You are on page 1of 36

JUÍZOS DE FACTO JUÍZOS DE VALOR

Objetivos: são independentes da Subjetivos: dependem do sujeito


opinião do sujeito que os enuncia que os enuncia
Normativos/avaliativos:
Descritivos: relatam apenas a
expressam a ideia do sujeito sobre
realidade
como deveriam ser as coisas
Têm valor de verdade Não têm valor humano
Juízos de facto e juízos de valor
Os tradicionais Os críticos
livros em papel classificam o
serão último filme de
substituídos pela Tim Burton como
leitura eletrónica. genial.

A vaca é um
A Terra é o maior animal sagrado
planeta do para os
sistema solar. Juízo praticantes do
hinduísmo.
de
facto
Juízos de facto e juízos de valor

Faltar à verdade é
O direito à vida é
admissível em
sagrado e
certas
inalienável.
circunstâncias.

A música de É mais agradável


Mozart é ler um livro longo
insuperavelmente em papel do que
bela. Juízo através do ecrã.
de
valor
Juízos de facto e juízos de valor

Juízos de valor

Subjetivismo dos valores Objetivismo dos valores

A verdade dos juízos de A verdade dos juízos de


valor depende valor é independente dos
exclusivamente da estados mentais ou dos
perspetiva do sujeito que sentimentos dos indivíduos
avalia. É relativa. que avaliam. É absoluta.
A problemática em torno dos valores está
associada a questões como:
• Terão os valores uma existência concreta?
• Serão os valores intemporais?
• Serão os valores objetivos ou subjetivos?
A questão da objetividade dos valores tem
suscitado vários debates filosóficos, destacando-se
duas posições radicalmente diferentes:
o subjetivismo e o objetivismo axiológicos.
Subjetivismo axiológico
O subjetivismo axiológico é a teoria de acordo
com a qual os valores estão associados às
características de cada sujeito.

• Os valores não são uma propriedade objetiva da realidade.


• Não existe um critério valorativo universal que possa ser
aplicado por qualquer ser humano e que seja independente
da perspetiva de cada um.
• Os juízos de valor que cada indivíduo emite não são
verdadeiros nem falsos, mas apenas a expressão da sua
interpretação da realidade.
Críticas ao subjetivismo axiológico
O subjetivismo axiológico pode dar
origem a alguns problemas práticos.
Se assumíssemos uma postura subjetivista:
• Qualquer posição valorativa poderia ser aceitável.
Cada um aplicaria os valores da forma que entendesse
e de acordo com o seu padrão de medida.
• O ensino dos valores não faria sentido.
Se os valores são subjetivos, a única opção
seria deixar que cada criança decidisse por si.
• O debate em torno dos valores não seria viável.
Se qualquer posição fosse igualmente defensável, não
faria qualquer sentido debater questões axiológicas.
Objetivismo axiológico
O objetivismo axiológico é a posição filosófica de acordo
com a qual os valores são independentes dos sujeitos.

Para os defensores do objetivismo axiológico, os valores


existem nas propriedades concretas dos objetos.

Cada objeto tem um determinado valor, que é objetivo e


independente do valor que cada sujeito lhe atribua.
Os critérios valorativos
Cada pessoa estabelece a sua preferência por um
conjunto de valores em detrimento de outros.

Esta preferência é estabelecida em função de um conjunto


de critérios de acordo com os quais cada indivíduo constrói
a sua tábua de valores.

A hierarquia de valores que cada pessoa estabelece


depende do momento histórico em que vive e dos
contextos em que se insere, pelo que vai, necessariamente,
sendo alterada ao longo do tempo.
Ser humano Mundo
Factos
Agente valorador
Acontecimentos

Juízos de valor Juízos de facto

Centrados no sujeito Valores Centrados na realidade

Características: Critérios: Posicionamentos:


Polaridade Subjetivos Etnocentrismo
Hierarquia Socioculturais Relativismo cultural
Historicidade/Perenidade Transculturais Interculturalismo
Objetivos
Valores e cultura
• Somos formados pela nossa cultura;
• Os costumes e as normas sociais
dependem da cultura;
• As opções valorativas entre diferentes
culturas podem ser incompatíveis;
• O contacto entre culturas diferentes gera
diferentes posicionamentos, tais como:
- Etnocentrismo;
- Relativismo cultural;
- Interculturalismo;
Etnocentrismo
O etnocentrismo é a postura cultural de quem acredita
na supremacia de uma cultura ou grupo étnico.

Possíveis consequências da postura etnocêntrica:


• Racismo;
• Xenofobia;
• Isolamento cultural;
• Destruição de culturas minoritárias;
• Discriminação.
Relativismo cultural
Postura de tolerância cultural de acordo com a qual os
valores são relativos e dependem de cada cultura.

Segundo o relativismo cultural:


• Todas as culturas têm os seus próprios critérios valorativos;
• Não é possível avaliar uma cultura segundo os critérios
valorativos de outra;
• As nossas convenções valorativas dependem da cultura em
que estamos inseridos.

Não é possível aferir a correção valorativa entre


culturas diferentes, pelo que devemos assumir
uma postura de tolerância cultural.
Relativismo cultural (objeções)
A tolerância nem sempre é desejável.
• Ser totalmente tolerante levaria a uma postura
de tolerância até com os intolerantes.
A postura relativista pode gerar conformismo.
• A perspetiva defendida pela maioria nem sempre
é aceitável e, por vezes, deve ser combatida.

O debate cultural, o ensino dos valores e a constituição


de valores transculturais não faz sentido.
• Se os valores são relativos a cada cultura, poderá
não fazer sentido o debate intercultural para a
construção de valores comuns.
Interculturalismo
Postura cultural que defende o diálogo entre culturas
com vista ao estabelecimento de valores transculturais
e ao pluralismo.

Segundo o interculturalismo:
• As diferenças entre culturas são uma vantagem;
• O diálogo entre culturas é possível e desejável;
• A constituição de valores partilhados por
diferentes sociedades é fundamental;
• O pluralismo é desejável e enriquecedor.
Valores e cultura:
a diversidade e o diálogo de
culturas
Índice
1. Os valores e o multiculturalismo
2. Argumentos em torno do multiculturalismo

Objetivos
 Compreender o problema da diversidade cultural nas sociedades
democráticas contemporâneas.
 Compreender a resposta do multiculturalismo como teoria
filosófica e o papel dos direitos diferenciados em função de
grupos.
 Dominar os principais argumentos atualmente discutidos em
torno da perspetiva filosófica do multiculturalismo.
O nosso próprio modo de vida parece tão natural e correto que para muitos de nós é difícil
conceber outras pessoas a viver de modo tão diverso. E quando ouvimos falar de tais coisas,
tendemos imediatamente a categorizar as outras pessoas como “retrógradas” ou “primitivas”.
James Rachels, Elementos de Filosofia Moral

As preocupações com o multiculturalismo fazem também parte da política moderada. Em


outubro de 2011, a chanceler alemã Angela Merkel afirmou que a abordagem multicultural
tinha “falhado completamente” na Alemanha. Em fevereiro de 2011, o presidente francês
Nicolas Sarkozy chamou também ao multiculturalismo um falhanço, e o primeiro-ministro
britânico David Cameron acusou a política de multiculturalismo do seu país de não conseguir
promover um sentimento de identidade comunitária e de encorajar a segregação e
radicalização dos muçulmanos.
Irene Bloemraad, O Debate Sobre o Multiculturalismo
1. Os valores e o multiculturalismo
Valores, relativismo e diversidade cultural

O relativismo cultural defende que os juízos de valor só são verdadeiros


relativamente a certa cultura, mas não necessariamente para outras.

Em geral, “cultura” designa tudo aquilo que é produzido pelo ser humano,
desde lanças primitivas a satélites, desde poemas a sistemas de governo.

No debate filosófico e nas expressões “relativismo cultural”, “diversidade


cultural” ou “diálogo de culturas”, “cultural” refere-se à dimensão da partilha de
valores numa comunidade.
Na dimensão individual dos valores, cada indivíduo pode escolher para si
mesmo certos valores, com alguma independência de estes serem
seguidos por qualquer grupo humano.

 A questão cultural sobre os valores coloca-se ao nível coletivo, das


comunidades realmente existentes, o do relativismo cultural.

Fatores culturais mais relevantes para o debate acerca da diversidade


cultural, da coexistência e do choque entre culturas:
- a nacionalidade
- a língua
- a religião.

A discussão sobre estes temas é conhecida como debate acerca do


multiculturalismo ou pluralismo cultural.
O multiculturalismo: facto ou problema filosófico?

Multiculturalismo como facto demográfico:


• as sociedades atuais são constituídas por pessoas de diferentes
comunidades culturais – sociedades multiculturais. Neste sentido:
 multiculturalismo = diversidade cultural

Problema filosófico do multiculturalismo:

• a diversidade cultural numa sociedade é algo de positivo ou negativo?


Qual será a maneira correta de lidar com ela?

O multiculturalismo responde:

 a diversidade cultural é algo positivo, que devemos preservar.


O multiculturalismo defende o seguinte raciocínio:

• Num Estado, os membros da cultura maioritária, pelo facto de esta ser


maioritária, têm privilégios económicos, políticos e sociais face aos
membros de culturas minoritárias.

• Uma sociedade que se limita a tolerar a existência de culturas minoritárias


não trata os membros destas de modo igual aos da cultura maioritária,
 permite que elas sejam marginalizadas.

• Logo, é necessário que o estado favoreça essas minorias, compensando-as


pelas suas desvantagens económicas, políticas e sociais, para
 equilibrar a maioria e as minorias.
Tipos de minorias e suas reivindicações

Tipos de minorias culturais mais discutidos:

• Povos nativos, isto é, que viviam originalmente em territórios


depois colonizados por outros povos, agora dominantes
(ex.: índios americanos).

• Nações minoritárias (ex.: catalães e bascos em Espanha).

• Imigrantes de uma mesma etnia


(ex.: imigrantes da América Latina nos EUA).
Multiculturalismo e direitos diferenciados

Will Kymlika: direitos diferenciados em função de grupos.

Os direitos diferenciados em função de grupos são proteções externas


que garantem que os membros da minoria têm a mesma oportunidade
de viver e trabalhar na sua própria cultura que os membros da maioria.

• Dão a grupos minoritários proteções, possibilidades ou exceções


especiais, ou seja, o direito de agir ou deixar de agir de acordo com
os seus compromissos culturais. São medidas políticas que
favorecem a desigualdade para atingir a igualdade (acabar com a
discriminação da minoria pela maioria).

• Combatem na prática o desequilíbrio, atribuindo às minorias certos


direitos.
Direitos diferenciados: tipos, exemplos e alcance

Dois tipos de direitos diferenciados a grupos:

• Direitos individuais, os de cada um dos membros de um grupo


minoritário (ex.: direito ao emprego da língua da sua minoria nas
escolas;
isenção da aplicação de leis ou regras gerais por motivos religiosos).

• Direitos coletivos, atribuídos ao próprio grupo enquanto grupo


(ex.: direito a autonomia política limitada).
Outros exemplos de direitos diferenciados:

• Representação de minorias nas instituições políticas (percentagens mínimas


obrigatórias – “quotas” – em lugares de governo e em listas partidárias).

• Reconhecimento de códigos tradicionais pelo sistema legal geral (exemplo


polémico: atribuição da competência de julgar casos de direito da família a
tribunais interiores às minorias, em particular, tribunais religiosos).

• Apoios especiais não concedidos a membros da maioria cultural (apoio


financeiro a escolas que ensinam na língua das minorias e de associações
que promovem a sua cultura; disponibilidade de ajuda na língua materna em
votações e outras ocasiões institucionais).
 Em termos sociais, o multiculturalista procura também levar a maioria a
superar modos de encarar as minorias que as desvalorizam.

Os direitos diferenciados muitas vezes impõem restrições à liberdade


individual:

• Restrições da liberdade dos membros da maioria cultural, de modo a


proteger as minorias do desaparecimento da sua cultura.

• Restrições da liberdade dos membros da própria minoria, quando a sua


cultura e tradição promove tais restrições.
2. Argumentos em torno do
multiculturalismo
Argumentos a favor do multiculturalismo

Argumento liberal

Para muitos defensores do liberalismo, valorizar a liberdade individual


implica que o valor de cada indivíduo é superior ao da sua comunidade.

Uma das implicações desta perspetiva é a ideia de que os valores sociais ou


comunitários que uma sociedade gera são instrumentais – só têm valor
porque contribuem para valores individuais.
Mas um liberal individualista pode defender o multiculturalismo porque a
cultura promove valores individuais fundamentais.

• Autonomia: a nossa liberdade exerce-se nas escolhas que fazemos; a


existência de várias culturas favorece a liberdade mostrando mais opções
de modos de viver e pensar.
• Autoestima: ligação estreita entre autoestima de um indivíduo e respeito
pela sua comunidade; é penoso para uma pessoa abandonar a cultura em
que nasceu e foi educado.
As desvantagens dos membros de culturas minoritárias diminuem a sua
liberdade e resultam do acaso: terem nascido em culturas minoritárias.
A sociedade deve reduzir essas desvantagens, recorrendo a:
- integração.
- discriminação positiva.
- concessão de direitos diferenciados.
- partilha dos custos dessa integração.
(Exceção: imigrantes em busca de melhores condições económicas – a
sua situação é parcialmente escolhida.)

Argumento comunitário
A perspetiva comunitarista critica a posição liberal e sublinha o valor da
comunidade como responsável por muito daquilo que cada indivíduo é.
• Os bens sociais têm valor intrínseco independente das vantagens que
tragam para os indivíduos.
• A cultura de cada comunidade é um dos mais importantes valores
sociais.
• Todas as culturas, como bens sociais, têm igual direito a existirem e se
desenvolverem, não devendo nenhuma sobrepor-se a outra nem
eliminá-la.
Argumentos contra o multiculturalismo

Argumento da indiferença igualitária


• Os direitos são algo que os indivíduos detêm, não os grupos ou
comunidades.
• O Estado deve assegurar que cada pessoa, individualmente, tenha direitos
e liberdades iguais aos das outras.
• O Estado deve ser indiferente e não interferir em relação aos grupos a que
queremos aderir ou em que nos queremos ou não manter.
• O multiculturalismo introduz os direitos diferenciados, que não são direitos
genuínos (são “direitos sociais”) e dão a alguns, para além dos direitos que
todos têm, direitos especiais por pertencerem a culturas minoritárias.
• O Estado só deve intrometer-se para que todos tenham oportunidades
iguais.
• É injusto privilegiar as pessoas das minorias garantindo que elas usam
corretamente essas oportunidades e que têm um sucesso igual aos de
outros.
Argumento das minorias internas
É um dos argumentos mais importantes contra o multiculturalismo.
Relaciona-se com o problema da tolerância (Cap. 5 - Valores e valoração).

O que está em causa são grupos dentro das comunidades minoritárias que,
não sendo realmente minoritários em termos numéricos (ex.: as mulheres),
têm nelas menos direitos – “minoritários” porque não têm igual liberdade ou
acesso ao poder.

 Segundo o multiculturalismo, toda a cultura merece proteção simplesmente


por ser uma cultura.
 Logo, as culturas discriminatórias também devem ser protegidas por
direitos diferenciados.
 Mas então, o multiculturalismo está a defender a discriminação das
minorias sem poder dentro das minorias.

Um exemplo muito debatido atualmente é o da contradição na defesa


simultânea do multiculturalismo e do feminismo.
A cultura social e religiosa de uma minoria pode impor que as mulheres
não tenham acesso:
- a uma educação igual à dos homens
- ao mundo do trabalho
- ao poder político
- a independência e autonomia

São por vezes sobrecarregadas por regras que mostram que são
subjugadas (poligamia, casamento arranjado).

Um defensor da igualdade entre sexos como um valor universal


(feminismo) e a proteção para todas as culturas (multiculturalismo) é
confrontado com uma incoerência acerca de culturas que praticam
tradicionalmente a discriminação:
- enquanto feminista, defende que tal prática deve ser combatida;
- enquanto multiculturalista, defende que essas culturas devem ser
protegidas.