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TÓPICOS DE

DIREITO
PRIVADO Prof. Sandra de
Mello Carneiro
Miranda
Módulo III: Direitos da
população indígena
e afrodescendente

1 Direitos da população afrodescendente


Estatuto da Igualdade Racial
(Lei nº 12.288/2010)

O Estatuto da Igualdade Racial é destinado a garantir


à população negra:
a efetivação da igualdade de oportunidades,
a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e
difusos e
o combate à discriminação e às demais formas de
intolerância étnica.
Para efeito deste Estatuto, considera-se:

população negra: o conjunto de pessoas que


se autodeclaram pretas e pardas, conforme o
quesito cor ou raça usado pela Fundação
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), ou que adotam autodefinição
análoga;
ações afirmativas: os programas e medidas
especiais adotados pelo Estado e pela
iniciativa privada para a correção das
desigualdades raciais e para a promoção da
igualdade de oportunidades.
Os programas de ação afirmativa constituir-
se-ão em políticas públicas destinadas a
reparar as distorções e desigualdades sociais
e demais práticas discriminatórias adotadas,
nas esferas pública e privada, durante o
processo de formação social do País.
Lei 12711/2012

Dispõe sobre o ingresso nas universidades federais e


nas instituições federais de ensino técnico de nível
médio
Art. 3º Em cada instituição federal de ensino
superior, as vagas de que trata o art. 1º desta Lei
serão preenchidas, por curso e turno, por
autodeclarados pretos, pardos e indígenas, em
proporção no mínimo igual à de pretos, pardos e
indígenas na população da unidade da Federação
onde está instalada a instituição, segundo o último
censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).
 A mesma regra vale para as instituições federais de ensino
técnico de nível médio.
 Art. 6º O Ministério da Educação e a Secretaria Especial
de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da
Presidência da República, serão responsáveis pelo
acompanhamento e avaliação do programa de que
trata esta Lei, ouvida a Fundação Nacional do Índio
(Funai).
 Art. 7º O Poder Executivo promoverá, no prazo de 10
(dez) anos, a contar da publicação desta Lei [até 2022], a
revisão do programa especial para o acesso de
estudantes pretos, pardos e indígenas, bem como
daqueles que tenham cursado integralmente o ensino
médio em escolas públicas, às instituições de educação
superior.
Lei 12990/2014
Reserva aos negros 20% (vinte por cento) das
vagas oferecidas nos concursos públicos
para provimento de cargos efetivos e
empregos públicos no âmbito da
administração pública federal
Art. 2o Poderão concorrer às vagas
reservadas a candidatos negros aqueles que
se autodeclararem pretos ou pardos no ato
da inscrição no concurso público, conforme
o quesito cor ou raça utilizado pela
Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística - IBGE.
Parágrafo único. Na hipótese de constatação de
declaração falsa, o candidato será eliminado do
concurso e, se houver sido nomeado, ficará
sujeito à anulação da sua admissão ao serviço ou
emprego público, após procedimento
administrativo em que lhe sejam assegurados o
contraditório e a ampla defesa, sem prejuízo de
outras sanções cabíveis.
Art. 6o Esta Lei entra em vigor na data de sua
publicação e terá vigência pelo prazo de 10
(dez) anos. [até 2024]
Teoria sobre ações afirmativas

São políticas públicas e privadas para amparar


grupos mais fracos na sociedade.

Podem ser de vários tipos:


 Medidas de conscientização de que existe uma
discriminação velada
 Legislação laboral protetora
 Tratamento especial para os menos favorecidos
Podem gerar discriminação reversa,
isto é, ao beneficiar um segmento da
população na distribuição de cargos
e vagas, esses benefícios ficariam
subtraídos do alcance dos não
beneficiados.
Isso ofende o direito de igualdade?
É necessário analisar a igualdade sob
dois aspectos:
igualdade formal
igualdade material
IGUALDADE FORMAL

CRFB/88, Art. 5º Todos são iguais perante a lei,


sem distinção de qualquer natureza

CRÍTICA: Antolhe France: sob o aspecto da


igualdade formal, “se proíbe tanto o pobre
quanto o rico de dormir embaixo da ponte”
IGUALDADE MATERIAL
CRFB/88, Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da
República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as
desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas
de discriminação.
Condições para implantação das
ações afirmativas:
1ª condição para implantação de uma
ação afirmativa
Deve haver uma resposta a uma agressão
sofrida por um grupo, que estigmatiza as
pessoas e as torna objeto de preconceito.
Os efeitos dessa agressão devem ser
atuais e provados por dados estatísticos.
Houve uma agressão aos negros no país?

Escravidão no Brasil:
Escravos não eram cidadãos pois não tinham
direitos, eram considerados propriedade dos
senhores
A miscigenação de escravas africanas se deu pelo
estupro
As pequenas propriedades tinham 3 ou 4 escravos
Nas cidades, mesmo os pobres tinham escravos
que alugavam como fonte de renda
 A interpretação tradicional dos católicos era de que
a bíblia admitia a escravidão. As ordens religiosas
tinham escravos e alguns padres possuíam
sexualmente suas escravas.

 Após o fim da escravidão, os libertos não foram


assistidos nem com escolas, nem com terras, nem
com empregos. Muitos regressaram às fazendas para
trabalhar com baixos salários. Outros foram para as
cidades e não tinham emprego fixo. Na agricultura,
foram expulsos pelos imigrantes italianos.

Fonte: Carvalho, José M. Cidadania no Brasil


Os efeitos da agressão sofrida pelos negros são
atuais e provados por dados estatísticos?
Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística) de 2014
Em relação ao total da população, 51,2%
eram brancos e 48,2% eram pretos ou
pardos
Na população que forma o grupo 10% mais
pobre, com renda média de R$ 130 por
pessoa na família, negros representam 76%,
os brancos eram 22,8%. Esse número indica
que três em cada quatro pessoas que
estão na parcela dos 10% mais pobres do
país são negras.
Na parcela do 1% mais ricos, cuja renda
média é de R$ 11,6 mil por habitante:
negros representavam 17,4% e 79% eram
brancos
45,5% dos pretos e pardos de 18 a 24
aos estavam em universidades e 71,4%
dos bancos de 18 a 24 anos estavam
em universidades
Cadastro Nacional de Adoção

possui atualmente 30 mil pretendentes


que podem optar pela cor da pele do
jovem e da criança a ser adotada:
preferência por bancos
o número de pais indiferentes à cor da
criança a ser adotada era de 31%, em
2011, 42%, em 2014 e em 2015 passou
para 45,83%
segundo o CNJ, são 30 mil
pretendentes cadastrados no CNA
para quase 5.5 mil crianças e
adolescentes esperando pela
adoção, sendo 3.788 (67%) negras e
pardas e 1.212 (33%) brancas.
2ª condição para implantação de uma ação afirmativa
Revisão periódica para avaliação da persistência das
circunstâncias sociais discriminatórias

LEI 12711/2012
 Art. 6º O Ministério da Educação e a Secretaria Especial
de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da
Presidência da República, serão responsáveis pelo
acompanhamento e avaliação do programa de que
trata esta Lei, ouvida a Fundação Nacional do Índio
(Funai).
 Art. 7º O Poder Executivo promoverá, no prazo de 10
(dez) anos, a contar da publicação desta Lei, a revisão
do programa especial para o acesso de estudantes
pretos, pardos e indígenas, bem como daqueles que
tenham cursado integralmente o ensino médio em
escolas públicas, às instituições de educação superior.
3ª condição para implantação de uma ação
afirmativa
Deve ter duração limitada no tempo,
vencendo sua validade quando atingidas
suas metas.

Lei 12990/2014
Art. 6o Esta Lei entra em vigor na data de
sua publicação e terá vigência pelo prazo
de 10 (dez) anos.
4ª condição para implantação de uma
ação afirmativa
Não pode haver tratamento
diferenciado sem justo e racional
motivo.

Autodeclaração: as reservas se
justificam para os que são alvo dos
processos de exclusão.
Negros e pardos são alvos de processo
de exclusão e preconceito?

Segue projeto fotográfico da estudante de Antropologia, Lorena


Monique, na Universidade de Brasília (UnB) de 2015
Caso do Lucas Nogueira Siqueira
27 anos
Se inscreveu no concurso do Instituto Rio Branco para
diplomata como pardo e teve a autodeclaração
negada após ser aprovado no concurso.
Conseguiu liminar para entrar em 2016. O processo
está em andamento.
Na 1ª fase ele só teve pontuação para entrar entre os
cotistas. Na 2ª fase, teve pontuação para entrar entre
os não cotistas.
Concorrência entre os cotistas era de 111,8
candidatos por vaga e entre os não cotistas 239,6
candidatos por vaga.
À esquerda foto tirada por fotógrafo contratado
pela defesa, à direta foto que consta na denúncia
Autodeclaração pretos e pardos:
Segundo o Ministério do Planejamento, os
critérios devem considerar o fenótipo (só a
aparência). Os candidatos devem se
apresentar a uma comissão designada
para a verificação antes de homologado o
resultado final.

Cabelo, nariz, lábios


Alguma é branca?
Alguma é parda?
Alguma é negra?

Alguma tem características que geram preconceito?


Diferença entre racismo e injuria racial (site CNJ em 08/06/2015)
 injúria racial consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de
elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem
 Prevista no art. 140, §3º, do CP.
 Injúria
Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
§ 3o Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça,
cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora
de deficiência:
Pena - reclusão de um a três anos e multa.
 A prescrição é de oito anos
 Um exemplo de injúria racial ocorreu no episódio em que
torcedores do time do Grêmio, de Porto Alegre, insultaram
um goleiro de raça negra chamando-o de “macaco”
durante o jogo. No caso, o Ministério Público entrou com
uma ação no Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande
do Sul (TJRS), que aceitou a denúncia por injúria racial,
aplicando, na ocasião, medidas cautelares como o
impedimento dos acusados de frequentar estádios. Após
um acordo no Foro Central de Porto Alegre, a ação por
injúria foi suspensa.
 Racismo é previsto na Lei n. 7.716/1989, implica conduta
discriminatória dirigida a determinado grupo ou coletividade e,
geralmente, refere-se a crimes mais amplos. Nesses casos, cabe ao
Ministério Público a legitimidade para processar o ofensor. A lei
enquadra uma série de situações como crime de racismo, por
exemplo, recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial,
impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou
residenciais e elevadores ou às escadas de acesso, negar ou obstar
emprego em empresa privada, entre outros. De acordo com o
promotor de Justiça do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos
Territórios (TJDFT) Thiago André Pierobom de Ávila, são mais comuns
no país os casos enquadrados no artigo 20 da legislação, que
consiste em “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou
preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”
(apologia).
 o crime de racismo é inafiançável e imprescritível, conforme
determina o art 5º, XLII, da CF/88. Apesar disso, de acordo com o
promotor Pierobom, na prática é difícil comprovar o crime quando os
vestígios já desapareceram e a memória enfraqueceu. O promotor
lembra de um caso em que foi possível reconhecer o crime de
racismo após décadas do ato praticado, o Habeas Corpus 82.424,
julgado em 2003 no Supremo Tribunal Federal (STF), em que a corte
manteve a condenação de um livro publicado com ideias
preconceituosas e discriminatórias contra a comunidade judaica,
considerando, por exemplo, que o holocausto não teria existido. A
denúncia contra o livro foi feita em 1986 por movimentos populares
de combate ao racismo e o STF manteve a condenação por
considerar o crime imprescritível.
Levantamento Nacional DE INFORMAÇÕES
PENITENCIÁRIAS INFOPEN - JUNHO DE 2014

 O Infopen é um sistema
de informações
estatísticas do sistema
penitenciário brasileiro.
 o perfil das pessoas
presas é
majoritariamente de
jovens negros, de baixa
escolaridade e de baixa
renda.
 Fonte: Pesquisa Ipea/CNJ, 2013
 Quando se analisam os dados referentes a raça e cor dos apenados,
podemos observar uma diferença no que diz respeito à proporção
de pretos e pardos comparativamente à de brancos. Entre os não
reincidentes, a população parda é maioria (53,6%). Entre os
reincidentes a maioria é branca (53,7%).
 Segundo dados do último Censo Demográfico do IBGE, pretos e
pardos representam 55% da população brasileira, o que significa que
sua proporção na amostra analisada é superior àquela encontrada
na população em geral. Este fato tem sido objeto de muitos estudos,
que têm demonstrado a existência de um filtro racial nas abordagens
e prisões efetuadas pelas polícias brasileiras, que de forma seletiva e
racista colocam como “clientes” preferenciais jovens, negros e
moradores da periferia sob custódia.
Expressões populares:

Ela Só Quer Paz (Projota)

Hoje ela só quer paz


Hoje ela só quer paz
Hoje ela só quer paz
Hoje ela só quer

Notícias boas pra se ler nos jornais


Amores reais, amizades leais
Ela entende de flores, ama os animais
Coisas simples pra ela são as coisas principais

Sem cantada, ela prefere os originais


Conheceu caras legais, mas nunca sensacionais
Ela não é as suas nega rapaz
Pagar bebida é fácil, difícil é apresentar pros pais
“Cor de pele”
Aprende-se desde criança que “cor de pele” é aquele lápis meio
rosado, meio bege. Mas é evidente que o tom não representa a pele de
todas as pessoas, principalmente em um país como o Brasil.

“Negro(a) de traços finos”


A mesma lógica do clareamento se aplica à “beleza exótica”, tratando
o que está fora da estética branca e europeia como incomum.

“Cabelo ruim”
Fios “rebeldes”, “cabelo duro”, “carapinha”, “mafuá”, “piaçava” e
outros tantos derivados depreciam o cabelo afro. Por vários séculos,
causaram a negação do próprio corpo e a baixa autoestima entre as
mulheres negras sem o “desejado” cabelo liso. Nem é preciso dizer o
quanto as indústrias de cosméticos, muitas originárias de países
europeus, se beneficiaram do padrão de beleza que excluía os negros.
“Serviço de preto”
Mais uma vez a palavra preto aparece como algo ruim. Desta vez,
representa uma tarefa malfeita, realizada de forma errada, em uma
associação racista ao trabalho que seria realizado pelo negro.

“Mercado negro”, “magia negra”, “lista negra” e “ovelha negra”


Entre outras inúmeras expressões em que a palavra ‘negro’
representa algo pejorativo, prejudicial, ilegal.

“Inveja branca”
A ideia do branco como algo positivo é impregnada na expressão
que reforça, ao mesmo tempo, a associação entre preto e
comportamentos negativos.
“A coisa tá preta”

A fala se reflete na
associação entre “preto” e
uma situação
desconfortável,
desagradável, difícil,
perigosa.
ATIVIDADE
(ENEM 2015) A população negra teve que enfrentar sozinha o desafio da ascensão
social, e frequentemente procurou fazê-lo por rotas originais, como o esporte, a
música e a dança. Esporte, sobretudo o futebol, música, sobretudo o samba, e
dança, sobretudo o carnaval, foram os principais canais de ascensão social dos
negros até recentemente. A libertação dos escravos não trouxe consigo a igualdade
efetiva. Essa igualdade era afirmada nas leis, mas negada na prática. Ainda hoje,
apesar das leis, aos privilégios e arrogâncias de poucos correspondem o
desfavorecimento e a humilhação de muitos. CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil: o
longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006 (adaptado).

Em relação ao argumento de que no Brasil existe uma democracia racial, o autor


demonstra que
a) essa ideologia equipara a nação a outros países modernos.
b) esse modelo de democracia foi possibilitado pela miscigenação
c) essa peculiaridade nacional garantiu mobilidade social aos negros
d) esse mito camuflou formas de exclusão em relação aos afrodescendentes
e) essa dinâmica política depende da participação ativa de todas as etnias.

letra d
Vídeos trabalhados:
 Entrevista Djamila Ribeiro: "o que é lugar de fala?“1:31:00 ok
https://www.youtube.com/watch?v=evE4GjXVYlQ
 Chacinas nas periferias 13:56 ok
https://www.youtube.com/watch?v=53rQggrAouI
Raça Humana 40:42
https://www.youtube.com/watch?v=y_dbLLBPXLo
 Racismo Camuflado no Brasil 8:00
https://www.youtube.com/watch?v=zJVPM18bjFY
 O que é racismo estrutural? // Silvio Almeida 10:28
https://www.youtube.com/watch?v=PD4Ew5DIGrU
 Encarceramento em Massa, do Império aos dias de hoje - Juliana Borges
6:24
https://www.youtube.com/watch?v=wkjtAAUmjPY