A RETÓRICA DE ARISTÓTELE S

LIVRO 1

DEFINIÇÃO
No primeiro capítulo do Livro 1, Aristóteles procura definir a Retórica relacionando-a com a Dialética (“todas as pessoas de alguma maneira participam de uma e de outra, pois todas elas tentam em certa medida questionar e sustentar um argumento, defender-se ou acusar”, p. 89). A verdadeira retórica é uma forma de argumentação comparável à dialética*. Ao refletir sobre a natureza da arte, e ao apresentar a retórica como arte genuína, Aristóteles está afirmando a sua racionalidade como forma de conhecimento prático. *Do grego διαλεκηική (ηέχνη), a dialética (no latim, dialectĭca o dialectĭce) era, na Grécia Antiga, a arte do diálogo, da contraposição e contradição

Ao enveredar sobre a finalidade específica da Retórica, o autor coteja seu tratado com os anteriores* – procedimento que mantém durante todo o livro – e acaba por concluir que a função do orador é apresentar provas através de entimemas (demonstrações, as provas mais convincentes da Retórica) e silogismos lógicos. Termina o primeiro capítulo discutindo a utilidade da Retórica (e introduzindo questões éticas*): “É, pois, evidente que a retórica não pertence a nenhum gênero particular e definido, antes se assemelha à dialética. É também evidente que ela é útil e que sua função não é persuadir mas discernir os meios de persuasão mais pertinentes a cada caso, tal como acontece em todas as outras artes; de fato, não é função da medicina dar saúde ao doente, mas avançar o mais possível na direção da cura, pois também se pode cuidar bem dos que já não estão em condições de recuperar a saúde (p. 94).”
* “Ora, os que até hoje compuseram tratados de retórica ocuparamse apenas de uma parte dessa arte; pois só os argumentos retóricos são próprios dela, e todo o resto é acessório” (p.90). * “pois não se deve persuadir o que é imoral” (p. 94)

OS MANUAIS EXISTENTES: Negligenciam a argumentação lógica, e ocupam-se apenas da oratória judicial, quando a deliberativa lhe é superior. O estudante da retórica precisa, sobretudo, compreender o uso do entimema como instrumento fundamental da arte retórica. UTILIDADE DA RETÓRICA: A retórica é útil, pois sem ela a verdade pode ser derrotada num debate. Ela permite-nos debater ambos os lados de uma questão. NATUREZA DAS PROVAS: Ao contrário da retórica dos sofistas, a verdadeira arte retórica funda-se em provas, entendendo-se por prova uma espécie de demonstração, ou seja, um raciocínio através de entimemas. OS DOIS MODOS DE PROVA: Um, não-técnico ou não-artístico, porque não inventado pelo orador, consiste na evidência de testemunhos ou contratos escritos (as ἄηεχνοι πίζηεις); outro, técnico ou artístico, porque se socorre de meios de persuasão criados pelo orador (as ἔνηεχνοι πίζηεις).

Os meios artísticos de persuasão são três: os derivados do caráter do orador (ἧθος); os derivados da emoção despertada pelo orador nos ouvintes (πάθος); e os derivados de argumentos verdadeiros ou prováveis (λόγος). São estes três elementos de prova que juntamente contribuem para o raciocínio entimemático.
As formas dos argumentos: Os argumentos lógicos tomam uma de duas formas: o entimema e o exemplo. É por meio deles que Aristóteles introduz a teoria da lógica na sua teoria retórica. Elementos de que deriva a matéria e a forma dos entimemas: probabilidades e sinais. As probabilidades são premissas geralmente aceitas, fundadas na experiência e no consenso. Os sinais são geralmente de dois tipos: uns apontam para uma conclusão necessária; outros são refutáveis. A matéria e forma dos entimemas: os tópicos. Sendo os entimemas os veículos por excelência da argumentação retórica, as suas premissas são materialmente constituídas por tópicos: os tópicos específicos, aplicáveis a cada um dos

AS TRÊS ESPÉCIES DE RETÓRICA, OU GÊNEROS DO DISCURSO
Judicial ou forense, deliberativo ou político e demonstrativo ou epidítico. A situação do discurso consiste num orador, num discurso e num auditório. O auditório, ou é juiz (no tribunal), ou espectador (no conselho ou na assembleia). Os discursos deliberativos ou são exortações ou dissuasões e visam mostrar a vantagem ou desvantagem de uma determinada ação (referem-se, portanto, ao futuro). Os discursos judiciais ou são acusações ou defesas sobre coisas feitas no passado e visam mostrar a justiça ou injustiça do que foi feito. Os discursos epidíticos louvam ou censuram algo, visando mostrar a virtude ou defeito de uma pessoa ou coisa (referem-se ao presente?).

RETÓRICA DELIBERATIVA
Os cinco temas mais importantes de deliberação: Finanças, guerra e paz, defesa nacional, importações e exportações, e legislação. Seguem-se os tópicos úteis a cada um destes temas. Tópicos éticos: Definição de felicidade, como objetivo último de toda a ação humana; descrição dos fatores que para ela contribuem, nomeadamente o bom nascimento, muitas e boas amizades, bons filhos, idade avançada, virtudes físicas, reputação, honra e virtude; explicação de cada um destes tópicos e valorização do tópico do bom. Tópico do mais/menos aplicado à comparação de bens: Retomando um tópico comum a todas as espécies de retórica, Aristóteles considera agora a sua aplicação específica à oratória deliberativa. O orador precisa mostrar que uma coisa é mais ou menos importante, mais ou menos vantajosa, da mesma maneira que precisará mostrar que ela é possível ou impossível. Tópicos sobre constituições políticas: Os relativos aos quatro regimes, democrático (poder do povo), oligárquico (governo

SOBRE AS FORMAS DE GOVERNO
O maior e mais eficaz de todos os meios para se poder persuadir e aconselhar bem é compreender as distintas formas de governo (democracia, oligarquia, aristocracia e monarquia), e distinguir os seus caracteres, instituições e interesses particulares. As coisas se escolhem em função do seu fim. Ora, o fim da democracia é a liberdade, o da oligarquia a riqueza, o da aristocracia a educação e as leis, e o da tirania a defesa pessoal. (pp. 122-124)

Passando ao gênero demonstrativo ou epidítico, o capítulo IX trata da virtude (cujas partes são: a justiça, a coragem, a temperança, a magnificência, a magnanimidade, a liberalidade, a mansidão, a prudência, a sabedoria) e do vício; do belo e do disforme moralmente e do que constitui o elogio e a censura, sempre fazendo paralelo com o gênero deliberativo, discutido anteriormente (“Entre as espécies comuns a todos os discursos, a amplificação é, em geral, a mais apropriada aos epidíticos; [...] os exemplos, por seu turno, são mais apropriados aos discursos deliberativos [...]” p. 130).
Fala-se da amplificação pela primeira vez, assunto que será retomado muitas vezes e por

RETÓRICA EPIDÍTICA
Tópicos que convêm à retórica epidítica: Tudo o que tem a ver com a nobreza e virtude. Discutem-se as virtudes e o conceito do belo, do nobre, do honesto e seus contrários. A vertente estética da retórica epidítica é evidenciada pela especial atenção dada ao tópico da amplificação (αὔξηζις) nos discursos demonstrativos. (pp. 124-130)

O capítulo X é relativo ao gênero judiciário: acusação e defesa, número e natureza das fontes do silogismo, motivos (maldade e intemperança) e disposições dos que cometem uma injustiça (“De maneira que tudo quanto se faz, necessariamente se faz por sete causas: acaso, natureza, coação, hábito, razão, ira e concupiscência” p. 131), assim como qualidade e disposição das vítimas. Depois do capítulo XI (sobre as coisas agradáveis que nos conduzem ao prazer), as questões jurídicas voltam debatidas nos capítulos XII, XIII e XIV que tratam respectivamente das pessoas que causam dano* (quem são, que gênero de mal causam e desses, os mais frequentes), das ações justas e injustas (dentro das leis naturais e das escritas) e dos meios que temos para conhecer se uma ação é mais justa que a outra. *Cometem-se injustiças: quando se promete impunidade, quando se julga não vir a ser descoberto, quando não se teme ser punido.

Tópicos sobre delitos ou transgressão consciente das leis: as sete causas do delito e respectivos tópicos, tanto no que concerne à acusação como à defesa. Tópicos sobre prazer: a natureza do prazer; catálogo de prazeres (quinze tipos!) e respectivos tópicos. Tópicos sobre agentes e vítimas de injustiça: depois de referir o tópico de possibilidade/impossibilidade como relevante para este assunto, Aristóteles avança com uma lista de fatores ponderados pelo criminoso, razões para o crime e tipos de crime. (pp. 130-143)

RETÓRICA JUDICIAL OU FORENSE

Critérios de justiça e de injustiça: discutem-se os dois tipos de lei, particular e geral, a lei escrita e não escrita, a lei natural; definem-se e classificam-se os crimes; reflete-se sobre a justiça e a equidade. Critérios sobre a gravidade dos delitos: lista de tópicos sobre como argumentar que algo é um mal maior. Quanto mais premeditado e brutal é o crime, maior e mais grave ele é (pp. 147-149). Meios inartísticos ou não-técnicos de persuasão (provas não-técnicas na retórica judicial): no capítulo final do livro I, Aristóteles retorna ao assunto anunciado logo nas primeiras páginas de seu tratado: as provas independentes da arte (as leis, as testemunhas, os contratos, as confissões obtidas pela tortura e os juramentos), isto é, aquelas que não podem ser fornecidas pelo método e por nossos próprios meios (discursivos). (pp. 144-155)