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TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA II

Profª Inah Durão Cunha
O Renascimento (séc. XV e XVI)
A transição para Era Moderna
O Renascimento começou a
se manifestar na Itália, no
século XIV, mais precisamente
em Florença, cidade que a
esta altura já tinha se tornado
um estado independente e um
dos centros comerciais mais
importantes do mundo, e
difundiu-se por toda a Europa,
durante os séculos XV e XVI.
Platão, Aristóteles, Virgílio, Sêneca e outros autores
greco-romanos começam a ser traduzidos e
rapidamente difundidos. Desse modo, o espírito da
antiga filosofia clássica não leva muito tempo para
inundar as cortes da nova aristocracia burguesa. O
cavalheiro renascentista deve agora ser versado em
todas as disciplinas artísticas e científicas.
“O renascimento dos valores clássicos e da arquitetura clássica
não surgiu plenamente formado – mas lentamente , ao longo de um
século ou mais na Itália. Pintores, cientistas e arquitetos,
começaram a ver-se não como peões a serviço de um Deus
celestial implacável , mas como a medida de todas as coisas. Eles,
não Deus, tinham nas mãos o compasso para dar forma a seus
povoados , cidades e arquitetura. Esse novo racionalismo foi
combinado a uma redescoberta da arquitetura romana , um
fascínio pelas recentemente estabelecidas leis da perspectiva e um
desejo de recriar as glórias do mundo antigo.”

Jonathan Glancey in A História da Arquitetura
A ITÁLIA DO RENASCIMENTO: O INÍCIO DO MODERNO
Um divisor de águas na história
da arquitetura, o
Renascimento marcou a
abertura de rotas de comércio
e de bancos e a assimilação de
conhecimentos novos e
redescobertos.
A descoberta do desenho em
perspectiva (muito
possivelmente pelo arquiteto
Filippo Brunelleschi, c. 1425)
levaria a importantes
mudanças na arquitetura.
A descoberta da perspectiva é um aspecto importante para se
entender o período (e especialmente a perspectiva central): a idéia de
infinito trazida pela manipulação do ponto de fuga foi bastante utilizada
como elemento cênico na concepção espacial daqueles arquitetos.
Palazzo della Ragione de Palladio.
A perspectiva representou
uma nova forma de entender o
espaço como algo universal,
compreensível e controlável
através da razão do Homem.
O desenho tornou-se o
principal meio de projetação,
assim como surge a figura do
arquiteto solitário (diferente da
concepção coletiva dos
edifícios medievais).
Igreja de San Lorenzo em Florença.
Brunelleschi
Na arquitetura renascentista, a
ocupação do espaço pelo edifício
baseia-se em relações
matemáticas estabelecidas de tal
forma que o observador possa
compreender a lei que o organiza,
de qualquer ponto em que se
coloque.

Arquitetura em Florença
A arquitetura renascentista na Itália tem harmonia, claridade e força. Ela traz o
uso de motivos clássicos e de ordens arquitetônicas – estilos de colunas e
capitéis – da Antiguidade.
Praça Santa Maria Novella – Florença.
Piazza della Signoria, centro da
cidade – Firenze (com o Palácio
Vecchio e a Torre de Arnolfo)
O estilo se adequou inteiramente aos
interesses renascentistas sobre a
Antiguidade, na literatura, na filosofia
e na matemática. Governantes e
patronos entenderam a importância
tanto da arquitetura como do
planejamento urbano como meios de
promover noções de ordenamento
social e impulsionaram construções.
“Já não é o edifício que possui o homem, mas este que, aprendendo a
lei simples do espaço, possui o segredo do edifício” (Bruno Zevi, Saber Ver a
Arquitetura)

Basílica de São Pedro - Vaticano
Vasari foi o primeiro a observar que a cúpula de Santa Maria del Fiore não
devia ser relacionada apenas ao espaço da catedral e seus respectivos
volumes, mas ao espaço de toda a cidade, ou seja, a um horizonte circular,
precisamente ao perfil das colinas em torno de Florença:
“Vendo-se ela elevar-se em tamanha altura, que os montes ao redor de
Florença parecem semelhantes a ela.” Portanto, também está relacionada ao
céu que domina aquele horizonte de colinas contra o qual “parece que
realmente combata”- “e, na verdade, parece que o céu dela tenha inveja, pois
sem cessar os raios todos os dias a procuram.”

Giulio Carlo Argan
O Significado da Cúpula
“Brunelleschi não foi apenas o pioneiro da arquitetura da
Renascença. A ele se deve, ao que parece, uma outra e
momentosa descoberta no campo da arte, a qual dominaria
também toda a arte de séculos subsequentes: a da
perspectiva. Vimos que mesmo os gregos, que
compreenderam o escorço, e os pintores helenísticos, que
eram hábeis em criar a ilusão de profundidade, ignoravam
as leis matemáticas pelas quais os objetos parecem
diminuir de tamanho à medida que se afastam de nós.” (E. H.
Gombrich – A História da Arte. p. 171)
Não havia antecedentes em escala e dimensão para semelhante objeto, o que significa
que a tradição construtiva vigente era insuficiente para entender o desafio proposto. A
cúpula deveria cobrir um vão de 46 m, algo inédito.
Brunelleschi recorre às fontes antigas—as ruínas de Roma—na busca de um elemento
arquitetônico similar—a cúpula hemisférica como a do Panteon—para daí “deduzir” a nova
forma. O desafio técnico da construção devia-se à impossibilidade de se erguer a cúpula apoiada
sobre as tradicionais cimbres de madeira.
Adaptando a técnica romana da alvenaria, Brunelleschi teve de inventar tanto um
novo processo de construção quanto um novo conceito de forma arquitetônica, “uma
forma capaz de se segurar sozinha durante seu crescimento, ... , de se manter e se
situar em virtude de sua própria coerência interior e vitalidade estrutural...”
Maquete em madeira para cúpula da Igreja de
Santa Maria dei Fiori
Desenho de maquinário, de Brunelleschi
http://www.youtube.com/watch?v=IzPUsXBTI2g#
t=24 (ver vídeo)
A solução de Brunelleschi, na
qual a construção da cúpula
poderia ser executada sem
qualquer tipo de armadura de
madeira, era utilizar de uma
série de concêntricos e
autoportantes anéis em pedras
(arenito) reforçados em sua
parte externa com correntes
de ferro.
A Lanterna
A revolução de Brunelleschi implica, portanto, um novo estatuto do fazer
(o projeto), uma visão unitária do espaço e do tempo (a teoria da
perspectiva), a recuperação do antigo (a volta às ordens de proporção) e a
afirmação de uma cultura estritamente urbana (o valor da cidade).
Interior da cúpula, com o afresco de Giorgio Vasari e Federico Zuccari, representando o Juízo
Final.
Detalhe do Juízo Final, na
cúpula da Santa Maria del
Fiore.
Florença vista da cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore.
ELEMENTOS e variações do vocabulário clássico.
Os arquitetos do Renascimento tomaram os antigos elementos gregos e
romanos utilizando-os com energia e imaginação. O resultado: uma
profusão de novos estilos para atender às necessidades de uma clientela
cada vez mais numerosa.
Capela Pazzi -
Brunelleschi
Ordem dórica – o uso arqueologicamente correto da ordem dórica,
incluindo o entablamento, pode ser visto na colunata circular do
tempietto (Capela de S. Pietro in Montorio) de Donato Bramante,
Roma, construído em 1502.
Ordem jônica – Este exemplo da ordem jônica pertence ao magnífico
Palazzo Farnese, em Roma, desenhado por Antonio da Sangallo, o Jovem
(1484-1546). O entablamento é adornado com entalhes de caracteres
romanos.
Ordem Coríntia – A ordem coríntia pode ser vista nas pilastras do
frontão da igreja de Santa Susana, em Roma. Este recurso foi usado com
ênfase crescente nas fachadas e nos interiores das igrejas
renascentistas.
Frontões sobrepostos – a Igreja do Redentor em Veneza, exemplo da
genialidade sutil de Andrea Palladio, forma um magnífico jogo de formas
clássicas sobrepostas.
Planta simétrica – A villa renascentista ideal era totalmente
simétrica. Palladio conseguiu isso na planta da Villa Capra, em Vicenza.
Cantaria rústica – a cantaria rústica serviu de base para edifícios,
dando-lhes uma aparência rústica, porém vigorosa. Este exemplo é o
Palácio Médici-Riccardi, em Florença, projetado por Michelozzo.
Uso de cor – Uso de cores a partir de diferentes materiais. Prédios
como o de Certosa (1429-73), em Pavia, eram incrustados com mármore
negro, branco e verde, além de pórfiro vermelho – materiais muito
associados à Antiguidade.
Arquitetura Eclesial do início do Renascimento:Filippo
Brunelleschi e Leon Battista Alberti
Dois principais tipos de construção de igrejas foram
desenvolvidos no início do Renascimento, e ambos
evoluíram a partir de formas de construções antigas
e de modelos dos primeiros tempos do cristianismo:
a basílica e variações de igrejas ou capelas planas e
centralizadas.
Brunelleschi: Capela Pazzi, Florença,
1429-61. Está localizada no claustro da
Basílica da Santa Cruz, em Florença.
Nessa capela somente
os elementos
arquitetônicos
participavam, ou seja,
todos os elementos
supérfluos foram
dispensados: nem
retábulos, nem
imagens de santos
(exceto uns medalhões
de Donatello).
Basílica de Santa
Cruz – Florença - A
atual igreja foi
iniciada em 1294.
Santo Espírito
Reconstrução hipotética do projeto original
www.youtube.com/watch?v=ggpKKlsaeac
Sant’Andrea de Mantua
– Leon Battista Alberti.
A basílica foi construída
em tijolo queimado no
local para reduzir
custos.
A arquitetura de Leon
Battista Alberti é um reflexo
muito preciso dos ideais
artísticos e filosóficos da sua
época.
Leon Battista Alberti
Para Alberti é muito
importante a harmoniosa
integração de todos os
elementos da estrutura,
buscando a
correspondencia entre
todas as partes da
construção de modo que
nada pode ser
acrescentado, alterado ou
eliminado.
A fachada de Sant'Andrea, é baseado na estrutura e organização
dos arcos triunfais romanos. Mas o grande valor não reside na
replicação e aplicação da estrutura de um arco triunfal em uma
igreja, mas o fato de que foi adaptado às necessidades específicas
de Santo André. Um dos fundamentos da arquitetura de Alberti,
era encontrar a harmonia entre os eixos da construção, unificar as
diferentes partes.
No caso de Santo André, a fachada e o corpo da igreja são
unificados antecipando a abóbada da nave no grande arco da
fachada. Alberti alcança, assim, uma transição natural de fora
para dentro da igreja. Esta harmonia acontece não apenas em
relação com o arco e a nave, mas também nas entradas laterais
que correspondem proporcionalmente com a estrutura do lado
do corpo da igreja.
Santa Maria Novella - A construção começou no meio do século 13, por volta de
1246 e foi terminada por volta de 1360. Leon Battista Alberti, projetou a parte superior
da fachada incrustada em mármore preto e branco. Alberti trouxe os ideais de
arquitetura humanista, proporção e detalhamento de inspiração clássica para o
projeto, enquanto também criou harmonia com a já existente parte medieval da
fachada.
http://www.youtube.com/watch?v=i3FYkjcY4uA
Santa Maria Novella – a fachada
Palácios do Renascimento florentino
Os palácios medievais italianos apresentavam exterior vigoroso e
defensivo,mas, com o decorrer do século XV e a chegada de um
novo clima político e cultural, uma nova forma de arquitetura
residencial se fez necessária para complementar a elegância da
vida renascentista.
Geralmente com três andares bem definidos e
construídos em volta de um pátio interno, esses
palácios se tornaram bases de importantes
dinastias, em que as famílias apoiavam suas
ambições em uma arquitetura que transmitisse seu
poder e riqueza.
Palácio Médici
Palácio Strozi – Florença - Itália
Contrastando com o exterior, as fachadas
internas, criadas em torno de um pátio
central aberto abriam-se em elegantes
loggias, galerias de arcos redondos, à
maneira romana, decoradas com
mármores, medalhões de cerâmica
esmaltada e peças de estatuária. O pátio
era o centro orgânico do palácio.
No Renascimento, a vida
centrou-se nas cidades – onde
reis e príncipes construíram as
suas cortes, onde moravam os
bispos, onde se instalaram as
universidades, onde os
burgueses possuíam as suas
sedes de negócios/palácios e
até os nobres instalaram os
seus palácios. Assim, a vida
mundana deslocou-se para a
cidade.
Palácio Strozzi em Florença.
Fachada frontal do
Palácio Pitti, voltada
para a praça do mesmo
nome. Originariamente
(1458) projetado por
Filippo Brunelleschi.
Residência de campo : as vilas
Vila Capra, conhecida como Rotonda.
Andrea Palladio
TRATADOS RENASCENTISTAS
"O arquiteto é aquele que, com o auxílio da razão e de uma
regra maravilhosa e precisa, sabe dividir as coisas com o seu
espírito e com a sua inteligência e sabe compor com perfeição,
no decurso do trabalho de construção, todos aqueles materiais
que pelo movimento das massas e a reunião e encaixe dos
corpos, podem servir eficaz e dignamente as necessidades do
homem”.
(Leon Battista Alberti – tradução livre da versão italiana).
Andrea Palladio e Os Quatro Livros da Arquitetura
Erudito, humanista, arquiteto:
Andrea Palladio, autor de uma
das mais importantes obras da
arquitetura moderna: I Quattro
Libri dell`Arquitettura. Ricos
em ilustrações, os quatro
volumes reúnem uma análise
do próprio trabalho de
Palladio, suas pesquisas sobre
a arquitetura clássica, as
ordens arquitetônicas, as
edificações domésticas e
públicas, o urbanismo e a
construção sacra.
Retrato de Andrea Palladio .El Greco, 1570-75
A obra se tornou uma referência por introduzir um sistema de ilustração arquitetônica
que fornecia uma grande quantidade de informações exatas, incluindo vistas múltiplas
e detalhes em separado.
Ele foi o primeiro a usar
consistentemente o frontão do
templo grego como a cobertura de
um pórtico, característica que de
todas foi a mais imitada. A
estrutura dos prédios era simétrica,
com um corpo principal
centralizado, flanqueado por alas
de aposentos secundários ou
arcadas que ampliavam a vista
frontal, a mais importante.
7 Formas Ideais de Plantas de Recintos de Andrea Palladio.
Duas formas simples - o cubo e a esfera -
que Palladio considerava,
respectivamente, a mais regular e a mais
bela, e que tinham associações místicas.
Villa Barbaro (1560)
“*...+pela primeira vez na
arquitetura ocidental paisagem e
arquitetura foram concebidas
como pertencendo uma à outra.
Aqui pela primeira vez os
principais eixos das casas se
prolongam para dentro da
natureza, ou, alternativamente, o
espectador contempla a casa
como o coroamento da vista
paisagística“ Pevsner
Seguindo os conceitos de Vitrúvio, arquiteto do qual era seguidor e tradutor da obra,
Palladio defendia que o arquiteto deveria extrair da obra solidez, utilidade e beleza.
A Villa Barbaro, também conhecida como Villa di Maser ou Villa Volpi, é uma Villa italiana do
Vêneto situada em Maser, Província de Treviso.
Paolo Veronese - 1560
Embora se diga que a arquitetura
renascentista teve início com a obra
de Brunelleschi e, em particular, da
cúpula que acrescentou à catedral de
Florença entre 1420 e 1436, ela
realmente fincou raízes com a
publicação dos primeiros tratados de
arquitetura desde a Roma antiga.
Leon Batista Alberti escreveu o
primeiro deles em 1452.
De re aedificatoria ("Sobre a arte de
construir", em latim) é um tratado
arquitetônico clássico escrito por
Leon Battista Alberti entre 1443 e
1452
No Início da Idade Moderna, as cidades ocidentais renasceram
graças ao lento mas progressivo desenvolvimento do comércio,
tornando-se importantes centros políticos e econômicos, que
levaram à perda do poder dos senhores feudais e à decadência do
feudalismo.
Entre os séculos XIV e XV, os movimentos comunais e a ascensão
da burguesia reivindicaram o retorno do PODER MUNICIPAL,
passando os mercadores a financiarem a implantação de
monarquias nacionais, o que fez surgir os primeiros países
europeus.
Durante a Era das Navegações, o comércio deslocou-se do
Mediterrâneo para o Atlântico e o MERCANTILISMO desenvolveu-se
apoiado pela expansão do Capital comercial e usurário, este
incentivado pela Reforma religiosa.
A CIDADE RENASCENTISTA
Aos poucos, as cidades passaram a assumir suas funções produtivas, em
especial com o aparecimento das primeiras FÁBRICAS URBANAS, ou
seja, pequenas oficinas voltadas tanto ao varejo como ao atacado.
Paralelamente, a cavalaria foi substituída pela artilharia, o que tornou
definitivamente as muralhas obsoletas; e os moradores das cidades
desceram das colinas para as planícies (Benévolo, 2001)
Château de Chenonceaux (1515/21, Vale do
Loire, França) Philibert de l’Orme (1514-70)
Château de Chambord (1519/39, Vale do
Loire, França) Domenido da Cortona (1596-1669)
Na ideia renascentista de cidade, toda a motivação de ordem sagrada
e/ou religiosa sobre a vida urbana acabou desaparecendo, sendo
substituída por uma atitude científica levada ao extremo de uma
racionalidade a-histórica.
Alguns planos de cidades desenhados no
Renascimento
Com o racionalismo e o humanismo
em voga, os desenhos de cidades
eram quase sempre figuras
geométricas regulares: cidades
circulares, octogonais, em forma de
estrela, quando muito quadradas.
Sempre figuras que se
podia inscrever no círculo,
a mais perfeita das formas.
O eixo principal dessa
perfeição e idealização da
cidade era a estética. A
cidade ideal devia ser bela.
Passaram a predominar a uniformidade, os traçados regulares e as ruas
irradiadas de uma praça central, em que canhões defendiam
estrategicamente as entradas da cidade.
De modo geral, a busca pelo MODELO IDEAL levou à repetição de alguns
motivos geométricos arquetípicos, principalmente o quadrado e o
círculo .
Piazza Ducale
(Vigevano, Itália)
Dentre os vários projetos com base na idéia de cidade ideal, no Renascimento, apenas
Palmanova (1593), projetada por Vicenzo Scamozzi, foi construída. É um plano de fortaleza e
estrutura, planejada para proteger contra os ataques dos otomanos, inspirada nos tratados
teóricos do século XV, que devia sempre que possível projetar as cidades a partir do círculo, do
quadrado ou de um polígono regular, destacando o ponto central ocupado pela sede do poder e
pela praça.
Almeida - Portugal
TRAÇADO URBANO
No RENASCIMENTO, a concepção urbana aspirava uma
geometrização geral de toda a cidade, na qual ruas e praças
passaram a serem definidas pelos edifícios que pareciam
estar constituídos por idênticas unidades estereométricas
(formas geométricas puras).
Procurou-se, na medida do possível, aplicar as
regras da PERSPECTIVA e do processo de
composição aditivo, no qual cada elemento espacial
conservava um alto grau de independência dentro
do conjunto.
Prospettiva di una piazza (c.1470) Francesco di Giorgio (1439-1501) e Luciano Laurana (1420-79)
O traçado urbano renascentista foi objeto de um intenso esforço de
interpretação crítica e experimentação que, na prática, resultou em
várias realizações fragmentárias, as quais exemplificam as relações
adotadas entre o assentamento e o entorno natural (relação
figura/fundo).
O primeiro tratadista da Renascença, LEON BATTISTA ALBERTI (1404-72)
sistematizou teoricamente as ideias artísticas do período, tanto para a
pintura e a escultura (1435) como para a arquitetura (1455).
Em seu tratado em dez livros De re aedificatoria, de inspiração
vitruviana, estabeleceu o que seriam as premissas, nos livros IV e VIII,
do urbanismo renascentista.
“Talvez esta evidência seja suficiente para
demonstrar que alguns edifícios são apropriados
para a sociedade como um todo, outros para os
primeiros cidadãos, e ainda outros para as
pessoas comuns. Novamente, entre os primeiros
cidadãos aqueles presidindo conselhos
domésticos requerem edifícios diferentes
daqueles para os envolvidos na execução de
decisões ou aqueles engajados no acúmulo de
riquezas”
Nesta afirmação Alberti insinua a ordem do De Re Aedificatoria, colocando a questão da
classificação dos edifícios em públicos e privados, o que é de grande importância para o
desenvolvimento dos livros que compõem a obra.
O Livro IV tem uma importância particular porque é nele que pela primeira vez Alberti
aborda a questão da cidade, e a coloca como forma da perfeita convivência humana:
“todos precisam da cidade e de todos os serviços públicos que dela fazem parte”...
ALBERTI via a ação urbanística como uma atividade moral, na qual o
arquiteto teria a função de unificar todos os aspectos da vida pública e
privada.
Definindo a sociedade perfeita como “construção” (encaixe lógico de
afirmações morais, civis e religiosas), buscou definir as regras universais
de construção e remodelação das cidades.
Lucca - Itália
Cidade ideal - Peruggino
Criando um sistema de operações aplicáveis a todos os Organismos
urbanos, ALBERTI concebia a cidade como uma totalidade irredutível, ou
seja, um “edifício” público que é uma obra de arte completa, a qual
supera em dignidade a todas as demais edificações urbanas.
Sua teoria urbana demonstrou-se possível em pequenas cidades (Pienza
e Urbino), mas ineficaz nas médias (Mantova e Ferrara) e desastrosa nas
grandes (Milano e Roma), já que ali aplicadas acabaram rompendo a
coerência e o equilíbrio dos conjuntos precedentes.
Mantova,Emilia-Romagna Itália
Piazza del duomo - Milão
No livro “O que é cidade” (Coleção Primeiros Passos, Editora
Brasiliense), Raquel Rolnik lista quatro temas recorrentes das
idealizações renascentistas que ainda permeiam nossas concepções de
cidade:
1) A tendência a fazermos uma leitura mecânica da cidade, como se
ela se reduzisse a uma circulação de fluxos – de pedestres, de veículos,
de cargas, de dinheiro, de ventos ou águas;

2) A ideia de ordenação matemática (regularidade, repetição) como
base da racionalização na produção do espaço;

3) A suposição de que uma cidade planejada é uma cidade sem males
(muita gente boa no planejamento urbano, lá no fundo, ainda trabalha
com essa hipótese)

4) A crença na capacidade do Estado de controlar a cidade, através das
normas, da legislação, da fiscalização e, em última instância, da polícia.
“As fortificações poligonais datam do século XV. O seu desenho
é atribuído ao arquiteto italiano Filarete como resposta às
novas armas, tais como canhões e bombardas, que o exército
francês possuía e com que atacava as cidades italianas. Com
esta forma não só as muralhas ficavam menos expostas às
armas inimigas como também se dispunha de múltiplos
ângulos de fogo ofensivo e defensivo, os famosos bastiões
triangulares - as "pontas" da estrela.”

Leia mais:
http://obviousmag.org/archives/2008/02/cidades_fortifi.html#ixzz1owi1dQCg
Bourtange - Holanda