You are on page 1of 29

TRABALHO E SOFRIMENTO

Maíra Marchi Gomes - CRP 12/05448 Psicóloga Policial – PC-SC

Mestre em Antropologia Social - UFSC Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise – PUC-PR Especialista em Dependências Químicas – PUC-PR Especialista em Direito Penal e Criminologia - UFPR Especialista em Psicologia Jurídica – PUC-PR Especialista em Panorama Interdisciplinar do Direito da Criança e Adolescente – PUC-PR

CARGA PSÍQUICA DO TRABALHO

Subemprego de aptidões psíquicas, fantasmáticas ou psicomotoras, ocasionando uma retenção de energia pulsional (DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 1994) Excesso leva à fadiga e ABDOUCHELI; JAYET, 1994) sofrimento (DEJOURS;

Sobrecarga produz delírio, depressão ou doença somática (DEJOURS; ABDOUCHELI; JAYET, 1994)

1994. através da vontade (DEJOURS. Por exemplo. JAYET.29) Fadiga física sempre possui uma tradução psíquica. A sujeição do corpo talvez só venha após a alienação (DEJOURS. p. JAYET.. mas insuficiente..FADIGA  “(. ABDOUCHELI. da alienação pela organização do trabalho.) testemunha não específica da sobrecarga” (DEJOURS. porque para compensar uma fadiga física. 1992)    . 1992) Peça necessária. 1994) Faz com que aparelho mental perca versatilidade (DEJOURS. o aparelho psíquico é mobilizado. ABDOUCHELI.

envelhecimento e doenças somáticas (DEJOURS. comando. hierarquia. JAYET. controle. JAYET. Solicita as relações e mobiliza investimentos afetivos (DEJOURS. e se revelam em desgaste. Incitam o sentido e o interesse do trabalho para o sujeito  2) Divisão de homens: repartição das responsabilidades. ABDOUCHELI. ABDOUCHELI.ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO  Condições de trabalho: pressões físicas. etc. químicas e biológicas do posto de trabalho. 1994) . mecânicas. Têm por alvo principal o corpo. 1994) Organização do trabalho: 1) Divisão do trabalho: divisão de tarefas e o modo operatório prescrito.

ABDOUCHELI. 1994)    . JAYET. JAYET. ABDOUCHELI. 1994) A subjetivação cresce à medida que se sobe na hierarquia (DEJOURS. JAYET. ABDOUCHELI. 1994) Motivação X desejo (DEJOURS.DESEJO E TRABALHO  Organização do trabalho como “vontade de um outro” (DEJOURS. ABDOUCHELI. 1994) Ideal seria que cada modo operatório fosse um compromisso personalizado entre desejo e realidade (DEJOURS. JAYET.

1994)  . JAYET. ABDOUCHELI. ABDOUCHELI. 1994) (grifo dos autores) Estado de luta do sujeito contra os aspectos ligados à organização do trabalho que o direcionam à doença mental (DEJOURS.. JAYET.) vivência subjetiva intermediária entre a doença mental descompensada e o conforto (ou bem-estar) psíquico” (DEJOURS..SOFRIMENTO NO TRABALHO  “(.

por sua vez. Não reconhece significação humana da tarefa Desqualificação: imagem de si que repercute no trabalho Vivência depressiva condensa e amplia os sentimentos de indignidade. é dominada pelo cansaço (DEJOURS. 1992): Indignidade: resultado do contato com uma tarefa insignificante. 1) Manifestações do sofrimento (DEJOURS. de não ter imaginação. É a vergonha de não ser mais que um apêndice. 1992) 3)  . inutilidade e desqualificação. de estar despersonalizado e a falta de significação do trabalho 2) Inutilidade: falta de qualificação e finalidade do trabalho. Enfim. inteligência. A depressão.

2000) 3) . conformismo decorrente da “interiorização” da dominação social Normalidade como resultado da luta contra a desestabilização psíquica provocada pelas pressões do trabalho (DEJOURS.“Normalidade sofrente”: 1) a normalidade não implica sofrimento  2) ausência de Normalidade não como efeito passivo de um condicionamento social.

1992) Medicalização não apenas desloca o conflito homemtrabalho para um terreno neutro (como já faz a psiquiatrização). 1992)  1) 2)   .MEDICALIZAÇÃO DO SOFRIMENTO  Saída individual ocorre quando o limitar coletivo de tolerância não é ultrapassado pela coletividade (DEJOURS. recorre-se à medicalização do sofrimento (DEJOURS. 1992) Soluções para manter equilíbrio mental: Demissão a pedido ou rotatividade Absenteísmo (DEJOURS. 1992) Justificativa para absenteísmo: como sofrimento e fadiga não podem se manifestar. mas também destitui o componente mental do sofrimento (DEJOURS.

1994) “Macetes” e “habilidades de prudência”. mas também admitir que. 1994) “ (. podem ser utilizados em proveito da produtividade (DEJOURS. JAYET.56)    . JAYET. essa inteligência só pode ser utilizada semiclandestinamente” (DEJOURS. ABDOUCHELI. incluindo os individuais. ABDOUCHELI. JAYET.. ABDOUCHELI.) é preciso não apenas dar mostras de inteligência para suprimir a defasagem entre a organização do trabalho prescrita e a organização do trabalho real. p.EXPLORAÇÃO DO SOFRIMENTO  Procedimento defensivos. muitas vezes. de forma a atender as necessidades do trabalho (DEJOURS.. 2000. 1994) Auto-aceleração (DEJOURS. para subverter os modos operatórios prescritos.

medo e sentimento de impotência (DEJOURS. ABDOUCHELI. um sofrimento residual passa a destruir o aparelho mental e equilíbrio psíquico Surge quando todas as margens de liberdade na transformação. gestão e aperfeiçoamento da organização do trabalho já foram utilizadas Quando há repetição.TIPOS DE SOFRIMENTO  1) 2) 3) Sofrimento criador: Quando o sofrimento pode ser transformado em criatividade Aumenta a resistência do sujeito à desestabilização psíquica ou somática Trabalho como mediador da saúde (DEJOURS. frustração. JAYET. aborrecimento. 1994) Sofrimento patogênico: Após utilizados todos os recursos defensivos. 1994)  1) 2) 3) . JAYET. ABDOUCHELI.

ESTRATÉGIA DEFENSIVA  Alvo: modificação. JAYET. ABDOUCHELI. os trabalhadores colocam-se na posição de agentes ativos de um desafio. transformação e eufemização da percepção dos trabalhadores sobre a realidade que os faz sofrer (DEJOURS. provocação ou minimização (DEJOURS. 1994)  . JAYET. ABDOUCHELI. 1994) Funcionamento: retorno da relação subjetiva com as pressões patogênicas. Na esfera mental.

ABDOUCHELI. 1994)  1) 2) 3) . 1) 2) Diferença em relação ao mecanismo de defesa individual: o mecanismo está interiorizado. JAYET. Daí: A vivência subjetiva é de que o sofrimento resulta do enfraquecimento da estratégia defensiva. daí o termo “estratégia” (DEJOURS. e não do trabalho A estratégia de defesa deixa de ser vista como uma defesa contra o sofrimento. JAYET. e a estratégia sustentase em um consenso São coordenadas e unificadas por regras defensivas. 1994) Quando as ameaças contra a estratégia são combatidas. e passa a ser uma promessa de felicidade A defesa da defesa é erigida em ideologia. passando a defesa a se tornar programa de ação coletiva (DEJOURS. ela se torna um objetivo. ABDOUCHELI.

 Ideologias defensivas constroem um imaginário social que se opõe à elaboração do sofrimento. JAYET. à avaliação da realidade e ação de transformação (DEJOURS. 1994) . ABDOUCHELI.

p.64)    Acrescentar o medo suposto (DEJOURS. sintetizada na idéia do “não querer é suficiente para não ser vítima” (DEJOURS. 1992) Além de multiplicar o medo. 1992) . a ignorância quanto aos limites do risco e dos métodos de prevenção aumenta também o custo mental do trabalho (DEJOURS. 1992) Medo surge da “oposição entre a natureza coletiva e material do risco residual e a natureza individual e psicológica da prevenção a cada instante de trabalho” (DEJOURS.TRABALHO E MEDO  Uma estratégia defensiva particular recai significativamente sobre o medo. 1992.

1992) Negação do medo chega. o trabalhador cria o risco. em alguns casos. Aqui. uso de álcool. se não. ao ponto de o medo só aparece camuflado. 1992)    Resistência perante campanhas de segurança. O medo precisa ser relativamente neutralizado (não aparecer a qualquer momento). 1992) . executar as tarefas tornar-se-ia inviável (DEJOURS. e não mais está sujeito ao perigo (DEJOURS. “trotes”. 1992) Uma das maneiras com que mostra o desprezo pelo perigo são as performances pessoais em que se aumenta o risco do trabalho. através de sintomas medicalizados (DEJOURS. por exemplo. estimulação a relações de suspeita entre trabalhadores (DEJOURS.

porque abala o moral do coletivo. 2000) Ultrapassando certo nível e duração. Medo utilizado como motor da inteligência (DEJOURS. o medo paralisa. inclusive em situações extremas como a da guerra (DEJOURS. 2000)  .

REFLEXOS DA ANSIEDADE Degradação do funcionamento mental e do equilíbrio psicoafetivo: 1) necessidade de descarregar a agressividade contamina relações exteriores ao trabalho 2) Consumo de psicotrópicos pode ser uma forma de controlar agressividade e tensão interna   Degradação do organismo: ansiedade resultante das ameaças à integridade física é de natureza mental (DEJOURS. 1992) .

em nome do trabalho. 2000) Sofrimento ético: não o sofrimento decorrente do mal padecido pelo sujeito. de intolerância para com o que provoca seu sofrimento” (DEJOURS.SOFRIMENTO ÉTICO  Estratégias defensivas. atos que condena moralmente (DEJOURS. 2000) “(... mas o sofrimento ético (DEJOURS.46)   . em alguns casos. tornam tolerável não apenas o sofrimento psíquico.) a intolerância afetiva para com a própria emoção reacional acaba levando o sujeito a abstrair-se do sofrimento alheio por uma atitude de indiferença – logo. 2000. mas aquele experimentado ao cometer. p.

de um trabalho. 2000. p. confirma inevitavelmente as duas posições de vítima e de carrasco. “a passagem pelo coletivo. O resultado desse processo é que quem se esforça para vencer o medo causado pela ameaça contra a própria integridade física e moral no exercício de uma “atividade coordenada útil”. a se tornar por sua vez cúmplice da violência e a justificá-la em nome da eficácia do domínio e do aprendizado para vencer o medo” (DEJOURS. na participação na estratégia coletiva de defesa contra o medo ou a ameaça.105) (grifo do autor) Dominação protege (DEJOURS. ou seja. é levado. 2000) de um contágio pelos fracos  . de submissão e de ameaça. nolens volens.

2000)  .100) (grifo do autor) “Coragem” utilizada em proveito de uma atividade permite uma justificativa ética da violência (DEJOURS. a injustiça. p. o sofrimento infligidos a outrem só podem se colocar ao lado do bem se forem infligidos no contexto de uma imposição de trabalho ou de uma “missão” que lhes sublime a significação” (DEJOURS. 2000. “A violência.

sentimento que não desaparece com a justificativa utilitarista da “coragem”. que pode. demonstração ou restabelecimento do domínio e poder sobre o outro. inclusive pela força (DEJOURS. prometendo prestígio e sedução. 2000. ao máximo. está associada ao medo e à luta contra o medo” (DEJOURS. 2000) Virilidade: capacidade de se infligir sofrimento ou dor (violência) contra outrem. particularmente os que são dominados.85)   . p. abalar sentimentos de culpa e vergonha (DEJOURS. sustenta a luta contra as manifestações do medo. mesmo em uma dimensão psicoimaginária. em nome do exercício. 2000) “a virilidade.TRABALHO E VIRILIDADE  Virilidade.

pode ser julgada pela própria consciência Coragem precisa do complemento da viirlidade quando é mobilizada para responder a uma injunção (DEJOURS. O discurso viril é um discurso de domínio. “(. apoiado no conhecimento.. supostamente totalizante. O conhecimento científico e técnico possibilitaria afastar toda ameaça de fraqueza e evitar a experiência do fracasso” (DEJOURS. ainda mais fundamentalmente. 2000)  1) 2) 3) 4) .. 2000.) a virilidade não se mostra apenas nas condutas ou nos comportamentos.101) Coragem X virilidade: Coragem é conquista individual Coragem não é definitivamente adquirida Coragem dispensa reconhecimento alheio. na demonstração. no raciocínio lógico. na ordem do discurso. Evidencia-se também. p.

p. A virilidade é a forma banalizada pela qual se exprime a justificação dos meios pelos fins” (DEJOURS. os processos psíquicos são os mesmos” (DEJOURS. Quando o medo não resulta da violência alheia nem da necessidade de enfrentar um adversário ou inimigo.102) (grifo do autor) “A virilidade é o mal ligado a uma virtude – a coragem – em nome das necessidades inerentes à atividade de trabalho. quando existe uma pressão ou uma injunção para superar o medo. cumpre admitir que. mas como não infligí-lo a outrem (DEJOURS. “Levando em conta o papel capital da virilidade na distorção social que faz o mal passar por bem. 2000. e sim da ameaça exercida por condições físicas. 2000. p.133) Fragilidade não como não suportar sofrimento. 2000)   . catástrofes naturais. os processos psíquicos individuais e coletivos apelam mais para a virilidade defensiva do que para a coragem moral. catástrofes industriais ou simplesmente pelos riscos de acidente ou morte no trabalho.

APRENDIZADO DA CORAGEM  1) Alcançar a coragem. resistir à dor e vencer o medo por meio do sofrimento do corpo: Aprendizado da submissão voluntária e da cumplicidade com quem exerce a violência 2) 3) Justificar a violência (ela estaria a serviço da virtude) Aperfeiçoar o aprendizado da coragem. quer para legitimar sua condição de suportar o sofrimento (suporta não apenas o dele. mas também o de outrem (DEJOURS. 2000) . de forma a ser capaz de cometer violência contra outrem quer por motivos pedagógicos.

mas invertida (DEJOURS.83) (grifo do autor)    Racionalidade ética não é abolida. por sujeitos sem distúrbios do senso moral (DEJOURS.TRABALHO E MORAL  Colaboração ativa é feita. 2000) Paranóicos e perversos são mais frequentemente líderes do sistema (DEJOURS. 2000) . em maioria. mas da normalidade” (DEJOURS. p. 2000) “A banalidade do mal não resulta da psicopatologia. 2000.

então. uma ou duas destas condições são atendidas: 1) O exercício da tarefa leva à descarga psíquica e.TRABALHO E SAÚDE Quando a relação com a organização do trabalho é favorável. ao “prazer de funcionar”  2) O conteúdo. ritmo e modo operatório do trabalho é fonte de satisfação sublimatória. 1992) . O trabalhador pode modificar a organização do trabalho de modo a satisfazer necessidades/desejos (DEJOURS.

JAYET. 1994)  . psicossensoriais e psíquicas.PROPOSTA  Mobilização da inteligência pela gratificação e reconhecimento (DEJOURS. ABDOUCHELI. 2000) Re-orientação profissional: para considerar as aptidões psicomotoras. necessidades da economia psicossomática (DEJOURS.

Christophe. DEJOURS. Christophe.REFERÊNCIAS  DEJOURS. 5 ed. 145 p. Psicodinâmica do trabalho: contribuições da Escola Dejouriana à análise da relação prazer. Elisabeth. São Paulo: Cortez. São Paulo: Atlas. 3 ed. Rio de Janeiro: FGV. 1992. Christian. 2000. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. _____. 1994. 160 p. sofrimento e trabalho.   . ABDOUCHELI. JAYET. 168 p. A banalização da injustiça social.