ANÁLISE DAS NARRATIVAS INFANTIS: Contributos para o estudo da resiliência¹

Glicéria Gil² gliceria@iol.pt

RESULTADOS
Quadro 1: Estatística descritiva
Foto: Pedro Câmara

CONCLUSÕES
Máximo 10.00 290.00 71.00 95.00
Os resultados indicam que as crianças que apresentaram um nível mais elevado de resiliência desenvolveram narrativas com mais conteúdos informativos. Por outro lado, evidenciouse que uma história que possua bastante informação não é necessariamente uma boa história em termos de organização/coerência e ordenação. Os resultados destacaram a competência/resiliência das crianças como um factor importante para o desenvolvimento das suas capacidades narrativas. Por outro lado, essas mesmas narrativas forneceram informação mais ou menos detalhada de como as crianças lidam com as situações adversas do quotidiano e revelam adaptação positiva face a uma vivência de risco. A consideração e o reconhecimento das dificuldades educativas das crianças exige por parte das escolas e jardins de infância uma mudança profunda de grande complexidade que passa por desenvolver estratégias de protecção para as crianças provenientes de ambientes de risco. Assim, a análise das narrativas produzidas pelas crianças poderá ser um óptimo instrumento, a utilizar nos Jardins de Infância, para o diagnóstico das dificuldades e/ou competências cognitivas, sociais e emocionais das crianças.

Medidas

Média 8.07

INTRODUÇÃO
Uma das situações considerada de alto risco para o desenvolvimento da criança é a situação de pobreza. Viver em ambientes sócioeconómicos baixos pode aumentar os níveis de vulnerabilidade das crianças que podem ser expressos através de baixos níveis de competências cognitivas, sociais e emocionais (Zimmerman & Arunkumar, 1994; Kumar, 1993; Cecconelo e Koller, 2001). Existem várias formas de analisar o nível de resiliência das crianças. Uma das abordagens mais interessantes é aquela que analisa este conceito através do modo como as crianças narram as suas histórias (Fiorentino, 2001).

Dados Demográficos EDI Linguagem Oral MacArthur Story Stem Battery

Desvio Mínimo Padrão 1.32 5.00 155.00 28.00 43.00

231.57 31.92 51.81 10.28 76.12 12.10

METODOLOGIA
PARTICIPANTES

• 40 crianças (23 meninas e 17 meninos) com idades entre os 4
e os 6 anos (M = 61,75; DP= 7,81) que frequentavam no ano lectivo de 2003/04, três IPSS do concelho de Portimão.

- 85% dos participantes são oriundos de famílias em que pelo menos um dos pais se encontra desempregado. - 55% dos participantes apresentaram um baixo nível de risco familiar e 45% um elevado risco. - 40% das crianças apresentaram um nível baixo de competência geral, enquanto 60% revelaram um nível elevado. - 47,5% demonstraram um fraco desempenho na linguagem oral e 57,5% apresentaram um nível elevado de competência nesta área. - 45% desenvolveram narrativas com um baixo nível de informação, cronologia e organização e 55% desenvolveram boas narrativas tendo em atenção estas variáveis.

Tabela 1 - Intercorrelações entre a capacidade narrativa (variável informação) e as cinco sub-escalas
________________________________________________________
Sub-escala 1 2 3 4 5 6 ___________________________________________________________ Pessoas ------ 0.70** 0.41** 0.34* 0.33* 0.64** Locais ------0.58** 0.45** 0.56** 0.80** Objectos -------0.40* 0.64** 0.76** Actividades ------0.56** 0.79** Atributos - -------0.83** Narrativa (informação) - ------___________________________________________________________ ** p< 0.01 * p< 0.05 - A escala informação é constituída por cinco sub-escalas (pessoas, locais, objectos, actividades e atributos) que se correlacionam positiva e significativamente entre si e com o total da escala.

INSTRUMENTOS
•Early Development Instrument –
EDI (Janus & Offord,

2000) Questionário que avalia as competências gerais das crianças e que foi adaptado para ser utilizado com esta população. • MacArthur Story Stem Battery - MSSB (Emde et al., 2003) Consiste num conjunto de 13 histórias que avaliam as capacidades narrativas das crianças. No presente estudo foram utilizadas três dessas histórias. No total foram analisadas 120 histórias.

•Teste de avaliação da linguagem oral (Sim-Sim, 2001)
Os sub-testes Definição Verbal e Nomeação que utilizámos fazem parte de um conjunto de 6 sub-testes que pretendem medir as capacidades expressivas e receptivas das crianças.

•Ficha de recolha de dados demográficos
Elaborada para este estudo para recolher informação sobre a situação económica e os factores de risco que estão subjacentes a uma situação de pobreza.

Tabela 2 - Intercorrelações entre a variável competência geral (EDI e linguagem oral) e as capacidades narrativas
____________________________________________________________ Escala 1 2 3 4 5 ____________________________________________________________ Narrativa (informação) -----0.50** 0.55** 0.96** 0.47 ** Narrativa (cronologia) ------0.95** 0.72** 0.08 Narrativa (organização) -----0.76** 0.17 Narrativa total - -----0.41** Competência geral - ------____________________________________________________________ ** p< 0.01 * p< 0.05

HIPÓTESE
Prevemos que as crianças com um elevado número de factores de risco (medidos pelos dados demográficos) demonstrarão baixos níveis de desempenho linguístico (medidos pelos sub-testes da linguagem oral), baixa competência/resiliência e aptidão para a aprendizagem (medidos pelo EDI) e baixas capacidades narrativas (medidas pelo MacArthur Stem Battery), quando comparadas com as crianças que apresentam menos factores de risco na sua vida. MÉTODOS ESTATÍSTICOS
•Análise descritiva •Análise de variância (ANOVA) •Coeficiente de Correlação Pearson • Fiabilidade α de Cronbach obtida para: -Early Development Instrument – 0.95 -MacArthur Story Stem Battery – 0.84 -Avaliação da Linguagem Oral – 0.85
•¹Projecto de Investigação realizado no ano de 2004 no âmbito de uma Licença Sabática (Ministério da Educação) •² Doutoranda na Faculdade de Motricidade Humana-UTL.

REFERÊNCIAS
•Cecconello, A ., koller, S., (no prelo). Competência Social e Empatia: um estudo sobre resiliência com crianças em situação de Pobreza, Estudos de Psicologia. •Emde, R., Wolf, D., Oppenheim, D. (2003). Revealing the Inner Worlds of Young Children. New York: Oxford University Press. •Fiorentino, L.(2001) How children Express their resilience through narrative: an examination of environmental risk, competence, and narrative ability in a group of low-income preschool children [Dissertação de mestrado apresentada na Universidade de Concordia, Quebec] •Janus, M. & Offord, D.R. (2000). Reporting on readiness to learn in Canada. Isuma Canadian Journal of policy Research. •Kumar, V. (1993) Poverty and inequality in the UK – the effect on children. National Children’s Bureau. •Sim-Sim, I. (2001). Avaliação da Linguagem Oral, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian. •Zimmerman, M. A., Arunkumar, R. (1994). Resiliency research: Implications for schools and policy. Social Policy Report: Society for Research in Child Development.vol. VIII. Nº 4.p.1-18.

- O coeficiente de correlação revelou uma relação positiva entre as três
variáveis informação, cronologia e organização. - Correlação positiva e significativa entre a variável informação e a competência geral (r=0.47; p<0.01), ou seja, quanto mais competentes/resilientes são as crianças mais conteúdos informativos possuem as suas narrativas.

Tabela 3 – Análise de Variância (ANOVA) para as capacidades narrativas por género
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Fonte df F p ____________________________________________________________ Informação (narrativa) 1 0.18 0.66 Cronologia (narrativa) 1 7,52 0.00 Organização (narrativa) 1 5.59 0.02 Narrativa Total 1 1.31 0.26 Erro 38 ____________________________________________________________ ** p<0.01 * p<0.05 - Diferenças significativas nas sub-escalas cronologia e organização