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TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Aula 2- Lógica Formal e Lógica do Razoável no discurso jurídico.

TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA

Semana 2

Objetivos ‐ Diferenciar Lógica Formal de Lógica do Razoável; ‐ Compreender e aplicar o princípio da razoabilidade como norteador da atividade interpretava do Direito; ‐ Desenvolver estratégias criavas e consistentes de argumentação

TIPOS DE RACIOCÍNIO; SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2

São Paulo. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . França. Acesso em 18 de setembro de 2010.. e Membro do escritório Gusmão & Labrunie S/C Ltda.br/revistas/index. Disponível em: <http://www. França. TIPOS DE RACIOCÍNIO. onde é Mestrando em Direito e diplomado pelo Centro de Estudos Internacionais da Propriedade Industrial da Universidade de Strasbourg. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; Membro do Centro de Estudos de Direitos das Criações Imateriais da Universidade de Montpellier.ufsc.php/bu scalegis/article/viewFile/6952/6519>.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Leitura do texto de MAURÍCIO LOPES DE OLIVEIRA.buscalegis.

1996). psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . Rocco. relata que no início do ano de 1944. O fato era que a editora da Federação Espírita Brasileira havia publicado cinco obras. atribuídas ao espírito do falecido escritor. Ed. A viúva e os três filhos do escritor Humberto de Campos moviam um processo contra ele e a Federação Espírita Brasileira.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Marcelo Souto Maior. duas delas já em terceira edição. o médium abriu um envelope enviado pela Oitava Vara Cível do Rio de Janeiro e assustou-se. TIPOS DE RACIOCÍNIO. Jornalista que publicou a biografia de Francisco Cândido Xavier (As Vidas de Chico Xavier.

TIPOS DE RACIOCÍNIO. dando-lhes participação nos lucros. Na verdade. ou declarar que as obras eram do espírito de Humberto de Campos. sequer havia sido consultada.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Essas publicações deixaram a viúva de Humberto de Campos. que publicava a obra de seu marido. Catarina não tinha recebido um tostão. reconhecendo os direitos autorais de seus herdeiros. numa situação incômoda. em face da Federação Espírita Brasileira e de Chico Xavier. colocando a Justiça no seguinte dilema: declarar que as obras não eram do espírito de Humberto de Campos. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . Diante de seu silêncio. a viúva do referido homem de letras constituiu advogado e promoveu ação declaratória. fazendo cessar a publicação. produzida por ele em vida. Assim sendo. pois mantinha contrato com outra editora. os editores poderiam supor que ela lucrava com os títulos póstumos. Catarina Vergolino.

TIPOS DE RACIOCÍNIO. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . O Advogado Miguel Timponi. exigindo demonstrações mediúnicas para verificação da sobrevivência e operosidade do espírito de Humberto de Campos. Queria ter a certeza de que as cinco obras atribuídas ao espírito do escritor foram mesmo ditadas pelo morto. apresentou sua contestação. além de provas testemunhais. católico praticante.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Catarina requereu todos os meios de provas científicas possíveis. Propunha exames gráficos dos textos escritos por Chico Xavier.

dada sua inerente neutralidade diante de tais princípios.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Timponi sustentou que afirmar ou negar que as obras fossem de Humberto de Campos seria decretar a oficialização de um princípio religioso. filosófico ou científico. Argumentou. o que o magistrado jamais poderia fazer. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . que depois de morto. ainda. o indivíduo não pode adquirir direitos e que os herdeiros de Humberto de Campos não poderiam ser reconhecidos como sucessores de direitos patrimoniais sobre uma obra que inexistiu durante a vida do autor. TIPOS DE RACIOCÍNIO.

que se manifestaria através do médium Chico Xavier. TIPOS DE RACIOCÍNIO. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . presente nas obras mediúnicas.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Finalmente Timponi alegou que Humberto de Campos. Assim. demonstrando seu descontentamento com a situação. que sobrevive de acordo com os cânones do espiritismo. não compromete o nome do escritor. não tem qualquer relação com o espírito. Timponi convocou o próprio espírito de Humberto de Campos. ser humano que deixou de existir. durante todo o processo. De fato. a designação "Espírito de Humberto de Campos". Como testemunha em favor dos réus. o espírito se manifestou.

havia mencionado o fato de finalmente estar livre dos contratos com sua editora. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . com a morte se extingue a capacidade jurídica de adquirir direitos – mors omnia solvit. e que. Coube ao Juiz João Frederico Mourão Russel dirimir a controvérsia. TIPOS DE RACIOCÍNIO. enaltecendo as vantagens do autor fantasma. Em sentença de 23 de outubro de 1944. o Juiz Russel salientou que a existência da pessoa natural termina com a morte. ditado sete anos antes. conseqüentemente. o espírito lembrou que no prefácio de seu primeiro livro.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Em uma de suas mensagens psicografadas.

por conseguinte. nenhum direito autoral poderá da pessoa dele ser transmitido para seus herdeiros e sucessores. com a morte se extinguem todos os direitos e.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Merece destaque o seguinte trecho da referida sentença: Ora. Assim. 10 do Código Civil "a existência da pessoa natural termina com a morte". bem assim. nos termos do art. No nosso direito é absoluto o alcance da máxima mors omnia solvit. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . o grande escritor Humberto de Campos. depois de sua morte. a capacidade jurídica de os adquirir. TIPOS DE RACIOCÍNIO. conseqüentemente. não poderia ter adquirido direito de espécie alguma e.

a suplicante pretender direitos autorais sobre supostas produções literárias atribuídas ao espírito do autor. o Juiz Russel assim concluiu sua sentença: TIPOS DE RACIOCÍNIO. O direito a essas é que se transmite aos herdeiros. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . mas. para esse fim.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Nossa legislação protege a propriedade intelectual em favor dos herdeiros até certo limite de tempo após a morte. são as obras produzidas pelo de cujus em vida. Como se tratava de ação declaratória. portanto. o que considera. Não pode. como propriedade intelectual.

não há nenhum interesse legítimo que dê lugar à ação proposta. do qual hipoteticamente. e sim a declaração da existência ou não de um fato (se são ou não do espírito de Humberto de Campos as obras referidas na inicial). 2º do Código de Processo. a ora intentada (ação declaratória) não tem por fim a simples declaração de existência ou inexistência de uma relação jurídica. nos termos do § único do art. caso ocorra ou não. no caso vertente.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Do exposto. Assim formulada. certo e determinado. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . não contém nenhum pedido positivo. sobre o qual a Justiça se deva manifestar. conclui-se que. possam resultar relações jurídicas que a suplicante enuncia de modo alternativo. TIPOS DE RACIOCÍNIO. Além disso. a inicial constitui mera consulta.

jamais poderia ser julgada improcedente. Posto isso. em 3 de novembro de 1944. tal como está formulada a conclusão inicial. Esta sentença foi confirmada. julgo a suplicante carecedora da ação proposta e a condeno nas custas. a contestação.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Como observa. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . se fosse admissível. com razão. TIPOS DE RACIOCÍNIO. a presente ação declaratória. por acórdão da Quarta Câmara do Tribunal do Distrito Federal.

TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Questões a serem discutidas: 1) Como decidir se não há previsão em lei que permita dirimir este conflito? 2) Que argumentos justificaram a decisão proferida? 3) Haveria outras ponderações que justificassem a decisão? 4) Haveria argumentos que justificassem uma decisão favorável à autora? Caso sua resposta seja afirmativa. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . registre-os. TIPOS DE RACIOCÍNIO.

TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Lógicas argumentativas Lógica formal Raciocínio dedutivo Subsunção Razão Lógica do razoável Raciocínio indutivo Ponderação Emoção Lei Jurisprudência Princípios TIPOS DE RACIOCÍNIO. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 .

TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Novo caso concreto Processo Número1863657-4/2008 Autor: Ministério Público Estadual Réu: B.” Quando criança. para trocar de tênis e.S. grade.S. depois de algum tempo. entrava nas casas alheias para merendar. para trocar de roupa. Abria também a porta de carros e dormia candidamente em seus bancos.S é surdo e mudo. tornando-se amigo deles. fechadura ou cadeado. tem 21 anos e é conhecido em Coité como “Mudinho. Domou os cães mais ferozes. Conseguia abrir facilmente qualquer porta. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . também para levar algum dinheiro ou objeto. janela. espanto e medo! TIPOS DE RACIOCÍNIO.S B. jogar vídeo-game. Era motivo de admiração.

O Município não fez nada por ele.” O Judiciário o encaminhou para todos os órgãos e instituições possíveis. dando-lhe carinho e afeto. O Estado Brasileiro não fez nada por ele. pela prática de “atos infracionais” dos mais diversos. mas também não teve condições de cuidar do “Mudinho.S. ameaçou prender Diretoras de Escolas que não o aceitavam. quase o adotou e até o levou para brincar com seus filhos. José Vicente. mas não teve condições de cuidar do “Mudinho.” A comunidade não fez nada por ele.S. Dr. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . O Promotor de Justiça. TIPOS DE RACIOCÍNIO.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA O Ministério Público ofereceu dezenas de Representações contra o então adolescente B.

na vizinha Comarca de Valente. § 4º. Por falta de estabelecimento adequado. Por que uma marmoraria? TIPOS DE RACIOCÍNIO. sem família presente. 155. a pena de dois anos e quatro meses de reclusão. às três e meia da manhã. Aqui. sem escolaridade. por duas vezes.S. como “incurso nas sanções do art. sem profissão. 155. 14. § 4º. cumpria pena em regime aberto nesta cidade de Coité. sem apoio da comunidade. inciso IV c/c art. por duas vezes e no art. sozinho. 155. Foi condenado. art. inciso II”. entrou em uma marmoraria e foi preso em flagrante. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . inciso IV.S tem 21 anos.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Hoje. B. caput. é maior de idade. e pratica crimes contra o patrimônio dos membros de uma comunidade que não cuidou dele.

denunciado pelo Ministério Público pela prática do crime previsto no artigo 155. Não levou nada.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Foi. do Código Penal. § 4º. Foi um crime tentado. cuja pena é de dois a oito anos de reclusão.” Em alegações finais. foi interrogado e disse que “toma remédio controlado e bebeu cachaça oferecida por amigos. c/c o artigo 14. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . Por intermédio de sua mãe. crime de furto qualificado. que ficou completamente desnorteado e então pulou o muro e entrou no estabelecimento da vítima quando foi surpreendido e preso pela polícia. incisos II e IV. II.” TIPOS DE RACIOCÍNIO. ou seja. a ilustre Promotora de Justiça requereu sua condenação “pela prática do crime de furto qualificado pela escalada. então.

S. Ninguém quer o “Mudinho” solto por aí.S. O que deve fazer um magistrado neste caso? Aplicar a Lei simplesmente? Condena r B. a Lei é dura. Todos sabiam e comentavam isso na cidade. estava escrito. à pena máxima em regime fechado? O futuro de B. tem péssimos antecedentes e não é mais primário. Infelizmente. Levado para a lixeira humana que é a penitenciária. o Ministério Público quer sua prisão e a cidade espera por isso. Lá é seu lugar. Deve ser preso.S. Se não fosse morto por um “proprietário” ou pela polícia. tem mais de metro. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . mas é a Lei! TIPOS DE RACIOCÍNIO. Precisa ser retirado do seio da sociedade.S.S. seria bandido.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA B.S. contando os casos da adolescência. Hoje. Sua ficha.

no entanto. afeto e compreensão? Não. escrever mais de um livro sobre esses temas. deve ser a “boca da Lei. acompanhamento especial. Sendo como ela é. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . como já fizeram tantos outros.S.S seja a penitenciária. não! TIPOS DE RACIOCÍNIO. a penitenciária vai oferecer a B. será que o Direito é somente a Lei? E a Justiça. tudo o que lhe foi negado na vida: escola. O que fazer com ele? Nenhuma sã consciência pode afirmar que a solução para B. o que será? Poderíamos.” Será? O Juiz não faz parte de sua comunidade? Não pensa? Não é um ser humano? De outro lado.S. Nesse momento. de sua vez.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA O Juiz. temos que resolver o caso concreto de B.S.S.S. Com certeza.

a compreensão do mundo. prefiro a Justiça à Lei. Assim.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA É o Juiz entre a cruz e a espada. Vou lhe mandar prestar um serviço à comunidade.. TIPOS DE RACIOCÍNIO. B. a fé cristã. a consciência. De um lado.S. Neste caso. Também não vou lhe absolver. apesar da Lei. a Lei.S. não vou lhe mandar para a Penitenciária. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . a utopia da Justiça… Do outro lado.

entregue uma cópia dessa decisão. ao Comandante da Polícia Militar e ao Presidente do Conselho de Segurança. clubes. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 . a todas as associações civis dessa cidade – ONGs. a todos os órgãos de imprensa dessa cidade e a quem mais você quiser. colhendo o “recebido”. Câmara e Secretarias Municipais. a todos os órgãos públicos dessa cidade – Prefeitura. sindicatos.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Vou mandar que você. CDL e maçonaria. a todas as Igrejas dessa cidade. de todas as confissões. em companhia de Oficial de Justiça desse Juízo e de sua mãe. TIPOS DE RACIOCÍNIO. ao Delegado de Polícia. pessoalmente.

07 de agosto de 2008. Conceição do Coité.Ba.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Aproveite e peça a eles um emprego. ano vinte da Constituição Federal de 1988. uma vaga na escola para adultos e um acompanhamento especial. apresente ao Juiz a comprovação do cumprimento de sua pena e não roubes mais! Expeça-se o Alvará de Soltura.” TIPOS DE RACIOCÍNIO. Depois. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 .

religioso. debata em sala de aula o caso concreto apresentado no texto de Maurício Lopes de Oliveira e produza um texto argumentativo de cerca de vinte linhas que reflita sobre a seguinte proposição: É possível conciliar os saberes científico. De posse desse material. SILOGISMO: DEDUÇÃO E INDUÇÃO – AULA 2 ... moral e cultural na prestação jurisdicional? Lembre-se de que a razoabilidade deve ser o norte de todos os seus raciocínios.TEORIA E PRÁTICA DA REDAÇÃO JURÍDICA Tarefa de casa Questão Realize uma pesquisa na Internet sobre casos de difícil solução. TIPOS DE RACIOCÍNIO. e procure identificar como o judiciário resolveu a matéria. em virtude do ineditismo que apresentam.