You are on page 1of 33

TEXTO BASE: CANDAU, Vera Maria (Org.) Multiculturalismo e educação: a construção de uma perspectiva. In.

Sociedade, Educação e Cultura(s): questões e propostas. Vozes, Petrópolis RJ, 2ª edição, 2008, p. 52-80.

I. A GÊNESE DA PERSPECTIVA MULTICULTURAL NO CAMPO DA EDUCAÇÃO
 Europa, América Latina e EUA: reconhecimento da pluralidade de experiências culturais como modeladores da sociedade contemporânea;  É preciso aprender a tratar pedagogicamente a diversidade;

1. ESTADOS UNIDOS  País de imigrantes (melting pot);  Coexistência de grupos de identidades diversas;  Anos 60: movimento negro (luta por direitos civis);

 Relação entre educação e cultura pensada a partir da discriminação racial e das profundas desigualdades sociais;

de orientação sexual etc. . feministas. de classe. procuram seu espaço. Fim de século: . pouco a pouco outros grupos: étnicos.  Objetivo: tornar audíveis e visíveis rostos e vozes até então silenciados e invisibilizados.Preocupação dos negros com a formação de uma identidade racial.Século XXI: marcado pelo crescimento da intolerância e da xenofobia: sobretudo contra os imigrantes latinos . A partir do exemplo dos afroamericanos vemos a ampliação da perspectiva.

. da África e da Ásia.  Décadas de 50 e 60: imigração de trabalhadores oriundos das excolônias da América Latina.  Realidade cada vez mais complexa exige respostas para a convivência com a diferença. EUROPA  Continente marcado por uma grande pluralidade cultural interna.2. do Caribe.

 Anos 70: movimento de renovação educacional fruto de reflexões sociológicas e pedagógicas.  Ênfase no aprendizado da língua oficial do país de acolhimento. Campani e Palaudàrias 1998) a) Emergência das reivindicações das culturas minoritárias por expressão autônoma. a) Aumento do racismo e da xenofobia e dos conflitos culturais (contraste com a globalização). formação de professores para atender à diversidade cultural e ensino da língua e cultura do país de origem. a) Projeto político da União Européia e a discussão do lugar das culturas nacionais. .  Processos Sociais contemporâneos (Besalú.

AMÉRICA LATINA  Peculiaridade: relações de poder assimétricas decorrentes da dinâmica da colonização européia no continente. escravização de negros africanos.3. culturas e etnias marcada pela dominação e negação do outro. .  Contexto histórico marcado pelo extermínio de povos indígenas.  Experiência da diversidade de povos.

 Portanto. suíços etc. chegam ao Brasil como expressão explícita de uma política racial de “branqueamento”. . prevaleceram políticas de dominação e homogeneização cultural. chegam com condições especiais de acesso à terra e ao emprego (privilégios). até a década de 1980.  No Brasil.  Amplia-se a dívida social do país para com os negros. Imigração européia e asiática do século XX torna o quadro ainda mais complexo. Alemães.  Italianos.

 Nordeste: alfabetização de adultos pelo método dos “círculos de cultura” e “palavras geradoras”. ninguém educa a si mesmo. “Ninguém educa ninguém. Propostas que visam articular Educação e Cultura ganham mais fôlego a partir dos anos 60.  300 trabalhadores alfabetizados em 45 dias (Brandão.  Paulo Freire: a educação popular libertadora. mediatizados pelo mundo” PAULO FREIRE . mais fora dos muros escolares.  Círculos de Cultura multiplicam-se em todo o Brasil : favelas cariocas. sertão nordestino. canteiros da construção civil em São Paulo. no campo e nas plantações no Paraná etc. 1981: 18). os homens se educam entre si.

com o diálogo e o dialógico. Iniciativa cerceada Militar (1964).  Marcas da Pedagogia de Freire permanecem: preocupação com a liberdade. . ditadura não consegue impedir que as idéias de Paulo Freire marquem de forma definitiva a educação brasileira. pelo Golpe  Contudo. com o respeito à realidade e à cultura do educando etc.  Embrião de uma proposta educacional especialmente sensível às relações entre educação e cultura(s).

 CONAE 2010 – Conferência Nacional de Educação visando estabelecer os objetivos e metas do PNE para o decênio 2010/2020.  Documento prescritivo e inócuo sem a presença de uma política educacional de valorização do magistério e formação continuada dos professores. Década de 90: LDBEN 9394/96 e novos PCN’s .645/2008 – Inserção da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena no currículo regular da educação básica.  Conquistas recentes:  Lei nº 11. .Pluralidade Cultural como tema transversal.

394. modificada pela Lei nº 10. § 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira. 10 de março de 2008. públicos e privados. DE 10 DE MARÇO DE 2008 Altera a Lei no 9. 187º da Independência e 120º da República. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. de 20 de dezembro de 1996. para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena". 26-A da Lei no 9. § 2º Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. de 20 de dezembro de 1996.394. que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional." (NR) Art. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio. a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil. 26-A. pertinentes à história do Brasil.645. passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. Brasília. a partir desses dois grupos étnicos. 1º O art. a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional. em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. tais como o estudo da história da África e dos africanos.LEI Nº 11.639. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Fernando Haddad . resgatando as suas contribuições nas áreas social. torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. econômica e política. de 9 de janeiro de 2003.

.

.

.

.

 Avanço nas pesquisas em sociologia da educação (relação entre rendimento escolar e marginalização cultural. DIVERSIDADE CULTURAL E FRACASSO ESCOLAR Por que algumas crianças fracassam? Quem são os responsáveis por este processo?  Fracasso escolar como problema do aluno (enfoque da psicologia).II. .

antes de ser uma ideologia para justificar a conquista de outros povos. : 31-32). o que significa afirmar que ele serviu como arma na luta de classes” (PATTO. (. H. datam desta época as primeiras tentativas de comprovação empírica das teses da inferioridade racial de pobres e não brancos. o racismo.) No marco das sociedades industriais capitalistas. 1990. . De fato. principalmente nos países em que a linha divisória das classes sociais tende a coincidir com a linha divisória das raças. A culpa é do aluno ou da família a) Teorias racistas  Auge entre 1850 e 1930  Negros são intelectualmente inferiores “Um cientificismo ingênuo e um racismo militante são duas características marcantes da época de ouro das teorias racistas. M.. foi muitas vezes uma forma de justificar diferenças entre classes.1... S.

) as crianças das classes populares fracassam porque apresentam „desvantagens socioculturais‟ . as crianças apresentam „insuficiências‟ que é necessário compensar através de métodos pedagógicos adequados. ora de ordem intelectual ou linguística.. ora de ordem afetiva: em ambos os casos. se se quer diminuir a diferença entre essas crianças „desfavoráveis‟ e as demais. 1987: 33).. . carências de ordem social. Sonia.b) Teorias de privação cultural  Fracasso atribuído a uma espécie de déficit cultural (falta no ambiente familiar a devida preparação para um bom aproveitamento na escola)  Programas de educação compensatória “(. ou seja.. Tais desvantagens são perturbações. na área do desempenho escolar” (KRAMER.

As teorias da privação cultual suscitam novas questões:  As crianças social e culturalmente marginalizadas estão privadas de que exatamente?  De qual cultura?  Quem determina que uma cultura é deficiente?  A partir de que critérios se considera alguém privado culturalmente? .

p. 69) .O padrão cultural da escola  Geralmente determinado pela classe ou grupo dominante “A realidade . porém. mostra que nem todos possuem o esperado padrão cultural. porque este geralmente está determinado a partir dos critérios do grupo social e culturalmente dominante” (Candau.

A culpa é da escola Teoria crítico-reprodutivista  Visão da escola como uma espécie de agência reprodutora das discriminações realizadas pela sociedade. omitindo-se acerca dos processos de exclusão social. .2.  Escola apenas refletiria um processo de exclusão que na verdade seria estrutural.  A culpa da escola estaria no fato de apenas reproduzir as relações sociais.

) e interage com a sociedade mais ampla. p.Principal crítica:  Desconsidera a autonomia da escola enquanto produtora de conhecimento. 69) . culturas. práticas etc.” (CANDAU. técnicas. ela também produz (conhecimentos. A escola não é apenas uma agência reprodutora. “Ninguém nega que a escola está influenciada pela sociedade. mas afirmar que ela seja mero produto da sociedade é uma conclusão bastante restritiva da riqueza e da possibilidade produtiva da escola.

. 69)  Compreender o Fracasso escolar na relação entre escola e diversidade cultural.“Tanto a teoria crítico-reprodutivista quanto as teorias racistas e os programas de educação compensatória oferecem respostas limitadas para um problema tão complexo como o fracasso escolar e as suas implicações culturais. p. Estas respostas encontraram seu limite ao desconsiderarem a importância da diversidade cultural no processo de construção do conhecimento e o caráter monocultural das instituições escolares” (Candau.

ordeiro e cidadão.Problema central:  Escola como mecanismo de normatização (Sacristán. barreira a esse papel homogeneizador esperado da instituição educativa e consequentemente principal obstáculo para o êxito escolar” (CANDAU. trabalhador. 1996). 71) . então a diversidade passa a ser destacada como anomalia. 1995). p. “Se a nossa escola é uma instituição homogeneizadora de um tipo único de brasileiro.  Diversidade encarada como patologia (Arroyo.

71) . Enquanto a diversidade cultural for um obstáculo para o êxito escolar. não haverá respeito às diferenças.TRATAMENTO IGUAL ≠ TRATAMENTO UNIFORMIZANTE “O que se quer é uma igualdade que se constitua num diálogo entre os diferentes. p.” (CANDAU. capaz de explorar a riqueza que vem da pluralidade de tradições e de culturas. mas produção e reprodução das desigualdades.

grandes obras artísticas da humanidade. noção de civilidade etc. . CULTURA  Conceito polissêmico a) Imaginário social (perspectiva reducionista) Vincula-se a noção de cultura culta que se adquire através do processo de escolarização e/ou instrução formal. Ex. cultura literária.III. conhecimentos gerais. normas de relacionamento social (capital cultural). POLISSEMIA DOS TERMOS E EXPRESSÕES 1.

é relacionar-se com o outro de outro modo.b) Uma perspectiva mais ampla:  Cultura como estruturante profundo do cotidiano de todo grupo social. . multiforme. toda pessoa humana é produtora de cultura. heterogêneo e dinâmico. “Cultura pode então ser entendida como tudo aquilo que é produzido pelo ser humano. nos gestos mais simples da vida cotidiana. Assim sendo. é dar a mão de modo diferente. inclusive o cotidiano.” (CANDAU. são todas as manifestações humanas. “A cultura não é só a manifestação artística ou intelectual que se expressa no pensamento. e é no cotidiano que se dá algo essencial: o descobrimento da diferença” (FAUNDEZ e FREIRE. Cultura é comer de modo diferente. p. Não é apenas privilégio de certos grupos sociais nem pode ser apenas atribuída à escolarização formal. sobretudo.) Cultura para nós... gosto de frisar. 72)  Fenômeno plural. 1985: 34). A cultura manifesta-se. (.

muito difundida pelo senso comum. a diversidade cultural seria aparente.. (.primitivos x civilizados) “Em uma visão tradicionalista e etnocêntrica. Desta forma. pessoas de culturas diferentes usam lentes variadas. existem culturas menos desenvolvidas e outras mais avançadas.” (CANDAU. p.) Assim. desde as mais primitivas expressões até o modelo considerado civilizado. p. e as sociedades estariam sempre em processo de evolução. o que favorece que assumam uma visão etnocêntrica.. a humanidade passaria por estágios de evolução cultural.” (CANDAU. É preciso superar visão tradicionalista O darwinismo social (noção de evolução cultural . 73) . Consequentemente. e tendem a entender a sua própria cultura como „natural‟. 73)  É preciso despir-se do etnocentrismo “A cultura pode ser entendida como a lente através da qual o homem vê o mundo. pois o „selvagem‟ de ontem será o „civilizado‟ de amanhã.

Assim a cultura configura o nosso modo de ser e a maneira pela qual cada grupo social se organiza. classe social.) De acordo com essa perspectiva. uma vez que.”(CANDAU. e. mas no subconsciente e inconsciente. idade. o encontro entre culturas não implica necessariamente em exclusão. inconscientes. em sua maioria. 74)  Cultura como fenômeno dinâmico (hibridização cultural) “A cultura. se modifica e sofre influências muito diversas.” (CANDAU.. não sendo um fenômeno estático. entre muitos outros aspectos. diferentes misturas culturais se interpenetram. 74) . p. música popular. p. na parte visível do iceberg estariam aqueles elementos culturais como arte. Nas partes submersas do iceberg. É impossível afirmar que nas sociedades contemporâneas existem culturas „puras‟. estando relacionada a processos extremamente complexos. erudita. Os processos de hibridização cultural são cada vez mais intensos. os papéis relativos a gênero. (.. literatura. situados no plano consciente. entre outros. produção científica. amor. Na superfície. em sua maior parte. os valores. no processo de hibridização cultural. Cultura como Iceberg “Ele expressa que os elementos que constituem a cultura não estão. no campo subconsciente e inconsciente. relações parentais. conceito de justiça.

Europa continental – intercultural.2.coexistência de grupos de origem étnica diversa (línguas valores e religião diversas).  Sentido descritivo: Situação “objetiva” .  Sentido prescritivo: Aponta para as ações e métodos efetivos para se lidar com a diversidade . Tradição anglo-saxônica – multicultural. MULTI E PLURI e INTERCULTURALISMO Termos amplos e polêmicos Em geral apontam para a justaposição e/ou inter-relação de diferentes culturas numa dada sociedade.

” (CANDAU. o respeito às culturas não é possível a não ser que não se esteja encerrado em nenhuma. transpor uma cultura particular indo além de suas manifestações isoladas. “Esta perspectiva.3. ressalta que alguns componentes culturais „atravessam‟. Segundo Forquin (1993). se existe a capacidade de um pensamento verdadeiramente „transcultural‟. isto é. p. TRANSCULTURALISMO Aponta para a capacidade de ir além dos limites de uma dada cultura. 76) . estando presente em todas. „vão além‟ das particularidades de manifestações culturais isoladas.

.) minoria seria um grupo de pessoas que.) Dessa forma. p. (. 77) . influência e autodeterminação. o status de minoria carrega consigo a exclusão de participação plena na vida social que é privilégio do grupo hegemônico.. direitos.” (CANDAU.  Refere-se a desigualdades sociais relacionadas a poder. MINORIA / MAIORIA  Não necessariamente implica em desequilíbrio numérico. objeto de discriminação.. em virtude de suas características físicas ou culturais.. são afastadas de outras na sociedade em que vivem por um tratamento diferencial e desigual sendo. “No sentido socioantropológico (.4. portanto.