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a “questão agrária”

Prof. Marcos Antônio Beal


1 “Questão agrícola” e “Questão Agrária”
• A questão agrícola diz respeito aos aspectos ligados às mudanças da produção em si
mesma: o que se produz, onde se produz e quanto se produz. Já a questão agrária está
ligada às transformações nas relações sociais e trabalhistas produção: como se produz,
de que forma se produz. A “questão agrária” é aqui mobilizada como ponto central da
compreensão de um macroprocesso social, ou seja, não se esgota em si mesma, é parte
decisiva do conjunto de mudanças sociais e políticas que se abrem à interpretação.
• A apropriação das noções de agronegócio e agricultura familiar no Brasil é expressão de
uma disputa política resultante da situação fundiária do país.
• A “Questão Agrária” sempre esteve relacionada com os conflitos por terra, fortemente
ligada ao debate da Reforma Agrária, de territorialização, desterritorialização e
reterritorialização do capital e do campesinato, e da discussão da estrutura altamente
desigual de posse e uso da terra.
Por ser a terra um meio de produção relativamente não
reprodutível (ou pelo menos, mais complicado de ser multiplicado),
a forma de sua apropriação histórica ganha uma importância
fundamental. Em alguns países, como no caso do Brasil, o
proprietário de terra tem até mesmo o direito de não utilizá-la
produtivamente, isto é, deixá-la abandonada, para gratuitamente
impedir que outro a utilize. Por isso é que a estrutura agrária - ou
seja, a forma como a terra está distribuída - torna-se o ''pano de
fundo" sobre o qual se desenrola o processo produtivo na
agricultura e é uma aspecto fundamental para se compreender os
padrões civilizatórios de um povo.
O rural e a ideia de atraso:
algumas abordagens clássicas da “Questão agrária”
1 a singularidade do rural na passagem à
modernidade: Barrington Moore
As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia: Senhores e Camponeses na Construção do Mundo Moderno
(1975)

• O autor argumenta que a modernização de países de capitalismo avançado de hoje


(como a Inglaterra, França e Estados Unidos) estaria na forma como equacionaram a
“questão agrária”, ou seja, na forma como as classes sociais, senhores e camponeses,
sobretudo, lidaram com a passagem de uma agricultura camponesa para uma
agricultura comercial, e o tipo de resposta política que configuraram neste terreno: a
democratização da posse da terra, a liberação dos grandes proprietários agrários do
controle das empresas agrícolas e a predominância da coerção econômica em vez do
controle repressivo da força de trabalho abriram espaço para uma via capitalista.
• De outro lado, países que não conseguiram afastar os traços constitutivos da antiga
sociedade agrária (patriarcal, escravagista, etc.) continuam, mesmo com processos
parciais de transformação e modernização econômica e com institucionalidades
políticas democráticas, perpetuando configurando a “modernização conservadora”.
2 Marx e Engels - A questão social na Rússia (1874)
• Engels, em afirmava que não poderia haver socialismo sem desenvolvimento das forças
produtivas que permitisse torná-lo um progresso e não a decadência do modo de
produção. O isolamento do campesinato em pequenas propriedades restringia sua
visão de mundo e constituía-se na base do “despotismo oriental”. A comuna só poderia
se desenvolver se fosse possível a coletivização do trabalho e se houvesse uma
Revolução na Europa ocidental.
• Porém, mais adiante, a força do movimento populista repercutiu nas posições de Marx,
que se interessou pela especificidade da Rússia e, numa inflexão, reconheceu que as
teses presentes em O Capital não teriam validade universal, referindo-se
particularmente ao desenvolvimento da Europa ocidental. Na Rússia, a existência da
propriedade coletiva da terra poderia tornar-se base da socialização da produção,
todavia, isto só se faria sob as condições de desembaraçá-las de seus aspectos
“primitivos” e da realização de uma revolução socialista no Ocidente.
3 Karl Kautsky - A questão agrária (1900)
• O interesse de Kautsky não é somente o de saber se a agricultura de subsistência tem ou não futuro na indústria agrícola mas,
antes, entender as transformações experimentadas por esta última com o advento do capitalismo. Em suas palavras: “Deve-se
pesquisar se e como o capital se apodera da agricultura, revolucionando-a, subvertendo as antigas formas de produção e de
propriedade, criando novas formas de necessidade”.
• Para ele, de forma geral o sistema de produção capitalista origina-se primeiramente nas cidades e nas atividades industriais de
transformação. Com isto, as atividades rurais passaram um longo período sem sofrer a influência direta do modelo de
produção capitalista. Basta pensar nas características das famílias camponesas da Idade Média eram marcadas pela produção
para o autoconsumo. Durante o período das lavouras fartas, o excedente era comercializado nas feiras para consumir, em
geral, produtos supérfluos.
• Esse modelo passou a ser ameaçado pela introdução do modelo de produção capitalista, agora no campo, com novas técnicas
de produção e novas concepções de trabalho que aproximou progressivamente o modo de produzir e consumir da cidade no
espaço agrário. A partir dessa integração inicial, acelerou a dissolução da pequena indústria camponesa pré-capitalista que
produzia para o auto-sustento, sendo esta lentamente substituída pela expansão industrial urbana. Em outras palavras, com o
advento da indústria capitalista se revela a regressão da indústria agrícola caseira de subsistência.
• Como consequência, o desenvolvimento do capitalismo generalizaria as unidades rurais baseadas no uso exclusivo ou
predominante de mão de obra assalariada. Nesse contexto, os camponeses são transformados em proletários engrossando a
fila de mãode-obra de reserva, necessária para exploração da mais-valia. Em sua perspectiva, portanto, os conflitos agrários
surgem não somente para questionar a democratização da terra, mas também para lutar contra exploração do capital.
• Em suma, o foco de sua análise recai sobre a importância de enxergar a capturação do espaço agrário pelo capital, de forma
desigual e combinada, gerando desequilíbrios sociais no espaço agrário mundial, principalmente nos países em
desenvolvimento.
4 Lênin - O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, 1899)
• Para ele, a Rússia fez uma opção pelo capitalismo como uma estratégia para se manter como potência no cenário internacional, num caminho
semelhante ao da Alemanha, onde a economia camponesa também foi deslocada: a grande empresa agrícola tornava-se regra, o que fazia com
que a comuna estivesse fadada ao desaparecimento e o camponês a se tornar um proletário no campo ou na cidade. A separação dos
produtores diretos de seus meios de produção ligava-se à crescente divisão do trabalho e preparava as bases para a mercantilização da força
de trabalho e para a concentração do capital. Lênin não via a comuna camponesa como um espaço de resistência à penetração do capitalismo,
mas, ao contrário, percebia que a agricultura comercial, impulsionadora do capitalismo no campo, se desenvolvia no interior da comuna. Mas
não só: o capitalismo avançava também na agricultura senhorial ou latifundiária, condicionado por limitações na arregimentação de mão de
obra e na obtenção de recursos para investimento em meios de produção. O capitalismo penetrava a agricultura de forma lenta e variada, sem
eliminar completamente os restos da velha economia camponesa.
• O movimento de ampliação das terras cultivadas a utilização de maquinário e do trabalho assalariado teve como resultado uma diferenciação
cada vez maior do campesinato. Pode-se dizer que é desse impulso, da emergência de uma agricultura comercial, que se desagregam, ainda
que paulatina e imperfeitamente, as relações tradicionais. Lênin contrapõe à desagregação da solidariedade comunal a formação de uma
solidariedade de outro tipo, oriunda da socialização do trabalho (aproximando-se das análises de Durkheim a este respeito). A conclusão do
argumento é que a emergência do capitalismo na Rússia já estava em curso. O obstáculo viria da permanência de um conjunto de “instituições
antigas”, incompatíveis com o capitalismo, penalizando duplamente os produtores diretos, que “sofrem tanto pelo capitalismo quanto pela
insuficiência de seu desenvolvimento”. Desse ponto de vista, não há nessa interpretação nenhuma “vantagem do atraso” na Rússia, assim
como não poderia ter lugar a passagem direta da comuna camponesa ao socialismo. Munido dessa interpretação, Lênin se aproximaria de um
raciocínio político que ficou conhecido como “ocidentalista” no debate de então, pois mesmo reconhecendo as especificidades, buscava
aproximar a Rússia da trajetória de desenvolvimento do capitalismo ocidental.
5 Lênin (continuação)

• Com essas observações, Lênin chegava a uma formulação original da questão agrária russa: era nela que se fundava a base
social de uma aliança politicamente conservadora entre velhos proprietários fundiários e uma nova burguesia industrial.
Reabrir a questão agrária significava identificar a possibilidade de uma revolução burguesa de outro tipo, pois se ainda se faria
nos marcos do capitalismo, teria como protagonista o campesinato que se mostraria interessado numa ruptura com a
estrutura social vigente.
• Havia, aqui, então, uma inovação em relação ao marxismo da época, a questão agrária inesperadamente ganhava
centralidade. O valor heurístico das hipóteses formuladas por Lênin para as vias de desenvolvimento do capitalismo está nesta
relação estabelecida entre a questão agrária e o sentido político da modernização. De qualquer forma, a questão agrária havia
introduzido um problema novo no âmbito teórico, abrindo um campo novo de análise, o da singularidade do
desenvolvimento do capitalismo tardio e periférico.
5 Lênin (Fim)
• As vias de modernização do mundo rural em Lênin:

A “via americana” A “via prussiana” (alemã)


Fundada na democratização da posse da terra, Corresponderia ao tipo de aliança conservadora que
possibilitaria um desenvolvimento mais livre e, por levava ao andamento controlado das mudanças de
sua vez, favoreceria a democracia política. Já nos forma a evitar a ruptura com o passado. Na
Estados Unidos, a mudança se realizou pela derrota Alemanha, o desenvolvimento foi determinado por
violenta dos fazendeiros escravistas do Sul na Guerra relações tradicionais, seguindo uma “senda
Civil, com a divisão dessas propriedades em reformista”, onde “se adaptou à rotina, à tradição, às
pequenas fazendas burguesas. No Oeste, a extensão possessões feudais – que se transformaram
de terras livres foi utilizada para criar novas relações lentamente em fazendas de junkers (membros da
agrárias favorecendo a propriedade de tipo nobreza constituída por grandes proprietários de
capitalista. terras).
6 Alexander Chayanov e a utopia camponesa -
Organização das Fazendas Camponesas, 1925

• O campo é, para ele, o lugar da preservação das tradições, da família, das raízes nacionais, da força comunitária espontânea, daquilo que pode constituir
a especificidade russa contra os ataques do pretenso universalismo ocidental. O modo de vida camponês é visto como ideologicamente oposto ao
capitalismo. Por esta razão, o estudo da unidade de produção camponesa exige a elaboração de categorias de pensamento diferente daquele oferecido
pelas ciências sociais da época (nem pela economia política marxista, nem pelos neoclássicos). Num país que às vésperas da Revolução tinha 82% de sua
população vivendo no campo e mais de 17 milhões de estabelecimentos agrícolas, não é de se espantar que surja a utopia camponesa.
• Mais do que um teórico da economia camponesa, Chayanov elaborou uma teoria do funcionamento das unidades produtivas baseadas
fundamentalmente no trabalho da família: enquanto a renda dependesse do trabalho familiar, haveria um balanço entre a penosidade deste trabalho e
as necessidades de consumo da família, sendo que, uma vez preenchidas as necessidades, cada unidade adicional de trabalho passaria a ter, para a
família, valor decrescente. Nesse sentido, era cético quanto ao potencial dos agregados familiares camponeses em produzir excedente agrícola, o que
implica que ela não se desenvolverá no capitalismo sem algum fator adicional externo.
• Contudo, ele não era o teórico do isolamento camponês. Seria ingênuo contar apenas com a produção familiar. Ao contrário, o último capítulo de sua
obra preconiza o cooperativismo e a integração vertical, citando explicitamente o exemplo da Dinamarca como forma mais eficiente de construção do
socialismo na agricultura. Chayanov já antevia o desastre que ocorreria caso predominassem as teses que sustentavam a integração horizontal, ou seja,
a formação de grandes unidades coletivas. Não que ele fosse contra as grandes fazendas coletivas, apenas não queria que se perdesse a organização
social camponesa já existente na Rússia.
• Entre os camponeses, ele acreditava que tanto as formas tradicionais de cooperação quanto as implantadas com a modernização (que se iniciou com a
emancipação dos servos em 1861) podiam ser a base de um processo de cooperação no qual o trabalho familiar e, sobretudo, a iniciativa dos indivíduos
fossem valorizados. O tema da obra de Chayanov, neste sentido, conserva toda a sua atualidade: de que maneira as sociedades contemporâneas podem
compatibilizar o progresso técnico com o aproveitamento da energia e da iniciativa social que repousa nos indivíduos e nas famílias?
7 Max Weber e a modernização alemã
Estudos Agrários (1892-1900)

• Weber era um crítico da aliança da burguesia alemã com os proprietários feudais que marcava muitos países à época. O ponto central dos estudos de Weber é a
desagregação do patriarcalismo nas fazendas do Leste alemão, que formavam uma sólida organização social com base nas relações de dependência e
“comunidade de interesses” entre os camponeses e a classe de dirigentes senhoriais, os junkers. Esta “comunidade de interesses” que possibilitava a direção
política dos proprietários sobre o conjunto da população rural, que fazia deles representantes autênticos dos interesses de seus dependentes em matéria de
política econômica.
• O avanço da agricultura comercial solapava as bases de legitimidade desta relação. A paisagem do Leste, que havia sido marcada pela estabilidade de suas grandes
propriedades, conhecia uma intensa modificação a partir da introdução da agricultura comercial em larga escala e dos efeitos da concorrência no mercado
mundial, pressionando a introdução de métodos mais propriamente capitalistas de gestão. A agricultura comercial exigia que os fazendeiros se envolvessem
diretamente na luta econômica, tornando sua base material menos segura e diminuindo sua capacidade de poder. A ameaça de perda de posses para uma nova
burguesia comercial, e de mercado para competidores estrangeiros, forçou os proprietários a se tornarem o que eles não eram: empreendedores trabalhando sob
princípios comerciais.
• Grande parte dos problemas agrícolas enfrentados no Leste dizia respeito à demanda periódica de força de trabalho. No passado, a força de trabalho era
imobilizada nas fazendas segundo os sistemas de prestação de serviços e contrapartidas senhoriais, numa relação de dominação que se desfez com a abolição da
servidão e com a legislação agrária, que passou a determinar a arregimentação de trabalhadores por contrato. Formaram-se dois grandes grupos de trabalhadores,
os vinculados à propriedade (mediante contratos fixos, que cobriam geralmente moradia e outros benefícios) e os trabalhadores “livres” (de contrato temporário).
Soma-se a isso a substituição dos trabalhadores agrícolas alemães por imigrantes poloneses, que aceitavam salários mais baixos e condições mais precárias,
ocasionando um rebaixamento das condições de trabalho. Com isso desaparece progressivamente a remuneração com base em direitos compartilhados, sendo
substituída por salários monetários. O “morador” (Instmann) vinha sendo progressivamente substituído pelo “empregado fornecido” (Deputant), sem direitos
sobre o produto da fazenda.
7 Max Weber e a modernização alemã
(continuação/Fim)

• Mas este não era um movimento promovido apenas pelos proprietários: Weber percebia que, ao lado dos requisitos de
racionalidade econômica, havia fortes componentes subjetivos na desagregação da ordem patriarcal. A direção do
movimento observado por Weber é a desorganização das antigas relações sociais, é a mudança de uma constituição do
trabalho de tipo patriarcal para uma outra, de tipo capitalista, com todas as suas consequências políticas.
• Weber era especialmente crítico do que chamava de uma deserção burguesa, ou seja, a aceitação por parte da
burguesia da condução política junker. A questão agrária se ligava então a uma questão nacional, na medida em que a
posição secundária ocupada pela burguesia na coalizão dirigente ameaçava o futuro do país como potência
internacional. A consequência era a falta de apetite “imperialista” que confinava o capitalismo alemão aos marcos de
um Estado nacional ensimesmado, sem maiores pretensões (fora da corrida neoimperialista).
• Criava-se na Alemanha um padrão de mudanças que preservava no mundo agrário controles de tipo tradicional, e com
isso limitava-se a expansão do mundo tipicamente burguês. Weber, assim como Lênin, usou a imagem americana como
contraste ao padrão alemão. Ele via no mundo agrário americano a singularidade de um desenvolvimento livre da
influência de uma estrutura social sedimentada. A questão não era apenas a afirmação de um princípio econômico, mas
a ligação entre economia e política. Para Weber, o desenvolvimento econômico não realiza direitos, ao contrário,
deixados a si, os interesses materiais caminhavam em sentido contrário à democracia. Ele considerava que os impulsos
democráticos estavam se esgotando com o desaparecimento de novas terras livres, com a prevalência da renda sobre o
lucro, com o conformismo, colocando em risco os ideais de “liberdade”. Iria nesse sentido também a burocratização da
economia e do Estado.
A questão agrária no brasil
Professor Marcos Beal
a) O regime de sesmarias e os latifúndios
improdutivos (1530-1822)
• O início da colonização do território brasileiro se fez com a doação de
grandes extensões de terras particulares, denominadas de sesmarias.
Daí surgiram os latifúndios escravistas, aos quais, geralmente, se
agregavam pequenos agricultores, que pagavam uma renda ao
proprietário pelo uso da terra. Estes latifúndios eram relativamente
autossuficientes, especialmente na produção de alimentos. Todavia,
sempre que o preço do açúcar variava positivamente, a produção de
alimentos diminuía para que se maximizassem os lucros, ocasionando
fome.
b) A extinção das sesmarias (1822) e a lei de
Terras de 1850
• Em 1822, a extinção do regime de sesmarias, aliada à ausência de outra
legislação regulando a posse das terras devolutas, provoca uma rápida
expansão dos sítios desses pequenos produtores. Em meados desse
mesmo século começou a declinar o regime escravocrata. Em 1850 surge
uma nova legislação definindo o acesso à propriedade - a Lei de Terras de
1850 – que rezava que todas as terras devolutas só poderiam ser
apropriadas mediante a compra e venda, e que o governo destinaria os
rendimentos obtidos nessas transações para financiar a vinda de colonos
da Europa. Matavam-se, assim, dois coelhos com uma só cajadada: de um
lado, restringia-se o acesso às terras apenas àqueles que tivessem dinheiro
para comprá-las; de outro, criavam-se as bases para a organização de um
mercado de trabalho livre para substituir o sistema escravista.
c) A substituição da mão de obra escrava pela
livre no campo

• A partir do fim do século XIX consolida-se a produção mercantil de


alimentos fora das grandes fazendas de café: Além da produção de
alimentos, os pequenos agricultores têm também a possibilidade de
produzir matérias primas para as indústrias crescentes (como por
exemplo, o algodão, o tabaco, etc.) uma vez que o latifúndio continua
a monopolizar a produção destinada à exportação (agora com o café).
As alterações de preços dessa cultura provocam crises periódicas
durante o início do século XX, culminando em 1932, ano em que se
dá o auge dos reflexos da crise de 29 sobre o setor cafeeiro.
d) A industrialização e os sinais do êxodo rural

• O período que se estende de 1933 a 1955 marca uma nova fase de


transição da economia brasileira. Nesse período, o setor industrial
vai-se consolidando paulatinamente e o centro das atividades
econômicas começa vagarosamente a se deslocar do setor cafeeiro. A
indústria gradativamente vai assumindo o comando do processo de
acumulação de capital. Inicia-se um primeiro movimento de migração
do campo para a cidade, alimentando o processo de concentração
agrária no país.
e) Os anos 1960, a industrialização da
agricultura e a diferenciação do mundo rural
• A estrutura agrária continuou concentrada e até mesmo aumentou, mas houve uma
transformação interna ao nível das relações de produção no campo que permitiu que a
agricultura respondesse às necessidades da industrialização por meio de:
• um aumento da oferta de matérias-primas e alimentos para o mercado interno sem comprometer o setor
exportador que gerava divisas para o processo de industrialização, via substituição das importações;
• da conexão ao circuito global da economia não apenas como compradora de bens de consumo industriais, mas
também pela industrialização da agricultura;
• A agricultura brasileira depois de 1960 mostrou um claro processo de diferenciação em
três grandes regiões:
• a) o Centro-Sul: onde a agricultura se moderniza rapidamente pela incorporação de insumos industriais
(fertilizantes e defensivos químicos, máquinas e equipamentos agrícolas, etc.);
• b) o Nordeste, que após a incorporação da fronteira do Maranhão (em meados dos anos sessenta) e, mais
recentemente, a da Bahia, permanece sem grandes transformações fundamentais no conjunto de sua
agropecuária;
• c) A Amazônia Legal, incluindo aí boa parte da região Centro-Oeste (Mato Grosso e Goiás) que, desde o início
dos anos 1960 registrou uma forte expansão da fronteira agrícola, sobretudo com pequenas propriedades,
embora haja também um crescimento ainda maior das grandes, especialmente as ligadas às empresas
multinacionais.
Ao fim dos anos 1960, a manutenção do padrão de elevada concentração da propriedade da
terra no Brasil, aliado a uma rápida expansão da fronteira agrícola significou que milhares de
pequenos posseiros, parceiros, arrendatários e mesmo pequenos proprietários que iam perdendo
as terras não tivessem nova oportunidade na agricultura, tendo que se mudar para as cidades.
Assim a manutenção de um elevado grau de concentração da terra no país funcionou como um
acelerador do processo de urbanização, ampliando o mercado interno para a indústria ao mesmo
tempo que, a fim de atender à demanda urbana por alimentos, abandonou aquela vocação
monocultora de exportação e promoveu um processo de especialização produtiva de alimentos.
Ao mesmo tempo, a própria concepção da produção agrícola se especializou, originando uma
divisão social do trabalho e o surgimento de indústrias fornecedoras de insumos. Em outras
palavras, a própria agricultura se industrializou. Do ponto de vista da concentração da terra, a
dinâmica da recriação/destruição da pequena propriedade na década dos sessenta/setenta no
Brasil, é mais ou menos a seguinte: na fase de subida do ciclo econômico, as pequenas
propriedades não engolidas naquelas regiões de maior desenvolvimento capitalista no campo e
empurradas para a fronteira, na maioria das vezes na forma de pequenos posseiros. Na fase de
queda do ciclo, as pequenas propriedades se expandem.
f) Os anos 1970

• Nos anos 1970, três grandes modificações ocorreram:

• o fechamento das fronteiras agrárias, envolvendo as questões de colonização da


Amazônia e da participação da grande empresa pecuária, deslocando a pequena
produção agrícola;
• o Progresso acelerado de modernização da agricultura no Centro-Sul do país;
• a crescente presença do capitalismo monopolista no campo ou seja, de grandes
empresas industriais que passaram a atuar tanto diretamente na produção agropecuária
propriamente dita, como fortaleceram sua presença no setor de comercialização e de
fornecimento de insumos para a agricultura.
g) Os anos 1980, a redemocratização e a
retórica da Reforma Agrária
• A reforma agrária é para os trabalhadores rurais uma estratégia para romper o
monopólio da terra e permitir que possam se apropriar um dia dos frutos do seu
próprio trabalho. A reforma agrária que o país requer não é a da pulverização
antieconômica das terras (a mera distribuição de pequenos lotes, o que apenas
habilitaria a continuarem sendo uma forma de barateamento da mão de obra
para as grandes propriedades) mas sim uma redistribuição da renda, de poder e
de direitos sobre a qual se constituiu historicamente o poder dos grandes
proprietários de terra, uma reforma que evidencie as formas multifamiliares e
cooperativas como alternativas viáveis para o não fracionamento da propriedade.
• A resistência dos posseiros contra os grileiros (que muitas vezes são as empresas
sofisticadas multinacionais) é uma luta contra a utilização da terra para fins não
produtivos, seja como uma forma de reserva de valor contra a corrosão
inflacionária da moeda, seja como meio de acesso a outras formas de riqueza
(minérios, madeiras de lei, incentivos fiscais e crédito farto e barato, etc.).
Os anos 1990 e a agricultura
familiar
Os anos 1990 e A Agricultura familiar
• O livre funcionamento dos mercados rurais reproduz padrões de desproteção social e insegurança
alimentar. A.F. responde por 80% da produção de alimento do país.
• A configuração da moderna agricultura capitalista se apoiou numa forma social de trabalho e
empresa específica, que é a empresa familiar, contrariando, assim, as tradições analíticas
apresentadas aqui (Desde Marx, passando por Lênin, Kautsky, Weber e Chayanov).
• Características organizacionais dos empreendimentos patronal e familiar

Patronal Familiar
Completa separação entre gestão e trabalho. Trabalho e gestão intimamente relacionados.
Direção do processo produtivo diretamente assegurada pelos
Organização centralizada. proprietários ou arrendatários.
Ênfase na especialização. Ênfase na diversificação.
Ênfase nas práticas padronizáveis. Ênfase na durabilidade dos recursos e na qualidade de vida.
Predomínio do trabalho assalariado. Trabalho assalariado complementar.
Tecnologias dirigidas à eliminação das decisões “de Decisões imediatas, adequadas ao alto grau de
terreno” e “de momento”. imprevisibilidade do processo produtivo.
Os anos 1990 e A Agricultura familiar
• Fora do campo científico, nas lutas sociais, ao longo dos anos 90, sindicatos de trabalhadores estavam
substituindo suas bandeiras de luta (reforma agrária direitos trabalhistas) pela reivindicação de um
projeto alternativo de desenvolvimento Rural baseado na agricultura familiar;
• Entre fim dos anos 90 e início dos anos 2000, o paradigma de estudos sobre a ruralidade avançou para o
entendimento de que as melhores configurações territoriais encontradas eram aquelas que
combinavam uma agricultura de base familiar forte com o entorno sócio-econômico diversificado e
dotado de infraestrutura (VEIGA 2001). O projeto Rurbano (1999) focalizou a formação das rendas entre
as famílias não urbanas para constatar um movimento relativamente generalizado de substituição dos
ingressos provenientes das atividades primárias por rendas não agrícolas, especialmente em virtude da
crescente interpenetração entre os mercados de trabalho tradicionalmente qualificados como urbanos
e Rurais: daí por diante o rural não poderia mais ser reduzido ao agrícola.
• Nesse sentido, duas questões sobressaem: qual é o novo lugar da agricultura e do rural nas sociedades
dos países de Capitalismo avançado? O que as novas relações entre o rural e o urbano revelam sobre os
processos de sociabilidade? Quais são os os traços constitutivos e como se reestruturam as dimensões
de conflito no mundo Rural contemporâneo?
Alguns dados do Censo Agro
Número de estabelecimentos
Total de Total de
UF, Mesorregião
estabelecimentos estabelecimentos Diferença

e Microrregião 2006 2017


Brasil 5.175.636 5072152 -2,00%
Norte 475.778 580446 22,00%
Nordeste 2.454.060 2322495 -5,40%
Sudeste 922.097 969258 5,10%
Sul 1.006.203 853232 -15,20%
Paraná 371.063 305115 -17,80%
Sudoeste Paranaense 49.934 41331 -17,20%
Micro. Capanema 12.185 9325 -23,50%
Micro. Francisco Beltrão 22.200 18754 -15,50%
Micro. Pato Branco 10.094 8357 -17,20%
Micro. Palmas 5.455 4895 -10,30%
Uso de agricultura orgânica
Grandes Regiões e local.
Selecionadas 2.006 2.017

Estab. (T) Faz % Estab. (T) Faz %


Brasil 5.175.636 90.498 1,75% 5.072.152 68.716 1,35%
Norte 475.778 6.133 1,29% 580.446 7.934 1,37%
Nordeste 2.454.060 42.236 1,72% 2.322.495 19.148 0,82%
Sudeste 922.097 18.715 2,03% 969.258 19.684 2,03%
Centro-Oeste 317.498 4.138 1,30% 346.721 7.834 2,26%
Sul 1.006.203 19.276 1,92% 853.232 14.116 1,65%
Paraná 371.063 7.528 2,03% 305.115 7.056 2,31%
Sudoeste Paranaense 49.934 1.111 2,22% 41.331 634 1,53%
Micro. Capanema 12.185 329 2,70% 9.325 274 2,94%
Micro. Francisco Beltrão 22.200 525 2,36% 18.754 150 0,80%
Micro. Pato Branco 10.094 124 1,23% 8.357 102 1,22%
Micro. Palmas 5.455 133 2,44% 4.895 108 2,21%
Censo Agropecuário de 2006 Censo Agropecuário de 2017
Uso de agrotóxicos nos estabelecimentos Uso de agrotóxicos nos estabelecimentos
Total Total
Localidades selecionadas Não Não
de estab. % % Utilizou % de estab. % % Utilizou %
utilizou utilizou
Brasil 5.175.636 100,00% 3.622.181 69,99% 1.396.077 26,97% 5.045.547 100,00% 3.364.546 66,68% 1.681.001 33,32%
Norte 475.778 9,19% 405.617 85,25% 59.375 12,48% 575.809 11,41% 449.350 78,04% 126.459 21,96%
Nordeste 2.454.060 47,42% 1.928.887 78,60% 458.606 18,69% 2.304.281 45,67% 1.752.044 76,03% 552.237 23,97%
Sudeste 922.097 17,82% 660.165 71,59% 225.605 24,47% 346.335 6,86% 243.680 70,36% 102.655 29,64%
Centro-Oeste 317.498 6,13% 254.065 80,02% 51.626 16,26% 967.589 19,18% 642.710 66,42% 324.879 33,58%
Sul 1.006.203 19,44% 373.447 37,11% 600.865 59,72% 851.533 16,88% 276.762 32,50% 574.771 67,50%
Paraná 371.063 7,17% 153.912 41,48% 202.758 54,64% 304.424 6,03% 115.114 37,81% 189.310 62,19%
Sudoeste Paranaense 49.934 0,96% 14.933 29,91% 33.198 66,48% 41.305 7,17% 9.694 23,47% 31.611 76,53%
M icro. Capanema 12.185 0,24% 3.466 28,44% 8.185 67,17% 9.325 0,40% 1.977 21,20% 7.348 78,80%
M icro. Francisco Beltrão 22.200 0,43% 7.123 32,09% 14.313 64,47% 18.742 5,41% 5.294 28,25% 13.448 71,75%
M icro. Pato Branco 10.094 0,20% 2.185 21,65% 7.602 75,31% 8.349 0,86% 1.112 13,32% 7.237 86,68%
M icro. Palmas 5.455 0,11% 2.159 39,58% 3.098 56,79% 4.889 0,57% 1.311 26,82% 3.578 73,18%
Exercício
• 1. A partir das discussões sobre (re)criação do campesinato, elabore um pequeno texto
fazendo uma relação entre os aspectos teóricos e práticos sobre o mundo rural
contemporâneo.
• Procure pensar nos produtores agrícolas do seu município. Será que eles são camponeses, agricultores familiares
ou mesmo empresários rurais?
• Não esqueça que a concepção de campesinato não está relacionado apenas as características físicas da
propriedade ou do agricultor, mas também ao modo de vida, costumes, crenças dentre outros elementos que
fazem parte das especificidades do mundo rural.
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