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Fenomenologia e Hermenêutica da Religião

Prof. Dr. Deyve Redyson

Hermenêutica
A palavra Hermenêutica vem do verbo grego hermeneuein que tem a significação de interpretar, esclarecer, anunciar e até mesmo traduzir. Significa que algo que pode ser falado ou escrito pode ser compreendido. O termo é utilizado por Platão, Aristóteles, Boécio, santo Tomás de Aquino entre outros. Em sentido lato, o termo pode indicar duas coisas inicialmente.

por um lado. A Hermenêutica está ligada aos termos de interpretação e de expressão de textos sagrados. e ao campo da critica textual. . por outro. mas o pensamento. na qual o importante não é a expressão verbal.• É uma arte ou ciência que pode ser uma interpretação literal ou investigação dos sentidos das expressões empregadas por meio de uma análise das significações lingüísticas e pode ser a interpretação doutrinal.

centrada no esclarecimento e na compreensão de textos. mas não exclusivamente a Bíblia. . principalmente.• A hermenêutica que se aplica as sagradas escrituras foi desenvolvida no século XVI pelo luterano Matthias Flacius Illyricus em 1567 e pelo discípulo de Descartes. Esta hermenêutica é considerada hoje como hermenêutica clássica ou literal. o holandês. Andrian Heerebord em 1657.

• Como disciplina filosófica foi elaborada por um discípulo de Alexander Baumgarten. Georg Friedrich Meier em 1757 e teve seu momento áureo com Friedrich Schleiermacher. A hermenêutica de Meier está muito associada a símbolos e a teoria geral da interpretação e decifração de expressões. .

. Ao postular a unidade de pensamento e linguagem.No que tange a hermenêutica de Schleiermacher • “A hermenêutica enquanto arte de compreensão ainda não existe universalmente. mas somente várias hermenêuticas especiais”. a tarefa da hermenêutica se torna universal e abarca a totalidade do que importa ao humano. é uma análise da compreensão “a partir da natureza da linguagem e das condições basilares da relação entre o falante e o ouvinte”. então. A hermenêutica.

e a compreensão técnica ou psicológica. Segundo. a distinção entre compreensão divinatória e comparativa: . a distinção entre compreensão gramatical. Primeiro. a partir do conhecimento da totalidade da intenção e dos objetivos do autor. a partir do conhecimento da totalidade da língua do texto ou discurso.• Quatro distinções básicas foram estabelecidas por Scheleiermacher.

. Compreensão divinatória: Significa uma adivinhação imediata ou apreensão imediata do sentido de um texto. deduzindo o sentido a partir do enunciado.• Compreensão comparativa: Se apóia em uma multiplicidade de conhecimentos objetivos. gramaticais e históricos.

• São três as razões pelas quais Schleiermacher deve ser recordado: 1) por sua interpretação romântica da religião. 2) pelo grande relançamento de Platão. 3) por algumas idéias antecipadoras de sua hermenêutica .

Wilhelm Dilthey • Dilthey separa as ciências da natureza e as ciências do espírito não por seu método nem por seu objeto. mas por seu conteúdo. que as vezes coincidem em ambas. . “Uma teoria que quer descrever e analisar os fatos histórico-sociais não pode se abstrair dessa totalidade da natureza humana e se restringir ao elemento espiritual”.

mas de modo real imediato e completo. como os problemas naturais. Eles são apreendidos em toda a sua realidade.• Os fatos espirituais não são dados. As ciências do espírito (Geistwissenschaften) . mediante uma série de regras conceituais.

. pois o termo não só traduz a expressão idiomática como também se limita a interpretação do conjunto de ciências por nós conhecida ciências humanas.• A tradução brasileira da obra de Dilthey traduz Geistwissenschaften por Ciências humanas. que a nosso ver não está correto.

diante do mundo humano. deste ponto de vista. ao passo que.• para Dilthey é possível. Os meios necessários à compreensão do mundo histórico-social podem ser. . essa via de compreensão estaria completamente fechada. e a psicologia. adotar uma atitude de compreensão pelo interior. é a primeira e mais elementar das ciências do espírito. dessa maneira. diante do mundo da natureza. tirados da própria experiência psicológica.

• Essa apreensão da realidade pode ser chamada de autognose (Selbstbesinnung). de apreensão do psíquico espiritual. uma captura do objeto diferente da que ocorre no ato da compreensão imediata da interioridade quando se acrescenta elementos alheios a ela. em fundamento do conhecimento filosófico-sistemático . Mas a autognose transforma-se.

• Dilthey nos diz: “Autognose é conhecimento das condições da consciência nas quais se efetua a elevação do espírito à sua autonomia mediante um conhecimento de validade universal. . determinações axiológicas de validade universal e normas do agir segundo fins de validade universal”. mediante um conhecimento de validade universal. isto é.

. as ciências do espírito são gnosiologicamente anteriores às ciências da natureza.• Por isso. obra de 1907. Dilthey chega a afirmar a falência da filosofia como metafísica. Em A essência da filosofia. Dilthey se opõe frequentemente à metafísica na medida que esta pretendeu ser um saber rigoroso do mundo e da vida.

Há nos fenômenos uma realidade acessível: Eis a finalidade e o sentido da hermenêutica filosófica para Dilthey: .• “O começo e a mais alta tarefa da filosofia é: elevar ao nível da consciência de si mesmo o pensamento concreto das ciências empíricas que extrai dos fenômenos uma ordem regida por leis. justificando-o diante de si mesmo.

também existe na linguagem de nosso espírito e em nossa compreensão. a única verdade que nos é dada com validade universal. em cuja construção todos os verdadeiros filósofos desde Sócrates trabalharam. O fundamental de nosso saber é a grande função da ciência filosófica fundamentadora. isto é. . Este é o objeto da ciência filosófica fundamental.• a ordem regida por leis.

vol.• Uma outra função da filosofia é a organização das ciências empíricas. in Gesammelte Schriften. Vandenhoeck & Ruprecht. Göttingen. Wilhelm. O espírito filosófico está presente em toda parte onde a base de uma ciência for simplificada. 2006. ou onde a sua relação com a ideia do saber for verificada ou métodos forem comprovados em seu valor de conhecimento” DILTHEY. 224-225. ou onde as ciências forem associadas. . VIII. Weltanschauungslehre. Abhandlungen zur Philosophie der Philosophie. p.

• Gadamer acentua a grande diferença que há entre as compreensões de Dilthey e a possibilidade de se lançar numa fenomenologia husserliana na perspectiva do encontro com uma hermenêutica .

O projeto de Gadamer se constitui na elaboração de uma forma de pensar a interpretação baseada na formula fenomenologia de que na manifestação do visto o interpretado é a noção do sentido relacional da coisa pensada.• A genealogia da hermenêutica de Gadamer começa por volta do ano de 1923. onde este assiste o semestre de verão de Heidegger sobre a ontologia (Ontologie: Hermeneutik der Faktizität) onde Heidegger utiliza pela primeira vez a expressão hermenêutica fenomenológica da facticidade. .

O contraste é tão claro que poderíamos supor que Gadamer também teria desenvolvido a sua hermenêutica da substância histórica como a imagem oposta dessa crítica”. Vai nos dizer Figal: “A confiança gadameriana neste fluxo encontra-se em um rígido contraste com a crítica da tradição feita por Heidegger.• Em Heidegger a possibilidade é o caminho do encontro com o ser. mas em Gadamer a possibilidade é a interpretação do ser nas coisas. .

dessa forma. então o conjunto dessa pressuposição. No momento em que. 10. que denominamos de situação hermenêutica. se torna tarefa explícita de uma pesquisa. numa experiência fundamental. necessita de um esclarecimento prévio que. assegure para si o objeto a ser explicitado”. . p. HEIDEGGER. M. partirá da descrição de Heidegger da hermenêutica: “Toda interpretação possui sua posição prévia. enquanto interpretação.• Gadamer. § 45. Parte II. Ser e Tempo. visão prévia e concepção prévia.

.. a conceituação (concepção prévia) para a qual se devem dirigir todas as estruturas ontológicas”.• Heidegger continua: “Uma interpretação ontológica deve liberar o ente na constituição de seu próprio Ser.. já delineiam. Posição prévia e visão prévia. simultaneamente. portanto.

de que. aqui. estamos diante de um círculo. a descrição se apresenta como transparente para quem quer que se dedique à interpretação sabendo o que faz.• O essencial da reflexão hermenêutica de Heidegger não é a demonstração. Em si mesma. . mas estar em destacar que esse círculo tem significado ontológico positivo.

O caminho para o nada é inacessível.Em Heidegger • . • .O caminho para a aparência é sempre acessível.O caminho para o Ser é inevitável. mas evitável. . • .

. fazê-lo ficar mais nítido e mais perceptível dentro dos padrões do conhecimento.• Por isso Gadamer escreve: “Quem quiser compreender um texto deve estar pronto a deixar que ele diga alguma coisa”. o que o texto lhe oferece é um assunto que será “modificado” com uma eventual interpretação. Sua pré-compreensão é estabelecida a partir do querer que esta interpretação se realize dentro da pretensão do texto. isto é.

deve propor um “sentido” após o outro. para que o texto apareça sempre mais em sua alteridade. como o que realmente é.• O intérprete deve ser sensível a alteridade do texto. . o fazer os outros entenderem é norma que apresente o sucesso ou não da prática hermenêutica. um “sentido” melhor e mais adequado do que o outro. O intérprete deve falar para escutar o texto. ou seja. ele deve agir como “correlação de mentalidade”. o texto não é pretexto para que só o intérprete fale.

Verdade e Método. .• “Entender e interpretar os textos não é somente um empenho da ciência. 1997. um problema de método” . GADAMER. o fenômeno hermenêutico não é. p. Rio de Janeiro. G. já que pertence claramente ao todo da experiência do homem no mundo. 31. Na sua origem. de forma alguma. H. Vozes.