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A ação humana:
análise e compreensão do agir
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2.1 A rede conceptual da ação

Acontecimentos vs. ações


• Há uma diferença significativa entre a pessoa a quem sucede ter um ataque
de tosse e a pessoa que simula ter um ataque de tosse: no primeiro caso,
algo simplesmente acontece, e não parece que haja muito a fazer acerca
disso; o segundo caso, porém, envolve claramente algum propósito ou
intenção.

• Distinguir as ações de outras coisas que não são ações, embora possam
parecê-lo, vem da necessidade de explicar por que motivo fazemos certas
coisas querendo fazê-las.

• Quando procuramos explicar as nossas ações, invocamos desejos, motivos,


crenças, intenções, etc. Conceitos como os de desejo, motivo, crença,
intenção e outros semelhantes ajudam-nos a explicar as ações.
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O que é uma ação?

1.ª definição explícita:


Uma ação é um acontecimento.

• Mas nem todos os acontecimentos são ações. Qualquer ação envolve um


agente, e este é o sujeito da ação. Um terramoto ou um furacão não são
ações, pois não existe um agente capaz de causar tais acontecimentos.
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O que é uma ação?

2.ª definição explícita:


Uma ação é um acontecimento que envolve um agente.

• Mas nem todos os acontecimentos que envolvem um agente são ações.


Alguns acontecimentos não envolvem a intenção do agente, nem ele os
consegue controlar, como o cabelo crescer, suar quando faz esforço físico, o
coração bater, entre outras coisas.

• Então, outra condição necessária para um acontecimento ser uma ação é


esta ser intencional.
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O que é uma ação?

3.ª definição explícita:


Uma ação é um acontecimento intencionalmente
realizado por um agente.

• São coisas muito diferentes uma bola bater na mão e uma mão tocar numa
bola. A bola não é um agente e não tem intenção ao bater na mão. Então, a
bola que bate na mão é um acontecimento e não uma ação. Quando é a
mão a tocar na bola, já se pode considerar uma ação, desde que haja uma
intenção por parte do agente para o fazer.

• Por isso, o agente tem de se tornar a causa do acontecimento.


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O que é uma ação?

4.ª definição explícita:


Uma ação é um acontecimento intencionalmente
causado por um agente.

• Deve existir uma ligação causal entre a intenção do agente e o


acontecimento para podermos chamar ação a esse acontecimento.
Podemos imaginar um jogador de snooker que tem a intencionalidade de
colocar uma das bolas num dos buracos e tem um espasmo muscular que o
faz dar a tacada e colocar a bola no buraco, porém, ele não teve controlo no
que aconteceu, não foi ele a causa intencional do acontecimento.
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A ideia de causalidade

• A maneira adequada de descrever uma ação é a que exprime a


ligação causal entre o acontecimento e a intenção do agente.

Mas o que queremos dizer exatamente com «ligação causal»?

• A ligação causal é um tipo de relação que existe entre


acontecimentos, e que os liga. Por exemplo, a força da gravidade
parece ser a causa da queda dos corpos, podemos dizer que existe
uma ligação causal entre a força da gravidade e a queda de um
corpo.
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Causalidade natural e causalidade do agente

• Falamos em causalidade quando queremos explicar a ação de um agente,


mas também quando queremos explicar algum fenómeno da natureza.
• Assim, é preciso distinguir estes dois tipos de causalidade: a carícia e a
trovoada são coisas causadas, a 1ª por um agente, e a 2ª por leis da
natureza. A pergunta que se impõe é se existe realmente diferença nestes
dois tipos de causas: não serão do mesmo tipo as causas das ações e dos
acontecimentos da natureza?

• Se não tivéssemos intenções, não agiríamos. Se não agíssemos, não haveria


ações para explicar…
• Parece, portanto, que explicar adequadamente uma ação é apresentar a
intenção que a terá causado. A ação tem um certo tipo de causas que se
distinguem das causas naturais, por isso faz sentido separar os dois tipos de
causalidade.
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Deliberação

• Antes de uma tomada de decisão ou da escolha entre alternativas, passa-se


por um processo em que se pensam as alternativas disponíveis e se analisa
o que cada uma delas nos pode dar, a este processo chama-se
DELIBERAÇÃO.

• A DELIBERAÇÃO é o tipo de pensamento que considera e avalia as razões


práticas para uma tomada de decisão ou escolha entre alternativas.
• Quando resulta deste tipo de pensamento, uma ação é realizada
deliberadamente. De uma forma geral, o processo de deliberação atende a
três tipos de razões: técnicas, prudenciais e morais.
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Razões técnicas

• As razões sobre a forma mais eficiente de fazer alguma coisa são


razões técnicas.

• As razões técnicas são aquelas que nos permitem fazer algo de forma
mais eficiente e funcional.
• Por exemplo, um piloto de Fórmula 1 procura a melhor forma de
conduzir o seu carro durante uma corrida tendo, para tal, de avaliar as
paragens necessárias para a troca de pneus ou para o abastecimento
de combustível, otimizando os tempos e a condução.
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Razões prudenciais

• Um ato prudente é aquele que se prevê ter consequências futuras


interessantes para o agente.

• O piloto de Fórmula 1 deve pensar a longo prazo, pois o seu grande


objetivo é ganhar a corrida. Para isso precisa fazer uma boa gestão
das suas paragens, avaliando, por ex., a quantidade de voltas que dá
com os mesmos pneus. Não seria prudente, da parte do piloto,
tentar fazer toda a corrida com os mesmos pneus. Então, é um ato
prudente parar para mudar os pneus, porque isso terá boas
consequências para o piloto.
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Razões morais

• A razão moral entra, algumas vezes, em conflito com a razão


prudencial. Por exemplo, quando um agente se abstém de socorrer
um amigo porque isso lhe trará alguma vantagem. Existe uma razão
moral que o obriga a socorrer o amigo, mesmo que para isso
sacrifique alguma outra felicidade que teria se não o fizesse.

Existem também conflitos exclusivamente entre razões morais.


• Estas são as deliberações mais difíceis de fazer.
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Decisão racional

• Uma decisão é racional se resulta de um processo de deliberação


cuidadoso.

• Para ser racional, uma decisão deve ter em conta a deliberação


técnica, prudente e moral, sem fugir às dificuldade que estas últimas
levantam. Não alimenta apenas o interesse próprio a longo prazo,
uma vez que decidir racionalmente exige sabedoria moral.

• MUITO IMPORTANTE: Não se deve confundir decisão racional com a


racionalização dos nossos interesses. Temos de ter cuidado com as
decisões que se mascaram de racionais, mas que, na verdade, são
apenas racionalizações.
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2.2 Determinismo e liberdade

Será o determinismo compatível com o livre-arbítrio?

• Existe uma tese que defendem que tudo o que acontece tem uma
causa que determina esse acontecimento (a tese determinista).
• Existe outra tese que defende a ideia de que somos livres, e, por isso,
temos sempre a possibilidade de escolher entre alternativas.

Estas duas teses parecem ser contrárias, pois, se tudo está


determinado, como posso eu ser livre?

Existem três grandes teses que respondem a esta questão:


• a tese determinista, a tese libertista e a tese compatibilista (ou
determinismo moderado).
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Determinismo

O determinismo é a crença de que tudo tem uma causa.

• A crença de que tudo na natureza tem uma causa que lhe antecede,
é uma crença partilhada por muitas pessoas. Assim, facilmente se
acredita que não somos seres separados da natureza, e que todas as
nossas ações são causadas por acontecimentos anteriores e leis da
natureza.

• Mas… quais as consequências desta crença?


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Uma consequência paradoxal

• Se todas as nossas ações são o resultado de uma cadeia causal que


nós não conseguimos evitar nem modificar, então teremos de
concluir que não temos qualquer controlo das nossas ações, e, por
conseguinte, não temos livre-arbítrio.

• No entanto, temos a crença de que muitas vezes agimos de uma


determinada maneira, tendo podido agir de outra. E, nestes casos,
tomámos uma decisão livremente, com controlo sobre a situação.

O paradoxo está, então, em acreditarmos que tudo tem uma causa


(crença aparentemente verdadeira), mas que não temos livre-
• -arbítrio (conclusão aparentemente falsa).
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Causas e escolhas

Quando se sofre de uma doença hereditária, a doença está pré-


• -determinada pelos genes. A pessoa não tem qualquer
possibilidade de evitar o seu aparecimento. A cadeia de causas
que levou à doença começou antes de o sujeito ter nascido.
Como tal, sofrer a doença não é uma ação, não é algo que o
sujeito tivesse feito.

• Mas erguer a mão é já uma ação. Este é o resultado de


acontecimentos anteriores, que se estende a um passado
remoto, em que existiu alguém que foi o primeiro a erguer a
mão e que levou outros a imitarem-no. Neste caso, o gesto é
causado por coisas que a pessoa que o fez não controla,
embora escolha fazê-lo.
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Causas e programas

Será que estamos todos programados para fazer todas as coisas que
fazemos?

• Esta ideia pode parecer-nos muito estranha, porque nós não somos
computadores e porque temos consciência que fazemos coisas. Mas
não temos consciência do programa que nos determina.
• Espinosa, o mais conhecido filósofo determinista, acreditava que
pensamos ser livres por desconhecermos as causas das nossas
ações, e que, por isso, a liberdade do agente é mera ilusão.
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O dilema do determinismo

A crença no determinismo pode ser verdadeira e pode ser falsa. Porém,


quer seja verdadeira, quer seja falsa, parece conduzir-nos sempre à
mesma conclusão: não existem ações livres e, por conseguinte,
ninguém é responsável pelo que faz.

• Argumento 1 do dilema do determinismo:


(1) Ou as nossas ações são determinadas ou acontecem por acaso.
(2) Se são determinadas, então não somos livres e não somos responsáveis por
elas.
(3) Se acontecem por acaso, então não somos livres e não somos responsáveis
por elas.
(4) Logo, não somos livres e não somos responsáveis pelas nossas ações.
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Indeterminismo

O indeterminismo é a crença de que a relação de causalidade não é


necessária, mas apenas provável.

• Ou seja… Dado um certo acontecimento, não é necessário que


ocorra outro: há apenas uma certa probabilidade de ocorrer o
segundo, tendo ocorrido o primeiro.
• Segundo a tese indeterminista, algumas pessoas acreditam que é
possível existir liberdade na ação, mas o indeterminismo é a
aleatoriedade, é o acaso, e, sendo assim, não podemos dizer que
somos livres, nem conseguimos prever uma ação.
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Argumento do determinismo

• Existe uma diferença significativa entre a pessoa que caminha alcoolizada e


aquela que finge caminhar alcoolizada, mas o determinismo explica as duas
situações da mesma maneira. É, então, necessário analisar com mais
detalhe o argumento do determinismo…

• O argumento do determinismo é um raciocínio que envolve dois passos.

1.º passo do argumento 2:


(1) As nossas ações são causadas por acontecimentos anteriores e pelas leis
da natureza.
(2) Se as nossas ações são causadas por acontecimentos anteriores e pelas
leis da natureza, então não somos livres.
(3) Logo, não somos livres.
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Argumento do determinismo

• Se acrescentarmos uma nova premissa a esta conclusão, teremos


uma nova conclusão:
(4) Se não somos livres, não somos responsáveis pelas nossas ações.
(5) Logo, não somos responsáveis pelas nossas ações.

Analisando o argumento…
• O determinista aceitará todas as premissas do argumento...
• O libertista defenderá que a primeira premissa é falsa e, por isso, irá
concluir que há ações livres, por isso, somos livres.
• Os dois aceitam a 2.ª premissa, pois acreditam que existe um
incompatibilismo entre o determinismo e o livre-arbítrio.
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Argumento do determinismo

• O compatibilista defende que é possível conciliar o determinismo


com o livre-arbítrio.
– Em vez de recusar a primeira premissa, esta teoria nega a condicional
expressa na segunda premissa, defendendo que as ações não escapam ao
determinismo, mas que, ainda assim, são livres.

• Para melhor compreendermos as várias teses, vejamos o quadro no


seguinte diapositivo…
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Argumento do determinismo
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Libertismo

O libertista acredita no livre-arbítrio e nas ações livres. Logo,


acredita que o determinismo é falso.

• O libertista defende que, por vezes, agimos de uma maneira


quando podíamos ter agido de maneira diferente.

• Ora, se isto é verdade, então as nossas ações não são sempre


determinadas por acontecimentos anteriores e pelas leis da
natureza. Por vezes, agir desta ou daquela maneira depende de
nós, agentes. Logo, existem ações livres.

• O libertista acredita que as ações livres são o resultado do nosso


querer: fazemos certas coisas porque queremos fazê-las. Assim,
nada determina o nosso querer, temos o poder de agir de uma
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Um argumento a favor do libertismo:


a experiência da deliberação
A experiência da deliberação revela a capacidade de agir livremente.

• Caso 1: Escolha entre satisfazer o desejo avassalador de comer e o desejo


de permanecer vivo.
• Caso 2: Escolha entre inventar uma falsa acusação contra uma pessoa
inocente e satisfazer o desejo de permanecer vivo.

Análise dos dois casos:


• No caso 1, dos dois desejos, o de permanecermos vivos é o mais forte, por
isso, a escolha mais provável seria querer permanecer vivo.
• No caso 2, surgem razões mais fortes que nos fazem pensar não apenas nos
nossos desejos e que nos fazem agir segundo uma razão mais forte,
sacrificando o nosso desejo. Assim, temos a capacidade de agir de modo
diferente daquele que é determinado pela força comparativa dos nossos
desejos.
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Uma objeção ao argumento a favor do libertismo

A decisão de agir de uma determinada maneira é também o


produto de circunstâncias que não controlamos.

• Para o libertista, as escolhas de cada um são genuinamente


livres. Existem, porém, alguns problemas. Até que ponto temos
total controlo das circunstâncias que se nos apresentam em
cada situação? Seremos totalmente responsáveis por ações nas
quais interferem forças das quais não temos qualquer
controlo?

A nossa herança genética pode influenciar as nossas decisões


• e nem por isso deixamos de ser responsáveis por elas. Caso
tenhamos livre-arbítrio, dificilmente este poderá ser uma
capacidade de controlo imune às influências dos desejos e de
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Compatibilismo

De acordo com o compatibilista, o determinismo é verdadeiro, mas


isso não é incompatível com o facto de haver ações livres.

• O compatibilista acredita que, mesmo existindo causas antecedentes


que determinem as nossas ações, ainda temos um espaço para
exercer o livre-arbítrio. É possível ser livre num mundo onde as ações
são determinadas.
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O argumento a favor do compatibilismo:


a ausência de coação
O compatibilista defende que uma ação é livre se não for forçada.

• Suponhamos que estamos a caminhar e que começa a chover, não


temos guarda-chuva nem impermeável. Decidimos, então, entrar
num café para nos abrigarmos até que a chuva abrande. Esta ação,
para o compatibilista, é livre. Entrámos no café porque quisemos,
não fomos forçados a fazê-lo, e tínhamos outra alternativa, que era
continuar à chuva. Logo, agimos livremente.

• É a ausência de coação, e não a ausência de causa, que faz com que


uma ação seja livre. Logo, qualquer ação pode ser causada — como
pretende o determinismo — e, ao mesmo tempo, livre.
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Uma objeção ao argumento a favor do


compatibilismo:
o comportamento aditivo
Um alcoólico, quando bebe, está a fazer o que quer. Ninguém está a
forçá-lo a beber, e ninguém está a impedi-lo que o faça.

• Se ninguém obriga ou força o alcoólico a beber, então, de acordo


com o compatibilista, ele fá-lo livremente. Mas será que o alcoólico
terá uma alternativa genuína?

• Parece existir algo de errado na maneira como o compatibilista


entende a ação livre. Porém, podem distinguir-se dois tipos de
desejos, em análise nos próximos diapositivos.
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Uma resposta à objeção: tipos de desejos

• Podem distinguir-se dois tipos de desejos: os de primeira ordem e os


de segunda ordem.

• Uma coisa é querer comer um chocolate, outra é querer ter o desejo


de comer um chocolate. No primeiro caso, estaremos perante um
desejo de primeira ordem; no segundo, perante um desejo de
segunda ordem: um desejo acerca de um desejo.

• No caso do alcoólico, entram em conflito desejos de primeira e de


segunda ordem, pois ele não quer ter certos desejos que tem.
Embora neste caso não possamos falar de ação livre, tudo o que
precisamos é de desejar o desejo de realizar algo.
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Haverá no universo lugar para a liberdade?

Se o determinismo é verdadeiro, como poderemos encontrar no


universo lugar para a liberdade?

• O determinista defende que não há lugar para a liberdade, pois tudo


o que acontece, incluindo as nossas ações, são determinadas por
acontecimentos anteriores que não controlamos.
• O compatibilista defende o poder de agir livremente, desde que não
sejamos coagidos, mesmo que existam acontecimentos anteriores
que influenciem as ações.

• Os mais céticos ficam sem uma resposta genuína à questão sobre se


há ou não lugar no universo para a liberdade, porque cada ação,
quando analisada posteriormente, tem sempre condicionantes a que
não se pode escapar.
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Esquema-síntese