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Programa de Estudos Pós-Graduados em ADMINISTRAÇÃO, nível MESTRADO.
10ª. Aula – 18/Out/11

Seminário Tipos de Pesquisa:
Quali e Quanti


Professor Dr. Luciano Antonio Prates Junqueira


Alunos: Antonio THOMAZ P. Lessa Neto
METODOLOGIA DA PESQUISA APLICADA À
ADMINISTRAÇÃO
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TEXTO

Capítulo 5 (p. 147-179) : A etnografia e os
estudos organizacionais

ANDION, C.; SERVA, M.

In: GODOI, C.K.; BANDEIRA DE MELLO, R.; da
SILVA, A.B. (Organizadores)

Pesquisa QUALITATIVA em ESTUDOS
ORGANIZACIONAIS (EO´s)
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SUMÁRIO
5.0. Resumo
5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos (p. 148-153)
5.2. Particularidades da postura etnográfica (p. 153-
156)
5.3. Momentos da pesquisa etnográfica e sua
aplicação nos estudos organizacionais (p. 156-165)
5.4. Etnografia e estudos organizacionais:
sugestões de temas de pesquisa (p. 166-176)
5.5. Considerações Finais (p. 176-177)
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5.0. Resumo

Ao levantarem, neste capítulo 5 especificamente, as contribuições da
etnografia para a realização de pesquisas que têm como objeto os
fenômenos organizacionais, os autores partem da premissa de que “para
se empreender estudos etnográficos em organizações, com a profundidade e
a qualidade desejadas para o avanço da teoria organizacional, deve-se ir
além da visão da etnografia apenas como um método de orientação para o
trabalho de campo: é imprescindível compartilhar a perspectiva da etnografia
como uma estratégia global de pesquisa, o que requer concebê-la como uma
estratégia global de pesquisa, o que requer concebê-la também como uma
postura epistemológica do pesquisador” [Andion e Serva apud Godoi,
Bandeira de Mello e da Silva (org.), 2006, p. 147].

Logo, como parte primeira deste capítulo, os autores buscam “mostrar que a
etnografia permite a criação de novos lugares conceituais, teóricos e
metodológicos, proclamando a junção entre categorias que normalmente são
tomadas de forma excludente pela ciência clássica [...]” [Andion e Serva apud
Godoi, Bandeira de Mello e da Silva (org.), 2006, p. 147].
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5.0. Resumo…cont. 1

A seguir os autores já abordam os principais momentos da “tecelagem
etnográfica” e também:

 analisam as características de cada um desses momentos;
e
 abordam as sua particularidades quando da aplicação da etnografia
em organizações.

Estes mesmos autores finalizam este referido capítulo 5 indicando “algumas
temáticas que têm sido trabalhadas no campo dos estudos organizacionais,
usando o método etnográfico, de forma a levantar pistas para novas
pesquisas e ressaltar as potencialidades da utilização dessa postura
metodológica na área de administração” [Andion e Serva apud Godoi,
Bandeira de Mello e da Silva (org.), 2006, p. 147-148].
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos
Kneller (1980) afirma que:
 originalmente um dos principais motivos da investigação sistemática da
natureza foi a busca de uma plausível para os desastres que a afetam;
 a visão de uma natureza externa ao homem, coordenada por um Deus
(legislador divino) e regida por leis que poderiam ser descobertas pelo
homem foi o motor central que fez avançar a ciência ocidental e a fez
suplantar “outras ciências” (p.e. chinesa);
 esta visão estaria no cerne da concepção de ciência adotada na Europa
ocidental e exportada para o mundo, por meio de um domínio técnico,
econômico, científico e político;
 a ciência clássica toma forma, sendo pautada a partir de alguns
pressupostos:
1. a definição da natureza como sistêmica e sincrônica;
2. a tradução da ciência como desvinculada das questões culturais;
3. a representação da natureza por meio de elementos simples e
individualizados;
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont. 1
Kneller (1980) afirma que (cont. 1):
 a ciência clássica toma forma, sendo pautada a partir de alguns
pressupostos (cont. 1):
4. a perspectiva evolutiva e cumulativa;
5. a abertura à correção e refutação;
6. a explicação do mundo de forma objetiva e racional.

Nota dos autores: muitos desses pressupostos estão baseados no modelo
das ciências naturais e, sendo assim, refletem uma ordem científica
dominante que foi e tem sido amplamente utilizada nas diferentes disciplinas
do conhecimento, inclusive nas ciências humanas.

Souza Santos (1988) afirma que:
 esta concepção nega o caráter racional de todas as formas de
conhecimento que não se pautarem pelos seus princípios epistemológicos e
pelas suas regras metodológicas;
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lugares epistemológicos…cont. 2
Souza Santos (1988) afirma que (cont. 1):
 só é possível uma forma de conhecimento verdadeiro: aquele que é fruto
da experimentação e que pode ser sistematizado.

Notas dos autores:
1. conhecer, de acordo com esta concepção, significa dividir e classificar
para poder determinar relações sistemáticas entre o que se separou;
2. privilegiam-se as idéias claras, simples e objetivas em detrimento das
qualidades subjetivas do objeto;
3. tais princípios foram (e ainda são) amplamente aplicados nas ciências
sociais;
4. o modelo das ciências naturais e a concepção mecanicista de ciência
estão na própria origem das ciências sociais, com o positivismo, que
busca estudar os fenômenos sociais como coisas, reduzindo-os à sua
dimensão externa;
5. a concepção positivista não é a única presente nas ciências humanas;
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont . 3
Notas dos autores (cont. 1):
6. uma 1ª. concepção/leitura de ciências sociais, analisando por outro
ângulo, focaliza na pesquisa o pólo do objeto, apoiando-se na imagem do
organicismo - organismo ou a máquina - e onde o objetivo do pesquisador
é tornar a realidade objetiva - retirando dela toda a sua subjetividade – e
o que não se encaixa nessa objetivação é então desconsiderado;
7. uma 2ª. concepção/leitura de sociais, agora apoiando-se na imagem
central do texto (Berthelot, 2001), já focaliza a subjetividade, dando
ênfase à esfera do sujeito e à sua influência no processo de pesquisa, e
onde o mundo humano, a sociedade, a cultura não são elementos para
explicar, mas sim para compreender;
8. na confluência dessas 2 (duas) leituras, novas interpretações se tornam
possíveis e viáveis.
Latour (1994) destaca que:
 a própria noção de cientificidade está hoje sendo recolocada e é ainda
mais forte quando se trata dos fenômenos híbridos da atualidade, ou melhor
quando falamos de interdisciplinaridade nas ciências humanas;
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont . 4
Latour (1994) destaca que (cont. 1):
 a ciência moderna gerou historicamente um processo de purificação
separando definitivamente duas zonas ontológicas: a dos seres humanos
(sujeitos) e a da natureza (objetos).
 na prática, se criam cotidianamente misturas de gêneros completamente
novos: os híbridos de natureza e cultura – manipulação genética, microfísica,
nanotecnologia, novas tecnologias produtivas;
 esses “quase-objetos”:
a) constituem temáticas que religam os pólos da natureza e cultura;
b) questionam a constituição da ciência moderna;
c) são ao mesmo tempo reais, sociais e discursivos;
d) pertencem à natureza, ao coletivo e ao discurso.

Notas dos autores:
1. a emergência e a proliferação dos híbridos na atualidade têm feito
emergir um questionamento sobre as concepções tradicionais de ciência,
em particular no campo das ciências humanas;
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont . 5
Notas dos autores (cont. 1):
2. neste contexto se coloca a discussão sobre a interdisciplinaridade;
3. cada vez mais se torna necessário transpor as fronteiras disciplinares
para tratar a complexidade dos fenômenos;
4. a excessiva parcelização e disciplinarização do conhecimento científico
forma cientistas cada vez mais especialistas e o diálogo entre as
disciplinas e dentro das próprias disciplinas se torna difícil ou quase
inexistente;
5. atualmente, o avanço da técnica e as próprias descobertas científicas no
campo das ciências humanas e naturais têm levado à necessidade de
religar o que estava separado.

(novamente) Souza Santos (1988, p. 34) nos lembra que:
 esses objetos “são constituídos por anéis que se entrecruzam em teias
complexas com os dos restantes dos objetos, a tal ponto que os objetos em si
são menos reais que as relações entre eles.
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont . 6
Morin (1982) ressalta que:
 o verdadeiro problema colocado por essa nova forma de pensar não
consiste em “fazer a transdisciplinaridade”, mas “em que transdisciplinaridade
fazer”;
 os princípios transdisciplinares tradicionalmente aplicados na ciência como
a matematização e a formalização levaram à “clausura disciplinar” – só
permitiam a comunicação entre as diferentes dimensões do real, abolindo
essas dimensões;
 para considerar essas dimensões negligenciadas pela epistemologia
tradicional, deve-se propor uma epistemologia complexa.

Morin e Le Moigne (1999) afirmam que:
 a complexidade é um desafio e não uma solução;
 esse desafio consiste em religar o que antes estava separado:
1. o evento ao contexto;
2. o global ao parcial;
3. o universal ao singular;
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont . 7
Morin e Le Moigne (1999) afirmam que (cont. 1):
 esse desafio consiste em religar o que antes estava separado (cont. 1):
4. a ordem à desordem e à organização;
5. o indivíduo à espécie e à sociedade;
6. a lógica à contradição;
7. o observador ao observado.

Berthelot (2001) também defende:
 uma nova leitura epistemológica que possibilite transcender as tradicionais
dicotomias entre objetividade e subjetividade e que permita conviver com este
confronto.

(mais uma vez) Souza Santos (1988) nos afirma que:
 a crise da ordem científica e hegemônica e o papel das ciências sociais na
construção de “novos lugares conceituais, teóricos e epistemológicos”.
 o conhecimento do paradigma emergente é não dualista e se funda na
superação das distinções, inclusive entre ciências naturais e sociais.

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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
lugares epistemológicos…cont . 7
Bourdieu (2001) afirma que (cont. 1):
 esse desafio consiste em religar o que antes estava separado (cont. 1):
4. a ordem à desordem e à organização;
5. o indivíduo à espécie e à sociedade;
6. a lógica à contradição;
7. o observador ao observado.

(novamente) Berthelot (2001) que compartilha do mesmo argumento:
 aponta a importância das particularidades das ciências sociais;
 afirma que estas particularidades não podem ser desconsideradas quando
se pensa a cientificidade neste campo;
 afirma que nas ciências sociais, tanto o objeto quanto o sujeito da pesquisa
são frutos de uma construção social, e por isso o campo das ciências
humanas tem como vocação ser contestado e controvertido;
 nos lembra que a única saída parece ser então a busca de uma
epistemologia realista, ancorada na reflexão constante.
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
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Notas dos autores:
1. em síntese, esses autores trazem à tona a idéia de que, para afirmar a
cientificidade no campo das ciências humanas, não é necessário negar
ou ignorar as particularidades dessas ciências;
2. ao contrário, as ciências humanas podem achar nelas mesmos os
recursos que, colocados em prática como dispositivos críticos, podem
permitir-lhe contribuir para a construção de novos lugares
epistemológicos e metodológicos;
3. nesse sentido, epistemologia e metodologia se aproximam, ou seja, é
através do próprio processo de pesquisa que o pesquisador legitima a
construção do conhecimento que produz.

Coulon (1990, p. 214) nos lembra que:
 sem considerar as nuanças e diferenças entre as correntes da etonografia,
podemos afirmar que a “tecelagem etnográfica” se enquadra numa proposta
epistemológica complexa, permitindo religar dimensões que até então eram
tidas como separadas nos processos de pesquisa.
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5.1. A etnografia e a necessidade de novos
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Boumard (2003), Woods (1989) e Ardoino (1983) caracterizam
 a etnografia como mais do que um método, uma postura do pesquisador
perante o objeto e o contexto de pesquisa.

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5.2. Particularidades da postura etnográfica
 Bunge (p. 101) - Nas ciências sociais a teoria não é um luxo para o
pesquisador, é muito mais uma necessidade; [...] sob pena de privação do
próprio fundamento de toda a ciência: “Sem teoria não há ciência”.

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5.3. Momentos da pesquisa etnográfica e
sua aplicação nos estudos organizacionais
 De Bruyne, Herman e Schoutheete (1977, p. 102) - O
progresso da pesquisa e o da elaboração teórica não são apenas paralelos,
mas também indissociáveis.
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5.4. Etnografia e estudos organizacionais:
sugestões de temas de pesquisa
 Popper (1972, p. 59 => p. 102) - ”As teorias são redes estendidas
para capturar o que chamamos „o mundo‟, para racionalizá-lo, explicá-lo e
dominá-lo”.
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5.5. Considerações Finais

A “prática” da pesquisa empírica, objeto do pólo técnico, concerne à coleta
das informações; em ciências sociais essa prática freqüentemente está
dissociada do indispensável quadro teórico que é o único que a pode validar,
ela se sujeita então a um empirismo ingênuo.
[...] O reconhecimento da função indispensável do pólo teórico no processo
metodológico leva a rejeitar o “dataísmo” (Bunge) que prolifera nas ciências
sociais. Nenhuma acumulação de dados (data) pode desembocar numa
ciência. Tal acumulação pode apenas desnaturar toda teorização efetiva.
Por outro lado, um processo de teorização sistemática nada tem de
comum com uma “soma teórica”, síntese “final”, mais ou menos eclética, de
proposições teóricas esparsas.