto de pistas para verticalização do estudo. de grande utilidade para disciplinas que se propõem a fazer uma introdução exploratória ao tema e subsidiar o início de pesquisas futuras. sem dúvida. Ao término da leitura. fundamentado em pesquisa exploratória das versões da Constituição Federal e seus desdobramentos em termos de relacionamento externo. ao longo de todo o trabalho. pode-se visualizar o tema de forma abrangente e fica-se. São apontadas as grandes contribuições acadêmicas feitas ao tema. a melhor contribuição da obra. Ele caminha. que são uma contribuição valiosa para estudiosos e interessados na área. bem como os pontos que requerem maior cobertura de pesquisa e produção intelectual.Esta parte é completada por quadros bastante elucidativos e didáticos. Por fim. Ressalta-se. ao fazer uma espécie de epistemologia do estudo das relações internacionais do Brasil. então. até mesmo pela opção do autor por uma visão histórica não revisionista. o que pode ser qualificado como um “viés” otimista. O autor vale-se de uma combinação de visão panorâmica com pontos de aprofundamento. como quando discute as restrições e potencialidades para as relações internacionais advindas da escolha da manutenção do presidencialismo como sistema de Governo no Brasil.

bem como algumas obras de teóricos. COIMBRA Rio de Janeiro: Editora Oficina do Autor. Era estudante na década de 70. pp. Como “matéria-prima” para essa tarefa complexa e grandiosa. 1995. para “compreender muitos dos conceitos citados nas entrevistas” (p. psicodrama e terapias corporais. modelos e subjetividades têm sido por elas fortalecidos e produzidos” (p. V). realizando uma análise institucional das instituições psicanálise. é professoraadjunta de psicologia na UFF e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ. O trabalho “pretende ser um levantamento do que foram algumas práticas ‘psi’ na década de 70 no Brasil e um repensar sobre elas: a que demandas atenderam e ao mesmo tempo produziram e quais foram algumas de suas gêneses históricas” (p.oc@uol. mas aquela que revela o passado como uma série de potencialidades ativadas pelo “momento em que se está”: “o lugar de onde se olha” é produto que remete a outra “rede de acontecimentos”. B. 370-371). Sua análise toma de empréstimo categorias do marxismo.. IX). O texto flui carregado de uma presença intensa.com. dispositivos.br 189 .00 A impulso nº 28 autora. Sua experiência pessoal de militância e resistência política está presente em cada página do livro. 387p. no que tange ao estudo da divisão EDSON OLIVARI DE CASTRO Psicanalista. não pense o leitor que terá acesso a um acervo de fofocas. quando foi presa pelo DOI-CODI/RJ. totalizadora e. psicodramático e do Potencial Humano. Gorz. Sócio-fundador da Associação Livre – Instituto de Cultura e Psicanálise – Piracicaba-SP e-mail:edson. Entretanto. regimentos e estatutos de estabelecimentos extintos e “oficiais” (nos psicanalíticos. amarelada pelo tempo. artigos e teses sobre os movimentos psicanalítico. professor da Faculdade de Psicologia da UNIMEP. período mais duro do regime militar. doutorando em Psicologia Clínica pela PUC-SP. relativas à formação social capitalística e a de A. porque não busca uma reconstituição histórica objetiva e neutra.A Quem Servem as Psicologias? Guardiães da Ordem: uma viagem pelas práticas psi no Brasil do “milagre” CECÍLIA M. “apontando o que elas têm instrumentalizado e que outras instituições. utilizouse de encontros (173 entrevistas) com profissionais ‘psi’ – alguns dos quais ex-presos políticos – do eixo Rio-São Paulo e de consultas a materiais diversos: jornais e revistas da época – da grande imprensa e especializados –. IX). portanto. pois nada além do já publicado é revelado sobre suas “fontes” (a lista dos entrevistados encontra-se em Anexo. graduada em História e Psicologia. nova história. R$ 35. além de outras ligadas ao Movimento do Potencial Humano. não sem obstáculos).

aquela que lhe serve como instrumento de luta. Nos capítulos seguintes. “duas categorias” – ou perfis subjetivos – que foram produzidas e disseminadas naquele período: “a do ‘subversivo’ e a do ‘drogado’. de Sociedades. – e é concebida como uma ameaça política à ordem vigente. principalmente os da rede privada de ensino. alianças. Coimbra adentra em território ‘psi’: percorre as histórias instituídas e instituintes. Acompanha esse discurso um outro – também “comprado” pela subjetividade hegemônica –. do “país que vai pra frente” etc. que objetos. que sujeitos se produzem por tais práticas. Sabemos que não há cultura sem um certo modo de subjetivação que funcione segundo seu perfil. os CPCs da UNE. Também recorre a categorias pertinentes aos pensamentos de F. A primeira caracteriza-se por ser perigosa e violenta – vindo acompanhada de adjetivos com fortes implicações morais. entre muitos outros. ligadas à juventude da época” (p. 70 e 80 no Brasil. enfatizando-se. há que se procurar ajuda de “especialistas competentes”: investese. concernentes à genealogia das práticas ‘psi’ e aos efeitos de sua difusão: que poderes. O referencial Institucionalista francês fornece-lhe. II). referentes às produções de subjetividade e processos de singularização e de M. Foucault. tem hábitos e costumes desviantes. Cecília Coimbra discute alguns processos de subjetivação nos anos 60. apresenta problemas psicológicos graves e sérios: por suas atitudes em relação ao trabalho (foge às suas responsabilidades) e à família (questiona seus projetos de ascensão social). em suma. moralmente nocivos. esvaziando a atenção e a atuação na esfera da vida pública – naquele momento. gestalt-terapia e “neo-reichianas” (cap. de onde ela retira a “chave de leitura” que lhe é útil em determinados momentos. A segunda – associada a um plano internacional para minar a juventude. no decorrer do trabalho. quais prá- 190 impulso nº 28 . figuras e paisagens alçadas a ideais etc. não há subjetividade sem uma “cartografia” cultural que lhe sirva de guia. reciprocamente. que funciona para a relativização do seu próprio olhar e para a “desnaturalização” de verdades históricas. a criação de aparelhos repressivos como os Esquadrões da Morte. por exemplo. seja ela a da psicologia experimental (com seu tecnicismo). Inicialmente. trazendo o “protesto consentido”. desse modo. como. a autora tem o cuidado de apresentar ao leitor pouco familiarizado: “analisador”. Pinçando no final de cada capítulo. Institutos. psicodrama (cap. Associações etc. nos anos 80 (cap. Data dessa época o florescimento assustador dos cursos de psicologia. o movimento hippie e a guerra do Vietnã e. em pleno estado de terror. ateu etc. como situações “analisadoras”. revisita. Mera coincidência?! Esse. de seus “cismas”. 29). como criminoso. nos faz ver quais “subjetividades” naturalizam. Do começo do período abrangido. “implicação” etc. a da psicanálise (com seu “setting” asséptico) ou a da psicologia social. Cada membro passa a ser responsabilizado individualmente. no psicologismo. Eis. É com base nesse pressuposto que a autora nos apresenta. IV) – até a chegada da análise institucional no Brasil.. com suas técnicas de dinâmica de grupo de inspiração norte-americana. o “fantasma do comunismo que rondava as famílias brasileiras” – que culminou nas famosas Marchas das Famílias com Deus e pela Propriedade – e o golpe militar em 64. a contracultura do Cinema Novo e do Tropicalismo e ainda a emergência de movimentos estudantis de esquerda – a guerrilha clandestina. ainda. porém. V). presa fácil de ideologias “exóticas”– é concebida como doença. é só o começo do trabalho. assim como. modismos. do eixo Rio-São Paulo. aqui. no qual a família passa a ser culpabilizada por seus filhos desviantes (subversivos ou drogados). a dimensão da privacidade e o intimismo. os acontecimentos no início dos anos 70. uma série de ferramentas que. algumas de suas “alternativas”.social do trabalho e à crítica aos especialismos – um dos fios condutores de seu trabalho. que fornece uma legitimação “científica” à tecnologia do ajustamento. Guattari. a cultura ufanista do “ame-o ou deixe-o”. fora do Brasil. III) e daquelas ligadas ao Movimento de Potencial Humano – “aconselhamento rogeriano”. que saberes. assim. traidor. que “normalidade” reproduzem. algumas de suas personagens. de psicanálise (cap. como a ALN e o VPR – e o AI 5 em 68. a Jovem Guarda. Para tal crise – das famílias –. marcados pelo discurso da “neutralidade”.

indica a autora que se o leia como quem “não irá procurar nada a compreender num livro. Trabalhos como este não nos deixam “esquecer” nossa condição humana: somos situados e datados – e isto se imprime. empenhados na construção de um projeto pedagógico mais comprometido com a realidade social dos nossos concidadadãos. a naturalização da violência e da corrupção. É um texto muito bem-vindo. críticos. não se cansa de advertir para o perigo da transformação desses movimentos em automatismos que se conjugam à ordem vigente. que se esterilizam. indelével como tatuagem. É especialmente recomendado a todos nós. mas perguntar com o quê ele funciona. de resistência e luta contra os interesses dos poderosos. impulso nº 28 191 . De suas lições com Deleuze e Guattari. em conexão com o quê ele faz ou não passar intensidades. os sonhos que desqualificam. A autora também percorre a história dos movimentos que se propunham “instituintes”. em nossas obras.ticas sacralizam. num momento de assunção do paradigma ético com o qual se pretende enfrentar o “cinismo consensual”. as singularidades que excluem. dentro de quais multiplicidades ele se introduz e metamorfoseia as suas” (p. “é sempre animador encontrar psicólogos atentos à ciência que praticam” (p. I). questionadores. por fim. É um livro admirável: sem propósitos dogmáticos nem relativismos céticos. Como diz Maria Helena Souza Patto na Apresentação do livro. envolvidos com a formação profissional do psicólogo. que preconceitos veiculam. numa cultura em que prevalece o narcisismo das pequenas diferenças. que “relações de poder” ocultam. 351). as formas de luta que capturam. não compõe com o refrão do “não tem jeito”. Contudo.

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com. 1999) P impulso nº 28 or meio desta obra. 2000. procura responder a três questões que considera básicas na atualidade: 1. a autora. no higienismo ou no culto do corpo perfeito. Roudinesco apresenta este trabalho como fruto de uma pergunta dirigida a si mesma: por que. se remédios apresentam efeitos mais imediatos?. ao campo das relações afetivas e sociais. 19). Doutor em Psicologia pela USP emerique@merconet. após cem anos de existência e de resultados clínicos incontestáveis. procurando integrar num único sistema as diferenças e as resistências. a psicanálise teria futuro? Autora de diversos livros e professora da Universidade Paris VII. nessas condições. “a concepção freudiana de um sujeito do inconsciente. foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo depressivo. 2. Paris. (. pela morte e pela proibição. R$ 23. receitando ao paciente a mesma gama de medicamentos. Para Roudinesco. Mas a infelicidade tem retornado. Assim. que têm como denominador comum o oferecimento de uma crença – e portanto.00.br 193 . o ideal de uma felicidade impossível” (p. que figurou em diversas listas de bestsellers na França e representa uma defesa apaixonada da psicanálise. PAULO SÉRGIO EMERIQUE Professor assistente da Unesp-Rio Claro. 163p.) busca na droga ou na religiosidade.. aponta para a depressão como epidemia psíquica que domina a subjetividade contemporânea como uma forma atenuada da antiga melancolia e critica as práticas paralelas. Vera Ribeiro. seja qual for o seu sintoma. tidos como mais eficazes? Na primeira parte.. por que consagrar tanto tempo ao tratamento da fala. consciente de sua liberdade mas atormentado pelo sexo.Compromisso com a atitude freudiana POR QUE A PSICANÁLISE? ELISABETH ROUDINESCO Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro. a sociedade moderna buscaria banir a realidade do infortúnio. as construções freudianas não estariam reduzidas a cinzas pelos teóricos do cérebro-máquina?. de uma ilusão – de cura. historiadora e psicanalista. ISBN 85-7110-540-5 Título original: Pourquoi la Psychanalyse? (Libraire Arthème Fayard. que foge de seu inconsciente e está preocupado em retirar de si a essência de todo o conflito”. a psicanálise é tão violentamente atacada por aqueles que pretendem substituí-la por tratamentos químicos. fulminante.. concluindo que “o deprimido deste fim de século é herdeiro de uma dependência viciada do mundo. Trad. e 3. da morte e da violência.

Elisabeth Roudinesco aborda o que denomina “a grande querela do inconsciente” e revê o desenvolvimento da psicanálise na França e na América. insere o pensamento de G. Esse futuro dependeria (como o de qualquer outra teoria) de sua aptidão para inventar novos modelos explicativos e de sua permanente capacidade de reinterpretar os modelos antigos em função da experiência adquirida. o nada. Questiona-se. os clínicos parecem não ter outra alternativa senão atender a essa demanda maciça de psicotrópicos. Assim. enfermeiro ou médico – já não tem tempo para se ocupar da longa duração do psiquismo porque. o remédio orienta o paciente para uma posição “remediada”. em lugar do desejo. afirma que sintomas não remetem a uma única doença. a morte e a sexualidade no cerne da alma humana. 70). Mesmo evoluindo em função da sociedade em que se manifestam. um dia. a autora desejaria que a psicanálise pudesse “ser capaz de dar uma resposta humanista à selvageria surda e mortífera de uma sociedade depressiva que tende a reduzir o homem a uma máquina desprovida de pensamento e de afeto” (p. psiquiatra. Constatando a tragédia de uma visão que jamais percebe a diferença entre as ciências da natureza e as ciências do homem. portanto. desde a origem. cada vez mais depressiva. Roudinesco discute o futuro da psicanálise. Ao invés disso. a psicanálise é permanentemente violentada por um discurso tecnicista que não pára de criticar sua pretensa “ineficácia experimental” e seu reconhecimento da singularidade de uma experiência subjetiva que coloca o inconsciente. lembrando que Freud não cessou de reformular seus próprios conceitos. mais exatamente. pretendeu tornar-se um 194 impulso nº 28 . Nesses capítulos. a cura não seria outra coisa senão uma transformação existencial do sujeito. o que os adeptos do cientificismo e da redução do psíquico ao neurológico têm em comum seria um ateísmo que consiste numa espécie de religião da ciência. a autora lembra que mesmo Freud. 41). Então. Nessa situação. atendendo. o fim da história. a exigir que os sintomas psíquicos tenham uma causalidade orgânica. No entanto. mesmo impotente. um estado. negando tudo que possa decorrer do espiritual. Nesse ponto. seu tempo é contado” (p. O modelo profissional de saúde – psicólogo. para tratar dos que se houverem “curado”. uma revolta que. ao pretender preencher as incertezas indispensáveis ao desdobramento de uma investigação científica com delírios de conhecimento e onipotência. então: que medicamentos será necessário inventar. Na segunda parte do livro. os modelos elaborados pela psicanálise podem se mostrar defasados em relação a ela. considerava que. a uma situação de crise. Na última parte do livro. Edelman (Prêmio Nobel de Medicina). contestada por uma sociedade que parece preferir a psicologia clínica e a farmacologia.Desse modo. critica o cientificismo como uma ilusão da ciência (no sentido com que Freud define a religião como ilusão). em lugar do sujeito. onde se crê que “Freud está morto”. nos últimos anos de sua vida. Portanto. para quem a hostilidade para com o modelo freudiano decorre menos da discussão científica do que da resistência dos cientistas a seus próprios inconscientes. foi significativa por seus conteúdos sexuais (tanto que Freud lhe atribuiu um valor emancipatório. a psicofarmacologia encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo de sua própria essência humana. no futuro. a ausência do desejo. cem anos depois. substituindo um abuso por outro? Historiadora de inegável competência. No entanto. e esta é. do imaginário e da fantasia. a um estado sintomático. A meu ver. a calmaria. que. na sociedade liberal depressiva. assiste-se a uma regressão. Roudinesco sintetiza sua constatação de forma contundente: “Em lugar das paixões. Falando do psiquismo. de onde advém a cegueira para os desvios irracionais do discurso científico. a autora lembra que a histeria representava uma contestação da ordem burguesa. os avanços da farmacologia poderiam impor limites à técnica do tratamento pela fala. que parece atingir também a psicanálise. daí o paradigma da depressão. cada vez menos conflituosa e. seja qual for a duração da receita. e a força de uma operação que buscou limpar da clínica e da reflexão universitária e médica o conjunto das teorias da subjetividade. e em lugar da história. do qual todas as mulheres se beneficiariam).

decorrente da obra lacaniana e de seus seguidores. de um ecletismo que pode levar a uma “pasteurização do rigor teórico – e. sem sombra de dúvida. fundamentalmente indagadora e autocrítica. mesmo tendo a psicanálise como modelo de referência. Assim como os pacientes. resistindo a tratamentos mais longos e tendendo a utilizar a psicanálise como outro medicamento e o analista. e apoiando-se numa visão que não se contenta com a repetição dos postulados do fundador da psicanálise. vejo neste livro um posicionamento compromissado com a atitude freudiana. não mais acreditando na estrutura e no valor das escolas psicanalíticas (que. A autora aponta. a seguir. mais humanistas. impulso nº 28 195 . a relação conflituosa com as sociedades freudianas. caracteriza os pacientes da atualidade como conformes à imagem da sociedade depressiva em que vivem. a um esquecimento do universalismo freudiano”. de perto e de dentro. Por fim. constituindo-se em leitura indispensável para aqueles que consideram que tudo o que é humano lhes fala e lhes apela. Comenta. correm o risco. saindo do modelo biológico para o discurso filosófico. em especial as divergências quanto à formação do analista. proposto desde o título. “só se autoriza por si mesmo”. o maior teórico do freudismo da segunda metade do século XX. Desta maneira. que. numa vanguarda de renascimento do freudismo. então. mais adaptadas ao mundo moderno. segundo Lacan. mais acessíveis a transformações do tratamento padrão. como receptáculo de seus sofrimentos. por ter efetivado um ato de subversão com o qual o próprio Freud não teria sonhado. Abertos a outras formas de terapia. mais ainda. os psicanalistas das novas gerações também se diferenciam dos mais antigos. a despeito de sua utilidade. mostrando-se mais próximos da miséria social.grande movimento de libertação. aspirando a uma renovação do freudismo. buscaram conceber novas formas de presença e de atuação. mais sensíveis a todas as formas de exclusão e mais exigentes quanto às escolhas éticas. segundo a autora. rastreando a história da psicanálise e falando de suas principais figuras depois de Freud. Conclui que a fragmentação do campo psicanalítico pode desembocar numa recomposição positiva da clínica e da teoria e numa consideração das diferenças que caracterizam a subjetividade moderna. Por seu questionamento constante. para novos clínicos que. mas deles propõe uma releitura crítica. apesar de todas as dificuldades com que se confrontam. chega a Lacan – considerando-o. ainda padecem de um grande descrédito em razão de sua propensão ao dogmatismo).

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• informações sobre o autor: titulação acadêmica. • COMENTÁRIO (4 a 6 laudas) – nota sobre determinado tópico. com consultores não remunerados. 2 3 4 5 6 7 8 ESTRUTURA 9 Cada artigo deve conter os seguintes elementos. • cumprimento das presentes Normas para Publicação. estudos analíticos e resenhas nas áreas de ciências sociais e humanas. como forma de reconhecimento. do qual constem: • cessão dos direitos autorais para publicação na revista. em português e inglês: conciso e indicando claramente o conteúdo do texto. se for o caso). concluída ou em andamento. sendo o autor informado do andamento do processo de seleção: • adequação ao escopo da revista. cabe à revista a exclusividade em sua publicação. no caso de artigo assinado por mais de um autor. O autor de cada artigo recebe gratuitamente 3 (três) exemplares da revista. • concordância com as presentes normatizações. vedado o seu encaminhamento simultâneo a outras revistas. impulso nº 28 197 . cujos nomes são divulgados anualmente. Os artigos podem sofrer alterações editoriais não substanciais (reparagrafações. • REVISÃO DE LITERATURA (8 a 12 laudas) – levantamento crítico de um tema. • COMUNICAÇÃO (10 a 18) – relato de pesquisa de campo. a partir da bibliografia disponível. em folhas separadas: a)IDENTIFICAÇÃO • TÍTULO (e subtítulo. são entregues 5 (cinco) exemplares. telefone e e-mail. adequações estilísticas e editoriais). Não há remuneração pelos trabalhos. Os artigos devem ser encaminhados ao editor da IMPULSO. Uma vez aprovado e aceito o artigo. e cultura em geral. correções gramaticais. especialmente convidados.REVISTA IMPULSO Normas para Publicação PRINCÍPIOS GERAIS 1 A Revista IMPULSO publica artigos de pesquisa e reflexão acadêmicas. atestada pela Comissão Editorial e por processo anônimo de avaliação por pares (peer review). endereço para correspondência. Os artigos devem ser inéditos. unidade e instituição em que atua. • RESENHA (2 a 4 laudas) – comentário crítico de livros e/ou teses. o autor deve procurar diretamente a Editora UNIMEP. dedicando parte central do espaço de cada edição a um tema principal. O(s) autor(es) pode(m) ainda comprar outros exemplares com desconto de 30% sobre o preço de capa. • qualidade científica. acompanhados de ofício. Os temas podem ser desenvolvidos através dos seguintes tipos de artigo: • ENSAIO (12 a 30 laudas) – reflexão a partir de pesquisa bibliográfica ou de campo sobre determinado tema. Na análise para a aceitação de um artigo serão observados os seguintes critérios. Para a publicação de separatas.

Como o empregado nas Referências Bibliográficas. separar por “&”. em português (intitulado RESUMO) e inglês (denominado ABSTRACT). • para fins de indexação. indicando o SOBRENOME do autor.: v. • SUBVENÇÃO: menção de apoio e financiamento recebidos. 102. Cabe ao autor criar os entretítulos para o seu trabalho. d)ANEXOS • Ilustrações (tabelas. registrar o primeiro deles seguido da expressão “et al. tradutor. Ex. b)RESUMO E PALAVRAS-CHAVE • Resumo indicativo e informativo. nome da obra. e)DOCUMENTAÇÃO NOTAS EXPLICATIVAS:1 serão dispostas no rodapé. F. 1984. E. local. 1996. nas notas de rodapé o SOBRENOME dos autores. seguindo o padrão abaixo. sem espaçamento entre eles. ano. se houver). Campinas: cetes/ital. desenhos. mapas e fotografias). 3 FARIA. ao fim de cada artigo.) que compõe as Referências Bibliográficas deve aparecer no fim do artigo. Título: subtítulo. psicologia. A. [Não deve constar o número total de páginas]. nomes de até dois autores. um desenvolvimento e uma conclusão. editora. C. CITAÇÃO com até três linhas: deve vir no bojo do parágrafo. com cerca de 150 palavras cada um. N. no que for aplicável.E. quando mais de dois. em ordem alfabética pelo sobrenome do autor e sem numeração.• nome do AUTOR.”). Cidade: Editora. gráficos. artigos etc. Esses entretítulos.Técnicas de Pesquisa em Economia. não são numerados. edição. 1996. 1 Essa numeração será disposta após a pontuação.: FARACO. identidade humana.) constarão das Referências Bibliográficas. remetidas por números sobrescritos no corpo do texto. A Tragédia da Consciência: ética.Ex.E. pp. 1991. • AGRADECIMENTO. 1997. título. destacada por aspas (e não em itálico). Ao fim da citação. p. em letras maiúsculas. aplicando-se o seguinte padrão: LIVROS SOBRENOME. acrescido de informações sobre a instituição na qual foi produzida. o autor deve indicar os termos-chave (mínimo de três e máximo de seis) do artigo.: CASTRO.Língua Portuguesa e Literatura. se absolutamente indispensável. editora. 1997.2 CITAÇÃO igual ou maior a quatro linhas: destacada em parágrafo próprio com recuo de quatro centímetros da margem esquerda do texto (sem aspas) e separado dos parágrafos anterior e posterior por uma linha a mais.C. 1989. um número sobrescrito remeterá à nota de rodapé.M. cidade. v.A. ano de publicação etc. J.Piracicaba: Editora Unimep. caso necessário.C. 2). 74-75.3 Os demais complementos (nome completo do autor. São Paulo: Ática. área acadêmica em que atua e e-mail. volume (ex. 3. ano da publicação e página em que se encontra a citação. GARCIA. segue-se o mesmo princípio. 2 FARACO & GIL. São Paulo: Atlas. total de páginas. deve ser grafado em maiúscula. se houver. titulação. GIL. • no caso de resenhas. FARIA. título original. após as quais um número sobrescrito remeterá à nota de rodapé com as indicações do SOBRENOME do autor. (nomes do autor abreviados. seguido do ano da publicação da obra correspondente a esta citação. et al. se não for a primeira. & MOURA. 198 impulso nº 28 . A lista de fontes (livros. Embalagens Plásticas: propriedades de barreira. em português (palavras-chave) e inglês (keywords). No caso de teses. o texto deve conter todas as informações para a identificação do livro comentado (autor. sem que se deixe espaço entre ela e o número sobrescrito da nota. ano da publicação e a página em que se encontra esta citação. quando esta ocorrer. c)TEXTO • texto deve ter uma introdução. ano completo.

oferecendo bom contraste e foco bem nítido. gráficos e desenhos devem ser incluídos nos locais exatos do texto. As tabelas não devem ser muito grandes e nem ter fios verticais para separar colunas. Se aprovado para publicação.S. coluna.Título do jornal. As figuras. Devem vir inseridas nos pontos exatos de suas apresentações ao longo do texto. As convenções precisam aparecer em sua área interna.Paulo. c. 6 (1): 97-105. T. As ILUSTRAÇÕES (tabelas. sigilosos. ETAPA 2.. PhotoShop. Ciências Econômicas e Sociais. contudo. Precisam ter título conciso. Campinas. mapas e fotografias) necessárias à compreensão do texto devem ser numeradas seqüencialmente com algarismos arábicos e apresentadas de modo a garantir uma boa qualidade de impressão. 2. o artigo deve ser reapresentado à Editora. PUC. Devem acompanhar eventuais gráficos e desenhos suas respectivas cópias eletrônicas em linguagem original. ex./1975. ed.100 toques). data. volume (número/fascículo): páginas incursivas. São Paulo: Educ. serem aceitos trabalhos escritos em outros idiomas. 1997. sobre papel brilhante.: REFLEXÃO.A. gráficos. Instituto de Filosofia e Teologia. p. Cidade. 2ª. devem ser preparados em tinta nanquim preta. As fotografias devem ser em preto e branco. Órgão publicador.Título do artigo. 1971. grafados em letras minúsculas. seção. com 30 linhas de 70 toques cada lauda (2. PaintBrush etc. • ARTIGOS DE REVISTA: SOBRENOME. são encaminhados aos autores para as eventuais mudanças. Os artigos devem ser digitados no EDITOR DE TEXTO WORD. em uma via em papel e outra em disquete. Ex. Programa explora tema raro na TV. desenhos. o autor recebe uma prova para análise e autorização de impressão. podendo. Após a editoração final. CorelDraw. Título do artigo. não transparente e de um lado só da folha.: FERRAZ.: PINTO. 10 11 12 Os artigos devem ser escritos em português. Ex. São Paulo. As tabelas devem ser editadas na versão Word. ano.• • Mais de uma citação de um mesmo autor: após a primeira citação completa. Os pareceres. e necessariamente em seus arquivos originais (p. ETAPAS de encaminhamento dos artigos: ETAPA 1. com formatação necessariamente de acordo com as dimensões da revista. 7. 13 impulso nº 28 199 . em Excel. Título da revista. tautologia e lógica da ciência. Empregabilidade e Educação. Entidade de apoio (se houver). J. 8/fev. Cidade. 1975. O Estado de S. em papel branco. Cidade. já com as devidas alterações eventualmente sugeridas pela Comissão Editorial.) em separado. páginas. a critério da Comissão Editorial. • ARTIGOS DE JORNAL: SOBRENOME. Folha de S. 1987. No caso de aprovação para publicação. gráficos e mapas. Paulo. com arquivo gravado no formato Word. OBRAS SEM AUTOR DEFINIDO: • Manual Geral de Redação. introduzir a nova obra da seguinte forma: • _________. PERIÓDICOS NOME DO PERIÓDICO. Curva de demanda. N. Ex. Osasco. caso sejam enviados para digitalização. N. Data. em espaço dois.A. eles precisarão ser enviados em disquete.N.. Apresentação de três cópias impressas para submissão à Comissão Editorial da Revista e aos consultores.