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PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE - I - B

9. TEORIAS DA PERSONALIDADE
9.1. A TEORIA PSICANALÍTICA CLÁSSICA DE FREUD

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9.1.1. INTRODUÇÃO A psicanálise surge com as investigações de Freud sobre as neuroses e sobre o funcionamento da mente humana. “Sigmund Freud, pelo poder de sua obra, pela amplitude e audácia de suas especulações, revolucionou o pensamento, as vidas e a imaginação de uma era... Seria difícil encontrar na história das idéias, mesmo na história da religião, alguém cuja influência fosse tão imediata, tão vasta e tão profunda (Wolheim, 1971 apud Fadiman & Frager , 1979 , p.3).” A teoria psicanalítica, como se sabe, surge da sede clínica. É que enquanto a psicologia acadêmica da Europa investigava as sensações, a imaginação, a atenção, as percepções e outras funções do adulto médio, Freud procurou mergulhar no inconsciente humano (que descobriu ou redescobriu), e desvendar os seus dinamismos.
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A teoria psicanalítica, como se sabe, surge da sede clínica. É que enquanto a psicologia acadêmica da Europa investigava as sensações, a imaginação, a atenção, as percepções e outras funções do adulto médio, Freud procurou mergulhar no inconsciente humano (que descobriu ou redescobriu) , e desvendar os seus dinamismos. O ataque de Freud à tradicional psicologia da consciência está bem manifesto quando comparou a mente a um “ iceber”: a parte menor que aparece na superfície da água representa a região da consciência, enquanto a massa muito maior abaixo da linha d’água representava a região do inconsciente. Neste vasto domínio do inconsciente, encontramos os impulsos, as paixões, as idéias e os sentimentos reprimidos, fantasias e impulsos que nunca chegaram a aflorar ao consciente, um grande mundo subterrâneo de forças vitais, invisíveis, que exercem um controle imperioso sobre os pensamentos e ações dos indivíduos.
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Conforme acentuam Hall & Lindzey(2000), dedicando-se a explorar o inconsciente pelo método da associação livre, durante mais de quarenta anos, Freud elaborou a primeira teoria compreensiva da personalidade. E foi mais além, pois traçou os contornos da topografia da personalidade, apontou para as fontes de sua energia e determinou o roteiro obrigatório do seu desenvolvimento, tornando-se assim uma das figuras mais influentes de nosso tempo.
9.1.2. HISTÓRIA PESSOAL E CONTEXTO

Freud nasceu em Freiberg, Morávia, Tchecoslováquia no ano de 1856e faleceu em Londres, em 23 de maio de 1939. Seu nome verdadeiro era Sigismund Schlomo Freud , mas em 1877 abreviou seu nome para Sigmund Freud. Era filho de Jacob Freud, um judeu proveniente da Galiza e comerciante de lã e de sua terceira mulher Amalie Nathanson. Aos quatro anos de idade sua família por problemas financeiros mudouse para Viera. Aos 8 anos Freud já lia Shakespeare e, na adolescência uma conferência, cujo tema era o ensaio de Goethe sobre a natureza ficou profundamente impressionado.

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5 . Em seguida passou a trabalhar com um colega. Freud iniciou seus estudos na universidade em 1873. Josepf Breuer e a interessar-se pelas desordens conhecidas depois como neuroses.B Foi um excelente aluno. optou pela medicina. pois já decidira ser cientista. obrigaram-no a entrar na prática privada. Charcot desenvolvia trabalhos principalmente com indivíduos histéricos. empregando o hipnotismo como técnica terapêutica e obtendo alguns resultados surpreendentes. em 1885. mas as escassas recompensas do trabalho científico e as parcas oportunidades de avanço acadêmico para um judeu.I . Tendo conseguido uma bolsa de estudos. só poderia escolher entre os cursos de direito ou medicina.M. de Charcot. Freud nunca pretendeu praticar medicina. aos 17 anos. e graduou-se em 1881.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Freud foi estudar em Paris e lá foi discípulo de J. porém por ser judeu. na época a maior autoridade européia em doenças mentais.

B Retornando a Viena continuou a trabalhar com Joseph Breuer. Em 1897 Freud iniciou uma auto-análise em grande escala. fazendo a paciente falar sobre seus problemas e mediante uma descarga emocional intensa a que chamou de catarse. Segundo Marx & Hillix. caminhando com suas próprias pernas. Daí em diante Freud não escreveu mais artigos sobre anatomia e neurologia. Um dos resultados foi o desenvolvimento da sua capacidade para exercer maior autonomia em seus próprios atos. 6 . “Estudos Sobre Histeria”. com o qual obtivera sucesso no tratamento de um caso de histeria. que assinalou o começo da escola psicanalítica. Freud dependeu muito de Fliess durante este período sumamente neurótico de sua vida. como vinha fazendo. Entretanto os dois divergiram sobre a importância do fator sexual na histeria. intelectualmente inferior e dois anos mais jovem. Wilhelm Fliess.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Em 1895 Freud e Joseph Breuer publicaram em conjunto o trabalho intitulado. Freud passou a estar intimamente ligado a outro médico.I . sem necessidade de arrimo.

Jung.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Segundo Hernest Jones e a própria interpretação de Freud. incluindo explicações da própria cultura. No fundo. os 24 volumes das Obras Completas de Freud constituem um vasto estudo da personalidade humana. Rank e Ferenczi foram os primeiros discípulos e depois rebeldes. do nascimento até a morte. a necessária libertação do inconsciente só pode ocorrer após a morte do pai. Este estudo procura entender e explicar o funcionamento da personalidade humana. Freud já começava a ser reconhecido e não tardou em reunir à sua volta um grupo de colaboradores.I .B Marx & Hillix apontam que “talvez o acontecimento mais notável e de maior envergadura na carreira de Freud tenha sido a publicação de Die Traumedeutung (A Interpretação de Sonhos) em 1900. Freud escreveu uma extensa obra. 7 . Pouco depois. Adler. dois anos após a morte do seu pai. O seu papel tornouse o de pai.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . lhe sugeriram que a maior parte dos componentes da vida mental são inconscientes e se desenvolvem sem que o indivíduo conheça a sua existência (Dewald. 8 .3. O modelo mecânico da física de Newton foi ampliado e do meio de um mecanicismo que reunia o céu e a terra apareceu a figura de René Descartes. Giordano Bruno e das investigações de Galileu Galilei. O mundo começa a sofrer um forte abalo no século XVII a partir das críticas de Nicolau de Cusa. os sintomas neuróticos e os sonhos.B A teoria psicanalítica da personalidade se inicia com a tentativa de Freud de organizar e conceituar os dados derivados de suas observações clínicas de pacientes. ONDE SITUAR A PSICANÁLISE Esta é uma pergunta recorrente e para buscar uma resposta é preciso fazer um pequeno périplo no curso das idéias humanas.1972).1. Enquanto a nova física transportava os homens do mundo fechado para o universo infinito. Seu estudo do fenômeno da hipnose. Descartes se propunha a investigar os domínios da subjetividade.” 9.I .

Desde Descartes. da universalidade. da constituição da Ciência. A verdade habita a consciência: é o que proclamam racionalistas e empiristas. o grande inspirador e o guia infatigável nessa caminhada.” (Garcia-Roza. a representação é o lugar de morada da verdade. verdadeiro conhecimento e conhecimento da Verdade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .p.I . Seu ideal continua sendo o da episteme platônica. 9 . Assim é que a filosofia moderna constrói uma subjetividaderepresentação no interior da qual mantém as mesmas exigências e os mesmos objetivos do discurso platônico.2004.B “A subjetividade foi assim constituída e transformada em referencial central e às vezes exclusivo para o conhecimento da verdade. isto é. e Platão é ao mesmo tempo.9) Racionalistas e empiristas diferem quanto ao caminho a trilhar mas ambos querem ir ao reino da verdade. sendo o problema central o de saber se chegamos a ela pela via da razão ou pela via da experiência. da identidade.

éu platônico. Para eles a verdade não reside nem no céu platônico.I .B Se os eide platônicos foram substituídos pelos conceitos da ciência moderna. 10 . em contraposição à verticalidade. do inteligível. sobre cujo eixo vai se processar a chamada “dialética ascendente”.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . na superfície. isso em nada alterou a crença na universalidade da verdade. mas no acontecimento. temos uma segunda imagem do filósofo: a dos pré-socráticos. da essência. dos megáriços. dos cínicos. nem nas profundezas E finalmente. Seu objetivo e a arché. porém valorizando a profundidade. dos sofistas. do Modelo. Este é o lugar dos estóicos. nem nas profundezas pré-socráticas. aquela qie nos remeterá da pluralidade sensível à universalidade da essência. temos a horizontalidade da superfície. A primeira característica que se pode apontar no platonismo é essa valorização da verticalidade. Ainda sobre este eixo vertical. O objetivo do filósofo platônico é atingir as alturas da Idéia. a substância.

porém. A grande ameaça representada pelos sofistas era precisamente a de negarem a distinção entre a realidade e a aparência. não estão em face deste numa relação de exterioridade. a verticalidade ascensional da dialética platônica. destruindo dessa maneira. como uma imagem sem semelhança em relação ao modelo. entre o modelo e a cópia. isto é. entendidos estes últimos como desvios ou dissimilitudes.I . Platão concebe o simulacro como a perversão da cópia.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 11 . As cópias platônicas são ícones feitos à semelhança da Idéia. mas sim na diferença entre as cópias e os simulacros.B Mas a característica fundamental do pensamento platônico não reside na oposição entre a essência e a aparência. Elas não são. uma imitação do modelo. entre as boas cópias feitas à imagem e semelhança do modelo e os simulacros. mas fundadas numa semelhança interna derivada da própria idéia.

B Ao privilegiar a verticalidade do pensamento e com ela a relação modelocópia. domínio esse que será desdobrado por Aristóteles em toda a sua extensão. as propriedades e os acidentes. ao fato. A decisão platônica de filosofar. isto é. as diferenças.11). abrangendo os gêneros. essa definição da ciência coincide com a definição de razão (logos) e não podemos nos esquecer de que na língua grega a mesma palavra – logos – significa razão e discurso. “Ora.I . o platonismo teria fundado todo o domínio que a filosofia reconhecerá como seu: “o domínio da representação”.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 2ª.) a de impor uma reflexão sobre o estatuto da palavra. 12 . compondo desta maneira o quadro de divisão e da demonstração. as espécies.) a de recusar ao acontecimento. uma inteligibilidade própria. No Teeteto de Platão encontra-se a afirmação de que a ciência (episteme) consiste na posse da verdade e que esta nada mais é do que a revelação do ser.”(Garcia-Roza p. de fazer ciência (episteme) implica duas atitudes básicas: 1ª. Daí a definição platônica de ciência como sendo a revelação e a expressão do ser pelo discurso.

“A filosofia e a ciência se constituem numa grande iconologia.B O discurso filosófico.I . como não refletindo desejo nenhum. 13 . ao contrário. mas. Entre a Idéia platônica e o Édipo freudiano a diferença é menor do que pensamos. Nisso consiste a verdade. Dito de outra maneira: se a ciência é a revelação do Ser pelo Discurso. apresenta-se como “neutro”. nos aponta para a Idéia ou a essência. O eixo sobre o qual se movem é o da verticalidade. Estamos imersos no símbolo. por ter sua legitimidade centrada nele mesmo. (Garcia-Roza. com sua universalidade. O grande operador desse projeto é o conceito.12). como realização da Razão. Em amos os casos estamos lidando com estruturas que são o fundamento último dos acontecimentos e o princípio de sua inteligibilidade”. onde o que importa é o Modelo como fundamento último. que. Isso é Metafísica. é porque há uma correspondência necessária entre o Ser e o Pensamento (ou Discurso).PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

É com Descartes que a questão recebe sua primeira formulação. efetivamente. Entrementes durante muitos séculos a filosofia esteve às voltas com o problema da substância. jamais foi endossado integralmente por algum pensador. não seria o projeto platônico o próprio projeto do homem?”(ibidem). considerado uma possibilidade intelectual (caso limite da filosofia idealista). de uma mesma estrutura. sendo os outros entes (seres humanos e objetos). rompendo com a natureza ? Não é esse mesmo simbólico que possibilita a comunicação e portanto a intersubjetividade? Não é pela participação-reminiscência de um mesmo modelo. (*) doutrina segundo a qual só existem. Diante da incerteza quanto à realidade do mundo ob jetivo ele afirma a certeza do cogito. meras impressões sem existência própria [Embora freq. não foi isso devido ao fato de que a subjetividade não estava presente nesse discurso.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . que podemos superar o solipsismo (*) a que estaria condenada a subjetividade individual? Enfim. o eu e suas sensações.] 14 .B “Mas não será mesmo assim? Não é o homem esse animal simbólico de que nos fala Cassier? Não é pelo simbólico que o homem se constitui como homem. mas porque ela ainda não tinha se constituído como problema. como partícipes da única mente pensante.I .

Quando fala do ego.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . É Hegel quem assinala um ponto crucial da caminhada filosófica. de uma essência universal.” 15 .B O “Ego cogito” tem seu acento situado mais no cogito do que no ego. mas como uma substância pensante que divide com as outras duas – a res extensa e a res infinita – o domínio do real.16). A Razão continua soberana” (idem p.I . quando afirma a unidade do eu como sendo o que torna possível a representação do diverso. intemporal e permanente. Descartes não se refere a ele como um sujeito. Por isso pode-se dizer que Descartes não nos fala do homem concreto. mas de uma natureza humana. Por sua vez. Escreveu ele no prefácio da Filosofia do direito: “Tudo o que é real é racional. Kant. mas é por ele pensado como um eu transcendental. “A subjetividade kantiana é uma subjetividade transcendental. esse eu nada tem a ver com o sujeito individual e concreto. e tudo o que é racional é real. também E.

ele se esgota no objeto contemplado.B “Mas se essa razão é assim tão dominadora. É o desejo que faz com que esse indivíduo se volte para si mesmo. é necessário que o desejo se volte para um objeto não-natural. sobrepondo à vida um valor maior do que ela. por sua função “negatriz”. mas pelo Desejo. que o indivíduo se constitui como humano. que permite a passagem do natural ao cultural. como justificar a ênfase dada por Hegel ao Desejo como responsável pela gênese do humano? Afinal de contas. E a Razão? Perdeu seu papel de fundamentadora do real?” O que Hegel nos diz no capítulo IV da Fenomenologia do espírito é que é enquanto Desejo que o homem se revela a si mesmo como um Eu.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Para que o eu se constitua como eu humano (não-natural). O homem seria pois. É este. o que a Fenomenologia do espírito nos ensinou é que não é pela Razão que o indivíduo se tornou humano. esse efeito-desvio do Desejo. O indivíduo absorvido pela contemplação do objeto é um indivíduo sem eu. constituindo.I . é negando a Natureza. um eu que terá a mesma natureza que o eu-negado. pela “negação”do objeto desejado. 16 .

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . essa Autoconsciência não é ainda uma autoconsciência plena. A antropogênese pressupõe o simbólico. No entanto. Para que ela ultrapasse sua dimensão subjetiva individual.B É portanto enquanto desejo de outro desejo que o indivíduo se constitui como indivíduo humano. Ora. ela está aprisionada na “certeza subjetiva”. A passagem da certeza subjetiva à verdade objetiva é feita pelo código. A passagem do mero “sentimento de si” para a Autoconsciência ocorre quando o desejo se dirige para outro desejo. ela necessita do reconhecimento por parte de outra autoconsciência. Permanecemos ainda prisioneiros da Idéia platônica. e este código é a fala. 17 . Hegel não nos explica como surgiu. Este.I . este reconhecimento só pode se dar mediante a preexistência de um código que transcenda as subjetividades. Vieram os empiristas e a tese de que todo conhecimento procede da experiência.

salvando o conceito. E O LUGAR DA PSICANÁLISE? PARECE QUE ESTE LUGAR NÃO PODE SER O CARTESIANISMO. mas apreender o sentido da pura apar6encia. A consciência é o absoluto. Entretanto o fato é que aquilo que a descrição fenomenológica pretende extrair é uma verdade implícita na consciência.B Depois vem a fenomenologia a descrever extraindo. Pode-se concluir que a fenomenologia é a ciência do acontecimento e que seu lugar é o da horizontalidade dos acontecimentos puros e não o céu das idéias.I . Husserl não pretende percorrer o caminho que vai do significante ao significado. é ainda em torno da certa do cogito que gira o pensamento filosófico. Quase três séculos depois de Descartes. 18 . Seu propósito é extrair uma verdade que de alguma forma está presente na consciência.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Daí que a identificação da subjetividade com a consciência parece ser um ponto inabalável da filosofia moderna.

Se ela é prevaricadora. se ela ofende a razão e os bons costumes. se ela coloca a consciência e a razão sob suspeita.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas por considerar que ela é essencialmente farsante.B O próprio Freud apontou a psicanálise como a terceira grande ferida narcísica sofrida pelo saber ocidental ao produzir um descentramento da razão e da consciência (as outras duas feridas foram produzidas por Copérnico e por Darwin). da distorção e da ilusão. 19 .I . não por um procedimento análogo ao da dúvida cartesiana que visava recuperar a consciência em toda a sua pureza racional. se aponta a consciência não como o lugar da verdade mas da mentira. “A psicanálise não há de ser localizada no lugar cartesiano. Ao fazer da consciência um mero efeito de superfície do Inconscicente. do ocultamento. Freud operou uma inversão do cartesianismo que dificilmente pode ser negada.. então a psicanálise só pode ser vista como um ‘filho natural’”.

em pouco tempo a psicanálise foi transformada numa das mais prestigiosas práticas encontradas pela burguesia para recuperar os seus resíduos. ela não se encontra em continuidade com saber algum. as filosofias da existência. A fenomenologia. teoricamente. aponta Garcia-Roza. Finalmente. resta a hipótese da adoção da psicanálise pela comunidade científica.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . o culturalismo norte-americano. porém. a biologia. a lingüística e a psicologia foram alguns desses saberes oficiais que exigiram o direito de adoção. Volta a pergunta: ONDE SITUAR A PSICANÁLISE? Epistemologicamente. Poucas foram as teorias que gozaram de popularidade igual à desfrutada pela teoria psicanalítica. apesar de arqueologicamente estar ligada a todo o conjunto de saberes sobre o homem.B Logo. que se formou a partir do século XIX 20 . transformou-se num dos objetos privilegiados de análise e crítica do saber contemporâneo. sendo que alguns deles chegaram mesmo a se declarar pais legítimos.I . assim como. a antropologia. pois várias famílias reivindicam o direito de adoção.

mesmo que afirma a clivagem inevitável a que esse indivíduo está submetido. é a produção do conceito de inconsciente.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 21 . identificado com a consciência e sob o domínio da razão. para ser uma realidade dividida em dois grandes sistemas – o Inconsciente e o Consciente – e dominada por uma luta interna em relação à qual a razão é apenas um efeito de superfície.I . a psicanálise se apresenta como uma teoria e uma prática que pretendem falar do homem enquanto ser singular. A partir desse momento. Diante do saber dos séculos XVII e XVIII. o único lugar institucional onde o discurso individual tinha acolhida eram os confessionários religiosos. irredutível a qualquer origem estrangeira. Antes do advento da psicanálise.B O fato é que quando se percorre o caminho empreendido por Freud. que resultou numa clivagem da subjetividade. a subjetividade deixa de ser entendida como um todo unitário. verifica-se que seu começo.

ou melhor. fez finalmente seu aparecimento sob a vista aguda da racionalidade do Sec.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . Melhor do que ninguém responde Michel Foucault em sua História da Loucura. foi o momento em que a razão produziu a loucura. 22 . para ele. Descartes chega à certeza do cogito feito razão. a loucura não se apresenta como uma substância que. seguiu-se a ordem da racionalidade da consciência no século XVII. o que existia era a diferença e o lugar da diferença. O fundamental a destacar no estudo de Foucault a este respeito é o fato de que. foi o momento da emergência da loucura. Ao desvario e às incertezas da consciência do século XVI. E O LUGAR DA LOUCURA? Ainda antes de focalizar a teoria psicanalítica de personalidade é ilustrativo um breve olhar sobre o lugar da loucura em todo este contexto.4.1. O Século XVII foi aquele que realizou a partilha entre a razão e a desrazão. Partindo da dúvida. tendo permanecido longo tempo oculta pela ignorância. XVIII.B 9. Literalmente a loucura não existia.

por ser regulado pela razão. ou os que estavam leprosos. Loucura e pensamento eram dois termos que podiam ser definidos por exclusão. nessa época. é a consciência da diferença. Não havia. pois o pensamento era exatamente era exatamente aquilo que. opunha-se à loucura. Antes do Sec. o vagabundo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas não a definição de sua especificidade ou das formas de sua aparição. O homem pode ficar loco. E o ficar louco implica exatamente a perda da racionalidade. 23 . XVII não havia o louco como entidade diferenciada. Foi a visão cartesiana do mundo a que impôs que a denúncia da loucura fosse seguida de uma partilha tornando irredutíveis os termos da oposição razãodesrazão. mas que não era perfeitamente delimitada.I .B É apenas recorrentemente que podemos falar no louco como um dos ocupantes desse espaço juntamente com o alcoólatra. segundo Descartes. O que se tem. o pensamento não. o delinqüente. o sifilítico. um pensamento louco. O que se tinha era a denúncia da loucura.

e não como diferença a ser segregada e asilada. surge a consciência dos seus modos de a parição. Neste ambiente. importava à psiquiatria apresentar o louco como um indivíduo perigoso e o psiquiatra como aquele que poderia resguardar a sociedade da ameaça que ele representava.B A loucura era vista como desrazão e como furor. 24 . É neste sentido que Foucault diz que a loucura é uma produção do Sec. principalmente. Produzir o saber sobre a loucura é produzir a própria loucura. etc. Esse é o momento em que a loucura emerge como objeto do saber. E o diagnóstico psiquiátrico não era diferencial. mais do que a pureza epistêmica do seu discurso. das suas práticas. das suas instituições. duas séries: a série asilar e a série médica.I . através dos saberes.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas absoluto. O louco é o efeito da convergência de. A partir da denúncia da loucura. XVIII.

Perversão da paixão e da vontade e não mais erra da razão. a psiquiatria procurava esse substrato na família do louco. Esse também é o momento em que o poder psiquiátrico se sobrepõe ao saber psiquiátrico. mas o controle disciplinar do indivíduo. 25 .B O passo seguinte ao da denúncia da loucura não era propriamente a cura. para ser vista também como paixão descontrolada. a loucura é encarcerada para poder ser domada. A cura não é mais a recuperação da verdade. isto é. mas o retorno à ordem. ela era literalmente uma doença mental. Esse é o momento em que a loucura deixa de ser vista apenas como desrazão. Se a marca de sua realidade não se inscrevia no corpo. Na impossibilidade de apontar um substrato material da loucura. mas domado. de localizar no corpo do indivíduo a substância louca. O louco não era curado. deveria aparecer sob a forma de predisposições que se revelariam através de lembranças infantis. A loucura era doença sem corpo.I . individuais e familiares. Daí o interrogatório: ele era a forma de chegar a essas lembranças. que indicariam os antecedentes da doença.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

26 . É a loucura produzida experimentalmente. o modo de substancialização da loucura . atribuir abusivamente realidade absoluta a uma coisa relativa No século XIX o problema principal da loucura não estava resolvido: o que é a loucura? A psiquiatria ainda se debatia em procurar um critério para distinguir a loucura da simulação. transformar uma relação lógica numa substância (no sentido ontológico da palavra) 2. desta forma.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A possibilidade de compreensão da loucura é propiciada por Moreau de Tours com seus experimentos sobre o haxixe. um conceito. Moreau de Tours inverte o procedimento: ele aplica a droga (o haxixe) em si próprio.(*) Hipostasiar:1 considerar falsamente (uma abstração. Já há algum tempo se faziam experimentos com ópio no sentido de determinar a verdade ou a falsidade da loucura do paciente. A família é a loucura hipostasiada. O objetivo era produzir os mesmos sintomas da loucura e poder retornar ao estado normal. adquirindo dessa forma um saber direto sobre a loucura e não indireto como o obtido pela observação do outro ou pelo interrogatório. uma ficção) como realidade.I .B A hereditariedade familiar passa a ser.

Paralelamente houve o advento da hipnose. mais do que qualquer outro. espaço esse produzido pela ingestão experimental da droga. após obtido o efeito hipnótico. O sonho reproduz as mesmas características da loucura. aproxima-se da loucura e permite sua compreensão. Está quebrada a heterogeneidade entre o normal e o patológico.B A partir de Moreau de Tours fica criado um espaço comum ao normal e ao patológico.I . Dessa forma. O que Freud fez foi tornar esse fato como um princípio de análise. Encontramo-lo em nós mesmos cada vez que sonhamos. o sonho é o acontecimento que. Esta técnica permite. Mas Moreau de Tours via mais longe. Esse fundo homogêneo ao normal e ao patológico nem sequer precisa ser produzido artificialmente. O sonho é a loucura do indivíduo adormecido enquanto os loucos são os sonhadores acordados. o domínio da mente e do corpo do doente. 27 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

a existência ou não de lesão anatômica relativa a determinados sintomas era.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . um fator de extrema importância. No enfrentamento destas perturbações é que vai surgir a psicanálise. 28 . e aquelas outras – as neuroses – que eram perturbações sem lesão e nas quais a sintomatologia não apresentava a regularidade desejada.B Mesmo a essa altura. É que a anatomia patológica era vista na época como um meio de inclusão da medicina no campo das ciências exatas.I .XIX. Os estudos empreendidos logo permitiram formar dois grandes grupos de doenças: aquelas com uma sintomatologia regular e que remetiam a lesões orgânicas identificáveis pela anatomia patológica. para a psiquiatria do Sec. que era uma doença funcional com um conjunto de sintomas bem definido e na qual a simulação desempenhava um papel desprezível. Coube a Charcot e a Freud salientar o fato de que a histeria não era uma simulação.

trabalham forças que se opõem à tendência de descarga. A TEORIA PSICANALÍTICA DA PERSONALIDADE PROPRIAMENTE DITA. É interessante notar as formulações feitas após as descobertas. Estímulos que vêm do exterior ou do corpo iniciam um estado de tensão que exige descarga motora ou secretória. 29 . contudo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A tarefa imediata da psicologia é o estudo destas forças inibidoras.1. acarretando o relaxamento. mas apenas reflexos”(p.2). Buscando num tratado de aplicação prática das técnicas psicanalíticas (Teoria Psicanalítica das Neuroses de Otto Fenichel) encontramos no primeiro parágrafo o seguinte: “O modelo básico que serve à compreensão dos fenômenos mentais é o arco reflexo. Se não existissem estas contra-forças não haveria psique.5.B 9. Entre o estímulo e a descarga.I . É como no caso da anedota sobre o “ovo de Colombo” Com a psicanálise deu-se a mesma coisa. da respectiva origem e do efeito respectivo sobre a tendência à descarga.

É desta base corporal que procede a energia para os processos psíquicos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . energia esta que será focalizada mais adiante. A partir dos achados da psicanálise surge a “medicina psicossomática”.I . 30 . 1979). A excitação e relaxamento instintivo existem num limite indefinido entre o orgânico e o mental” (Fadiman & Frager. Também a questão corpo-alma. “As pulsões básicas surgem de fontes somáticas. respostas às tensões determinam os comportamentos tanto físicos quanto mentais. a energia libidinal deriva da energia física.B O complexo teórico que compõe a personalidade começa pela base e é encimado pelo princípio do determinismo psíquico. Estes autores apontam mais adiante que entre tantas contribuições de Freud uma das mais destacadas foi a de ter chamado a atenção para a primazia do corpo como centro de funcionamento da personalidade. fica aqui desfeita. A BASE: Para Freud o corpo é a base de toda a experiência mental.

os quais começam com a percepção dos estímulos e terminam com a descarga motora ou glandular. motilidade e não motilidade. A superfície dele capta estímulos. como resultado do inter-jogo de forças que exigem. diz O.13. Por este princípio Freud quis sublinhar que não há descontinuidade na vida mental e que nada ocorre ao acaso em termos de processos mentais. Freud vê o aparelho psiquico como se fosse modelado conforme um organismo que flutua na água.B “Devemos considerar que os fenômenos psíquicos. onde impulsos reativos sobem à superfície. O organismo está em contato com o mundo exterior no início e no fim dos seus processos reacionais.p. respectivamente. Esta diferencia-se aos poucos com relação às suas funções de percepção e de descarga do estímulo: e o produto desta diferenciação transforma-se no ego. leva-os ao interior.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .” O DETERMINISMO PSÍQUICO. É impossível entender a psicanálise sem assimilar esta outra idéia central da teoria freudiana: o determinismo psíquico. 31 . Fenichel.I .

chama-se racionalização. como observa Dewald (1972). Entretanto. A ENERGIA PSÍQUICA.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Uma vez que alguns eventos mentais ‘parecem’ ocorrer espontaneamente. nem a mente. Segundo Dewald (1972. 6): 32 . para cada memória revivida. este conceito é de importância instrumental para conceber o funcionamento do aparelho mental. sentimento ou ação. pré-consciente e inconsciente reforça a idéia da existência de energia psíquica. O mecanismo mental que faz o enfrentamento (para se justificar) do determinismo psíquico. . Cada evento mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente e é determinado pelos fatos que o precederam. 7: “Há uma causa para cada pensamento. que como sabemos em sua maior parte é inconsciente. p. 1979. A própria distinção entre consciente.B Como apontam Fadiman & Frager . O conceito de “energia psíquica é algo obscuro. Sem energia nada se move ou atua. Freud começou a procurar e descrever os elos ocultos que ligavam um evento consciente a outro”.p.

I . CATEXIA ou catexis foi o nome dado a esta energia. idéia ou coisa” (Fadimann & Frager. Quando se fala em “economia psíquica” faz-se referência às distribuições de quantitativos desta energia. e “catexizar” seria o processo de investir esta energia no processo mental.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . de que a intensidade destas forças num determinado indivíduo (e variam de um indivíduo para outro ) pode desaparecer ou variar e de que estas forças observadas ligam-se a fatores de motivação. de que estas parecem possuir diferentes intensidades.B “O conceito de energia psíquica se refere a repetidas observações de que existem diversas forças operativas na vida mental. 33 . Este conceito de energia psíquica tem um valor heurístico na compreensão da dinâmica da mente humana”. l979.10). “Catexia é o processos pelo qual a energia libidinal disponível na psique é vinculada a ou investida na representação mental de uma pessoa. p.

físicos ou neurológicos.B Perturbações psicológicas decorrem de investimentos inadequados de energia libidinal ou de seus bloqueios . OS SISTEMAS Ics.I . discorrendo sobre a sua distribuição. Pcs e Cs A posição clara de Freud sobre uma explicação “psicológica” dos fenômenos psíquicos. 34 . mas todos concordam com a alegação freudiana de que a identificação e a canalização da energia psíquica são uma questão importante na compreensão da personalidade” ( ibidem) . Cada uma dessas teorias chega a diferentes conclusões a respeito da fonte da energia psíquica. Fenichel elaborou um tópico sobre economia psíquica.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . exclui qualquer possibilidade de vermos os lugares a que se refere Freud como sendo lugares anatômicos. “A necessidade de liberar energias presas também se encontra nos trabalhos de Rogers e Maslow. e as respectivas conseqüências. retenção etc. assim como no budismo e no sufismo.

pré-consciente e consciente. Este material não é esquecido ou perdido. na ponto de um esquema temos o Sistema perceptivo seguido de registros de memória. censurado ou reprimido. mas não lhe é permitido ser lembrado. no seu livro talvez mais importante. há material que foi excluído da consciência. Além disso. Freud divide a mente em inconsciente. 35 . “No inconsciente estão elementos instintivos que nunca foram conscientes e que não são acessíveis à consciência.I . Na verdade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . do Ics (Sistema Inconsciente) do PCs (Sistema Préconsciente) e apontando para uma saída motora no Cs (Sistema consciente). obra esta que manteve sem alterações até o final de sua vida. Nesta teoria . “A Interpretação dos Sonhos” .B A TEORIA TOPOGRÁFICA DO APARELHO MENTAL foi apresentada por Freud em 1900.

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O pensamento e a memória ainda afetam a consciência, mas apenas indiretamente” (p.7). Além disso, todos os conteúdos do inconsciente guardam uma enorme vivacidade e conservam sua força original de modo permanente. “Aprendemos pela experiência que os processos mentais inconscientes são em si mesmo intemporais. Isso significa em primeiro lugar que não são ordenados temporalmente, que o tempo de modo algum os altera, e que a idéia de tempo não lhes pode ser aplicada” (Freud, 1920, livro 13 pp. 41-42 na ed. Bras. Apud Fadiman & Frager, 1979, p.7 ).
Garcia-Roza esclarece que cada sistema possui uma estrutura própria de tal modo que as características que encontramos em um deles não são encontradas no outro. No que se refere ao Sistema Ics, Freud nos diz que seu núcleo “consiste em representantes pulsionais que procuram descarregar sua catéxia, isto é, consiste em impulsos carregados de desejo”.

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“As leis que presidem o funcionamento do sistema Ics não são as mesmas que presidem o funcionamento do sistema Pcs/Cs. Assim sendo, no sistema Ics podem coexistir lado a lado, duas representações contraditórias sem que isso implique as eliminação de uma delas. Se dois desejos são incompatíveis do ponto de vista da consciência, à nível inconsciente eles não eliminam mas se combinam para atingir seu objetivo. O princípio da não-contradição não funciona a nível do sistema Ics; o que pode ocorrer é um maior ou menor investimento de uma representação, mas não a exclusão de uma delas por ser incompatível com a outra. No inconsciente não há lugar para a negação: esta só vai aparecer pelo trabalho da censura na fronteira entre os sistemas Ics e Pcs/Cs.”

Cada um dos sistema possui um modo próprio de funcionamento que Freud denominou processo primário e processo secundário.

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O processo primário, modo de funcionamento do sistema Ics, é caracterizado por dois mecanismos básicos, que são o deslocamento e a condensação. Do ponto de vista econômico, os processos primários e secundários são correlativos dos dois modos de escoamento da energia psíquica: a energia livre ou móvel, e a energia ligada. No processo primário, a energia psíquica tende a se escoar livremente, passando de uma representação para outra e procurando a descarga da maneira mais rápida e direta possível, enquanto que no processo secundário, essa descarga é retardada de maneira a possibilitar um escoamento controlado. Isso faz com que no processo secundário as representações sejam investidas de forma estável, enquanto no processo primário há um deslizar contínuo do investimento, de uma representação para outra, o que lhe confere o caráter aparentemente absurdo que se manifesta, por exemplo, nos sonhos.
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Os processos primário e secundário são ainda respectivamente correlatos do princípio do prazer e do princípio de realidade; isto é, enquanto os processos do Ics procuram satisfação pelo caminho mais curto e direto, os processos Cs, regulados pelo princípio de realidade, são obrigados a desvios e adiamentos na procura de satisfação. Portanto, emos a seguinte correlação: Sistema Ics – Processo Primário – Energia Livre – Princípio do Prazer. Sist.Pcs/Cs – Processo Secund. – Energia ligada – Princ. da Realidade OBS. Mais detalhes sobre este tema serão dados na descrição do EGO e do ID Freud assinala ainda como característica do sistema Ics a ausência de temporalidade. O inconsciente é intemporal, seus conteúdos não somente não estão ordenados no tempo , como não sofrem a ação desgastante do tempo. A temporalidade é exclusiva do sistema Pcs/Cs

O inconsciente, por seus conteúdos e por seu dinamismo seria o verdadeiro motor da conduta humana.
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verbais e de escrita. E isso não pode ser conseguido sem técnicas adequadas. Freud assinalou algumas pistas pelas quais se descobre a atuação do inconsciente : os atos falhos. atos aparentemente involuntários e principalmente os sonhos. 40 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . ou Pcs (sistema pré-consciente) é acessível a ambos. O pré-consciente. desvendar os seus dinamismos . é a tarefa da Psicanálise.B Penetrar no seu vasto repertório de conteúdos. A atividade do pré-consciente rege-se pelo processo secundário de pensamento e pelo princípio de realidade realizando a conciliação dos impulsos que procedem do inconsciente com a realidade consciente.I . ao inconsciente e ao consciente. A função principal do préconsciente é de manter a repressão e a censura. com seus simbolismos e seus conteúdos latentes constituem a “via régia do inconsciente” no dizer do próprio Freud. Com algum esforço podese ter acesso aos seus conteúdos. impulsos e sentimentos. lembranças.

e não aos altamente complexos. Freud considerava o Sc (sistema consciente) como uma espécie de órgão sensorial de atenção que operava em associação com o pré-consciente. Neste sentido. 9). como esclarece Dewald ( 1972 p. As pressões que dirigem um organismo para fins particulares são chamadas de instintos. “o instinto se refere à condução geral das forças biológicas mais intimamente relacionadas com a biologia do que com a psicologia do organismo humano. organizados e inatos padrões de conduta observados nas espécies inferiores”. “os instintos são as forças propulsoras que incitam as pessoas à ação”.I . TEORIA DOS INSTINTOS E DA SEXUALIDADE INFANTIL Os conceitos relativos aos instintos e à sexualidade infantil são muito importantes para a compreensão da teoria psicanalítica da personalidade. Na psicanálise de Freud.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .7). O consciente possui diversos graus de sintonia com os estímulos perceptuais do mundo externo. 41 .B O consciente. como apontam Fadiman & Frager (1979 p.

Os dois instintos atuam de modo mesclado com dominância de um ou de outro conforme a situação. noções descritivas mas construtos teóricos que não designam realidades observáveis ou mesmo existentes. escreveu Freud. 42 . suas observações clínicas). apesar de uma teoria científica emergir a partir de uma série de fatos empíricos (no caso de Freud.B Freud reduziu os instintos a apenas dois: o instinto de vida ou libido e o instinto de morte ou tanático. porém o que vemos são “derivados instintuais ou impulsos. São ficções teóricas que permitem e reproduzem uma inteligibilidade distinta daquela fornecida pela descrição empírica. Em cada manifestação de conduta temos a atuação dos instintos. pulsões ou “drives”. ela implica um conjunto de conceitos que não são retirados dessas observações.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Esta frase expressa o fato de que. “A teoria da pulsões é por assim dizer. mas que lhes são impostos a partir de um lugar teórico.I . pois. Estes não são. nossa mitologia”.

portanto. E o emprego por parte de Freud do primeiro termo dexia claro que ele pretendia acentuar mais a diferença entre ambos do que identificá-los. Freu empregou a palavra Trieb e não instinkt embora existirem os dois termos na língua alemã. 43 . Além do mais ela é meio física e meio psíquica. Esse é o caso da pulsão (Trieb) em Freud: ela nunca se dá por si mesma (nem a nível consciente. Também deve se esclarecer a confusão entre instinto e pulsão. eles reproduzem o real.B Esse conceitos não descrevem o real. Em português ficou consagrada a tradução de Treib por pulsão. A confusão deveu-se ao tradutor. autênticas ficções científicas. São. em a nível inconsciente). ela só é conhecida pelos seus representantes: a idéia e o afeto.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . James Strachey. no lugar de instinto. Daí seu caráter mitológico. da Standar Edition que traduziu Trieb por instinct em inglês. assim como no francês: pulsion.I .

ação ou expressão que permite a satisfação da finalidade inicial que desencadeou a ação. toda pulsão (eles usam o termo instinto) tem quatro componentes : uma fonte. “é o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente.I . A fonte pode ser todo o corpo ou uma parte dele e aparece no momento em que emerge uma necessidade a ser satisfeita.” Segundo Fadiman & Frager. A pressão expressa a quantidade de energia ou força que é mobilizada para aplacar a necessidade instintiva. uma finalidade. O objeto de uma pulsão é qualquer coisa. Na maneira habitual de se expressarem as principais necessidades instintivas temos um parâmetro das diferenças individuais. é “um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático”. 44 . uma pressão e um objeto .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . diz Freud. A finalidade consiste em desenvolver todos os atos que acabem com a necessidade que emergiu. ou ainda. Esta pressão é determinada pela intensidade ou urgência da necessidade instintiva.B Pulsão.

hábitos e opções disponíveis” . nem a forma como ela se completará.B Um exemplo simples da atuação dos quatro componentes pulsionais num comportamento hipoteticamente observado seria o da sede. aparecerá imediatamente outra necessidade qualquer que determinará um novo comportamento e assim por diante. Satisfeita a necessidade da sede. eles nem predeterminam a ação particular. o ‘desejo’ mental (que pode ou não ser consciente) e uma grande quantidade de idéias anteriores. p.I . O número de soluções possíveis para um indivíduo é uma soma de sua necessidade biológica inicial. 9) “Os instintos humanos apenas iniciam a necessidade da ação. A questão de como cada indivíduo geralmente satisfaz os seus impulsos é esclarecida assim por Fadiman & Frager (1979.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 45 .

gera-se ansiedade no indivíduo. Esta idéia retirada das leis da termodinâmica indica que um organismo qualquer com uma certa necessidade continuará desenvolvendo atividades até que possa reduzir esta tensão original. através da descarga pulsional. 46 . descobrir qual a pulsão instintiva que determinou o referido comportamento. É que mesmo num gesto de ternura há uma leve descarga agressiva. Na realidade.B Freud tornou claro que o modelo comportamental psicanalítico é o da busca do equilíbrio homeostático a níveis razoáveis . em qualquer manifestação de conduta podemos perceber a atuação de ambos os instintos de uma forma fundida. ansiedade esta que se manifesta de várias formas. com dominância momentânea de um deles. Tendo isto presente é possível ao se examinar o comportamento de uma pessoa. É importante salientar que quando a expressão direta de uma pulsão instintiva é bloqueada (geralmente o é por ferir padrões morais ou normas) ou então desviada para um objeto inadequado.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . do mesmo modo que podemos descobrir traços de satisfação libidinal em gestos agressivos.

sua capacidade de se substituírem . advindo daí um conceito extremamente polêmico para a época. bem como de sua própria auto-análise. e por sua possibilidade de se submeterem a adiamentos. Bras.. p. Partindo das observações de seus pacientes. Apud Fadiman & Frager. o da sexualidade infantil ( da agressividade também. que permite uma satisfação instintual ser substituída por outra. 1979.B Freud também chamou a atenção para a complexidade do comportamento que emerge da fusão das pulsões básicas. livro 28. sua capacidade de alterar suas finalidades.” (Freud.I .9). Essa sexualidade de que Freud fala é pré-genital e ligam-se a funções basicamente não sexuais como a alimentação. 47 . “Os instintos sexuais fazem-se notar por sua plasticidade.. 122 na ed. 1933 . o controle do intestino e da bexiga e finalmente chegando à manipulação genital. é claro). Freud reconstituiu as funções instintivas desde o nascimento. p.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

Entretanto. Freud bem as descreveu em “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . cheia de uma sexualidade total ainda indiferenciada. As características da sexualidade infantil. polimorfa e perversa.B Freud menciona que os impulsos eróticos resultantes da excitação das zonas sensíveis pré-genitais são parciais. ela é colorida pelo status dos seus objetivos sexuais. cheia de impulsos sexuais perversos polimorfos. como ocorrem fixações. tal qual a concebe o ego primitivo. Com o avanço do desenvolvimento essas manifestações instintuais são reprimidas ou mantém um papel restrito no jogo sexual. é possível identificar a presença de resquícios da chamada sexualidade infantil no comportamento dos adultos. para falar com mais correção. Otto Fenichel procura esclarecer: “A criança pequena é criatura instintiva. De início. a qual contém num só todos os ulteriores “instintos parciais”. 48 .I . a realidade só parecer ser julgada do ponto de vista da sua compatibilidade com a satisfação do instinto. ou.

atividade intelectual e até a dor.55). donde resulta que nunca é completo o relaxamento obtido. a excitação e a satisfação não estão nitidamente diferenciados.I .B Toda ordem de excitação que se produz na criança pode se tornar fonte de excitação sexual: estímulos mecânicos e musculares. afetos. A via que leva dos primeiros desejos pré-genitais à primazia genital pode se descrever sob dois pontos de vista diversos: o da mudança das zonas erógenas condutoras e o dos tipos das relações de objeto. se bem que já existam fenômenos orgasmóides.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . sensações prazerosas que produzem o relaxamento e o término da excitação sexual”(p. E mais adiante: “O que constitui a antítese da primazia genital é o período pré-genital inicial.” 49 . quando o aparelho genital ainda não tem assumido o seu domínio. ou seja. Na sexualidade infantil.

desde o nascimento. assim como o nosso próprio corpo vai seguindo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . todas as fases se fundem pouco a pouco e se sobrepõem.” DESENVOLVIMENTO DAS RELAÇÕES DE OBJETO (TEORIA DA LIBIDO) Na conduta humana temos evidente supremacia do instinto libidinal ou instinto de vida sobre o instinto de morte. Na prática. caso contrário não sobreviveríamos. A libido. uma determinada trajetória de desenvolvimento. apenas servindo para melhor orientar.I . 50 . enfatize-se que o conceito de fases do desenvolvimento é relativo.B “Antes de mais nada.

foi o de ter insistido na importância do relacionamento da criança com as figuras importantes do seu meio ambiente. tanto coisas quanto pessoas. internos e externos. especialmente a mãe. imagens ou fantasias).B Simultaneamente ocorre o desenvolvimento libidinal e este desenvolvimento se dá paralelamente ao desenvolvimento das relações de objeto (objeto em linguagem psicanalítica designa tudo aquilo a que o Ego se vincula.I . ou do modo como estabelecemos os nossos vínculos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 51 . Vale dizer que os estágios do desenvolvimento corporal são acompanhados por fases características do desenvolvimento libidinal às quais correspondem fases do desenvolvimento das relações de objeto. Já vimos nos determinantes da personalidade que sem as influências do meio ambiente não haveria desenvolvimento da personalidade. como vimos também que um dos méritos da psicanálise (leia-se Freud). podendo ser tanto objetos externos quanto objetos internos.

Fome. Ao mesmo tempo.109) resumem assim o início do desenvolvimento libidinal: “Ao nascer. Kaplan & Sadock (1984 p. no máximo. a qualidade das relações objetais nas mais diversas esferas de atividade.I . o bebê humano não pode prescindir de auxílio externo para ser aliviado desses estímulos dolorosos. frio e dor despertam tensão e uma necessidade correspondente de procurar no sono o alívio para esses estímulos dolorosos.” 52 . dependem do tipo e qualidade das primeiras relações de objeto da criança. o anseio desaparece. de uma sensibilidade indiferenciada à dor e ao prazer. Como o bebê percebe apenas sua própria tensão e relaxação e não percebe o mundo externo. Uma vez surgido o objeto e gratificadas as necessidades do bebê.B É que as escolhas amorosas futuras. Relações de objeto de um tipo primitivo são estabelecidas quando o bebê começa a compreender este fato. o anseio pelo objeto existe somente na medida em que persistem os estímulos perturbadores e o objeto encontra-se ausente. o bebê não percebe os objetos do mundo externo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . É capaz.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . a criança pequena coloca na boca todo e qualquer objeto que consiga alcançar. a latência e a puberdade. a fase fálica. além do fato de já nascer dotada do reflexo de sucção. a fase anal-sádica . A partir daí e tão logo seja capaz de algum controle motor adequado.B As fases do desenvolvimento libidinal (e das relações de objeto) são : a fase oral. FASE ORAL: Ao nascer a criança tem uma sensibilidade maior e mais discriminada na região da boca (oral).I . mas que não está presente no momento em que emerge novamente a necessidade. 53 . Conclusão: é a fome que faz com que o bebê comece a reconhecer o mundo externo. Daí que a primeira percepção de um objeto no sentido psicológico surge do seu anseio por alguma coisa que já gratificou suas necessidades.

ficará permanentemente fixada ou “catexizada” nos meios de gratificação oral. engolida ou. À medida que a criança se desenvolve. A pulsão básica do bebê não é social ou interpessoal. alguma coisa gera tensão e deve.I .B “O juízo de realidade do bebê funciona nos seguintes termos: alguma coisa proporciona satisfação e deve ser. 1984 p.13). acalentada e acariciada” (p. 109). 54 . É esclarecedora a colocação de Fradiman & Frager (1979): “Desde o nascimento. necessidade e gratificação estão ambas concentradas predominantemente em volta dos lábios. aninhada. língua e. uma certa quantidade de energia libidinal e/ou agressiva. conseqüentemente ser cuspida ou vomitada” (Kaplan & Sadock . razão pela qual a maior parte da energia libidinal disponível é direcionada para esta área. nos dentes. é apenas de receber alimento para atenuar as tensões de fome e sede. a criança é também confortada. portanto. A boca é a primeira área do corpo altamente provida de terminais sensitivos e motores.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Entretanto. outras áreas do corpo passam a se constituir em fontes de gratificação. Enquanto é alimentada. um pouco mais tarde.

Os biscoitos em forma de animais de que as crianças tanto gostam. O objetivo do erotismo oral é primeiramente. se não fosse assim.sob a influência de fatores constitucionais ignorados ou como reação a frustrações.B Fenichel observa que o chupar de polegar mostra que o prazer que se obtém do seio u da mamadeira não se baseia só na gratificação da fome. Mencionou-se acima o fato de ocorrer fixações de energia libidinal e/oi agressiva nesta fase ou estágio. são remanescentes significativos de fantasias canibais primitivas. o que ocorre. Diz Fenichel que a experiência clínica mostra que os objetivos de incorporação oral assumem com freqüência caráter sádico. a estimulação prazerosa da zona erógena. talvez. visto que este não produz leite. o polegar. O mesmo vale para a chupeta. a seguir a incorporação de objetos. o infante retiraria desapontado.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . mas também na estimulação mucosa oral erógena. 55 .

chupar. Comer. fumar. os tipos que só sugam os outros e nada oferecem em troca.são expressões físicas destes interesses”. morder.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .p. Existem fixações positivas nesta fase como existem fixações negativas. os vorazes de todos os matizes. a fase oral inclui a satisfação de pulsões instintivas de ordem agressiva. como morder o seio da mãe. mesmo antes de possuir dentes. os eternos insatisfeitos. com o surgimento dos dentes. Entretanto. existem muitos hábitos orais bem desenvolvidos e um interesse contínuo em manter prazeres orais. Logo em seguida. Surgem então os caracteres de tipo oral-dependente.13): “Em adultos. Estas fixações geralmente situam-se dentro dos parâmetros normais. tudo dependendo da relação mãe-filho. Mas pode ocorrer de em alguns aspectos ou no seu conjunto todo as fixações excederem tais parâmetros. mascar.B É como apontam Fradiman & Frager (1979. e assim por diante. o bebê intenta o ato de morder. 56 . lamber ou beijar com estalo. certas práticas alimentares.

o sarcasmo. observadas no comportamento adulto. bem como dos demais. é no segundo ano que a zona erógena-anal parece se tornar o executivo principal de toda a excitação. a experiência vem ensinar que a estimulação da mucosa retal pode aumentar com a retenção da massa fecal. as tendências à retenção anal exemplificam bem as combinações de prazer erógeno e segurança contra a ansiedade. então. o nível sádico-anal.I . Embora o prazer anal se ache presente desde o início da vida. está detalhada e textos sobre psicopatologia.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . ou seja. da personalidade com fixação maior neste estágio do desenvolvimento das relações de objeto. A descrição psicanalítica do caráter oral. a fofoca. s saber. a qual. tende a descarregar-se pela defecação. Mais tarde.”(Fenichel.60) 57 . Fenichel acrescenta as práticas perversas. “A análise das neuroses obsessivas permitiu a Freud inserir entre os períodos oral e fálico outro nível organizacional da libido. onde quer que se origine. FASE ANAL-SÁDICA.p.B Fadimam & Frager citam como fixações orais negativas. o arrancar alimento de alguém.

B O amadurecimento do sistema nervoso. Na maior parte do tempo da fase oral a criança se mantém e num papel passivo. a criança aprende nesta altura a controlar os esfíncteres da bexiga e do ânus. mexer em praticamente tudo o que alcança.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . que acompanha o crescimento corporal. 58 . uma vez que pouco pode fazer. faz surgir na criança novas áreas de tensão e de gratificação que são trazidas à consciência. o aprendizado deste controle desperta um interesse muito grande da criança. especialmente dos terminais periféricos. ficando a cargo da mãe a tarefa de gratificar ou frustrar as necessidades do bebê. Além da sensibilidade surgida nesta área do corpo. Ao mesmo tempo ela percebe que a mãe também está interessada e geralmente ansiosa para que a final se livre da tarefa de lavar fraldas. subir degraus e cadeiras.I . por volta dos dois anos a criança já adquiriu um bom controle motor. Além de se locomover. Entretanto.

O inverso também é verdadeiro. de modo especial através das funções de higiene corporal.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Como apontam Fadiman & Frager (1979). a ponto de as ordens terem que ser dadas na ordem inversa: “Pedrinho não senta nesta cadeira!” (para conseguir que o menino sente). Entregando ou recusando-se a entregar suas fezes. É neste período que ocorrem manifestações de obstinação. a criança acaba aquiescendo aos apelos da mãe para usar a privada para urinar e defecar. E a criança que inicialmente desfruta do prazer da excreção. porque a criança. a criança exerce um poder sobre a mãe que antes não tinha. Esta fase é também chamada de fase anal-sádica. 59 .B Assim. de posse dos novos poderes de locomoção e controle esfincteriano. passa a “controlar ” o clima doméstico numa espécie de jogo no qual desempenha um papel ativo de “dominação”. “as crianças aprendem com rapidez que o crescente nível de controle lhes traz atenção e elogios por parte dos pais.13). o interesse dos pais no treinamento da higiene permite à criança exigir atenção tanto pelo controle bem sucedido quanto pelos ‘erros’ ” (p. aprende o prazer da retenção das fezes. teimosia e negativismo que deixam perplexos os pais e outras pessoas próximas.

neste estágio do desenvolvimento. num momento elogiam-na porque “dá suas fezes”. perturbações maiores na fase anal determinam fixações. 1979 p. as fezes. À semelhança da fase anterior.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . “Nenhuma área da vida contemporânea é tão carregada de proibições e tabus como a área que lida com o treinamento da higiene e comportamentos típicos da fase anal” (Fadiman & Frager. e com os referenciais que possui. ou se a mãe é muito repressiva a criança acaba expelindo as fezes em horas impróprias. Sendo a mãe muito rigorosa faz com que a criança se torne obstinada ou avarenta (não dá suas fezes). portanto. objeto de tanto interesse e fonte de prazer. são investidas de carga libidinal e tendo sido parte do corpo. 14).I . Por isso a criança fica confusa e perplexa face às atitudes dos pais que. e logo encaramnas e ao ato de defecar como sendo algo “sujo” e que . 60 . deve ser mantido escondido.B Para a criança. continuam externamente a possuir “qualidades de ego”.

fazer obras etc. Entretanto. tais como a crueldade. mas também significa defecar . o linguajar de novo é revelador : “obrar” significa produzir. explosões e outros atos desordenados. a destrutividade desenfreada.B As mães sempre pensam que estão lidando com uma função fisiológica. neste interjogo forma-se o protótipo de todas as espécies de traços expulsivos de personalidade. . mas que cagada fizeste!”. O imaginário coletivo vai mais longe associando o sonho com fezes ao ganho em loterias etc. Quando alguém é repreendido por algo errado que fez a frase costuma ser esta: “Fulano. como apontam Hall & Lindzey.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Ora. acabará por imprimir no filho um modelo de criatividade e de produtividade. se a mãe for habilidosa e afetiva com a criança estimulando-a para que defeque e elogiando-a por isso. 61 . Entretanto. O vocabulário popular captou e expressa muito bem isso.I . (1966).

a diferença entre os sexos com referência à micção. A criança erótico-uretral percebe. *** EROTISMO URETRAL.13 ) colocam: “características adultas que estão associadas à fixação parcial na fase anal são : ordem.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .62) 62 .Fenichel. Ele fala de ‘caráter anal’. todavia. necessariamente.I . É freqüente.”(O. e. é comum o erotismo uretral se apresentar combinado ao complexo de castração. Freud observou que estes três traços são geralmente encontrados juntos. “O aparecimento do erotismo uretral infantil liga-se tão intimamente ap erotismo genital infantil que muito não se pode dizer a seu respeito antes de discutir a genitalidade infantil.B É interessante notar o que Fadiman & Frager ( 1979 p. aparecer em estádios ulteriores como opoente pré-genital da sexualidade infantil genuína. pois.p. cujo comportamento está intimamente ligado a experiências sofridas durante esta época da infância”. parcimônia e obstinação.

isso se dando muito mais freqüentemente do que as falhas do asseio retal. então. De modo geral. em executivo de fantasias sexualmente excitantes relacionadas com o ato de urinar em objetos. pode ter significação fálica e até sádica. As falhas do asseio uretral são. o aparelho uretral transformando-se. 63 . posteriormente. em geral. o prazer de urinar tem caráter duplo: em ambos os sexos.I . ou de fantasias em que menos se mostra a conexão com a micção. como entrega passiva e desistência de controle. ou se sente como “deixar escorrer”. também o erotismo uretral pode voltar-se para os objetos. tal qual o são os do erotismo anal.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . de ser urinado por objetos.B Mais adiante aponta Fenichel: “Os objetivos originais do erotismo uretral são auto-eróticos. com fantasias de lesar ou destruir. a micção equivalendo à penetração ativa. punidas com vexame ou vergonha para a criança.

” [ A vergonha como motivo de defesa dirige-se. e sim sentimento mais específico: em última análise também com raiz em um padrão reflexo fisiológico primitivo. 64 . A vergonha também se relaciona em muitos aspectos com o sentimento de culpa: “vergonha de si mesmo”.I . contra o exibicionismo e a escoptofilia*. assim também a vergonha é a força específica que se dirige contra as tentações erótico-uretrais. Não é simples forma especializada de angústia de castração (medo do “mau olhado”castrador).B Por isso. que é tão comum descrever como resultando de conflitos erótico-uretrais. é a idéia de ser roubado do conteúdo do corpo o medo anal específico. principalmente.] *sexualização das sensações visuais. diz Fenichel: “Não é fácil dizer de onde se origina a conexão profunda que existe entre erotismo uretral e vergonha. mas pode-se afirmar que.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A ambição. representa o combate a esta vergonha. tal qual a idéia de ser comido é o medo oral específico.

se encontrar contradição interna. [calor e frio estão associados à manifestações da sexualidade genital adulta]  O erotismo tátil se compara à escoptofilia. particularmente. se associa.B OUTRAS ZONAS ERÓGENAS: A título de curiosidade citaremos as principais.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .65 .  Toda estimulação cutânea. um e outra representando a excitação que é produzida por estímulos sensoriais específicos. ao erotismo oral precoce e constitui parte essencial da sexualidade receptiva primitiva.I .  O prazer que resulta de estímulos dolorosos da pele representa a base erógena de todos os tipos de masoquismo. tanto o toque quanto as sensações térmicas e dolorosas são fontes potenciais de estimulação erógena. muitas vezes.  O erotismo da temperatura. esta podendo levar a conflitos.

*** 66 . parecendo ter importância particular sempre que as sensações de excitação se transformam em sensações de ansiedade. Manifesta-se o erotismo muscular em muitos jogos. ou dos dados da sensibilidade profunda.I . esportes. O retorno de sensações antigas e vagas de equilíbrio e espaço é freqüente representarem sinal externo para remobilização da excitação infantil inconsciente.B  Nem sempre se distingue o erotismo cutâneo do erotismo muscular.m inúmeros sintomas de conversão ou inibição de certas atividades musculares.  Quanto à importância dos prazeres e temores que se relacionam com as sensações cinestésicas e. As sensações cinestésicas dos níveis primitivos do ego. com as sensações de equilíbrio e espaço. falamos a respeito delas em conexão com os níveis arcaicos do ego. patologicamente e.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .. etc. aparecem nos adultos e nas crianças maiores quando dormem. bem assim.

está realizada na concentração genital de toda a excitação sexual. “A tarefa fundamental de achar um objeto de amor pertence ao período fálico. Em virtude do amadurecimento dos terminais nervosos sensitivos. Foi com esta frase que Freud chamou organização genital infantil.B FASE FÁLICA. É a fase fálica.I . 109). ao mesmo tempo em que sua libido passa a ser investida de conotações vinculadas a esta parte do corpo. Descobre então as diferenças sexuais. por volta dos três anos a criança passa a experimentar uma sensibilidade inusitada nos órgãos genitais e a ter a sua atenção despertada para os mesmos. “Ao concluir-se a sexualidade infantil. quando é estabelecido o padrão para escolhas posteriores de objeto. ou fase fálica. 67 . p.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . chega a aparecer uma espécie de orgasmo genital”. 1984. o interesse pelos genitais e pela masturbação alcança significação dominante. Freud empregou o termo complexo de Édipo para referir-se às intensas relações amorosas formadas durante esse período” (Kaplan & Sadock .

I . a criança descobre as diferenças sexuais. O mesmo se dá quanto a isso com as meninas. 68 . principalmente o ciúme da relação dos pais. Mas as coisas complicam-se mais ainda. Aí já existe um forte conflito.B Freud valeu-se da tragédia grega de Sófocles. ao mesmo tempo em que anseia por ver o pai (a quem igualmente ama) fora de cena. Ao mesmo tempo. Na criança tudo isso se passa em nível do inconsciente onde também são geradas fantasias que lá permanecem. mais precisamente que alguns possuem e outros não possuem o pênis. para designar este período do desenvolvimento da libido e durante o qual o menino deseja possuir a mãe e afastar o pai. como teve a atenção despertada para a região genital do corpo. Entretanto. qualquer observador atento percebe as alterações comportamentais da criança que denunciam os conflitos edipianos. foco central de sua libido. e a menina deseja possuir o pai e afastar a mãe.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . “Édipo Rei” . Os impulsos libidinais do menino são dirigidos à mãe. face ao ciúme e inveja que o menino sente da relação dos pais.

é o medo retaliatório do período fálico.”(Fenichel. tem ainda por base a Lei de Talião (olho por olho.I . 69 . falta a força dinâmica que caracteriza a angústia de castração fálica.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . que representa o clímax dos temores fantásticos de lesão corporal. A angústia de castração no menino do período fálico pode se comparar ao medo de ser comido do período oral.B “O medo de alguma coisa acontecer a este órgão sensível e prezado chama-se angústia de castração.70) Este medo retaliatório ancorado na percepção das diferenças sexuais. dente por dente) que vigora no inconsciente. p. aos seus precursores nas angústias oral e anal pela perda do seio ou das fezes. não causa desta valoração narcisística elevada. medo a que se atribui papel tão significativo no desenvolvimento total do menino e que representa resultado. É só a alta catexia narcisística do pênis neste período que explica a eficácia da angústia de castração. ou ao medo de ser despojado do conteúdo corporal do período anal.

Na infância todo o complexo é reprimido. o temor e o amor pelo seu pai. ao nível da fantasia. e à hostilidade em relação ao pai. A ansiedade de castração. inofensivo. O conflito persiste. reduzindo a criança a um ser sem sexo e. Mas o drama não termina aí.B Como apontam Fadiman & Frager. vicariamente. em relação à mãe. impedi-lo de aparecer. portanto. evitar até mesmo que se pense a respeito ou que se reflita sobre ele – essas são algumas das primeiras tarefas do Superego em desenvolvimento. o rival . “O menino que ama também teme seu pai e receia ser castrado por ele.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Como o corpo é uma usina produtora de energia. a libido continua sem um canal adequado de descarga. É neste instante que o menino passa a desenvolver um processo intenso de imitação do pai. 70 . A solução se configura numa equação que poderia ser assim descrita : num primeiro momento surge a fantasia de ser como ele. o pai.” O medo de castração faz com que o menino reprima o desejo sexual em relação à mãe. dos impulsos libidinais. Sendo como ele a ameaça de castração diminui e é obtida uma satisfação parcial. e o amor e o desejo sexual por sua mãe não podem nunca ser completamente resolvidos.I . Mantê-lo inconsciente.

Tendo descoberto as diferença sexuais a menina fantasia que lhe tiraram o que outros possuem e isso é uma descoberta traumática muito séria. o menino introjeta a figura do pai que deste modo deixa de ser uma ameaça. a base da civilização. 71 . Nas meninas o processo é parecido. Numa palavra. Buscando ser ele.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . o pai. Identificando-se com o pai o menino consegue uma satisfação maior vicária dos impulsos sexuais em relação à mãe e seu sentimento erótico inicial converte-se em ternura e afeição. que segundo Freud é o herdeiro do Complexo de Édipo masculino e a garantia contra o incesto e a agressão.B Num segundo e decisivo momento o processo é aprofundado: não se trata de ser como ele (imitação) mas de ser ele (identificação). Com a introjeção da figura parental do mesmo sexo soluciona-se o Complexo de Édipo e consolida-se a estrutura do Superego.

Daí partem três linhas de desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição sexual ou neurose. à feminilidade normal. que além de tudo possui o órgão valorizado que ela não tem. “O desejo de ter um pênis e a aparente descoberta de que lhe falta “algo” constituem um momento crítico do desenvolvimento feminino. a mãe vira rival de fato. Segundo Fadiman & Frager. menina. e os impulsos libidinais passam a ser dirigidos ao pai. a menina atribui à mãe a culpa por sua condição de “castrada”.” Como a essas alturas a mãe já vinha se afigurando como uma rival.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . finalmente. Como a essas alturas a mãe já vinha se afigurando como uma rival. que além de tudo possui o órgão valorizado que ela não tem.I . 72 . Segundo Freud: “A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da. a outra à modificação do caráter no sentido de um complexo de masculinidade e a terceira. e os impulsos libidinais passam a ser dirigidos ao pai. a mãe vira rival de fato.B Surge daí a controvertida tese de Freud da existência de uma inveja do pênis. a menina atribui à mãe a culpa por sua condição de “castrada”.

B Na menina este complexo é também chamado de Complexo de Etectra. em referência à tragédia grega de Sófocles e embora a solução passe por etapas muito semelhantes do que ocorre com os meninos (imitação. quanto a mãe e que nada lhe foi tirado ou suprimido. identificação). completa. A solução do Complexo de Édipo define também a orientação psíquica sexual. por isso. a solução do Complexo de Electra consolida a estrutura do Superego. A psicanálise afirma a bissexualidade infantil que parece ser uma herança embrionária. Também na menina.I . 73 . que é inteira. já adulta for capaz de ter filhos como a mãe e constatar. É a partir desta solução que se conforma a identidade de gênero que geralmente será consolidada definitivamente na adolescência.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . independente da configuração anatômica. definitivamente. nas meninas permanece um residual do complexo que será inteiramente solucionado no plano do inconsciente quando ela.

O destino são as inscrições que se gravam mais fortemente no nosso inconsciente durante os primeiros estágios do desenvolvimento libidinal ou das relações de objeto. mas não seria o imponderável e temido destino da mitologia grega.I . É fácil de aquilatar as sérias e quase definitivas conseqüências decorrentes de traumas adicionais aportados por atitudes inadequadas do progenitor rival ou de ambos. Outro aspecto envolvido durante o tumulto edipiano e a sua solução. Ao que parece o destino existe. juntamente com a solução edipiana e muito do que ocorre depende da conduta dos pais. diz respeito à relação com maiores ou figuras de autoridade. 74 .B Ocorrem também fixações negativas e positivas neste estágio. É que o processo de transferência vai atuar na medida em que a criança for se socializando e pela vida a fora.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

que são capazes de colorir.I . o Complexo de Édipo mediante fixações. “Não há percepção que não gere conexões emocionais imediatas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . de modo que todas as experiências participam de forma especial do Complexo de Édipo. todo o conteúdo a seguir. prégenitalmente. as experiências vividas à época da fase fálica bem como aquelas anteriores. 75 . Certas experiências traumáticas singulares são tão importantes quanto as influências crônicas. além de deslocado. são freqüentes fatores decisivos. que a psicanálise acentuou particularmente desde os seus primórdios. Certas experiências traumáticas. se o Complexo de Édipo não houver sido superado de maneira normal.B Embora seja até prematuro. grafado em letra diversa é retirado da obra “Teoria Psicanalítica das Neuroses” como uma pequena amostra de fatores e conseqüências ligadas ao Complexo de Édipo e por isso deve ser considerado : como um apêndice.

B Quando se fala em desejos genitais. pela sedução. a genitalidade pode ser excitada prematuramente.I . e tanto mais quando a experiência é súbita..PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 76 . Há crianças nas quais. É freqüente serem decisivas as combinações de experiências verdadeiras e interpretações errôneas. do mesmo passo. ponto este em que se deve falar no reino da percepção sádica da realidade.. e a intensidade da excitação. o que cria estados traumáticos. excede às vezes o poder de controle da criança. alto grau de excitação sexual (cuja índole varia de acordo com a idade da criança) e a impressão de quye a sexualidade é perigosa. ligando entre si os reinos da “genitalidade” e da ameaça.) Tem importância especial para a formação do Complexo de Édipo tudo aquilo que a criança aprende ou pensa a respeito da vida sexual dos pais. ou seja a observação de cenas sexuais entre adultos (entre os pais) cria. o que se deve considerar primeiro são os fatores genitais. (. Uma cena chamada primária. está sendo estimulada por fatores externos.

que se pode experimentar como transtorno súbito das gratificações edipianas pela circunstância de que os cuidados da mãe têm de ser. então.esta impressão resultante do fato de que a qualidade da excitação excede a capacidade de descarga da criança.B . ou a vista dos genitais adultos pode originar um medo de castração. Outro fato traumático típico que importa é o nascimento de irmãos. ou percepções e especulações relativamente à gravidez e ao nascimento aumentam as curiosidades e ansiedades sexuais. também. umas e outras resultando. sadicamente. a criança utilizando todas as sugestões que a realidade lhe dá.(. partilhados com outrem. com toda a probabilidade se produzirá na fantasia. em tendências à regressão à primeira infância. 77 PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . às vezes. se não realmente experimentada. de interpretar errado o que percebe... É certo que os efeitos de fantasias desta ordem nunca serão os mesmos que os efeitos da experiência real. daí ser experimentada como traumaticamente dolorosa.) Freud chamou a idéia infantil que consiste em observar os pais durante o contato sexual “fantasia primária”. a criança é capaz. a qual.I .

Os pais neuróticos criam filhos neuróticos e o Complexo de Édipo dos filhos reflete o Complexo de Édipo não resolvido dos pais. frustrados pelos mesmos pais. É um amor que os filhos sentem inconscientemente como tentação sexual. (. daí resultando com freqüência que os mesmos filhos são excitados e depois. as reações e desejos da criança para com os pais depende do comportamento e da personalidade destes.. por força de condições externas ou das suas próprias neuroses. o que lhes aumenta o Complexo de Édipo próprio. O amor sexual inconsciente dos pais pelos filhos é maior quando é insuficiente a satisfação sexual real deles.B No que diz respeito a influências crônicas. É muito freqüente o a mãe amar o filho e o pai amar a filha. Um comportamento pouco habitual provocará reações também desacostumadas. e às vezes é inconscientemente eu os pais o sentem. eles o equilibram mediante ameaças e frustrações súbitas.. neste caso.I .) 78 . conforme se vê na anamnese familial do neurótico comum.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

As medidas educativas planejadas importam menos do que o comportamento cotidiano dos pais. pois moldam as idéias infantis sobre a sexualidade. necessariamente. visto que as crianças mimadas não aprendem a suportar frustrações.) 79 . frustrações desacostumadas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . frustrações pouco comuns.. a atitude da mãe para com o sexo da criança. (.. ou ambas as coisas) vem a criar complexos de Édipo pouco comuns nos filhos. Assim é que a moral da família influencia a forma que assume o Complexo de Édipo dos filhos. segundo. há mães que querem ter um filho e fazem que a filha sinta isso.B Um comportamento parental pouco comum (significando indulgência excessiva. Destaquem-se dos pontos que têm significação especial: primeiro. as atitudes dos pais entre si. daí experimentarem frustrações leves como se fossem severas.I . Os mimos demasiados geram.

principalmente o medo da perda de amor. pode-se afirmar que o Complexo de Édipo nas mulheres não é combatido no mesmo grau. são mais fortes nas mulheres e de muitos modos assumem o papel que nos homens desempenha a angústia de castração. 80 . vê-se. no qual se pensa como efeito de uma atividade proibida.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . ou que. Em primeiro lugar. que temores outros e mais antigos. de um modo ou de outro. nem com a mesma determinação que o é nos homens. As mulheres que permanecem a vida inteira ligadas ao pai ou a figuras paternas. seja descoberto limita consideravelmente as experiências sexuais da menina. Em segundo lugar. diz Fenichel: Não é fácil responder à questão da angústia de castração nas mulheres. Terceiro: É freqüente ver o medo que o estado de castrada. são em muito maior número que os homens que não superaram a fixação materna.B Quanto ao problema do medo de castração feminino.I . à análise. traem a relação do seu objeto amoroso com o pai.

à análise de algumas mulheres. daí se explicando o medo fantástico de que o desejo genital de ser penetrada pelo órgão do pai produza a lesão corporal. que existe um medo inconsciente de que certo órgão seja cortado como castigo de práticas sexuais. Tal qual determinam angústias pré-genitais irreais. certas falsas interpretações animísticas também determinam angustias genitais fantásticas. vê-se.B a idéia de haver destruído seu próprio corpo é vista com freqüência. 81 . Quarto: Há angústias relacionadas com a previsão de lesões genitais retaliatórias. ou. Não obstante tudo isto. de ter filhos sadios.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . além de outras ansiedades que prevêem a descoberta da “vergonha”. É comum as meninas não saberem que na vagina possuem um órgão oco pré-formado.I . tal qual o é a idéia de haver perdido a possibilidade de ter filhos. angústias que substituem o medo de castração. quando menos.

da idade de 5. a maioria das crianças parecer modificar seu apego aos pais em algum ponto depois dos cinco anos de idade e se voltam para o relacionamento com seus companheiros. atividades escolares e outras habilidades.” 82 . Nesta época. surgem atitudes do ego como vergonha. repulsa e moralidade.B PERÍODO DE LATÊNCIA E FASE GENITAL. como afirmam Fadiman & Frager. Nesse período da vida. um tempo em que os desejos sexuais não resolvidos da fase fálica não são atendidos pelo ego e cuja repressão é feita com sucesso pelo Superego. que estão destinadas a fazer frente à tempestade ulterior da puberdade e alicerçar o caminho dos desejos sexuais que se vão despertando. Seja qual for a forma que realmente toma a resolução do complexo de Édipo ou de Electra. é denominada de período de latência. depois da primeira eflorescência da sexualidade feneceu.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 6 anos até o começo da puberdade.

83 . O objeto da libido é socializado. traços narcisistas indicam imaturidade. A puberdade e com ela o início da adolescência é um período crítico que deixa os pais freqüentemente perplexos. o Complexo de Édipo é revivido inconscientemente de maneira atenuada. as coisas são dominantemente de si para consigo e num adulto. ou seja. ou seja.B Antes de tudo é importante anotar que a libido do período prégenital é narcisista. No decorrer deste processo. Com o advento da puberdade e da adolescência. sendo que o narcisismo é canalizado para escolhas objetais genuínas.I . a criança experimenta prazer ao estimular e manipular o seu próprio corpo. No narcisismo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . está fora do triângulo familiar. o indivíduo passa por um processo que o prepara e transforma num adulto.

a desidealizar as figuras parentais. Sua participação social cresce até o ingresso definitivo no mundo adulto. com uma escolha profissional. A fase final do desenvolvimento biológico e psicológico no rumo adulto ocorre na puberdade e o conseqüente retorno da energia libidinal aos órgãos sexuais. Neste momento. meninos e meninas estão ambos conscientes de suas identidades sexuais distintas e começam a buscar formas de satisfazer suas necessidade eróticas interpessoais. assim como valores altruísticos e impulsos produtivos.B O adolescente começa a busca de uma identidade. *** 84 . a ver o mundo também com olhos críticos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Seus sentimentos de amor aos outros se expandem. FASE GENITAL.I . a se identificar transitoriamente com um grupo de iguais e finalmente a consolidar sua identidade de gênero e a figuração de seu papel no mundo adulto .

e o SUPEREGO. em 1923. Embora cada um desses sistemas tenha suas próprias funções. Sobre o modelo estrutural da mente. o EGO. atuam um sobre o outro tão estreitamente que é difícil. propriedades. assim se referem Hall & Lindzey : “A personalidade é composta de três grandes sistemas : o ID . princípios operantes.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 46) . de modo especial o do inconsciente. dinamismos e mecanismos. Manteve. O comportamento é quase sempre o resultado da interação desses três sistemas. pré-consciente. 85 .B TEORIA ESTRUTURAL DO APARELHO MENTAL Em virtude das dificuldades em explicar a recidiva dos sintomas e de toda a dinâmica psíquica a partir do modelo topográfico Freud apresentou.I . componentes. os “construtos” da teoria topográfica(consciente. da personalidade. inconsciente) . raramente um sistema funciona com exclusão dos demais” ( p. entretanto. vale dizer. senão impossível. destacar seus efeitos e determinar a contribuição de cada um para o comportamento humano. Vejamos cada um destes sistemas. o modelo estrutural do aparelho mental.

maior será a pressão para uma descarga imediata de satisfação e que. O princípio do prazer inclui o conceito de que os “drives” ou impulsos buscam uma satisfação direta e imediata. reduzirá a tensão deste mesmo “drive”. portanto.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . nem a presença ou ausência de um objeto apropriado nem os efeitos da descarga do “drive”. Os “drives” (impulsos ou derivados instintuais) vaiam de intensidade de vez em quando e quanto mais forte for um “drive”. Por si mesmo os “drives”( impulsos instintivos) não levam em consideração o impacto ou efeito da situação da realidade.B ID O ID é completamente inconsciente e suas funções estão organizadas em concordância com o princípio do prazer e as disposições do processo primário.I . sem levar em conta outros fatores ou forças influenciem na situação. 86 .

Esta forma de pensamento do processo primário na criança vem caracterizada pelo conceito de mobilidade da catéxis.I .B O processo primário é uma forma de pensar característica dos processos de pensamento do bebê. e contrasta com o processo secundário. adquirida por meio da aprendizagem. do ensaio e erro e da educação. pode haver muito mais mudanças e recursos no emprego das representações psíquicas dos objetos e de outros processos mentais dentro do ID. Por conseguinte. o qual depende da natureza e intensidade dos “drives” em cada momento e das várias representações mentais que se prestam como objetos destes “drives”. 87 . Isto significa que as representações dos objetos e de outros processos mentais podem ser rapidamente catexizadas com energia do “drive”. e podem ser também rapidamente descatexizadas de tal energia. que é uma forma de pensar mais tardia. da experiência. sexual ou agressivo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

No caso do deslocamento. tudo podendo coexistir simultaneamente. A mobilidade da catéxis. não são influenciadas diretamente pela aprendizagem e pela experiência. as relações temporais de causa e efeito. não leva em consideração a compatibilidade. isto se traduz nos fenômenos da condensação e do deslocamento.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . a condensação e o deslocamento significam também que as leis e conceitos aprendidos da racionalidade e lógica não existem na forma de pensar do processo primário e que.I . a representação mental de um processo ou de um objeto pode ser a finalidade de uma séries de “drives” simultâneos distintos. portanto. as representações mentais de objetos ou de outros processos podem ser caracterizadas por “drives” que estão relacionados só indiretamente com estes objetos. que são característicos do pensamento de processo primário. ao contrário. Esta forma de pensamento persiste indefinidamente. No caso da condensação. No ID não há concepção do negativo. Dewald).B Descritivamente (P. a seqüência. 88 . posto que as funções do ID são totalmente inconscientes e.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . As pessoas e as lembranças de m período da vida do paciente pedem se mesclar com os de outro período completamente diferente. no qual podem se produzir várias distorções e alterações na seqüência lógica.B [SONHO] A forma de pensamento do processo primário se manifesta mais claramente no conteúdo do sonho.I . Uma figura ou um lugar no sonho podem ser um composto de muitas figuras e muitos lugares. e o sonho tem a condição de realidade. Podem se observar alusões e pequenos fragmentos da experiência sem que sejam completados. E sentimentos e pensamentos que estão associados com outra pessoa. podem se deslocar e se experienciar em outra. contradição e existência dos contrários. Na causa e efeito. Durante o sonho o sujeito costuma ter a sensação de que participa e atua realmente nele. 89 . nas relações temporais e espaciais.

por causa de uma qualidade ou atributo específico. chegar a representar (e. 90 . A universalidade de certos tipos de símbolo se deve ao fato de que em todas as crianças se produzem uma série de “drives”e de conflitos. Outra característica do ID e do processo primário é a existência do simbolismo e da formação deste.B Só quando o sujeito desperta. sua aprendizagem e seu amadurecimento. pode se associar com algum outro objeto ou aspecto de um “drive”.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . e o indivíduo se dá conta da incongruência dos acontecimentos ou das pessoas que viu em seu sonho.I . Temos aqui uma forma de deslocamento pela qual um objeto. em virtude da condição humana e do longo período que requerem o desenvolvimento. neste sentido simbolizar) um “drive”que pode estar ou não relacionado originalmente com ele. perdem sua condição realista estas conexões e distorções irracionais e ilógicas.

I . 91 . Exemplos deste conflitos e problemas universais da infância incluem a consideração da sexualidade.. pode se converter num símbolo do que é inconsciente e que. para efetuar tal descarga do “drive” se requerem outros processos mentais como a percepção. Embora os drives do ID busquem uma descarga direta e imediata. pois. nascimento. etc.B Assim. como já foi dito. o objeto. por outras razões. de modo que os símbolos específicos escolhidos diferirão com a experiência e disponibilidade cultural. A criança buscará símbolos para estes conceitos nas inter-relações e experiências dentro do seu meio ambiente e cultura específicos. não pode ser expressado conscientemente. juízo. que se definem como partes das funções do EGO. em virtude de suas partes ou qualidades. atividade motora. senão que devem ser ajudados pelas funções do EGO. morte. Vale dizer que os “drives” do ID não tem uma acesso direto à mobilidade e ao meio ambiente externo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . o corpo e suas partes.

O ID “contém tudo que é herdado. O ID é inteiramente inconsciente . p. que está presente na constituição . 17-18 na ed. pp. o Ego e o Superego. 1979. e guarda para sempre suas características amorfas e caóticas. Fadiman & Frager nos dizem que o ID pode ser comprado a um rei cego cujo poder e autoridade são totais e cerceadores. derivam-se do ID e do resultado de seu contato com o mundo externo. livro 7. portanto. 10). os instintos que se originam da organização somática e que aqui (no ID) encontram uma primeira expressão psíquica. 92 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . sob formas que nos são desconhecidas” (Freud 1940.I .acima de tudo. Bras. como já foi acentuado. Apud Fadiman & Frager.B O ID é a sede teórica da energia instintiva. Nascemos com o ID e as duas outras instâncias. mas depende de outros para distribuir e usar de modo adequado o seu poder.

em 1938. assim como o material que já foi considerado inaceitável pela consciência. é mesmo assim capaz de influenciar a vida mental da pessoa. excluído da consciência e localizado na sombra do ID. por julgála insubstituível.B Os conteúdos do ID incluem configurações mentais que nunca ser tornam conscientes.Fadiman & Frager (1979).PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . Um pensamento ou uma lembrança. na obra “Esboço da Psicanálise” . *** EGO Não existe. Igualmente . apresentam esta definição: 93 . segundo Kaplan & Sadock (1984) uma definição mais ampla sobre o ego do que aquela que Freud deu quase ao final de sua carreira. Freud acentuou fato de que materiais esquecidos conservam o poder de agir com a mesma intensidade mas sem controle consciente.

em relação ao ID. Com referência aos acontecimentos internos. lidando com estímulos moderados (através da adaptação) e. ele desempenha essa missão obtendo controle sobre as exigências dos instintos. adiando essa satisfação para ocasiões e circunstâncias favoráveis no mundo externo ou suprimindo inteiramente as suas excitações. decidindo se elas devem ou não ser satisfeitas. aprendendo a produzir modificações convenientes no mundo externo.B “São estas as principais características do ego: em conseqüência da conexão preestabelecida entre a percepção sensorial e a ação muscular.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . armazenando experiências sobre eles ( na memória). 94 . o ego tem sob seu comando o movimento estabelecida entre voluntário. evitando estímulos excessivamente intensos ( através da fuga). em seu próprio benefício (através da atividade). Com referência aos acontecimentos externos desempenha essa missão dando-se conta dos estímulos externos. finalmente. Ele tem a tarefa da auto preservação.

O EGO se desenvolve a partir do ID.B É dirigido. livro 7 . E embora isso seja menos claramente entendido e apreciado.117). ou pelo substituto dela.. A elevação dessas tensões é.I . O ego se esforça pelo prazer e busca evitar o desprazer” (Freud. É muito elucidativo e pertinente anotar o que dizem Kaplan & Sadock sobre o desenvolvimento do EGO: “Gratificação e frustração de impulsos e necessidades nos primeiros meses de vida afetam o destino futuro do ego. 18-19. em geral. uma certa quantidade de frustração de impulsos na infância e na meninice é igualmente importante para o desenvolvimento de um ego saudável” (p. 1940.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . pp.. 11). em sua atividade. . bras. 95 . Obra citada p. é criticamente importante. estejam estas tensões presentes nele ou introduzidas dentro dele. pela consideração das tensões produzidas pelos estímulos. sentida como desprazer e o seu rebaixamento como prazer. na ed. A satisfação adequada das necessidades libidinais da criança pela mãe. como já dissemos.

a indulgência excessiva das necessidades instintivas da criança interfere no desenvolvimento das capacidades do ego de tolerar frustrações e . Entretanto. para sintetizá-las e integrá-las e realizar aquelas funções e atividades necessárias para manter um estado de adaptação interna e externa. tanto do meio ambiente interno como externo. na sua capacidade de regular as exigências do id em relação ao mundo externo” ( ibid ). o pensamento. O EGO se define como o grupo de processos mentais cuja função é a de perceber e reconhecer as distintas forças que atuam sobre o organismo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I .B “A privação da mãe em estágios significativos de desenvolvimento conduz ao prejuízo das funções do ego em vários graus. 96 . a memória. juízo e avaliação da realidade. Também implica os esforços que o organismo faz para alterar o meio ambiente interno e externo ou para se adaptar a um destes. conseqüentemente. a inteligência. funções motoras. Este grupo de funções inclui a percepção.

com o objetivo último de conseguir a maior quantidade de satisfação e prazer e a menor quantidade dor ou perigo. O princípio de realidade pode implicar um bloqueio da satisfação do “drive”. oposto ao princípio do prazer do ID. Entre estas última se acham os mecanismos psicológicos de defesa que serão estados mais adiante. com uma última seleção e julgamento para escolha de uma resposta baseada no benefício a longo prazo e que seja melhor para o organismo. contradição e negação. no nível consciente e préconsciente. seqüência. em parte. 97 . O EGO também funciona de acordo com a forma de pensamento de processo secundário. O princípio de realidade inclui a avaliação da situação total.B O EGO opera de acordo com o princípio de realidade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . As funções do EGO se acham. na qual se reconhecem os conceitos da lógica. causa e efeito. embora certo número de funções do EGO se produzam inconscientemente. e abarca todas as forças que atuam sobre o indivíduo. ou uma mudança no objeto do “drive” ou a substituição de um prazer futuro por outro atual.I .

no comportamento motor. A primeira destas constituem os aparelhos congênitos e constitucionais do EGO.B O desenvolvimento do EGO implica a interrelação das duas correntes principais do desenvolvimento.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . segundo a natureza e os tipo de interação que se produzam.Por exemplo. a princípio há só respostas indiferenciadas. enquanto outros seguem um desenvolvimento predeterminado e cronológico. que é por definição uma função do ego.I . segundo as espécies. 98 . influirá significativamente no desenvolvimento do ego. por exemplo) existem em vários graus de maturidade. A outra corrente importante do desenvolvimento é o impacto psicológico do desenvolvimento do EGO que se inicia mediante a interrelação com o que foi chamado o “ambiente meio esperado ou antecipado”. no momento do nascimento. O impacto deste ambiente. alguns dos quais (a percepção. desde o ponto de vista psicológico e experimental.

I . à medida que o organismo amadurece. se produz um contínuo desenvolvimento do EGO e o incremento da relação com o meio ambiente.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Porém. Ao considerar o desenvolvimento do EGO.B A maior parte do desenvolvimento do EGO ocorre nos primeiros cinco ou seis anos de vida. *** SUPEREGO Enquanto que o EGO se desenvolve a partir do ID. o SUPEREGO se desenvolve a partir do EGO e alcança sua estrutura final na solução do complexo de Édipo mediante a introjeção das figuras parentais. com evidente dominância da figura parental do mesmo sexo. 99 . bem assim em relação com as experiências que teve durante a sua vida. deve-se ter em conta a capacidade adequada do organismo em relação com a idade cronológica.

Porém. é em grande parte inconsciente. 100 . do castigo e da recompensa. Estes são experimentados pela criança já desde a infância.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A formação do SUPEREGO implica a interiorização em vários graus das normas e atitudes paternas do correto e incorreto e da recompensa e castigo. e este aspecto inconsciente do SUPREGO se relaciona com as normas mais primitivas e arcaicas de castigo e recompensa.B O SUPEREGO é a parte do aparelho mental que tem por função julgar criticamente as outras funções mentais em termos de normas morais do correto e do incorreto. mas ficam especialmente influenciados pelas tentativas que a criança faz por identificarse com os pais nos conflitos trazidos pela solução do Complexo de Édipo.I . O SUPREGO é em parte consciente e pré-consciente e corresponde ao que se costuma chamar de consciência. do bom e do mau.

e em parte conscientes.I . Além dos conceitos de castigo. antecipação e interpretação das atitudes paternas pela criança. A criança tenderá também a projetar nos pais seus impulsos hostis e agressivos e. não refletem. chamados de ego ideal. antecipar a reação agradável dos pais.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . que formam o núcleo da função consciente do SUPREGO. Estes ideais são assim mesmo préconscientes em parte.B Estas primeiras imagens parentais incorporadas. por conseguinte. necessariamente as atitudes e normas paternas como se produzem na realidade. senão que são melhor uma interiorização da percepção. 101 . o SUPEREGO implica também a representação mental dos ideais pelos quais se esforça o indivíduo. e se baseiam na fantasia e nas concepções infantis das imagens paternas. Embora a maior parte do desenvolvimento do SUPEREGO tenha sido a interiorização das imagens paternas como individuais. os pais e suas atitudes são também representativos da sociedade em geral.

B Portanto.I . das forças sociais e culturais representadas. pois não são acessíveis à aprendizagem consciente. As funções conscientes e pré-conscientes do SUPEREGO são capazes de uma modificação contínua. persistem imutáveis as imagens paternas inconscientes da primeira infância que foram incorporadas como funções do SUPEREGO. Devemos destacar especialmente o fato de que esta concepção do aparelho mental é só uma abstração teórica baseada numa série de definições. Por sua vez as forças do SUPEREGO desempenham um importante papel na continuidade das forças sociais e culturais de uma geração para outra. há um impacto. primeiro pelos mais. na formação do SUPEREGO. especialmente com o grupo na adolescência. Contudo. 102 . e mais tarde por outros objetos com os quais a criança entra em contato durante seu desenvolvimento. além dos pais e.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . por são influenciadas pelas relações e identificações com outras pessoas.

B O ID. Por isso uma das principais tarefas do ego é a de encontrar maneiras de atenuar e controlar a ansiedade que sempre emerge juntamente com tensões ou desprazer. 103 . o EGO e o SUPEREGO não tem uma existência própria ou independente e representam agrupamentos adequados dos vários tipos de processos e funções mentais. Quando incontrolada ou muito intensa a ansiedade produz efeitos devastadores sobre o organismo.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . a ansiedade apresenta-se sob vários matizes. Vinculada aos afetos. *** ANSIEDADE A ansiedade é um fenômeno eminentemente psicológico e faz parte da experiência de todos os seres humanos. Ela existe no seio da personalidade em níveis variáveis e está praticamente presente o tempo todo. pois mesmo situações agradáveis produzem certa dose de ansiedade.

de um amigo íntimo.B Freud abordou a questão da ansiedade nos termos de identificar o que a provoca e como o Ego se defende dela. de ser ridicularizado em público. (3) Perda de identidade – por exemplo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . (4) Perda da auto-estima – por exemplo. Este resumo é algo arbitrário e simplista se tivermos presente que o funcionamento da personalidade liga-se de modo permanente ao manejo da ansiedade. perda de prestígio. a desaprovação do SUPEREGO por atos ou infrações que resultam em culpa e ódio em relação a si mesmo.por exemplo. (2) Perda de amor – por exemplo rejeição. medo de castração. o próprio Freud aprofundou bem mais essa questão dizendo que a ansiedade seria provocada pelo trauma do nascimento e posteriormente pelo medo de castração. fracasso em reconquistar o amor ou aprovação de alguém que lhe importa. como resumem Fadiman & Frager quatro situações causam ansiedade: (1) perda de um objeto desejado . de um animal de estimação. 104 . Basicamente. Por outro lado.I . a criança privada de um dos pais.

EGO e SUPEREGO permite uma conceituação sistemática das diferentes e contraditórias forças psicológicas e funções que atuam na mente ao mesmo tempo e como acontece que estas forças podem ter objetivos contraditórios ou mutuamente incompatíveis. No enfrentamento dos conflitos e na luta por aplacar a ansiedade o ego utiliza os chamados “mecanismos de defesa”.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Ela deve ser considerada de relevância na dinâmica da personalidade e deve-se fazer a distinção entre ansiedade normal e ansiedade neurótica ou psicótica. O CONFLITO PSÍQUICO Esta divisão dos processos psíquicos em ID.B Outros autores debruçaram-se no estudo exclusivo da ansiedade. aparecem situações de conflito psicológico. 105 .I . Níveis perturbadores de ansiedade ocorrem quando o ego não consegue soluções satisfatórias para os conflitos internos.

B Pode haver um conflito dentro do próprio aparelho mental (conflito intrapsíquico) ou um conflito entre o organismo do indivíduo e o ambiente externo. de acordo com o princípio do prazer. contrário à expressão deste drive ou à utilização deste objeto. Este drive do ID pode entrar em conflito também com a percepção do EGO das demandas da realidade exterior. o qual se relaciona também com um conflito intrapsíquico. Para sermos mais corretos. um “drive” do ID que busque uma satisfação direta pelo objeto original do “drive”. de modificar ou alterar a realidade da situação exterior de acordo com as próprias necessidades e desejos do organismo. por parte do EGO.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . pode entrar em conflito com a proibição do SUPEREGO. Há também a possibilidade de conflito entre os processos do EGO e a realidade externa em termos das demandas que a realidade pode fazer sobre o organismo ou em termos da tentativa. Um drive do ID pode se achar em conflito com mesmo EGO em virtude da perfeição interior do EGO ou fantasia de perigo (à parte o castigo moral) que implicaria a satisfação de tal “drive”. 106 .

I . podem se colocar situações nas quais as demandas do SUPEREGO criem uma situação de conflito com a capacidade do EGO para agrupá-las. 107 .B Intrapsiquicamente. O EGO como centro e organizador de funções mentais. Também podem se dar situações nas quais o efeito da realidade sobre os processos do SUPEREGO podem provocar uma situação conflitiva. de um estado de adaptação interna do aparelho mental e de adaptação entre o organismo e seu ambiente. opera de acordo com o princípio de realidade e com o processo secundário e tenta manter em equilíbrio todo este sistema. tal como foi descrito originalmente em fisiologia por Cannon.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . a pesar destas várias contradições e conflitos. que como já assinalamos constitui o modelo comportamental da psicanálise. O EQUILÍBRIO DINÂMICO A principal função do EGO é a manutenção. Este equilíbrio é parecido com o conceito de homeostase dinâmica.

num dinamismo fantástico. Ego e Superego) da personalidade atua consoante a configuração peculiar que adquiriu desde o nascimento.B Contudo. O FUNCIONAMENTO DINÂMICO DA PERSONALIDADE O funcionamento da personalidade significa integrar todas as variáveis enunciadas até agora. estão mudando e flutuando constantemente. o equilíbrio estabelecido pelo EGO não é fixo e estático.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . tanto a natureza e a intensidade das distintas forças que pressionam o EGO desde os drives internos e o ambiente externo. e onde cada instância (Id. 108 . Como conseqüência. quanto os processos que se produzem no mesmo EGO. onde as fixações que se originaram em diferentes estágios do desenvolvimento. desempenham o seu papel. dentro de certos limites. senão uma constante oscilação e variação do estado dinâmico invariável.I .

B A personalidade jamais se afigura como estática. segundo Freud. Nesse afã o Ego utiliza os chamados mecanismos de defesa ou de adaptação. num aprendizado contínuo que constitui. Os mecanismos de defesa foram inicialmente identificados por Freud ao analisar os sonhos e ao perceber que nos sonhos há sempre um conteúdo manifesto e um conteúdo latente e que no processo de sonhar sempre ocorre uma descarga de pulsões (“drives”)instintivas que o conteúdo manifesto procura esconder.I . Isto quer dizer que o processo de crescimento iniciado desde o nascimento. (3) os conflitos e (4) os perigos .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . imóvel ou acabada. prossegue pela vida toda. As tensões oriundas destas quatro fontes obrigam o EGO a desenvolver sempre novas estratégias de redução das ditas tensões. Hall & Lindzey apontam que este crescimento da personalidade evolui face a quatro fontes de tensão : (1) Os processos de crescimento e evolução fisiológicos. 109 . (2) as frustrações . o desenvolvimento da personalidade.

constituem o modo de atuar da mente. cada indivíduo acaba elegendo um grupo preferencial de mecanismos de defesa e com intensidades mais ou menos constantes. As outras pessoas passam a reconhecer o indivíduo pelo seu modo habitual de agir.I . concedendo alguma satisfação ao ID durante o sonho. Os mecanismos de defesa que permitem isso e que afinal. podemos descobrir quais os mecanismos de defesa que nele atuaram. pelo seu conjunto e estilo de mecanismos de defesa. Vale dizer que ao analisarmos qualquer comportamento. O EGO sempre se vale de um certo conjunto de mecanismos de defesa para enfrentar as situações internas e externas. Este conjunto de mecanismos varia conforme as situações. 110 . Os mecanismos de defesa são funções do EGO que se desenvolvem e se estabelecem em cada indivíduo como parte de sua maturação psicológica para resolver e intervir no conflito intrapsíquico.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . assim como entre o organismo e o meio ambiente. isto é. permanecem ativos também durante a vigília. entretanto.B Ou seja. o EGO literalmente procura enganar a censura.

senão também da operação dos mecanismos em si. que devem tratar eficazmente a ansiedade e manter o organismo num estado homeostático de equilíbrio dinâmico. um determinado grupo de processos do EGO se considera mais concretamente como mecanismos de defesa. qualquer das diferentes funções do EGO pode ser utilizada como defesa contra um conflito e contra a sensação de ansiedade. Em geral.B O objetivo final de todos os mecanismos de defesa do EGO é o de manter a natureza inconsciente dos impulsos (drives) e seus derivados.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Estes mecanismos são funções inconscientes do EGO.I .Contudo. 111 . tanto intrapsiquicamente quanto com o meio ambiente. o indivíduo não é só inconsciente do problema em questão. e quando respondem favoravelmente.

Por isso deve-se considerar os mecanismos de defesa desde o ponto de vista do desenvolvimento do EGO e do amadurecimento psicológico. Um dos primeiros e mais primitivo dos mecanismos do EGO é a negação.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . Existe uma ampla variedade de tais mecanismos. 112 . mas só vamos considerar alguns dos mais destacados e usuais. Embora a intensidade do estímulo contra ele tenha alcançado ou sobrepujado o umbral da percepção habitual. não é reconhecido conscientemente. Este mecanismo implica a tentativa de proteger a percepção de um estímulo sensorial contra o meio ambiente externo ou interno. se incrementa a capacidade defensiva das funções do EGO e sua complexidade. assim como a seqüência em que maturam e se tornam utilizáveis para seu uso como parte dos processos integradores totais.B Quando ocorre o amadurecimento físico e psicológico.

B Um protótipo de negação é a experiência da criança quando aprende a dominar voluntariamente a percepção (por exemplo. e então se deve cuspir. 113 . A criança põe qualquer coisa na boca e a prova para ver se é algo agradável que se pode comer ou mastigar. deixas de existir. embora outros reconheçam claramente as manifestações visíveis de sua existência. “Como não posso te ver. Outros mecanismos primitivos do EGO são a projeção e a introjeção.” Pode-se citar o popular comportamento do avestruz que ante o perigo esconde a cabeça.I . Um exemplo da negação de uma percepção interiorizada viria ilustrado pela pessoa que não se dá conta de que experimenta uma sensação particular. Um protótipo destes mecanismos psicológicos é o ato písquico que implica o processo de nutrição. ou algo desagradável.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . fechando os olhos). Em geral se observa na criança pequena o emprego da boca como órgão para examinar a realidade.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . chegam a se representar na mente. que te comeria”. “Engolirás tudo que te digam”.B O ato psicológico de se alimentar constitui outro protótipo do mecanismo de introjeção (introduzi-lo dentro de si mesmo) pelo qual várias experiências. Na criança pequena a separação do objeto (mãe) do qual depende é a primeira situação desencadeante de ansiedade que alimenta e estimula o uso deste mecanismo. a fim de resolver a ansiedade provocada pela separação. 114 . O mecanismo implica originariamente uma tentativa psicológica de incorporar este objeto dentro de si mesmo. A introjeção implica a incorporação psicológica de todo o objeto por meio do processo oral de introdução. A simples demonstração deste mecanismo se vê em expressões tais como: “Te quero tanto. “Isto não posso engolir”. Outro exemplo teríamos no canibalismo de tribos primitivas. e no Sacramento da Comunhão.I . idéias e imagens. que se desenvolve posteriormente em modelos de imitação mais discretos. Isto contrasta com o mecanismo de identificação.

a projeção se dirige para fora e atribui a outras pessoas aqueles traços de caráter. tem seus protótipos no processo nutritivo. motivos e desejos contra os quais existem objeções e que se quer negar.I . e no cuspir uma coisa. embora sua influência distorça a imagem que ela faz do mundo. negar-se a tomar algo ou afastá-la de si. Exemplos de projeção em crianças e em tribos primitivas seriam os conceitos de animismo e de atribuir motivações ou capacidades humanas a objetos inanimados ou não humanos. O mecanismo permite que a pessoa permaneça cega a importantes impulsos da personalidade. 115 . Exemplos simples de projeção seria o de culpar a outro por faltas cometidas pelo próprio indivíduo ou atribuir a outros os próprios impulsos ou idéias. Em suma. que implica o ato psicológico de exteriorizar as coisas que não são aceitáveis para o próprio indivíduo. “Atuando como defesa contra a ansiedade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . com a projeção. atitudes.B O mecanismo da projeção.

em outras pessoas. “drive”ou derivado deste. ademais do pensamento mágico direto ou indireto.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Outro mecanismo de defesa que se origina quase no mesmo período de desenvolvimento e que está relacionado com a destruição é a formação reativa (chamado às vezes de sobrecompensação) 116 . se acha compensado e neutralizado por um ato . é o pensamento mágico e.B É comum conhecermos pessoas que criticam severamente. o desenvolvimento do mecanismo de destruição.I . em especial dos três anos de idade.81). deixando intimamente de reconhecer o fato de que elas próprias possuem os traços e os motivos desprezados” (Kolb. 1980 p. Trata-se de um mecanismo no qual um impulso inaceitável. exatamente as falhas que constituem os pontos fracos do seu próprio caráter. dando-se por esta via o ato destrutivo. Um outro aspecto dos processos de desenvolvimento do pensamento na criança pequena. com ele.

fazendo com que o emprego do mecanismo seja reforçado. “drive” ou atitudes primitivos. além do mais pelas recompensas do meio ambiente. gentileza e atitudes de piedade ou afeto exagerados. agressão. 117 . ou do desejo de ser dependente por uma atitude de independência forçada e continuada. Isto implicará muitas vezes no desenvolvimento de traços de caráter associados com a utilidade e a aceitabilidade social.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . implicando uma mudança relativamente permanente nos processos do EGO e uma contínua modificação do próprio EGO.I . ou crueldade podem ser substituídas por uma amizade. um “drive” ou atitude se convertem no contrário do original. Quanto mais fortes forem os impulsos. Exemplos correntes deste mecanismo incluiriam a substituição do impulso a ser sujo por uma exagerada atitude de limpeza. caso se queira que funcione como defesa. mais intensa deve ser a formação reativa.B Mediante a formação reativa. A hostilidade.

Como resultado. Tais pensamentos são muitas vezes experimentados como absurdos ou distantes. o “drive” ou derivados deste podem surgir na realidade consciente na forma de um pensamento. podem se desconectar das idéias ou pensamentos relacionados com tal impulso. Uma ulterior forma de isolamento é a intelectualização.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B O isolamento é um mecanismo de defesa no qual os processos mentais estão separados em suas partes componentes. e o indivíduo não os sente como “verdadeira”parte e si mesmo. e as conexões entre as partes se acham bloqueadas com respeito à realidade consciente. associados com um impulso inaceitável.I . 118 . a situação e a qualidade do “drive”. Numa forma de isolamento. mas não vão acompanhados pela sensação emocional associada ou pela percepção da força do “drive”. mas novamente sem as sensações ou sentido de convicção pessoal que deveriam acompanhá-los. mecanismo de defesa no qual o indivíduo pode perfeitamente se dar conta de uma série coerente e integrada de pensamentos relacionados com um impulso inaceitável ou conflitivo.

A regressão pode se produzir na natureza dos mesmos processos do EGO mediante o emprego dos mecanismos de adaptação e ajuste menos maduros e o retorno a processos primários do pensamento. Mas os adultos realizam regressões parciais. por exemplo). A regressão é facilmente percebida nas crianças que quando frustradas regridem a um padrão anterior de seu comportamento (quando nasce um irmão.B Outra forma de isolamento é aquela na qual um pensamento ou série de pensamentos relacionados com um impulso inaceitável e inconsciente estão separados de outras idéias ou pensamentos associados e é experimentada conscientemente como desconectada e não relacionada com o restante da vida mental da pessoa. Outro mecanismo de defesa é a regressão. 119 . através do qual se retorna a um modo ou nível mais primitivo de função psíquica. Quando tais regressões são muito expressivas. O exemplo mais comum seriam os processos do EGO implicados no sonho normal. temos uma das manifestações da psicose.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . De resto existem vários níveis de regressão.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . pois há uma renuncia parcial e deliberada da realidade. No ato da repressão. 120 . como resultado da qual pode se produzir uma regressão parcial. a regressão pode implicar somente certas funções do EGO ou grupos de funções. e tem uma catexis de energia psíquica que os empuxa na busca de tal satisfação. as funções do EGO mantém certa quantidade de energia psíquica conhecida como uma anticatexis. Outra característica da regressão do ego é uma qualidade seletiva. Ainda na infância se desenvolvem novos mecanismos de defesa.B Realizamos regressões parciais normais ao assistir um espetáculo mágico uma função de teatro ou a um filme. Os “drives” e seus derivados estão constantemente buscando uma realidade consciente e uma descarga através da função do EGO.I . um dos quais é a repressão. enquanto outras permanecem inalteradas. isto é. em oposição à catexis do “drive”. Outro exemplo é o comportamento social numa festa. quando o indivíduo animado se permite condutas consideradas infantis em outro contexto.

Por isso.I . o indivíduo tem consciência de sua tentativa ativa de tirar algo de sua mente consciente para tratar de esquecê-lo e pensar em outras coisas. 121 .B Como resultado. fantasias. ou seja. Para manter a repressão. os “drives”. o esquecimento da atividade mental consciente-preconsciente do que foi reprimido. Na supressão. o EGO não pode utilizá-la em outras funções A repressão é um mecanismo inconsciente do EGO. e permanecem em níveis inconscientes. mas pode se dar conta do resultado de tal atividade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . situações e outros fenômenos associados são excluídos de forma ativa da realidade consciente ou pré-consciente. a energia psíquica que se encontra na anticatexis deve ser utilizada constantemente. que se produz de uma maneira consciente. Na repressão o indivíduo não tem consciência de que levanta esta barreira. porém está relacionado com outro mecanismo chamado supressão. permanecendo esta energia ligada ao processo de defesa. lembranças.

O mecanismo do deslocamento implica o conceito de que um “drive” ou derivado do mesmo possa se permitir uma descarga parcial. ou alguma outra parte do próprio indivíduo.I . No emprego deste mecanismo há uma gama no grau de conhecimento. que varia desde uma realidade parcialmente consciente até um grau inteiramente incosnciente. ao buscar satisfação ou descarga por meio de um objeto inapropriado e inaceitável se o objeto caracterizado pelo “drive” é trocado ou substituído por um objeto mais aceitável. ou bem um esquecimento mais seletivo e específico (por exemplo. infra-humano ou inanimado. a pessoa que não recorda sua vida antes de uma determinada época).B Isto pode ser um ato falho geral e inespecífico (por exemplo. enquanto que se refém outras lembranças do mesmo período). 122 . O objeto substituído pode ser humano. um incidente ou lembrança determinada que se esquece.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas caso se queira utilizar com êxito deve ter um enlace ou conexão com o objeto originário do “drive”.

processo mental pelo qual um indivíduo tenta descrever e explicar algum aspecto do pensamento ou conduta por motivos ou razões que são para si mesmo mais aceitáveis do que as verdadeiras. ou bem se manter ou se utilizar uma ou outra vez. Ao buscar esta explicação mais racional e aceitável.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . tenta não se precatar das verdadeiras ou completas forças inconscientes que o motivam. ou o amor positivo e o afeto de um menino por uma manta favorita ou um animalzinho de pano.I .B O deslocamento pode ser intermitente às vezes e atuar como resposta a determinada situação conflitiva. Outro mecanismo relacionado com o deslocamento é o da racionalização. Exemplos correntes entre pequenos incluiriam fatos tais como a criança que quebra um brinquedo ante seus pais durante uma birra. 123 . e busca explicação em termos de um processo lógico secundário.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Entretanto. mas o resultado de sua operação é oferecer uma explicação consciente e aceitável. 124 . mas também pode se produzir inconscientemente. Como já foi descrito este mecanismo está relacionado com o da introjeção.I .B Para que este mecanismo seja eficaz é necessário que sua existência e emprego sejam inconscientes (se o indivíduo é consciente de que está mentindo a si mesmo. mediante o qual um indivíduo efetua uma modificação interna de si mesmo e de seus processos mentais. a identificação implica uma interiorização e mudança mais seletiva ou parcial por meio da forma de imitação do objeto em atitudes. aspectos. funções ou comportamento mais circunscritos ou específicos. o mecanismo deixa de ocultar-lhe a existência de outros motivos). A identificação pode ser um processo deliberado e consciente no indivíduo. Outro mecanismo é o da identificação. ao tentar estabelecer contato com os objetos do seu meio ambiente.

Exemplos correntes de identificação vemos nos jogos infantis. a identificação dá como resultado uma mudança estrutural das funções do EGO e/ou do SUPEREGO.B De qualquer modo.I . ao ler um romance e assim por diante. como assistir a um filme. Outro mecanismo de defesa é a evitação consciente ou inconsciente pela qual o indivíduo procura se manter distante dos objetos ou situações que possam ser perigosas ou ameaçadoras. 125 . Quando o perigo que o ameaça é exterior. Quando a ameaça ou perigo surgem de associações inconscientes entre o objeto ou situação exterior e os “drives” inaceitáveis do indivíduo. o indivíduo é plenamente consciente da evitação. quando entre outras coisas a criança imita comportamentos adultos. a evitação é em parte inconsciente.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . uma novela. embora a permanência de tal mudança seja variável. Em graus pouco intensos o EGO utiliza este mecanismo em variadas situações.

procura compensar tais deficiências. Assim certas pessoas passam a vida procurando ostentar símbolos de “status” . O indivíduo não se dá conta do significado do símbolo que empregou e até mesmo que tenha empregado um símbolo. Foi nos sonhos que Freud percebeu inicialmente e de modo claro. Pelo mesmo processo os objetos passam a simbolizar idéias. Simbolização. Mas as palavras também representam idéias e situações.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Compensação. Somatização. Como assinala Kolb ( 1980 ). É por isso que se afirma que o simbolismo é a linguagem do inconsciente. a simbolização. outros ainda esforçam-se por alcançar elevados postos públicos para compensar seu sentimento de inferioridade.outros escolhem uma profissão de prestígio. mas é através deste mecanismo que muito material reprimido vem à consciência. Quando o indivíduo percebe em si. Através da simbolização. tendências. sentimentos. 126 .I . na maioria das vezes a semelhança entre o símbolo e o objeto simbolizado é tão leve que escapa à consciência. certas deficiências que o incomodam muito. O uso de palavras no lugar de objetos é uma simbolização. uma idéia ou objeto é empregado para representar outra idéia ou objeto. real ou imaginariamente. É a conversão num sintoma físico de derivados psíquicos.

O humor é um mecanismo de defesa saudável e que permite lidar de maneira construtiva com muitas situações conflitivas. É o caso das chamadas duplas personalidades e outras condições como o sonambulismo. uma parte da personalidade é eliminada.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Humor.B Dissociação. Em geral as sublimações proporcionam a forma mais estável e eficaz dos mecanismos de defesa.I . por se constituir em fonte de perturbação. a escrita automática e as fugas dissociativas. Através dele. segregada. O mecanismo de defesa mais avançado e maduro é o da sublimação. que implica uma mudança e modificação progressiva tanto no objeto como na direção do “drive”. 127 . É um mecanismo comum nos casos de histeria e mais difícil de ser compreendido. Oferecem uma forma de descarga do “drive” e satisfação parcial. Tais mudanças podem permitir uma descarga e satisfação parciais do “drive” inconsciente. mas de uma forma útil e socialmente aceitável.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . para efeitos de descrição e exposição. As complexas combinações e permutações das funções do EGO permitem uns tipos de defesa variados e uma integração na tentativa de estabelecer a homesotase psicológica e manter o equilíbrio dinâmico.I .B A forma e objeto da descarga são socialmente aceitáveis. *** 128 . Em resumo. Estes mecanismos de defesa tem sido considerados independentes entre si. e cada indivíduo emprega uma variedade de ditos mecanismos. O uso de um mecanismo particular pode provocar outros conflitos inconscientes para os quais devem ser instituídas novas defesas. depois mudou para o barro. e progressivamente até a argila e finalmente a pintura a óleo em telas apropriadas. Um exemplo seria da criança cujo “drive” inicial era sujar-se com fezes. E embora não atuem com independência. com o que se cria um “efeito de superposição”. são utilizados em diferentes modelos e grupos. razão pela qual são reforçados mediante as atitudes do EGO individual e das reações dos demais no meio ambiente.

A mais significativa foi de Carl Gustav Jung. Sandor Firenczi e da própria Anna Freud e sua Psicanálise Integrativa. Houveram também confrontos como os propiciados por Karen Horney e Erich Fromm e sua psicanálise culturalista. dois merecem destaque: Jacques Lacan e Melanie Klein. alguns em consonância com Freud. fundou sua própria Escola Teórica: A PSICOLOGIA ANALÍTICA. primeiro presidente da Sociedade psicanalítica de Viena. Alfred Adler e outros. mantendo a ortodoxia e outros divergindo em pontos considerados essenciais.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . AVANÇOS DA TEORIA PSICANALÍTICA Ainda ao tempo de Freud. 129 . De todos que procuraram promover avanços na Psicanálise convergindo ou divergindo. como foram os casos de Wilhem Reich.B 9.1.6.I . que divergindo sobre a excessiva importância dada por Freud à sexualidade. procuraram dar suas contribuições. houve cisões dentro do movimento psicanalítico. Otto Rank.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B JACQUES LACAN 130 .I .

Posteriormente encaminha-se para a lógica e para a Topologia. A partir de 1951.I . Para isso utiliza a lingüística de Saussure e posteriormente de Jakobson e Benveniste. Jacques-Marie Émile Lacan foi o seguidor que mais contribuiu e deu continuidade à sua obra. Formou-se em medicina. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo. propõe um retorno à Freud. atuando como neurologista e psiquiatra e se considerava um Psicanalista Freudiano.B 9.1. CONTRIBUIÇÕES DE LACAN Sigmund Freud foi o criador da psicanálise.7. 131 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Lacan (1901-1980) nasceu na França em Orleans. Passou da neurologia para a psiquiatria. da antropologia estrutural de LèvyStrauss. afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado.

sob pena de se assistir ao "desaperecimento da doutrina".PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . dando-se através de seminários e conferências. mas Lacan é que vai aprofundar esta questão. Le Seminaire (O Seminário). Lacan começa um processo de deslizamento para a Psicanálise já na sua tese de doutoramento. Em 1932 Lacan escreve que a psicose "é o problema mais atual da psicanálise". Lacan parte da sua experiência clínica em lidar com a psicose. A partir de 1973 inicia-se a publicação de seus 26 seminários sob o título. Enquanto Freud parte do estudo da neurose. Freud já havia procurado dar uma explicação psicanalítica para a psicose em termos de regressão. que está a exigir uma solução. E acrescenta que o problema terapêutico das psicoses torna mais necessária "uma psicanálise do eu do que uma psicanálise do inconsciente".I .B Seu ensino foi primordialmente oral. Em 1966 foi publicada uma coletânea de 34 artigos e conferências sob o título Écrits (Escritos). 132 .

Para seu trabalho teórico Lacan se vale do caso de uma paciente paranóica (Aimée) que fora internada na clínica Ste. uma teoria da personalidade. em Paris. A vítima não prestou queixa. que seja apta não só a explicar o caso Aimée. 133 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Depois de descartar as explicações clássicas. quanto do ponto de vista terapêutico. Aí a psicose paranóica será vista como resultado de um conflito identificatório. retomando o estudo freudiano do narcisismo. por haver agredido. naquela época muito apreciada pelo público parisiense.I . mas que possa servir de base para um vasto estudo das psicoses. tanto do ponto de vista teórico. uma atriz. e não como defesa contra o impulso homossexual.embora tenha tido dois tendões fletores dos dedos seccionados pelo ato agressivo. Lacan procura então construir sua própria teoria. com uma faca.B Sua elaboração teórica inicial gira em torno da psicose paranóica. Anne.

B A questão que Lacan se põe pode ser formulada assim: por que a eclosão da doença? E por que a cura inesperada após o crime? Segundo Lacan. não tanto pelo ato agressivo em si mesmo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . deve-se. de autopunir-se. Para os autores da época diziam que a necessidade de punição decorria do sentimento de culpa. Por esse caminho Lacan vai se deparar com o problema da gênese e da natureza do Superego. é a única a explicar satisfatoriamente o caso Aimée. a eclosão da doença se explica em decorrência de uma anomalia de estrutura oriunda de uma fixação no estádio sádicoanal do desenvolvimento da libido. a remissão brusca do delírio. segundo Lacan.I . Por outro lado. Daí ele vai isolar uma entidade à qual ele dará o nome de paranóia de autopunição. vinte dias após perpetrar a agressão. quanto pelas conseqüências do ato. que. à realização de um desejo: o desejo de atingir-se a si mesma. segundo ele. 134 .

Nas suas investigações Lacan se depara com a necessidade de desenvolver toda uma teoria do Ego. ou. São "outros". A autopunição vem primeiro. ele vai procurar outra origem para o ego. engendrada por contato com o mundo exterior. ao mesmo tempo. De fato. não. que vão servir-lhe de matriz. 135 . Em conseqüência. seu correlato. quando muito. qualquer tentativa de ligar o ego à objetividade ou ao sujeito do conhecimento. Ele rechaça esta concepção de Freud segundo a qual o ego seria a "superfície" do id. À base de todo este processo se encontra a fixação no estádio sádicoanal do desenvolvimento da libido.I . e vai encontrá-la no terreno da identificação.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . forma socializada da pulsão agressiva. Lacan jamais vai seguir esta hipótese freudiana do ego enquanto "crosta" do id. E qual a origem da autopunição? Ela provém do superego e representa a expressão estrita da repressão social. Ou seja: o que "interessa" ao ego na realidade externa não são objetos de conhecimento. A culpa é sua conseqüência.B Para Lacan. afastando.

Pelo contrário. não só forjando novos conceitos. não é uma simples corrente. 136 . um consolidados da obra de Lacan. constitui-se como um sistema de pensamento. é comparável ao kleinismo.I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Não obstante. Donde também a sua preocupação com o narcisismo. a partir de um mestre que modificou inteiramente a doutrina e a clínica freudianas. é um passo. a Psicanálise Lacaniana. Ele surge de um processo de identificação que tem a ver com o outro. Não existe nos compêndios de Teorias da Personalidade. na sua origem o ego tem a ver com uma ilusão. leituras ou interpretações da doutrina vienense. abre-se a porta que o levará à sua teoria do eu especular e da identificação primária. sobretudo com o próprio freudismo.B Na sua gênese.. mas também inventando uma técnica original de análise da qual decorreu um tipo de formação didática diferente da do freudismo clássico. o ego não tem nada a ver com o princípio de realidade. nascido dez anos antes. mas uma verdadeira escola. formadora do eu (fase do espelho). Nesse sentido. Daí a dizer que o ego é a sede da alienação. Com efeito. na verdade. aparenta-se. à parte os outros comentários.. o qual reivindica em linha direta. Ao mesmo tempo.

o lacanismo é uma espécie de revolução às avessas. Para Cassier. o ponto central do pensamento de Lacan é o que concede ao simbólico o papel de constituinte do sujeito humano.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 137 . em lugar de definirmos o homem como um animal racional.B O lacanismo acha-se. com efeito. o único dos grandes intérpretes da doutrina freudiana a efetuar sua leitura não para “ultrapassá-la” ou conservá-la. portanto. o definíssemos como um animal simbólico. a função simbólica é aquela através da qual o indivíduo constitui seus modos de objetivação. Antes de Lacan. a tese não pode ser apontada como original. Por ter surgido desse retorno. sua percepção. mas uma “substituição ortodoxa” deste texto. O simbólico é o mediador da realidade e ao mesmo tempo o que constitui o indivíduo como indivíduo humano. Segundo Garcia-Roza.I . Tomada nessa generalidade. Lacan foi. numa situação excepcional. Ernest Cassier já havia proposto que. não um progresso em relação a um texto original. seu discurso. mas com o objetivo confesso de “retornar literalmente aos textos de Freud”.

Como representação gráfica dessa relação temos: 138 .B A originalidade de Lacan não está em afirmar o condicionamento simbólico do homem. assim como a formação do inconsciente pela linguagem. tal como foi exposta postumamente por alguns de seus alunos. ele vai “reler”Freud e assinalar os vários níveis de estruturação do simbólico. O signo não é a união de uma coisa e um nome.I . Uma das idéias centrais é o conceito de signo lingüístico como uma unidade composta de duas partes: o significado e o significante. mas a união de um conceito e uma imagem acústica (ou impressão psíquica do som).PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . a partir de contribuições retiradas da lingüística e da antropologia estruturais. mas a maneira como. Uma das fontes do pensamento de Lacan é a lingüística de Ferdinand Saussure.

B 139 .I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

pois. de maneira necessária. o significado “árvore” à seqüência de sons que lhe servem de significante. seus elementos se apresentam um após o outro.I .B O signo lingüístico é portanto uma unidade composta de duas partes. Por oposição ao significantes visuais. que podem se organizar simultaneamente em várias dimensões. tal como uma moeda é composta de cara e coroa. o segundo afirma a sua lineraridade. formam uma cadeia. Por arbitrário devemos entender. “não-natural”. O segundo princípio diz respeito ao caráter linear do significante. os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo. isto é não há nada que uma. O mesmo significado “árvore” pode ser representado pelos significantes. tree ou Baum. Por arbitrariedade do signo devemos entender a inexistência de relação necessária entre um significado e um significante. arbor. O que ele une é um significado a um significante. arbre. 140 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Saussure aponta dois princípios referentes ao signo lingüístico: o primeiro afirma sua arbitrariedade.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A concepção lacaniana do signo difere em vários aspectos da que nos oferece Saussure.I .B Da relação que o signo mantém com os outros signos da língua decorre o conceito de valor. Em seu artigo A instância da letra no inconsciente. a barra que separa um do outro indica para Lacan uma autonomia do significante com relação ao significado. Lacan inverte a representação saussuriana do signo. Enquanto Saussure o representava por significado . É a posição do signo no interior da linguagem que vai constituir o valor de um signo como um elemento de significação. Em segundo significante significado lugar. onde S é o s significante e s é o significado. ambos separados pela barra. Lacan declara que o momento constituinte de uma ciência é assinalado por um algoritmo e que no caso da lingüística esse algoritmo é S. Lacan o representava por significante . Em primeiro lugar. 141 .

Fica quebrada.I . encadeamento das ações necessárias ao cumprimento de uma tarefa.B Para Lacan a barra indica duas ordens distintas. As ilustrações seguintes são.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .: algoritmo para a extração de uma raiz cúbica) 2. seqüência finita de regras. Lacan substitui a imagem tornada clássica por Saussure – a do desenho de uma árvore sob a palavra “árvore”. impondo que nenhum significante possa ser pensado fora de sua relação com os demais. ela própria. A cadeia dos significantes (ou cadeia significante) é.1 processo de cálculo. que produz uma solução para um problema num número finito de etapas. a do significante e a do significado. • permite solucionar classes semelhantes de problemas (p. respectivamente de Saussure e de Lacan. noutros campos do raciocínio e da lógica] 142 . interpondo-se entre ambas uma barreira resistente à significação. raciocínios ou operações que.por uma outra que evidencia a maneira pela qual é a oposição diferencial entre significantes que produz o efeito de significado. • mecanismo que utiliza representações análogas para resolver problemas ou atingir um fim. processo efetivo. [algoritmo: 2.ex. dessa maneira. Para ilustrar a função significante. a produtora de significados. É essa cadeia que vai fornecer o substrato topológico ao signo lacaniano. aplicada a um número finito de dados. a unidade do signo defendida por Saussure.

I . A segunda ilustração. no lugar do significado. privilegia o significado e impõe o isolamento do signo pela relação biunívoca que era indicada pelas setas verticais utilizadas originalmente por Saussure. Nesse exemplo é a oposição entre os significantes que vai produzir a diferenciação entre os significados. absolutamente idênticas separadas pelos significantes “HOMENS” e “SENHORAS” por uma barra. duas portas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . considerada por Lacan como defeituosa.B A primeira ilustração. mostra. 143 . que Lacan considera mais correta.

Roman Jakobson e Jaques Lacan foram encontrar as duas figuras da lingüística: a metáfora e a metonímia. relação metonímica de tipo qualitativo (causa.. de contigüidade. é preciso lembrar que.I . material ou conceitual.B O que Lacan nos diz. divindade: esfera de suas funções.): matéria por objeto: ouro por 'dinheiro'.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . morador por morada. com o conteúdo ou o referente ocasionalmente pensado (Não se trata de relação comparativa. numa crítica a toda filosofia que procura o significado. autor por obra: adora Portinari por 'a obra de Portinari'. conseqüência pela causa: respeite os meus cabelos brancos por 'a minha velhice'. Antes. porém. por ter uma significação que tenha relação objetiva. determinar os princípios segundos os quais os significantes se articulam. [ Metáfora: designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança (p. Faz-se necessário. esfera etc. ele tem uma vontade de ferro. portanto.ex. Metonímia: 1 figura de retórica que consiste no uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal.. continente pelo conteúdo: bebeu uma garrafa de aguardente por 'a aguardente de uma garrafa'. a partir dos dois mecanismos básicos do Ics apontados por Freud – condensação e deslocamento . é que o significante não tem por função representar o significado. efeito.) 2.] 144 . como no caso da metáfora. mas que ele precede e determina o significado. proprietário por propriedade: vamos hoje ao Venâncio por 'ao restaurante do Venâncio'. para designar uma vontade forte. pessoa por coisa. a qualidade pelo qualificado: praticar a caridade por 'atos de caridade' etc. como o ferro).

Enquanto a metáfora é incompatível com o distúrbio da similaridade. vai interpretar como análogos às figuras lingüísticas da metáfora e da metonímia. seguindo Jakobson. Foi o próprio Jakobson quem relacionou os pólos metafórico e metonímico descritos pela lingüística com a condensação e o deslocamento apontados por Freud como mecanismos básicos da elaboração onírica.I . para afirmar em seguida que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. mecanismos esses que Lacan. a metonímia é incompatível com o distúrbio da contigüidade. o lingüista Roman Jakobson assinalou que todo os distúrbio afásico se distribui em torno de dois tipos polares: o metafórico e o metonímico. Já foi dito que a condensação e o deslocamento não são apenas mecanismos de elaboração onírica.B Ao estudar o problema da afasia.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas sim os “marcos distintivos do assim denominado processo psíquico primário. isto é. 145 .” É o próprio inconsciente que é estruturado seguindo os mecanismos da condensação e do deslocamento. ou são distúrbios da similaridade ou são distúrbios da contigüidade.

que vai constituir a significação do sonho. O deslizamento do significado sob o significante. 146 . Significante e significado são duas ordens distintas. Lacan chama a atenção do leitor dos textos freudiano para a abundância de referências filológicas e lógicas feitas por Freud e o quanto essas referências aumentam à medida que o inconsciente vai sendo tematizado mais diretamente. escreve Lacan é um “enigma em imagens” e “as imagens do sonho” só devem ser consideradas pelo seu valor significante. O que A Interpretação dos Sonhos coloca é o próprio sonho como uma linguagem.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . pelas suas relações de oposição.B Em seu artigo “A instância da letra no inconsciente”. A imagem não é ela mesma portadora do seu significado. constituindo duas redes de articulações paralelas. Essa distorção é produzida por dois mecanismos básicos: a condensação e o deslocamento. Há um deslizamento incessante do significado sob o significante e é a rede do significante. “O sonho”.I . nós o encontramos no trabalho do sonho em seu efeito de distorção.

Os processo metafórico e metonímico. mas que eles são formadores do inconsciente no recalcamento original.I . o fato de ela dizer outra coisa diferente daquilo que diz a letra. Na condensação teríamos a sobreimposição dos significantes dando origem à metáfora.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . pela substituição dos significantes com base na contigüidade. no deslocamento. Devemos entender que por isso não apenas que a metáfora e a metonímia regem o funcionamento do inconsciente. Segundo Lacan a metáfora e a metonímia vão nos fornecer a tópica desse inconsciente. 147 . nós os encontramos em funcionamento em todas as chamadas formações do inconsciente e são eles os responsáveis por uma das mais importantes características da linguagem: o seu duplo sentido.B O que Lacan faz é assimilar esses mecanismos à metáfora e à metonímia. isto é. que é a mesma que é definida pelo algoritmo S/s . teríamos o equivalente da metonímia.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . seriam apenas designativas de uma “orientação geral dos laços associativos num ou noutro sentido”. Do ponto de vista psicanalítico. Lacan não oferece uma explicaação detalhada do recalque originário. Segundo Anika Lemaire. e. Quanto à emergência do inconsciente. na metáfora. 148 . as próprias afirmações do psicanalista francês. esse efeito de alteração do sentido é obtido. as distinção entre os dois mecanismos não é tão clara.B Do ponto de vista da lingüística. segundo as quais “o desejo é uma metonímia” e “o sintoma é uma metáfora”. autora de um estudo sobre Lacan. pela substituição de significantes que apresentam entre si uma relação de similaridade. Lacan concorda com Laplanche e Leclaire no sentido de que o ingresso no universo simbólico é o momento de constituição do inconsciente. da metonímia. pela substituição de significantes que mantêm relações de contigüidade.

AO NÍVEL DA PRÓPRIA LINGUAGEM CONSCIENTE. 149 . 3. 2.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B O que se pode admitir como sendo o ponto de vista do mestre da Escola Freudiana de Paris é que a fase da emergência do inconsciente corresponde a uma primeira divisão do sujeito: a que separa o imaginário do inconsciente. Poderíamos admitir uma divisão anterior a essa ainda – a que existiria entre o imaginário e a pulsão -. A QUE SEPARA O IMAGINÁRIO DO INCONSCIENTE. mas sobre ela nada há a dizer.I . A QUE SEPARA O SIGNIFICANTE DO SIGNIFICADO. O imaginário é o que nos introduz nos domínios da subjetividade. Lacan estabelece uma barra separadora em tr6es níveis no ser humano: 1. A QUE SEPARA O INCONSCIENTE COMO LINGUAGEM E A LINGUAGEM CONSCIENTE. Segundo A. Lemaire.

Anterior ao simbólico. O vivente. O domínio do imaginário não é. mas esta pertence ao impensável. como pensam os analistas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas se apresenta sempre pelos seus representantes psíquicos. teríamos a pulsão. À libido ilimitada da fase anterior ao imaginário corresponderia uma libido limitada no plano do imaginário. Ela teria sua origem na perda originária. anteriormente ao imaginário. Essa limitação não é. O que a criança perde com o corte do cordão umbilical – diz-nos Lacan. fácil de pensar. mas uma parte de si mesma.B Foi dito que. mas a sua casca. ao romper o ovo. um complemento anatômico. Lacan compara essa perda ao ovo que perde a sua casca. nunca se dá por si mesma. idêntica à que ocorre após o ingresso no simbólico. sua mãe. não é. um pedaço de si mesmo. perde não a mãe. o imaginário constituiria o primeiro corte com o exercício pleno da pulsão. 150 . isto é. porém. a membrana que a protege. que é a separação do recém nascido de sua mãe. porém.I .

anterior ao desejo. a libido nunca estará presente. Essa falta será daí por diante. 151 . mas também o “homelette”. Como assinala Leclaire. ela não é nem a zona erógena nem o objeto.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . faz-se o homem. Ligada a um objeto imaginário. ela será marcada pela perda. inteira.B Quebrando o ovo. Daí por diante a libido poderá se expandir através das zonas erógenas. diz Lacan. o homem lhe designa limites corporais. invada tudo. A falta ou a “hiância” nos remete a essa incompletude fundamental do ser humano. A “letra”é o significante tomado em sua materialidade. pela incompletude. Ela é anterior à pulsão.I . e a pulsão limitada será transformada em “pulsão parcial”. movida pelo puro instinto de vida e guiada pelo real. Para evitar que essa massa informe. Constrangida pelas zonas erógenas. representada no imaginário pelo que Lacan e Leclaire chamam de “letra”. mas algo que necessariamente tem de ser referido a ambos. na subjetividade. pela insatisfação.

Miller. Essa interpretação não visa o sentido nem a significação. diretamente sobre o objeto causa do desejo. As primeira letras são inscritas numa fase a vida infantil muito anterior ao ingresso no simbólico e. um vazio. Nesse trabalho busca-se consolidar também a técnica de interpretação lacaniana. ela é um significante abstrato. É de notar que esse inconsciente não é ainda o inconsciente sistemático a que Freud se refere a partir de Traumdeutung (A Interpretação dos Sonhos). Quem principalmente tem se dedicado à formalização da teoria após a morte de Lacan. mas a representação da falta. está operando antes da formulação do desejo via letra.I . não está interpretando no desejo via significante. 152 . é J. aí dá para entender porque Lacan opera assim.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . inscrito no inconsciente (entendido aqui no sentido descritivo) e referido a uma experiência originária de prazer ou de desprazer. portanto. que já são mais de 12. mas opera no intervalo da cadeia. à aquisição da linguagem. em seus Seminários.B A letra não é a falta a que se refere Lacan. porque ele está operando antes do desejo. O legado de Lacan é muito grande. A letra é a marca que fixa uma falta. mas antes.A.

o conceito de objeto ‘a’ . o conceito de alienação e separação (Separação – a partir do verbo separare.. o grande Outro –A. é uma visão conceitual. Lacan empresta significações próprias para os conceitos de: Angústia. inclusive no Brasil Vamos citar alguns conceitos: destruição subjetiva e des-ser . os conceitos de metáfora e metonímia (já referidos). parir. o conceito de Palavra vazia .B Lacan introduziu muitos conceitos. Sintoma. está falando da causação do sujeito. gerar. a partir de uma lógica do significante). Lacan. que também quer dizer engendrar. o conceito de sujeito (Lacan faz a distinção entre o eu e o sujeito). diversas instituições de ensino organizam Curso de Pós-graduação mundo a fora. Introduz outros além dos já citados como: Direção do tratamento (. Transferência.) 153 . e para sua compreensão no contexto da psicanálise. bem como a contribuição toda de Lacan.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I ...

) Significante Objeto ‘a’. 3. Constituição do sujeito.B (. 7. ou seja. O sujeito do inconsciente. Teoria lacanina das pulsões.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .. 154 . Sedae Sapientia. O assunto não se esgota aí.. Abertura do Inconsciente Fechamento do Inconsciente. 1. “Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação. O estádio do espelho. Retorno a Freud com Lacan.I . O conceito lacaniano de Inconsciente. 4. Édipo e castração (Os complexos familiares – A primazia do Falo – A Metáfora paterna – Os três tempos do Édipo – Novas versões do pai no mundo contemporâneo). 2. Desejo Gozo – Repetição. 8. sob o título: CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA TEORIA DE JACQUES LACAN. Sintoma Fantasia. no sentido pleno que a análise atribui a esse termo. é a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. Os três registros: Real. Simbólico e Imaginário. 6. Tem ainda o conceito de estádio do espelho. Metonímia Metáfora. 5. Palavra Vazia Palavra Plena. A título ilustrativo apresentamos os conteúdos que integram um curso de 2 anos de pós-graduação do I. Sujeito do Enunciado.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE - I - B

9. O conceito de gozo; 10. Fantasia fundamental; 11. As saídas de Édipo (Recalque, recusa, forclusão. Neurose – Psicose – Perversão.)
[ forclusão: mecanismo psíquico de rejeição das representações insuportáveis, antes mesmo de se integrarem ao inconsciente do indivíduo, o que seria, segundo Jacques Lacan (1901-1981), a origem da psicose]

12. A concepção lacaniana do sintoma; 13. Modalidades de gozo nas manifestações sintomáticas contemporâneas; 14. A prática clínica. Transferência e repetição.
***

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PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE - I - B

9.1.8. CONTRIBUIÇÕES DE MELANIE KLEIN
“PROGRESSOS DA PSICANÁLISE” é o emblemático título de um livro de autoria de Melanie Klein, Paula Heimann, Susan Isaacs e Joan Riviere (Zahar Editores), para definir a pioneira da psicanálise infantil. Antes de focar as contribuições teóricas, vejamos alguns dados biográficos de Melanie Klein.
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Melanie née Reizes, posteriormente conhecida como Melanie Klein, nasceu na cidade de Viena, no dia 30 de março de 1882. Era filha do médico Moritz Reizes, judeu de origem polonesa, e de Libussa Reizes, fruto de um meio instruído e ilustrado, no qual preponderava a linhagem feminina, mas obrigada a trabalhar com a venda de plantas e répteis para ajudar na sobrevivência familiar. Teve três irmãos. Aos 18 anos perdeu o pais e dois anos depois seu irmão preferido. Ficou sob o jugo tirânico de sua mãe. Sua união com o engenheiro químico Arthur Klein, de personalidade severa, em 1903, pode também ter ocorrido por sua família estar enfrentando uma crise financeira, a mesma que teria motivado a jovem a abandonar o curso de Medicina, depois de se dedicar ao aprendizado de arte e história na Universidade de Viena. O trabalho de Arthur levava o casal a viagens constantes, durante as quais Melanie pode conquistar o conhecimento de diversos idiomas. O casal, depois de muitas desavenças, intensificadas pelas invasões da mãe dela, se divorciaria em 1926.
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Teve três filhos: Hans, Melitta e Erich Klein, posteriormente conhecido como Eric Clyne, nascido no mesmo ano em que a tirânica genitora de Melanie morre, criança que ela viria a analisar, atribuindo a ela outra identidade, chamando-o de Fritz. Nesta mesma época, em 1914, ela entra em contato com a obra de Freud, mais precisamente com seu texto Sobre os Sonhos, ao mesmo tempo em que começa a fazer terapia com Sandor Ferenczi, a qual ela tem que suspender por causa da guerra. Em 1924 ela retomará esse processo, desta vez com K. Abraham, na cidade de Berlim, mas um ano depois ele falece, obrigando-a a prosseguir a análise em Londres, com Payne. Em 1919 ela passa a integrar a Sociedade de Psicanálise de Budapeste, para onde havia se mudado com o marido, tentando salvar o casamento. Um ano depois ela conhece Freud durante o V Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA), e neste mesmo evento toma contato com seu futuro analista e mentor, Karl Abraham, em Haia.
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I . colocando em questão o conceito freudiano conhecido como Complexo de Édipo. ”. o kleinismo. contribuiu para o desenvolvimento considerável da escola inglesa de psicanálise. Após longo e fecundo período de trabalho. aos 78 anos de idade. Um ano depois Melanie expôs. Ela se devotou completamente ao ofício psicanalítico a partir de 1923. 159 . Logo depois. dando origem assim a um grupo fundado por discípulos kleinianos na Sociedade Britânica de Psicanálise. em 1927. o texto A técnica da análise de crianças pequenas. morre em 22 de setembro de 1960. no VIII Congresso Internacional de Psicanálise. vítima de câncer de cólon. Melanie Klein foi o principal expoente do pensamento da segunda geração psicanalítica mundial. e graças a Ernest Jones. Deu origem a uma das grandes correntes do freudismo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . que a chamou par a Grã-Bretanha. da qual ela passou a fazer parte neste mesmo período. ela rompe com Anna Freud. foi denominado Fritz.B O caso por ela apresentado diante da Sociedade Psicanalítica de Budapeste foi realizado com base na análise de seu próprio filho de cinco anos que. como dito acima. aos 42 anos.

160 . O kleinismo não é uma simples corrente. Na história do movimento psicanalítico. a uma corrente representada pelos diversos partidários de Melanie Klein. deu-se o nome de kleinismo. que desembocara. constitui-se como um sistema de pensamento a partir de um mestre (no caso. Com efeito. em oposição ao annafreudismo. Foi depois do período das Grandes Controvérsias. numa clivagem da British Psychoanalytical Society (BPS) em três tendências. o que fizera dela um chefe de escola. mas uma escola comparável ao lacanismo. “A psicanálise de crianças”. foi traduzida em quinze línguas e reunida em quatro volumes.B Melanie Klein transformou totalmente a doutrina freudiana clássica e criou não só a psicanálise de crianças. cunhando novos conceitos e instaurando uma prática original da análise.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . mas também uma nova técnica de tratamento e de análise didática. uma mulher) que modificou inteiramente a doutrina e a clínica freudianas. dentre os quais se incluem os pós-kleinianos que se pautam em Wilfred Ruprecht Bion. em 1954. da qual decorreu um tipo de formação didática diferente da do freudismo clássico. Sua obra. que o termo se impôs. composta essencialmente de cerca de cinqüenta artigos e de um livro.

inscreveram a loucura bem no âmago da subjetividade humana. numa evidenciação de ódio primitivo (inveja) próprio da relação de objeto e. tal como os lacanianos. “borderlines”. Assim. distúrbios da personalidade ou do “self ”).PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Melanie Klein e seus sucessores fizeram escola. transformando a interrogação freudiana sobre o lugar do pai. os kleinianos. 161 . inventando o próprio princípio da psicanálise de crianças (por uma rejeição radical de qualquer pedagogia parental) e.I . numa busca da estrutura psicótica (posição depressiva/posição esquizo-paranóide) que é característica de todo sujeito. sobre o complexo de Édipo e sobre a gênese da neurose e da sexualidade numa elucidação da relação arcaica com a mãe.B A partir do ensino de Karl Abraham. por último. integrando na psicanálise o tratamento das psicoses (esquizofrenia. por fim.

conforme à imagem que o psicótico tem do mundo e de si mesmo. baseado em regras precisas e.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Nessas condições. os conceitos e a anterioridade histórica.I . define-se como uma verdadeira doutrina. Como reformulação da doutrina freudiana original. num manejo da transferência que tende a excluir da situação analítica qualquer forma de realidade material em prol de uma realidade psíquica pura. 162 . ele faz parte do freudismo. articulada com o antigo suporte biológico e darwinista deste último. muito diferente do dos freudianos. que tem sua coerência própria. um saber clínico autônomo e um modo de formação didática particular. decorrente de “acting out”. em especial. O kleinismo. um corpo conceitual específico. do qual reconhece os fundamentos teóricos.B Por outro lado. É uma das modalidades interpretativas do freudismo. definiram um novo âmbito para a análise. Daí a criação do termo “acting in”. não revisou os fundamentos epistemológicos dele nem propôs qualquer teoria do sujeito. como fez o lacanismo.

dos quais todos os demais nada mais são do que substitutos metonímicos: o seio e o pênis. mas violenta. e o da posição depressiva. O conceito de identificação projetiva foi cunhada em 1932 por Melanie Klein para designar um mecanismo de defesa que se traduz por fantasias em que o sujeito introduz partes cindidas de sua consciência no interior do objeto para lesá-lo. toda perda. de dois objetos psíquicos parciais e primordiais. ao trabalho de luto e à reparação. Essas duas posições referem-se à perda. consecutivos. na qual a perda é realmente comprovada.I . chamada por M.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .Klein de “cena materna”. Ambos os objetos parciais entram em jogo em uma cena imaginária inconsciente. 163 . que combate de forma ilusória.B A teoria kleiniana estrutura-se sobre dois conceitos: o da posição esquizoparanóide. possuí-lo ou para controlá-lo.

baseada na observação de brinquedo livre de crianças. Ela também concordou com Freud que o instinto agressivo é uma extensão do instinto de morte e a libido uma extensão do instinto de vida. o qual. Klein divergiu de Freud na suposição de que o ego existe ao nascimento. conceito que ela introduziu na psicanálise 164 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Sua teoria da psicopatologia. projetado para fora.I . Tanto agressão como libido são expressas desde o nascimento em diante por fantasias inconscientes. diz que a agressão inata excessiva ou a reação psíquica à agressão era a causa de distúrbios emocionais severos como os transtornos psicóticos. TEORIA DA PERSONALIDADE Melanie Klein concordou com Sigmund Freud que a agressão e a libido são os dois instintos básicos. Ela acreditava que o instinto de morte é traduzido após o nascimento em sadismo oral. destrutivo. dá lugar às fantasias de um seio mau. devorador.

por exemplo. ganância e ciúme como manifestações do instinto agressivo. 165 . Ganância é a manifestação da insaciabilidade humana. Inveja é o sentimento raivoso de que alguém mais tem e desfruta de algo desejável. Esta inveja primária dá lugar a outras formas de inveja. sua meta é a absorção destrutiva do objeto desejado. a resposta invejosa é tomar isso ou estragá-lo. Ela conduz a esforços de danificar o seio frustrante e torná-lo menos desejável.I .B Klein diferenciou inveja. Inveja oral. Ciúme é o medo de perder o que se tem.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . incluindo a inveja do pênis. Ele se desenvolve a partir de relacionamentos triangulares. Em um nível mais maduro. a terceira pessoa é odiada porque esta pessoa recebe amor ou atenção e potencialmente diminui a disponibilidade das provisões libidinais. a inveja é voltada em direção à criatividade dos outros e frustra o desenvolvimento da criatividade pessoal devido ao medo da inveja projetada sobre os outros. como na situação edípica. resulta da fantasia de que o seio frustrante retém deliberadamente.

parte dele funde-se com a libido.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I .B Embora o instinto de morte seja em grande parte projetado como medos paranóides. o ego tenta preservar uma visão de si mesmo como apenas uma fonte de prazer e sentimentos positivos. tensão e desprazer são projetados sobre objetos que são então vistos como persecutórios. O seio gratificante é então introjetado como a base para um sentimento do self como bom. A projeção do objeto interno bom sobre objetos recémexperimentados é a base da confiança. dando lugar a tendências masoquistas. o que torna a aprendizagem e o acúmulo de conhecimento possíveis. 166 . Esta gratidão. A Libido é investida em objetos como o seio. a manifestação mais precoce do instinto de vida é a base do amor e da generosidade. Desde o momento do nascimento. O bebê fica grato quando é física ou emocionalmente saciado.

A ansiedade é a resposta do ego ao instinto de morte. Ele desenvolve e mantém relações de objeto e tem funções integrativas e sintéticas. Projeção de tensões internas e percepção de estímulos externos dolorosos resulta em medos paranóides. a ansiedade posteriormente torna-se o medo de objetos maus introjetados que são a origem da ansiedade de superego primitiva. Ela é reforçada pela separação do nascimento e por necessidades corporais frustrantes como a fome. Os principais meios de crescimento do ego e defesa de ego são projeção e introjeção. Medos de ser devorado no estágio oral do desenvolvimento tornam-se medos do estágio anal de ser controlado e envenenado e os medos edípicos de castração. A projeção de estados prazerosos dá lugar à confiança. o medo de objetos persecutórios. A introjeção de experiências positivas torna possível desenvolver bons objetos internos que são a base para o crescimento do ego 167 . O ego tanto experimenta como se defende contra a ansiedade.I . os quais integram o ego e neutralizam o instinto de morte.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Teoria do ego. A princípio. Sua projeção resulta em objetos persecutórios internalizados.

são reconhecidos como tal. O reforço de cisão pode interferir com a percepção acurada e pode resultar na eventual negação da realidade. Assim. Relações de objeto parciais caracterizam o estágio mais inicial do desenvolvimento. determinados aspectos.a posição paranóide-esquizóide. as relações de objeto totais caracterizam a posição depressiva. À medida que a criança amadurece. Experiências desagradáveis e emoções associadas a objetos externos e introjetados são dissociadas de experiências e emoções agradáveis através de um processo de cisão (spliting). A eventual síntese de bons e maus objetos parciais capacita o crescimento de ego e a integração da realidade. a cisão diminui. um estágio transicional nas relações de objeto é relações de objeto parciais. 168 .B Anteriormente objetos no ambiente. Se a agressão predomina sobre a libido. tais como a mãe.I . a idealização ocorre e a cisão é reforçada.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . como o seio. são tratados como objetos. a síntese de bons e maus aspectos de objetos ocorre e relacionamentos ambivalentes tomam-se possíveis.

Objetos externos idealizados também protegem contra objetos persecutórios. Fuga em direção a um objeto interno bom idealizado pode proteger a pessoa da realidade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mas pode fazer isso ao custo de testagem de realidade prejudicada e pode dar lugar a estados psicóticos exaltados ou messiânicos. Tentativas de controlar o perseguidor percebido então se tornam um veículo para a atuação de sadismo contra o perseguidor imaginado.I . Identificação projetiva. deste modo satisfazendo fantasias de gratificação ilimitada. o protótipo de todos os mecanismos projetivos. como um seio inexaurível para proteger contra frustração. 169 . A pessoa sobre quem a projeção de impulsos sádicos é feita passa a ser vista como um perseguidor que deve ser controlado. a projeção de partes dissociadas de um objeto interno sobre uma outra pessoa é usada principalmente para expelir maus objetos internos e partes más do self.B Idealização é uma operação defensiva que preserva objetos internos e externos todos bons.

A posição esquizo-paranóide é caracterizada por dissociação.B Embora M. aliada à formação de ansiedade excessiva do ego e baixa tolerância de ansiedade.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A posição esquizo-paranóide e a posição depressiva ocorrem na primeira e segunda metade. do primeiro ano de vida. respectivamente. idealização. relações de objeto parciais e uma preocupação básica ou ansiedade persecutórias sobre a sobrevivência do self. Klein concordasse que fatores ambientais podem desempenhar um papel em estimular a agressão excessiva.I . Posições esquizo-paranóide e depressiva. ela enfatizou como a causa de distúrbio emocional a força inata da agressão. identificação projetiva. 170 . Elas também podem ocorrer em diversos momentos na vida como constelações defensivas e estão envolvidas em conflitos relacionados a todos os níveis psicossexuias. negação. O termo "posição” foi preferido por Klein em relação a "estágio" porque ele enfatiza o efeito do ponto de vista da criança sobre suas relações de objeto.

levando a despersonalização ou superficialidade afetiva. especialmente perda causada pela agressão da criança. no entanto. a agressão inata é abertamente forte e se maus introjetos predominam.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Os medos persecutórios são impulsos oral-sádicos e anal-sádicos projetados. O reconhecimento da mãe como uma pessoa integral torna a criança vulnerável à perda.I . nos segundos seis meses de vida. a dissociação secundária dos maus introjetos pode levar a projeção sobre muitos objetos externos. 171 . Ela pode também interferir na percepção acurada e conduzir a negação da realidade. A dissociação pode persistir e fragmentar experiências afetivas. Na posição depressiva. resultando em muitos perseguidores externos. a libido predomina sobre a agressão. à posição depressiva. o bebê reconhece que sua mãe tanto gratifica como frustra e ele se torna ciente de sua própria agressão voltada em direção a ela. a posição esquizoparanóide dá lugar. Se eles não são superintensos. Se.

cuja principal característica é a negação de realidades psíquicas dolorosas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A posição depressiva também mobiliza defesas maníacas. de modo que a sua perda não dá lugar a dor ou culpa.I . Os maus aspectos de pessoas necessárias são negados. levando a um empobrecimento tanto da experiência de realidade como da testagem de realidade. Sentimentos ambivalentes e dependência de outros são negados. objetos são onipotentemente controlados e tratados com desprezo. Ele coloca valor sobre o comportamento e ele pune ou proíbe o comportamento que ele considera ser errado ou mau.B O mecanismo da idealização evolui durante o período depressivo na idealização do objeto bom (mãe) como uma defesa contra a agressão da criança em direção a ela e sua culpa acompanhante. O superego kleiniano funciona como o superego freudiano clássico. Este tipo de idealização conduz a uma superdependência sobre outros. TEORIA DO SUPEREGO. 172 .

O superego assimila os aspectos proibitivos exigentes destes objetos. O ego assimila os objetos com os quais ele pode identificar-se positivamente. O superego desenvolve-se de maus objetos projetados cindidos experimentados como persecutórios. O predomínio normal de amor sobre ódio na posição depressiva resulta na internalização de objetos principalmente bons no superego.B Klein sustentou que o desenvolvimento do superego começa durante a posição depressiva. portanto. 173 .I . a pressão de superego excessiva causa regressão para a posição esquizo-paranóide. que são posteriormente introjetados. Culpa é a reação aos impulsos sádicos atribuída a estes introjetos que se tornam parte do self. mas mesmo sob circunstâncias ideais predominantemente bons objetos de superego são contaminados pelos objetos maus. tem qualidades persecutórias (derivadas de introjetos persecutórios) e exigentes (derivadas dos aspectos exigentes dos pais bons idealizados).PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . O superego. Estes objetos bons neutralizam os objetos internos maus.

ESTÁGIOS INICIAIS DO COMPLEXO DE ÉDIPO. A idealização de objetos internos bons geralmente conduz a bom comportamento e a compensação pelo mau comportamento.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . mais perfeccionistas são as exigências do superego. O desejo por dependência oral da mãe é deslocado para o pai. Quanto mais idealizados são os bons objetos contidos no superego. com fantasias orais e genitais influentes desde o nascimento em diante.I . 174 . Os estágios iniciais do complexo de Édipo começam durante a posição depressiva. Ansiar pelo seio bom torna-se um desejo pelo pênis do pai.B Através da culpa ou preocupação em relação à perda de amor parental. Klein supôs um conhecimento inato dos genitais de ambos sexos. A predominância nos meninos de uma boa imagem do pênis do pai promove o desenvolvimento do complexo de Édipo positivo. confiar em um pai bom e dotar a mãe com um pênis bom inicia um complexo de Édipo positivo em meninas. o superego protege seus objetos bons introjetados. O seio mau é também deslocado para o pênis mau.

de fato. o medo do desejo oral-sádico projetado de destruir o pênis do pai. Este medo torna a identificação com o pai difícil e predispõe à inibição sexual e medo de mulheres.I . Agressão excessiva em meninas pode dar lugar a fantasias inconscientes de roubar a mãe do amor.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . os desejos orais e genitais pelo pênis do pai combinam com inveja do pênis desenvolvendo-se como um derivativo da inveja do seio interior. o menino edípico vê o pai como um perigoso castrador potencial.B Quando a agressão predomina. esta expectativa baseia-se na experiência de um seio bom. do pênis e dos bebês do pai e pode estimular medos de retaliação materna. a inveja do pênis deriva de sadismo oral e não é uma inveja primária dos genitais masculinos ou um aspecto primário da sexualidade feminina. 175 . Boas experiências orais em meninas resultam na expectativa de um pênis bom. Em meninas. O medo de castração é. Culpa em relação à agressão em direção ao pai reforça a repressão do complexo de Édipo. Deste modo.

176 . expressando amor e gratidão e assim. corre para a mãe. em contraste com o medo de prejuízo externo encontrado na posição esquizo-paranóide. joga seus braços ao redor dela e diz "desculpa".PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . aumentados pela testagem de realidade. a criança torna-se ciente de que bons e maus objetos externos são em realidade um só. Normalmente. A criança chora. o medo principal na posição depressiva é de prejudicar os objetos externos e internos bons daí a necessidade para o superego. MECANISMOS DE RESOLUÇÃO DO TRABALHAR. Este reconhecimento corta o mecanismo de projeção. A reparação. aceitação de ambivalência. as crianças tornam-se cientes das suas próprias partes infernais. os mecanismos de reparação. mas. Além disso.B À medida que a cisão decresce durante o primeiro ano de vida. preservando-o. gratidão e luto capacitam a criança a resolver o período depressivo. o antecedente da sublimação.I . Os bebês então reconhecem sua agressão em direção ao objeto bom e também reconhecem os aspectos bons das pessoas a quem eles atacaram por ser más. é um esforço saudável para reduzir culpa em relação a ter atacado o objeto bom tentando reparar o dano.

começou a aplicar técnicas de grupos de base psicanalítica. Através de ser amadas. A crescente percepção de amar e odiar a mesma pessoa promove a capacidade de experimentar e tolerar ambivalência. idealmente com uma preponderância de amor sobre ódio. seguidor de M. A psicopatologia kleniana. Klein que atuando como psiquiatra do exército britânico.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Ambos os temas fogem do objetivo da disciplina. ao invés de como fragmentos autônomos. por ser extensa.I . 177 . as crianças vêm a enxergar a si mesmas e a seus objetos internos como bons. assim como a questão da técnica de tratamento. Deve-se fazer referência ainda a Wilfred Bion. mereceria um apêndice. Os objetos introjetados são vistos como inteiros e vivos.B A testagem de realidade aumentada resulta de cisão reduzida e da capacidade crescente de avaliar objetos inteiros e o self total.

entre outras obras) e de José Bleger e sua teorização sobre Psicologia Institucional. a partir de autores como Henrique Pichno-Rivière (Del Psicoanalisis a la Psicologia Social. É sensível sua influência no universo PSI.I . *** 178 . especialmente na Argentina e no sul do Brasil.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Bion construiu a partir daí todo um referencial teórico.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . TEORIA ANALÍTICA DE CARL GUISTAV JUNG 179 .2.I .B 9.

um leito de experiências aterradoras que ainda podem surgir na consciência.1. e com um conhecimento aparentemente inesgotável sobre mitologia. definiu o inconsciente como algo muito desagradável . Para ilustrar isto. Lançou-se à tarefa equipado com os antecedentes da teoria freudiana. Realmente. 180 . Porém. jovem colega de Freud. fez deste postulado o núcleo de seu trabalho como teórico.isto no soa como algo que queira que esteja de acordo com minha consciência!” Carl Jung. era especialmente douto no simbolismo de tradições místicas complexas tais como gnosticismo. este é Carl Gustav Jung. se dedicou à exploração do “espaço interno” a través de todo seu trabalho. Se há uma pessoa que tenha um sentido do inconsciente e seus hábitos como capaz de se expressar só de forma simbólica.I . religião e filosofia. certamente. cabala e tradições similares no hinduísmo e no budismo. INTRODUÇÃO “Freud disse que a meta da terapia era tornar consciente o inconsciente.B 9. Francamente. Ademais. um poço sem fundo de anelos incestuosos e perversos. alquimia.2.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . consideremos o seguinte: é um caldeirão de desejos estabelecidos.

B Além disso. em primeiro de agosto desse ano. Em seguida as águas se transformaram em sangue. No outono de 1913 teve a visión de una “inundação monstruosa” que fundia quase toda a Europa e cujas águas chegavam até as encostas das montanhas de sua Suíça natal. Desde este momento até 1928.I . Estava assustado com receio de estar ficando psicótico. Jung acreditou que de alguma maneira existia una conexão entre ele como individuo e a humanidade em geral que não podia se explicar. começou a Primeira Guerra Mundial. Nas semanas seguintes à visão. surgiram sonhos de invernos eternos e rios de sangue.Jung teve a capacidade de um sonhar lúcido e de ilusões ocasionais. foi se mantendo num processo doloroso de auto-exploração que formaria a base de sua futura teoria.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Entretanto. Viu milhares de pessoas se afogando e a cidade tremendo. 181 .

B Cuidadosamente começou anotar seus sonhos. Um duende marrom-couro apareceu como zelador da entrada para o inconsciente. Achou que suas experiências tendiam a tomar formas humanas. 182 . uma companhia primitiva do EGO de Jung. e os desenhou.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .a alma feminina. a que chamou de Siegfred. que prontamente causaria uma grande dor sobre toda Europa (assim como também um aviso a cerca dos perigos de algumas de suas próprias tendências a respeito da empresa heróica de Sigmund Freud). começando por um sábio ancião e seu acompanhante. Para este. fantasias e visões.I . pintou e esculpiu. Era “a sombra”. A menina pequena se converteu na “anima”. que servia como meio de comunicação (medium) entre o homem e os aspectos mais profundos de seu inconsciente. Jung sonhou que tanto ele como o duende haviam assassinado a preciosa menina ruiva. una menina pequena. Até uma espécie de guru espiritual. esta cena representava uma precaução com relação aos perigos do trabalho dirigido somente a obter a glória e o heroísmo.

Mas Jung acreditava que se queremos entender a selva.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Não aquele “pequeno” inconsciente que Freud fez tão grande. não apenas nossos fantasmas pessoais. 183 . senão um novo inconsciente coletivo da humanidade. entenderíamos estes fantasmas. numa época em que se supõe que ninguém acreditava neles. isto representava o inconsciente mesmo.B Jung também sonhou muito com questões relacionadas com a morte. com o território dos mortos e o renasimento dos mesmos. não importa quão estranha ou aterradora possa parecer. Para ele.I . Um inconsciente que podia conter todas as mortes. nos sentiríamos à vontade com a morte e assim superaríamos nossas patologias mentais. não nos podemos contentar em andarmos pelos seus arredores. Jung começou a considerar que os enfermos mentais estavam possuídos por estes fantasmas. Somente “recaputarando” nossas mitologias. Devemos entrar nela. Os críticos sugeriram que Jung estava simplesmente enfermo quando tudo isto ocorreu.

Empédocles. Jung também lia alternativamente varias outras línguas antigas como o sânscrito (a língua original dos livros sagrados dos hindus). Além de ler a maioria das línguas modernas do ocidente europeu. Seu padre. em especial pela linguagem e literatura antiga.I . Em sua juventude sentiu-se atraído pela Filosofia e pela literatura especialmente de Pitágoras. O pai iniciou Carl no Latim com a idade de 6 anos o que desde o início aceitou com grande interesse. Parmênides. Estava de acordo com o irracionalismo que este autor outorgava à natureza humana. O menino Carl cresceu cercado por uma família muito culta. era pastor (clérigo) e sua mãe Emilie Preiswerk Jung.B Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho de 1875 numa pequena localidade da Suíça chamada Kessewil. sua maior descoberta a encontrou na obra de Schopenhauer. Porém. mas não com as soluções que dava. Platão. Kant y Goethe. Paul Jung. 184 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Heráclito.

Freud cancelou todos os seus compromissos do dia. Sob sua influência. a maior autoridade em esquizofrenia. termo por ele introduzido para designar este distúrbio mental.I . Sendo um grande admirador de Freud. Freud considerou a Jung como o príncipe da coroa da psicanálise e sua mão direita. se casou com Emma Rauschenbach.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . se estabeleceu no Hospital Psiquiátrico de Burghoeltzli em Zurich. também dedicou parte do seu tempo a dar aulas na Universidade de Zurich e a manter um consultório particular. Tal foi o impacto de este encontro entre estas duas mentes privilegiadas!. Em 1903. sob a tutela de Eugene Bleuler. Pouco depois de sua licenciatura.B Embora sua primeira escolha de carreira tenha sido a arqueologia. Foi neste consultório que inventou a “Associação de Palavras”. ou teste de associação de palavras. Conta-se que depois de conhecê-lo. 185 . Nesta época. para continuar uma conversa que duraria 13 horas contínuas. Eventualmente. por fim conheceu-o em Viena em 1907. Ali conheceu o famoso neurologista Kraft-Ebing. estudou psiquiatria. e chegou a trabalhar com ele. se decidiu pela medicina na Universidade de Basel.

Graville Stanley-Hall.I . Jones e Ferenczi 186 . Na segunda fila C.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Foto clássica: na primeira fila. E. Jung. Abraham.G. C. Freud.

por acaso que Carl Gustav Jung foi eleito primeiro presidente da Sociedade Psicanalítica de Viena.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .cargo que ocupou de 1910 a 1914. 187 . A libido era o conjunto de energia vital (conceito que tomou de Henri Bergson) indiferenciada.B Não foi. continuo sua colaboração com Freud.I . pois. A pesar de que isto o tenha levado a questionar a teoria freudiana. Jung escreveu um manual clássico sobre a esquizofrenia. Para Jung a teoria da libido sexual de Freud era restritiva e incompleta. Jung estava de acordo com Freud quanto à importância do inconsciente. Como resultado trabalho na clínica de Breuler entre 1900 e 1907. porém não quanto à concepção do mesmo. não encontrando conformação de etiologia sexual. Nesta época tenta aplicar as teorias freudianas aos pacientes esquizofrênicos. que continha entre outras motivações a motivação sexual.

B Ademais. era só o principio de uma das teorias da personalidade mais interessantes que o mundo já conheceu. que põe um ponto final a sua relação com Freud. Sem embargo. Jung comenta que Freud lhe pediu para ser fiel à sua teoria sexual (da mesma maneira que o fizera Adler) e não se abandonar ao estudo do “obscurantismo” . A Primeira Guerra Mundial foi um período especialmente doloroso de auto-exame para Jung. que continha o conjunto da herança espiritual da evolução da humanidade. junto ao inconsciente pessoal existe na psique humana o inconsciente coletivo ou universal. Com esta concepção Jung reintroduz novamente na psicologia a alma entendida psiquicamente. Precisamente no estudo do "obscurantismo" (inconsciente coletivo) foi onde Jung encontrou os elementos para sua nova psicologia.I . 188 . Já na obra de Jung "Transformações e símbolos da libido" aparece esta concepção do inconsciente.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

Jung viajou muito.2. 9. recolhendo-se da vida pública a partir de este momento até a morte de sua esposa em 1955. Jung via Nietzche e Freud como representantes de dois dos maiores temas da cultura ocidental: o poder e eros.B Depois da guerra. Visitou desde tribos na África até populações da América e da Índia. A obra Fausto. Faleceu em 6 de junho de 1961 em Zurich. 189 . além de tudo o que já foi exposto. e proporcionou a compreensão do poder do mal e de sua relação com o crescimento e o autoconhecimento. de Goethe. influenciou a concepção junguiana de desenvolvimento individual.2. ESTRUTURA DA PERSONALIDADE Antes de abordar a estrutura da personalidade é preciso mencionar. alguns antecedentes intelectuais.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . Aposentou-se em 1946.

Jung desenvolveu teorias próprias a respeito da individuação ou integração da personalidade.I . dissimuladas em metamorfoses químicas e mágicas. Mais tarde ele se impressionou profundamente por diversas tradições orientais. A transformação de metais básicos em ouro. 190 . por exemplo. que forneciam a conformação exterior de muitas de suas próprias idéias. Ele estava especialmente interessados no símbolos e conceitos usados para descrever este processo. pode ser vista como uma metáfora para a mudança da personalidade e da consciência no processo de individuação. Prosseguindo em suas pesquisas sobre mitos e símbolos. Ele analisou os tratados alquímicos como representações da mudança interna e da purificação.B Jung pesquisou as tradições ocidentais que lidavam com o desenvolvimento da consciência.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

B Richard Wilhelm. um texto espiritual chinês clássico. correspondem rigorosamente ao processo de individuação que ele observou em seus pacientes ocidentais. O conceito oriental de mandala também influenciou fortemente o pensamento de Jung. enviou a Jung o manuscrito de sua tradução do Segredo da Flor de Ouro. do desenvolvimento psíquico interno e da integração. Jung argumentou que os procedimentos orientais para a individuação. como Ioga e Budismo. Jung descobriu que seus analisandos produziam de forma espontânea desenhos de mandalas ainda que fossem completamente estranhos à arte ou filosofia orientais.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . são geralmente inadequados para os ocidentais. um estudioso alemão que viveu na China por muitos anos. 191 . Mandala é a palavra sânscrita para círculo ou para um esquema ou diagrama circular usado com freqüência em meditação e outras práticas espirituais. expresso em termos de alquímicos. Jung descobriu que as descrições orientais do crescimento espiritual.

192 . o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. é a única parte que o individuo conhece diretamente. Sua função fundamental eé servir ao sujeito para se adaptar ao ambiente. o sentido do "si-mesmo". Esta parte da mente. A consciência tem um papel secundário com respeito aos dois inconscientes.B A TEORIA DE JUNG -A. Esta atividade egóica organiza a atividade consciente que consta de pensamentos. percepções e sentimentos conscientes. que inclui qualquer coisa que no esteja presente na consciência. O Eu (EGO).I . o qual se identifica com a mente consciente.ESTRUTURA DA MENTE- No modelo teórico de Jung a psique consta de três partes: a consciência. Relacionado proximamente se encontra o inconsciente pessoal. A primeira é o EGO. O “EGO" é a parte central da consciência e tem a função de fornecer o sentido de continuidade e identidade pessoal a través da vida. portanto não é idêntico à totalidade da Psique. que é a consciência. memórias. mas que não está isenta de estar.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

identidade que se veria ameaçada pela irrupção da psicose e a desorganização pessoal. 193 . A diferença reside no fato de que não contém os instintos que Freud incluía. as que podemos trazer rapidamente à nossa consciência e aquelas lembranças que foram reprimidas por alguma razão. de tal maneira que tudo que entre em sua atividade permanece inconsciente.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . no entanto inclui ambas as memórias.B Além disso o EGO desempenha o papel de guardião do umbral da consciência. O inconsciente pessoal seria como o que as pessoas entendem por inconsciente. pois através da seleção e eliminação de certos materiais psíquicos o sujeito se sente organizado e portador de uma identidade. se as funções do EGO são excessivamente preponderantes. El papel seletivo do EGO permite que o indivíduo mantenha sue sentido de identidade e continuidade pessoal. desequilibram a homeostase com os elementos inconscientes da Psique e produzem determinados transtornos psicológicos como as neuroses. se a função do EGO desaparecesse por completo. Contudo.

neste aspecto do inconsciente pessoal subscreve parcialmente a concepção de Freud. 194 . concebida psicologicamente. enquanto que para Jung tem um componente indiferenciado ao estilo da energia vital (elam vital) de Henri Bergson. A Libido para Jung é uma energia vital indiferenciada. Também contem as funções da "percepção subliminal" e atividade dos sonhos e fantasias relacionadas com lembranças. mas sem incluir os instintos. A Libido ou energia psíquica inconsciente que guia as motivações humanas tem para Freud uma finalidade sexual.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Jung. desejos e experiências pessoais reprimidas ou olvidadas. o sopro da "alma“ mesma. O inconsciente pessoal para Jung não se caracteriza por ter apenas uma carga sexual e/ou agressiva.I . Este ponto ele o esclarece na concepção da Libido distinta da freudiana. como já foi dito.B O inconsciente pessoal abarca aquele s aspectos da mente que foram reprimidos e as lembranças aparentemente esquecidas.

só pode ser inferido a través de certas atividades humanas como os sintomas. e sobretudo em sua atividade se destacam os “COMPLEXOS. também pode conter experiências pessoais esquecidas ou reprimidas por outras motivações. O examinador anota a resposta juntamente com o tempo decorrido entre a papalva dita pelo examinador e a resposta do sujeito (tempo de latência). de una lista de umas cem palavras. mas relegou-o a segundo plano frente ao seu método de “associação livre”).admitiu isso na época em que ambos colaboravam. No método de associação de palavras se pede ao sujeito que responda a uma palavra.I . ao contrário dos processos conscientes que podem ser conhecidos diretamente ao nos darmos conta deles.B O inconsciente pessoal. com a primeira que lhe venha à mente. os complexos e os símbolos. 195 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .” O inconsciente pessoal. Jung propôs que seu "teste de associação de palavras" pode detectar os complexos vinculados ao inconsciente pessoal (Freud.

196 . (6) repetir a mesma palavra do estímulo. (5) responder com uma associação superficial (p.ex. Jung considerou que determinadas respostas indicam a presença de um complexo emocional : (1) una reação retardada .ex.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . surpresa.I . (8) indicadores de pobre reprodução (quando numa segunda passada do teste há mais de uns 20% de respostas diferentes pode estar presente um complexo) e (9) a presença de respostas emocionais ao teste como o gaguejar. que tenta ocultar ). (3) respostas pessoais (p. azar---->não creio nele). (2) respostas múltiplas (o sujeito emprega várias palavras como indicador de não controle de sua resposta. envergonhar-se. (4) a perseveração (dar as mesmas respostas ante palavras estímulos muito variadas ) ..:ante a palavra estímulo se responde : bailar--->a amo .B Se o sujeito não percebe inconscientemente que a palavra estímulo não se relaciona com nenhum complexo (veja o conceito de complexos) este responderá rapidamente com alguma outra palavra. casar-se---->casado) . mudanças freqüentes de postura e outras reações . a rouquidão. (7) a absoluta impossibilidade de responder (o indicador mais forte da presença de um complexo ).

. o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. A persona inclui nossos papéis sociais. Este ponto será melhor explicado no item sobre os complexos. 197 . quanto ao papel autônomo que tem estes na concepção de Jung. Uma persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada.B A concepção do inconsciente pessoal se baseia na teoria dos complexos.I . A PERSONA Nossa persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . através dela nos relacionamos com os outros. A persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. e diferente da freudiana. É o caráter que assumimos.

B Jung chamou também a persona de “arquétipo da conformidade”. a persona não é inteiramente negativa. símbolos papel ocupacional (instrumentos.I . nosso Ego se altera gradualmente nesta direção. diplomas. 198 . pasta de documentos) e símbolos de status como casa. A persona também é instrumento precioso para a comunicação. À medida que começamos a agir de determinada maneira. incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Entretanto. a desempenhar um papel. véus). Ela serve para proteger o EGO e a Psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A persona pode com freqüência desempenhar um papel importante no nosso desenvolvimento positivo. Entre os símbolos comumente usados pela persona.

É o substrato mais profundo da mente. a terceira região da Psique.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . já que contem as experiências e as mensagens primordiais da humanidade. é mais importante na vida do sujeito. O inconsciente coletivo está dotado de propósito e intencionalidade. o inconsciente coletivo não deriva das experiências ambientais e pessoais do sujeito. cuja força energética repousa em elementos primordiais ou arcaicos. Por outro lado.I . Conforma a dimensão objetiva da Psique (frente à subjetiva do inconsciente pessoal). ao conter a experiência humana das gerações da humanidade. presente em todos os indivíduos desde o nascimento.B O inconsciente coletivo. Esta região da mente jamais pode adoecer. chamados "arquétipos" . 199 .

I .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B 200 .

fundamentalmente. a criação artística ou outros fins.I .DINÂMICA DA PERSONALIDADE Em 1912 Jung publicou suas idéias relativas à libido em seus livros "Transformação e símbolos da libido" e “A psicologia do inconsciente". constituem sua libido.B . a energia vital pode ser canalizada para outros fins como as produções culturais ou criativas do sujeito.B – A LIBIDO E OS PRINCÍPIOS DA EQUIVALÊNCIA E DA ENTROPIA . Só existe a "energia vital indiferenciada" que como força motriz da conduta pode adotar a forma de persecução do prazer sexual. A finalidade da energia vital é. proporcionar a conservação e a continuidade da espécie humana. que subjaz aos processos físicos e mentais do homem. A energia geral da vida. luta pela superioridade. A libido supunha a totalidade da energia psíquica indiferenciada.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A conduta humana não está determinada pela libido sexual de Freud. Uma vez satisfeitas as necessidades de sobrevivência de origem biológica. 201 . nem pela compensação do sentimento de inferioridade de Adler. obras que marcavam suas diferenças e ruptura com Freud.

A energia mental. segue o princípio de conservação ou "equivalência" que estabelece que a falta ou ausência de energia numa região psíquica se fará presente em outra área ou atividade mental. rege a atividade da libido. oposto. a medida da energia não disponível para a realização de trabalho]{enantiodromia: enatio= contrário. maior é a energia liberada. ademais. e chega até Hegel em sua dialética.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A mente é um sistema que se auto-regula com base na luta entre tendências opostas. Este princípio da entropia foi descoberto pelo filósofo grego Heráclito. Existe uma função reguladora dos opostos chamada "Enantiodromia" (entropia [num sistema físico. 202 .I . o calor frente ao frio. etc. drômico + ação de corre}) que para Jung é a lei fundamental e a base de todo o funcionamento psicológico. É a lei inerente à atividade humana. Quanto maior é o conflito e a oposição entre os opostos. consciente versus inconsciente. A energia psíquica é o resultado de uma luta entre atividades opostas.B O "princípio dos opostos" ou dialética interna da Psique. que Jung estudou profundamente.

Ou. se cada vez mais valores se expressarem no lado sombra da personalidade. Se um valor for reprimido. por exemplo o ego.B O Princípio da Equivalência afirma que se for gasta energia para provocar uma determinada condição. talvez na persona. o princípio da equivalência afirma que. 203 . Por exemplo. se um valor específico se enfraquecer ou desaparecer. ela vai aparecer em algum outro sistema.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Conforme aplicado ao funcionamento psíquico por Jung. mas reaparecerá em um novo valor. Em termos de funcionamento da personalidade. ele se fortalecerá à custa de outras estruturas da personalidade. o princípio afirma que. sua energia pode ser usada para criar sonhos ou fantasias . seu interesse por outras pessoas e coisas aumentará. a soma da energia representada pelo valor não será perdida. a quantidade gasta aparecerá em outro lugar do sistema.I . à medida que diminui a valorização que uma criança atribui à família. se for removida a energia de um sistema. Em Física esta é a primeira lei da Termodinâmica ou lei da conservação da energia.

esse é o estado ideal almejado pela distribuição de energia. O princípio da entropia conforme adaptado por Jung para descrever a dinâmica da personalidade afirma que a distribuição de energia na psique busca um equilíbrio. Embora um equilíbrio permanente de forças na personalidade jamais possa ser atingido.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . estabeleceu que. quando dois corpos de diferentes temperaturas são colocados em contato. O princípio da entropia. o calor vai passar do corpo mais quente para o corpo mais frio. ou a segunda lei da Termodinâmica.B A energia está continuamente fluindo de um sistema da personalidade para outro. Essas distribuições de energia constituem a dinâmica da personalidade. Tal estado ideal em que a energia total está regularmente distribuída em todos os sistemas totalmente desenvolvidos é o SELF. 204 .

estando as forças opostas equilibradas. 205 . A operação desse sistema significa que um sistema fraco tenta melhorar seu status à custa de um sistema forte.I . é supervalorizado em relação ao inconsciente. pela tentativa por parte da energia de passar do sistema consciente para o inconsciente. Quando na mente existe um equilíbrio entre a energia de suas regiões.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . experimentando o sujeito um sentimento de bem-estar e felicidade chamado "sentimento vital”.B O fluxo de energia dirigido de um centro de alto potencial para um de baixo potencial é um princípio fundamental que governa a distribuição de energia entre os sistemas da personalidade. Esse processo cria tensão na personalidade. há um movimento de "progressão" suave da atividade psíquica desde os níveis inconscientes aos mais conscientes. muita tensão será gerada na personalidade. por exemplo. Se o ego consciente.

se opera um excesso da repressão ou da psicose caso se interrompa a regulação consciente e se irrompem os simbolismos arcaicos do inconsciente coletivo 206 . se produz uma intensificação dos conteúdos inconscientes pessoais e/ou coletivos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . de "regressão" e mal.estar subjetivo. O movimento regressivo supõe uma falha da regulação consciente.I . seja por um excesso de repressão ou não atenção suficiente para captar e simbolizar os processos inconscientes em marcha. Isto pode levar à neurose.B O desequilíbrio produziria um processo contrário.Neste caso a atividade inconsciente invade as camadas da consciência em explosões afetiva difíceis de manejar e assimilar.

o masculino frente ao feminino. Integrando a psique inconsciente com a consciente. drama que tem sua raiz e sua solução nas mensagens da libido do inconsciente coletivo. é a reintegração dos contrários. qual processo "alquímico".PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . o Ying e o Yang. Os opostos representam o drama humano. assimilando-o na "experiência numinosa" .As grandes “cosmovisões” da humanidade se baseiam neste princípio: a luta do bem contra o mal. a alquimia e sua filosofia hermética. O princípio dos opostos possibilita a compreensão de toda forma de vida como uma luta de forças antagônicas. o consciente versus o inconsciente. Em seu livro "Psicologia e alquimia" (1944) se ocupa.I .B O grande problema da psicologia para Jung. entre outros temas de como integrar o mal (Satã). seguindo a lei da termodinâmica da entropia. 207 . se alcança essa experiência (numinosa) de assimilação entre os opostos. etc. especialmente atendendo as mensagens do inconsciente coletivo.

A energia vital da libido contém um potencial de mensagens para o próprio sujeito que lhe aportam soluções para os problemas vitais. além disso. senão o complexo.ex.I . problemas que já viveram outras gerações e que se encontram arquétipos do inconsciente coletivo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B A libido expressa este principio dos opostos. produzem alterações na memória e bloqueia o fluxo das associações (p. não é o sonho como supunha Freud. Aparecem e desaparecem regidos por suas próprias leis. Os complexos interferem nas intenções e vontade consciente. e é regulada pelo simesmo (self). teste de associação). é incompatível com a atitude normal da consciência. . La via régia para o inconsciente pessoal. disse Jung.C . Influem de maneira inconsciente e se comportam como entidades independentes.OS COMPLEXOS DO INCONSCIENTE PESSOAL Um complexo é a imagem de certa situação psíquica que tem uma forte carga emocional e que. 208 .

I . nos precatando dos mesmos em sentido pleno. Ter complexos não se identifica necessariamente com a aparição de uma neurose. Os complexos se superam quando assimilados e vividos completamente.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . o pólo oposto à felicidade. embora tenham uma apresentação dolorosa.ex. Produzem o conflito moral que aparece entre o Eu e o inconsciente pessoal. "Complexo de Edipo" e"Complexo de Electra"). O sofrimento faz parte da natureza humana. 209 . Um complexo só se torna patológico quando o negamos e pensamos que não o temos.B A etiologia freqüente dos complexos se encontra nos traumas ou choques emocionais. nos desejos e motivações alheias à vontade e à razão consciente. Para Freud o complexo é uma certa quantidade de energia vinculada a um desejo inconsciente (p. atraindo-os até nós. Experimentar um complexo é dar-se conta de que estamos ante a presença de uma parte de nossa psique que não é assimilada e elaborada adequadamente.

Lhes outorga "vida autônoma" dentro ddo inconsciente pessoal. Cada sujeito representa diferentes tramas e papéis na vida (pai.I .).B Jung aceita o exposto por Freud.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Um dos complexos mais freqüentes é a "persona" (em latim significa máscara). Igualmente os complexos podem reativar os níveis mais profundos do inconsciente pessoal. esposo. ativando os arquétipos de este outro inconsciente. mas vai mais além em sua proposta dos complexos. Constituem uma espécie de entidades independentes e constelações que se ativam de maneira autônoma. Os complexos podem irromper nos sonhos em forma de disfarce de caracteres. empregado. a saúde mental se vê comprometida. assumindo essas máscaras 210 . de modo que pode aparecer a psicose. etc. experimentando eventos ou tramas independentes de sua vontade Quando um complexo está muito isolado dos demais complexos do inconsciente pessoal.

as qualidades malignas e rechaçadas em nós mesmos.I . Um traço básico da sombra. A sombra inclui aquelas tendências. A sombra é o centro do inconsciente pessoal. 211 . o núcleo do material que foi reprimido da consciência. memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Vem a ser como uma personalidade. Costumamos atribuir às outras pessoas. é a "projeção”. desejos. A sombra representa os impulsos sexuais e agressivos olvidados ou reprimidos. dentro da mesma personalidade. A sombra contém os desejos e necessidades que não podem ser aprovadas pelo Ego consciente. aspectos que conscientemente não reconhecemos. Possui sua própria energia psíquica e pode levar o sujeito a realizar atos perigosos ou irresponsáveis aos olhos dos outros.B Outro importante complexo é “A SOMBRA”.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

e quanto mais nos identificarmos com ela. o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis nos outros ou a deixar-se dominar pela sombra sem o perceber. mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. ele perde muito de sua natureza amedrontadora e escura. um anão. em certo sentido. Em sonhos a sombra freqüentemente aparece como um animal.B Quanto mais forte for nossa persona. naquilo que Jung chama de sombra.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . um vagabundo ou qualquer outra figura mais baixa. ou o oposto do ego. A sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. a sombra do ego. Em seu trabalho sobre repressão e neurose. um self egativo. Quanto mais material da sombra se tornar consciente. Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da sombra. que se torna. Neste caso. A sombra é mais perigosa quando não é reconhecida. Freud concentrou-se de início. 212 . Se o material da sombra for trazido à consciência. menos ela pode dominar.I .

Ela é um depósito de considerável energia. e que consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá. mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presente em nós. recuperamos partes de nós mesmos previamente reprimidas.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . espontaneidade. 213 . Lidar com a sombra é um processo que dura a vida toda. Além disso a sombra não é apenas uma força negativa na Psique.B Entretanto.I . e é a fonte principal de nossa criatividade. vitalidade. Uma pessoa sem sombra não é um indivíduo completo. a sombra é parte integrante de nossa natureza e nunca pode ser completamente eliminada. À medida que a sombra se faz mais consciente.

D . Nas atividades onde decresce o nível de consciência.B Voltando aos complexos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . e de (2) associações determinadas vinculadas entre si por uma tonalidade afetiva. Possibilita que o sujeito entre em contato com as forças cósmicas supra-individuais (Não é em vão que Jung foi considerado o primeiro psicólogo transpessoal). os estados hipnóticos.I . os sonhos e os êxtases artísticos. É a fonte de toda energia psíquica. consciente e autônomo. . e aparece novamente na estrutura cerebral dos sujeitos. e é a parte básica da libido. emergem os complexos do inconsciente pessoal com atividade própria e autônoma. as grandes "imagens primordiais" de como as coisas foram para a humanidade.O INCONSCIENTE COLETIVO E OS ARQUÉTIPOS O inconsciente coletivo é a região da estrutura da mente mais profunda e de maior importância para Jung. incluída a consciência. 214 . Jung adaptou o teste de associação de palavras de Wundt ao estudo dos complexos. Contém toda a herança espiritual da evolução da humanidade. como há mencionado.como podem ser exemplos. Todo complexo consta de: (1) um elemento nuclear significativo.

O núcleo central de os significados contidos nos arquétipos não são definíveis por ser essencialmente inconscientes. lendas. Os arquétipos são os padrões fundamentais da formação símbolos que se repetem nos conteúdos das mitologias de todos os povos da história da humanidade. Dos arquétipos dependem as últimas e mais profundas motivações da mente e a conduta humana individual e coletiva. religiões e outras atividades humanas coletivas e históricas. frente ao inconsciente pessoal que é de tipo "subjetivo" ao conter as experiências e desejos pessoais da vida particular de cada um. Jung define os arquétipos como formas ou imagens de natureza comitiva. que são quase universalmente constituintes dos mitos e. São eles os substratos universais e perenes de toda a vida psicológica individual e coletiva.B O inconsciente "objetivo" é o inconsciente coletivo. As pautas culturais em última instância dependem dos arquétipos. ao próprio tempo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . razão pela qual só se pode circunscrever a foram de seus contornos a través dos mitos. ao conter a mesma informação herdada para todos os sujeitos. como produtos individuais autóctones de origem inconsciente. As imagens primordiais são os "arquétipos”. 215 .I .

B Tem-se criticado a idéia de arquétipo em Jung como uma tentativa de reintroduzir na Psicologia o conceito de “idéias inatas”. Bras. os arquétipos não se referem tanto a conteúdos específicos da mente. O que se herda nos arquétipos são os padrões subjacentes à formação de símbolos.I . não propriamente os símbolos. mas com arquétipos ou “imagens primordiais” similares.” Do mesmo modo.67 na ed. 216 . por exemplo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . existem diferentes religiões. Os símbolos. mas o próprio motivo permanece o mesmo (Jung. 1964 p.p. senão que a tendências dominantes que estruturam intrinsecamente a mente inconsciente . Na concepção de Jung.51). apud Fadiman & Frager. Há. sem perder sua configuração original. expressam conscientemente a parte de configuração dos arquétipos inconscientes subjacentes. muitas representações do motivo irmãos inimigos. “O arquétipo é uma tendência a formas tais representações de um motivo-representação que podem variar em detalhes.

Por exemplo. mas também negativos. 217 .I .B As imagens e as idéias nas quais se expressam os arquétipos. Entre estes estão o arquétipo de Deus . este aspecto do arquétipo estava cristalizado na imagem da bruxa. O arquétipo materno inclui não somente aspectos positivos. Na Idade Média. como a mãe ameaçadora. as religiões simbolizaram Deus de maneira distinta. o arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo. as chamadas experiências "paranormais" e uma infinidade de atividades humanas. as mitologias e religiões . dominadora ou sufocadora.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Uma extensa variedade de símbolos poder ser associada a um dado arquétipo. figuras nutridoras. A partir da adoração ao deus-sol que da calor e luz. por exemplo. Isto inclui mulheres em geral. imagens míticas de mulheres (tais como Vênus. mas também todas as figuras de mãe. se manifestam numa gama simbólica que barca experiências tão diversas como os sonhos. mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição a Igreja e o Paraíso. a arte. que são os padrões fundamentais na formação de símbolos. Virgem Maria. Jung identifica vários arquétipos na humanidade.

além dos citados: 218 . não pelo misticismo alheio a esta. O problema para Jung.I . Jesus escondido por José e Maria. definiu alguns outros. representado por Moisés salvo das águas. etc.B Para Jung o fato de que existam os arquétipos como universais inconscientes.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . O arquétipo do herói ou de Deus. Na obra de Jung se faz referência a múltiples arquétipos como o do herói e criança. senão como a mente já leva pré-configurada a possibilidade de criação de símbolos a partir dos arquétipos do inconsciente coletivo. Jung estava interessado pelas expressões universais da mente. não nega nem afirma a existência mesma dos heróis ou de Deus. Contudo Jung. Jung dizia que não existia um número fixo de arquétipos que pudéssemos listar o memorizar. não determina a não existência real do simbolizado nos mesmos. o arquétipo do nascimento. não era confirmar ou negar os símbolos como algo com realidade externa à mente. o arquétipo do velho mago que representa a sabedoria da experiência passada.. da madre. etc.

Tem o arquétipo da criança . existe também o arquétipo da família que representa a idéia de irmandade de sangue.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 219 . geralmente simbolizado por um guia ou figura de autoridade.B Além da mãe existem outros arquétipos familiares: existe um pai. o qual representa a pureza. o qual representa o futuro e o renascimento nas culturas nórdicas primitivas. A celebração do Natal é uma manifestação do arquétipo da criança e curiosamente é celebrado no solstício de inverno. Há vários arquétipos animais que figuram a relação do homem com o mundo animal. O hermafrodita. O arquétipo do homem original é representado no ocidente pela figura de Adão. Tem o arquétipo da donzela.I . O arquétipo mais importante é o do self ou “si-mesmo”. é uma das idéias mais importantes da teoria junguiana e representa a união dos opostos.

a persona. É importante destacar que o símbolo é uma unidade sintética de significado entre dos pólos opostos: o manifesto e o oculto. O simbólico pode se expressar tanto na arte gráfica ou artística como na formas dinâmicas das fantasias. quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um arquétipo. a cruz e as mandalas Jung encontrou nas pinturas. .I . o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. a anima (nos homens) ou o animus (nas mulheres).B O self é a unidade última da personalidade e está simbolizado pelo círculo. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico). Cada uma das principais estruturas da personalidade são arquétipos: o ego. mais ele evocará uma resposta intensa.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .E . a sombra. Por trás de seu sentido objetivo e visível se oculta outro sentido invisível mais profundo.OS SÍMBOLOS De acordo com Jung. 220 . emocionalmente carregada. as visões e os sonhos.

um símbolo é alguma coisa em si mesma – uma coisa dinâmica. Em suas últimas obras quando a anima se torna consciente. viva. Por último o símbolo pode também representar a confluência dos complexos do inconsciente pessoal e os arquétipos do inconsciente coletivo. um signo representa alguma outra coisa.F . 221 . Para Jung. a anima era a parte oculta ou "sombra" do inconsciente feminino (qualidades femininas) do homem.I . O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento. é equiparada ao processo alquimista. donde se unem os elementos conscientes e inconscientes. de maneira integradora.O SELF OU O SI-MESMO O conceito do SELF ou si-mesmo deriva de outro concepto junguiano o de anima. . Nas primeiras obras de Jung.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Outra função dos símbolos é unir a través de suas imagens a vida consciente e inconsciente do indivíduo.

arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. Segundo Jung “consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro. a personalidade experimenta grandes e profundas mudanças. vivencialmente. Jung chamou o Self de arquétipo central. verdadeiro núcleo da entropia psicológica.B Sempre que o indivíduo promove e trás à luz. O Self é o resultado da confluência na psique da parte inconsciente do animal e a consciência. mas se complementam mutuamente para formar uma totalidade: o self ”. sua anima. Esta integração da personalidade está muito bem representada na cultura oriental pelo símbolo da "Mandala" que reviste a forma de um quadrado ou círculo com um ponto central. O ponto central da mandala representa para Jung a meta do Self ou produção de um novo centro da personalidade.I . A harmonia da parte inconsciente e consciente do sujeito se encontra no self.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 222 .

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O self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao ego e à consciência. “O self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente”. O sefl é o arquétipo equilibrador das partes consciente e inconsciente da pessoa. Os diferentes complexos da personalidade procuram se impor, como centros autônomos que são. Caso um deles se impõe, desequilibra a psique, produzindo transtorno mental e conflitos internos. O equilíbrio se obtém através da “individuação” atendendo aos diferentes aspectos da personalidade. Aqui anotamos a influência do conceito do self na psicologia mais atual como a construtivista e as novas tendências da psicanálise e a psicologia humanista- experiencial. A saúde mental do sujeito equivale ao processo adequado do self, que atende tanto aos elementos da consciência quanto integra adequadamente os aspectos relevantes do mundo inconsciente. Se as experiências do inconsciente não são adequadamente atendidas e simbolizadas se produz mal-estar emocional. Neste ponto Jung se adiantou aos psicólogos humanistas como Rogers e a gestalt terapia.
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- G – ANIMA OU ANIMUS
Jung postulou uma estrutura inconsciente que representa a parte sexual oposta de cada indivíduo; ele denominou tal estrutura de ANIMA no homem e de ANIMUS na mulher. Esta estrutura básica funciona como um ponto de convergência para todo material psíquico que não se adapta à auto-imagem consciente de um indivíduo como homem ou mulher. Portanto, na medida em que uma mulher define a si mesma em termos femininos, seu ANIMUS vai incluir aquelas tendências e experiências dissociadas que ela definiu como masculinas. A anima e o animus cumprem cinco leis: 1º. Todo sujeito tem qualidades masculinas e femininas inconscientes. La individuação trás um equilíbrio ao homem e à mulher que integra adequadamente os aspectos de sua personalidade oculta (a sombra). Um homem equilibrado é ao mesmo tempo ativo e flexível, racional e intuitivo, possui ternura e dureza, é agressivo e acolhedor, etc. Da igual maneira atuaria uma mulher equilibrada.

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2º. As qualidades masculinas e femininas quando se encontram bem proporcionadas levam ao equilíbrio e à saúde mental. 3º.A anima e o animus são aspectos da "sombra" do inconsciente. 4º. Tudo o que no está integrado na mente, incluindo a anima e o animus, corre risco de ser projetado para o bem ou para o mal. O enamorar-se é um exemplo de como projetamos nossa anima os animus no ideal ou imagem do homem ou mulher ideal de nossos sonhos. Outro exemplo seriam as projeções da imagem do pai a través do arquétipo do pai supremo (Deus) que pode ser projetado em imagens de castração, autoritarismo, culpabilidade, etc.,até o próprio pai ou como se vê uma religião concreta. 5º. Se a repressão (ontológica) se transforma em consciente cessa a projeção e seus aspetos passam a ser integrados.

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9 .2.3. DINÂMICA DA PERSONALIDADE 9.2.3.1. A INDIVIDUAÇÃO e O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE
Se denomina "individuação" ao processo pelo qual se facilita o desenvolvimento das diferentes partes da personalidade. A meta da individuação é, por um lado liberar o Self (si-mesmo) das falsas defesas da Persona (complexo das máscaras o tramas) e do outro da anima inconsciente e suas imagens. Segundo Jung todo indivíduo possui uma tendência para a individuação ou auto-desenvolvimento. “Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo, na medida em que por “individualidade” entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio ‘si mesmo’. Podemos, pois, traduzir individuação como “tornar-se si mesmo”, ou ‘realização do si mesmo’”(Jung,1928 apud Fadiman & Frager).

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Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade e, por tanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Isto inclui o desenvolvimento do eixo ego-self, além da integração das várias partes da psique: ego, persona, sombra, anima ou animus e outros arquétipos inconscientes. Quando se tornam individuados, esses arquétipos se expressam de maneiras mais sutis e complexas. Jung rechaça as fases do desenvolvimento psicossexual de Freud, ao funcionar a libido em seu modelo de modo diferente. Os primeiros anos da criança, até os cinco, servem para adquirir as habilidades básicas de auto-proteção, como o andar, caminhar, falar, todas elas encaminhadas para sobreviver. Ao redor dos cinco anos a libido se desloca para os interesses . Pelos vinte anos começa a escolha do seu cônjuge até formar uma família e se estabelecer numa ocupação. Até então o indivíduo estava voltado para o mundo externo, em seu modo de "extroversão".

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mas aumentará sua criatividade interior e sua maturidade psíquica. crescimento e desenvolvimento consistem na integração de material novo na consciência. Do ponto de vista do ego. do seu ponto de vista. O crescimento para o ego. tem lugar as grandes mudanças O indivíduo se volve em "introversão" para os valores espirituais. Embora esta tenha funções protetoras importantes ela é uma máscara que esconde o self e o inconsciente. quiçá tenha que abandonar de certo modo os modelos externos do êxito e os ganhos materiais. governados por seus arquétipos inconscientes.I . Entretanto. é essencialmente a expansão de conhecimento consciente. o que inclui a aquisição de conhecimento a respeito do mundo e da própria pessoa.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 228 . O primeiro passo no processo de individuação é o desnudamento da persona.B Pelos últimos trinta e primeiros quarenta anos. religiosos o morais. o objetivo é a união da consciência com o inconsciente. Se o indivíduo atende a estes valores internos. individuação é o desenvolvimento do self e.

I . Na medida em que nós aceitamos a realidade da sombra e de. O terceiro passo é o confronto com a anima ou animus.a nos distinguimos podemos ficar livres da sua influência.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B O próximo passo é o confronto com a sombra. O estágio final do processo de individuação é o desenvolvimento do self. 1828. “O si mesmo é nossa meta de vida pois é a mais completa expressão daquela combinação do destino a que nós damos de indivíduo”(Jung. nós nos tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente que é organizado ao redor da sombra. ibidem). Este arquétipo deve ser encarado como uma pessoa real. Além disso. 229 . Traz unidade à psique e integra o material consciente e o inconsciente. O ego ainda é o centro da consciência mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade. uma entidade com quem se pode comunicar e de quem se pode aprender. O self se torna o novo ponto central da psique.

Só a partir deste ponto podemos satisfazer as nossas necessidades. do inconsciente coletivo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Jung escreve que “devemos ser aquilo que somos. a única possibilidade que tem o homem de sair da angústia e vazio do mundo moderno. A possibilidade de integrar a totalidade do profundo. precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a natureza parece estar nos dirigindo. é abrir-se às mensagens de crescimento pessoal que proporciona o inconsciente universal e objetivo.para a opção da criatividade e o desenvolvimento pessoal. precisamos descobrir nossa própria individualidade.I . Para os junguianos. as mensagens do inconsciente coletivo. 230 . aquele centro da personalidade que é eqüidistante do consciente e do inconsciente. a auto-realização. se aparta da concepção freudiana do inconsciente reprimido e da psicopatologia .

2. se convertem assim em forças de crescimento pessoal e coletivo. a auto-exploração e análise dos arquétipos nas mitologias e ações humanas. sentimento. que residem em seu inconsciente coletivo.B A tragédia moderna supõe não uma repressão sexual como propunha Freud. as verdades universais e eternas. 231 . sensação e intuição . AS QUATRO FUNÇÕES PSÍQUICAS A libido ou energia vital pode adotar quatro funções mentais na atividade do indivíduo: pensamento.3. senão uma repressão ontológica. Cada função pode ser experimentada tanto de uma maneira introvertida quanto extrovertida.2.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . de suas próprias capacidades e potencial do seu inconsciente. O único caminho é apartar-se da ilusão (Maya) do mundo moderno e experimentar as forças “numinosas”(espirituais). 9.I . A psicoterapia. que aparta o homem e sua consciência da riqueza de seu próprio mundo interior criativo.

O pensamento está relacionado com a verdade. como as formas de apreender informações. Sentir é tomar decisões de acordo com julgamentos de valores próprios. a experiências “normais”. entretanto. Jung classifica a sensação e a intuição juntas. bom ou mau. tendem a agarrar-se a seus planos e teorias.B Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . certo ou errado. com julgamentos de critérios impessoais. ainda que sejam confrontados cm nova e contraditória evidência. Os tipos reflexivos (aqueles indivíduos em quem o pensamento é função predominante) são os maiores planejadores. por exemplo. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que negativas.I . agradável ou desagradável. lógicos e objetivos. 232 . ao contrário das formas de tomar decisões. Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência.

Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que via de regra não conseguem separar suas interpretações dos dados sensoriais brutos. na percepção de detalhes. A experiência concreta.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . e lidam efetiva e eficientemente com todos os tipos de crises e emergências.I . As implicações da experiência (o que poderia acontecer. que uma pessoa pode ver. o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. A intuição é uma forma de processar informações em termos da experiência passada. de fatos concretos – o. objetivos futuros e processos inconscientes. tocar. 233 .B A sensação refere-se a um enfoque da experiência direta. Em geral eles trabalham melhor com instrumentos e utensílios do que qualquer dos outros tipos. Os tipos sensitivos tendem a responder à situação imediata. tem prioridade sobre a discussão ou análise da experiência. tangível. cheirar.

Quanto mais desenvolvidas e consistentes forem as funções dominante e auxiliar. Cada pessoa tem uma função fortemente dominante.I . uma terceira função que declare se isto é ou não apropriado.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B Para o indivíduo uma combinação das quatro funções resulta numa abordagem equilibrada do mundo. se queremos aceitá-lo ou não (sentimento). mais profundamente inconscientes serão seus opostos. e uma função auxiliar parcialmente desenvolvida. uma segunda função que estabeleça o que é (pensamento). 234 . e uma quarta função que indique de onde isto veio e para onde vai (intuição). Jung escreve: “A fim de nos orientarmos temos que ter uma função que nos assegure de que algo está aqui (sensação). Entretanto ninguém desenvolve bem todas as quatro funções.

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .B 235 .I .

Entre as formas de relação de objeto (relações com outras perssoas e interesses) está a polaridade "extroversão/introversão" . interesses e situações externas. afetivos e comportamentais da mente dão lugar a formas de relações Jung foi um dos primeiros teóricos das relaciones objetais e o único dos psicólogos dinâmicos clássicos que apresentou uma teoria da personalidade perfilada.I . Nela Jung apresenta sua teoria da personalidade. A personalidade na concepção jungiana gira em torno de três polaridades: (1) extroversão/introversão. objetos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . para as pessoas. (2) sensação /intuição e (3) pensamento/sentimento. Sua reflexão pessoal está vinculada à comprovação e o raciocínio com vistas à atividade externa.2.3. 236 .B 9. OS TIPOS PSICOLÓGICOS A teoria dos tipos psicológicos se encontra muito vinculada à idéia de individuação antes exposta. Os sujeitos extrovertidos estão orientados para o exterior. A integração dos aspectos cognitivos.3.

Outro eixo de relação de objeto é o "eixo perceptivo da sensação e a intuição“. Os sujeitos extremadamente extrovertidos costumam ser caprichosos e volúveis em suas relações.B Os sujeitos introvertidos estão orientados para o mundo interno. É notável a antecipação de Jung. Os sujeitos extremadamente introvertidos podem estar apartados do mundo externo e envoltos em seus sonhos ou devaneios.I . A percepção da sensação leva a apreciar os detalhes específicos das situações no presente. reflexões e imagens mentais. sendo o que hoje se denomina como sujeitos esquizóides .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . A extroversão e a introversão são conceitos dos quais se serve a psiquiatria e a psicologia atual para estudar a personalidade. 237 . A intuição por sua vez é um modo de apreensão da realidade psíquica que integra totalidades em vez de partes. especialmente seus pensamentos. os chamados histriônicos na psicopatologia atual. ao que posteriormente em psicologia se passou a denominar estilos cognitivos ou estilos de pensamento.

(4) Tipo extrovertido de intuição: Se deixa levar por sua percepção global do objeto mais que por suas características definidas. Tenta controlar e manipular o objeto. as impressões sensoriais. deixandose levar pelas propriedades físicas do objeto.I . (2) Tipo extrovertido de sentimento: Se deixa levar pelo sentimento que produz o objeto de sua percepção. (3) Tipo extrovertido de sensação: É materialista e realista. Nesta área Jung fala da polaridade "pensamento/sentimento”. Os principais tipos psicológicos resultantes dos três eixos polares anteriores são: (1) Tipo extrovertido de pensamento: Aceita o mundo que lhe chega por seus sentidos. Os sujeitos com predomínio do pensamento elaboram suas percepções com base em juízos baseados na lógica e no raciocínio. 238 .B Um terceiro eixo de relação de objeto está vinculado a como se elabora ou processa na mente a informação uma vez percebida. que classifica. costuma estabelecer relaciones afetivas com outros. enquanto que aqueles em que predominam os sentimentos elaboram suas percepções com base em seus estados afetivos.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .

o visionário. que a título ilustrativo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . o louco fanático ou o artista. 239 . Pode ter um êxito mais limitado nas relações sociais.O artista criativo se vincula mais a este tipo.B (5) Tipo introvertido de pensamento: Se deixa levar por pautas ou idéias prefixadas de pensamento. Hall. (8) Tipo introvertido de intuição: Se deixa levar sobre tudo por sua imaginação. (7) Tipo introvertido de sensação: Se deixa levar pelas sensações internas. Lindzey & Campell oferecem na pg. É a pessoa sonhadora que vive em paz com o mundo externo. 100 um quatro contendo os doze tipos de Jung.I . Pode ser muito egocêntrico e pode se vincular ao profeta religioso. apresentamos a seguir. (6) Tipo introvertido de sentimento: Se deixa levar pelos sentimentos que despertam seus sonhos e idéias subjetivas.

B 240 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I .

PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I .B 241 .

B A maioria dos indivíduos são "ambi-tipos" já que integram os aspectos de introversão e extroversão. 242 .PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . etc. os ovnis. de modo que um não é a causa do outro. a clarividência. produzindo-se finalmente este fato. Jung elaborou sua teoria da sincronicidade a partir de suas próprias experiências de clarividência como antecipar a primeira guerra mundial e outros fatos. 9. É famosa sua experiência estando junto a Freud. A sociedade atual e os meios de comunicação potenciam as modalidades extrovertidas de personalidade e consideram mais raras e excêntricas as pessoas mais introvertidas. Entretanto. A SINCRONICIDADE A sincronicidade é a relação simultânea entre uma idéia inconsciente e um fato físico.2. Jung esperou até 1952 para revelar suas idéias d sincronicidade. ambos os aspectos hão de ser integrados para a individuação do sujeito. os fenômenos da telepatia. cairiam como por arte de magia. Este fenômeno mental permite interpretar os chamados fenômenos ocultos e a parapsicologia.I . permitindo assim se u melhor desenvolvimento pessoal. quando no transcurso de uma conversação com este lhe antecipou por duas vezes que vários livros da estante que se encontravam bem sustentados.4.3.

em aparentes coincidências. sendo apontadas como irracionais. conforme o caso. Porém. especialmente no inconsciente coletivo. e os fatos do mundo externo. e segue se apartando das concepções dominantes da ciência atual.I . No inconsciente coletivo as noções de espaço e tempo desaparecem e os fatos podem aparecer simultaneamente fora de toda lógica racional. 243 . Ele era consciente de que esta afirmação se apartava. do universo coincidir com os arquétipos do inconsciente coletivo. Para os cientistas pode ser absurda ou fonte de reflexão.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . Jung postulou ademais que a atividade da mente inconsciente podia projetar-se no mundo externo dos fatos. místicas ou disparatadas Para os parapsicólogos esta teoria é interessante para fundamentar os fatos que estudam.B A teoria da sincronicidade se baseia no relativismo dos conceitos de espaço e tempo na mente inconsciente.

Ele havia tratado inutilmente de interpretar seus sonhos em termos freudianos.B 9.2. Portanto. Nos sonhos os psicólogos junguianos encontram no apenas a atividade dos complexos específicos do inconsciente pessoal.3.5.senão também uma função prospectiva de antecipação de possíveis vias criativas de solução dos problemas. Deve se dizer que foi a partir dos próprios sonhos e visões que Jung chegou à concepção do inconsciente coletivo.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE .I . a função dos sonhos é apresentar de maneira inconsciente tanto os problemas como as possíveis soluções daqueles que o sujeito enfrenta. como espécie de mitologia camuflada no homem. OS SONHOS Jung concede uma importância fundamental à interpretação dos sonhos. Isto é assim porque neles se representam os símbolos derivados dos arquétipos como problemas aos que enfrentaram muitas gerações anteriores de homens e mulheres n história da humanidade. Os sonhos representam para Jung uma linguagem cheia de mensagens coerentes e cheia de possibilidades criativas. e mais ainda quando estão livres das leis causais e do tempo. 244 .

Graças a estes disfarces podem se tornar conscientes elementos da libido que de outra maneira seriam reprimidos o rechaçados pela consciência.e Fausto. na forma de expressões disfarçadas. com os interesses conscientes. por entrar em contraste e desarmonia com a direção consciente eleita na vida. O retrato de Dorian Gray de Óscar Wilde. Jekill e Mr. A sombra aparece no conteúdo latente (expressão de Freud) do sonho. Outro mecanismo o é "deslocamento" onde núcleos de imagens primárias e mais importantes ficam relegadas por elementos secundários que recebem a atenção no lugar dos primeiros. em sua parte ocultada e também nas obras de arte (p. Por um lado está a "condensação" onde se fundem várias realidades formando um conjunto de significados. Graças ao deslocamento a vivência da sombra pode ser projetada no sonho e na obra de arte.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . de Stevenson).I . operam em sua formação una série de mecanismos inconscientes comuns. O "alter ego". de Goethe. o outro Eu ou a personalidade oculta estão na sombra.B No sonhos. como na atividade artística.A "Sombra" É a parte da pulsão libidinal que não é assumida vivencialmente pela consciência.O misterioso caso do Dr. 245 . Hyde.

. Buenos Aires.I . BIBLIOGRAFIA ALLPORT. 3. FADIMAN. Introdução à Psicologia.James & FRAGER. FENICHEL. 2001. 2004. O método junguiano de interpretação dos sonhos se baseia em três estratégias técnicas: a amplificação. Barcelona. Luiz Alfredo. São Paulo. identificando os complexos e arquétipos que carregam. Sybil Sofdié. Trad... Personalidade : padrões e desenvolvimento .A.B Os sonhos podem se interpretar em função dos mecanismos que os conformam (especialmente a condensação e o deslocamento). Teoria psicanalítica das neuroses. Harper & Row do Brasil. a síntese e a imaginação ativa. Ediciones Toray S. 1971 DAVIDOFF. GARCIA-ROZA.J. Teorias da personalidade. Makron Books Ltda. S.Paulo. *** 10. Otto. Herder. 1956. Paulo. 246 . S. Estudio cientifico de la personalidad. Trad. Camila P. – Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed. Livraria Atheneu. Ed.Robert. Trad. Linda L. Lenke Perez.ed. Paul A . Psicoterapia: un enfoque dinamico.PSICOLOGIA DA PERSONALIDADE . 20.Paidós. H. Sampaio. 1981. Freud e o Inconsciente. EYSENCK. Rio. 1973.Gordon W. DEWALD.Ed. Samuel Penna Reis. 1979.

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