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Pós-Graduação em Profetismo e Apocalíptica

Escola de Teologia | Universidade Metodista de São Paulo

Linguagens da Religião: Uma


Introdução

Prof. Me. Guilherme de Figueiredo Cavalheri


Introdução
 Definições conceituais: religião, linguagem, linguagem
religiosa.

 Podem existir tantas definições quanto existem teorias


para estes conceitos. As definições a seguir funcionarão
para nós como definições de trabalho.
Introdução
Linguagem

 O termo possui uso corrente no senso comum. Às vezes,


utilizado de modo indiscriminado para tratar de um modo
específico de comunicação de grupos sociais, gêneros
musicais, profissões, áreas do conhecimento etc.

 Por exemplo: “linguagem da moda”, “linguagem do rap”,


“linguagem das ruas”, “linguagem da internet”, entre
outros.
Introdução
 Ferdinand de Saussure (1857-1913) foi um
pioneiro no estudo da linguagem, sendo um dos
precursores da Linguística.

 Para Saussure, a linguagem é complexo


comunicativo que relaciona duas esferas
interdependentes: a língua (langue) e a fala
(parole).

 Estas duas esferas caracterizam os lados Ferdinand de Saussure


individual e social da linguagem.
Introdução
 Por língua, Saussure define o conjunto de regras e convenções
de um sistema de linguagem.

 “É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da


linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas
pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos
indivíduos”. (Saussure, 2012, p. 41).

 Por sua vez, a fala corresponde ao uso individual desse


conjunto de regras e convenções da língua.
Signo, Significado, Significante e Símbolo

Conceito
(Significado)

Imagem Acústica Árvore


(Significante)
Signo, Significado, Significante e Símbolo

“Cavalo”
“Horse”
“Caballo”
“Cheval”

Significado (imagem mental) Significante (imagem acústica)


Signo, Significado, Significante e Símbolo
 O “laço” que une o significante ao significado é arbitrário.
Por isso, entende-se por signo o total resultante da
associação de um significante com um significado.

 Na prática, isso quer dizer que a relação entre o significado


e o significante obedece uma lógica de mera convenção,
cuja regra de definição é apenas a oposição (p. ex.: “cão” é
tudo o que não é “gato”, “pássaro”, “pessoa”... “verde” é
tudo o que não é “vermelho”, “azul”, “amarelo” etc.).
Signo, Significado, Significante e Símbolo
“O termo linguagem designa qualquer todo sistema seja ele verbal,
musical, visual, gestual etc. Falamos de uma linguagem da arquitetura,
uma linguagem da música ou uma linguagem da paisagem, para
mencionar apenas alguns exemplos. Uma linguagem deve
necessariamente trazer ao jogo de relações significante/significado
(Saussure) ou (na terminologia de Hjelmslev) expressão e conteúdo. Ao
tomar a linguagem das luzes de trânsito por exemplo: as cores verde-
amarelo-vermelho e suas respectivas posições e ordem constituem
significantes, enquanto os significados são siga-atenção-pare. Em outras
palavras, uma linguagem deve sempre consistir de uma forma e
conteúdo, as duas facetas sendo consideradas inseparáveis”.
Martin & Ringham, Dictionary of Semiotics, p. 79.
Signo, Significado, Significante e Símbolo
 No senso comum, termos como signo e símbolo, apesar de
não serem intercambiáveis, acabam sendo utilizados para se
referirem ao mesmo fenômeno.

 Na linguística, o termo símbolo (do grego symbolon) pode


caracterizar algo correspondente ao signo. Utilizado para
representar algo abstrato.

 “O símbolo tem como característica não ser jamais


completamente arbitrário; ele não está vazio, existe um
rudimento de vínculo natural entre o significante e o
significado. O símbolo da justiça, a balança, não poderia ser
substituído por um objeto qualquer, um carro, por exemplo”.
(Saussure, 2012, p. 109).
Signo, Significado, Significante e Símbolo
Língua, Fala e Modos de Articulação
 A linguagem é, ao mesmo tempo, produto e produtora de
articulações sociais por meio de seus sujeitos.

 Essa articulação se dá a partir dos modos de combinação


e uso das regras, convenções e repertório de uma língua,
socialmente.

 A língua, portanto, é um saber da sociedade que se opera


nos indivíduos, em um processo de seleção e combinação
desses saberes, a nível frasal e de modo individual.
Língua, Fala e Modos de Articulação
 Seleção e combinação se encontram articulados em dois
eixos presentes na linguagem: o paradigmático e o
sintagmático.

 O paradigma corresponde ao eixo de relações


comutativas entre os elementos da língua. Por sua vez, o
sintagma corresponde à cadeia de associações que se
dão na relação de sentido das partes que compõem um
enunciado (sequência de palavras que, juntas e
articuladas, formam uma frase).
Eixo Sintagmático

“Hoje comerei contrafilé com batatas e serei feliz”.


Eixo Paradigmático

Estaremos Bondoso
Pizza conforme Cenouras mas
Alegre
Amanhã Como contra Ainda Farás
Ovos Mexidos consoante Arroz Já Irei Exultantes
Ontem Comia de Porém Poderia Belíssima
Água Beterraba Doentes
Nunca Bebo desde

Suco
durante Bananas Satisfeita
Jamais Beberei
Sempre Degustarei Cerveja
Saborearia Lasanha
Comeremos
Funções da Linguagem
 De modo sintético, toda linguagem tem função
comunicativa, ou seja, de transmissão de informação.

 Segundo a semiologia, sistemas de linguagem, ao


possibilitarem a transmissão de mensagens, possibilita a
veiculação de informação.
Funções da Linguagem
 A linguística clássica compreender a emissão e recepção
de informações como a função primária da linguagem. Em
outras palavras, a comunicação como meio transmissor
de mensagens.

 Isso pressupõe que emissor e receptor de uma mesma


mensagem dominem igualmente as regras e repertórios
do sistema de linguagem por eles partilhados, fato que
possibilitaria a transmissão da informação “sem ruídos”.
O ruído seria, portanto, uma “falha” no processo
comunicativo, por meio da incompreensão ou
degeneração da informação.
Funções da Linguagem
 Assim, o que se transmite no processo de comunicação é
uma unidade de informação, codificada a partir de um
sistema de signos com regras, convenções e repertório
próprios. Chamaremos a partir daqui estas unidades de
informação de textos.

 De acordo com a Semiótica da Cultura, escola russo-eslava


de semiologia, mais do que meramente
comunicar/transmitir informações, a linguagem tem função
criativa complexa.
Funções da Linguagem
“A língua natural, a que falamos no dia a dia, cumpre sua
função inadequadamente (e a língua poética, derivada da
natural, mais ainda). Na produção de textos, em razão da
identidade apenas relativa entre emissor e receptor e da
consequente existência de mais de um código, sobressai-se
outra função da linguagem: a função criativa, de geração de
novas mensagens. Ou seja, havendo entre emissor e receptor
não um único código – devido a um relacionamento
assimétrico entre eles -, mas diferentes códigos, torna-se
constantemente necessária a escolha, tradução e, por
consequência, tem-se a produção de novas informações”.
(Nogueira, 2012, p. 17).
Funções da Linguagem
“O texto, como unidade de sentido, não somente gera novos
significados, mas condensa memória cultura. Este é um
conceito central da semiótica da cultura, pois neste caso o
texto adquire uma personalidade semiótica. Ele evoca os
demais textos por meio dos quais foi interpretado. Ele
também traz em si as memórias de sua leitura e dos eventos
históricos que ocorreram fora de si, mas que nele podem
evocar associações. Ou seja, o texto não é uma mensagem
inerte, estática, mas antes uma mensagem que se auto
organiza e que se relaciona com outros textos. Este processo
de preservação de memória é um sistema poderoso para a
criação de novos textos”.
(Nogueira, 2012, p. 18)..
Linguagem, Texto e Cultura
 Ao conjunto de regras, estruturas, repertórios e modos de
expressão que caracterizam um tipo específico de linguagem,
aplica-se o conceito de sistemas modelizantes. Irene Machado
(2003, p. 167) os define do seguinte modo:

“Os sistemas modelizantes podem ser entendidos como


sistemas de signos, como conjunto de regras (códigos,
instruções, programas) para a produção de textos e suas
funções correlatas. Todos os sistemas semióticos da cultura
são, a priori, modelizáveis; prestam-se ao conhecimento e
explicação do mundo. O modelo primário é a linguagem
natural, enquanto todos os demais são secundários”.
Linguagem, Texto e Cultura
“Nesse sentido, o texto pode ser considerado como elemento
primário (unidade básica) da cultura. A relação do texto com o
todo da cultura e seu sistema de códigos é revelada pelo fato
de que em diferentes níveis a mesma mensagem pode aparecer
como um texto, como parte de um texto ou como um conjunto
completo de textos”.
“O conceito de ‘texto’ é empregado num sentido
especificamente semiótico e, por um lado, é aplicado não
apenas à mensagem de uma língua natural, mas também a
qualquer portador de significado integral (‘textual’): uma
cerimônia, uma obra de arte, uma peça musical”.
Ivanov e outros, 2003, p. 105.
Linguagem, Texto e Cultura
Teologia
Direito

Folclore
Vestuário/Moda
Literatura Visual/Pictórica

Filosofia Música
Ritual/Gestual
Mitologia

LÍNGUA NATURAL
(Português, Espanhol, Inglês,
Russo etc.)
Estruturas/Regras e convenções sintáticas
e semânticas/códigos/Repertório Léxico
Linguagem, Texto e Cultura
 Podemos definir “cultura” como o conjunto de sistemas de
linguagem e os respectivos textos que são produzidos,
transmitidos e transformados em seu interior.

 Esses sistemas de signos (ou sistemas de linguagem) se derivam e


se relacionam em diferentes níveis, partindo sempre das estruturas
e regras da língua natural.

 Cultura, portanto, pode ser também definida como memória não-


hereditária de uma comunidade, que se expressa em um conjunto
de sistemas de linguagem. Cultura, assim, está relacionada com o
passado, como repositório de memória, e também com o futuro, ao
se organizar a partir de programas de ação (movimento) de um
grupo.
Linguagem, Texto e Cultura
 Para explicar os processos de circulação de
textos no interior da cultura, Iuri Lotman
(1922-1993) desenvolveu o conceito de
semiosfera.

 A semiosfera é o espaço da cultura onde


textos são produzidos, transmitidos e
“preservados” por meio da memória
cultural. Esse movimento ocorre de Iuri Mikhailovich Lotman
maneira assimétrica, em razão das
diferentes dinâmicas que existem neste
espaço semiótico.
Linguagem, Texto e Cultura
 A semiosfera, assim como a biosfera, é o espaço dos seres
vivos, que se reproduzem e se relacionam.

 Lotman (1996, pp.11-26), determina que a semiosfera, como


espaço da cultura, é composta de duas regiões distintas: o
centro e a fronteira.

 No centro encontram-se os mecanismos, textos e instituições


cuja função é manter e perpetuar sistemas de signos
estabelecidos, textos normativos. O centro é o local da
“tradição”, do “conservadorismo” dentro da cultura.
Linguagem, Texto e Cultura
 Por sua vez, a fronteira é o que podemos chamar de
“borda” da semiosfera. Nela encontram-se agentes que
vivem entre a cultura e a não-cultura. É na fronteira que
aquilo que é estranho passa a ser assimilado para dentro
da cultura, por meio desses mesmos agentes.

 “A fronteira é um mecanismo bilíngue que traduz as


mensagens externas à linguagem interna da semiosfera e
vice e versa. Assim pois, só com sua ajuda a semiosfera
pode realizar os contatos com os espaços não-semióticos e
alosemióticos”. (Lotman, 1996, p. 13-14).
Linguagem, Texto e Cultura
 Segundo Machado (2003,p.163), a semiosfera é, portanto,
“espaço de produção da semiose na cultura, portanto, de
coexistência e coevolução dos sistemas de signos”.

 “As culturas nucleares tendem a criar sistemas de


autodescrição. Isto as torna mais rígidas e menos aptas à
mudanças. Pelo contrário, na periferia a cultura tende a ser
mais aberta à tradução, ao contato com o exterior, estando
desta forma mais apta à produção de novos textos. [...] A
cultura é assimétrica em sua estrutura, sendo estraitificada em
diferentes níveis hierárquicos, organizados na relação centro-
periferia. Como aponta Lotman [...], a cultura tende,
movimenta-se para sua periferia, para a tradução daquilo que
está fora dela, para transformá-lo em algo que possa ser
compreendido por ela.”. (Nogueira, 2012, p. 23,25).
A SEMIOSFERA FRONTEIRA
Local da tradução, dos
“filtros bilíngues”,
textos Da assimilação e do
Periferia “sincretismo”
textos Sistemas
Modelizantes
Sistemas textos
Modelizantes
textos

textos CENTRO textos


textos Local dos Textos
sss
autorreferentes e
Sistemas
Sistemas NÃO-CULTURA
Modelizantes normatizadores Modelizantes “CAOS”
textos textos
Sistemas textos
Modelizantes
textos
textos
textos textos
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
 Como vimos, a linguagem é um esforço comunicativo e
modelizador da realidade.

 Além de transmitir mensagens, a linguagem tem função de


produzir informação, armazenar e transmitir memória, e
organizar as unidades de informação (textos) que compõem
os sistemas de signos presentes em uma determinada cultura.

 Além disso, de acordo com a semiótica da cultura, essa


relação de produção e transmissão de textos ocorre em
dinâmicas diferentes dentro da semiosfera, espaço da cultura
onde os textos se dinamizam, sendo mais versáteis e ativos
na fronteira, e mais cristalizados e conservadores no centro.
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
 Quais as relações entre religião e linguagem?

 A experiência religiosa, por excelência, é uma experiência


da linguagem. Sistemas religiosas como um todo podem
ser identificados como sistemas de signos linguísticos,
como instrumentos de comunicação, retenção e produção
de informação.

 Essa forma de comunicação religiosa se dá em variados


níveis: simbólico, gestual, visual, da escrita e da fala.
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
 Origem das linguagens religiosas: o ato de contar histórias.

 Apesar das consagradas teorias a respeito do desenvolvimento


natural da linguagem e da cultura entre os seres humanos, há
quem pense na possibilidade de que a linguagem tenha sido uma
pedra na qual o Homo Sapiens veio a tropeçar em sua caminhada
evolutiva. Espécie animal da qual fazemos parte. Surgida no leste
africano entre 300 e 200 mil anos antes do tempo presente.

 Paulo Nogueira (2013, p. 445), ao tratar da origem das linguagens


religiosas, toma como referência a tese de Terence Deacon de que,
em algum momento dessa caminhada, nos desligamos dos outros
animais, e nossa comunicação passou a relacionar coisas concretas
e abstratas, dando início às primeiras formas de representação
simbólica.
Arte parietal das cavernas de Lascaux, França (17 a 15 mil anos Antes do Tempo Presente)
Homero (1841), de Jean-Baptiste August Leloir
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
 Por meio da linguagem, foram possíveis melhorias nas
técnicas de caça, divisão do trabalho, distribuição de
recursos e papeis sexuais, até mesmo a constituição de
estruturas sociais mais profundas, ligadas à
confiabilidade e pertencimento ao grupo. (Nogueira,
2013, p. 445-446).

 Ao construir para si um repertório cada vez maior de


signos e símbolos, e um conjunto de associações destes
cada vez mais complexo, o ser humano pré-histórico
passou a desenvolver a capacidade de “deslocar-se de si
mesmo”, criando um self narrativo.
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
 Um repertório complexo de signos e símbolos, além da
crescente possibilidade de associação e combinação
destes, possibilitou à nossa espécie a articulação de
memórias (algo análogo aos processos de seleção e
organização lógicas necessário ao sintagma e
paradigma).

 Por meio da linguagem simbólica, é possível estabelecer


relações entre passado, presente e futuro, também de
objetos e indivíduos ausentes ou abstratos, juntamente
com os reais.
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
 Um repertório complexo de signos e símbolos, além da
crescente possibilidade de associação e combinação
destes, possibilitou à nossa espécie a articulação de
memórias (algo análogo aos processos de seleção e
organização lógicas necessário ao sintagma e
paradigma).

 Por meio da linguagem simbólica, é possível estabelecer


relações entre passado, presente e futuro, também de
objetos e indivíduos ausentes ou abstratos, juntamente
com os reais. A relação destes elementos em perspectiva
é o que caracteriza as origens de nossa capacidade
narrativa.
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
“Segundo [Terence] Deacon, o uso de linguagem simbólica,
de linguagem na qual os signos têm uma relativa
autonomia em relação aos objetos (os referentes), [...]
criou dois subprodutos. O primeiro deles é a tendência de
criar um self narrativo simbólico e explicações narrativas
do mundo com tudo o que ele contém. O outro subproduto
é a tendência humana de prestar atenção e buscar
estruturas subjacentes e ocultas na realidade aparente”.
(Nogueira, 2013, p. 447).
Linguagem e Religião: Primeiras Relações
“Narrativas são relacionadas com a construção de nossas
identidades como indivíduos e com as memórias
elaboradas das comunidades às quais pertencemos. É
dessa predisposição narrativa que surge aquela que é a
narrativa por excelência da religião: o mito”. (Nogueira,
2013, p. 447).
Mito como Sistema Modelizante
 O que é o mito?

 Segundo José Severino Croatto, a etmologia da palavra


grega Mythos é incerta.

 O termo é utilizado de modos diversos por autores


clássicos e, muitas vezes, de modo intercambiável com
outros termos.
Mito como Sistema Modelizante
 Nos estudos clássicos de mitologia, os mitos dos povos primitivos
eram considerados, grosso modo, como “histórias de origem”,
meios de se acessar uma realidade suprahistórica, primordial, onde
o poder criador das divindades ancestrais se encontrava ainda
presente e ativado. Na expressão de Mircea Eliade, histórias que
contam acontecimento in illo tempore (antes do tempo/no
princípio).

 Diante da multiplicidade de definições e conceituações para o


estudo dos mitos, Croatto define a narrativa mítica do seguinte
modo:

“O mito é o relato de um acontecimento originário, no qual os


Deuses agem e cuja finalidade é dar sentido a uma realidade
significativa”. (2010, p. 209).
Mito como Sistema Modelizante
Esta é, para nosso abordagem, uma definição insuficiente.
Trataremos o mito, aqui, como um Sistema Modelizante,
ou seja, um sistema de linguagem por meio do qual
elementos do mundo/realidade/sociedade são descritos,
classificados e assimilados.

Desse modo, a ideia de mito possibilita a apreciação de um


espectro mais abrangente de materiais.
Mito como Sistema Modelizante
 Para Eleazar M. Mieletinski (1987), a mitologia é um aspecto
dominante da vida, desde as sociedades arcaicas, como
instrumento de conceituação global, sendo o “solo e arsenal”
das formas iniciais tanto da religião quanto da poesia. (p. 189-
190).

 Seu desenvolvimento aconteceu em um momento de


descompasso, porque, apesar da linguagem oferecer ao ser
humano primitivo a capacidade de elaborar um self narrativo,
ainda não existe, nesse momento, uma distinção clara entre
pessoa e natureza, a partir da comparação metafórica dos
objetos naturais e culturais. (p. 191).
Mito como Sistema Modelizante
 Para Eleazar M. Mieletinski (1987), a mitologia é um aspecto
dominante da vida, desde as sociedades arcaicas, como
instrumento de conceituação global, sendo o “solo e arsenal”
das formas iniciais tanto da religião quanto da poesia. (p. 189-
190).

 Seu desenvolvimento aconteceu em um momento de


descompasso, porque, apesar da linguagem oferecer ao ser
humano primitivo a capacidade de elaborar um self narrativo,
ainda não existe, nesse momento, uma distinção clara entre
pessoa e natureza, a partir da comparação metafórica dos
objetos naturais e culturais. (p. 191).
Mito como Sistema Modelizante
 Produto da cultura, o pensamento mitológico tem função pragmática. Seu uso
primordial é o de auxiliar o ser humano a lidar com as assimetrias e contradições
da existência de maneira lógica.

 Segundo Mieletinski, esse processo ocorre quando os elementos semânticos e


simbólicos presentes nos mitos se encontram em relação, de modo a
“harmonizar” (mediar) estes elementos que, presentes no mundo de modo
desordenado e ilógico, são postos em perspectiva por meio da ação da memoria
e da linguagem narrativa.

 Suas estruturas de enredo e reservas simbólicas e semânticas possibilitaram, ao


longo do tempo, o desenvolvimento de sistemas de linguagem derivados, tais
como o folclore e a própria literatura.

 A similaridade dos enredos, funções de personagens e metáforas entre mitos do


mundo todo e justificada por Mieletinski justamente porque, ao se derivar do
sistema da própria língua, a mitologia se encontra condicionada as suas próprias
regras.
Mito como Sistema Modelizante

“A lógica mitológica é metafórica, simbólica, lança mão de um


conjunto finito de meios “disponíveis”, que exercem a função
ora de material, ora de instrumento, e são submetidos a uma
periódica reorganização caleidoscópica; o signo desempenha a
função de operador dessa reorganização”. (Mieletinski, 1987, p.
195).

“O mito fornece um modelo no qual todo o conhecimento de


uma sociedade pode ser narrado. Seu passado e reconstruído
de forma coerente e eventos isolados podem ser colocados em
relação uns com os outros”. (Nogueira, 2013, p. 450).
Religião: Texto e Sistema
 Retomando a ideia de semiosfera, como podemos
compreender as religiões, de modo mais abrangente,
dentro deste espaço de produção de textos?

 Religiões, de modo geral, podem ser interpretadas tanto


como textos (produção de sistemas maiores), ou como
sistemas modelizantes que produzem também unidades
de informação.
Religião: Texto e Sistema
 “Vemos o tempo todo conceitos de uma cultura sendo
relidos em outra, observamos, desta forma, textos sendo
transformados em imagens, oralidade em escritura,
processos de inverso e circularidade. [...] Um símbolo, um
discurso, uma narrativa que pertencia à periferia pode,
após longo processo de tradução e ressignificação, ser
encontrada no centro da cultura, transformada é verdade,
mas com elementos preservados pela memória da cultura.
O sincretismo nesta dinâmica não é um luxo, nem um
defeito, é uma característica fundamental da cultura e de
sua linguagem. A religião, como forma simbólica maior,
mais densa (junto com as formas artísticas), é a mais
sincrética”. (Nogueira, 2012, p. 25).
Religião: Texto e Sistema
 Tratando-se do campo religioso, portanto, estamos
tratando de textos e formas de linguagem (gestos, ideias,
imagens, narrativas, rituais etc.) em constante
movimento, relação e transformação, cujos resultados são
imprevisíveis.

 Ainda que no centro da semiosfera encontrem-se os


textos “normativos” (teologias, doutrinas, ortodoxias,
representantes da tradição religiosa), na longa duração,
estes são transformados a partir dos processos de
tradução/assimilação de elementos exteriores à seu
espaço cultural.
Religião: Texto e Sistema
 “Nessa perspectiva não faz sentido tornar-se guardião de
ortodoxias ou dos clássicos. As fronteiras são pulsantes,
prontas a devorar o outro, a traduzi-lo de forma a trazê-lo
para dentro de seus limites, para antropofagicamente
comê-lo e regurgitá-lo”. (Nogueira, 2012, p. 27).
Referências
 CROATTO, José Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa. São Paulo: Paulinas, 2010.
 IVÁNOV, Véiatchesláv Vsievolodovitch et al. Teses para uma Análise Semiótica da Cultura (uma
Aplicação aos Textos Eslavos). In: MACHADO, Irene. Escola de Semiótica: A Experiência de Tártu-
Moscou para o Estudo da Cultura. Cotia: Ateliê Editorial; Fapesp, 2003.
 LOTMAN, Iuri M. La Semiosfera I: Semiótica de La Cultura y del Texto. Valencia: Frónesis, 1996.
 MACHADO, Irene. Competência Semiótica. In: Escola de Semiótica: A Experiência de Tártu-Moscou
para o Estudo da Cultura. Cotia: Ateliê Editorial; Fapesp, 2003.
 MARTIN, Bronwen; RINGHAN, Felizitas. Dictionary of Semiotics. London and New York: Cassel, 2000.
 MIELETINSKI, Eleazar M. A Poética do Mito. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
 NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Linguagens Religiosas: Origem, Estrutura e Dinâmicas. In:
PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank (Org.). Compêndio de Ciência da Religião. São Paulo: Paulinas;
Paulus, 2013.
 NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. Religião como Texto: Contribuições da Semiótica da Cultura. In:
NOGUEIRA, Paulo Augusto de Souza. (Org.). Linguagens da Religião: Desafios, Métodos e
Conceitos Centrais. São Paulo: Paulinas, 2012.
 SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 28a edição. São Paulo: Cultrix, 2012.