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Autor: Heitor Freire de Abreu Forças Armadas para quê? Março de 2005

FORÇAS ARMADAS PARA QUÊ?
“Nenhuma proporção existe entre alguém armado e alguém desarmado e não é razoável que quem esteja armado obedeça de bom grado a quem esteja desarmado e que aquele que não disponha de armas possa viver em segurança entre servidores armados”.1

Heitor Freire de Abreu 1. UM QUESTIONAMENTO ANTIGO A indagação sobre a necessidade de se manter exércitos constituídos em um país é remota. Provavelmente, surgiu pouco depois do término do primeiro grande embate entre forças oponentes, em vista de problemas mais urgentes, como a fome e as doenças. Afinal, qual a lógica em se manter homens treinando e recebendo do Estado com a finalidade de travar um conflito intangível no horizonte imediato ao mesmo tempo em que pessoas morrem de fome? Atualmente, essa discussão tem crescido nos meios acadêmicos e no seio de jornalistas e de outros profissionais liberais formadores de opinião. Acredita-se que o ressurgimento de propostas visando a diminuição ou, até mesmo, o fim das forças bélicas, deva-se ao término da Guerra Fria. Assim como ocorreu ao final da 1ª Guerra Mundial, onde muitas pessoas acreditavam em novos tempos, sem guerras ou conflitos significativos com a comunidade mundial, controlada pela ação da Liga das Nações, se antecipando às guerras futuras, vê-se quadro semelhante, no início do século XXI. Esta atitude é, até certo ponto, compreensível em função das demandas psicológicas reprimidas durante a Guerra Fria onde, especialmente os europeus, passaram décadas com a ameaça de um conflito termonuclear sobre suas cabeças. Em outras áreas do mundo, o conflito ideológico entre comunistas e capitalistas desaguando em guerras civis e na tomada de poder, provocou sensação semelhante. Segundo Raymond Aron, A Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável, e a paz, impossível2. A insegurança foi a tônica na vida das pessoas que viveram esse entrechoque ideológico iniciado logo após o término da 2ª Guerra Mundial, prolongando-se até a queda do muro de Berlim em 1989. Permeado pela corrida espacial, pelas ações terroristas, pela corrida

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MACHIAVELLI, Niccolo. O Príncipe: comentários de Napoleão Bonaparte. Rio de Janeiro: Hemus: Bibliex, 1998. p. 113. 2 ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as Nações. Brasília: UnB, 1986.

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armamentista e por ações audaciosas de espionagem, este período foi marcante na História e nas mentes daqueles que viveram sob o confronto ideológico. Contudo, é preciso que se enxergue além da névoa difusa dos modismos e das opiniões bombásticas e sensacionalistas, onde os fatos históricos se misturam com “achismos”, especulações e fantasias, verificando-se a razão lógica de um Estado possuir Forças Armadas (FA) mesmo durante longos tempos de paz. 2. DESENVOLVIMENTO Possuir ou não exércitos é uma questão de Estado. Muitos leigos no assunto apresentam razões para que se dispense uma Nação de manter homens preparados para o emprego legal da violência. Alguns poucos argumentos são válidos e merecem atenção. A maioria daqueles que propugnam pelo fim das organizações militares como forma de se acabar com a guerra desconhece os conceitos institucionais, históricos, sociológicos e econômicos, dentre outros, que servem de arcabouço para a manutenção de FA. Por outro lado, muitos daqueles que defendem a existência de homens em armas, sustentam sua argumentação em aspectos pontuais a determinados países, como ações subsidiárias, defesa de patrimônio público e de transporte de alimentos, dentre outros exemplos, tornando-se alvos fáceis aos olhos dos que são contrários ao estabelecimento de contingentes militares nacionais dentro de seus territórios. O que se busca neste artigo é uma pletora de argumentações pretensamente universais que sirvam para a maioria dos países. a. A importância do equilíbrio de poder Raymond Aron, em seu livro Paz e Guerra entre as Nações3, explicita o pensamento advindo da corrente realista4, conhecido como balance of power. A perspectiva desta linha de raciocínio, em se tratando de relações internacionais, propugna que para se evitar desequilíbrios nas relações internacionais, chamada de anarquia inerente ao sistema, somente uma política de equilíbrio de poder seria suficiente para minimizar a insegurança de um Estado em relação a outro, evitando as guerras.

idem, p. 189-194. Didaticamente, divide-se o estudo das relações internacionais em três escolas: idealista, realista e radical. A escola realista enfatiza o potencial conflitivo, sendo baseada em Machiavel e Hobbes. Foi uma reação à ineficiência da “política de apaziguamento” na Europa do entre-guerras.
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Segundo Aron, a política externa é intrinsecamente uma política de poder. O conceito de equilíbrio – balance – aplica-se, pois, a todos os sistemas internacionais, inclusive a nossa era atômica5. Ou seja, de maneira sintética, ele ensinava que a forma mais objetiva e simples para se evitar guerras seria a de que nenhum Estado deveria dotar seus exércitos com uma capacidade militar que tornasse impossível aos seus vizinhos defesa razoável em caso de conflito bélico nem instigar ressentimentos históricos desnecessários. Uma corrida armamentista unilateral poderia conduzir, de maneira prematura, à guerra, pois o balance of power estaria ameaçado. A Alemanha de Bismarck serve de exemplo de como a inobservância do balance of power pode implicar em conflito armado. A visão internacional alemã, caracterizada pela prudência nas ações internacionais, foi modificada com a queda de Bismarck em 1890. A partir daí, houve mudança contundente na condução dos negócios do estrangeiro por parte da Alemanha. A alta política do Estado passou a sustentar uma geopolítica fundamentada no espaço vital (Lebensraum) e no germanismo cultural e racial (Kulturkampf).6 Tal quadro configurou a adoção clara de uma política externa agressiva em detrimento do equilíbrio entre as potências européias à época, conduzindo a Europa ao conflito de 1914. Como se vê, a política do equilíbrio, voltada para a manutenção da paz, não prevê a extinção das FA de um Estado por saber que seria um “suicídio” da Nação. Preconiza que exista uma espécie de common sense and obvious reasoning7, buscando atender aos níveis mínimos de segurança que satisfaçam as sociedades dos países envolvidos. Deste modelo, inicialmente empírico, surgiram os arranjos multipolar e bipolar ao longo da História, proporcionando períodos de paz. Embora alguns teóricos sugiram que a política de equilíbrio envolva certa dose de egoísmo e de alguma corrupção moral, pois não reconhece os países como amigos ou inimigos, ela se reveste do pragmatismo necessário às relações internacionais. Se bem analisado, a existência de FA não é causadora de guerras, e o seu emprego faz parte das conseqüências da ruptura, em diversos pontos da História, do balance of power. Como exemplo clássico, tem-se a Guerra Franco-Prussiana (1870), que ao unificar a Alemanha provocou desigualdade de poder humilhando a França ao retirar-lhe a posse da Alsácia e da Lorena. Em 1914, o desequilíbrio chegaria a ponto da eclosão da 1ª Guerra Mundial.

Op. Cit.,p.189. MAGNOLI, Demétrio. Questões Internacionais Contemporâneas. Brasília: Funag, 2000. passim. 7 Senso comum e de óbvia razoabilidade (tradução livre do autor). MAGNOLI, Demétrio. Questões Internacionais Contemporâneas. Brasília: Funag, 2000. p. 25.
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4 b. O que significa ser “pacifista”?

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A expressão “pacifista”, tão em moda nos meios de comunicação, recebeu conotações diferenciadas conforme o interesse dos grupos que a utilizam. Segundo o dicionário Houaiss, pacifismo é a teoria dos que defendem a paz universal e lutam pelo desarmamento mundial8. Creio que esta definição é muito restritiva, pois infere que só é pacifista aquele que luta pelo desarmamento e, conseqüentemente, pela extinção das FA. Ora, como “defender a paz universal” sem a existência de meios que a garanta? Dentre estes meios, gostem ou não os pacifistas de plantão, estão as FA. O articulista Arthur Dapieve, em artigo intitulado “Pacifismo é equívoco”, tece interessantes comentários sobre o assunto: Todo mundo – exceto os terroristas e os magnatas da indústria bélica – prefere a paz à guerra. No entanto, o pacifismo é um equívoco. Não aquele desejo individual de que se calem os canhões para que os homens possam se ouvir uns aos outros. Esse é legítimo, natural, uma manifestação espontânea do instinto de sobrevivência. Mas o pacifismo como ideologia automática contra todo e qualquer conflito freqüentemente assume contornos é de uma racionalização camuflada do instinto de morte. (...)Por isso, presos a esquemas mentais, protestam pro forma, enquanto patinam em dois grandes equívocos. O primeiro equívoco é essencial. O segundo, circunstancial. O essencial é o seguinte: por trás da pregação obstinada pela paz está a idéia de que ela seria algo como o estado natural da Humanidade. Quem dera fosse. Mas não é. Nunca houve um Paraíso para ser perdido. O homem convive com guerras (em escalas cada vez maiores) ao menos desde que o primeiro clã de neandertais decidiu expulsar outro clã de uma caverna quentinha. (...)Agora, ao equívoco circunstancial dos pacifistas, ou seja, aquele que diz respeito à guerra ora em andamento na Ásia Central. Há, naturalmente, o recurso ao velho chavão "violência gera violência". Com ele, neste caso, capitula-se diante da lógica do terror: "Se não cessarem os bombardeios a Cabul e demais cidades afegãs, novos atentados como o do World Trade Center vão acontecer, logo, é melhor parar". A turma do deixa-disso planetário não lembra que não havia nenhum bombardeio americano em parte alguma do mundo antes do 11 de Setembro (e por quase um mês depois do 11 de Setembro também). Ou seja, às vezes a violência surge do nada. Portanto, não há nenhuma garantia de que boeings não vão continuar se espatifando contra torres se EUA e Grã-Bretanha recolherem navios e aviões aos (aero)portos. Qual terá sido a violência que fez algo entre cinco e seis mil mortos em solo americano? (grifos do autor)9 Há enorme diferença entre ser pacifista na acepção humana da palavra e ser contrário à existência de FA. No sentido puramente humano - de valorizar a vida - a grande maioria da população, inclusive os militares, é pacifista, pois não se quer o estabelecimento de uma mentalidade belicosa gratuita, onde se mataria por prazer ou desnecessariamente, estimulando a face
HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p.325. 9 Extraídos do sítio http://www.no.com.br/servlets/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeNoticia?codigoDaNoticia=40973&dataDoJornal =atual, em 16 de março de 2005.
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mais negra e selvagem que a espécie humana poderia apresentar. O que se deve pretender é o estabelecimento e a manutenção da paz, tendo as FA papel expressivo neste desiderato. Este é o pacifismo real e possível. c. Pontos de vista contrários à existência de FA Alguns intelectuais contrários à existência de FA alicerçam seus argumentos em proposições pertinentes, porém sob base falsa. É o que se chama de “sofisma de composição”. A priori, o conjunto de idéias pelas quais eles expõem seus pontos de vista são coerentes e resguardam certa lógica. No entanto, não resistem a um exame mais profundo da realidade humana. O argumento mais utilizado diz que os recursos destinados às FA são vultosos, podendo ser carreados para outras atividades mais imediatas e humanas, como alimentação, moradia, saúde e educação, dentre outras. Inicialmente, esta afirmação pode ser considerada como argumento plausível. Os custos para se manter uma FA eficiente são altos. Estima-se, por exemplo, que o custo de um carro de combate (CC) de última geração, como o Chalenger britânico, ultrapasse o valor de 1,3 milhões de dólares. Um avião B 52H tem seu preço em torno de 74 milhões de dólares e um Lockheed F-117 Nighthawk, pode chegar aos 50 milhões de dólares. Levando-se em conta que o preço de uma casa popular de 36 m² no Brasil, chega próximo aos 10 mil reais10, o valor de um único F 117 daria para construir cerca de 13.500 casas deste tipo11. Contudo, tal afirmação é falaciosa na medida em que um país não pode direcionar todo o seu recurso orçamentário para uma determinada área, como a de moradia, por exemplo. A macroeconomia já trata deste assunto há anos por intermédio do dilema “Espadas versus Arados”, concluindo que se existir desequilíbrio entre bem-estar e segurança, a chance de ocorrer problemas em uma das áreas é grande. Como exemplos de desequilíbrios que desaguaram em conflitos, citamse a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ao priorizar os gastos com defesa em detrimento do bem-estar da população, gerando reações internas que implicam, em alguns lugares, em guerra civil e, até mesmo, na falência do regime. De forma oposta, o Kuwait privilegiou o bemestar em detrimento da segurança, facilitando sobremaneira a invasão do seu território pelo Iraque em 1991. Outro grupo defende a idéia de que os conflitos só ocorrem porque existem exércitos. Caso estes não existissem, estar-se-ia eliminando a possibilidade de guerra. Mais uma vez, verifica-se a
Dados extraídos do artigo da revista Téchne, Moradia Popular em Kit Metálico, de setembro de 2001, Nr 54, de Simone Sayegh. passim. 11 1 dólar equivalendo 2,7 reais.
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falta de foco no problema. Imagine-se que os exércitos fossem suprimidos de uma hora para outra. Diversos problemas ocorreriam: onde distribuir a imensa massa de militares desempregados? O que fazer com o parque industrial bélico desmobilizado? Como impedir, pela dissuasão, a ocorrência de conflitos locais de fronteira, cuja expansão pode atingir níveis de segurança preocupantes? E os problemas cuja solução não pôde ser encontrada mediante diálogo? Quem será o primeiro a buscar a solução pela violência? Enfim, embora admirável sob o enfoque utópico, é totalmente despida de suporte científico e realismo. Por fim, vale a pena tratar, ainda que superficialmente, sobre o clássico exemplo da Suíça. Há uma forte tendência em se dizer que a Suíça não possui FA, sendo um exemplo positivo de que é possível que um país viva sem a existência de exército. Rompendo definitivamente com este falso paradigma, ao se pesquisar um pouco sobre as FA da Suíça, verifica-se que além de possuir um exército, este é altamente móvel e mobilizável, possuindo treinamento de bom nível com a finalidade de combater de maneira descentralizada nos alpes suíços. São cerca de 6 milhões de cidadãos, destes, cerca de 2 milhões armados com fuzis automáticos Stgw.90. Segundo a propaganda do governo, “O suíço não tem um exército: eles são o exército"12. Completamente mobilizado, o exército suíço apresenta 15,2 homens por quilometro quadrado; em contraste, os EUA e a Rússia têm apenas 0,2 soldados por km². A Suíça é 76 vezes mais densa em soldados do qualquer outra super potência. Sob este enfoque, somente Israel tem mais exército por km².13 d. Argumentos favoráveis à existência de FA Se há aqueles que se opõe ao fato de um país possuir FA, há os que defendem a sua existência sustentando-a como um dos alicerces do Estado. Neste contexto, verifica-se a ocorrência de variada gama de argumentos para a justificar uma massa crítica armada e preparada para resistir às possíveis rupturas da paz. A idéia de se propugnar pela existência de FA submetida ao aparelho estatal é a de que a principal tarefa de um exército é evitar a guerra; e não incentivá-la. Como já foi visto anteriormente, dentro do princípio de equilíbrio do poder, as FA são partícipes importantes neste delicado jogo. A sua ausência promoveria desequilíbrio grave nas relações internacionais entre dois países. Muitos defensores do enxugamento excessivo das forças militares ou da sua pura e simples extinção esquecem que as FA fazem parte de um complexo de ferramentas governamentais, inseridas no amplo espectro dos campos do poder, com a finalidade de manter a paz.
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Extraído do sítio http://www.armaria.com.br/suicos.htm , em 16 março de 2005. Idem.

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A garantia de paz, com a conseqüente inexistência de conflitos armados, pode ser visualizada por meio de “barreiras” institucionais e culturais que trabalham simultaneamente no sentido de se evitar a guerra, permitindo que os antagonismos e as áreas de fricção entre Nações permaneça no campo das negociações. Conforme mostra o quadro abaixo, as pressões internas e externas geradoras de conflitos são absorvidas e tratadas pelas diversas ferramentas do balance of power (campo político, dissuasão pelas FA, diplomacia etc), impedindo que se chegue à guerra.

POLÍTICA PRESSÕES INTERNAS E EXTERNAS DIPLOMACIA FORÇAS MILITARES

VALORES ÉTICOS

CULTURA GUERRA

ECONOMIA ORGANISMOS INTERNACIONAIS

BUSCA DO BALANCE POWER

Para que se atendesse aos reclames daqueles que pedem a eliminação dos exércitos, deveria haver garantia global de que não há hipótese em se deflagrar conflitos. Tal proposição torna-se absurda na medida em que nem mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU), como organismo internacional mais importante no que tange ao congraçamento de países e a busca pelas soluções pacíficas dos problemas das relações internacionais, pode afiançar tal proposição. É importante ressaltar que a mudança no cenário internacional é caracterizada por transformações expressivas do quadro existente em curtíssimo espaço de tempo. Um relacionamento cordial entre países pode mudar profundamente com a subida ao poder de um outro dirigente cujas idéias sejam frontalmente contrárias ao senso comum de uma determinada comunidade de Nações. Isto ocorreu em 2003 quando a coalizão formada na Áustria pelos conservadores do chanceler Wolfgang Schuessel e a extrema-direita de Jörg Haider reascenderam temas polêmicos e considerados tabus pela União Européia, como anti-semitismo, xenofobismo e idéias nostálgicas da chamada “grande Alemanha”, gerando protestos e desconforto internacional no continente europeu. Sendo assim, os governos, ao participarem da sadia rotatividade democrática por intermédio de eleições livres na condução de seus países, podem desencadear processos agressivos internos e externos no Estado em função do posicionamento do grupo político que passou a governar, gerando

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aumento substancial de instabilidade regional. Esta possível instabilidade inerente às trocas de poder é fator de justificação da existência de FA. Como exemplo recente, viu-se a invasão argentina nas Malvinas/Falklands em 1982. Num golpe inesperado e rápido, tropas argentinas tomaram aquela inóspita região do Atlântico Sul em função de uma postura belicosa de uma junta de governo, causando mudança percuciente no quadro internacional, obrigando ao reordenamento temporário de alianças estratégicas no Sul e envolvendo os Estados Unidos da América (EUA), a Grã-Bretanha e, até mesmo, o Brasil. O que garantiu a defesa dos interesses britânicos no Atlântico Sul? Suas FA e a sua capacidade de projetar rapidamente o poder em outro hemisfério. No momento, não há nenhum argumento forte o bastante para se afirmar que as guerras estão com seus dias contados. Desde o término da Guerra Fria, em 1989, até os dias de hoje, passaram-se menos de 25 anos. Este lapso de tempo histórico é insignificante para basear qualquer tentativa de se estabelecer mudança no modelo secular que permeia guerra e paz em períodos mais ou menos regulares. Atualmente, o que se pode verificar no quadro mundial, naquilo que concerne aos conflitos bélicos, é a tendência em desencadear-se conflitos de baixa e média intensidade, em substituição aos conflitos mundiais ou envolvendo subcontinentes, como a Guerra dos Cem Anos (1337), a Guerra das Duas Rosas (1453), as Guerras Napoleônicas (1799), a Guerra de Secessão dos EUA (1861), a Guerra da Tríplice Aliança (1864), a Guerra Franco-Prussiana (1870), a Guerra Sino-Japonesa (1894), a Guerra Russo-Japonesa (1904), a Guerra Civil espanhola (1936) e as duas grandes guerras mundiais. De fato, no momento, existem cerca de 30 conflitos armados de maior ou de menor intensidade ocorrendo no planeta14. Some-se a isto, a ameaça terrorista de grupos radicais que podem atuar em qualquer parte do mundo, alterando profundamente o quadro das relações internacionais. Sem dúvida alguma, trata-se de um panorama mundial caracterizado, em muitos lugares, pela busca do equilíbrio de poder manu militari. Assim, não há termo de comparação entre Nações cujo peso econômico e militar sejam extremamente díspares. A recente invasão do Kuwait pelo Iraque (1991), é argumento suficiente para que se entenda a necessidade de se possuir FA com capacidade de dissuasão. Se o Kuwait tivesse meios militares ponderáveis no sentido de transformar a invasão de seu território em algo
Colômbia, Ruanda, Afeganistão, Senegal, Uganda, Paquistão, Serra Leoa, Costa do Marfim, Sudão, Índia, Nigéria, Etiópia, Sri Lanka, Angola, Somália, Mianmar, Namíbia, Eritréia, Rússia, República Democrática do Congo, Geórgia, Filipinas, Israel, Argélia, Indonésia, Haiti, ex- Yugoslávia, China, Iraque e Líbano, dentre outros.
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mais do que o passeio iraquiano realizado naquela oportunidade, é possível que os eventos fossem outros. Típico caso de desequilíbrio de poder entre países com interesses conflitantes. 3. CONCLUSÃO A existência de exércitos nacionais com o intuito de proteger os interesses legítimos de um país é um direito e um dever do Estado. De fato, é a última garantia que ele possui para atender e defender os seus objetivos nacionais. Abrir mão dessa prerrogativa, além de ser imoral, é a quebra frontal do equilíbrio de poder que permite, em muitos casos, a coexistência pacífica entre países com visões diferentes, sejam elas de caráter político, religioso ou econômico. Possuir forças armadas aptas é a garantia mínima de segurança e de bem-estar psicológico que um povo necessita. Não é luxo ou acessório; é imperativo governamental. No entanto, é importante que fique claro que o emprego legal da violência, além de ser regulado, na maioria dos países, pela Constituição, não deve ser utilizado de maneira a defender interesses diversos àqueles do Estado e de sua política internacional. A História já provou que quando um governante decide caminhar nestas estradas, o resultado final envergonha gerações. De forma a condensar o assunto abordado neste artigo, pode-se afirmar que a pura e simples existência de FA não configuram causa imediata de guerra. Em muitos casos, ela atua contrariamente, evitando a eclosão de conflitos em função do seu poder dissuasório. A Guerra Fria, com a sua política de coexistência pacífica, é prova disto. O mundo nunca esteve tão armado, todavia, o temido confronto nuclear nunca ocorreu. Propugnar reduções drásticas e sem critérios técnicos ou, até mesmo, a total extinção dos meios militares de um país é atitude pueril e descabida. Não há razoabilidade neste intento. Seria oficializar a submissão de uma Nação à outra. Tratar-se-ia, tão somente, da descaracterização do Estado independente, transformando-o em títere, na melhor das hipóteses, de outro. ARMED FORCES FOR WHAT? ABSTRACT The article approaches the necessity of the existence of regular Armed Forces in the countries. It argues that the intention in searching the peace cannot be confused with generalized disarmament as some intellectuals and pacifists want. The author bases its point of view in the theory of the balance of power by Raymond Aron and in historical

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cases, where the vision lack politics of long stated period generated great conflicts, as the great world-wide wars. Keywords: International relations, Armed forces, Balance of power.

____________________________________________ O autor é Major de Cavalaria do Exército Brasileiro, doutorando em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, com ênfase em Logística Militar Terrestre. Em 2009, é Chefe da 3ª Seção (Operações e Planejamento) da 1ª Divisão de Exército. (E-mail: majheitor@gmail.com).