Padre António Vieira

Tópicos para reflexão
• O Homem • A obra • O estilo

Principais dados biográficos
Primeiro Período / O religioso / 1608 - 1640 • António Vieira nasce a 6 de Fevereiro de 1608 em Lisboa • É baptizado a 15 de Fevereiro do mesmo ano: “Aos quinze deste Fevereiro de 608 baptizei eu, Jorge Perdigão, cura, a António, filho de Cristóvão Vieira Ravasco, escrivão das devassas e de sua mulher, Maria d’Azevedo. O padrinho é o Fernão Teles de Menezes.”

A FORMAÇÃO DE VIEIRA

• Em 1614, parte com os pais para o Brasil, com apenas seis anos. • Em 5 de Maio de 1623, com 15 anos, entra para o noviciado do Colégio Jesuíta, sendo o reitor então o Padre Fernão Cardim. • A 6 de Maio de 1625, professa pela primeira vez e já então tinha sido encarregado de redigir a carta ânua relativa a 1624 e 1625.

Nossa Senhora das Maravilhas

Segundo informação de J. Lúcio de Azevedo, citando o Padre André de Barros: “Aí se deu com ele um caso prodigioso, dos em que abundam as crónicas monásticas, e acaso mais frequentes nas dos jesuítas. Não foi Vieira, como podem supor muitos, um precoce génio: nos primeiros tempos de estudante, compreendia mal, decorava a custo, fazia com dificuldade as composições; em tudo aluno medíocre, com o que, já então pundonoroso, muitas vezes se afligia. É de imaginar que orando à Virgem das Maravilhas lhe suplicasse a de o tornar mais hábil para os estudos. Em um de tais lances, a meio da súplica, sentiu como estalar qualquer coisa no cérebro, com uma dor vivíssima, e pensou que morria; logo o que parecia obscuro e inacessível à memória, na lição que ia dar, se lhe volveu lúcido e fixo na retentiva. Dera-se-lhe na mente uma transformação de que tinha consciência. Chegado às classes pediu que o deixassem argumentar, e com pasmo dos mestres venceu a todos os condiscípulos. Daí por diante foi ele o primeiro e mais distinto em todas as disciplinas. Refere o caso o padre André de Barros, de uma testemunha que o ouviu a Vieira.”

•A 10 de Dezembro de 1634 é ordenado presbítero, já então com alguns sermões pregados de créditos confirmados: “Sermão da 4ª Dominga da Quaresma” em 1633 “XIV Sermão do Rosário” em 27 de Dezembro de 1633” “Sermão de S. Sebastião” Sábado de Ramos de 1634” Púlpito da igreja do Colégio dos Jesuítas - Baía

XIV Sermão do Rosário (Pregado na Baía, à irmandade dos pretos de um engenho em dia de S. João Evangelista, no ano de 1633) “Mas que fará cercado das mesmas obrigações, tantas e tão grandes, quem não só falto de semelhante espírito, mas novo, ou noviço, no exercício e na arte, é esta a primeira vez que subido indignamente a tão sagrado lugar, há-de falar dele em público? Vós, soberana Rainha dos anjos e dos homens, Mãe da sabedoria incriada (a quem humildemente dedico as primícias daquelas ignorâncias que ainda se não podem chamar estudos, como única protectora deles) pois o dia e assunto é, Senhora, de vossos maiores mistérios, Vos dignai de me assistir...”

No mesmo sermão do Rosário, observe-se desde já o estilo e a vontade denunciadora das injustiças que eram exercidas pelos colonos sobre os escravos: “Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado, porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dous madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o ceptro de escárnio, e outra vez para a esponja em que Lhe deram o fel. A paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos: Cristo sem comer, e vós famintos: Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo.”

• Em Maio ou Junho de 1640, Vieira é já uma figura pública reconhecida e, na Igreja de Nossa Senhora da Baía, pregou um dos seus mais famosos sermões: “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda”:
“Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas ? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para

que contrastámos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhámos, as hajamos de perder assim! Oh quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!”

•A 27 de Fevereiro de 1641 parte para Lisboa juntamente com D. Fernando, filho do Marquês D. Jorge de Mascarenhas para prestarem vassalagem a D. João IV. Acompanhava-o ainda o Padre Simão de Vasconcelos. •A 30 de Abril de 1641, após atribulada chegada, encontra-se pela primeira vez com D. João IV.

Segundo Período / O pregador e o Diplomata / 1641 – 1650 O pregador da Capela Real: •A 1 de Janeiro de 1642, terá pregado o seu primeiro sermão ao rei, o sermão dos Bons Anos, depois, foram muitos e variados os sermões que pregou, principalmente para os seus admiradores, o Rei D. João IV e a Rainha D. Luísa de Gusmão. •Entre 1641 e 1653, terá proferido cerca de meia centena de sermões, contando apenas com os impressos. As igrejas enchem-se de multidões e diz D. Francisco Manuel de Melo: “mandar lançar tapete de madrugada em S. Roque para ouvir o Padre António Vieira”.

No sermão dos Bons Anos, Vieira vai mostrar de forma muito clara as suas crenças em Bandarra, no novo sebastianismo encarnado em D. João IV e o visionarismo do V Império.

O Diplomata: •A 1 de Fevereiro de 1646, parte rumo a Paris na sua primeira missão, passando depois à Holanda. •A 13 de Agosto de 1647, segunda missão a Paris, tendo passado por Londres e terminado na Holanda. Regressa a Lisboa a 15 de Outubro de 1648. A viagem fora atribulada, no meio da polémica está a guerra contra os holandeses, o casamento de D. Teodósio com Mademoiselle de Montpensier, filha do Duque de Orleães, o empréstimo do Judeu Duarte Silva, preso pela Inquisição e a ajuda em Haia ao embaixador Francisco de Sousa Coutinho, bem como as famosas disputas com Manassés-ben-Israel. Esta viagem termina ainda com a redacção do célebre documento a que o Rei chamou "Papel forte“.

•A 8 de Janeiro de 1659, desenvolve uma nova missão diplomática a Itália, a missão era maquiavélica e pretendia casar D. Teodósio, filho de D. João IV com a filha única de Filipe IV de Espanha, D. Maria Teresa e deslocar a corte ibérica para Lisboa. Além disso, pretendia incutir no estado de Nápoles a revolta contra Espanha. O Duque do Infantado, embaixador de Espanha, reagiu mal, e Vieira viu-se obrigado a abandonar Roma à pressa. Perante tais fracassos, começava a ser iminente o regresso de Vieira ao Brasil.

Terceiro Período / O Missionário / 1651 - 1661 • Depois de falsas partidas e de despedidas patéticas, parte de Lisboa a 25 de Novembro de 1651 e chega ao Maranhão em 16 de Janeiro de 1653, com passagem prolongada por Cabo Verde, levava um missão a cumprir de defesa dos índios que lhe haveria de dar uma luta sem tréguas contra os colonos

Nas vésperas de uma das muitas missões que o levarão pelas florestas da Amazónia, na cidade de São Luís do Maranhão, pregou Vieira o sermão ao Espírito Santo. Pretendia Vieira que os colonos autorizassem os escravos a ir aprender a doutrina e as senhoras que a ensinassem às escravas. Deste texto saiu a célebre passagem do estatuário: “Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, dura, informe, e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afia-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá recama: e fica um homem perfeito, e talvez um santo, que se pode pôr no altar.”

• A 5 de Outubro de 1653, faz uma viagem dificultosa em canoa ao Pará e a 13 de Dezembro vai em expedição ao Rio dos Tocantins. O espírito missionário aumentava então em Vieira na mesma proporção que aumentavam os conflitos com os colonos, que o levaram a segundo regresso a Portugal. Antes da partida para Lisboa, não resistiu à tentação de defrontar os seus inimigos, pregando, a 13 de Junho de 1654, o célebre sermão de Santo António, em S. Luís do Maranhão.

•A viagem de regresso é atribulada e acaba por ir parar aos Açores, chegando a Lisboa em princípios de Novembro de 1654 •Durante a estada em Lisboa, com a sua pregação, reforça ódios antigos com a Inquisição, tendo a expulsão dos holandeses do Brasil aumentado o descrédito em termos políticos. •Regressa ao Brasil em 16 de Abril de 1655 com poderes reforçados por uma provisão régia de 9 de Abril. O governador, André Vidal de Negreiros, apoiou-o na libertação dos índios e desenvolve então importantes acções entre os indígenas, percorrendo as selvas. Os ódios, no entanto, não cessam e tudo se agravará com a morte em 6 de Novembro de 1656 de D. João IV.

Em Abril de 1659, dirige ao Padre André de Fernandes, Bispo eleito do Japão, a famosa carta onde anuncia a ressurreição de D. João IV. •O ambiente torna-se insustentável e, em Agosto de 1661, é preso e enviado para Portugal pelos colonos, chegando a Lisboa em começos de Novembro. •Já no Porto, em pleno reinado de D. Afonso VI, tudo o que tinha defendido é revogado em 12 de Dezembro de 1663 e impedido de regressar ao Brasil.

Quarto Período / O Vidente / 1662 - 1668 Os Cárceres da Inquisição: •O seu carácter incómodo, o governo do conde de Castelo Melhor, a desgraça da rainha, do Marquês de Gouveia e Duque do Cadaval deixam-no desprotegido e abrem campo para que a Inquisição, que não o tinha esquecido, o comece a perseguir. •Em Fevereiro de 1663 vai para Coimbra com regime de residência fixa e em fins de Maio recebe notificação do Santo Ofício, a 21 de Julho é interrogado pelo inquisidor Alexandre da Silva.

•O processo leva cinco anos e meio de atribulados interrogatórios e defesa e, na Véspera do Natal de 1667, Vieira retractou-se perante as determinações papais e ouviu publicamente a sua sentença: “seja privado para sempre de voz activa e passiva, e do poder de pregar, e recluso no colégio, ou casa de sua religião, que o Santo Ofício lhe assinar, donde, sem ordem sua não sairá; e que por termo por ele assinado, se obrigue a não tratar mais das proposições de que foi arguido no discurso de sua causa, nem de palavra, nem por escrito, sob pena de ser rigorosamente castigado.”

•Em Março de 1668, é autorizado a regressar a Lisboa. •A 23 de Novembro de 1667, já o rei D. Afonso VI havia abdicado, e os amigos de Vieira sobem de novo ao poder. •A Inquisição abranda a vigilância, vindo a perdoarlhe a pena em 30 Junho de 1668 e nesse mesmo mês pregava já no aniversário da rainha, Dona Maria Francisca de Sabóia.

Quinto Período / O Revoltado / 1669-1680 Roma e tempo de triunfos: •Ainda que a sua aceitação na corte não fosse igual à do tempo de D. João IV, aí foi pregando e conseguiu voltar à ribalta diplomática. Em 15 de Agosto de 1669, embarca para Roma, a propósito de uma canonização de jesuítas, mas o objectivo era fugir da Inquisição. •Depois de uma atribulada viagem, torna-se protegido do provincial dos Jesuítas, o padre Oliva, afamado pregador do papa e da Corte da Rainha Cristina da Suécia, esta mesmo teria posteriormente nomeado Vieira seu pregador oficial em Dezembro de 1673, cargo que não aceitaria.

Em Roma, contra a sua vontade, viu-se obrigado a pregar em Italiano. Disso nos dá conta Lúcio de Azevedo: “Tanta era a curiosidade de ouvir o forasteiro que se tornou necessário pôr soldados às portas dos templos aonde ia pregar, para impedir que se apossasse o público dos lugares, antes de chegarem as dignidades eclesiásticas e pessoas de representação. O jesuíta português foi neste tempo alvo predilecto das atenções na sociedade romana. Quem não ia ouvi-lo decaía no conceito das pessoas de gosto, aquelas que nas grandes cidades costumam arvorar-se em árbitros da distinção e da moda. “

•Na Igreja de Santo António dos Portugueses, teria ele pregado o célebre sermão da Quarta - Feira de Cinzas em 1672.

“Que é Roma levantada? A cabeça do mundo. Que é Roma caída? A caveira do mundo. Que são esses pedaços de Termas e Colossos, senão os ossos rotos e truncados desta grande caveira? E que são essas colunas, essas agulhas desenterradas, senão os dentes mais duros desencaixados dela? Oh que sisuda seria a cabeça do mundo se se visse bem na caveira!”

•Em 17 de Abril de 1675, consegue o que mais ambicionava, o breve papal que o livraria definitivamente do Santo Ofício e partiu, passados cinco anos e meio, a 22 de Maio de 1675 da cidade eterna. •Chegado a Lisboa a 23 de Agosto, visitou o rei D. Pedro II no dia seguinte, mas a recepção fora fria. Decide voltar ao Brasil com novas intenções missionárias.

Sexto Período / O Vencido / 1681-1697 À espera da morte: •Partiu de rumo à Baía em 27 de Janeiro de 1681 e chegou em Maio desse ano. A desilusão que levava de Portugal levam-no a procurar descanso na Quinta do Tanque, local que serviu de refúgio para a elaboração de grande parte dos sermões, que enviará nos anos seguintes regularmente para serem publicados em Portugal. Em 1682, o tomo II; o III em 1683; o IV em 1685; o V em 1689; o VI em 1690; o VII em 1692; o VIII em 1694; o XI em

•Os tomos IX e X, dedicados ao Rosário, resultaram de uma promessa. Por isso mesmo, para assegurar o cumprimento, mandou-os publicar em 1686 e 1688. O tomo XIII foi também antecipado para 1690. O tomo XII, preparado por ele, teve edição póstuma. O tomo XIV é datado de 1710 •Nesta fase, absteve-se da actividade concionatória e só subiu ao púlpito por ocasiões importantes, como nas exéquias de Dona Maria Francisca de Sabóia ou na celebração do nascimento do primeiro filho de D. Pedro e Dona Maria Sofia de Neuburgo. •Em Maio de 1688 é nomeado por Roma Visitador da Província do Brasil o que o obrigou a regressar ao Colégio, o cargo foi mais um reconhecimento que lhe permitiu, passados três anos, regressar à Quinta do Tanque, em 1691.

•Em 1696 agrava-se a sua saúde e em Julho resolve regressar ao Colégio dos Jesuítas da Baía: “Enfim me resolvo a deixar este deserto e ir para o colégio, ou para sarar como homem com os remédios da medicina, ou para morrer como religioso entre as orações e braços dos meus padres e irmãos. Adeus, Tanque, não vou buscar saúde nem vida, senão um género de morte mais sossegado e quieto...” •Na hora primeira de 18 de Julho de 1697 morreu junto dos homens da sotaina negra. Tinha 89 anos.