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Fenomenologia e Hermenêutica da Religião

Prof. Dr. Deyve Redyson (PPG-CR)

A Situação
• Dentro das Ciências da Religião (espectro) a Fenomenologia da Religião ocupa lugar fundamental para a compreensão do fenômeno religioso. • A Fenomenologia da Religião parte da perspectiva da Filosofia da Religião, da qual faz parte

Mahayana. Hinayana: Tibetano. Tillich etc • A Fenomenologia e Hermenêutica da Religião Husserl. Heidegger. Ricoeur . Kierkegaard.Uma Filosofia “das” Religiões • A Filosofia Oriental . Os seis sistemas filosóficos hindus. van der Leeuw. Feuerbach. Hegel. Gadamer. O Budismo: Theravada. Nietzsche.Kant. Zen.Os Vedas. Terra Pura • A Filosofia da Religião . o Brahmanismo. Dilthey.

Edmund Husserl (1859-1938) .

ou como o próprio Husserl chama de “Intuição das coisas próprias”. . mas uma exposição dinâmica-dialética que fornecia a possibilidade de formular novos conceitos filosóficos.• Husserl encontrou em Brentano um aspecto de objetividade. A partir desde contato. Husserl decide dedicar-se a estudar a consciência filosófica e inicia os estudos do Método Fenomenológico para se opor ao psicologismo contemporâneo. isto porque ele não oferecia respostas já formuladas.

Coisa e espaço (1907). Conferência de Paris. Lições sobre a teoria da significação (1908). Psicologia fenomenológica (1925) entre outras . Investigações Lógicas (1900-1901) em 2 volumes.As Obras • Poderíamos dizer que as principais obras de Husserl foram: Filosofia da Aritmética (1891). Ideias diretrizes para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica (1913). (1913). Filosofia primeira (1923-1924). Filosofia e as ciências a rigor (1910). A Crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental (1913). Meditações cartesianas. Sobre a fenomenologia da intersubjetividade (1921-1928).

e a Gesammelte Werke com base no espólio inédito. . pequenos textos. Friburg e Paris foi lançado em 1989 os 29 volumes das obras completas de Husserl. Por ter ascendência judia. Com esforços das Universidades de Louvain.• Husserl deixou uma enorme série de manuscritos. notas e outros papeis. pois a perseguição a seus escritos aconteceu após sua morte e foi graças ao franciscano Hermann Leo Van Breda. que os transportou. com livros terminados. Colônia. mas não publicados. onde se encontra a Husseliana. na clandestinidade. os manuscritos de Husserl tiveram grande dificuldade de continuarem intactos. até a cidade de Louvain na Bélgica.

F.. p. Podemos definir os fenômenos psíquicos dizendo que são os fenômenos que contém intencionalmente em um objeto”. mas cada um contém-no a seu modo. . Em Psychologie von empirischen Standpunkt.. Psychologie von empirischen Standpunkt. da afirmação de que tudo é proveniente da intenção de fazê-lo. Surge aqui a comparação do ideal escolástico de se prover da intencionalidade. que hoje pode ser tida como conteúdo básico para o objetivo de imanência. relação a um conteúdo. direção para um objeto (sem que seja necessário entender por tal uma realidade) ou objetividade imanente. isto é.Husserl • A principal contribuição da filosofia de Brentano para o pensamento de Husserl se encontra na teoria da intencionalidade. BRANTANO. Ibidem. Todo o fenômeno psíquico contém em si alguma coisa a título de objeto.Brentano . Brentano afirma: O que caracteriza todo o fenômeno psíquico é o que os escolásticos da idade média chamaram presença (Existenz) intencional e que nós poderíamos denominar por. BRENTANO. F. 102 • Continua Brentano: “Esta presença intencional pertence exclusivamente aos fenômenos psíquicos. Nenhum fenômeno psíquico apresenta algo semelhante.

Tomás de Aquino e Duns Scoto para a Escolástica e Platão e Aristóteles para a antiguidade. Michel. .• A fenomenologia e o método fenomenológico é conhecido hoje através de Husserl e de sua obra Investigações Lógicas. o cartesianismo para o século XVII. Phénoménologie Matérielle. o empirismo para o século XVIII. • HENRY. 1990. Na verdade a fenomenologia de Husserl germinou durante a crise do subjetivismo e do irracionalismo no final do século XIX e início do século XX. PUF. Michel Henry afirma que podemos entender a fenomenologia sendo para o século XX o que o idealismo alemão foi para o século XIX. Paris.

No primeiro volume encontra-se os Prolegômenos a Lógica Pura e no segundo as Seis Investigações Lógicas. . O aparecimento das Investigações Lógicas abriu uma nova tematização da objetividade lógica. uma justificação do investigar das representações.• As Investigações Lógicas foram concebidas na cidade de Halle e publicadas originalmente em 2 volumes respectivamente em 1900 e 1901.

Husserl sustenta que a base do psicologismo é sempre um empirismo normalista. . A critica ao psicologismo é inevitável na aplicação de uma ciência tão objetiva e característica. senão generalizações empíricas indutivas. que estabelecia a natureza da lógica como disciplina normativa que ministra os fundamentos essenciais da teoria da ciência. daí se explica a abertura das Investigações Lógicas com o extenso Prolegômenos a Lógica Pura.• Husserl compreendia que para introduzir a objetividade da Fenomenologia Pura seria necessário um estudo inicial para desmistificar a lógica pura. as leis lógicas não são.

O psicologismo. considerado sobre tudo em seus representantes anglo-saxões. todo raciocínio. todo juízo. É por encontrar no psicologismo estas barreiras que Husserl antes de iniciar as Investigações Lógicas propõe uma “Introdução” que aclara o sentido das mesmas. . totalmente liberada de pressupostos de uma simples explicação psicológica. toda conclusão. ciência dos estados subjetivos internos. e que seria por isso da alçada mesmo da psicologia. são fenômenos psíquicos que resultam exclusivamente de uma operação psíquica. afirma que todo conceito.• A crítica do psicologismo vai desembocar no reconhecimento de uma lógica pura. Stuart-Mill e Herbert Spencer.

Tudo isto quer dizer que todo o programa desta nova fenomenologia é uma elaboração vinda das Investigações Lógicas e que Husserl inicia suas investigações como um “aclarar” de fontes do conhecimento: “A fenomenologia traz. com efeito. a aposta de um pensamento”. • Idem. § 61. . Enquanto Ding corresponde à coisa física (a res de Descartes). Meditações Cartesianas. Aliás. p. 182.• Dessa forma acontece o “chegar ao retorno das coisas mesmas”. a questão. para a própria psicologia métodos completamente novos. 218. (Zurück zu den Sachen Selbst). p. Sache designa o problema. Investigaciones Lógicas. como nos diz Depraz: “esse termo „coisas‟ remete ao alemão Sachen e não Dinge. liberta de tudo o que se refere à psico-fisiologia)” • Idem. a parte mais importante das Investigações fenomenológicas pertence a uma psicologia intencional apriorística e pura (quer dizer. Editora Rés. Com efeito.

AS SEIS INVESTIGAÇÕES LÓGICAS • A primeira Investigação tem como titulo Expressão e Significação. “a expressão significa. raciocínios. . Madrid. quando trata de conceitos. que pelas diversas formas gramaticais adquirem uma significação. Investigationes Lógicas. juízo e na representação. parte da lógica que tem o âmbito próprio da região da significação. • HUSSERL. 1. 1985. se ocupa exclusivamente destas unidades ideais. em maior ou menor grau. expressar a significação. que se expressa no conceito. um sinal”. em unidade fenomenológica. que é a referência da expressão da objetividade expressada. que nós chamamos aqui significações que temos nos esforçado para deixar reduzidas a sua essência ideal libertadora dos laços psicológicos e gramaticais que o envolve e obscurece”. 233. Por este motivo é que Husserl entende que toda Investigação Lógica e fenomenológica se ocupa da significação e sua correlação ao objeto. Na significação se dá. Edmund. A expressão do “expressado” vem dos signos verbais. § 1. juízos. “A lógica pura. p. Alianza. o ato de dar sentido ou intenção significativa e o ato de cumprimento significativo. porque também é. Todas as categorias lógicas se revelam no gênero de significações que se constituem em unidades ideais.

• Já a segunda Investigação. chegando por esta via a descobrir os conceitos universais. Berkeley e Hume que. . desnaturalizam o conceito teórico da noção de abstração. e para considerar uma qualidade como comum é preciso antes universalizá-la ou considerá-la em sua essência. que tem induzido ao empirismo a negar a existência dos objetos universais. em separar de um objeto uma qualidade que será comum a outros. porque as qualidades de um objeto individual são todas individuais. segundo ele. A abstração não consiste. e que tem de defender a validez da diferença entre objetos específicos e objetos individuais como o fundamento principal para a lógica pura e a teoria pura do conhecimento. A significação universal constitui a ideia do conceito que se distingue da simples imagem ou percepção sensível do objeto individual. Husserl desenvolve a importância das: Significações Universais. pois. Sua formação se deve a uma ação peculiar da mente humana que é a “abstração”. não em sua individualidade. É no nominalismo extremo que Husserl se estende às teorias empiristas de Locke.

“Objetos não-independentes são objetos de espécies puras que com referência a elas existe as leis da essência que diz que estes objetos. os conteúdos independentes são os objetos simples significativos de uma ideia ou conceito de espécie pura. problema que reduz a ontologia formal do todo em diversas partes. que toma significação diferente dos conteúdos concretos da experiência. O resultado desta investigação é mostrar que a noção do conteúdo ou conceito de essência. Edmund. que pode existir em si mesma. A terceira investigação se forma no problema da “diferença entre objetos independentes e não-independentes”. objeto de intuição eidética. mas aqui. § 7. isto é. 3º Investigación. Investigaciones Lógicas. nos sons e outras qualidades.• A terceira e quarta investigação partem do mesmo principio da segunda. Na substância. cujas partes entram em composição de outra essência ou espécie e se faz nela. sem se ter a necessidade de apoiar-se em outra esfera. continuam o tema dos objetos pela abstração. Já os conteúdos não-independentes se referem a objetos compostos. • HUSSERL. chama-se objetos ou conteúdos abstratos. . não só se aplica as essências que podem existir por si no mundo real e também sobre ela mesma nas cores. só podem existir como partes de todos. mais amplos de certa independência”. se existem. utilizando-se dos conceitos concretos de Stumpf.

uma introdução a toda representação e fenômeno psíquico. um dos pontos principais do pensamento husserliano. pois trata da “intencionalidade”. a noção de intencionalidade da escolástica medieval. O princípio de intencionalidade é que a consciência é sempre “consciência de alguma coisa”. A intenção prepara a consciência que é aqui “consciência fenomenológica” para: “Como a total consciência fenomenológica do empírico.• A quinta investigação tem uma importância especial. 5º Investigación. pg. § 1. como o entrelaçamento das vivências psíquicas na unidade de seu corpo”. . • Idem. que ela só é consciência estando dirigida para um objeto. 130. Husserl retoma através de Franz Brentano.

e será de toda a essência psíquica uma realidade de uma vivência intencional. 147. • Idem.• Os conteúdos da consciência ou estados psíquicos chamam-se “vivências” (erlebnis). . p. São dois momentos distintos: a realidade da consciência como vivência psíquica e a consciência como presença de um objeto ou vivência intencional. • Sob estes dois tópicos Husserl discorre por toda a extensão da quinta investigação. significativa de um objeto. § 9. inclusive reconhecendo em Brentano sua origem: “entre as delimitações dos fenômenos psíquicos não há nenhuma mais notável nem filosoficamente importante que a de Brentano”.

retomemos a ideia do cubo utilizada por Husserl. conforme o ângulo sob o qual meu olho o apreende. vou descrever a maneira pela qual ele me aparece. em sua simplicidade.• Para uma melhor elucidação. Estas duas faces ainda não são o cubo inteiro. as quais tampouco são o próprio cubo. mas serão. se eu contornar o cubo. as três faces primitivamente percebidas desaparecerão. Imaginemos. Ao contrário. Por razões fáceis de compreender não me apresenta em nenhum momento suas seis faces simultaneamente. embora sejam partes do cubo. modos de aparecer nos quais o cubo se esboça. Se a percepção continuar. um fato importante: a percepção do cubo jamais está perfeitamente acabada. outras faces igualmente aparecerão. apresenta primeiramente duas ou três faces. pois. tal como as primeiras. um cubo diante de mim. dando lugar a três novas faces desconhecidas. . tal exemplo revela-nos. Pois.

desaparecendo as outras três. § 18. Editora Rés. que só percebo algumas faces de um objeto colorido. sei que estou percebendo o próprio cubo: minha consciência contém. HUUSERL. . Parece. através de minha percepção quotidiana.• Se eu continuar a contornar o cubo. Numa palavra: jamais chegarei. Meditações Cartesianas. p. 58-61. • Cf. a colocar-me num ponto de vista absoluto de onde tenha a possibilidade de apreender de uma só vez todas as faces do cubo. E. portanto. portanto segundo a descrição empírica. E. que minha percepção não se completa. atualmente mais do que ela percebe atualmente . as primeiras faces aparecerão. no entanto.

é necessário partir daquilo que se encontra antes de todos os pontos de vista. pois a fenomenologia pretende ser. sempre pronto a se diferenciar conforme o próprio progresso da análise da consciência e do conhecimento de novos níveis fenomenológicos no interior daquilo que já foi anteriormente reconhecido como uma teoria de conhecimento. que irá possibilitar o Método. a filosofia fundamental no dinamismo intencional de uma consciência sempre aberta. por essência. Para alcançar a fundamentação da filosofia como ciência e fato. fechado. apenas se utilizando destes como forma e procedimento para análise. este conhecimento é o sistema da intencionalidade que torna a fenomenologia essencial. Dessa forma a fenomenologia quer deixar todo tipo de termo no lugar em que está. deixando de lado o que já existe.• O Método Fenomenológico de Husserl não é um sistema acabado. A Fenomenologia só aceita um conhecimento necessário. .

aos quais aludimos de passagem nas análises precedentes: o conceito de conteúdo intuitivo e o conceito de conteúdo representante (apreendido)”.. na introdução da sexta das Investigações Lógicas. na sentença seguinte. • HUSSERL.. 1975. que passamos a usar na expressão “Conteúdo representante-apreendido” (reprasentierender Inhalt) e que traduzirá a forma abreviada Reprasentant – é sugerido pelo próprio Husserl. o termo “representante-apreendido”. das diferentes espécies de intuição. p. Os Pensadores – Introdução. E. fundamental para a elucidação do conhecimento. vai afirmar: “Vamos caracterizar fenomenologicamente os conceitos totalmente gerais de significação e intuição. Como se vê. Com isso surgirão novos conceitos de conteúdo. . reprassentierenden) Inhalts. São Paulo. Der Begrif des reprasentierenden (aufgefassten) Inhalts. 6º Investigação. sob o titulo de Elementos para uma elucidação fenomenológica do Conhecimento. na análise..• Husserl. und den aufgefassten (appewrzipierten. recorrendo aos fenômenos do preenchimento. Entraremos então na fenomenologia dos graus do conhecimento.. Abril Cultural. a ela relacionados. e enveredar. E. bzw. Investigações Lógicas. 15. a começar pela intuição sensível.

O mundo dos fenômenos. 60. . “A pergunta é. ou a apreensão deles neles mesmo deve ser reduzida ao todo. um tipo de negatividade do objeto. quero transformá-lo intuitivamente em dado”. Como se pode começar a teoria de um determinado tipo de conhecimento se este mesmo encontra-se impugnado pela questão do perguntar por ele. o que cairia no absurdo. por assim dizer. 25. quero compreender a possibilidade deste apreender. A Idéia da fenomenologia. pois: como pode a vivência ir. além de si mesma?”. isto é. Edições 70. se examino o seu sentido. E. isto é uma maior apreciação ao já dado. pois segundo Husserl que o conhecimento em geral seja posto em questão não significa necessariamente que este conhecimento se negue que haja conhecimento em geral. • Idem. visto por uma claridade: “O que eu quero é a claridade.• O método do conhecimento apropriativo é a base sustentadora da fenomenologia. p. Lisboa 2000. HUSSERL. p. quero ver diante dos meus olhos a essência da possibilidade de tal apreender.

é aquela na qual o objeto (fenômeno é isolado de tudo o que não lhe é próprio. Tais conceitos surgem na fenomenologia husserliana com o fim de especificar melhor o papel da intencionalidade no processo do conhecimento. chamada por Husserl epoché ou Redução Fenomenológica. Husserl parte só da imanência da consciência e distingue ali duas coisas: o ato que conhece (noese) e a coisa conhecida (noema). A diferença está na ideia enquanto ato. ou enquanto conteúdo do ato. isto é. a fim de poder revelar-se em sua pureza). poderíamos dizer que a noese é o pensamento do objeto e o noema é o objeto enquanto pensado. Enquanto a tradição filosófica explicava o conhecimento como uma relação de duas coisas exteriores: ideias (interior ao sujeito) e coisa real (mundo). O mesmo se faz na co-relação entre Noema e Noemática.A Redução Fenomenológica • A fase negativa. .