O Tropeiro

Antigamente não havia carros, ônibus ou caminhão. As viagens eram feitas a pé e as cargas e as pessoas transportadas nas costas dos escravos índios e negros. As poucas cidades viviam isoladas, com dificuldades para adquirir alimentos e outros produtos de fora e mesmo para transportar o que produziam. Foi nessa época, no final do século XVIII, que surgiram os tropeiros.

O tropeiro trabalhava na condução e comércio de muares. Vivia a maior parte do tempo em viagem: trazia burros e mulas do Sul, transportava cargas e também pessoas que gostavam de viajar junto com as tropas. Afinal, ele conhecia bem as estradas.

O traje do tropeiro
O tropeiro, em suas viagens, usava roupas comuns: calça, camisa, um chapéu para se proteger do sol e da chuva, um cinto de couro com vários bolsos, chamado de guaiaca (para guardar dinheiro) e botas. Nos dias de chuva e frio usava uma capa ou um poncho que chegava a cobrir até a montaria.

A mula
A mula e o burro (muares) resultam do cruzamento da égua com o jumento. A mula é a fêmea e o burro, o macho. Ambos são estéreis. Os muares são muito resistentes. Carregam maior peso ou carga do que o cavalo e aguentam viajar por mais tempo e em estradas difíceis. Por isso, para as viagens longas, o tropeiro sempre preferiu a mula.

Tropa
Tropa é a reunião de muitos animais ou de pessoas. Aqui nós falamos sobre tropa de mulas. Existem dois tipos: a tropa xucra e a tropa de carga, também chamada de tropa arreada.

Tropa xucra
A tropa xucra é formada por mulas e burros, ainda não domados ou xucros. Durante a viagem, o tropeiro ia domando, amansando e domesticando as mulas para vendê-las. Sorocaba ficou famosa pelo comércio de tropas xucras que os tropeiros iam buscar no sul para venderem em nossa cidade.

Tropa arreada
A tropa arreada é formada por animais domesticados que transportam todo o tipo de carga, desde a época do ouro de Minas Gerais, mais o algodão e o café de São Paulo, além de feijão, açúcar, sal, galinhas, cartas, encomendas, novidades que os tropeiros iam levando nas suas viagens pelas cidades.

A égua madrinha
Caminhava na frente da tropa com o cincerro no pescoço, isto é, uma faixa de couro como um colar com vários sinos de metal. Os animais da tropa, os muares (mulas e burros) iam seguindo mansamente a égua madrinha, mãe de todos.

O pouso
O pouso era a parada para comer e dormir durante as viagens. Os homens escolhiam um local seguro, com água e pasto para os animais e livre de perigos.
Era no pouso que os tropeiros comiam o feijão, bebiam o café ou chimarrão, contavam estórias (causos), cantavam suas saudades da terra e da família e, quando não estavam muito cansados, dançavam um bom fandango ou catira para espantar a tristeza.

Tropeiros comendo

Muitos dos pousos dos tropeiros foram crescendo, se transformando em vilas e cidades por esse Brasil afora. Itapetininga, Alambari, Registro, Cerquilho, Araçoiaba da Serra e outras surgiram por causa dos tropeiros.

Feijão tropeiro
Na época do tropeiro, não havia bares e lanchonetes à beira das estradas. Ele tinha de levar uma comida forte e que não se estragasse na viagem. Basicamente, era feijão com carne seca feito durante as paradas pelo cozinheiro que acompanhava a tropa.

Receita de Feijão Tropeiro
2 pratos de feijão cozido 500 gramas de toicinho defumado 200 gramas de linguiça defumada 200 gramas de carne seca desfiada ou em pequenos pedaços 500 gramas de farinha de milho Cebolinha, sal e alho

Modo de fazer Corte o toicinho em pedaços, frite e separe. Faça o mesmo com a linguiça e a carne seca. Numa panela grossa, coloque duas colheres de óleo ou banha, frite o alho e coloque o feijão sem o caldo. Acrescente o caldo e o sal a gosto. Coloque a carne seca e a linguiça misturando bem. Depois o cheiro verde e, aos poucos, a farinha de milho, mexendo sempre, até ficar em ponto de angu. Sirva com arroz, couve frita e torresmo pururuca.

As feiras de Sorocaba
Em Sorocaba, as feiras eram bem diferentes das feiras de hoje. O comércio era de animais: mulas, burros, cavalos, gado e porco. Vinha gente de todo o Brasil para comprar os seus animais. A cidade se transformava em uma grande festa, com vendedores e compradores, circo de cavalinhos, músicos e artesãos.

Registro

O Registro de animais
Era tanto animal sendo negociado que o governo da época criou o Registro de Animais: um tipo de pedágio cobrando impostos de cada animal que passasse pela ponte do rio Sorocaba. As feiras foram se acabando com o tempo. A última aconteceu em 1897.

Artesanato sorocabano
Sorocaba ficou famosa pelo artesanato que produzia e vendia durante as feiras de animais. Havia o artesanato de metal, como as famosas facas e facões sorocabanos, os arreios e objetos decorativos.

Facão sorocabano

Havia o artesanato em couro que produzia selas, arreios e botas e também as famosas redes sorocabanas feitas pelas mulheres em grandes teares de madeira. Trabalho demorado, mas satisfatório. Redes lindas e resistentes.

redeira sorocabana

As diversões do tropeiro
O tropeiro não vivia só trabalhando. Nas horas de folga, gostava de tocar uma viola, cantar suas modas cheias de estórias de valentia e de saudade. Gostava também de jogar cartas, apostar corrida de animais no jogo da raia, ou no jogo da argolinha e dançava o fandango e a catira.

O cururu
O cururu é um canto de desafio. Os versos são inventados na hora com ritmo e rimas que devem ser respeitadas. Não é nada fácil cantar o cururu. Exige inteligência, rapidez e criatividade para inventar versos rimados e muitos difíceis.

cantando cururu

O fandango
O fandango é uma dança apreciada pelos tropeiros. Veio da Espanha e era dançada só por homens, usando os pés e as mãos, batendo palmas, acompanhados pela viola. Vencia aquele que inventasse passos ou batidas de pés e mãos mais difíceis que os outros. É dançado com botas e esporas chamadas de chilenas, que servem para marcar o ritmo. Há também o fandango de chinelas, sandálias feitas de madeira.
dançando fandango

Os tropeiros em Sorocaba
Em Sorocaba, as tropas chegavam pela Estrada do Sul (atual General Carneiro), atravessavam o Largo das Tropas (Praça Nove de Julho), Rua Moreira César, Penha, Treze de Maio, São Bento, Quinze de Novembro, passavam pelo Registro de Animais para pagar ou conferir os impostos, e seguiam pela Avenida São Paulo, Rua Padre Madureira, Avenida Carlos Reinaldo Mendes, Avenida Três de Março, Estrada de Aparecidinha em direção a São Paulo.

Sorocaba cresceu muito graças aos tropeiros. Novas ruas foram abertas e alargadas. Os diferentes caminhos que os tropeiros usavam estão sinalizados através de placas pela cidade.

Picar a mula
Do tempo das tropas nos chegam muitos provérbios relacionados ao homem e ao burro (ou mula). Vale a pena conhecer alguns: Picar a mula- (ir embora) Dar com os burros n’água – (tudo deu errado) Cara de burro quando foge – (cara envergonhada) Amarrar o burro na sombra – (estar bem de vida) Teimoso como uma mula – (nem precisa explicar) Tem caveira de burro – (quando alguma coisa atrapalha)

Trova
Uma trova pra lembrar do pouso: No ranchinho do tropeiro, Que me acolhe a solidão, Saudade é o meu travesseiro E minha cama a ilusão. Dorothy Jansson Moretti

Ferreiro colocando ferradura

Caminhos dos

Tropeiros

Rota dos tropeiros do Sul até Sorocaba

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