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Sofrimento psíquico e estresse

psicológico na formação e no
exercício profissional em Medicina

Luiz Antonio Nogueira Martins


“...o médico tem terríveis visões, toca
coisas desagradáveis; a desgraça e
sofrimento dos outros traz consigo um
saldo de tristezas que passam a ser
peculiares nele...”

Hipócrates
Características p sic oló gic as da tarefa
médic a
Fatores gratificantes
➤ aliviar a dor e o sofrimento
➤ curar doenças
➤ salvar vidas
➤ diagnosticar corretamente
➤ sentir-se competente
➤ ensinar, aconselhar, educar
➤ prevenir doenças
➤ receber reconhecimento, elogios,
gratidão
Características p sic ológicas da tarefa
mé dica

Fatores estressantes
➤ medo de cometer erros
➤ contato íntimo e freqüente com dor e
sofrimento
➤ pacientes “difíceis”
➤ expectativas dos pacientes e familiares
➤ limitações do conhecimento médico
➤ constante necessidade de atualização
➤ receio de ser processado
“Acompanhar o processo de morte é
estressante. Não conseguir revertê-lo
causa angústia e gera uma sensação de
impotência terrível”

Infectologista, CRT DST/Aids-SP


“...Acho que a maior dificuldade que senti durante
o meu R1 foi informar ao paciente de que ele era
portador de doença com prognóstico fechado,
sem chance de cura. Situações deste tipo foram
bastante freqüentes e a avaliação sobre o
melhor momento e a melhor maneira de
comunicar ao paciente sempre foram bastante
difíceis e nem sempre tiveram um desfecho que
me satisfizesse”

R1, Cirurgia Geral


“...minha maior dificuldade foi a de lidar com
pacientes da sala onco-hemato. Acabei me
envolvendo e me identificando com as mães
e as crianças. Acho que pelo fato de ter um
filho, eu acabo tendo dificuldade em lidar
com a situação. Alguns dias antes de entrar
na onco-hemato, apareceu um herpes labial,
impossibilitando-me de entrar na sala por
alguns dias. Coincidência?!”

R1, Pediatria
“...na minha especialidade, o maior
estresse é quando entramos, no início,
para uma cirurgia eletiva, sabendo que,
por falta de experiência, podemos
restringir a capacidade visual do
paciente”

R2, Oftalmologia
“...em GO, o que é muito estressante é
ter que tomar decisões imediatas, em
circunstâncias que envolvem duas vidas
[mãe e feto]; estas decisões [condutas]
podem ser acertadas ou não e
freqüentemente são irreversíveis ...”

R2, GO
“...foi muito difícil o relacionamento com um
paciente jovem (14 anos) que já havia
passado por várias cirurgias, sem atenuar o
seu problema. Era um paciente muito
inteligente e alegre; a sensação de
impotência foi muito grande, fazendo com
que minha frustração, como médico,
aumentasse assustadoramente”

R1, Clínica Médica


Estre sse

Estresse é a resposta adaptativa do


organismo (corpo e mente) às
pressões internas (desejos, ambições,
expectativas, conflitos) e externas
(pressões vinculadas ao exercício
profissional, às condições de
trabalho).
Fatores psicológicos estressantes

➤ tarefas de responsabilidade
➤ eventos inesperados
➤ situações de expectativa
➤ contato com o novo (mudanças)
Estresse-adaptação

➤ estresse profissional
➤ estresse situacional
➤ estresse pessoal
Estresse psicológico no curso médico

 o esquema de estudo (diferente de colegial e


cursinho)
 as sensações experimentadas nos laboratórios,
enfermarias, ambulatórios e pronto socorro
 a vivência da anamnese do paciente como invasão
da privacidade
 o medo de adquirir doenças ao atender os
pacientes
 o contato com a intimidade corporal e emocional
Estresse psicológico no curso médico
 preocupações sobre seus próprios conflitos,
desencadeados pelo contato com pacientes
psiquiátricos
 dúvidas sobre a capacidade de absorver todas as
informações
 preocupação com os ganhos econômicos no futuro

 para as mulheres, preocupação em como conciliar,


no futuro, maternidade e carreira
 a escolha de especialidade
 receio de não conseguir aprovação na Residência
Síndrome de Estresse do Residente

➤ distúrbios cognitivos episódicos


➤ raiva crônica
➤ ceticismo crescente
➤ discórdia familiar
➤ depressão
➤ ideação suicida e suicídio
➤ uso abusivo de drogas

(Small,
1981)
Síndrome de Estresse do Residente

Fatores etiológicos:
➤ privação do sono
➤ excessiva carga de trabalho
➤ responsabilidade assistencial
➤ mudanças freqüentes das condições
de trabalho
➤ competição entre os residentes

(Small, 1981)
Privação do sono e fadiga
➤ Distúrbios cognitivos, alteração do humor e
fadiga podem afetar: aprendizado, desempenho
profissional, vida pessoal
(Papp e cols., 2004)

➤ Plantão noturno pode reduzir o período de


latência do sono a níveis patológicos
(Mathias e cols., 2004)

➤ Redução da carga horária de trabalho foi


acompanhada por redução do número de erros
médicos em UTI
(Landrigan e cols., 2004)
Qualidade de vida

➤ Associação entre pior qualidade de vida e ser


residente de primeiro ano, de especialidades
clínicas, com mais de 30h semanais de
atendimento a pacientes críticos e trabalhar em
plantões fora da RM
(Macedo, 2004)

➤ Carga horária maior que 60 horas semanais foi


associada com comprometimento da qualidade
de vida (Oliveira Filho e cols., 2005)
Os médicos e o seu trabalho

➤ Embora ainda não haja desemprego na


medicina, a condição de profissional com
atividades múltiplas caracteriza cada vez mais o
médico que atua no Brasil. As transformações na
organização do trabalho têm tornado mais
estressante o exercício profissional e contribuído
para uma piora na relação com os usuários.
O exercício profissional
➤ empresas compradoras de serviços médicos
= perda da autonomia
= perda da remuneração
= multiemprego

➤ criação de novas escolas


= maior número de profissionais, aumento da competição
= mudanças no comportamento ético
= aumento de denúncias e processos

➤ novos recursos diagnósticos e terapêuticos


= necessidade de atualização
O exercício profissional

➤ novas normas e leis


= maior cobrança social
= aumento do número de queixas e denúncias
= maior dificuldade na relação com
pacientes/familiares
= aumento do risco profissional
= insatisfação com a profissão
= baixa auto-estima
= maior risco para a saúde
Riscos ocupacionais

➤ biológicos (microorganismos)
➤ físicos (radiações)
➤ químicos (gases anestésicos)
➤ ético-profissionais e legais (denúncias e
processos)
➤ psicossociais (sobrecarga de trabalho,
privação do sono, violência no local de
trabalho, facilidade de acesso a substâncias
Condições de trabalho e saúde dos médicos

➤ sobrecarga de trabalho (em especial plantões),


múltiplas inserções, contratação precária, baixa
remuneração

➤ 45% tem consultório;


somente 1,5% exerce exclusivamente esta atividade

➤ 26%: prevalência de distúrbios psíquicos menores

Nascimento Sobrinho, 2006


Morbi dade p sicol ógi ca e
psi quiátri ca

➤suicídio
➤depressão
➤uso de drogas
➤distúrbios conjugais
➤disfunções profissionais
Di sfun ção prof ission al

➤ irritabilidade nas relações de trabalho


➤ faltas, afastamentos, licenças
➤ excesso ou falta de confiança
➤ erros
➤ ceticismo e perda da compaixão
➤ síndrome de burnout
Depressão

➤ prevalência igual à população geral


(45-54 anos)

➤ clínico geral: 27%


➤ especialistas: 19%
➤ gerentes: 6%
Grupo de risco: R1

➤ 30% (Valko & Clayton, 1975)


➤ 38% (Reuben, 1985) (entre 3º e 6º mês)
➤ 31% (Hsu & Marshall, 1987)
➤ 15% (Kirsling & Kochar, 1989)
➤ 28% (Firth-Cozens, 1990)
➤ 24% (Obara, 2000)
➤ 33% (Peterlini e cols., 2002)
➤ 35% (Collier, 2002)
Suicídio

➤ 1,15 vezes mais freqüente em


médicos do que na população geral
masculina

➤ 3 a 4 vezes mais freqüente em


médicas do que na população geral
feminina
Su icídio em home ns (Suécia, 1961-
1970)
2500

médicos
população geral
2000 outros profissionais
mortes/100.000

1500

1000

500

0 idade
25 30 35 40 45 50 55 60
Arnetz et al.,
1987
Suicídio em mulheres (Suécia, 1961-1970)

2500
médicas
população geral
2000 outras profissionais
mortes/100.000

1500

1000

500

0 idade
25 30 35 40 45 50 55 60

Arnetz et al.,
1987
Perfil do profissional de risco

➤ 45 anos ou mais (mulher)


➤ 50 anos ou mais (homem)
➤ divorciado, separado, solteiro
➤ depressão, uso de álcool e drogas, adicto ao
trabalho, comportamento de risco
➤ histórico pessoal e/ou familiar de doença
mental
➤ dor crônica, doença física incapacitante
➤ mudança no status profissional, perdas
recentes
Burnout

➤ Fenômeno de desgaste profissional,


facilmente observável em profissionais que
trabalham diretamente com pessoas, estando
expostos a pressões emocionais repetidas,
durante um período de tempo prolongado.

Freundenberger,
1974
Burnout (Síndrome do Esgotamento Profissional)

Forma particular de estresse, relacionado ao


contexto assistencial, em que os profissionais
estão expostos de forma continuada ao
impacto de uma relação interpessoal de
cuidado, em condições freqüentemente
problemáticas ou conflitivas.
Burnout

➤ exaustão emocional
(sensação de haver chegado ao limite)

➤ despersonalização do atendimento
(contato frio e impessoal com os usuários)

➤ reduzida realização profissional


(insatisfação com o trabalho, desmotivação)

(Maslach e Jackson, 1977)


Burnout: fatores pessoais

➤ vulnerabilidade psicológica
➤ recursos inadequados para enfrentar o estresse
➤ problemas de saúde
➤ dificuldades familiares
➤ desadaptação profissional
➤ suporte social insuficiente
Burnout: fatores ocupacionais

➤ muitas horas em contato direto com


pacientes
➤ muitos pacientes/situações difíceis
➤ sobrecarga de trabalho
➤ falta de supervisão
➤ pouco reconhecimento do trabalho
➤ normas de trabalho irrealísticas
➤ excesso de responsabilidade
➤ dificuldades com a equipe
Medi da s preventi vas

➤ na graduação
➤ no exercício profissional
➤ de natureza pessoal
Na graduação Na Residência Médica No exercício profissional Na vida pessoal
curso de Psicologia serviço de atendimento melhoria das condições de estimular hábitos
Médica psicológico/psiquiátrico trabalho adequados de saúde e
prevenção de doenças

serviço de atendimento extinção do regime de 36 horas programas de humanização conscientização das


psicológico/psiquiátrico contínuas de trabalho voltados aos profissionais vulnerabilidades e
limitações

serviço de apoio psico- instituição da folga pós-plantão criação de equipes reflexão sobre a idealização
pedagógico multiprofissionais do papel de médico

reforma curricular com supervisão diuturna conscientização sobre o estresse conscientização /


criação de “áreas verdes” principalmente para os R1 ocupacional e os riscos modificação de atitudes
ocupacionais quanto à relação
profissão/família/amigos

conscientização e adequação do número de serviços de consultoria estimular contatos com


sensibilização sobre os residentes à carga assistencial psiquiátrica e psicológica nos profissionais “não-médicos”
riscos para a saúde hospitais

atividades culturais e suporte de corpo auxiliar criação de serviços assistenciais desenvolvimento de


esportivas específicos para médicos atividades de lazer

programas de Tutoria conscientização dos docentes e programas de atenção à saúde e procura de ajuda
residentes sobre o estresse do qualidade de vida do médico profissional
treinamento