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Leonardo Coelho Corrêa Rosado

Mestrando em Letras/Estudos Discursivos


Bolsista CAPES/REUNI
 Como aponta Dominique Maingueneau (1997)
em Novas tendências da Análise do Discurso,
pode-se na atualidade falar de múltiplas
análises do discurso, isto é, atualmente o campo
da Análise do Discurso (doravante AD) é
caracterizado pela diversidade. Nesse sentido,
há várias vertentes da AD que, embora divirjam
em relação à abordagem teórico-metodológica
do discurso e em relação aos interesses e
objetivos de pesquisa, compartilham
pressupostos básicos que as permitem inserir
tais abordagens como vertentes do campo geral
da AD.
Trabalhos na esteira
Semiolinguística de Patrick
Charaudeau

Análise do Discurso Trabalhos na esteira


Francesa (ADF) de Michel Pêcheux

Método histórico-
discursivo (Ruth
Wodak)

Semiótica Social
Análise do Discurso (Kress e van
Leeuwen)
Análise do Discurso
Crítica (ADC)
Teoria Social do
Discurso (TSD) –
(Norman
Fairclough)

Estudos sócio-
cognitivos (van Dijk)

Análise do Discurso
Trabalhos na esteira
da Divulgação
de Calsamiglia
Científica (ADDC)
 Neste trabalho, apresentaremos uma das muitas
vertentes da Análise do Discurso, cujo arcabouço
teórico e metodológico pode ser utilizado para a
compreensão de discursos variados: a Teoria
Semiolinguística do Discurso de Patrick Charaudeau;

 Justificamos a apresentação de tal teoria pelo fato do


enfoque psicossocial que ela dá à questão do sujeito,
isto é, o sujeito discursivo joga, no âmbito da
Semiolinguística, um papel primordial para a
compreensão e a análise dos discursos sob esta
perspectiva;
 Informações
disponíveis:Patrick
Charaudeau (Université Paris
13 - CNRS) - Biographie
professionnelle
 Surge como uma contestação da visão determinista de que a
formação discursiva determinava o dizer do sujeitos
(assujeitamento);

Estratégias
discursivas
Assujeitamento
(espaço de manobra do
sujeito)

 O sujeito não é totalmente assujeitado pelas formações


discursivas, há um espaço do próprio sujeito (intencionalidade);
 A intencionalidade (projeto de fala) é, para a Teoria,
individual e social (contrato de comunicação);

 O papel do outro nas interações: as interações (troca


linguageira) é o resultado da troca entre o EU e TU →
desdobramentos do sujeitos (protagonistas X
parceiros);

 Articulação entre a dimensão social (circuito externo)


e a dimensão linguística (circuito interno);
1. A articulação entre os planos situacional e
linguístico:

 Charaudeau procura evitar tanto as abordagens que


enfatizam excessivamente o plano do contexto social,
em prejuízo da análise propriamente linguística,
quanto as que tendem a focalizar unilateralmente a
dimensão linguística,s em considerar a dimensão
social;
2. Articulação dos planos macro e microssocial:

 Charaudeau preocupa-se em não conceber essa


articulação de uma forma mecânica e determinista. Ele
procura não deduzir, diretamente, as intenções, ações
e, portanto, o próprio discurso produzido pelos
sujeitos num momento concreto de interação social,
da posição desses sujeitos na estrutura social mais
ampla. A passagem de um plano ao outro não é
concebida como automática, ou seja, as características
do discurso produzido e o curso do ato de linguagem
como um todo não são explicados, diretamente, em
função das posições sociais dos parceiros envolvidos
ou das características do contexto social mais amplo.
3. Compromisso com a dimensão da interação
social:

 É no encontro com o outro que as identidades e os recursos


sociais dos parceiros são ou não utilizados e que o discurso
se constrói de uma forma ou de outra (intersubjetividade).
A forma de interação dos parceiros e o discurso que eles
produzem não estão predefinidos em relação ao momento
de interação. Os sujeitos, partem, é claro, de uma série de
expectativas relativas à forma de organização de cada tipo
de encontro linguageiro e ao tipo de discurso esperado em
cada caso. Essas expectativas só se realizam, no entanto, a
partir de um processo dinâmico de interação social no qual
a natureza do próprio intercâmbio e do discurso a ser
produzido vai sendo continuamente redefinido.
4. Concepção da intencionalidade dos sujeitos
bastante sofisticada:

 Os sujeitos não são nem meros portadores de uma


intencionalidade sistêmica que os domina, sem que
tenham consciência disso – como é o caso em alguns dos
outros modelos de análise do discurso – nem seres
plenamente conscientes, que agem racionalmente, livres
de qualquer adesão identitária ou normativa
previamente estabelecida. Por um lado, os sujeitos em
Charaudeau são caracterizados como tendo um “projeto
de fala”, ou seja, objetivos mais ou menos claros que os
motivam na construção de seus discursos.

 Benveniste: Teoria da Enunciação; subjetividade na linguagem, etc.

 Greimas: noção de contrato

 Barthes: estudos dos signos e dos sentidos;

 Grice: Teoria inferencial das implicaturas conversacionais;

 Austin e Searle: Teoria dos Atos de Fala;

 Hymes: Teoria da Competência Comunicativa;

 Bakhtin: dialogismo;

 Peirce: Teoria Semiótica


 Diz respeito ao enquadramento teórico e metodológico que
tal vertente da AD dá aos fenômenos da linguagem: uma
concordância e discordância entre os duas atitudes (na
época de fundação da teoria) antagônicas em relação à
linguagem:

1. Uma atitude caracterizada por uma concepção de


linguagem-objeto-trasnparente, por um método de
atividade de abstração e que se interessa por do que nos
fala a linguagem;

2. Uma atitude caracterizada por uma concepção de


linguagem-objeto-não-transparente, por um método
de atividade de elucidação, e que se interessa por como
nos fala a linguagem.
 “O ato de linguagem não pode ser concebido de outra
forma a não ser como um conjunto de atos significadores
que falam o mundo através das condições e da própria
instância de sua transmissão. De onde se conclui que o
Objeto de Conhecimento é o do que fala a linguagem
através do como fala a linguagem, um constituindo o outro
(e não um após o outro). O mundo não é dado a princípio.
Ele se faz através da estratégia humana de significação. O
Método seguido deverá ser duplo: elucidante do ponto de
vista do como e abstratizante do ponto de vista do do quê.
E, por antecipação, diremos que uma análise
semiolinguística do discurso é Semiótica pelo fato de que se
interessa por um objeto que só se constitui em uma
intertextualidade. Esta última depende dos sujeitos da
linguagem, que procuram extrair dela possíveis
significantes. Diremos também que uma análise
semiolinguística do discurso é Linguística pelo fato de que
o instrumento que utiliza para interrogar esse objeto é
construído ao fim de um trabalho de conceituação
estrutural dos fatos linguageiros” (CHARAUDEAU, 2008, p.
20-21)
 O Ato de linguagem é o fenômeno empírico (social e
linguístico) que a Semiolinguística procura analisar,
descrever e compreender;

 O Ato de linguagem é uma encenação na medida que “(...)


da mesma forma que um ator em cena de teatro se utiliza
do espaço cênico, da cenografia, da iluminação, da
sonorização, dos comediantes, de um texto, para produzir
os efeitos de sentido para um público que ele imagina, o
locutor – que queira falar ou escrever – se utiliza dos
componentes do dispositivo de comunicação em função
dos efeitos que ele quer produzir sobre seu interlocutor
[tradução nossa] (CHARAUDEAU, 1992, p. 635).

Representação Esquemática do Ato de Linguagem
 A linguagem (circuito interno) mantém uma estreita relação com
o contexto em que ela ocorre (circuito externo);

 O ato de linguagem é produto da articulação entre um circuito


interno (dizer) e um circuito externo (fazer/situacional), onde se
encontra um locutor e um interlocutor. Em outras palavras, a
Semiolinguística considera o ato de linguagem como produto de
um contexto do qual participam um locutor e um interlocutor
que, por serem pessoas diferentes, podem atribuir a uma
expressão linguística diferentes interpretações, dando a elas
sentidos não previstos;

A de L = [Explícito x Implícito] C de D
 A situação de comunicação é definida por um contrato de
comunicação, que liga os parceiros da troca e que também determina as
restrições em que o dizer deve ocorrer;

 O locutor (EU), ao enunciar, se desdobra em um outro ser, denominado


de enunciador, que irá apropriar-se da língua para organizar o discurso
e realizar seus propósitos linguageiros ou o seu projeto de fala. Ou seja,
“o locutor se apropria do aparelho formal da língua e enuncia sua
posição de locutor por meio de índices específicos, de um lado, e por
meio de procedimentos acessórios, de outro” (BENVENISTE, 1989, p.
84);

 Desde o momento em que o locutor (EU) se apropria da língua e


enuncia sua posição, ele o faz implantando um outro sujeito (TU), que
ele acredita (deseja) ser adequado ao seu propósito linguageiro;

 Porém, este TU a quem o EU se dirige é somente uma imagem do


verdadeiro TU que irá, de fato, interpretar o ato de linguagem. Logo, o
interlocutor não é um simples receptor de mensagem, mas sim um
sujeito que constrói sua própria interpretação em função do ponto de
vista que ele tem sobre as circunstâncias em que se realiza o discurso;
 Sujeito comunicante (EUc): é o sujeito agente que se
institui como locutor e articulador da fala. Ele é o iniciador
do processo de produção do ato de linguagem. Trata-se de
um sujeito social e empírico ;

 Sujeito enunciador (EUe): do ponto de vista do processo


de produção, o EUe é uma imagem construída pelo sujeito
comunicante e representa o traço de intencionalidade deste
último. Do ponto de vista do processo de interpretação, o
EUe é uma imagem do enunciador construída pelo sujeito
interpretante (TUi) como uma hipótese do que é a
intencionalidade do sujeito comunicante, realizada no ato
de produção.
 Sujeito interpretante (TUi): é também um sujeito
agente, social e empírico, porém, nesse caso ele é
responsável pelo processo de interpretação do ato de
linguagem. Portanto, é um sujeito que age
independentemente do EU, ou seja, ele escapa do
domínio do EU no processo de produção do ato de
linguagem;

 Sujeito destinatário (TUd): é um sujeito de fala, que


depende do EU, já que é instituído por este último. Ele
pertence, portanto, ao processo de produção do ato de
linguagem, sendo, dessa forma, o sujeito adequado a
compreender o propósito linguageiro do EU;
 Circuito externo (fazer): é o circuito “se encontram os
seres agentes que são instituídos como (...) sujeito
comunicante (EUc) e (...) sujeito interpretante (TUi),
conforme um saber ligado ao conhecimento da organização
do “real” (psicossocial) (...)”. Este circuito inclui os
parceiros do dizer;

 Circuito interno (dizer): é o circuito “no interior do qual


se encontram seres de fala, que são instituídos como
imagem do sujeito enunciador (EUe) e de sujeito
destinatário (TUd), oriundos de um saber intimamente
ligado às representações linguageiras das práticas sociais”
(CHARAUDEAU, 2008, p. 53). Este circuito inclui os
protagonistas do dizer;
 Processo de transformação: transformação de um “mundo a
significar” em um “mundo significado”;

 Processo de transação: a transformação se dá em função do


destinatário que o sujeito comunicante acredita ser o mais
adequado a compreender e aceitar este mundo significado;
 É um conceito muito importante para a Teoria Semiolinguística;

 Toda essa encenação discursiva entre os sujeitos no e pelo ato, só


ganha sentido pelo contrato comunicacional ou contrato de fala
que liga os parceiros através de uma finalidade discursiva;

o contrato de fala (...) é constituído pelo conjunto de restrições


que codificam as práticas sócio-linguageiras e que resultam em
condições de produção e interpretação (circunstâncias do
discurso) do ato de linguagem. Esse contrato de fala dá um certo
estatuto sócio-linguageiro aos diferentes protagonistas da
linguagem, determinando suas falas. [tradução nossa]
(CHARAUDEAU, 1983, p. 54)
 O contrato comunicacional constitui-se como um dos saberes
partilhados pelos parceiros do dizer (fazendo parte, portanto, das
Circunstâncias do Discurso), visto que toda troca verbal está
calcada em um contrato que, na forma de um saber, é partilhado
pelos membros de uma comunidade social;

 Esse contrato é ainda caracterizado por um conjunto de


restrições condicionantes das práticas sócio-linguageiras e que
tocam nos seguintes componentes:

1. Finalidade: categoria que ordena o ato de linguagem em função


de um objetivo, obrigando os parceiros da troca a responderem a
seguinte pergunta: “estamos aqui para dizer o quê?”.

2. Identidades: é o componente que depende diretamente dos


sujeitos que se acham inscritos e engajados na troca linguageira,
sendo definida pelas perguntas “quem troca com quem?”, “quem
fala com quem?”, “quem se dirige a quem?”, em termos que variam
de traços da natureza social a traços do status social
(CHARAUDEAU, 2006a, p.68-69);
3. Propósito: Charaudeau (2006a) demonstra que o propósito é a
categoria que requer que todo ato de linguagem seja construído
em torno de um domínio de saber, respondendo a pergunta “do
que se trata?” (CHARAUDEAU, 2006a, p. 69-70). É, portanto,
“aquilo de que se fala, o projeto que se tem em mente ao tomar a
palavra; o que é, afinal proposto” (CHARAUDEAU, 2006b, p. 187);

4. Circunstâncias materiais: ou condições materiais da


comunicação, constituem o dispositivo material em que o ato de
linguagem se realiza. Charaudeau (2006a, p. 104) aponta que “(...)
a cada situação de comunicação (...), associa-se um dispositivo
particular que constitui as condições materiais ad hoc de
realização do contrato”. Desse modo, o dispositivo material é o
ambiente, o quadro, o suporte físico da mensagem. Para a
apreensão das características materiais desse dispositivo, a Teoria
(CHARAUDEAU, 1992, p. 637-638) propõe um conjunto de
perguntas: “os parceiros estão presentes fisicamente?”; “eles se
veem?”; “eles são únicos ou múltiplos?”; “que canal – oral ou
gráfico – é por eles utilizado?”; “que outro código semiolinguístico
é por eles utilizado?”; etc.
 Tal noção repousa-se sobre a ideia de que o sujeito
comunicante concebe, organiza e concretiza suas intenções
de modo a produzir determinados efeitos sobre o sujeito
interpretante, levando este último a se identificar com o
sujeito destinatário idealizado e construído pelo primeiro;

 As estratégias não podem ir contra as restrições


condicionadas pelo contrato comunicacional; ao contrário,
diante do espaço de restrições do contrato, o sujeito
enunciador tem uma margem de manobra que concretiza
seu projeto de fala por meio de suas estratégias discursivas;
 Segundo Charaudeau (1992 p. 641), os modos de
organização do discurso constituem-se como
princípios de organização da matéria linguística que
dependem da finalidade comunicativa do sujeito
falante. São procedimentos de ordem linguageira que
consistem no uso de certas categorias de língua,
ordenando-as em função das finalidades discursivas do
ato de linguagem;

 São agrupados em quatro modos: enunciativo,


descritivo, narrativo e argumentativo.
Relação de influência  Posição em relação ao
(EU→TU) interlocutor
Ponto de vista do sujeito  Posição em relação ao
(EU→ ELE) mundo
Retomada do que já foi dito  Posição em relação a
(ELE) outros discursos

 Organização da
construção descritiva
Identificar e qualificar seres
(Nomear-Localizar-
de maneira objetiva/subjetiva
Qualificar)
 Encenação descritiva
Construir a sucessão das  Organização da lógica
ações de uma história no narrativa (actantes e
tempo, com a finalidade de processos)
fazer relato  Encenação narrativa
Expor e provar causalidades
 Organização da lógica
numa visada racionalizante
argumentativa
para influenciar o
 Encenação argumentativa
interlocutor
 O modo de organização enunciativo é uma categoria discursiva que
aponta para a forma pela qual o sujeito falante age na encenação de seu
ato de linguagem. Desse modo, o enunciativo lida diretamente com a
atividade linguageira do enunciar, que consiste em organizar categorias
de língua de maneira a dar conta da posição que o sujeito falante ocupa
em relação ao interlocutor, em relação ao que ele diz e em relação ao
que o outro diz.

 Trata-se de um modo especial, visto que está presente em todo e


qualquer ato de linguagem e pode se entrelaçar com os demais modos
(descritivo, narrativo e argumentativo);

 O Enunciativo está ligado, portanto, à modalização do discurso, ou seja


“(...) uma parte do fenômeno da enunciação (...) que constitui seu pivô
na medida que ela permite explicar quais são as posições do sujeito
falante em relação ao seu interlocutor (Loc. => Interloc.), a ele mesmo
(Loc. => Loc.) e a seu propósito (Loc. => Prop.)” (CHARAUDEAU, 1992,
p. 572)
 Atos ou comportamentos locutivos:

 Comportamento alocutivo: através do comportamento alocutivo,


o locutor enuncia sua posição em relação ao interlocutor, ao mesmo
tempo em que implica este último em seu dizer agindo sobre ele;

 Comportamento elocutivo: por meio do comportamento


elocutivo, o locutor enuncia seu ponto de vista sobre o mundo,
resultando, com isso, em uma enunciação que tem o efeito de
modalizar subjetivamente a verdade contida no propósito
referencial;

 Comportamento delocutivo: através do comportamento


delocutivo, o locutor se apaga do seu ato de linguagem, não
implicando também o interlocutor. Na verdade, o locutor apenas
testemunha a forma pela qual os discursos do mundo, oriundos de
terceiros, se impõem sobre ele, resultando, desta forma, em uma
enunciação aparentemente objetiva que retoma textos e/ou
propósitos que não pertencem ao sujeito falante.