You are on page 1of 36

ESTADO E SOCIEDADE

Economia do Setor Público
Roberta Traspadini rtrasp0adini@yahoo.com.mx UFVJM

Os nossos objetivos e forma de caminhar ao longo do encontro
Desde onde falamos? (método): Compreensão histórica da complexa realidade vivida – as contradições, as lutas, as várias visões de mundo e o nosso posicionamento ante ela O que queremos debater? as relações de poder, como construção concreta, objetivasubjetiva, entre os homens ao longo do tempo. O que vamos buscar entender? Como, em cada tempo, cada espaço, ocorreu um tipo de construção específica, regulada por interesses específicos.

A ética e a moral como ciência da realidade (práxis)
• • • ethos = modo de ser; caráter Teoria (ciência) que estuda o comportamento moral dos homens em sociedade; A ética como ciência já traz por si mesma uma visão de mundo específica; um ponto de partida sobre a realidade a partir da qual refletirá. Concepção filosófica do homem (filosofia da práxis) – a relatividade, a mudança, o que-fazer moral de acordo com as condições reais de cada momento histórico.

• Moral = Mos / moros = costumes / normas • As regras de comportamento do homem em cada época; • Fator histórico – desenvolvimento e mudança permanentes; • Tentativa de assegurar a concordância dos homens, acerca dos comportamentos individuais e coletivos;

Homem consigo mesmo

Homem demais homens

Homem E o meio – natureza e social

ESTADO E SOCIEDADE NA ERA FEUDAL (X a XIII)

Sistema de poder: sistema de castas
• As castas sociais (Senhores Feudais, clero e servos); • Os donos das terras e dos homens vinculados às terras; • Divisão social – divisão moral – O Espírito acima dos homens -; • A Moral dominante – “Verdadeira” e a moral dos dominados – “Oculta”; • A política como prática de conduzir/ dirigir homens (a moral da política) A terra: elemento de riqueza e poder

A decadência do período e o nascimento do novo (Séc. XVII e XVIII)

Estado e sociedade na era Mercantil

A moral e a ética mercantis
• Os conflitos, as guerras, as pestes, nasce o novo em meio do histórico; (As cruzadas (1096-1270); a Peste Negra (XIV): • O conflito do poder, as cidades, as grandes descobertas; • O nascimento dos burgus: cidade pequena e amuralhada; • Os artesãos, mestres e discípulos: • O comércio nas cidades A riqueza proveniente da acumulação de bens, de metais preciosos da época

Estado e sociedade na era capitalista (Séc. XVII...)

O CAPITAL ELEMENTO DE RIQUEZA/PODER

Fundamentos morais da relação social capitalista
• A propriedade privada, o lucro e o trabalho assalariado livre como novos valores da época; • O Estado como mediador das relações sociais e econômicas; • A alienação do trabalho; • O fetiche da mercadoria e do dinheiro; A riqueza como acúmulo de capital (valor que se valoriza na forma de dinheiro e bens materiais)

THOMAS HOBBES (1588-1679)
• O empirismo na ciência; • O leviatã (1651): • Estado de natureza e o Soberano • O homem entre o gozo da liberdade e o temor de perdêla – medo da guerra • Contrato social: desistência do poder individual “A origem de todo o conhecimento é a sensação”
Paixão x máximos ganhos econômicos

Troca de bens no mercado livre

Tensão entre liberdade E violência

Violência sublimada pelo pacífico ganho de mercado

Contrato Social:
"a liberdade que cada homem possui para usar seu próprio poder como quiser, para a preservação de sua própria natureza; isto é, de sua própria vida, e, conseqüentemente, de fazer qualquer coisa conforme seu próprio juízo e razão e, além disso, de conceber os meios mais apropriados para tanto". (Hobbes, 1968, 189)

JOHN LOCKE (1632-1704)
• A ciência e a religião; • Estado de natureza x sociedade; Entrega do poder-direito natural a outrem; • Sociedade política: corpo de leis que regem as relações de poder entre os homens; • Política: principio fundamental dos direitos individuais; direito dos proprietários • Sociedade civil: novo meio dos homens se relacionarem a partir de uma organização social específica. • Estado: direito dado pelos proprietários para sua proteção e de seus bens; • Direitos civis - proprietários

Homens vivendo juntos de acordo com a razão, sem um superior comum na Terra com autoridade para julgar entre eles, nisso consiste propriamente o estado de natureza. Mas a força, ou um desígnio declarado de força contra a pessoa de outrem, quando não há qualquer superior comum na Terra a quem apelar por auxílio, constitui, o estado de guerra; é a falta desse recurso que dá ao homem o direito de guerra mesmo contra um agressor, embora esteja em sociedade e seja igualmente súdito. (Locke, 1955, 14).

O poder político é aquele poder que cada homem, tendo no estado de natureza, entregou nas mãos da sociedade e, dessa maneira, aos governantes que a sociedade colocou acima de si mesma, com a responsabilidade explícita e tácita de que ele seja empregado para seu bem e para a preservação de sua propriedade: Ora, esse poder, que cada homem tem no estado de natureza e ao qual renuncia em favor da sociedade em todos os casos em que a sociedade pode garanti-lo, consiste em lançar mão dos meios que considere bons e que a natureza lhe ofereça para a preservação de sua própria propriedade e punir a violação da lei da natureza por terceiros, de tal forma que, de acordo com o que a razão julgue mais acertado, possa conduzir da melhor maneira possível à preservação de si mesmo e do restante dos homens. Para que o fim e a medida desse poder, quando nas mãos de cada homem no estado de natureza, seja a preservação de toda sociedade – isto é, de todos os homens em geral – não pode haver nenhum outro fim ou medida, quando nas mãos dos magistrados, a não ser o de preservar a vida; a liberdade e as posses dos membros de tal sociedade; e, assim, não pode ser um poder absoluto, arbitrário sobre a vida e as fortunas dos homens, que, tanto quanto possível, têm que ser preservadas, mas, sim, um poder para elaborar as leis e anexar-lhes tais penalidades de modo que elas possam contribuir à preservação do todo, eliminando as partes, e somente essas que estiverem tão corrompidas que ameacem as partes sãs, sem o que nenhuma severidade é legítima. E esse poder tem origem somente no pacto e assentimento, e no consentimento mútuo dos que compõem a comunidade (Locke, 1955, 126-127).

Jean-Jacques Rosseau (1712-1778)
• O iluminismo: a era da razão, contra os sentimentos; crítico do laissez faire; • Sobre o contrato social (1762); • Homem (natureza ideal sem moral, sem maldade) x a sociedade civil que corrompe; • O contrato social: legitimação da relação de poder do mais rico sobre o mais pobre; • O Estado: criação dos proprietários para a manutenção de sua riqueza. Estado: direção da vontade geral • Necessidade de um contrato social que represente a vontade do povo; • Sociedade civil: forma como os homens se relacionam na realidade; produto da voracidade do homem; conformação de poderes desiguais;

"a partir do momento em que pareceu vantajoso para um homem possuir provisões suficientes para dois, a igualdade desapareceu; a propriedade foi introduzida; o trabalho tomou-se necessário; e as vastas florestas tomaram-se campos risonhos que tinham que ser regados com o suor humano e onde a escravidão e a miséria eram logo vistas, germinando e crescendo com as colheitas". (Rousseau, 1967, 211-212).

O homem rico, dessa forma, pressionado pela necessidade concebeu finalmente o plano mais perspicaz que já passou pela mente humana: ou seja, empregar em seu favor as próprias forças que o atacavam, fazer de seus inimigos aliados, inspirá-los com outras máximas e fazê-los adotar outras instituições que o favorecessem em suas pretensões, tanto quanto a lei da natureza era desfavorável a ele..., 'Vamos nos unir', disse-lhes o rico, 'para proteger o fraco da opressão, refrear os ambiciosos, e garantir a todo homem a posse do que lhe pertence...' Alegremente todos ofereceram seus pescoços ao jugo, pensando que estavam protegendo sua liberdade; embora tivessem inteligência suficiente para perceber as vantagens de uma constituição política, não tinham experiência suficiente para ver de antemão os perigos disso. Aqueles dentre eles que estavam mais bem qualificados para prever os abusos eram exatamente os que esperavam beneficiar-se dele. (Rousseau, 1967, 227-228)

O primeiro homem que, após cercar um pedaço de terra, se lembrou de dizer: isto é meu, e encontrou pessoas simples o bastante para acreditarem nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, quantas guerras, quantos assassinatos, quantas desgraças e horrores teria poupado para a espécie humana aquele que, arrancando as estacas ou atulhando o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: guardai-vos de ouvir esse impostor; estais perdidos se vos esqueceis de que os frutos da terra pertencem igualmente a todos nós, e de que a própria terra é de ninguém! (Rousseau, 1967, 211-212)

E como à razão de cada homem não é permitido ser o árbitro único de seus deveres, é ainda menos apropriado abandonar a educação das crianças ao esclarecimento e preconceitos de seus pais... A educação pública, sob as normas prescritas pelo governo e pelos magistrados estabelecidos pelo soberano, é, portanto, um dos princípios fundamentais do governo popular e legítimo. Se as crianças são educadas em comum no meio da igualdade, se elas são imbuídas das leis do Estado e dos princípios da vontade geral, se elas são ensinadas a respeitarem-se acima de todas as coisas, se estão cercadas por exemplos e coisas que constantemente lhes lembram da mãe afetuosa que as nutre, de seu amor por elas, dos inestimáveis benefícios que dele recebem e, em troca, quais são as suas obrigações, não pode haver dúvida de que aprenderão, a partir disso, a amar uns aos outros como irmãos, a nunca desejar nada, exceto o que a sociedade quer e a nunca substituir as ações dos homens e cidadãos pelo estéril e vazio tagarelar dos sofistas, e, um dia, se tornarão defensores e pais da terra da qual terão sido filhos por tanto tempo. (Rousseau, 1978, 223)

Tempos Modernos? Ou, Velhos tempos modernos?

A riqueza das Nações de Adam Smith (séc. XVIII)

Laissez faire, laissez passer A mão invisível do mercado O Estado menos interventor

Karl Marx (1818-1883) :
a teoria-ação do proletariado contra a riqueza das Nações

O trabalho assalariado “livre”; A Exploração do trabalho: motor da sociedade capitalista; Exército industrial de reserva e exclusão social

As elaborações de Marx sobre o Estado
ESTADO PRUSSIANO ESTADO CAPITALISTA

ESTADO DE TRTANSIÇÃO

O Estado não é, pois, de forma alguma, um poder imposto à sociedade de fora para dentro; tampouco é lia realização da idéia moral" ou lia imagem e realidade da razão", como afirma Hegel. E antes, um produto da sociedade num determinado estágio de desenvolvimento; é a revelação de que essa sociedade se envolveu numa irremediável contradição consigo mesma e que está dividida em antagonismos irreconciliáveis que não consegue exorcizar. No entanto, a fim de que esses antagonismos, essas classes com interesses econômicos conflitantes não se consumam e não afundem a sociedade numa luta infrutífera, um poder, aparentemente acima da sociedade, tem-se tornado necessário para moderar o conflito e mantê-lo dentro dos limites da "ordem". Este poder, surgido da sociedade, mas colocado acima dela e cada vez mais se alienando dela, é o Estado... Na medida em que o Estado surgiu da necessidade de conter os antagonismos de classe, mas também apareceu no interior dos conflitos entre elas, torna-se geralmente um Estado em que predomina a classe mais poderosa, a classe econômica dominante, a classe que, por seu intermédio, também se converte na classe politicamente dominante e adquire novos meios para a repressão e exploração da classe oprimida. O Estado antigo era acima de tudo, o Estado dos proprietários de escravos para manter subjugados a estes, como o Estado feudal era o órgão da nobreza para dominar os camponeses e os servos, e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado. (Engels, 1981, 195-96)

• As relações jurídicas assim como as formas do Estado não podem ser tomadas por si mesmas nem do chamado desenvolvimento geral da mente humana, mas têm suas raízes nas condições materiais de vida, em sua totalidade, relações estas que Hegel... combinava sob o nome de "sociedade civil". Cheguei também a conclusão de que a anatomia da sociedade civil deve ser procurada na economia política; Na produção social de sua vida, os homens entram em relações determinadas,necessárias, e independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A soma total dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a' qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas definidas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona, de forma geral, o processo de vida social, político e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina sua forma de ser mas, ao contrário, é sua forma de ser ssocial que determina sua consciência.(ver Marx-Engels, Atica, 1983, 232-33)

"expressão de uma forma histórica específica de dominação de classe, e não simplesmente, como o portador de funções sociais particulares". A forma do Estado capitalista emerge da necessidade de sua intervenção para compensar essa redução, e assim, restabelecer a acumulação de capital. O Estado, portanto, atua como uma função das barreiras materiais à obtenção do lucro pelos capitais individuais, ou, em outras palavras, à extração do excedente dos trabalhadores. É essa extração do excedente e não a luta de classes, a variável fundamental na compreensão da forma do Estado.

Estado e Sociedade no século XXI
• • • • O mundo do trabalho; O público e o privado; As relações humanas coisificadas; Os inumanos direitos humanos

Os direitos humanos foram identificados com os valores mais importantes da convivência humana, aqueles sem os quais a sociedades acabam perecendo, fatalmente, por um processo irreversível de desagregação.

Era Feudal, mercantil e capitalista: as declarações
• Magna Carta, 1215: primeira limitação institucional do poder do rei: • Habeas Corpus, 1679 • Bill of Rights, 1689 • Declaração do bom povo de “Virgínia”, 1776 • Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789

Internacionalização dos Direitos Humanos

Direito humanitário: que compreende o conjunto das leis e costumes de guerras

Luta contra a escravatura: Ato geral da Conferência de Bruxelas, 1890, estabeleceu as primeiras regras interestatais de repressão ao tráfico de escravos africanos;

• O holocausto em Ruanda: 1994 – hutus e tutsis (US$ 134 milhões); • mais de 800.000 pessoas assassinadas (11% da pop. 4/5 dos tutsis);

Proteção ao trabalhador assalariado: criação da OIT, 1919
• 2,8 bilhões de trabalhadores no mundo – 1,4 bi não sobrevivem sozinhos; • 139 milhões de desempregados (1/3 de jovens entre 15 e 24 anos); • 200 milhões de crianças sujeitas ao trabalho infantil;

NA GUERRA MUITAS COISAS CRESCERÃO

Ficarão maiores As propriedades dos que possuem E a miséria dos que não possuem As falas do guia* E o silêncio dos guiados. Bertolt Brecht

Legitimidade, Legalidade, Violência e criminalidade na atual situação de Estado dos que têm Direito
A criação do universo concentracionário, no século XX trouxe consigo a despersonalização dos seres humanos. Um grande número da população foi esvaziada do seu próprio ser, da sua personalidade. Os miseráveis já não se reconhecem como seres humanos, dotados de razão e sentimentos: todas as suas energias concentram-se na luta contra a fome, a dor e a exaustão. E nesse contexto, tudo é permitido.

Os s(c)em sentidos da vida
Se a humanidade ignora o sentido da vida e jamais poderá discerni-lo, é impossível distinguir a justiça da iniqüidade, o belo do horrendo, o criminoso do sublime, a dignidade do aviltamento. Tudo se identifica e se confunde, no magma caótico do absurdo universal. Comparato