IX EPGH Encontro de Pesquisas de Graduação em História

OS USOS HISTÓRICOS DA LITERATURA: UMA ANÁLISE DO IDÍLIO DE SAMANTHA

GRADUANDO VINICIUS MORETTI ZAVALIS – UERJ/NEA ORIENTADORA: PROF.ª DR.ª MARIA REGINA CANDIDO – UERJ/NEA

pretendendo ao estimular a discussão acerca do tema contribuir para o melhor esclarecimento de aspectos que não tem sido observados. Assim. moveram-nos a produzir essa comunicação. “Enfim. essas transformações no modo de se pensar o passado. enriquecem e subvertem os seus setores tradicionais de produção. com a relevância necessária. suas imprecisões e a problemática da relação entre história e narrativa literária. a história se afirma como nova ao anexar novos objetos que até agora lhe escapavam e se situavam fora de seu território” Jaqcques Le Goff e Pierre Nora .INTRODUÇÃO A história – como ciência do passado – conhece hoje uma espantosa dilatação no que tange à incorporação de novas possibilidades e objetos (documentos) que modificam.

CONTINUAÇÃO  No decorrer dos últimos anos . 108). portanto. 2012. a qual transforma substancialmente o pensamento historiográfico. Hayden White.um número significativo de pesquisadores desenvolveram estudos pertinentes. os quais abordam o ofício do historiador e as mudanças do fazer histórico (CAMPOS. com as ilusões das práticas positivistas. . Um dos maiores responsáveis por essas transformações foi a emergência da “Nova História Cultural”.sobretudo no século passado . Tendo em vista estes trabalhos de cunho acadêmico destacamos os nomes de Michel de Certeau.  É nesse ângulo e principalmente com a contribuição desses autores que os domínios da história foram se constituindo com novas interpretações e indagações. decorrentes da consolidação de uma nova tradição intelectual que não se contenta. Paul Veyne e Paul Recouer.

isto é. diante das mudanças na produção historiográfica. novos documentos que aparecem no campo epistemológico da história. manifesta-se a temática maior da nossa comunicação: os usos da literatura na história. 2008: 4). diante das transformações no modo de se pensar o passado. como a arte e a literatura a fim de ajudar o historiador a acessar o universo sócio-cultural de determinado espaço/tempo. a História Cultural abriu um leque de objetos de estudos.  Através destas mudanças no “fazer histórico” decorreu conseqüentemente a ampliação do conceito tradicional de documentação. . Aqui. ao passo que também incorporou novas áreas do conhecimento. reivindicando-se legitimidade à qualquer tipo de registro capaz de responder às novas questões propostas pela historiografia (ADAN.CONTINUAÇÃO  Assim.

Pereira dos Santos em sua obra “Historia e memória. as obras literárias foram consideradas como ferramentas que auxiliam as suas abordagens (CAMPOS. para a referida autora. ou seja. 107-108). desafios de uma relação teórica”. Márcia LITERATURA COMO FERRAMENTA HISTÓRICA 2007: 8-14). .Complementando o que foi dito por Campos. salienta que historia e a literatura apresentam grande relação no que se refere ao lembrar. nos quais. pois os mesmos são fonte de memória (SANTOS.TÓPICOS --  A DOCUMENTAÇÃO LITERÁRIA NO FAZER HISTÓRICO LITERATURA COMO FONTE DE MEMÓRIA -- A LITERATURA COMO FORMA DE RESTRATAR O IMAGIÁNÁRIO SOCIAL -- No que tange o uso da documentação literária. segundo Carlos Eduardo da Costa Campos. 2012. a documentação de cunho literário pode auxiliar o historiador na compreensão do passado. nós informa que ultimamente um número significativo de pesquisadores desenvolveram estudos pertinentes. . em seu artigo “A Literatura Latina como Documentação nas Pesquisas Históricas: Um Estudo de Caso em Tito Lívio”.

poeta alexandrino considerado como o precursor do monologo dramático-narrativo denominado de idílio (CANDIDO. 01). a qual nos propomos analisar. No âmbito dos estudos literários gregos notamos que os especialistas compreendem que a referida obra segue o gênero de mimos. denominada Idílio de Samantha. 02)  . pertence ao âmbito literário e integra o repertório poético de Teócrito de Siracusa. 2009. 2009. onde pequenas cenas da vida cotidiana são abordadas ( CANDIDO. produzido no século III.IDILIO DE SAMANTHA DOCUMENTAÇÃO  O AUTOR Tal documentação textual escrita.

já na segunda parte. materializada em versos hexametros e dialeto dórico. a personagem principal. o jovem atleta Delphis. inicia seu sóloquio. Simaetha. em meio ao periodo helenístico. que estabelece uma katádesmos (amarração) sobre seu amante negligente. desenvolvida no século III. a qual pode ser dividida em duas partes: na primeira observamos uma jovem chamada Samantha. poderia contrubuir para a construção do saber histórico?  Ao narrar as desilusões amorosas da jovem Samantha. ao contar a Lua sobre a sua relação amorosa.  Mas em que a narrativa de Theocrito de Siracusa.ANÁLISE DO IDÍLIO II NARRATIVA USOS HISTÓRICOS  O poema consiste em uma narrativa. Thecrito nos fornece informações sobre:  materialidade das praticas mágicoreligiosas que circulavam junto ao imaginário social do mundo helenístico  Lugar social da mulher .

 SOBRE AS PRÁTICAS MÁGICAS - No que tange as praticas mágicas encontrada no poema.. compreendemos que os filtros amorosos desenvolvidos por Samantha seguem as formulas mágicas. cuja tradição chegou até nós através dos papiros mágicos gregos conhecidos como PGM.. tem como objetivo reaver o amor perdido.II:160). descritos de maneira detalhada no decorrer desta narrativa poética.II:30). no seguinte trecho: “ “ eu faço fundir esta cera com auxilio da deusa e assim despertar o amor de Delphos” (Theocritus.pode ser observado na obra de Teócrito. Tais procedimentos..pela potência do meu veneno” (Theocritus. “eu quero encantar Delphos com os meus philtros katádesmoi. ritual mágico conhecido na antiguidade como philtros katademos (SANTOS.DOCUMENTAÇÃO Um exemplo de Katadesmoi que serviriam a estes propósito . . 2012: 172).reaver um amante perdido .mas se ele me desprezar será pela porta do Hades que irá bater levado pelas Moiras..

bem como seus atos e sua mente. 410-420 a. contendo a inscrição“.e a qualquer um que testemunhe a favor dele”. sua alma e seu corpo. Museu Arqueológico de Atenas.EXEMPLOS DE KATADESMOI Figura 1: Katádesmos.C. a.C. intelecto e vontade”....Eu amarro sua língua. . IV sec. Figura 2: Katádesmos.. sua mente. Museu Arqueológico de Atenas. contendo a inscrição “. espírito.

II. Mesmo antes do casamento.  SOBRE A MULHER - Com relação a mulher. caracteriza a mesma como uma oposição da postura esperadas por uma mulher cidadã. a mesma é representada como uma mulher forte. . De acordo com Eduarda Tavares Peters e Fábio Vergara Cerqueira em seu artigo MULHERES EM ATENAS. 2013: 69).” (THEOCRITUS. articulando a historiografia com a nossa documentação percebemos que a mesma não segue essa postura reclusa.DOCUMENTAÇÃO Dessa forma. E eu. minha vizinha. estando de fato submissa a um regime de quase reclusão. v. detendo no máximo o papel de organizadora das funções domésticas. separadas até dos membros masculinos da própria família (PETERS&CERQUEIRA. notamos um engajamento político social nos texto de Theocrito ao caracterizar a sua personagem enquanto uma hetaira. A ateniense casada vivia a maior parte do tempo confinada às paredes de sua casa. Deviam lá permanecer para ficar longe das vistas. independente e determinada. muito pelo contrário. as mulheres gregas em geral eram despossuídas de direitos políticos ou jurídicos e encontravamse inteiramente submetidas socialmente. isto é. DE DEMÓSTENES.70). NO SÉCULO IV: O TESTEMUNHO DO CONTRA NEERA. nem se pensava que a jovem pudesse encontrar-se livremente com rapazes. para minha grande desgraça. em seu texto o autor ao apresentar a protagonista. visto que viviam fechadas nos aposentos destinados às mulheres – o gineceu. acompanhei-a. assim como podemos notar nos seguintes trechos: “E a ama trácia de Teumáridas – que descanse em paz! –. pediu-me e suplicou-me que fosse ver o cortejo.

o limiar da minha porta” (THEOCRITUS. ou seja uma hetairas (TORRES. Entende-se por hetaira. Ela foi e trouxe Délfis de corpo reluzente até minha casa. Assim falei. e acompanha-o até cá». II. mal o vi transpor.: “E quando perceberes que está sozinho. E eu.DOCUMENTAÇÃO Assim.100). afirma que Teócrito caracteriza a sua personagem de forma ambígua. em todo seu texto. II. segundo Catherine Salles. A nossa hipotesa. PASSIM). estabelece que Samantha seria uma hetaira. acompanhantes de luxo para indivíduos que possuíssem uma boa condição financeira (SALLES. 1987: PASSIM).  SOBRE A MULHER .” (THEOCRITUS. o autor nos fornece indícios a cerca do estatuto social de Samantha. ora como uma cortesã . v. . faz-lhe discretamente um sinal e dizlhe: „Simeta chama-te‟.Qual seria o estatuto social de Samantha? De Acordo com Milton Torres em seu artigo “A mágica erótica de Simaeta no Idílio 2 de Teócrito” . 1996. ou seja. 2002: 194). querida Lua. 140145). v. com pé ligeiro. a medida que a magia amorosa empregada pela mesma se assemelha as usadas por cortesãs pra atrair seus clientes (FARAONE. ora como uma vigem despudorada/apaixonada. “Para não alongar mais a história. o qual dialoga com as reflexões de Faraone. o mais grave aconteceu e ambos saciámos o nosso desejo. as companheiras.

assim como. obter indícios de seus costumes. . Entretanto. após a análise dos autores. pois o auxilia a entender as imprecações amorosas do período helenístico. o estudo dos textos literários pode significar um ponto fundamental para se estabelecer a compreensão da história da Antiguidade Ocidental.CONSIDERAÇÕES PARCIAIS  Em suma podemos concluir. isto é. o repertório dos procedimentos mágicos dos tabletes de imprecação dos katádesmoi que visando prejudicar ou destruir o inimigo.  No entanto. a desvendar o imaginário feminino no mundo grego. antes de mais nada. Teócrito faz uso do motivo da magia em função dos seus objetivos poéticos. situados no espaço urbanos das Cosmópolis. Portanto. percebe-se que a literatura pode ser usada para explicar possibilidades históricas sobre um determinado recorte espaço/temporal. como uma possibilidade de se fazer historia. que o poeta. a estética utilizada para compor o Idílio de Samantha traz a memória dos gregos. não se pretende deliberar com este debate histórico se é ou não licito tomar a literatura como uma forma de lidar com o passado. religião e principalmente qual a importância que o sagrado exercia sobre os indivíduos que compunham a mesma. assim como. que passam. pela construção do retrato da sua protagonista. hábitos. Portanto. a obra de Teócrito torna-se uma documentação útil ao historiador. pois permitem ao historiador analisar a sociedade que construiu tais narrativas. Dessa forma.

61-66.DOCUMENTAÇÃO:  FAIN. 2007. "Afrodite. “O idílio XV de Teócrito: as siracusanas ou as mulheres que celebram Adónis”. 1ed. 2012. 2011. apresentada a Universidade de Lisboa. v. Hélio Ramos da.  DEZOTTI. A Mágica Erótica de Simaeta no Idílio 2 de Teócrito. Natal.  ONELLEY. Milton Luiz . “The Greek Bucolic Poets”. A Literatura Latina como Documentação nas Pesquisas Históricas: Um Estudo de Caso em Tito Lívio. Pierre.Pernambuco: EDUPE. Catherine – Nos Submundo da Antiguidade. 2009. Magia Erótica e Arte Poética no Idílio 2 de Teócrito.REFERÊNCIAS A. Lisboa: Veja. M.  ___________________________ “O Idílio 2 de Teócrito: uma feiticeira temivel ou uma jovem desesperada?” IN: Otium et Negotium. ritos e identidades. . R. Giuliana . Antigas Leituras. v. M.  CAMPOS. v. p. Phaos: Revista de Estudos Clássicos (Unicamp). Araraquara.). SP: Editora Brasiliense. Itinerários (UNESP). 2012. 1993. (Org. 107-116. Dissertação de Mestrado em Estudos Clássicos. 2009. Claudia Raquel Cravo. Lisboa: Edições 70. Gordon L – “Ancient Greek Epigrams Major Poets in Verse Translation”. p. 12.  EDMONDS. J. de Teócrito". Richard. v. Cambridge: Cambridge Press. Whittingham Press. Including Translations”.“O Mundo Helenístico”. 1832.“The British Poets. pp. RN. Goiania. 2004. 4. Coimbra:Universit Press : 2008. 10. Hélade v. 2007  TORRES. v.  FARIA. 1822 B. v. “Magia do Katédesmos: téchne do saber-fazer”. S. 1987.Revista Eletrônica de Antiguidade. C. 187-204. p. O Mimo Grego: uma apresentação. 1. p.  SANTOS. SP. Nearco . Keila Maria de.HISTORIOGRAFIA  CANDIDO.  SILVA.Diálogos entre História e Literatura. Campinas.  SALLES. Revista Fênix. Edição e Tradução de Textos Clássicos.  SILVA. 1919. A Magia para o Amor e para a Fertilidade no Mundo Grego. In: XI Simpósio Nacional da associação Brasileira de História das Religiões – Sociabilidades religiosas: mitos. 1987. Glória Braga . 170-187. 2010. V. In: José Maria Gomes de Souza Neto.  _______________ “Teócrito e a imprecação amorosa no período helenístico”.“A magia na Atenas Clássica: de ritual políade a rito marginalizado”. 6. “Teócrito e Virgílio: um diálogo bucólico”. 147-158  POLWHELE. .  RAGUSA.  LÉVÊQUE. In: Anais do XVII Congresso Nacional de Estudos Clássicos. M. éros e feitiçaria no Idílio 2. Rio de Janeiro.3. p. p. Chismick: C. 37-46. F. C. Carlos Eduardo da Costa . California: UNIVERSITY OF CALIFORNIA PRESS. p. 2. As magas . . 2002: 23-34. 2002. Calíope (UFRJ).

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