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Compreender e Ensinar

Por uma docência de melhor qualidade

Profa. Dra. Terezinha Azerêdo Rios
Editora Cortez
ISBN: 8524907770

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Terezinha Azerêdo Rios
1995 – 2000 Doutorado em Educação.
Educação
Universidade de São Paulo, USP, Brasil.
Título: Por uma docência da melhor qualidade.
Orientador: Profa Dra. Selma Garrido Pimenta.
1975 – 1988 Mestrado em Filosofia da Educação.
Educação
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Brasil.
Título: Educação, ética e política: reflexão sobre a noção de
competência na prática educativa.
Orientador: Profa Dra. Mirian Jorge Warde
1962 – 1965 Graduação em Filosofia.
Filosofia
Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, Brasil

Em "Compreender e Ensinar - Por uma docência de
melhor qualidade" a preocupação da Profa Terezinha A.
Rios não nasce apenas em um contexto geral de
educação, mas também no interior do cotidiano de seu
ofício, na prática de um ensino de Filosofia. Em seu
trabalho, ela volta-se para as questões que envolvem uma
Didática de Filosofia, uma análise critica da especificidade
do ensino de uma determinada área do conhecimento e,
ao mesmo tempo, debruça-se sobre a contribuição
possível de uma Filosofia da Didática, no sentido de busca
dos fundamentos de uma ciência que tem como objeto o
gesto educativo que chamamos de ensinar.
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O núcleo de sua reflexão é a formação e a prática dos
educadores e educadoras e a necessidade de pensálas fazendo uso de uma perspectiva crítica, tendo em
vista na necessidade concreta de nossa realidade
educacional de se construir um profissional competente.

Ao discutir a questão da competência, procura enfocá-la
na articulação com a questão da qualidade. Retoma o
conceito de qualidade em oposição ao conceito de
Qualidade Total que representa os valores
neoliberais.

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refletir sobre a significação de que ela reveste no interior da prática educativa.. Educação de qualidade é inquestionável. conceito que guarda em sua compreensão uma multiplicidade de elementos?  É necessário "qualificar a qualidade". 5 . qual o significado que se dá à qualidade.. mas. já que a ação competente define-se como uma ação de boa qualidade.

para a discussão das competências a perspectiva estética.Hoje. freqüentemente. 6 . Há nesse movimento uma implicação ideológica?  A competência pode ser definida como saber fazer bem o que é necessário e desejável no espaço da profissão. emprega-se o termo "competências". presentemente.  A autora traz. mediadas pela ética. no plural. que diz respeito à presença da sensibilidade e mesmo da beleza no trabalho. Isso se revela na articulação de suas dimensões técnica e política.

No entanto. tanto o ser do professor quanto o do aluno tem um caráter histórico e isso não tem sido considerado muitas vezes. da realidade concreta de vida e da profissão de educadores e educandos. de perspectiva de saborear a realidade. de prazer.Os conceitos de bem e beleza guardam em si. já que o discurso delas desvincula-se da prática. entre outras conotações: a idéia de fruição. No ser do professor (e do aluno que ele procura educar) entrecruzam-se três tipos de relações: o sentir. . nas propostas oficiais. o saber e o fazer.

da escola. pessoas felizes. é formar cidadãos. A tarefa fundamental da educação. marcado pelos valores criados por esses mesmos homens e mulheres. 8 . num tempo determinado. sendo a felicidade a realização de uma vida digna na coletividade e a cidadania. a ação conjunta dos homens e mulheres num contexto determinado.

a autora se propõe a investigar as seguintes questões: .  Tendo em vista. No núcleo do trabalho de construção da cidadania está o desafio da comunicação. O ensino é a instância de comunicação. A aula é o espaço/tempo privilegiado da comunicação didática. a colocação anterior.

 Quais os desafios que se colocam. contemporaneamente. nas políticas e nas práticas de educação? Como podemos re-significálos?  • Quais são os indicadores de qualidade que tem norteado o trabalho dos educadores?  • Que significados estão abrigados no conceito de competência? 10 . a uma reflexão crítica sobre a educação e o ensino?  • Com quais significados o conceito de qualidade tem sido incorporado no discurso.

cidadania?  Como essa articulação acontece nas relações educativas no interior da prática docente?  • Como se caracteriza a perspectiva estética que se encontra na competência profissional dos educadores?  • Como se evidencia no processo docente e de seu núcleo. • Como podem se articular os conceitos de qualidade.o esforço na direção da . a aula competência? de construção do trabalho . felicidade.

uma visão de totalidade.  12 . a articulação estreita dos saberes e capacidades.• Um mundo fragmentado exige.CAPÍTULO 1 COMPREENDER E ENSINAR NO MUNDO CONTEMPORÂNEO  Que demandas colocam-se à Filosofia e à Didática um cenário com as características do mundo contemporâneo?  Algumas delas são: 1 . um olhar abrangente e. no que diz respeito ao ensino. para a superação da fragmentação.

o esforço de distinguir para unir. 13 . a percepção clara de diferenças e desigualdades e. que só ganha sentimento se parte de uma efetiva disciplinaridade.• Um mundo globalizado requer. para evitar a massificação e a homogeneidade redutora. 2 . o reconhecimento de que é necessário um trabalho interdisciplinar. no que diz respeito ao ensino.

 3. a re-apropriação do afeto no espaço pedagógico. é preciso encontrar o equilíbrio. no que diz respeito ao ensino.• Num mundo em que se defrontam a afirmação de uma razão instrumental e a de um irracionalismo. fazendo a recuperação do significado da razão articulada ao sentimento e. .

Compreender o mundo  Na educação. a referência às relações entre os indivíduos e à sua conduta parece indicar que a demanda pela Filosofia no mundo contemporâneo abriga uma preocupação ética. o respeito pelo outro. 15 . e o núcleo da reflexão ética é o reconhecimento do outro.

de maneira sistemática. objeto da Didática.Ensinar o mundo  O ensino. é uma prática social específica.  A função essencial do ensino é de socialização criadora e re-criadora de conhecimento e cultura . intencional  e organizada na instituição escolar. que se dá no interior de um processo de educação e que ocorre. 16 .

ele ganha significado apenas na articulação . .dialética . como gesto de socialização construção e reconstrução .com o processo de aprendizagem.de conhecimentos e valores. O ensino é uma ação que se articula à aprendizagem e.

construindo e modificando a cultura e a história.  E esse mundo estabelece demandas ao docente. muito complexas que são: 18 . A extensão do mundo se torna cada vez maior em função da intervenção contínua que os seres humanos fazem sobre ele.

19 . Para isso são necessárias uma visão de totalidade (o “olhar largo" da Filosofia da Educação) e uma visão de saberes e capacidades (o buscar alternativas para pensar o ensino da Didática) no exercício de uma "vigilância crítica" do trabalho docente. das relações. da comunicação. a superação da fragmentação do conhecimento. 1.

advindo do fenômeno da globalização. o risco da massificação e da homogeneidade. na especificidade da ação de grupos ou indivíduos que querem alcançar objetivos comuns). de tal modo que o aluno lembre sempre do "convívio inteiro" que constrói no diálogo com seu professor. numa parceria que se constitui exatamente na diferença. . É necessária a realização de um trabalho coletivo e interdisciplinar (tendo-se interdisciplinaridade por um diálogo. de maneira orgânica. 2.

fazendo a recuperação do significado da razão articulada ao sentimento e. no que diz respeito ao ensino. . a re-apropriação do afeto no espaço pedagógico. o embate entre uma razão instrumental e um irracionalismo: é preciso encontrar o equilíbrio. 3.

Capítulo 2: COMPETÊNCIA E QUALIDADE NA DOCÊNCIA  Uma análise crítica da qualidade deverá articular todos os aspectos da realidade específica de um contexto concreto: articular os de ordem técnica e pedagógica aos de caráter político-ideológico. já que é necessário superar "a retórica da qualidade" que vigora em nossos dias. 22 . denunciar e evitar o discurso competente que confunde-se com a linguagem institucionalmente permitida ou autorizada (Chauí 2000:7).

permite ao não especialista a ilusão de participar do saber" (Chauí.  A concepção de competência que ganha a função de uma competência privada. indulgentemente. 23 . fazendo desaparecer a dimensão propriamente humana da experiência. identificada como um modelo sustentado pela "linguagem do especialista que detém os segredos da realidade vivida e que. 2000:13). É preciso ponderar sobre os vários discursos competentes. que se dispõem a trazer fórmulas fechadas do saber e do comportamento nas relações entre os indivíduos.

refletir sobre a questão da qualidade na educação. Em cada um deles. As propostas de educação postas hoje são a confluência tensa entre essas concepções e opções:" 24 .Qualidade ou qualidades?   É necessário. pedagógico e cultural brasileiro ao longo das últimas décadas. segundo ele. Arroyo nos lembra dos momentos fortes do movimento social. "diferentes concepções e práticas ? sobre a qualidade na educação se confrontam. avançam e recuam. portanto.

segundo Gentili (1995:115).  A "qualidade sócio-cultural” se contrapõe a uma concepção que desqualifica . a concepção de qualidade veiculada nos programas de Qualidade Total. 25 . que transforma a qualidade numa estratégia competitiva de acordo com um mercado cada vez mais diversificado e diferenciado. que estava presente nas escolas. ou seja. O Programa de Qualidade Total se instala no Brasil principalmente na segunda metade da década de 80 e chega às escolas. como "contraface do discurso da democratização".

É constante. 26 .Competência ou competências?    O uso do temo "competências". no plural. em diversos níveis. atualmente. a referência às competências que devem ter os profissionais de todas as áreas ou que são esperadas dos alunos nos cursos que os formam. é recente.

em que se supõe que o desenvolvimento de competências conduz à formação de um indivíduo qualificado. 27 . Esse é o conceito de competências utilizado nos documentos que regulam a educação brasileira mais recentemente. as competências utilizam. (Discurso da Qualidade Total). integram. que deve mostrar que possui efetivamente as capacidades para mobilizar seus conhecimentos em determinadas situações. mobilizam conhecimentos para enfrentar um conjunto de situações complexas e implica em uma capacidade de atualização dos saberes. Para Perrenoud.

no entanto. como atendimento ao mercado de trabalho. são definidas levando-se em conta a demanda do mercado imediata. 28 . caminha no sentido de uma qualificação constante. no qual passam a se demandar "competências" na formação do indivíduo. ou seja. busca-se o "desenvolvimento de recursos humanos". as necessidades concretas dos membros de uma comunidade. pela de competências. mercadológica e não a demanda social. como formação para o trabalho. A substituição da noção de qualificação. ou seja.   As competências no sistema em que vivemos. que se estende ao espaço da educação. guarda o significado ideológico presente na proposta neoliberal. não é um recurso . ao desenvolve-los.ele possui recursos. O homem. cria recursos e.

percebe-se que se corre o risco de apenas atender a uma nova moda. uma vez que não se tem alterado as condições concretas do contexto educacional. no plural. vem substituindo alguns outros: saberes. etc. capacidades. que parece ensejar um novo tecnicismo. rompendo com modelos fechados de saberes e disciplinas. 29 .  Entretanto. quando apropriado pelas propostas oficiais. mantendo-se no discurso. afastar do conceito de competência uma compreensão ideologizante. habilidades. tanto da reflexão quanto da prática educativa e profissional. É necessário. de dar maior flexibilidade à formação. O termo "competências". portanto. Essa substituição é indicativa de um movimento que se dá no interior. retornando a "palavras de ordem" para falar do trabalho pedagógico.

na realização dos direitos do coletivo de uma sociedade. fundadas no bem comum.  O conceito de competência vai sendo construído a partir mesma da práxis. um conjunto de qualidades de caráter positivo. 30 . daí a necessidade de uma formação continuada dos educadores. do agir concreto e situado dos sujeitos. Competência é uma totalidade que abriga em seu interior uma pluralidade de propriedades.

uma vez que esta se revela na ação dos profissionais. quando se considera a técnica desvinculada de outras dimensões. por sua vez.  Esse significado é empobrecido. um significado específico no trabalho.A dimensão técnica é suporte da competência. 31 . na qual se supervaloriza a técnica. A técnica tem.CAPÍTULO 3 DIMENSÕES DA COMPETÊNCIA  A dimensão técnica . nas viações. ignorando sua inserção num contexto social e político e atribuindo-lhe um caráter de neutralidade. É assim que se cria uma visão tecnicista.

. mas tem sido pouco explorada. Ostrower (1986) vê a sensibilidade como algo que vai além do sensorial e que diz respeito a uma ordenação das sensações.  A dimensão estética A dimensão estética da competência sempre esteve presente. ligada estreitamente à intelectualidade. uma apreensão consciente da realidade.

No ethos manifesta-se um aspecto fundamental da existência humana: a criação de valores. e mesmo qualificar de má. uma conduta a que não se está acostumado. .As dimensões: ética e política    Para explorar-se o conceito de ética é necessário primeiramente sintetizar um conceito de moral. O termo ethos designa a maneira de agir e de pensar que constitui a marca de um grupo. Tende-se a qualificar como boa ou correta uma conduta que seja costumeira e a estranhar. de um povo. de uma sociedade.

A moral é. da regra. da lei. O ethos é o ponto de partida para a instalação do nomos. regras e leis destinadas a orientar a ação e a relação social e revela-se no comportamento prático dos indivíduos. portanto. o conjunto de normas. 34 .

 A moral torna-se uma instituição que nos informa acerca do melhor medo para resistir. que se configura em vários níveis da vida humana. mediante a consideração vulnerabilidade e o das respeito. pessoas à extrema (Habermas 1991:105). 35 .

a docência da melhor qualidade se afirmará na explicitação dessa qualidade em cada dimensão da docência: 36 . ela é sempre situada e. portanto. A competência não é algo abstrato ou um modelo.Trabalho docente competente  O trabalho docente competente é um trabalho que faz bem. Essa é a tese da autora.

comportamentos e atitudes .a à habilidade de construí-los e reconstruí-los com os alunos. fundada no princípio do respeito e da solidariedade. que diz respeito à participação na construção coletiva da sociedade e ao exercício de direitos e deveres. que diz respeito à capacidade de lidar com os conteúdos . que diz respeito à presença da sensibilidade e sua orientação numa perspectiva criadora. • na dimensão política. • na dimensão estética. na direção da realização de um bem coletivo. que diz respeito à orientação da ação.Dimensões da docência     na dimensão técnica. • na dimensão ética. 37 .conceitos.

se guiarem por princípios éticos. além de se apoiarem em fundamentos próprios de sua natureza. 38 .Dimensão ética  A dimensão ética é a dimensão fundante da competência porque a técnica. a estética e a política ganharão seu significado pleno quando.

Cidadania implica uma consciência de pertença a uma comunidade e também de responsabilidade compartilhada. para a autora. no qual se respeita o principio ético da solidariedade. assim como de uma construção constante da cidadania. portanto.CAPÍTULO 4 FELICIDADANIA   Felicidadania. O empenho coletivo. é o que se coloca no horizonte de uma prática profissional que se quer competente. A cidadania ganha seu sentido num espaço de participação democrática de todos os cidadãos. deve se dar na direção de uma democratização. 39 .

. Nesse sentido. 40 . é reconhecer o outro.  Construir a felicidadania. À escola cabe desenvolver seu trabalho no sentido de colaborar na construção da cidadania democrática. é necessário. na ação docente. da felicidadania..

Os princípios que norteiam a ação do professor devem sempre visar o bem coletivo. tendo-se o respeito como corolário.  2. 41 . Para o professor. Tomar como referência o bem coletivo. reconhecer o outro no aluno é considerá-lo na perspectiva da igualdade na diferença. 1. Envolver-se na elaboração e desenvolvimento de um projeto coletivo de trabalho.  3.

Lutar pela criação e pelo aperfeiçoamento constante das condições viabilizadoras de um trabalho de boa qualidade. Instalar na escola e na aula uma instância de comunicação criativa. que se faz na diferença e na diversidade. 4.  6. A forma que se reveste a comunicação pode favorecer ou afastar a possibilidade de uma aprendizagem realmente significativa. no cotidiano da pedagógica.  5. Criar espaço. a afetividade e a alegria. calcada no diálogo. relação 42 .

só serve para se procurar fazer a vida da melhor qualidade." 43 . ao concluir. afirma que "o trabalho docente só serve par colaborar na construção da felicidadania ou seja. A autora.

 A filosofia é o grande recurso a ser utilizado para compreender o mundo.Idéias centrais da obra  Reflexão sobre a relação necessária entre a filosofia e a didática  A condição primeira para ensinar é compreender o mundo  Os educadores não podem correr o risco de fechar a porta da sala de aula e esquecer o mundo externo. considerando que apenas a visão aberta e atenta aos desafios da contemporaneidade é que habilita ao magistério 44 .

um olhar abrangente e. para evitar a massificação e a homogeneidade redutora. para a superação do fragmento. o esforço de distinguir para unir.  Um mundo em que se defrontam a afirmação de uma razão instrumental e a de um irracionalismo. a articulação estreita dos saberes e capacidades  Um mundo globalizado requer. é necessário encontrar o equilíbrio. Um mundo fragmentado exige. uma visão de totalidade. no que diz respeito ao ensino. 45 .

Capacidade de lidar com os conteúdos – conceitos.Orientação da ação. comportamentos e atitudes – e à habilidade de construí-los e reconstruí-los  Dimensão política . na direção da realização de um bem coletivo  Dimensão estética - Presença de sensibilidade e sua orientação em uma perspectiva criadora 46 . fundada no princípio do respeito e da solidariedade.Participação na construção coletiva da sociedade e ao exercício de direitos e deveres  Dimensão ética . Dimensão técnica .

47 .

FIM .