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METALINGUAGEM E OUTRAS METAS

A literatura é um discurso “nãopragmático”, isto é, ela não tem nenhuma finalidade prática imediata (como os manuais de biologia ou recados), referindo-se apenas a um estado geral de coisas. Por vezes, mas nem sempre, ela adota uma linguagem peculiar, uma linguagem autoreferencial, uma linguagem que fala de si mesma.

Tal função reenvia o código utilizado à língua e a seus elementos constitutivos. . à disposição do falante. A gramática. por exemplo. Roman Jakobson considera função metalinguística quando a linguagem fala da linguagem. é um discurso essencialmente metalinguístico porque se trata do código explicando o próprio código. estamos nos valendo da função metalinguística. Quando consultamos o dicionário para nos inteirarmos do significado da palavra metalinguagem. Quando se faz análise sintática. faz-se uso dessa função. pois o dicionário é um repertório de palavras sobre palavras. nativo ou não.Jakobson e o conceito de metalinguagem   Em seu estudo sobre as funções da linguagem. voltando-se para si mesma.

ampliouse e hoje o encontramos associado aos vários tipos de linguagem.  Metalinguagem: “A linguagem utilizada para descrever outra linguagem ou qualquer sistema de significação” (Aurélio). é a forma de expressão dos dicionários e das gramáticas. entretanto. .Ampliando o conceito de metalinguagem  Metalinguagem é a propriedade que tem a língua de voltar-se para si mesma.  O significado do termo.

ele o traz para dentro do quadro. 1656). deslocando lugares instituídos. uma maneira mesmo de se encarar esse ato. Aqui o pintor se retrata pintando o quadro. Num jogo de olhares com o espectador. Os processos metalinguísticos não são exclusivos da literatura.“A Família de Filipe IV” (ou “As Meninas”. de Diego Velásquez. É a pintura retratando o ato de pintar. .

. Carlos Drummond. Até porque a linguagem converteu-se em tema de debate no modernismo e depois dele. João Cabral.Metalinguagem como autoreflexividade   Autoreflexividade: capacidade da literatura (e não a teoria da literatura) refletir sobre seu próprio modo de fazer arte. De emprego constante na literatura. Manuel Bandeira) quem não tenha feito suas incursões no amplo terreno da metalinguagem. é difícil encontrar entre os escritores modernos (Rubem Braga.

. O leitor também é convidado a participar ou não das aflições do poeta/eu lírico. remorso vão. paradoxalmente. . Dói-me nas veias. expõe seu conceito de poesia. Explicita sua função catártica = vazão dos sentimentos = de alívio de sofrimentos. de desencanto.. Cai.. Amargo e quente. Tristeza esparsa. Fecha o meu livro.. do coração...      O poeta.Exemplo: Manuel Bandeira Eu faço versos como quem chora De desalento.. no ato mesmo de fazer o poema. Deixando um acre sabor na boca. E nestes versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre. Meu verso é sangue. pois ele se declara o autor. O poeta não se distingue do eu lírico. Eu faço versos como quem morre. se por agora Não tens motivo nenhum de pranto. gota a gota.. Fundem-se a idéia de poema e vida e.. Volúpia ardente.. a de representação da morte.

Desse modo. . da dificuldade de seu material – a palavra -. destruindo assim a crença no poeta como um ser inatingível.Metatextualidade como metalinguagem A metatextualidade. genericamente chamada de metalinguagem. no poema. do conflito pedregoso diante da folha branca como “uma pedra no meio do caminho”. o metapoema é um poema que fala do ato criativo. A função metalingüística na arte literária surgiu como uma dessacralização do mito da criação. da palavra que é de uso de todas e que. por expor ao leitor o processo de criação artística do escritor. é a mensagem centrada no código. necessita ser singular e exata para bem dizer-se.

São Paulo: Ática. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. Haroldo. Roman. A Metalinguagem. Samira.Referências. São Paulo: Beca. CULLER. São Paulo: Perspectiva.br . Lingüística e Comunicação. 1992. Jonathan.usinadeletras. Teoria Literária: uma introdução. São Paulo: Cultrix. JAKOBSON.      CAMPOS.ed. 1986. 4. http://www. 1974. CHALUB. Trad.com. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 1999.