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PROGRAMA DE MESTRADO EM DIREITO

MINTER/SOBRAL/CAPES/UFSC
DISCIPLINA: DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA
OBRA:

VOZES DO BOLSA FAMÍLIA

Alexandre Pinto Moreira


CAPÍTULO 4

POBREZA: UM
CONCEITO
PLURIDIMENSIONAL
POBREZA
• Conforme salienta Amartya Sen, "a pobreza deve ser vista como
privação de capabilities básicas em vez de meramente como
baixo nível de renda, que é o critério tradicional de identificação
da pobreza".

• POBREZA – apesar de não poder ser limitado a uma mera


análise da desigualdade, tal fenômeno sempre se associa a uma
renda insuficiente.

• A renda representa um elemento essencial a ser considerado em


qualquer estudo sobre pobreza.
COMO DEFINIR POBREZA
1º Deve-se identificar os pobres entre a população geral;
2º Considerar as diferentes características comuns aos pobres para
chegar a uma avaliação do nível de pobreza na comunidade em
questão;
No primeiro passo devemos traçar uma "linha da pobreza", que
pode variar bastante de comunidade a comunidade.
POBREZA
• Identificar quem é pobre não implica per se um direito legal à
assistência pública, já que isso pode depender da capacidade
concreta que o Estado possui para fazer jus aos seus deveres
para com essas pessoas.
• Porém, as coisas mudam quando o Estado em questão dispõe
dos recursos necessários pelo menos para garantir um nível
mínimo de ajuda (como é o caso brasileiro).
• O Estado traça às vezes uma segunda linha divisória entre os
pobres que têm direito à assistência pública e os que não têm tal
direito.
• No Brasil, por exemplo, o Bolsa Família é concedido a núcleos
familiares cujos membros possuam uma renda mensal per capita
inferior a R$ 70, embora pessoas que tenham renda mensal per
capita de R$ 80 ou de R$ 100 possam ainda ser consideradas
pobres no contexto da sociedade brasileira.
POBREZA
Estabelecimento da linha – caráter político e pragmático.
No contexto brasileiro, entre tais variáveis, se destacam a parcela
assustadoramente grande de pobres entre a população e a
imensa disponibilidade de recursos do país.
A avaliação pela renda não diz tudo sobre o bem-estar dos
indivíduos.
AVALIAÇÃO DO BEM-ESTAR
ESTADO DE BEM-ESTAR DESENVOLVIDO – uma baixa renda
não implicaria necessariamente uma vida sem confortos, na qual
as necessidades básicas permanecem não satisfeitas.
O ESTADO NÃO GARANTE SERVIÇOS - até uma renda
relativamente elevada pode não ser suficiente para proteger os
indivíduos de riscos normalmente ligados à pobreza (pense-se,
por exemplo, no sistema de assistência de saúde dos Estados
Unidos: uma doença pode levar à falência até membros da classe
média, já que não há praticamente assistência pública gratuita)
POBREZA
• POBREZA PRIMÁRIA - definida pela dificuldade ou
impossibilidade de satisfazer necessidades básicas, como
nutrição, moradia etc., por meio da renda.

• POBREZA SECUNDÁRIA - definida pelo fato de que, também


quando sua renda é suficiente em si para satisfazer as
necessidades, os pobres não conseguem fazê-lo por razões não
imediatamente ligadas à renda. Se, por exemplo, pelo fato de viver
em certa região do país uma pessoa sofre de doenças que
ameaçam sua capacidade de nutrir-se de maneira adequada
(como no caso de seu corpo abrigar parasitas), o fato de poder
comprar comida não a protege da má ou da subnutrição.
COMPLEMENTAÇÃO DOS CRITÉRIOS
TRADICIONAIS DE MEDIÇÃO DA POBREZA

- ALTA TAXA DE DESEMPREGO


- DISPONIBILIDADE DE ASSISTÊNCIA DE SAÚDE
- PRESENÇA DE DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO NA
DISTRIBUIÇÃO DOS RECURSOS NAS FAMÍLIAS
- ALFABETIZAÇÃO E EDUCAÇÃO EM GERAL
- DISCRIMINAÇÃO SOCIAL E CULTURAL
Todos fatores determinantes para se conseguir um bom emprego.
FATORES OBJETIVOS DE
DEFINIÇÃO DE POBREZA
- A CLASSE SOCIAL E ECONÔMICA
- O LUGAR DE RESIDÊNCIA. (diversas regiões geográficas
apresentam variadas situações de carências. No caso brasileiro,
as localidades mais carentes são aquelas que por séculos foram
controladas politicamente por oligarquias locais poderosas e
imersas na cultura da violência, do arbítrio e do privilégio.)
- ETNIA OU COR DA PELE (índio, negro)
- O GÊNERO
- A IDADE
- A COMPOSIÇÃO E ESTRUTURA DA FAMÍLIA.
DISTINÇÃO ENTRE POBREZA MODERADA E
POBREZA EXTREMA
Os pobres extremos são as pessoas que não possuem um nível de
nutrição suficiente, o qual incide em um desempenho físico e mental
deficiente, que não lhes permite participar do mercado de trabalho, nem
em atividades intelectuais como a educação. Além do mais, a condição
de pobreza extrema praticamente impede qualquer mobilidade social: os
pobres extremos nascem e morrem, em geral, na mesma situação.

Os pobres moderados são os que, devido ao grau de desenvolvimento de


um país em um momento dado, não satisfazem as que se consideram
como necessidades básicas. Diferenciam-se dos pobres extremos por
terem a capacidade, porém não as oportunidades, de participar de
atividades econômicas e intelectuais.

Os habitantes em situação de extrema pobreza requerem medidas


imediatas para sair da marginalização e para reduzir sua fraqueza e sua
vulnerabilidade. (F Vélez apud Dieterlen, 2003, p.27)
A POBREZA NO BRASIL: ALGUMAS
CONSIDERAÇÕES
CAUSAS E ORIGENS

ESCRAVIDÃO - a escravidão, instituição plurissecular que nos legou


práticas sociais, políticas e econômicas, assim como atitudes morais em
relação ao sofrimento dos excluídos e dominados, configurando uma
sociedade carente de laços de solidariedade cívica e moral.

CATOLICISMO AUTORITÁRIO - por séculos legitimou a desigualdade


(inclusive a própria escravidão) e que, somente por um breve período e
não na sua totalidade, se abriu para uma ação mais decidida de combate
às causas da pobreza, e não somente de alívio das carências.
A POBREZA NO BRASIL:
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
DISTRIBUIÇÃO DE RENDA
A desigual distribuição de renda e riqueza, nos níveis existentes no
Brasil, corresponde à abertura de um verdadeiro abismo econômico,
social e político entre as classes:

Uma minoria rica usufruindo de altos padrões de consumo e de


instrumentos de reprodução das relações sociais existentes (como
acesso à educação superior), indiferente à sorte dos seus concidadãos;

A esmagadora maioria dos brasileiros condenados a uma vida de


carências, sofrimento e sacrifício.
DISTRIBUIÇÃO DE RENDA
Nos anos 1950 e 1960, os índices de crescimento econômico do Brasil
estiveram entre os maiores do mundo; entretanto, isso, longe de resultar
num aumento generalizado dos padrões de vida, aumentou a
desigualdade e a exploração.

O Estado brasileiro, ao mesmo tempo em que se modernizou, foi


privatizado por uma pequena elite e nunca desenvolveu políticas sérias
de redistribuição de renda. O golpe militar de 1964 deixou evidentes os
reais interesses das classes dominantes em relação a esse aspecto.
OPERAÇÃO IDEOLÓGICA VOLTADA À
NATURALIZAÇÃO DA POBREZA NO
BRASIL:
ESPÉCIE DE FENÔMENO NATURAL IMUTÁVEL, CONTRA O QUAL
QUALQUER LUTA É INÚTIL.
Tal afirmação esconde muitas coisas, além, claro, do interesse em
manter o status quo social, político e econômico.

No que diz respeito ao caráter da violência endêmica no país, a


explicação midiática, com forte influência nas classes médias, a reduz ao
problema das questões de tráfico de droga, de guerra entre gangues e de
microcriminalidade, deixando de lado a violência cotidiana e secular
praticada na sociedade e suas instituições sobre os excluídos, os pobres,
os negros, as mulheres, as crianças, assim como a realidade da
superexploração do trabalho, dos baixos salários e assim por diante.
OPERAÇÃO IDEOLÓGICA VOLTADA À
NATURALIZAÇÃO DA POBREZA NO BRASIL:
O fato de a maioria da classe média, de as elites em geral, identificarem o mais
grave problema do Brasil na violência contra a pessoa e a propriedade (da qual
se considera a principal vítima), e não na violência da pobreza, que atinge a
esmagadora maioria da população, demonstra, mais uma vez, a existência de
interesses e percepções do país profundamente contrapostos entre "as duas
nações".

É como se a chamada opinião pública, articulada na mídia e coincidente


de modo geral com a classe média, não vivesse no mesmo país que nossos
pobres, ainda que vivam frequentemente lado a lado.
OPERAÇÃO IDEOLÓGICA VOLTADA À
NATURALIZAÇÃO DA POBREZA NO BRASIL:
O Estado brasileiro não lhes garantiu o direito à vida e à segurança,
descumprindo as funções precípuas do organismo estatal. Essas
pessoas nunca tiveram e ainda não têm acesso aos gêneros
indispensáveis à reprodução da vida.

A ausência de Estado para lhes conceder e garantir direitos conforma a


situação de pessoas sem "direito a terem direitos". Com isso, o Estado
brasileiro durante muito tempo decretou sua morte civil. Essas pessoas,
portanto, foram emudecidas, porque seu direito de voz pública não existe,
e foram desprovidas de direitos civis básicos, já que dessa maneira não
possuem condições e canais institucionais de expressão e movimento.
OPERAÇÃO IDEOLÓGICA VOLTADA À
NATURALIZAÇÃO DA POBREZA NO BRASIL:
A LUTA CONTRA A POBREZA À LUZ DA
CONSTITUIÇÃO DE 1988
Com todos os seus possíveis limites, esta Constituição criou o espaço
jurídico para o desenvolvimento de políticas de direitos no país. Com isso,
abriu as portas para políticas públicas com vistas, por exemplo, à
efetivação entre nós de uma justiça social mínima.
Preâmbulo

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional


Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar
o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o
bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores
supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos,
fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e
internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos,
sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA
FEDERATIVA DO BRASIL.
A LUTA CONTRA A POBREZA À LUZ DA
CONSTITUIÇÃO DE 1988
Artigo 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do
Brasil:

I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;


...
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais;

Artigo 170 A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho


humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência
digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes
princípios:
...
VII - redução das desigualdades regionais e sociais;
A LUTA CONTRA A POBREZA À LUZ DA
CONSTITUIÇÃO DE 1988
Artigo 193. A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como
objetivo o bem-estar e a justiça sociais.

Um programa de transferência estatal de renda a mulheres pobres como o


Bolsa Família se insere em uma ainda incipiente política pública de
cidadania.

O fato de ser ainda muito insuficiente como tal não nos permite ignorar
suas possibilidades de se tomar uma consistente política de formação de
cidadãos, se complementadas por um conjunto mais amplo de políticas
que visam a esse alvo garantido na Constituição de 1988.

Nesse sentido, o BF começa pela mais preliminar de todas as


prerrogativas da cidadania, porque diz respeito ao mais preliminar direito,
o direito à vida.
FRACASSO DO DESENVOLVIMENTISMO
ECONOMICISTA
Em 1955, em artigo destinado a tomar-se um influente clássico, o
economista Simon Kuznets apresentava a hipótese de que um rápido
crescimento econômico levaria, a curto prazo, a um aumento da
desigualdade econômica e social, mas resultaria, a longo prazo, em uma
diminuição da pobreza.
FRACASSO DO DESENVOLVIMENTISMO
ECONOMICISTA
Os países subdesenvolvidos foram, portanto, obrigados pelo Banco
Mundial e FMI a tomar uma série de medidas que deveriam garantir o
crescimento econômico, como:

- privatizar companhias públicas e até serviços tradicionalmente


garantidos pelo poder público;

-facilitar o livre comércio, renunciando a ou diminuindo fortemente os


impostos sobre as importações e os subsídios à produção agrícola,
industrial ou extrativa nacional impostos);

- tentar alcançar o equilíbrio no próprio balanço nacional etc.


FRACASSO DO DESENVOLVIMENTISMO
ECONOMICISTA
Em 1986, um grupo de pesquisadores, reunidos ao redor do economista
chileno Manfred Max-Neef criticava o neoliberalismo financeiro por gerar
crescimento econômico, mas não verdadeiro desenvolvimento, por não
levar em conta a realidade dos países latino-americanos.

"é impossível eliminar a pobreza por meio da liberalização de um mercado


do qual os pobres ficam excluídos" e por favorecer uma atividade
econômica especulativa e não produtiva, já que os mercados nos países
latino-americanos são na realidade oligopólios e os grupos de poder
econômico não encontram sujeitos bastante fortes para controlá-los.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
1. FALTA DE CONDIÇÕES BÁSICAS PARA UMA VIDA SAUDÁVEL.

Entre os fatores negativos se destacam os seguintes: má nutrição (seja na


forma de falta de alimento, seja na de uma dieta não saudável), moradia
precária, ausência de assistência médica básica,falta de acesso a muitos
remédios etc.

A má nutrição não está ligada necessariamente à falta de alimentos, mas


também à falta de educação nutricional.

Estudos empíricos provaram que existe uma relação direta entre sub ou
má nutrição na infância e desenvolvimento das capacidades cognitivas
básicas e da inteligência. Assim, por exemplo, uma dieta pobre em ferro
prejudica a capacidade de concentração das crianças.

Com isso se está perante uma série de maus functionings ligados à


ausência das correspondentes capabilities.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
Possui particular importância a elaboração dos cardápios para merenda
escolar. Servem para criar capabilities, permitindo o acesso a functionings
básicos que - como vimos - estão ligados não somente à assunção da
quantidade de calorias adequadas, mas também ao desenvolvimento de
habilidades físicas e intelectuais.

Na situação de pobreza, as diferenças individuais, tais como escolaridade,


experiências pessoais, estrutura familiar, habilidades e talentos, se tornam
ainda mais decisivas na administração dos recursos financeiros
disponíveis e, sobretudo, na gestão da própria escassez. Não se trata da
culpabilização dos indivíduos pelas dificuldades em que se encontram; ao
contrário, sua eventual incapacidade de gerir sua situação de carência
depende de um contexto social multifacetado. A ausência de educação em
sentido amplo (como orientações corretas sobre o funcionamento do seu
próprio corpo, vida sexual, nutrição, higiene pessoal) marca
profundamente a qualidade de vida das pessoas.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
2. ACESSO NULO OU IRREGULAR À RENDA DERIVANTE DE UM
TRABALHO REGULAR

Desemprego crônico ou quase crônico.

No caso das mulheres, a grande maioria jamais teve um emprego, pelo


fato de casar e ter filhos ainda muito jovens.

Quando as pessoas têm a possibilidade de trabalhar autonomamente


(como no caso de pequenos proprietários que se dedicam a uma
agricultura de subsistência), a escassez de recursos materiais, a má
nutrição, a pouca ou nula escolaridade e a falta de informações relativas
ao seu trabalho representam obstáculos às vezes insuperáveis, a ponto
de os resultados obtidos serem desproporcionalmente baixos em relação
à energia humana investida.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
2. ACESSO NULO OU IRREGULAR À RENDA DERIVANTE DE UM
TRABALHO REGULAR

A pobreza não poderá ser resolvida sem ampla intervenção estatal em


amplos sentidos, como o de educar, treinar e preparar os indivíduos; mas
também criando, para isso, estruturas de apoio a atividades econômicas
adequadas às necessidades da maioria da população e incentivando
formas de trabalho mais próximas à cultura local.

Tais políticas visariam não somente ao desenvolvimento econômico da


região em questão, mas criariam acesso às capabilities necessárias para
um functioning básico, a saber, a capacidade de garantir a sobrevivência e
o bemestar de si e de sua família.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
3. TRABALHO INFANTIL E ABANDONO ESCOLAR

A perpetuação do analfabetismo e a impossibilidade de sair da miséria por


meio da educação.

Importância da educação como fonte de capabilities, não somente no


sentido de capacitação profissional (excessivamente dominante na visão
pedagógica de muitas autoridades preposta à educação, do MEC às
secretarias municipais), mas principalmente no sentido de possibilitar que
as pessoas ampliem seu horizonte vital e cognitivo.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
3. TRABALHO INFANTIL E ABANDONO ESCOLAR

A falta de contato com outras realidades que não aquela de seu núcleo
familiar e do contexto social mais imediato, quase sempre marcado por
uma situação de indigência e carência, faz que as crianças das famílias
pobres não consigam nem sequer imaginar que outra vida é possível, que
um dia poderão sair do próprio ambiente ou modificá-lo
profundamente.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
4. ALTA NATALIDADE

Segundo certa visão tradicional da família pobre, uma alta quantidade de


filhos representaria em perspectiva um maior número de fontes de renda
e, eventualmente, um apoio para os pais na terceira idade. Ao mesmo
tempo, porém, uma grande quantidade de filhos aumenta os problemas
econômicos da família, particularmente quando ainda são crianças ou
quando o mercado de trabalho não oferece bastante emprego para os
adultos.

DESINFORMAÇÃO

A falta de liberdade da mulher sobre seu corpo resulta também em


privação de functionings básicos, como a capacidade de planejar a sua
vida ou até de dispor do seu próprio corpo.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
5. ACIDENTES

Os pobres estão mais sujeitos a acidentes pela precariedade das


moradias e das instalações (como fiação elétrica precária), pela baixa
qualidade dos materiais de construção e localização perigosa dos terrenos
(por exemplo, nas margens de rios e na beira de estradas, inclusive em
alguns casos no próprio acostamento).

TRANSPORTE
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
6. FALTA DE CRÉDITO

Os pobres não obtêm crédito porque não têm nada a oferecer como
garantia e porque não encontram fiadores.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
7. INVISIBILIDADE E MUDEZ

Nas áreas urbanas se dá o fenômeno, muito conhecido e analisado, da


ocultação dos pobres no próprio panorama da cidade.

Contudo, podem ser notados em algumas situações, principalmente


quando transgridem certas convenções sociais e mesmo a lei: sua
"invisibilidade" se converte então em "perigosa visibilidade".

A distância do centro ou da sede do município implica quase sempre a


dificuldade de ter acesso a serviços essenciais (como assistência médica,
cartório público, bancos, escolas etc.).
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
7. INVISIBILIDADE E MUDEZ

Esse conjunto de elementos que caracterizam a vida dos pobres também


os emudece, isto é, sua voz e suas dores não são sentidas nem ouvidas.

A "mudez" dos pobres é agravada pela "surdez" dos agentes públicos.


ESPAÇOS PÚBLICOS PARA CONVERSA
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
8. DESIGUALDADE INTERNA ÀS FAMÍLIAS

Na maioria das vezes, nas famílias muito pobres a desigualdade entre


homem e mulher, adultos e crianças, jovens e velhos, acaba sendo
acentuada.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
9. VERGONHA

A pobreza em si gera sentimentos de vergonha e baixo autorrespeito por


uma série de razões que foram consideradas anteriormente.

As pessoas pobres e necessitadas acabam sendo culpadas, direta ou


indiretamente, pela sua situação, embora na realidade não possam fazer
nada contra a falta de educação ou de emprego, que depende de
circunstâncias objetivas sobre as quais não têm nenhum controle.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
9. VERGONHA

A vergonha e a humilhação se estampavam de forma mais evidente na


figura dos maridos, normalmente desempregados, que permaneciam
cabisbaixos, exibindo semblantes tristes e melancólicos, durante a
entrevista com suas mulheres ou, às vezes, saíam para não as ouvir falar
de sua pobreza.

As mulheres, quando podem, tentam se livrar do inferno que é a vida


familiar com eles. Suas razões para isso são óbvias: tentam viver e criar
seus filhos com alguma dignidade, protegêlos da violência do bêbado -
coisas impossíveis se são obrigadas a compartilhar com seus filhos a
tragédia de ter um alcoólatra na família. Infelizmente, esse quadro é
comum e persistente, para não dizer constitutivo da situação de pobreza.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
10. CULTURA DA RESIGNAÇÃO

Aceitam sua situação como uma sina inevitável ou natural, à qual só


esperam subtrair seus filhos, já que não alimentam mais esperança para
si. A esse sentimento de resignação se junta a tendência a reduzir
significativamente o escopo de seus desejos e de suas preferências.

Deseja-se pouco, para que o sofrimento seja menor caso esse pouco não
seja alcançado; renuncia-se a sonhar um melhoramento real das
condições de vida, para que o fracasso quase certo de tal sonho não
abale de maneira insuportável a mente ingênua que ousou imaginar o
impossível.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
10. CULTURA DA RESIGNAÇÃO

Historicamente, as grandes revoluções sociais, tanto como a política


democrática, sistêmica e persistente, posta em prática com a finalidade
precípua de acabar com a pobreza e a exclusão, conseguiram alterar
bastante e, às vezes, profundamente a resignação tradicional.
A POBREZA NO BRASIL: SUAS
CARACTERÍSTICAS FENOMENOLÓGICAS
11. EXCLUSÃO DA CIDADANIA

Os pobres permanecem excluídos da cidadania em duplo sentido: formal


e material. Em sentido material, pela ausência de trabalho e renda
regulares e, por conseguinte, de vínculos coletivos mais permanentes e
não limitados ao mundo familiar ou da vizinhança. Em sentido formal,
muitos deles não possuem documentos atualizados; em alguns casos,
não possuem sequer carteira de identidade - o que impossibilita até seu
ingresso no cadastro do programa.
REFERÊNCIAS

Rego, Walquiria Leão Vozes do Bolsa Família: autonomia, dinheiro


e cidadania / Walquiria Leão Rego, Alessandro Pinzani. - São Paulo:
Editora Unesp, 2013.
Contato
E-mail:
alexandrepinto1@globo.com